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ISSN 0103-7013

Psicol. Argum., Curitiba, v. 28, n. 61, p. 111-119 abr./jun. 2010
Licenciado sob uma Licença Creative Commons

MAIS ALÉM DO AUTISMO: A psicose infantil e seu
não lugar na atual nosografia psiquiátrica

Beyond the autism: The infantile psychosis and its no place in the
current psychiatric classification

Leda Mariza Fischer Bernardino

Psicanalista, Pós-Doutora em Tratamento e Prevenção Psicológica pela Université Denis Diderot Paris 7, professora titular da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), membro fundadora da Associação Psicanalítica de Curitiba, analista membro da
Association Lacanienne Internationale, membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, Curitiba,
PR - Brasil, e-mail: ledber@terra.com.br

Resumo
Neste artigo discute-se a predominância do discurso científico da psiquiatria geral norte-americana e
suas consequências para o estudo da psicopatologia infantil, principalmente no que se refere ao desapa-
recimento da categoria psicose infantil. Esse quadro clínico, segundo o discurso psicanalítico, apresenta
diferenças importantes quanto ao autismo infantil e outros quadros descritos no DSM-IV, tanto no que
se refere ao diagnóstico quanto ao tratamento. Sua não diferenciação acabou produzindo um incremento
significativo nos casos diagnosticados como de autismo infantil. Discutem-se os critérios econômicos e
ideológicos que sustentam essa mudança de paradigma na psicopatologia infantil. Sustenta-se a posição
psicanalítica de ir além da descrição sintomatológica e dar lugar às defesas e à consideração do sofrimento
psíquico em questão.

Paravras-chave: Psicose infantil. Autismo. Psicopatologia. Psiquiatria infantil.

Abstract

This paper discusses the predominance of the North American general psychiatric scientific discourse and its con-
sequences for the study of the infantile psychopathology, principally about the disappearing of the category infantile
psychosis. This clinical presents, according to psychoanalytic discourse, important differences relating to infantile
autism and the others categories described in the DSM-IV, in its diagnostic and in its treatment. The non difference
between both diagnostics brings an increasing of the cases of infantile autism. This paper discusses the economical

Psicol. Argum. 2010 abr./jun., 28(61), 111-119

Argum. Podemos começar analisando principalmente. apenas os aspectos cognitivos psíquico. Psychopathology. no conforme já desenvolvemos em outro trabalho qual o psíquico é concebido como um produto de (Bernardino. Inclui também – e til abre muitas questões. 2006). ou o psíquico se passam num contexto cultural que age sobre eles. que resultam no sujeito segundo a abordagem. o “infantil” para Freud e a que compreensão do psiquismo? Sabemos que. tanto em termos das crises necessárias para desequilibrar e mover o de identidade pessoal quanto de identidade social. ou se tratará de um entendimento mais amplo. Autism. no que nos interessa – um processo os significantes que aí se apresentam. quanto em termos dos fatores externos. 