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CURSO DE PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA E EDUCACIONAL UNINOVE Terapia Psicanalítica de Donald Woods Winnicott

IVANIR GROTTI
PSICANALISTA CLÍNICA PEDAGOGA

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VIDA E TRAJETÓRIA DE D. W. WINNICOTT D.W. Winnicott contribuiu para compreensão da Psicanálise de modo afetivo. D.W.Winnicott desfrutou de uma vida pessoal rica, onde a pintura e a música (piano) fizeram parte desta vivência, numa vasta mansão. Caçula e único filho homem, nasceu em 7 de Abril de 1896 na Inglaterra. Tinha duas irmãs mais velhas, cresceu mimado e rodeado por mulheres, suas “múltiplas mães”. Seu relacionamento era escasso com o pai, que vivia em ocupações nas suas atividades profissionais e políticas. Dedicou seu estudo na relação criança e mãe, o que foi de vital importância para a pesquisa psicanalítica. Winnicott teve uma boneca (que pertencia à irmã), como um objeto transicional. Foi pediatra antes de ser psicanalista embora tivesse já esse interesse antes. Como analista de crianças, considerado por três décadas, um fenômeno isolado. Teve a possibilidade de tratar de crianças profundamente perturbadas, vítimas de separação familiar, nos anos que transcorreu a Guerra. Tornou-se psicanalista habilitado pela Sociedade Britânica de Psicanálise, por volta de 1935. Entre 1935 a 1940, fez supervisão com Melanie Klein. Sua experiência com tratamento de crianças psiquicamente perturbadas e de suas mães deu origem à construção de suas teorias. Apesar de aderir algumas idéias de Melanie Klein também houve muitas divergências teóricas e técnicas. Em sua carreira, proferiu palestras, conferência, para platéias diversificadas professores, médicos, assistentes sociais. Quando D.W. Winnicott morreu em 1971, em plena atividade, deixou mais ou menos 80 artigos inéditos e outros publicados em livros e revistas. INTRODUÇÃO WINNICOTT E SUAS CONTRIBUIÇÕES Têm-se apontado suas contribuições para a psicanálise, como uma das mais importantes depois de Freud, não só pelas concepções originais sobre as fases mais primitivas do processo do amadurecimento humano, como a significativa relevância do entrelaçamento do indivíduo com o meio ambiente, no desenvolvimento psíquico. Uma das figuras centrais na escola britânica da teoria das relações objetais. Inclui na sua teoria, onde trata das múltiplas organizações do self; um self real, oferecido por uma mãe suficientemente boa, quando o contrário acontece, o indivíduo desenvolverá um falso self, na tentativa de proteger sua integridade. O conceito de objeto transicional, também desenvolvido por Winnicott, serve como substituto da mãe, no período de transição do bebê, para separar desta e tornar-se independente, com objetivo de segurança na falta da mãe. Colheu material de 60 mil bebês aproximadamente, bem como suas mães, pais, avôs, avós, durante 4 décadas, onde os fenômenos e objetos transicionais nascem nessa clínica. “Mãe suficientemente boa..... D. Winnicott acreditava que o bebê começa a vida em um estado de desintegração,
como experiências desconectadas e difusas, e que a mãe oferece relacionamentos que possibilitam o surgimento do self incipiente do bebê....Ela exerce um papel vital ao trazer o mundo à criança e prever com empatia as necessidades do bebê. Se a mãe é capaz de atender às necessidades do filho, este sintoniza-se com suas próprias funções e impulsos corporais que fornecem a base para um senso gradualmente emergente de self.” (H.I. Kaplan – pg.55).

Síntese das contribuições centrais da sua obra Teoria dos Impulsos, em que reestuda os papéis da sexualidade (elemento masculino e elemento feminino) e da agressividade, relacionando-as em seus primórdios ao desenvolvimento motor. Aqui também é importante a noção de agressividade sem cólera, através da qual o bebê se desliga da mãe num abandono de investimento, sem uma intencionalidade em si destrutiva. 2

Teoria do Objeto, em que postula a existência de um objeto subjetivo (inicial) e de um objeto objetivo (posterior), como também de um objeto transicional, formulando o conceito de Fenômenos Transicionais em Psicanálise Destaca o brincar na vida do indivíduo, como indispensável para a elaboração do pensamento, desenvolvimento, amadurecimento psíquico e emocional do ser humano, algo que deve estar presente, fazendo parte do seu viver, o percurso que leva ao pensar, estruturar, o criar, o espaço transacional. Teoria do Espaço, em que formula a existência de um Espaço Potencial, de uma zona intermediária entre a realidade interna e a realidade externa, onde se realizam o jogo e o brincar, origem de todas as atividades sócio-criativo-culturais. Teoria do Self, da polarização entre um verdadeiro self, espontâneo e criativo, fonte de alegria e da saúde mental, em oposição ao falso self, artificialmente construído por submissão ao meio. Teoria Psicossomática, baseada na existência inicial de um psique-soma-instintivofisiológico, do qual se desenvolve mais tarde a mente, com suas complexas funções. A doença psicossomática caracterizada por múltiplas formas, encerraria contudo, uma tentativa de retorno (aspecto positivo) à situação de integração inicial. Teoria da Tendência Anti-Social, conseqüente de uma privação inicial e representada pelo roubo e pela destrutividade, condutas de desafio ao meio que contêm, paradoxalmente, um sinal de esperança de que o indivíduo ainda confia que o ambiente possa corrigir aquelas falhas que possibilitaram o surgimento desta tendência. D.W. Winnicott, no seu contato com as pessoas, utilizando os cinco sentidos, orientando para se estudar a criança e não a doença. Defende a não submissão do ser humano e sim a criatividade e a capacidade de defender suas idéias, ao seu próprio ritmo e modo. Winnicott teve supervisão durante 4 anos, mas divergia em todos os sentidos de M. Klein, preferiu encontrar seu próprio caminho. TEORIA DO DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL Teoria do Desenvolvimento, como um estudo pormenorizado da relação mãe-filho e das influências da família e do ambiente, postulando a interação de processos inatos de maturação com a presença de um ambiente facilitador, desde uma fase de dependência absoluta à aquisição da independência humana. O ambiente que inicialmente é representado pela mãe ou seus substitutos, que se dá como fio condutor entre o meio e o desenvolvimento psíquico do ser humano, que passa por períodos da dependência absoluta - dependência relativa depois à fase da independência. Teoria do Desenvolvimento Emocional, permite conhecer e constatar a influência do meio ambiente, no início a relação mãe e filho e influências que o elemento externo exerce aos processos inatos do ser humano para que esta amadureça de forma satisfatória. Winnicott deixa claro que, “o bebê humano necessita no início é ser visto e ouvido”, a experiência da amamentação para o bebê é de considerável riqueza para a formação de sua personalidade, ele não está apenas se alimentando, mas também” comendo amor”, tendo a sensação de estar sendo contido e visto, coloca para dentro de si, junto com a alimentação, a” matéria prima de seus sonhos”. O leite, seus sonhos, pela forma que lhe foi oferecido, ele não introjeta apenas o alimento, mas tudo que o meio ambiente , de forma a auxiliá-lo, aplacando ou não sua “agonia primitiva” (a impressão de ser e estar desintegrando), no seu eu, que se mistura num só, a mãe, o seu espelho, (a face da mãe), no trabalho do psicoterapeuta (o profissional). 3

Se bebês que permanecerem sozinhos, sem contato humano, por muito tempo, experimentam grandes ansiedades, podem viver a experiência de estarem partindo-se em pedaços, morrendo, morrendo, perdendo as esperanças de renovação do contato, gerando graves conseqüências.
(...) nas primeiras fases do desenvolvimento emocional do bebê humano, um papel vital é desempenhado pelo meio ambiente, que na verdade o bebê ainda não separou de si mesmo. A separação entre o não-eu e o eu ocorre gradativamente ,e o seu ritmo varia de acordo com o bebê e com o meio ambiente (os pais). (PR, cap.9).

