You are on page 1of 15

Matéria vertente: “Grande Sertão

Veredas” de Guimarães Rosa e
o Rio São Francisco
Adélia Bezerra de Meneses

A grande metáfora de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa,
junto com a do Sertão, é o Rio. Inclusive, entranhadamente ligadas. Sa-
bemos o quanto o rio, além de realidade geográfica, é uma realidade mí-
tica e mágica.
Basicamente, como se estrutura o romance? Trata-se de uma nar-
rativa apresentada como uma longa conversa do ex-jagunço Riobaldo,
um sertanejo que detém o poder da fala e que conta a sua vida a um dou-
tor da cidade (que nunca comparece), e esse narrar se configura como
uma busca desesperada de sentido para o vivido.
É assim que o protagonista, Riobaldo, propõe o assunto da con-
versa a seu interlocutor:

Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei.
Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas,
veredazinhas.1 (p. 79)2

E um pouco mais adiante, explicita: o sertão é o dentro da gente. Esses
textos, dentre muitos outros que se poderiam pinçar ao longo de GSV
equiparam o sertão ao “dentro da gente”. O grande sertão da alma de um
homem: aquilo que ele não sabe, mas de que tentará se acercar, “organi-
zando” sua experiência, nesse encontro a dois, nessa relação em que um
ser humano escuta o outro e, ao escutá-lo, ao acolher sua fala, propõe
um receptáculo a esse jorro verbal que caracteriza o protagonista, e o
ajuda a organizar-se, o estrutura.3 É como se a escuta do interlocutor
fornecesse um continente a essa “matéria vertente” que jorra, infinita e

e o rio que despenha de lá.. 23) A insinuada ambigüidade entre a escuta das bizarrices e uma “viagem mais dilatada” se aguça: Lhe mostrar os altos claros das Almas: rio despenha de lá. Mas o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios.) O pedido de Riobaldo ao dou- tor da cidade é uma demanda de autoconhecimento: 10 . As alusões aos protagonistas aferidos aos rios pontilham o texto. se estivermos atentos à etimologia de psique = alma e à “Aufklärung”. sempre. endere- çada ao senhor doutor culto da cidade: mostrar-lhe os altos claros das Al- mas . Os planos geográfico e psicológico se sobreporão: “mostrar os altos claros das almas” talvez seja uma explana- ção do termo “Psico-análise”.. um leito no qual correr. mas a “matéria vertente” é a narrativa da vida. margens. 23) Aí estaria o intento. ser se- xualizado. ao percurso de “esclarecimento” que o processo analítico propicia. para sortimen- to de conferir o que existe? Tem seus motivos. só tombos. (Num parênteses: não se pode deixar de en- xergar no “cio da onça preta” esse núcleo pulsional do humano. para uma safra razoável de bizarrices. O cio da tigre preta na Serra do Tatu – já ouviu o senhor gargaragem de onça? [. de espuma próspero. numa afã. delimitações. e lhe dá um curso. reconselho de o senhor entestar viagem mais dilatada. o objetivo da conversa do Riobaldo. diz Riobaldo ao interlocutor. (p. E em seguida: Mas então. gruge.. cada cachoeira.] Quem me ensinou a apreciar essas belezas sem dono foi Diadorim. A isso retornarei mais adiante. (p. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES desorganizada.

