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c Thomaz W.

Mendoza-Harrell

Da Pintura Rupestre à Imagem Digital fig. 1.) pois certamente a imagem precede a palavra escrita na or-
dem evolutiva da linguagem. Prova disto, é forncedida pela evolu-
ção das escritas iconograficas como exemplificado pelos codices

A
descoberta da fotografia não aconteceu de uma hora para
outra como frequentemente se pensa. Como veremos mais pré colombianos ou pelos hieróglifos egipcios. (ver figuras 2 e 3. )
adiante, a busca do meio fotográfico levou muitos anos para
se concretizar. A verdade é que o desejo da fotografia ou alguma
coisa semelhante, parece ser intrínseco ao homem -um instinto qua-
se-. O desenho e a pintura na sua forma mais básica não são nem
mais nem menos, do que manifestações do grande desejo de RE-
TRATAR O MUNDO que todos nós possuímos desde a infância e
que é comum tanto nos primitivos quanto nos civilizados.
Historicamente, sabemos que mesmo antes de existir a es-
crita, os primitivos já se comunicavam por meio de desenhos (Ver
Foto: Vanessa F.M. Harrell , 1998

Fig. 2. Fragmento do Codex Bodley
exemplificando a natureza iconica da escrita
pré-colombiana mexicana.
Embroa com outros propósitos e em
níveis completamente diferentes presenciamos
hoje, um retorno aos icones como simbolos
indentificatórios. Exemplo: janela do “windows”
à direita.

figFig. 1. Fotografia de Pinturas Rupestres nas cavernas de Jataí, Goiás. aguns Codex Bodley em : Fernando Benitez Los Indios de Méxi-
co Ed. ERA México D.F.1967
ahados arqueologios neste sitio remontam s mais de onze mil anos. Poderiamos
refletir de como seria difícil fazer uma descrição precisa destes desenhos se
não existisse a fotografia .

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J. Sobre isto. imagens produzidas à mão. Note-se que esses tiva. Arquivo Bettman. As imagens da câmera apa- Fig. “ Quando foi anunciada a fotografia em 1839. a humanidade estava fadada a descobrir a fotografia ou alguma verdade também que tanto a pintura quanto o desenho ou a gravura * As imagens nos atingem principalmente no nível instintivo . A verdade é que enquanto não existiu a fotografia muitas - muitíssimas pessoas . e ninguem desejaria um re- sendo insistentemente procurado por artistas atravez dos tempos. Sob alguns aspectos. 3 Detalhe de papirus egipcio do “li. torno à confusão anterior. p. p4.Em outras palavras. Gombrich . a estética abando- “as imagens denotam as palavras conotam” 1. Gombrich afirma : “Um dos efeitos positivos e permanentes da gran- de revolução artistica que varreu a europa na primeira metade do Esta a relação existente entre imagem e linguagem é de século XX foi livrar-nos desse tipo de estética. o comentario de Naomi Rosemblum prova elucidativo.) A fotografia representa pois. receram e permaneceram viáveis porque preenchiam necessida- vro dos mortos” econtrado em tumba jun. mais realista de registrar o mundo por meio de imagens continuou isso significa de fato uma libertação. a luz.16. 2 . a espontaneidade.siva possui ao menos um pouco de verda- de pois é inegável o fato que a introdução da fotografia aportou um profundo deslocamento nos rumos da pintura no fim do século XIX e cujo impacto reverbera até hoje.” (2. ceito que os professsores de apreciação da arte procuram comba- que as imagens nos atingem em níveis intrinsicamente diferentes ter é. a minúcia. E. H.15 te no nível simbólico. Loyola University Press 1953 des culturais e sociologicas que não estavam sendo atendidas por to com a mumia. H. nou a sua pretensão de ocupar-se do problema da repesentação Por este motivo. a afirmação que a invenção da foto- grafia LIBERTOU a pintura para que pudesse encontrar a sua ver- dadeira vocação expres. a crença de que a exelência artistica se identifica aos da palavra*. e a velocidade que pictogramas tem origens absolutamente representativos. APRESENTAÇÃO não conseguiam satisfazer a vontade de muitos artistas de retratar o mundo com todo realismo possível. na regra. Como diz o cineasta Russo Serguei Eisenstein com exatidão fotográfica. O primeiro precon- fundamenal importância e talvez torne mais fácil compreender por.World History of Photography Abberville Press p. o momento fugaz.. ( 1. Embo- ra possa parecer um exagero. o nivel descritivo e finalmen. P. do problema da ilusão na arte. ( 2 ) Naomi Rosemblum . 1959. Evolução dos pictogramas chineses para ave e peixe.) Sergei Esenstein Film Form Film Sense. a busca de um processo mais perfeito e convincente. Mas é co. Western Civilization . muitos procuravam mas não conseguiam por outros meios. Aspenleiter S. S. o detalhe. 4.” (3) Isto se deve ao fato ja mencionado de como as imagens comunicam Digamos que do ponto de vista de um d eterminismo históri- em níveis diferentes aos da palavra seja ela escrita ou falada. Martins Fontes. . Sobre isto. a perspec- Fig. F..estavam insatisfeitas com o que se podia fazer com o desenho e a pintura no sentido de registros verossimeis.Arte e Ilusão. a sociedade ocidental industrializada estava pronta para ela.J. ( 3 ) E.

