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OS SERTÕES – RESUMINHO

Os Sertões é um livro brasileiro, escrito por Euclides da Cunha e publicado em 1902.

Trata da Guerra de Canudos (1896-1897), no interior da Bahia. Euclides da Cunha
presenciou uma parte desta guerra como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo.
Pertence, ao mesmo tempo, à prosa científica e à prosa artística. Pode ser entendido
como um obra de Sociologia, Geografia, História ou crítica humana. Mas não é errado
lê-lo como uma epopeia da vida sertaneja em sua luta diária contra a paisagem e a
incompreensão das elites governamentais.

O crítico literário Alexei Bueno considera Os Sertões uma das três grandes epopeias da
língua portuguesa, podendo ser comparada à Ilíada " assim como Os Lusíadas podem
ser comparados à Eneida e Grande Sertão: Veredas, à Odisseia.

Considerada uma obra pré-modernista, o estilo de Os sertões é conflituoso, angustiado,
torturado. Dá a impressão de sofrimento e luta. O autor faz uso de muitas figuras de
linguagem, às vezes omite as conjunções (assindetismo), outras repete-as
reiteradamente (polissindetismo). Ocorre, com frequência, a mistura de termos de alta
erudição tecno-científica com regionalismos populares e neologismos do próprio autor.

Determinismo racial

Euclides da Cunha deixou claro em "Os Sertões" seu ponto de vista no que se refere ao
racismo. Como a maioria dos de sua época, acreditava numa "raça superior", e em sua
íntima relação com os de pele clara. Acreditava no embranquecimento dos brasileiros
evitando a miscigenação com "raças inferiores", para que se pudesse manter uma certa
"estabilidade", e assim, ter uma definição sistematizada da "raça brasileira". A obra foi
concebida segundo o esquema rigoroso do determinismo de Taine, que via o homem
como um produto de três fatores: meio ambiente, raça e momento histórico. As teses e
os princípios científicos adotados pelo escritor envelheceram, achando-se na sua
maioria desacreditados, atualmente. O determinismo considerava o mestiço brasileiro
uma raça inferior, e Euclides da Cunha compartilha desta visão. Escreve, por exemplo:
"Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os
traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E fazemo-lo porque a
sua instabilidade de complexos, aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação
mental em que jazem, as tornam talvez destinadas a próximo desaparecimento ante as
exigências crescentes da civilização."

Contribuição às ciências sociais

Como contribuição às ciências sociais, encontra-se nesta obra de Euclides da Cunha a
separação da nação brasileira entre os povos litorâneos e os interioranos. A compreensão
de cada uma dessas partes permitiria a compreensão do país como um todo, uma vez
que se tinha nas cidades litorâneas polos de desenvolvimento político e econômico e no
interior do país condições de atraso econômico que subjugavam suas populações à fome
e à miserabilidade. No entanto, ao analisar os fatos ocorridos em Canudos, o autor