Elaboração: O Espelho
História contada por Winnicott, para ilustrar: “Quero referir-me em primeiro lugar a uma mulher de minhas relações, que se casou e educou três belos filhos. Era também um bom apoio para o marido, que tinha um trabalho criativo e importante. Por trás dos bastidores, essa mulher permanecia sempre próxima à depressão. Perturbava seriamente sua vida conjugal, acordando a cada manhã em estado de desespero. Era algo que ela não podia evitar. A depressão que a paralisava melhorava apenas quando, depois de levantar-se, e depois de lavar-se e vestir-se, podia” dar um jeito no rosto”. Sentia-se então reabilitada, e podia enfrentar o mundo e assumir suas responsabilidades familiares. Essa pessoa excepcionalmente inteligente e responsável (a responsabilidade relaciona-se à depressão como uma conquista, q.v.) reagiu em certo momento a um infortúnio desenvolvendo um estado depressivo crônico, que terminou por transformar-se num distúrbio físico crônico e deformador. Temos aqui um padrão recorrente, facilmente encontrado na experiência social ou clínica de todos nós. O que é ilustrado por este caso apenas exagera aquilo que é normal. O exagero refere-se à tarefa de fazer com que o espelho perceba e aprove (“ devolver a fonte a si mesma”). A mulher tinha de ser sua própria mãe .Se tivesse uma filha, teria sem dúvida encontrado grande alívio, mas talvez a filha sofresse pela importância que passaria a ter na correção da incerteza da mãe quanto à visão que a sua mãe teria dela (PR,cap.9).

Maturação e o ambiente Considerando 3 aspectos importantes: Hereditariedade, Meio ambiente, Bebê É considerado de suma importância para o processo de maturação, um ambiente suficientemente bom.
A psicoterapia não consiste em fazer interpretações argutas e apropriadas; em geral, trata-se de devolver ao paciente, no longo ( ou curto) prazo, aquilo que o paciente traz um derivado complexo do rosto que reflete o que há ali para ser visto... se eu o fizer suficientemente bem, os pacientes descobrirão seu próprio self e serão capazes de existir e sentirse reais. ...descobrir um modo de existir como si mesmo, (...) e ter um self para o qual retirar-se e relaxar..... (PR, cap9).

No início da vida psíquica –o ego começa a se desenvolver, sendo que o ego fraco do bebê amparado pelo ego materno se fortalece pela sustentação da mãe, manejo ( holding), essa maternagem é considerada boa quando ocorrem os cuidados adequados e comportamentos regulares, em que a criança sinta segura, num ambiente agradável e tranqüilo, sendo que as interrupções constantes e prolongadas podem resultar em aniquilamento provocando ou acentuando o caos interior, as agonias primitivas ou as ansiedades impensáveis, sente-se portando, despedaçar-se, cair para sempre, não ter relação com o corpo, não ter orientação e sim um isolamento. Para Winnicott, o ser humano passa por estágios, que são três: No início do nascimento aos 6 meses, a dependência absoluta – necessita dos cuidados maternos, não tem noção disso, o bebê pensa que está criando tudo que deseja, ele não existe sozinho, a mãe e ele é um só. O outro estágio que vai de 6 meses a 2 anos, a independência relativa – após o desmame onde o bebê percebe a existência do outro. Em seguida em direção a independência, após os 2 anos, com base ao acúmulo de memórias e cuidados da maternagem, a criança adquire maior confiança e nesta fase que a criança inicia o processo de como lidar com a perda. Exemplo: - quando a mãe sai e a criança fica com alguém, necessita de 4

algo confortante que remete a lembrança da mãe de forma amenizar o sofrimento. É importante ressaltar que a independência absoluta não existe e que a maturidade reside na interdependência, o caminho para os relacionamentos e amizades. INTEGRAÇÃO, NÃO INTEGRAÇÃO, DESINTEGRAÇÃO As tarefas a realizar neste estágio precoce do seu desenvolvimento psicológico são: Integração: - O bebê encontra-se inicialmente num estado de “ não integração” e isto implica numa “ não-consciência”. Neste estado, os “ núcleos do ego”, que são ainda fragmentados, migram de um impulso para o outro, ( por exemplo de auto-conservação ao aniquilamento). No entanto não existe tensão pela não integração se não houver falha ou invasão ambiental. A integração é tarefa de formar uma unidade a partir de uma globalidade tanto no espaço quanto no tempo. A criança que conseguiu uma unidade de integração, futuramente assimilará os conceitos matemáticos com maior facilidade. Personalização:- é a forma como Winnicott se refere ao processo de localização da psique no próprio soma. A “trama psicossomática” “habitando o seu corpo”. Quando o bebê acorda, leva algum tempo até voltar ao seu corpo. É muito importante que o ambiente não o invada, como acordar bruscamente, para que ele não sinta como que caindo em pedaços. Realização:- é o processo de discriminação de realidade interna e externa e portanto da separação self objetos. Este processo se dá concomitantemente com os outros dois. É depois de uma certa integração e personalização que se torna possível algo como uma relação objetal. Quando a mãe acolhe o gesto do bebê, sem retaliação, como no caso dos pequenos chutes, e outros, esse sente que ela sobreviveu aos seus ataques, fortalecendo seu self, se integrando, ao contrário sente a angústia da mãe. O ambiente ( mãe sustentadora), na fase de dependência para caminho da independência, feita de forma satisfatória é que levará a criança à conquista de integração – personalização, e aos relacionamentos com outros objetos de forma sadia. Para uma vida fragmentária, há a idéia para se juntar os pedaços e levar à integração, é o que todos buscamos para não nos sentirmos caindo e partindo em pedaços. Personalização ou inserção psicossomática e manejo • Com o surgimento de períodos de integração do ego, gradualmente aspectos da psique e do soma se envolvem num processo de inter-relação, desenvolvendo no bebê um sentimento de estar dentro do próprio corpo. O bebê chega a existência psicossomática. Portanto, o lactente tem assim um exterior e um interior e, pode-se agora dizer que esse indivíduo tem uma realidade interna e um esquema corporal. Então o bebê tem um corpo que se torna a residência do self. TEORIA DOS IMPULSOS / Elementos da Teoria da sexualidade segundo Winnicott As idéias centrais da teoria Winnicottiana da sexualidade 1) redescreve a sexualidade a partir de 2 raízes: a raiz instintual ( os instintos entendidos como impulsos biológicos ) e a raiz identitária ( as inter-relações humanas), que exercerá influência na vida adulta. Na percepção de Winnicott, a patologia ou a anormalidade estava primariamente no ambiente e só secundariamente na criança. W. conserva fatores internos ( Freud), mas acrescenta a influência do meio ambiente. “ O novo exemplar proposto por Winnicott é o bebê no colo da mãe, que precisa crescer, isto é, constituir uma base para continuar existindo e integrar-se numa unidade, obtendo amadurecimento pessoal; onde a teoria da sexualidade apenas é uma parte. Para Winnicott, a ambivalência se define primariamente, em termos de relações inter-humanas, estabelecidas de acordo com a tendência para a integração do bebê e só secundariamente pelas relações instintuais como tais,ex( fase oral). No início a 5

