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Meras observações sobre "Desonra", de J.M.

Coetzee*
Por William Lial

O livro do sul-africano J.M. Coetzee, Desonra (1999), escrito em linguagem direta, com um narrador
em terceira pessoa, que muitas vezes se confunde com as ruminações e conjecturas do narrador,
David Lurie, é um livro forte, sem grandes rodeios ou verborragias, apesar dos constantes vagares
sonhadores de seu protagonista. Quanto a este, podemos dizer que sua história segue em dois
estágios, duas frentes: a primeira, recheada de suas sensações perante a vida e, principalmente,
perante o sexo, e os relacionamentos homem/mulher; a segunda quanto a sua estada com a filha,
mais precisamente após a agressão sofrida por ambos, que muda todo o desenrolar da narrativa,
causando uma guinada no texto, psicologicamente decrescente, para outro caminho. Digo decrescente
porque tudo se torna mais difícil a partir daí, tanto para Lurie, o protagonista, que já passara por maus
lençóis antes de lá chegar, quanto para Lucy, sua filha.

Já o livro, como um todo, divide-se em três frentes: as duas que já citamos, ambas relacionadas
diretamente ao protagonista, mais uma terceira, a relação dos negros, autóctones da África do Sul,
versus brancos; ou se preferir, negros, sob anos de exploração, versus brancos, exploradores –
questão que somente surge na narrativa depois da chegada de Lurie à fazenda da filha.

Tendo essa separação como base para as ramificações do que se passa na narrativa, podemos seguir
em frente, percorrendo os três estágios que propus.

Primeiro estágio

David Lurie é professor de pouco entusiasmo por dar aulas, mas profundamente dedicado à arte, à
literatura, e sofre por não ver em seus alunos o interesse que gostaria que tivessem pelo que ensina
(uma sina de muitos professores; senão de todos). É autor de alguns livros de crítica literária e se
encontra imerso, no momento, na obra do poeta excêntrico e romântico Lord Byron.

Lurie é um homem que se mostra um tanto vazio, um solitário a viver de aventuras sexuais com
prostitutas ou de casualidade. “No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et
volupté” (p.8; grifo do autor), diz ele sobre o dia em que se encontra com Soraya, a prostituta. É
escravo da própria lascívia e dos desejos que seriam incontroláveis, se desejasse os controlar, mas não
deseja, sente-se livre para saciá-los e os sacia. As mulheres são um meio para o seu prazer e luxúria.
Sobre Soraya, diz que “é perfeitamente satisfatória”, nada mais. Satisfatória apenas. É tudo, simples
assim.

Como conquistador, procura sublimar a mulher, elevando a autoestima da “presa” com elogios que
parecem medidos para a tentativa de seduzir: “a beleza de uma mulher não é só dela. É parte do dote
que ela traz ao mundo. Ela tem o dever de repartir com os outros” (p.24), diz a uma de suas alunas
quando, ao convidá-la a dormir com ele.

Contudo, uma questão bastante forte no livro, e em Lurie especificamente, é sua submissão às
sensações, o que é diretamente exposto através de muitas passagens no livro, tais como: “Será que
podem [os velhos] ser condenados por se agarrar até as últimas ao seu lugar no doce banquete dos
sentidos?” (p. 32), pergunta-se, referindo-se aos velhos que continuam presos aos seus desejos
ardentes, onde ele também se vê pertencendo em breve. Ou em: “Uma última chama dos sentidos,
antes de se apagar” (p. 35), quanto a sua relação com Melanie Isaacs, a aluna em sua cama; o que
vale outra observação: ele pensa isso quando perguntado por Melanie se pode passar uns dias em sua
casa, ao que confirma que sim, mesmo pensando na possibilidade desse relacionamento ser um
escândalo e sua última aventura, como fica claro na frase acima. O interessante é que é exatamente o
que ocorre, como veremos.