111-119 . esses dois aspectos anteriores ou instrumentais estarão em jogo. F. qual a teoria que serve de referência para o Esse trabalho pretende questionar os efeitos entendimento dos fenômenos considerados. dos problemas graves da infância desde o início do como vai se realizar esse estudo do psíquico e do estudo dos problemas mentais. De que “psico” de estruturação. O “desaparecimento” da psicose infantil E o “infantil”. a “estrutura” para Lacan. Childhood psychiatry. vistas pela programação genética. de um manual que se propõe como uma classifica- derado? Apenas o lado mórbido. que vão intervir nessa evolução. para encontrar uma saída possível? Trata-se de uma Uma das características mais marcantes noção de excesso ou de falta que desestabiliza? A desse manual. crianças que não se apresentam como sujeitos de Psicol. processo. implicado no uso de recursos próprios o DSM-IV (1995). O pensamento científico não é neutro em relação ao movimento sócio-histórico cultural. enquanto gozo infância. cada período tem sua visão campo da terapêutica. M. and ideological criteria which stand up the changing of paradigm in the infantile psychopathology. quando referido refletir sobre um fenômeno da atualidade: a presença à criança: qual é o sofrimento que está sendo consi. Além disso. se trata aí: aspectos psicológicos. reduzir-se-á ao aspecto orgânico do aparelho mental. que apresenta muitas nuanças. no que se refere à psicopatologia da paixão contida no termo “patos”. referidos de uma personalidade. 28(61). as vicissitudes em nossos consultórios crianças que têm extremas que marcam esse desenvolvimento. os denominados “transtornos mentais”: defensivo. a partir de um crescimento e de uma maturação pre- Uma discussão sobre a psicopatologia infan. qual dessa exclusão. no normal e o patológico. com um padrão esperado referência globalizada. é o desaparecimento do termo psicose contido no sofrimento. sobre o que se desvia da norma. INTRODUÇÃO psicossociais. de formação de uma identidade. Continuamos encontrando de habilidades neuropsicomotoras. patos. tanto em termos dificuldades de encontrar seu lugar.112 Bernardino. ao determinar qual o lugar social atribuído à criança./jun. a que se refere? Ao conceito freudiano de infantil ou ao tempo cronológico da A psicose infantil refere-se a um quadro clí- infância? Qual a noção de criança que está em vigor? nico que não deixou de existir com a simples retirada Aqui já observamos a amplitude desse campo: inclui do termo da nosografia atualmente tomada como o desenvolvimento infantil. plexo. também encontra expressão? para nomear uma patologia que faz parte da clínica Como se espera que seja o “logos” aí. pretende-se De que “patos” se trata. adquire relevo ou também o aspecto e lugares. psíquicos. ao mesmo tempo em que proble- a ideologia que fundamenta essa teoria? Sabemos matiza a difícil questão do diagnóstico da psicose que a cada época corresponde uma noção sobre o na infância e seus principais desdobramentos. L. It also defends the psychoanalytic position to go beyond the description of symptoms and to considerate the defenses and psychic suffering in this question. que remete à ideia ção diagnóstica generalizável para todos os tempos de doença. Keywords: Infantile psychosis. 2010 abr. uma construção que requer a articulação do orgânico Dentro desse campo extremamente com- com o simbólico..

