O Estado da Arte

Para compreender como profissionais da imprensa e os veículos de comunicação em
Salvador orientam as práticas jornalísticas a partir do receio e/ ou omissão na hora de
noticiar suicídios, precisaremos buscar autores que se distanciam da comunicação para
conseguir entender a complexidade do tema. Por conta disso, umas das principais
referências no estudo sobre suicídio é a obra “O suicídio – Estudo de sociologia” (1897),
do sociólogo Émile Durkheim, pois ele foi o primeiro a estudar o assunto, além de
enxergar que a escolha individual de tirar a própria vida é fruto do meio social em que
as pessoas estão.

Antes de Durkheim, a visão que se tinha do suicida, uma tentativa de justificar o ato, é
de que a pessoa cometia o suicídio porque estava sob efeito de demônios ou da loucura.
Durante muitos anos, trabalhos científicos não conseguiram desconstruir o senso
comum que rondava o assunto e, através da análise de dados estatísticos, ele mostrou
que “o suicídio era um fenômeno da razão” (Dapieve, 2006, p.21). Além disso, provou
que “os países em que há menos loucos são aqueles em que há mais suicídios”
(DURKHEIM, 2000, p. 56). Como a natureza dos indivíduos e organização social são
distintas em cada sociedade, os fatores sociais também vão agir de forma diferente,
assim, diferentes sociedades vão ter diferentes taxas de suicídio. As alterações só
ocorrerão se houver mudanças drásticas na organização do corpo social.

Diante dessas observações, entre outras, Durkheim classificou o suicídio em três
categorias: egoísta, anômico e altruísta. O autor define de suicídio egoísta o praticado
por quem não vê razão na vida, quando há enfraquecimento dos laços sociais e da
identificação com o próximo. Contrário ao suicídio egoísta, o altruísta acontece quando
o sujeito está totalmente integrado à sociedade. Nesse tipo, o motivo da morte voluntária
pode ser considerado tão apreciável que deixa de ser qualificada como suicídio
(Durkheim menciona o exemplo de soldados que vão para a guerra - “tão destemidos e
cheios de si” - mesmo sabendo dos riscos de morrer). Já no tipo anônimo, ocorre quando
há alterações na ordem coletiva, uma mudança drástica na rotina que molda a vida do
indivíduo (o autor usa o exemplo das crises industriais e financeiras, que “perturbam a
ordem social” e, consequentemente, aumentam os suicídios).

Em sua obra, Durkheim também acreditava na ideia dos meios de comunicação servir
de influência nos casos de suicídio. Segundo ele, “um fenômeno de contágio moral só
pode produzir-se de duas maneiras: ou o fato que serve de modelo se espalha de boca
em boca por meio daquilo a que se chama a voz pública, ou são os jornais que o
propagam” (DURKHEIM, s/d, p. 138). Ainda de acordo com o sociólogo, “não há dúvida
de que a ideia do suicídio pode ser transmitida de forma contagiosa” (Durkheim, 2000,
p. 109), porém, “o que pode contribuir para o desenvolvimento do suicídio ou do crime
não é o fato de se falar deles; é a maneira como se fala” (idem, p. 125).

Durkheim, portanto, assume que a ação suicida pode acontecer de maneira contagiosa,
mas salienta que a publicação por parte da imprensa não é fator que fará a vontade se
espalhar; mas, sim, o modo como às histórias são escritas e divulgadas. O professor e
jornalista Arthur Dapieve, em seu livro “Morreu na Contramão” (2007), reforça o

