O MUNDO DOS FILÓSOFOS

CONTEXTO I – Pensamento Clássico Os pré-socráticos Heráclito de Éfeso Pitágoras de Samos Zenão de Eléia Demócrito de Abdera Os sofistas Sócrates Platão Aristóteles Epicurismo, Ceticismo e Ecletismo O Estoicismo II – Pensamento Cristão Neoplatonismo – Plutarco de Queronéia O pensamento cristão O cristianismo A praxe ascética do cristianismo Santo Agostinho e a patrística pré-agostiniana Santo Agostinho A escolástica pré-tomista Santo Tomás de Aquino III – Pensamento Latino As ciências naturais na idade helenista e o pensamento latino O direito romano e a educação romana IV – Pensamento Moderno O pensamento moderno Os pensadores renascentistas – Giordano Bruno, Nicolau de Cusa O cartesianismo – Baruch Spinoza De Aristóteles à renascença René Descartes O empirismo – Francis Bacon, John Locke, George Berkeley O iluminismo francês – Jean-Jacques Rosseau Leibniz A renascença – o renovamento das antigas escolas filosóficas Nicolau Machiavelli, Galileu Galilei O cartesianismo – Malebranche, Leibniz, Wolff René Descartes O empirismo – David Hume, Thomás Hobbes O iluminismo francês – Condillac, Montesquieu, Voltaire Blaise Pascal

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V – Pensamento Contemporâneo Emmanuel Kant Hegel – o idealismo lógico Nietzsche Kierkegaard Kant – moral, metafísica e crítica do juízo O idealismo pós-kantiano – Fichte, Schelling e Schleiermacher Hegel – a idéia, a natureza, o espírito O positivismo – Auguste Comte VI - Bibliografia

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I - CLÁSSICOS Os Pré-socráticos Dualismo Grego A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísicoteológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta. O Gênio Grego A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Os Períodos Principais do Pensamento Grego
Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: pré-socrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Divisão da História da Filosofia Grega

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Primeiro Período O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística. Escola Jônica A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas. Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água" Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro.

Aristóteles.) "Ápeiron" Anaximandro de Mileto. Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado.que constituem o mundo. reduzem-se a variações quantitativas (mais raro. um elemento não tão abstrato como o ápeiron. Hipólito. Esta (a natureza do ilimitado. O ápeiron é assim algo abstrato. o fogo é o ar rarefeito. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio. havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. põe como princípio universal uma substância indefinida. a água. Ampliando a visão de Tales. foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. astrônomo e político. e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente. Fragmentos "Imortal. frio e calor. o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega).a geração e nutrição de todas as coisas pela água. As diversas coisas que existem. ele diz que) é sem idade e sem velhice. Anaxímenes de Mileto (588-524 A.e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) .a flutuação sobre a água. através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida. Com essa concepção. mesmo apresentando qualidades diferentes entre si. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas. que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza. porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. . . Para ele. assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres. Refutação. Anaximandro prossegue na mesma via de Tales. Tales acreditava em uma "alma do mundo". Anaximandro de Mileto (611-547 A. etc. a terra. dotado de vida e imortalidade. Elemento Dinâmico . soberanamente nos mantém unidos. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. " Com nossa alma. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. o ápeiron está em constante movimento. infinito e em movimento perpétuo. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar.C. (Plutarco)... matemático. os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista.água e fogo. Elemento Estático . a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar.5 Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico.) "Ar" Segundo Anaxímenes. Eterno. e disto resulta uma série de pares opostos . a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar.C. Física". isto é. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron). geógrafo. (Aécio). Tudo provém do ar. que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. Diz-se também. o ápeiron (ilimitado). que é ar. nem palpável demais como a água. mais denso) desse único elemento. quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos.

Isto é o primeiro concreto. É o progresso necessário. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser". B. que todo o resto fora deste um flui. não o ser . Temos. a essência é mudança. a verdade do ser é o devir. Manifestou desprezo pelos antigos poetas. o primeiro.C. que nada se demora. a idéia filosófica em sua forma especulativa. Objetividade de Heráclito. este devir é o princípio. Dela faz parte não apenas o surgir. isto é. A dialética é: A. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser. O ser é o um. o rio corre e toca-se outra água.uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia. o que é. mas são idênticos. à primeira vista.a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. situando-se. Recusou-se sempre a intervir na política. como a própria dialética. o Obscuro. Dialética exterior. Filosofia de Heráclito Heráclito concebe o próprio absoluto como processo. por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. que nada é firme. Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece. Dialética imanente do objeto. Os eleatas dizem: só o ser é. mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós. "como a do arco e da lira". o infinito. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar. muito contraditório. E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele disso. mas também o desaparecer. ou ser e nada são o mesmo. nem permanece o mesmo". o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato. aquilo que é. mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir. o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser.6 Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito Heráclito nasceu em Éfeso. misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. um homem de profundos pensamentos. cidade da Jônia. Dizemos. um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma. no dialeto jônico. nada persiste. é o verdadeiro. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos). Ele é a plenitude da consciência até ele . Seu caráter altivo.que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente". produzir muito sentido. O Princípio Lógico O princípio universal. porém. contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. então. ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. Nele encontra-se. Floresceu em 504-500 a. C. em prosa. e é aquele que Heráclito fez. Heráclito diz: Tudo é devir. nos eleatas. por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. temos apenas o entendimento abstrato. apenas o ser é. disto todo o resto é formado. modificado. nela temos o ser e também o não-ser. Além . Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser". apenas destruição universal. Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza. ambos não são para si. harmonia feita de tensões. compreender a própria dialética como princípio. Sem ter sido mestre. em Heráclito. ao mesmo tempo já novamente não é. na contemplação do sujeito. o verdadeiro é o devir. nem é menos. É isto compara as coisas com a corrente de um rio . desta maneira. isto é. de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). o segundo é o devir até esta determinação avançou ele. ausência de pensamento. porém. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei). ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade. isto é. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos. portanto. o devir é e também não é". pela primeira vez. pois que imediatamente se transforma. .Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático. Desprezava a plebe. não parece. transformado. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece. regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal.

ser e não-ser. une-se consigo mesmo" . É esta unidade de real e ideal. assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. do pleno. a substância é o todo e a parte.se fosse apenas doce.e isto os sons são em si. seu oposto. apenas este igual a si mesmo . agora este. ao qual Zenão não chegou! "Do nada. isto é a verdade da identidade de ambos. não de um pedaço de papel . disto trata o conceito de toda a Filosofia. da pura oposição. que fala no Banquete. Da harmonia faz parte a diferença. O essencial é que cada diferente. em seu Banquete. na medida em que seu outro em si esteja consigo. pelo contrário. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir. dos universalmente opostos. pois que a harmonia se formaria de altos e baixos. é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. princípio. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. por isso é o ser. como o não verdadeiro.. Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo . o absoluto deve ser determinado como o devir. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser. relação de ambos a um." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente. ao mesmo tempo. "o mel é doce e amargo" . mas é especulativo. "o que concorda e o dissonante". este e o outro. Este verdadeiro é o processo do devir. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo. o absolutamente negativo . Mas isto não contradiz Heráclito. reconhece um no outro. vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito. É um grande pensamento passar do ser para o devir. A subjetividade é o outro da objetividade. ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce. por exemplo. a razão. na verdade.um por limites e um sobressumir os limites. nada vem. Tomamos nós o ente em si e para si. do mesmo modo. e de que de tudo (que se opõe) resulta um. O simples.ser e não-ser ligam-se ao mesmo. mas. o "que se une e se opõe". um ser. a repetição de um único som não é harmonia. também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. e .. mas de tal maneira que também possam ser unidos . assim o puro ser é o pensamento simples. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias .. Assim também no caso dos sons. é ainda abstrato. transformar-se . como nas harmonia das cores. É uma grande convicção que se adquiriu. que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos. em que todo o determinado é negado. de objetivo e subjetivo. diferenciado de si mesmo. quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor. a unidade essencial. e os que sofrem de icterícia que é amargo . a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. gerado seu Filho. por isso é o não-ser. a atividade de dirimirse. pode parecer obscuro. a primeira unidade de determinações opostas. . O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo. das representações correntes dos homens. Este um não é o abstrato. como os céticos. Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. que num está contido seu outro e assim o todo. este movimento é aqui. mas é também o mesmo que o todo é. sobre o princípio de Heráclito: "O um.a falta de movimento. numa forma bem imediata e universal. Mudança é unidade. Da harmonia faz parte determinada oposição. Em Heráclito. que justamente quer isto. Este é o grande princípio de Heráclito.não devir outro. Estas estão inquietas nesta relação. Sexto observa: Heráclito parte. por exemplo.o absurdo disto logo se mostra . Deixa então que Erixímaco. mas da unidade pela arte da música.nada é o mesmo. que é em si e para si.. não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe .todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. nela está o princípio da vida. o objetivo somente é o devir subjetivo. O não ser é.7 que Heráclito expressou com suas sentenças. mas de seu outro. e o não-ser é. como. Aristóteles diz.este é o processo da vida. cada um apenas é. "como a harmonia do arco e da lira". que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) .mas não de um abstrato qualquer outro. Platão diz. e de um tudo. depois aquele. deve ser seu outro. é a unidade dos opostos e.o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo . agora mesmo. porém. mais exatamente. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo. cada particular seja diferente de um outro . por causa de sua contradição. também é o primeiro concreto. etc. passagem absoluta para o oposto. devem ser diferentes. não a representação do ente. e nisto reside sua identidade. pensamos a mudança. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim. em seu conceito. vemos.

tempo. por isso. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. considerando mais detidamente. mas além desta forma universal. outros dizem que antes o vapor que o ar. no que se pode ver. por exemplo. o subjetivo e objetivo. no entanto. porém. O tempo é puro transformar-se. é. enquanto é para nós. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores. mesmo o tempo é citado. é a primeira forma do devir. poderia dar motivos para mal-entendidos. sempre obscuro. absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo. outros dizem que como ar. o não-ser. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo. no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. na confusão de seu modo de expressão. A. somente o agora. a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente. Sua essência é ser e não-ser. na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo. nesta pura forma em que ele o reconheceu. e este é. o tempo é o puro devir. contudo. o simples. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata. o qual. no sensível. o tempo é o primeiro que se oferece como o devir. o real e o ideal. pois ele é. esta mostra-se mais para uma análise superficial. por conseguinte. O fogo. O tempo. Enquanto intuído. então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo. é a essência verdadeira. que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta. O tempo é intuição. para o ser. pois precisamente. sem. Assim. é o processo. como Aristóteles e Sexto Empírico. Se quisermos representar-nos o que ele é. Não como se o tempo fosse e não fosse. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir. portanto. este conceito abstrato. portanto. deu à sua idéia também uma expressão real. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. Mas. sem outra determinação . Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência. como o primeiro ser do ente.esta mudança de ser para não-ser. é incluído ainda na Escola Jônica. pois as testemunhas são as melhores. e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro. De maneira alguma podia Heráclito afirmar. mas inteiramente abstrata. como Tales. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito. portanto. no puro lógico. nesta expressão em conceitos. Heráclito. Os Modos da Realidade Heráclito não ficou parado. é. por isso. do mesmo modo. esta dificuldade desaparece. está logo destruído. ser e não-ser. para o entendimento que segura para si o ser. logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica. ou apenas o processo.e este não-ser passa. em Sexto. .Processo abstrato. expressar ambos os momentos como uma totalidade para si.8 isto é. No tempo não é o passado e o futuro. como exprime Sexto. em sua exposição.A forma real como processo. Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito. não haveria outra que nomear a não ser o tempo. chamar a atenção para estas diferenças e contradições. fogo. dotado de tais momentos. que é harmônico a partir de absolutamente opostos. é o puro conceito. para não ser. mas de modo bem determinado. o tempo é a intuição abstrata do processo. postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. mas deu a seu princípio a forma de um ente. diz que ele é o primeiro ser sensível. mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser .ser puro e abstrato nãoser. isto é. Além disso. como subsistente. . No tempo estão os momentos. B. mas a água enquanto se transforma. a água. compreender a natureza significa apresentá-la como processo. visto de maneira objetiva. na qual expôs seu princípio. que não falam destas formas de passagem. e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. não estão de acordo entre si. pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. É a abstrata contemplação desta mudança. postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. ou sua forma é mais a forma natural. passado . . Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. de modo real. disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo.

O fogo está agora mais precisamente determinado.". homens imortais.o fogo em sua eclosão. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia. aí morrendo provavelmente em 497-96 a. uma associação científico-éticopolítica. mas também de si mesmo. é o número. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça. por ser a evaporação. colônia grega. sua realidade é o processo todo no qual. pois ele é. A natureza é assim esse círculo. substância das coisas. Aristóteles diz de Heráclito que. em parte. o princípio essencial de que são compostas todas as coisas. o fundador da escola pitagórica. destes momentos . seria o incorpóreo e sempre fluído. transformação do determinado. "Nos mesmos rios entramos e não entramos. que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje. a alma. por ser ela a evaporação.C. Da . A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição. Sob este ponto de vista. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. no processo. este processo do mundo que a si mesmo se move. ou seja. viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". somos e não somos". não distinguindo ainda bem forma. absoluta dissolução do que persiste . porém. que a alma mais seca é a melhor. em algumas notícias. seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro. afirma-se. ele não é permanente. pelo contrário. não tanto o ar como antes a evaporação. água e ar. sua essência como processo. mudando-se para Metaponto. assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. a mais viva. mas. os momentos da oposição subsistente. O fogo é o tempo físico. nasceu em Samos pelos anos 571-70 a. que o princípio é a alma. que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga. a terra. vapores do sol). o emergir de tudo. evaporação. o retorno para a unidade. o queimar da oposição subsistente. que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. o fogo é a alma. lei e matéria. enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas. e 3. isto é.e este é o modo real do processo heracliteano. os momentos são determinados mais exata e concretamente. 2. isto é.o desaparecer de outros.9 porém. isto. As determinações mais próximas deste processo real são. o mar e. Em 532-31 foi para a Itália. a metade disto. transformação em fumaça. as relações matemáticas. ele é para si o processo real. devir. é mudança. Os pitagóricos. C. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo. Este é universal e muito obscuro.e a unidade negativa. levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante. Justamente no processo distinguem-se os momentos. e fundou em Crotona. a alma e a substância do processo da natureza. e este evaporar-se. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita.é mais: passagem. a essência. terra. que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são. consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. O fogo. falhas e contraditórias. o princípio era a alma. o momento abstrato do mesmo. Compreendemos o que Aristóteles cita. e este não é a negação do vivo. o puro momento negativo. Pitágoras de Samos Pitágoras. a totalidade em repouso. ele é a idéia permanente. primeiro. ele é esta absoluta inquietude. mais explicitado como processo real. então. Segundo o pitagorismo. como no movimento: 1. é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência . encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor. o pôr desta oposição. o raio" .a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política. mas a própria vida. "Os homens são deuses mortais e os deuses. Sob este ponto de vista.C. na Magna Grécia. segundo sua exposição. Pitágoras aspirava .e também conseguiu . então. evaporação é aqui apenas a significação superficial . . e a outra metade.

precisamente mediante o uno e o imutável. mas delimitações do ilimitado. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. astronômico e sonoro. trevas. aqui. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. não há qualidades. Pelo que diz respeito à moral. que. Mas. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro. ilimitado. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. e a pluralidade do ser. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. determinado. um conceito contraditório. uno. par. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. a qual via a perfeição na determinação). dualismo. delimitado e ilimitado. Portanto. os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes.] . curvo. nesse caso. masculino. À primeira vista. a linha. por outro lado. logo. quente. Assim. portanto. relação de intervalos. quadrado. agitado. bom. portanto. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. 3) portanto. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. passivo. é uma especulação totalmente insólita. bem como a rotação da Terra. ilimitado. portanto. o não-ser é noite e. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. que governa e deve governar o mundo material e moral. a Unidade veio a ser. Radical oposição esta. reto. direita. Dizem. mau. Os elementos constitutivos de cada coisa . se o Uno existe. luz. ímpar. é preciso partir do eleatismo. foi em todo caso formado por dois princípios. os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser. que não está em parte nenhuma. ao absolutamente Indeterminado. explicando assim o dia e a noite. é limitado. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). Portanto. De outro lado. luz. denso. e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. o ilimitado e o limitado. inqualificado e qualificado. não quantidades de elementos (água. esquerda. pois. curvo. em todo caso. que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice. múltiplo. que não se deve confundir com o Sol. etc. mau. e as partes múltiplas. ablongo. imóvel. reto. Para compreendermos seus princípios fundamentais. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. masculino. quadrado. agitado. 5): delimitado. De fato. direita.o ilimitado e o limitado.segundo os pitagóricos . assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. e ímpar. impossível. que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática). perfeito. do qual se pode dizer que é impar. o par e o ímpar. Nela. o Péras. ativo. portanto. ímpar. esquerda. portanto: delimitado. I. por conseguinte. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos. uno.sendo cada coisa número são o par e o ímpar. De novo. portanto há. que não põe limites à divisão por dois. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. par. também uma pluralidade". Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. O ser é luz e. modo dórico. feminino. que põe limites à divisão por dois e. bom. portanto a diversidade. etc. Desde que se têm o ponto. que são . frio. e as práticas ascéticas e abstinenciais. àquilo que não tem nenhuma qualidade. enfim. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. o imperfeito e o perfeito. e a delimitação. O número divide-se em par. etc. múltiplo. pois. há também uma pluralidade. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. ablongo. toda coisa nasce de dois fatores opostos. as superfícies e os corpos. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. imóvel. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. Portanto. não-ser e. tudo é uma unidade". têm-se também os objetos materiais. sutil. trevas. feminino. portanto. e. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. Mas. Como a filosofia da natureza. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. Mas ambos compõem o Uno. portanto. há também uma pluralidade. fogo. do Ápeiron. o número é a essência própria das coisas. achada a substância una e imutável das coisas. não há nada além de quantidades. contra o eleatismo.). o pior e o melhor. 2) que tampouco tem limites. [Teoria das cordas sonoras. imperfeito. e o número. é ilimitado (quer dizer. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. ou seja.10 racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas. De um lado têm-se. segundo a concepção grega.

quatro a justiça. nesse sentido. com analogias fantasiosas. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. pai de todas as coisas. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as proporções. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. a Anaximandro. há 2. isso porque os ímpares. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). porque há. encontra-se. se se trata de sua qualidade. enfim. Contentou-se. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. etc. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. . A música.. peremptoriamente. cinco o casamento. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. desde os tempos da antiguidade. a imagem. dez a perfeição. poder-se-ia exprimir o ser do universo. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). poderosamente. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. O Universo e os planetas esféricos. agora. se se trata de sua quantidade. o Ápeiron de Anaximandro. sem dúvida. como o Péras fixa o limite). ao dizer que a música é exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi (¹). o domínio da química e das ciências naturais. Cosmogonia. Nos outros sistemas de física. provisoriamente. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. e quanto à tonalidade.11 A música. con efeito. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. exclusivamente com o auxílio de números. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. dois a opinião. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. quatro o volume. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. pois. A harmonia das esferas. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. a possibilidade de uma investigação exata em física. pelo menos em certo sentido. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. Na química. Remetem-se. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. davam nascimento a uma série limitada de números. dois é a linha. os números quadrados. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. que reaparece aqui pela última vez. E tal é. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. depois. três a superfície. nessas descrições. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. Dentre as religiões de mistérios. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. cuja tarefa é. é essencialmente uma força calculadora.600 anos vem. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. evidentemente. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. os gnómones. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. A contribuição original dos pitagóricos é. um é o ponto. ponto de vista inteiramente novo. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. Nossa ciência é. jaz envolta num véu de mistério. como tal. Mas estes são apenas. assim. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. o primeiro sistema de Parmênides. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. Parmênides chamava Aphrodite. problemas secundários. O fato de negar-se. No mesmo sentido. portanto. O vir-a-ser é um cálculo. por não se ter às mãos documentação bastante. a essa força. e da Harmonia que une as qualidades opostas. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. tiveram de erigir a noção de número. agora. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. inicialmente. de caráter iniciático. influindo no pensamento Ocidentel. que é representada inteiramente destituída de qualidade. pitagórica. do qual a música é. Isso lembra a palavra de Leibniz. estritamente.

em seu incêndio. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. junto com os seus mais amados discípulos. certa vez. afinal. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. porém. relata-se que esteve em contato com os órficos. Observa-se. fundou o seu famoso Instituto. Sabe-se hoje. chamava-se Pitágoras. cuja existência foi tantas vezes negada. por volta de 41 a 54 d. Confúcio e Lao Tsé. Numa obra. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. conhecido Zaratos. outros. mebora esteja. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. Conta-nos. e que. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. levado o filho à Pítia de Delfos. em Babilônia. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. ainda. em Crotona. hoje cara aos pitagóricos. natural de Tiro. entre 592 a 570 antes da nossa era. que desde criança se revelava prodigioso. no Peloponeso.. porque aí é que funda o seu famoso Instituto.12 Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. essa ordem. perto de Porta Maggiori. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. aluno de Tales. sob os trilhos da estrada de ferro. já em tempos de César. síria ou. Tendo esta. com base histórica. também. ainda. Foi depois discípulo de Sonchi. Consta que Pitágoras. . mas provocaram. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. sinteticamente. ou Pythaia. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. tomando um rumo que permaneceu ignorado. como já esteve no passado. então tirano de Samos. e ouvinte das conferências de Anaximandro. e que nada mais era do que um templo. tendo. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. Em 1917. que. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. recomendado ao faraó Amom. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. Zoroastro (Zaratustra). averigou-se ser pitagórica. vamos a seguir relatar algo. foi descoberta uma cripta. Mas. onde. segundo uns. por casualidade. um sacerdote egípcio. afirma-se. a inimizade de Policrates. Relata a lenda que Pitágoras. nos santuários de Mênfis. foi iniciado nos mistérios egípcios. tendo sido. Antes de sua localização na Magna Grécia. Afirma-se. ademais. também. que este realizou. durante vinte e cinco séculos. como foi Gautama Buda. onde. ao nosso ver. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. e se essa seita foi tão combatida. proliferavam os templos pitagóricos. Se não existiu Pitágoras de Samos. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. depois Ferécides de Siros. posteriormente. contando-nos a lenda que. foi finalmente destruído. inúmeras viagens e peregrinações. pereceu Pitágoras. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. combatido pelos democratas de então. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. em nossos dias. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. ou seja. já em decadência. em torno dessa lenda. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). em Mileto. o qual. que antes. em sua juventude. era filho de Menesarco e de Partêmis. que liga Roma a Nápoles. que Pitágoras nasceu em Samos. que ainda existe e tem seus seguidores. que preferem declará-lo como não existente. Dióspolis e Heliópolis.C. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos.

Partindo de idéias órficas. . "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". entre todos os seres. os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. uma revivescência da vida religiosa. porém. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. teria sido antes de mais nada um reformador religioso. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática.não só de natureza como também de valor . e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. que ele teria deixado Samos (na Jônia). que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). em algumas regiões do mundo grego. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano. de caráter iniciático. mas não a carregues". Para libertar-se. verificou-se. A alma aspiraria. a retornar à sua pátria celeste. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. em geral. porque basicamente intelectual. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. uma teve enorme difusão: o culto de Dionisio. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa. ou seja. garantida pela presença do divino em tudo.C. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia . já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. uma distinção . O orfismo . sustentada pela ordem e pela proporção. depois da derrota da liga crotoniata. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. sobretudo. de natureza divina. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica.13 Segundo as melhores fontes. do ciclo das reincarnações. contudo.era uma religião essencialmente esotérica. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. pelos tiranos. entendido como unidade harmônica. A purificação resultaria do trabalho intelectual. das divindades "oficiais" -. semeia . depois do pitagórico Filolau.o que escuta. de acordo com ela.C. (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. A religião órfica pressupunha. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. na segunda metade do século VI a. "O que fala. na transmigração da alma através de vários corpos. transformando o sentido da "via de salvação". Parece certo. portanto. a fim de efetivar sua purificação. Natural que dentro de tal concepção vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" . por sua própria natureza. fugindo à tirania de Polícrates. de onde caíra. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . que. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza".que se supunha descendente dos deuses protetores das polis.o mal seja entendido sempre como desarmonia. as regras da vida individual e do governo das cidades. e que se manifesta como beleza. a alma semelhante ao cosmo. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte. recolhe". às estrelas. assim. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. será qualificada como uma "harmonia". como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. originário da Trácia.de Orfeu.

surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. a quantidade e sua expressão espacial. Assim. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". (Pitágoras) Em Todas as Coisas. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo".esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação.e em grande parte por causa deles . onde se processa a purificação da alma . em substituição às representações literais mais arcaicas. Essa geometrização do cosmo estava aliada. presos a esferas homocêntricas. as unidades comporiam os números. os números são reais. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). usadas pelos gregos e depois pelos romanos. faze aquilo que te parece justo". estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. o dois determina a linha.que descreve o cenário cósmico. são a própria "alma das coisas". Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números.como virão a ser mais tarde -. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. o Número A partir do próprio Pitágoras. enquanto o quatro produz o volume. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. o três gera a superfície. Os primeiros números. Segundo a cosmologia pitagórica . influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior). como V¯². unidade de extensão. às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos . Apesar desses impasses . bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto. "Todas as coisas são números". Estes não seriam. Assim. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente. O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". Ou então. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. vivo. quanto na base mesma da matemática. "Pensem o que quiserem de ti.14 Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. Sua astronomia. portanto . representados figurativamente. Com efeito. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. mínimo de corpo. da música. a hipotenusa seria igual a V¯². o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. De acordo com essa concepção. no pitagorismo. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. Mínimo de extensão e mínimo de corpo.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. Ou seja.

a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. Ele é o mestre da Escola Eleática. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. Nasceu em Eléia (Itália). segurando-o assim. dando leis à sua pátria. interveio na política. a orelha e cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. por não revelar o nome dos comparsas. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. pleno para aquela mudança. acabou preso. Outros ainda dizem que. não é. Segundo muitas lendas. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. torturado e. . Quando o tirano. pelo contrário. descontínuo e divisível dos pitagóricos. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. pois na mudança seria posto o nãoser daquilo que é. (Pitágoras) Zenão de Eléia Vida. Este o amava muito e o adotou como filho. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração.é o iniciador da dialética. depois disso teria sido triturado num pilão. Também Zenão era um eleata. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. principalmente os pitagóricos. Já em seu elemento tético vemos progresso. Sobre a Natureza. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. começar com esta afirmação.15 intervalos musicais. Zenão. em seu movimento. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a.Escreveu várias obras em prosa: Discussões. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. tranqüila em si mesma. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. Dessa maneira. Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. Parmênides. pelo contrário. . De modo violento e furioso de sua reação. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". mordendo-lhe. no entanto. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. apenas com esta diferença fundamental. perdeu a vida. mas somente é ser. é a razão que realiza o começo . sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. em seu conteúdo. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano.C. para arrancarlhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. diante de seu povo. para caírem sobre o tirano. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). 1) Segundo seu elemento tético. Parmênides afirmou: "O universo é imutável. para lá colher fama. sons de acorde perfeito. esta sido traída. tendo. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. Nisto consistia o movimento determinado. é o nada para ela.Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). Essa "harmonia das esferas". nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. mas não o vemos. liquidá-lo e assim libertar-se. e ao perguntar pelos inimigos do Estado. Defendeu o ser uno. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade.ela aponta. ao mesmo tempo. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. porém. Explicação Crítica de Empédocles. . a filosofia de Zenão é. a alma pura da ciência . ou ela não é nada". permanentemente soante. o fez torturar de todos os modos. contra as críticas dos adversários. Em Zenão. Ao contrário de Heráclito. Contra os Físicos. aquelas esferas produziram. A característica de Zenão é a dialética.

"O um. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. b) Dar-se-ia delimitação mútua. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. não seria capaz de tudo o que quisesse. uma parte teria determinações que faltariam às outras). originar-se-ia o não-ser do ente. não seriam. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. pois não é aqui assim. negando-se predicados. assim não é o ente. raciocinando-se. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. em outra parte de outro modo. espaço. lado a lado. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . nem vice-versa. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. Aristóteles conclui que. ouve. pois ele é eterno e um. Ser e não-ser situam-se assim.ou não se distingue dele. é em toda parte igual. nada pode provir". pois. vê e possui também. mas assim já é. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. reprimi-la-ia. as coisas finitas . impossíveis. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. ser. portanto. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. que dele se produza mais do que deve ser produzido. quer do igual quer do desigual. Pois. quando algo é. a partir daí. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. o mais antigo." Com a aceitação da igualdade. Do nada é imediatamente nada. Se. então Ihe é próprio que seja um. possui ele a forma esférica. Deus é e se ele é de tal natureza. houvesse mais deuses. pois este não possui nem meio. pois um dever-se-ia mover para o outro. se houvesse diversos. ele não teria poder sobre eles. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. Ambas as coisas são. Se." Do fato de nada poder provir. b) Movido. ele mesmo. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. seria o não-ente. nem é imóvel. em toda parte. nem em repouso nem em movimento. do ser. de argumentar é ainda. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. surja" (ele relaciona isto com a divindade). por exemplo. enquanto algo negativo. o pior viesse do melhor. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. Como Deus é em toda parte igual.16 "É impossível". que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. pelo contrário. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. porém. nem fim. portanto. Deus é eterno. a supressão do ser. o poder de Deus. a reflexão em si. por conseguinte. o negativo. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. por exemplo. e é assim. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. determinado como algo unilateral. porém. em tal tipo de raciocínio. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. "Sendo um. Deus se comporta assim. "o que é impossível. não passa para o ser." Movido só é o que é diferente de outro. nem vai para coisa alguma. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). ele não é limitado. é o não-ente. nem começo. de um lado temos. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. do igual. mas em toda parte igual. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. "que. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade." Diz ainda: "Já que é eterno. assim. pois não se pode atribuir. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). ou tudo é eterno. até o dia de hoje. O ser. nem uma parte . os outros sentimentos. este afundar-se no abismo da identidade do entendimento. não fosse assim. Nós dizemos que Deus é imutável. portanto. 0 ilimitado é o indeterminado. mas. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. o imóvel é negativo. porém.tal coisa é o ilimitado. deuses. Ser é a igualdade expressa como imediata. não está nem em repouso nem se movimenta. válido. Este modo. se houvesse mais deuses". somente é o múltiplo. diz ele. Em tudo isto. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. nosso caminho é trivial e mais óbvio. portanto. estes diferentes não são expressos como diferentes. ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. Vemos. portanto. inversamente. Como. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. ao igual. pois. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. ou nada existe fora de Deus. Em seguida. o que é impossível. então só há um Deus. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. ou se. a) ilimitado é o não-ente. como é apenas um. um e esférico.

o negativo de lado.conseqüência que. Xenófanes. esta somente se suprime através de um outro. Eu não . o nada não é. isto é. ainda que deva ser por nós admirada. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . algo incompreensível: pois do um. enquanto limitado. a mudança é em si contradição. ou é negada enquanto finita. nos sofistas. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. é determinada como o negativo e. sua nulidade não aparece nela mesma. tanto no um mesmo. então. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . mas apenas o ser para o outro é. o oposto. demonstrei isto. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. que contenha em si uma contradição. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. é o nada do movimento. passo a passo. não ser negada apenas uma determinação. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. Isto pressentiu Zenão. no que vimos. gêneros. também ela finita.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. do ser. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. ela é posta através da negação. que ele é o nulo. na negação absoluta. assim. também é determinação. desta maneira. Portanto. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. Ou passamos do finito para o infinito. como a essência. Do mesmo modo. Mas. pois ele nega predicados que se opõem. o vazio. a realidade do mundo finito. onde encontram. o que os eleatas desprezaram.17 e a mudança. isto se dá. é. como o nada. está afastada a determinação do negativo. e.o lado negativo da dialética. no movimento. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. da multiplicidade. dizendo que o finito. contudo. em Zenão. portanto. assim. por exemplo. Enquanto nós deixamos valer. em nossa representação. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. porque previu que o ser é o oposto do nada. Isto. serem-si. terem mostrado que. porque não concorda com o meu". mas sem qualquer determinação. suprimem com isto essa determinação. os eleatas foram mais conseqüentes. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. assim como se pressupõe o ser. conclui-se. e o gênero mais alto é então Deus. a multiplicidade está sobressumida. e então é puramente infinita.e pelo fato de. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. devendo então. eles afirmam um dos predicados que se opõem. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). em seu pensamento. é apenas afirmativamente. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. isto é. o descobridor da dialética em sua plenitude. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . mas ambas as negações que se opõem. segundo o pressuposto. Parmênides. através de minha afirmação. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. É a mesma separação. e deixamos. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. não menos. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. o movimento. numa determinação. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. enquanto o ser supremo. parte em Heráclito e. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. com isto não permanece verdade alguma. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. em seu Parmênides. como deve ela ser concebida. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. que. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. de outro lado. deve ter seu fundamento no infinito. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. só que nós deixamos valer como ser também o finito. ao menos é quem está em seu começo. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. não de maneira que se suprima a si mesma. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. de nosso modo de refletir comum. Eles põem-no fixamente. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. que deixa o finito de lado. porém. ou seja.

quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações. ele o dá a si. A coisa tem. levar a guerra para território inimigo. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. pois. em que proposições são resultado da demonstração. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. o não-ente. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. A outra dialética. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. de neles apontar razões e aspectos. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. átomos. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. não segundo circunstâncias exteriores. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição 18 . assim o múltiplo é infinito. infinito é o negativo do múltiplo. na medida em que combate o movimento sensível. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. isto é. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. Nesta consideração. A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. assim o que foi acrescentado não é nada. enquanto limite indiferente. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. A dialética subjetiva. o que é infinito não é mais grande. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. 0 resultado desta dialética é zero.devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. para passar para o infinito. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. sua dialética mesma em si. razões. é a demonstração o movimento da convicção. "pequeno. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. se não tem tamanho e grandeza. o outro não seria por isso diminuído. de maneira objetiva e dialética. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. mas a partir da coisa mesma. No Parmênides de Platão (127-128). mostra que possui determinações opostas. A dialética como tal é a) dialética exterior. idéia. deve-se ultrapassar a multiplicidade. também não é. portanto. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. "Ele demonstra que. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. este movimento distinto do compreender deste movimento. Conforme a representação corrente da ciência. esta dialética é muito bem descrita. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. segundo a grandeza" (tò mégethos). mas em si mesmo. isto é. dever-ser. quando é o múltiplo. fortalecido. nada". mas em si mesmo. Podem ser então razões bem exteriores. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. sem pressuposições. O mesmo aconteceria ao ser retirado. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. mas. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. nem mais múltiplo. nem massa (ónkos). não é. Zenão responde que escreveu isto. leis. o sistema que se opõe está errado. e o movimento é: tornar-se outro. que o múltiplo não é. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. enquanto se move. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. baseando-se em razões exteriores. então é grande e pequeno: grande. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. algo exterior. o negativo. nem espessura. sobressumir-se. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. de maneira que não tem mais grandeza". porém. ligação através de mediação. a essência do com-preender. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. que raciocina. pelo contrário. ele se demonstra a si mesmo. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme.

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interna. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse - como nós dizemos, não há elefantes, não há rinocerontes. Que o movimento existe, que ele é fenômeno, isto nem está em questão; o movimento possui certeza sensível, como existem elefantes. Neste sentido, Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. Pelo contrário, seu questionar vai em busca de sua verdade; mas o movimento é não verdadeiro, pois ele é contradição. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma, porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal; é pressuposta a continuidade do espaço. O que se move deve atingir uma determinada meta; este caminho é um todo. Para percorrer o todo, o que é movido deve antes ter percorrido a metade. Agora a meta é o fim desta metade. Mas esta metade é novamente um todo, este espaço possui assim uma metade; deve, portanto, ter atingido antes a metade desta metade, e assim até o infinito. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos, nunca se pode parar com a divisão. Cada grandeza - e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza - é novamente divisível em duas metades; estas devem ser percorridas e, mesmo onde colocamos um espaço o menor possível, sempre surge este mesmo estado de coisas. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina; portanto, o que é movido nunca atinge sua meta. É conhecido como Diógenes de Sínope, o Cínico, refutou tais provas da contradição do movimento, de maneira muito simples; levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá - ele as refutou pela ação. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação, Diógenes o castigou pela simples razão de que, se o professor havia discutido com argumentos, ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível; mas é preciso compreender. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. primeiro em sua contradição - uma consciência dele. O movimento, o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado, um posto segundo sua essência, a saber, (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade - do ponto contra a continuidade. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou, do mesmo modo, o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade, uma duração (dia, ano); mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. A igualdade consigo mesmo, a continuidade é absoluta homogeneidade, é eliminação de toda diferença, de todo negativo, de todo ser para si; o ponto é, pelo contrário, o puro ser para si, o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. Mas estes dois estão postos numa unidade, no espaço e no tempo, espaço e tempo, portanto, a contradição. O mais fácil é mostrá-la no movimento; pois, no movimento, o oposto é também posto para a representação. Pois o movimento e a essência, a realidade do tempo e do espaço; e, enquanto esta aparece, é posta, também é posto já o fenômeno da contradição. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. É a continuidade de um espaço, é o positivo que é posto; e nele o limite que o divide ao meio. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si, mas é algo limitado, é novamente continuidade. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto, mas põe o oposto nela limite que divide ao meio; mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade, a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. Até o infinito - com isto nos representamos um além, que não pode ser atingido, fora da representação que não pode atingi-lo. É um inacabado ultrapassar, mas presente no conceito - um passar além de uma determinação oposta para outra, de continuidade para negatividade, de negatividade para continuidade; elas estão diante de nós. Destes dois momentos pode, no processo, ser afirmado um deles como o essencial. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si, um determinado - nenhum espaço limitado, portanto, continuidade; ou Zenão afirma o avanço neste limitar.

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A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente, mas apenas divisíveis. Parece, entretanto, que, enquanto são divisíveis (potentia, dynámei, não actu, energeía), também devem estar efetivamente divididos infinitamente; pois, de outro modo, não poderiam ser divididos ao infinito - uma resposta geral para a representação. 2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles", o homem dos pés velozes. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. De dois corpos que se movem numa direção, dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância, movendo-se, porém, mais rapidamente que aquele, sabemos que o segundo alcançará o primeiro. Zenão, porém, diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido"; e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga", no começo desta determinada parte do tempo. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava, este já avançou para mais longe, deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo; e assim se vai até o infinito. B percorre numa hora duas milhas, A, no mesmo tempo, uma milha. Se estão separados entre si por duas milhas, então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. Mas o espaço (uma milha), vencido por A, será percorrido por B na metade de uma hora, e assim ao infinito. Desta maneira, o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro; o tempo de que necessita, também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição, e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". Aristóteles, que trata disto, diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. "É algo não verdadeiro; pois o rápido, contudo, alcançará o vagaroso, se Ihe for permitido ultrapassar o limite, o limitado." A resposta é correta e contém tudo. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si - isto é, são limitados, são limites um para o outro. Se, ao contrário, se admite que tempo e espaço são contínuos, de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua, então eles são, igualmente, na medida em que são dois também não dois - são idênticos. Zenão apenas faz valer o limite, a divisão, o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação; por isto surge a contradição. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento, porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto, na realidade unidos. 0 pensamento produziu a queda original, quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal; mas também ressarce este prejuízo. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa", e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo, no "não-distinguível" (en tõ nyn, katà tò íson); ele está aqui, e aqui e aqui. Assim que dizemos que sempre é o mesmo; a isto, porém, não chamamos movimento, mas repouso: o que sempre está no aqui e agora, repousa. Ou devese dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo; não consegue ultrapassar seu espaço, não conquista um outro espaço, isto é, um espaço maior ou menor. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido; o ser limitado é posto como tal, mas o limitar é, contudo, um momento. No aqui agora como tais, não há diferença. No espaço, um ponto é tão bem um aqui como o outro, isto aqui e isto aqui e mais um outro, etc.; e, contudo, o aqui é sempre o mesmo aqui; não são distintos entre si. A continuidade, a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. Cada lugar é lugar diferente - portanto, o mesmo; a diferença é apenas aparente. Não é neste estado de coisas. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares, ao menos três. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo; se, no espaço absoluto, por exemplo, o olho repousa ou se move, é inteiramente o mesmo. Ou, conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram, em círculo, um em torno do outro, surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior, os fios estendidos (tensio filorum). Se num navio caminho na direção oposta da

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direção em que se move o navio, o mover-me é movimento com relação ao navio, mas repouso com relação a outra coisa. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto, nem espaço limitado, mas apenas continuidade absoluta, transgredir todos os limites. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso, a saber, o absoluto ser-limitado, a interrupção da continuidade, nenhuma passagem para outro. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras"; pois, se não se concede isto, não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual, com velocidade igual, um a partir do fim do estádio, o outro a partir do meio, um em direção do outro; disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que, no que se move e no que está em repouso, a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual, com velocidade igual; isto, porém, é falso. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo, o comum, que deve ser atribuído inteiramente a cada parte, enquanto realiza para si apenas uma parte; b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos; é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro, partindo do mesmo ponto, caminha dois pés para o oeste; assim estamos distantes um do outro quatro pés - aqui ambos devem ser somados; na distância de ambos, ambos são positivos. Ou avancei e retrocedi dois pés - no mesmo ponto; ainda que tenha andado quatro pés, não saí do ponto em que estava. 0 movimento é, portanto, nulo; pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. Isto é então a dialética de Zenão. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo; ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. O elemento universal da dialética, a proposição universal da escola eleática foi, portanto: "0 verdadeiro é apenas o um, todo o resto é não-verdadeiro"; como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno, nada verdadeiro"; mas nisto também reside uma diferença. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal, com suas formas infinitamente diversas - este lado não possui verdade em si mesmo". Nào é, porém, isto que pensa Kant. Ele afirma: Voltando-se para o mundo, quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior), voltando-se para ele, fazemos dele um fenômeno; é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível, determinações da reflexão, etc. Só nosso conhecimento é fenômeno, o mundo é em si absolutamente verdadeiro; só nossa aplicação, nosso acréscimo o arruína para nós; o que acrescentamos, nada vale. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. Isto é então a grande diferença. Este conteúdo também é nulo em Zenão; mas, em Kant, porque é obra nossa. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo; segundo Zenão, é o mundo, o que aparece em si que é não-verdadeiro. Segundo Kant, é nosso pensar, a atividade de nosso espírito o elemento mau - é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos - enquanto seres sensíveis, tão bons ou tão maus como os pardais. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde, com os sofistas, tornou se universal. 1.5 - Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. mas muitas lendas. Viagens extraordinárias, a ruína material, as honras que recebeu de seus concidadãos, sua solidão, seu grande poder de trabalho. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. . .

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Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio, o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. Se o espaço é absolutamente pleno, não pode haver movimento. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio, pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo; se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço, poderia haver uma infinidade deles, pois o menor poderia acolher em si o maior; 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio; 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo; 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio, a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. O não ser é, portanto, também o pleno, nastón (de nasso, ou aperto), o stereón. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito, não haveria mais nenhuma grandeza, não haveria mais ser. Se deve subsistir um pleno, isto é, um ser, é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. Mas o movimento demonstra o ser, tanto quanto o não-ser. Se somente o não ser existisse, não haveria movimento. O que resta são os átomos. O ser é a unidade indivisível. Mas, se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque, é preciso que sejam de natureza idêntica. Demócrito afirma, portanto, como Pitágoras, que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. Se um átomo fosse o que o outro não é, haveria um não-ser, o que é uma contradição. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. São chamadas também idéai ou skhémata. Todas as qualidades são nómo, os seres só diferem pela quantidade. É preciso, pois, remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós, skhéma), pela ordem (diathigé, táxis), peia posição (tropé, thésis). A difere de N pela forma, AN de NA pela ordem, Z de N pela posição. A principal diferença está na forma, que indica diferença de grandeza e de peso. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). Como todos os seres são da mesma natureza, o peso deve pertencer igualmente a todos, isto é, à mesma massa, o mesmo peso. O ser, portanto, é definido como pleno, dotado de uma forma, pesado; os corpos são idênticos a esses predicados. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas, fora de nossa representação; não se pode fazer abstração delas; são: a extensão, a impermeabilidade, a forma, o número. Todas as outras qualidades são secundárias, produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos, dos quais são apenas as impressões: cor, som, gosto, odor, dureza, moleza, polido, rugoso, etc. Pode-se, portanto, fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos; desaparece quando esse grupo se desfaz, muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos; se há separação no espaço, recorre-se à teoria das aporrhoaí. Percebese, pois, que Empédocles foi utilizado a fundo, pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. Demócrito adota uma posição adversa. Anaxágoras reconhecia quatro elementos; Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos; nos outros elementos estão misturados átomos diversos; os elementos distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. É por isso que a água, a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. Demócrito pensa, com Empédocles, que somente o semelhante age sobre o semelhante. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. O ponto de partida de Demócrito, a realidade do movimento, Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles, provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. Com Anaxágoras, tem em comum os ápeira ou matérias originais. Naturalmente, é antes de tudo de Parmênides que ele procede, é este que domina todas as suas concepções fundamentais. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides, segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento, a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas.

esta hipótese. É a concepção mais terra-a-terra. embora não racionais. tem-se. os mais leves são repelidos para o vazio exterior. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. perpetuamente agitados. a massa entra em rotação. com o auxílio de um mecanismo cego. História Natural do Céu. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. Leucipo. os outros permanecem juntos. Parece-me que se poderia dizer aqui. Alguns formam massas espessas. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. no espaço infinito. movia-se de um lado para outro. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. e eu vos farei um mundo' ". primeiramente. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. Não há acaso. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade.. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. quando ela era ainda pequena e leve. seu movimento. tem muita analogia com a minha. Estes se movem perpetuamente. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. Epicuro. 48. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso".. Esse turbilhão aproxima. pelo choque. Demócrito. em um estágio antigo de sua formação. não se pode indicar sua velocidade. bem entendido. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. O sol e a lua. a velocidade sendo desigual. pois. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. produz-se um movimento giratório.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. Os átomos centrais formam a terra. uma hipótese cientificamente utilizável. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. lisos e arredondados (de fogo). Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar . há infinitos mundos. O pensamento é um movimento. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. sob o efeito combinado de forças opostas. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. Rosenkr. eles se encontram. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. Do mesmo modo. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. o que é de mesma natureza. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. O movimento original é. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. Assim a terra se solidifica. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. p. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. é esta que move os seres animados. ultrapassar as forças mais simples. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. o materialismo. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. da espécie mais comum. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. as partes mais leves são empurradas para o alto. o fogo.23 De todos os sistemas antigos. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. Cada vez que nasce um mundo.. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. isso seria equivalente ao repouso absoluto. alguns são repelidos. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. sempre foi da maior utilidade. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. Leia-se Kant. pois. de átomos sutis. parte das qualidades reais da matéria. como se fossem expulsos. mas um conjunto de leis rigorosas. ser feita da matéria mais móvel. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. enfim. em certo sentido. A essência da alma reside em sua força animadora. Estes nasceram e perecerão. Nascimento dos seres animados. vertical. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. concursu quodam fortuito. no começo. anánke sem intenções. aqueles que se elevam formam o céu. não procura logo de início. A alma deve.. o ar. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros).

Se a respiração cessa. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido. Tudo o que é objetivo. Com efeito. O cristianismo nascente. que o veneno já estava por demais alastrado. percebe exatamente os objetos. .24 circundante. É de um tal dado que o materialismo quer. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm.. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. não passa de um dado extremamente mediato. do espaço e da causalidade. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. agora. que. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. . se não no absoluto. . para cuja produção cooperamos sempre. sob sua marca. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. como a encarnação do paganismo. a representação.. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. O contato não é imediato. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. Duas condições são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. . o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. quando atravessava o rio a cavalo. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. lembram Aristóteles e sua metropathía. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. potanto material. as representações são falsas e o pensamento é malsão. Disso resulta a morte. Por outro lado. um concreto extremamente relativo. Se este é o inventor da idéia principal. A percepção é idêntica ao pensamento. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. A tradição não prova nada. o pensamento é sadio. Mais tarde. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. introduzindo. enquanto. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. Trata-se do mundo que é o nosso. por um lado. O sono . na verdade. disso nasce a representação das coisas. Somente o semelhante sente o semelhante. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. deduzir o único dado imediato. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito.morte aparente. assim como os de Epicuro. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o rmaterialismo. enfim. aqui e ali. que puxava para cima. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós. Junta-se a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. Não são indignos de Demócrito. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. Assim. É disso que nos preserva a respiração. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. É uma prodigiosa petição de princípios. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. de repente. mas. Teoria das percepções dos sentidos. o fogo interior escapa. é uma representação cômoda nas ciências naturais. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. . opera-se por meio das aporrhoaí. extenso. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. Enfim. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. Isso não acontece em um instante. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. agente.

Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". Racionalista encarnado. . É. Inquietações conjugais: adoção de filhos.. a viver das esmolas de seu irmão. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural). Pitágoras. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. Sobre o problema da origem do mundo. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si. ao passar em revista os sistemas anteriores. Inquietações míticas: racionalismo. É na moral que está a chave da física de Demócrito. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. mas sentimos sua força poética. como um mendigo. etc. Arrojo poético (poesia do atomismo). Demócrito é perfeitamente claro.25 Todos os materialistas pensam que. de uma completa clareza. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. Sobre a questão da criação do mundo. Ele se atrela a este. Sente-se impelido a correr o mundo. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. Não acreditamos nos contos. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. O Mal excluído de seu sistema. Inquietações morais: ascetismo. acomodava à sua maneira os deuses. A ética de Demócrito é conservadora. sem dúvida. Sentimento de um progresso poderoso.. Retorna pobre e sem recursos.. É o que prova sua própria descrição. Clareza. de seus raros predecessores. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. É que sua vontade é a mola de sua investigação. Aversão ao bizarro. Ainda não havia notado. um racionalista confiante. a queda e o choque. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. Demócrito. o espetáculo dos sacrifícios. ele não perde o senso da poesia. Paz de espírito. reduzido. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. Uma seqüência infinita de anos. – É a meta de sua filosofia. Aitíai. "Contenta-te com o mundo tal como é". seu juízo sobre os poetas. Recusam-lhe uma sepultura honrada. é por não conhecer a natureza. Viagens. Fé absoluta em seu sistema. resultado do estudo cientifico. esse Humboldt do mundo antigo. pois deixavam subsistir um elemento irracional. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. Entretanto. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. Sua cidade natal o toma por um pródigo. ele foi. quase morrera de fome. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. igualmente. desprezado em vida. Simplicidade do método. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. Inquietações políticas: quietismo.aquilo que Ihe era homogêneo. conservou. se o homem é infeliz. e a terra acaba por ser o que é. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. pai do racionalismo. é o cânon moral que o materialismo produziu. pois.

Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". era natural de Abdera na Trácia. É certo. mas sim o cabeça de uma escola regular. temos apenas conjeturas para nos orientar. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. sob o reinado de Tibério. não sabemos. ao qual também os sofistas deram impulsos. fazer uma edição das obras de Demócrito. com a idade de noventa ou cem anos. quando Anaxágoras era velho. Aristóteles. Por isso. Ao contrário de Sócrates. Se disse isto. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. ensinando e escrevendo em Abdera. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico.26 Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. contudo. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. de fato. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. Sabemos. ele era um autor volumoso. outrossim. Como Protágoras. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. através dos scus fragmentos. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. Um membro posterior da escola. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. e nós ainda podemos constatar. Parece. Apolodoro de Quizico. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. Quanto à data do seu nascimento. Os epicuristas. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. seu contemporâneo. que também os pitagóricos foram seus mestres. deu grande atenção ao problema do comportamento. da mesma forma que ele. que geralmente fora atribuída em Atenas. Como Sócrates. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. outros aspectos do seu sistema. o que parece muito provável. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. ele era jovem. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. como se diz. porém. detestavam qualquer tipo de estudo. por outro lado. Por outro lado. isto ocorrera. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. na biblioteca da Academia. não obstante. Seja como for. é como se não tivesse escrito quase nada. a de Glauco de Régio. Disse também algures que.C. Em uma das principais obras. entretanto. a Anaxágoras. conhece bem Demócrito. e. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. segundo a suposição dele. Fez menção a Anaxágoras. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. e temos uma prova contemporânea. cedo demais. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. Demais. Diz-se ter visitado o Egito. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. organizada em tetralogias. pois era também jônio do Norte. quando. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. e obscurece o fato de que. como aquelas de Anaxágoras e outrem. bem como. porém. . mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. Demócrito foi discípulo de Leucipo. foi possível para Trasilo. Para nos. no qual parece que o reproduz. e sem dúvida alguma na Jonia. como Sócrates. Se Demócrito morreu. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica.

o problema do comportamento tornara-se premente. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. Parmênides afirmara claramente que o paladar. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. A possibilidade de ciência havia sido negada. que deriva mormente de Anaxágoras. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. Chegou. Deveras. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. Seguindo o exemplo de Protágoras. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). "nós na verdade não conhecemos nada de certo. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. Não é. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. as cores. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. uma semelhança exata do corpo do qual provém. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. as nossas que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência. "Pelos sentidos". Este. isto não seria assim. na realidade (etee). sensações não representam nada de externo. A originalidade de Demócrito. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. mas somente alguma coisa "há o doce. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. o tato. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. mas as "imagens" (deíkela. apesar de serem causadas por algo fora de nós. Nisto. se a distância for grande. Para compreender esta questão. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. há os átomos e o vazio. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. que acima foi descrito. pois "a verdade jaz num abismo" . e por que. entre nós e os objetos da visão. mas somente o vazio. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. por convenção há o amargo. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. porém. Se não houvesse ar. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. De modo idêntico. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. embora não com os mesmos detalhes. foinos preservada através de suas próprias palavras. e o olfato explica-se semelhantemente. naturalmente. felizmente. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. portanto. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. por convenção há a cor. tamanho e peso. Ademais. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. não podemos vê-las de modo algum. o molhado e o seco e outros que tais. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. portanto. pelo contrário. todavia. e era isto que exigia uma solução.27 A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar." Não podemos conhecer a realidade deste modo. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. por convenção há o quente e por convenção há o frio. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. A audição explica-se de uma maneira similar." Porém. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. Demócrito. tais como forma. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. afirmou Demócrito (fragmento 9). Sua doutrina.

como o fizera do ilegítimo. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. o aspecto individual de týkhe. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. Ele diz que o mel. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. da mesma natureza do "ilegítimo". mas uma espécie de sentido interno. se pudéssemos restabelecê-las integralmente.28 (fragmento 117). "Pobre Mente". que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. como foi dito. farão irregular o cone. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. está separado daquele. o paladar e o tato. Defendeu. ressalva a possibilidade de ciência. É muito difícil. devemos lembrar que a palavra daímon. é tanto amargo quanto doce. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. e o cone terá a aparência de um cilindro. Na realidade. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. chegando assim a conhecê-los como realmente são. tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). Segundo um comentário de Arquimedes. doce para mim e amargo para você. Demócrito. o que é o maior absurdo". É evidente. mas nele penetram em qualquer direção. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. a alma é a moradia do daímon " (fragmento 171). a audição. pensamento. Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. que é composto de círculos iguais e não desiguais. O legítimo. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. e Demócrito recusou-se. contudo. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). Ao mesmo tempo. Para compreender isto. É. Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. como Sócrates. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. está fora da discussão. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. De um lado. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. afinal de contas. ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. por exemplo. pois." Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. e o fato. então as partes cortadas serão iguais. "A felicidade não reside em rebanhos. Se forem iguais. porém. "Há". . pois. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base." O conhecimento "legítimo" não é. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. pois. com efeito. nem em ouro. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. como eles. porém. embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. o olfato. apesar de tudo. por conseguinte. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). O "conhecimento legítimo" é. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. que significava propriamente um espírito protetor do homem. diz ele (fragmento 11). Teu tiro é uma capitulação.

e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. não em torno da natureza. Demócrito afirmou. Ao mesmo tempo. o corpo). que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. (fragmento 37). Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. Este. e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. Este é. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. "Quem escolhe os bens da alma. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). e. respectivamente. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. e facilmente se transformam ao contrário. que é a alegria. e o sossego da alma. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável das muitas perdas desse tipo. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". substancialmente. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. hedonismo vulgar. que foram dignas de constar nas antologias. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. Com efeito. 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". culminando em Aristóteles. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. precursoras. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. Os homens puseram a culpa na sorte. através de Sócrates e Platão. o século IV a. Além disso. que o seu real interesse está em outro sentido. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. de preferência..teve duração bastante curta. sendo principais a cínica e a cirenaica. O interesse dos filósofos gira. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). Infelizmente. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. como Leucipo houvera feito. e este é um estado da alma. Para Demócrito. Do nosso ponto de vista.C. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico.29 Isto não é. se fosse preciso uma demonstração. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. do estoicismo e do escolhe os mais divinos. poderemos alcançar o sossego. a Terra era ainda um disco. Abraça. que é a saúde. até então limitado à natureza exterior. que foi um verdadeiro gênio neste campo. Para o nosso presente objetivo. quanto ao resto. como Sócrates. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. devemos ser capazes de ponderar. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. porém. e através também da precedente crise cética da sofística. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). Se aplicarmos este critério aos prazeres. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. escolhe os humanos" .depois do qual começa a decadência . pitagórico. Esse período esplêndido do pensamento grego . mas em torno do homem e do espírito. e é a esta que devemos agora retornar. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. o sossego do corpo. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. porém. Para atingi-lo. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. Por outro lado. sem dúvida.

Seria. que a causa seja justa ou não. Moral.a segunda metade do século V a. por conseguinte. portanto.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. mas como meio para fins práticos e empíricos e. quer moral. tornaram-se mestres de eloqüência. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. Quanto ao direito e à religião. O centro foi Atenas. de retórica. tirânico. a sofística sustenta o relativismo prático. os mestres de eloqüência.como norma universal de conduta . o poderoso. como acontece todas as vezes que o povo sente.bem como a moral . destruidor da ciência. houve um triunfo político da democracia. isto é. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. Protágoras foi o maior de todos. embora sem importância filosófica. e entendendo por natureza. deles procedendo a Academia e o Liceu . no prazer e no domínio violento dos homens. atenienses. A moral. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. no domínio de si mesmo. a experiência ensina que para triunfar no mundo. na justiça para com os outros. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. mas como um empecilho que incomoda o homem. a Atenas de Péricles. Os sofistas maiores foram quatro. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. de repente.dizem . A época de ouro da sofística foi . portanto. interessado. E tentam criticar a vaidade desta lei. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. destruidor da moral. Então a realização da humanidade perfeita. Diversamente dos filósofos gregos em geral. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. quer política. desinteressado. uma pura convenção. mas prudência e habilidade. naturalmente. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. continuando até depois de Sócrates. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. a única regra de conduta é o interesse particular. devia ter a oratória e. contra o império persa. considerando a lei como fruto arbitrário. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. a sua força. instintiva. como na gnosiologia e na moral. muitas vezes arbitrário. oprima o fraco em seu proveito. Os sofistas. . um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . É esta. portanto. aliás. não é mister justiça e retidão. não está na ação ética e ascética. em nome do direito natural. mas sobejamente retribuído. Mas este direito natural . exige que o forte.C.que a submissão à lei torne os homens felizes. pois grandes malvados. em tal regime. mediante graves crimes.30 epicurismo do período seguinte. o ensinamento dos sofistas não era ideal. superficial. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. não lhe interessa. animal. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. a posição da sofística é extremista também. aliás. à paixão de cada um em cada momento. uma enciclopédia. não para si mesma. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. a cultura. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. não a natureza humana racional. Desta maneira. compreende-se a importância que. A sofística move uma justa crítica. mas a natureza humana sensível. materiais.pode-se dizer . em situação semelhante. Ao sensualismo. Os menores foram uma plêiade. contingente. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. E visto que o domínio pessoal. chefe de escola e teórico da sofística. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. ao impulso. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. segundo o ideal dos sofistas. mortificador. Platão e Aristóteles. contra o direito positivo.é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano.