somos instados a usar cada qual o estatuto de quadro clínico isolado. No Transtorno Desintegrativo há uma mento ou idade. o Transtorno de estrutural não recebe um nome. vante as crianças que anteriormente eram diagnos. no segundo quadro interesses e atividades estereotipados”. à sua iden. Acrescenta-se clínico. após a publicação desse manual. p. nos quais há um predomínio das questões cognitivas. encontramos descritas cinco organização dessas defesas em um encaminhamento categorias: o Transtorno Autista. Sob essa rubrica são descritos os “preocupação total com um ou mais padrões este- sintomas que se caracterizam “por prejuízo severo reotipados de interesse”. depende de principalmente devido ao “padrão característico de uma teoria para interpretar. habilidades primeira infância para autismo e na segunda infância de comunicação. questão da subjetividade. a do desenvolvimento. Contudo. o perigo do aniquilamento que a ameaça constante- sionalmente evoluir para a esquizofrenia (DSM-IV. a isso uma comparação com o nível de desenvolvi. ou presença de comportamento. dizendo que o defesas que a criança põe em ação para lutar contra transtorno invasivo do desenvolvimento pode oca. ou seja. um cérebro e no exercício de funções cognitivas ticas. se queremos nos referir e a chamada Síndrome de Asperger tenham merecido em termos diagnósticos a elas. o Transtorno Desintegrativo da Infância. nada Certamente. socialização) e na organi- tidade ou personalidade. mas quanto à psicose. zação das funções corporais. o DSM-IV (1995. de atraso no desenvolvimento da linguagem. opção terminológica. ções. 66). Teríamos que classificar todas essas crianças sob a deráveis sugerem que os transtornos invasivos do rubrica dos “transtornos sem outra especificação”? desenvolvimento são distintos da Esquizofrenia”. 28(61). em detrimento da questão da organização da perso- ticadas como psicóticas. vários sintomas que constituem as é mencionado. há objetividade na presença de clínico nesse conjunto. De fato. causa estranhamento que não lhes dando mais representatividade nem em sua dois quadros clínicos tão próximos como o autismo diferença clínica. mapeado. 69). fato o lugar que lhes corresponderia de direito. p. nalidade. Argum. quando a denominação geral dos “transtornos invasivos do compartilham dos principais sintomas. É-lhes muito difícil ocupar de desaceleração do crescimento craniano” (DSM-IV. tendo em vista termos químicos. raro tenha merecido uma descrição como quadro Em outras palavras. Da mesma forma. já permitem e habilidades instrumentais dele decorrentes. nenhuma explicação é fornecida para tal quanto esse quadro clínico já foi estudado. Mais além do autismo 113 sua própria história. genéticos ou de neuro-imagem. p. impossível de medir em o que já era bastante plausível. O diagnóstico diferencial e invasivo em diversas áreas do desenvolvimento: centra-se na idade de aparecimento dos sintomas – na habilidades de interação social recíproca. Postula-se uma diferença em teorizado. As últimas pesquisas gené. não está mais contida Rett. o que pode acontecer Encontramos um parágrafo que enuncia: com a criança psicótica. não lhe faltam especificações. sem que haja qualquer apresentar em suas habilidades instrumentais (comu- referência ao lugar ocupado pela criança. enquanto que a entende bem porque um quadro tão específico e organização da personalidade requer uma dedução. Seria extremamente contraditório. Pois 1995. para Asperger – e na ausência. evidências consi. relação à esquizofrenia./jun. psicomotricidade. Psicol. é bem verdade que os comporta- Quanto ao transtorno de Rett. Já a situar esse quadro como uma síndrome genética. bem. São habilidades e comportamentos ênfase nas perdas sucessivas que a criança passa a que se desviam da norma. 65) confirma essa exclusão. simbólica de reconhecimento são descritos nesses Dentro do quadro dos transtornos invasivos quadros clínicos de um modo geral.. posta no DSM-IV é que foram priorizados os quadros Pressupõe-se que essas categorias conteriam dora. em maior ou menor grau. o em uma nosografia. tendo em vista o Entretanto. tais como a desenvolvimento”. Há ainda um adendo. depende de uma interpretação. mente. o caráter ligado ao sexo (atinge exclusivamente depende de um cálculo a partir de suas manifesta- meninas) e a evolução degenerativa do quadro. 111-119 . pela falta de identidade e de uma possibilidade 1995. não se mentos cognitivos são observáveis. 2010 abr. Atualmente. Transtorno de Asperger e o Transtorno Invasivo O que se depreende da classificação pro- do Desenvolvimento sem Outra Especificação. “embora termos como ‘psicose’ e ‘esquizofrenia da Em qual desses quadros poderíamos reco- infância’ já tenham sido usados com referência a nhecer o sofrimento próprio da psicose infantil? indivíduos com essas condições. nicação.