busca da satisfação sexual para Freud, seria chamado de princípio do prazer, função corpórea de sucção que permanece como referência básica para todo relacionamento amoroso posterior. “ Winnicott não nega a boca como zona erógena, mas afirma que por uma razão fundamental, a vida de um ser humano não é a realização do programa do princípio do prazer, mas uma tentativa precária de responder à pergunta de saber se a vida vale à pena ser vivida. Há casos claros nos quais o interesse por essa operação, não consiste em descarga libidinal, mas sobretudo, no fato de o polegar representar todos os outros objetos, que passam a ser reunidos sob a mesma instância controladora. Diz que chupar o dedo não pode ser reduzido à busca da diminuição instintual, mas também para comunicação ou contato com a mãe ambiente. Usará o símbolo para inventar representantes da sua união com a mãe, localizados no espaço potencial entre ele e ela, capacidade que vai se ampliando paulatinamente para o brincar, a criatividade artística, o sonhar e assim por diante. Winnicott sustenta que a atividade masturbatória é uma nova forma do auto-erotismo, criada como uma reação defensiva contra a insegurança ambiental, e não um prolongamento, na fase transicional da ocupação libidinal com os dedos. A enurese é vista como reação à deprivação – isto é, à perda repentina de relações com objetos fortalecedores do ego ou facilitadores do processo de amadurecimento – e não mais como um retorno da excitação libidinal do tempo das primeiras mamadas ou, no caso, das primeiras relações eróticas como o seio. Um tema de especial interesse é o fato de o objeto transicional poder transformar-se em fetiche quando a fase da transicionalidade é dominada pela insegurança em relação à mãe. Nesse caso, ao invés de simbolizar a união com a mãe, o objeto transicional é usado para negar a separação dela. A amamentação muito prolongada também pode gerar no mesmo distúrbio. Segundo Winnicott, o impulso amoroso primitivo, aquele que pode ser atribuído de maneira apropriada ao lactente nos estágios muito primitivos do seu amadurecimento, é indistinguível do impulso agressivo e destrutivo, também considerado primário. Na psicanálise tradicional, a posição entre o masculino e o feminino é essencialmente vinculada ao problema da castração, sendo o termo “ mulher” praticamente sinônimo de “ macho castrado”. Na redescrição winnicottiana, essa oposição é desvinculada da castração e associada à problemática da constituição da identidade pessoal, relacionada à elaboração imaginativa das funções corpóreas e às identificações de vários tipos. Entendido assim, o par de conceitos masculino-feminino ocupa um lugar central na teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal, abrindo uma nova perspectiva, tanto para o estudo de fenômenos que caracterizam a masculinidade e a feminilidade como para a compreensão dos vários tipos de homossexualidade. Apoiado em Freud, Winnicot, negará contra os Kleinianos, aplicabilidade do conceito de complexo de Édipo a fases iniciais. Porém em vários pontos discorda com relação a Freud, exemplo, quanto a angústia de castração. A frase: “ o medo da castração pelo progenitor rival, torna-se uma alternativa bem vinda para a angústia da impotência para Winnicott. Para estudarmos a teoria da sexualidade , precisamos estudar juntos com a teoria psicossomática, que Winnicott faz esta relação. Como Freud e os psicanalistas ortodoxos, Winnicott, admite a bissexualidade dos seres humanos. Exemplo, com um paciente masculino, com sexualidade cruzada ( suas bases estavam na relação com o meio – mãe); no início da infância. Nesse caso, o bebe masculino, era tratado pela mãe, numa relação mãe e bebê ( menina), pois a mãe assim desejava. De forma inconsciente tratava-o com cuidados direcionados para uma criança do sexo feminino. Este paciente,sentia-se feminino no corpo masculino ( não há homossexualidade); teria que dar conta de ser feminino para não perder o amor da mãe, quando tratado e interpretado por Winnicott, veio o conflito inconsciente ao consciente, com a relação de que era visto pela mãe como menina onde fez esta identificação. ( do livro O brincar e a realidade – cap.10 ) “Pode-se criar portanto um self feminino ( inveja do pênis), mesmo sendo biologicamente masculino, dado o desejo inconsciente da mãe e seu manejo. Conflitos sexuais – ao conflito entre ser e fazer

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. A criança está no dilema de separar a atitude da mãe no início, onde ele é o seio e o seio é ele. Com comportamento adequado da mãe, o bebê experiência a onipotência, introjeta e se identifica, portanto está no “ser”, que tem relação com identificações, como projetar e introjetar, enquanto que a confrontação entre o bebê e seio envolve o fazer. “ A destruição é inerente ao relacionamento objetal”, o ser se identificou, foi tolerado e respeitado na sua onipotência, passa para a objetivação. Já sendo mais integrado se dá a fase do fazer sobre o objeto, ou sofrer algo que seja feito por ele, necessário para que ocorra o amadurecimento. Para isso a ilusão inicial do ser num só e a separação, deve ser levado em conta o ritmo e obedecer o processo, portanto ser feita de forma gradativa. Assim a teoria Winnicottiana da sexualidade, tanto no aspecto relacional como no instintual, fica inserida na teoria do amadurecimento, fazendo da mesma, vista num contexto mais amplo que a tradicional. AGRESSIVIDADE Winnicott enfatiza o papel do meio ambiente na transformação do impulso agressivo natural em destrutividade ou em criatividade. Descarta a hipótese de agressividade ser inata e aponta duas raízes para ela. No impulso amoroso primário, primeira manifestação desse potencial instintual erótico, encontra-se uma das raízes da agressividade. Para Winnicott o amor é “ na origem, uma forma de impulso, de gesto, de contato, de relação e dá ao bebê a satisfação da auto-expressão e o alívio da tensão instintual. O impulso amoroso primário, um incitamento voraz que clama por relacionamentos, só é agressivo por acaso. A outra raiz da agressividade, Winnicott vai encontrá-la na motilidade, o prazer natural em mover-se. Tendo aceito que a agressividade possui raiz no impulso amoroso primário e na motilidade, se pergunta, quais os fatores responsáveis pela variedade do elemento agressivo e sob que condições acontece. À essa resposta se leva em conta a história da provisão ambiental. Agressividade nos primeiros estágios de vida e provisões ambientais No início da vida, a agressividade está ausente, a motilidade tem relação na descoberta do meio ambiente que é sentido como oposição ao gesto do bebê. A mãe vai de encontro aos gestos do filho; se há falhas maternas graves na fase de dependência absoluta o bebê experimentar a sensação de aniquilamento, um bebê aniquilado não agride. Futuramente sentirá inibição quanto ao uso da agressividade construtiva com medo de destruir o objeto. Estágio intermediário Definido por Winnicott, passagem da indiferenciação para a diferenciação em relação ao objeto, segundo M.K. fase depressiva. A provisão ambiental tem diferentes capacidades de sustentação e variedades da agressividade. Depende das experiências do bebê segundo o tipo de resposta da mãe aos gestos espontâneos aos impulsos vorazes dele, onde ela pode receber como gestos espontâneos acolhendo ou tomar como agressividade intencional e não acolhê-lo. Em conseqüência o bebê sentirá precocemente que suas necessidades não são criadas por ele onipotentemente. O bebê desilusionado, toma consciência de sua própria capacidade para destruir como faz a experiência de ter destruído a mãe na fantasia. Experimentará culpa consciente, que poderá levar à inibição do impulso agressivo pessoal. O bebê se encontrará privado do impulso pessoal agressivo, próprio de sua natureza, fonte de realização das atividades construtivas. Se a mãe acolhe o gesto do bebê, segundo Winnicott, a repetição de experiências deste tipo, cria um ciclo benigno propiciador de um espaço para a capacidade de o bebê preocupar-se e de sentir-se responsável pelos seus atos, sem perda do impulso destrutivo que lhe é próprio. Winnicott deixa clara a relação que existe e a qualidade da provisão ambiental com a destrutividade, levando em conta que a mãe na fase intermediária é um objeto transicional para o bebê. Quando a qualidade adaptativa do começo, onde o encontro da mãe com o gesto do bebê foi saudável, que começa a perceber que ele e a mãe não são a mesma coisa, dá início à perda do controle onipotente 7

