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PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2017.0000056956

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº
1037001-81.2016.8.26.0053, da Comarca de São Paulo, em que é apelante RENATO
PEREIRA ROSA, é apelado FAZENDA DO ESTADO DE SÃO PAULO.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 8ª Câmara de Direito Público do
Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Deram provimento ao
recurso. V. U., de conformidade com o voto do relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores CRISTINA COTROFE
(Presidente) e BANDEIRA LINS.

São Paulo, 9 de fevereiro de 2017.

Leonel Costa
Relator
Assinatura Eletrônica

0053 APELANTE: RENATO PEREIRA ROSA APELADA: FAZENDA DO ESTADO DE SÃO PAULO INTERESSADO: DELEGADO REGIONAL TRIBUTÁRIO DA CAPITAL DRTC-I Juiz 1ª Instância: Fausto José Martins Seabra VOTO 25792 MANDADO DE SEGURANÇA COBRANÇA DE IPVA DE PROPRIETÁRIO DE VEÍCULO AUTOMOTOR REGISTRADO E LICENCIADO EM DIVERSA UNIDADE DA FEDERAÇÃO EXERCÍCIO DE 2013 Registro e licenciamento do veículo por outro Estado precedido por regular procedimento administrativo - Presunção de legalidade e de veracidade dos atos administrativos que são oponíveis contra a Administração Pública de Estado diverso Necessidade de prévia utilização dos meios em Direito previstos para o Estado de São Paulo buscar a anulação dos atos administrativos feitos pelo Estado de Mato Grosso Descabimento de necessidade de prova de domicílio habitual Lei civil que admite a pluralidade de domicílios Comprovação dos fatos constitutivos do direito invocado no caso pelos documentos juntados. Vistos. objetivando a anulação do auto de infração relativo ao débito tributário referente ao IPVA do exercício de 2013 do Apelação nº 1037001-81.0053 -Voto nº 2 .26. Recurso provido. o pagamento do IPVA em outro Estado Necessidade de prévia utilização dos meios em Direito previstos para o Estado de São Paulo buscar a anulação dos atos administrativos feitos pelo Estado de Mato Grosso Sentença reformada. 61 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO PROCESSO DIGITAL MANDADO DE SEGURANÇA APELAÇÃO: 1037001-81. Trata-se de mandado de segurança impetrado por Renato Pereira Rosa contra ato do Secretário de Fazenda do Estado de São Paulo.2016.8.26.2016.8. fls. inclusive.

Não há condenação em honorários advocatícios e o impetrante arcará com as custas processuais. caso este não indique. devendo pagar IPVA ao estado onde o veículo está registrado. placa OAH-3535. Cita jurisprudência a seu favor. como é o caso dos autos. no Município de domicílio ou residência de seu proprietário. 112/122). em seu artigo 155. qual seja. e. considerar-se-á domicílio seu qualquer delas (artigo 71). alternadamente. onde. Assevera que se o contribuinte tem residências em estados diferentes. A r. a fim de verificarmos a possibilidade jurídica de os Estados exigirem esse tributos dos proprietários de veículos registrados fora de seu território e. que foi proprietário do veículo marca Mitsubishi. e este é justamente o caso. preparado e respondido (fls. hipótese em tela. 99/101 denegou a segurança. o Município de Aripuanã. alegando que o Código Civil estabelece que se a pessoa tiver diversas residências. modelo 2013. Estado do Mato Grosso. entre os anos de 2012 até julho de 2015. 62 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO automóvel descrito na inicial. Requer a reforma da sentença (fls.2. ano 2012. ou sucessivamente onde exerça suas atividades. tempestivo. É o relatório. modelo L200 Triton 3. Inicialmente. delimita a competência para a instituição do referido imposto: Apelação nº 1037001-81. Inconformado.074. em sua inicial. sentença de fls. voto. referente ao IPVA do exercício de 2013.2011-3. apela o impetrante. faz-se mister tecer alguns comentários acerca das disposições legais que permeiam a tributação do IPVA pelos Estados.26. 103/107). conforme demonstram os documentos juntados. A Constituição Federal. diesel.2016. fls. sendo que o IPVA sempre foi recolhido pela Unidade Federal onde estava registrado e reside. Afirma que quem deve indicar o domicílio é o contribuinte. Recurso interposto na vigência do NCPC/2015. ainda.0053 -Voto nº 3 . inciso III. será o da sua residência habitual. Aduz que o CTB estabelece que os veículos automotores deverão ser registrados perante o órgão executivo de transito do Estado.8. pode ter veículos licenciados nos diversos estados em que reside. motivo pelo qual pleiteia a anulação do auto de infração nº 30. O impetrante alega. que é o caso do recorrente. viva. das empresas locatárias de tais bens.