Weiner & Bardenstein (2003. Weiner & Bardenstein. 460) questionamentos que esses autores fazem à ausência apontam a partir do advento do DSM-III: “uma da consideração de transtornos da personalidade na mudança de paradigma no conhecimento psiquiátrico infância. torna-se a solução última: os pais sabem ao maior grau de gravidade. representações sociais. paranoide e esquizoide”. agrupando sob o mundo externo. generalizar sintomas. ao forjar novas concepções Podemos localizar a principal problemá. econômica: é a prescrição do medicamento e do em relação ao autismo. essa lógica dita “científica”. Como diagnosticadas sob uma mesma denominação. questão da identidade. M. na medida em que não se preocupa com a abordagem psicanalítica até então dominante. Observamos nesse curto percurso uma patologia infantil. pois nos transtornos de personalidade criança o mais “funcional” possível. qual o caminho pós-diagnóstico? inegavelmente já se apresenta no tempo de infância. ao romper com o ecletismo das p. a escola dispõe de um nome nalidade neurótica – passando pela borderline – até a para a situação-problema que enfrenta (diferente personalidade psicótica”. F. 111-119 . A solução americana é a mais direta e consoante com Mostram como os principais sintomas dos transtor. sobre o normal e o patológico (Russo & Venâncio. 232) – ou seja. estaria acontecendo com a criança. “tem implicações evolutivas ficatória. que não há uma preocupação com uma coerência p. e das a questão da prevenção ou da intervenção precoce.114 Bernardino. da organização da perso. o que a criança tem. por sua sistematização e ampla como mostram esses mesmos autores. em relação à classificação sonalidade e uma identidade apropriadas à idade são até então utilizada. Psicol. que o manual. de ótima que pode até ser proposto por pais e professores. Esses autores demonstram em seu estudo não evolutiva. Asperger ou Transtorno treinamento cognitivo e adaptativo. sob a ótica de “há uma ausência de ‘eu’ ou senso de ‘si mesmo’ uma irrecuperabilidade de fundo biologicista. a cada fase do desenvolvimento. jetividade. Embora tenham uma visão bastante adultomórfica da psico. referem-se ao critério da sub. com base estatística e nos da personalidade referem-se a um diferencial. cina. (estranhamente amalgamados na atualidade) podem típica. que Contudo. nem com o processo dos chamados “transtornos de personalidade em de formação do psiquismo e sua inter-relação com crianças e adolescentes” do DSM-IV. tada por esse novo manual. solução tipo exportação que tem alcançado cada vez 2003. Ao 2006. há que se poder estabelecer se esse critério está presente ou não. É a como um agente” (Kernberg. Na infância./jun. mesmo que a maneira como esse se presentifica varie de acordo Uma mudança de paradigma com o nível de desenvolvimento da criança. o DSM-III divulgação. Ao dar preferência de desenvolvimento sediado na infância. níveis: conceitual. para tornar a Desintegrativo. Essa última refere-se aos do aluno-padrão) e o psiquiatra ou o neurologista chamados “transtornos da personalidade esquizo. Cada vez mais crianças podem ser para as empresas de seguro na área da saúde. tica na maneira como se postula o diagnóstico. 17). descritos no DSM optar pela saída medicamentosa. p. Enfatizam. A listagem aos estudos epidemiológicos e aos dados estatísticos. 2010 abr. que amplia o leque de Esses autores chamam a atenção para a ofertas indicadas para os sintomas mais comuns. “uma vez que não considera o processo histórico/antropológico a ruptura absoluta represen- pelo qual. L. ao romper com evidentes”. Eles situam essa ruptura em três formadas” (Kernberg. contudo.. interessa-nos trazer ao debate os ilustração do que Russo & Venâncio (2006. facilmente amparada apenas no âmbito da psicopatologia do adulto. mais adeptos nas Américas e até na Europa. p. Weiner & Bardenstein. priorizou a pesquisa experimental. em jogo nesses quadros. Eles apontam a abordagem do DSM como vigente”. Argum. pela indústria farmacêutica. mesmo versões anteriores e propor uma única lógica classi- não as considerando. de sintomas – exterior e sem implicações com os para atingir a objetividade das outras áreas da medi- personagens em questão – facilita o diagnóstico. de hegemonia dos saberes. 7) são autores que questionam o desaparecimento interna de raciocínio clínico. seu meio e as bem como abriu caminho para um retorno e uma problemáticas que os envolvem no longo processo ascensão da psiquiatria biológica. Kernberg. serventia tanto para a indústria farmacêutica quanto por exemplo. 464-465). p. Diagnosticar deixa de ser um pro- essa denominação transtornos que variam “do menor blema clínico. Ao se proclamar como a-teórico. 28(61). já concluem esses autores. uma per. não há mais a preocupação com o que deixou de lado qualquer discussão sobre a etiologia. 2003.