Refugiou-se então na Sicília. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. o único sistema jurídico admissível. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. onde teria morrido com 109 anos de idade.31 natural . Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. quarenta dedicados à sua profissão.C. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. pois. sobretudo entre os jovens. em Atenas. onde teve grande êxito. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. foi Sócrates. para pedir auxílio contra os siracusanos. social. o homem é a medida de todas as coisas. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos.representa a maior expressão prática da sofística. filho de Sofrônico. Então. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. No Górgias de Platão. escultor..de harmonia com o ceticismo deles . Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera .pelo ano 480. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. Acusado de ateísmo. sem recompensa alguma. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. não obstante sua pobreza. na Magna Grécia. mediante o ensinamento da retórica. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Sócrates A Vida Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. na Sicília. e especialmente em Atenas. cuja escola conheceu . Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. o direito natural é o direito do mais poderoso. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. Ensinou na Sicília. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. sutis uns. e de Fenáreta. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. instintiva. onde foi processado e condenado por impiedade.C. parteira. conforme as disposições subjetivas dos órgãos. mais eloqüente que Protágoras. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. negador dos valores teoréticos e morais. Combateu a Potidéia. passional. em outras cidades da Grécia. foi um filósofo ocasional. Viajou por toda a Grécia. porém.pátria de Demócrito . Subjetivismo. outros pueris. É autor duma obra intitulada "Do não ser". e sim sobre a sua natureza animal. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. exagerador dos artifícios da dialética eleática. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. não na sua realidade física. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. onde morreu com setenta anos (410 a. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. ensinando na sua cidade natal. segundo a via real do pensamento grego. orientando-a para os valores universais. A respeito da religião e da divindade. mas na sua forma conhecida.C .). mas . os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior. Menos profundo. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública. teoricamente. Em suma. em 480-375 a. Aprendeu a arte paterna.segundo os sofistas. porém. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. em Atenas. onde carregou aos ombros a Xenofonte. e a um outro o de Górgias. Os sofistas. até estabelecer-se em Larissa na Tessália. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. Protágoras recorre à convenção estatal. teve de fugir de Atenas. pelo menos praticamente.chegam até o extremo. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. dos quais. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. Para remediar este extremo individualismo.correlacionado com Empédocles . até o ateísmo. .

para a imortalidade. a feição austera de seu caráter. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. Praticamente. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo.32 gravemente ferido. as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. e sim o juízo eterno da razão. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. na acusação movida contra ele por Mileto. o indivíduo que passa. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. No primeiro caso. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. Morreu Sócrates em 399 a. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. dirigindo-as agora ao fim de . Mas. foram: "Devemos um galo a Esculápio". Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. Inteiramente absorvido pela sua vocação. Sócrates. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. podemos dizer que Sócrates não teve. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. No segundo caso. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. Método de Sócrates É a parte polêmica. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. honestos. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. mas é um meio de generalização. hostilidade popular. É a ironia socrática. tomou forma jurídica. porém. Entretanto. Quanto à família. a essência da coisa. que remonta do indivíduo à noção universal. multiplicava ainda as perguntas. eliminar-lhes as diferenças individuais. por certo. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. estável. O objeto da ciência não é o sensível. Sócrates adotava sempre o diálogo. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). determinando o verdadeiro objeto da ciência. a sua atitude crítica. E preferiu a morte. a natureza. em geral. inimizades pessoais. na exposição polêmica e didática destas idéias. com 71 anos de idade. Quanto à política. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. que vai do fenômeno à lei. Declarado culpado por uma pequena minoria. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. bem como de certos elementos racionários. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. a liberdade de seus discursos. Diante da tirania popular. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma .C. o conceito que se exprime pela definição. criaram descontentamento geral. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. que revestia uma dúplice forma.diversamente dos sofistas. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. permanente. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. o particular. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. apesar de sua probidade. temperados . Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . na moldura da alta cultura ateniense da época. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. recusou. uma mulher ideal na quérula Xantipa. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. é o inteligível. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana.

justo será o que sabe a justiça". Xenofonte. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. Xenofonte. por indução dos casos particulares e concretos. que a promulgou e sancionou. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. A este processo pedagógico. "Se músico é o que sabe música. acima das leis mutáveis e escritas. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. que se concretizava. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. b) com o argumento. que facilitava a parturição das idéias. Sócrates não deixou nada escrito. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. morais. mas sem profundidade. . Como os sofistas. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. a existência de uma lei natural independente do arbítrio humano. em geral. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. mas é também Providência. com ela se identifica. Sócrates. Apesar destas doutrinas elevadas. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade.como sendo o ápice da sabedoria. da causa eficiente: se o homem é inteligente. de estilo simples e harmonioso. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. sendo mais um homem de ação do que um pensador. "Conhece-te a ti mesmo" . pelo contrário. uma das mais características da moral socrática. um legislador. de feição intelectual muito diferente. Esta doutrina. antes. Como é sabido. torna-te consciente de tua ignorância . Seja como for. apenas esboçado. Moral. Em psicologia. a respeito da metafísica. universal. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. em memória da profissão materna. que é o desejo da ciência mediante a virtude. É a parte culminante da sua filosofia. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa.isto é. também inteligente deve ser a causa que o produziu.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. identificando a vontade com a inteligência. fonte primordial de todo direito positivo. Deus não só existe. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. Em teodicéia. ignorância e vício são sinônimos. bem como o seu biógrafo genial. uma definição geral do objeto em questão. pedreiro o que sabe edificar. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. mas não define o livre arbítrio. Platão. virtude e ciência. com finalidades práticas. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. espiritual. fim supremo do homem. autor de Anábase. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações.33 obter. em prática. é a prática da virtude. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. ele é cético a respeito da cosmologia e. um conceito. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. sensitivo e intelectual. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . Com efeito. distingue as duas ordens de conhecimento. em seus Ditos Memoráveis. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Sócrates reconhece também. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética.

portanto. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. Antes de tudo. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. que declara auxiliar os partos do espírito. que será percorrido por Platão e acabado. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. Traçou. a favor da reflexão livre e da convicção racional. Sócrates. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. a indução: isto é. esta intimidade da ciência . do teorético. este é o momento da ironia. reivindica a independência da autoridade e da tradição. superado. Vale dizer que o agir humano .34 trata-se. assim é o fundador. da crítica.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . todavia. Mas. ciência. pragmatismo. introspecção. opinião comum. científico.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. de par com os sofistas.que não é absolutamente subjetivista.Sócrates não sabe. isto é. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. sentimentalismo. partindo dos pressupostos socráticos.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. que está contra todo voluntarismo. dos preconceitos. Se o fim do homem for o bem . É a famosa maiêutica de Sócrates. ignorância.bem como ignorância e vício . razão. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. embora o pensamento socrático fique. de fato. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. costume. racionalismo. antes de tudo. Esta interioridade do saber. não sentimento. tradição. maiêutica. pois. consciência de si mesmo quer dizer. depois. precisa . ainda que com finalidade diversa. consciência da própria ignorância inicial e. pela ausência de uma metafísica. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. antes de tudo. Este conceito é. da opinião à ciência. A filosofia socrática. significa precisamente consciência racional de si mesmo.bem como o conhecer humano . o itinerário. mas apenas metódico. Entretanto. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. para organizar racionalmente a própria vida. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. como sua mãe auxiliava os partos do corpo.tornava impossível o livre arbítrio. no dizer de Sócrates. indução. um poderoso impulso para o saber. uma moral. de um ceticismo de fato. donde é preciso extraí-la. sem metafísica. ceticismo sistemático. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. lei positiva. e a virtude mediante o conhecimento . é mister conhecê-lo. remontar do particular ao universal. no pensamento de Sócrates. não particulares. uma grande metafísica e. dada a sua revalidação da ciência. definição. em particular da ciência moral. Virtude é inteligência. mas é a certeza objetiva da própria razão . determinado precisamente mediante a definição. por conseguinte. nem pode precisar este bem. mediante a razão. não descendo até à animalidade . malvado. no entanto. o ignorante. Estes dois filósofos. para construir uma ética é necessário uma teoria. A gnosiologia de Sócrates. . Esta ignorância não é. rotina. identificando conhecimento e virtude . mediante a doutrina do conceito. o prático depende. portanto. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. Entretanto. a qual é um valor universal. subindo até à razão. totalmente. O fim da filosofia é a moral. da experiência ao conceito. conceptual é. precisamente porque lhe falta uma metafísica. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. ação racional. Tudo isto tem que ser criticado. por Aristóteles.como ensinavam os sofistas.realizando-se o bem mediante a virtude. não o seu conteúdo. logo. ativismo. por sua vez. para realizar o próprio fim. e nos dá a essência da realidade. se o fim da filosofia é prático. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. desenvolverão uma gnosiologia acabada. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. opiniões. limita-se à gnosiologia e à ética. a ciência. esta felicidade. enfim. mas dirigida para os valores universais. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. não de direito. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. porém.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional.

em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. o herdeiro genuíno de suas idéias. fundada por Aristipo. ao se aproximar do Pórtico do Rei. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. A escola socrática maior é a platônica. total responsabilidade. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. alguns. 445). Por isso. O acusador era Meleto. Fora desta escola começa a decadência e desenvolverse-ão as escolas socráticas menores. a acusação apresentada contra Sócrates. 2. mediante o pensamento socrático. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. filho de Sofronisco. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. c.mesmo diferenciando-se bastante entre si . São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. verdadeiros continuadores da tradição socrática. Estas escolas. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. pela novidade de suas idéias. onde fora afixada a acusação por Meleto. também Ânito e Lícon. c. descobriu o método e fundou uma grande escola. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. e. em janeiro de 399 a. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). mas somente aquele que assinava a acusação. sustentando-o com a autoridade de seu nome. como Alcibíades e Eurípedes. tenha. Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. Dentre os herdeiros de Sócrates. como Xenofonte. Não é. do povoado de Alópece. assumindo. neste caso. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. 3.C.. No Eutífron. por último.o conceito . valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. E. A escola cirenaica ou hedonista. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. porém. nem deixou algo de escrito. do povoado de Piteo. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. Estas . foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. Dentre estes.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. A escola de Megara. toda a especulação grega que se seguiu. durante o segundo período. de introduzir novos cultos. São fundadores das escolas socráticas menores. pois. respondeu: . é culpado de corromper a juventude. Entre os seus numerosos discípulos. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. Meleto era o acusador oficial. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. dele depende. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. mas um cidadão podia. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. filho de Meleto. A escola cínica. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. de admirar que um homem. que. (n. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. no entanto. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. degenerou. vemos que Sócrates. a qual. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. mas não só ele. porém. fundada por Antístenes (n. contra Sócrates. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . direta ou indiretamente. hábil ou temível. que.35 Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. também. vegetaram na penumbra. fundada por Euclides (449-369). e culmina em Aristóteles. além de simples amadores. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. das quais as mais conhecidas são: 1.

que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –.C. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. por conseguinte. vindo a ser. por ordem dos Trinta Tiranos. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. o líder máximo. o mais importante dos acusadores. o qual. um movimento reacionário em termos de culto. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. mas sim por questões evidentemente políticas. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. juntamente com Trasíbulo e outros. logicamente. afirmara-se o culto patriarcal. e eu te aconselho. Acredito chamar-se Meleto. fora discípulo de Anaxágoras. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa.C. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. embora. Ânito era filho de Antemione. de cabelos lisos. Desse modo. Tanto isso é verdade que. que tenhas cuidado". Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. condenado. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. À parte o problema da mudança de lado . O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. Sócrates dera. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. já então tido como um fanático religioso. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. Ânito manteve relação com Sócrates. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. segundo comprova sua atuação no Mênon. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me.C. existem muitas dúvidas. em 399 a. existe outro obstáculo. isto é. .. seria muito conveniente. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. nascera por volta de – 150 a. mediante palavras e atos. é aquele que. A bem da verdade. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". comerciante de couro. como o próprio Sócrates repete.C. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. pois um jovem poeta de 399 a. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas. sendo estratego em 410 a.. não era matá-lo. por sua vez. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides. se prestaram a deter Leon de Salamina. dava a impressão de conhecer Sócrates. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios.. Desde a época de Sócrates. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. e sim escrita por Platão. Mas é preciso frisar que o propósito. Ânito.36 "Sei bem pouco a respeito dele. Contudo. nessa época de instalação do regime democrático. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. ó Sócrates. Depois da restauração do regime democrático. do povoado de Piteo. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. em 404 a. em que Zeus era o deus-pai. Mas não há elementos em que basear essa suposição.C. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. se quiseres me ouvir. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. regressou de File com estes e tomou parte da expedição armada contra o governo dos tiranos. No que concerne à condenação por motivos religiosos. não disse que Meleto era um desses homens. fique apenas no campo da suposição. Portanto. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço.C. em sua defesa. que se vale do nome de Meleto. já que nada corrobora realmente esta pretensão. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. não resta dúvida. Julgar tratar-se do Meleto que. e sim afastá-lo de Atenas.

tal o poder de persuasão de sua eloqüência. Ártemis e Cérbero. assim. porém. Ártemis é filha de Zeus. Zagreus torna-se Zeus. não disseram nenhuma. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. Preâmbulo Desconheço atenienses. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. e seus aspectos: marinho. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. O que significava aquela sabedoria. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe.37 Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. Querofonte foi obrigado a se exilar. revela-se. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. ou o Agnos-Deus. Ademais. lua cheia a lua minguante. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. porém. e não se pode afirmar. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. de fato. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. o mais feroz dos Tiranos. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. isto é. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. e os jovens. pelos testemunhos que possuímos. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. e também Alcebíades. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. em seu comentário à Apologia. a mim próprio. Crísias. em seus três aspectos: lua crescente. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. A Tripla Deusa. o Deus-Agnes. outro aspecto de Zeus. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. De verdades. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. minianos e jônios. Anfitrite é esposa de Posêidon. isso presumindo que existisse alguma. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocálos de novo à luz do dia". lunar e noturno. enquanto Sócrates pôde permanecer. venerada como Réia. não corarem . Uma. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. quase me fizeram esquecer quem sou. seus instrumentos de fertilização e prazer. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. desprezando a economia doméstica e a riqueza. um dos aspectos de Zeus. sobretudo. Réia vem a ser adorada como Hera. Com efeito. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. Dessa maneira. portanto. insiste no fato de que. esposa de Cronos. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. bem pouco confiável. havia sido seu discípulo. e a argumentação de Burnet. pois com freqüência era visto discutindo em público. como Anfitrite. seu filho. e não os novos fatos. e permanece virgem. representa Hécate. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. Portanto. que era sempre devorado pelo tempo. quanto a Cérbero. durante o mandato dos Trinta.

exceto o de um comediógrafo. A Defesa de Sócrates Enunciado Diversidade Entre Duas Categorias de Acusadores: os Antigos e os Recentes Em princípio. sem que eu contasse com alguém para me defender. repito-o. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. assim. portanto. homem de muita sabedoria. ó atenienses. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. Portanto. onde tantos dentre vós me haveis escutado. o de um orador. sou um orador. sempre faltando com a verdade. se é o que entendem. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. em verdade. junto das bancas. embora estes sejam acusadores perigosos. será excelente para vós e para mim. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. de mim. porque. para a minha linguagem. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. . eu admitiria que. e de outro. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. o que é mais grave. nem acusar ninguém por difamação. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. ó atenienses. Faço-vos. são os acusadores que mais receio. possa ser extirpada. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. que propalaram essas coisas acerca de mim. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. nem espere outra coisa qualquer um de vós. esses todos não podem ser encontrados. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. Estes. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. completamente estrangeiro à linguagem do local. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. que especula a respeito das coisas do céu. pois à lei é necessário obedecer e defender-se. porque deposito confiança na justiça do que digo. que martiriza meu coração há tanto tempo. acusaram-me obstinadamente. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. e assim descobrirei se aquela calúnia. em dizer a verdade. Verdadeiramente. em estilo florido. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. nos termos que me ocorrerem. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. em resumo. não ouvireis discursos como os deles.38 de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. os que me acusam há pouco tempo. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. atenienses. Seja como for. e assim. que é de justiça a meu ver. ó atenienses. sinto-me. talvez melhor. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. vós ouvireis a verdade inteira. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. que esquadrinha todos os segredos obscuros. e. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. na minha defesa. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. e acusar de mentiroso a quem não responde. senhores. ao mostrar-me um orador nada formidável. serão expressões espontâneas. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. e. uma súplica premente. aprimorados em substantivos e verbos. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. de verdades eles não disseram alguma. contudo. Se eu fosse de fato um estrangeiro. porém os outros – os que. Defender-me-ei. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. ao ouvi-los. como crianças que deviam ser educadas. E se eu for bem-sucedido. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. se ouvirdes. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. em contraste com eles. não a estranheis nem vos revolteis por isso. Nisso reside o mérito de um juiz. e em outros lugares. procuraram colocar-vos contra mim. atenienses. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. que poderia ser talvez pior. porém. ó cidadãos. Mas os primeiros são muito mais perigosos. Mas não por Zeus. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. um pedido.

e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. Ao . se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. se muitos te acusaram. ó atenienses. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. isto também não passa de mentira. e sem ter de gastar dinheiro. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. receio possuir esta única sabedoria. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. Ouvi também referências a outro homem. – E quem é ele? – indaguei-lhe. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. No íntimo. Ó atenienses. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. e recorro à maioria de vós para que sirvam de testemunhas. A acusação possui mais ou menos este teor. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. portanto. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. Mesmo que. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. filho de Hipônico. afirmando que caminha em cima das nuvens. mais ainda. ó atenienses. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. de Paros. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. que não consigo compreender nem um pouco. Perguntei a ele: – Cálias. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. e. aos quais seria mais fácil. não. ou seja. estou falando sério. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. uma sabedoria estritamente humana. acompanhando Meleto.39 Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. que educação. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. que não me ocupo desses assuntos. e o soube por intermédio de Cálias. e outro amontoado de tolices. Escutai-me. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. Não faltaria quem. E a respeito de ser sábio. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. contudo eu não sei. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. parabenizei esse tal de Eveno. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. mas teus filhos são homens. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo.

e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. conforme minha pesquisa. fosse mais sábio que ele. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. nem de belo. E outros. sem fama alguma. comecei a investigar acerca disso. este com que. e tive a impressão de que. analisando e raciocinando em conjunto. pois ele não pode mentir". E longamente me mantive nesta dúvida. que não é meu depoimento. fui procurar os poetas. mas afirmo que não a conheço.40 passo que esses. mas talvez não o fosse de verdade. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. que nós. se de fato se trata de sabedoria. podíamos não saber nada de bom. De minha sabedoria. dizia a mim mesmo. e este homem aparentava ser sábio. não só ele passou a me odiar. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. diante de vós. também não julgava saber. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. Todos vós conheceis Querefonte. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". ó cidadãos. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. ou seja. Peço-vos para não fazer algazarra. com desagrado e assombro. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. juntamente com muitos outros. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. invocarei como testemunha. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. como também muitos dos que se encontravam presentes. que todos passaram a me odiar e que. ao menos numa pequena coisa. como não sabia. fiz a experiência que irei descrever-vos. nem acredito sabê-lo. eu e ele. ó atenienses. ó atenienses. e quem diz o contrário mente. e de sua natureza. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. se me afiguraram melhores e mais sábios. Estou com vergonha. as que considerava mais bem construídas. apenas com o intuito de caluniar-me. pareceram-me quase todos em maior erro. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. Após ter ouvido a resposta do oráculo." Por isso. porque não sei. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. Pesquisa Junto aos Poetas Não obstante isso. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. embora notando. enquanto eu. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. não o era. continuei diligentemente com minha pesquisa. Em vista disso. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". Peguei suas melhores poesias. enfim. ao arrepio de minha vontade. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. Resumindo. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. de quem vos falava há pouco. ó atenienses. conforme a palavra do deus. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. ao contrário. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. contudo. neste sentido. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobrehumana. Aí procurei um outro. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. basta dizer que era um de nossos políticos –. o próprio deus de Delfos. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. a partir daquele momento. e também este me dedicou ódio. Em seguida aos políticos. Por fim. em virtude de este haver falecido. mas aquele acreditava saber e não sabia. devo dizervos de novo a verdade. .

é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. e entre as calúnias. e. e isto eu percebi com clareza. naturalmente. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. toda vez que participava de uma discussão. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. e ele quer dizer. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. náo se refere propriamente a mim. por intermédio de seu oráculo. A verdade. ao afirmar que Sócrates é sábio. eles conheciam coisas que eu não conhecia. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. mas não conhecem nada do que dizem. A verdade. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. que dizem de fato muitas coisas belas. E compreendi também que os poetas. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. e então. e nisso eram mais sábios do que eu. como eles. Então afastei-me deles. ambas as coisas. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. igualmente a Sócrates. Logicamente. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. Desta maneira. dominados pela paixão e numerosos como são. porém. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. por sua própria conta. e aproximadamente o mesmo. com a certeza de ser mais sábio que eles. os filhos das famílias mais ricas. Porém. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. como os adivinhos e vaticinadores. como acho que ninguém o seja. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. E não me equivoquei. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. só para não evidenciar que estão confusos. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. é outra. ó atenienses.41 diante disto. pelo fato de fazerem poesias. cada um deles julgava-se extremamente sábio. porém. de acordo com a palavra do deus. analisar alguma pessoa. é o que ocorre entre os poetas. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. seguem-me de livre e espontânea vontade. De forma que eu. inúmeras vezes procuram imitar-me e tentam. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. E se alguém indaga: "Afinal. Sócrates. não querem dizer a verdade. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. sem escrúpulo . as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. ambiciosos. como se tivesse dito: "Ó homens. e. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. em nome do oráculo. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. é muito sábio entre vós aquele que. a fama de sábio. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. dirigi-me aos artesãos. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". mas só usa meu nome como exemplo. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. porém. porque. porque o desconhecem. nada respondem. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus.

deve ter conhecimento. a verdade. Lícon por causa dos oradores. Meleto. SÓCRATES: — Crês que todos. Por sinal. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. dize aos juizes o que os faz melhores. sou eu quem os corrompe. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. os juizes. nem mesmo esquivando-me dela. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. Indagai quanto quiserdes. MELETO: — Estes. agora ou depois. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. exceto eu. e dos acusadores que virão depois. mostra-te e responde. SÓCRATES: — Quer dizer. Contudo. Meleto. e eu a revelo por completo. aos juizes o que os torna melhores. também estes. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. SÓCRATES: — Dize. Meleto afirma que corrompo a juventude. de não crer nos deuses nos quais a cidade Analisemos esta acusação minuciosamente. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. conforme dizes. ó excelente homem. e eu digo. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste.42 algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. ó Sócrates. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. analisemos também o ato de acusação deste. Meleto. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. finalmente. Este é o motivo pelo qual. nunca se preocupou. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. Com certeza o sabes. então. homem digno e patriota. ó atenienses. SÓCRATES: — Não se trata disto. das leis. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. então. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. . lançaramse contra mim Meleto. ó cidadãos. como ele mesmo se define. Indago-te qual é o homem que. e recebereis sempre a mesma resposta. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. Portanto. todos. Vês. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. é outra prova de que digo a verdade. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. então. Esta é. que o réu é o próprio Meleto. SÓCRATES: — Dizes bem. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. sem ocultar-vos nada. como ficas calado. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. em primeiro lugar. É isto que queres dizer? crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". Vamos. conforme afirmas. na verdade. procurarei em seguida defender-me de Meleto. como vos disse desde o início. meu amigo. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. SÓCRATES: — Afirmas.

dize-nos. realmente. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. Se eu os corrompo sem querer. explica-te com maior clareza. mas em outras divindades novas? Não é. conforme dizes. ou poucos. ou. Também a lei deseja que respondas. prossegue. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. de que maneira. Apesar disso. aqueles que são peritos em cavalos. tanto para mim como para estes juizes. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. não corrompo os jovens. na tua idade. SÓCRATES: — Quer dizer. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. é por causa disso que me trazes a este tribunal. que somente um os torne melhores. SÓCRATES: — Então. Mas. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. não mais farei o que fazia sem querer. responde. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. Mais ainda. ó Meleto. de acordo com tua opinião. ó juizes. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. então. eu digo exatamente isto. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. principalmente àqueles mais próximos deles. e não censurados. de maneira que em ambos os casos mentes. excelente homem. a fim de advertir-me ou censurar-me. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. ó Meleto. da mesma maneira que os outros homens. mesmo que não sejam os da cidade. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. por faltas involuntárias. por conseguinte. uma vez advertido. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. ó Meleto. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. se os corrompo. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. não posso ser culpado disso. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. cidadãos de Atenas. e sim outros. MELETO: — Exatamente isto. e é claro que. mas sim que faça com que seja afastado. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. pois se naqueles que acredito são deuses. não sou ateu e. faço-o sem querer. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui.Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. ao contrário. tendo eu os anos que tenho. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. o que mais convém. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. ó Meleto. no caso de saber disso. tua sabedoria sendo maior que a minha. Meleto. Ou seja. Meleto. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. e que os bons façam o bem. eu corrompo a juventude? Não o faço. não é difícil o que te pergunto. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? 43 . SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. Agora dize-me. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram.

desde o início. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. Existe alguém. vós sabeis. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca 44 na existência de cavalos. Mas se acredito em coisas demoníacas. nem em heróis. Há quem não acredite respondo. eu mesmo Ó atenienses. é verdade. é impossível. embora não acreditando na existência dos deuses. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. a ti e aos outros que aqui se encontram. ó atenienses. nem em deuses. Obedecer ao Deus Chega. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. isto é impossível. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. ó atenienses. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. Permanecer no Lugar Adequado. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. ó atenienses. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. SÓCRATES: — Pensas. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. se estes demônios são deuses. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. como já vos exortei no começo. exceto que haja sido para pôr-me à prova. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. Responde. Parece-me que aceitas. ó Meleto. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. mesmo se fraco de intelecto. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. então. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. e naquilo que afirmas. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. uma vez que digo existirem demônios. afirmo a sua existência. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. e vindo de muitas pessoas. E isto significa desejo de se divertir. Na verdade. já que não contestas. se afirmas que existem demônios. quando declaras que eu. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. Portanto. com certeza. se estes demônios são filhos dos deuses. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. e se algo me causará . mas também de acreditar nos deuses". A Missão Divina Fazer o Que é Justo. Por isso. Meleto. De outra forma. de outra forma. ó Meleto. SÓCRATES: — Ora. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. se não queres responder. estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. meu bom Meleto. O que eu vos disse. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. que um profundo ódio ergueu-se contra mim.aquele grande sábio. ó Meleto. E vós. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. não é assim? Com certeza é assim. se este as apresentasse como suas. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. devo obrigatoriamente crer em demônios.

tu. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. assim diria: "E tu. nem em outra desgraça qualquer. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. eu vos responderia: "Ó atenienses. e enquanto tiver ânimo. atenienses. ó atenienses. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. porque. E. Por outro lado. desde o começo. que. creio. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo.45 dano. me dissésseis: "Ó Sócrates. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. com esta condição me deixásseis em liberdade. também morrerás'. à exceção de na desonra e na vergonha. não pretendemos dar. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. ou. eu vos amo. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. Portanto. a mais vergonhosa das ignorâncias. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. mas o interrogaria. estando ele ávido do sangue de Heitor. e enquanto for capaz. dizia. acreditar saber o que não se sabe? Ora. acredito. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. mesmo sendo pequeno. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. sem se envergonhar. se. outros ainda irão perder. daquele momento em diante. em verdade. e declarou: 'Rapidamente eu morra. Ao ouvir tais palavras. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. anormal e. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. ao passo que em Potidéia. uma vez aqui trazido. atenienses. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. não pararei de filosofar. que era impossível não condenar-me à morte. arriscando minha vida. se bem me lembro: 'Ó filho. não o deixaria afastar-se nem iria embora. sem te preocupar em cuidar da inteligência. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. ninguém sabe se. morrerás". aqui. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. Anfípolis e Délio. seja homem. tendo a capacidade de fazer algum bem. Declaro-vos. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. seja deus. que onde alguém se haja instalado. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. aí. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. mesmo que me concedesses a liberdade. o analisaria. disse-lhe. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. digo. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. nem te ocupes mais de filosofia. de fato. atenção a Ânito e deixamos-te livre. da verdade e da tua alma. contra a vontade de Ânito que. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. agora. e se me afigurasse que não possui . por acaso. e a quem quer que eu encontrasse de vós. tamanho desdém mostrou pelo perigo. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. acompanhando este teu raciocínio. não havendo perigo que causem somente a minha perda. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. somente por isto o diria. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. se. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. ao contrário. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. Com efeito. o impugnaria. uma deusa. Seria algo. quando sua mãe. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. fama e honras. se consigo safar-me da condenação. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. também nada penso saber a esse respeito. nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. Por isso. e. em qualquer ocasião. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. logo após ter castigado a quem matou. repito. conversando da minha maneira habitual. já que desobedece ao oráculo. E não é ignorância. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. mas sim este ódio. lá fiquei. ao receber ordens do deus. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. que és o melhor dos homens. ateniense. esta calúnia e esta raiva das pessoas. não será nem Meleto nem Ânito. ao ouvir este raciocínio de Ânito. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. como qualquer outro. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. ó cidadãos. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. contudo. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. como dizia.

permiti que vos diga. Logo. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. como alguém poderia achar. mas vistes que meus detratores. cuidando das vossas. Ademais. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. às quais. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. um ferrão. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. ó atenienses. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. condenar-me à morte. as infames. a mim que sou como vos disse. a respeito do qual. e se desejais me ouvir. então me falte coragem. de falar-vos. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. desta não tiveram o despudor de me acusar. mas. mesmo que não só uma. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. vós não desconheceis. Isto. mas muito mais vezes devesse morrer. mas falo por vós. não fazei assim. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. ó atenienses. que não necessitais pecar. Pois se me matardes. mas que vos limitásseis a ouvir. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. de qualquer forma. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. somente uma. mas pelo seu próprio tamanho. espoliar-me dos direitos civis. condenando-me à morte. então diz coisas insensatas. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. isto significará que minhas palavras são nocivas. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. Não promoveis algazarra. pois. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. se. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. Afirmo. nunca paro de exortar-vos. em todo lugar. no decorrer de todo o resto de vossa existência. estando a vosso lado. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. talvez. que outro como eu não nascerá facilmente. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. ó cidadãos.46 virtude mas apenas afirma possuí-la. um por um. É como uma voz que possuo dentro de mim . e também com vós. e sempre. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. por obediência a Ânito. nem com as riquezas. creio que vos será útil escutar. e de que das riquezas não se origina a virtude. com jeito de estar se divertindo. de convencer-vos. pondo-me frente a frente com uma testemunha. ou não dareis. aí sim haveria uma razão. atenienses ou estrangeiros. me poreis a salvo. eu dou: a minha pobreza. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. Ânito. condenar-me-eis à morte. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. contra o dom do deus. de maneira alguma estou falando em minha defesa. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. Poderá sim. não o creio eu. a fim de que ela se torne excelente e muito virtuosa. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. aponta no ato da acusação. está certo. ou ao desterro. e depois. dormireis tranqüilamente. jovens e velhos. Por tudo isso. Convencei-vos: se me condenardes à morte. para convencer-vos a buscar a virtude. absolver-me-eis ou não. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. Não. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. não riam da comparação. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. também Meleto. erguereis a voz. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. que me sois mais estritamente próximos. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. ao contrário. E nem o poderiam. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. que. Em verdade.

se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. se recebo dinheiro. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. um se torne de boa formação moral ou não. ó cidadãos. seja jovem. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. e não palavras. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. e votei contra. meu dever mais alto? Com certeza. e que. e não é verdade que. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. E não me desprezei se falo assim. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. que se eu tivesse. deseja escutar-me. Nunca fui mestre de quem. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. em particular. isto sim me importa acima de qualquer coisa. e que. e vós a intigá-los e a gritar. O Testemunho dos Discípulos. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. mas de não cometer injustiças ou crueldades. pobres e ricos. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado.Então eu me opus. levaramnos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. atenienses. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. se de fato pretende escapar da morte. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. Tendes conhecimento. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. mesmo que por breve tempo. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. não possui importância alguma para mim. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. em toda minha existência.47 desde criança. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. como privadamente. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam . não me obrigou a cometer um ato injusto. quer que seja. toda vez que eu a ouço.E aquele governo. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. não digo a vós. demonstrei que a morte. ó cidadãos. apesar de prepotente. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. Por conseguinte. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. nem por vós nem por mim. por algum tempo. mas a qualquer outra multidão. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. estou pronto a morrer. Sabeis perfeitamente. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. Falarei um pouco grosseiramente. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. se a palavra não soar por demais vulgar. ao arrepio da lei. seja velho. E naquela ocasião. se entre os homens que me freqüentam. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. tanto em público. e sim com fatos. principalmente se é uma pessoa que . mas com sinceridade. a ninguém. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. depois que surgiu a oligarquia. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. além de não ceder. mas do que mais necessitais: fatos. lutando para que nada fosse feito contra a lei. pois é a verdade. deixei-os ir e voltei para casa. ó cidadãos. me ocupado dos negócios de Estado. Diante disso. Acredito que só por causa disso. como é necessário. Mais tarde. para que este viesse a morrer. eu falo e se não recebo. fico calado. eu já teria morrido. nem nunca ensinei coisa alguma. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. e a mais outros quatros. os Trinta mandaram-me chamar. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. e. não com palavras. não me atemorizou. fazendo-o como homem de bem. sempre fui o mesmo. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. nunca me refutaram.

nem por desprezo. e como Teódoto faleceu. ao passo que eu não me porto desta maneira. Ali está Críton. que. Muitos destes estão presentes. seria vergonhoso. de quem ali se encontra o irmão Platão. com seu filho Ésquino. eu mesmo presenciei muitas vezes. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. ainda mais na minha idade e com o meu nome. e pessoas desse tipo. Se de fato eu corrompo os jovens. se existe alguma testemunha deste tipo. atenienses.48 serem sábios e não o são. pais. suplicou clemência aos juizes. cedo-lhe o lugar. seria ainda necessário que estes. embora possuíssem alguma boa reputação. possa irritar-se comigo se. que são agora anciãos. tenham alguma razão para me defender. eu os vejo. Nicóstrato. são estas. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. que os apresente agora. sim. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. eu também trouxe alguém da minha família. têm atitudes excepcionais. e. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. filho de Aríston. cumpro as ordens do deus. pai de Epígeno. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. nem para provar que sou corajoso diante da mote. todos falarão a favor do corruptor. se já corrompi algum. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. mas sim mostrar a todos que julgais com . porém. como afirmam Meleto e Ânito. além disso. esteja arriscando a vida . como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. envergonham a toda a cidade. não poderá falar com o irmão a meu favor. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". um já crescido e dois ainda crianças. Com efeito. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. Porém. e que me fizessem pagar por isso. mas pela minha reputação. ao fazer intimamente esta comparação. mas de criaturas humanas'. se ele se esqueceu disso. pela vossa e de toda a cidade. se nos comportássemos assim. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. Talvez esses. irmão de Teódoto. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. e Aantodoro. enfim. e ali Adimanto. são bem poucos diferentes destas. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. ó atenienses. repito-vos. vereis que todos farão o contrário. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. irmãos. e. filho de Teozótides. e outros. em quaisquer aspectos. Ora. ou por outra virtude qualquer. . se não quisessem fazê-lo diretamente. ó atenienses. E poderia nomear muitos outros. que talvez esteja entre vós. as razões que posso apresentar em minha defesa. e algumas mais. os corrompidos. se procedessem dessa maneira. enraivecido com minha atitude. e também Lisânias de Esfeto. que se manifeste. A uma pessoa assim. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. Ao fazer isso. Estes. Sócrates se distingue da maioria dos homens. Nem vos conviria. não afirmo categoricamente que há. porque corre pela cidade que. tenho três filhos. E estas coisas. filho de Demódoco. são verdadeiras e demonstráveis. E não é por orgulho que me comporto assim. verdadeiro ou falso que seja. não é desagradável. algum dia. nem de pedra nasci. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. ao pensar em si mesmo. mas aqueles que não foram corrompidos. ao envelhecerem. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. e ali estão outros. Eu também possuo família. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. não me pareceu honroso agir dessa maneira. deixar-nos fazê-lo.e ainda Antífon de Cefísia. Por isso. quando eram réus em um processo. É possível que alguém entre vós. ao que parece. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. embora.É possível que alguém. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. desta forma. emita seu voto com raiva. e aí está Parálio.de quem era irmão Teages.

não é necessário que vos habitueis a isso. e também a mim. aquilo a que faço jus. mesmo assim. no entanto. tentando convencer-vos de que. ó atenienses. Porque estes vos proporcionam felicidade. Porque é evidente que se eu. de impiedade. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. E acredito que se houvesse leis entre nós. livrar-me da condenação. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. biga ou quadriga. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. riquezas. O que. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos.49 maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. ó cidadãos. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. seria culpado de não crer nos deuses. pensa que mereço a pena capital. Ao que me parece. mediante súplicas. Portanto. o que aprendi. interesses particulares. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. Este homem. E é justamente o contrário que sucede. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo . com o que acaba de ocorrer. e não só haver escapado delas. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . ó atenienses. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. estaríeis convencidos. e mesmo assim não logrei convencer-vos. mas. desta acusação. eu que sou acusado por Meleto. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. que pena apresentarei em oposição à vossa. mas algo bastante diferente. Não iríeis querer então. de acordo com o direito. aqui presente. peço se alimentado no Pritaneu. e eu menos ainda. mesmo nestas minhas palavras de agora. isso deve-se. e deixo a vosso critério. ó atenienses. nem vos nem eu. ao longo da minha existência. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. por não haver usufruído em paz. e ao do deus. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. e não por tão poucos. injustos e vis. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. e não precisam ser sustentados como eu precioso. então. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. o que é bastante evidente. Não. o de terem votado pela minha condenação. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. mas para julgar o justo. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. devo pedir. não é isso. penso haver escapado das mãos de Meleto. A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. eu vos ensinaria que. Não considero justo. Portanto. mas que farão justiça de acordo com as leis. se é que devo ser recompensado como mereço. tentar influir nos juízes e. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. entre outras razões. mas sim infomá-los e convencê-los. julgar o que será para vós e para mim o melhor. Contudo. não faremos coisas boas e piedosas. e sim em mais. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. ó cidadãos. como as que há entre outros povos. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. E eu. e. então. Se. com cavalo.

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escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso, a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior, porque não possuo dinheiro para pagá-la. Pedirei o exílio? Sim, talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. Porém, em verdade, ó atenienses, eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio, que enquanto vós, embora sendo meus concidadãos, não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos, e mais, que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela, que outros a agüentariam de bom grado? E ainda, atenienses, que excelente vida seria a minha, nesta idade, exilado, mudando sempre de país para país, perseguido em todos os lugares. Porque sei muito bem que aonde quer que eu vá, os jovens acorrerão a fim de me ouvir, como aqui, e, se eu os repelir, serão estes mesmos que me farão perseguir, convencendo os mais velhos; e se não os repelir, serei perseguido por seus pais e demais parentes. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto, ó Sócrates, não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. Porque, se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que, por conseguinte, não seria possível que eu vivesse em silêncio, não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem, meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais, e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida, se vos dissesse isto, acreditar-me-iam menos ainda. Contudo, é isto que vos digo, ó atenienses, porém é difícil convencer-vos. Por outro lado, não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. Se eu possuísse dinheiro, poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar, porque, assim, não teria me infligido mal algum. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso, exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. Portanto, multo-me em uma mina de prata. Mas vedes, ó atenienses, que Platão, Críton, Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas, que eles mesmos garantirão. Multo-me então em trinta minas. E esses homens, dignos de crédito e confiança, serão garantes dessa quantia.

Após a Condenação
Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco, atenienses, aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates, um sábio. Sim, chamar-me-ão de sábio, apesar de que eu não o seja, os que vos quiserem censurar. Se esperásseis mais algum tempo, a própria natureza satisfaria o vosso desejo. Bem sabeis a minha idade, já distante da vida e próxima da morte. Não dirijo essas palavras a todos vós, mas aos que votaram pela minha morte. Para esses mesmos, adito o seguinte: talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir, se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaramento, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm, tais como costumais ouvir dos outros. Ora, se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma, tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi; ao contrário, muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz, do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Quer no tribunal, quer na guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. Com efeito, é evidente que, nas batalhas, muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores; em cada perigo, tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. Não se tenha por difícil escapar à morte, porque muito mais difícil é escapar à maldade; ela corre mais ligeira que a morte. Neste momento, fomos apanhados, eu, que sou um velho vagaroso, pela mais lenta das duas, eu e os meus acusadores, ágeis e velozes, pela mais ligeira, a malvadez. Agora, vamos partir; eu, condenado por vós à morte; eles,

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condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Eu aceito a pena imposta; eles igualmente. Por certo, tinha de ser assim e penso que não houve excessos. Acerca do futuro, no entanto, quero fazer-vos um vaticínio, meus condenadores; de fato, eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor, quando estão para morrer. Eu vos afianço, homens que me mandais matar, que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será, por Zeus, muito mais duro que a pena capital que me impusestes. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida; mas o resultado será inteiramente oposto, eu vo-lo asseguro. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas; até agora eu os continha e vós não os percebíeis; eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens, e vossa irritação será maior. Se imaginais que, matando homens, evitareis que alguém vos repreenda a má vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, enm é inteiramente eficaz nem honrosa; esta outra, sim, é a mais honrosa e mais fácil; em vez de tapar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor possível. Com este vaticínio, despeço-me de vós que me condenastes.

Aos que o Absolveram
Com os que votaram pela absolvição, gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder, enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. Por conseguinte, senhores, ficai comigo mais um pouco; nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. Quero explicar-vos, como a amigos, o sentido exato de que me aconteceu agora. O que me ocorreu senhores juízes, a vós é que chamo com tino de juízes, foi algo prodigioso. A usual inspiração, a da divindade, sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas, quando eu ia cometer um erro; agora, porém, acaba de me ocorrer o que vós estais vendo, o que se poderia considerar, e há quem o faça, como o maior dos males; mas a advertência divina não se me opôs de manhã, ao sair de casa, nem enquanto subia aqui para o tribunal, nem quando ia dizer alguma coisa; no entanto, quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento, em nenhuma ação ou palavra. A que devo atribuir isso? Vou dizervos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. Disso tenho agora uma boa prova, porque a usual advertência não poderia deixar de oporse, se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada, e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que, se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e, contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida, pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite, bem posso imaginar que, já não digo um homem comum, mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. Logo, se a morte é isso, digo que é uma vantagem, porque, assim sendo, toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Se, do outro lado, a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos, que maior bem haveria que esse, senhores juízes? Se, ao chegar ao Hades, livre dessas pessoas que se intitulam juízes, a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que, segundo consta, lá distribuem a justiça, Minos,¹ Radamanto, Éaco, Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida, não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu,² Museu, Hesíodo e Homero? Por mm, estou pronto a morrer muitas vezes, se isso é verdade; eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso, quando encontrasse Palamedes, Ajax de Telamon e outros dos antigos, que tenham morrido por um sentença iníqua; não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e, o que é mais, passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá, a ver quem deles é sábio e quem, não o sendo, cuida que é. Quanto não se daria, senhores juízes, para sujeitar a exame aquele que

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comandou a imensa expedição contra Tróia, ou Ulisses, ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear, homens e mulheres, com quem seria uma felicidade indizível estar junto, conversando com eles, sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá, entre outros motivos, por serem imortais pelo resto do tempo, se a tradição está certa. Vós também, senhores juízes, deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há, para o homem bom, mal algum, quer na vida, quer na morte, e os deuses não descuidam de seu destino. O meu não é conseqüência do acaso; vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. Por isso é que a advertência nada me impediu. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar, mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. No entanto, só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem, castigai-os, atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um valor que não tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós assim agirdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e meus filhos também. Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue melhor destino, se eu, se vós, é segredo para todos, exceto para a divindade. ¹ Rei lendário de Creta, filho de Europa e de Zeus, marido de Pasífae, sábio legislador, juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. ² Célebre aedo da era pré-homérica, cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios, origem de seitas místicas, a que se deu o nome de orfismo. Platão A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates , que era filho do povo, Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia. Temperamento artístico e dialético - manifestação característica e suma do gênio grego - deu, na mocidade, livre curso ao seu talento poético, que o acompanhou durante a vida toda, manifestando-se na expressão estética de seus escritos; entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento, tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates - mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides, em Mégara. Daí deu início a suas viagens, e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Visitou o Egito, de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política; a Itália meridional, onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento); a Sicília, onde conheceu Dionísio o Antigo, tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion, cunhado daquele. Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, foi vendido como escravo. Libertado graças a um amigo, voltou a Atenas. Em Atenas, pelo ano de 387, Platão fundava a sua célebre escola, que, dos jardins de Academo, onde surgiu, tomou o nome famoso de Academia. Adquiriu, perto de Colona, povoado da Ática, uma herdade, onde levantou um templo às Musas, que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio, até o tempo do imperador Justiniano (529 d.C.). Platão, ao contrário de Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo, após a morte de Dionísio o Antigo, voltou duas vezes - em 366 e em 361 - à Dion, esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Estas duas viagens políticas a Siracusa, porém, não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou

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com desterro de Dion; na segunda, Platão foi preso por Dionísio, e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos, estando, então, Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Voltando para Atenas, Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras, atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a.C., com oitenta anos de idade. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome, muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa. A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. No fundador da Academia, o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. Faltamlhe ainda o rigor, a precisão, o método, a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates , até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal, que representa a evolução do pensamento platônico, do socratismo ao aristotelismo. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates, assim em Platão a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente, através da especulação, do conhecimento da ciência. Mas - diversamente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual, ao campo antropológico e moral - Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda a realidade. Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, em Platão é tornado especialmente vivo, angustioso, pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas; em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim, considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico. Platão como Sócrates, parte do conhecimento empírico, sensível, da opinião do vulgo e dos sofistas, para chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável. A gnosiologia platônica, porém, tem o caráter científico, filosófico, que falta a gnosiologia socrática, ainda que as conclusões sejam, mais ou menos, idênticas. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto no conhecimento humano, como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade, o absoluto (do conceito); e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser, os valores de beleza, verdade e bondade, que estão efetivamente presentes no espírito humano, e se distinguem diametralmente de seus opostos, fealdade, erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. Segundo Platão, o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, e o conhecimento intelectual, universal, imutável, absoluto, que ilumina o primeiro conhecimento, mas que dele não se pode derivar. A diferença essencial entre o conhecimento sensível, a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual, racional em geral, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso, cair no erro sem o saber; ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso, errôneo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim,

A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . E. relembrar conforme a lei da associação. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. portanto. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. devido à sua natureza inferior. em que vivemos. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. contigente e transitório (Heráclito). não admite que da sensação . Estas realidades chamam-se Idéias. como também Platão. no seu valor. Todas as idéias existem num mundo separado. tudo no mundo é individual.particular. situado na esfera celeste. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. científico. Deste mundo material e contigente. um objeto adequado ao conhecimento conceptual. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. sensível. necessários. o saber sensível. como as concebiam Heráclito e os sotistas . aliás. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. donde têm de ser oportunamente tirados. são realidades objetivas. isto é. A Metafísica As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. diz que os conceitos são a priori. poder construir indutivamente o conceito da sensação. dá ao conhecimento empírico. conhecimento das coisas pelas causas. Tal a célebre teoria das idéias. Do mesmo modo. Platão. dá ao conhecimento racional. ou alguns conceitos da mente. com ele. que são os conceitos. Sócrates estava convencido. um conhecimento sensível verdadeiro . representações intelectuais.no dizer de Platão . os nossos conceitos são universais. sem. inatos no espírito humano. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. e sim a ocasião para fazê-los reviver. personalizados. relativa . para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na . Esse conhecimento. racional . um outro mundo de realidades.opinião verdadeira . ao contrário. imutável. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. de que o saber intelectual transcende. existir. no sentido platônico. Este mundo ideal. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. logo. A ciência é objetiva. Aqui devemos lembrar que Platão. pois. absoluto. Deve. que está no vértice. além do fenomenal. de um lado. material. precisamente porque é ciência. Ora. formas abstratas do pensamento. todavia. não há ciência. diversamente de Sócrates.transcende inteiramente o mundo empírico. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. uma base real. negar a existência do fieri. à opinião verdadeira. imutáveis e eternos (Sócrates). desenvolvendo. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão.54 sem saber porque o estão.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. da opinião. conceptual.se possa de algum modo tirar o conceito universal. As idéias não são. mas julgava. exagerando. mas apenas é possível. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. alma de toda filosofia platônica. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. o mundo dos inteligíveis. do outro. uma base e um fundamento reais. no máximo. mutável. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível.

Além disso. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. pois. todavia. assim como o Demiurgo. e da qual depende totalmente a ação moral. que se obtém mediante a divisão e a classificação. Mas a alma está no corpo como num cárcere. Logo. religiosos e místicos. Portanto. a alma do corpo. o dever ser. serão universais. no sistema platônico. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. A faculdade principal. No entanto. durante a vida terrena. até violenta. antes de tudo. Visto serem as idéias conceitos personalizados. é inferior às idéias. na realidade. princípio de movimento e de ordem. introduzindo no caos a alma. deveria ser. dotado de atividade sensitiva e vegetativa. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. segundo Platão. inteligível. unida a um corpo. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. é a realidade suprema. ao Demiurgo e à matéria). Assim. que o mortifica inteiramente. sendo que a alma racional é. Entretanto. para ser verdadeiramente tal. que desvencilha para sempre a alma do corpo. imutáveis. quer dizer. deve existir um princípio de uma e outra. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. E. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. transferidos da ordem lógica à ontológica. uma alma do . esta libertação. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. Desta personalidade e atividade criadora . libertar-se do corpo. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. que residiria no abdome . transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. e é a opinião verdadeira. haveria. são ordenadas em sistema hierárquico. de natureza espiritual. então. pelo contrário. a idéia do Bem. que é papel da dialética (lógica real. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. a alma humana. O mundo. o seu instrumento adequado. dotado o Demiurgo o qual. tanto no homem como nos outros seres. melhor. anima toda a realidade. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. que é separação espiritual da alma do corpo. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. e todos os valores (éticos. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. Ele. resulta da síntese de dois princípios opostos. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). Segundo Platão. começa e progride mediante a filosofia. isto é. ordenadora .assim como a alma racional residiria na cabeça. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. A alma não encontra no corpo o seu complemento. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). Deve portanto. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . e mediante a morte libertadora.é. que residiria no peito. de fato. as idéias e a matéria. e se realiza com a morte. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. de um mal radical. a ordem e a harmonia. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. estando no vértice a idéia do Bem. deveria representar o verdadeiro Deus platônico.55 sua efetiva realidade. que devem ser trabalhosamente relembradas.ou. As Almas A alma. donde dependem todas as demais idéias. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. o cosmos platônico. porquanto Platão é um pampsiquista. ontológica) esclarecer. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. E. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. embora superior à matéria. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. como de um cárcere. e a concupiscível (apetite). de superioridade. Logo. à qual comunica o movimento e a vida. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. em geral. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. e é o devir ordenado. separando-se. O Mundo O mundo material.

transparentes. justiça . As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. verdade. não no sentido do progresso. na separação da alma do corpo. da ordem e da desordem. na morte. é necessário que a alma racional domine. felicidade e virtude. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. bondade. para receber a pena ou o prêmio merecidos. 3. a alma concupiscível. a vontade no impulso. o inteligível. Agir moralmente é agir racionalmente. e filosofar é suprimir o sensível.56 mundo e. ao corpo. depende da religião. dos mistérios órfico-dionisíacos. donde a virtude da fortaleza. para que se realize a sabedoria. tudo recomeça de novo. Entretanto.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. informe. e assim por diante. pois. um ciclo de dez mil anos.sobre a base da metafísica platônica da alma. virtude fundamental. explicando-se deste modo o movimento circular deles. o mundo físico percorre uma grande evolução. de fato. Em geral. temperança. irracional. terminados os quais. . Quanto ao destino das almas depois da morte. 2. a filosofia. dos homens. o universo sensível. mas no da decadência. o mundo. são esféricos. as almas dos astros. unida ao corpo e aos sentidos. mutável. de racional no vir-a-ser da experiência. Moral Segundo a psicologia platônica. uma classificação. segundo Platão. As que viveram conforme à justiça. mas um obstáculo . a saber. em especial. o destino da alma depende da sua filosofia. É a clássica concepção grega do eterno retorno. Consoante a astronomia platônica. a natureza do homem é racional. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. mas na sua final supressão. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. chamadas depois cardeais .depende. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. A terra está no centro. as dos filósofos. fortaleza. eis o pensamento de Platão: em geral. Em todo caso. Noutras palavras. tudo que há de negativo na experiência. dos filósofos. são a República. os astros. partes da alma. a idéia. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. que é. libertados da vida temporal para sempre.ser. da razão. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. ao mesmo tempo. neste mundo. etc. a contemplação. Temos. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. derivando daí a virtude da temperança. As que cometeram pecados inexpiáveis.indeterminada. chegado o grande ano do mundo. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. ao redor. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. espacial . e agir racionalmente é filosofar. para o espírito. traça o seu estado ideal. do bem e do mal. encarnam-se de novo. distingue ele três categorias de alma: 1. dependentes e inferiores. visto que a alma humana racional se acha. da razão. Da idéia . conexa ao clássico dualismo grego. ao mundo. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. destarte. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. morrer aos sentidos. Na República. o reino do espírito. Da matéria . antes de tudo. ao contrário. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. o Político e as Leis. a única virtude verdadeiramente humana e racional. videntes de idéias. e. juntamente com a sapiência. embora a esta naturalmente inferior. cravados em esferas ou anéis rodantes. por conseqüência. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo.prudência. as estrelas e os planetas. condenadas eternamente. No seu conjunto. e domine também a alma irascível. passiva. que aparecem no mundo. a justiça. depois. beleza depende tudo quanto há de positivo. em forma de esfera e. que domina também a grande concepção platônica. a virtude suma. As que cometeram pecados expiáveis.

no organismo do estado.ao menos positivamente . das mulheres e dos filhos. e. tal instituição. é necessária porquanto os trabalhos materiais. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. o comunismo dos bens. mas . Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. pode causar impressão. em castas. ascética do estado platônico. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. fundamentalmente. político-religioso. . e estão.o homem prático e empírico.e pelos gregos em geral . visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. ateísmo . como única e total expressão da eticidade transcendente. Segundo Platão. educá-los para a virtude. Se a natureza do estado é. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. antes de tudo. ética.agricultores e artesãos . representado pelos filósofos. Com efeito. a dominação e a riqueza. etc. contemplam eles o mundo das idéias. da ginástica. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. mas. estas classes: a dos filósofos. então.diz Platão .submetida às duas precedentes. dos quais e juntamente com os quais. os guerreiros receberam a educação. Platão foi levado a esta concepção política . servis. a direção da república. essencialmente. Na hierarquia das classes. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. consequentemente.não certamente por estes motivos. A essência do estado seria então. corresponderiam respectivamente às almas racional. À classe dos produtores. a quem cabem as virtudes mais elevadas.consoante seu pensamento .um altíssimo valor moral terreno. a educação deve. O grande. domésticos. em geral.tornada depois sinônimo de imanentismo. o verdadeiro político não é . a distinção em classes. a sua finalidade primordial é pedagógico-espiritual. por conseguinte. estatais. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. pela plebe. consistindo sua virtude apenas na obediência. não. A música abrangendo também a poesia. Três são. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. o indivíduo ao estado.57 Qual é. idolatrando a grandeza moral. Entretanto. porém. a dos produtores. a riqueza. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. a ação oposta. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. conhecem a realidade das coisas. espiritual. O estado deve. cabe a conservação econômica do estado. sobretudo. a ordem ideal do mundo e. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. música e ginástica. especialmente. as quais. a dos guerreiros. a ordem da sociedade humana.pelo povo. irascível e concupiscível no organismo humano. fortificadora. cuja formação é inteiramente material e subordinada. sociais. por conseqüência. consoante Platão. respectivamente. e. Platão reconhece a importância da ginástica. Ao contrário. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. todavia. promover. porquanto representa precisamente . com a sua natureza gentil e civilizadora. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. segundo as virtudes que se referem a cada classe. o bem espiritual dos cidadãos. e. também das outras duas classes. Deveria ela equilibrar. a de organismo ético-transcendente. econômicos e. todas as atividades presididas pelas Musas é. pelo vulgo. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. não realiza tanto as obras exteriores. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. pois. à primeira vista. que Platão propugna para as classes superiores. privados. cultivada apenas para fins práticos e morais. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores especialmente aos filósofos. mas dessemelhantes e desiguais. a história. Na concepção ideal. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão. portanto. enfim. pois. o pensador. o fim supremo. A educação das classes superiores importa. a família. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos.. sendo estes naturalmente superiores àqueles .o trabalho material. portanto. materialismo.eticamente considerados. mas o sábio. estar substancialmente nas mãos do estado. pelo desprezo com que era considerado por Platão . o estado em nada se interessa . porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. por isso. se preocupa com espiritualizar os homens.

quase um século. como para o falso. de mania. semelhante à religião e ao amor. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. Ao lado. este absoluto . Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. A antiga academia dura até o ano de 260 a. pois. sucessores de Platão. . subordinados ao Demiurgo. que é já uma cópia do mundo ideal. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. que toma uma orientação cética. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . deuses eternos.a religião helênica. É governada por discípulos.como o amor. pois . Vai-se acentuando a importância da experiência.embora transcendente. que foi um dos indícios da decadência grega. Por conseqüência. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. cópia não de essências. ou seja. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. portanto. média e nova. os assim chamados deuses visíveis. gnosiologicamente. cujas divindades são os astros e o cosmo. para o bem como para o mal. prevalecendo simpatias pitagóricas.. prático outro. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. reitores. a arte deveria ser. orienta-se para o ecletismo. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. sobreviveu-lhe por quase um milênio.em antiga. Em todo caso. a Academia.dada esta sua inferior natureza teorética. Costuma-se dividi-la . Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. teorético um. No entanto. Segue-se na média academia. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. animados e racionais. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. O motivo prático é que a arte . aceita francamente o politeísmo.).reformada e purificada . a arte nos atrai para o verdadeiro. encarnada em formas sensíveis. conservar . impura fonte gnosiológica . bem como à idéia do Bem e às outras idéias. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. Platão pode. Platão hostiliza o antromorfismo. nem sequer da religião assim chamada natural. Atuando cegamente sobre o sentimento. que Platão já tinha valorizado no mito. como a ciência. na sua pureza lógica. Seja como for. mas de fenômenos.C.torna-se outro tanto danosa no campo moral. inferior à ciência. estão as demais idéias. denominadas por Platão. provavelmente também pela influência de Aristóteles . no conjunto do seu pensamento.o Bem e as idéias .deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. depois. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. Finalmente. Quanto à avaliação da religião positiva. isto é.C. porquanto deveria atingir intuitivamente. até o VI século d. como religião do seu estado ideal. narrados em torno dos deuses e dos heróis. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. Seu culto essencial é representado pela ciência e.cronologicamente e logicamente . A arte. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. uma espécie de revelação superior. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. É um politeísmo estranho. inclusive Homero.C. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. espiritual e ético. Entretanto. algo como que uma filosofia. e valorizando o elemento religioso positivo.58 não passa de uma importância instrumental e parcial. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. segundo os interesses do último Platão. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. prevalece a desvalorização por dois motivos. não pode tornar-se objeto de religião. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico. conceptual. pelos mitos fantásticos e imorais. mais ou menos.

tudo muda infinitivamente. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. eterno. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). assinalam a importância da catástrofe. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. aristocrata jovem e belo. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. no entanto. precisamente denominados pré-socráticos. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. dizia. anteriores e contemporâneos . torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. sua matemática desemboca numa metafísica. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. segundo um ritmo regular. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. em 407. Anaxágoras.. tudo flui: a morte sucede à vida. a noite ao dia. o não-ser não é". Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. a peste. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. água. Platão. infinitamente diversas. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão.de saída. elementos eternos. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. Na realidade. Tratemos. mas que está na origem da ciência moderna. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. Para Heráclito de Éfeso. cujas combinações mutáveis são infinitas. delicioso para o amador. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). é amargo para o enfermo). Platão a ele se une. nascido em 428 a. Sócrates tem sessenta e três anos quando. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. de evocar Pitágoras de Samos. Protágoras de Abdera. a vigília ao sono. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. seu encontro com Sócrates. "Planta rei". do último rei de Atenas.C. segundo o testemunho de Platão. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho.. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. Para compreender isto. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. A alma. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. . de um modo geral. Estava destinado. que não só reencontramos em Platão. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. as aparências coloridas do universo. A destruição da frota. inicialmente. Um dos mais célebres. ar e fogo). o Nous. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. que "o homem é a medida de todas as coisas". também é um místico. com a capitulação de Atenas. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. corpo = túmulo). simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. Em outras palavras: não existe verdade absoluta. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável.59 Para Entender Platão Platão. a uma brilhante carreira política. "O Ser é. Mas Atenas.com inigualável poder marítimo . acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. o pensamento de seu mestre Sócrates. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. como punição de faltas passadas. como também o pensamento dos filósofos anteriores. Todavia. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. portanto. o real é o Ser único. que foi professor de Péricles. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . amor à sabedoria). Diremos uma palavra sobre os sofistas. Os pitagóricos acreditam na metempsicose. imóvel. seus ancestrais paternos.

O ensino esotérico (isto é. de preferência. na verdade. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). a obra escrita de Platão. o Parmênides. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. que. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. 4. só há salvação pelo saber. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na . e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. Dionísio I prendeu Platão e. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. uma escola de filosofia à portas da cidade. ele se retrai. sem exceção. de fato. que era parteira. devemos nos interessar. ao pé da letra. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. Este último. Platão morre em 348 a. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). Na realidade. aos quarenta anos. 2. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. significa a arte de interrogar. ele se comparava à sua mãe. todavia. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. a República. Platão retornou a Atenas. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. todavia. "Conhece-te a ti mesmo". eles a praticariam. perto de Colona.60 E isto é significativo e simbólico. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. restam-nos. portanto. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. o Político.. o Timeu. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes.C. Na Atenas vencida. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). as Leis. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. Dionísio I. o Fédon. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. pertencem a um mundo que não o das aparências. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. são meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. Tal é a maiêutica socrática. o Fedro. Sócrates. por aquilo que nos concerne diretamente. Acontecimento político: é o partido popular. porém. na ilha de Egina. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. o Teeteto. Ajuda-nos tão somente a refletir. como Empédocles ou Heráclito. cunhado do novo tirano. nos jardins de Academos. ele procura depreender o conceito de justiça. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. segundo ele. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual". Sócrates fá-lo compreender que. Seu método é. é a palavra-chave do humanismo socrático. secreto. um esforço de definição. que. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. mal governados. Muitas vezes. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. de novo no poder. diz Platão. seus diálogos célebres tais como o Gógias. Sócrates não pretende. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. É então que ele funda. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. dos problemas que eles colocam. o Sofista. 3.. ignora o que acreditava saber. Devemos agora. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. "Reconheço que todos os Estados atuais. o Banquete. porém. Segundo sua perspectiva racionalista. devese deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo.C. Sócrates. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. pois ninguém é "maus voluntariamente". Tal é a ironia. elaborar uma cosmologia. antes de tudo. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. isto é.

A ascensão dialética. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. Em suma. mais exatamente. Como diz muito bem André Bonnard. a Justiça em si. no fundo.61 Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. Entre todas as formas de governo. Desse modo.que. Finalmente. uma definição do homem em geral. só é belo porque participa da Beleza em si. as simples impressões sensíveis (eikasia). reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. o pensamento intuitivo. mas Deus é que é a medida de todas as coisas.. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. em seguida. pela tranqüilidade quase contente de sua morte. atesta a existência desse mundo invisível.a sensibilidade. mostra que. eternas. um pouco mais acima. e. as Idéias contam mais que a vida.. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. objeta Platão a Protágoras . para ele. por exemplo. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. A política de Platão distingue. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. Platão dá realidade ao conceito socrático.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. a emoção que rebata a alma diante da Beleza de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . uma essência universal do homem. as opiniões estabelecidas (pistis). Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. Platão. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. a cidade que condena Sócrates à morte. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. finalmente.não o homem. por exemplo. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. a vontade e o espírito. sobre o conceito. uma vez que guardaram uma lembrança obscura . A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. de certo modo. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. para que haja. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. o único mundo verdadeiro. por punição de alguma falta. como fazem os geômetras. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. elas continuam capazes de reminiscência. a iluminação direta pela Idéia (noesis). a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. os militares nos quais a Justiça será coragem. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. "esse belo risco a ser corrido". os chefes cuja Justiça é. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". isto é.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). Assim. em seguida pelos belos corpos. Um belo efebo. perpetuamente mutáveis. uma sombra. as Idéias. pode ser redespertada . E Sócrates. segundo a doutrina órfico-pitagórica. um outro mundo onde exista o Homem em si. Depois. Platão prefere a aristocracia e. por exemplo. e o mundo das aparências sensíveis. nele. Todavia. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo.de seu antigo contato com as Idéias. como Sócrates o estabeleceu. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. um mundo de pernas para o ar". elas foram aprisionadas no corpo. no mais alto grau. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. antes de tudo.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. à imagem de todas as sociedades indoeuropéias primitivas. no entanto.

inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. de pensamento. A respeito do caráter de Aristóteles. filho de Nicômaco. a sua escola. estourando uma reação nacional. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. perto do templo de Apolo Lício. colônia grega da Trácia. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. em 384 a. traduz uma espécie de narração poética legendária. mais uniforme e linear a de Aristóteles. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. Aí ficou três anos. nasceu em Estagira. Preveniu ele a condenação. ao contrário.62 a) O mito. no verão de 322. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. malvisto pelos atenienses. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. foi acusado de ateísmo. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. social e política. fruto de muita observação e de profundas meditações. salvo uns apócrifos e umas interpolações. Escreveu sobre todas as ciências. procedimento pedagógico paradoxal. substancialmente autêntica. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. Aristóteles faleceu. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. em amena palestra. chefiada por Demóstenes. em 367. como a sua cultura e seu gênio universal. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. isto é. Aos dezoito anos. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. estéticos e místicos tiveram grande influência. rei da Macedônia. que Platão não conseguiu. existem entre a poesia e a verdade. o mito ressalta as relações que. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. retirando-se voluntariamente para Eubéia. . Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. Aristóteles. segundo Platão. foi para Atenas e ingressou na academia platônica.C. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. então jovem de treze anos. até à famosa expedição asiática. no litoral setentrional do mar Egeu. em que. após enfermidade. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. os motivos políticos. De volta a Atenas. agudeza de penetração. Aristóteles fundava. como preceptor do Príncipe Alexandre. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. de estudo. poder admirável de síntese. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. de pesquisas. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. em Siracusa. d) Finalmente. médico de Amintas. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. que se foi isolando da vida prática. treze anos depois da morte de Platão. até à morte do Mestre. por certo. Daí o nome de Liceu dado à sua escola.C. Do diferente caráter dos dois filósofos. variada e romanesca a de Platão. onde ficou por vinte anos. em 335. éticos. para se dedicar à investigação científica. Morto Alexandre em 323. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. vigor de raciocínio. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. no ano seguinte.

a Poética. Segundo Aristóteles. sem enfeites míticos ou poéticos. O seu problema fundamental é o problema do ser. em três livros.I. o objeto da ciência aristotélica é a forma.tem como objeto o universal e o necessário. refazimento da ética de Aristóteles. Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. II. como o conceito. apodíctica. a Grande Ética. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. explicação do condicionado mediante a condição. juntamente com a metafísica. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. divide-se em física. O nome. clássico. porque aí está a sua gnosiologia. não por Aristóteles. de que foi ele o criador. a filosofia . de que constituem a essência. é essencialmente dedutiva.conforme Aristóteles. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. destarte. portanto. em catorze livros. em dois livros. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. abrangendo. exposição e expressão breve e aguda. III. da representação sensível. inacabada. A filosofia. a filosofia prática divide-se em ética e política. em especial da segunda. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). Também aqui se segue a ordem da realidade. pois. provavelmente publicada por Nicômaco. todo o saber humano. a Política. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. bem como a platônica.mediante o intelecto da experiência. não o problema da vida. Os elementos primeiros. A lógica aristotélica. bem como segundo Platão . conceptual como a de Platão mas parte da experiência. seu filho. corresponde muito bem à intenção do autor. em dez livros. o universal. entretanto. A teorética. portanto. também os elementos primeiros do conhecimento .conceito e juízos . realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. Entretanto. cuja verdade imediata ele defende. IV. as verdades evidentes. e pertencentes à filosofia teorética. as formas e suas relações. de um modo e de outro. os princípios supremos. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. que. O objeto próprio da filosofia. Por certo. consoante Platão. ao qual é dedicada. compêndio das duas precedentes. sobre a base socrático-platônica. em oito livros. o 63 . incompleta. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. portanto. tirados da experiência. o necessário. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. devido a Eudemo. a poética em estética e técnica. O seu processo característico. A ciência platônica e aristotélica são. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. V. Sob o ponto de vista metafísico. em que está a solução do seu problema.manifestam um grande rigor científico. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. A filosofia aristotélica é. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. mas o ponto de partida da dedução é tirado . em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . referentes à metafísica geral e à teologia. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. metafisicamente. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. intuição intelectual. ontologicamente. dividir-se-ia em teorética. o universal e o necessário. é sempre verdadeira. no seu estado atual. é o silogismo. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. que a colocou depois da física. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. Aristóteles é o criador da lógica. a Ética a Eudemo. demonstrativa. como idéia era o objeto da ciência platônica. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. Foi dito que.reminiscência. No sentido estrito. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. entretanto. as formas são imanentes na experiência. nos indivíduos. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo.devem ser. é dedutiva. racional. por sua vez. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. em geral. segundo Aristóteles. que considerava a lógica instrumento da ciência. prática e poética. são fruto de uma visão imediata. como ciência especial. isto é. conhecidos sensivelmente. ambas objetivas. a ciência. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. clara e ordenada. que corresponde a uma derivação real. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde.

a posteriori. em que unicamente temos ou não temos a verdade. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional.64 inteligível. Rigor no método  Depois de estudas as leis do pensamento. Geralmente. Unidade do conjunto  Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. a posteriori. Observação fiel da natureza  Platão. Os caracteres desta grande síntese são: 1. ao contigente. em todas as suas obras. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. se correspondem. do movimento. A formação do conceito é. analítico. d) indica. Aristóteles. um ato puro enfim. entretanto. concebido. e) refuta. baseada sobre a imediata experiência. Por certo. ato puro. Todas as partes se compõem. a própria solução. motor imóvel. idealista. Aristóteles. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. uma verdadeira síntese. o processo dedutivo e indutivo aplicaos. se confirmam. 2. o sensível. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. mas abandonando a solução do mestre. o pensamento do pensamento. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. realidade do vir-a-ser. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. concebido como primeiro motor imóvel. Quanto ao juízo. o real puro. Como é que se formam os princípios da demonstração. do mundo. Assim sendo. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. a "desindividualização" do universal do particular. em seguida. pois. como pensamento de si mesmo. no estudo de uma questão. e que é o elemento constitutivo da ciência. passagem da potência ao ato. que é o nosso primeiro conhecimento. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. o contigente. é aquilo que move sem ser movido. um motor já em ato. isto é. na lógica. causa absoluta. da representação sensível. o possível puro. que não tem princípio e fim no tempo. uma doutrina da indução. por último. 3. fica eternamente inexplicável. sem se mover a si mesmo. é a priori. porém. mas certíssima. ao sensível: mas. enquanto é vir-a-ser. passagem da potência ao ato. antes de tudo. a saber. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. sem um primeiro motor imóvel. Com efeito. isto é. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. é aquilo que é movido. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. conquistado através do precedente raciocínio. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. seu nexo. as sentenças contrárias. origem extra-temporal. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. indiscutível. consequentemente. mais positivo. os conceitos. e. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. a matéria. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. seja constrangido a elaborar. Este vir-a-ser. isto é. ela não está efetivamente acabada. é anterior ao particular. necessidade objetiva. com rara habilidade. da passagem da potência ao ato. do inteligível. como ato puro. contraditório. compreende-se que Aristóteles. em que o universal é imanente. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. os juízos imediatamente evidentes. isto é. requer finalmente um não-vir-a-ser. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. psicologicamente existe primeiro o particular. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. de outra forma teria que ser movido por sua vez. tirada da experiência. a coisa parece mais complicada. gnosiologicamente. c) propõe depois as dúvidas. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. Deus é . Então só resta possível uma indução incompleta. Da análise do conceito de Deus. Deus. razão metafísica de todo devir. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. Deus.

e as dianoéticas. nem providência do mundo. isto é. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. ser completamente resolvido na razão. e. As virtudes intelectuais. mas concreto.65 unicamente pensamento. a vontade. incompatível com o ser perfeito. contemplativas. As virtudes éticas. Deus não pode agir e querer. Naturalmente. da natureza e do universo. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. teoréticas. Visto ser a razão a essência característica do homem. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. a prática. como não é inata a ciência. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. a sua lei. e a esta é necessária a razão. são superiores às virtudes éticas. não é criador. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. logo. que exige o conhecimento absoluto. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. E nesta autocontemplação imutável e ativa. popular. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. no mesmo tempo. a que é necessária à virtude. torna-se quase uma segunda natureza e. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. atraente. o exercício e. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. e variável conforme as circunstâncias. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". mas. como queria o ascetismo platônico. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. uma disposição constante. Como já foi mencionado. isto é. não as aniquila e destrói. e. o fim do homem é a felicidade. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. estabiliza-se. Deus é. como causa eficiente e formal (exemplar). domina as paixões. afetivo. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. que é precisamente uma atividade conforme à razão. mas uma ação com ciência. no dizer de Aristóteles. reta. mas adquiri-se mediante a ação. que a transcendem. portanto. torna-se de fácil execução . pois. de que se falou quando das obras dele. um costume moral. De Deus depende a ordem. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. mas unicamente como o fim último. ele. por conseqüência. tem. mecaniza-se. por conseqüência. relativo a cada qual. que deve ser governado pela razão. que constituem propriamente o objeto da moral. não são mera atividade racional. pensamento de si. que é pensamento puro. A virtude ética não é. mas unicamente conhecer e pensar. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. consegue a felicidade mediante a virtude. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. uma atividade segundo a razão. Pelo que diz respeito à virtude. a política. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. Se a virtude é. do intelecto. e menos ainda opera sobre ele. porém. fundamentalmente. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. Se Deus é mera atividade teorética. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. da vontade. todavia. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. Se o agir. não conhece o mundo imperfeito. auto-suficiente. permanece o dualismo. a racionalidade do mundo. isto é. igual para todos e sempre. como as virtudes intelectuais. da filosofia. ativas. É uma distinção e uma hierarquia. ao contrário. atividade teorética.como o vício. razão pura. a virtude não é inata. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. está a beatitude divina. na ação de um homem. o racionalismo. o seu bem. teoréticas. este justo meio. passional. metafísico. A característica fundamental da moral aristotélica é. não é abstrato. práticas. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. isto é. portanto. um elemento sentimental. e não pode. uma vez adquirida. morais. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. não é unicamente ciência. Noutras palavras. isto é. com o pensamento e a vontade. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. certamente. e só assim. sobre a ação. a sua felicidade. mas uma aplicação da razão. A razão aristotélica governa. Logo. a vida. pensamento de pensamento. . como causa final. por natureza. mas implicam. voltando-se para ele. Deus não atua sobre o mundo.

naturalmente. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. O estado provê. as materiais. Quanto à forma exterior do estado. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. estes últimos seriam os escravos. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. os bens. Vejamos. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. salva o direito privado. dessa forma. O estado surge. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. como Platão. condena o estado que. E. e põe a conquista acima da virtude. consequentemente. defesa e segurança. a . Deve ele guiar os filhos e as mulheres. físicas. a democracia. e cuja degeneração é a tirania. Daí a escravidão. inicialmente. que é o governo de um só. a educação militar de Esparta. isto é. Mas o seu fim essencial é espiritual. que é o governo de muitos. A política. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. visto ser necessário. os escravos. intelectuais e. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. tem também um fim econômico. enquanto a guerra. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. que exigem indivíduos particulares. mediante um treinamento profissional. é-lhe essencial a propriedade. a aristocracia. de outro modo irrealizáveis. é superior ao indivíduo. Aristóteles. para tanto. pois o homem. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. e cuja degeneração é a demagogia. político. negativas e positivas. a mulher. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. porquanto a família. o bem comum superior ao bem particular. como o trabalho. além de um fim educativo. que precede cronologicamente o estado. isto é. cujo caráter e valor estão na qualidade. Compreende-se. diversamente de Platão. tempo e liberdade. e não máquinas. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. além. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. Não obstante a sua concepção ética do estado. pois os homens têm necessidades materiais. porque o fim último do estado é a virtude. aquela a coletividade. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. No entanto. do chefe a que pertence a direção da família. a felicidade dos súditos mediante a ciência. dos trabalhadores. possuidores. político. então. a propriedade particular e a família. a política é a doutrina moral social. visa a conquista e a guerra.66 A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. a dos cidadãos e a dos escravos. são necessários instrumentos inanimados e animados. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. contudo. então. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democrático-intelectual. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. a satisfação daquelas necessidades materiais. Deve fazer frutificar seus bens. como as partes precedem o todo. como ao estado. A ética é a doutrina moral individual. O estado é um organismo moral. como seja tarefa essencial do estado a educação. e. Se se quiser a unidade absoluta. O estado. E critica. sem direitos políticos. que é o governo de poucos. de que acima se falou. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. o estado em particular. Segundo Aristóteles. para que a propriedade seja produtora. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. deve promover a virtude e. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. subordinadamente. é distinta da moral. O estado não é uma unidade substancial. em razão da imperfeição destes. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. bem como aptas qualidades espirituais. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. duas classes reconhece: a dos homens livres. Eis porque Aristóteles. cujo caráter e valor estão na unidade. e cuja degeneração é a oligarquia. sendo naturalmente animal social. cujo caráter e valor estão na liberdade. agora. condição e complemento da atividade moral individual. isto é. importantíssimas a poesia e a música. conservação e engrandecimento. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. precisamente.

produção mediante a imitação. e sim imitação direta da própria idéia. movido e motor. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. até sem correção alguma. ser efetivo. ainda que encarnado fantasticamente num particular. não está em condições de se tornar objeto de religião. graças ao artista. I. E não fica nenhum outro objeto religioso. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. antes de tudo. do inteligível imanente no sensível. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. a forma. de conformidade com o fundamental realismo grego. não-ser atual. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. como é o fenômeno. Deus. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. matéria e forma. A arte é. bem como o mundo mutável e material. e ato significa realidade.67 forma de governo clássica da Grécia. evidência e vivacidade de expressão. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. não exclui uma espécie de politeísmo. o mutável. depende a eficácia espiritual pedagógica. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. como Platão. princípio dos movimentos e das formas do mundo. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. Deste seu conteúdo inteligível. o imutável. as questões gerais da metafísica. mais tarde. Aristóteles admite a religião positiva do povo. particularmente de Atenas. seja embora real. Por isso. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. No entanto. os deuses astrais. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. acontecer. Exporemos portanto. e sim concreta: deve ser relativa. o universal. isto é. isto é. o sensível. Explica e justifica a religião positiva. perfeição. e admite. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. destarte. íntimo sentimento do conteúdo. que ele não conhece. não cria. universal. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . este Deus. pelo seu efetivo isolamento do mundo. é portanto uma síntese  um sínolo  de potência e de ato. mas o que por natureza deve. necessária e universalmente. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser  natureza e homem  e culmina no que não pode vir-a-ser. imitação da forma imanente na matéria. capacidade de ser. não governa. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. isto precisamente porque o inteligível. porém. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. Entretanto. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. para depois chegarmos àquela que foi chamada. com o seu profundo realismo. universal é encarnado. acomodada às situações históricas. o inteligível. num particular e. A primeira e a última abraçam todo o ser. esse inteligível. tornando intuitivo. Não. mais do que as transcendentes idéias platônicas. Na arte. No entanto. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. pois. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. imitação de uma imitação. concretizado num sensível. que não seja o Ser perfeitíssimo. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". particular e universal. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. platônicos. deve ser encarnado. purificadora da arte. tradicional. mas em seus aspectos universais e necessários. portanto. As leis da obra de arte serão. em diversas . metafísica especial. às circunstâncias de um determinado povo. mítica. Também Aristóteles. concretizado pelo artista num sensível. como obra política para moralizar o povo. Todo ser. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. num particular.

