You are on page 1of 9

SÍMBOLOS, MITOS, DOGMAS E RITOS –

LINGUAGENS E EXPRESSÕES SOCIO-
CULTURAIS DA EXPERIÊNCIA HUMANA
COM O TRANSCENDENTE.
Anotações de aula - Prof. Leonildo Silveira Campos

1. Os vedas afirmam que “a verdade é uma só, mas os sábios falam dela sob muitos nomes”. Seria a
experiência humana com o transcendental de um só tipo, porém expresso por meio de linguagens e
estruturas diferentes? Entre nós os “modernos” e os “povos primitivos” há rupturas lógicas ou uma
continuidade, que perpassa inclusive as experiências com o sagrado? Os mitos, os símbolos, os ritos
e dogmas são expressões pessoais e grupais de uma experiência mais profunda que, segundo Mircea
Eliade (Fragments d’un journal, Paris, 1973, p.555) “está indissoluvelmente ligada ao esforço do
homem para construir um mundo que tenha significado”.

Os estudos de Levi-Strauss, Malinowski, Levy-Bruhl, Evans-Pritchard, nos mostram o quanto as
nossas formas de experiências e de comunicação se aproximam das culturas ditas “primitivas”. Tal
como nós, os “selvagens” têm, como assinala Levi-Strauss, “um prodigioso apetite de lógica” que
os leva a construção de “sistemas de uma fantástica complexidade, como os mitos” (Levi-Strauss, in
Mito e linguagem social, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1970, p.140). Por isso, mitos, símbolos
e ritos fazem parte de uma necessidade permanente de construir e reconstruir o mundo, dotando de
sentido o caos. Nesse sentido, está correto Clifford Geertz (in A interpretação da cultura, Rio de
Janeiro, LTC, 1989, p.114) ao assinalar que o “homem tem uma dependência tão grande em relação
aos símbolos e sistemas simbólicos a ponto de serem eles decisivos para sua viabilidade como
criatura ...” Aliás, a antropologia e a sociologia têm insistido na impossibilidade humana de se
defrontar com o Caos. Daí a necessidade de se dotar o mundo de coerência e lógica e, como nos
afirma Peter Berger, (O dossel sagrado, São Paulo, Paulinas, 1985) a religião desempenha um
importantíssimo papel nesse processo de construção de mundo.
2. A abordagem antropo-sociológica do fenômeno religioso, seguindo ou não a metodologia
estruturalista ou fenomenológica, procura localizar e estudar as representações coletivas presentes
na linguagem simbólica ou mítica desenvolvidas pelos seres humanos para falar sobre o sagrado.
Porém, desde Rudolf Otto (O sagrado: um estudo do elemento não-racional na idéia do divino e a
sua relação com o sobrenatural, São Bernardo do Campo, Ciências da Religião, 1985) todos têm
ressaltado a inadequação da razão para perceber e compreender o fenômeno religioso e o caráter