defende a idéia de que a poesia precede a prosa. costas. por necessidade de expressão. O que induz a gente para as más ações estranhas. falariam por imagens. murmura a onda. um refinamento tardio. me- diante os sentidos.“o homem se faz regra do 11 . de que os homens primi- tivamente falavam por poesia. “A mente humana”. diz o filósofo napolitano. entender-se a si própria”. O filósofo Giambatista Vico.. de vitalmente necessário. ri o céu. Vico aponta que. em pleno século XVII. (p. nas várias línguas. mas algo de essencial. Textualmente: “os vocábu- los são transpostos dos corpos e das propriedades dos corpos para a significação das coisas da mente e do espírito. diz Vico. com muita dificuldade. por meio da reflexão. braço do rio. cujo fundamento é uma relação analógica4. a fazer-se visível no corpo e. língua do mar. Queria entender do medo e da co- ragem. Matéria vertente: Grande Sertão Veredas de Guimarães . muito naturalmente. por adiante e atrás. E ainda: sopra o vento. “inclina-se. eu queria decifrar as coisas que são importantes. 79) O Rio. ou por cimo. por bordas. geme um objeto de grande peso. o rio que despenha. é assim uma metáfora fundamental do romance. lábios. a maior parte das expressões das coisas inanimadas é efetuada “mediante translações do corpo humano e de suas partes. fala-se em garganta de terra. e só posteriormente a linguagem racional da prosa se instaura. Os homens. ca- beça é utilizada por princípio.5 Isso fornece o princípio segundo o qual os homens falariam por imagens. adorno. boca.seu próprio corpo e suas paixões. a metáfora. Assim. tendo por base a si próprios . fronte. Disso já se infere que a fala poética não é enfeite. para quem a metáfora é um peque- no mito.”6 Mostrando o caráter fundamentalmente orgânico da formação das imagens. e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos. dar corpo ao suceder. carne das frutas. no seu extraordinário Scienza Nuova. Vamo-nos deter nessa figura de linguagem. e a importância do corpo nesse processo.. assim como dos sentidos humanos e das humanas paixões”: por exemplo. A metáfora aparece como fruto de uma necessidade ineludível de expres- são. seio do mar (por golfo). por abertura.

e de capacidade de comunhão profunda e compreensiva com a realidade.7 Em Grande Sertão Veredas. dizem que o ímã estaria ena- morado do ferro. admirando os efeitos do ímã sobre o ferro. e através dele nomeia a natureza. por tal modo.. “convertendo. que sente paixões e afetos. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES universo” e “a partir de si próprio erige um mundo inteiro”. É todo o mundo dos afetos que se vê convocado. toda a natureza em um vasto corpo animado. é exatamente esse “sentimento e paixão” que se vê na relação de correspondência dos pro- tagonistas com o rio. depende de uma aguçada e sensível percepção das coisas e da vida. cujo título condensa exatamente as du- as metáforas fundamentais do romance: sertão e rios. E aponta o mecanismo segundo o qual o ser humano pro- jeta o próprio corpo na realidade circundante.. A me- táfora. como operação bási- ca. é tal processo que a gente vê em ação no caso dessa li- gação de comunhão profunda do homem com o Rio – sobretudo de um homem de uma região em que esse rio é fonte de Vida. deles extraindo tudo o que poderiam 12 . na necessidade inelutável de expres- são. Toca-se aqui no cerne da questão da sensorialidade que anima o fazer poético. o homem busca no seu próprio corpo a maneira de nomear as coi- sas. Para o filósofo napolitano. entendem o mundo a partir de si próprios: por exemplo. explorando-lhes os efeitos sensoriais e plásticos. dá “sentimento e paixão” às coisas todas. a analogia. Pois bem. Nunca é demais repetir que a poesia depende de uma intensidade privilegiada de sentidos. os homens emprestam às coisas a sua pró- pria natureza. Vico estabelece então no movimento de nomear utilizando a pa- lavra (esse processo fundamental de simbolização). Dito em outras palavras. Por outro lado. ele tem o poder (inquietante!) de lidar com as palavras.”. para Vico. e de riqueza afetiva. O poeta é um ser atento às analogias e correspondências – e sabemos em que medida o senso das “Correspondances”8 é fundamental no processo poético.