A realidade. a alma é que move o corpo. universal particularizado. a mudança. princípio de ordem e finalidade. as qualidades acidentais. O motor pode ser unicamente ato. pressupõe uma realidade imutável. o segundo é atualidade . consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. surge o movimento. e as determinações que se realizam neste substrato. e esta. especificadora da matéria  . A mudança é. III. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. o imperfeito o perfeito. A mudança. eternas. a forma aristotélica não é separada da matéria. conforme o grau de perfeição. Daí uma quarta causa. passando da potência ao ato. o vir-a-ser. como as idéias platônicas. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. mero princípio de decadência. Segundo Aristóteles. é o substrato imutável. depende da matéria. por sua vez. matéria enformada. chamada matéria-prima. portanto. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. vamos logo falar. imutáveis. portanto. a única realidade efetiva no mundo. IV. inteligível. a potência o ato. a forma e a matéria. a causa final. O indivíduo é. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. possibilidade de assumir várias formas. a individualidade. a pura matéria. a essência. entre a matéria e a forma. que tanto atormenta Platão. o segundo forma (substancial). já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. potência realizada. a mudança. de realidade dos vários seres. produzindo esta síntese o indivíduo. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. de uma potencialidade anterior. potência. visto ser impossível que o menos produza o mais. é composta de indivíduos. isto é. Ao contrário. a causa eficiente. Desta doutrina da matéria e da forma. Diversamente da idéia platônica. Por conseqüência.realizadora.68 proporções. Eis a grande doutrina aristotélica do motor . portanto. a forma é. em que a forma introduz as determinações. Então não existe. a forma sem a matéria. que representam a potência e o ato no mundo. a realização do possível. O primeiro é potência. Aristóteles explica o indivíduo. a natureza que ele assume. imperfeição. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. Esta realização do possível. elemento imutável da mudança. é um mero possível. a coisa movida  enquanto tal  pode ser unicamente potência. a substância física. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados  bem como a matéria não pode ser atuada  a não ser por um outro indivíduo. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada  e desenvolvida . as formas aristotélicas são universais. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. Aristóteles faz o primeiro  a idéia  imanente no segundo  a matéria. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. Um substrato comum. propriamente. racional. causa concomitante de todos os seres reais. Daí a necessidade de um terceiro princípio. que é de duas espécies. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. substâncias. A causa eficiente. em que a mudança se realiza. A matéria sem forma. Por exemplo.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. matéria. deve operar para um fim. mas une-os em uma síntese conclusiva. forma concretizada da matéria. forma. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Herácllito. porém. II. Um ser desenvolve-se. é um absolutamente interminado. porém. por uma substância em ato. nem o ser de Parmênides. Os elementos constitutivos da realidade são. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. ingrediente necessário para a existência da realidade material. que é precisamente síntese  sínolo  de matéria e de forma. não existe por si. mas vice-versa. perfeição. e sim imanente e operante nela. a que é submetido tudo que tem matéria. Mediante a doutrina da matéria e da forma. portanto. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. na natureza em que vivemos. portanto. aperfeiçoa-se. Da relação entre a potência e o ato. porém. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. A essência  igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie  deriva da forma. não é o puro não-ser de Platão. Com respeito à matéria. A matéria aristotélica. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. que constitui precisamente a substância. em que se sucedem os acidentes. que são uma síntese  um sínolo  de matéria e forma. por sua vez. A síntese  o sinolo  da matéria e da forma constitui a substância. que é intuitiva.

quanto a tal. funções. conforme Aristóteles. que é a forma do corpo. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. se desdobra em dois graus. diversamente de Platão. . são percebidas por mais sentidos. o apetite guiado pela razão. ativa. que é precisamente a alma. Por conseqüência. por sua vez depende do conhecimento sensível. sendo embora uma e única. A característica da vida animal. sensitivo e intelectivo. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. mas instrumento da alma racional. as essências. O sensível próprio é percebido por um só sentido. em geral. que tem por princípio a alma vegetativa. conhecendo o imaterial. que tem por princípio a alma racional. as qualidades gerais das coisas tamanho. sem idéias inatas. De sorte que. e. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. Analogamente às atividades teoréticas. deve ser imperecível. quer dizer. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. a inteligência. que. o ser absoluto. respectivamente. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. o contingente. sendo superior a estas. tendo a função de coordenar. e dessa depende a prática. Cada uma destas. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. isto é. através do movimento de um meio. o imutável. o sensível comum. Aqui nos limitamos à psicologia racional. O conhecimento sensível. O senso comum é uma faculdade interna. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. especificamente diverso do primeiro. o necessário. o imaterial. começa com a síntese. A sensação embora limitada é objetiva. a alma humana. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. que tem por objeto específico o homem. percepções. a atividade fundamental da alma é teorética. a falsidade. com o juízo. repouso. forma do corpo. isto é. a saber. representações. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. o corpo humano não é obstáculo. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. por isso. que é constituída pelo segundo. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. o pensamento. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. cognoscitiva. Deus. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. e é próprio da alma animal. unificar as várias sensações isoladas. não é um espírito puro. que a ele confluem. doutrina que culmina no motor primeiro.e da coisa movida. que tem por princípio a alma sensitiva. pelo que ela é espírito. no grau sensível bem como no grau inteligível. cognoscitiva e operativa. absolutamente imóvel. se se tiver presente que o homem é um animal racional. a alma humana. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. e se tornam. mas um espírito que anima um corpo animal. Assim. isto é. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. pois. Objeto do sentido é o particular. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. ou a possibilidade da falsidade. e é própria da alma racional. ainda que rejeite o inatismo platônico. na sensação propriamente dita. a sensação. E assim. deve ser espiritual e. A vontade é o impulso. Enfim. é a nutrição e a reprodução. pressupões um fato físico. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. figura. as sensações específicas são percebidas. o material. pelos vários sentidos. contemplativa e ativa. movimento. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. pois. imediata ou à distância. tem várias faculdades. isto é. segundo Aristóteles. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas porquanto se dão atos diversos. é o pensamento. a característica da vida do homem. ato puro. dependente do sentimento. Objeto do intelecto é o universal. vivente. Como se vê. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. etc. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. o mutável. A Psicologia 69 Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado.

senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". político. autor do primeiro tratado de psicologia científica. e a matéria. como enigma insolúvel e inexplicável. sempre o que é mais belo". Movimento espacial  mudança de lugar. 3. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. com o seu espírito positivo e observador. . pela teoria da abstração e da inteligência ativa. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo  finalismo  por ele propugnado com base na finalidade. 4. dum lado. sem obrigação nem sanção. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. mas encalha. de fenômenos  é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. Platão dá um passo além. é. é a análise dos vários tipos de movimento. a medida  do movimento segundo a razão. a existência dos seres fora de Deus. condicionando todas as demais espécies de mudança. "A natureza faz. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. porém. de outro. enquanto possível. Aristóteles. primeiro escritor da história da filosofia. Movimento substancial . A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dános.mudança de forma. nascimento e morte. patriarca das ciências naturais. que tem um valor teorético. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. realização de uma possibilidade. metafísico. Movimento quantitativo  acrescimento e diminuição.70 A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. na própria teoria aristotélica. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. moralista. Vista Retrospectiva Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. 2. a realização da forma na matéria. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo  como sendo relações de substâncias. ato puro. do "antes" e do "depois". isto é. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. a psicologia e a lógica. Movimento qualitativo  mudança de propriedade. o aspecto. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. Em torno desta questão fundamental. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. Criador da lógica. e são logicamente separáveis da sua filosofia. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. que ele descortina em a natureza. nas extravagâncias dum idealismo extremo. pela doutrina do conceito. físicas e especialmente astronômicas. Quanto às ciências químicas. como filosofia da natureza. uma verdadeira contradição e deixa subsistir. em torno dos quais fez ele investigações profundas. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. Sua moral. O tempo é definido como sendo o número  isto é. princípio potencial. que entende com a metafísica. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. nas suas linhas gerais. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. mudança. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1.

. A gnosiologia (lógica. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. da física . intuitiva. Tito Lucrécio Caro . pertencentes a classes sociais elevadas. e foi criado em Samos. pela maior parte perdidos. sobretudo. física e ética. gravada nas jóias. arrancar-se-iam destas e chegariam até à alma imediatamente. nos jardins da sua vila.I século a. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. ou mediatamente através dos sentidos. é uma complicação de sensações. O epicurismo teve.como o estoicismo .desinteressam-se por completo dos homens. Aliás. mas sempre materiais . indivíduo material. provavelmente. discípulos e amigos. A escola epicurista durou até o IV século d. mediante uma estável constituição. A filosofia é a arte da vida. Precisamente. a paz. a alma formada de átomos sutis. gosto para a formosura. como com aquilo que precede o nascimento. é tarefa do conhecimento do mundo. cartas. . que é imediata. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. Igualmente. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . para garantir ao homem o bem supremo. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. para a cultura superior. democritiana. que constitui a realidade originária.habitadores felizes de intermundos . do alémtúmulo. imutáveis. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. num sereno lazer. missões. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. a sua doutrina. em que dominava o vínculo da amizade. canônica) epicurista é rigorosamente sensista.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. em 341 a. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. resumida em catecismos. Em seus jardins.C. eternos. daí. A mãe praticava a magia. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. a ciência à moral. com setenta anos de idade. nasceu em Atenas.divide a filosofia em lógica.. Como a sensação. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. rápida e vasta difusão no mundo romano. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. Portanto. evidente. Faleceu em 270 a. mecanicista. Epicuro.o poeta entusiasta. que seriam imagens em miniatura das coisas. seguindo as pegadas de Demócrito. ajudas materiais. a apatia. da morte. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. mensais e anuais. em todos os tempos e lugares.71 O Epicurismo do ateniense Néocles.diz Epicuro .C. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. semelhante ao dos deuses. senso refinado. a percepção sensível. deu vida a uma sociedade genial. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. resolve-se numa física. houve todavia. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. a serenidade. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. Epicuro. a sua imagem. Estas nos dão o ser. e . Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. que venerava Epicuro como uma divindade. a sua filosofia foi considerada como uma religião. também subordina a teoria à pratica. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. fundador da escola que tomou o seu nome. invisíveis. Cedo dedicou-se à filosofia. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista.C. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática.perece com o corpo. nenhuma preocupação com a morte.C. mas conservou-se fortemente organizada. homens famosos. onde encontramos. recorre Epicuro à física atomista. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. conforme o desejo do mestre. A originalidade deveria manifestar-se na vida. desde logo. feita de nobreza de sentimentos. A associação espalhou-se depois. mas teve escasso desenvolvimento. autor de De rerum natura.. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada.

O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. na apatia. racionado? Na satisfação de uma necessidade. infinito. a ambição. a virtude ética de Aristóteles). Em que consiste. mas negativo. a virtude dianoética de Aristóteles). no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. que é unicamente presente. em vigiar-se. O prazer espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível. No epicurismo não se trata. a vida ideal do sábio. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. do indeterminismo universal. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. para os quais não há lugar no seu sistema.72 homogêneos. ou de nenhum sofrimento menor. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . para estar tranqüilo. escolhido prudentemente. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. de fato. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. Aqui. O universo não é concebido como finito e uno. O fim supremo da vida é o prazer sensível. espalhado pelo espaço infindo. sujeitos ao nascimento e à morte. a amizade genial. os átomos estão no espaço vazio. satisfazendo suas necessidades essenciais. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. a origem e a variedade das coisas. mas também na ação (cfr. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. e precisamente em uma vida curta e refinada. a virtude. e não se deixar por eles dominar. do prazer imediato. a maneira grega. É mister dominar os prazeres. Não sofrer no corpo. Epicuro. No entanto. Nisto estão toda a sabedoria. na remoção do sofrimento. consequentemente. refletido. espontâneos (clinamen). consistindo na ausência do sofrimento. na insensibilidade. esteticamente. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. Em realidade. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . por conseguinte. os vórtices e os mundos. se ele faz uma afirmação profunda.no tamanho. o instinto da reprodução. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. indispensável para que seja possível o movimento e.por exemplo. sem causa. na quietude. na figura. não ser perturbado no espírito. indivisíveis (átomos). não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo como pensava Demócrito. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. que é uma simples combinação da contingência. a moral epicuristas. renuncia os segundos. a não ser em vista de um prazer. Mas precisamente ainda. e nenhum sofrimento deve ser aceito. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. no peso. refletido. Nesse mundo o homem. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. e na morte. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. quando for preciso. e. perturbam a serenidade e a paz. se ensina a renúncia. da paixão. que nasce de exigências não satisfeitas. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. que é precisamente liberdade e paz. da emoção. como é desejado pelo homem vulgar. Também segundo Epicuro. não naturais e não necessários . mas ainda renuncia os terceiros. deve adaptar-se para viver como melhor puder. sabiamente. daí derivam encontros e choques de átomos e. como o único mal é a dor. pelos mesmos motivos. Estes. estéticos e intelectuais. afinal. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. físicos e espirituais. sem alma imortal. nenhum prazer deve ser recusado. no sono. portanto. aos prazeres positivos. por conseqüência. O único bem é o prazer. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. melhor é conhecer do que agir. critério único de moralidade é o sentimento. esse prazer imediato. renunciando a todos os desejos possíveis. como os mais altos prazeres. . avaliado pela razão. Entretanto. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. sem providência divina. A filosofia toda está nesta função prática. no isolamento do mundo. porém. do filósofo. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. O verdadeiro prazer não é positivo.por exemplo. trata-se do prazer imediato. filosoficamente. O sábio satisfaz os primeiros. Assim.

negando todo absoluto e transcendente. sorvendo ambrósia. mas não é atacada pelo ceticismo. Substancialmente. especialmente durante o sono. inversamente. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. dar uma unidade estética e racional à vida. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. sem qualquer metafísica. existem. O epicurismo. proclamado ateu. de sofrimento. mas não se podem conhecer por falta de meios. na conversa arguta e delicada: numa palavra. prática e teorética. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. e a morte é a ausência de sensibilidade. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. conversando em grego! Mas . até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. à destruição de todos os valores. ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. teria praticado . É de fato. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. que importa na contemplação do ideal. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. vivendo ocultamente. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. nos espaços entre mundo e mundo. diversamente do imanentismo estóico. Chega-se. mais do que ao mundo. praticamente ateu. tendo forma humana belíssima. mesmo negativa. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. paz e contemplação. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. uma norma de vida ordinária e espiritual. porém.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . Os deuses de Epicuro são muitos. especialmente do que o estoicismo. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. destarte. quando ela é nós não somos mais.beatos. para não serem contaminados. A felicidade não é mais uma coisa positiva. Epicuro. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. imortais diversamente dos deuses estóicos . na unidade da amizade. Vivem.como na Academia e no Liceu. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. perturbados. Então. Epicuro venera os deuses.73 do vulgo. porque quando nós somos. Através da mais absoluta indiferença. no entanto. do sossego. ela não é. que vive no mundo de estátuas divinas. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva.desceriam até nós dos intermundos. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. sutis e luzentes. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. que não pode ser senão cópia de realidade. contemplados . embora imperfeita. Epicuro é também hostil à atividade pública. que é inacessível ao homem". não para receber auxílio. fora do mundo e dos mundos. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. Epicuro admite a divindade transcendente. portanto.não atuam sobre o mundo e a humanidade. nos jardins de Epicuro. portanto.o mal da religião. dotados de corpos luminosos. escapando destarte a fatal destruição dos mundos.sempre acordados e sentados em jovial convívio. considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. . o objeto. incoerente. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. Dado este conceito da vida concebida como liberdade.segundo ideal grego da vida . constituídos de átomos etéreos. representa. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. na beata solidão dos intermundos. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. É preciso venerá-los para imitá-los.como os fantasmas de todas as outras coisas . portanto. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. uma religião desinteressada. da indiferença. preenchida com as mais nobres ocupações . Nunca nos encontraremos com a morte.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. Almejava. Deste modo. Epicuro.

Primeiramente (estoicismo e epicurismo).C. O ceticismo critica o conhecimento sensível. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. com relação às ciências especiais. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades. ao passo que a metafísica esmorece. o vigor especulativo. e sim o jus. restringem-se ao particular. não filosóficos. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. que surgiram em tempos diferentes. embora imensamente inferior ao ceticismo. mais ou menos). como opina Aristóteles. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo. significando a expansão da cultura grega. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticosascéticos dos céticos. e não justaposição mecânica de peças sem vida. anula-se toda metafísica e. inteiramente voltada para a prática e para a ação. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônico-aristotélico.. O interesse teorético. ciência 74 . peripatético. pois a filosofia é escolha. na história da filosofia denomina-se período ético. literatura. matemática. Não filosofia teorética. ou não têm a força da crítica. física. que implica sempre numa crítica. esvaziadas do seu conteúdo original. embora acriticamente. no período helenista e depois ainda. helênica. Do contingente e do temporal. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. Também o ecletismo. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. voltando-se para a sofística. e por demais despersonalizadas. geralmente. astronomia. e a coerência materialista do epicurismo.) Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. da tese e da antítese. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. como o ceticismo. E. dada a natureza crítica do ceticismo. portanto será não a filosofia. toda moral. Em conclusão. enfim.C. medicina. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. E. de várias escolas filosóficas. este período toma o nome de helenismo. característico . consequentemente. Na história da civilização e da cultura. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. de tendência pirroniana. e a sabedoria é desapego da ação. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes.C. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. como na idade moderna. e também a opinião. construção. sistema. uma orientação moral. mas filologia. depois (ceticismo e ecletismo). a filosofia torna-se uma preparação para a morte. geografia. ciências naturais. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. cínica e cirenaica. depois acadêmico e. se nada é verdadeiro. cuja grande obra. história. um ecletismo estóico. bem como à moral das escolas socráticas menores. que procura na filosofia um conforto. . do relativismo sofista. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. como uma suma de elementos estóicos. no mundo civilizado.como acontece nos períodos de decadência especulativa . feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. em ordem cronológica. O pragmatismo eclético foi.529 D. melhor ainda. Temos precisamente. desenvolve-se naturalmente a técnica. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. a terceira. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. faz uso da dialética eleática. que concebem a filosofia popularmente. enfim. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. acadêmicos e também peripatéticos. A primeira escola cética serve-se. O Período Ético (300 a.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. como julga Platão. tudo vale igualmente. em princípios da era vulgar. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. enfim. nem a da afirmação. organismo especulativo. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou.O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. bem como o intelectual. moralisticamente.

a de escritor. uma física. logo. aí . no fundo. A escola estóica média ou eclética. é destruído. Finalmente. pelo ano 300. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida.C. uns tratados socráticos. porém. O primeiro valor dá o conteúdo. O conceito. Não obstante esse absorvente moralismo. acaba não sendo mais filosofia. moralizadoras. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. não como ciência. um período recente ou religioso. por conseqüência. antes de tudo. e precisamente desse terceiro período ecletismo e estoicismo. funda a sua escola. pois.perdidos seus bens . O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. Entende-se. o segundo a forma . a saber. e anacrônica. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. da metafísica e. seguindo-se o aniquilamento da ciência. pois. anuladas. em que ainda há uma metafísica. em correspondência com o discurso interior e exterior. leva para ele. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. juntamente com a atividade didática. um período médio ou eclético. mas como uma missão e uma prática religiosa. filosofia moral e moral prática. stoá. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. diversamente de Aristóteles. o estoicismo. Iniciou. libertar o homem das preocupações transcendentais. portanto. inclusive da política e da religião. não sistemas críticos. para assegurar ao homem a felicidade. em que a metafísica e moral são sincretistas. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. de Atenas. em segundo lugar. da escola estóica. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres.75 e técnica. mas vastas orientações e escolas. e. valor universal como a filosofia grega. elementar. depende de cultura grega. Podem-se. metafísica. nem moral. para firmar a virtude e. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. o helenismo. Trataremos. Como em Aristóteles. que se chamou estóica. rigoristas. da escola cética. o direito romano. mercador. por conseguinte. pelo que diz respeito à filosofia. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. como no precedente. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. Seu pai. entre os quais o cínico Crates. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. Os dois últimos. e. Na lógica trata-se da gnosiologia. a física iguala a metafísica. física e ética. logo. em que não há mais metafísica alguma. mas afirmações dogmáticas. bastante divergentes do estoicismo clássico. sacerdotal. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. em outras palavras. enfim exporemos o pensamento latino. em terceiro lugar. mas. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. uma ética. também da moral. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. do temor de além-túmulo. como na escola eclética. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético.. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. o qual. mais ou menos). . pois. da escola epicuréia. O Estoicismo Em seu conjunto. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. o jus e a política dos romanos. isto é.Graecia capta ferum victorem cepit. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. No dizer dos estóicos. em contradição consigo mesma e com a moral.dedica-se à filosofia.

não lhe resta efetivamente mais nada. da serenidade. a sabedoria. Por conseguinte. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. que anda como um deus entre os homens. sem saudades e sem esperanças. a serenidade. destinada a . supremo. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. quer se trate de piedade. sem dúvida. ao repouso e à fadiga. destino. Mas é uma virtude absolutamente negativa. incoerentemente declaram racional o fogo substância metafísica da realidade -. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. que se manifesta no mundo. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. não a alma. nada lhe acontece que não seja por ele querido. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. mas a virtude. necessidade. o vício. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. único bem da alma. uma tendência irracional. fruto de uma fatigosa conquista. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. uma necessidade mecânica. isto é. De tal forma. Como o bem absoluto e único é a virtude. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. a dor. em especial no homem. é sempre e substancialmente má. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. mas pragmatistas. o fim supremo. a alma. Com o desenvolvimento do estoicismo. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. quando o homem se torna indiferente a tudo. inteiramente absorvidos na prática. pois é movimento irracional. Devendo os estóicos. imaginam-no como espírito ordenador. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. mecanicismo. assim o mal único e absoluto é o vício. a independência interior. o sossego. a felicidade. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. Como se vê. a paixão. e cujo curso é fatalmente determinado. providência. porque. às honras e à obscuridade. à riqueza e à pobreza. Não Deus. e os estóicos não são filósofos. moralistas. à maneira de Demócrito. Com efeito. da serenidade. não é nem bem nem mal. uma emoção. Esta matéria está em perpétuo vir-a-ser. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. salvo o seu pensamento . e dar uma explicação à razão. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. pois no sistema estóico. de tal maneira. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. no fundo. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. A serenidade. segundo uma ordem teológica. a tranqüilidade da alma. mal se for ligado ao vício. a virtude. salvo e pensamento. mas a sua destruição total. que são o verdadeiro. a emoção. que nasce da virtude negativa da apatia. até a apatia. metafísicos. donde derivam o desejo. isto não se concilia. na ética. como o Sol faz brotar da semente a planta.76 A metafísica estóica reduz-se à física. em definitivo. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. e a tudo renuncia.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. a autarquia. A virtude estóica é. decadente. naturalmente. fornecer alguma base à sua ética do dever. todavia. ao prazer e ao sofrimento . a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. mas apenas indiferença. e a lei desse princípio material só pode ser. inteiramente fechado na sua torre de marfim. como precisamente afirmam os estóicos. não é o prazer. Deus. na filosofia estóica.quer se trate de ódio. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. se a ordem do universo é racional. A paixão.cujo conteúdo é. indiferença e renúncia a tudo. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. de uma dura virtude. a apatia dos estóicos seria. e se conforma com o demais. espírito. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. porém. e sim como sendo ela própria um bem imediato. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. a paz. O sábio é beato. morbo e vício da alma . conforme a concepção de Heráclito. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. é uma pura palavra. toda atividade é movimento. contraditória. como geralmente acontece. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. razão da vida. numa palavra. que devem ser aniquilados. e para não perder. da autarquia do sábio. à saúde e à doença. o único bem do homem. todavia. devem-se conceber materialisticamente também Deus. as propriedades das coisas. da indiferença universal. esta mesma renúncia -.

aos fervores do misticismo oriental. O neoplatonismo julga poder superar o dualismo. Seus correligionários . O centro do pensamento então se estabelece em Alexandria. entre o mundo e Deus: primeiro. torna-se cosmopolita por natureza. O cristianismo tomará impulso. o culto de Mitra. morte moral. mediante o monismo estóico. judeus. todavia. II . cidade grega por excelência. É o local privilegiado de todos os intercâmbios. até para os infelizes e os escravos. além da verdade suprema. O racionalismo lúcido dos gregos se une . de Ísis. esse cosmopolitismo. a qual. a Bíblia hebraica teria sido traduzida para o grego por setenta sábios. elaborando uma moral ascética e mística. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. Os filósofos. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. Os homens piedosos querem fundamentar suas crenças filosoficamente. por um lado. da filosofia neoplatônica. ou sintético. buscam a salvação. As religiões de salvação. em civilização humana e moral. por outro lado. Tal é a atmosfera que vamos encontrar envolvendo tanto Filon de Alexandria. de direito natural. Destarte. virtude corrosiva.) é bem representativo dos meios judeus helenizados que só sabiam ler a Bíblia na versão grega denominada dos Setenta (segundo a tradição. completar. Preocupações filosóficas e religiosas se unem estreitamente. cidade cosmopolita na qual vivem egípcios. Filon de Alexandria Filon de Alexandria (nascido por volta de 25 a. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. em segundo lugar. em relação com tal metafísica. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". na qual o aristotelismo fornece sobretudo os quadros lógicos. que existe. A cidade é povoada de pensadores que dispõem de uma admirável biblioteca. promove todavia os conceitos de sociedade universal. entre finito e infinito. então se desenvolvem. Apesar das denegações dos céticos e da propaganda materialista dos epicuristas. não tem mais sua capital tradicional em Atenas. entre matéria e espírito. A filosofia antiga. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. e elevando. o vértice da realidade inteligível ao suprainteligível e. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. Isto nos ajuda a compreender o caráter sincrético. livres e íntegros.77 resolver-se na matéria. identificando. integrar a filosofia mediante a religião. quanto Plutarco ou Plotino. e o misticismo oriental o conteúdo. e julga poder superar. de perdão. se esforçará por unificar os pólos opostos da realidade. fazendo com que da substância do Absoluto seja gerado todo o universo até a matéria obscura.numa síntese muito original . os estrangeiros e os inimigos. Será acentuado o dualismo platônico entre sensível e inteligível. de lei racional.C. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. gregos e romanos.dualismo e racionalismo que nem sequer o gênio sintético e profundo de Aristóteles conseguiu superar. porém. que tinha encontrado um obstáculo intransponível no dualismo e racionalismo gregos . a matéria com o mal. Pelo que diz respeito à política. em Alexandria). o racionalismo grego mediante o misticismo oriental. em seu último período. apenas para os concidadãos. clássico. proporcionando o racionalismo grego especialmente a forma.Cristão O Neoplatonismo Características Gerais do Neoplatonismo O neoplatonismo pode ser considerado como o último e supremo esforço do pensamento clássico para resolver o problema filosófico. onde campeia solitária uma justiça. particularmente os intelectuais. nunca os homens foram tão famintos de Deus quanto nessa época. político por natureza. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso.

identificar Deus com o universo. do conhecimento dos dois princípios rivais. Plotino engajou-se no exército do imperador Giordano. ao menos. "Platão é um Moisés que fala grego". e purificá-la. a traduzi-lo. Lagrange. envolvida por uma potência malfazeja num corpo radicalmente vicioso (a encarnação é uma encarceração) e de que a salvação provém do verdadeiro conhecimento (gnosis em grego). Num sentido. Isto porque. dirigiu-se para Alexandria onde seguiu as lições do platônico Amônio Sacas. no Alto Egito. o grande problema da escolástica medieval. A idéia essencial (já presente em Platão e Plutarco) é a de que somos formados de uma alma. seu filho primogênito (protógonos). temos um primeiro esboço da teoria dos gêneros literários e das mentalidades! É com relação à inspiração sagrada da Pítia que Plutarco formulará sua célebre expressão: "O corpo é o instrumento da alma e a alma o instrumento de Deus. A idéia de Filon de harmonizar a revelação e a razão. mas sob forma alegórica. a Bíblia e Platão. Para ele. Dezoito séculos antes do Pe. a fim de nascer para o inteligível? Se Deus é inacessível. que o "converteu" à filosofia (pois. uniu às práticas ascéticas ("Tinha vergonha de estar num corpo". A concepção que São João faz do Verbo divino muito deve às fórmulas e às idéias de Filon de Alexandria. a filosofia não era simples disciplina teórica. aos 28 anos. Mas Tifon. pode participar do Inteligível . Essa filosofia dualista provém de Platão e a encontraremos em todos os sistemas denominados "gnósticos". Porfírio anotou e publicou seus cursos.78 tinham-no encarregado de uma missão junto ao imperador Calígula (para serem dispensados do culto ao imperador. de Platão e de Zenão de Citium. Ísis simboliza a matéria e Osíris o Logos. Todavia. Platão traz a mesma mensagem sob forma filosófica. incompatível com o monoteísmo judaico). e. mas escola de vida espiritual. não podemos. é uma herança legada por Filon (é nesse sentido que Wolfson dirá que a filosofia medieval é inteiramente filoniana). Plutarco encontra simbolização de sua doutrina nos mitos da salvação comuns em sua época. onde abriu uma escola. o da concordância entre razão e fé. . O conjunto compreende cinqüenta e quatro tratados agrupados em seis Enéadas (isto é. sobrevivendo aos seus desastres. diretamente. cuja exegese ele propõe: á Apolo que. Filon pretende fazer uma síntese entre os ensinamentos de Moisés. a voltá-la para as realidades sublimes). introduz a desordem e a perturbação: dispersa os membros divinos de Osíris que Ísis tenta reunir. destinada a transformar inteiramente a alma. Em 243. ao princípio transcendente do Bem se opõe um princípio do mal. Colocou em particular o problema do mal e da Providência em seu ensaio sobre as Dilações da Justiça Divina. grupos de nove). Leva a sério as profecias de Pítia. à maneira dos estóicos. com os seus hábitos de linguagem. podemos nos aproximar d'Ele por intermédio da renúncia ao mundo e do recolhimento da alma. Já Platão não houvera dito que é preciso morrer para o sensível. o próprio Deus é inefável. que o admirou. dirá seu discípulo Porfírio a seu respeito) um ensino muito brilhante.ao qual Filon denomina Logos. Plutarco de Queronéia O autor da Vida dos Homens Ilustres também é um pensador religioso. assim como entre os estóicos. A união dos dois explica a criação no que ela tem de bom. o princípio do mal.. estabeleceu-se definitivamente em Roma. o espírito humano. ilumina o espírito de Pítia. dos meios que permitiriam a vitória do princípio do bem. na escola neoplatônica. a fim de conhecer a filosofia dos persas. Plutarco aceita tornar-se sacerdote de Apolo Pítico em Delfos. Como dirá mais tarde um discípulo de Filon.. das causas que fizeram triunfar o princípio do mal. Para Plutarco. psyche organon theou!" Plotino Plotino nasceu em Licópolis. que é a lei do nosso mundo. estaria fadada a uma grande existência. inacessível às nossas abordagens. isto é. Verbo eterno de Deus. mas esta exprime a Revelação segundo sua mentalidade e sua cultura. trabalha da melhor maneira possível para o renascimento do culto délfico. Aí. a Bíblia diz a verdade. divina por essência. que levou Joseph de Maistre. Para Filon.

Já no Timeu de Platão está colocada a questão de uma gênese do mundo. e ele é plenitude. A sensação representa o primeiro grau de conhecimento humano. Mas o Uno é riqueza infinita. A Gnosiologia A gnosiologia de Plotino é semelhante à de Platão. terceira hipóstase (que evoca o tema platônico da alma do mundo. a Inteligência. da qual ela procede. o ponto extremo onde morre a luz. este último aspira à reconquista da unidade. As almas individuais emanam dessa alma universal.Da Inteligência procede a Alma. de toda beleza. A alma que dizem prisioneira do mal é apenas uma alma que se ignora.Por que existem outras hipóstases? Por que esse Deus plotiniano. Essa filosofia. destruir um universo para dar nascimento a outro. das três substâncias. das três realidades eternas . não é. desejar é sentir falta de algo. Esse arrebatamento da alma. o que explica o fato de o autor das Duas Fontes Ter colocado Plotino acima de todos os filósofos. Ele é todas as coisas e nenhuma delas. o mundo material representa o último estágio dessa "difusão" divina. para Plotino. tende a engendrar outros seres que se lhe assemelham. um dia. o qual não é o conhecimento (uma vez que este supõe a dualidade do sujeito cognoscente e do objeto cognoscível . 79 .nem o Ser. ainda que menores. rival do mundo do bem. a obra de Plotino possui uma tônica de misticismo que é nova. Assim como de um fogo ardente as chamas se irradiam. O primogênito de Deus é o Logos. todavia. em termos plotinianos. que atinge as idéias. isto é. Segue-se. como até então não se sentira ainda. discursivo. por que o Uno não é único. nada tem de uma substância positiva: "O mal não é senão o apequenamento da sabedoria e uma diminuição progressiva e contínua do bem". de ver no plotinismo um dualismo gnóstico. pela desvalorização da sensibilidade como aparência. mas ele próprio é de tal ordem que nada podemos afirmar a seu respeito. o peso da matéria. manifestando-se nela obscuros vestígios da verdade. à luz e ao repouso na fonte sublime. assim como o deus cósmico dos estóicos). Abaixo das três hipóstases. o que é capital para Plotino. dialético. caída no corpo. livrar-se do mal. não é absolutamente nova. Todavia. demonstrativo. Todavia. por que se degrada na multiplicidade? É certo que não está submetido a qualquer necessidade. . B. obscureceu-se. A Inteligência é que faz a realidade ter uma forma. sente-se aí. É aquilo de que promana toda existência. nem a essência. mas antes a fonte inefável de todo ser e de todo pensamento. Em ambos os métodos de purificação. é o Uno. embora elas procedam uma das outras. cuja ordem é constituída por ela. por outro lado. como para os gnósticos. A alam humana também é uma parcela do próprio Deus presente em nós. as essências das coisas. para Plotino. como diz Plotino. o desejo e o esforço de uma alma que quer se encontrar e ao mesmo tempo se perder no Uno universal e inefável. de toda virtude e. superior à sensibilidade.A doutrina fundamental de Plotino é a das três hipóstases. abismou-se no múltiplo. a conversão plotiniana lembra a dialética ascendente de Platão. esse êxtase foi que impressionou Bergson ao ler as Enéadas. A. .A realidade suprema.pois. com respeito ao pensamento. O próprio Plotino escreveu uma tratado contra as seitas gnósticas. é só o procurado pelo reflexo do bem que fracamente ainda brilha nele. na medida em que ela é Beleza (nesta segunda hipóstase encontramos algo das Idéias de Platão e do pensamento que se pensa de Aristóteles). O mal. O mal não é uma substância original. é superior a tudo e fonte absoluta de tudo. toda vida e todo valor.embora elas derivem. assim ocorre com os seres emanados do Uno. não pode desejar coisa alguma . obscurecida no mal. uma luz mergulhada na bruma. o Deus de Plotino. arrancará o jovem Agostinho de suas crenças dualistas abeberadas no maniqueísmo. nem a vida. as trevas do mal. é. opinião. . e o mundo sensível. no entanto. Ao movimento de procedência corresponde o impulso de conversão pelo qual a alma. A Alma é a mediação entre a Inteligência. A perfeição suprema se difunde em si mesma. não existe um mundo do mal. Para ele. enquanto o Uno dispersou-se. mas antes encontrar a si mesmo em sua verdade. a idéia do Belo desempenha importante papel. Nesse sentido. Não esqueçamos que é a leitura de Plotino que. C. generosidade sublime. Essa Inteligência é o princípio de toda justiça. na medida em que ela é coerente e harmoniosa. a razão: conhecimento mediato. é aqui que encontramos a opacidade da carne. se assume e tenta se elevar até o Princípio original. Reservemo-nos.

A matéria plotiniana.noûs. ao mesmo tempo. que estão entre Deus e o homem. a inteligência. Por isso. material. para a valorização da religião positiva. O universo deriva de Deus.sensibilidade. dianoéticas . o noûs. por sua vez se multiplica e especifica nas várias almas individuais. que é autocontemplação do espírito pensante. que é uma fulguração divina. está sempre em ato de conhecer. é inefável e pode ser atingido na sua plenitude unicamente mediante o êxtase. do sentido. êxtase . mas por emanação inconsciente e necessária. Com a alma termina o mundo inteligível. que estão em escala decrescente do céu até os homens. inteligência subsistente. e por Plotino distintos em deuses invisíveis e visíveis. ela procede do pensamento.segundo Plotino . da Inteligência . superior à filosofia. A alma contempla as idéias . a conversão do mundo para Deus. Com esta doutrina do êxtase. a que são assimiladas as divindades das religiões tradicionais. no espírito humano. a alma do mundo. alma. radicalmente ascética: libertação.teologia negativa. como este procede do Uno.. a si e as coisas. não discursivo e sucessivo. e nunca erra. purificação da matéria. A Religião O neoplatonismo afirma certa transcendência de Deus. A primeira emanação é representada pelo noûs. O Uno. em que é afirmada uma relação específica com a Divindade. razão. intuitiva e imutável.o intelecto . que é identificação do espírito humano com o espírito absoluto.é a raiz de todo ser e de todo conhecer. precisamente pelo fato de ser. de sorte que é inteiramente indeterminado e inefável. E outro caminho parece abrir-se na doutrina dos intermediários.80 A razão é a atividade do espírito. segundo o modelo delas. irracionalidade. Efetua-se ela através do homem. No entanto. e em torno dele pode-se dizer apenas o que não é . A alma universal. Também o pensamento . microcosmo. noûs. não é apenas potencialidade. o qual é superior ao espírito. se completa e atinge a sua perfeição no êxtase.há a subida. isto é. parece abrir-se o caminho para uma nova filosofia religiosa. em que o espírito humano se torna passivo. A Moral Depois da descida .que estão no noûs . em si mesmo. pelas virtudes éticas. Deus certamente transcende o mundo.arte e filosofia .assim quatro são os graus do ser: matéria. Deus . mas também mal. A Metafísica Como os graus de conhecimento são quatro . culminando no êxtase. Deus.representa uma atividade do espírito humano participada do pensamento absoluto. não por criação consciente e livre.e enforma a matéria. também ensina a metempsicose e a conversão. compêndio do universo. o conhecimento participado.a emanação das coisas do Uno . Os graus dessa libertação são representados. A segunda emanação do Uno é a alma. que se conhece a si mesma e em si as coisas. o pensamento vem a ser intermitente e sujeito ao erro. Uno. inconsciente. Também Plotino sustenta que as almas humanas caíram de uma vida pré-mundana para o cárcere corpóreo. O pensamento absoluto. e começa o mundo sensível. mas. que procede de Deus degradando-se até à matéria. em que este é imaginado como o suprainteligível. divino. pois. É conhecimento intuitivo. nele. À razão segue-se o pensamento imediato. imediato. intelecto. transcende toda essência e todo o conhecimento. finalmente. mas o mundo é da sua mesma natureza. O conhecimento humano. Nesse grau de conhecimento o espírito compreende. o Uno. tudo depende dele. indeterminação. do corpo. Nisto consiste a moral plotiniana. que conhece enquanto vem iluminado pelo pensamento propriamente dito. em linha ascendente. O Cristianismo .

Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. sobretudo. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. se o cristianismo não se apresenta. a Tomás de Aquino. será. Características Gerais do Pensamento Cristão Foi conquistada a cidade que conquistou o universo. porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. econômica e social do Ocidente. tentando conciliar a fé e a razão. o pensamento do Novo Testamento. solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo  que sentiu profundamente. fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. Pelo que diz respeito ao teísmo. uma sabedoria. a obra da Patrística e. mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. uma demonstração racional. cristãos e germânicos. em Aristóteles. elucidação. o cristianismo implica uma determinação. filosófica e moral. ocorre a fusão de elementos culturais greco-romanos. uma doutrina. em definitivo. pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. porém. a que é devida particularmente a construção da teologia. dividida do seguinte modo: o Cristianismo. o pensamento cristão tomará na grande tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. não é a filosofia. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições. O cristianismo propaga-se por diversos povos. assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna. historicamente. o máximo valor. a Israel. as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas. o interesse central. Era a invasão de Roma pelos germanos e a queda do Império Romano. este problema sem o poder solucionar  frisamos que essa representa a grande originalidade teórica e prática. o pensamento cristão desde o II ao VIII século. e a determinação. Esta parte. por exemplo. a fome e as grandes epidemias. que será a teologia dogmática.81 As Características Filosóficas do Cristianismo Não há propriamente uma história da filosofia cristã. . como uma filosofia. sobretudo. pois no pensamento cristão. a saber. A filosofia clássica sobrevive. Sob a influência da Igreja. pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida. mediante uma disciplina específica. de sorte que. a "Idade das Trevas". enfim. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz. e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim. fundam-se as primeiras universidades. como se acreditava. criadora da filosofia cristã verdadeira e própria. Depois vieram as guerras. No Ocidente. Isto se realizará graças especialmente à Escolástica e. A avalancha dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo. o pensamento cristão desde o século IX até o século XV. O período medieval não foi. portanto. do cristianismo. a justificação da Revelação em geral. têm uma importância indireta com respeito à filosofia. no tocante à solução do problema do mal. enquanto soluciona o problema filosófico do mal. além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral. isto é. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino. como. É o teísmo e o cristianismo. E é nesse esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. mas como uma religião. dramaticamente. dilucidação. Mas entre os hebreus o teísmo não tem uma justificação. sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação. a Escolástica. da dogmática católica. e sim a religião. dedicada à história do pensamento cristão. A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política. sistematização racional do conteúdo da mesma. salientamos que o cristianismo o deve. de fato. a Patrística. agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. de Agostinho. Finalmente. confinada nos mosteiros religiosos. especialmente. O cristianismo fornece ainda uma  imprescindível  integração à filosofia. a saber. Entretanto. E. Foi esta.

Segundo essa orientação. Apoiada em sua crescente influência religiosa. porém. apenas. por exemplo. conciliador das elites dominantes. Entre os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho e Tomás de Aquino. segundo a tradição dos homens. a Igreja católica conseguiu manter-se como instituição social mais organizada. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações". política e econômica. a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. respectivamente. Em que consistia essa fé? Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens.. De acordo com a doutrina católica. em termos de fé). Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o cristianismo entre os povos bárbaros. Conciliado com a fé cristã. Assim. o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros. tento quanto possível. Assim. Do confronto desses povos invasores com a civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação européia de vida social. de modo algum. que corresponde ao período medieval. Conquistou. a Igreja exerceu amplo domínio. numa época em que a terra era a principal base de riqueza. pela razão. Neste sentido. pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. "Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações da "filosofia". Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber No plano cultural. é do Espírito Santo. Patrística "A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica" . Em meio ao esfacelamento do Império Romano. a dúvida. os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade. aproximadamente): Toda verdade. trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana. e não segundo Cristo. Eles foram os responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles.C. também. sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado. Por outro lado.82 A Filosofia Medieval e o Cristianismo Ao longo do século V d. somente acessíveis à fé. afirmava Santo Ambrósio (340-397. toda investigação filosófica ou científica não poderia. a função de órgão supranacional. decorrente. pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões européias. a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas  especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega. das invasões germânicas. O objetivo era convencer os descrentes. Restava-lhes. contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental. segundo os elementos do mundo. contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos. preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana. o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. em grande parte. demonstrar racionalmente as verdades da fé. na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. Não foram poucos. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. dita por quem quer que seja. o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja. aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé. Desempenhou." (São Paulo).

Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o Padre Agostinho. retórica e dialética (o trivium) e geometria. o período escolástico pode ser dividido em três fases: Primeira fase  (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. a palavra rosa continua existindo. e à tradução para o latim de algumas delas. diretamente do grego. Nesse caso. Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja. de uma idéia geral. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente. A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se. Quando a flor morre. no entanto. formando parte dos mesmos". Esse problema filosófico gerou muitas disputas. Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas? Rosa. a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. aritmética. merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino. no caso de subsistirem. tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. idéias gerais. segundo o historiador francês Jacques Le Goff. isto é. Todas elas estavam. Segunda fase  (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã. em sua obra Isagoge: "Não tentarei "Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus". passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. guardada nos mosteiros até então.83 Desde que surgiu o cristianismo. a palavra fala de uma coisa inexistente. voltou a ser divulgada. mediante um trabalho de conquista espiritual. enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência. tentou munir a fé de argumentos racionais. marcando-o definitivamente. submetidas à teologia. A cultura greco-romana. Era a renascença carolíngia. A partir do século XIII. Terceira fase  (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica. astronomia e música (o quadrivium). nem. "Compreender para crer. o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico. Nesse sentido. se são corpóreos ou incorpóreos. Uma das principais correntes da filosofia patrística. privilegiava o estudo da linguagem (o trivium) para depois passar para o exame das coisas (o quadrivium). Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi o inspirador neoplatônico Porfírio. os chamados universais de Aristóteles. começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática. inspirada na filosofia greco-romana. Nesta fase. Era a grande discussão sobre a existência ou não das . por exemplo. crer para compreender". descobertas até então. Tendo a educação romana como modelo. A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas O método escolástico de investigação. A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosóficoteológica denominada escolástica (de escola). é o nome de uma flor. no entanto. (Santo Agostinho) Escolástica No século VIII. Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos. caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão. como problema básico de especulação filosófica.

ou. evidentemente. por certo. o pensamento grego e. uma vez admitido e firmado o teísmo. E. É o teísmo um privilégio único deste povo pequeno. as riquezas da natureza e a prosperidade dos negócios. E quanto ao direito romano. em segundo lugar. também. filosófico e histórico.ascética . e não como constitutivo de seus elementos essenciais e característicos. Quanto ao pensamento grego. pode dar origem. que ficaria.84 Os Precedentes do Cristianismo Os fatores históricos do cristianismo são: em primeiro lugar.Novo Testamento. portanto. que o chamavam ao temor de Deus e à penitência. Perseguiu os Profetas. e como justificador dos pressupostos metafísicos do cristianismo. Não é este o momento de fazer um exame crítico. mas apriorísticos. porquanto este é hebraico e cristão. o poder e a glória . o Verbo de Deus encarnado e redentor pela cruz. A solução integral do problema do mal viria unicamente do mistério da redenção pela cruz . De Israel o cristianismo toma o teísmo. portanto. foi submetido à sujeição e à renúncia. dependem de uma filosofia racionalista e atéia em geral. básico. também a parte que diz respeito à queda original e à relativa reparação. racionalmente premente e racionalmente insolúvel. um reparador. idéia peculiar ao cristianismo e desconhecida pelo mundo antigo.até esquecer-se de Deus. Devem ser examinados à luz da crítica histórica.necessário complemento do mistério do pecado original. através de dolorosas experiências. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador do novo organismo social. E achamo-nos diante de uma personalidade extraordinária . Diferentemente.. a religião israelita. o conceito de uma queda original do homem no começo da sua história. são. ainda que contra a sua vontade. que são próprios e originais do cristianismo. a solução . que é desenvolvimento providencial da humanidade.solução que representa o maior valor filosófico no cristianismo . obscuro e desprezado. a várias interpretações. religiosamente. Conceitos indispensáveis para explicar o problema do mal. e recalcitrou contra os flagelos com que Jeová o castigava. os outros povos e civilizações. a pessoa de Cristo tornar-se-ia inteiramente ininteligível. para determinar a personalidade de Cristo. Os argumentos em contrário não são positivos.os milagres e as profecias . o estado autônomo e privilegiado. não. politeístas. E como Jesus Cristo se torna garantia de toda uma tradição que o precedeu . deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador das verdades reveladas. que ensina uma grande doutrina. . essencial e característico. ainda que poderosos e ilustres. Pode ele dar plena solução ao problema do mal .a Igreja católica. Eis o esquema lógico da demonstração da divindade de Jesus Cristo.. históricos.cristã do problema do mal seria vã. De Israel toma o cristianismo. No entanto. Na revelação cristã é filosoficamente fundamental. como elemento constitutivo. logo se segue a possibilidade de uma revelação divina e da divindade de Cristo. o conceito de uma revelação e assistência especial de Deus. A esta. e. quer dizer. sem solução alguma.unicamente se é Homem-Deus. como a estóica e todas as demais soluções filosóficas de tal problema. leva uma vida santa. relativos à revelação cristã . em sua novidade e originalidade. tendo adquirido. propriamente.o Velho Testamento . por conseqüência.Jesus Cristo . Jesus Cristo Entretanto. também se responsabiliza por uma instituição que a ele se segue . enfim. Daí a idéia de uma história.esta sua divindade. filosóficos. caberá interpretar infalivelmente a revelação judaico-cristã e. um redentor. especialmente pelo mundo grego. senão de provas históricas. humanamente. o mundano e carnal Israel resistiu tenaz e longamente a esta idéia de uma radical miséria humana -. o verdadeiro criador do cristianismo. porém. Basta lembrar que. no máximo dualistas ou panteístas. o direito romano. para tanto não precisando. as satisfações conjugais e domésticas. à idéia de uma moral ascética. em geral. o triste sentido da vaidade do mundo. até que Israel. a Igreja. humanista e imanentista em especial. é Jesus Cristo. os documentos fundamentais. afirma-se a si mesma como divina e comprova explicitamente com prodígios e sinais . a qual. antes de tudo. Idolatrou a vida longa e próspera. se ele não fosse Homem-Deus. e também o conceito de um Messias.

que o chamava o caro médico. Cristo não deixou nada escrito. testemunha da sua vida e da sua morte. e. O quarto Evangelho. a necessária limitação de todo ser criado: porquanto esta limitação nada tira à perfeição dos vários seres a eles devida . Cristo é o Verbo de Deus encarnado para a redenção do gênero humano. os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. O segundo é o Evangelho de Marcos. um dos doze apóstolos: João. A Solução do Problema do Mal Não há dúvida de que o problema do mal foi o escolho contra o qual debalde se bateu a grande filosofia grega. de caráter mais especulativo e teológico. tanto assim que podiam desagradar a um helenista refinado como Porfírio. Cronologicamente. fôra um inteligente e zeloso israelita. mediante a graça de Cristo. No Velho Testamento Deus tinha dado aos homens a lei que. Como Paulo pode ser considerado o teólogo da Redenção. tocando os centros mais importantes do mundo antigo: Jerusalém. transmitido. são fundamentais e mais do que suficientes para o nosso fim. que eles procuravam em suas religiões misteriosóficas . João pode ser considerado o teólogo da Encarnação. inversamente . em aramaico e destinado ao ambiente palestino. estas são extracanônicas e canônicas. Os Evangelhos de Mateus. teológico. que Paulo sentia tão profundamente. foi em seguida traduzido para o grego e. preocupa Paulo é o do mal. Também o Evangelho de João foi escrito em grego. realizadas para finalidades apostólicas.escritas em grego devemos dizer que não são cartas logicamente orgânicas e ordenadas. o de Lucas. que não foi discípulo direto de Cristo. além das testemunhas cristãs. é o último dos Evangelhos e dos escritos do Novo Testamento. cronologicamente. como qualquer outra filosofia. A vida de Paulo é caracterizada por muitas e longas viagens. nesta língua. o predileto do Mestre. de forma incisiva e eficaz. os quais . porém. relacionados com ele. mas. Destarte ele se pôs em contato com todas as formas de civilização do Oriente helenista e do mundo greco-romano. por excelência. que os torna comuns e os distingue do quarto evangelho. do sofrimento. que tem o poder de tornar teoricamente inexplicável a realidade. tornou-se o maior apóstolo do cristianismo entre os gentios ou pagãos. juntamente com este valor histórico. companheiro de Paulo. densas de conteúdo. enfim. Para o mesmo fim escreveu Paulo as famosas cartas às comunidades cristãs dos vários centros da Antigüidade. o mal assim chamado metafísico.como o primeiro . pois. por certo. até o agradava. o teólogo da Redenção. devido à miséria do homem decaído. O primeiro em ordem de tempo é o Evangelho de Mateus. precisamente este mal. Atenas e Roma. vítima e Salvador. Não conheceu Jesus Cristo durante sua vida terrena.85 O Novo Testamento Como é notório. sobretudo. As grandes viagens apostólicas de Paulo são três e têm como ponto de irradiação Antioquia. Escrito. Nesta cidade encerra a sua vida mortal com o martírio. revelando-lhes em Cristo crucificado o Deus padecente. de sorte que o nosso conhecimento mais imediato em torno da sua personalidade se realiza através dos escritos dos seus discípulos. não tirava o pecado.e não acharam. convertido ao cristianismo e mudado o nome de Saulo para o de Paulo. e o seu evangelho foi também escrito em grego. No Novo Testamento. Temos de Cristo testemunhas também pagãs. É o mais amplos dos Evangelhos e relata amplamente os ensinamentos de Cristo. visto ser o mal um problema racionalmente insolúvel. do pecado. por certa característica histórica e didática. tira o pecado do mundo. O terceiro dos Evangelhos sinópticos é. Também ele não foi discípulo imediato de Cristo. o de João. crucificado e ressuscitado.chamados evangelhos sinópticos . tornando em seguida um dos doze apóstolos. são porém. e praticamente dolorosa a vida? Não é. Paulo de Tarso. na Cilícia.formam um grupo à parte.foi escrito por um discípulo direto de Cristo. mas nos transmitiu o ensinamento de Pedro. embora nos deixando na luta e no sofrimento. Deus. tem um especial valor especulativo. a saber.no seu conjunto . de que acha a solução em Cristo redentor. Marcos e Lucas . É este o aspecto do cristianismo que mais o impressionou. O quarto evangelho. nem literariamente aprimoradas. Que coisa é. o publicano. originariamente.podem se considerar compostos na Segunda metade do primeiro século. tomada com certa amplidão. são elas as seguintes: Paulo de Tarso. embora fosse uma lei moral. tornando o homem consciente de sua falta. Estas últimas. Foi escrito em grego e destinado a um público não palestino. de sorte que é ele. Quanto às Epístolas . pelo contrário. O problema que.

com uma natureza extraordinariamente dotada . não por direito. de que agora é privado.do qual o conhecimento deve no entanto partir . remetemos ao fato da Revelação em que é contida. metafísica. por ele criado? Deve-se entender. da racionalidade. isto é. como que por nova criação. como tal. se evidenciam como um estado inatural com respeito ao nosso ser espiritual e racional. chegam ao conhecimento daquelas verdades racionais . pois esse gênero de mal. Quanto à possibilidade de uma queda do espírito. deve reconhecer os próprios limites. o problema da vida. precisamente por causa do mal. etc. é plenamente explicável. O Pecado Original Se a filosofia é impotente para resolver plenamente o seu próprio problema. no teísmo. todavia. Da Escritura e da Tradição. a alma. o mal físico e moral.86 por natureza. Isto significa exigir que os sentidos sejam instrumentos do intelecto e o instinto seja instrumento da vontade. que pertence unicamente a Deus. do material ao espiritual. chegada ao seu vértice. Com efeito. Quanto à realidade de uma queda original do homem. e afirma esta verdade . precisamente pelo fato de ser ele um ser criado. indispensáveis para uma solução humana do problema da vida. Temos. mas apenas aquela plenitude do ser. sem preconceitos. desta maneira. porquanto não consegue resolver plenamente o seu problema. o chamado físico e moral. se se considerar. teisticamente concebido como transcendente e criador. que domina o mundo humano. e especialmente uma religião entre as religiões. o que não significa certamente lhe pertença a racionalidade pura.que são. naturalmente. rigorosamente. E bem poucos homens e só com muitas dificuldades e não sem graves erros. isto é. a natureza humana. contra as exigências da própria natureza racional.sobrepuja o intelecto. por sua natureza. a saber. garantidas pela interpretação da Igreja e sistematizadas pela teologia. Não resta. do pecado.da vida de Deus. espiritual. o indivíduo e a humanidade.em sua atual intensidade. porquanto é limitação da natureza. a qual é a natureza do animal racional. outro meio a que pode o espírito humano razoavelmente recorrer para a solução de um problema tão premente? Apresenta-se a religião. com um conveniente conjunto de dons preternaturais. o homem teria participado .bem como a ignorância e a concupiscência . mas por graça. A filosofia conhece a essência metafísica dessa natureza humana.Deus. uma natureza. entretanto. E evidencia-se também que . naquele característico processo que é o conhecimento e a operação humana. Ora. Não pode. então. Pelo que diz respeito ao mal físico. quanto à possibilidade do mal moral. . É antiga e famosa a objeção: de que modo concordar a absoluta sabedoria e poder de Deus com todo o mal que há no mundo. mais freqüentemente ainda. devida ao puro espírito. de potência. evidencia-se. verdadeira imperfeição de um determinado ser. há. a coisa é ainda mais patente: basta lembrar o sofrimento e a morte.devido a uma culpa . proporciona-lhe o modo de desviar-se efetivamente do ser. O mal. Noutras palavras. precisamente se se considerar a natureza específica do homem. porventura. teria gozado de uma espécie de deificação. pois. enveredando pelo não-ser. que nos parece desordenada. Com isto. fundamentalmente. mas certamente exige a subordinação do sensível ao inteligível. à ordem sobrenatural. deve reconhecer-lhe também a desordem. não se quer dizer que a impassibilidade e a imortalidade sejam uma exigência da natureza humana. como deveria ser em uma hierarquia racional dos valores. mas. renunciar absolutamente à solução deste problema. isto é. E. senão o mal. mas teria sido outrossim elevado. basta lembrar que o ser criado pode. a psicologia e a história. é um problema. e a maioria dos homens viveu e vive cegamente. a qual nos fala de uma queda do homem no começo de sua história. e este propriamente em relação ao homem. como o homem primigênio não só teria possuído aquela harmonia natural. comprometeria também a sua maior conquista: Deus. físico e moral. exige que o corpo humano e a natureza em geral sejam submetidos às imposições do espírito. mas unicamente se quer frisar que a dor e a morte . Este é o mal moral. mesmo quando a verdade é conhecida pelo intelecto. desviar-se da ordem: porquanto há nele algo de não-ser. demais vezes o sentido . em geral. E o livre arbítrio proporciona-lhe o modo de realizar essa possibilidade. as coisas serão bem diferentes. já que. o instinto assenhoreia-se da vontade.bem como todo o sistema dos seus dogmas como divinamente revelada. A filosofia é certamente construtiva. mas ignora-lhe a causa. naturalmente. deve tornar-se crítica. pela irracionalidade.

enquanto não quiserem servir-se das misérias provindas do pecado original como estímulo para a Redenção. portanto. nem a perda dos dons praternaturais. A razão humana constata. por exemplo. e que deve. pela natureza humana. a relação entre Deus e o mundo deve ser concebida segundo o conceito de criação. para que seja verdadeiramente a explicação do mundo. suas conseqüências naturais também. O Cristianismo . porém. Entretanto. e. ingressando na Igreja. o Verbo de Deus. até à vulneração da própria natureza . a privação da mesma. devido à dignidade do operante. essencial desde o nosso nascimento. o que eqüivale dizer. uma debilitação espiritual e física na natureza humana. pela lei da hereditariedade. mediante uma divina dialética. Para a Redenção. não pode certamente ser imanente. Basta. E. Com efeito. logo. do qual. no conceito de criação. devia descender toda a humanidade . concernente à elevação sobrenatural. frustar o plano divino da criação? Ou o próprio mal soube Deus tirar. pois. Deus. que temos considerado insolúvel pela filosofia. provinda do pecado. aqui não interessa. . ser herdada. Segundo este dogma. seria culpado em seus descendentes. deve reconhecer praticamente esta sua dependência absoluta. O pecado original. também morais: deficiências que não dependem dos indivíduos. bem como a nenhuma natureza criada. o dogma da redenção operada por Cristo.Conseqüente Praxe Ascética Ascetismo e Teísmo Das precedentes considerações segue-se que o cristianismo importa sempre e essencialmente numa praxe ascética com respeito ao mundo.voluntário e culpado em Adão. o bem e até um bem maior? É o que explica um segundo dogma da revelação cristã. que sentido tem o mal no mundo? Conseguiu o homem. por conseqüência. mas por causa da desordem introduzida na ordem da natureza pelo pecado original. por mais supereminente e central que seja no cristianismo. a Segunda pessoa da Trindade divina. ele se sacrifica até à morte de cruz. O aspecto da condição primitiva do homem. nem pode deixar de constatar. e.87 de orgulho contra Deus. a raiz metafísica desta praxe ascética acha-se no próprio teísmo. precisamente. de que temos imediatamente experiência. teria sido suficiente o mínimo ato expiatório de Cristo. não se pode explicar por si mesmo. Fez isto para dar toda a glória possível à infinita majestade de Deus no reino do mal e da dor proveniente do pecado. por conseguinte. Sendo. Ao contrário. A Redenção pela Cruz Mas. para que o problema do mundo tenha verdadeiramente solução. isto é. lembrar como. na privação do único fim humano efetivo. entende-se como o verbo de Deus assuma em Cristo a natureza humana. E Deus. a glória de Deus o fim último de toda atividade divina. que unicamente Deus podia dar. assume natureza humana. Em verdade. Há. é preciso chegar até Deus. tendo todo ato seu um valor infinito. pois . por conseguinte. exige absolutamente uma explicação. sendo criatura e portanto dependendo totalmente de Deus. mediante o pecado. e não pelo fato de o sobrenatural oprimir a natureza. a elevação à ordem sobrenatural sendo. não podia causar vulneração em a natureza humana. este seu nada ser por si. tomando-se esta palavra "ascética" não no sentido rigoroso de renúncia aos bens criados. é. mas no sentido de que o homem. visto que eles a sofrem.que importa na privação da ordem sobrenatural. isto é. logo. não podia suscitar o problema do mal. quer dizer. Visto a ofensa feita a Deus pelo pecado ser infinita com respeito ao Infinito ofendido. juntamente com os dons conexos. o homem que devia pagar. uma enfermidade. gratuita. retamente definido como uma produção das coisas do nada por parte de Deus. cometida pelo primeiro homem. que o mundo. mas deve ser transcendente e criador. não devida à natureza humana. até ao sofrimento e à concupiscência. precisamente para reparar o pecado original e. por definição. isto é.teria o homem perdido aquela harmonia e a dignidade sobrenatural. praticando o Cristianismo. Deus precisava de uma reparação infinita. se podem transmitir deficiências materiais e.

menosprezando a prudência e a fortaleza humanas. do operar positivo. como diz Agostinho. porque nada de quanto é real pode escapar à absoluta causalidade de Deus. Se se admitisse para a obra de Deus uma finalidade diversa. e um outro o traiu de morte. seria também preciso admitir em Deus uma indigência. mas o cria livremente e para a sua glória. com todas as conseqüências acima mencionadas. querendo criar o mundo. sendo Deus a atualidade. da criatura racional deva ser. Unicamente deste modo o homem era redimido. Então. quis Deus que fosse juntamente realizada a sua maior glória e o maior bem do homem. é excluído que o mundo seja. mas não lhe foi feita justiça pela majestade do direito. por isso. de qualquer modo. esta praxe ascética será loucura e escândalo. a procura em Deus. A vida . sendo negação. A este segundo princípio é conexa a absoluta liberdade da criação. tal definição exclui que Deus organize uma pressuposta matéria qualquer. o modelo e o ideal da vida cristã. se ela fosse necessária. Antes. Contrariamente a quanto pensava o dualismo grego. pois. através do sacrifício mais completo por parte de Cristo. fundamental. Não Deus. isto é. portanto. Esta  tão significativa  praxe ascética tem a sua primeira e perfeita realização em Cristo. foi abandonado pelos próprios e mais chegados discípulos. e não de humildade e sofrimento. de modo nenhum. Cristo não apenas realizou na sua pessoa o sacrifício redentor. pode ou não pode criar. Deus. foi condenado pelo povo que ele viera remir. assim. como a atitude prática. assistido por algumas pobres mulheres. não em si. Aqui falamos. envereda pelo caminho da cruz. Deus. mas já é a única via de salvação e de santificação. unicamente através da justiça se manifestava a misericórdia de Deus. neste caso. Esta expiação divina. Deus cria toda a realidade. Tornando-se ele. entre infinitos mundos possíveis. privação. propondo-se como modelo de todos os cristãos: Eu sou o caminho. E. então. Deus. Compreende-se. exigindo ao mesmo tempo que a sua justiça fosse dignamente satisfeita mediante uma expiação infinita por parte do Verbo humanado. porquanto o mal. haveria a contradição de que Deus seria da mesma natureza do mundo. do bem. que não tem em si a sua explicação e. mas também apontou aos homens este caminho como sendo o caminho único para a salvação e a perfeição. Daí nada se poder levantar contra ele e proclamar a sua autonomia. que repugna à natureza. porém. um dos quais  o que devia ser seu vigário  até o renegou. com respeito à qual Deus seria passivo e. mas deficiente. para o mundo. não mais Deus. formado pela mesma natureza de Deus. como o orgulho será o pecado essencial do estulto. Os Gentios julgavam naturalmente loucura a renúncia cristã. por conseqüência. Cristo. Os próprios israelitas sonhavam o Redentor cercado de grandeza e poder. Contrariamente ao que pensa o panteísmo. Além disso. pode criar este ou um outro mundo. mas enquanto querida por Deus. Ascetismo e Cristianismo Deus quis remir o homem. não dispensava. a verdade e a vida. Com efeito. não tem causa eficiente. e não o tira de sua substância. Cristo  realizando a sua obra  foi julgado justo. pode única e absolutamente criá-lo para a sua glória  embora esta já seja interiormente infinita. bem como por parte do homem. a perfeição plena. não mais ato-puro. unicamente desta maneira se realizava a glória de Deus e a redenção do homem em toda a sua plenitude. deste modo. extrínseca. dada sempre a desordem das coisas. portanto. evidentemente. Mas. ter-se-ia uma contradição semelhante à precedente. de modo que nenhum ser criado pode. mas também na ordem de operar. em conseqüência do conceito de criação. criando. uma atitude de reconhecimento do próprio nada. mas o homem é o autor do mal. nas relações práticas com Deus  que constituem o objeto da religião em geral  e também nas relações com a remanente realidade. ao contrário.88 Ora. exigir de participar da natureza divina e enaltecer como tal a sua natureza. a humildade será a virtude essencial do sábio. cria o mundo do nada. e confirmou a doutrina com o exemplo. Humanamente e também racionalmente falando. não só na ordem do ser. precisamente através dos sofrimentos provenientes da desordem decorrida do pecado. mas apenas tornava possível a expiação por parte do homem. proveniente do pecado. não mais explicação do mundo. de modo que Deus. redentor pela cruz. E morreu abandonado sobre a cruz. dispõe uma realidade essencialmente distinta de si. E o homem faz parte dessa criação. a saber: Deus teria necessidade do mundo que ele deve explicar. logo.