concluído que em Wordsworth o equilíbrio está na imagem sensorial funcionando como um meio de “ativar a ideia que está enterrada mais fundo no solo da memória” (p. Trata-se de um poema que seria uma introdução a The recluse. quando a Alemanha nazista estava no seu auge. “ver a amada com a fria claridade do aparelho visual? Talvez seja melhor deixar um véu sobre o olhar. numa de suas aulas. O assunto é uma das obras do poeta da natureza William Wordsworth e sua poesia sensorial. as harmonias do Prelude ressoam dentro dele” (p. Enfim. O trabalho é uma reflexão poética sobre o próprio sentido de sua poética e vocação. gostar do que leem. como na sua famosa obra “Os pilares da sociedade”. 30). um caos na imagem e no ambiente. Falando sobre a imaginação. que já citei acima. Lurie. Enterrado no trabalho de professor e crítico literário. com luxúria. divina. além de ultimamente estar se dedicando a escrever uma opera sobre os dias de Lord Byron na Itália. diz o narrador sobre a ligação de Lurie com o poeta inglês. como interpretavam os alemães. 20). voltado para a natureza e para a relação do homem com esta. os quadros de Grosz têm muito da própria vida de Lurie. a realidade dura não o atrai. e que é um de seus preferidos. as calças dele nos tornozelos – e conclui: “Depois da tempestade”. quem sabe. tema constante no longo poema em prosa autobiográfico e filosófico The prelude. diz ele à jovem Melanie. ou Crescimento da mente de um poeta. você quer mesmo”. Nesse momento. constantemente compara suas ideias e situações que vivencia a livros que leu. e como estas se desenvolveram ao longo de sua vida. bem com a desarrumação que se encontra depois na sala: uma tempestade dos sentidos. é considerada por muitos como a maior obra-prima de Wordsworth. 27). onde todos são retratados de forma autoritária e esnobe. 29). Em certo momento do livro. William Wordsworth foi um autor inglês do romantismo. da sinestesia e da cinestesia. com desenhos grotescos numa crítica à sociedade alemã da época. Outras duas proximidades ainda se dão entre Lurie e Wordsworth. A segunda: a filha de Lurie tem o mesmo nome do poema Lucy de . The prelude é uma obra extremamente pessoal e reveladora sobre os detalhes da vida de Wordsworth. que muito tem de estética. E esse afastamento da realidade só começa a ser quebrado quando o grande evento catastrófico acontece na fazenda de sua filha. Seus quadros expõem o mundo alemão de forma torpe. Diz ele aos alunos: “Os grandes arquétipos da mente. (Georg) George Grosz (1893 – 1959) foi um pintor alemão expressionista e dadaísta. um deles com a suástica na gravata. as sensações são um forte atributo para a sua aula. toda a sua visão de mundo baseada nas sensações –: “Agora. “Wordsworth é um dos meus mestres” (p. nunca terminado. em sua casa. o desejo é uma forma de sensação que ele aplaca com seu consumo de sexo. a instantes e citações como quando acaba de se deitar com a jovem aluna e observa os traços revelados na sala do ato – calcinha enrolada no chão. Mas também. A saber. defendendo uma escrita mais coloquial que aproximasse o homem do texto. além disso. ele pensa: direto das páginas de George Grosz” (p. a sua arte degenerada. E sua busca (busca do poeta inglês) é como fazer as duas. Então segue no mundo dos sentidos versus imagem visual. imaginação pura e realidade. uma vez que incorpora o espírito do romantismo tão bem. coexistirem. Visão conflitante em Lurie que tanto ver a mulher com quem se deita como um objeto do desejo quanto com um ser dotado de beleza divina que merece ser admirada e consumida. busca desnudar o poema e sua mensagem. Há ainda outros autores que enriquecem a personalidade do professor como William Wordsworth (1770 – 1850). pergunta aos alunos. as ideias puras.Em suas observações e deduções há um grande apelo sinestésico que muitas vezes se aproxima de uma aula de estética. do sensorial. 20). tenta atrair a atenção de seus alunos procurando fazê-los entender e. obra marcante para o professor: “Desde que se conhece por gente. Enfim. bem como ligado ao próprio tema da poesia. para conservar viva a forma arquetípica. da amada” (p. A forma como apresenta a poesia em questão segue o caminho estético das sensações. A primeira: o poeta inglês também foi casado e teve amantes. nossa memória. E provoca – aqui o professor revelando toda a sua preocupação com os sentidos. 30). e suas formas simplistas e torpes tem muito a ver com o ato sexual entre Lurie e a garota – ato que mais parece um estupro –. Outro ponto bastante interessante em Lurie é a mistura de sua vida à literatura. veem-se usurpadas pelas meras imagens dos sentidos” (p. tão sensorial quanto ele.