Há mesmo uma passagem em que Riobaldo resume tudo isso numa frase: “Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quis- quilhas da natureza.”).diz ele.. A vida das personagens.a projeção do corpo humano e “das humanas paixões” sobre a paisagem . os rios verdes” . render. além dos rios verdes. metonimicamente. e que se projeta. metonimicamente. é aferida aos rios (“Dois rios diferentes. gestual. assim como a narrativa de suas vidas.. na força plástica. Riobaldo e Diadorim. poesia é o “luzir sensível da idéia”.dá-se em Grande Sertão Veredas sobretudo em relação ao rio. é o Rio o elemento que condensa metaforicamente. que foi” .. o poderoso jorro verbal. Mas esse processo apontado por Vico. era o que nós dois atravessamos?” .9 Assim. 25).p. No entanto.. Diadorim. Cavalcanti Proença. 46). também o vento: “o vento é verde”. mas não exclusivamente. O amor de Riobaldo por Diadorim faz. apesar de comparecerem outros elementos da Natu- reza nessa projeção.10 (p.p. qualquer palmeira pode indiciar Diadorim (“namorei uma palmeira”). o “verter da sua presença”. até o mar: “Morreu o mar. comentando a morte de Diado- rim. E ainda: “Mas eu gostava de Diadorim para poder saber que esses gerais são formosos” (p. em que na sensorialidade do fazer poético se vê a projeção do ser humano . sensorial da linguagem. visual. com que a natu- reza toda seja vista como impregnada daquilo era a característica funda- mental do seu amigo: “os olhos aos grandes. o buriti de palmas verdes é metonímia de Diadorim (“ah. verdes”. Matéria vertente: Grande Sertão Veredas de Guimarães . meus buritizais levados de verde. (“Saí . no seu belo estudo “Trilhas no Grande Ser- tão” no topos “O Plano Mítico” mostra que as próprias “fases da vida dos protagonistas encontram reflexo no rio”: assim a cólera pela morte 13 . Não voltei? Travessias. “matéria vertente” que é o relato do protagonista narrador diante do seu interlocutor silencioso. nas personagens principais. 268 - pergunta-se Riobaldo). Para Hegel. vim destes meus gerais: voltei com Diadorim. 235).

” Assim. mas que é rio de braveza”). o imaginário literário brasileiro.enquanto “encruzilhada de várias cadeias associativas” . garantindo-lhes a possibilidade de sobreviver à seca. o apanágio de representar o jagunço Riobaldo. se o sertão é o mundo. parece ser realmente o Rio São Francisco que figura com mais intensida- de a relação de Riobaldo e Diadorim . o rio são os homens. ou mesmo como ilustres avatares. Dada sua importância fulcral como “rio da unidade nacional - o Rio São Francisco atravessa vários estados brasileiros. elemento estruturador do enredo e do espaço narrativo e . dentre os vários rios que alimentam as Vere- das do Grande Sertão. como se verá a seguir. antropomorfizado. um é o Rio – no romance. como apontou Antonio Candido. realidade mágica e emblema paisagístico. (“Otacília sendo forte como a paz feito aqueles largos remansos do Urucuia. discutível. Em todo o caso.sendo que também é esse o rio que por vezes representa Otacília.12 era de se esperar que marcasse profundamente. e sua recíproca paixão. delimitador de territórios. que com ele se identificaria11 . a minha proposta básica é aferir essa “matéria vertente” que é o discurso do protagonista. por aqui. o Rio do Chico. mostra que o Rio São Francisco divide o mundo do 14 . Mas aqui nesse mundo de imensidão de rios que cumprem seu destino geográfico e poético.uma das metáforas fundamentais do romance. O resto pequeno é vereda. somos advertidos: “Ago- ra.o que é. o senhor já viu: rio é só o São Francisco. Apesar de fazer várias declarações de amor ao Urucuia (“Meu rio de amor é o Urucuia”) . a um só tempo mítico e geográfico. que é o Amazonas. ao Rio São Francisco. diz ele. E algum ribeirão. assim como outro rio emblemático. ou engendrador de lendas. a morte de Medeiro Vaz tam- bém acontece em meio a uma chuva pesada. atentando para a sua função no livro. Mas sobretudo Cavalcanti Proença atribui ao Urucuia. que. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES de Joca Ramiro é uma enchente. nem apenas como elemento estrutu- rador do enredo. O que seria o específico de minha proposta é que o São Francis- co aparece em Grande Sertão Veredas não como elemento paisagístico. de uma certa maneira.