na qual o homem é determinado pela tríade meio/raça/história -. pode ser vista como um estudo geográfico escrito em forma literária. Euclides da Cunha. Essa homogeneidade se deve a um isolamento histórico provocado pelo esquecimento civilizatório. A TERRA. Euclides da Cunha. tanto uns quanto os outros eram dados ao fanatismo. cada qual em suas especificidades.De um ponto de vista privilegiado. porém. ENREDO A TERRA . se aproximam de uma tese científica. narra a batalha entre o litoral desenvolvido e o interior atrasado. partindo do litoral em direção ao sertão. aponta que tanto os litorâneos quanto os interioranos.refuta a noção de que no litoral se encontrariam condições de avanço civilizatório em oposição ao interior. No decorrer da narrativa. que os manteve distantes do desenvolvimento litorâneo. essa parte representa o aprofundamento de análise da raça sertaneja. Passando seu olhar . Se a primeira parte se aproxima do estudo geográfico. com olhar científico. A Luta. A primeira parte. se encontrariam em um estádio bárbaro de sociedade. a segunda (O Homem) pode ser confundida com um texto antropológico. O Homem e A Luta -. percebe-se uma preocupação estética: o narrador busca. Seguindo os princípios positivistas. fosse pela religiosidade de Conselheiro. como foi dito. leva o leitor por um árido percurso descritivo. no plano da forma. bastava atentar para a crueldade com que se reprimiu o movimento de Antônio Conselheiro. o autor descreve de forma minuciosa as características do meio sertanejo. enxerga os acontecimentos no arraial de Canudos como uma revolta. buscou compreender as populações litorâneas e as interioranas como elementos do Brasil como um todo. o conteúdo do texto. Esta sua noção de estádios bárbaros e civilizados de sociedade estão em consonância a seu pensamento evolucionista spenceriano. Isso se deve à cadência formal (representada pelas construções sintáticas).A Terra. terceira parte do livro. Ao traçar a rota do sudeste. Pelo contrário. essa posição se altera gradativamente até a compreensão de que os sertanejos constituíam um povo isolado e. fortemente amparada pela filosofia de Taine . Porém. No caso. A LUTA Dividido em três partes . Dessa forma. o narrador inicia uma série de descrições que. o livro ganhou status de obra literária em virtude do estilo apurado e impecável de Euclides da Cunha. enfim. que imita o movimento de entrada no sertão. reproduzir. homogêneo. Além do que. compreender o todo. A Terra. o estilo empregado pelo narrador dá à obra um ritmo peculiar. O HOMEM. ou imitar. A princípio. O vocabulário técnico empregado afastaria essa narrativa da conceituação clássica de literatura. fosse pela República de Floriano Peixoto. elevado. Também se alinha com isso sua metodologia em compreender as singularidades de cada elemento separadamente para. por isso. De acordo com a estética naturalista. que compartilha as idéias do povo litorâneo.

aliam-se às de Caraíbas e do Lopes e nestas de novo se embebem. Mostram-no as serras Grande e do Atanásio. profética: trajava roupão azul. progridem para o norte. No considerar. uma elítica curva fechada ao sul por um morro. sob todas as suas formas. O seguinte trecho é bastante ilustrativo. de onde irradiam as pequenas cadeias do Coxomongó e Calumbi. sobre as tradições sertanejas dos vaqueiros. pode-se dizer que se criou nesse povo certa homogeneidade. a do Aracati. A formação do povo brasileiro é assim descrita por Euclides da Cunha: "Conhecemos. depois de entalhada pelo Vaza. o da Favela. Essa imagem favoreceu sua associação com uma figura mística. Obediente à mesma tendência.Partindo de uma análise da gênese antropológica das raças formadoras do homem brasileiro. estendida em torno num raio de quinze léguas. descrevendo com minúcias seu modo de vida. as condições históricas adversas ou favoráveis que sobre eles reagiram.e daí para o norte. no Brasil seria impossível termos uma raça homogênea. o meio físico diferenciador . Em virtude de fazer parte de uma família cearense que se envolvera em querelas na região. dessa primeira parte do livro: "Do alto da Serra de Monte Santo atentando-se para a região. Porém. progride. e a princípio distintas. ele descobre o espaço do sertão. climáticas e geográficas. de novo se dispersam e descaem até acabarem em chapadas altas à borda do S.e ainda. com uma cabeleira por cortar e desgrenhada. Francisco. descontínua. que serviu como uma luva para o povo fanático e desvalido. uma para NO e outra para N e fundindo-se na do Acaru. O narrador discorre. imperfeitamente embora. repartindo-se nas da Canabrava e Poço-de-Cima.Barris em Cocorobó. formandolhes o divortium aquarum. Unificadas. peregrinando pelas cidades. deste modo. carregando um bastão. nota-se. afinal. como num mapa em relevo. Euclides da Cunha estuda de maneira detalhada o meio que determinou a formação do homem sertanejo. medianas aos traçados do Vaza. porém. devido ao isolamento dos paulistas desbravadores que se tornaram vaqueiros do São Francisco. formando-se as massas do Cambaio. também. tanto do ponto de vista formal quanto do metodológico." O HOMEM . correndo. Começa pelo planalto central e chega até o norte da Bahia. no arraial de Canudos. ou seja. lançando-se a NO. o narrador decreta a impossibilidade de unidade racial. além de ter perdido sua mulher para um policial. Ele tinha uma imagem messiânica.arguto por análises biológicas. ao invés de se alongarem para o nascente. Isso serve de ratificação da teoria determinista. que postulava a determinação do meio sobre o homem. Todas traçam. E vê-se que as cordas de serras. naquele rumo e. e para o noroeste os píncaros torreantes do Caipã. a sua conformação orográfica. em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos . que a prolongam. todas as . inflete para o poente. Antônio Conselheiro embrenhou-se pelo sertão sem rumo certo. Nessa descrição. à borda dos tabuleiros de Jeremoabo.Barris e Itapicuru. os três elementos essenciais. e. onde abrolham os mananciais intermitentes do Bendegó e seus tributários efêmeros. muito em voga na época.