por assim dizer. nos primeiros momentos do livro. “De forma que tudo o que lhe fosse feito. Mas eis que a tragédia acontece. Com sua jovem aluna de 20 anos o professor sofre seu primeiro grande baque no livro: o escândalo público e acadêmico e a demissão forçada.Wordsworth. no charme cínico de seus protagonistas. amor. morrer por dentro enquanto aquilo durava” (p. de forma invertida – nele a mulher é que se relaciona com o espírito do amado –. Ele não aprova suas escolhas na vida. de certa forma. Um grande poeta britânico. de longe” (p. até “deixa que ele a leve para a cama e tire sua roupa: até o ajuda. o poeta se relaciona com a moça mais como um espírito da natureza do que como um ser humano. aos bens e à selvageria. Tereza. o ato. é outro literato constante no livro. 127). E acaba se refugiando na fazenda da filha. que parece se voltar contra os outros e contra a sociedade. 33). um enlace que dura pouco na narrativa. amante de animais e da natureza vivendo uma vida “cheia de tolices new age” (p. mas não o deseja. em meio ao fedor das penas de galinha e maçãs podres. [. um incômodo tolerado. mas com o espírito de Byron. devido aos conflitos existências e morais. que alcançaram grande sucesso nos Estados Unidos. Sua semelhança com Lurie se dá em vários caminhos: no pessimismo romântico. devido à angústia e aos valores históricos. sofre processo. 33). desvia-se dos seus beijos e olhos. Uma das partes mais ricas do livro. entre uma discussão e outra. Lord Byron (1788 – 1824).. ele sente o seu interesse pelo mundo escoando de dentro dele. se enquadram na visão que o próprio Lurie tem do mundo. o professor David Lurie está envolvido com a prostituta Soraya. Apesar disso. Por esse envolvimento esdrúxulo e sem sal. não havia qualquer resquício de amor entre os dois. o ocorrido o deixa “profundamente chocado. de forma impessoal. O termo “aquilo” coloca o sexo com Lurie na posição de algo abjeto para a moça ou. “Um clima mais irmãos Marx” (p. Contudo. relaciona-se não com o homem. como Don Juan (à semelhança do próprio Byron e um modelo para Lurie) e na vida extravagante povoada de amantes e separações. os temas dos irmãos Marx. 33). algumas alegorias que representam a realidade da África: um branco vivendo na África do Sul. fosse feito. satirizando instituições como a alta sociedade e a hipocrisia humana. gota a gota” (p. viúva do poeta Byron. Donos de um bizarro senso de humor. mesmo no sexo. Quanto a Lurie. autóctone. Há também referência aos irmãos Marx. Vale ressaltar que nos poemas de Lucy. natureza. porém. Sua relação com ela não é das mais amorosas. Aqui alguns sintomas se fazem presentes. Trata-se de uma série de cinco poemas com ideais abstratos de beleza. onde está . 32). Para ele. 33. o que reconheço como seu segundo estágio. num estado de sonambulismo: após o ato ela entra na banheira “de olhos fechados como uma sonâmbula” (p. alguém sair da cidade e de suas possibilidades culturais para viver no campo comete um retrocesso. grifo meu). ela é estuprada e ele queimado.. ele se saciando. visita de namorado que mais parece um marginal. pede a diretora à Melanie. Quando se deitam ela não resiste às investidas dele. que ela aceitava distante. e um negro. citados pela diretora da peça teatral na qual a aluna/amante de Lurie atua. contudo com reservas.102) como seus amigos tratadores de animais. desejo e morte. vão vivendo. E este. na rebeldia contra as convenções morais e religiosas. levantando os braços e depois os quadris” (p. comediantes americanos filhos de imigrantes judeus. no mínimo. A casa da filha é assaltada. que vê suas terras nas mãos dos conquistadores. sem sua participação. e um dos mais influentes do romantismo. E tudo acontece como se a jovem estivesse em transe. visita do pai da moça revoltado.] Largado numa cadeira de plástico. ex-hippie. “Como se ela tivesse resolvido ficar mole. o que nos remete ao projeto musical de Lurie que. diz o texto. uma moça fria e distante. dono de terras. 34). Partindo para o enredo. Ela. mesmo que não seja estupro é “profundamente indesejado” (p. Logo o professor encontra a aluna Melanie Isaacs e seu foco muda de direção. O fedor que se encontra ao seu redor. sofre vergonha e desonra. Segundo estágio Na casa da filha é bem recebido.