sobre ela. Podemos também dizer que, no espaço potencial, os objetos são destruídos porque são construídos e são construídos porque são destruídos. Um caso para exemplificar:- Joça e seu ambiente Um adolescente que saiu de hospital psiquiátrico da rede pública, um mês depois de ter recebido alta da enfermaria, é recebido no ambulatório. Tem doze anos, boa aparência, tímido mas conta de forma detalhada os motivos de sua internação. O local onde morava foi vendido e os novos proprietários, deram início a terraplanagem da área sem antes a família se mudar. Sua mãe começou arrumar os pertence e como não tinha ainda um local para ir, desfez de muitas coisas inclusive os brinquedos de Joça, que ficou desesperado com toda situação, se rebelando. Refugiou-se no telhado para não apanhar da mãe e foi retirado apenas pelos bombeiros, que em seguida o levaram para a enfermaria do Pronto Socorro, recebendo medicamentos neurolépticos. Quieto nos cantos, ao receber alta é orientado para retornar ao “grupo de egressos”. Na sua ficha, não há nada sobre o incidente que o levou a internação. Joca volta para a escola, mas como faltou um mês, não consegue acompanhar, é transferido para uma turma de alunos com problemas de aprendizagem, fica muito chateado pois era antes do episódio um bom aluno. É estigmatizado pela sociedade, escola e família. Levado de retorno ao tratamento, os profissionais estão em greve, é atendido por alguém que não o acompanhava, receitando muitos medicamentos. Na saída felizmente encontra com um membro do grupo que o tratava, que desfez o mal entendido, retirando todos os medicamentos desnecessários. Foi enviado uma carta à direção da escola pela família, pedindo compreensão e nova oportunidade para o paciente. Joca não estava doente, seu ambiente, sim. Esse exemplo como muitos, nos deixa clara a importância do meio ambiente na influência do ser humano. TEORIA DO SELF: VERDADEIRO E FALSO

SELF - Segundo WInnicott:- “ pessoa em relação”, considerando a pessoa uma instância física, total. - Desenvolve-se como resultado das interações com objetos significativos do ambiente e com objetos internos relacionados, no processo de maturação. Contrariamente à psicologia do ego, que defende que as pulsões são primárias às relações de objeto, os teóricos das relações objetais afirmam que os impulsos emergem no contexto de um relacionamento, sendo as relações objetais anteriores às pulsões. Afinado com a proposta da teoria das relações objetais pela ênfase que atribui às relações objetais internas, Winnicott foi um dos precursores de uma nova direção no pensamento psicanalítico, voltando-se mais diretamente ao estudo da identidade e do self, em detrimentos do estudo dos instintos e dos mecanismos defensivos do ego. Assim, ele formulou uma concepção de mundo interno bastante original, distanciando-se da teoria freudiana por não recorrer à teoria pulsional com recurso explicativo, e também da teoria Kleiniana, por retirar a ênfase sobre o mundo interno da criança e suas fantasias inconscientes ( objetos bons e maus ). Winnicott, enfatiza a importância do brincar na vida do indivíduo. Contribuiu com várias teorias, dentre elas de grande importância a Teoria do Self, da polarização entre um verdadeiro self, espontâneo e criativo, fonte de alegria e da saúde mental, oferecido por uma mãe suficientemente boa em oposição ao falso self, artificialmente construído por submissão ao meio. Quando os bebês experenciam uma perturbação traumática de seu senso de self em desenvolvimento, emerge um falso self que monitora e se adapta ás necessidades conscientes e inconscientes da mãe, ao fazê-lo, oferece um exterior protegido por detrás do qual o verdadeiro self pode ter a privacidade necessária par manter sua integridade”.( pg. 251 –Compêndio de Psiquiatria – Kaplan – Harold ). O bebê precisa do self materno da mãe para amadurecer. O verdadeiro self está bloqueado ( encoberto) pelo self da mãe. No estágio da dependência absoluta, pais que agem de forma normal e devotada, satisfazem a onipotência natural do bebê dando-lhe a permissão para que ele se sinta deus. Assim 8

passará a mensagem a ele que: “ venha ao mundo criativamente, crie o mundo. Somente aquilo que crias é que terá sentido para ti.” Dando ao bebê a impressão que o mundo está em seu controle. A interrupção precoce da ilusão, bloqueia a formação do símbolo, como já observamos. A onipotência inicial “curtida” passa de forma gradativa que irá se dirigindo para a frustração com a descoberta de que o mundo estava já ali antes dele ter criado; fortalecendo um verdadeiro self, auxiliado pelos pais. Para que isso ocorra de forma satisfatória a mãe precisa ir de encontro ao gesto do bebê, ter a capacidade de sentir as necessidades dele, para que este possa ser visto e ouvido e não estar em submissão à vontade da mãe. O paciente na clínica que não foi ouvido nem visto pela mãe, necessita que seja visto e ouvido pelo analista para ser compreendido, acolhido e fortalecido no seu verdadeiro self e seguir sua vida de forma independente e mais seguro, sem submissão às imposições do outro, de forma que quando faz isso ( a submissão ) é para obter aceitação e aprovação. Mãe castradora está incutindo o self dela e bloqueando a identidade do filho. Quando antecipa a necessidade do filho, quando é super protetora não deixa a criança desenvolver seu self. Quando a função materna falha na maternagem de modo a integrar sensações corporais do bebê, os estímulos ambientais e o despertar de suas capacidades motoras, a criança sente sua continuidade existencial ( ser) ameaçada e procura substituir a proteção que lhe falta por outra, “fabricada”por ela. O indivíduo cresce, desenvolve um self, que por fora o que mostra não é o seu núcleo, que fica escondido, ( o self verdadeiro), apresentando o falso self ( patologia), que é com este que a maioria das vezes o analista se depara. No decorrer da análise é necessário estarmos em contato com o self através da transferência para podermos obter sucesso no trabalho analítico. - No caso patológico mais sério do falso self, por não poder relacionar-se com a realidade, a vida perde sentido e a utilização de símbolos é escassa. - Atividades culturais são limitadas, dada a pobreza de fantasia, há pouca capacidade de concentração; observa-se tendência para fazer coisas para os outros e necessidade constante de estímulos externos. Um falso self que resulta de um esforço da criança para assegurar o amor dos pais mesmo à custa de renunciar a espontaneidade e sujeitar-se ás expectativas dele, Quanto a formação do self:- Winnicott – trabalho de 1957. “O papel do espelho da mãe ,nos fornece importantes contribuições neste aspecto, afirmando que “O precursor do espelho é o rosto da mãe”. Quando olha para o rosto da mãe, normalmente, o que o bebê vê é ele mesmo”. Dessa forma a responsabilidade da mãe real cresce, pois sendo sua imagem vista pelo filho o próprio reflexo dele, pode comprometer seu olhar, distorcendo a sua imagem que tem de si próprio; quando a mãe que pode refletir o que ela própria é, ou imagina ser, impondo-se ao próprio filho. Aqui, percebemos claro a importância do analista ser o espelho do paciente, para que este fortaleça seu eu e não seja submetido ao olhar imposto do analista. Tratamento:-Para que o analista consiga o trabalho e mantenha comunicação com o verdadeiro self, é necessário que crie condições para que o paciente transfira o incomodo do seu ambiente internalizado. -Ao fazer este contato, há uma fase de muita dependência e imaturidade, mas real. Com o passar do tempo, para o seu amadurecimento, a criança irá elaborando e se direcionando a OBJETOS TRANSICIONAIS, assim como Winnicoot denominou, quando desenvolveu tal conceito , irão servir para substituir a mãe durante os esforços que o bebê faz para separar-se e se tornar independente. Com o tempo, os objetos concretos ( de apego) irão sendo substituídos por abstratos, como a amizade, a música e outros modos pelos quais o indivíduo recupera a experiência da ilusão. COMO ENGANAR O ANALISTA História contada por Winnicott, enquanto escrevia o artigo “ O Falso Self”, um menino o procurou: 9