a fotografia teve que se inserir. Alguns che. do de privilegiados. Pouco a pouco a fotografia foi evidenciando as suas próprias Ainda outro aspecto que horrorizou críticos e alguns artistas caracteristicas muitas das quais lhe eram e são absolutamente foi a questão da reprodutibilidade da fotografia. das me. é isso que lhe lhe foi imposto tanto pela sociedade de consumo como venção”. Não é de forma alguma un exagero gam até a propor que a fotografia tem ou em algum momento teve dizer que a fotografia foi literalmente cercada pelos paradigmas da como objetivo “matar” a pintura (como se sofresse do complexo de pintura e seus ditames. A fotografia como se sabe. todos os gostos. Essa vulgaridade porém a fez também extremamente duzidas por uma objetiva. opostos que a fotografia mostra a sua originalidade exemplarmente 3 . de pai. a natureza morta. ou quem a possui ou quan- se do problema da repesentação convincente” passou a ser quase to custou e muito menos quantas outras tem iguais mas no que ela que únicamente dela. de pinturas. pintura (retangular). foi bem A verdade é que as imagens produzidas pelos nossos próprios olhos vinda também por artistas que se aproveitam dela (sem o confes. produz ima- popular e acessível (isto apaesar de todas as tentativas de elevá-la gens circulares! A imagem da câmara escura é circular. é nos * fuit . Isto porque para esses críticos é absolutamente maravilho. Passado do verbo ser. a paisagem so que o “artista” mexa com a fotografia mas recuam como morce. A patir do momento em que a fotografia se tornou exemplares pois o “centro” da fotografia não está tanto em quem a uma realidade a responsabilidade por essa “pretensão de ocupar. são todos exemplos de modalidades da pintura nos moldes dos quais gos diante da luz quando fotografia mexe com a arte. Mendoza-Harrell DA PINTURA RUPESTRE `FOTOGRAFIA DIGITAL coisa semelhante porque não desistiria dessa busca até chegar ao fato de que para a fotografia pouco interessa se existem um ou mil que procurava. Eram evidentemente fotografias no estilo mórias. foi bem fotografia também acabou sendo submetida ao padrão da tela de vinda por artistas que não teriam sido artistas se não fosse a fotogra. Fato consumado já ha muito é que a fotgrafia se curvar aos padrões da pintura está no formato das imagens pro- nasceu vulgar. O retrato. Nasceu vulgar e multi-facetada pois existe “fotografia” para intuitiva o que levou não poucos “criticos” a continuar negando o pa. do retrato de familia. Tanto é que surgem propóstas ridículas que alguns como Walter Benjamin souberam discernir até hoje. Embora se pedisse à fotografia para imitar a pin- fia e finalmente. A fotografia bem vinda. Um exemplo de como a fotografia teve que electra). por Brownie produzida por George Eastman tirava fotografias redondas. A primeira ao nível de uma arte cara e inacessível). Ora. a paisagem a natureza morta) estes produtos burgueses sedentas de imagens de si. foi bem vinda pelas populações de trbalhadores e tura (o retrato. enfim de tudo aquilo que a pintura só podia dar a um punha. fez ou quanto tempo ela levou para fazer. A ninguem sabia existiam como fizeram Man Ray e outros. sabemos que a fotografia. ou diz como icone de uma existência fugaz. o punctum como diria Roland melhor. de lugares conhecidos e de outros desconhecidos. pela sociedade produtora. Escapou-lhes o profundidade de campo e para o congelamento do movimento. também tem um formato redondo masl difícilmente as processamos sar). propõem que o objeto fotográfico só pode ter legitima passagem Não ha como negar que a fotografia tenha buscado se “apa- para as galerías quando “contaminado” com um pouco de “tinta” na drinhar” da pintura na sua procura de legitimidade e mesmo porque forma de óleo acrílico ou aquarela ou qualquer outra forma de “inter. O aparecimento da fotografia marca o ponto de pel decisivo da fotografia como uma nova forma de arte. início para a arte em massa e para arte tecnológica coisa que só dência continua até hoje. os fotógrafos assumiram esse papel de forma quase que Barthes.latim. eram tudo menos pinturas. Essa ten. o nu. artistas que se tornaram fotógrafos como o próprio Daguerre. tigada. c Thomaz W. foi bem vinda por artistas que souberam extrair coisas dela que assim tão acostumados estamos a olhar por janelas retangulares. “Se é possível fazer inherentes. Embora existam precedentes na pintura para a grande outra igual não tem valor” (de arte) pensavam eles. Por isto a fotografia tem sido duramente criticada e cas- sagens.

