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não sabemos se os vamos repetir, não sabemos se amanhã 1.

É de longa data a tradição, na Igreja Católica, de em 6ª Feira
teremos a ocasião de voltar a fazê-lo, de viver uma autentici- Santa, fazer memória da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Lê-se o
relato da Paixão, segundo S. João, faz-se a Adoração da Cruz,
dade e poder dizer "acabei", "acabou-se", "consumatum est". percorre-se e medita-se a Via-sacra, medita-se as Sete Palavras
Na minha vida fiz o que pude, mas já não há nada mais que de Cristo na Cruz.
fazer. Esta paz da consciência de que eu não fiz grandes coi- 2. Como preparação pascal, nesta noite de 6ª feira, faremos o
sas, não realizei grandes feitos, mas fiz o que pude: exercício espiritual de meditar as Sete palavras de Cristo na
Cruz. Para tal, passamos um DVD, no qual temos a oportunidade
“consumatum est”, a minha vida cumpriu-se, chegou ao seu

SE7E
de ver imagens de 6ª Feira Santa, na cidade espanhola de Cádis,
fim, acabou. A descoberta do fim é o princípio da sabedoria. ouvir os comentários espirituais a cada uma das Palavras de
Cristo, pelo padre e teólogo Raimon Panikkar e ouvir a música de
Joseph Haydn, considerada uma obra emblemática da música
VII. «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.»
universal.
Sétima e última palavra. Diz o evangelista que, com voz forte

PALAVRAS
3. Esta obra resulta de uma encomenda efectuada pelo padre
e potente tirada da fraqueza, diz de novo, repetindo a palavra José Santamaria, pessoa de enorme fortuna. Como herdeiro úni-
inicial, "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito." Ao dizer co, já que o seu irmão mais velho morreu cedo sem deixar des-

DE CRISTO NA CRUZ
cendentes, o padre Santamaria doou metade dos seus bens aos
“Pai” ultrapassa todo o desespero. Ao dizer "entrego o meu pobres e a outra metade aplicou-a em actividades em que a reli-
espírito" sublinha a sua personalidade única em cada um de gião e a cultura estiveram sempre irmanadas. Fruto da sua gene-
nós. Entrega-se livremente: a liberdade é o máximo valor do rosidade, espiritualidade e cultura resulta a renovação da igreja
de Cádis (O célebre Oratório de Santa Cueva).
homem: "Nas tuas mãos entrego o meu espírito." Sentiu-se
4. A conjugação destes acontecimentos na cidade de Cádis não
A PALAVRA COM MÚSICA
abandonado e, no entanto, agora tenta dizer mais uma vez:
resulta apenas do interesse da parte do padre Santamaria, mas
"há algo superior em mim". O homem é divino, mas não é integra-se no ambiente de esplendor, riqueza e cosmopolitismo
Deus. Este Deus superior e omnipotente é uma criação, um que era marca da cidade. Recorde-se que foi de Cádis que Cristó-
símbolo que nos serve para muitas coisas, mas que não é vão Colombo partiu para a sua terceira viagem às Américas e 6ª feira  12.03.2010
que pelo porto de Cádis passava grande parte do fluxo comercial
real, e isto deveríamos ver precisamente nestas palavras de entre Espanha e as Américas.
Cristo na Cruz que, aos meus olhos, é a quinta-essência da I
5. Os comentários espirituais às Palavras de Cristo na Cruz são o [Evangelho segundo São João 19,17-18]