É um menino de dez anos, filho de um colega. Ele tem um problema urgente. Vive num lar muito bom, mas isto não altera o fato de que a vida tem sido difícil para ele tanto quanto para os outros. Seu problema particular no momento é o de que ele mudou muito na escola, tendo sido sempre um mau aluno e mal comportado. Ele começou a aprender e a sair-se bem. Todos estão encantados, e alguém disse que ele era o “ milagre do século XX”. Mas algo não está funcionando. Essa mudança foi acompanhada por outra, nada boa. Ele não consegue dormir. Disse a seus pais, que são muito compreensivos: “ É esse bom comportamento na escola que é o problema. Isso é horrível. É coisa de menina”. À noite, acordado, tem todo o tipo de preocupações, que incluem a idéia de seu pai morrer e ele também. Pensa muito sobre um certo personagem na história que trabalhava muito e morreu com dezesseis anos. Ele é bem específico sobre a conexão entre suas preocupações e a mudança em seu caráter. Tudo começou depois de ter tirado o primeiro “ bom” na escola: ao descer do ônibus, ele sentiu de repente um tipo de medo, o medo de que um homem que passava o mataria. E mesmo isto tinha um problema a mais: a idéia de que ser morto lhe parecia agradável. Ele disse: “ Não consigo dormir, porque assim que fecho os olhos sou esfaqueado.” Estou deixando de lado vários detalhes, a fim de que este caso possa ser usado no presente contexto. No decorrer de uma entrevista bem fácil que tivemos um com o outro, ele me contou sobre os seus sonhos. Um destes é especialmente significativo: ele se descreveu deitado na cama com um assassino e uma espada, e em seguida ele estava sentado, com muito medo, com a mão na boca, e o assassino estava prestes a atravessá-lo com a espada. É possível ver aqui a mistura de assassinato e de agressão sexual, e esse não seria um sonho muito incomum num menino dessa idade. O importante é que enquanto me falava sobre essas coisas, ele estava me explicando que se ele é bem-sucedido, ele e o pai estariam indo bem, juntos, mas após um tempo ele começaria a perder sua identidade. Nesse ponto ele se torna desafiador e, de um modo meio estúpido, recusa-se a fazer o que lhe dizem. Ele detesta ter de brigar com o pai, conseguindo geralmente fazer com que os adultos na escola fiquem zangados com ele. E, assim, ele se sente real. Se ele é bom, o sonho aparece, e com ele o assassino, e ele fica apavorado, não tanto por ser morto, mas por ver-se desejando ser morto. E isto o faz sentir-se identificado mais com meninas que com meninos. Como podem ver, ele realmente tem um problema, um problema muito comum, mas talvez devido ao relacionamento bastante bom entre ele e seus pais, não lhe é difícil expressar-se com clareza. Dizendo-o de um modo, ele é capaz de empregar um falso self que agrada a todos, mas que o faz sentir-se horrível. Em certos casos, a pessoa que o fizesse passaria a sentir-se irreal, mas para este menino a questão é que ele se sente ameaçado, como se fosse transformar-se em fêmea ou no parceiro passivo de um ataque. Ele estão sofre com a tentação de afirmar algo mais próximo ao verdadeiro self, agindo de modo desafiador e improdutivo, mas esta solução tampouco oferece uma resposta satisfatória o seu problema.

Toda pessoa possui um self educado, que é aceito socialmente e um self guardado, podemos ver isso como normal. Na saúde essa divisão do self é uma conquista do crescimento pessoal, do qual vai depender dos pais terem colaborado com essa pessoa a criá-lo. “ Na doença a divisão tem a ver com uma cisão da mente, que pode alcançar qualquer profundidade”, na máximo a podemos chamá-la de esquizofrenia. TEORIA DO OBJETO / TEORIA DO ESPAÇO OBJETOS TRANSICIONAIS E FENÔMENOS TRANSICIONAIS Considerada uma das contribuições mais originais de Winnicott, com relação a natureza humana. “ Winnicot cria o termo objeto transicional para definir o uso de certos objetos na área intermediária entre o subjetivo e o objetivo”. Está relacionado aos tempos do vínculo da mãe com o bebê, “ Os conceitos de espaço, objeto e fenômeno transicional, chaves da teoria da organização do mundo interno e do reconhecimento do mundo externo, demonstram a importância que Winncott dá ao campo do intersubjetivo na configuração do ser humano.” O Objeto transicional seria aquele objeto especial em que a criança elege “, chamado por Winnicott “ primeira posse não eu “, que deve ser respeitado e permitir que a própria criança faça sua descatexização de forma gradual, para que ela possa elaborar essa transição. Seria como uma preparação para o desmame, a separação do eu e o não eu; o eu e o outro. Com relação ao objeto transicional, não pode haver fixação, como no caso do vício do cigarro, que houve nessa etapa do desenvolvimento algum bloqueio ou intervenção do meio ambiente, levando uma fixação e uma não 10

elaboração adequada. Todos esses fenômenos em que a criança experiência, como um mecanismo de defesa para amenizar sua ansiedade normalmente depressiva, poderíamos atribuir e associar ao pensamento ou devaneio à essa experiência, que mais tarde se dá o espaço no momento da criação. Um caso observado, de uma criança com três anos de idade, filho de pais muito cuidadosos e atentos, único filho, pais não tão jovens. O casal acompanhava o filho na escola todos os dias, os três felizes, o menino não resistia tanto para permanecer naquele novo ambiente, deixei que a mãe ou o pai ficassem um tempo para a criança não sentir a falta deles de forma brusca pois percebi o grande apego e dificuldade de se desligar dos pais. Esta criança trazia consigo, uma fraldinha e ao mesmo tempo chupava seu polegar, consegui convencê-la, dos pais irem para casa e permanecer na escola com seus amigos, comigo e seu “paninho” depois que esta sentiu segurança quanto a minha pessoa e também ao ambiente. Esse menino permaneceu durante quase todo primeiro semestre nessa atitude, com o paninho e chupando o dedo polegar, se negando a fazer as atividades propostas, mas sempre atento a tudo. Ao despertar interesse por uma coleguinha em especial, dizendo que era sua namorada, quando esta disse que só seria sua namorada quando ele deixasse o paninho e de chupar o dedo, porque não queria namorar um bebê, o menino largou logo em seguida seu paninho e de chupar seu dedo, motivado pelo novo desejo e novo “objeto de apego”. Seus pais ficaram muito felizes e divertidos dizendo que, o que uns marmanjos de quarenta anos não conseguiram, uma menina de três conseguiu, que vergonha! O mais interessante, foi quando propus as atividades para ele, esse demonstrou muita compreensão e facilidade na execução, passou todo esse momento sem fazer, mas muito atento ao ambiente, interagindo, sem sofrer prejuízos. Caso fossemos radicais e impuséssemos nossa atitude de forma rígida e autoritária, poderíamos não obter tão excelente resultado. Observa-se muito em crianças, no seu primeiro ano de escola, onde há mudança de ambiente, a necessidade de termos paciência para que ocorra esse desprendimento de forma saudável. Normalmente, durante meses contei muitas histórias, para crianças muito pequenas que estavam muito atentas, absorviam o conteúdo, recontavam de forma a demonstrar grande compreensão e seqüência dos fatos, mas um detalhe, entre vinte e oito crianças, umas quinze mais ou menos estavam chupando suas chupetas, muitas não se desligavam de sua mochila, e outros queriam levar todo seu material para casa, materiais que eles traziam e que precisavam permanecer no armário da escola. Durante o trabalho, e com o tempo, foram aos poucos se desprendendo de tudo isso, até o final do ano, ninguém na escola chupava chupeta, mesmo que estas permanecessem ainda em suas mochilas. Winnicott considera o brincar das crianças uma extensão do uso dos fenômenos transicionais. Propõe que se inicie análise com o brincar, o terapeuta deve trazer o paciente para esta função, os dois passam a brincar juntos, havendo assim a interação, favorecendo maior produtividade ao trabalho. O brincar faz parte de toda existência do homem, dado a sua importância. Objeto transicional • Uso positivo:- o jogo, a criatividade, fantasias, arte e sonhos • Uso negativo:- o fetichismo, o talismã dos rituais obsessivos, o objeto que acompanha as fobias. Uso de drogas, cigarro, etc.. uso do objeto transicional fixado ( conforta ), não é tranqüilizador. ELABORAÇÃO: OBJETOS TRANSICIONAIS E FENÔMENOS TRANSICIONAIS Para winnicott a resposta para a questão de por que uma pessoa é mais inteligente que a outra, ou umas tem mais imaginação e outras muito pouco, tem muita relação com o brincar. Ao referir a inteligência, não quer dizer a intelecto. A sua ênfase era dada à imaginação no brincar.
“ Dê um grande valor à capacidade da criança de brincar. Se uma criança brinca, há lugar para um sintoma ou dois, e se ela gosta de brincar tanto sozinha quanto com outras crianças, não há problemas graves em funcionamento. Se ao