Este ensinamento. mas os pobres. e a Revelação disto dá explicação e justificação  não somente a justiça não consegue abolir a pobreza. que procuremos a sua imagem. mas no homem sofredor. em lugar do clássico conceito de justiça. E esta a chamada via dos conselhos evangélicos. que o mundo inveja. como condição necessária para a salvação  se alguém quer vir após mim. portanto. Garante. a própria caridade cristã. é uma pena. então. A caridade cristã favoreceu ainda obras numerosas e fecundas para os infelizes. já que não se apresenta mais como inesperado e trágico. conforme a sabedoria cristã. Provê igualmente esta moral ascética o bem dos outros. E. os mesquinhos. a obediência. pois. . tome a sua cruz e siga-me. tal egoísmo está em franco contraste com o conceito de caridade. à plenitude da vida cristã. E realiza-se na clássica praxe cristã dos votos religiosos. a convivência social. o que à orgulhosa razão humana parece estultícia. segundo os graus de perfeição cristã e as concretas diferenças individuais. os gozadores. acharemos alimento ascético. como claramente o prova a dura experiência. não é possível nas atuais condições de egoísmo e malvadez humana. ao contrário. se acha em toda a sua vida e.cristã será. apesar das aparências contrárias. a caridade. Entretanto. aos que aspiram à santidade. a consecução da felicidade na vida eterna. mas assim não é. racional.  por causa da renúncia ao mundo devastado pelo mal  isolar fatalmente os homens dos seus semelhantes? E este isolamento não é ainda mais acentuado. E isto acontece não apenas na sociedade civil. em especial. Aí são invertidos os valores terrenos. à liberdade. mas especialmente no sermão da montanha. na sua morte  em abstrato se acha em toda a sua doutrina. Na vida temporal esta moral ascética apresenta-se também como a mais sábia. mas faz-se mister a ascética cristã para vencer este egoísmo mediante a paciência. valorizando a dor. a humildade. porquanto formada de homens. os sofredores. Com efeito  prescindindo do fato de que o trabalho. com o qual e para o qual sofremos e. barbárie que se repete. Em segundo lugar. Deste modo Cristo dirá que o busquemos  isto é. à família. para gozarmos a vida em sua companhia. porquanto torna conformada e voluntária a aceitação do sofrimento. e exaltados não os ricos. e de uma felicidade que transcende toda aspiração e capacidade humana. como renúncia à própria vontade. a violência. Tal ensinamento ascético de Cristo  que. O fato de a autoridade ser necessária à existência da sociedade. que se pode considerar o compêndio do espírito do Cristianismo. Menos ainda conseguem isto a filantropia e os demais equivalentes humanistas. os poderosos. por exemplo. mas nem sequer a caridade. 89 Ascetismo e Caridade Esta moral ascética cristã é racionalmente fundada sobre o teísmo e a Revelação. a sua imitação  não no homem feliz. no egoísmo de toda civilização puramente humana. em contraposição com a vida comum dos preceitos. os doentes. destarte. renuncia-se a si mesmo. E também não se pode resolver naturalmente o problema árduo da sujeição à autoridade. os pobres. embora variável nas aplicações concretas. à perfeita imitação dele. o sermão das bem-aventuranças. mais ou menos desprezados e negligenciados na civilização antiga. em concreto. A caridade cristã purificou a civilização antiga da barbárie da exposição das crianças. da escravidão. ou não parece. especialmente o orgulho. a imitação de Cristo crucificado  diversamente embora. impõe Cristo a renúncia total aos grandes bens do mundo: renúncia à riqueza. a fraude. ascético. Resolve isto verdadeiramente só a ascética cristã. em seus termos atuais. e nem sequer quem entende de gozar livremente dos bens da terra. Antes de tudo. bem como em toda civilização mundana em geral. exaltando o sofrimento: bem-aventurados os pobres. os velhos. mas também na religiosa. moral. que preocupam tão profundamente a sociedade humana. Tal renúncia não é imoral. ao homem. não é argumento suficiente para que todos obedeçam à autoridade. a castidade. a questão econômica e o problema da autoridade. não fica senão a obediência no sentido cristão. dominante na moral cristã. A questão econômica não se pode resolver naturalmente. pois não fica certamente dispensado da dor quem neste mundo entende de viver apenas moralmente e não heroicamente. quando a perfeição se eleva dos preceitos aos conselhos? Poderia assim parecer. e isto é evidente se se examinam as paixões humanas. sempre idêntica e imutável na substância. mais ou menos intensamente. Considere-se. para abraçar a pobreza. das lutas dos gladiadores. consegue tirar a humilhação do receber. Cristo dirige a todos os seus seguidores. freqüentemente mais fortes em quem domina. no entanto necessária para que a sociedade possa sustentar-se.

cada qual realizando este ascetismo cristão com diversa intensidade. mas o contrário. universal. de modos muito diferentes. de modo nenhum. ao passo que os primeiros e os últimos têm uma importância religiosa. De fato. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística. renunciando a si mesmo e dando-se em holocausto a Deus. os lugares. Finalmente. precisamente porque é característica das Ordens Religiosas a via dos conselhos. E os santos mais facilmente florescem nas Ordens Religiosas. E é também contemporâneo do império romano. a prescindir dos demais. Interessam-nos particularmente os segundos. dogmática. visto ser o maior dos Padres. que é o caminho mais perfeito do que o dos preceitos. Chamam-se apostólicos os escritos não canônicos. Não considera. interessa assaz menos à história. até solícito dos mais miseráveis. em que terá importância fundamental a Escolástica. filosoficamente. A ética cristã da renúncia perfeita ao mundo é a mais proveitosa para a sociedade  familiar. logo após a sistematização. transpor os confins da ética. Seus . que nos legaram as duas primeiras gerações cristãs. A Patrística é contemporânea do último período do pensamento grego. o período religioso. no heroísmo. E é mediante e através desta renúncia ascética. unicamente quem é indiferente às qualidades alheias. é disposto. e provar do outro lado o valor da religião cristã para lhe granjear discípulos. representa a decadência da Patrística. conforme os tempos. não encontra limites no altruísmo. mas conforme à transcendente vontade de Deus. nem pode objetivamente. recebem o apelido de padres apostólicos. mas uma oportunidade de engrandecimento mediante o sacrifício. todavia. Agostinho. A Patrística Pré-agostiniana Características Gerais Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária. ou foram discípulos imediatos deles. motivos de altruísmo. a humanidade como fim último. no âmbito do próprio cristianismo. Dada a culminante grandeza de Agostinho. que são os construtores da teologia católica. o hebraísmo e as heresias. que merece um desenvolvimento à parte. sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. com o qual também polemiza. os séculos II-VIII da era vulgar. porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja. Os padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados padres apostólicos. e que terminará por se cristianizar depois de Constantino. mas o ofício. e o remiu com a Paixão do seu Verbo encarnado.90 porque tem como objeto não a pessoa. Portanto. até desejoso. como divina. cheio de boa vontade para sacrificar-se inteiramente para com todos. mesmo razoáveis. com o qual tem fecundo contato. a renúncia ascética não é estéril egoísmo. Este será o caminho percorrido  embora de modos diferentes  pelos santos. e chega até ao começo da Escolástica: isto é. entretanto dele diferenciado-se profundamente. Costuma-se designar como o nome de apologistas os escritores cristãos dos fins do segundo século. a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho. se a Patrística interessa sumamente à história do dogma. ou os conheceram diretamente. imensamente capaz. desde o fim do primeiro século até a metade do segundo. da renúncia ao mundo. os apologistas e os controversistas. Precisamente pelo fato de que o homem. nacional. que procuram de um lado demonstrar a inocência dos cristãos para obter em favor deles a tolerância das autoridades públicas. quando conhecidos. guias. período em que. Seus autores. pela defesa racional do cristianismo contra o paganismo. que os santos se tornam os grandes benfeitores da humanidade. O II Século: Os Apologistas e os Controvertistas A Patrística do II século é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo contra o paganismo. que criou o homem à sua imagem. interessam especialmente os chamados apologistas e os padres alexandrinos. mestres da doutrina cristã. os temperamentos pessoais e as necessidades sociais. porquanto floresceram no templo dos Apóstolos. depois de Agostinho vem o período que. os super-homens do cristianismo: o caminho dos conselhos evangélicos.

encarnado pessoalmente em Cristo. foi. espécie de faculdade teológica. entretanto.em busca da verdade para a solução do problema da vida. para levarem. É.em oposição ao gênio grego. ao Egito. em tempo oportuno. último estádio da sua peregrinação filosófica. por em focos os pontos de contato existentes entre o cristianismo e a razão. E julga achá-la. O maior dos apologistas é certamente São Justino. entrou no cristianismo.nasceu no ano 150. Se bem que entres os padres africano-latinos apareçam vulto notáveis. Clemente foi chamado para dirigir a famosa escola catequética. abandonando o platonismo. Falecido este no ano 200.especialmente Platão . Daí a distinção que então se afirmou entre os simples fiéis e os gnósticos . Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém na Palestina em princípios do segundo século. apologias propriamente ditas. entre o cristianismo e a filosofia. gradualmente. Converteu-se ao cristianismo talvez levado por exigências filosóficas. enaltecedora e potenciadora dos valores intelectuais.ainda que não apresentem uma unidade sistemática. E são dirigidas às vezes contra os pagãos. . pitagórica . dos quais teremos. desejoso de um conhecimento mais profundo do cristianismo. Ufana-se ele de ser filósofo e cristão. obras de controvérsia.Tito Flávio Clemente . que representarão a sua essência doutrinal.bem como os padres latinos em geral . pragmatista. especulativos. mais cultos do que os padres apostólicos. como por exemplo Tertuliano. cabendo-lhe a glória de ter o grande Orígines entre seus discípulos.não apresentam interesse particular para a história da filosofia. mas África ocidental. por conseguinte.e um Diálogo com o judeu Trifão . pertencentes não à África oriental. O cristianismo. mesmo do ponto de vista católico. Retirou-se . Depois de ter visitado a Magna Grécia. por vezes.por exemplo. a Síria e a Palestina.contra os pagãos . está em condições de desenvolver do seu seio um pensamento. sobretudo. latina. empreendeu uma série de viagens em busca de mestres cristãos. sem mudar a sua fisionomia original. portanto. a conciliação entre paganismo e cristianismo. do espírito prático. são. que mandou fechar a escola. uma filosofia. de família pagã. que vivem na tradição cultural helenista. para Alexandria do Egito. Depois de Ter peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas – peripatética. mas difundidos mais ou menos em todos os filósofos antigos. Os apologistas. Este gnosticismo cristão se afirmou especialmente em Alexandria do Egito.dependem de Moisés e dos profetas. fundidos numa característica síntese filosófico-religiosa em oposição ao cristianismo. os padres africanos . é mister lembrar que o escopo por eles visado era. depois da doutrina famosa dos germes do Verbo. leigo embora. foram luminares Clemente e Orígenes. uma teologia. estóica. Justino procura a unidade. até à conversão os pagãos.91 escritos. Suas obras são duas Apologias . Os Padres deste período polemizam filosoficamente com os pensadores pagãos. metafísicos. O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos O terceiro século apresenta um interesse particular pelo que diz respeito ao pensamento cristão. provavelmente em Atenas. e morreu mártir no ano 170. Para bem compreendê-lo. aliás. entre filosofia e revelação.que produziu os estóicos e os cínicos romanos . primeiro. e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia. continuam filósofos também depois da conversão. moralista latino . hostilizado pelos padres chamados africanos. São Justino Mártir . Tentouse um renovamento do paganismo com bases no panteísmo neoplatônico e nos cultos orientais. naquela celebrizada escola catequética. na crença de que os filósofos clássicos .contra os hebreus. freqüentemente são filósofos . que se ressentem. E apresentavam o cristianismo como uma sabedoria. graças a Orígenes. abriu em Roma uma escola para o ensino da doutrina cristã.sábios . outras vezes contra os hebreus. onde encontrou a paz. teses. Naquele famoso didascaléion. pelo ano 180. o grande centro cultural da época. às vezes. Justino dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. o primeiro sistema orgânico de teologia cristã. onde o seu espírito achou finalmente paz junto do eminente mestre Panteno. jurídico. como a sabedoria mais perfeita. Escreveu suas obras nos meados do segundo século. que já ia afirmando mesmo culturalmente. teoréticos. Clemente Alexandrino .cristãos. Imitando os filósofos. Devido às perseguições anticristãs do imperador Setímio Severo. por vezes. Clemente teve de suspender o seu ensino alguns anos depois. levados a estimarem seus adversários. O cristianismo filosófico é próprio e característico dos padres alexandrinos.

o ataca em todos os pontos. devido também a algumas opiniões heterodoxas contidas na sua grande obra Sobre os Princípios. talvez. perfeitos. isto é.Basílio. atribuindo-se-lhe milhares de obras. bem como o primeiro sistematizador do pensamento cristão em uma vasta síntese filosófica. e representa uma suma teológica verdadeira e própria. que os cristãos devem evitar. escutou . Granjeou ao autor grande nomeada e contém o origenismo. Basta lembrar. é o maior expoente filosófico da escola alexandrina. e as verdades primordiais deduzidas mediante a razão teológica das premissas reveladas.isto é. Orígenes ostenta uma erudição extraordinária. morais e religiosas. É uma resposta à obra Sermão Verdadeiro de Celso. O gnóstico cristão. sábios.tapetes .como Plotino . apesar dos ataques dos adversários. uma serenidade nobre e inigualável. da direção da famosa escola didascaléion. negligenciando um tanto a Sagrada Escritura e a Tradição". Tinha então Orígenes dezoito anos.. A atividade literária de Orígenes não conhece igual. que tinha estudado as fontes do cristianismo. Discípulo de Clemente. declara Orígenes que a melhor apologia do cristianismo é constituída pela vitalidade divina da Igreja. religiosamente. acentuava demasiadamente a última. sendo ademais dotado de uma erudição prodigiosa e de uma cultura incomparável. bem como uma fé inabalável. Empreendeu então longas viagens para se instruir. Durante a perseguição de Septímio Severo. sobretudo. abrindo em Cesaréia uma escola teológica ( chamada depois neo-alexandrina .92 para a Ásia Menor. e também por ciúme. Demétrio. Aí lecionou ainda durante vinte anos. é consciente de sua fé. Por princípios Orígenes entende os artigos principais do ensino da Igreja. foi proibido por este de ensinar e foi condenado. que depois suscitou a grande polêmica origenista. diversamente do simples fiel ou crente. O IV Século: Os Luminares de Capadócia O século quarto. contra a vontade de seu bispo. de interesse especialmente ético. e indicando nos demais dois livros os vícios mais graves. o Pedagogo. Retirou-se então Orígenes para a Palestina. e os meios empregados. em três livros. os luminares de Capadócia . satisfatoriamente. pelo ano 185. de volta à pátria. representa a idade de ouro da Patrística. Antes de tudo. de família cristã. dedicada ao exame atento e pormenorizado das profecias. As obras principais de Clemente são: o Protréptico . e grandemente. para a igreja oriental. dissertações filosóficas. Embora as preocupações de Clemente sejam sobretudo morais e pedagógicas. especialmente a Segunda metade. o malho do arianismo. filósofo pagão. "Querendo harmonizar a doutrina cristã com a filosofia pagã. Prescindindo dos escritos exegéticos e as céticos. A obra Sobre os Princípios nos proporciona a ciência baseada na Revelação.que é uma coleção de pensamentos. sentindo a necessidade de conhecer profundamente as doutrinas que desejava combater e querendo completar a sua formação. o bispo Alexandre de Capadócia. que o seu mestre Clemente teve que abandonar. junto de um seu antigo discípulo. filosoficamente. por falta de revelação formal. visto que Celso. pela sua força e virtude para a reforma moral dos homens e pela sua difusão universal. Orígenes. Filosoficamente importante e característica é a distinção que faz Clemente dos cristãos em simples fiéis e gnósticos. que não nos interessam.as lições de Amônio Saca. . à maneira de Justino. que superou a de Alexandria pelo seu caráter científico. perfeitamente acabada na forma e no conteúdo. apresentado no primeiro o Verbo como educador das almas. A obra Contra Celso é a mais célebre de Orígenes sob o aspecto apologético. Nesta obra. e para atender aos desejos de grandes personagens que queriam consultá-lo. religiosa. Orígenes pode ser considerado o verdadeiro fundador da teologia científica. isto é. Representa. mencionamos a obra Sobre os Princípios e os oito livros Contra Celso. sobretudo. O precoce menino recebeu do pai. a filosofia. Aos vinte e cinco. foi encarregado pelo bispo de Alexandria. desprezando os mais graves perigos. no dizer de São Jerônimo. falecendo em Tiro pelo ano 254. todavia. religiosos e cristãos sobretudo. considerações. chamado adamantino por sua energia incomparável. a primeira formação literária e. Ordenado sacerdote no ano 230 pelos bispos de Cesaréia e de Jerusalém. os Strômata . Atanásio.pequena apologia em doze capítulos. e morreu nessa cidade entre 211 e 216. a primeira grande síntese doutrinal da Igreja. justificando-a e organizando-a racionalmente. o Verbo promotor da vida cristã . dos milagres e das afirmações solenes de Cristo. A maior parte do escrito é. Orígenes. valoriza ele também. talvez. Nasceu em Alexandria do Egito. Leônidas. segundo a tendência metafísica dos doutores orientais.

compartilhando com ele a admiração para com Orígenes. faleceu em 379. sobretudo graças aos luminares de Capadócia. eram certamente favoráveis à cultura cristã. em seguida. abandona o mundo e se retira para a vida ascética. no quarto século. abandonando a cátedra de retórica. Possui. teológica. inflamou os fiéis com a sua pregação brilhante e comovedora. organizando a vida solitária dos que o seguiram. Os padres dessa época se exprimem em aprimorada forma clássica e possuem uma profunda cultura filosófica. valorizou cristãmente na solidão e no ascetismo. Também São Gregório. porém. o método. direito. devido naturalmente à filosofia. destinadas a um monaquismo culto. padre alexandrino oriundo da Líbia. em 407. e João Crisóstomo. pelo ano 344. foram grandes testemunhas do caráter fundamentalmente ascético do Cristianismo. A teologia. degredado pela fé. e depois bispo de Constantinopla. As exortações do irmão e de Gregório Nazianzeno persuadiram-no da vaidade do mundo. Aristocrático e delicado. quanto dogmática. Também os grandes representantes da escola neo-alexandrina. para a precisão e a organização do dogma.93 Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa . Gregório de Nissa é o maior filósofo dos padres gregos. imponente. Bispo de Sásima antes e. Santo Agostinho . São João Crisóstomo. torna-se uma construção intelectual sistemática. a oração. o gosto das definições claras e das classificações metódicas. aperfeiçoando-se em Atenas. foi professor de retórica e casou-se. e escrevendo uma Grande Regra e uma Pequena Regra. em filosofia é neoplatônico. pelo que será considerado o legislador do monaquismo oriental. retirou-se para a vida ascética contemplativa.foi condenada pelo concílio de Nicéia (325). que. Padre em Antioquia. fez estudos aprofundados. declarada livre pelo Edito de Milão. filosofia. Em seguida. pouco afeito à vida prática. de Constantinopla. de Antioquia. foi destinado ao estado eclesiástico. de regras morais. protegida por Constantino. Ambrósio de Milão e Jerônimo. não é tanto científica. talvez. para a vida monástica. em conformidade com o seu ideal ascético e contemplativo. Como em teologia é origenista. a grandeza da Patrística. os luminares de Capadócia. Também ele admirou e praticou a vida ascética com o amigo Basílio. e a grande estima do cristianismo. foi feito bispo de Nissa. e não jurídicas. geralmente. concebido como ascética. São Gregório de Nissa foi o maior dos luminares de Capadócia e. nasceu de família ilustre. Trata-se. às altas classes sociais. e organizador da vida monástica na Capadócia. Entretanto. como verdadeiro filósofo. São Basílio. em 395. deixou-se desviar da sua vocação. o estudo. As grandes heresias da época obrigaram os padres a defender racionalmente. nascido em Cesaréia de Capadócia pelo ano de 330 de família rica e cristã. mas se harmonizam reciprocamente. torna-se religião do estado com Teodósio. sendo Atanásio o mais destacado e forte opositor. A igreja católica. a doutrina católica. Irmão de Basílio. Recebido o batismo. em que a atividade dos monges é distribuída entre o trabalho. aristocrático. Os maiores dentre eles são solidamente formados na solidão monástica e ascética e pertencem. chamado Nizianzeno. que aperfeiçoou em Atenas. depois de batizado. filosoficamente. falecendo pelo ano 390. A heresia ariana . faleceu. retirou-se depois para a solidão. provavelmente. insigne promotor da beneficência cristã quando bispo de Cesaréia. estudando retórica. nasceu pelo ano 355 em Cesaréia e recebida uma informação cultural aprimorada. fez longos e aprofundados estudos. de família cristã. nasceu pelo ano 330 em Capadócia. Grande admirador de Orígenes. atacada especialmente por Ário (256-336). primando pela sua cultura teológica e filosófica. Esforça-se para mostrar que os dados da razão e os ensinamentos da fé não se hostilizam. Faleceu. de todos os padres gregos sob o aspecto especulativo e filosófico.. Estas condições de paz e de privilégio.arianismo . É significativo neste grande prelado o senso profundo da vaidade do mundo. para a igreja ocidental. até que afinal. o mais celebrado representante da escola de Antioquia. negador da divindade do Verbo. que proporcionam o instrumento. à lógica aristotélica. entretanto. Recebeu uma educação clássica aprimorada. cidadezinha da Capadócia.

Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes. O Pensamento: A Gnosiologia Agostinho considera a filosofia praticamente. no neoplatonismo. para Milão. aos trinta e dois anos. Sobre as duas almas. ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. em companhia da mãe. Sobre o mestre. era pagão. por razões de luxúria. donde partiu para Roma e. platonicamente. A Cidade de Deus. Da Mentira. Finalmente. ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal. recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio. Entretanto a conversão moral demorou ainda. entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. Tinha trinta e três anos de idade. à carreira. Inicialmente. Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta. As Confissões. moral e intelectualmente. e. por razões de saúde e. Da vida beata. a liberdade. pelo contrário. recebido o batismo pouco antes de morrer. ele conquista uma certeza: a certeza da . ou melhor. Agostinho inspira-se em Platão. Agostinho. e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã. a fim de aperfeiçoar seus estudos. por conseqüência. pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo. era uma cristã fervorosa. que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos. da teologia revelada. Agostinho abandona Milão. Entrementes . Após a sua conversão. os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos. Da natureza do bem. Patrício. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo. durante alguns meses. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são. E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles.depois de maduro exame crítico . cidade da Numídia. Indo para Cartago. a predestinação. e à redação de suas obras. perto de Milão. volta para Tagasta. superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. abriu uma escola em Cartago. governou a igreja de Hipona até à morte. como por uma fulguração do céu. é uma das maiores conseqüências do pecado original. Dada. Sobre a música. retira-se. sobretudo. Todo o seu interesse central está portanto. na Páscoa do ano 387.no começo do ano 386. por razões de ordem espiritual. que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal. começados na pátria. que. Mônica. porém. a 28 de agosto do ano 430. compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas. a 13 de novembro do ano 354. Depois da conversão.abandonara o maniqueísmo. especialmente: Da Verdadeira Religião. a mentalidade agostiniana. e. em que a filosofia e a teologia andam juntas. abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. circunscrito aos problemas de Deus e da alma. do filho e dalguns discípulos. Tinha setenta e cinco anos de idade. de uma família burguesa. como solucionadora do problema da vida. em seguida. Tendo terminado os estudos. falecida a mãe em Óstia. Ordenado padre em 391. para a solidão e o recolhimento. Sobre a imortalidade da alma. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida . e consagrado bispo em 395. fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. Aí vendeu todos os haveres e. sua mãe. que o resolve. Sobre a quantidade da alma. Seu pai. O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho. no mês de setembro do ano 386. mais ainda. juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio. ao matrimônio. desviou-se moralmente. distribuído o dinheiro entre os pobres. Do livre arbítrio. visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida. Caiu em uma profunda sensualidade. Afastou-se definitivamente do ensino em 386. fazendo com que aderisse ao maniqueísmo.94 A Vida e as Obras Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos. segundo ele. funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. uma justificação da sua vida. julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e. Os solilóquios. e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. sobreveio a conversão moral e absoluta. dominou-o longamente. Aí escreveu seus diálogos filosóficos. Da Trindade. Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura. a graça.

Agostinho possui uma noção exata. a existência de Deus é provada. preso pelos problemas éticos. religiosos. No cristianismo. mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. Esta vem de Deus. de certo modo. não nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus. Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres . ortodoxa. simples. Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo. criou alguns seres já completamente realizados. O problema que Agostinho tratou. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e razão discursiva.rationes seminales. da reminiscência platônica. imutável. o que era excluído pelo platonismo. tínhamos um dualismo metafísico. absolutamente. a princípio. o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. moralmente. Antes da criação não há tempo. Deus é ainda ser. pouco temos a dizer. fundamentalmente. cristã: Deus é poder racional infinito. como o intelecto. Ao lado desta prova a priori. insurgidos orgulhosamente contra Deus e. Agostinho. o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual. porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies. deram origem às existências dos seres específicos. Mas a união do corpo com a alma é. como todas as demais. E como para a visão sensível além do olho e da coisa.agostiniano temos ainda um dualismo. Entretanto. no animal é instinto. Quanto à natureza de Deus. negação. a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho. . mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus. Como já mais acima se salientou. No pensamento clássico grego. Deus é concebido exatamente como livre criador. amor. acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica. preferindo o mundo a Deus. espírito. A Metafísica Em relação com esta gnosiologia. mais tarde. o corpo não é mau por natureza. de outros criou as causas que. metafisicamente. Por certo. Permanece. platonicamente. distingue.95 própria existência espiritual. a alma em vegetativa. pois. nos seres inferiores cego apetite. condição e origem de toda verdade particular. em sentido teísta e cristão. imutável. enfim. às relações com o mundo. seria necessária uma luz espiritual. em especial. sensitiva e intelectiva. dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são. e é atribuída a primazia à vontade. as idéias. e são os modelos dos seres criados. e dependente dela. é a transformação do inatismo. segundo a gnosiologia platônicaagostiniana. do mesmo modo. Deus e a alma. admite Agostinho que os sentidos. tem uma realidade na vontade má. negada pelo moderno evolucionismo. é necessária a luz física. extrínseca. eterno. porém. consciência. que fez boas todas as coisas. é o das relações entre Deus e o tempo. as forças naturais do espírito. é a Verdade de Deus. daí tira uma verdade superior. Quanto. pessoa. para que se realize o conhecimento intelectual humano. enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. como na concepção aristotélico-tomista. o Verbo de Deus. como alguns erroneamente pensaram. pela sua simplicidade. privação. a priori. porém. aberrante de Deus. criadas. Deus não é no tempo. pois. Embora desvalorizando. sendo criada por Deus. isto é. Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. não bastam. a característica fundamental. portanto. No homem a vontade é amor. e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. os princípios formais das coisas. Como se vê. as espécies. no pensamento cristão . é uma específica criatura divina. que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista. saber. platonicamente. são fontes de conhecimento. se a alma é criada diretamente por Deus. pelo pecado dos espíritos livres. Certo é que a alma é imortal. desenvolvendo-se. Quanto à cosmologia. substancial. ou provém da alma dos pais. para o conhecimento intelectual. A alma nasce com o indivíduo humano e. para o qual são transferidas as idéias platônicas. Deus. porquanto a matéria não pode ser essencialmente má. o mal é. porém moral. No Verbo de Deus existem as verdades eternas. em virtude da doutrina da forma e da matéria. portanto.

mas privação de ser. podendo agir desordenadamente. o Estado seria inútil. Quanto ao mal moral.que tanto preocupa Agostinho . Ela não pode ser superada naturalmente. E deve-se considerar não causa eficiente. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus. ele tem uma concepção negativa da função estatal. mas uma ordem do amor.tem. Consoante Agostinho. por isso. Agostinho tem também atitudes teoréticas como. que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral. Como é sabido. que não é verdadeiro mal. Como se vê. E a explicação última de tudo isso . asceticamente. já é impotente sem a graça. Agostinho. como a obscuridade é ausência de luz. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual. Homem-Deus. porquanto o mal não tem realidade metafísica.antes do pecado original . não podendo lesar a Deus. tende a descurar o segundo. a moral agostiniana é teísta e cristã e. porquanto a criatura. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão .é: poder não pecar. finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal. mas deficiente da sua ação viciosa. mas deficiente. e pode querer o mal.própria do pensamento latino . pois. A vontade humana. Remediou este mal moral a redenção de Cristo. não é causa eficiente. do conhecimento . A virtude não é uma ordem de razão. limitado. sendo o mal não-ser. livre e limitado. Quanto à política. fim último das criaturas. deste modo..estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal. nega a realidade metafísica do mal. se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos.96 A Moral Evidentemente. considera o celibato superior ao matrimônio. conseqüência do pecado. a primazia do prático. uma outra explicação mais profunda. hábito conforme à razão. Não obstante. porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. a saber. que é puro ser e produz unicamente o ser. é possuído por um ato de inteligência. quando afirma que Deus.próprio do pensamento grego. Agostinho. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico. digamos assim. mas precede-o. porém. mas deixou permanecer o sofrimento. o mal físico tem. como dizia Aristóteles. que atinge também a perfeição natural dos seres. ela. A vontade não é determinada pelo intelecto. Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal. da ação . a humanidade foi punida com o sofrimento. para salvar o primeiro elemento. e não natural. contra a vontade de Deus. enquanto criado.do mal moral e de suas conseqüências . ele alegrar-se-ia. estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. Quanto à família. mas conseqüência do pecado original. físico e moral. e não de Deus. contrariamente ao primado do teorético. determinando a dilaceração da sua natureza. também um interesse filosófico. como Paulo apóstolo. transcendente e ascética. pode ser superada sobrenaturalmente. depois do pecado original é: não poder não pecar. e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. imoralmente. O mal não é ser. Este não-ser pode unicamente provir do homem.de que dá uma vasta e viva fenomenologia. a propriedade seria de direito positivo. O pecado. se o mundo terminasse por causa do celibato. Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento. mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo. portanto. individual e social. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus. O problema da graça . Antes de tudo. Quanto ao mal físico. porquanto a natureza humana já é corrompida. Resumindo a doutrina agostiniana a . do que não permitir o mal. além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. por exemplo. Entretanto a vontade é livre. tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem. racionalmente. que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. como da passagem do tempo para a eternidade. nos bem-aventurados será: não poder pecar. porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. Nota característica da sua moral é o voluntarismo. logo. prejudica a si mesma. além de um interesse teológico. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica. que perturbou a natureza humana. como meio de purificação e expiação. Nem a escravidão é de direito natural. O Mal Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal . pois é um ser limitado.

realizar-se-á nos fins dos tempos. que se assinala geralmente com a descoberta da América (1492). onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino. A Escolástica Características Gerais A Escolástica representa o último período do pensamento cristão. graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. Entretanto. também às almas de boa vontade que. isto é. Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo. Esta não é limitada por nenhuma divisão política. no fundo. talvez. a seu modo. recolhida e configurada em Israel.gramática.ainda que só na unidade dialética das duas cidades. no paraíso e no inferno. é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra. para o triunfo da Cidade de Deus . dela não podem participar. absoluta. ainda. chamados. justíssima. sempre mais claramente. pois. com a diferença. conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel. e profetizado também. para entender realmente. Entretanto. pelos povos pagãos. invisivelmente. é mister a Redenção. Este período do pensamento cristão se designa com o nome de escolástica. predestinados e ímpios. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico. por sua vez. por causa do basilar dualismo metafísico. A Cidade de Deus representa. após o pecado original. lhe preparavam diretamente o caminho. época em que começou a separação. representa. a cidade de Deus. de Abraão até Cristo. eterna. Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus. não é uma visão filosófica. que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos. privação de bem (de ser). satânica.97 respeito do mal. A Igreja transcende. moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico). plenamente. Esta história. As matérias ensinadas nas escolas medievais eram representadas pelas chamadas artes liberais. a obra prima de Agostinho. depois da morte. A primeira concerne à história das duas cidades. da constituição do sacro romano império bárbaro.e . consciente ou inconscientemente. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino. que vai do começo do século IX até o fim do século XVI. porém. em separado. até que ficaram confundidas em um único caos humano. A Igreja. uma unidade e um progresso. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus. os confins do mundo terreno. isto é. que é o governo divino do mundo. mas configurada na unidade da Igreja. Contra este cidade se ergue a cidade terrena. é acessível. pelos mestres. porquanto era a filosofia ensinada nas escolas da época. não uma filosofia da história. dialética . de pecado original e de Redenção. ao fim da Idade Média. a fim de que a história seja suscetível de racionalidade. É uma grande visão unitária da história. necessário. exteriormente. por isso. É o progresso para Cristo. A terceira retoma. diremos: o mal é. divididas em trívio . fragmentária e dividida. mas teológica: é uma teologia. que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. a solução deste problema é estética para o mal físico. e resolve-o ainda com os conceitos de criação. visto que todos. pois. que. mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. além do qual está a pátria verdadeira. elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade. e chega até a Abraão. depois do juízo universal.a divisão definitiva. se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades. se encontram empiricamente confundidos na Igreja . o maior monumento da antigüidade cristã e. escolásticos. a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada. que culmina no império romano. A História Como é notório. e pela Igreja depois de seu advento. certamente. para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo. o plano da história. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência. este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza. este conceito de providência é. mundana. retórica. desde Abraão. Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. de que já não é mais união caótica. fundamentalmente.

do especial desenvolvimento da dialética. A tendência mística. a formação dos monges futuros (escolas internas). no êxtase. música. bastante elementar: leitura.quadrívio . A falta dessa distinção . em especial. em especial. fundará junto da corte imperial a assim chamada escola palatina. historicamente. acima e contra a razão e o intelecto. um clero culto.específica do pensamento agostiniano . este período coincide com a Segunda metade do século XIII. que pode ser considerada como a 98 . As escolas episcopais . Depois de Tomás de Aquino. o meio natural eram as escolas. educar intelectual. preparar uma classe dirigente em geral e. Duns Scoto. ao passo que as escolas monásticas surgem nos mosteiros afastados das cidades . geometria. podemos dividir a escolástica em três períodos. Deste modo restauraria a civilização e a religião. a escolástica declina como metafísica (séculos XIV e XV). em conformidade com as tendências positivas e práticas do espírito anglo-saxônio. os funcionários do império. (São Pedro Damião e São Bernardo de Claraval) põe. o ensino religioso e os rudimentos das ciências profanas. O programa de ensino era. imitações atualizadas das escolas catequéticas do cristianismo primitivo. a formação do clero secular e também de leigos instruídos. Para tanto. a formação dos leigos cultos (escolas externas). espiritual. tendências novas para a experiência e a concretidade. A escolástica surge. pelo contrário. quer pelo seu imanente caráter de mestre do povo. que ele ia fundando e desenvolvendo: formar. surgidas da própria exigência de uma observância adequada da Regra de São Bento. É. com efeito. entretanto. o Aristóteles do pensamento filosófico cristão. a uma espécie de intuição mística. finalizando uma espécie de racionalismo (Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo). O segundo. ao mesmo tempo. e pode ser assim dividido: séculos IX e X (Scoto Erígena e a questão dos universais). representando como que o prelúdio do pensamento moderno. donde o nome de escolástica à doutrina e. é devido em especial aos franciscanos ingleses de Osford . para a vida civil. a vontade. As escolas monásticas dos mosteiros visavam. um racionalismo inconsciente. o amor. inicialmente. mas também na orientação denominada dialética do pensamento medieval pré-tomista. a massa popular.que surgem nas cidades. Misticismo e dialeticismo. complexo devia ser o papel das escolas. Paulatinamente espalharam-se também as escolas episcopais. Guilherme de Occam -. Carlos Magno dará muito incremento a ambas as escolas e. ao mesmo tempo. a fé. a cultura clássica e o catolicismo e lhes daria incremento. dependente diretamente do bispo. antes de tudo. Havia nos mosteiros beneditinos escolas monásticas. de experiência do Divino: o sentimento. mestres adequados para as escolas. século XIII (o triunfo do aristotelismo). E. se diferenciam profundamente entre si. portanto. depois. educar. porém. mesmo que os resultados lógicos pudessem ser os mesmos do racionalismo verdadeiro e próprio. colocando o período central da escolástica a figura soberana de Tomás de Aquino. assim. Educação e Cultura na Idade Média Carlos Magno pretendia dar uma unidade interior. Os docentes eram também eclesiásticos e denominados também scholastici. um período pré-tomista em que persiste a tendência teológica-agostiniana. uma outra forma de conhecimento. Presidia a estas escolas um eclesiástico chamado scholasticus.manifesta-se não apenas na corrente chamada mística. Este primeiro período da escolástica vai do começo do século IX (Carlos Magno) até à metade do século XIII (Tomás de Aquino). toma-os como dados e pretende penetrá-los mediante a filosofia. proveniente da ignorância da verdadeira natureza e dos verdadeiros limites da razão. até procurar as razões necessárias dos mistérios. mas levantar esta à compreensão do supra-inteligível. Afirmam-se. ademais. aprender a escrever. à filosofia ensinadas. Na intenção de Carlos Magno.visavam. O segundo período da escolástica é dominado pela figura soberana de Tomás de Aquino. Depois destas premissas.Rogério Bacon. culminando na união mística. ao seu vasto e vário império e. e o clero se apresentava como o mais apto e preparado docente. quer pela cultura de que era dotado. moral e religiosamente os povos bárbaros que o constituíam. Tal desenvolvimento da escolástica no sentido da experiência e da concretidade. seu escopo final.aritmética. proporcionando. em seguida. todavia. embora parta da revelação e do sobrenatural. devido a um anacrônico e ilógico retorno ao agostinianismo. por conseguinte. e. astronomia. isto é. Teremos. o escopo não era reduzir a religião aos limites da razão humana. canto orfeônico e um tanto de aritmética. séculos XI e XII (místicos e dialéticos). antes de tudo.

modeladas na escola palatina. ministrada por militares e a militares. mais tarde. inicialmente baseada na força. O trívio abraçava as disciplinas formais: gramática. destinadas a ensinar ao povo os primeiros elementos do saber. fica assim configurada: 1°. astronomia. . como. Carlos Magno chamou à corte Alcuíno (735-804. de que acima falamos. porém. retórica. o historiador Paulo Diácono. fim da realidade. para presidir e lecionar na escola palatina. militar. 4°. foram emanados os decretos capitulares para a organização das escolas. a Igreja. a divisão da natureza. De Deus desce-se às idéias supremas. que se espalhou pelo vasto império e perdurou invariado. segundo o espírito dos bárbaros dominadores. as fases primeira e Quarta coincidem (Deus = não criado). Tal pretensão de penetrar racionalmente os mistérios revelados devia acabar logicamente no racionalismo e. . durante toda a Idade Média. os príncipes e os jovens da nobreza. aos gêneros. bem cedo. podemos dizer. . donde o nome de Scoto Erígena. geometria. sobretudo. Deste modo. Nela ensinaram os homens mais famosos da época. Foi condenada pela Igreja (1225). Pelo ano de 874 é chamado à corte culta e brilhante de Carlos o Calvo. . especialmente na França. bem como coincidem as fases Segunda e terceira (mundo = criado). que veio da Inglaterra. as escolas paroquiais. foi constituída junto da corte de Carlos Magno a famosa escola palatina. e retorno da multiplicidade à Unidade. religiosa. na supressão do sobrenatural. temos na Idade Média uma educação militar. concebido. a partir do ano 787. política. esta última desenvolvendo-se. e. penetrar os mistérios mediante a razão iluminada por Deus. econômica. aos indivíduos.A natureza que é criada e não cria (as coisas.A natureza que é criada e cria (o Verbo de Deus. o gramático Pedro de Pisa. termo. depois. no âmbito das paróquias. dita Scotia maior. repartidas no trívio e no quadrívio. e vice-versa. música. 3°. 2°. A Escolástica Pré-Tomista Os Séculos IX e X: Scoto Erígena e o Problema dos Universais A história da filosofia escolástica começa propriamente com o nome de Scoto Erígena. realizadas mediante o Espírito de Deus). Eriu em língua céltica. mais tarde. E sob a sua inspiração. Eminentemente neoplatônico é o esquema especulativo de Da Divisão da Natureza: a descida da Unidade à multiplicidade. mais ou menos). A sua obra principal é Da Divisão da Natureza (847). ministradas por eclesiásticos e. enquanto o douto inglês ditava-lhes o programa relativo. em cinco livros. Outras escolas surgiram. na filosofia. Como é sabido. a eclesiásticos. e pode-se dizer que representa a falência definitiva das tentativas de síntese entre neoplatonismo emanatista e criacionismo cristão. exemplares e causas das coisas). imprimiu também a esta educação uma orientação ética. por exemplo. por mais ortodoxa que fosse a intenção do autor. o teólogo Paulino de Aquiléia. como ômega. a medicina. Freqüentavam esta escolas o próprio imperador.A natureza que não é criada e não cria (isto é. Mencionamos também como. Deus. Como se vê. e não como alfa.A natureza que não é criada e cria (Deus Padre). da realidade. João Scoto Erígena nasceu na Irlanda. o quadrívio abraçava as disciplinas reais: aritmética. que Erígena traduziu do grego para o latim. às espécies. católica. em que são contidas as idéias eternas. Sob a direção de Alcuíno. é um diálogo entre mestre e discípulo e se inspira no neoplatonismo do pseudo Dionísio Areopagita. O programa de Alcuíno abraçava as sete artes liberais. Parece Ter falecido em França pelo ano 877. princípio). com o correr do tempo. Para elaborar o seu vasto plano de política escolar. dialética.99 primeira universidade medieval. o feudalismo é uma organização social. Erígena parte da revelação divina para. em seguida. . por conseqüência. o viveiro da cultura naquela época. Ao lado desta instrução e educação eclesiásticas.

que são. mas também gnosiológica e metafísica. começa e se manifesta nos séculos XI e XII um renascimento especulativo. e. uma distração mundana. daí a vaidade da ciência. a solução do realismo moderado. Que valor têm os conceitos. Santo Anselmo (1033-1109) nasceu em Aosta. dos divinos mistérios. da corrente dialética os maiores expoentes são: Santo Anselmo de Aosta no século XI e Pedro Abelardo no século XII. o universal tem em si uma realidade objetiva. o universal. problema que tão cedo e tão longamente interessou a escolástica. arcebispo de Canterbury na Inglaterra. natural de Bretanha. teve uma solução radical no pensamento escotista. mas apenas mental (universal post rem). este argumento é contido no Proslogium. e culmina no êxtase. o argumento ontológico não vale: porquanto não podemos. das idéias. mas também fora do objeto (universal ante rem): . de Cristo crucificado. com a doutrina da forma que determina a matéria. particulares? O problema tem uma importância fundamental filosófica. contra a ciência (a filosofia) por eles considerada um resíduo pagão. na contemplação de Deus. Em realidade. mas é imanente nos objetos singulares de que é essência. . inclusive o princípio de contradição. isto é. tornou-se religioso e foi peregrinando por muitos mosteiros e cátedras. São Bernardo de Claraval rejeita. Também ele é um platônico-agostiniano. o saber profano como um perigo e um luxo. da ordem real à ordem ideal. geralmente adotada pela escolástica incipiente. princípio ativo (universal in re): . Pedro Abelardo (1097-1142). logo. dos místicos. não apenas lógica e dialética. na compaixão para com a miséria do próximo. até colocá-la acima de toda lei racional. faltando-lhe a existência. em relação e enquanto representativos das coisas. E isto não obstante a luta dos teólogos. escreveu Da Divina Onipotência. capaz de convencer imediatamente o ateu. cardeal e arcebispo ostiense. da filosofia para entender Deus e as suas obras. três: a solução chamada do realismo transcendente (platônica). vaidade e orgulho. mais tarde. a idéia de uma realidade em si. no nosso conhecimento. epicuristas. depois. que são universais. a priori. asceticamente. do valor dos conceitos. da fé e não da razão. centro cultural do mundo católico. não existe apenas fora da mente. imanente (aristotélica). Segundo a solução do realismo transcendente. As soluções desse problema oferecidas pela escolástica são substancialmente. professor famoso em Paris.O problema dos universais. estudante e. passar da ordem lógica para a ordem ontológica. O caminho da sabedoria é a humildade. Pretende ele demonstrar a existência de Deus. estóicos.no mundo clássico esta posição é defendida pelos sofistas.corresponde à posição aristotélica. contra os filósofos. As suas obras principais são: O Monologium. e os dialéticos que a cultivavam. após Scoto Erígena. São Pedro Damião. céticos. partindo do mero conceito de Deus. onde se propõe demonstrar a existência de Deus com um argumento simples e evidente.é a solução platônica. o que significa partir da revelação divina. mas deve-se passar das coisas às idéias. do contrário não mais seria perfeitíssimo. O conceito que temos de Deus é o de um ser perfeitíssimo e. Nesta obra enaltece a onipotência de Deus. isto é. mais tarde Papa Gregório VII. conselheiro do monge Hildebrando. pelas gnosiologias empirista e sensitista. para demonstrar a existência de Deus. 100 Os Séculos XI e XII: Místicos e Dialéticos Depois da decadência cultural que se seguiu à renascença carolíngia. A verdadeira sabedoria consiste no conhecimento da própria miséria. imanente. Segundo a solução do realismo moderado. mas é preciso penetrar depois a fé mediante a razão. foi monge prior e abade do mosteiro beneditino de Bec na Normandia e. Anselmo de Aosta é o primeiro grande filósofo medieval. forma. São Bernardo de Claraval no século XII. portanto. das idéias aos fatos. a solução nominalista. A solução conceptualista-nominalista sustenta que o universal não tem nenhuma existência objetiva. Deus deve também existir realmente. O nome de Anselmo de Aosta é ligado ao famoso argumento ontológico. fora da mente. Os maiores representantes da corrente mística são: São Pedro Damião no século XI. ou até puramente nominal (nominalismo) . ao contrário. O seu lema é: creio para compreender.

Dialética.elemento descurado na Idade Média . E tal conteúdo lhe foi proporcionado pela descoberta do sistema aristotélico integral. legal. do que um ato executado conforme a lei. no fundo. então surgidas e organizadas eficientemente. Acusado de heresia.o famoso comentador de Aristóteles . Em conclusão. chamado precisamente magister sententiarum. Esta atividade formal. os quais a tudo renunciaram. filósofo e teólogo. Escreveu as obras seguintes: História das Calamidades. Em seguida.em confronto com o elemento objetivo. Averroés. Também interessante é a sua posição crítica na pesquisa filosófica: a dúvida nos leva para a investigação. ainda que objetivamente mau. e considerava a religião como uma filosofia simbólica para o vulgo. meios de salvação.que levaram ao conhecimento do mundo latino-cristão a filosofia de Aristóteles. Reconhecendo embora que são necessários os dois elementos. Abelardo é uma das mais originais figuras do mundo medieval. cético e sistemático. aristotélico. redenção. mas crítica e racional. mesmo faltando-lhe a profundidade e a capacidade sistemática de Santo Anselmo. um culto idolátrico para com o Estagirita. entraram em contato com a cultura grega. escolástico. filosófico. O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles A atividade filosófica da escolástica pré-tomista foi essencialmente lógico-dialética e. e um retorno ao agostianismo (São Boaventura). nos meados do século XII. que foi identificado com a própria razão humana e preferido. dos autores dos libri sententiarum entre os quais o mais famoso é Pedro Lombardo. salvo à ciência e à caridade. que estudou intensamente. Este movimento cultural e filosófico se desenvolveu especialmente no âmbito das universidades. especialmente na Síria. trouxeram-lhe a própria cultura impregnada de aristotelismo.Abelardo se integra nas fileiras dos sentenciários.e secundariamente os hebreus . Abelardo sustenta ser mais moral um ato executado com reta intenção. na Espanha. grego e cristão.coleção de sentenças contrastantes dos padres sobre assuntos da Escritura e da teologia . especialmente as tomistas. depois de conhecido Aristóteles através da cultura árabe. Encerra-se assim o século XII e está nos albores o século XIII. pelo qual se chegou à construção de uma filosofia distinta e autônoma. mas em harmonia hierárquica com a fé (Tomás de Aquino). Mais tarde . foram os árabes . estendendo suas conquistas até o ocidente europeu. foram Avicena e Averroés. uma sociedade de homens cultos surgida em Toledo. que representa o ápice do pensamento helênico. E assim. que salvaram das invasões bárbaras durante as trevas medievais do Ocidente latino. por sua vez. Os árabes.mais ou menos críticas . (século XII). à revelação cristã. apaixonou-se pela filosofia aristotélica. graças aos pensadores pertencentes às ordens religiosas. Os livros das sentenças eram coleções sistemáticas . Os maiores filósofos árabes conhecedores de Aristóteles e que influíram profundamente sobre o Ocidente latino-cristão. os árabes. foi condenado por dois concílios. isto é.101 após uma aventura amorosa com Heloísa. formal. foram civilizados pelo pensamento grego. com um grande pendor para a crítica e a dialética. O mundo latino-cristão. intensa e penetrante. No ensaio ético Conhece-te a ti mesmo valoriza. o elemento subjetivo. originariamente bárbaros eles mesmos. conto biográfico da sua aventura com Heloísa. . na vida moral. ao mesmo tempo. uma aceitação e valorização do sistema aristotélico. . a fim de que haja ação plenamente moral. o século de ouro da escolástica e do pensamento filosófico cristão. Os árabes foram admiradores de Aristóteles e da sua filosofia. Conhece-te a ti mesmo. Como dissemos. logo. intencional. após terem conquistado o oriente helenista. que são construções sistemáticas elaboradas criticamente.das doutrinas das Padres. Era preciso traduzir do árabe para o latim as obras de Aristóteles e os comentários árabes. mas com intenção má. Na obra Sic et non . A atitude do mundo latino-cristão perante Aristóteles foi tríplice: uma decidida aversão à filosofia que queria constituir-se unicamente com meios racionais. Abelardo é. Sic et non. Preparam as grandes sumas medievais. a investigação nos leva à ciência. criação.afirmava ao invés a subordinação da religião a filosofia quando as argumentações delas fossem contrastantes. Foi o que fez. racional. esperava um conteúdo adequado. queda. Avicena tentou harmonizar a filosofia aristotélica com a religião islâmica. ordenadas segundo o esquema: Deus. que lhe acarretou trágicas conseqüências. quando não concordava com a razão (averroísmo latino).

O conjunto dos professores e dos alunos da universidade de Paris. mas prática e religiosa. a mais ilustre universidade da Idade Média. A característica nova e comum destas duas ordens religiosas foi a pobreza individual e coletiva. nasceu na Itália. que se atinge imediatamente em todas as coisas e se possui pela união mística. fundados por São Francisco de Assis.como admitia Averroés . contra a vontade dos leigos e por desejo dos papas. ao contrário. tantas quantas são as suas propriedades essenciais. propuseram-se como finalidade principal a caridade ativa e tiveram uma enorme influência sobre o povo. enquanto ele é imediatamente presente ao espírito humano. por conselho de Tomás de Aquino. como ele descreve no Itinerário. à ciência. e. o Itinerário da Mente para Deus. exercendo. bem cedo.julgando inapto para esse fim o racionalismo. porque todos os seres são compostos de matéria e de forma. foi geral da sua ordem e depois cardeal de Albano. a universalidade da matéria fora de Deus. inspirando-se na mentalidade aristotélica. estudou em Paris e. famosas mais que todas as outras. Especialmente os papas protegeram a universidade de Paris.102 sentiu-se a necessidade de traduzir diretamente do grego as obras de Aristóteles. espanhol. Segundo São Boaventura. as grandes universidades medievais. Suas obras principais são: os Comentários a Pedro Lombardo. inspirando-se na mentalidade agostiniana. donde o nome de mendicantes a elas atribuído. a tarefa da filosofia não é teórica e racional. e obteve das autoridades civis e religiosas reconhecimento jurídico e grandes privilégios. será inteiramente infecundo. e os Franciscanos. a pluralidade das formas em um mesmo ser. entraram e tiveram preponderância professores pertencentes as duas ordens religiosas surgidas no século XIII: os Dominicanos. surgidas geralmente das escolas episcopais. composta de forma e matéria. O maior . desenvolveu especialmente a filosofia e a teologia. pois. tal universidade se tornou como que a cidadela cultural da ortodoxia católica. sentimental do Pobrezinho de Assis que entrevia Deus e Jesus Cristo em todas as coisas. inspirando-se na mentalidade agostiniana. inspirando-se no pensamento aristotélico. sobre a Redução das Artes à Teologia. A metafísica de Boaventura. ainda que pareça limitar-se a sustentar a existência de duas verdades paralelas e contrastantes. A gnosiologia de Boaventura inspira-se no iluminismo agostiniano. sustenta que a alma humana é uma substância completa independentemente do corpo. foram as universidades de Paris e de Oxford. se prestasse o agostinianismo. inclusive as essências angélicas e as almas humanas. Desta sorte. mais tarde. a filosofia deve levar a Deus. porquanto admite . o empirismo e o intelectualismo aristotélicos. e não chegar até subordinar a religião à filosofia. E julgaram os filósofos franciscanos que. devido à importância que tinha naquele estabelecimento do ensino superior universitário a teologia. que aceita o sistema aristotélico sem crítica nenhuma. fundados por São Domingos de Gusmão. e também certa liberdade a respeito das obrigações conventuais. destarte. Diametralmente oposto a este aristotelismo agostiniano. sua maior influência entre as classes sociais elevadas. O maior representante do agostinianismo antiaristotélico foi São Boaventura (1221-1274). afetiva. constituiu um corpo único. para tanto. os franciscanos. Nessas universidades recém-organizadas. que lhe sugeriu a prova intuitiva da existência de Deus. afirma três princípios diretamente opostos ao aristotelismo tomista: a existência de uma matéria geral sem as formas específicas.que haja teses filosóficas em contraste com o teísmo da religião. que proporcionou aos latinos o conhecimento do genuíno pensamento do Estagirita. auto-suficiente. A universidade de Paris. Ao mesmo tempo se desenvolveram as universidades. ao passo que a universidade de Oxford dedicou-se especialmente às ciências naturais. o seminário dos filósofos e dos teólogos de todo mundo. italiano. Os Filósofos Franciscanos Os filósofos franciscanos julgaram fosse mister dar uma forma teórica à atitude prática. Os dominicanos dedicaram-se mais ao estudo. A psicologia de Boaventura. é o aristotelismo exagerado averroísta. por conseqüência. e. Esta orientação filosófica é chamada averroísta. isto é. para melhor facultar o cultivo do estudo e a pregação apostólica entre o povo. com o seu misticismo e voluntarismo . uma universitas única. em princípios do século XII. pois. Guilherme de Maerbeke (falecido em 1286) fez essa tradução.

no conceito de filosofia. a teologia não é . Crítico agressivo das maiores autoridades da sua época. João Duns Scoto O maior expoente da escolástica pós-tomista é. cujas características tendências empiristas. sentiu profundamente o problema da concretidade e da experiência. enciclopédico e místico. como julga Tomás de Aquino. práticas. Nestas obras revela-se um crítico e um pensador de muito superior a São Boaventura. no entanto. A sua obra principal é Da Alma Intelectiva. A Escolástica Pós-Tomista O tomismo era. As teses mais notáveis de Siger em contraste com o cristianismo são: a negação da providência divina. logo depois de uma reação violenta contra o tomismo. E. indubitavelmente negligenciado pela escolástica clássica. por sua vez. nascido na Inglaterra. da filosofia. O agostinianismo de Scoto manifesta-se. se não achar fundamento e confirmação na experiência. João Duns Scoto. três são as fontes do saber: a autoridade. Também ele. donde surgirão a história e a ciência modernas . Após Ter lecionado algum tempo em Oxford. o tradicional comentário das sentenças de Pedro Lombardo. É. Segundo Bacon.a respeito de Aristóteles. foi obrigado a deixar a cátedra. A ciência experimental constitui a fonte mais sólida da certeza. a afirmação da eternidade do mundo. inglês e franciscano. em conformidade com o espírito do voluntarismo agostiniano.com suas técnicas . que realizará a justificação da filosofia e da teologia. para poder súbita e definitivamente impor-se no âmbito do pensamento cristão medieval. as Questões Várias. a fé não porém a ciência. A sua obra mais importante é a chamada Obra Maior. todavia. a Obra Parisiense. publicou ainda a Obra Menor e a Terceira Obra. cientista e supersticioso.segundo Scoto . tentando uma superação do racionalismo tomista. consequentemente. que julgou encobrir o seu anacronismo. um movimento excessivamente novo e arrojado. Houve. sem dúvida. um vestígio do agostinianismo tradicional. um retorno especulativo ao agostinianismo. Suas obras principais são: a Obra Oxoniense. entendida como instrumento para entender a fé e não como obra autônoma do espírito. portanto. são conhecidas. quer dizer. A razão proporciona essa compreensão. Do agostinianismo. onde levou uma vida agitada e foi condenado à prisão pelos próprios superiores da sua ordem.representante do averroísmo latino é Siger de Brabante (falecido pelo ano de 1284). como se vê. Rogério Bacon 103 Rogério Bacon (1210-1294). antes de tudo. acentuadas e tornadas piores após a poderosa construção crítica e racional do Aquinate. a ciência. deve-se entender por experiência não apenas a que se alcança pelos sentidos externos e nos oferece o mundo corpóreo. isto é. A escolástica pós-tomista. no mesmo século XIII. contudo. O centro desta escolástica pós-tomista é a universidade de Oxford. a razão. professor na universidade parisiense. e terminará.mas unicamente prática. . medeia Tomás de Aquino. positivas. A autoridade dá-nos a crença. Entre estas duas posições extremadas . não consegue distinguir o sofisma da demonstração verdadeira. Entretanto esse movimento terminará nas posições fideístas do pré-tomismo. o doutor sutil. mas também a experiência proporcionada pela iluminação interior de Deus. talvez.que constituem o valor do pensamento moderno. Faleceu em 1308. Conforme Bacon. Bacon aceita também a unidade entre filosofia e teologia. os Teoremas Sutilíssimos. da ciência. foi aluno e professor nas universidades de Oxford e de Paris. que Tomás tinha distinguido. entrou na ordem franciscana e estudou nas universidades de Oxford e de Paris. na ruína da metafísica.como julga Aquinate . a afirmação da unidade do intelecto na espécie humana e a conseqüente negação da imortalidade pessoal do homem.disciplina essencialmente especulativa . condenado mais tarde pela Igreja. experimentais. a experiência. porquanto não nos fornece a compreensão das coisas que formam o objeto da crença. foi um temperamento genial e original. na Inglaterra.de idolatria ou de irredutível hostilidade . Estabeleceu-se então em Paris.