Cultrix-Pensamento.. 1993. mutilá-los. e que “um Deus compreendido não é Deus” (Tersteesgen. Certas áreas da . o mito.. “uma luta constante e mais ou menos bem sucedida para a manifestação e expressão adequadas da experiência religiosa”.coletivamente construída . ainda segundo Wach. incognoscível da divindade.16). 3. Temos que concordar com Eliade (Imagens e símbolos. em especial) nos ajudou nesse processo de revalorização dos símbolos e mitos como formas de linguagem humana. a imagem. pois os seus sons “captam não a vida (. mas que jamais poderemos extirpá-los”. Que relação próxima há entre todas essas linguagens? Tem razão os estudiosos das religiões comparadas em ressaltar o que há de comum entre elas e afirmarem que todos os fenômenos religiosos compartilham de estruturas fundamentais inerentes na mente humana? Está correta a afirmação de Mircea Eliade de que o “sagrado está na estrutura da consciência. mito e religião Porto.29).8). o impulso lingüístico do ser humano reflete. degradá-los. Martins Fontes. p. São Paulo. Editora RES. 14) diz que a nossa linguagem é uma espécie de fantasmagoria do espírito. ele constrói “sistemas simbólicos” como “instrumentos de conhecimento e comunicação”. em especial ao analisar o conteúdo simbólico presente na atividade onírica dos seres humanos. que podemos camuflá-los.. p. hoje. p. numa continua atividade humana de construir mitos e símbolos. além de usá-los para construir (via linguagem) e dar ordem a realidade que o circunda. São Paulo.7) que “o símbolo. como quer Joseph Campbell (O herói de mil faces. 1990.e não somente como “produções espontâneas da psique” e que cada mito “traz em si. recordar que no decorrer desse processo as formas são criadas e destruídas. Cabe. afirma Joachim Wach (Sociologia da religião. porque a “religião não se esgota em anunciados racionais” (p.. Certamente a psicanálise (Freud e Jung. citado por Otto. símbolos e ritos. Para Otto nós nos enganamos quando pensamos que “os predicados racionais que nós indicamos . 1991.30). que em sua essência é “diverso de todo conhecido e de todo desconhecido”. p. Paulinas. pertencem à substância da vida espiritual. Nesse sentido. entretanto. Superamos. intacto. o ser humano recusa o silêncio diante do sagrado e assim ele articula uma linguagem que passa pela poesia. 1976. Ernest Cassirer (Linguagem. Símbolos . o poder criador de sua fonte”. que não pode ser enxergado. “nenhum ato de adoração pode existir sem uma concepção do divino e nenhuma religião pode funcionar sem pelo menos uma quantidade módica de expressão cultual”.) mas apenas a sua abreviatura morta”.inacessível. isto porque. São Paulo. esgotariam a essência da divindade” (p. p. Contudo.O homem se difere dos animais por sua capacidade de criar símbolos. Por isso. optamos aqui em analisar a expressão e comunicação da expressão humana da religiosidade. e de forma alguma é apenas uma fase na história dessa consciência”? Seja como for.9). e usá-los para se comunicar ou representar a divindade ou com os seus semelhantes. aquele período racionalista e positivista no qual os mitos e símbolos eram desprezados ou então encarados como uma expressão de uma mentalidade “primitiva” e “infantil”. como algo que faz parte da cultura . que são representações de algo ausente. mitologia.

de símbolos e mitos. Como tal. É na linguagem poética que os símbolos se posicionam com maior tranqüilidade. a confusão de línguas. por exemplo. A volta aos símbolos nos leva a uma compreensão mais correta da mentalidade dos povos que os expressam e nos ajudam no entendimento de nossa própria realidade. 4. a água como fonte de vida. remetendo o leitor para aquelas origens que escapam o tempo e a história. a escada de Jacó. pois pode ser lido de inúmeras maneiras. Mircea Eliade (Tratado de história das religiões. etc. porém. Mitos . Isto. a criação do mundo. envolve um processo hermenêutico. Às vezes a linguagem mítica procura explicar ritos e costumes. de purificação ou de destruição. intrometendo estas suas fantasias às verdades subjacentes”. intuitivo. em que se dá lugar à imaginação. que para falar do transcendente. por exemplo. porque é percebido mas não explicado. não uma história no sentido moderno do termo. as escadas que atingem o céu (sacrificador nos textos védicos. Quem faz isso se esquece que o mito é uma forma de se falar sobre o sagrado e. São Paulo. ele tende a ser interpretado de maneiras diversas. da música e da arte. Para o hebreu. etc. Martins Fontes. Os símbolos fazem parte da linguagem humana.sociologia têm procurado fazer uma sociologia dos símbolos e psicólogos debruçam sobre os símbolos para procurar “ler” as entranhas dos seres humanos. e polissêmico.). uma história. empregando a criatividade da poesia. dentro do contexto cultural do grupo que o construiu. Para Platão o “mythos” é algo verdadeiro. Há uma corrente predominante de cientistas sociais que sustentam a teoria de que os textos . certamente. a torre de Babel. Yahveh “descansou” no sétimo dia. E. As discussões sobre os três primeiros capítulos de Gênesis esbarram nas concepções que as pessoas têm de historicidade. Por outro lado. isto é. Um símbolo sempre remete para algo oculto (numinoso) ao qual ele pretende expressar. Na função de substituto. o símbolo é pré- hermenêutico. uma hierofania). dilúvio). o acolhe ou com ele se relaciona. O Dicionário de Laland registra que mitologia é a “exposição de uma idéia ou doutrina sob forma voluntariamente poética e quase religiosa. as pedras sagradas (sinais e formas que atestam a presença do sagrado. um evento real. Por isso erramos quando pretendemos assumir a linguagem positivista de eliminação e desmascaramento dos mitos.Essa é outra forma de se falar sobre o transcendente ou sagrado. como afirma Paul Tillich. como não consegue expressar totalmente o ser representado. (batismo. o símbolo não pode ocupar o lugar do que ele pretende expressar. justamente porque ele antecede o discurso racional. uma forma de falar não- racional. sobretudo. 1993) aponta para vários símbolos presentes na maioria das culturas: a árvore (axis mundi. discursas sobre uma hierofania. particularmente da linguagem religiosa. abandona a linguagem ordinária. que os seres humanos desenvolveram em oposição a fala racional do “logos”. a origem da maldade humana. o descanso judaico no sábado. servindo assim de ponte entre o finito e o infinito. árvore da vida). Os mitos tentam relatar. Kierkegaard afirmava que “mitologia consiste em manter a idéia de eternidade nas categorias de tempo e de espaço”. um símbolo não pode ser esgotado por meio do “lógos” (razão).