exemplifica-se na sua relação com Bev Shaw. Tudo indica que. e se esse for o preço que é preciso pagar para continuar?”. Na ópera. como se costuma dizer. e sua fragilidade não são tão diferentes do professor conquistador que se arrasta derrotado pela vida. ela toma como seus. possivelmente. do que passou na agressão –. dando voz a Teresa. conclui: “Depois da carne doce e jovem de Melanie Isaacs é isto o que me resta. e ele. Petrus. assumindo também a voz do poeta. como se nela vingassem toda uma história de escravidão. um tanto esfacelada. “Talvez eles entendam assim. Após transarem. Chega a se empolgar com tudo. ele diz. É com isto que tenho de me acostumar. Lucy não.. O roto ajudando o rasgado. que defende “sua gente”. seguir numa vida miserável de submissão aos seus agressores como se com isso expurgasse a culpa de seus antepassados por todas as desgraças provocadas pela invasão dos brancos naquelas terras. tramou contra ela e se torna um inquilina em sua própria terra. mas pela ira dos estupradores. ou filho. se submete numa determinação surreal. com o qual Lurie se sensibiliza. homem dentro da casa saqueada. Bev é para ele um “isto”. Teresa conversa com Byron. sentiu a raiva. 214). Mas o absurdo não para por aí. “É uma carga para a qual ele não estava preparado” (p. enquanto tudo isso ocorre. “Assim será daí por diante: Teresa dando voz ao seu amante. encontrar uma semelhança com o próprio David Lurie e sua vida. um “isto” que somente um homem “em fim de carreira” como ele possuiria. No emprego do “isto” sua velha forma de ser duro e desprezível. isto e até menos que isto” (p. de uma fuga das últimas torturas. da miséria onde se vê. Porém.. Mas ainda assim ele vê-se derrotado. 172). um deficiente – além. Segundo ela. acreditando que está. Se consideram cobradores de um débito. parecem em conflito dentro de si: “Curioso que um homem tão egoísta como ele possa estar se oferecendo para servir a cachorros mortos” (p. crimes que parece ter se dado conta com o choque que sofreu. E a situação toda se torna absurda. é exatamente isso o que faz. diz o narrador reproduzindo o que se passa na cabeça de Lurie. mas de forma pessimista. na verdade. por falta de coisa melhor” (p. podemos traçar um paralelo. A atividade de Lurie com os cachorros. esse acontecimento afasta ainda mais os dois. o ódio nos seus agressores enquanto a violentavam.“largado”. de alguma forma. já que se encontra morto. Os estupradores são ligados ao caseiro e vizinho de Lucy. a desonra de deitar-se com uma mulher indesejável. o estado do cachorro. da sua ópera. de Petrus –. talvez eu entenda assim também. Sua culpa pelos crimes do passado. ajudando a matá-los. claro. sua relação com a filha piora. longe da mulher ideal. Se voltarmos ao que este disse antes sobre como se encontrava – largado.” (p. sonha com o sucesso. 128). como homem. E quanto à sala onde tudo . e sua proximidade com um deles. enfrentando o problema. alguma coisa muda em seu pai. grifo do autor). que tenta compor e que canta diariamente na sua casa. Por meio da música parece viver em transe com o espírito de Byron e as lamentações da viúva Teresa. Tudo parece ter sido armado para tirar Lucy da terra ou lhe aplicar uma lição. ela diz. cobradores de imposto. Sobre o cachorro doente. e a cobra era Petrus. sabendo que não passa de um exercício de esperança. casando-se com o criminoso e fazendo parte da sua família: “E se. dá o tom de seu estado. Alegando que não quer se render nem se dar por vencida. ela criou uma cobra em casa. Com o ocorrido. fraco. entregando-se a mulheres que jamais desejou –. e que mencionei alguns parágrafos atrás. ele ainda consegue viver um novo momento: a composição. que sempre achou feia e disforme. prefere a vergonha. 186. ao lado dos cães e da sujeira. da sua obra musical. Um “isto” também é a situação. Eles acham que eu devo alguma coisa. esses crimes. pergunta e responde. não pelo estupro. 177. Enquanto David Lurie tenta arrancar a filha daquele lugar e entregar um dos culpados à polícia – cunhado. sua deficiência. ou no canil. Por que eu poderia viver aqui sem pagar? Talvez seja isso que eles dizem a si mesmos. E sua derrota pessoal. Entrega sua propriedade àquele que. grifo meu). e assim se rende. e sobre a sala onde trabalha ajudando e dando fim aos cães. encontrada saqueada quando a ela regressa para uma curta temporada. garanhão. a tratadora de cães. das mulheres de sua vida. Enquanto isso. arrastando o traseiro no chão para andar.