é um sinal natural. mas há multiplicidade de formas em cada indivíduo. então em luta contra o Papa. pois. o primeiro dá-nos a realidade. a forma não é única. Quanto à natureza divina. Segundo Occam. pela vontade. não o admite em linha de direito. Suas obras especulativas são. O conceito. porém. variável segundo as diversas línguas. etc. pelo amor e não pelo intelecto. Scoto (contra a corrente agostiniana e em harmonia com o tomismo) ensina que Deus não é conhecido por intuição. são compostos de matéria e de forma. representado pelo nome que é. ao mesmo tempo. o homicídio. Contra o intelectualismo tomista. conhecer diretamente as essências. todos os seres. deveria a alma. mesmos os espirituais. Deus seria atingido. ao passo que o conhecimento intelectual nos proporciona conhecer as relações lógicas entre conceitos abstratos. chamado haecceitas (que se sobrepõe à matéria por si subsistente e à hierarquia das formas). inexistente sem a forma. Centilóquio Teológico. Na teodicéia. Processado por heresia pela Santa Sé. que ele fez reviver no ambiente experimental da universidade de Oxford.. e sim da vontade divina. Guilherme de Occam Guilherme de Occam é. seria a alma. seriam ações morais. além do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo: Sete Várias Questões. como exige o tomismo. e escreveu várias obras para defender o imperador contra a Santa Sé. E a própria ordem ética não é intrinsecamente boa por motivo racional. o indivíduo se tornaria intelectualmente cognoscível.à escravidão da alma com respeito ao corpo. em que. um sinal artificial. embora procure também combinar esta demonstração com o argumento ontológico. na vida eterna. refugiou-se junto do Imperador. depois do realismo imanente aristotélico-tomista. Suma de Toda a Lógica. um opositor e um discípulo de Scoto: discípulo. fez-se franciscano.segundo o doutor sutil . na visão beatífica. concreta e individual. que poderia impor uma ordem moral oposta. no sentido de que desenvolve o individualismo de haecceitas escotista no nominalismo. A tarefa do homem é conhecer para querer e amar.104 A gnosiologia iluminista-intuicionista agostiniana firma-se no escotismo não tanto como participação da inteligência humana na luz divina. as coisas criadas por Deus não dependem fundamentalmente da razão divina. por exemplo. destarte. conforme o qual o nosso conhecimento começa pela sensibilidade. mas de um elemento formal individual. por conseguinte. A individuação não depende da matéria (pelo que o indivíduo fica incognoscível intelectualmente). o conceito é sinal de mais objetos percebidos como semelhantes. segundo Scoto. o furto. Em conclusão. mas tem uma realidade sua própria. O conhecimento sensível dá-nos as relações reais entre as coisas reais (o nexo causal. E isso seria devido . Pelo contrário. um conhecimento vago e confuso deles. sem nada nos dizer em torno da realidade das coisas. Em todo caso. por sua natureza. mas unicamente porquanto é querida por Deus. quanto como sendo a espontaneidade e a independência do intelecto com respeito ao sentido. Scoto põe também em Deus esse primado de vontade sobre o intelecto. uma substância completa. Na psicologia escotista aparece ainda uma doutrina inspirada no agostinianismo. É a doutrina do conhecimento intuitivo da essência da alma. por natureza. não só as materiais mas também as espirituais. Faleceu pelo ano 1350. em linha de fato. Com efeito. o adultério. o empirismo do nosso conhecimento. a existência de Deus é demonstrável apenas com argumentos a posteriori. estudou e lecionou na Universidade de Oxford. . A matéria não é mera potência. e imorais as ações opostas. a priori. que se conhece só pela experiência). ao passo que o segundo é abstrato. o atributo essencial de Deus seria a infinidade. e. ao passo que o segundo nos dá apenas as semelhanças entre seres reais (as idéias gerais). a sensação é o sinal de um objeto na alma. Scoto concede. decorrente do pecado. que não nos permite distingui-los um do outro. mas o intelecto depende da vontade. Guilherme nasceu em Occam na Inglaterra pouco antes do ano de 1300. o conhecimento sensível é superior ao conhecimento intelectual. princípio de todos os demais conhecimentos. E também inspira-se no agostinianismo a doutrina de certa independência da alma com respeito ao corpo. porquanto o primeiro é intuitivo. está contra o chamado empirismo aristotélico-tomista. a mentira. Desse modo. Scoto sustenta a primazia da vontade: a vontade não depende do intelecto.

da moral. e para estabelecer uma outra ordem sobrenatural (por exemplo. da ciência. O ocamismo tem um êxito vasto e imediato nos séculos XIV e XV. na Campânia. degenerando num formalismo lógico. que culminou com Agostinho. Dois anos depois. chamado à corte papal. a vontade de Deus é absolutamente livre para criar uma moral mesmo oposta à presente. mas também o pensamento patrístico. à fé (fideísmo). pois. Deus não se pode provar a posteriori mediante o princípio de causalidade. abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. bem cedo a razão se porá contra a fé e a substituirá. se Deus quisesse. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados . o Verbo poderia Ter-se encarnado num burro). a lógica que nos ilustra as relações entre os conceitos. Dado que em torno de Deus nada conhecemos filosoficamente. Estrasburgo. no castelo de Roccasecca. lecionou teologia na universidade de Paris. onde lecionou teologia. historicamente. e também não se pode provar . converge diretamente o pensamento helênico. Destarte. em 1272. porquanto essas noções de substância e causa não são experimentáveis. da família feudal dos condes de Aquino. Assim. desse experimentalismo deriva o empirismo. viajando para tomar parte no Concílio de Lião. conseqüentemente. O pensamento de Aristóteles. entretanto. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França.pela via de causalidade .. por ordem de Gregório X. que nos faz conhecer os seres materiais. As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos: . etc. Adquire plena consciência dos poderes da razão. faleceu no mosteiro de Fossanova. válido empiricamente. que o acompanhou a Colônia. salvo à ciência. tendo como mestre Alberto Magno. nenhuma metafísica: o conhecimento de Deus. Para Tomás de Aquino. Friburgo.ciências naturais. Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris. e deste deriva logicamente a ruína do conceito e. quando regressou à Itália. Sicília e Aragão. aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem. mas logo declina. segue-se que não são cognoscíveis. entre Nápoles e Roma. ascética.a alma. Também Alberto. passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. Depois de ter estudado as artes liberais. sensíveis. além do patrimônio de revelação judaico-cristã. a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. em 1274. rico de elementos helenistas e neoplatônicos. etc. onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino. e dado outrossim o voluntarismo divino escotista. Com ele declina e. na sistematização imponente de Aristóteles. onde ensinou até 1269. é abandonado inteiramente à Revelação. teologia. coloca o ocamismo em uma posição afim à do averroísmo da dupla verdade. da moral. bem mais importante. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris. entrou na ordem dominicana. chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados. Nasceu Tomás em 1225. converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico. Com o diminuir da fé medieval e com o firmar-se do humanismo moderno. Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia. Pelo fato de a alma e Deus não serem sensíveis. da filosofia. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família. exegese. da alma. primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia. voltou a Nápoles. e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. especialmente árabes. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino. onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante. indispensáveis à própria ciência natural. filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280). Esta absoluta divisão entre a razão e a fé. Tomás de Aquino A Vida e as Obras Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor.105 Estamos na linha do experimentalismo inglês da Universidade de Oxford. Portanto. filosofia. porém. termina a escolástica medieval. a ciência humana reduz-se à física. renunciando a tudo. E deriva também a ruína das próprias noções de substância e causa. de que é impossível demonstrar cientificamente a imortalidade. Ensinou em Colônia.

a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é. conheceríamos não as coisas. a Dionísio pseudo-areopagita. no fenomenismo. começada em 1265. Compreendendo as coisas. Da Eternidade do Mundo. Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas. logo.. sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. é o intelecto passivo. Como no conhecimento sensível.visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado. temporalidade. Suma Teológica. acontece no conhecimento intelectual. sem a materialidade do sinete. o universal. etc. atual. Questões: Questões Disputadas (Da verdade. a forma universal das coisas. formam uma unidade mediante a espécie sensível.intus legit .o inteligível. a coisa sentida e o sujeito que sente. e é justificado experimentalmente e racionalmente.). etc. mas transcende-o. do mesmo modo e ainda mais perfeitamente. e em harmonia com o pensamento aristotélico. espacialidade. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia. E. é uma faculdade da alma individual. neste caso. à metafísica. à física. abstraí-lo. Comentários: à lógica. é absolutamente desprovido de conteúdo ideal. compreendendo-lhes as essências. o da filosofia evidente e racional. mas sem a matéria .que representa o objeto material na sua individualidade. Sumas: Suma Contra os Gentios. desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. desindividualizada pelo intelecto agente. a idéia. O Pensamento: A Gnosiologia Diversamente do agostinianismo. e não noa advém de fora. a espécie inteligível não é a coisa entendida. Mas. é a 106 . desmaterialize. a imagem. etc. quer dizer. elaborar as ciências até à filosofia. Na espécie sensível . a essência. raciocinar. É preciso claramente salientar que. ademais. sensível e intelectual. a espécie inteligível.não oposta . mas os conhecimentos das coisas.1. Esta é a impressão. O intelecto que propriamente entende o inteligível. O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo. na filosofia de Tomás de Aquino. E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas. a idéia. isto é. que contêm um elemento inteligível. e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro. desindividualizá-lo das condições materiais. Da alma. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente. Para que tal inteligível se torne explícito. deste modo. sem a materialidade do ouro. feita explícita. O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível. baseada substancialmente em demonstrações racionais. sobre os quais exerce a sua atividade. A gnosiologia tomista . que nos garante conhecermos coisas e não idéias. ficando inacabada devido à morte prematura do autor. tem em si mesmo imanentes todas as coisas. O conhecimento sensível do objeto. mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo. a forma. é mister um intelecto agente que abstraia. à Sagrada Escritura. Questões várias. . a representação da coisa (id quod intelligitur).é empírica e racional. 2. Tem-se. mediante a espécie inteligível. julgar. Do mal. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto. acabando. sem inatismos e iluminações divinas. O conhecimento humano tem dois momentos. entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece.mais profundamente do que os sentidos. 3. é preciso extraí-lo. Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética. potencialmente. a essência. a que pertencem as operações racionais humanas: conceber. e o segundo pressupõe o primeiro. realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível. a cor do ouro percebido pelo olho. como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta. id quo intelligitur). Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma. a essência das coisas é contida apenas implicitamente. O intelecto vê em a natureza das coisas . as formas. destarte. à ética de Aristóteles.diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica . 4. no entanto. E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento. o espírito se torna todas as coisas. possui em si. representando precisamente o elemento essencial. mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens. aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo. o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera. pois. mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei. que está fora de nós. a forma do objeto material na alma. para resolver o problema do mundo. isto é. Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível.

tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. que só realmente existem (esta água. A individuação. e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. isto é. mediante a indução. porém. mas pode tornar-se todas as coisas. essência. válida para toda a realidade. porém. poucos são os nossos conhecimentos evidentes. perfeição. à discrepância entre o intelecto e as coisas. consistindo em uma falsa passagem na demonstração. a saber. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino. o espírito. uma passiva e em si mesma absolutamente indeterminada (a matéria). Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis. A forma é a essência das coisas (água. e. Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes. No entanto. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. formal. os universais. É necessária para a forma. é. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro causas . todos os conhecimentos sensíveis são. por si. em vários indivíduos. A metafísica geral .). irrealidade absoluta. de per si. Opõe-se ao ato puro a potência pura que. Daí temos a teologia racional . mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição. verdadeiros. não são inatas na mente humana. que depende do ser que é ato puro. intuitivos. Ato significa realidade. por conseqüência. Pelo contrário. Este princípio vale unicamente para a realidade material. é o princípio da matéria e de forma. os conceitos. este ouro. toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares. destarte. naturalmente é irreal. porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica. e nem sequer são inatas suas relações lógicas. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente.107 evidência. a fim de que possa existir um ser completo e real (substância). a concretização da forma. não-ente. que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. que colhe a essência das coisas. irreal sem a forma. como a potência é determinada pelo ato. a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica.material. . uma passagem necessária do universal para o particular. a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras. este vidro). contradição. A Natureza Uma determinação. A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus. este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. A demonstração é um processo dedutivo. as idéias. A ciência tem como objeto esta essência das coisas.assim chamada. A Metafísica A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. para o mundo físico. Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma). O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. intuitivos. visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes. ouro. como a potência é determinada. vidro) e é universal. como já dissemos. imperfeição. é nada. e levando. como pretendia o agostinianismo. potência quer dizer não-realidade. no campo intelectual. é a que realiza o sínolo. capacidade de concretizar-se. tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração. pela qual é determinada. etc. Não significa. especificação do princípio de potência e ato. É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro. a psicologia racional (racional. mas se tiram fundamentalmente da experiência. A matéria não é absoluto. que é ciência experimental). para distinguila da teologia revelada. e chama-se matéria. depende da matéria. o mundo.ou ontologia . outra ativa e determinante (a forma)". A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade. é esta causa final que determina a ordem observada no universo. ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas). Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração. e. devidas ao intelecto. universal e necessária. São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade.

que são materiais. dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina. ainda que imortal. e uma aplicação do princípio de causalidade. a vontade humana é livre. cresce e se reproduz). antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa). se manifestam nele também atividades espirituais. a ordem à inteligência ordenadora".porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva. Mas. "Cada uma delas se firma em dois elementos. da alma racional. espiritual. as causas segundas à causa primeira. cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível. porém. como a lógica exige. interessa apenas a alma racional. Entretanto. esta atividade tem que depender de um princípio imaterial. que pelo fato de ser imaterial. indeterminada . espiritual. assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus. e os animais (alma sensitiva: que. Se conhecermos apenas indiretamente.eficiente. uma alma só em cada indivíduo.baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato. portanto. como sendo a que transcende infinitamente o intelecto humano. pois segundo Tomás de Aquino. graças precisamente à famosa doutrina da analogia. porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa. mediante a doutrina da matéria e da forma.que é fundamental e como que norma para as outras . que pode ser a constatação do movimento. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas. Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste. o contingente ao necessário. que sem Deus seria contraditória. para proceder à demonstração. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição. de que é a forma. que diz respeito ao homem. e a alma superior cumpre as funções da alma inferior. existe uma forma só e. como os conceitos. como a mais contém o menos. que é precisamente a alma racional. Assim. entretanto esta demonstração é sólida e racional. não tem uma vida plena sem o corpo. mas unicamente a posteriori. pelas provas. é imortal. Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição. Tomás sustenta que a alma. a psicologia racional. a mais da alma vegetativa. não recorre a argumentações a priori. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas. com relação ao respectivo corpo já formado. E a primeira dessas provas . por conseqüência. A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais. partindo da experiência. é imortal. a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial. por conseguinte.e mais intimamente ainda . ou seja. O Espírito 108 Quando a forma é princípio da vida. sente e se move). que a individualiza. que é uma atividade cuja origem está dentro do ser. e também a alma. E. tirando. as . Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva. espiritual embora. Portanto. por sua vez. como o ato do intelecto e o ato da vontade. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma. a existência de Deus. As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional). que é o seu instrumento indispensável. mas é cognoscível unicamente por demonstração. mas transcendendo-o . que suspende o movimento ao imóvel. isto é. é unida substancialmente ao corpo material. espiritual. têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta. das causas. por conseguinte. entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus. assim a teologia racional tomista depende . ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina. Segundo o Aquinate.da doutrina da potência e do ato. o imperfeito ao perfeito. isto é. diversamente do dualismo platônico-agostiniano. No homem existe uma alma espiritual . não é composta de partes e. nem viver.unida com o corpo. a alma racional entende e quer. e. chama-se alma. estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico. final. Deus Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato. do contingente.ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias.

ciência e fé. mas com argumentos extrínsecos. que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. isto é. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. Filosofia e Teologia Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia. onde os princípios são. e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé. a vontade seria determinada por este bem infinito. A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência. a vontade não é condição de conhecimento. é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. é livre. em tudo quanto diz respeito à religião e à moral. O que conhecemos a respeito de Deus é. no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que. mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). não evidentes. fica. logo. agir moralmente significa agir racionalmente. que depende da vontade. se a vontade não determina a ordem moral. pois a moral tomista é essencialmente intelectualista. a Segunda forma é o estado. e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas. não com argumentos intrínsecos. a ordem moral é imanente. total. não podem determinar a sua infinita capacidade de bem. Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo. que tem como escopo o bem eterno das almas. é eliminada a doutrina da iluminação. quer dizer. Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. transcendentes à razão. essencial. razão e revelação. . Ao invés. de evidência. Segundo Tomás de Aquino. é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional. recorrendo a um argumento metafísico fundamental. mediante argumentos prováveis. Analisando a natureza humana. que Deus quis realizar no mundo. e o elemento subjetivo. e não é falso. porquanto procede da mesma Verdade eterna. isto é. que consiste numa produção do mundo por parte de Deus. mas apenas incompleto. de credibilidade (profecias. ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto. mas o estado um meio para o indivíduo. para a integridade do ato moral. a lei. livre e do nada. de que depende o bem comum dos indivíduos. não depende da vontade arbitrária de Deus. Desta sorte. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente. se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado. deve a razão desempenhar os papéis seguintes: 1. 2. segundo o sistema tomista. E compreende-se. de Deus. A primeira forma da sociedade humana é a família. etc. de que depende a conservação do gênero humano. pois. inseparável da natureza humana. conhecido intuitivamente pelo intelecto. um conjunto de negações e de analogias. Em todo caso. é resolvido com base no conceito de criação. isto é. em harmonia com a natureza racional do homem. milagres. Embora o estado seja completo em seu gênero. que não é possível demonstração racional em matéria de fé. porém. ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos. Destarte. portanto. Com base no sólido sistema aristotélico. a razão não é estranha à fé. são necessários dois elementos: o elemento objetivo. Tomás se distingue do agostinianismo. subordinado. Entretanto.109 imperfeições. com relação à fé.). o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica). toda limitação e toda potencialidade. A demonstração da fé. ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. à Igreja. a intenção. A Moral Também no campo da moral. que se atinge mediante a razão. e sim da necessidade racional da divina essência. mas tem como fim o conhecimento. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade. mistérios. E. portanto. resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. que garantem a autenticidade divina da Revelação. Não é mister acrescentar que. para nós. o que é impossível. agostiniana. portanto. A ordem moral. que é uma determinada imagem da essência divina.

ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. é o intelectualismo. este intelecto atinge.110 3. portanto. mas na visão beatífica da Essência divina. pois. que. Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica. a uma antropologia. e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas materiais. porquanto o intelecto possui o próprio objeto. ao passo que. Essa forma é enucleada. o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento humano. incompleta sem o corpo. tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana. Vice-versa. sim. A existência de Deus é uma verdade evidente? 2. a alma é concebida como a forma substancial do corpo. O conhecimento. abstraída pelo intelecto das coisas materiais sensíveis. mas ao lado e acima dos sentidos. sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma. um intelecto. tem o seu ponto de partida nos sentidos. o conhecimento humano depende de uma particular iluminação divina. esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais. e ciência em grau eminente. Tomás. em virtude da qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo sensível. unida extrinsecamente a um corpo. que conhecem mediante as espécies impressas. portanto. de certo modo. no campo católico. Deus existe? . racionalmente. por conseguinte. ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional. portanto. A característica do tomismo. mas distingue-as e as harmoniza. Ademais. por conseqüência. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé. E demandam. estas vulnerações são filosoficamente. para os agostinianos. como o início do pensamento moderno. porquanto essencialmente especulativa. e tem. o espírito humano está em relação imediata com o inteligível. O Tomismo O tomismo afirma-se e caracteriza-se como uma crítica que valoriza a orientação do pensamento platônico-agostiniano em nome do racionalismo aristotélico. A determinação. Por conseguinte. o conhecimento humano se realizava não através dos sentidos. segundo a famosa expressão  . que pareceu um escândalo. com todas as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. três questões se colocam: 1. intuição do inteligível. Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural. ao misticismo agostiniano. um inteligível. enquanto a filosofia é concebida qual construção autônoma e crítica da razão humana. e a materialidade do corpo era-lhe mais de obstáculo do que instrumento. A esta gnosiologia inatista. sim. segundo a concepção platônico-agostiniana. segundo esta doutrina. assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma correspondente metafísica e antropologia. Terceira característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo. Essa gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e. em especial. não confunde  como faz o agostinianismo . é mais perfeito do que a ação.nem opõe  como faz o averroísmo  razão e fé. o tomismo se afirma e se caracteriza como o início da filosofia no pensamento cristão e. enucleação e sistematização das verdades de fé. com a primazia do intelecto sobre a vontade. os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. Sabemos que. sem idéias inatas  é uma tabula rasa. a Revelação e. Ela pode ser demonstrada? 3. idéias inatas. efetivas vulnerações da natureza humana. precisamente. A alma é. segundo a antropologia aristotélico-tomista. pelo que a sacra teologia é ciência. uma espécie de natureza angélica. por conseguinte. Por isso a alma era concebida quase como um ser autônomo. precisamente como as inteligências angélicas. de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus. logo. A Existência de Deus é Evidente? Sobre a existência de Deus. ao contrário. mediante contato direto com o mundo inteligível. inexplicáveis. Acima do sentido há. com todas as relativas conseqüências. no homem. mas é um intelecto concebido como uma faculdade vazia. é essencialmente prática.

em compensação. devemos responder que a existência da verdade indeterminada é evidente por si mesma. etc. o conhecimento da existência é naturalmente inato em nós. Ela o pode ser em si mesma e não por nós. De fato. isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência de Deus. acreditaram que Deus fosse um corpo. em estado vago e confuso. que o todo é maior que a parte. que existe no pensamento. de acordo com o que diz Damasceno: "O conhecimento da existência de Deus é inato em todos". É o que o Filósofo (Últimos Analíticos. Por conseguinte. Ora. conhecer a existência de Deus. outros alhures. ela o pode ser em si mesma e por nós. sem conhecer Pedro. de fato. Deus. conforme diz o salmo 52. 14. o oposto da existência de Deus pode ser pensado. 1: "O insensato diz em seu coração que não há Deus". exatamente como se pudéssemos saber que alguém chega. segundo o que diz São João. Logo. tem necessidade de ser demonstrada pelas coisas que. que os termos são coisas gerais que todos conhecem. Ora. Ora. a existência da verdade é evidente. podemos responder que aquele que ouve pronunciar a palavra Deus pode ignorar que essa palavra designa uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. se alguns não sabem o que são o atributo e o sujeito de uma proposição. de fato. ela não é evidente para nós. Mas se a verdade não existe. E não se pode concluir sua existência real salvo se se admite que essa coisa existe realmente. o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento. por exemplo: o homem é um animal. outros o colocam nos prazeres. À primeira objeção devemos responder que. pertence à noção de homem. a verdade e a vida". eu afirmo que a proposição "Deus é". Com efeito.  Por outro lado. com efeito. por exemplo.111 1. a propósito dos primeiros princípios da demonstração. aquilo que ele deseja naturalmente. portanto. chamamos verdades evidentes aquelas cujo conhecimento está em nós naturalmente. Resposta  Temos duas maneiras para dizer que uma coisa é evidente. aquele que nega a existência da verdade. como é o caso dos primeiros princípios. todos sabem o que são o sujeito e o atributo de uma proposição. uma proposição é evidente quanto o atributo está incluído no sujeito. de fato. a existência de Deus é evidente. essa proposição será conhecida de todos. E se alguma coisa há de verdadeira. concorda que a verdade não existe. considerada em si mesma. mas que a existência da primeira verdade não é evidente em si mesma para nós. Mas isto não é. É verdadeiro. o todo e a parte. pelos efeitos. a verdade existe. Por conseguinte. Mas. Deus é a própria verdade.  Além disso. de imediato. Mas como não sabemos o que é Deus. aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão num mesmo lugar". quando é o próprio Pedro que chega. 2. uma vez que o atributo é idêntico ao sujeito. ninguém pode pensar o oposto do que é evidente. é seu ser. 10). Por conseguinte. Ora. Muitos. sabemos. Se. Daí resulta que o objeto designado pela palavra Deus. 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. Alguns. Ora. essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber algo que lhe seja maior. conforme nos mostra o Filósofo (Metafísica. uma vez que Deus é a felicidade do homem. propriamente falando. isto é. é certo que a proposição será evidente em si mesma. I.  Parece que a existência de Deus é evidente. pelos princípios das demonstrações. De fato. como o ser e o não-ser. a existência de Deus é evidente. menos conhecidas na realidade. no sentido de uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. . Ora. 3. isto não significa que todos representam a existência dessa coisa como real e não como representação da inteligência. À terceira. de imediato. desde que se compreenda a palavra. que Deus existe. o são mais para nós. I. De fato. quando sabemos o significado de todo o significado da parte. o homem deseja naturalmente a felicidade e. a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. ele conhece naturalmente. É por isso que Boécio diz: "Certos juízos só são conhecidos pelos sábios. isto é. De fato. estabelece-se. colocam o supremo bem do homem nas riquezas. Mas. Mesmo que sustentemos que todos entendem a palavra Deus nesse sentido. Pois. 4 e Últimos Analíticos. 6: "Eu sou o caminho. são ditas evidentes as verdades que conhecemos desde que compreendamos os termos que as exprimem. Animal. À segunda. a existência de Deus não é evidente. Por conseguinte. desde que tenhamos compreendido o sentido da palavra "Deus". é evidente por si mesma. mas não para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. a existência de Deus é evidente. também existe na realidade.

tornando-se empírico nas ciências particulares.C. se este não se lhe apresenta como um bem. necessariamente. é evidente que a vontade não quer. pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. porquanto é impossível a consistência teórica dessas ciências sem a filosofia. segundo Santo Agostinho. seu assentimento a tais verdades. Hiparco) e no II século d. Todavia. atingindo esta cidade seu maior esplendor nos séculos III e II a. A tais bens. aos primeiros princípios. Por conseguinte. graças às expedições de Alexandre. vão terminar fatalmente na prática. Entretanto: Santo Agostinho diz que a vontade é a faculdade pela qual pecamos ou vivemos segundo a justiça. na medida em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da visão divina. Arquimedes. A estas últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente. Faltando isto. por necessidade. o assentimento não é necessário. acionada por ele. na técnica. a vontade não adere necessariamente. visto que se pode ser feliz sem eles. assim o que é conhecido pela inteligência é objeto do apetite intelectual ou vontade. Por . Desse modo. na medida em que se dirige para o bem universal e perfeito. A inteligência não concede. na idade helenista declina o vigor especulativo filosófico até ao ceticismo. Por conseguinte. Concretiza-se nestas ciências o interesse teorético da época. fenômenos e fatos novos. Mas existem proposições necessárias que possuem esta relação necessária. por sua vez. ela não quer. o movimento do móvel segue. Assim como a inteligência adere. incentivado também pela descoberta de países novos. Mas o objeto dos sentidos move. Por conseguinte. necessariamente. para a satisfação das necessidades imediatas da vida empírica. Dificuldades: Isso parece exato. Mas a capacidade da vontade. o impulso do motor. e se despedaça.como Atenas foi o grande centro da especulação filosófica.C. Conclusão: Eis como podemos prová-lo. a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. Existem bens particulares que não possuem relação necessária com a felicidade. III . e daí partiam cientistas de todo o mundo civilizado. existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros princípios. tais são as proposições contingentes cuja negação não implica na negação desses princípios. necessariamente. são aqueles pelos quais o homem adere a Deus. Em Alexandria congregavam-se. As ciências particulares. no caso em que a força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que este tem de agir fica submetida à causa. necessariamente. parece que o objeto conhecido pela inteligência move a vontade necessariamente. ser felizes. assim a vontade adere ao fim último.Latino As Ciências Naturais da Idade Helenista Como já salientamos. por necessidade. necessariamente. Ora. O mesmo acontece com relação à vontade. que chega até as Índias. tudo o que deseja. A causa motora produz. não pode estar inteiramente subordinada a qualquer bem particular. tais são as conclusões demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios. Mas como existe uma infinidade de bens. ela não é necessariamente determinada por um só. a afetividade sensível. Desse modo. ela não é. (Euclides. Mas existem outros bens que implicam nessa relação. do mesmo modo como agora nós queremos. Assim como o que é conhecido pelos sentidos é objeto da afetividade sensível. Por conseguinte. tudo o que deseja. necessária e naturalmente. ela é capaz de desejar coisas contrárias. Ora. O centro principal dessa cultura científica é Alexandria . ela tende necessariamente para o bem que lhe é proposto. os animais são arrastados pelo que vêem.112 A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? conseguinte. O objeto está para a vontade assim como o motor está para o móvel. o objeto da vontade move-a necessariamente. necessariamente. Mas a vontade daquele que vê Deus em sua essência adere necessariamente a Ele. de fato Dionísio diz que o mal está fora do objeto da vontade. Solução: A vontade não pode tender para nenhum objeto. o movimento do móvel.

as regiões então conhecidas . Estrabão .C. no mundo antigo. estudou em Alexandria. A contribuição da filosofia clássica. afirmam-se no século III a. As ciências naturais progrediram entretanto na idade helenista particularmente como ciências auxiliares da medicina . primeiro a geometria . durante o saque da cidade foi morto por um soldado ignorante.C.C. até o IV século d. física. prevaleceram interesses práticos. vivido em Alexandria no II século d. Quanto à astronomia e à geografia. É o autor dos afamados Elementos de Geometria. por Hiparco de Nicéia do II século a. só com Estrabão afirmou-se o caráter antrópico da geografia.. floresceu antes e mais viçosamente aquela do que esta. A geografia começou a ser cultivada no seu aspecto astronômico-matemático. e depois a aritmética . Em Alexandria havia o famoso Museu. A matemática e a física tiveram grandes cultores em Euclides e Arquimedes. observatórios.C. Quanto à física.C.63 a. Primeiro. o sistema astronômico era composto de cinqüenta e seis esferas concêntricas.C.C. "Noli turbare circulos meos". repreendido pelo grande sábio porque perturbava seus estudos. mediante o qual a astronomia antiga foi transmitida e seguida até à Renascença. após um interesse teórico para com esta ciência. depois pelas grandes coleções do Museu de Alexandria.nascido no Ponto. em geral. jardins botânicos. O geocentrismo foi elaborado por Eudóxio de Cnido (408-355 a. ao geocentrismo. Ptolomeu julgou que devia integrar a astronomia com a astrologia. ciência no sentido estrito como a filosofia. . A seguir foi desenvolvido e corrigido por Apolônio de Perga (260-200 a.séculos II e II d.que. onde descreve sistematicamente. . tiveram incremento na idade helenista. onde passou a vida toda entre o ensino. aí dedicando-se por toda a vida a estudos e pesquisas de matemática. mais ou menos .) discípulo de Platão. salas anatômicas. em dezessete livros. Lembre-se a escola mecânica de Alexandria. voltando depois à pátria. máquinas de guerra acionadas por ar comprimido.(Ptolomeu). ciências naturais. técnicos.. A astronomia antiga conheceu a hipótese heliocêntrica. gabinetes.III e II séculos a.bibliotecas. autor do assim chamado Almagesto.).III século a.particularmente em relação com o saber enciclopédico. a qual explicava o organismo animal mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é chamada escola dos dogmáticos. Esta teoria desloca a terra do centro das órbitas astrais para a circunferência. que serão valorizadas e sistematizadas na ciência moderna. etc.C. nesta época fez grandes progressos.C..C. rico de recursos científicos . e a um certo complexo de observações empíricas.anatomia e fisiologia . que ensinou em Alexandria e em Pérgamo e foi um grande geômetra da Antigüidade juntamente com Euclides e Arquimedes. mediante a teoria dos excêntricos. Natural de Siracusa. De suas descobertas aproveitou-se também para a construção de máquinas de guerra. Apesar de ter o cônsul Marcelo ordenado aos soldados poupar a vida ao grande sábio. e também. Escreveu uma grande obra de Geografia. para poder explicar melhor e mais simplesmente os movimentos celestes. e por Aristóteles no sistema das esferas homocêntricas.Europa. a sistematização das descobertas matemáticas de seus predecessores e as suas pesquisas originais. Ao lado da antiga escola de Hipócrates. mas aderiu. as quais levaram ao conhecimento da flora e da fauna das regiões novas. em defesa de Siracusa cercada pelos romanos durante a II guerra púnica.. tal contribuição limita-se essencialmente à matemática. Ásia. teriam sido as suas últimas palavras. já cultivadas por Aristóteles (zoologia) e Teofrasto (botânica). por meio das expedições militares de Alexandre. em 113 .30 d. No presente parágrafo examinamos brevemente as principais ciências naturais cultivadas nesta época matemática.C. o sistematizador definitivo do geocentrismo é Ptolomeu. em que foram inventados relógios de água.C. aritmética e estereogrande matemático e físico. por sua vez. estudou em Alexandria e em Roma..pondo especialmente em foco a influência do clima sobre o temperamento e o caráter humanos e sobre a organização social e política. já famosa no III século a. como acima já dissemos. As ciências naturais propriamente ditas. Dos dois ramos da matemática floresceu. pouco posterior a Aristóteles e de pouco anterior a Arquimedes . medicina . jardins zoológicos. sobre as vicissitudes humanas. que seria o estudo dos influxos astrais sobre os fenômenos terrestres e. Entretanto. África . o qual viveu em Alexandria e em Rodes. dotada de jardins botânicos e zoológicos. geometria e mecânica. geografia.e que teve uma longa e gloriosa vida desde o III século a. A hipótese heliocêntrica é devida a Aristarco de Samos. Euclides viveu em Alexandria no III século a.C.C. onde se trata com grande clareza e rigor científico de geometria plana. particularmente. máquinas hidráulicas. etc. astronomia.

a umidade. Temos.. É esta uma das maiores obras da literatura latina. por exemplo.os romanos se interessaram propriamente apenas pelo segundo. despertou grande contrariedade no velho Catão. Um senatus-consulto. a especulação. apesar de ambos os povos se originarem do mesmo tronco indo-europeu. a secura. a influência grega sobre o mundo romano. juntamente com Critolaus. o epicurista foi o primeiro romano que nos deixou um escrito filosófico: Lucrécio Caro.C. porém. favorecidas pelo partido iluminado chefiado por Cipião Emiliano. metafísicos . para se aperfeiçoarem nos estudos. Atenas e Rodes. moda. base e germe de toda sólida construção especulativa e de toda verdadeira obra artística. de caráter pregmatista e moral. O gênio romano cultua a primazia da prática. mas porque o helenismo é considerado bom gosto.como passatempos. e. em 161 a. elemento indispensável da alta cultura romana.C. no foro). a escola que tenta explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças fundamentais. Após a conquista romana da Macedônia (168 a.estando à frente Catão. é impedida pelos conservadores . de permeio a toda a barbárie antiga e moderna. A sua filosofia é uma síntese do platonismo. que colimava com o temperamento prático dos romanos. que sobrevivem imperecíveis ao empírico fim político do império romano . Antes. Roma procede fatalmente para o Império. da atividade. que dominaram a cultura médica européia até além da Idade Média. Os jovens mais conspícuos das famílias aristocráticas romanas vão à Grécia e à Ásia Menor. a idéia imperial. E fazem isto não por interesses científicos. peripatético e Diógenes. sobretudo. representavam a mais alta tarefa da vida . do negotium (nos campos. esta escola fez descobertas importantes sobre a circulação do sangue e sobre o sistema nervoso. inversamente.que coisa é o sumo bem. Antes de tudo. afirma uma fisiologia teleológica. O epicurismo teve imediata. E como as obras primas do gênio grego foram a filosofia e a arte.que. a última vitória dos conservadores.. vedava a morada em Roma aos filósofos. por conseqüência. justa. Mais importante é a escola médica chamada empírica que. Com meios coativos. não podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força medicatrix. reconhece a vis medicatrix como fator essencial da terapia. que sobrevivem imperecíveis ao acontecimento empírico da queda política da Grécia. Natural de Pérgamo. a famosa embaixada dos filósofos gregos ao senado romano em 155 a. norma e fundamento de uma vida civilizada ideal.em seus motivos teóricos. e como se realiza .114 Alexandria outras escolas. razoável. estóico. segundo os gregos. eclético com tendências dogmáticas e hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d. viveu longamente em Roma na qualidade de médico imperial e deixou numerosos escritos. é. otia. da observação dos sintomas do mal e do efeito dos remédios.C. O gênio romano é oposto ao gênio grego. o maior médico da Antigüidade. acadêmico. universal. autor de De rerum natura. Foi.da filosofia grega.). finalista. lazeres. composta de Carnéades. portanto. elegância. segue-se que foi também um filósofo. acelerada pelo contato com a refinada civilização helenista.o calor. em oposição a todos os desvios passados e presentes. afirma o valor da experiência direta. a Grécia tornava-se efetivamente parte do império romano. o direito. o Antigo . considerando o estudo. Entre Roma e a Grécia estabelecem-se e desenvolvem-se intensas relações culturais. para explicar a formação e o funcionamento dos órgãos. nos quartéis. a contemplação . especulativos. dos dois quesitos fundamentais da filosofia moral grega .). políticos. começados geralmente na pátria sob direção de educadores gregos. humana. Começa. também a filosofia grega dirige-se para Roma.do Ocidente e do Oriente -. Características Gerais Julgamos seja preciso tratar do pensamento romano juntamente com a filosofia grega. testemunho do entusiasmo vivo e sincero com . Paulo Emílio.os quais justamente percebiam o perigo da perversão dos costumes na vida romana.C. porquanto também o pensamento romano depende . em oposição à orientação teórica e especulativa das escolas precedentes. Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia. rápida e grande influência em Roma. e precisamente depende da filosofia grega do terceiro período. Quíncio Flamínio. o frio. Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados no mundo biológico aos princípios da física e da metafísica. a qual segundo Plutarco. Aliás. firmadas em princípios diferentes. aristotelismo . Tenta ele sintetizar a doutrina hipocrática dos quatro humores com a física aristotélica dos quatro elementos e das quatro qualidades fundamentais da matéria . estoicismo e. assim a obraprima do gênio romano é o jus.

Roma não desnatura o seu gênio político original. de que representa uma fonte essencial. de crítica e de sistema. caput mundi. do mesmo modo que Roma sozinha construiu o seu império. traduzindo-o para a língua latina. e de Fedro epicurista. como os cristãos procurarão um padre. portanto. mas a codificação de uma longa e vasta prática. pois Roma era naturalmente feita para se tornar a capital do mundo. jurista e homem político literato e orador famoso. acadêmico.segundo a índole prática do gênio romano limita-se quase exclusivamente aos problemas morais. Cícero tem mérito também como historiador da filosofia antiga. Sêneca e Epicteto pertencem a esta classe de diretores espirituais. não é uma construção teórica. o sistema filosófico de Cícero é uma forma de pragmatismo eclético. Musônio Rufo. Ambos correspondem à índole prática do gênio romano: o primeiro condiz com o pragmatismo positivo. O direito romano não é uma filosofia do direito. humano.deixando na sombra as questões teoréticas . Os romanos. realista. Entre os numerosos estóicos da idade imperial. que. Instaurado o Império. O seu pensamento é.C.115 que foi aceito em Roma o epicurismo por um determinado grupo cultural . todavia. E. podem considerar-se quase naturalmente estóicos. moral. O pensamento grego serviu à codificação do direito romano próprio e verdadeiro. O mais destacado expoente da primeira corrente é Marco Túlio Cícero (106-43 a. moralista e escritor epigramático. Cícero foi discípulo de Filo. que constituem o caráter essencial do estoicismo. apenas Sêneca. em Roma foi o direito. que o pensamento grego pode deduzir da sistematização jurídica romana. igualmente ilustre no mundo filosófico.ainda que a obra lucreciana seja desprovida de importância especulativa.C. toda grande casa terá um filósofo. o direito romano no corpus juris justiniano é o lógico desenvolvimento do original germe jurídico. racional. Tal sistematização jurídica. político. entre estes. Direito e Educação O Direito Romano A obra universal e imperecível. natural. desenvolve-o. que fazem parte da oposição e se apegam à liberdade espiritual do pensamento. quase religiosa. têm uma personalidade própria. mas uma sistematização jurídica. surgindo na família. pelo menos os romanos da idade imperial. às vezes a única fonte. Carece de interesse especulativo. se bem que os grandes jurisconsultos romanos teriam chegado sozinhos a esta codificação. O estoicismo romano difere do estoicismo grego. de Possidônio. Certamente. que no Oriente foi a religião. a profunda praxe ascética do estoicismo recebe. E. Roma teve que superar a própria nacionalidade. descuidando quase que completamente dos problemas teoréticos.). como mais tarde terá o seu capelão. mas realiza-o.conforme a segunda escola estóica grega. por conseguinte. estóico. dada a sua cultura vasta e eclética. Não é. Sêneca é o maior como pensador. para chegar à construção de um direito universal. segundo a índole prática do gênio romano. pessimista. que no estoicismo são resolvidos segundo uma metafísica elementar e contraditória. porém. da idade imperial. implica numa concepção filosófica. Epicteto e Marco Aurélio pertencentes ao primeiro e segundo século d. aliás. numa filosofia do direito. valoriza-o. criando um verdadeiro dicionário filosófico latino. jurídico. . da idade republicana. -. uma confirmação de alto valor. assim. o segundo condiz com o pragmatismo negativo. pela sua aceitação por parte de uma mentalidade positiva. Em Atenas e em Rodes. porquanto . num direito natural.terem os estóicos romanos exercido uma função prática. prática. Ecletismo e Estoicismo As duas correntes mais importantes do pensamento romano são o ecletismo e o estoicismo. Daí uma superioridade do estoicismo romano sobre o estoicismo grego. Procurar-se-á um filósofo. otimista. sendo critério de verdade o útil moral. expande-se através da cidade e do . um ecletismo com tendências acadêmicas e para finalidades morais . aonde não pode chegar o poder exterior. paralelamente. tendo renunciado a todo o resto. na Grécia a filosofia. Seu mérito principal está no fato de que ele fez ampla e eficazmente conhecer a Roma o pensamento helênico. Não é de admirar. qual era a mentalidade romana.

em relação com a seriedade da ação. especialmente nos primeiros anos e no concernente aos primeiros cuidados dos filhos.otium. a Odisséia -. deste modo. Sentiu-se então a exigência de um novo sistema educativo. uma espécie de institutos universitários. para o espírito prático romano. antes. entre os romanos. A Educação Romana O espírito prático romano manifesta-se também na educação. As famílias das mais altas classes sociais hospedam em casa um mestre.). depois estudamse os autores gregos no texto original. escrever e calcular. a família não estava mais à altura de ministrar esta nova e mais elevada instrução. por triunfar os inovadores.pedagogus ou litteratus. e afinal. a tradição doméstica e política . o ensino da eloqüência abrangia toda a cultura.de instituição privada sem ingerência alguma do estado. Esta instrução literária partiu precisamente da cultura helênica. o treinamento ministrado pelo pai que faz o filho participar na sua atividade agrícola. em Roma. helenista-imperial.por exemplo.ludi . helenista-republicana. Um terceiro grau será. O orador romano será o tipo do homem de ação. e a religião .entre o terceiro e o segundo século a. Do direito civil chega até ao direito das gentes. . tivesse o seu lugar. que na sociedade familiar romana desempenha também as funções de senhor e de sacerdote . enfim. quando o antigo estado-cidade. diversamente do que era na Grécia. por ser "novidade contrária aos costumes e aos preceitos dos maiores". Acabam. depois. e é definida até como ludus impudentiae. Enfim.C. dadas as suas predominantes qualidades práticas.a escola do litterator onde se aprendia a ler. Essas escolas são de dois graus: elementares . logo.paterfamilias. geralmente grego . especialmente literária. os censores publicavam um decreto que condenava a escola latina de retórica (92 a. para atender às exigências culturais e pedagógicas das famílias menos abastadas. através das quais se aprendia a cultura helênica em geral. do cidadão.a escola do grammaticus . em Roma. entra e se espalha a concepção grega da vida . econômica. do guerreiro . enfim se forma pouco a pouco uma literatura nacional romana sobre o modelo formal da grega.salus reipublicae suprema lex esto. Evidentemente. até aquele direito natural.mos maiorum. que se inspirou. sumamente pobre de arte e de pensamento. constituído mediante as escolas de retórica.pietas . a instrução propriamente dita. E. germe de uma sociedade mais vasta. do político culto. A educação romana sofreu necessariamente uma profunda modificação.veio em contato com a nova civilização helênica. E. sendo a religião. enquanto a elite dos jovens romanos vai se aperfeiçoar nos centros de cultura helenista.C. e culmina no Império. nos ideais práticos e sociais. sendo. aos poucos. todavia. cuja irresistível fascinação também Roma sofreu. Na história da educação romana podem-se distinguir três fases principais: préhelenista. constituindo escolas . A sua finalidade era formar o orador. que vai da cidade ao império: os patres governam a coisa pública. Na reação dos conservadores contra a helenização da vida romana. desenvolvendo-se e expandindo-se para a nova forma do estado imperial .entendida como prática litúrgica. a que chega a filosofia pelos caminhos da razão. médias . e não simples distração . e a cultura helênica e os mestres gregos afluem a Roma sempre mais numerosos e bem acolhidos. se estudavam os autores das duas literaturas. vão-se.onde se ensinava a língua latina e a grega. Nesta obra educativa colaborava também a mãe.porquanto estava pelo menos nas possibilidades do caráter latino. E tudo isso sob uma disciplina severa. que surgem com uma diferenciação e uma especialização superior da escola de gramática. prático-social era o próprio conteúdo teorético da educação. A primeira e fundamental instituição romana de educação é a família de tipo patriarcal. porquanto a carreira política representava. concisas e conceituosas . é o pensamento grego que penetra e se difunde. do direito até à filosofia. através do pensamento. a princípio é a literatura grega que se difunde em Roma. Primeiro são traduzidas para o latim as obras literárias e poéticas gregas . coisa muito séria. militar e civil. .que regulavam os direitos e os deveres recíprocos naquela elementar mas forte sociedade agrícola-político-militar. que se reduzia a uma aprendizagem mnemônica de prescrições jurídicas. especialmente em Atenas. em que a instrução. o ideal supremo.negotium e. para os romanos. Essencialmente práticos e sociais são os meios: o exemplo. portanto. E. O fim da educação é prático-social: a formação do agricultor. Educador é o pai.116 estado. em que a cultura é instrumento de ação . mais considerada a mulher do que na Grécia. mediante a literatura.as leis das doze tábuas .

Tentar-se-á a síntese filosófica do dualismo platônico. o que. o direito e a filosofia. Por certo. Deste problema não se acha.cuja figura ideal já delineara Cícero no De Oratore. do racionalismo aristotélico. porquanto foi ela levada. políticos.117 Juntamente com a organização do império organizam-se também as escolas romanas. Um lugar de destaque ocupam as normas e as exercitações de eloqüência. províncias danubianas. aqueles povos Espanha. místico. expõe o processo de formação do orador . relativamente ao espírito prático-social romano. em doze livros. grego. da realidade absoluta. o primeiro docente pago pelo estado. Assim.e dos oradores . que muitas sobreviveram à queda do império romano ocidental. O teórico da pedagogia romana pode ser considerado Quintiliano. Trata-se. E o resultado foi fecundo também para a cultura como tal. Grã-Bretanha. do espírito. imediato. o êxtase. porém. nos grandes institutos universitários. da morte. um instrumento de penetração e de expansão da língua e dos jus romano. do monismo estóico. do pecado .e as noções necessárias para este fim. Na Instituição Oratória. das religiões orientais. propondo programas e métodos que foram em grande parte adotados sucessivamente nas escolas do império. procura-se-lhes a solução mediante uma metafísica completada pela religião. representa uma purificação da cultura no sentido especulativo.a que o helenismo não pudera chegar. da dor. A instituição escolástica compreende os dois graus tradicionais de gramática e retórica. depois o estado passa a favorecer e promover a instituição de escolas municipais de gramática e de retórica nas províncias. se recorre à concepção de uma queda arcana. mas. volta. uma explicação plena. especialmente propensas a estes problemas e fecundas em soluções do mais vivo interesse. preparadora dos esplêndidos renascimentos posteriores. Faz Quintiliano uma exposição completa. Já não se trata. vindo a faltar a liberdade.. transformando-se em escolas eclesiásticas graças ao monaquismo cristão. um meio. para a revelação. Um dos principais motivos de interesse imperial pela cultura e a sua difusão foi o fato de se ver nela um eficaz instrumento de romanização dos povos. e a demoliu paulatina e criticamente nos grandes sistemas clássicos. enfim são fundadas cátedras imperiais. e de uma purificação e libertação ascética e mística. O problema da vida é agudamente sentido. no seu término. significa uma decadência para o diletantismo.C. original. para o engrandecimento do império. Seja como for. a interpretação dos poetas . dianoético. Gália. No período religioso permanecem os problemas do período ético. Germânia. Nasceu na Espanha no II século d. No curso de retórica ensinam-se a interpretação dos historiadores .Cícero -. e mais precisamente . e. homérica. pelo fato de ser profundamente sentido o problema do mal. em suma. ao contrário. intuitivo. transformando-se em meios de ornamento intelectual entre os lazeres de uma aristocracia cultural. as escolas de retórica perdem a função prática e social. olímpica. foi professor de retórica em Roma. especialmente de direito. absolutamente falando. e conservaram acesa na noite barbárica a chama da cultura clássica. da velha religião grega. A desconfiança do conhecimento racional impede à evasão para um conhecimento supra-racional. que partiu de uma religião . África setentrional . por conseguinte. Período Religioso Características Gerais O quarto e último período do pensamento grego denomina-se religioso. No curso de gramática ensinam-se a língua latina e a língua grega. embora modestamente. porque o espírito humano procura a solução integral do problema da vida na religião ou nas religiões.que nem sequer se propõe. vem a faltar o interesse político da cultura. o fim supremo da educação romana. místicas.do mal. devido aos seus limites naturalistas. de um conseqüente encarceramento do espírito no corpo.positiva -. o pensamento grego. Tais escolas municipais foram tão vitais nas províncias.Vergílio e Homero . de resolver os grandes problemas transcendentes . humanistas. absolutamente incapaz. segundo o espírito prático-político romana. racionalmente.Lívio . enquanto fornecem o conteúdo essencial à arte oratória. misteriosóficas. o estado romano mostra agora apreciar a cultura. para a religião. mas singularmente acentuados. Começam os imperadores romanos por conceder imunidade e retribuições aos mestres de retórica ainda docentes em casas particulares. semitas. quando Vespasiano era imperador.

Entretanto. tem rumos precursores nos primeiros séculos da era vulgar: I . cuja mais notável expressão é Jâmblico. aristotélico-tomista. da alma estóica do mundo. pois "ser" e "dever ser" são a mesma coisa. .O Pensamento Moderno Transcendência Cristã e Imanência Moderna Achamos a característica específica do pensamento clássico na solução dualista do problema metafísico. que tenta a síntese do pensamento grego com a revelação hebraica. o "dever ser" coincide com o "ser". Scoto Erígena. à concepção moderna. do logos racional aristotélico. representa teoricamente uma ruptura. O centro deste movimento filosófico é Alexandria do Egito.tal transcendência. com a sua extrema transcendência da divindade. cultural. tem seu precedente lógico no panteísmo neoplatônico. O pensamento moderno. mas desenvolvido no pensamento cristão mediante o conceito de criação. em virtude da qual é ainda afirmada a realidade e a distinção entre o mundo e Deus. por outra parte. também historicamente. terminará no monismo emanatista. etc. com a sua radical separação entre o mundo sensível e inteligível. o pensamento grego. sede do famoso Museu. todavia. com a sua doutrina de uma queda original.). e a sua parte vital tinha sido transfundida e valorizada no cristianismo. em Filo de Alexandria. Tal dualismo não será negado. . O sistema metafísico predominante no período religioso é o neoplatonismo. no novo pitagorismo. É evidente que a passagem da concepção dualista (clássica) à concepção teísta (cristã) é um desenvolvimento lógico. mas são separados entre si: Deus não conhece. mas Deus é feito criador e regedor do mundo: o mundo não pode ter explicação a não ser em um Deus que transcende o mundo. a política) sua integração lógica. de que a filosofia religiosa neoplatônica forma como que a estruturação ideal. helênico-escolástico. intercâmbio e polêmicas. e o seu maior expoente é Plotino (III século d. em uma característica espécie de trindade divina. com a sua religiosidade e o seu misticismo. mas Deus é resolvido num mundo natural e humano. não cria. IV . a história.oriental. e também a idade da patrística cristã.já tinha sido assimilado pelo pensamento cristão patrístico. Com a escola ateniense acaba. a idade do império romano. o pensamento grego . a passagem da concepção tradicional. religiosos e políticos. que  após ter-se afirmado como extrema expressão do pensamento clássico  permanece através de todo o pensamento cristão em tentativas mais ou menos ortodoxas de síntese entre cristianismo e neoplatonismo (Pseudo Dionísio. O último período do pensamento grego abrange os primeiros cinco séculos da era vulgar: substancialmente. 118 . pelo menos . 2°. Nesta síntese metafísica prevalece o platonismo.obra-prima deste período religioso . mas a este supra-ordenada. em uma forma de triteísmo.ocidental. característica do clássico dualismo grego. especialmente o pensamento da Renascença. pelo encerramento dessa escola ordenado por Justiniano imperador (529 d.). não se pode mais falar em transcendência de valores teoréticos e morais. imanentista. finaliza em uma concepção monistaimanentista do mundo e da vida: não somente Deus e o mundo são a mesma coisa. cuja vida e pensamento nos foram transmitidos pelo discípulo Porfírio. Existem o mundo e Deus. o pensamento tradicional.na assim chamada escola siríaca. cujo maior expoente é Plutarco de Queronéia. a técnica. encontrará nos grandes valores da civilização moderna (a ciência natural. Consequentemente. interpretada à luz do pensamento grego.do transcendente divino platônico. II . teísta.C.C. Mestre Eckart. religiosa do mundo cosmopolita helenista-romano. e exerceu também certa influência política com o imperador Juliano Apóstata. Pelo contrário. que sistematizou definitivamente e transmitiu aos pósteros o pensamento neoplatônico. encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente. O pensamento moderno. cujo maior representante é Apolônio de Tiana. não governa o mundo. e no platonismo religioso.na chamada escola ateniense. O neoplatonismo. ao contrário. E também teve o neoplatonismo desenvolvimento nos últimos séculos do império romano: 1°.o pensamento platônico.). capital comercial. que se manifesta especulativamente no desenvolvimento tomista de Aristóteles. com que o neoplatonismo tem contatos. E. todavia. cuja mais notável expressão é Proclo. Mas na metafísica neoplatônica .

nos séculos de ferro. indiferente à filosofia. devendo esta última fornecer à primeira a sua rica contribuição de fatos. em adequação à realidade. como o Sacro Império Romano. romano.. Nem se deve esquecer que precisamente na comuna medieval se encontra a primeira origem do estado moderno. ao passo que admitia a possibilidade de uma ciência natural diversa daquela do seu tempo. a favor da velha ciência natural aristotélica. como tal. o comércio. pelo fato de que ninguém estava em condições de fazê-lo. mas incapaz de resolver os problemas máximos da vida. religiosos  que pode decidir do valor de uma civilização. opondo à sua elementar e fantástica ciência da natureza a ciência moderna com suas grandes aplicações técnicas. mas não leigo. descuidada. mas abstrata. especulativo. metafísico. e. mas cristão. interiormente organizado e politicamente soberano. E destes conhecimentos experimentais e matemáticos de fenômenos naturais derivava ele as primeiras grandes aplicações técnicas da ciência moderna. morais. quando os homens e os tempos estivessem maduros. desde os comunas medievais até às grandes monarquias européias do século XVII e ainda além. O que dissemos da ciência. etc. mas empírico e técnico. E é na Idade Média que se formam as grandes nações modernas. o novo tomismo. compreensiva e ativa com respeito ao Estado. para construir uma unidade política grandiosa. e. à metafísica. ingênua. por exemplo. imanentista. e foi conservada para a idade moderna. a nova escolástica. ateu. que é a cristã e já teve a sua expressão clássica na Cidade de Deus de Agostinho é perfeitamente conciliável com a indagação histórica moderna. decadente. alimentou suspeitas e combateu longamente contra a nascente ciência moderna. pois. como tal. experimentalmente provados e matematicamente conexos. a este respeito. porquanto esta representa uma valor infra-filosófico. Em seguida virá a . isto é. Poder-se-ia fazer notar que tal efetiva distinção e relativa autonomia do Estado (e do laicado) com respeito à Igreja (e ao clero) foram alcançadas através de uma longa luta contra o predomínio e a invasão destes últimos. Mas cumpre ter presente que. como. Noutras palavras. e sim os fenômenos naturais. no período bárbaro. Mas a concepção medieval da história. a instrução cultural. o seu interesse pela concretidade. não teve dificuldade alguma em aceitar toda a ciência natural moderna. pois não é a ciência natural  capaz apenas de resolver os problemas da vida material. de fato. que afirmava ser o objeto da ciência não as essências metafísicas das coisas. o seu profundo senso histórico. Galileu Galilei. as comunicações. insuficiente. Tal era também o pensamento do grande fundador da ciência moderna. sem o qual não é possível a história verdadeira e própria. a igreja romana e o clero católico desempenharam funções também leigas e profanas. E é devido a isso que a civilização não pereceu. a assistência hospitalar. se. podemos dizê-lo analogamente da história. Costuma-se inculpar a civilização medieval por ter aniquilado o estado nacional concreto. não se podem achar causas racionais dessa mudança. uma utopia universalista. E a ciência natural da Idade Média não está absolutamente em conexão com o pensamento filosófico medieval. mas apenas práticas e morais. Os Precedentes do Pensamento Moderno Dada a ruptura lógica entre o pensamento tradicional. Deus. isto não foi senão uma expressão exterior daquela estrutura profunda que se chama a cristandade: equivalente civil da igreja católica. a atitude da Igreja. a Igreja católica estava apta e disposta  a prescindir-se das intenções dos homens e de suas fraquezas fatais  a livrar-se desses cuidados estranhos gravosos e perigosos para o seu ministério transcendente e sobrenatural. na alta Idade Média. No entanto. teísta. imanentista. sem dúvida. e até a agricultura. naturalmente. é na Idade Média que se formou o Estado distinto da Igreja. Aliás. a indústria. Além disso. Basta lembrar. católico. Aplicações técnicas que possuem também um valor espiritual. capaz de abraçar os mais diversos organismos políticos. a escolástica pós-tomista. era escasso na mentalidade medieval o senso da concretidade e da individualidade. bem como o laicado distinto do clero e organizado civilmente em graus de corporações. orgânico. o próprio Tomás de Aquino julgava logicamente que a filosofia podia ser uma só. A historiografia medieval é. a metafísica tomista. praticamente liberal.119 Não se julgue demolir a filosofia medieval. e o pensamento moderno. espirituais. o do domínio natural do homem sobre a natureza: contanto que o homem reconheça. O valor da ciência moderna não é teorético. acima de si e de tudo.