por exemplo. Vivemos em nossa época. ISEDET. continuação do antigo culto à moça virgem. sexualidade. enxergar uma estrutura mítica nas atuais cerimônias de coroação da “miss universo” ou da “miss primavera”. educação. por meio de uma equipe de trabalhadores religiosos especializados. Para os gregos essa palavra significava “regra de conduta” ou “regra de pensamento”. trabalho.) e que dá sentido a uma realidade presente”. Roger Bastide nos recorda que o dogma é imposto e reflete a decisão de uma autoridade que delimita o espaço da linguagem religiosa. 49) que afirma que “o mito é um relato (. codificar. Livros do Brasil. redigir. Do ponto de vista da Antropologia da Religião os mitos.bíblicos contidos nos capítulos de 1 a 11 de Gênesis não são relatos científicos e nem devem ser confundidos com os métodos e linguagem desenvolvidos pela ciência. “O homem só se torna verdadeiramente homem conformando-se ao ensinamento dos mitos.. O dogma também é uma forma de se falar do sagrado.. porém esse tipo de linguagem pertence ao mundo do conceito. 1985. sistematizar as aparentemente desordenadas e ilógicas explicações mitológicas . 5. a despeito de toda a sua tradição científica um renascimento de antigos mitos. que reagem voltando para antigas explicações mitológicas. Dogmas. separando o que é “igreja” do que é “heresia”. “toda a sua vida religiosa é uma comemoração.. A tendência moderna nos estudos antropo-sociológicos da religião é apresentar o “mitos” e o “logos” como duas formas de linguagem complementares de se falar sobre o sagrado e não opostas ou antagônicas. Para eles a linguagem científica é distinta da linguagem religiosa e teológica. transmitidos e remodelados.. explicando o “porquê” e o “como” de atividades significativas como alimentação. de um modo geral. Para levar as pessoas a introjetarem tais imposições elaboram-se cartilhas.”.. p. O seu aparecimento está ligado ao estabelecimento de autoridades que determinam as distinções entre o certo e o errado e impõem o significado correto das coisas. assim como no culto à deusa-mãe de todos os homens (seria o caso do culto à Virgem Maria ou Iemanjá?). quer dizer. Podemos concluir com J. Pois.. estão associados indissoluvelmente à nossa linguagem. que continuam (independentemente das conclusões desses cientistas) a acreditar na historicidade das narrativas do Antigo Testamento quanto a esses e outros textos da Bíblia. A força dessa linguagem mítica talvez se deva as conseqüências desagregadoras do raciocínio crítico sobre as pessoas. O sagrado e o profano. s/d. Devemos nos lembrar também que os mitos apresentam aos seres humanos um “modelo exemplar de todas as atividades humanas” (Mircea Eliade.110). doutrinas sistemáticas.) um relato sobre as origens (. Severino Croato (Fenomenologia de la religion.. Buenos Aires. Podemos.. etc. meio pelo qual os mitos são construídos. toda a atividade humana só adquire sentido quando imita o modelo expresso no mito. imitando os deuses”. Dessa forma. cuja função é compilar. Os mitos sobrevivem e subsistem sob a aparente linguagem racionalista da ciência.) origens onde atuam os deuses (. catecismos.. Lisboa. pp. É claro que essa não é a posição da maior parte dos evangélicos brasileiros. dar ordem. um rememoração.