(p. de longe a longe. a água fonte de vida está presente do Gêne- sis ao Apocalipse.. Seria o caso de a gente se deter (mesmo que minimamente) no ri- quíssimo simbolismo das águas. O senhor dorme sobre um rio. de fonte de vida. nesse romance. 323) Apesar de toda a imensa rede associativa tecida pelo rio em Gran- de Sertão Veredas. que vão rolando debaixo da terra. Matéria vertente: Grande Sertão Veredas de Guimarães . Riobaldo e Diadorim: Diadorim. (p. de outra parte. carregados do sentido mágico-simbólico que essa divisão representa para a mentalidade primitiva. 381) Como a paixão: Ah.14 Mas se a água é fonte de vida. rolando essas braças águas. afunilando-se o espectro. a que a maior parte das civilizações atri- bui um poder cósmico mágico. como nos diz a imagem universal do Dilúvio. O se- nhor vê.. no sertão. esse. ela também pode ser fonte de mor- te. sertão em duas partes: “o lado direito e o lado esquerdo. toda a vida. Na civilização judaico-cristã. Rio (sobretu- do o Rio do Chico. as águas de um rio são criadoras e destruidoras: A vida é muito discordada.. Tem artes. (p. metafórica e metonimica- mente figurarão a paixão. o senhor sabe como um rio é bravo? É. de fertilização e de poder regenerador. Tem partes. encostando o ouvido no chão. nos gerais longe: nuns lugares. Tem as neblinas de Siruiz. simbolismo universal de fecundação. o Desejo.. mas também o Urucuia). 222) 15 . Tem as caras todas do Cão. nefasto o esquerdo”13. se escuta ba- rulho de fortes águas. e as vertentes do viver. Mas o mais impor- tante é que o rio é suporte de uma projeção dos protagonistas. de fugida. meu senhor! Como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário. O direito é o fasto. origem da Criação. Ambíguas e contraditó- rias como o ser humano.

A feiúra com que o São Francisco puxa. Trata-se de uma passagem que deverá ser posta em paralelismo com outra.?”—eu pedi.como estava. e dar. uma 16 . em que o de-Janeiro esbarra no São Francisco: quem quer bandear a cômodo o São Francisco..]. que é a travessia do Liso do Sussuarão. o Menino “sério. que deságua no São Francisco.]. 79) Passagem absolutamente emblemática. Até pelo mudar. – “Para que?”— ele simples perguntiou. travessia iniciática. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES Essas “fortes águas” subterrâneas. nessa região. Mas mesmo diante do medo do amigo recente. naquela sua formosa simpatia. deserto-símbolo.” [. força irrefreável? Nesse enquadramento é que se pode interpretar a emblemática travessia do Rio São Francisco. força vital mal represada. E a melhor maneira de se atravessar para a sua outra margem.. é bom que nos detenhamos nela: Mas com pouco. chegávamos no do-Chico. recebe para si o de-Janeiro. e que aflora insopitável com toda a violência das pulsões. Medo maior que se tem. e do seu grito. tentada pelo bando dos jagunços. sem espera. firme mas sem vexame: . em descanso de paz [. do romance. é de vir canoando num ribeirãozinho. – “Daqui vamos voltar. também principia ali a viagem. é exatamente nesse lugar. no encontro dos dois protagonistas. É um encontro que se dá no Porto do rio chamado “de Janeiro”. ansiado. quase só um rego verde só. com uma palavra só. ado- lescentes. O senhor surja: é de repentemente aque- la terrível água de largura: imensidade. Riobaldo e o “Menino”.‘Atravessa!’ O canoeiro obedeceu. Diadorim. (p.. no corpo dum rio grande.. com todo seu poder seminal – que figuração mais expressiva poderia se pensar para a libido15. se moendo todo barrento vermelho. O menino não me olhou – porque já tinha estado me olhando. deu ordem ao canoeiro. altamente simbólica.