alternadamente. elétrico.503/97) especifica que referido registro deve ser confeccionado sempre junto ao órgão competente do Estado no qual está domiciliado o proprietário do veículo: Art.26. Embora esse artigo não tenha consignado expressamente o verbo que integra o critério material de incidência (fato gerador) do IPVA.0053 -Voto nº 4 . Além de dispor acerca de sua obrigatoriedade. fls. É também por meio da apresentação do Certificado de Registro de Veículo (CRV) que se prova a condição de proprietário. 63 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Art. resta evidente que o local (critério espacial) apontado pela legislação de trânsito como relevante para a constituição da relação jurídica tributária relativa ao IPVA é a do domicílio do proprietário do veículo automotor.2016.. que esse é entendido como o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo (CC. articulado. deve ser registrado perante o órgão executivo de trânsito do Estado ou do Distrito Federal. E. o artigo 120 do Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9. Acerca do critério espacial do IPVA. qualquer delas será considerada seu domicílio (CC. viva. onde.) III propriedade de veículos automotores. 71). 120. reboque ou semi- reboque. verifica-se que o constituinte fez com que a tributação recaísse sobre a propriedade de veículo automotor. Todo veículo automotor. Apelação nº 1037001-81. 155. 70). na forma da lei Da mera leitura do artigo supracitado. Município de domicílio ou residência de seu proprietário.8. art. É cediço que a propriedade do veículo automotor é adquirida ou transferida por meio de registro junto aos órgãos executivos de trânsito de cada ente federativo popularmente conhecidos como DETRANS. no caso de a pessoa natural tiver diversas residências.. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: (. art. Convém ainda esclarecer quanto ao domicilio das pessoas. deve estar ele compreendido no âmbito do território do Estado ou Distrito Federal em que se constituir o fato jurídico da propriedade do veículo automotor.

inclusive. Tenho me posicionado no sentido de que feito o registro e licenciado o veículo em um Estado da Federação. porque não é permitida pela Constituição da República a cobrança em duplicidade. Nesse sentido é.8. é vedado a outro ente estadual lançar cobrança do IPVA. eis que não é permitida pela Constituição da República a cobrança em duplicidade relativamente a um mesmo fato gerador.2016. é insofismável a conclusão de que será competente para instituir e exigir o IPVA a pessoa jurídica de direito público em cujos limites territoriais o automóvel estiver registrado. conforme documentos juntados de fls. da Constituição Federal.) III cinqüenta por cento do produto da arrecadação do imposto do Estado sobre a propriedade de veículos automotores licenciados em seus territórios. o autor efetuou o registro do veículo e seu licenciamento em outro Estado da Federação da República. 503/1997) e outros atos regulamentares das autoridades de trânsito. da qual se infere a inter-relação explicitada entre o local em que o veículo automotor é licenciado e o ente federativo competente para a cobrança do IPVA: Art. a Apelação nº 1037001-81.. entre os quais. efetuou o registro de veículo e seu licenciamento em outro Estado da Federação da República. fls. é vedado a outro ente estadual lançar cobrança do IPVA.. Feito o registro e licenciado o veículo em um Estado da Federação. apontando domicílio. 9/12. por manifesta afronta à repartição de competências prevista no artigo 155. e submetendo-se ao procedimento administrativo regulado pela lei federal (Lei 9. 158. inclusive. o pagamento do IPVA no Estado do Mato Grosso. No caso em comento. II. 71). III. admitida a pluralidade desde o novo Código Civil (art.0053 -Voto nº 5 . 64 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Logo. além do que seria ilegal lei ordinária infraconstitucional estabelecer critério espacial de IPVA diverso do local onde o veículo é licenciado. a redação do artigo 158. Pertencem aos Municípios: (.26. 31/40 47/48 e 50/55. da Constituição Federal.