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justificação teórica da nova atitude espiritual, que será constituída por todo o pensamento moderno em seu desenvolvimento lógico. O grandioso edifício ideal da Idade Média, em que a religião e civilização, teologia e filosofia, Igreja e Estado, clero e laicado, estavam harmonizados na transcendente unidade cristã, foi, de fato, destruído pelo humanismo imanentista, que constitui o espírito característico do pensamento moderno. Este pensamento começa com a prevalência dada aos interesses e aos ideais materiais e terrenos, com o conseqüente esquecimento dos interesses e ideais espirituais e religiosos; e torna-se completo com a justificação dos primeiros e a exclusão dos segundos. É precisamente o que acontece com os homens inteiramente entregues aos cuidados mundanos: primeiro se esquecem das coisas transcendentes, e, em seguida, querendo ser coerentes, negam-nas. Entretanto, se não há causas lógicas do pensamento moderno, há, porém, precedentes especulativos, que, valorizados pela nova atitude espiritual, se tornarão fontes especulativas do próprio pensamento moderno. Tais precedentes especulativos podem ser resumidos desta forma: o panteísmo neoplatônico, o aristotelismo averroísta e o nominalismo ocamista, os quais foram-se afirmando contemporaneamente a uma gradual decadência do genuíno pensamento escolástico (racional, teísta, cristão), especialmente tomista, com que se acham em oposição. E tal decadência cultural é acompanhada, por sua vez, pela decadência da Igreja e do Papado  o exílio avinhonês e o cisma do ocidente. O panteísmo neoplatônico teve a sua primeira grande manifestação, no âmbito do cristianismo, com Scoto Erígena. Tentará afirmar-se de novo na própria época de Tomás de Aquino com Mestre Eckart, o iniciador da mística alemã. E receberá uma nova original elaboração do Humanismo com Nicolau de Cusa, que não pouco deve aos precedentes; e, sobretudo, com Giordano Bruno, o maior pensador da Renascença, o qual depende, por sua vez, de Nicolau de Cusa. O averroísmo latino afirmara na Idade Média a sua famosa doutrina das duas verdades: o que não é verdadeiro em filosofia pode ser verdadeiro em religião e vice-versa. Em uma idade cristã, como a Idade Média, a afirmação religiosa podia Ter a prevalência sobre a negação filosófica; obscurecendo-se a fé, como na Renascença, devia prevalecer uma concepção anti-cristã, aristotélica ou não. O occamismo marca a conclusão lógica da decadente esolástica pós-tomista, apesar de seus partidários se comprazerem em denominá-la via modernorum. E, ao mesmo tempo, apresenta um elemento fundamental da filosofia moderna com o seu empirismo e nominalismo. Nicolau de Cusa, Telésio, Bruno, Campanella serão também herdeiros do nominalismo empirista de Occam, que se combina, nos sistemas deles, com uma metafísica aventurosa de cunho particularmente neoplatônico. Como é sabido, segundo Occam, o conhecimento humano é reduzido ao conhecimento sensível do singular e, portanto, ao nominalismo. Conseqüência lógica e consciente é a destruição da metafísica, que transcende o mundo empírico, sensível, bem como da ciência, que é entretecida de conceitos, impossíveis de nominalismo, de sorte que se esvai da teodicéia, porquanto não se pode provar racionalmente a existência de Deus, nem conhecer a sua natureza; e a psicologia racional, pelo mesmo motivo. E, consequentemente, torna-se impossível a ética racional, porque  sendo desconhecida a essência de Deus e destruída a do homem  a moral fica reduzida a um conjunto de preceitos arbitrários de Deus, que o homem tem que observar por fé. Occam procurará salvar-se do ceticismo  conclusão do seu sistema, com todas as conseqüências práticas  mediante a fé. Entretanto é uma posição insustentável, porquanto a fé  não podendo mais ser um racional obséquio  torna-se uma adesão cega. Em época de religiosidade ainda viva, esse fideísmo ocamista pôde praticamente ficar de pé. Mas ruirá quando a fé vier a faltar, deixando o terreno livre ao empirismo, ao naturalismo, ao nominalismo, ao ceticismo, imanentes ao ocamismo, e que constituirão tão grande parte do pensamento da Renascença, da Reforma e também do pensamento posterior. Os Períodos do Pensamento Moderno Este grande movimento especulativo, que é o pensamento moderno, naturalmente não se manifesta na sua significação imanentista senão na plenitude do seu desenvolvimento. Portanto, manifesta-se através de uma série de períodos, que se podem historicamente (e dialeticamente) indicar assim:

1.  Antes de tudo a Renascença, em que a concepção imanentista, humanista ou naturalista, é potentemente afirmada e vivida. Trata-se, porém, de uma afirmação ainda não plenamente consciente e sistemática, em que o novo é misturado com o velho. Este, muitas vezes, prevalece, ao menos na exterioridade da forma lógica e literária. A Renascença é preparada pelo Humanismo, e tem como seu equivalente religioso a reforma protestante. 2.  A este primeiro período do pensamento moderno, que, substancialmente, abrange os séculos XV e XVI, se seguem o racionalismo e o empirismo, que abrangem os séculos XVII e XVIII. Após a revolução renascentista e protestante, sente-se a necessidade de uma séria indagação crítica, não para demolir aquelas intuições revolucionárias, mas, ao contrário, para dar-lhes uma sistematização lógica. É o que fará especialmente o racionalismo em relação ao conhecimento racional. 3.  E outro tanto fará e empirismo em relação ao conhecimento sensível. Empirismo e racionalismo são tendências especulativas, gnosiológicas, opostas entre si, como a gnosiologia sensista está certamente em oposição à gnosiologia intelectualista. Entretanto, concordam em um comum fenomenismo, pois, em ambos, o sujeito é isolado do ser e fechado no mundo das suas representações. Não se conhecem as coisas e sim o nosso conhecimento das coisas. 4.  Empirismo e racionalismo, após uma lenta, gradual e silenciosa maturação, encontrarão uma saída prática, social, política, moral, religiosa no iluminismo e, portanto, na revolução francesa (Segunda metade do século XVIII); esta representa a concreta realização do pensamento moderno na civilização moderna. Esse movimento começa na Inglaterra, triunfa na França e se espalha, em seguida, na Alemanha e na Itália. Os Pensadores Renascentistas Os Pensadores Do fundo eclético-neoplatônico do pensamento da Renascença se destacavam algumas figuras de maior vulto, cuja série começa com Nicolau de Cusa e termina com Giordano Bruno. É uma nova concepção filosófica do mundo e da vida, ainda não bem claramente esboçada, de que seus próprios autores, às vezes, não têm clara consciência. É uma época de transição, em que novo e velho se entretecem mutuamente. Os sistemas filosóficos da época conservam a linguagem (latim) e a estrutura (silogística) da idade precedente. As intuições e afirmações naturalistas, humanistas e imanentistas estão ao lado das profissões de fé católica, feitas por motivos práticos, éticos e utilitários. Entretanto, debaixo dessas aparências, germina o pensamento moderno. É o crepúsculo que prenuncia a alvorada de um novo dia. Nicolau de Cusa

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Universidade de Heidelberg, foco de nominalismo, e na de Pádua, onde aprendeu a matemática, o direito, a astronomia. Ordenado padre, teve parte notável no concílio de Basiléia (1432); foi, a seguir, legado pontifício, cardeal, bispo. Viveu seus últimos anos na Itália, onde faleceu em 1464. As obras fundamentais de Nicolau de Cusa são três: De docta ignorantia, De conjecturis, Apologia doctae ignorantiae. As fontes prediletas e principais são o misticismo alemão (Mestre Eckart), o platonismo e o neoplatonismo cristão (Santo Agostinho, Pseudo Dionísio, Scoto Erígena, São Boaventura), e os autores de tendência neoplatônica, em geral. Nicolau de Cusa admite, acima dos sentidos, dois graus do saber humano; a ratio e o intellectus. A ratio  ou intelecto discursivo  é a faculdade que abstrai das noções particulares os conceitos universais, e forma, em seguida, os juízos e os raciocínios. O seu objeto próprio é o conhecimento da multíplice e do finito. No entanto, também a coisas finitas são imperfeitamente representadas pela ratio, cujo conhecimento se realiza mediante conceitos universais, ao passo que a realidade é constituída por seres

Nicolau Krebs nasceu em 1401 em Cusa, de família modesta. Foi educado junto dos Irmãos da vida comum em Deventer, onde sofreu a influência do misticismo alemão; em seguida estudou na

individuais. Deus, uno e infinito, não pode certamente ser conhecido pela ratio, cujo objeto é o multíplice e o finito. Acima da ratio está o intellectus, atividade supra-racional iluminada pela fé ou pela mística, cujo objeto próprio é o Uno e o infinito, Deus. O agnosticismo de Nicolau de Cusa é, portanto, corrigido pelo fideísmo e pelo misticismo. A docta ignorantia consiste precisamente na consciência dos limites e da relatividade da ratio, cujas deficiências são supridas pelo intellectus. Entretanto, esta iluminação é sobrenatural e nada tem que ver com a filosofia, nem é de modo nenhum fundamentada por Cusano. Admitindo, pois, ele, que a razão não nos dá a realidade, segue-se logicamente que a sua filosofia deve finalizar no agnosticismo gnosiológico, e no panteísmo metafísico. Por certo, o piedoso cardeal foi, na intenção, ortodoxo, teísta, católico. Entretanto, o seu sistema encerra fatalmente uma tendência para o panteísmo. De fato, foi ele acusado de panteísmo emanatista, quando ainda vivia. Bernardino Telésio Mais claramente manifesta-se o imanentismo da Renascença  em seu aspecto naturalista  em Bernardino Telésio. Nasceu em 1509 em Cosenza, estudou especialmente em Pádua e faleceu em 1588. A sua obra fundamental é De rerum natura iuxta propria principia. O pensamento de Telésio representa uma sistematização do naturalismo da Renascença: a saber, uma tentativa para explicar a natureza mediante os princípios universais imanentes à mesma natureza. O mundo natural é constituído de matéria e de força. A matéria é homogênea, preenche o espaço (que existe antes da matéria) e é por si mesma inerte. A força anima, penetra, move, transforma continuamente toda a matéria. O intelecto é reduzido aos sentidos, bem como o conceito universal é reduzido à sensação. Como é naturalizado o pensamento, é também naturalizada a vontade, no sentido materialista e hedonista. Entretanto, haveria no homem também uma alma que transcende a natureza e o mundo material, criada e infundida por Deus. Por conseguinte, o homem pode pensar e querer o supra-sensível, o eterno, e dominar com a vontade livre as tendências naturais. Desse modo, acima da ciência é posta e justificada a fé e a revelação. Giordano Bruno na Ordem dos Dominicanos aos 15 anos. Acusado de heresia e afastado de sua ordem, iniciou uma vida giróvaga através da Europa. De volta a Veneza, foi processado pelo tribunal da Inquisição e reconheceu os seus erros. Entregue à Inquisição romana, foi de novo processado; mas, desta vez, recusou qualquer retratação e foi condenado à morte, que lhe foi infligida em 1600. As obras principais de Bruno são: De la causa principio e uno; De l'infinito, universo e mondi; Eroici furori; De immenso et innumerabilibus. As fontes de Bruno são: o monismo eleático e heraclíteo; o atomismo democríteo; o panteísmo estóico; o emanatismo neoplatônico; o naturalismo telesiano. A metafísica de Bruno é decididamente monista, pampsiquista e pan-materialista. A realidade é una e infinita, constituída por dois princípios fundamentais, ativo um  a alma do mundo  , passivo o outro  a matéria. São dois aspectos da mesma substância. A alma do mundo é concebida como sendo inteligente, ordenadora do mundo; mas não é transcendente, como o motor primeiro de Aristóteles e o Deus do cristianismo, e sim imanente ao mundo, de que é precisamente a alma. O Deus de Bruno é, pois, esta alma do mundo, concebida como imutável e infinita, gerando eternamente o mundo finito e que se acha em perpétuo vir-a-ser. As almas particulares não passam de individuações passageiras dessa alma cósmica. Acima desse Deus imanente, também Bruno afirma a existência de um Deus transcendente, apreendido só por fé, trata-se, porém, de uma fé imanente naturalista, bem diversa da fé cristã. Com a metafísica de Bruno estão em conexão a sua gnosiologia e a sua moral. Na sua teoria do conhecimento Bruno distingue  neoplatonicamente  quatro graus, em ordem hierárquica ascendente. São eles:

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Giordano Bruno é a maior expressão do imanentismo renascentista. Nasceu em Nola em 1548, entrou

imanentismo e o humanismo do pensador. Bruno, em oposição à moral ascética e transcendente do cristianismo, sustenta que o homem realiza a sua natureza, atinge a sua perfeição no furor heróico, a saber, na sua imanente e jubilosa participação racional na vida do Todo-um. É, pois, natural, que Bruno considere toda religião histórica, positiva (inclusive o cristianismo), como um saber infra-racional, mítico, simbólico, útil para dirigir moralmente o vulgo ignorante, e não como uma revelação supra-racional de um Deus transcendente. Pois não é isto possível no seu sistema imanentista. Tomás Campanella dos Dominicanos. É o maior continuador de Telésio. Várias vezes processado por heresia, foi, porém, absolvido; entretanto, condenaram-no por motivos políticos e passou no cárcere 27 anos, sendo, enfim, libertado. Suas obras principais são: Civitas solis; Universalis philosophia seu metaphisicarum rerum iuxta propria dogmata partes tres; De sensu rerum et magia libri X. As fontes principais do seu pensamento são: o naturalismo telesiano e o idealismo neoplatônico. Mais do que os pensadores precedentes, Campanella parece oscilar entre imanentismo e catolicismo, devido ao fato de que se acha ele já no clima espiritual da contra reforma católica. E como Giordano Bruno prenuncia a Spinoza, assim Campanella prenuncia a Descartes, Malenbranche e Leibniz, marcando destarte a passagem da Renascença à Idade Moderna. Quanto à gnosiologia, Campanella diz o seguinte: Admite ele um sensus inditus e um sensus additus. O primeiro oferece um conhecimento imediato de si mesmo; é um conhecimento fundamental, certíssimo, visto que o objeto coincide com o sujeito. Entretanto, o conhecimento do eu, a consciência, revela imediatamente as limitações do eu e, logo, a existência as coisas que limitam o eu. Estas coisas são conhecidas pela percepção externa, isto é, pelo sensus additus que nos dá um conhecimento mediato das coisas. Este, porém, não nos revela a natureza das coisas, e sim o sujeito modificado pelas coisas. Ainda inferiores ao sensus additus, pela certeza, são o intelecto e a razão, porque ainda mais se afastam do sensus inditus, da imediata intuição de si mesmo. A razão, a saber, o poder de inferir o semelhante do semelhante, é um sentido imperfeito; o intelecto, a saber, o conhecimento do universal é um sentido elanguescido, pois o universal é uma noção genérica e confusa, cujo valor é unicamente prático, cômodo para resumir vários particulares. Campanella, como Telésio, desvaloriza a razão e o intelecto e admite, ao lado e acima deles, um princípio divino, uma mente, o pensamento, que desempenha a função de garantir o nosso conhecimento e libertar-nos do ceticismo. Quanto à metafísica, salientamos que Campanella afirma de novo e acentua a animação universal, o pampsiquismo telesiano. Propriamente, a metafísica de Campanella é a doutrina dos primeiros princípios do ser; são eles o poder, a sabedoria, o amor. Tais princípios são absolutos e puros em Deus, relativos e imperfeitos nas criaturas. Daí as coisas e o espírito serem uma mistura de ser e de não-ser (ser limitado), ao passo que Deus é puro ser (ser infinito). Sobre essa nossa limitação ontológica, Campanella alicerça a religião, que é aspiração do ser limitado para o ser infinito. Para Campanella, a religião fundamental é a religião natural, racional; as religiões positivas, históricas, seriam expressões empíricas da religião natural. A característica essencial da própria revelação cristã e da igreja católica seria a restauração da religião natural, racional, universal, obscurecida pela ignorância e pela concupiscência. Portanto, o cristianismo seria reduzido à religião natural, a que a Renascença em geral aspira. Tal concepção filosófico-religiosa de Campanella teve uma expressão prática, política e pedagógica, na Cidade do Sol (Civitas solis), em que é exposta a sua utopia teocrático-comunista. Imagina ele uma república ideal, professando uma religião natural, governada por leis universais, em que, à maneira de Platão, o sábio é, ao mesmo tempo, monarca e sacerdote. Mais tarde, essa sua utopia teocrático-

os sentidos, cujo objeto é o sensível, e a verdade que manifesta é mera aparência; a razão, mediante a qual a verdade é atingida por processo dialético, discursivo, sucessivo; o intelecto, que tem a intuição imediata da verdade; a mente, que atinge a verdade na sua unidade e simplicidade absoluta. Quanto à moral deve-se dizer o seguinte: na moral de Bruno aparece de um modo característico o

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Tomás Campanella nasceu em Stilo, na Calábria, em 1568, e também ele entrou ainda moço na ordem

limitações ao desenvolvimento lógico e despreocupado do racionalismo. desenvolvendo o conceito de substância cartesiana. sobre a poética de Boileau. grande físico e matemático. E. Baruch Spinoza O racionalismo cartesiano é levado a uma rápida. extrema conclusão por Spinoza. porém (se bem que. o papa é concebido mais como chefe concreto de uma religião natural. Leibniz. próprios daquela filosofia. lógica. a ética de La Bruyère. mais ou menos ortodoxos. O problema. Cabe-lhe a prioridade de várias teorias. a saber. pelo que há uma só verdadeira e própria substância.espírito geométrico . uma forma . o cartesianismo forjou a mentalidade (racionalista-matemática) dos maiores filósofos até Kant. manifestam uma mentalidade fantástica. em parte. em que falta a experiência de uma vida social-concreta. as oposições maiores contra o cartesianismo surgiram evidentemente no ambiente eclesiástico e político. escritas no cárcere. de outro lado introduzindo na corrente racionalista-cartesiana uma preformada concepção neoplatônica de Deus. uma concepção panteísta-emanatista. a saber: a relação entre substância finita de um lado. Brás Pascal. Descartes teve seguidores também em determinados meios religiosos de orientação platônicoagostiniana. atribuídas depois a Descartes e Bacon". do que como chefe de uma religião positiva e sobrenatural. jansenista).124 filosófica tomará uma forma teocrático-católica. sobre a arte de Racine e de La Fontaine. utópica. O desenvolvimento lógico do cartesianismo é representado por alguns grandes pensadores originais: Spinoza. Malebranche e Leibniz encontram. no entanto. e entre espírito e matéria do outro. suas obras. nas suas preocupações práticas. Entretanto. Nesses ambientes houve a intuição de um perigo revolucionário para a religião e a ordem social. Daí surgiram o ontologismo e o ocasionalismo de Malebranche. Malebranche. a divina. das relações entre o espírito e a matéria é resolvido por Spinoza. o pensamento de Bayle. diretamente até Kant e indiretamente até Hegel. mas de um profundo sentimento religioso e cristão. Entretanto. quer católico quer protestante. religiosas e políticas. afastado da vida real. Ladeia estes três pensadores uma turma numerosa de cartesianos mais ou menos ortodoxos. Campanella viveu longamente na prisão. particularmente na França na segunda metade do século XVII. ao contrário. Une os dois na mesma substância segundo um paralelismo psicofísico. Significativa é a influência que o criticismo e o racionalismo cartesianos exerceram sobre a cultura do século de Luís XIV. O problema das relações entre Deus e o mundo é por ele resolvido em sentido monista: de um lado. científica . pois. a harmonia preestabelecida de Leibniz e o panteísmo psicofísico de Spinoza. Spinoza é a mais coerente e extrema expressão do racionalismo moderno depois do fundador e antes de Kant. E também propôs os grandes problemas em torno dos quais girou a especulação desses filósofos. o século de ouro da civilização francesa. como o cristianismo.que vale para o mundo natural mas não chega até Deus. Baruch Spinoza Considerações Gerais O pensamento de Descartes exercerá uma influência vasta no mundo cultural francês e europeu. por causa do criticismo. quanto especialmente pelo espírito crítico. parece ter tido intuição da falha da filosofia cartesiana. Os dois centros principais desse sincretismo são representados pelo Jansenismo e pelo Oratório. mecanismo e infinidade do universo. implícito nas premissas do sistema e realizado apenas parcialmente pelo filósofo. Descartes teve numerosos adversários e críticos no campo filosófico. pelo método racionalista. uma animação universal. "Tumultuária e aventurosa em muitos pontos  escreve Leonel Franca  a obra de Campanella encerra não poucas idéias aproveitáveis. idealista. fazendo da matéria e do espírito dois atributos da única substância divina.que leva até o cristianismo. com o papa à frente. E exerceu tal influência não tanto como sistema metafísico. entre os quais Hobbes. À razão matemática. contrapõe a razão integral .esprit de finesse .

Após alguns meses de cama. com base especialmente nas Sagradas Escrituras. Demonstrando muita inteligência. intelectualmente. As obras filosóficas principais de Spinoza são: a Ethica (publicada postumamente em Amsterdam em 1677). estão antes dele. exigidas pelas premissas cartesianas. cujo conteúdo monista. emigrados para a Holanda. depois de Spinoza.125 de pampsiquismo. nada encontramos de notável exteriormente na breve vida de Spinoza. Goethe. Por exemplo. através do conhecimento e da contemplação filosófica da realidade. foi excomungado pela Sinagoga em 1656. em parte do próprio Descartes. depois de se manifestar o seu racionalismo e tendo ele recusado qualquer retratação. E. sem saúde. ao mesmo tempo. Aos vinte e cinco anos de idade esse filósofo. nas línguas clássicas. Com isto não se excluem. cronologicamente. Além destes fatos exteriores. proporcionando ao idealismo o elemento metafísico monista. no primeiro livro da Ethica (De Deo). substancialmente. e nos meios religiosos holandeses aprendeu um cristianismo sem dogmas. as relações travadas com alguns meios cristãoprotestantes. por parte deles. em seguida para perto de Leida e enfim refugiou-se em Haia. Van den Ende iniciou-o no pensamento cartesiano. médico e livre pensador. detidos por motivos práticos-religiosos e morais. naturalmente filtrado através da crítica kantiana. foi iniciado na filosofia hebraica (medieval-neoplatônico-panteísta) e destinado a ser rabino. pois não têm a ousadia . eleitor palatino. Spinoza quereria deduzir de Deus racionalmente. Schelling. de filosofia. sem pátria. como aparece pela . Um traço característico e fundamental do caráter de Spinoza é a sua concepção prática. que não se encontram em Spinoza. Também as autoridades protestantes o desterraram como blasfemador contra a Sagrada Escritura. Hegel. não se excluem os desenvolvimentos idealistas do fenomenismo racionalista por parte de Leibniz. Deixou uma notável biblioteca filosófica. Provia pois às suas limitadas necessidades materiais. arte que aprendera durante a sua formação rabínica.de chegar até às extremas conseqüências e conclusões racionalista-monista. O Pensamento: Deus A teologia de Spinoza é contida.). pode-se dizer que Descartes fornece a Spinoza o elemento arquitetônico. Spinoza reitrou-se. Schleiermacher. de conteúdo essencialmente moralista. lógico-geométrico. logicamente. o Tractatus theologivo-politicus (publicado anônimo em Hamburgo em 1670).em especial Malebranche . Spinoza faleceu aos quarenta e quatro anos de idade. Os outros acontecimentos mais notáveis na formação espiritual especulativa de Spinoza são: o contacto com Francisco van den Ende. a sua firme convicção de que a solução desse problema não é possível senão teoreticamente. em Haia. moral. que contém a sua filosofia religiosa e política. Em geral. que lhe propusera Carlos Ludovico. Para não comprometer a sua independência especulativa e a sua paz. Uma tuberculose enfraquecera seu corpo. em parte deriva da tradição neoplatônica. filho de hebreus portugueses. sem riqueza. etc. na cultura da Renascença. em 1677. sem família. se acha também isolado religiosamente. geometricamente toda a realidade. Vida e Obras Baruch Spinoza nasceu em Amsterdam em 1632. recusou uma pensão oferecida pelo "grande Condé" e uma cátedra universitária em Heidelberg. de modesta condição social. logicamente. o pensamento de Spinoza acabou por interessar e influenciar particularmente a cultura moderna depois de Kant (Lessing. entretanto. A princípio desconhecido e atacado. desenvolvimentos em outro sentido. mas a sua herança mal chegou para pagar as despesas do funeral e as poucas dívidas contraídas durante a enfermidade. Recebeu uma educação hebraica na academia israelita de Amsterdam. inteiramente dedicada à meditação filosófica e à redação de suas obras. para os arredores de Amsterdam. Mas. e também aceitando alguma ajuda do pequeno grupo de amigos e discípulos. que constitui precisamente o seu sistema filosófico. primeiro. preparando lentes ópticas para microscópios e telescópios. como solucionadora última do problema da vida. Os demais racionalistas de maior envergadura da corrente cartesiana se seguem. para a construção do seu sistema.

é resolvido num complexo de fenômenos psicofísicos. A substância divina é eterna e infinita: quer dizer. irracional e incompleta.própria estrutura exterior da Ethica ordine geometrico demonstrata. os modos. quer primitivos quer derivados. A assim chamada alma nada mais é que um conjunto de modos derivados. E desse conhecimento racional intuitivo. e o motus infinitus é um modo primitivo do atributo extensão. entretanto. estamos em cheio no panteísmo. Desses atributos. mas se manifesta necessariamente no mundo. O Homem Do primeiro livro da Ethica . corpo e alma. Eles são modificações dos atributos. Descartes diminuiu estas substâncias. A respeito do conhecimento sensível (imaginatio). ou. o espírito humano. Os modos primitivos representam as determinações mais imediatas e universais dos atributos e são eternos e infinitos: por exemplo.Spinoza passa a considerar. igualmente o corpo nada mais é que um complexo de modos derivados. que governam o mundo dos atributos. E. como cada alma tem um corpo. como já se viu. em que. graças à doutrina spinoziana do paralelismo psicofísico. Das limitações do conhecimento sensível decorrem o sofrimento e a paixão. elementares. A cada estado ou mudança da 126 alma. isto é. o conhecimento racional em dois graus: conhecimento racional universal e conhecimento racional particular. a saber: a cada modo de ser e de operar na extensão corresponde um modo de ser e de operar do pensamento. melhor. do atributo extensão da mesma substância. isto é. derivam necessariamente a felicidade e virtude supremas. Deus não somente é racionalmente necessitado na sua vida interior. A lei suprema da realidade única e universal de Spinoza é a necessidade. a cogitatio e a extensio. tudo é necessitado. na sua unidade racional. Como tudo é necessário na natura naturans. o homem não é uma substância. Mesmo negando a alma e as suas faculdades. Não é preciso repetir que. A ordem oferecida pelo conhecimento racional particular nada mais é que a substância divina. Nenhuma ação é possível entre a alma e o corpo . elementares. o intelecto humano conhece dois apenas: o espírito e a matéria. místico. e no monismo spinoziano descem à condição de simples atributos da substância única. E igualmente necessário é o liame que une entre si natura naturans e natura naturata. do atributo pensamento da substância única. por sua vez. mesmo que a alma e o corpo não possam agir mutuamente uma sobre o outro.e como Spinoza sustenta até o fundo. Pensamento e extensão são expressões diversas e irredutíveis da substância absoluta. sustenta Spinoza que é ele inteiramente subjetivo: no sentido de que o conhecimento sensível não representa a natureza da coisa conhecida. abrange ela. mas nela unificadas e correspondentes. a matéria e o espírito. o intelecto e a vontade. os atributos infinitos e os infinitos modos que a determinam. Cada corpo tem uma alma. dada a universal correspondência spinoziana entre teorético e prático. Spinoza reconhece várias atividades psíquicas: atividade teorética e atividade prática. . Spinoza distingue. cada uma tendo um grau sensível e um grau racional. e Spinoza chama-os natura naturata (o mundo). As leis do paralelismo psicofísico. pois. corresponde um estado ou mudança do corpo.cujo objeto é Deus . está fora do tempo e se desdobra em número infinito de perfeições ou atributos infinitos. mas oferece uma representação em que são fundidas as qualidades do objeto conhecido e do sujeito que conhece e dispõe tais representações numa ordem fragmentária. A substância e os atributos constituem a natura naturans. este corpo constituiria o conteúdo fundamental do conhecimento da alma. no segundo livro (De mente).como dizia também Descartes . o homem integral. alma e corpo. assim tudo também é necessário na natura naturata. regem naturalmente todo o mundo dos modos. para Spinoza. Da natura naturans (Deus) procede o mundo das coisas. O homem. Não nos esqueçamos de que o Deus spinoziano é a substância única e a causa única. Os modos distinguem-se em primitivos e derivados. o intellectus infinitus é um modo primitivo do atributo do pensamento.

Deus. Chegado ao conhecimento e à vida racionais. cientificamente. Este amor do homem para com Deus. causa da sua felicidade e poder. em definitivo. mesmo depois do pacto social. isto é. No estado de natureza. que. não basta o pacto apenas: precisa o homem do arrimo da força para sustentar-se. em virtude da qual o mecanismo das paixões humanas é necessário como o mecanismo físicomatemático. o amor de Deus para consigo mesmo (por causa precisamente do panteísmo). mas pela relação de adequação da mens do sujeito que conhece a mens do objeto conhecido. logo. este conhecimento racional não depende. como que limitados ao conhecimento e à vida sensíveis. Então a libertação das paixões dependerá do conhecimento racional. mais ou . No livro III faz ele uma história natural das paixões. antes da organização política. considera as paixões teoricamente. em especial. no sistema spinoziano. A Política e a Religião Spinoza tratou particularmente do problema político e religioso no Tractatus theologico-politicus.que é. devemos dizer que é excluída naturalmente por Spinoza como sobrevivência pessoal porquanto pessoa e memória pertencem à imaginação. não é constituído pela relação de adequação entre a mente e a coisa. pelo que o homem considera as coisas finitas como absolutas e. e sim da natureza particular de que somos dotados. entretanto. sed intelligere. são paixões irracionais. que é. não poderá ser entendida senão como a eternidade das idéias verdadeiras. Considera ele o estado e a igreja como meios irracionais para o advento da racionalidade. dependem do temor e da esperança. IV e V da Ethica. os homens não cessam de ser. e as paixões podem ser tratadas com a mesma serena indiferença que as linhas. do conhecimento racional intuitivo . Tal amor intelectual de Deus é precisamente o júbilo unido com a causa racional que o produz. E. por conseguinte. entretanto. em Spinoza. verdadeiro. entretanto.127 Visto o paralelismo psicofísico de Spinoza. Essa escravidão depende do erro do conhecimento sensível. pelo qual prometem renunciar a toda violência. O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e juntamente com o conhecimento racional. é destinado o quase total aniquilamento no sistema racional da substância divina. Visto que a felicidade depende da ciência. o sábio vive já na eternidade. Spinoza esclarece precisamente e particularmente a escravidão do homem sujeito às paixões. o conhecimento das coisas em Deus . ou pela máxima parte imortais. Tal atitude rigidamente científica.o sábio. a condição do sábio. neque detestari. o amor dos homens para com Deus é idêntico ao amor de Deus para com os homens. a se acordarem entre si numa espécie de pacto social. é retribuído por Deus ao homem. pois a personalidade é excluída da metafísica spinoziana. não é um amor como o que existe entre duas pessoas. pois. Elas. no sentido de que tem conhecimento eterno do eterno. mas no sentido de que o homem é idêntico panteisticamente a Deus. O filósofo deve humanas actiones non ridere. amará necessariamente a Deus. as figuras geométricas. Depois de nos ter oferecido um sistema do mecanismo das paixões no IV livro da Ethica. A Moral Como é sabido. isto é. serão as almas ou os pensamentos dos sábios. as superfícies. do nosso livre-arbítrio. libertado da escravidão das paixões e da ignorância. As ações feitas . ao passo que às almas e aos pensamentos dos homens vulgares. auxiliando-se mutuamente. De fato. É o próprio egoísmo que impede os homens a se unirem. assim se exprime Spinoza energicamente no proêmio ao II livro da Ethica. segundo Spinoza. é favorecida pela concepção universalmente determinista da realidade. aí chegado.em vista das penas ou dos prêmios temporais e eternos. é claro que o conhecimento. em choque entre si e com ele. então. ameaçados ou prometidos pelo estado e pela igreja. A imortalidade. No V e último livro da Ethica. De sorte que imortais. os homens se encontravam em uma guerra perpétua. A respeito da imortalidade da alma. e não moralisticamente. servem para a tranquilidade do sábio e para o treinamento do homem vulgar. Spinoza esclarece.ou não feitas . non lugere. ou eternas. No entanto. que pertencem à substância divina. em uma luta de todos contra todos. Spinoza dedica ao problema moral e à sua solução os livros III.

e se acham eles ainda no estado de pura natureza. porquanto não é o fim supremo do homem. ainda que continuasse bárbaro depois de toda educação recebida de Aristóteles. sobrevivendo apenas em seu orgulhoso discípulo. Spinoza deduz do estado naturalista o estado racional..C. e Alexandre incendiou a grande cidade de Tebas por completo três anos depois. e sim o conteúdo moral. portanto. Platão. estava destruída de maneira irrevogável. adotou o diadema e o manto de gala persas.C. a partir daqueles movimentados postos. decairia no mandamento divino heterônomo. a supremacia política saiu das mãos da mãe da filosofia e da arte gregas. foi conquistado pela alma do Oriente. E de suas ruínas deverá surgir um estado mais conforme à razão. Seu fim supremo é conhecer a Deus por meio da razão e agir de conformidade. portanto. a saber.. porém. a ação racional. E quando Felipe da Macedônia derrotou os atenienses em Queronéia em 388 a. e Alexandre tinha a esperança de que. Mas ele subestimara a inércia e a resistência da mentalidade oriental. supor que uma civilização tão imatura e instável quanto a da Grécia pudesse ser imposta a uma civilização incomensuravelmente mais dufundida e enraizada nas mais veneráveis tradições. de sorte que será a razão a norma suprema da vida humana. irracionais e. dando-lhe a incumbência e o modo de proteger os direitos de cada um. O domínio da filosofia grega pelo macedônio Aristóteles refletia a sujeição política da Grécia pelos povos viris e mais jovens do norte. Não passava de um sonho juvenil. a religião positiva.rebelarse-ão necessariamente contra ele. a alma de Atenas morreu com ele. que representaria um sucedâneo da filosofia para o vulgo. as verdades racionais. do qual os súditos saíram. segundo Spinoza. O outro grande instituto irracional a serviço da racionalidade é. a religião.) acelerou esse processo de decadência. no que se referia a governo e pensamento. representaria sensivelmente. Só então o estado e verdadeiramente constituído. revelada. que deveria derivar do conhecimento racional com a mesma necessidade pela qual a luz emana do sol. em 399 a. o soberano podem fazer tudo o que querem: para isso têm o poder e. e o vigor e a independência da inteligência ateniense decaíram. não é dominador supremo. introduziu na Europa a idéia oriental do divino direito dos reis. e o estado cairá fatalmente. quando encarnadas nos dogmas. violariam. havia aprendido a reverenciar a rica cultura da Grécia e sonhara em divulgar essa cultura pelo Oriente. tanto o pensamento grego como os produtos gregos fossem irradiar-se e conquistar o mundo. O menino-imperador. Sócrates foi executado. O conteúdo da religião positiva. afinal. porque o escopo dos dogmas é essencialmente prático a saber: induzir à submissão a Deus e ao amor ao próximo. pois o conhecimento filosófico de Deus decairia em uma revelação mítica. filosóficas acerca de Deus e do homem. o estado. o direito. e a massa e a profundidade da cultura oriental. Faltando-lhe a força. Entretanto. faltar-lhe-á também o direito. De Aristóteles à Renascença Quando Esparta bloqueou e derrotou Atenas em fins do século V a. os súditos . é racional. sem mais. nem mesmo o fato de a casa de Píndaro ter sido ostensivamente poupada conseguiu encobrir a realidade de que a independência ateniense. O desenvolvimento do comércio grego e a multiplicação dos postos de comercialização gregos por toda a Ásia Menor haviam proporcionado uma base econômica para a unificação daquela região como parte de um império helênico. logo. Nem há quem possa opor-se a eles. e por fim assombrou uma Grécia cética ao . Portanto. na unificação final de tudo e de todos em Deus. se o estado se mantivesse na violência e irracionalidade primitivas. A quantidade da Ásia mostrou-se demasiada para a qualidade da Grécia. O papel do estado é auxiliar na consecução racional de Deus. o que vale nos dogmas não seria a sua formulação exterior. assim. porquanto o direito sem a força não tem eficácia. tais verdades podem aproveitar ao bem desse último. mas é a forma que seria absolutamente irracional. na onda de seus exércitos vitoriosos. E. na hora de seu triunfo. a não ser uma força superior. de um modo apto para a mentalidade popular. O próprio Alexandre.quando mais racionais e. Então os componentes devem confiar a um poder central a força de que dispõem. Por conseguinte. nem se deveria procurar neles sentidos metafísicos arcanos. o governo.128 menos. Quando. mais poderosos do que ele . casou-se (dentre várias damas) com a filha de Dario. simbolicamente. revelada. o pacto. O estado.C.C. pondo obstáculos ao desenvolvimento racional da sociedade. quando lhes fosse cômodo e tivessem a força. A morte de Alexandre (323 a.

que não acreditava na escravidão.). aos quais ensinava enquanto andava e trabalhava. Assim como Schopenhauer achava inútil a vontade individual lutar contra a vontade universal.eram teorias sobre como o indivíduo ainda poderia ser feliz. "comprou um belo jardim. e quando a glória havia partido de Atenas. 65 d.C. achou difícil distinguir do fatalismo oriental. que a apatia é impossível. mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações. pelas mesmas linhas de comunicação que o jovem conquistador havia aberto. mais do que os dos sentidos. diz Fenelon. uma escola. encontraram essas escolas rivais dividindo o campo filosófico. por toda a aternidade. precisamente como o pessimista estoicismo oriental de Schopenhauer e o desalentado epicurismo de Renan foram. que. passou a ouvir Diógenes. ao contrário. com a calma de um sábio. juntamente com outros produtos do seu saque. seja em Marco Aurélio. Se a vitória for inteiramente impossível. Demócrito. ele tinha sido destinado.). o imperador. o escravo. Quando Zenon. "Não devemos evitar os prazeres. Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior. embora tão estóico em vida quanto Zenon. Os grandes organizadores. e o espírito oriental de apatia e resignação encontrou um solo pronto na Grécia decadente e abatida. "A natureza faz com que cada organismo prefira o seu próprio bem a qualquer outro". A Grécia caiu na gargalhada. a felicidade.) Era delicado e afável para com todos os homens. não é epicurista. ao que Zenon replicou. foi apenas uma das inúmeras infiltrações orientais. Seu ponto de partida é uma convicção de . Epicuro..C. segundo a filosofia de seu senhor. ela estava no ponto para Zenon e Epicuro. da vida e da atividade. a apatia. As crenças místicas e supersticiosas que haviam adquirido raízes entre os povos mais pobres de Hélade foram reforçadas e divulgadas. Zenon. quando foram saquear Heléia em 146 a..tranqülidade. ou em Epíteto. previne contra os prazeres que excitem e disturbem a alma. equanimidade. mas a ataraxia . Os romanos. ele exalta os prazeres do intelecto." Epicuro. os estóicos alegavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com uma vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. Um princípio desses bradava aos céus pelo seu oposto. No fim. e.(. a cometer aquela falta. à qual. então. Tanto o estoicismo como o epicurismo . e Epicuro. e que o prazer . e até Lucrécio difundia estoicamente o epicurismo (como instalou sua escola. os diques rompidos deixaram o oceano do pensamento ocidental inundar as terras baixas da ainda adolescente mente européia. até mesmo o estóico sente um prazer sutil na renúncia. Nós a encontramos no sombrio Heráclito e no "filósofo que ri". disse o estóico romano Sêneca (m. e ali vivia uma vida tranqüila e agradável com seus discípulos. mesmo naquela época tratava-se de modos quase exóticos de pensamento: a Atenas imperial não aderiu a eles. que ele era um deus. No entanto. estava batendo num escravo seu por causa de algum delito. e vemos os discípulos de Sócrates dividindo-se em cínicos e cirenaicos sob a chefia de Antístenes e Aristipo e exaltando.a apática aceitação da derrota e o esforço para esquecer a derrota nos braços do prazer . e perfeitamente legítima.embora não necessariamente o prazer sensual . de acordo com a mesma filosofia. e a outra. em sua maioria. ele. Essa sultil infusão de uma alma asiática no corpo fatigado do senhor dos gregos foi seguida rapidamente da abundante entrada de cultos e fés orientais na Grécia. mesmo que você possua o mundo. pelo mercador fenício Zenon (cerca de 310 a. sem terem tempo nem sutileza para especulações. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos. Mas quando a Grécia havia visto Queronéia em sangue e Tebas em cinzas. deveriam acalmar e tranqülizar. propõe que se procure não o prazer no seu sentido usual. a paz do espírito. mas selecioná-los. Crisipo. deve ser desdenhada.é a única finalidade concebível. num magnífico estilo oriental. da escola de Zenon. embora subjugado ou escravizado. os símbolos de uma Revolução despedaçada e uma França quebrada. Não que essas antíteses naturais da teoria ética fossem de todo novas para a Grécia. ainda irá sentirse infeliz". tinha sido destinado a bater nele por causa dela.C. o escravo alegou como atenuante que. Afirmava que nada havia de mais nobre do que uma pessoa dedicar-se à filosofia". forneceu-o. Foi lá que "Se o que você possui lhe parece insuficiente.. A introdução da filosofia estóica em Atenas.129 anunciar. e Alexandre bebeu até morrer. levaram de volta para Roma essas filosofias. todos os quais oscilam à beira da "apatia" de Zenon. tendem a estados de espírito estóicos: é difícil ser senhor ou servo se a pessoa for sensível. tanto quanto os escravos inevitáveis. no século XIX. que ele mesmo cultivava. Por isso. então. a filosofia que Roma adotava era...

como aquelas. E onde estão. que nada é a não ser humorista. com tuas estrelas. ele viveu em meio a torverlinhos e alarmes. morrem: "algumas nações prosperam. (.) alguns sem pés. passam adiante a lâmpada da vida". cresem com o seu crescimento. espaço e lei. ditar o futuro e fingir que dominamos .. e em pouco tempo as raças das coisas vivas são alteradas e. mas prefira que elas aconteçam como têm de acontecer. que o tratava com uma crueldade inalterável. Fragmento se agarra a fragmento. em toda a literatura. ó Terra . Sobre a Natureza das Coisas. e até os sistemas e seus sóis Irão voltar lentamente à eterna deriva. Nada existe a não ser átomos.. Aos poucos Elas se dissolvem e já não são mais as coisas que conhecemos. sua pena nervosa está eternamente compondo orações à tranqülidade e à paz. exceto deuses cavalheirescos. vejo os sistemas erguerem Suas formas. outras decaem. Ao crescente culto do céu e do inferno entre o povo de Roma. Tu também.) Aqueles aos quais a natureza não concedeu nenhuma dessas qualidades ficavam expostos para servirem de vítima e presa de outros. a cada hora. por sua vez."encarar todas as coisas com serenidade de espírito". À evolução e à dissolução astronômicas. e concluiu sua vigorosa pregação do prazer cometendo suicídio. Também as nações. Nada. Sua nobre epopéia. outros mais sem olhos. exceto aqui. divertindo-se melancolicamente). Nós o imaginamos como uma alma tímida cuja juventude havia sido obscurecida por temores religiosos. mas em vão. Até que ficamos conhecendo-as e lhes damos nomes. "Não procure fazer com que as coisas o universo. e que não existem deuses. e morrem com a sua morte.. coisas de estranhas caras e membros. ele opõe um materialismo implacável. e um espírito quase exótico toca uma lira quebrada. que vivem em um jardim de Epicuro nas nuvens e nunca se intrometem nos negócios dos homens. e a lei das leis é a da evolução e da dissolução em toda parte Coisa alguma perdura. como os indivíduos. de todas as galáxias. e assim viverá com prosperidade. não há sabedoria a não ser a ataraxia . Cortar com suas alvas foices outras baías. imaginem o inebriante otimismo de estóicos declarados como Aurélio ou Epíteto. aquelas areias lunares abandonam seu lugar. (.. Englobada da deriva como aquelas.. aconteçam segundo a sua preferência. A história. em suave neblina... acrescentem a origem e a eliminação das espécies. porque ele nunca se cansa de dizer a seus leitores que não existe inferno..) e muitas raças de coisas vivas devem ter se extinguido. a menos que se trate das Meditações do imperador.130 o inglês de Heine.. acompanha Epicuro em condenar o prazer ao elogiá-lo sem entusiasmo. Porque no caso de todas as coisas que vós vedes respirando o sopro da vida. Englobados por átomos. terras e mares A menor. ficado impossibilitadas de procriar e continuar e continuar a linhagem.. nem procurar comida. crescem lentamente e. Vejo os sóis. é tão deprimente quanto as Dissertações do escravo. outros mares irão. Teus mares. Nada perdura. outros sem bocas. até que a natureza extinguisse a sua espécia. a coragem ou a velocidade vêm desde o início protegendo e preservando cada raça. certo dia Muitos monstros também a Terra de antigamente tentou produzir.) Mais e mais monstros (. porque a natureza proibiu o aumento do número deles. toda a velha alegria pagã de viver desapareceu. como corredores. com toda certeza. Quase contemporâneo de César e Pompéia. nem ser unidos em casamento. evidentemente. Alma e mente desenvolvem-se com o corpo. Segundo consta o senhor de Epíteto. E se for esse o espírito do adepto de Epicuro. sofrem com seus sofrimentos. Diante da guerra e da morte inevitável. Estás indo.) desse tipo a Terra tentou produzir. a astúcia. as coisas crescem assim. Desaparecem. eles não podiam alcançar a cobiçada flor da idade. mas todas as coisas fluem. alguns sem mãos.teus impérios. caindo devagar ou depressa. como aquelas também tu Irás. (." Não há dúvida de que é possível assim. Aqui. nunca foi tão brincalhona como quando deu a esse abstêmio e épico pessimista o nome de epicurista. (.

assim'. portanto. estourou como um explosivo libertado e espalhou sua influência destruidora e esclarecedora por toda parte. aventuraram-se para além dos confins do dogma e conquistaram a ignorância do homem quanto ao céu. a alquimia foi transformada em química. a fronteira. criando excedentes que levaram ao comércio. decidiu torcer-lhe a perna para passar o tempo. 'perdi isso assim. As Cruzadas abriram os caminhos para o Oriente e permitiram a entrada de uma torrente de artigos de luxo e heresias que condenaram à morte e ascetismo e o dogma. mas o poder da Igreja ainda era suficiente para garantir. O despertar começou com Roger Bacon (m. Seu livro teve a distinção de ser adotado como manual religioso pela primitiva Igrja Cristã. o império se transformou em papado. e seus cofres estavam inchados com donativos de ricos e pobres. No século XIII. Mas essa unidade exigia. de qualquer sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires. a cultura pagã cedeu aos cultos orientais. foi colocado como uma concha sobre a mentalidade adolescente da Europa medieval. o poder e o orgulho em decadência e apatia. nunca houve. em número. como disse Bacon. antes ou depois. aventuraram-se na imensidão dos mares e conquistaram a ignorância do homem a respeito da Terra. Tua mulher morreu? Foi restituída. "Nunca diga. Bravos navegantes. a organização em desintegração. as estradas ficaram sem manutenção e já não ecoavam a agitação do comércio. que durante muito tempo esperava por um meio barato. "Se continuar". Durante mil anos. "que o senhor iria quebrar minha perna?" No entanto. o solo voltou a florescer. o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem. observadores pacientes. definitivo e definido. A Igreja. chegava barato do Egito. as pequenas famílias dos romanos de instrução eram ultrapassadas. graças aos esforços no sentido de transformar metais inferiores em ouro. em universidades. No século XIII." O senhor continuou. Aqui e ali. Era dentro dessa concha que a filosofia escolástica se deslocava acanhadamente entre fé e razão e vice-versa. e a perna se quebrou. "se trabalharem com a matéria. homens deixaram de disputar e começaram a investigar. trabalham segundo a substância desta e por ela 131 mais tarde. serão intermináveis e produzirão realmente teias de saber. Seja qual for a causa. armados de telescópios. mosteiros e retiros escondidos. com a magia de uma crença invariável. e o comércio em suas encruzilhadas voltou a construir grandes cidades nas quais os homens podiam cooperar para estimular a cultura e reconstruir a civilização. uma organização tão difundida e tão pacífica. Tua filha morreu? Foi restituída. a maior parte dos povos de um continente. Depois de mil anos de cultivo. os bens se multiplicaram. uma fé comum exaltada por sanções sobrenaturais acima das mudanças e das corrosões do tempo. Há um notável trecho em Lucrécio que descreve a decadência da agricultura no Estado romano e a atribui à exaustão do solo. e das fábulas dos animais que falavam veio a ciência da zoologia. num desconcertante circuito de pressupostos não criticados e conclusões pré-ordenadas. Cidades voltaram a fundir-se com o interior sem distinção. teve um aumento rápido no número de adeptos. mas se trabalharem consigo mesmo. como na tranqülia coragem de um pacifista dostoievskiano. fragmentos da doutrina estóica flutuando na corrente do pensamento? Em Epíteto. 'eu restituí tal coisa'. O papel. há uma certa nobilidade mística nessa filosofia. o ambiente histórico derretia-se para formar cenas mais novas. e sim. como pensava a Igreja. disse Epíteto com calma. na riqueza e no raio de influência. agora. por via indireta. O resultado foi a sutileza. os homens foram tateando com tímida ousadia para a astronomia. o intelecto da Europa iria irromper de dentro dessa concha. não eram a ética cristã da abnegação. armados agora de bússolas. aumentou ficarão limitados. substituindo o caro pergaminho que tornara o saber um monopólio dos sacerdotes. "vai quebrar a minha perna. já possuía um terço do solo da Europa. Perdeste os teus bens? Também não foram restituídos?" Em trechos assim. a alma greco-romana perdeu o seu paganismo e está pronta para uma nova fé. apoiada nos primeiros séculos pelos imperadores cujos poderes ela absorveu aos poucos. "Eu não lhe disse". e. a imprensa. e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro. Enquanto isso. "A inteligência e a mentalidade do homem". o dogma. mas não a sabedoria. observou Epíteto mansamente. a riqueza de Roma transformou-se em pobreza. a transformação de Aristóteles em um teólogo medieval. pelos vigorosos alemães sem instrução que cruzavam. ela uniu." Mais cedo ou . quase que imperceptivelmente. através de Tomás de Aquino e outros. admiráveis pela delicadeza do fio e do trabalho. toda a cristandade ficou assustada e estimulada por traduções árabes e judaicas de Aristóteles. Dessas Dissertações e das Meditações de Aurélio há apenas um passo para A Imitação de Cristo. da astrologia. ano após ano. mas sem substância ou proveito. 1294).modo. de fato.

mais como uma possibilidade . À medida que aumentava o conhecimento. o poder de recusar a Verdade e o Bem até mesmo na presença da evidência que se manifesta. esperança e vigor. Mesland. René Descartes Deus. pode dizer sim ou não às ordens de Deus. criou as verdades. sou eu que peco. de Vesálio (1514-1564) em anatomia. Todo dinamismo pertence ao criador. b) Nem tudo tem o mesmo valor na obra científica de Descartes. agora. é a felicidade da nossa era. assim. O livre-arbítrio humano e a independência da ciência. na Quarta Meditação.°  Do mesmo modo. É certo que. Não se submeteu a nenhuma verdade prévia. na rejeição de todo naturalismo pagão (a natureza não é uma deusa) e na fundamentação metafísica do racionalismo científico. os homens pensavam menos em adorar o desconhecido. segundo Descartes. diminuía o medo. Esta época pode usar. Se sua ótica e suas considerações sobre a expressão algébrica das curvas (ele é. já o vimos. Descartes pode eliminar as noções aristotélicas e medievais de forma. dispõe.°  O homem não é uma parte de Deus. mas não o compreendo). Deus criou o mundo instante por instante (é a "criação contínua"). 1. barreiras foram derrubadas. nas pesquisas de Gilbert (1544-1603) sobre magnetismo e eletricidade. Desse modo. Esses textos esclarecem a teoria do juízo presente na Quarta meditação. Na medida em que a natureza é despojada de toda profundidade metafísica. Foi Francis Bacon. Em virtude do poder de seu livre-arbítrio. como os corpos celestes. é um objeto criado. não possui dinamismo próprio. Deus propõe e o homem. o inventor da geometria analítica) constituem incontestável contribuição científica. sua física (dada. era uma era que esperava por uma voz. A transcendência do criador afasta qualquer panteísmo. e. 2. alcançou sua plenitude na astronomia de Copérnico (14731543) e Galileu (1564-1642). por intermédio de seu livre-arbítrio. A natureza nada tem de divino. em virtude da vontade do criador. alma. dessa liberdade que não pode tratar da verdade ou do bem. "a mais poderosa inteligência dos tempos modernos. plus ultra" (mais além) "onde os antigos usavam non plus ultra. As leis da natureza só são o que são a cada momento. a) A natureza. uma autonomia que será perdida no sistema panteísta de Spinoza.132 com o ilimitado Leonardo (1452-1519). de novos começos e empreendimentos em todos os campos. ato e potência. "O fato de pequenos navios. navegarem à volta do mundo inteiro." Foi uma era de realizações. Mas nos Princípios e sobretudo nas cartas ao Pe. para Descartes. aliás. inteiramente entregue à sua exploração. situada além de todas as razões. Sou eu que me engano. O tempo é descontínuo e a natureza não tem nenhum poder próprio. Acrescentemos que. de 2 de maio de 1644 e 9 de fevereiro de 1645. Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos de um triângulo seja igual a dois ângulos retos. simples criatura ultrapassada por seu criador (concebo Deus porque descubro em mim a marca de sua infinitude. o Deus criador transcende radicalmente a natureza. Descartes afirma radicalmente o livre-arbítrio. que tocou a sineta que reuniu as inteligências" e anunciou que a Europa havia atingido a maioridade. Deus não é o culpado dos meus erros nem dos meus pecados. uma alma sintética para resumir o seu espírito e decidir. Todo espírito vital foi estimulado por uma nova confiança. dessa liberdade que é antes um estado de libertação do que uma decisão pura. para o que o homem poderia fazer. e de Harvey (1578-1657) sobre a circulação do sangue. Isto consiste. O entendimento concebe a verdade e é a vontade que dá as costas a ou afirma essa verdade. situado no mesmo plano da inteligência humana. com toda justiça. Descartes fala da liberdade esclarecida. não havia limites. Toda finalidade desaparece e a natureza é reduzida a um mecanicismo inteiramente transparente para a linguagem matemática. a Ciência e o Livre-arbítrio Para Descartes. ao mesmo tempo. Meu livre-arbítrio me faz merecedor ou culpado. a transcendência de Deus vai tornar possível uma ciência puramente racional e mecanicista da natureza. recebo. O homem é livre. e mais em dominá-lo. O homem. por conseguinte. É importante compreender que essa transcendência radical de Deus possui duas conseqüências fundamentais. juntamente com Fermat. Deus Foi "inteiramente indiferente ao criar as coisas que criou".

somos obrigados a levar em conta as paixões. A alma age sobre o corpo e este age sobre ela. o ponto de aplicação da alma ao corpo é a glândula pineal. Descartes separa claramente as duas substâncias. As coisas se determinam reciprocamente (leis do choque). encarregar-se de formar uma moral que seja suficiente para ordenar as ações da vida. nessa técnica. A moral surge. porque isso não deve ser adiado e porque devemos sobretudo procurar viver bem. a do corpo é ser um objeto no espaço. consiste. o que é seguir a virtude perfeitamente". o homem que ainda só possui conhecimento vulgar e imperfeito. enquanto espírito.. Mas o espírito dessa física e da fisiologia cartesiana  que não passa de um capítulo da física  nada mais é do que o espírito do mecanicismo. acha que devemos antes dominá-las do que desenvolvê-las.°  No Discurso dobre o Método. e em parte no sentimento de uma firme e constante resolução de bem usá-la. também deve estudar lógica. Mas a direção tomada é a ciência moderna. E no entanto. Isso porque ele se coloca do ponto de vista da felicidade. Mas. a medicina desempenha importante papel. Primeiramente. como uma técnica de felicidade e. Na medida em que Descartes considera o homem no que ele tem de essencial. ao invés de ficar fazendo voltas. que nada tem de asceta. saber decidir-se mesmo na ausência de toda evidência. no ponto máximo em que ele pode legitimamente estimar-se. que é um fato de experiência. A moral surge aqui como uma aplicação direta ao mecanicismo cartesiano. tudo o que o corpo determina na alma. "A verdadeira generosidade que faz com que um homem se estime. o pensamento está preso a esse fragmento de extensão. exceto essa livre disposição de suas vontades. sua moral assume aspectos diferentes: a) Consideremos o homem enquanto espírito. Para Descartes. num espaço em que não existe o vazio. em princípio. ou quando se ocupa do composto humano.) Mas isso não esclarece a união da alma e do corpo. Descartes adota uma moral provisória  pois a ação não pode esperar que a filosofia cartesiana engendre uma nova moral! Recordemos seus três preceitos: a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país. E Ele.°  É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade perfeita. a afetividade em sentido amplo. enquanto liberdade: o valor supremo é a generosidade. adota uma direção qualquer e nela se mantém! (O cartesianismo. antes de tudo.. isto é. isto é. as ligações harmoniosas entre os espíritos animais e os pensamentos humanos são altamente desejáveis. essa complexidade reflete a própria complexidade da condição humana. Paixão é.133 racional do que como a verdade certa) não passa de um romance. de nunca lhe faltar vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar melhores. o mundo físico não possui mistérios. então. parece-me. (Para Descartes. Após isso. O bom funcionamento do corpo. na consciência de que nada lhe pertence verdadeiramente. ele coloca. O detalhe das explicações não passa de um sonho. para Descartes. Quando Descartes declara que os animais são máquinas. b) Se considerarmos o homem enquanto espírito unido a um corpo. epicuristas e cristãs estão presentes nela. que é possível explicar as funções fisiológicas por intermédio de mecanismos semelhantes àqueles que fazem mover os autômatos que vemos "nos jardins de nossos reis". não a da Escola  pois ela nada mais é do que uma dialética que ensina os meios para fazer . Influências estóicas. na realidade. é uma filosofia da vontade). alma e corpo: a essência da alma é pensar. a epífise. à semelhança do viajante perdido na floresta que. antes de ser uma filosofia da inteligência. deve. c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações. O Problema do Homem: a Moral 1. Na plano das idéias claras e distintas. puramente vivido e ininteligível. 2. devemos seguir para que nos instruamos. em parte. por contato direto. isto é. b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do mundo e vencer-se a si próprio do que à fortuna. O Programa Cartesiano "De acordo com o prefácio dos Princípios" Gostaria de explicar aqui a ordem que.

as estrelas fixas. quando me pareceu que esses tratados procedentes haviam preparado bem o espírito dos leitores para receber os Princípios da Filosofia. os planetas. a mecânica e a moral. Finalmente. enquanto ainda não se estabelece algo de melhor. mas da extremidade dos ramos. assim a principal utilidade da filosofia depende das utilidades de suas partes. procurei fazer com que se reconhecesse a diferença existente entre a filosofia que eu cultivo e aquela ensinada nas escolas em que se tem o hábito de tratar da mesma matéria. outro dos Meteoros e o último da Geometria. Pela Dióptrica. pretendi mostrar que se pode avançar bastante em filosofia para se chegar. embora eu as ignore quase todas. na qual. encontrar as outras ciências que lhe são úteis. em particular. O Empirismo . todos os homens a procurarem a verdade. sem ter admitido nenhuma das coisas que devem preceder as últimas sobre as quais escrevi. do ar. mas cujo volume foi aumentado e cuja matéria foi muito clarificada pelas objeções que várias pessoas muito doutas me enviaram sobre o assunto e pelas respostas que lhes dei. após ter encontrado os verdadeiros princípios das coisas materiais. desse modo. A primeira parte desses ensaios foi um discurso sobre o método de bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. dividi o livro em quatro partes. assim como não é das raízes nem do tronco que colhemos os frutos. sobretudo. o zelo que sempre tive no sentido de prestar algum serviço ao público levou-me a publicar. eu acho que a mais elevada e mais perfeita moral. As outras três partes contêm tudo o que há de mais geral na física. penso ter começado a explicar toda a filosofia ordenadamente. é uma das mais difíceis das que já foram procuradas. em particular. Pelos Meteoros. a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica. a fim de bem compreendê-la.134 entender a outrem as coisas que já se sabe ou então de emitir opiniões. o peso e semelhantes. é bom que ele se exercite. depois. a explicação das primeiras leis ou princípios da natureza e a maneira pela qual os céus. a fim de que se seja capaz de. que contém os princípios do conhecimento. ele deve começar a aplicar-se à verdadeira filosofia cuja primeira parte é a metafísica. na qual apresentei sumariamente as principais regras da lógica e de uma moral imperfeita que pode ser seguida provisoriamente. sobre as que não se sabe. alguns ensaios sobre as coisas que me parecera ter aprendido. ao conhecimento das artes que são úteis à vida e porque a invenção das lunetas de aproximação. dos animais e. depois. o fogo. E porque ela depende muito do uso. por muito tempo. do homem. Desse modo. desse modo. depois. a natureza desta terra. procurei explicar seus pontos principais num livro de Meditações que não é grande. Eis por que. há uns dez ou doze anos. a saber. por meio disso. incitando. prevendo a dificuldade que muitos teriam para conceber os fundamentos da metafísica. Mas. As outras partes foram três tratados: um da Dióptrica. é preciso ler antes as Meditações que escrevi sobre o mesmo assunto. fazer acreditar que ainda podemos. é o último grau da sabedoria. pela Geometria. que pressupõe inteiro conhecimento das outras ciências. o tronco a física e os ramos que daí saem todas as outras ciências. entre as quais está a explicação dos principais atributos de Deus. das quais a primeira contém os princípios do conhecimento e que podemos denominar filosofia primeira ou metafísica. da água. do fogo e do ímã  que são os corpos que podemos encontrar mais comumente em torno dela  e de todas as qualidades que observamos nesses corpos como o são a luz. Ora. eu os publiquei então. A segunda é a física. nesse campo. examinamos em geral como o universo é composto. a saber: a medicina. da imaterialidade de nossas almas e de todas as noções claras e simples que estão em nós. ela antes corrompe o bom-senso do que o desenvolve  mas aquela que ensina a bem conduzir a razão na descoberta de verdades que se ignora. qual a natureza da terra e de todos os corpos que se encontram mais comumente em torno dela como o ar. pretendi demonstrar que eu descobrira várias coisas ignoradas até então e. por seu intermédio. o calor.Bacon Francis Bacon . Depois disso. na prática de regras pernitentes a questões fáceis e simples como as da matemática. Depois. dessa forma. quando já tiver adquirido o hábito de encontrar a verdade nessas questões. a água. Após o que também é necessário examinar em particular a natureza das plantas. Finalmente. o ímã e outros minerais. as quais só podemos aprender por último. que eu aí explico. descobrir várias outras. os cometas e o universo em geral são compostos. que se reduzem a três principais. sem julgamento.

lorde Burghley.De dignitate et argumentis scientiarum. Como se vê pelos títulos. da nova filosofia. "É difícil dizer". diz Maucaulay.. escreve ele. Mas sir Nicholas não era um homem comum. sustentáculo e causa dos fenômenos sensíveis. para lançar as bases lógicas da nova ciência. Albano. Começou a sua carreira de homem político e jurista. e não tinha dificuldade em se corresponder em grego com bispos.Novum organum scientiarum. Bacon freqüentou a Universidade de Cambridge. Bacon estivera escalando os píncaros da filosofia. vasta síntese que deveria ter compreendido seis grandes partes. Mas terminou apenas duas. Entretanto foi acusado de concussão e condenado pelo Parlamento a uma multa avultuada. passo a passo com a sua subida para o poder político. As duas partes acabadas são precisamente: I . obtida graças à observação. Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços para que ele tivesse instrução. e o que acontecerá a muitos outros pensadores do empirismo e do racionalismo: isto é. "Dedicar-se em demasia aos estudos é indolência. cunhada de sir William Cecil. deixando sobre o resto esboços e fragmentos. e que o conhecimento não aplicado em ação era uma pálida vaidade acadêmica. embora desconfiasse de que essa dupla direção de sua vida fosse encurtar o seu alcance e reduzir suas realizações. continua a considerar a filosofia como esclarecedora da essência da realidade. aristotélica e tomista. Ademais.135 O iniciador do empirismo é Francis Bacon. que deveria dar ao homem o domínio da realidade. tanto mais quanto esta é menos elaborada. O pai dela tinha sido o tutor-chefe do rei Eduardo VI. Sua esperança era de ser filósofo e estadista. no entanto.isto é. depois. acontece em Bacon o que aconteceu a muitos pensadores da Renascença." Eis uma nova nota que marca o fim da escolástica . que foram aos poucos conquistando os seus sucessores e discípulos até Hume. fazer julgamentos seguindo inteiramente suas regras é o capricho de um scholar. usá-los em demasia como ornamento é afetação. críticas e metodológicas." Achava que os estudos não podiam ser um fim ou a sabedoria por si sós. e "se a mistura de contemplações com uma vida ativa ou o retiro inteiramente dedicado a contemplações é o que mais incapacita ou prejudica a ment. retirouse para as suas terras. "foi ofuscada pela do filh". membro do Conselho particular em 1616. a metafísica tradicional persiste neles todos histórica e praticamente ao lado da nova filosofia. (. ela mesma era lingüista e teóloga. dedicando-se inteiramente aos estudos. o . Vida e Obras Francis Bacon nasceu no dia 22 de janeiro de 1561 na York House. II . A obra principal de Bacon é a Instauratio magna scientiarum. antes sob a rainha Isabel. segundo o espírito positivo e prático da mentalidade anglo-saxônia. chanceler do reino em 1618. grega e escolástica.bene vixit qui bene latuit. É uma posição filosófica que apela para a metafísica tradicional.) Os homens astutos condenam os estudos. e viveu também em Paris. É quase inacreditável que o imenso saber e as realizações literárias desse homem fossem apenas os incidentes e as digressões de uma turbulenta carreira política. acabada e consciente de si mesma. e os homens sábios se utilizam deles. antes. sob Jaime I. subindo até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613. Porque.o mundo transcendente e cristão. trata-se de pesquisas gnosiológicas. Entretanto. convencido da sua missão de cientista. também. Os Ensaios Sua ascensão parecia tornar realidade os sonhos de Platão de um rei-filósofo. a consciência crítica do empirismo. Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de Verulamo e Visconde de S. Enalteceu ele a experiência e o método dedutivo de tal modo. que nos primeiros vinte anos do reinado de Elizabeth tinha sido o Guardião do Sinete. os homens simples os admiram. que foi tesoureiro-mor de Elizabeth e um dos homens mais poderosos da Inglaterra.mais ou menos logicamente . Londres. que o transcendente e a razão acabam por desaparecer na sombra. Perdoado pelo rei. das formas.. residência de seu pai sir Nicholas Bacon." A mãe de Bacon foi lady Anne Cooke. como Sêneca. Bacon continua afirmando . Falta-lhe. Era seu lema que se vivia melhor na vida oculta . Não conseguia chegar a uma conclusão sobre se gostava mais da vida contemplativa ou da ativa. Teve uma inteligência muito esclarecida. e. e mais ainda pelo conteúdo. "A fama do pai". Faleceu em 1626.

de um verdadeiro e natural prazer do qual não há saciedade? Não é só esse conhecimento que livra a mente de todas as perturbações? Quantas coisas existem que imaginamos não existirem? Quantas coisas estimamos e valorizamos mais do que são? Essas vãs imaginações. arrependem-se cedo demais e raramente "A indagação da verdade.) Não são os prazeres das afeições maiores do que os prazeres dos sentidos. mas tomados quatro ou cinco de cada vez. produzir efeitos dignos e dotar a vida do homem com uma infinidade de coisas úteis?" Sua mais bela produção literária. uma porção infinitesimal dos oceanos e cataratas de tinta nos quais o mundo é diariamente banhado. voam para o fim sem consideração para com os meios e os graus. "Certos livros são para serem provados".. o que provoca transtornos desconhecidos. através dela.136 divórcio entre o conhecimento e o uso e a observação . alegorias e alusões caem como chicotes sobre os nossos nervos e acabam por nos exaurir. ele escreve: "sem filosofia. são as nuvens do erro que se transformam nas tempestades das perturbações. (. na conduta e na administração dos atos.e coloca aquela ênfase na experiência e nos resultados que distingue a filosofia inglesa. em um prato tão pequeno. Não que Bacon tivesse. e culmina no pragmatismo. em uma ou duas páginas. "conversamos com os sábios.. nenhum a literárias e filosóficas. No ensaio "Da Juventude e da Idade" ele condensa um livro em um parágrafo.) Os homens maduros fazem objeções demais. na literatura inglesa. afinal de contas. mostram-no ainda indeciso entre dois amores. a política e a filosofia. Os Ensaios são como um alimento rico e pesado. "Os jovens são mais "Meu elogio será dedicado à própria mente." Nos livros. se soubermos escolher os nossos livros. essas avaliações desproporcionadas. que é gozá-la. são o bem soberano das naturezas humanas. porque ali se acha uma linguagem de tão alta qualidade na prosa quanto é a de Shakespeare em verso. os maltrata. No Ensaio sobre a Honra e a Reputação. e alguns poucos para serem mastigados e digeridos". felicidade igual à possibilidade da mente do homem elevar-se acima da confusão das coisas de onde ele possa ter uma atenção especial para com a ordem da natureza e o erro dos homens? De contentamento e não de benefício? Será que não devemos perceber tanto a riqueza do armazém da natureza quanto a beleza de sua loja? Será estéril a verdade? Não poderemos. aptos para inventar do que para julgar. perseguem absurdamente alguns princípios com que toparam por acaso. então. outros para serem engolidos. A mente é o homem. demoram-se demais em consultas. em palavras que lembram Sócrates. ele dá todos os graus de honra a realizações políticas e militares.. é tão fértil em comparações significativas e substanciosas. não quero viver". arriscam-se muito pouco.. ele escreve: . ele nos oferece uma infinita riqueza numa pequena frase. Não há dúvida de que os Ensaios devem ser incluídos entre os poucos livros que merecem ser mastigados e digeridos. o entusiasmo do trabalho pela filosofia nos obriga a uma citação. que é namorá-la ou cortejá-la. É difícil dizer o que é mais excelente. agitam mais do que podem acalmar.. porque a experiência da idade em coisas que estejam ao alcance dessa idade os dirige. como na ação conversamos com tolos". mas em coisas novas. contra a inclinação de seu gênio" (isto é caráter). todos esses grupos formam. "a vida ativa". o conhecimento da verdade. Quase que a sua primeira publicação recebeu o título de O Elogio do Conhecimento (1592). nenhum homem. mais aptos para a execução do que para o assessoramento. Isto é. A excessiva sucessão dessas comparações constitui o único defeito do estilo de Bacon: as intermináveis metáforas. em como)" inovar. um homem é apenas aquilo que ele sabe.) Os jovens. envenenado e afogado. constituem o melhor alimento intelectual. Mas a sua riqueza no que se refere a metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a exuberância da Renascença. "um homem naturalmente mais propenso à literatura do que a qualquer outra coisa. Existirá. se a matéria ou o estilo. e na verdade uma parte de sua concisão se deve a uma habilidosa adaptação do idioma e do frasear latinos. É um estilo como o do vigoroso Tácito. abraçam mais do que podem segurar. e não são os prazeres do intelecto maiores do que os prazeres das afeições? Não se trata. sem dúvida. que é o elogio a ela. e levado por algum destino. tão admiravelmente preparada e temperada. e mais aptos para novos projetos do que para atividades já estabelecidas. não se importam em "(isto é. os Ensaios (1597-1623). e a crença na verdade. a destilada sutileza de uma mente de mestre sobre um importante aspecto da vida. deixado de amar os livros e a meditação. que não pode ser digerido em grandes quantidades de uma só vez. Bacon abomina os recheios e detesta desperdiçar uma palavra. compacto mas refinado. cada um desses ensaios fornece. (. e o conhecimento é a mente.. por um instante. e descreve a si mesmo como. Mas no ensaio Da Verdade. (. apenas. Raramente se encontrará uma refeição tão substanciosa.

e "Fócion compreendeu bem quando.) é afastar a causa. deplora o crescimento da indústria por considerar que isso deixa os homens despreparados para a guerra. é dividir seus inimigos e unir os amigos. mas em geral.).. da discussão) "com demasiada severidade deva ser o remédio para os problemas. não é um dos piores remédios. Não há dúvida de que é bom forçar o emprego de ambos (. Apesar disso. tão audazmente iniciado pela ciência e pela política da Renascença. ou exame. "a mais baixa das lisonjas é a lisonja do homem do povo". por ostentação. o cancelamento de privilégios. os impostos. porque muitas vezes o desprezo é a melhor forma de contê-los. apesar de tudo. faz com que ele se una em uma casa comum. crescer desordenadas e relaxadas. ou pelo menos semear a desconfiança entre elas." Bacon acha." Mas isso não significa socialismo ou.. as modificações de leis e costumes. e lamenta uma paz prolongada. e que não se concentrem demais no pensor dos filhos. baseada no respectivo predomínio das três faculdades que presidem à organização do saber: memória. "Que os pais escolhem cedo as vocações e os cursos que pretendem que seus filhos sigam. por aplacar o guerreiro que existe no homem. com o primeiro e o último ficando a cargo de uns poucos." A sugestão de todos os líderes. e a conclusão" (ou execução). porque as virtudes de qualquer um deles poderão corrigir os defeitos dos dois. Essa obra deveria ter abraçado a enciclopédia das ciências e compreendido também as técnicas. é bom não contrariá-los. segundo o novo ideal humano e prático e imanentista. "Se quiserdes presteza. perguntou o que tinha feito de errado. Começa-se.. É verdade que se os pendores ou a aptidão dos filhos forem extraordinários. ao ser aplaudido pela multidão.) A substância da sedição é de dois tipos: muita pobreza e muito descontentamento. claro. soldados desmobilizados. se chegar qualquer outro que tenha melhor ferro do que vós. um rei-filósofo. Bacon não confia no povo. depois. (. (.) As causas e motivos das sedições são as inovações na religião. e colocá-las longe uma das outras. Porque "o hábito é o principal magistrado da vida do homem. pensando que estes irão dedicar-se melhor àquilo para que estejam mais inclinados. estranhas.escolha o melhor. e os que estão contra ele estão inteiros e unidos.liberdade demasiada e. que na sua época praticamente não tinha acesso à educação. "O meio mais seguro de evitar sedições (. (. primeiro. Creso lhe mostrou o seu ouro): "Senhor. O Pensamento: A "Instauratio Magna" A Instauratio magna scientiarum deveria ter precisamente representado a reforma do saber. democracia." Ele cita Sêneca. tinha a esperança de que aos nomes deles a posteridade acrescentasse o seu. reconhece a importância das matérias-primas: "Sólon disse a Creso (quando. porque é desesperador o caso em que aqueles que apóiam o governo estão cheios de discórdia e cisões. A monarquia é a melhor forma de governo." Tal como Aristóteles. é difícil dizer de onde virá a fagulha que irá atear-lhe fogo. ao ofender um povo." Uma receita melhor para evitar as revoluções é uma distribuição eqüitativa da riqueza: "O dinheiro é como o esterco. "Quando não há exemplos de que um governo não tenha prosperado com governos cultos.. é bom o preceito" dos pitagóricos: "Optimum lege. a opressão generalizada. e em geral. "Deve haver três pontos essenciais nas atividades" do governo: "a preparação. deveria ter constituído a summa philosophica dos tempos novos. com a classificação geral das disciplinas humanas. é dividir e enfraquecer todas as facções (. uma pequena burguesia de proprietários rurais. assim. portanto. Bacon dá alguns conselhos para se evitarem revoluções. pois é nessa fase que eles são mais flexíveis.. o hábito irá torná-lo agradável e fácil.. levam o empreendimento até o fim. e tudo aquilo que. só é bom se for espalhado. o debate. ele será dono de todo esse ouro. Bacon quer um forte poder central. a eficiência de um Estado varia com a concentração do poder. Antonio Pio e Aurélio. que só o do meio fique a cargo de muitos.. facções desesperadas. mesmo. e as providências para reprimi-los só fazem dar vida longa à especulação." O que Bacon quer é." Ele é um militarista confesso. que a juventude e a infância podem ter uma 137 . fantasia. porque se o combustível estiver preparado. "De modo geral.. as privações... e acima de todos. e lançado o fundamento do regnum hominis.) contrárias ao Estado.) Tampouco se segue que a supressão dos rumores" (isto é." A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em que aspira ao governo. uma aristocracia para a administração. o progresso de pessoas indignas. suave et facile illud faciet consuetudo" .. mas se contentam com uma mediocridade de sucesso..