. (p. Alto rio. será realizada com êxito. como um rito de travessia (travessia do ano. a partir daquele dia tudo muda na vida de Riobaldo: ele nota “uma transformação. simbolica- mente. Diz Riobaldo: A aguagem bruta.” (p. Matéria vertente: Grande Sertão Veredas de Guimarães . a pri- meira e inaugural. 84) Passagem emblemática. mas pedir tua benção. e o risco extenso d’água.] O arrojo do rio.. não há”.“Carece de ter mui- ta coragem. arribamos na outra beira. em tradições culturais.. Apertei os dedos no pau da canoa. por exemplo... 83) E depois de uma conversa sobre a coragem . primeira vez.. Há todo uma subcorrente erótica naquelas fortes imagens. – eles chegam: “Aí o desejado.. de esfrio. Aquele. travessia iniciática. Joca Ramiro).” E é por isso que dirá. por desejo de Diadorim (que assim via co- mo viabilizar a vingança da morte do pai. era costume os jovens casais a realizarem... fechei os olhos. do yin ao yang . e fracassada. sob o comando de Riobaldo. liderada por Medeiro Vaz. daquele dia.. Quer se trata d “aquela terrível água de largura: imensidade” ou de um lugar em que “Água. e só aquele estrape. de algumas civilizações. das estações. de maior. Na China antiga. foi aquele rio. a avançação enorme.” [..16 Mas continuemos a iniciática travessia dos dois meninos. de uma maneira definitiva: “O São Francisco partiu minha vida em duas partes”. purificação preparatória à fecundidade). mas que depois. modos moles. a de lá.] “Eu tinha o medo imediato” [. minha vida. [. a avan- 17 .” – e do canto do canoeiro – “Meu Rio de São Francisco. e uns sussurros de desamparo. nessa maior turvação: vim te dar um gole d’água.. no equinócio da primavera. avistei. de parte a parte. traiçoeira – o rio é cheio de baques. roda-a-roda – o que até hoje. que evocam “o corpo de um grande rio”: “o bambalango das águas.] Aí o bambalango das águas. pesável. a ordem é uma só: “Atravessa”! Sabemos o quanto a travessia de um rio é importante.

quando os nossos dois pensamentos se encontravam. oh Baiana. próximo de mim. sexualizada: Olerê. 241)17 E o refrão. traiçoeira – o rio é cheio de baques. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES çação enorme. e das quais ressalto: Urucuia – rio bravo Cantado à minha feição É o dizer das águas claras Que turvam na perdição (p. Como os rios não dormem.54. do rio túrgido das cheias. Que nem um amor no ao- escuro. (p. (p. precedendo de poucas linhas a última palavra – “Travessia” - na metáfora inapelavelmente fálica com que se fecha o romance: 18 . O rio não quer ir a nenhuma parte. 329) E Diadorim parava calado. e uns sussurros de desamparo”. p. “Uma aguagem bruta. 341 e outras) Até acabar. um carinho que se ameaçava. cujas estrofes pontilham o romance. Ou a canção do Siruiz. baiana. mais fundo.. E volto do meio p’ra trás. na sua ambigüidade erótico-bélica. p.) as imagens são fortemente sexualizadas: Eu queria a muita movimentação. roda-a-roda. Eu ia e não vou mais Eu faço que vou.. horas novas. de esfrio. ao poderoso fluxo que ele representa (bem como o poderoso jorro verbal da narrativa. modos moles. e eu concebi o verter da presença de- le. ele que é chegar a ser mais grosso. 412.”. que tem no rio o seu símile.

Ao que eu recebi de volta um adejo. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Riobaldo se lembra “dum rio que viesse adentro a casa de (seu) pai” – numa enevoada alusão à cena primordial parental (em que mãe = “casa”. fechou o arrôcho do assunto. Depois de invocar. daí umas tranqüilidades – de pancada. E finalmente. em pé. nome recebe” (p. Muito já se falou dos significados condensados embutidos no nome de Diadorim (que. de esperar. (“Que é que é um nome? Nome não dá.Ei. cabem algumas ob- servações a respeito da presença do rio no nome dos protagonistas. enorme. reflete Riobaldo.. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. e de convocar o Diabo. Como que adquirisse minhas palavras todas.. como não podia deixar de ser. um gozo de agarro. e não apareceu nem respondeu – que é um falso imaginado. em que há “arrocho”. (p. dos meus Infernos! Voz minha se estragasse. Me ouviu. naquela figuração de que ele se reveste ao fim de Grande Sertão Veredas. que medeia. Ele não existe. assim como pai = rio . Foi.. Lúcifer! Satanás. que é o momento do pacto das Veredas Mortas.provavelmente como o São Francisco. 121).. em mim tudo era cordas e cobras. (p. um “gozo de agar- ro”. “adejo”. E foi aí. 460) É extremamente significativo que num outro momento forte do romance. e “daí umas tranqüilidades” – com todas as alusões orgásticas que daí possam advir -. em pé. e que referi mais acima: “um pau grosso. 319) Nesse instante.mas o pacto fica selado (fica? Será essa a dúvida que atormentará o protagonista até o fim de seus dias) -.. quando. Riobaldo reitera: . con- vocado . O rio de São Francisco que.. é “dom 19 . enquanto corruptela de “Deodorina”. a conforme a ciência da noite e o envir dos es- paços. enor- me”. o Diabo não surge . uma alusão mais propriamente libidinal se patenteie. de tão grande se comparece – parece é um pau grosso. Matéria vertente: Grande Sertão Veredas de Guimarães .. que não aparece.