em 2003. como o conjunto dos trabalhos do grupo. clínicos dos mais variados – psiquiatras. p. 2006. parcial. sua motivação última foi econômica. pretensamente. quando se propõem Houzel (2005. iniciada na versão III. Esse parecer da infância hoje subscreve as ideias do DSM-IV quanto aos “trans- tornos geralmente diagnosticados pela primeira vez Tracemos um perfil dos clínicos atuais na infância ou adolescência”. Eles sustentam uma posição de base documento logo no início declara: “pela primeira psicanalítica: “é a psicopatologia e a consideração vez na França. “subscrever à fascinação do quantitativo. 394) 2005). p. Essa afirmação desqualifica todo o conjunto de publicações e pesquisas francesas no campo da psicopatologia infantil.. psicanalistas em que há um processo maturativo do aparelho com ampla experiência e publicações respeitadas psíquico em curso. que. como base para um de imagens cerebrais” e na importância da “emer. políticas e ideológicas. transmitida com muito barulho pela mídia junto ou seja. no que se refere do relatório de uma junta de especialistas do Instituto aos quadros mais graves? Nacional Francês de Pesquisa Médica (INSERM. sua baixa confiabilidade” (Russo & Venâncio. apressadas. Golse & Houzel (2005. 2006. 393-394). no qual alertam para “os perigos que ameaçam atualmente encontramos os parâmetros do DSM-IV seguidos a psiquiatria infantil. fortemente A clínica dos problemas psíquicos graves marcada pela abordagem psicanalítica. sempre alvo de críticas por daquele dado paraclínico retirado de seu contexto”. tratamento medicamentoso e indicação de um trei­ gência de novos modelos animais” (INSERM. no percurso que traçamos. acabou tendo como efeito a “globalização esse movimento. mentais: “o trabalho dos pesquisadores poderia ser neurologistas. Argum. 111-119 . tem se firmado de leitores muito amplo ao qual estava destinado”. Quais podem ser as consequências de todo p. p. Mais além do autismo 115 a visão predominantemente biológica que o documento final e publicaram suas restrições. Saúde dos Trabalhadores Independentes (Canam). O ao público”. o documento “lhes pareceu. (INSERM. 2005. Por de pesquisas sobre a fisiopatologia dos transtornos outro. ou deste ou classificação psiquiátrica. namento cognitivo específico. Por um lado. quanto os efeitos da postura na área da psiquiatria infantil. um documento agrupa o conjunto da subjetividade e da singularidade de cada história dos dados científicos e médicos existentes sobre que formam o essencial da abordagem de todos os os distúrbios mentais da criança e do adolescente” clínicos dignos desse nome”. Psicol./jun. cuja dimensão clínica e rela- ao pé da letra. Bursztejn. que emitiu um “parecer coletivo”. como a terapêutica por excelência dos distúrbios Eles justificaram sua posição afirmando não quererem mentais (Russo & Venâncio. Bursztejn. pregando ponto de vista psíquico. Golse & do clínico e das instituições. recusaram-se a assinar a “treinar” uma criança de quem. 28(61). está fortemente ancorado Um exemplo dessa globalização pode ser em motivações econômicas. 2010 abr. com a publicação. 2005. como procuramos demonstrar da psiquiatria norte-americana”. encontrado na França. assim hegemonia do tratamento farmacológico que. é fortemente marcado que recebem crianças com graves dificuldades do por dados estatísticos e epidemiológicos. às conclu- sões epidemiológicas superficiais e às interpretações Essa visão do DSM. em termos de causalidade linear deste ou sob o pretexto de “normalizar e homogeneizar a daquele resultado da imagem cerebral. mas também pediatras – reconhecem facilitado pela coordenação dos trabalhos sobre o sinais de autismo ou de Asperger em um número imageamento cerebral e a criação de bancos de dados cada vez maior de crianças. 405) para a compreensão da patologia mental! Podemos questionar tanto os efeitos Três dos pesquisadores que figuravam da prescrição medicamentosa nesse momento nesse grupo de especialistas franceses. fundamenta a nova nomenclatura articula-se à Segundo eles. p. p. 395). observamos ao fim uma formação médica que siga essa mesma aqueles cada vez mais relutantes em formular um linha e concluindo com uma ênfase na necessidade diagnóstico claro do que acomete a criança. para a psicopatologia da infância. 474-475). 464-465). Vale ressaltar que esse parecer foi cional se vê regularmente relegada em benefício de encomendado pela Caixa Nacional de Seguro de uma pseudomodernidade que busca a objetividade. presente desde pelo menos o fim dos anos redutor e até perigosamente enganador para o grupo 1950 no campo da psiquiatria.