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brincar ela tem prazer em usar uma rica imaginação ( que Winnicott mais ou menos igualava a ser inteligente) e se, além disto, ela também gosta de jogos que dependem da percepção exata da realidade externa, você pode se considerar feliz, mesmo que a criança em questão molhe a cama, gagueje, seja temperamental, tenha ataques de mau humor ou de depressão. O brincar mostra que essa criança é capaz de, dado um ambiente razoavelmente bom e estável, desenvolver um modo de vida pessoal, e eventualmente de tornar-se um ser humano total, desejado graças a isso, e bem-vindo pelo mundo em torno ( CFOW, cap.19).”

Atribuindo tal importância ao brincar, que traz como benefício às atividades imaginativas, auxilia na leitura da inteligência corporal, bem como o bom senso e sensibilidade. “ Ele postula um espaço potencial, entre o bebê e a mãe”, que varia de acordo com o relacionamento dos dois, do qual irá contrastar o mundo interno com a realidade externa. Segundo Winnicott, para o indivíduo, o espaço potencial é a área de toda experiência satisfatória mediante a qual ele pode alcançar “ sensações intensas” que pertencem aos anos precoce e assim a consciência de estar vivo. Tal experiência pertence à vida diária. Winnicott dá como exemplo olhar um quadro, ouvir música, compartilhar uma anedota, assistir a um jogo de futebol,etc. O espaço potencial é, portanto, o lugar onde ocorre a comunicação significativa. O brincar facilita o crescimento, à saúde, os relacionamentos, ele é natural e a psicanálise segundo Winnicott é o fenômeno sofisticado do século, uma forma especializada de brincar. Para Winnicott, é indispensável ao seu equilíbrio afetivo e intelectual que a criança tenha disponível para si uma área de atividade cujo motivo não seja a adaptação à realidade, mas, ao contrário, a assimilação da realidade ao eu, sem coerções nem sanções. Uma destas áreas é o jogo, que transforma a realidade mediante a assimilação às necessidades do eu, ao passo que a imitação é acomodação aos modelos externos. Há uma distinção entre o Objeto Transicional com o conceito de Objeto Interno de Klein, pois o objeto transicional também não é externo. Outro paradoxo de Winnicott que dirá “ a matriz da amizade reside em nossa capacidade inicial de estar só, só na presença da mãe ( o brincar ). Winnicott descreve a saúde em três partes: 1. A vida no mundo, com os relacionamentos interpessoais . 2. A vida “ interior” – realidade psíquica . 3. A área da experiência cultural., que começa no brincar e nos leva a todo o universo da herança humana, incluindo as artes, os mitos da história, a lenta caminhada do pensamento filosófico e o mistério da matemática, do funcionamento dos grupos e da religião. NOTAS SOBRE O BRINQUEDO ICaracterística do brinquedo é o prazer. Observações de animais jovens, inclusive o humano II – A satisfação no brinquedo depende do uso de símbolos, embora, na base, a pulsão provenha do instinto. Símbolos: Isto representa aquilo. Se aquilo é amado, isto pode ser usado e possuído. Se aquilo é odiado, isto pode ser derrubado, ferido, morto, etc., e restaurado, e ferido novamente. Isto é: a capacidade de brincar é uma conquista no desenvolvimento emocional de toda criança humana. III – O brinquedo como conquista ou realização no desenvolvimento emocional individual. - O brinquedo começa como símbolo de confiança do bebê e da criança pequena na mãe ( ou substituto materno). - Idéia do brinquedo como expressão de identificação com pessoas, animais e objetos do meio ambiente inanimado. IV – O brinquedo é, primariamente, uma atividade criativa desempenhada ( tal como o sonho) 12

O cuidado insuficiente, produzindo uma falta de confiança, faz diminuir a capacidade de brincar. V- Produtos do brinquedo - Ao lado do elemento essencial, que é o prazer, o brinquedo dá à criança prática em: a. Manipulação de objetos; b. Administração do poder de coordenação, habilidades, julgamentos, etc.; c. Controle sobre uma área limitada. Embora a criança descubra um poder limitado de controlar, ela ao mesmo tempo descobre o campo de ação ilimitado da imaginação. Através do brinquedo, a criança lida criativamente com a realidade externa, produz um viver criativo, sentir-se real, exercita a não submissão. É especialmente na administração da agressão e da destrutividade que o brinquedo possui uma função vital, quando a criança tem a capacidade de fruir a manipulação de símbolos. No brinquedo, um objeto pode ser: - destruído e restaurado; ferido e reparado; sujo e limpo; morto e trazido de volta à vida, com a conquista adicional da ambivalência. VI- Desenvolvimento da capacidade de brincar ( socialização) do brincar provém. a) brincar juntamente com outros, com ganhos no exercício de; b) brincar de acordo com regras: da própria criança, de outros, regulamentos partilhados; c) brincar jogos com regras e regulamentos previamente acordados; d) permitir complexidades em termos de líder e liderados. PRIVAÇÃO/ DEPRIVAÇÃO TEORIA DA TENDÊNCIA ANTI-SOCIAL Para Winnicott, não se faz um diagnóstico de alguém com relação à tendência anti-social como na neurose e psicose. Ela pode ser encontrada num indivíduo normal, neurótico, psicótico em qualquer idade. Winnicott atribuiu à privação a criança que não é tratada adequadamente em sua fase de dependência absoluta. Num estágio anterior do desenvolvimento emocional, por exemplo, um bebê que lhe falta oxigênio, nessa fase, não pode lembrar que o que ocasionou o problema foi essa falta, ele teve uma perturbação ambiental que irá distorcer seu desenvolvimento emocional, essa falha irá resultar em doença do tipo psicótico, estará sujeito a um distúrbio mental, levará uma vida carregando certas distorções. A personalidade esquizóide, bem como a esquizofrenia e o autismo infantil, estariam relacionados com a falta de provisão ambiental, na fase anterior à capacidade do indivíduo para perceber o fracasso provém do ambiente. Quando este ocorre na etapa de dependência absoluta, portanto é chamado “ privação”. A criança que na fase de dependência relativa, não for segura de forma adequada, atribui como deprivação. Esclarecendo melhor, a criança que teve no início de sua vida, uma fase muito boa, mas que houve uma interrupção ou um trauma. É com a deprivação que a tendência anti-social tem relação, podendo manifestar como sintoma de diversas formas como: “molhar a cama”, roubar, mentir, comportar-se de modo agressivo, destruir, agir compulsivamente de modo cruel ou perverso. “ A tendência anti-social relaciona-se não com a privação, mas com a deprivação”. “ A característica da tendência anti-social é o impulso que ela dá ao menino ou menina para alcançar o que havia antes do momento ou da condição de deprivação.” “ AS COISAS IAM MUITO BEM E ENTÃO ELAS PASSARAM A NÃO IR TÃO BEM’. A criança sofreu uma angústia,e não é forte para fazer algo, surge-lhe a esperança de que se voltar atrás, antes do momento da deprivação, poderá desfazer à angustia e se organizar quanto aquilo que a confundiu e não tinha condições de se organizar por ter ainda uma estrutura ainda frágil. Quando o delinqüente está cometendo uma infração, está fazendo uma tentativa e tem uma esperança de retornar e buscar algo que perdeu nessa fase ainda pouco organizada. Essa tendência anti-social é demonstrada através do roubo e da destrutividade. A criança que rouba um objeto não está em busca 13