p. isso é impossível.S. Karl Marx (1976) no ensaio “Peuchet: vom Selbstmord”. Para ele. trocas e adaptações entre o indivíduo e o coletivo. “A classificação das diferentes causas do suicídio deveria ser a classificação dos próprios defeitos da nossa sociedade” (Peuchet/Marx. ou mais precisamente. Segundo Marx. Por isso. e ele. “[. acreditava que ainda que levemos em conta os fatores psicológicos individuais.] o suicida não está querendo necessariamente matar-se. por causa da cobertura midiática. O resto. se o espírito tem nove ou doze categorias. O suicídio é uma atitude humana. O que é contra a natureza não acontece. o caráter insensato da agitação cotidiana. “Não é com insultos aos mortos que se enfrenta uma questão tão controversa” (Id. acaba matando-se por inteiro” (CASSORLA. Ao contrário. pois mantemos a vida em uma rotina de gestos especialmente por hábito – e decidir morrer implica reconhecer o caráter irrisório deste hábito.25). cujos significados são construídos e diferenciados na própria cultura. vem depois” (CAMUS. Ter o conhecimento da própria mortalidade sem se preocupar com a presença de normas sociais estabelecidas e com a existência de um Deus que joga o homem num mundo inteiramente sem regras ou sentido. Na tentativa de entender o suicídio e a sociedade. Émile Durkheim não foi o único a considerar o suicídio a partir do âmbito sociológico. “julgar se a vida merece ou não ser vivida. como que num engano. antinatural. 13). 44).. na complexidade dialética da relação indivíduo-sociedade. equivale o mesmo na área da filosofia. No que tange à questão da proliferação de casos. se o mundo tem três dimensões.. Assim como o livro de Émile Durkheim foi um divisor de águas no estudo sobre o suicídio dentro da sociologia. os tipos de suicídio e atos suicidas.pensamento de Durkheim ao ponderar que “a própria imprensa foi contagiada pela ideia de contágio”.p. uma espécie de consciência do homem em relação à morte e liberdade. s/d. os fundamentos do comportamento suicida estão na sociedade. um dos importantes estudos é o de Roosevelt M. p. No entanto. Para eles. os aspectos psicanalíticos do suicida em relação ao seu ambiente sociocultural. publicado em janeiro de 1846 no Gesellschaftsspiegel (“espelho da sociedade”). a morte voluntária ocupa espaço extremamente conflituoso e repleto de dúvidas. de modo algum. Desta forma. está na natureza da nossa sociedade gerar muitos suicídios” (Id. Durkheim. 25) . ele discute o conceito/ definição do suicídio. mas matar uma parte de si mesmo. Em “O que é o suicídio” (1984). “o suicídio é apenas uma confissão que viver ‘não vale a pena’. revelando uma desconexão do sujeito ao seu redor e falhas nos valores que deveriam torná-lo integrante do contexto e ordenamento social. Também são consistentes as afirmações de Cassorla de que “[.. especialmente na psicologia e psiquiatria. Cassorla. 15). E é preciso tentar entender. 1992.. O mito de Sísifo (1942). Camus aborda o suicídio como o único problema filosófico verdadeiramente sério. No que se refere aos debates no campo da saúde. além de analisar opiniões e as histórias de suicídios em diferentes civilizações. O ponto de partida do seu estudo é a noção de “Absurdo”. p. as motivações para o suicídio não estão apenas no indivíduo. s/d. a inutilidade do sofrimento (CAMUS. pois diariamente somos suas testemunhas. de Albert Camus. Cassorla . p.18). Marx e Camus acreditaram que o lugar do suicídio se estabelece também nas relações. p.. é responder a uma questão fundamental da filosofia. médico e psiquiatria chileno radicado no Brasil.]o suicídio não é.