a primeira parte do nome (a que não rima com Riobaldo).. Baldo. Daí a palavra “balde” = recipiente.. Rio. E como já disse. mas também o sema da falta. Ora. e é “diá” = diabo. de origem árabe (de batil = inútil) e que vive nos advérbios “embalde” e na locução adverbial “debalde” (= em vão).. as águas de um açude. e “baldio” (conhecido na expressão “terreno baldio”= não cultivado. logo em seguida Riobaldo declare: “Es- ses rios têm de correr bem!” (p.. Mas como em Guimarães Rosa nada é unívoco. sem proveito. Explico: há um momento no romance em que Diadorim comenta a similaridade sonora entre os nomes “Riobaldo” e “Reinaldo”. 20 . também baldo tem outra acepção dicionarizada contraditória: barragem ou parede para represar. de Heráclito). evi- dentemente.o que. em Reinaldo.. as águas desse rio. também muito já se falou a respeito da signifi- cação mais evidente de Rio baldo. e ainda. mas sim Diadorim. in- culto. originou o adjetivo “baldo”. é sig- nificativo que na passagem em que Diadorim lhe revela que não se cha- ma Reinaldo. na parte final desse nome. no nível etimológico. também pode ser aquele que represa. remete ao verbo grego réo = correr: (lembremo-nos do “panta rei” = tudo corre. Aqui também se verificaria uma relação. que carrega em seu próprio nome.. entre os dois protagonis- tas: Riobaldo. Da correnteza de um rio. entre essas duas personagens: se Riobaldo é o rio “vão”. menos do que comentário ao nome recém-revelado de Diadorim. da inutilidade. mas também “dia”. rima). refere-se a Reinaldo (em que rei = corre). veri- ficar um outro profundo acordo entre esses dois nomes. 121) . pode-se vislumbrar dia de Nos- sa Senhora da Abadia18). pode-se. que “corre bem”. no nível dos nomes. em Guimarães Rosa nada é por acaso. e é dor. que carrega o sema da falha. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES de Deus”. da inutilidade. do vazio. Rio- baldo é aquele que. como Deus é o Diabo. represa águas. rei. como Diadorim é dom de Deus e é Diá. Na realidade. como açude. e o verbo “baldar” = tornar inútil (como em “baldados esforços”). se se for desprezar o aspecto mais propriamente formal (concordância de sons. e é “através da dor”. inútil).