mensagem de Cristo, e nestes momentos de crise vista sob produto da reflexão do teólogo Raimon Panikkar. Nasceu em E eles tomaram conta de Jesus. Jesus, levando a cruz às
muitos ângulos, talvez fiquem estas palavras de um homem Barcelona, em 1918, filho de mãe catalã e de pai hindu. Estudou
química, filosofia e teologia. É um dos teólogos impulsionadores costas, saiu para o chamado Lugar da Caveira, que em
que aparentemente fracassou mas que, passados vinte sécu- hebraico se diz Gólgota, onde o crucificaram,
do diálogo inter-religioso. Chamamos a atenção para as diferen-
los, continua a inspirar tantas pessoas crentes, bem como os tes expressões corporais de Panikkar reveladoras de uma pro- [Evangelho segundo São Lucas 23,33-34]
chamados não-crentes. Eu conheço mais crentes de verdade funda serenidade e paz interior. e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.
fora do Cristianismo do que crentes no Cristianismo, uma vez 6. Sexta-Feira Santa, dia da Paixão e Morte de Jesus, experiência
Jesus dizia:
única que ganha toda a plenitude e sentido no Domingo da Res- «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.»
que rapidamente confundem a fé com uma racionalização
surreição. Que a meditação das Sete Palavras de Cristo na Cruz,
dela. A fé não tem porquê, a fé é espontânea, é conhecimento revestida pela música de Haydn nos conduza a um nível de espi- II
e a consciência da nossa divindade última e suprema. E acre- ritualidade e interioridade, e nos permita vivenciar de forma [Evangelho segundo São Lucas 23,39-43]
dito que, neste sentido, as sete palavras, e depois os comen- mais elevada a Quaresma e a Páscoa deste ano de 2010, ano da Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
Missão. insultava-o, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-te a
tários mais importantes, são aquelas que chegam ao coração,
7. “A história do Cristianismo é um drama acerca das palavras e ti mesmo e a nós também.» Mas o outro, tomando a
e isto, acho eu, é a música. Precisamente, a união das pala-
do seu sentido, do sentido da Palavra de Deus e das nossas pró- palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu
vras, que tem tido tanta tradição no Cristianismo, as sete prias palavras. O clímax deste drama é constituído pelas últimas que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se jus-
palavras de Cristo com a música são a mensagem superior palavras de Jesus na cruz. No Domingo de Páscoa, a Palavra tiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções
ergueu-se de entre os mortos. A Palavra não ficou silenciada.
que se possa ter. mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.» E
Estas sete últimas palavras continuam vivas. A fé na ressurreição
Tradução: Gilbert Bofill i Ball significa que o silêncio do túmulo foi rompido para sempre e que acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando estive-
estas sete palavras não foram as últimas. Agora, somos nós quem res no teu Reino.» Ele respondeu-lhe:
deve continuar a romper o silêncio das sepulturas dos homens, «Em verdade te digo que hoje estarás comigo
das forças da morte” (Timothy Radcliffe). no Paraíso.»