também são justificativas usadas pela imprensa para “esconder o suicídio ao pé de páginas. mas como instância social solidária ao tabu que a suplanta” (Idem. Para ele. para ele. O suposto respeito à dor e ao sentimento de culpa dos familiares e amigos do morto. 2006. o suicídio é certamente aquele que menos espaço ocupa nas mídias (televisão. rádio. altruísmo e anomia. em “Ideologia e técnica da notícia”. o poder de persuasão da imprensa só atinge pessoas que já apresentam predisposição ao suicídio. também relata os temores da mídia quando se depara com pautas sobre suicídio. o jornalista André Trigueiro (2015). a imprensa se colocaria não como vetor do ‘contágio’. pela própria natureza de sua função social. em seu livro “Viver é a melhor opção”. Além disso. p. de certa forma. interiorizando na rotina de trabalho. defendida na PUC-Rio. 2006. cultivaram uma repulsa ao tema por grande parte da população e. identificação social. vetar as reportagens especiais que buscam aprofundar a compreensão do fenômeno e ignorar os trabalhos das pessoas e instituições que militam em favor do apoio emocional e da prevenção é um verdadeiro desserviço ao país. revista. é importante estudar os critérios que fazem uma notícia ser publicada ou não. Arthur Dapieve observa que as constantes mudanças na visão sobre o suicídio. sites e redes sociais).. e busca compreender as crenças de que o suicídio pode ser. Nessa dissertação de mestrado. a postura do jornalismo em omitir dados e estatísticas oficiais sobre suicídio. e de que os meios de comunicação de massa podem ser. segundo o autor. Já em casos de suicídio de pessoas desconhecidas a influência é menor. atualidade. geralmente o que prevalece são os critérios de noticiabilidade.acredita na influência da mídia quando o suicida é uma pessoa de vida pública e conhecida da sociedade.] Dentro dessa perspectiva. de todos os casos de saúde pública no Brasil. os impulsionadores deste contágio. Referências da Comunicação Seguindo a linha de pensamento de Durkheim. o que vai despertar o interesse do leitor. Como Dapieve. por isso. contagioso. Dapieve também analisa reportagens sobre suicídio publicadas pelo jornal O Globo à luz dos conceitos de egoísmo. a manutenção dos tabus em torno do suicídio no jornalismo local. ao longo da história. em “Suicídio por contágio: a maneira pela qual a imprensa fala da morte voluntária” relaciona as concepções teóricas do sociólogo com o tipo de abordagem da imprensa em relação às pessoas que se matam. a concepção de que a divulgação de notícias sobre suicídio pode gerar novos casos e o silêncio dos meios de comunicação por conta disso é visto como péssima estratégia para desconstruir os tabus em torno do tema. Nilson Lage (1982). na medida do possível. Se o objetivo desse trabalho é entender. 12). p. jornal. mascará-lo por eufemismos ou até mesmo ignorá-lo completamente” (Dapieve. o jornalista e professor Arthur Dapieve (2006). suspender as pautas relativas ao problema. “[. . No livro. a imprensa teria assumido essa tal repulsa da população. contrariando toda a ideia do jornalismo como agente de transformação da sociedade.20). as pessoas se recusam a tocar no assunto. Para explicar os motivos que fazem uma notícia ser divulgada. Ainda segundo Trigueiro. Na falta de normas sobre a postura jornalística em casos de morte voluntária. que virou o livro “Morreu na Contramão – O suicídio como notícia” (2007). apresenta seis itens: proximidade. No entanto. ou seja..