eles tendem a se tornar complexos. Jean Cazeneuve registra que rito “é um ato que pode ser individual ou coletivo. “mundo” . Wach (p. Em outras palavras. geralmente expostos dentro de uma ordem litúrgica. há ritos que se expressam mais em gestos. na medida em que os ritos são explicados por meio de palavras “adequadas”. s/d. No entanto. após a explosão inicial de carisma. O culto inclui rituais. e no decorrer do processo de institucionalização. RÉS. Assim.Cazeneuve. sacrifícios. refletindo a fase posterior de institucionalização do fenômeno religioso. Segundo ele (p. mas que sempre. sacramentos. a expressão teórica da religião gira ao redor dos seguintes pontos: “Deus” - concepções teológicas. o que faz dele uma forma universal de linguagem. Em muitos povos primitivos se crê que o ritual é particularmente agradável aos deuses e se castigam os desviantes do que foi aceito como vigente”. lei. costume ou religião como a forma correta” e que “ritual é a forma de comportar-se prescrita por costume. a formulação racional doutrina-dogmas não está no começo e sim no fim da experiência religiosa. mesmo quando é bastante flexível para comportar uma margem de improvisação.33) diz que “o que é expresso pela mente primitiva como mito é imaginado em termos de doutrina em nível mais adiantado da civilização”. enquanto outros mais em palavras. Fundo de Cultura Economica. A antropologia. Henry Pratt Farichil (Dicionário de Sociologia. Inicialmente um grupo religioso. traduzível por . Ritos. O mesmo autor acrescenta que “rito social é o modelo de conduta designado pela lei. mais ou menos simples. 6. Podemos encontrar nos dicionários especializados algumas conceituações apropriadas para a palavra “rito”.261) afirma que “rito é o ato ou uma série de atos formais ou convencionais de caráter mágico ou religioso”. possui uma coleção limitada de ritos. México. norma ou regulamento. os gestos e palavras normalmente se associam para melhor expressar o sagrado. 1949.” (J. A passagem de um tipo para outro de linguagem somente se torna possível mediante condições sociológicas apropriadas. contudo. Porém.10). Porto. Nos ritos a música. com o passar do tempo. a palavra tende a devorar e absorver os ritos. Sociologia do rito. tem observado que nas sociedades mais complexas. provocar a aproximação entre o sagrado e o profano. Podemos afirmar que o culto é o ato ou são os atos praticados pelo homo religiosus com o objetivo de agradar as forças sagradas. concepções cosmológicas. cit. Nesse caso. todavia. Em todas elas a razão é a chave desse falar sobre o sagrado e o transcendente. os dogmas nascem do esforço de tornar a linguagem sobre o sagrado racional. símbolos. em especial na sociedade Ocidental. concepções antropológicas. ou então para mantê-los afastados. coerente e lógica. “homem” . p. p. e simbólicas. permanece fiel a certas regras que constituem precisamente o que há nele de ritual. Os ritos e cultos se situam na parte mais visível da experiência religiosa. p.52). os ritos estão ligados a maneiras de agir com certa invariabilidade.