como todas as leis." A LUTA . capaz de diversos climas. uns vinte lutadores. Este trecho de Euclides da Cunha descreve a situação no final dos combates: "A luta. Esses foram os argumentos oficiais do governo brasileiro para o ataque ao arraial de Canudos. Viam-se. movimentos combinados. Esta é abstrata e irredutível. os mesmos toques de cornetas. Destes os que mais se aproximaram lá ficaram.alternativas e todas as fases intermédias desse entrelaçamento de tipos antropológicos de graus díspares nos atributos físicos e psíquicos. predispunham-se a um suicídio formidável. de todo despeada da intervenção daqueles. inteiramente. enfileirados ao longo das quatro bordas da escavação e formando o quadrado assombroso dentro do qual uma dúzia de moribundos. solicitou a presença das tropas federais. evidentemente. que. em maior número. tendo discordantes aspectos e opostas condições de vida. pode afirmar-se que pouco nos temos avantajado. Não nos diz quais os reagentes que podem atenuar o influxo da raça mais numerosa ou mais forte. de pouco mais de metro de fundo. sob os influxos de um meio variável. aumentando a trincheira sinistra de corpos esmigalhados e sangrentos. Antônio Conselheiro também era acusado de sonegador de impostos e de ser antirrepublicano. Chamou-se aquilo o "hospital de sangue" dos jagunços. não simplificaria o problema. distribuições de forças. Mas ainda quando por extravagante indisciplina mental alguém tentasse aplicá-la. medonhos de ver-se. apliquemos ao conjunto a lei antropológica de Broca. Pelo menos fizeram parar os adversários. por manifestar-se contra a dissociação entre Estado e Igreja no casamento . salpintando o acervo de . Antônio Conselheiro havia encomendado e pago um lote de madeiras para a construção de uma igreja no arraial de Canudos. o indo-guarani e o branco. houve uma ameaça de ataque à cidade de Juazeiro. degenerou. Escrevemos todas as variáveis de uma fórmula intricada. Foram-se os últimos traços de um formalismo inútil: deliberações de comando. É uma regra que nos orienta apenas no indagarmos a verdade. Sabia-se de uma coisa única: os jagunços não poderiam resistir por muitas horas. traduzindo sério problema. não basta. ao cabo. É que. De feito. que viera perdendo dia a dia o caráter militar. combatiam contra um exército. O juiz da região pediu ajuda ao governador da Bahia. Como o lote não foi entregue. Era um túmulo. para o nosso caso. lá estavam. ao lado da igreja nova. e por fim a própria hierarquia. vidas concentradas na última contração dos dedos nos gatilhos das espingardas. Modifica-se. despontam três fatores diversos. Era incrível: numa cava quadrangular. que postos uns diante de outros o negro banto. não conseguindo resolver a situação. alguns de muitos dias já. E lutavam com relativa vantagem ainda.medida surgida com o advento da República. adstritos às vicissitudes da história e dos climas. os mortos. esfomeados e rotos. Alguns soldados se haviam abeirado do último reduto e colhido de um lance a situação dos adversários. mas não desvendamos todas as incógnitas.O conflito de Canudos surgiu de uma pequena desavença local. que pressupõe. à pressão dos dados objetivos. já materialmente extinta num exército sem distintivos e sem fardas. e causas que o extingam ou atenuem quando ao contrário da combinação binária.

cadáveres andrajosos dos jagunços. Tinham a ilusão do último recontro feliz e fácil: romperam pelos últimos casebres envolventes.." .. esmagando- os. fulminando-os. listras vermelhas de fardas e entre elas as divisas do sargento-ajudante do 39o. baqueando logo. Outros tiveram igual destino. que lá entrara. caindo de chofre sobre os titãs combalidos.