do objeto roubado, mas da mãe sobre a qual ela tem direito. Na destrutividade, a criança está procurando a estabilidade ambiental que suporte a tensão resultante do comportamento impulsivo. Sintomas que apresenta:1. Comportamento tirânico. 2. A sofreguidão ( comilão ), ou a falta do apetite. 3. A sujeira ( urinar, defecar) também é considerado como manifestação da reação de privação e de uma tendência anti-social bem como a destrutividade compulsiva. 4. Outros sintomas vinculados à tendência anti-social:- Atuação, masturbação, superego patológico, culpa inconsciente, estágio de desenvolvimento libidinal, compulsão à repetição, regressão à ausência de compaixão, defesa paranóide. Ligações entre o sexo e a sintomatologia. Entrevista e Tratamento “ Em condições especiais de psicoterapia a criança pode relembrar, em termos do material produzido, ao brincar ou ao sonhar ou ao falar, os aspectos essências da deprivação original. Como a criança não é capaz de comunicar o que sente, age com esperança para que o outro compreendê-la, de forma
inconsciente quer passar a mensagem de que o mundo está em débito com ela, quer reorganizar a confusão que existe em seu ego. Pode ser mais facilmente tratada quanto mais perto estiver do seu ponto de origem. Quando a criança sofre deprivação e o ambiente reconhece imediatamente e passa a ressarcir com cuidados especiais a dívida para com ela, a chance dela ser “ curada” é muito grande. Quando ocorre o contrário, pode levar a criança desenvolver uma delinqüência que com ganhos secundários afasta cada vez mais do trauma original. Portanto o tratamento é fornecido de um ambiente que cuida, a estabilidade do ambiente que auxilia na cura. É o ambiente que deve fornecer a nova chance para a relacionabilidade do ego, pois a criança percebeu que foi uma falha ambiental relativa ao apoio egóico que provocou originalmente a tendência anti-social. Nas consultas dessas crianças, Winnicott mostra a importância do jogo dos rabiscos, com clima de confiança, que chama de momento sagrado, onde estabelece a comunicação com a criança que vai exprimir criativamente suas fantasias, problemas e sonhos, aplacando sua angústia. É graças a sua capacidade de identificação com as necessidades do paciente que o analista assegura, a nível simbólico, uma função de sustentação psíquica ( holding), que cria uma situação de confiança. Um exemplo “Uma garota de seus vinte e poucos anos, uma boa cantora amadora que vivia partindo os corações de cantores e maestros no coro, insinuando-se em meio a tudo e a todos. Ela tinha uma outra profissão. Descobri que quando ela estava com sete anos e era interna numa escola primária, voltou para casa nas férias e descobriu que seus pais haviam se mudado sem avisá-la. A casa estava vazia. Ela mentia sobre suas finanças, e foi somente depois de alguns anos que me dei conta de que não haveria pagamento. Tive de dar a ela o que dei como se tivesse sido roubado por ela. Ela precisava volta para antes da depressão”. ( As idéias de W. pg.413).

CASO CLÍNICO 1 – Um caso de despersonalização. Situação primitiva da carência ambiental.
X é um paciente que procurou a análise por causa de vivência de despersonalização e de uma vida emocional sem sentido, pois se sentia sem capacidade para amar e para tirar um real prazer da vida. Os sintomas de despersonalização e o sentimento de vazio e de inutilidade diante da vida eram acentuados nos fins de semana. Nestas ocasiões, voltava à análise se sentindo confuso e duvidando de tudo e de todos, inclusive de mim. Necessitava relatar tudo que se passava com enormes minúcias e precisava que o ouvisse atentamente, gravando e acompanhando mínimas particularidades, para poder sair daquele estado, ao mesmo tempo de vazio, perplexidade e perseguição. Em tais momentos, não tolerava que eu fizesse a mínima interpretação, somente comentários e adendos ao que relatava, através dos quais demonstrava que tinha tempo e interesse em ouvi-lo. O estado regredido e a parcial integração em que se encontrava impediam que ele pudesse aproveitar qualquer atividade interpretativa, inclusive por estar seu psiquismo voltado para o concreto, sem condições de simbolizar. É, principalmente, porque naqueles momentos eu teria que ser sua mãe real, inteiramente devotada a ele, não a figura de um analista, dotado de sagazes interpretações. Quando minha intuição e empatia falhavam, eu não cumpria este papel e tentava interpretá-lo em outra direção, X se irritava profundamente e me dizia “ não é nada disso”, “ não é por aí”, “ você não está me entendo”,. Traduzia com isto o trauma invasivo que estava vivendo, pois ao falar eu interrompia toda a sua vivência reconstrutiva de novamente estar sendo cuidado por uma mãe adequada e silenciosa, numa atmosfera de holding e fusão, podendo novamente se sentir integrado, coeso, com a mente vivendo dentro de um corpo que era seu.

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Entre as dificuldades que tive de entrar em sintonia com as reais necessidades de X estava a minha falta de percepção do que ele realmente buscava naquele momento em sua relação comigo: fusão ou separação. Deste modo, se eu tentava com a minha atitude verbal favorecer uma situação de fusão e ele precisava sentir-se separado e independente, havia novo trauma no relacionamento e X me interrompia para dizer que eu não o estava deixando ser ele mesmo, que eu queria tratá-lo como um menino pequeno, protegê-lo, portanto, que eu me desse conta se ele estava num momento de dependência absoluta, de dependência relativa ou se estava buscando, desesperadamente, como um adolescente, ser independente de mim. E, como aconteceu, Winnicott percebeu em crianças e pacientes, que apresentavam quadros de regressão, costumavam flutuar muito rapidamente entre estados de fusão e de separação. Assim, apenas a identificação profunda com estes e a possibilidade do uso de uma intuição semelhante à materna podem permitir ao analista sentir qual a condição que prevalece ao momento. São geralmente mensagens extra verbais ( o modo de nos olhar, de sentar e de deitar, de respirar e de gesticular ) que nos dão indícios sobre a atitude transferencial predominante e necessária ao desenvolvimento naquele particular instante.