Porque. em momentos especiais de festa. Não podemos imaginar as atividades religiosas. Por isso. Esse autor disseca alguns rituais brasileiros altamente significativos tais como: carnaval. Vozes. dentro da dinâmica relação entre sagrado e profano. do qual é o resultado” porque é “só se reunindo que a sociedade pode reavivar a percepção. . tais como no nascimento. 1997) estudou. portanto.” Assim. malandros e heróis. Porém. escrita em 1909. 1968). para se reunir novamente quando sentir necessidade.) Mas a sociedade não pode manter a sua assembléia perpetuamente. principalmente nos momentos em que há tensões. desfile da semana da pátria ou procissões católicas. Petrópolis. um sacerdote ao chegar a uma padaria e dizer de um pão que está na vitrine: “isto é o meu corpo”. políticas. Turner.R. associativas ou de simples convivência sem a presença dos rituais. Leach. o ritual ocupa um papel fundamental nesse processo de representação. riscos de rupturas ou possibilidade de mudanças no status. 1982) estuda o dilema sociológico da cultura brasileira à luz de uma teoria dramatúrgica. Petrópolis. A representação do eu na vida cotidiana. 1978) tornou consagrada a abordagem dos ritos como um fenômeno social muito mais amplo do que o ritual sagrado ou mágico. a sociedade ao buscar a sua continuidade na integração dos indivíduos. O ritual faz parte da vida e de suas seqüências formais.” (Formas elementares de vida religiosa. Perspectiva. se considerarmos a sociedade como um sistema de comunicação. ainda segundo Durkheim. 1979). gestos e doutrinas) que dá sentido ao ato dramatizado pelos atores. casamento ou morte. Vozes. em sua obra clássica. como quer E. São Paulo.Leach (Repensando a antropologia. é que a sociedade separa tempos e espaços apropriados para os rituais de integração.Goffman. Dessa forma.. Zahar. 1989. Para Durkheim “o rito exprime o ritmo da vida social. ela se dispersa. o rito é uma forma de falar sobre o sagrado que deve ser dramatizada pelos fiéis. Há um script (mitos. nada acontece. Dumont e outros antropólogos. “o que constitui essencialmente o culto é o ciclo das festas que voltam regularmente em épocas determinadas. não podemos ligar o estudo dos ritos apenas aos contextos religiosos ou mágicos. Les rites de passage (Os ritos de passagem.cada cultura de uma forma peculiar. Paulinas. Vozes. 419). As exigências da vida não lhe permitem permanecer indefinidamente em estado de congregação. no jogo entre o ordinário e o incomum. Roberto Da Matta (Carnaval. São Paulo. Arnold van Gennep. Isto é. E. elabora e mantém os ritos. Rio de Janeiro. Por isso. o sentimento que tem de si mesma (. podendo ser expresso com mais facilidade se adotarmos uma postura dramatúrgica da sociedade (cf. Mas. palavras.. Claude Rivière (Os ritos profanos. p. É graças a ritualização que a sociedade integra os indivíduos em seu interior. se apoiando em Gennep. Aqui a sociologia coloca o ritual religioso. na missa essa expressão adquire uma outra conotação. Petrópolis. produzindo assim solidariedade e coesão entre os seus integrantes.

com muito sucesso.destinados a aproximar o adorador do ser adorado. Em perigos de incertezas cresce a necessidade de se definir regras de ação coletiva. Os ritos podem ser classificados da seguinte forma:  ritos preliminares . O ritual se posiciona entre a dimensão ordinária e extraordinária da vida.holocaustos. Nesses casos os ritos tem por finalidade aplacar a angústia e ansiedade criada nos seres humanos pela sua passagem no tempo.  ritos de união com as forças sagradas .  ritos de expiação . Podemos citar o nascimento. os ritos de exibição de uma adolescência marginal. eliminando. assim como também de novos movimentos religiosos fundamentalistas e conservadores. em tempos como esses. posse de governantes. o cerimonial do ato de comer. Rio de Janeiro. Eles oferecem balizas para a reorganização do comportamento humano que foi atacado pelas incertezas decorrentes do aumento do conhecimento científico e dos processos de dessacralização do cosmos.que servem para facilitar a passagem das pessoas de um estado ontológico para outro. Os ritos. Em outro texto. as regras de apresentação do corpo. 8.etc. expiando as faltas ou pecados que os separam. a religião e magia embutida nos ritos do esporte.que servem para expressar a separação de pessoas para as forças sagradas (dar um filho para Deus. Rivière ( As liturgias políticas. Nessa categoria podemos incluir as festividades do final de ano. Talvez essa característica de nosso tempo explique o crescimento de religiões e rituais públicos. Mircea Eliade observou que a “volta individual à origem é concebida como uma possibilidade de renovar a existência de quem a empreende”.  ritos propiciatórios . coroação de reis. etc.que buscam levar os adoradores a uma renovação periódica de suas forças e das forças cósmicas.  ritos representativos e comemorativos . 1989) estuda os grandes rituais litúrgicos (religiosidade profana?) presentes nos desfiles nazistas. (seria a eucaristia um banquete desse tipo? Como classificar o ritual dos canibais brasileiros?). tais como: os microrrituais da vida infantil. também importante. alguns ritos da vida moderna.  ritos de passagem . o casamento e os ritos funerários.). orixás. a ritualidade no cotidiano na empresa. Imago. etc. o trote de calouros como um rito iniciático. 7. por exemplo). são botes salva-vidas. fascistas.quando se oferece ao sagrado alguma coisa para remover as manchas e pecados (exemplo: o bode expiatório. a circuncisão. sinais de que . festividades comunistas ou comemorações de datas nacionais. e assim por diante. a passagem de alguém por uma penitenciária. comida para os deuses.