/jun. diferente daquela indicada para os casos de neurose como se o sistema nervoso central fosse o responsável na infância. determinação simbólica. sabemos que esse sistema constitui tão somente a direção terapêutica que será proposta. direcionamento estrutural. por razões ditas orgânicas. mas fica humano. M. mas pela cultura. que definem previamente um lugar há uma importância crucial na detecção do risco de dentro da estrutura. Trata-se. o Outro não tem essa recusa tão radical quanto no A psicanálise permite uma compreensão campo do autismo. em Proposição sobre a causalidade psíquica (Lacan. para Ora. devem combater o desamparo submetendo-se a uma dentro da estrutura familiar. entrando no referindo a uma psicogênese das psicoses. aberta a possibilidade de evolução para um outro mas pelos fatores simbólicos. é de extrema impor- único pelos aspectos psíquicos do indivíduo humano. partir do conceito de sobredeterminação em Freud. tal qual Lacan a define. Da mesma forma. não são regulados e determinante de uma posição. que não é regulado apenas pela genética. 28(61). riências internas e externas que vão pouco a pouco Sendo assim. A posição psicanalítica na qual nos base. o principal ponto a destacar é o retorno à redução da Nesse tratamento é necessário imprimir uma direção noção de “psiquismo” ao funcionamento cerebral. Fica indicado o ção às outras espécies animais. o tipo ber o psiquismo pressupõe um além dos aspectos de tratamento que a criança receberá tem papel cognitivos. nenhuma risco de a estrutura evoluir na direção da psicose se etologia seria suficiente para dar conta do elemento não houver uma intervenção apropriada. Tampouco estamos nos dependência primordial de um Outro. de uma Psicol. bem como a abertura e o aval dos Para que sejam funcionais. 111-119 . Sendo assim. quando a relação com inconsciente como o discurso do Outro. os aspectos cognitivos pais diante deste adquire especial relevo. Não basta nascer pela natureza. parece-nos que como para o conjunto do desenvolvimento da criança. Para a abordagem psicanalítica. conce. fundamental. é necessário ser esperado nem imprintings que assegurem sua sobrevivência. Argum. F. a entendido do significante. tância poder diferenciar a psicose do autismo. Freud destacou o papel das fragilidade no processo de estruturação subjetiva que palavras e dos traços mnêmicos nessa construção e pode desencadear defesas de tipo psicótico. relação transferencial e seus efeitos. nada mais se espera estruturação psicótica.116 Bernardino. relevante para os efeitos psíquicos esperados. na medida em que A construção do psiquismo para a esse só pode ser entendido dentro de um contexto psicanálise e intrinsecamente ligado ao próprio surgimento do sujeito. corre-se o risco de desenvolver uma visão simplista do acontecer psicopatológico. de propor um lugar de sujeito mais é do que a subjetividade. parece-nos que o diagnóstico se organizando para constituir um mundo interno e de psicose deve ser formulado quando se trata de uma uma realidade externa. a consti- se ao mal-estar decorrente da condição estrutural tuição do sujeito depende do lugar que a criança vai dos humanos. mas a uma campo do desejo e do amor. não têm instintos com um corpo humano. cuja precocidade é extremamente técnicas adaptativas. Portanto. que possuem um corpo mas devem ocupar no interior de uma estrutura que é preexistente habitar um mundo de linguagem. sob a égide do mal. que colocado como uma possibilidade de vir a se esta- tem nas palavras a essência de sua diferença em rela. Dessa forma. belecer e não como já estabelecido. A história de um povo. para essa criança e de acompanhá-la nos caminhos Uma psicopatologia que não se ocupa dos que tomará para dar conta dessa antecipação. dessa sujeitos em sua condição de singularidade e de desejo aposta na sua subjetividade. amos auxilia-nos a ter uma posição diferenciada 1946): são fatores puramente significantes. porque permite a indicação a não ser uma resposta passiva de submissão às de tratamento. ancorada na a superfície material receptiva aos registros das expe.. Mas esse diagnóstico deve ser do ser humano como habitante da linguagem. e antecipado em um lugar simbólico determinado. bem Do ponto de vista teórico. em sua quanto ao debate sobre o diagnóstico na infância: combinatória. necessitam de um elemento organizador. Ao mesmo tempo. Nesse âmbito. a psicopatologia refere. L. que nada antes de mais nada. quando Lacan (1953) permitiu uma maior compreensão da justamente não se trata de uma questão perceptiva noção de subjetividade através de sua hipótese do ou cognitiva como central. passa ao largo da essência humana. 2010 abr. decorrentes de uma mecânica cerebral.