esta se assemelha ao mundo onde Lurie sente viver.]. apesar de ser a casa. 254). pronto para sair flutuando. encontraremos o professor se vendo partir. 131). Algo acontece naquela sala. E não ficam assim os cães depois de mortos – secos. ele pensa). por como ele sempre a viveu. desistiu não só de não morrer e de resistir à morte. Assim como expira a vida dos animais naquela sala. de esperar. com sua alma secando? “Pode levar semanas. David Lurie.. O sangue da vida está abandonando seu corpo” (p. fala seu nome baixinho. e aceita se sujeitar.ocorre. ele e o cão. submeter-se aos agressores como para realizar um equilíbrio e uma compensação. ‘Não vi você chegar’”. vislumbramos um novo começo entre ele e a filha. derrotado e ludibriado ao entrar no mundo como os cães entram na sala: O que o cachorro não entenderá nunca (nem num mês inteiro de domingos!.254). mais leve que uma casca de arroz. ocorre antes da cena da entrega do cachorro deficiente. [. é que se pode entrar numa sala absolutamente comum e nunca mais sair. a dele também está seguindo o mesmo caminho. mesmo com todo o absurdo e o inimaginável da situação. algo não mencionável: ali a alma é arrancada do corpo. Diante disso. Lucy se . e vivendo num apartamento alugado. Então. seu interesse pelo mundo. mas de viver. por que lutar pelo cão. o que seu focinho nunca lhe dirá. quebradiço e que se transformará em pó. Afastado da fazenda de Lucy. pode levar meses até secar inteiramente. a observa. ou parte de uma. sorri. nesse ínterim. um novo começo” (p. esvaziou-se. depois o repete mais alto e “‘Lucy endireita o corpo. 128). na última página. quem sabe apenas aceite os fatos da vida e siga com o que tem. Mas também podemos ler a questão com outra perspectiva. não mais com a cara destruída de antes. 127-128). A filha está diferente. 256). se vira ligeiramente. mas está secando”. a morte que sem dúvida virá para ambos. São dois motivos para a sua derrota: a morte que lhe virá e a vida que segue desvalorizada por tudo o que ocorreu. Terceiro estágio Agora vamos ao último estágio: o racismo e a colonização num país onde. depois é sugada para longe e desaparece. pronto para sair flutuando” (p. já está perdido. por que se enganar se tudo dará em nada? Ainda vivo. paira brevemente no ar. ele entrega o cão doente à Bev Shaw para a morte: “‘Achei que ia deixar esse para a semana que vem’ diz Bev Shaw. ao simplório de uma vida que nunca quis para si.’” (p. No sorriso de Lucy. sentencia. ‘Vai desistir dele?’ ‘É. Lurie. à morte. Lurie não está vazio apenas porque se aproxima da morte. Vou desistir. Apesar de tudo. Lucy se vê devedora na África. nos termos que comentamos anteriormente. mas porque sua vida. quebradiço ao contato. 255) E não é assim que ele se sente. ‘Oi’. cascas vazias e quebradiças que. Ou ainda. esse momento de possível esperança de um final feliz. Ao chegar à fazenda. ele. por traz dela. numa terceira perspectiva. pelos horrores gravados na história e na memória dos filhos daquele país. Entregar o cão é entregar a si mesmo. por Lurie. diz. Se observarmos a sua descrição do que ocorre na sala e de como os cães partem para a morte. onde se tira a vida dos cães. origem dos colonizados. Mas lembro que isso. e assim entrega-se ao vazio do momento. mas que para ela se encontrou jogado (ou teria se jogado ele mesmo?) e subjugado. Desiste de manter o animal vivo. está a semente dessa esboçada possibilidade de recomeço. sem alma. ao serem incineradas tornam-se leves como arroz e podem sair flutuando? “Seu prazer de viver expirou. se torcendo e contorcendo. como era antes. “uma nova base. de lutar por algo. continua. “Quando isso terminar”. “ele [seu corpo] será como uma casca de mosca numa teia de aranha. como já parece ter resolvido e se definido. acabado. faz nova visita e é recebido pela filha com um sorriso. agora parece “a imagem da saúde” (p. acabou. ao fracasso. o fim. na recepção. Será incompreensível para ele essa sala que não é uma sala. Com a violência sofrida. E os dois parecem prontos para recomeçar. no final do livro. “os cães são criados para rosnar ao menor cheiro de um negro” (p. de protelar por mais uma semana o inevitável. mas um buraco por onde se escorre para fora da existência (p. Lurie é o cão doente que logo estará vazio..