se tornando algo meramente mecânico. Por isso não é menos necessário proteger o sagrado de todo o comércio com o profano. “ilhas de certezas” existem num mundo de dúvidas e incertezas. Mas. 1988. invadindo o profano com a sua presença (hierofania no tempo e no espaço). É aqui que surge a necessidade de barreiras para separar ambas as dimensões de interferências mútuas. 10. portanto. evitando que transgressões coloquem as coisas de cabeça para baixo. Além do mais. p. o gado não procria. uma energia perigosa.21). o contágio com o sagrado traz um risco para o ser humano que se sente atraído (fascinans) ou ameaçado (tremendum). pois “um organismo não preparado é incapaz de suportar uma tal transferência de energia” (p. com efeito. como todo artefato cultural. Não podemos nos esquecer que os ritos. “a força que o homem ou a coisa consagrados encerram está sempre pronta a derramar-se para o exterior. 11. afirmava Durkheim. 9. albinos) e colocam o numinoso a parte Há um risco nas misturas entre sagrado e profano. Por isso. Edições 70. é como administrar. ao mesmo tempo. o sagrado representa. a escapar-se como um líquido. assim como também podem se distanciar da atual realidade dos adoradores. evolui. Lisboa. Como tal. sendo esta a função dos ritos e dos interditos. Assim também poderíamos explicar o ressurgimento de práticas mágicas e de rituais até então considerados esquecidos pela cultura Ocidental. por outro lado. Nessa mesma linha Caillois acrescenta que “sob a sua forma elementar. a doença e a morte pode assolar uma determinada região. Quando um tabu é violado a terra pode deixa de dar os seus frutos. Com isso os ritos evitam a . vem até objetos e pessoas. Quando isso acontece. faz-lhe perder todas as suas características específicas. vez ou outra. modifica ou se transforma ao longo do tempo. A experiência religiosa está intimamente ligada a separação entre sagrado e profano.23). e os ritos procuram organizar a vida. eles deixam de motivar ações e comportamentos.22). mantendo as coisas devidamente separadas. esvazia-o de uma só vez da virtude poderosa e fugaz que ele continha”. os ritos assimilam novas formas de linguagem e de expressão social. eminentemente eficaz” (p. transformando o sentido das coisas. pela presença dessa força numinosa. altera o seu ser. a irrupção do “numinoso” (para Rudolf Otto) ou da “hierofania” (para Mircea Eliade) provoca impureza que ameaça a ordem natural das coisas. arduamente manejável. ficando apenas como uma repetição de algo cujo significado se perdeu com o passar do tempo. a descarregar-se como a eletricidade. pois. Porém o sagrado. Os tabus evitam o insólito (nascimento de gêmeos. A questão. neste ou naquele lugar. incompreensível. Este. Os tabus servem para manter o mundo dentro da ordem desejada pelos seres humanos. conforme escreve Roger Caillois (O homem e o sagrado. acima de tudo.

esvaziando então o primeiro no segundo uma parte de seu conteúdo e podendo os homens. agir sobre os seres. A festa é o momento no tempo e no espaço que possibilita a reconciliação entre ambas as esferas. op.” . Os ritos seriam então as formas consagradas de se obter uma aproximação vantajosa para os seres humanos. cit.211) escreve que a festa é “o momento e o processo pelos quais o Grande-Tempo e o tempo normal comunicam. 12. Dumézil (Temps et mythes. quando ela existe. graças a existência dos tabus e dos interditos. mancha. A separação entre o sagrado e o profano é mantida. portanto. apud Cazeneuve. forças e acontecimentos que preenchem o primeiro. e amenizam a ansiedade quanto ao futuro (percebido com ameaça). neutralizam essa mancha. devido a esta osmose. p.