através de gerações. abarca todos os sintomas descritos como carac- O processo de entrada na estrutura simbó. revela-se como formas clínicas significação fálica.. p. nem resulta desse constituir a crônica de vida de cada um. seguido de poderiam servir de eixo central para a construção um tempo de separação no qual se situa o Recalque. própria. numa ligação estreita com descreveu Volnovich (1993. no campo da conduta. 2010 abr. a que atestam as vicissitudes do desejo na criança. não se trata ainda iniciais das vivências do bebê e da criança pequena. em um desconhecimento de si que a comunicação. não há mundo que o cerca. temos uma falha no tempo afeta clinicamente todas as suas manifestações: de separação. ou seja. organizadores estruturais que aí está em jogo. de algo definitivo. Pois não basta descrevê-los e elencá- cesso que ele terá acesso ao sentido. muito mais do que um significações que norteará o campo do sentido: a conjunto de signos. das leis e da linguagem –. ao mesmo tempo singulares e um sujeito nela que possa responder singularmente avalizadas pelo grupo ao qual pertence. na medida em que recalcado. formações do inconsciente”. e a realidade exterior. antes de mais Se as vicissitudes no decorrer desse pro. Essa falta de sentido determina. outras palavras. com Lacan. mas aqui entendidos habitar o mundo humano. mesmo que nada do ponto de vista matu- singular. mesmo. 130). “a psicose na infância. Para esse autor. Em partir do conceito de falo para Freud. pela dificuldade de definir quadros nosológicos até tornar-se próprio. mecanismo organizador do aparelho psíquico. os fenômenos da linguagem e da cultura. Argum. na medida em que o Outro nele está margem do campo do sentido. cesso forem graves. Na psicose. da mensagem. Como afirma Volnovich (1993. que extrapolam os personagens da família nuclear. 45). é necessário entendê-los como significações compartilhado com seus semelhantes. cias dessa foraclusão para a criança implicam uma Somente a partir de então algo passa a ser próprio dificuldade no campo da linguagem. ou organizador dos aspectos psíquicos. propiciam combinatórias significantes ser falante perde a capacidade de simbolizar o real. As consequên. as formas clínicas são. Se esse campo que lhe permitirá encontrar uma identidade para si carece de uma organização. a partir do qual se posicionar perante si rativo esteja em falta. os acasos ela “perde o sentido do seu próprio ser”. primeiramente por Lacan ([1955-1956] 1985): os significantes que como letra e depois como significante. que cada sujeito receberá do Outro esta chave de p. uma significação para seu corpo e para o como recurso interno desse organizador. como Lacan (1958) a nomeou. tampouco suas palavras se invertem para Psicol. pelas diversas habilidades e adaptações requeridas As intercorrências nesse processo vão no processo de desenvolvimento. O processo de constituição subjetiva abrange a apro. ao mesmo tempo em que situa o lugar no não compartilha um pacto simbólico que possibilita qual ele ek-siste. pela própria definição de desse processo um sujeito. que necessita de um a chamada foraclusão do Nome-do-Pai proposta tempo de alienação para se inscrever. impedirão justamente a aquisição Entendemos. Surge Entretanto. Elemento que pelo próprio conceito de infantil que prevê uma se encontra primeiramente no exterior. barrado em do código. do corpo. deixam-na à do sujeito. enquanto que aí incidem. É no interior dessa estrutura distintos e claros. enquanto ção do sujeito que surgirá com um Outro./jun. os outros. se a criança não dispõe mesmo. vão definir processo uma definição de uma identidade para ela as especificidades da ocupação de um lugar único. terísticos da psicose e do autismo da criança nos lica é a condição necessária para o filhote humano manuais de psiquiatria geral. nada. neste representantes do Outro – campo simbólico da entrecruzamento entre os aspectos evolutivos e cultura. o Inconsciente desse dispositivo organizador das significações – é como o discurso do Outro. Podemos observar que essa compreensão clínica determinando-os mesmo à sua revelia. clinicamente. a um sistema de los isoladamente. O Outro não aparece como faltante. da subjetividade não se inscrevem. Mais além do autismo 117 família. representado série de operações psíquicas que marcarão a rela- pelas funções parentais materna e paterna. São crianças que sofrem por estarem se revela a cada formação do Inconsciente e que o fora dessa significação fálica. 28(61). um elemento infância enquanto tempo de desenvolvimento. como bem seu gozo. das funções matemáticas. através marca a psicopatologia da infância e é responsável dos outros que são significativos para a criança. É no interior desse pro. Esse inacabamento próprio da infância priação paulatina disto que vem do Outro. 111-119 . que impede a instalação do Recalque. referidos ao campo da linguagem.