dedica uma parte do estudo para imprensa. Assim. Isso acontece pelo fato que “alguns suicídios podem ser registrados como acidentes ou mortes por causa indeterminada” e “não existem registros mundiais oficiais de comportamentos suicidas não-fatais (tentativas de suicídio) ”. que podem ser os amigos. pode ter um papel fundamental no trabalho de prevenção. também cita padrões que o profissional da informação deve levar em conta no momento da produção de notícias de cunho mórbido. Em Prevenção do Suicídio: um manual para profissionais da mídia. acredito que a obra de Lage será fundamental para embasamento das análises. segundo a publicação. Eugênio Bucci (2000). que engloba uma série de orientações às diversas categorias profissionais. quando for o caso. mostrar compaixão por aqueles que são afetados pela tragédia ou sofrimento. Observando os critérios utilizados pelo autor. nem sempre os meios de comunicação opta pela melhor abordagem do assunto e. p. mais importante do que selecionar as fontes é saber escolher que informações divulgar e como estruturar a reportagem. da Organização Mundial da Saúde (OMS). Fotografias do falecido. a OMS investiga o impacto da “cobertura midiática” perante os casos de morte voluntária. A OMS acredita que “a disseminação apropriada da informação e o aumento da conscientização são elementos essenciais para o sucesso de programas de prevenção do suicídio” (OMS. a relação do suicídio com a depressão. 2000. constam algumas recomendações do manual da OMS: “Evitar o sensacionalismo. Como parte do estudo será de exploratórias. Porém. do método utilizado e reprodução de cartas de despedida servem apenas para acentuar o caráter sensacionalista da matéria e motivar a imitação do ato e as ferramentas utilizadas para tal. já que este problema pode ser tratado. o “Manual para profissionais da mídia” (2000).intensidade. entre eles. no livro “Sobre Ética e Imprensa”. Por mais que os dados mencionados pelo repórter provenham de fontes legítimas. a Organização ainda sugere a divulgação. ineditismo e identificação humana. p. p. para a organização. ao invés de conscientizar. Segundo eles. A cartilha. 5). O documento é composto por várias dicas a fim de orientar a prática jornalística quando o assunto for suicídio. “estigmas. E reconhece que a imprensa. saber procurar ou utilizar entrevistas ou fotos. são as comparações feitas entre casos de suicídio registrados em países distintos. Uma dessas “armadilhas”. Para expandir o poder da mídia como agente “proativo” na prevenção do suicídio. ou seja. por ocupar “um lugar central nas práticas políticas. também servirá de base para a pesquisa exploratória. o suicídio pode enquadrar. ao mesmo tempo em que indica “fontes de informação confiáveis” e propõe formas de como se abordar suicídios. 2000. econômicas e sociais” e influenciar “fortemente as atitudes. fatores políticos e sociais e regulações de agências seguradoras” podem fazer com que o número de suicídios seja questionado. 4). acaba por provocar novos casos. junto à matéria.se em algumas definições. da cena do suicídio. Além das teorias de Lage. sem que as matérias caiam em “armadilhas”.7). crenças e comportamentos da comunidade” (idem. da lista de serviços de saúde mental disponíveis e a descrição dos sinais de alerta de comportamento suicida. também é importante que se esclareça. Inclusive. . Deve-se evitar abordagem dramática. familiares e admiradores que pedem o sigilo nas notícias” (Bucci.

int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_media_port. – Rio de Janeiro: PUC. Prevenção do Suicídio: Manual para profissionais da mídia. CAMUS. A. MARX. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Petrópolis: Vozes. 1982. destaca a jornalista. R. LAGE. em seu estudo para o Observatório da Imprensa. Departamento de Comunicação Social. 2000.Ainda sobre cobertura da mídia. Bibliografia BUCCI. Papirus. Arthur Henrique Motta. N.who. Eugênio. a jornalista Carolina Grando (2005). 1991 Dapieve. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. São Paulo: Companhia das Letras. 1992. M. CASSORLA. explica que a publicação de notícias sobre a morte voluntária seria de utilidade pública se agisse informando o conhecimento das causas que levaram as pessoas a cometerem o ato e também a prevenção do mesmo. R. 2006.S. Suicídio por contágio: a maneira pela qual a imprensa trata a morte voluntária. Campinas. São Paulo: Boitempo. 2ª ed.pdf . “Suicídio na pauta Jornalística”. a imprensa também poderia contribuir oferecendo informações e incentivando um debate sobre como auxiliar pessoas com tendências suicidas. S. 2000.: O que é suicídio. Do Suicídio – Estudos Brasileiros. 4ª Ed. Sobre o suicídio. 2006. Brasiliense. “Ao abordar o suicídio em suas páginas diárias. como superar a perda de uma pessoa querida por suicídio. Sobre Ética e Imprensa. Genebra. Karl. M. Lisboa: Edições Livros do Brasil. como relações familiares e escolares podem influenciar crianças e adolescentes a pensarem em suicídio em decorrência de uma pressão social vinda dessas instituições que eles não conseguem suportar”. Ideologia e técnica da notícia. Disponível em: http://www. s/d CASSORLA. orientadora: Angeluccia Bernardes Habert.

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