São Paulo: Companhia das Letras. os números das páginas que citei no texto podem ser diferentes das páginas dos livros em outra edição. enfim. José Rubens Siqueira. a desonra é tudo o que o ser humano é capaz de fazer e passar numa vida que não parece estar completamente sob seu controle ou que ele controla mal. deixo-os apenas como os citei na comparação com Lurie.S. Com a agressão. na situação dos animais. tudo o que se passou na história. o que vai aqui. na demissão da universidade e sua exposição pública. A desonra está nas mulheres que Lurie parece dominar e usar. nas mãos dos filhos legítimos da terra. em inglês. Por fim. sua cultura. dentro de toda essa complexidade. disposta a pagar por um crime que não cometeu. como antes foram forçados e submetidos. o dissimulado Petrus. Diante disso. Dessa forma. vexame. ontem. ainda há os bichos. mesmo que ele seja a sua honra. nada mais li. Por isso.: Antes de escrever esses vagos detalhes sobre o livro de J. vergonha e desonra (nome dado ao livro em português). nenhuma crítica. na vida que Lucy e ele passam a viver. desculpem se parecer vago em alguns pontos. submetendo a mulher branca. J. e mesmo antes ou depois de ler o livro. seus filhos mortos. O ataque não é uma simples selvageria (mas selvageria não deixa de ser). na situação da aluna e no que ela e sua família lhe impõem. z desonra está em todo lugar. nas suas mãos. Trad. observações ou coisa que o valha. torna-se senhor da terra. um controle. Coetzee. comparados aos homens. Quanto ao título do livro. um caseiro que cuidava dos cachorros e que se autointitulava cachorreiro. não tive tempo para maiores projeções. como senhoril. ao seu poder.M. maior representante de uma nação e de sua cultura. ou se julgam viver. portanto. na situação dos negros no seu próprio país. Querem o que é seu de volta ou o domínio daqueles que vivem sobre suas terras. 2011. Disgrace. Nada é de graça. escrevi este texto. a se submeter a eles. os brancos se apossaram sem piedade e impuseram suas regras. tudo volte para onde deveria estar. uma vingança. e para tudo se paga o preço. aquele que começou na história como um simples empregado. P. ensaio. Portanto. resenha. invasora. oprimidos que se vingam coma selvageria dos opressores e que lutam por remediar erros do passado. o livro expõe alguns graus de realidade e vida: a luxúria dos que vivem acima das regras. como já comentei antes. Mas espero que possa ajudar no debate de hoje. *O livro que usei é uma edição especial lançada pela editora para comemorar seus 25 anos. é uma demonstração de força. sofridos. M. uma demarcação de território como fazem os cães. na sua relação com sua aluna.submete. vai de primeira e única lida e observação. Desonra. Suas terras foram invadidas. forçam a branca a se render. no que sofre a sua filha. mas estão no texto mais como paralelos destes do que como protagonistas da história. Eis a minha: COETZEE. suas mulheres abusadas. . Li o livro de Coetzee na quarta- feita passada (7 de maio) e na quinta. a história por traz da história. E talvez assim as coisas assumam o seu lugar certo na história. Desculpem-me também a demora em ler o livro e postá-lo (estive sem computador até esse fim de semana). a “Coleção Prêmio Nobel” (ver capa acima). portanto. uma sequência de atrocidades cometidas contra aquele povo. quer dizer desgraça. sua língua. os subjulgados pela sedução ou pela força. Concluindo Além desses estágios.