CASO CLÍNICO 2- A integração do eu, o uso de um objeto.
Trata-se de um paciente grave, que eu atendia no consultório várias vezes por semana. Ad não podia deitar no sofá, porque se angustiava. Somente podia atendê-lo frente a frente. Meu paciente se sentava e fumava durante a sessão. Na realidade acendia o cigarro, e o esquecia no cinzeiro, deixando que se consumisse sozinho. Um dia, o cigarro caiu fora do cinzeiro e queimou um pedaço do sofá. Ao perceber isso, ele ficou preocupado; sem falar, tratei de tirar a cinza do sofá, não dando importância ao fato. Parecia não ter sentido interpretar nada a respeito. Quando ele se foi, comecei a pensar como eu tinha me sentido e que não podia deixar de lhe comentar. Temia que, se interpretasse de modo que queimar um objeto meu equivaleria a me queimar, isso soaria muito persecutório para meu paciente. Além disso, não era meu estilo de interpretar, sobretudo sabendo que este paciente com grande tendência à atuação dificilmente poderia conter seus impulsos em um recipiente tão pequeno como um cinzeiro. Percebi que Ad, sentado na minha frente, fumando, estava realizando um enorme esforço de autocontrole e que era inevitável que ele deixasse cair coisas. Pensei que, nesse caso, minha função, mais que lhe mostrar seu aspecto agressivo, era contê-lo melhor, de um modo simbólico. Passei grande parte do tempo, pensando em uma maneira de como incluir esse tema na análise. Na sessão seguinte, quando o paciente tocou a campainha, toda a cena voltou à minha cabeça. Pensei que deveria ter previsto um cinzeiro maior, mas não tinha. Enquanto ele entrava, fui à cozinha buscar um cinzeiro e tive a idéia de apoiá-lo sobre um prato. Um prato, suporte precário do eu que se desborda permanentemente. O paciente olhou-o com certa surpresa, e não disse nada. Depois se estabeleceu uma espécie de jogo entre os dois, no qual eu lhe entregava o cinzeiro sobre um prato. Durante as primeiras sessões, sempre encontrava cinzas no prato. Pouco a pouco, as cinzas do prato começaram a desaparecer, ao mesmo tempo em que se produziam certas mudanças na vida do paciente, particularmente a diminuição dos actings. E nunca mais caiu cinza fora do prato. Suponho que, motivado por esse progresso de meu paciente, uma vez esqueci o prato e lhe dei só o cinzeiro. Com um sorriso tímido, Ad me disse: “ Esqueceu meu prato”. Eu fui buscá-lo. A análise continuou, sem cinzas no prato, e com Ad cada vez melhor em muitas outras coisas. Um dia, assim como esquecemos os objetos transicionais, que ficam nas nuvens, sem sentirmos luto, eu tornei a esquecer o prato. Ad não disse nada. E nunca mais usamos o prato. Creio que, durante um tempo, o prato foi a representação simbólica do holding, braços e colo que contêm. Depois a sua significação se foi deslizando para a de espaço transicional, jogo, modo de nos comunicar, experiência compartilhada e, finalmente, em direção ao objeto transicional, primeira possessão não-eu.

CASO CLÍNICO - 3 – O falso self na prática analítica
Um paciente procurou-me por uma situação de angústia ante a perspectiva de um casamento, situação esta que era recorrente em sua vida e que o levou a desfazer várias ligações anteriores. Punha em dúvida se esta seria uma condição doentia e iniciou o tratamento por influência de sua noiva. Foi filho único temporão, de imigrantes europeus. O pai, austero, era um homem distante, e a mãe, mais próxima, era sentida pelo paciente como controladora e invasiva. O pai era admirador de Hitler e o paciente foi submetido a um sistema educacional muito rígido. Foi um menino tímido, que brincava quase sempre sozinho, com brinquedos importados, com muito receio de quebrá-los e desagradar aos pais. A mãe o mantinha sempre limpo, arrumado, a roupa cuidadosamente engomada. Uma parte importante de sua infância foi passada num colégio interno de influência germânica, rigorosíssimo, onde vivia permanentemente assustado, com receio de desagradar aos padres ou ser humilhado pelos garotos mais fortes. Durante a puberdade, seu grande ídolo foi Hitler. Às escondidas, diante de um espelho, ficava durante horas imitando seu teatralismo marcial. Desde essa época se sua vida iniciou uma marturbação compulsiva, que se prolongou na vida adulta. Só na adolescência tardia começou a namorar e a ter relações sexuais e, desde então, iniciou uma atividade de Dom-juanismo que passou a ser a coisa mais importante de sua vida. O paciente era extremamente superficial em sua cultura, gestos e ambições, que se resumiam em ficar rico e fazer grandes conquista amorosas. Tornou-se um dentista e ao mesmo tempo um empresário, que estava permanentemente se digladiando

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com os sócios, como se fossem leões se comendo uns aos outros, segundo suas próprias palavras. Na análise buscava, acima de tudo, dicas de qual seria a mulher ideal com quem deveria se casar. De início, não me questionava e decorava muitas das interpretações que lhe dava. Sua análise permaneceu, assim estagnada, até que resolveu investir em uma das namoradas para casar. Achava que ela tinha atributos para isso, mas não era tão bonita como as outras que já tivera. Quando começou a se dar conta de que eu não tinha as soluções ideais para este e outros problemas de sua vida, entrou em crise com o tratamento e assim permaneceu durante muito tempo. Esta foi também uma típica crise de meio de vida,quando começou a tomar conhecimento da ação inexorável do tempo, do envelhecimento e da realidade da morte. Era igualmente doloroso constatar a fragilidade de suas ligações emocionais, a superficialidade das quais se utilizava em suas relações pessoais. O paciente era um exímio jogador de pôquer e, nesta fase, perdeu a capacidade, da qual tanto se gabava, de blefar, tornando-se um perdedor contumaz. Nesse período teve múltiplas manifestações psicossomáticas ( crises hemorroidárias, distúrbios funcionais das vias urinárias), começou a tornar-se calvo e seus cabelos embranqueceram. Era como se o paciente dramatizasse no próprio corpo as conseqüências da quebra de suas defesas maníacas, de sua onipotência e do seu falso self, levando-o a um estado de não integração entre processos e funções corporais, segundo uma das visões de Winnicott dos distúrbios psicossomáticos. Sua fragilidade, enfim, começava a se tornar patente para ele mesmo, ao perceber as dúvidas atrozes que o acompanhavam sempre que tinha de tomar decisões. Ou quando se via, mais uma vez, procurando conselhos de amigos que tivessem a sorte de ter um bom analista. Nesta situação, que poderíamos chamar de reação terapêutica negativa, eu mesmo me perguntava, muitas vezes, se estava ajudando o paciente ou apenas contribuindo para uma debanda geral em sua vida. Inclusive porque, com pouca experiência analítica até então, tinha-me apressado em apresentar ao paciente duras realidade internas que ele não tinha condições de enfrentar. Uma das primeiras ocasiões em que o paciente começou a se dar conta de que a opção pela verdade não era tãosomente um mau negócio foi quando conseguiu perceber a situação de crise em que sua empresa se encontrava, crise até então oculta pelo clima maníaco e de ambição dos proprietários. A partir daí percebeu que o tratamento podia ter alguma utilidade, refez aos poucos uma aliança terapêutica e entrou numa situação de melhor aproveitamento da análise. Pôde constatar que seu Dom-juanismo se baseava na conquista de garotas de nível social inferior ao seu, que representavam o seu frágil self feminino, ao qual se unia através das masturbações compulsivas. O precário namoro que mantinha tornou-se uma relação menos instável, que evoluiu para um casamento do qual nasceram três filhos ( um durante a análise). Pela primeira vez na vida tornou-se possível para o paciente conviver com a ambivalência. Retomou antigos ideais da infância, como ser um eficiente profissional, e não apenas o empresário bem-sucedido. No seu trabalho como dentista de crianças anteriormente repudiado estava presente o seu verdadeiro self. O self infantil que esperava, embora com receio, reencontrar na análise e com ele uma série de aspectos de pureza, espontaneidade e criatividade, sepultados pelo falso self ligado à atividade empresarial. O paciente voltou a jogar pôquer, não mais como um jogador quase profissional, numa roda de amigos menos leoninos e vorazes. Tornou-se menos arrogante e perdeu aos poucos o ar de falsidade que apresentava no início do tratamento. Após a alta, o paciente me tem procurado nos Natais ou para dar notícias importantes de sua vida.

BIBLIOGRAFIA E SUGESTÃO PARA LEITURA WINNICOTT, D.W. Tudo Começa em casa, São Paulo : Martins Fontes,1987. WINNICOTT, D.W. Natureza Humana, Rio de Janeiro, Imago, 1990. WINNICOTT, D.W. O Brincar & a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. WINNICOTT, D.W. Os bebês e Suas Mães. São Paulo: Martins Fontes, 1999. WINNICOTT, D.W. A família e o desenvolvimento do Indivíduo. Belo Horizonte: Interlivros, 1980. WINNICOTT, D.W. Explorações Psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. NEWMAN ALEXANDER, As Idéias de D.W. Winnicott, Rio de Janeiro, Imago, 2003. KAPLAN I. HAROLD – Compêndio de Psiquiatria, Porto Alegre, Artmed, 1997.

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