Os fatores externos. sua subjetividade. um falasser. de eliminar a subjetividade. embora se defina como a-teórica. em seu trabalho sobre as ralizáveis para amplas situações e propor técnicas fronteiras da psicose infantil. nesse sem sentido mentos corretores da química cerebral. Isso reduz a compreensão da criança e de seu à psicopatologia geral. pensamos que este diagnóstico de PSICOSES Processo a partir do qual o filhote humano vai se NÃO-DECIDIDAS é um operador clínico tornar um habitante da linguagem. Portanto. Essa “foraclusão” a que assistimos CONSIDERAÇÕES FINAIS de um modo tão generalizado no campo científico reflete-se nessa ênfase no aspecto cerebral cognitivo. todo um campo de pesquisas padrões de aprendizagem adequados ou não. que leva à construção da subjetivi- divulgada amplamente através do DSM-IV. F. ou seja. um “núcleo psicopatológico” para referir-se às cate. Entretanto. nunca Psicol. com mais condizente com estas características da um desejo próprio. à concepção de um ser dotado de um psiquismo Propomos relacionar esse núcleo psicopatológico reduzido ao cérebro e seu funcionamento automático. utilizada nos manuais da psiquiatria clássica A visão clínica que sempre foi a marca e em muitas publicações. a qual norteia a terapêutica indicada e organizadores da cultura fálica. referida à psicopatologia registrada da psicanálise pretende. Para a psicanálise. na infância essa não inscrição Viu-se que a primeira abordagem – a do não implica necessariamente uma instalação na DSM-IV –. chamados estressores psicosso- para tentar pensá-lo no tempo da infância. relação com um Outro que sustenta este pro. a partir da humana. permitir ao sujeito receber dele sua própria mensa. bem como os recursos que deveriam descritivos. na contramão fundamental. com o mecanismo de foraclusão do Nome-do-Pai. desse movimento. Sendo assim. uma organização própria. clínico. procu. 28(61). referida dade. No decorrer dessa argumentação. a infância do sujeito. de técnicas na relação com o campo da significação fálica. podem interferir nesse mecanismo a partir de Abre-se. entendemos a retirada do cesso. p. pelo ponto central da diferença entre essas abordagens contrário. condiz psicose. esse sofrimento. como base diagnóstica para as psicopatologias da infância como um reflexo do momento histórico cultural atual. e promoveriam sua adaptação ao meio. mas de treinamento ou modificação de comportamento que apresentam paradoxalmente. L. Instala-se. Como já afirmamos (Bernardino. desconhecendo sua alienação. 2004. de entendimento de um quadro à luz de sua consequência estrutural de nossa condição humana origem.118 Bernardino./jun. dentro de um tempo que vai constituir termo “psicose” do manual atualmente utilizado o infantil. a noção de criança abriga o conceito de infantil. uma capacidade de simbolizar infância e do próprio processo de estruturação o mundo ao seu redor e um determinado estilo de subjetiva. sua contextualização e sua função psíquica de seres que abandonaram a natureza para habitar de defesa. E a da psicanálise. uma não inscrição do elemento terceiro. ao nascimento. 35). um mundo de palavras e de significações. A da psiquiatria de origem norte-americana. o posicionamento do clínico. 2010 abr. a noção de criança aí se encontra subsumida gorias não definidas no campo da psicose infantil. mensuráveis e econômicas de intervenção. ciais. situa-se na concepção de criança com a qual se está a foraclusão que denota a falta dos significantes trabalhando. que não está ainda pronta dagens. e cuja a propósito do sofrimento implicado nas crianças patologia deve ser então tratada a partir de medica- que se situam nesse fora de lugar. O que se gostaria de ressaltar aqui é que o gem. que implicam a entrada do pequeno lidar com a falta estrutural implicada na sua condição sujeito no campo da linguagem. ressaltar o mal-estar como a nicos. em determinados que corrigiriam sua apreensão cognitiva do mundo momentos. em suma. com critérios estatísticos e sofrimento. construída nestes mais ser oferecidos a ela e à sua família para lidar com de cem anos de existência enquanto discurso teórico. com critérios fundamentalmente clí. Argum. não havendo o reconhecimento do psiquismo como rou-se ressaltar uma diferença radical entre duas abor. objetivar dados gene- Lang (1979). alude à presença de rápidas. pois. 111-119 . M. sinais de busca desse sentido. pois isso que não está inscrito pode ainda com a tendência do discurso científico pós-moderno estar aberto a inscrições..

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