2016. VII. segundo o qual pode ser efetuado ato de lançamento que. no caso. antes de qualquer medida punitiva contra o autor. seja da parte de quem incorreu em falsidade. do Código Tributário Nacional. o que não foi feito. nesse caso. se há por parte da Fazenda de São Paulo dúvida quanto à regularidade ou veracidade de alguma declaração ou fato relativo ao procedimento de registro e licenciamento de veículo feito em outro Estado. 65 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO exemplo do que ocorre com a edição da Lei Estadual 13. compete-lhe buscar a anulação pela via de direito. A presunção de veracidade e de legalidade dos atos administrativos. principalmente aqueles decorrentes de procedimento de habilitação como do caso. indique lugar diverso como sendo o do exercício da propriedade do veículo automotor. também é oponível à Administração.8. manu militari. Lembra-se que o ônus é de quem alega e. De outra parte. fls. é encargo da Fazenda do Estado de São Paulo buscar a prévia anulação do ato administrativo do Estado do Paraná. 155.296/2008.26. 120 do CTB). Referido proceder. com possibilidade de consequências penais decorrentes de prática eventual de delito de falsidade ou mesmo de improbidade. III da CF) e a regulamentação sobre o registro de propriedade dos veículos terrestres no Município de domicílio ou residência do proprietário é de natureza federal (art. invadindo a lei estadual antes referida em seara merecedora de regra geral de natureza federal. desprezar a regularidade jurídica presumida do registro do veículo e de seu licenciamento feitos pela Administração Pública de outro Estado e lançar novo imposto. despachante ou funcionário público. fazendo verdadeira “guerra fiscal” entre os entes federativos. em que a vítima é o cidadão. Impossível juridicamente e atentatório contra a ordem jurídica é o fato da Fazenda de São Paulo. inclusive. considerando a nova situação fática. Destaco. encontra respaldo no artigo 149. que a previsão do imposto sobre a propriedade dos veículos é constitucional (art. proprietário do veículo.0053 -Voto nº 6 . Apelação nº 1037001-81. ainda.

sendo estes delimitados pelo local em que se verifica a propriedade. dolosa ou fraudulenta. tributam o mesmo contribuinte sobre o mesmo fato gerador. comprovadamente. 127). esse fato se verifica no local de registro do veículo automotor. Em consonância com o disposto no art. pode ser validade sob o argumento de que seria ela aplicável apenas a casos excepcionais de simulação. 66 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Não há autorização constitucional para a bitributação (Bitributação ocorre quando dois entes da federação.8. ao conferir aptidão para os Estados e o Distrito Federal instituírem imposto sobre a propriedade de veículos automotores. em consulta realizada pela Associação Nacional de Empresas de Aluguel de Veículos ANAV. A fim de corroborar a ilegalidade nos lançamentos efetuados pela Fazenda Estadual com base na Lei 13. VII. 120) e do Código Tributário Nacional (art. (i) por conter vícios de legalidade. 149. transcrevo excerto do parecer proferido pelo Professor Paulo de Barros Carvalho. 155. nada obstante de caráter geral.2016. 110 e art.296/2008. in casu. nos termos da legislação própria. fls. da Constituição. já que conflitante com disposições do Código de Trânsito Brasileiro (art. 120 do Código de Trânsito Brasileiro.0053 -Voto nº 7 . Apelação nº 1037001-81. dolo. esta não poderá subsistir no ordenamento. 149. fraude. por meio de suas pessoas jurídicas de direito público. conjugado ao princípio da territorialidade. tendo em vista que essa matéria já está contemplada no art. VII. qual a consequência jurídica? Tal lei. não pode ele estar compreendido fora do âmbito do território do Estado ou do Distrito Federal em que se der a construção jurídica do fato antecedente das normas que estabelecem a propriedade do veículo automotor (critério material). Caso se verifique. e (ii) por afrontar a repartição constitucional de competências. há de ser aplicado o art. do Código de Trânsito Brasileiro. já que o art.). que instruiu a ADI 4376 em trâmite perante o STF: Pode a regra matriz de incidência do IPVA adotar critério espacial diverso do local onde é licenciado o veículo? Caso a lei instituidora do tributo o faça. Havendo eventual disposição legislativa em contrário. serve também como parâmetro para a amplitude territorial de seus âmbitos competenciais. do CTN? Resposta: Quanto ao critério espacial da regra-matriz de incidência do IPVA. a existência de atitude simulatória. III.26.