Segundo Bacon. o que transcende a experiência do que a experiência.bem conhecida pela filosofia tradicional . 3) Ciência ou filosofia. Pertencem pois à física operativa as artes mecânicas. fantasmas . erros da praça. em que. antes de tudo. o método indutivo. contra Aristóteles e a Escolástica. provenientes do comércio social ou da linguagem imperfeita. espírito e matéria.é determinada por Bacon. por sua vez. Bacon passa a tratar da natureza positiva. e. as essências ou causas formais. quando procura a conquista da ciência verdadeira. Aristóteles e Tomás de Aquino afirmaram claramente este método. isto é. A segunda diz respeito à arte de governar e às relações sociais e aos negócios. 2) Idola specus (por alusão à caverna de Platão) determinados pelas disposições subjetivas de cada um. o verdadeiro método da indução científica compreende uma parte negativa ou crítica. 3) Idola fori. denominando-a philosophia prima. 4) Idola theatri. e sim no sujeito que conhece. o mesmo fenômeno não aparece. não sendo fácil. as formas são leis genéticas e organizadoras das naturezas. Acima das ciências filosóficas particulares. aí se encontrará também a sua causa e lei. com base nos fenômenos presentes na primeira tabela. que registra (memória) os dados de fato. portanto. 1) Idola tribus. desta maneira. mas a ciência dos princípios comuns às várias ciências. 2) tabelas de ausência. que deveria conter precisamente as regras para a construção da ciência da natureza. desconhecido dos predecessores. e nos casos onde o fenômeno aumenta ou diminui. A parte negativa consiste. aí faltará também a sua causa e lei. Essa classificação é baseada não no objeto do conhecimento. Bacon reivindica. Bacon põe uma ciência filosófica comum. Como é sabido. para tanto. muito mais a metafísica do que a ciência. O "Novum Organum" Entretanto. mas prescinde da revelação cristã e da religião positiva. A teologia natural de Bacon não exclui. causa e lei da ação e da ordem das naturezas. isto é. conhecimento racional de Deus. 2) Poesia. A ciência do homem divide-se em ciência do homem individual (philosophia humanitatis). a ciência do ser em geral. o maior número possível de exemplos. o verdadeiro porquê). É evidente que nos casos onde uma determinada natureza ou fenômeno aparecem. Mas. e sim a ciência da natureza. a saber. o que interessa mais a Bacon não é esta ciência dos princípios comuns. e em metafísica ("que procura a causa final e a forma"). pêso. elaboração imaginativa desses dados. Esta não é a ontologia tradicional. objeto da metafísica de Bacon.). e até o reconheceram como único procedimento inicial do conhecimento humano. aí aumentará ou diminuirá também a sua causa e lei. por um jogo cênico. em que um determinado fenômeno aparece.138 razão. construtiva. da genuína interpretação da natureza para dominá-la. esta passagem das naturezas às formas.e os divide em quatro grupos fundamentais. A primeira diz respeito ao homem todo. 3) tabelas de gradações.isto é. isto é. etc. que substituem o mundo real por um mundo fantástico. Enfim registra o aumentar ou o diminuir do fenômeno em questão. é mister conhecer as que Bacon chama de formas. se divide em física especial ("que procura a causa eficiente e material"). em alertar a mente contra os erros comuns. calor. portanto. e uma parte positiva ou construtiva. quer em objetos diferentes. nos casos em que o fenômeno não se manifesta. segundo um método preciso. os erroa da raça humana "fundamentados em a natureza como tal" (não se sabe. o Novum organum. A causa (forma) dos fenômenos (naturezas) será procurada. antes de tudo. quer no mesmo objeto. a princípio. e em ciência da sociedade humana (philosophia civilis).Bacon recolhe. Para determinar de um modo certo as causas e as leis dos fenômenos . Desembaraçado o terreno destes erros. divide-se em especulativa e operativa. porém. os erros provenientes das escolas filosóficas. as formas das naturezas . Esta pesquisa. pois. ter-se .idola . depois enumera os casos que mais se assemelham às primeiras. do homem e da natureza. nas famosas tabulae baconianas. os princípios imanentes. 1) História tanto civil quanto natural. Na sua linguagem imaginosa Bacon chama as causas destes erros comuns. três espécies de registros ou tabelas: 1) tabelas de presença. Têm-se. A primeira. dos fenômenos às essências . objeto da física especial (luz. entretanto a eles interessavam muito mais as causas do que a experiência. As naturezas são precisamente os fenômenos experimentais. A filosofia natural ou física.

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tabelas completas e isolar as naturezas simples, e desta maneira pôr em evidência a causa, é mister estabelecê-la por hipótese, que será, em seguida, averiguada pelas experimentações. Essa gnosiologia, metodologia (empírica) é baseada em uma metafísica, uma física materialista e, mais precisamente, atomista, bastante semelhante à de Demócrito. O mundo material é constituído de corpúsculos, qualitativamente idênticos, diversos apenas por grandeza, forma e posição. Estes corpúsculos são animados por uma força, em virtude da qual se agrupam em determinados complexos, que constituem as formas baconianas. O Empirismo - Locke John Locke Sobre a linha do desenvolvimento do empirismo, Locke representa um progresso em confronto com os precedentes: no sentido de que a sua gnosiologia fenomenista-empirista não é dogmaticamente acompanhada de uma metafísica mais ou menos materialista. Limita-se a nos oferecer, filosoficamente, uma teoria do conhecimento, mesmo aceitando a metafísica tradicional, e do senso comum pelo que concerne a Deus, à alma, à moral e à religião. Com relação à religião natural, não muito diferente do deísmo abstrato da época; o poder político tem o direito de impor essa religião, porquanto é baseada na razão. Locke professa a tolerância e o respeito às religiões particulares, históricas, positivas. Locke viajou fora da Inglaterra, especialmente em França, onde ampliou o seu horizonte cultural, entrou em contato com movimentos filosóficos diversos, em especial com o racionalismo. Tornou-se mais consciente do seu empirismo, que procurou completar com elementos racionalistas (o que, entretanto, representa um desvio na linha do desenvolvimento do empirismo, procedente de Bacon até Hume). Vida e Obras

João Locke nasceu em Wrington, em 1632. Estudou na Universidade de Oxford filosofia, ciências naturais e medicina. Em 1665 foi enviado para Brandenburgo como secretário de legação. Passou, em seguida, ao serviço de Loed Ashley, futuro conde de Shaftesbury, a quem ficou fiel também nas desgraças políticas. Foi, portanto, para a França, onde conheceu as personalidades mais destacadas da cultura francesa do "grand siècle". Em 1683 refugiou-se na Holanda, aí participando no movimento político que levou ao trono da Inglaterra Guilherme de Orange. De volta à pátria, recusou o cargo de embaixador e dedicou-se inteiramente aos estudos filosóficos, morais, políticos. Passou seus últimos anos de vida no castelo de Oates (Essex), junto de Sir Francisco Masham. Faleceu em 1704. As suas obras filosóficas mais notáveis são: o Tratado do Governo Civil (1689); o Ensaio sobre o Intelecto Humano (1690); os Pensamentos sobre a Educação (1693). As dontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo escolástico, cujo centro famoso era Oxford; o empirismo inglês da época; o racionalismo cartesiano e a filosofia de Malebranche.
O Pensamento: A Gnosiologia Locke julga, como Bacon, que o fim da filosofia é prático. Entretanto - diversamente de Bacon, que julgava fim da filosofia o conhecimento da natureza para dominá-la (fim econômico) - Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente moral; quer dizer: a filosofia deve proporcionar uma norma racional para a vida do homem. E, como os seus predecessores empiristas, ele sente, antes de mais nada, a necessidade de instituir uma investigação sobre o conhecimento humano, elaborar uma gnosiologia, para achar um critério de verdade. Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este problema gnosiológico, para logo passar a uma filosofia moral (e política, pedagógica, religiosa), sem uma adequada e intermédia metafísica. Locke não parte, realisticamente, do ser, e sim, fenomenisticamente, do pensamento. No nosso pensamento acham-se apenas idéias (no sentido genérico das representações): qual é a sua origem e o

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seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles se formam, derivam da experiência; antes da experiência o espírito é como uma folha em branco, uma tabula rasa. No entanto, a experiência é dúplice: externa e interna. A primeira realiza-se através da sensação, e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores, sons, odores, sabores, extensão, forma, movimento, etc. A segunda realiza-se através da reflexão, que nos proporciona a representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação, como: conhecer, crer, lembrar, duvidar, querer, etc. Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa, Locke distingue as qualidades primárias, absolutamente objetivas, e as qualidades secundárias, subjetivas (objetivas apenas em sua causa). As idéias ou representações dividem-se em idéias simples e idéias complexas, que são uma combinação das primeiras. Perante as idéias simples - que constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento - o espírito é puramente passivo; pelo contrário, é ele ativo na formação das idéias complexas. Entre estas últimas, a mais importante é a substância: que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples, referida pelo espírito a um misterioso substrato unificador. O espírito é também ativo nas sínteses que são as idéias de relação, e nas análises que são as idéias gerais. Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia assim isolada, obtendo-se, desse modo, a idéia abstrata (por exemplo, a brancura). Locke é, mais ou menos, nominalista: existem, propriamente, só indivíduos com uma essência individual, e as idéias gerais não passam de nomes, que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. Entretanto, os nomes que designam uma idéia abstrata, isto é, uma propriedade semelhante em muitas coisas, têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a se conduzirem na vida. Dado o nominalismo de Locke, compreende-se como, para ele, é impossível a ciência verdadeira da natureza, considerada como conhecimento das leis universais e necessárias. Locke julga também inaplicável à natureza a matemática - reconhecendo-lhe embora o caráter de verdadeira ciência - isto é, não acredita na físico-matemática, à maneira de Galileu. Entretanto, mesmo que a ciência da natureza não nos desse senão a probabilidade, a opinião, seria útil enquanto prática. Até aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. É mister agora propor a questão do seu valor lógico. Costuma-se dizer que as idéias são "verdadeiras ou falsas"; melhor seria chamá-las "justas ou erradas", porque, propriamente, "a verdade e a falsidade pertencem às proposições", em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. E esta relação, afirmada ou negada, pode ser precisamente falsa ou verdadeira. O conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é, segundo Locke, de dois tipos: intuitivo e demonstrativo. No primeiro caso a relação é colhida intuitiva, imediata e evidentemente. Por exemplo: 3 = 2 + 1. No segundo caso a relação é colhida mediatamente, recorrendo às idéias intermediárias, ao raciocínio. Por exemplo: a existência de Deus demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade. Naturalmente, a demonstração é inferior à intuição. Idéias Metafísicas Estamos, porém, ainda fechados no mundo subjetivo, fenomênico; de fato, tratou-se, até agora, de relações positivas ou negativas, concordes ou desacordes com as idéias. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo objetivo, isto é, podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua existência e na sua natureza? Locke afirma-o, sem mostrar, entretanto, como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista) concepção e definição do conhecimento. É a sólita posição de um fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. Corta as relações com o ser e vai para o fenomenismo absoluto, mas tem ainda saudade desse ser do qual se isolou. Em todo caso, Locke acredita poder atingir, antes de tudo, o nosso ser, depois o de Deus, e, finalmente, o das coisas. O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão. A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa, partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A existência das coisas, alfim, seria sentida invencivelmente, porque nos sentimos passivos em nossas sensações, que deveriam ser causadas por seres externos a nós.

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Entretanto, pelo que diz respeito ao nosso ser, é mister ter presente que nós não conhecemos intuitivamente a substância da alma, e sim as suas atividades. Pelo que diz respeito a Deus, a prova da sua existência vale, se vale absolutamente o princípio de causa - o que Locke não demonstrou. Enfim, pelo que diz respeito às coisas externas, mesmo admitida a prova aduzida por Locke - segundo a confissão do próprio filósofo - tal prova vale apenas pelo que concerne à existência das coisas, e não pelo que concerne à natureza delas. De fato, segundo a filosofia de Locke, não sabemos se as idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas. Moral e Política Locke não admite, naturalmente, idéias e princípios inatos nem sequer no campo da moral. A sua moral, todavia, é muito mais intelectualista do que empirista, pois ele lhe reconhece o caráter de verdadeira ciência, universal e necessária. Entretanto, não basta ter construído uma moral em abstrato, embora racional. É preciso torná-la praticamente eficaz, isto é, faz-se mister uma obrigação moral, que se imponha à nossa vontade. Ora, visto que é natural, no homem, a tendência para o próprio bem-estar, é natural que ele seja atingido pelas penas, pelas sanções, que precisamente lhe impedem tal realização. Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega, propriamente, o livre arbítrio, porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem determinado e devemos desejar o bem maior. Quanto à política, Locke deriva a lei civil da lei natural, racional, moral, em virtude da qual todos os homens - como seres racionais - são livre iguais, têm direito à vida e à propriedade; e, entretanto na vida política, não podem renunciar a estes direitos, sem renunciar à própria dignidade, à natureza humana. Locke admite um originário estado de natureza antes do estado civilizado. Não, porém, no sentido brutal e egoísta de inimizade universal, como dizia Hobbes; mas em um sentido moral, em virtude do qual cada um sente o dever racional de respeitar nos outros a mesma personalidade que nele se encontra. Também Locke admite a passagem do estado de natureza ao estado civilizado, porquanto, no primeiro, falta a certeza e a regularidade da defesa e da punição, que existe no segundo, graças à autoridade do superior. Entretanto, estipulando este contrato social, os indivíduos não renunciam a todos os direitos, porquanto os direitos que constituem a natureza humana (vida, liberdade, bens), são inalienáveis; mas renunciam unicamente ao direito de defesa e de fazer justiça, para conseguir que os direitos inalienáveis sejam melhor garantidos. Antes, se o estado violasse esses direitos inalienáveis, os indivíduos teriam o direito e o dever de a ele resistir e de se revoltar contra o poder usurpador. A doutrina política de Locke, contida no seu Tratado sobre o Governo Civil, é a expressão teórica do constitucionalismo liberal inglês, em contraste com a doutrina do absolutismo naturalista de Hobbes. Idéias Pedagógicas Com respeito à religião, Locke toma uma atitude racionalista moderada. Admite uma religião natural, exigível também politicamente, porquanto fundamentada na razão. E professa a tolerância a respeito das religiões particulares, históricas, positivas. Locke interessou-se especialmente pelos problemas pedagógicos, escrevendo os Pensamentos sobre a Educação. Aí afirma a nossa passividade, pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da experiência; mas, ao mesmo tempo, afirma a nossa parte ativa, enquanto o intelecto constrói a experiência, elaborando as idéias simples. Afirma-se que todos nascemos iguais, dotados de razão; mas, ao mesmo tempo, todos temos temperamentos diferentes, que devem ser desenvolvidos de conformidade com o temperamento de cada um. Esta educação individual não exclui, mas implica a educação, a formação social, para ampliar, enriquecer a própria personalidade. Tem muita importância a obra do educador, mas é fundamental a colaboração do discípulo, pois trata-se da formação do intelecto, da razão, que é, necessariamente, autônoma. A formação educacional consiste, portanto, fundamentalmente, no desenvolvimento do intelecto mediante a moral, precisamente pelo fato de que se trata de formar seres conscientes, livres, senhores de si mesmos. Por conseguinte, a educação deve ser formativa, desenvolvendo o intelecto, e

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não informativa, erudita, mnemônica. Igualmente Locke é fautor de educação física, mas como o meio para o domínio de si mesmo. O Empirismo - Berkeley Jorge Berkeley Uma etapa ulterior do fenomenismo empirista é representada por Berkeley. Ele suprime, criticamente, as qualidades primárias, as sensações objetivas de Locke, evidenciando que são semelhantes às secundárias e, logo, também elas subjetivas. E suprime também, definitivamente, o conceito lockiano de substância material, que deveria ter sido a causa misteriosa de nossas sensações, objetivas, visto que, no empirismo, a substância não passa de um nome. Isto não impede que Berkeley - por motivos práticos, morais e religiosos - incoerentemente, conserve ainda no seu empirismo os conceitos de substância, causa e espírito, isto é, os conceitos de substância e causa espiritual. Este resíduo realista e transcendente será definitivamente eliminado pela crítica radical e coerente de Hume, o último e o maior dos empiristas prá-kantianos. Vida e Obras Estudou no Trinity College em Dublin, formando-se mestre em artes em 1707. Ordenado pela Igreja anglicana, a princípio ensina grego (sua obra, um dia, assumirá um tom platônico), em seguida hebreu e teologia no Trinity College. Entre 1702 e 1710, podemos seguir, em seu caderno de anotações (Commonplace book), a formação de seu pensamento. Desde 1709 ele escreve sua Nova teoria da Visão. Seu Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano é publicado em 1710. As intenções apologéticas de sua obra aparecem claramente nos artigos polêmicos, que escreveu em 1713, no jornal The Guardian, contra as idéias de um célebre livre-pensador, Arthur Collins. Em 1713, igualmente, aparece os Diálogos entre Hylas e Philonous. Berkeley então viaja pela França e pela Itália; em seguida se decide a propagar o pensamento cristão nas possessões americanas da Inglaterra, partindo para as Bermudas, onde sonha fundar um colégio, idéia à qual deve renunciar, posto que o governo inglês não lhe envia os fundos prometidos. Nessa época, ele lê Plotino sobretudo. Ao retornar, é nomeado bispo anglicano de Cloyne. Publica uma nova obra contra os livres-pensadores, "Alciphrom ou o filosofúsculo" (Alciphrom or the minute philosopher). Em 1740, sobrevém uma epidemia na Irlanda, que o improvisa como médico; cuida de suas ovelhas com água de alcatrão (receita que conheceu na América), na qual vê um remédio universal, o que o leva a uma cadeia (seiris, em grego) de reflexões muito platônicas sobre a natureza, a Providência e Deus, que ele nos oferece em sua última obra, "Síris ou Reflexões e pelo físico Molyneux): Como podemos ver a distância de um objeto? O raio luminoso, orientado perpendicularmente ao olho, só projeta um ponto que invariavelmente é o mesmo, quer a distância seja longa ou curta. Por conseguinte, falando estritamente, não vemos a distância. Um cego de nascença, afirma Berkeley, ao qual fosse dado ver repentinamente, teria a impressão de que todos os objetos tocavam seus olhos (vinte anos após o obra de Berkeley, o cirurgião Cheselden publicará, nas Philosophical Transactions of the Royal Society, a observação de um menino de quatorze anos, operado de catarata, que parece confirmar o ponto de vista de Berkeley. Voltaire, em sua Filosofia de Newton, 1741, torna conhecida essa experiência que Condillac e Diderot discutirão em sua Carta sobre os cegos para uso dos que vêem). Para Berkeley, a distância, portanto, não é percebida, mas julgada a partir de signos tais como a grandeza aparente ou da luminosidade mais ou menos viva dos objetos. Esse homem pequenino e pouco visível está longe de mim, porque a experiência mostra que quando um homem tem essa grandeza aparente, deve andar por alguns momentos a fim de o tocar. Por conseguinte, a experiência me ensina a interpretar aparências visuais como o sinal da distância maior ou menor dos objetos.

Jorge Berkeley nasceu em 1685 perto de Dysert Castle, na Irlanda, de uma família de origem inglesa.

pesquisas filosóficas concernentes às virtudes da água de alcatrão e diversos outros temas conexos entre si e originados um do outro" (1744). Na Teoria da Visão, Berkeley parte do seguinte problema (colocado

exceto a que existe entre o cubo em que toco e a palavra de quatro letras com que o designo. e um espaço tátil (a exploração tátil me revela. Por exemplo. exatamente como a experiência. o objeto e a sensação são idênticos e não podem ser abstraídos um do outro. os "signos" desempenham um grande papel. Berkeley tira conclusões importantes: 143 . Uma imagem concreta. de uma imagem sonora concreta. responde Berkeley. por conseguinte. por abstração. o contato de minha mão com ela uma sensação tátil e a própria dor que sinto após o choque é um estado de consciência. a palavra idéia significa representação mental) é o símbolo de outras idéias concretas. etc. que me faz conhecer a ligação entre uma mudança de claridade e uma mudança de distância. nem a extensão geométrica. essa palavra "homem" que pronuncio não passa. "Não posso representar em meus pensamentos uma coisa sensível ou um objeto isolados da sensação que deles tenho. na origem. Ora.a) Não existe espaço objetivo. lida ou ouvida). b) Todavia. para Berkeley. Não possuo mais o direito de dizer que tenho uma ou várias idéias da porta. De um modo mais geral. ao passo que a cor é subjetiva. Por isso ele se aproxima de Locke e do ponto de vista de todos os outros empiristas ingleses. nada me autoriza a imaginar. sua cor verde uma sensação visual. No universo de Berkeley. Os dados visuais são o signo dos dados táteis. Existem dois espaços distintos: um visual. o cubo que vejo e aquele em que toco não são um só e mesmo objeto!! Não mais existem relações entre um e outro. como dizia a filosofia escolástica. simultaneamente percebido pela visão e pelo tato. toda abstração é ilegítima. e o que possui apenas duas dimensões. disforme ou bem proporcionado. a aprendizagem da língua natal me faz conhecer a ligação convencional entre os objetos e as palavras que os designam. Compreendemos bem que. para Berkeley. Para ele. O espaço não é o "sensível-comum". uma linguagem universal da natureza (como aquela que faz dos dados visuais o signo das experiências táteis) só pode ser obra de um Espírito universal. tão cara aos cartesianos. ele admite a idéia geral. pintada de verde e contra a qual me choco dolorosamente. que a extensão existe objetivamente. como Descartes. em suma. espaço "em-si"." Eis uma porta alta e sólida. Mas essa imagem sonora. fora de minhas sensações! Absolutamente. idéia e imagem são a mesma coisa. por exemplo. a existência de pretensos objetos materiais fora de meus estados de consciência. as distâncias dos objetos). É a experiência. relativo ao sentido da visão. Por exemplo: que é a idéia abstrata de Homem? Um nome. uma idéia concreta (para Berkeley. uma simples palavra (uma imagem concreta. eu a faço corresponder a um sem-número de imagens visuais (as de todos os homens que posso ver). Esta porta nada mais é do que uma soma de representações mentais. mas passar de uma imagem a outra graças à função simbólica. pois todos os objetos me são dados simultaneamente como extensos e coloridos. As correspondências entre o atlas tátil e o atlas visual simplesmente manifestam a Providência de Deus. quando represento mentalmente um homem. isto é. é preciso que essa imagem seja a de um homem particular. em substituto de outras imagens concretas. posto que ela não passa de um conjunto de idéias. pois. É por preconceito que acredito na existência de "objetos". b) As correspondências existentes entre os dados visuais e a distância dos objetos não podem ser previstas a priori. Tudo o que a experiência me fornece é uma multidão de sensações diversas entre as quais existem correspondências. toda linguagem é a instituição de um espírito. não tenho o direito de dizer. e só ela. E. Não é verdadeiramente uma coisa material que existe como tal. Nominalismo de Berkeley a) Ele declara não compreender o que seja uma idéia abstrata. Pensar não é. aprender uma essência abstrata. O Imaterialismo É a outra doutrina fundamental de Berkeley que facilmente vemos estar ligada ao seu nominalismo. A imagem concreta se torna geral quando se transforma em signo. o que me ensina a decifrar as correspondências entre esses dois tipos de sensações (visuais e táteis). Não tenho a menor razão de abstrair da realidade sensível que é a dos meus estados de Dessa análise psicológica. grande ou pequeno. se Berkeley nega a idéia abstrata. um conjunto de "idéias". para ele. Sua forma e a extensão que ela ocupa são sensações.

chamará de "a ilusão dos além-mundos". numa ordem harmoniosa. . o imaterialismo de Berkeley suscita uma dificuldade. Berkeley rejeita todas as "abstrações" dos matemáticos e dos físicos. sua admirável concordância com as "idéias". que ativamente percebo. E agora Berkeley nos diz que Deus é quem nos envia. A única realidade das coisas é serem percebidas. se como pensa Philonous-Berkeley. portanto. Por conseguinte. fazendo com que Deus intervenha. é um além material que transcenderia o percebido. não quero transformar as coisas em idéias. portanto. O mundo visual tem realmente as cores que aparenta ter. o imaterialista Philonous (esse nome. significa amigo do espírito). portanto. das qualidades sensíveis. demonstra a Hylas (cujo nome.a poltrona de couro existe materialmente e nossas sensações a refletem. isto é. que ela não tem interior. eu os considero coisas reais". Como diz Bergson muito bem: "O que o idealismo de Berkeley significa é que a matéria é coextensiva à nossa representação. "Esse est percipi". Como Philonous declara a Hylas: "Você se engana. que ela nada oculta. Berkeley . segundo a qual a realidade se reduz ao que nos é dado concretamente. nossas sensações não remetem a um objeto exterior. se o objeto nada mais é do que a representação que dele tenho. Se não há nenhuma transcendência das coisas. O único tempo real é o tempo concretamente percebido. o chamado idealismo de Berkeley não passa de um realismo ingênuo. nada envolve. nossas percepções. Berkeley recusa todo ceticismo e aceita o dado tal qual é: "O cavalo está na cocheira e os livros estão na biblioteca como antes". Realismo ou Idealismo? O que Berkeley rejeita é a realidade de uma substância material que seria o suporte misterioso. Não aceita a "extensão inteligível" de Malebranche e só admite um espaço sensível.144 consciência. invisível. nossas "idéias". não tem suporte. O que ele não admite é a coisa que estaria oculta sob nossas representações. as pessoas que neste momento se encontram em meu escritório podem dizer que aí existe uma poltrona de couro. é a filosofia do realismo concreto levada às suas últimas conseqüências: o que existe é o que vemos e tocamos. As novas matemáticas do infinitesimal. Imaterialismo e Teologia a) Tal como expusemos.rejeita como ficção o tempo abstrato. A filosofia de Berkeley.Dado esse detalhe. portanto. Mas. Para Berkeley. ser é ser percebido ou perceber: "Esse est percipi vel percipere". porta-voz de Berkeley. A ordem de minhas "idéias". Berkeley reclama o bom-senso popular e se ri de Descartes que duvidava de seus sentidos. estão erigidas como prova do poder e da bondade do Criador. não há dificuldade. quer nos libertar daquilo que Nietzche. uma vez divisível ao infinito seria admitir que um fragmento de extensão existe sem ser percebido. o mundo da audição é verdadeiramente sonoro. como é que todas as pessoas presentes podem pretender ver a mesma coisa? b) Berkeley responde a isso. homogêneo e mensurável dos físicos. era ele o autor dessa linguagem universal e benfazeja da natureza. quero antes transformar as idéias em coisas. A aparência é que é a verdadeira realidade. etc. também existo. a mesma coisa? Por exemplo. impalpável. Se . com as percepções dos outros espíritos. que se estende superficialmente e que se coloca inteira a todo instante no que ela dá". O espaço dado aos sentidos não pode ser divisível ao infinito. Não há no mundo senão idéias e espíritos. a existência das coisas sob a condição de que se aceite que existir é "ser percebido" e nada mais. nos célebres diálogos. Do mesmo modo. É certo que o ser não se reduz ao que é passivamente percebido e que eu. significa matéria). pretensas coisas materiais que. no mesmo lugar.antes de Bergson . pois os objetos imediatos da percepção que. mais tarde. como é possível que vários espectadores vejam juntos. Berkeley não nega. existiriam além de minhas percepções. misteriosamente. serão falsas a seus olhos. isto é . Deus já estava encarregado de explicar as admiráveis correspondências entre dados táteis e visuais. são apenas as aparências das coisas. em grego. em grego. Sua filosofia. "mais longo na dor do que no prazer". segundo você.como pensava Hylas . O que não vemos e não tocamos não existe. É o que.

é diretamente imprimido pelo Criador na consciência das criaturas. aceita a teoria das causas ocasionais na matéria (a idéia visível não é a causa. arquétipos em que Deus se fundamenta para produzir nossas representações. erigindo-a em entidade independente. O Problema da Evolução em Berkeley a) Em Siris. por Locke e Newton. nas primeiras obras. mas o signo da idéia tangível que Deus produz em mim). Só Deus e os espíritos existem". dando-lhe um destino. Em todo caso. b) Por outro lado. longe de ressaltar de maneira ininteligível uma matéria opaca. desde então. Jean-Jacques Rosseau O Iluminismo Francês Voltaire traz o iluminismo da Inglaterra para a França. por tudo isso. são essencialmente passivas. então. diz muito bem F. se a terra de origem do iluminismo é a Inglaterra. Aos materialistas. como um fluido vital que o penetra inteiramente. criador das idéias em nossas consciências. podemos conhecê-lo? A segunda edição traz uma resposta a esse problema e Siris vem explicitar essa resposta: temos uma noção de Deus. Berkeley nunca seguirá Malebranche até o fim. afastariam nossa atenção do sentido do som e nos impediriam de acompanhar a palavra divina". colocam uma tela de pesadas ficções entre Deus e essa palavra cotidiana de Deus que é o mundo. como sublinhou Gueroult. Aí assumirá aquele caráter extremado e difusivo pelo qual o iluminismo ficará definitivamente individuado. Thonnard. Como. Ele atribui à pessoa humana uma verdadeira "eficácia". no fundo. A Providência . o alcance apologético que Berkeley pretende dar a seu imaterialismo. entre gosto pelo sensível e aversão pela matéria. isto é.145 c) Por que dizer. Berkeley não aceita que a vontade das criaturas seja uma simples causa ocasional. não apenas causa das idéias. Berkeley enriquece seu imaterialismo com uma dimensão nova. mas morada das Idéias. já bem disposta para assimilá-lo e valorizá-lo. a sua terra clássica é a França. se finalmente recai no tema da visão de Deus. as representações mentais. Na primeira edição. E logo se desperta na França uma verdadeira anglomania: pelo constitucionalismo inglês. Bergson apreende efetivamente o que há de essencial na doutrina de Berkeley quando a comenta nos seguintes termos: "A matéria seria uma língua em que Deus nos fala. posto que ele é atividade suprema. . ele me fala diretamente quando decifro o mundo sensível. aos ateus que proclamam: Deus não existe. Berkeley responde: "É a matéria que não existe. Assim. como um fogo sutil que circula através do Universo. mas não temos idéia do próprio Deus. no espiritualismo tradicional. uma liberdade real. à maneira dos neoplatônicos. Berkeley então nos propõe uma espécie de síntese muito original entre as filosofias de Locke e de Malebranche. Este último que. Berkeley aprofunda sua reflexão sobre o conhecimento dessas realidades. É um "discurso que Deus faz aos Homens". seguimos facilmente o aprofundamento de seu pensamento. É Deus quem nos fornece nossas "idéias". torna-se um Deus malebranchiano. que Deus criou a matéria e que o homem a conhece por meio de "idéias"? Não se pode fazer economia dessa entidade misteriosa? Basta pensar que o espetáculo do universo. entre empirismo e espiritualismo. assim. Berkeley mostra que as idéias. de força. O mundo é uma mensagem de Deus.surge-lhe. pela ciência nova. com uma evolução cada vez mais acentuada em sua velhice para o malebranchismo.-J. Da primeira à segunda edição de seus Princípios do Conhecimento. escrevendo as famosas Lettres sur les Anglais. pelo livre pensamento. Entre ele e nossas representações sensíveis surgem (como nas filosofias neoplatônicas) intermediários. recaindo. se chega mesmo a ir mais além de Malebranche ao negar a existência das coisas materiais (que Malebranche aceita de acordo com o testemunho da Bíblia). vemos. com efeito. inspirado pelos platônicos que pregam a libertação quanto aos sentidos e insistem no conhecimento das realidades espirituais.de quem as virtudes terapêuticas da água de alcatrão lhe recordam a benevolência ativa . a alma não existe. era um Deus cartesiano. Quando as metafísicas materialistas falam de substância. tornando espessa cada sílaba. "Curiosa síntese. de extensão abstrata." Todavia. As metafísicas da matéria. Se. que lera na América.

a esta religião a religião humanista e imanentista da razão. como.Pensées sur l'interprétation de la nature 146 (1754). autor do famoso Discours préliminaire. em definitivo. A outra atitude ou tendência é a que deriva do liberalismo constitucional. porém. desejosa e capaz de liberdade. se encontra neste mundo e na vida terrena. Dictionnaire Philosophique (1764). déspota absoluta. onde o materialismo se manifesta em cheio. religioso. manifesta confiança no povo ou. dito Voltaire (1694-1778). enfim. Éléments de la Philosophie de Newton (1741). ou até no ceticismo. político. inclusive o cristianismo. à destruição da ordem constituída. autor do livro De l'Esprit. ao sentimento. Assim. em geral. substitui. O movimento dos enciclopedistas foi um poderoso meio para a difusão e vulgarização das idéias iluministas. atacados por Voltaire. por exemplo. pelo contrário. Foi publicada entre 1751 e 1780. como sendo necessárias para a conservação da ordem moral e política. realizado o seu ideal racional no começo da humanidade. o barão Teodorico D'Holbach (1723-1789). em 34 volumes. Se o iluminismo demole toda a história. na França e no estrangeiro. Pertence a esta última tendência Pedro Bayle (1647-1706). na burguesia. autor do Dictionnaire Historique et Critique. sendo a razão humana impotente para solucioná-los. isto é. É o que fez desabusadamente e desapiedadamente a revolução francesa. Os Homens e os Problemas A obra fundamental do iluminismo francês e europeu. na imortalidade da alma. trazendo para a França o iluminismo. meio eficaz de difusão do iluminismo antes da grande enciclopédia. daí dominando o mundo da cultura européia. porque a razão é universal. a deusa razão da revolução francesa. para o bem dos povos e da humanidade acredita-se na razão. todavia. econômico. à paixão.O traço específico do iluminismo francês é o culto da razão. cujo reino. Candide ou de L'optimisme (1756). melhor. Réponse ou Système de la nature (1777). Daí a guerra a qualquer atividade e instituição que não sejam puramente racionais. Entre as suas obras. as que mais interessam à filosofia. às desigualdades sociais. e aí escreveu as famosas Lettres sur les Anglais. chamados por isso enciclopedistas. mas não no povo que se quer elevar. e por Denis Diderot (1713-1784) autor também de alguns escritos filosóficos . em que a razão certamente não domina. No campo social. em 1755. com a crença em Deus. Característica . Foi dirigida por João D'Alembert (1717-1783). às divisões nacionais e à guerra. nas sanções ultraterrenas. o iluminismo francês adere ao empirismo de Locke desenvolvido no sensismo de Condillac. quer chegue até ao ateísmo e ao hedonismo. ao estado. e. voltar. tudo isto levará à demolição. a atitude iluminista é decididamente hostil à igreja católica e se propõe a si mesma esmagá-la (écraser l'infâme): quer admita uma religião natural. Daí a necessidade da força a serviço da razão. Acerca do problema religioso. A razão (humana) deve dominar acima de tudo e acima de todos. ou mais ou menos. Bayle propagou a incredulidade pela Europa toda. des arts et des métiers. é a Enciclopédia: Enciclopédie ou dictionaire des sciences. Métaphysique de Newton (1740). segundo o ideal deísta (Voltaire). foi acolhido (1750-1753) por Frederico II. para os quais o iluminismo tinha naturalmente um interesse especial. perto de Genebra. Julião Offrai de La Mettrie (1709-1751) é o autor do famoso livro L'homme machine. Pelo que diz respeito ao problema filosófico em geral. também a religião natural de um Deus transcendente. Pelo que concerne aos problemas sociais e políticos. retirou-se para Ferney. A figura dominante do iluminismo francês é Francisco Maria Arouet. Viveu em Londres entre 1726 e 1729. Entre eles Voltaire e Rosseau. à história e à tradição em geral. à fantasia. Entretanto colaboraram na enciclopédia os iluministas mais famosos. Esta corrente. o mecanismo (empirista e racionalista) é levado até o materialismo por La Mettrie e D'Holbach. manifestam-se também duas atitudes: a do assim chamado despotismo iluminado. do absolutismo racional. é o autor do não menos famoso Système de la nature. a corrente iluminista chefiada por Cláudio Helvetius (1715-1771). Caído na desgraça do Rei e da Corte da França. quando conculca os direitos naturais do indivíduo. são: Lettres sur les Anglais (1734). etc. todavia. julga. que pretendia mostrar a necessidade de se apoiar na Fé em face dos máximos problemas. sustentando a irracionalidade da Revelação: mesmo contra a própria intenção do autor. no homem primitivo para o qual se deverá. um alemão que viveu em Paris. E se ele demole toda religião positiva.

a moral e a filosofia de Rosseau. o reflexo do costume. Para Rosseau. Por conseguinte. Todavia. os maus triunfam neste mundo. é uma exigência inata em nós e não. das idéias dos filósofos racionalistas. Também é certo que ele desconfia das interpretações que a Igreja possa dar dos Evangelhos ("quantos homens entre mim e Deus!"). Freqüentemente se resume a tese de Rosseau aos seguintes termos: o homem é bom por natureza. essa consciência moral que. das Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence. na realidade representa uma reação espiritualista contra a filosofia das luzes e o otimismo dos enciclopedistas. . Esta última faz abstração dos interesses divergentes e das paixões de cada um para só cuidar do bem comum. Rosseau pesquisa as condições de um Estado social que fosse legítimo. no Emílio. que não mais corrompesse o homem. tais como se encontram em seu romance A Nova Heloísa (1761) e na Profissão de fé do Vigário saboiano. aliás. dirá Dewey em nossos dias. ao invés de submetê-la a constrangimentos difíceis? (Nesse sentido. ete. recaem nos temas do espiritualismo mais tradicional. são melhores atestados do que os da vida de Sócrates. dessa "lei divina do dever e da virtude" em nome da qual a paixão amorosa se sacrifica heroicamente. como dizia Montaigne. segundo ele. A obra será solenemente queimada. Jean-Jacques Rosseau A obra de Rosseau (1712-1778) que foi mal compreendida e que ainda o é nos meios do catolicismo tradicional. aparentemente ao menos. fundada nas tendências e nos centros de interesse espontâneos da criança. Não se fará. o pacto social não tem por fim conciliar todos os interesses egoístas. aproxima-se bastante. A teoria política de Rosseau.desta concepção política é a divisão absoluta dos poderes supremos: legislativo. em Paris e em Genebra. É o autor das Lettres persanes. o problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social". unindo-se a todos. Mas seria uma grave erro confundir o "naturalismo" de Rosseau com o dos filósofos das luzes. nos debates do povo reunido) uma vontade geral. O arcebispo de Paris condena-lo-á em célebre ordenação (perseguido por toda parte. No entanto. diz. se desentenderá pouco depois). e do Esprit des lois. Para ele. Rosseau adota o dualismo moral popular. A Nova Heloísa apresenta-se como uma apologia da religião e da moral. deve ser uma resposta"). executivo e juduciário. com quem. O maior expoente dessa corrente é Carlos de Secondat. junto a Hume. que atende às suas necessidades mais profundas. desenvolvido em sentido historicista. Em seu primeiro livro. porém. Discurso sobre as Ciências e as Artes. peça mestra do Emílio (1762). exposta no Contrato Social. prende-se ao ensinamento de Jesus. É certo que a profissão de fé do Vigário suscitou as iras dos poderes públicos e das igrejas constituídas. na época. desses filósofos do "conventículo holbáquico" que ele destacava e pelos quais era odiado. não obedeça. Na realidade. "Somos tentados pelas paixões e detidos pela consciência". Não há dúvida de que ele declara que todas as religiões são boas e que cada crente pode conseguir a salvação na sua (o que é contrário ao que. um mês apenas após sua publicação. O problema que ele coloca recai no de Locke ou de d'Holbach: "Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda força comum 147 a pessoa e os bens da cada associado e pela qual cada um. a sociedade o corrompeu. era pensado nas igrejas católicas e protestantes). o progresso das ciências e das artes tornou o homem vicioso e mau. como homem. cujos atos. concreto. Rosseau só encontra refúgio na Inglaterra. mas antes depreender (o que é possível com a maioria das vozes. a pedagogia da chamada Escola Nova. ter uma vontade particular contrária ou dessemelhante da vontade geral que ele tem como cidadão". É censurado por escolher a religião natural (aquela que o homem encontra no próprio coração) e rejeitar a religião revelada. Nessa obra. Entenda-se bem: "cada indivíduo pode. Todavia. Nestes escritos se manifesta um racionalismo iluminista temperado. é uma pedagogia rousseauniana: "Toda lição. pelo sentido de variedade das leis em relação às condições dos povos. senão a si próprio e permaneça tão livre quanto antes. o campeão de uma pedagogia naturalista que confia nas tendências espontâneas da criança. corrompendo sua natureza íntima. ele escreve para responder a uma questão que a Academia de Dijon colocara em concurso: Rosseau declara-se inimigo do progresso. Barão de Montesquieu (1689-1755). ao passo que o justo é infeliz. a justiça divina recompensará os bons ("a vida da alma só começa com a morte do corpo") e punirá os maus que são culpados de serem assim ("dependia deles não se tornarem maus").

esses transportes de amor pelas grandes almas. e mesmo em nossos prazeres. sem qualquer conhecimento adquirido. não mais tem transportes e seu coração congelado não mais palpita de alegria. Se é verdade que o bem seja bem. O primeiro de todos os cuidados é o consigo mesmo: todavia. no fundo do meu coração. quando. quantas vezes a voz interior nos diz que. não vive mais. a regra da consciência. de onde. meu jovem amigo! Examinemos. acaba por amar apenas a si mesmo. obedece a natureza e não teme se perder. matando-as em seguida para deixá-las ali. o infeliz não sente mais. as doçuras da amizade humana nos consolam em nossas penas. um ato benfazejo ou um ato malfazejo? Por quem vos interessais mais em vossos teatros? É com a maldade que vos divertis? É com seus autores punidos que derramais lágrimas? Tudo nos é indiferente. Feito para prejudicar seus semelhantes. à força de se concentrar dentro de si. vendo que eu ia interrompê-lo: esperai que eu me detenha um pouco mais a esclarecê-lo. mas adquirido por reflexão. qual a relação que ele tem com nosso interesse privado? Por que eu preferiria ser Catão. Este ponto é importante. aquele que. os princípios de uma alta filosofia. ele o deve ser tanto no fundo de nossos corações quanto em nossas obras. A Consciência segundo Rosseau (Profissão de Fé do Vigário Saboiano) Não tiro dessas regras. estaríamos demaisados sós e seríamos demasiados miseráveis se não tivéssemos com quem os dividir. mas a consciência nunca engana. exceto nosso interesse. Se nada existe de moral no coração do homem. etc. quando dissipa seus desejos egoístas "no silêncio das paixões". à paciência com que as guarda. É espantoso que muitas vezes essas duas linguagens se contradigam? A qual delas se deve ouvir? A razão freqüentemente nos engana. para onde nossas tendências nos conduzem. que só admite o que explica. Se não concorda. do que César triunfante? Tirai de nossos corações esse amor ao belo. ao contrário. o ser ativo obedece e o ser passivo ordena. pergunto que nome devo dar ao ardor com que meu cão faz guerra às toupeiras que não come. então. O instinto. o homem não poderia ser são de espírito. segundo um de nossos mais sábios filósofos (Condillac). paradoxo muito estranho para valer a pena ser examinado. A moralidade de nossas ações está no juízo que delas fazemos. assim como o lobo para devorar sua presa. o dos tormentos ou o da felicidade de outrem? Que é que nos é mais doce fazer e que nos deixa agradável impressão após o ter feito. assim como uma doce trnura nunca umedece seus olhos. fazemos o mal! Acreditamos seguir o impulso da natureza e lhe resistimos. desprezamos o que diz aos nossos corações. A consciência é a voz da alma. Qual o espetáculo que mais nos envaidece. então o homem é naturalmente mau e não o pode deixar de ser sem se corromper. sem que jamais alguém o . nem bem constituído. escutando o que ela diz dos nossos sentidos. e a virtude só nos deixaria remorsos. e só quando se comercia com ela é que se recorre às sutilezas do raciocínio. Penetremos em nós mesmos. não deixa de admitir essa obscura faculdade chamada instinto que parece guiar os animais. deixando à parte qualquer interesse pessoal. não goza mais nada. mas as encontro. as paixões são a voz do corpo. que rasga as entranhas. é o verdadeiro guia do homem: ela está para a alma assim como o instinto está para o corpo(¹). não temos senão o direito de recusá-la. nada mais é do que um hábito privado de reflexão. ao fazer nosso bem a expensas de outrem. provêm esses transportes de admiração pelas ações heróicas. esse juízo inato do bem e do mal que cada um descobre em si mesmo. no fundo. Basta-me consultar-me sobre o que quero fazer. proseguiu meu benfeitor. que tirareis todo o encanto da vida. Aquele cujas paixões vis sufocaram esses sentimentos deliciosos em sua alma estreita. e o maior prêmio da justiça é sentir que a praticamos. escritas pela natureza em caracteres indeléveis. Esse entusiasmo da virtude. jogando-as por terra no momento em que saltam. dizem eles. se não fosse bom. oh. a maneira pela qual ele explica esse progresso obriga-nos a concluir que as crianças refletem mais do que os adultos. o homem humano seria um animal tão depravado quanto um lobo desprezível.148 nessa vontade geral descobriremos outra coisa que não o interesse. quem a segue. (¹) A filosofia moderna. Se a bondade moral concorda com nossa natureza. tudo o que sinto ser bem é bem e tudo o que sinto ser mal é mal: o melhor de todos os casuístas é a consciência. Sem entrar aqui nessa discussão. Encontraremos aí. a bondade não seria senão um vício contra a natureza. o desejo de felicidade. já está morto. no sentido de algum fim.

Leibniz descobriu o cálculo diferencial. desde 1665. em 1672. que. introduzindo a noção de quantidades infinitamente pequenas. Leibniz foi encarregado de uma missão em Paris. Aos quinze anos começou a ler Bacon (1561-1626). vislumbrando a possibilidade de cria um alfabeto dos pensamentos humanos. embora sob ponto de vista diferente. depois foi para Iena. Leibniz encontra-se em Amsterdam com Espinosa. Desde muito cedo. Seu projeto foi rejeitado. 70-19 a. Leibniz se preocupou em vincular a filosofia às matemáticas escrevendo uma Dissertação Sobre a Arte Combinatória. postura em que não permaneceria se. filiou-se à Sociedade Rosa-Cruz. na biblioteca paterna.). doutorou-se em direito na Universidade de Altdorf e. que inventaria ao mesmo tempo que Newton. as patas dobradas. com o qual tudo poderia ser descoberto. Quê?! meu cão. desse modo. no entanto. teve contato.) e Virgílio (c. aniquilando. Em 1667. filho de um professor de filosofia moral. ao contrário. situando-se entre os maiores matemáticos da época. Entrou em contato com alguns dos mais conhecidos intelectuais da época: Arnauld (1612-1694). Fora. sem me deixar dobrar. Leibniz encontrou os elementos que o levaram à idéia de uma análise combinatória filosófica. desviar as atenções do rei e evitar que ele utilizasse sua potência militar contra a Alemanha. Desde essa época. parte de uma colocação metafísica. as variações das funções são comparadas ao movimento dos corpos. em 1663. escreveu. um novo método de cálculo. na primeira vez em que ameacei esse mesmo cão. a idéia de velocidade que fundamentava seu cálculo. então não teria mais nada a dizer e não mais falarei de instinto. (Nota de Rosseau) Leibniz Vida e Obra Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig. por que. apresenta muitas semelhanças com a de Bacon: Leibniz sabia mover-se agilmente em meio às intrigas da corte a fim de realizar seus grandes planos. um trabalho sobre o princípio da individuação. a Turquia e protegendo a Europa das invasões "bárbaras". queiram explicar esse fato apenas pelo jogo das sensações e dos conhecimentos que elas nos fazem adquirir. Por causa desse trabalho. O ingresso nessa Sociedade valeu-lhe uma pensão e. a fim de seguir os cursos do matemático Ehrard Wigel. No mesmo ano torna-se bibliotecário-chefe em Hanôver. Em 1676. Nesse trabalho procurou encontrar para a filosofia leis tão certas quanto as matemáticas e esboçou as premissas do cálculo diferencial.). ele se atirou de costas no chão. já teria adquirido idéias morais? Sabia o que era clemência e generosidade? Em virtude de que luzes adquiridas esperava me acalmar. passando a dedicar-se às matemáticas. abandonando-se assim à minha discrição? Todos os cães do mundo fazem quase o mesmo no mesmo caso. Huygens (1629-1695). numa atitude suplicante e mais própria para me comover. já inventara.C. mas os três anos de estada em Paris não lhe foram inúteis. permitiu que ele se iniciasse na vida política. Em 1670.C. com filósofos e escritores antigos. Aristóteles (384-322 a. Nos anos seguintes. Por outro lado. pequenino. Leibniz. cidade na qual passaria ao restantes quarenta . Esperava. eu lhe batesse. mal acabado de nascer. Pretendia convencer o rei Luís XIV a conquistar o Egito. como Platão (428-347 a. A partir de então. Galileu (15641642) e Descartes (1596-1650). portanto. que o expliquem de maneira satisfatória para todo homem sensato. o método das fluxões. que tão desdenhosamente rejeitam o instinto. Em 1676. e com a filosofia e a teologia escolásticas. a 1° de julho de 1646.149 tenha dirigido para essa caça ou lhe ensinado que existem toupeiras. Com esse título. Ainda aluno da Universidade de Leipzig. foi nomeado conselheiro da Alta Corte de Justiça de Mogúncia. em Nuremberg. e nada falo aqui que não possa ser verificado por todos. precedido por Newton. e isso é mais importante. sendo dotado também daquela "ardente ambição que levara Bacon à ruína". ao que tudo indica.C. Em Newton. assim. a vida de Leibniz. com quem discute problemas metafísicos. sendo. o que o leva a empregar o algoritmo. Hobbes (1588-1679). foi convidado para fazer a revisão do "corpus juris latini". segundo o historiador Windelband. Leibniz dedicou ao príncipe-eleitor de Mogúncia um trabalho no qual mostrava a necessidade de uma filosofia e uma aritmética do direito e uma tabela de correspondência jurídica. Que os filósofos. Pergunto ainda. no estudo da lógica aristotélica.

Leibniz deixou uma obra extensa. Correspondência com Arnauld. Sobre a Origem Radical das Coisas. A primeira funda-se no caráter não-contraditório daquilo que é explicado ou demonstrado. Em seguida. fazendo todas as conciliações possíveis. De qualquer modo – e embora Leibniz tenha criado um amplo sistema de idéias dotado de "múltiplas entradas" –. que uma coisa só pode existir necessariamente se. esteve em Viena. O princípio de razão consiste em submeter toda e qualquer explicação ou demonstração a duas exigências. Leibniz conservou a concepção segundo a qual o universo está organizado de maneira teleológica. Dentre seus escritos destacam-se: Sobre a Arte Combinatória. O que é Idéia. Outra parte (a volumosíssima correspondência e os trabalhos publicados somente após sua morte) revela – segundo Russel e outros – um pensador bastante diferente do Leibniz público Acrescentando-se a essa dupla face de seus escritos o fato de que muitos deles sequer foram concluídos. viajou para a Rússia a fim de propor ao czar Pedro.150 anos de sua vida. O primeiro desses princípios é o de razão. De Aristóteles e da escolástica. Discurso de Metafísica. realizando pesquisas em bibliotecas e arquivos destinadas a fundamentar suas missões diplomáticas. a partir dessa idéia. dos quais se poderiam deduzir uma concepção do mundo e uma ética dotada inclusive de implicações políticas. Sobre as Noções de Direito e de Justiça. cumprindo objetivos propostos pela mente divina. Considerações Sobre o Princípio da Vida. Leibniz veio a falecer a 14 de novembro de 1716. O princípio de razão afirma. Sobre a Liberdade e Correspondência com Padre Bosses. Em 1711. o Grande. possível sua existência). a princesa Sofia. . a coisa em questão também existe realmente. outro de Aristóteles e da escolástica medieval. ao contrário. Característica Universal. Para Leibniz. em que trata de quase todos os assuntos políticos. acontece para cumprir determinados fins. A Segunda exigência consiste em que. Ensaio de Teodicéia. a Alemanha e a Itália. Correspondência com Clarke. Deus não pode romper Sua própria lógica e agir sem razões. Relativamente esquecido e isolado dos assuntos públicos. Racionalismo e Finalismo Apesar de sua intensa e agitada vida pública. Nessa época. Descartes forneceu-lhe o ideal de uma explicação matemática do mundo. Monadologia. além de explicado ou demonstrado não ser contraditório (e sendo. onde conheceu o príncipe Eugênio de Savóia. Sobre o Verdadeiro Método em Filosofia e Teologia. portanto. Parte considerável da obra de Leibniz e constituída por escritos de circunstância. Leibniz encontrou diminuído seu prestígio. pois estas constituem Sua natureza imutável. um plano de organização civil e moral para o país. aparecendo unificadas na concepção de Deus. considera que Leibniz perseguia um sincero ideal de síntese de todos os conhecimentos e das diferentes confissões religiosas de seu tempo. espécie de cálculo filosófico que lhe permitiria encontrar o verdadeiro conhecimento e desvendar a natureza das coisas. com os quais – segundo muitos historiadores – tentava apenas obter favores dos governantes. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. ao qual dedicaria a Monadologia. o mundo criado por Deus estaria impregnado de racionalidade. Sobre a Sabedoria. Conseqüentemente. é a razão necessária ou princípio de não-contradição. é a razão suficiente. Dilthey. torna-se bastante difícil uma interpretação da filosofia leibniziana que não dê margem a dúvida e não suscite polêmica. Cálculo Diferencial e Integral. além de não ser contraditória. pode-se tomar para ponto de partida da compreensão da sua filosofia dois temas provenientes de fontes distintas: um da filosofia de Descartes. com a morte de sua protetora. ou seja. As duas doutrinas foram sintetizadas pela filosofia de Leibniz. houver uma causa que a faça existir. durante três anos. a vontade do Criador (na qual se fundamenta o finalismo) submete-se ao Seu entendimento (racionalismo). Saiu de Hanôver apenas para percorrer. De volta a Hanôver. Essa síntese entre o racionalismo cartesiano e o finalismo aristotélico apresenta como núcleo uma série de princípios de conhecimento. científicos e filosóficos de seu tempo. Leibniz pretendia lançar as bases de uma combinatória universal. apesar de ter sido um dos maiores responsáveis para que Hanôver se transformasse em eleitorado e para que fosse criada a Academia de Ciências de Berlim. tudo aquilo que acontece. portanto. realizou seus principais trabalhos filosóficos.

mas errariam ao esquecer o papel do espírito. Leibniz chega também à noção de mônada mediante a experiência interior que cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma substância ao mesmo tempo una e indivisível. mas é bastante que as descubramos em nós por um esforço de atenção. Leibniz rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704). cada uma de per si espelha o universo todo. Leibniz afirma. isto é. desse modo. da razão suficiente. da não-contradição. contudo. A diferença é de essência e manifesta-se no plano visível das próprias coisas. mas intrínseca. por Leibniz. por exemplo. As notas que caracterizam as mônadas leibnizianas são a percepção. O critério do melhor é sobretudo moral. A partir da noção de matéria como essencialmente atividade. Leibniz completa a fórmula de Locke – "Nada há no intelecto que não tenha passado primeiro pelos sentidos" – com o adendo "a não ser o próprio intelecto". uma folha de papel em branco. passando de uma percepção para outra. da continuidade e dos indiscerníveis são considerados. por outro lado. com ele Leibniz pretende demonstrar que o mal é a simples sombra necessária do bem. Cada representação por parte das mônadas é um reflexo obscuro. formulado por Descartes. Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos e que sua diferença não é numérica nem espacial ou temporal. A primeira é de tipo matemático e mecânico. O princípio dos indiscerníveis daria conta da multiplicidade e individualidade das coisas existentes. O princípio da continuidade afirma que a natureza não dá saltos. O finalismo sustenta. Isto se deve ao fato de que o universo é múltiplo e infinito. mas faz existir o melhor desses mundos. a mônada é um ponto de vista. Por isso. A apercepção é a capacidade que a mônada espiritual tem de auto-representar-se.151 Para Leibniz. Nesse sentido. constitutivos da própria razão humana e. a apercepção. inatos. O finalismo é que sustenta o princípio do melhor: Deus calcula vários mundos possíveis. intervém também nessa produção a causa final. portanto. embora apenas virtualmente. explica os seres não como máquinas que se movem. cada ser é em si diferente de qualquer outro. que deseja essa produção. Essa noção. segundo a qual a origem das idéias encontra-se na experiência. uma vez que as ocasiões são fornecidas pelos sentidos". Os princípios do melhor. Os empiristas teriam razão ao afirmar que as idéias surgem do contato com o Os princípios do conhecimento formulados por Leibniz levaram-no a uma concepção do mundo oposta à cartesiana. revelam-se não como extensão mas como forças. assim também não existem descontinuidades na hierarquia dos seres. a experiência indica que o que se conserva num ciclo de movimento não é – como pensava Descartes – a quantidade do movimento. a mônada é a consciência. a experiência só fornece a ocasião para o conhecimento dos princípios inatos ao intelecto: "Não se deve imaginar que se possa ler na alma. além da causa eficiente que produz as coisas segundo o princípio de razão (nãocontadição e suficiência). mas como forças vivas: "Os corpos materiais. Leibniz constrói uma concepção dinâmica. A apetição consiste na tendência de cada mônada de fugir da dor e desejar o prazer. que as plantas não passam de animais imperfeitos. não tendo "portas sem janelas". a Segunda é dinâmica e moral. o otimismo leibniziano do melhor dos mundos possíveis. Leibniz faz com que intervenham também os princípios da continuidade e dos indiscerníveis. Enquanto Descartes formula uma concepção geométrica e mecânica dos corpos. apenas uma "tabula rasa". não recebem seus conhecimentos de fora. jamais havendo consciência clara de todas as impressões. a partir de si mesmas. Para Leibniz. a apetição e a expressão. mas têm o poder interno de exprimir o resto do universo. Nos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. Leibniz chega à idéia de que o universo é composto por unidades de força. essas eternas leis da razão. por sua resistência e impenetrabilidade. as mônadas. assim como não há vazios no espaço. ao contrário. Os Fundamentos da Monadologia esforços e sem pesquisa. enquanto toda a . noção fundamental de sua metafísica. sem mundo sensível. que dão conta da produção das coisas. Finalmente. como o édito do pretor é lido em seu caderno. O fim da produção das coisas é a vontade justa. não se esgota na adição do atributo força ao conceito da matéria. Além dos princípios de razão (não-contadição e suficiência) e do princípio do melhor. mas a quantidade de força viva". boa e perfeita de Deus. isto é. de refletir. as mônadas. Pela percepção as mônadas representam as coisas do universo.

o trabalho da imaginação nos "bastidores da consciência". Assim. pertencente apenas aos espíritos enquanto não são apenas espelhos. todos os seus movimentos correspondem certas "percepções" ou pensamentos mais ou menos confusos da alma. por conseguinte. revive o modelo estóico: o universo é concebido à semelhança de um organismo pleno. isto é. apenas como uma não- explicar a presença do mal no mundo? . organiza-os com perfeição de maneira a marcarem sempre a mesma hora e dá-lhes corda a partir do mesmo instante. todas as suas percepções. Do ponto de vista lógico. em Leibniz. "que não nos apercebemos distintamente de todos os movimentos de nosso corpo. próprio das simples mônadas enquanto são apenas "espelhos do universo". seu desenvolvimento. os pontos de vista de cada mônada sobre o universo concordariam entre si. encontra-se no fato de que as mônadas não possuem o mesmo grau de perfeição: acima das "mônadas nuas" (corpos brutos que só têm percepções inconscientes e apetições cegas) existem "mônadas sensitivas" (animais dotados de apercepções e desejos) e as "mônadas racionais". para Leibniz. pela mudança de todos os outros. físico e moral.). O inconsciente seria inerente a todas as substâncias criadas e seus diferentes graus seriam paralelos aos graus de perfeição dessas substâncias. A noção de ordem. que se deve ouvir mesmo sem ter consciência. criando-as de tal modo que cada uma se desenvolve como se estivesse só. Em Leibniz. sua posição. dentro da complexa teia. assim estruturado. de alguma forma. como o ruído do choque de duas gotas de água. a alma também tem algum pensamento de todos os movimentos do universo. é necessariamente finita. O pluralismo das séries convergentes que constituem o universo pode assim apresentar-se como pluralismo conciliado e harmônico. "É verdade". por seu lugar. mas espelhos dotados de reflexão. com exceção de Deus. Para Leibniz. A percepção consciente (apercepção) resulta do conjunto das "pequenas percepções". assume feição diferente da que possuía em Descartes: desliga-se da de nexo linear e passa a se vincular à noção de "situação" (as situações resultantes das diversas séries que se entrecruzam). assim. deixando em seguida que seus mecanismos operem sozinhos. A doutrina leibniziana da harmonia preestabelecida sustenta que Deus cria as mônadas como se fossem relógios. Deus teria colocado em cada mônada. Portanto. corresponde. O corpo humano. Graças a essa harmonia preestabelecida. os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras. pois se ela não fosse imperfeita. com consciência e vontade. assim como a realidade dos sonhos. conduz à possibilidade de tradução de uma ordem em outra. e o inconsciente da imitação. isso constituiria a harmonia preestabelecida. o sistema de Leibniz estrutura-se como um conjunto de múltiplas séries que convergem e se entrecruzam. e deste decorreria o mal físico. mesmo quando esquecidos no estado de vigília.152 substância. cujas partes convivem numa harmonia natural e onde tudo é análogo a tudo. é afetado. Leibniz afirma ainda que existem dois tipos de inconscientes: o inconsciente de percepção. a cada instante. A imperfeição metafísica original de definiria. Isso explicaria a conservação das lembranças. A razão dessa diferença. seria o próprio Deus. Ao mesmo tempo. os estados sucessivos da alma estariam ligados uns aos outros e a todo universo. de uma mathesis universalis. O mal metafísico seria a fonte do mal moral. O mal metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura.. exatamente ao de todas as outras. a continuidade existente entre os seres não anula a diferença de natureza entre as simples mônadas e os espíritos. O Melhor dos Mundos Possíveis O racionalismo leibniziano tende à constituição de um saber globalizador. toda mônada. mas é preciso que eu tenha alguma percepção do movimento de cada vaga de um rio. o conjunto todo organiza-se numa topologia. esse grande ruído que se escuta perto do mar". no instante da criação. Deus escolhe o melhor dos mundos dentre todos aqueles que se apresentam como possíveis. todavia. afirmando inicialmente que o mal se manifesta de três modos: metafísico. a fim de poder me aperceber daquilo que resulta de seu conjunto. cada ponto de uma das séries é definido. Assim.. não é possível "que nossa alma (mônada superior) possa atingir tudo em particular". diz Leibniz. O sistema todo. isto é. Dessa forma. Coloca-se então a questão: como Leibniz tentou responder a esse problema. como por exemplo o da linfa (.

sem nunca se ter estado doente? Não é preciso que um pouco de Mal torne o Bem sensível. responsável pela determinação do máximo de existência. ou se existem também aquelas que perdem e recuam sempre. Não se deveria. pois trata-se de um período inicial. com razão. diz Leibniz. como a circular. isto é. É. tem percepções inadequadas e se deixa envolver pelo confuso. Dar uma documentação formal desse caráter pagão. de tal forma que o mundo comporta o máximo de bem e o mínimo de mal. ao menos no final de seus períodos. pelo seu naturalismo que diviniza o homem material . Mas o início do Humanismo e da Renascença é rico de todos os germes que se desenvolverão no sucessivo período moderno. O mal metafísico é a raiz do mal moral. . o velho persiste ao lado do novo. apela. particularmente no campo da prática. porque Deus proporciona a todos as mesmas graças. assim também Deus é a causa da perfeição da Natureza. Algumas passagens das obras do próprio Leibniz. a dor física seria expressão da dor metafísica. falta ao Humanismo moderno a espontaneidade e a serenidade do paganismo antigo: o Humanismo moderno não descansará em um tranqüilo gozo da vida. um paganismo ainda mais radical que o antigo. e. Em decorrência da harmonia preestabelecida. exaltado até à divindade. apenas como uma não-perfeição. definir-se pela palavra: o homem potenciado. uma conseqüência física da limitação original e uma conseqüência ética. ou mecânica metafísica. deixam uma réstia de dúvida sobre seu otimismo: "Pode-se duvidar se o mundo avança sempre em perfeição ou se avança e recua por períodos. porquanto espiritual e interior. retomando Leibniz a concepção neoplatônica e agostiniana. de humanismo e de imanentismo. característico da idade moderna. mas procurará alimento no ativismo agitado e sem meta. tão característica dos homens da época. Deus escolheu o menor dos males. e de que parece um retorno. em que se poderá claramente conhecer a árvore pelos frutos. outras que voltam e avançam ao mesmo tempo. outras que voltam sem avançar ou recuar. gozar com meios humanos. sem possibilidade de erro. A Renascença Características Gerais A Renascença é uma poderosa afirmação.) Pode-se pois questionar se todas as criaturas avançam sempre. em que se entretecem motivos multíplices. da mesma forma que existem linhas que avançam sempre. Entretanto. mas não de seus defeitos. um não-ser. Na própria origem das coisas. outras. sobretudo. mas cada um pode se beneficiar delas de acordo com sua limitação original. metafísica original se definiria. como a espiral. concluiria assim sua tentativa de síntese sistemática de uma filosofia que concebe o mundo como rigorosamente racional e como o melhor dos mundos possíveis. dominador da natureza. Maior?" A teoria do Mal. exerce-se uma certa matemática divina. ao mesmo tempo. imanentista.. celebrado. de fato. contudo. que atravessou toda a Idade Média. mas não de seu atraso. livre de si mesmo. finalmente. do Humanismo e da Renascença não é coisa fácil. Deus autoriza o sofrimento porque este é necessário para a produção de um Bem Superior: "Experimenta-se suficientemente a saúde. tal espírito era corrigido.. responsabilizar o criador pela existência do mal. formulada por Leibniz. assim. como a reta. mas uma substância imperfeita não é capaz de aprender o todo. ou. O mal físico é entendido por Leibniz como conseqüência do mal moral. imanentista. assim como a correnteza é a causa do movimento do barco. Leibniz afirma que.153 perfeição. ou avançam depois de terem recuado. entretanto. que recuam depois de terem avançado. se existem aquelas que realizam períodos no final dos quais percebem não ter ganho nem perdido. para o qual o Humanismo. punição do pecado. pelo seu estetismo. Ao produzir o mundo tal como ele é. (. enfim. podendo ser considerado. pois aquilo que é perfeito pode contemplar o Bem. isto é. tão rigorosa quanto as dos máximos e mínimos matemáticos ou as leis do equilíbrio. O Humanismo pode. dando origem àquela duplicidade especulativa e prática.como já aconteceu no paganismo antigo. como as ovais". pelo seu ardente interesse pelo mundo a conquistar. que a alma experimenta por causa de sua imperfeição. o que é manifestado pelo seu individualismo. logo. Segundo Leibniz. dominar. na Idade Média. contudo. É uma multiplicidade de motivos indiscutivelmente dominada pelo espírito panteísta do neoplatonismo. senhor do mundo. religiosamente.