uma ilusão um 4 . a fotografia (e não somos os primeros a dizer isto) se caracteriza antes de mais nada por ser um corte. Os defeitos se tornam efeitos. (Neste sentido é uma escolha o fotografo faz cortes que são escolhas) Cortes longitudi- nais e em profundidade. e eternos melhor que a fotografia. nos fazer rever e porque não Mais importante ainda. cultural e científica. Outra caracteristicas que diferencia a fotografia da pintura além do aspecto da sua verossimilhança é sem dúvida o tempo. Não ha outra modalidade nas artes visuais com essa instantaniedade ou que possa produzir enunciados visu- ais tao efemeros. toda -é passado!. passado. É ao mesmo tempo um corte espacial e temporal. “assim é que era. Ao mesmo tem- po que ela diz “assim e que é”. e na represen. Um indice que pode nos tocar nos emoci- tação do movimento como um borrão. nos fazer recordar. onar. fotografia. Nenhum pintor pintou o mundo atravez de uma lente (isto é antes de existir a fotografia). Longitudinais porque representam uma finissimas e transparentes lâminas de tempo e em profunidade por- que são compressões espaciais de multiplos planos para um único meio bidimensional. ela está dizendo. foi-se. Mas ao vermos a fotografia não existe mais esse tempo e nem o espaço o que resta é uma sombra. Não existe fotografia do futuro ou mesmo do presente pois toda fotografia. Nao podemos esquecer que foi com o lançamento da foto- grafia que o campo editorial sofeu um grande empuxo.indice como diriam alguns. APRESENTAÇÃO no foco seletivo da profundiade de campo reduzida. Por outro lado ao mesmo tempo que é instantâ- nea e fugaz. Pois é já ponderamos bastante sobre este fato.. eterniza! No momento em que se faz o registro fotográ- fico uma inexorável cortina ( a giulhotina-obturador) desce e o pre- sente torna-se passado. Pela sua instantâneidade a fotografia se faz um registro temporal. A visão de uma perspectiva distorcida por uma lente grande angular esferica é um fenômendo exclusivamente optico.fazem parte do novo código visual trazido pela sonhar (rêver). nos fazer crer. Mais uma vez recorremos ao mestre Barthes quando ele afirma que a fotografia é um fuit *.já era. Nào falamos apenas de jornalismo (que se apoia pricipalmente no realismo mimético da imagem e sobre tudo na sua instantaniedade) mas tam- bém em areas de pesquisa visual. Falando do corte.(e nunca mais será)”.