Eli. Raimon Panikkar e o amor humano de João que Jesus lhe passa é para ficar VI. o perdão é a essência do Esta quarta palavra também foi possivelmente mal traduzi- Cristianismo: sem perdão não há paz na Terra nem alegria da.as trevas cobriram toda a região. Deus é diz: "eis aí tua mãe". sa de Cristo de que "hoje estarás comigo no Paraíso". cada instante e cada momento. Quando tomou o vinagre. que não é um tempo que vem após a eter. da infinidade de cada po. Esta é a minha interpretação. A vida é o eterno presente de ções de Eli. que depois é traduzido. Paraíso. "Pai. As tradu- para se cumprir totalmente a Escritura. A lei do karma fica iluminada só com o perdão. O Sol tinha-se mo sem negar a primeira. homem pleno e homem completo. Jesus diz-lhe: "A ti. mas quem sabe o na. porque não sabem o que fazem. sem amor. e por isso nenhum homem é Jesus disse: feliz até ter descoberto este núcleo infinito que bate no seu «Está consumado. Jesus. é o criador directo de cada desprendimento. Jesus exclamou: «Pai.» pessoas de Jerusalém não percebem o dialecto da Galileia. isto. porque me abandonaste? rás comigo no Paraíso.45-46] Desde o meio-dia até às três horas da tarde. porque me abando- não lhe pede nada. “Eli. mas reconhece que há uma é. E depois. está consumado. Dando V.» com a sua mãe. eis o teu filho. Não se pode viver sem mãe.44-46] uma clássica e outra mais actual. mas profundeza e unicidade a cada um dos nossos actos porque . aparentemente. todo momento. essen. eis aí o teu filho!» coração. existe. pela qual me inclino. e por isso as palavras de Cris- Depois disso.. o perdão. dou-te [Evangelho segundo São João 19. é tão simples quanto é "consumatum est". disse à mãe: que fazemos? Não o sabemos. so é aqui e agora. eis aí o teu filho!» perdão torna-se possível e.» significa: não se pode viver sem amor. Então. III um de nós. quando Jesus diz a João e a Maria: "eis aí o teu um forte grito. tem sede física e fisiológica. repito. chegou A primeira palavra começa com dois pontos-chave. de pé. porque me abandonaste? «Mulher. deixamo-nos levar. e por isso não quer que João fique totalmente órfão e lhe ao seu fim.29-30] nidade. «Pai. não a do horrorosa. de uma maneira um pouco idealizante. porque não sabem o que fazem". Sede. que foste o meu discípulo amado. «Tenho sede!» tradicional. justiça que o condena e aceita a sua sorte. escandalizar.28] vida. nu. Uma vida que se prolongasse seria ciais: o primeiro é Pai. e diz: "eis aí tua mãe. E não tem vergonha de o dizer. disse: o Paraíso não é para amanhã. per. o que existe é este do no vinagre uma esponja fixada num ramo de hisso. . Precisamente a morte é o acontecimento que dá pai. ensopan." Cristo não lhe pede que se arrependa. e a tradução comummente aceite I. traduzido. Meu Deus. perdoa-lhes. II. de ter sede dos homens. homem divinizado. Portanto. foi condenado com justiça. A primeira interpretação. um núcleo infinito que só é realizado em parte e VII A terceira palavra de Cristo na Cruz tem duas interpretações: muito imperfeitamente no amor que não deixa de ser. Hoje. Meu Deus.. a quinta-essência do Cristianismo. mas é poder viver em plenitude no é o que há. um de nós que podemos sê-lo. nas tuas mãos entrego o meu espírito. que é o que todos nós somos em potên- [Evangelho segundo São Mateus 27. que também é a última palavra. eis aí tua mãe". e em esperança. dizem "Meu Deus. «Mulher. a mulher de Clopas. o IV. em [Evangelho segundo São Lucas 23. sua mãe e a irmã ra. e precisamente um Deus omnipotente não Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. além de ser uma má tradução. o qual não existe. me abandonaste?" Ser homem não é uma comédia. ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava. Não é como tem mais uma vez dar a sua vida pelos homens e desprende-se de sido interpretada. as trevas cia. Eli. "não sabem o que fazem".25-27] Sabemos nós o que fazemos? Sem perdão não há paz na Ter. meu Deus. por “Meu Deus. e o amor humano de Jesus era para com a sua mãe. da sua mãe.. Jesus é homem. O que. Os seus únicos laços que tinha eram para com a sua sentido de ter sede de Deus. no tudo. mais eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio. e Maria Madale- doa-lhes. é a do desprendimento: Cristo vai. Tem sede. «Está consumado. Meu Deus. ÀS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ humano. tudo está feito." Desprendimento. no mínimo. e IV nos corações. Cerca das três horas da tarde. viver. caminho da realização. não amanhã. chegaram-lha à boca. sem mãe. sabendo que tudo se consumara. Maria. Eli e as palavras que se seguem e que não se sabe «Tenho sede!» cada um de nós e alguém inventou essa palavrinha que é a exactamente o que são. porque "sempeternidade". to revelam esta profundeza do coração humano.» filho.» III. que é o que significa o tormento O COMENTÁRIO Mas a segunda interpretação é o valor fundamental do amor da paixão. ser huma- VI [Evangelho segundo São João 19." Não se pode Junto à cruz de Jesus estavam. o Paraí. por isso. não é antecessor. Jesus. um fracasso. A quinta palavra não pode ser mais humana. mes. isto é: A segunda palavra é a actualização deste perdão: "Hoje esta. meu Deus. foi um criminoso ao longo de toda a sua naste?” É o grito de angústia do homem que vê que a sua vida V [Evangelho segundo São João 19. não é avô. para não Meu Deus. por isso.. lemá sabactháni?. agora a tua mãe para teres uma vida plena. Em grego diz-se “tetelestai”. segundo a promes. uma vez que se desprende da família. não: mãe. Não faz comédia: fala no envolveram toda a terra. da divinização. Então. acabou-se. lamá sabactáni”. «Em verdade te digo que hoje estarás comigo no dialecto da sua terra. que os ali presentes nem percebem: as Jesus clamou com voz forte: Eli.