8.0053 -Voto nº 8 .Recurso não provido. Essa sim é uma disposição que tende ao disposto no art. Mencione-se.8.26. do Texto Supremo. mas a expedição de ato administrativo que desqualifique.2011.0053 Apelação Relator(a): Franco Cocuzza Comarca: São Paulo Órgão julgador: 5ª Câmara de Direito Público Data do julgamento: 25/02/2013 Data de registro: 05/06/2013 Outros números: 437735320118260053 Ementa: APELAÇÃO execução fiscal cobrança do IPVA do exercício de Apelação nº 1037001-81. pelas citadas razões e com suporte na linguagem das provas.26. não autorizando a alteração do critério espacial da regra-matriz de incidência do IPVA. 67 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO do Código Tributário Nacional. considerando a nova situação fática. fls.2016. julgados desta Corte em casos semelhantes ao ora analisado: 0007015-83. nos termos do qual pode ser efetuado ato de lançamento que. III.26.2010. 146.0482 Apelação Relator(a): Rebouças de Carvalho Comarca: Presidente Prudente Órgão julgador: 9ª Câmara de Direito Público Data do julgamento: 19/06/2013 Data de registro: 19/06/2013 Outros números: 70158320108260482 Ementa: MANDADO DE SEGURANÇA . 0043773-53.8. o local em que feito o licenciamento do veículo. indique lugar diverso como sendo o do exercício da propriedade do veículo automotor. por oportuno.IPVA Pleito de anulação da cobrança de imposto sobre propriedade de veículos automotores relativos aos exercícios de 2005 a 2008 Comprovação do autor de domicilio e de recolhimento do imposto ao Estado do Mato Grosso do Sul onde registrado e licenciado o automóvel Sentença de concessão da segurança mantida . por não corresponder ele ao domicílio do proprietário. configurando norma geral em matéria de direito tributário.

8. respeitando-se os princípios constitucionais da ampla defesa e do devido processo legal.0053 Apelação Relator(a): Danilo Panizza Comarca: São Paulo Órgão julgador: 1ª Câmara de Direito Público Data do julgamento: 09/04/2013 Data de registro: 10/04/2013 Outros números: 48822620128260053 Ementa: Apelação IPVA Cobrança por suposta irregularidade na efetivação do registro de veículo em outro Estado Documentos emitidos por Autoridade Administrativa legítima.2012.26. fls. Custas na forma da lei pela embargada. configurando bis in idem. 68 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO 2009 junto ao fisco do Estado de São Paulo inadmissibilidade. a cobrança do IPVA referente aos exercícios de 2013 é indevida e deve ser anulada. o que é vedado em nosso ordenamento jurídico prova de que o tributo foi recolhido em outro Estado necessidade de procedimento adequado para desconstituir ato administrativo que goza de legitimidade Recurso provido. 0004882-26. cujo veículo está licenciado em outro Estado. A administração pública dispõe de meios apropriados para investigar se o licenciamento da frota em outros estados esteja ou não a configurar algum tipo de fraude fiscal. Diante do exposto.26. Leonel Costa Relator Apelação nº 1037001-81. Decisão mantida. Recurso negado. dou provimento ao recurso.8.2016.0053 -Voto nº 9 . O simples fato de se tratar de veículo emplacado em outro Estado não significa a configuração de fraude. ainda que se entender a presença de indício neste sentido. consubstanciando no recolhimento deste tributo no Estado devido. visto que o veículo está devidamente regularizado no Estado do Paraná o Estado de São Paulo não pode cobrar o IPVA. Assim.