Princípios de uma Ciência Nova. os versos que Rio- baldo “tira” antes da batalha final contra o Hermógenes . também aquele que diz respeito à região do sertão de G. Mas. 1972). É verdade: segundo o compadre Quemelém. 3 Cf. ibidem. Rosa (Minas Gerais): “cabeceira e curso d’água orlados de buritis. em sonhos. como na canção de Siruiz.. no 2º semestre de 2002. 7 Vico. no sertão. 460). p. 21 . a realidade é contra- ditória: “comprar ou vender. a vestimenta. CESPUC-MG. o pactário: Remansos de Rio largo. Paulo: Abril Cultural. pode dizer respeito ao seu contrário. mesmo na Psicanálise. 6 Idem. Lélia Parrreira Duarte. como se pode verificar na Matemática ou na Lingüística. ao falar do sim- bolismo nos sonhos. que marca a vida das pessoas e que impregna. no seu sentido dicionarizado. 4 Embora nem todos os símbolos operem por analogia. 2ª ed. 1979.. refere-se à alusão: assim. 5 Vico. Adélia Bezerra de Meneses: “Grande Sertão Veredas e a Psicanálise de Riobaldo”. Antonio Lázaro de Almeida Prado. especialmente na zona são- franciscana” (Novo Dicionário Aurélio). (p. registra. 2 As páginas das citações aqui referidas são da 8ª edição de Grande Sertão Veredas (Rio de Janeiro: José Olympio Editora. org. que “Tudo é simbolo e analogia”. S.” (p. Matéria vertente: Grande Sertão Veredas de Guimarães . trad. em se tratando especificamente da Literatura. Pois o romance todo versa sobre a ambigüidade. 48. 424) Notas 1 Veredas. creio que se pode dizer. a fundamental contradição que habita o sertão e que nos habita. Deus ou demo. além do mais conhecido (no Sul do Brasil) que é “caminho”. cit. Texto a ser publicado na revista Scripta (Número especial sobre Guimarães Rosa).. op. o próprio Freud. com Fernando Pessoa. são as ações que são as quase iguais. às vezes... a nudez.

falando que o amado revestiu de formo- sura a Natureza: “Mil gracias derramando. 11ª ed.. Baudelaire: “La Nature est un temple où des vivants piliers/ Laissent parfois sortir des vivantes paroles. a Asa Branca: “quando o verde dos teus olhos/ se espraiar na plantação/ eu voltarei. pp. 11 Cf. viu. 13 Antonio Candido. 2). como corrente líquida./ eu voltarei. 2ª ed./ pasó por estos sotos com presura. minha palmeira. no Cantico Espiritual. antes da batalha final com o Hermógenes: 22 . em que a ação anti-ecológica pesada o compromete. Tese e Antítese. a representação freudiana para a libido./ con sola sua figura/ vestidos los dejó de hermosura”. não chores não. S. viu. 42). 45). 1971. E são sauda- des de Otacília que o fazem evocar a estrofezinha: “Buriti. 16 Cf. Paulo: Cia./ y yéndolos mirando. 1959. Rio de Janeiro: José Olympio. “O Homem dos Avessos”. Editora Nacional. L’Homme y passe à travers une forêt de symboles/ Qui le regar- dent avec des yeux familiers”. 7.. 12 Apesar da aflitiva situação atual. chegando a diminuir significativamente suas grandes águas. logo em seguida a esses versos. 17 E que tem a mesma toada desse “canto de cantiga” que Riobaldo “tira”. 42) No entanto. I. 9 Cf. acrescentará: “Mas os olhos verdes sendo os de Diado- rim” (p.” (p. 1977. 14 Desde “O espírito de Deus pairava sobre as águas”(Gen.) Rio de Janeiro: José Olympio. 15 Cf./ olhos de onda do mar.. 10 Como João da Cruz./ lá na vere- da de lá:/ casinha da banda esquerda. até o novo radical instaurado no Apocalipse: “O Cordeiro os conduzirá às fontes de água da vida” (Apoc. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES 8 Cf. viu. 17). na tradição da canção brasileira. Riobaldo sobreporá as imagens de Otacília e Dia- dorim: ele se casa com Otacília “quando deu o verde nos campos” (p. meu cora- ção” (de Luís Gonzaga). 151-241. In Augusto dos Anjos e Outros Ensaios. Jean Chevalier/Alain Gheerbrant: Dicionário de Símbolos (Trad. Cavalcanti Proença: “Trilhas no Grande Sertão”. E como “coração mistura amores” . no caos indiferencia- do que precede a Criação.

. Deus ou demo. na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa de Nossa Senhora da Abadia”. Remanso de rio largo. 23 . nas asas do instante. aliás.. sugere o próprio Riobaldo: “Diadorim. Matéria vertente: Grande Sertão Veredas de Guimarães . no sertão 18 Como...