Outros vieram pouco depois. a renascença platônica.a ciência. a interpretação de Aristóteles dada por Tomás de Aquino. profundamente influenciados pela mensagem cristã. após o aparecimento da Cruz. Domingos de Gusmão e Tomás de Aquino. se se pensar em Giordano Bruno. que seria uma contradição em termos. a unidade real e potencial dos grandes valores da civilização no valor sumo da religião. pois. realçando-lhes o conteúdo de humanidade. devido à queda de Constantinopla .era já um fato consumado. e chamou para a Itália vários doutores orientais.racionalista. ao contrário. E valorizam-se as antigas escolas filosóficas. tal conhecimento e valorização diziam respeito aos maiores filósofos gregos. Naturalmente não são. e prefere o paganismo ao cristianismo. o epicurismo. precipuamente a primeira. as escolas filosóficas clássicas em sua espontaneidade original. a política . No entanto. volta-se à sancta antiquitas. a técnica. é o vértice da humanidade. entre a classicidade e a Renascença. mas do século que se abre com Inocêncio III e se encerra com Dante. são infrafilosóficos. O renascimento cristão. mais propriamente. pois. de volta de Constantinopla. naturalmente. nem podiam ser. se se tiver presente Nicolau Machiavelli. presente em todas elas. Esse Concílio foi convocado para a união da igreja grega com a igreja latina. não é obra dos séculos XV e XVI. que chamava virtude a força. medeiam quinze séculos.não se podem dizer imanentistas antes que cristãos.é um crepúsculo preludiando o dia e não a noite. já não é mais possível o retorno à serenidade clássica de Aristóteles ou ao ascetismo imanentista dos estóicos. Entretanto foi o Concílio de Florença (1439) que deu um impulso decisivo aos estudos platônicos na Itália ¾ bem como aos estudos aristotélicos e dos filósofos clássicos. o estoicismo. mais ou menos. não obstante a variedade de suas orientações. em si mesmos. o ideal da vida daquela época. O aristotelismo da Renascença exclui. Na Idade Média o pensamento clássico foi bem conhecido e valorizado. portanto. estando acima da religião e da moral transcendente. e enaltecia não o Pobrezinho de Assis e sim o Príncipe Valentino. em que não será difícil separar o elemento interior do elemento exterior: se se considerar. O platonismo é. Essa é a alma.sem possuir uma metafísica consciente . a história. E os elementos novos do humanismo . mera obra do homem. entre estas. um humanismo cristão. Não há. gregas. e sustenta ou a interpretação naturalista de Alexandre de Afrodísia. em geral. do Humanismo e da Renascença: uma alma pagã. o maior filósofo da época. racionalmente. em oposição ao espírito cristão. pela escolástica tomista.está persuadido de que o Estado. não o valor. Especialmente as duas primeiras e. iniciando. em especial a Aristóteles. o significado. teórico do amor e da beleza. Mestre Eckart). iniciador da ciência matemática da natureza.154 pela teologia católica e. Scoto Erígena. em geral. Na Renascença. indiferentes a qualquer concepção da realidade. que . É uma dualidade composta de velho e de novo. todas as escolas filosóficas antigas: o platonismo. Em 1429 o camaldulense frei Ambrósio Traversari. E. Na Renascença são representadas. o qual parece reconhecer a obscuridade e a incoerência do seu pensamento. clássicas. já porque a sua fundamental concepção panteísta e o seu potenciamento do espírito humano podiam melhor corresponder ao imanentismo e humanismo da Renascença. neoplatonismo: já porque assim se tinha fixado na antigüidade e neste sentido influenciara toda a Idade Média (pseudo Dionísio Areopagita. O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas Uma das manifestações características da Renascença é o renovamento das antigas escolas filosóficas. ao lado do humanismo pagão. monista e humanista . mas tem consciência de que a sua doutrina . levava para a Itália o conjunto completo dos escritos platônicos. conhecedores profundos de Platão.do pensamento grego e do jus romano . o ceticismo e o ecletismo. destarte. Em 1404 Leonardo Bruni aretino (1369-1440) publicava a primeira tradução parcial de Platão. ou a panteísta de Averroés. O Platonismo O ídolo da Renascença é Platão: artista e dialético. e. Esses elementos são essencialmente formais e estéticos porque a grande valorização cristã da civilização clássica . o aristotelismo. e viu Francisco de Assis e Antonio de Lisboa.

Bessarione. o Magnífico. considerando o intelecto humano como sendo a atividade de uma essência transcendente e divina. síntese do universo: conceito antigo. estabeleceu-se em Florença junto de Lourenço. para o latim. cujo imanentismo naturalista é mais conforme ao espírito do Renascimento. Famoso é Jorge Gemistos Pleton (1355-1450). Platão . para tratar da unificação da igreja grega com a igreja latina. que o presenteou com uma Quinta. tradutores de Aristóteles e dos seus comentadores.escreve Franca . cooperando eficazmente para o incremento do ressuscitado helenismo.apelando também para Tomás de Aquino . Esse escrito provocou uma resposta violenta ao aristotélico Jorge de Trebizonda (Comparatio Platonis et Aristotelis). realmente. Como já foi dito. aparecem confusos no sincretismo neoplatônico. Fizeram parte deste cenáculo Poliziano.1491). porquanto. amigos da casa De Médicis. veio para a Itália com o séqüito do imperador João VII Paleólogo. o aristotelismo da Renascença se distingue em duas correntes principais: a naturalista inspirando-se em Alexandre Afrodísio. Dotado da mais vasta e heterogênea cultura. Foi feito cardeal pelo Papa Eugênio IV e permaneceu na Itália. Da parte platônica. animador da célebre academia platônica florentina. no século XV. Expôs o seu pensamento em uma grande obra (Theologia platonica de immortalitate animorum . além de outros neoplatônicos. Protegido por Cosme De Médices. o Magnífico. Aí entrou em contato com Marsílio Ficino. Entretanto não foi um metafísico. contrasta o humanismo imanentista da mesma Renascença. com o cristianismo. o mais famoso platônico pode ser considerado João Pico della Mirandolla (1463-1494). Orfeu. em que procura concordar o platonismo.(1453) em mãos dos turcos. pela sua doutrina em torno de Deus e da alma. Sua idéia animadora é a exaltação do homem como microcosmo. eminente prelado da igreja oriental. autor de De dignitate hominis. de que era entusiasta. entre os quais lembramos. pode consagrar toda a sua vida aos prediletos estudos filosóficos. como o platonismo. onde teve sua sede a academia platônica. Outra idéia sua inspiradora é o conceito de uma continuidade do desenvolvimento religioso. que. Prevalece a escola alexandrina. O centro foi precisamente Florença. Aos 18 anos sabia 22 línguas"! O Aristotelismo Não é sempre fácil distinguir o aristotelismo do platonismo da Renascença. Traduziu elegantemente. que é a tendência especulativa dominante na época. Depois desse platonismo de importação oriental. artistas e pensadores. que vai desde os antigos sábios e filósofos . 155 . Esta academia nasceu graças a um cenáculo de literatos. mas que teve no humanismo do Renascimento um valor e um significado particulares. é uma polêmica antiaristotélica. graças aos sábios gregos vindos para a Itália. após várias peregrinações. e pela conseqüente possibilidade de concordar a sua filosofia com o cristianismo. que influiu no seu temperamento exuberante e passional. Platão (1477) e Plotino (1485).sustenta a superioridade de Aristóteles sobre Platão pelo seu espírito científico. freqüentemente. na Segunda metade do século XV surge e firma-se um platonismo italiano. entretanto. Pulci. onde foi celebrado o famoso Concílio. mas um eclético e suas finalidades eram morais. neoplatônico. Sua atividade principal foi traduzir.Zoroastro. Faleceu em 1499. e a panteísta-neoplatônica. inspirando-se em Averroés. Este filósofo . equilibrando-o filosófica e religiosamente. João Pico della Mirandola e o próprio Lourenço. ambas contrárias à interpretação tomista-cristã. que professa verdadeiramente um ecletismo baseado no platonismo e no cabalismo. Pitágoras. em que acreditava seriamente. autor da obra Sobre a Diferença da Filosofia Platônica e Aristotélica. Em 1473 foi ordenado padre e a sua vida foi muito austera no meio de Florença do século XV. A escola averroísta. Teodoro de Gaza e o já mencionado Jorge de Trebizonda. replicou contra Jorge de Trebizonda o seu concidadão Basílio Bessarione (1403-1472) com o escrito In calumniatorem Platonis. Marcílio Ficino nasceu em 1433 em Figline Valdarno. Depois de Marsílio Ficino. Seu principal representante foi Marsílio Ficino.e foi tido por seus contemporâneos como um prodígio de memória. teve impulso. "Blasonava de poder disputar de omni rescibili .até o cristianismo: expressão do universalismo religioso da Renascença. Também o aristotelismo.

o Magnífico. Nifo (averroísta) e Contarini (tomista) com dois ensaios tendo o mesmo título (Sobre a Imortalidade da Alma). voltados para o universo e o abstrato. Parte-se da Poética de Aristóteles. em torno de que se disputou longa e fervidamente. simpatizando. apaixonada pela estética.bem como a história . porquanto tem como objeto o universal. pois. escola de energia e de conforto. da concretidade. Os motivos mais específicos que deram origem ao ceticismo da Renascença foram: a sede do individual. onde o autor compara a moral estóica e a epicurista. Entretanto. considerada causa de perturbação. na Renascença. Nem a morte pôs termo àquela polêmica. contra a concepção transcendente e ascética cristã. voluptuosa e artística da cortes esplêndidas da época. O estoicismo da Renascença. em especial na vida gozadora e requintada. professor de filosofia nas universidades de Pádua. literária. que julgava salvar a fé deprimindo a razão. porém.uma imitação da realidade. O Estoicismo O espírito autônomo da Renascença devia provar viva simpatia para o sábio estóico. E também este novo ceticismo renascentista surgiu mais por fins práticos do que por motivos teoréticos. Dominador das coisas e dos eventos. quer cristão. O Ceticismo Também o ceticismo da Renascença foi inspirado pelo ceticismo clássico. o contraste entre a 156 . a vida. autor de De Constantia. por obra de Jorge Valla. negador da ação. mais ou menos ajustada ao cristianismo. e de Manuductio ad stoicam philosophiam. publicado em Bolonha em 1516. justificada como sendo a filosofia do vulgo. em especial por parte dos literatos. freqüente e violentamente. é preso pela ação. cuja primeira tradução remonta ao ano de 1498. a arte é superior à história. e Lourenço. a mentalidade literária da época. O Epicurismo O epicurismo. da poética. mas tornou-se ideal de vida moral em lugar do cristianismo. quer estóico. e incapaz de levantar grandes construções sistemáticas. O estoicismo renascentista enaltece o homem. o acidental. a religiosidade persistente. O expoente mais notável dessa tendência epicurista é Lourenço Valla (1407-1459). autor do famoso livro De voluptate ac de vero bono. em o século XIV. a paixão pela observação detalhada própria do pensamento moderno em geral. Seja como for. o mundo. mas fica decididamente hostil ao ascetismo. onde faleceu em 1525. ao passo que a história tem como objeto o particular. O aristotelismo teve. no fundo. recorre a certas distinções que relembram a velha teoria averroísta das duas verdades: a religião é. desfrutou de grande favor junto dos filósofos das mais diferentes tendências nos séculos XVI e XVII. e tente. melhor do que o estoicismo. Quanto à vida futura. Respondiam a Pomponazzi. tendo esta atacado. diversamente do estoicismo clássico. sustentando que esta realiza o seu fim último na vida terrena. Neste opúsculo conclui em favor da mortalidade da alma. Ferrara e Bolonha. e também na literatura e no pensamento. e Pomponazzi replica como uma Apologia (contra Contarini) e com um Defensorium (contra Nifo). O estoicismo não foi apenas objeto de admiração cultural. para finalidade prática e pedagógica. Valla oscila entre a sua negação e uma representação no sentido hedonista. a religião. a variedade e o contraste das diversas escolas e tradições (filosóficas e religiosas). uma certa conciliação entre epicurismo e cristianismo. O estóico mais notável da Renascença foi o belga Justo Lípsio (1547-1606). nascido em Mântua em 1462. condizia com o espírito humanista. João Boccaccio. são duas expressões práticas desse espírito epicurista. em oposição ao pensamento antigo e medieval. o contingente. esse seu racionalismo com a religião cristã.O mais famoso entre esses novos aristotélicos é Pedro Pomponazzi. Em torno deste tema se travam as disputas mais variadas. no século XV. uma fortuna especial no campo da estética. a moral estóica. imanentista e mundano da Renascença. alexandrista. impassível. naturalmente. Aristóteles sustentara ser a arte . o necessário. a essência das coisas. autor do Decamerone. Para conciliar. É célebre o seu opúsculo Sobre a Imortalidade da Alma. com esta última. professor em Lovaina.

humanista. francês. É o fruto do vivo interesse e da penetrante observação da experiência e da concretidade. Estas duas grandes conquistas  história e ciência  embora se apresentem em conexão com a filosofia imanentista. a razão perde-se num labirinto infindo. e sim teórico da técnica política.157 exigência religiosa e o paganismo da vida que surgia de novo. mesmo que tenha veleidades e faça afirmações de alcance metafísico. Entre seus escritos têm particular interesse filosófico Il Principe e os Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. partindo do terreno realista da experiência e prescindindo de qualquer valor espiritual e transcendente. ficando no âmbito da experiência. Miguel de Montaigne (1533-1592). é o autor dos famosos Essais: "Que sais-je"? O seu interesse é voltado para o estudo do eu. É preciso constituir uma ciência política sobre a base de um utilitarismo rigoroso.como já pensavam os céticos antigos . nem podem resolver o problema filosófico. Tudo o mais lhe parece incerto: os sentidos enganamnos. O ceticismo da Renascença tem seus maiores expoentes fora da Itália. Daí a necessidade da fé. semelhante à cristã. naturalista da época. e sim como caráter. Ele também não foi filósofo. em seguida. cuja solução. Daí derivam. de direito são dela independentes.atinge a paz abandonando-se à diretriz da natureza. chamado pelos amigos. Este . Precisamente pelo fato de que o paganismo representa uma concepção e uma praxe humanistas. a moral varia conforme os tempos e os lugares. ético e religioso. ao passo que o cristianismo é uma concepção e uma praxe transcendentes e ascéticas. a maior conquista do pensamento da Renascença. o seu grande início. Então é preciso organizar naturalisticamente e subordinar mecanicamente um complexo de paixões e de egoísmos a um egoísmo maior. Nicolau Machiavelli Nicolau Machiavelli nasceu em Florença em 1469. tanto os indivíduos como todos os valores. história e ciência. A este propósito é característica e intuitiva a comparação que Machiavelli faz entre o cristianismo católico e o paganismo antigo. como. Daí a máxima famosa: o fim justifica os meios. quase que desconhecidos do pensamento clássico e do pensamento medieval. A expressão clássica da nova ciência política é Nicolau Machiavelli. O que especialmente emerge em Montaigne é o individualismo da Renascença. são independentes de qualquer filosofia: porquanto. . não filósofo. não como substância espiritual. e não reconhece poder algum humano superior a ele. a ciência política e a técnica científica (ciência aplicada) que tiveram. está na história humana. mas de uma fé em que Deus serve ao homem. o grande valor. mundanas. até os morais e religiosos. E a maior expressão da ciência nova é Galileu Galilei. voltou ainda à pátria. ainda que o seu pensamento seja alicerçado na metafísica do humanismo e do imanentismo renascentista. e o maior é Montaigne. mas teórico e técnico da renovada ciência da natureza. A Renascença A Política Nova e a Ciência Nova A prescindir da arte e da literatura. O fim último é o estado. tem que transcender o próprio campo da experiência. obscuro e abandonado. não resolvem. Faleceu em 1527. necessariamente. mas sem a explicação (o pecado original) e sem o remédio (a redenção pela cruz). e podem ser aniquilados pelo estado. Machiavelli propõe-se o problema: como constituir um estado. Foi secretário e historiador da república florentina. centro unitário das mais variadas experiências humanas. na Renascença. inteiramente absorvidos pelo universal e pela transcendência. concluindo em favor da superioridade (política) do segundo. Ele tem do homem uma concepção pessimista. em que tudo é subordinado ao estado. e na ciência natural. que o cristianismo oferece. aliás. A experiência histórica lhe diz que a natureza do homem é profundamente egoísta e malvada. Destituído e exilado. a que tudo deve ser subordinado. Indivíduos e valores devem servir unicamente como instrumentos de governo. o do príncipe e do estado.

Entretanto. muitas vezes. que seria a razão que governa o mundo natural. Leonardo fez uma notável quantidade de pesquisas e de invenções preciosas no campo das ciências: em matemática. de conformidade com o espírito católico e concreto da Contra-Reforma. deverá ser leão ou raposa  no dizer de Machiavelli. a política de Machiavelli não está em contraste com uma ética humanista e imanentista. geologia. pois. pelo que diz respeito em especial à astronomia. que condenou aquele sistema (1616). mas como cientista. isto é.158 A política de Machiavelli foi acusada. em geral. Pela sua defesa do sistema astronômico de Copérnico (heliocêntrico) foi para Roma onde foi processado pelo Santo Ofício. à matemática. para colher as essências imutáveis das coisas. em Florença. quadrados. e os meios para atingir o fim último não são substancialmente variáveis conforme as circunstâncias dos tempos e dos lugares. exercitou a sua profissão de artista e técnico em Milão. em Florença. isto é. porquanto a moralidade. isto é. e sim transcendentes (como todos os valores absolutos). indispensável para tornar politicamente dóceis os homens. se se confrontar com uma concepção transcendente e ascética do mundo e da vida. astronomia. valorizar os homens efetivamente egoístas e inclinados ao mal. Galileu estuda o mundo não para conhecê-lo metafisicamente. onde faleceu em 1642. seus princípios teóricos. Deve organizar. que foi causa do segundo processo. Galileu fica no âmbito da própria experiência. tem que ter os pés sobre a terra. Galileu. Nesta obra. embora receba de Deus a sua eticidade transcendente. Entre suas obras são famosas: O Saggiatore (1623). sobretudo em Galileu Galilei. nascido em Tosacana (Pisa) em 1564. deriva da natureza racional do homem. histórica. conserva um grande valor também para a concepção transcendente do mundo e da vida. Galileu está convencido de que o conhecimento humano deve firmar-se na experiência. aliás. física. ao domínio da natureza. com base na profunda experiência humana. nascido perto de Florença em 1452. inclinados profundamente para o mal. o estado. o Diálogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632). mecânica. Neste sentido conceberá a política o piemontês João Botero (1540-1617) na sua obra Della ragione di stato. botânica. livro polêmico contra os aristotélicos. o que é verdade. essencialmente imutável. na sua essência. o livro da natureza é escrito com caracteres que são "triângulos. e o Diálogo delle scienze nuove (1638). o grande metodólogo da ciência natural é Galileu Galilei. instrumento precioso. em que se revela um gênio soberano e um teórico genial. em Copérnico e Kepler. Por isso. foi processado e condenado novamente em 1633. Aplicou ele imediatamente à técnica. Entretanto. anatomia. aliás. ainda que deva mirar a um ideal superior e imutável. etc. em Roma e na França onde faleceu em 1519. A doutrina política de Machiavelli todavia. em harmonia com os ideais e as conquistas da idade nova. como matemático e filósofo. fisiologia. disciplinar. Leonardo não deixou obras sistemáticas e editadas. perto de Florença. Tais leis julga Galileu sejam as matemáticas. que não tem fins transcendentes e leis morais estáveis. mas. por exemplo aconselha ele ao Príncipe ocultar prudentemente suas fraquezas eventuais. dependem todos os valores e todo o ser. Passou seus últimos anos de vida na vila de Arcetri. mas fisicamente. de imoralidade. acontece também na moral individual no caso do assim chamado conflito dos deveres). círculos. publicados mais tarde. tendo defendido com persistência o supradito sistema. a instintiva ferocidade humana. para conservar a reputação real. e sim uma grande quantidade de apontamentos e bosquejos preciosos. Não nos interessa como artista. aconselha-o a respeitar plenamente a religião (católica). Ensinou nas universidades de Pisa e de Pádua. como é a teísta e a cristã. Galileu Galilei As ciências físicas e naturais. é indispensável a fim de que o homem realize a sua natureza racional: é ético o estado. para a concretização dessa concepção transcendente da vida. Leonardo da Vinci. diversamente daqueles dois filósofos que partem da experiência para transcendê-la e construir uma metafísica geral e especial. como de Deus. terá de agir com força decidida e com refinada prudência. convencido de que era mister partir da experiência. bem como o aconselha a encaminhar para a milícia e para a guerra. as seguir. para chegar à razão. E. têm na Renascença a sua maior expressão em Leonardo da Vinci e. pois o estado. Entretanto. pisar na realidade concreta. será preciso subordinar um princípio moral a outro princípio superior da moral (como. . para colher os fenômenos e suas leis. por vezes. Aplicou a matemática à física. Como Aristóteles e Tomás de Aquino. variável. não é o estado e sim Deus. técnico e teórico da ciência.

E tal atomismo mecânico está logicamente em contraste com a convicção religiosa de Galileu. Caberá mais tarde a Newton completar o sistema com a grande lei da gravitação universal. conexa necessariamente com a ciência da época. sentido e discurso. cujo resultado publicou na famosa obra De obrium coelestium revolutionibus. sobremaneira prejudicou à metafísica tradicional na idade moderna. . E destarte será ela inteiramente valorizável e conciliável com a metafísica tradicional aristotélico-tomista. católico convicto. Galileu distingue três momentos principais: a) a observação. metafísica. onde era cônego. nem da dos seus juizes. o seu princípio racional é matemático: é físico-matemática. Deste modo. resultando assim a físico-matemática: o que constituirá o elemento verdadeiramente racional. Spinoza. e não pretenda tornar-se metafísica. quantitativa. o número . o som. pela pretensão de explicar tudo matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da realidade. terá de se libertar de igualmente infundada pretensão de que também a ciência natural seja filosofia. anual em volta do Sol. Será mister. transforma-se em lei. que se julgava. Como é sabido. Deus. quando confirmada experimentalmente. Daí a explicação da matemática à física. cujo objeto próprio são as idéias. a alma nem sequer o elemento qualitativo da realidade empírica. poderá logicamente separar-se da física aristotélica e da astronomia ptolemaica. do outro lado. pois o atomismo mecânico implica evidentemente uma concepção materialista da realidade. entre os quais se destaca São Roberto Belarmino. uma sólida filosofia. como diz Galileu. a doutrina astronômica heliocêntrica chama-se copernicana. por conseguinte. cones. Ele também segue o princípio de que a natureza é governada por leis matemáticas: ubi materia. que constituía a base racional da religião. ligada. portanto. julgava-se erroneamente. o tamanho. b) a hipótese. que é a verificação da hipótese. O que é irredutível à quantidade é considerado como subjetivo. c) a experimentação. sendo seu verdadeiro fundador Copérnico. ibi geometria. o movimento dos corpos celestes é circular e uniforme. etc. a saber. portanto. em 1473. e será tão fecundo em resultados práticos. De volta à pátria. publicada em 1543 e dedicada ao papa. que a ciência moderna. ao passo que considera subjetivas (transformação das objetivas por obra dos nossos órgãos sensoriais) as propriedades qualitativas: a cor. retirou-se para Frauenburg. contrariamente ao afirmado agnosticismo galileiano sob este aspecto cientificamente fecundo. permanecendo entre os limites da experiência. adquira consciência da sua limitação. técnicos. Em todo caso devemos prescindir de tais questões práticas. Temos. com que estava de fato. Esta.que serão mais tarde chamadas qualidades secundárias. Leibniz. uma ciência . pirâmides e outras figuras matemáticas muito aptas para tal leitura". Nicolau Copérnico nasceu em Thorn. universal e necessário da ciência moderna. o movimento. finito. o frio. o Sol está imóvel no centro do sistema e giram-lhe em volta os planetas e também a Terra que tem duplo movimento: diurno em volta do próprio eixo. mecânica. Pretensão evidentemente infundada. O seu sistema astronômico pode ser assim resumido: o mundo é esférico. que Galileu pressupôs para a sua gnosiologia empirista-matemática. pessoais. que explica o equilíbrio dos corpos celestes. e se julgava de direito. é mister a experiência e a razão. está evidentemente em contraste com o seu fenomenismo. de um lado. todos os corpos celestes são esféricos. como ficou evidente também pelo famoso processo de Galileu. cuja ruína. acarretaria consigo a ruína da filosofia. sem razão. escapando ao alcance da físico-matemática. A ciência galileiana é. Neste processo não há duvidar da boa fé de Galileu. que não concernem à história da filosofia. mesmo no seu aspecto racional-matemático. porquanto não se podem reduzir à quantidade o espirito. liame este que. a posição.que serão mais tarde chamadas qualidades primárias. especialmente na Itália. Esta. E temos. A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional O atomismo mecânico. Galileu considera objetivas as propriedades geométrico-mecânicas: a figura. por sua parte. os sistemas. o sabor. Com Galileu começa a tendência da filosofia moderna . e não os homens e suas intenções. e dedicou-se às meditações astronômicas.159 esferas. historicamente. Estudou em vários lugares. Quanto ao procedimento metódico e particular para construir a ciência.de reduzir a metafísica à física.que se manifestará claramente no racionalismo de Descartes. o calor . Para constituir a ciência. na Polônia. porquanto constitui sempre uma filosofia da natureza.

exteriores ao sujeito que conhece. são os arquétipos . Tenha-se. entre a filosofia tradicional e a ciência nova. presente a tese geral do matematismo universal. se julgava derivar do sistema copernicano. se permanecer nos limites da experiência . entretanto não ousa afirmá-lo como substância única. foi ordenado padre em 1664. Entrando jovem na Congregação do Oratório. nada mais são que o próprio objeto inteligível presente ao nosso pensamento: são idéias ontológicas. Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688). Vida e Obras Nicolau Malebranche nasceu em Paris em 1638. A ciência. Estas são as duas fontes principais do seu pensamento. não só não podem derivar da sensação. Méditations chrétiennes et métaphysiques (1683).como Descartes e Spinoza . Mas. Pisando as pegadas de Agostinho e de Descartes. entre espírito e matéria). da ciência. heliocêntrico. chega a conceber Deus como causa única. verdadeiras objetivamente. como a sensação. Spinoza resolvera o primeiro mediante o seu rígido monismo da substância. é particular e contingente. conseqüentemente pode-se e deve-se compor a filosofia tradicional com a ciência nova. por parte da igreja católica. com suas inevitáveis conseqüências materialistas.temor confirmado pela veleidade de interpretação da Sagrada Escritura. Acrescenta-se a tudo isso. Com Malebranche.160 prodigiosa. e também ele recorre a Deus para explicar as relações entre o espírito e a matéria. o segundo. O Cartesianismo Nicolau Malebranche Com Spinoza. erradamente. sobre a base de um inicial platonismo comum. mediante o famoso paralelismo dos atributos extensão e pensamento na substância. Visto essas idéias serem necessárias e universais. Faleceu em 1715. e a outra tese da infinidade dos mundos. nega também ele . cujo objeto é metafísico. Traité de morale (1684). a saber. por parte de Galileu. As principais obras são: Recherche de la vérité (1674-1675). E se compreenderá então historicamente o processo e a condenação de Galileu.toda interação entre espírito e matéria. indiferente. ao mesmo tempo.e se tivesse consciência da sua relatividade. portanto. declara as idéias eternas e imutáveis. pelo que diz respeito ao segundo. se punha em contradição com a filosofia tradicional e em conexão com a nova filosofia humanista e imanentista. Estudou filosofia no colégio "De la Marche" e teologia na Sorbona. procurando conciliá-las no seu sistema filosófico. para ajustá-la à nova astronomia.como deve ser . o cartesianismo entra em síntese com o agostinianismo. A oposição entre sistema ptoleimaco e sistema copernicano. mas nem sequer ser produzidas pelo espírito humano. em 1660. devido ao teísmo e ao cristianismo que Malebranche se esforça por conciliar com o cartesianismo. especialmente os sentidos externos e atribui às idéias todo o valor do conhecimento. que. claras e distintas e. que. que teve tão grave manifestação no livre exame protestante . acima de tudo. pelo que diz respeito ao primeiro problema. Foi profundamente influenciado pelo agostinianismo dominante no Oratório. O Pensamento: A Gnosiologia Como Descartes e o conseqüente racionalismo. As obras de Malebranche tiveram grande êxito e levaram-no a várias polêmicas. erradamente. o racionalismo cartesiano entra em síntese com o panteísmo neoplatônico. afilosófica. a gnosiologia de Malebranche desvaloriza o conhecimento sensível. e pelo cartesianismo. o temor da crítica demolidora. portanto. pois. sofre um regresso sobre a linha do seu lógico desenvolvimento panteísta e racionalista. Malebranche. não pode vir a estar em contraste com a filosofia e a teologia. As idéias. Dos dois problemas fundamentais deixados em herança por Descartes (relações entre Deus e mundo. cessaria no dia em que se adquirisse consciência da natureza infrafilosófica.

entre alma e corpo . admite uma pluralidade de substância. porém. encontram só no pecado original a causa única que os explica. julga ele que seja essencialmente incognoscível. O homem é livre não no sentido de que seja capaz de fazer. A desordem das paixões. isto é. em todo caso. porque temos a idéia clara de extensão inteligível. livre embora. Aspecto característico da moral de Malebranche é o apelo para o cristianismo e. ele só atinge a existência contingente. nem do corpo sobre a alma. um sentimento. tais idéias estão na mente de Deus e nele nós temos a intuição delas (ontologismo). porquanto não há causas segundas. Dessa maneira. causalidade ativa nem dos corpos entre si. mas apenas o que há nele de imitável. Malebranche teística e cristãmente afirma Deus criador dos espíritos e da matéria: quer dizer. pois nós não temos uma idéia clara e distinta do infinito. para que estejamos propriamente certos da sua existência. espírito e matéria. Para demonstrar a existência de Deus.é racionalmente confuso. Malebranche recorre substancialmente ao sólito argumento ontológico. mas. Acontece o contrário a respeito do mundo físico. A respeito da natureza de Deus. o que as idéias não podem fazer.161 eternos e imutáveis. . Diversamente afirma a unidade da causa. um sentimento confuso da existência atual do mundo material. logo. material. Malebranche baseia esta doutrina em duas teses de origem cartesiana: em física. tanto assim que é mister a revelação cristã. Sem o pecado haveria perfeita harmonia entre corpo e espírito. quer dizer. Assim. Toda energia produtora de ser e de atividade pertence propriamente a Deus. vemos a extensão inteligível em Deus. a vontade. que nos diz ter Deus criado o mundo. para o pecado original. trata-se de uma percepção sensível inferior à da existência do espírito. bem como o erro no conhecimento. A respeito das relações entre Deus e o mundo. os filósofos "são obrigados à religião (revelada). inércia natural da extensão. mas no sentido de que é capaz de suspender a ação divina em si: suspensão (antes de que produção) de efeitos. nem da alma sobre o corpo. em psicologia. e as assim chamadas causas segundas não passam de ocasiões para o operar da causa única divina (ocasionalismo). não é causa produtora. pois só ela pode tirá-los do embaraço em que se encontram". precisamente. Esta visão é possível porque Deus está intimamente presente ao nosso espírito e lhe pode revelar a sua essência porquanto é comunicável. das coisas. da sua natureza. impulso e vontade. Temos uma intuição da sua existência. sensibilidade e pensamento.ao contrário das idéias . sente ele a necessidade de provar a existência de Deus na sua realidade subsistente e de determinar-lhe a natureza. assim não temos uma idéia clara da nossa alma. As relações . Noutras palavras: nós vemos. A Metafísica Se bem que malebranche afirme que Deus está intimamente presente ao nosso espírito como revelador das idéias. necessários e universais. que . a fim de explicar plena e verdadeiramente o homem na sua realidade atual.dependem de Deus e são produzidas diretamente por ele segundo a doutrina do ocasionalismo. isto é. a impossibilidade de uma interação entre corpo e alma. Temos. ele só é causa e atividade. A Moral Malebranche procura conciliar essa atividade universal divina com o live arbítrio humano. Como não temos uma idéia clara de Deus. e tal idéia se torna representativa de Deus pelo seu caráter de infinidade. Deus opera diretamente em todas as criaturas. Não há.a interação entre as coisas materiais de um lado e os espíritos humanos do outro. caro aos platônicos e aos agostinianos. Temos dele uma idéia clara. não propriamente a Deus. produzir alguma coisa. A única idéia clara e distinta que temos é a de extensão inteligível (e de seus modos). único elemento constitutivo das coisas materiais.

Academia Prussiana. que constituía um perigo contínuo contra a Alemanha. Conheceu certamente o pensamento da Renascença. a do pensamento aristotélico-tomista com o empirismo moderno. Florença. Estudou também o empirismo. também antigas e medievais. Foi um autodidata desejoso de tudo conhecer.162 Guilherme Leibniz Spinoza tentara a síntese do racionalismo cartesiano com o panteísmo neoplatônico. Seu sistema é uma afirmação do monismo spinoziano. Mais profundamente ainda. escritas pela maior parte em francês e em latim. A missão fracassou. escrita para resolver o problema do mal e publicada em 1710. conheceu também Newton. Entre outros. Guilherme Leibniz nasceu em Leipzig. Faleceu em Hannover em 1716. mas de grande penetração e agudeza crítica. chamada. Teodicéia. e. inventor. Também Malebranche influenciou profundamente Leibniz. onde fundou a Sociedade das Ciências. Leibniz travou relações com os maiores filósofos e cientistas da época. professor de moral na . O barão de Boinebourg convertido ao catolicismo . logo. como conselheiro áulico e bibliotecário. do cálculo infinitesimal. tomou contacto com Malebranche. resolvendo a realidade material em uma aparência fenomênica do espírito. escrevendo contra o Ensaio sobre o Intelecto Humano de Locke os seus Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano. Roma e Nápoles. que ele procurou conciliar com uma concepção dinâmica da realidade. Entre os filósofos antigos preferiu Platão e Plotino. não constituem uma elaboração sistemática e completa do seu pensamento. em seguida. Durante uma viagem a Londres. e que. As obras de Leibniz. Diversamente de Spinoza e de acordo com Malebranche. Malebranche tentara a síntese do racionalismo com o platonismo agostiniano. composta em 1701. criticando entretanto a forma deles. São ensaios ocasionais e esporádicos. Entre 1672 e 1676. formando-se em direito em Altorf em 1666-1667. para os quais teve estima no que concerne ao pensamento. Em 1676 foi convidado por João Frederico de Brunschwig para a corte ducal de Hannover. mas publicada postumamente em 1765). correspondendo-se com Bossuet para este fim. Spinoza influiu sobre Leibniz. O resultado é que a necessidade universal permanece. da res extensa. Vida e Obras universidade. escrita em francês para o príncipe Eugênio de Sabóia em 1714 e publicada postumamente. Eis as principais: Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano (crítica ao Ensaio de Locke. chefiou uma missão diplomática junto de Luís XIV. E chegará também à negação da realidade material. que ele fundiu em um ecletismo superior. também o panteísmo. o racionalismo abre as portas ao idealismo. que pode ser considerado spinoziano de fato se não de intenção. com a supressão do mundo físico. Seu pai era um jurista. para induzir o Rei Sol a dirigir contra os turcos a sua atividade de expansão. ocupando-se com escrever a história da casa Brunschwig foi à Itália. Estudou Suarez e Tomás de Aquino. Entretanto. Ficou até à morte naquele emprego. Aristóteles influiu nele sobretudo pelo que diz respeito à lógica. em especial o neoplatonismo renascentista. tanto assim que do ocasionalismo de Malebranche surgirá a harmonia preestabelecida de Leibniz. As fontes culturais e filosóficas de Leibniz são muitas e várias. Realizou outras viagens a Viena e Berlim. procurará compor a necessidade racionalista-matemática com a contingência e a liberdade. devido sobretudo ao racionalismo matemático. Fez tentativas para a união das igrejas protestante e católica e para a federalização política das nações cristãs.iniciou-o no conhecimento da igreja católica e introduziu-o na Corte eleitoral de Mogúncia. Deve-se ainda acrescentar uma copiosa correspondência filosófica. Indo de Paris para a sua nova sede. estudou filosofia e história da filosofia. ainda que sobre um plano mais rico e superior. matemática e jurisprudência. Entretanto foi o cartesianismo o sistema filosófico que influiu mais profundamente sobre Leibniz. parou na Holanda e visitou Spinoza. Pádua. Monadologia. em 1646. Leibniz tentará uma síntese mais vasta. como ele. visitando Veneza.

seria verdadeiramente o antecendente lógico infalível de cada um dos predicados. Deus seria a mônada suprema. que constituem o reino mineral e as plantas. tais verdades reduzíveis a juízos. As mônadas são eternas. constituindo a alma. da realidade. A ordem entre elas é explicada pela harmonia preestabelecida. que Deus introduziu na criação. mais ou menos. dotadas de representação insconsciente (pampsiquismo). teria. absolutamente perfeita. criadora e ordenadora de todas as outras. o mundo físico. nem esta sobre o corpo. Mas. Então Leibniz procura conciliar a necessidade do racionalismo com as exigências da contingência: as verdades de fato seriam contingentes quoad nos. ativa. quoad se. em que o predicado não se pode extrair analiticamente do sujeito. o conceito tradicional de Deus. enriquecidas de conhecimento científico e consciência reflexa. o indivíduo humano. unem-se mônadas subconscientes e mônadas inconscientes. uma aparência da psiquicidade. uma sobre as outras. para quem a penetrasse até o fundo. ab aeterno. A definição do sujeito. "Nesta escala. reflete todo o universo de um determinado ponto de vista. Afirma Leibniz. como explicar a ordem do universo? Leibniz responde com a célebre teoria da harmonia preestabelecida. que colheriam o primeiro aspecto da realidade. As verdades de fato seriam representadas por juízos de experiência. devido à nossa ignorância. um fundamento.ª) mônadas racionais. que constituem o corpo. seriam necessárias como as outras.163 O Pensamento: A Gnosiologia A gnosiologia de Leibniz é fundamentalmente representada pela ciência geral ou lógica universal. estes juízos escapam às pretensões da necessidade racionalista. A natureza das mônadas é espiritual. Este Absoluto . entretanto. mais ou menos elevado. as verdades de razão (juízos necessários de essência). a matéria. A matéria. porque o predicado é contido na noção adequada do sujeito. causa eficiente de todas as outras".realidade única informada por uma alma côsmica recorda a tão combatida Substância spinoziana. Deus. ou Deus. Leibniz distingue quatro grandes ordens: 1. Não apenas o homem é um microcosmo. Negada às mônadas a faculdade de agirem transitivamente. também as proposições contingentes verdadeiras seriam racionais e demonstráveis. O homem. Elas não têm relações recíproca: "as mônadas são sem janelas" . que colheriam o segundo aspecto. em que o predicado tem identidade com o sujeito. 2. ou almas humanas. representativa: cada uma representa. e são concebidos como átomos espirituais dotados de atividade.diz Leibniz. desenvolvendo-se não apenas matematicamente. de um ponto de vista absoluto. da ínfima mônada até à suprema. 3. constituem as almas dos brutos. não tem existência real. se pode ser tirado analiticamente dele. particular. substâncias-forças. "A substância é um ser capaz de ação". Entretanto. e o outro diverso. inúmeras. a corporeidade. porém. Este todo é regulado pela harmonia preestabelecida. Os elementos primeiros. contínua. a sua imensa série se dispõe em escala hierárquica ascendente. consciente. universal. com respeito a nós. pois o corpo não atua diretamente sobre a alma. necessário. Isto quer dizer. não há duas mônadas perfeitamente iguais. A Metafísica A Metafísica de Leibniz é a doutrina das mônadas (monadologia). Conforme o seu conteúdo representativo. o princípio de razão suficiente na realidade criada. as mônadas são dotadas de propriedade de perceber (pampsiquismo). dotada de percepção. 4. As verdades de razão fundamentam-se sobre o princípio de indentidade.ª) mônadas nuas. mas também finalisticamente. capazes de representação consciente ou apercepção. nem todas percebem conscientemente. A uma mônada central. é um fenômeno. imediatamente evidente. contingente. esta deve proporcionar o método para inventar e demonstrar todas as ciências. isto é. feita por Leibniz dinâmica. Leibniz distingue. A realidade apresenta-se indiscutivelmente sob dois aspectos: um idêntico. Leibniz chama-os mônadas. e as verdades de fato (juízos da existência contingente). regularizou todas as ações das mônadas de tal forma que . Deus. em virtude da qual a uma modificação física corresponde uma modificação psíquica e vice-versa.ª) mônadas sensitivas.ª) mônada suprema. mas cada ser é um microcosmo. seria um conjunto de mônadas de grau diverso. fundamentais. portanto. Para Leibniz.

em seguida. voltando. Vida e Obras Cristiano Wolff nasceu em Breslau em 1679. partindo dedutivamente. a metafísica deveria ser construída a priori. foi demitido sob acusação de ateísmo em religião e determinismo em moral. na resistência humana à ação de Deus. à ação de Deus. Dado esse caráter apriorístico. Formou-se em filosofia em Leipzig em 1703. para a Universidade de Halle. racionalista. da idéia inata de ser. o racionalismo moderno manifesta explicitamente o seu caráter fenomenista abstrato. que. como o mal metafísico: tem uma causa deficiente e não eficiente. um hábil relojoeiro constrói dois relógios. a ciência como uma dedução necessária de elementos e princípios primeiros. que tinha condensado e ordenado em mil parágrafos o prolixo sistema de Wolff. que pretendia ser válido para a realidade concreta um sistema construído a priori: um mundo de idéias para um mundo de coisas. Afirma ele a liberdade. porquanto ambos atuam necessariamente. A segunda explica-se pela sua adesão ao determinismo racionalista de Leibniz. Se é que Wolff teve algum conhecimento particular da escolástica aristotélico-tomista. pois cada homem não é um meio e sim um fim. do modo melhor. A reação é facilmente compreensível. no homem. Mas vem fenecer o livre arbítrio. sistemático teve um êxito imenso. que. O mal moral. enquanto são criados. aí ensinando até à morte (1754). sem se influenciarem mutuamente. O mal dos vários seres se torna um bem para o conjunto. moral e físico. . graças ao qual teve em 1707 uma cátedra de matemática e filosofia na Universidade de Halle. aristotélico-tomista.distingue o mal em metafísico. formal. ao contrário. a livre escolha. No entanto. Em Wolff. A filosofia. A Moral A moralidade é reconduzida à atividade. a reação kantiana e a acusação de dogmatismo movida contra essa orientação filosófica. sim. do pensamento de Wolff. O primeiro não é verdadeiro mal. Entrou. e Kant lecionava na universidade servindo-se da Metaphysica de Baumgarten. marcam ao mesmo tempo as mesmas horas". quer no homem quer em Deus. racionalista-matemático. pois a natureza destes seres é necessariamente limitada. Compreende-se. Entretanto. A primeira acusação tem um fundamento na afirmação de Wolff de que a moral estaria de pé igualmente. Leibniz . portanto. sem uma relação real entre as duas ordens. devido à sua tese da ação necessariamente dirigida para o melhor. se se considerar que os manuais de Wolff invadiram a cultura alemã da época. Dedicou-se aos problemas morais e religiosos. analiticamente. a qual concebe. é consciente e racional.164 se correspondessem como se realmente houvesse entre elas um influxo mútuo de causalidade recíproca. certamente não compreendeu o espírito íntimo desse sistema. vulgarizador do pensamento de Leibniz. Leibniz interessou-se especialmente pelo problema do mal e da liberdade. Leibniz explica o mal físico mediante a estética. "Assim. Sem esta limitação não haveria sequer o mundo. mesmo prescindindo da existência de Deus. esta explicação não serve no caso do homem. humanos. com Cristiano Wolff. desde logo. O seu ensino claro e metódico. em relações com Leibniz. estudando também matemática. a espontaneidade racional.como é sabido . Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. em que a liberdade de Deus e do homem vêm fornecer. é devido à resistência voluntária dos entes criados. por certo. mas estes se baseiam no terreno sólido da experiência. Wolff retirou-se então para a Universidade de Marburgo. No campo da moral. sendo um ser racional. e. as desarmonias particulares realçam a harmonia do todo. no seu sistema subsiste a liberdade metafísica. compreende-se como ele se diferencia profundamente da escolástica clássica. Também o mal moral é uma privação de ser. em 1723. Cristiano Wolff O racionalismo moderno toma uma sistematização rígida. porquanto constitui a limitação necessária dos seres criados.

a economia. Cosmologia generalis. parte à procura de novas fontes de conhecimento. mesmo no caso do ateísmo (como se a negação de Deus não implicasse necessariamente na negação de todos os valores). diríamos. nem a religião natural. Philosophia moralis seu ethica. A filosofia especulativa é. Só as matemáticas demonstram o que afirmam: "As matemáticas agradavam-me sobretudo por causa da certeza e da evidência de seus raciocínios". Aí gozará de um regime de privilégio. Quanto à idéia de ética. a adequação especulativa da mente com a coisa. Wolff diz justamente que a lei moral não pode depender ao arbítrio divino. Diversamente. De 1604 a 1614. Psychologia empirica. pequeno domínio do Poitou. decepcionado com a escola. É notável o critério de verdade segundo Wolff: a verdade consiste exclusivamente na coerência entre as idéias. vamos encontrá-lo na Holanda engajado no exército do príncipe Maurício de Nassau. derivante da própria natureza de Deus e das coisas por ele criadas). e a outra em alemão. a saber. Mas é um estranho oficial que recusa qualquer soldo. admite a obrigação absoluta da lei moral. hoje perdido). a psicologia. tomisticamente. do iluminismo racionalista alemão. antes de tudo. abrangendo a ontologia. empreguei o resto de minha juventude em viajar. primitiva (isto é. Philosophia prima seu ontologia. estuda no colégio jesuíta de La Flèche. pelo qual não há relação entre pensamento e ser. Em todo caso.As obras filosóficas de Wolff são constituídas por duas séries de manuais. a política. É a revelação completa so fenomenismo racionalista. e finaliza na negação desta última. a teologia natural. e resolvendo não procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo. onde se ocupa com equitação e esgrima (chega mesmo a redigir um tratado de esgrima. Apesar de apreciado por seus professores. ao contrário. a experiência da vida e a reflexão pessoal: "Assim que a idade me permitiu 165 sair da sujeição a meus preceptores. O Pensamento Wolff divide a filosofia em lógica. ou revelada. Psychologia rationalis. Jus naturae. necessária. ocupa-se sobretudo com matemática. a filosofia prática geral e o direito natural e. A Filosofia de Descartes Sua Vida René Descartes. numa família nobre  terá o título de senhor de Perron. logo. mas é absoluta. ao lado de Isaac Beeckman. É dessa época (tem cerca de 23 anos) que data . Jus gentium. uma vez que ainda não se tentou aplicar seu rigoroso método a outros domínios. a cosmologia geral. a ética. da religião positiva. mas um povoado da Touraine. compreende precisamente: Philosophia rationalis sive logica. Tais manuais tiveram um grande êxito. que sustenta o divórcio entre a religião natural e a religião positiva. Na Holanda. Wolff não nega Deus. que mantém seus equipamentos e suas despesas e que se declara menos um "ator" do que um "espectador": antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. em ver cortes e exércitos. Separa. Após alguns meses de elegante lazer com sua família em Rennes. A filosofia prática abrange. ele se declara. "Não encontramos aí nenhuma coisa sobre a qual não se dispute". pelo qual a verdade é. A série dos manuais em latim. especulativa e prática. decepcionado com o ensino que lhe foi ministrado: a filosofia escolástica não conduz a nenhuma verdade indiscutível. Eis por que o jovem Descartes. longe dos livros e dos regentes de colégio. no "Discurso sobre o Método". nascido em 1596 em La Haye  não a cidade dos Países-Baixos. Psychologia practica universalis. o que o leva a adquirir um hábito que o acompanhará por toda sua vida: meditar no próprio leito. Oeconomia. uma em latim. Wolff é o pai do Aufklärung. a filosofia que conhece a religião natural. abandonei inteiramente o estudo das letras. fundamentalmente. conviver com pessoas de diversos temperamentos e condições". pois levanta-se quando quer. Mas as matemáticas são uma exceção. a metafísica. É bem diverso o critério de verdade do sistema aristotélico-tomista. porém. daí o aposto "fidalgo poitevino". Desta o filósofo prescinde.

de ter vindo "viver no país dos ursos. ele se decide a publicar três pequenos resumos de sua obra científica: A Dióptrica. é aquilo de que não posso duvidar. o produto do espírito crítico. Os Meteoros e A Geometria. Seu ataúde. Entre 1629 e 1649. Desse modo. ele antes de tudo quer fugir às querelas e preservar a própria paz. por ocasião da rápida viagem a Paris. Descartes quer apenas significar que é um jovem sábio disfarçado de soldado. será transportado para a França. A 10 de novembro de 1619. Eu caminho mascarado. ele publica uma espécie de manual cartesiano. as "Regras para a direção do espírito" (Regulae ad directionem ingenii). o filósofo. Ele faz ver que o seu método. é capaz de provar rigorosamente a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. de quem ele é. é a regra da análise: "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis". logo se arrepende. É ao surgir da aurora (5 da manhã!) que ele dá lições de filosofia cartesiana à sua real discípula. isto é. a evidência é o que salta aos olhos. A idéia fundamental que aí se encontra é a de que a unidade do espírito humano (qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa) deve permitir a invenção de um método universal. não antes de encarregar seu editor de imprimir. evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto. um dia. Muito pelo contrário! Em 1641. Em 1644. apesar de todos os resíduos. Não. Descartes. é o que resiste a todos os assaltos da dúvida. mas quadragenária". num quarto bem aquecido por um desses fogareiros de porcelana cujo uso começa a se difundir. de um lado é católico sincero (embora pouco devoto). Contrai uma pneumonia e se recusa a ingerir as drogas dos charlatões e a sofrer sangrias sistemáticas ("Poupai o sangue francês. Por conseguinte. o Tratado do Mundo. Esses resumos. que quase não são lidos atualmente. Em outras palavras. Finalmente. Em virtude do inverno. 1. são acompanhados por um prefácio e esse prefácio foi que se tornou famoso: é o Discurso sobre o Método. Após muitas tergiversações. "uma evidência juvenil. ele vive na Holanda. Em seguida. o diretor de consciência e com quem troca importante correspondência. inspirado no rigor matemático e em suas "longas cadeias de razão". senhores"). Descartes encontra o embaixador da frança junto à corte sueca. servido por um criado e inteiramente entregue à meditação. Mas é demasiado tarde. Mas ele aguardará até 1628 para escrever um pequeno livro em latim.sua misteriosa divisa "Larvatus prodeo". para antes do outono. em 1637. aceitarem todas as conseqüências do método  inclusive o movimento da Terra em torno do Sol! Isto não quer dizer que a metafísica seja. O Método Descartes quer estabelecer um método universal. Segundo Pierre Frederix. dedicado à princesa palatina Elisabeth. Descartes prepara uma obra de física. um simples acessório. à qual ele parece Ter-se submetido sempre e com humildade. alguns anos mais tarde. como diz bem Jankélévitch. que o põe em contato com a rainha Cristina. Em 1619. isto é. Os Princípios de Filosofia. Em 1644. o que "eu não tenho a menor oportunidade de duvidar". 166 . sua obra-prima. de outro. Luís XIV proibirá os funerais solenes e o elogio público do defunto: desde 1662 a Igreja Católica Romana. aquartela-se às margens do Danúbio. ele que "nasceu nos jardins da Touraine". a cuja publicação ele renuncia visto que em 1633 toma conhecimento da condenação de Galileu. morrendo a 9 de fevereiro de 1650.  A primeira regra é a evidência: não admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". É certo que ele nada tem a temer da Inquisição. seu Tratado das Paixões  embarca para Amsterdã e chega a Estocolmo em outubro de 1649. que sofre atrozmente com o frio.  A segunda. país protestante. Mas Descartes. Podemos facilmente imaginá-lo alojado "numa estufa". inspirado nas matemáticas. sonhos maravilhosos advertem que está destinado a unificar todos os conhecimentos humanos por meio de uma "ciência admirável" da qual será o inventor. acompanhadas de respostas às objeções. em certo sentido. colocará todas as suas obras no Index. para Descartes. ele quer preparar os espíritos para. ei-lo a serviço do Duque de Baviera. entre rochedos e geleiras". Esta última chama Descartes para junto de si. apesar de todos os meus esforços. aparecem as Meditações Metafísicas. 2. Chanut.

Descartes pensa sobretudo na ciência. os instrumentos da dúvida nada mais são do que os auxiliares psicológicos. 1. Não posso tê-la tirado de mim mesmo. e mais sólida que a do matemático. portanto. 2. "Penso. é importante ressaltar.. Não é um raciocínio (apesar do logo. pois é uma intuição metafísica. como já se disse. chamamos de idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo conhecimento). uma coisa de que não posso duvidar. visto que sou finito e imperfeito. °  Nesse nível. eis demonstrada a existência de Deus. diz Descartes nesse sentido.  A terceira. que. mas uma intuição. não é. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes. ocupado em escrever algo junto à lareira. "estava despido em meu leito"). O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. É a idéia de perfeição. por conseguinte. pois. O cogito de Descartes.  A última á a dos "desmembramentos tão complexos. é muito mais que um simples acidente gramatical do verbo cogitare). Duvidemos dos sentidos. 167 . de infinito. cogito. Ferdinand Alquié). a evidência sensível e empírica. uma vez que eles freqüentemente nos enganam. °  Existe. que tenho a idéia de Perfeição. sem aborrecer Brunschvicg. na verdade. isto é. a alma. ao longo das belas cadeias da razão. os instrumentos de um verdadeiro "exército espiritual". em filosofia. metamatemática. nesse momento de seu itinerário espiritual. desde que possa encontrar um argumento. diz Descartes. ergo sum". logo existo. É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. Os sentidos nos enganam. o excluiu expressamente: o político e o religioso (Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo de seu método).. a evidência intuitiva das "naturezas simples". ascender. Duvidemos também das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade  quer eu sonhe ou esteja desperto  que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse. E nota-se que se trata de um Deus perfeito. mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento). Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. Eu. o ato de nascimento do que. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida. Descartes duvida voluntária e sistematicamente de tudo. Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro alcance que a dúvida metódica do cientista. a) Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias. foi porque os séculos posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo. mas de um ser. Para bem compreender sua metafísica. porém. tão imperfeito. Ele só tem certeza de seu ser. aos mais complexos".°  Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com a dúvida. resta a certeza de que eu penso. mesmo que o demônio queira sempre me enganar.3. entretanto. Ela trata não de um objeto. só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. se Deus fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas? Tanto quanto duvido do Ser. de modo algum. 4. Por conseguinte. a ponto de estar certo de nada ter omitido". aos poucos. Ego cogito (e o ego. b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é. sempre posso duvidar do objeto (permitam-me retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes. sempre duvido desse objeto que é meu corpo. Mesmo que tudo o que penso seja falso. só as idéias da razão são claras e distintas. A dedução nada mais é do que uma intuição continuada. de uma ascese. A Metafísica No Discurso sobre o Método. é necessário ler as Meditações. suas indicações são confusas e obscuras. é a regra da síntese: "concluir por ordem meus pensamentos. Eu penso. do ergo). Por conseguinte. 3. "é mais fácil de ser conhecida que o corpo"). de seu ser pensante (pois. por mais frágil que seja. Descartes é solipsista. mas o próprio ato de duvidar é indubitável. como que por meio de degraus. Se esse método tornou-se muito célebre. A dedução limita-se a veicular. nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido com o "robe de chambre".

mas antes da idéia de Deus que há em mim. de nenhuma verdade. e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. a terra. Por conseguinte. Suporei. como não tendo nenhum dos sentidos. mais de uma intuição. Exercício Espiritual 1. Eis por que penso que as utilizarei mais prudentemente se. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento. então. de uma experiência espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio. pelo menos estará em meu poder fazer a suspensão de meu juízo. as cores. o argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo) reencontra: trata-se. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade. Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência. que empregou toda sua indústria em enganar-me. e prepararei tão bem meu espírito em face de todos os ardis desse grande enganador que. tendo de tal modo avaliado meus preconceitos. Pensarei que o céu. se por esse medo. Apreender a idéia de perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. o ar. nunca poderá impor-me coisa alguma. de maneira que se tenha mais razão em acreditar nelas do que em negá-las. por mais poderoso e astucioso que seja. É ela que fundamenta a ciência (um ateu. eles não possam fazer com que minha opinião tenda mais para um lado do que para outro.168 é todo bondade. a extensão e o movimento). Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. não pode ser geômetra!). não pode haver perigo nem erro nesse caminho e de que eu hoje não poderia conceder muito à minha desconfiança. para Descartes. dirá Descartes. e. que é a soberana fonte da verdade. A evidência ontológica que. teme ser . não um verdadeiro Deus. René Descartes A Dúvida. para tanto. e. dominado por maus usos e afastado do caminho reto que o pode conduzir ao conhecimento da verdade. como acabei de provar. mas somente de meditar e de conhecer. Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria. Compreenda-se que. não estiver em meu poder atingir o conhecimento. 4. nem olhos. fingindo que todos esses pensamentos são falsos e imaginários. no momento. exatamente como o escravo que se comprazia no sonho de uma liberdade imaginaria e que. no entanto. uma vez que. Não mais se trata de partir de mim. É o argumento ontológico. não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). °  A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a existência de Deus. isto é. quando começa a suspeitar que essa liberdade é apenas um sonho. pelo cogito. a metafísica tem. enquanto eu as considerar tais como efetivamente são. daqui por diante. de certo modo duvidosas. Pois uma perfeição nãoexistente não seria uma perfeição. isto é. e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida comum. não menos ardiloso e enganador do que poderoso. mas certo gênio maligno. os sons. ainda aqui. pois essas antigas e comuns opiniões freqüentemente revivem em meu pensamento. não se trata d agir. as figuras. nem sangue. uma evidência mais profunda que a ciência. a longa e familiar convivência que tiveram comigo. empregar todos os esforços no sentido de enganar-me a mim mesmo. no entanto. que tenho a idéia de Deus. muito prováveis. o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável. eu então posso crer na existência do mundo. me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. E. até que. e meu julgamento não mais seja. Uma vez que Deus existe. que há. o que lhes dá o direito de ocupar o meu espírito sem que eu o queira e de quase se tornarem senhoras de minha crença. é preciso ainda que eu cuide de não me esquecer delas. mas acreditando falsamente possuir todas essas coisas. Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso. Se Deus é perfeito. tomando um partido contrário.ª Meditação Descartes resolve duvidar de todas as suas opiniões: Mas não basta ter feito essas observações. E nunca me desacostumarei a essa aquiescência e a confiar nelas. nem carne. Pois estou certo de que. Considerar-me-ei a mim mesmo como não tendo mãos.

ou pelo olfato. todas as vezes em que a enuncio ou em que a concebo em meu espírito. após ter pensado bastante nisto e ter cuidadosamente examinado todas as coisas. temendo que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso. empregando-o em desvendar semelhantes sutilezas. Por conseguinte. Mas há um não sei quem. de maneira a só permanecer precisamente o que é inteiramente indubitável. que não havia nenhum céu. De maneira que. certamente. Eis por que considerarei de novo o que acreditava ser. para não tomar imprudentemente alguma outra coisa por mim e assim não me equivocar nesse conhecimento que sustento ser mais certo e mais evidente do que todos os que tive até o momento. se aí me demorava. que é que eu acreditava ser até aqui? Sem dificuldade. mãos. nunca poderá fazer com que eu nada seja. retorno invisivelmente às minhas antigas opiniões e receio despertar dessa sonolência. Mas. enganador muito poderoso e astucioso. que pode ser compreendido em qualquer lugar e preencher um espaço de tal maneira que todo outro corpo seja dela excluído.169 despertado e conspira com essas agradáveis ilusões para ser mais longamente enganado. eu pensei que era um homem. assim eu. de maneira que. se ele me engana. é necessariamente verdadeira. considerava que eu me alimentava. que estava insinuado e disseminado nas minhas partes mais grosseiras. uma chama ou um ar muito tênue. imaginava que ela era algo de extremamente raro e sutil. se quisesse explicá-la segundo as noções que tinha dela. não fossem suficientes para aclarar as trevas das dificuldades que acabam de ser tratadas. tê-laia descrito da seguinte maneira: por corpo. mas não me detinha em pensar o que era essa alma ou. Mas eu. de agora em diante. Considerava-me. é preciso que eu atente cuidadosamente. Por outro lado. passemos aos atributos da alma . eu existia sem dúvida. eu. Eu Sou Uma Coisa Que Pensa 2. pois eu pensava conhecê-la mui distintamente e. ou pela visão. pois seria necessário que em seguida pesquisasse o que é animal e o que é racional e assim. que sou eu. enquanto eu pensar ser alguma coisa. Não é necessário que me demore a enumerá-las. de uma só questão. não por si mesmo. se ouso dizelo. relacionando todas essas ações à alma. antes. que pode ser sentido pelo tato. há que concluir finalmente e ter por constante que esta proposição. e eu não gostaria de abusar do pouco tempo e do lazer que me resta. se é que me persuadi ou somente pensei alguma coisa. antes de penetrar nesses últimos pensamentos. eu não duvidava de modo algum de sua natureza. que estou certo de que sou. cairíamos insensivelmente numa infinidade de outras mais difíceis e embaraçosas. e de minhas antigas opiniões abolirei tudo o que pode ser combatido pelas razões que há pouco aleguei. eu existo". corpos alguns. entendo tudo o que pode ser limitado por alguma figura. ou pela audição. braços e toda essa máquina composta de osso e carne. Por conseguinte. e não encontro nenhuma que possa dizer que existe em mim. mas por algo alheio pelo qual seja tocado e do qual se pudesse atribuir à natureza corpórea vantagens como a de ter o poder de mover-se a si própria. por mim mesmo.ª Meditação Eu me persuadi de que nada existia no mundo. e. ao invés de propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade. que sentia e que pensava. que emprega todas as suas forças e toda a sua indústria em enganar-me? Poderei ter a certeza de possuir a menor de todas as coisas que acima atribuí à natureza corpórea? Detenho-me a pensar nisso em meu espírito. então. primeiramente. por mais que ele queira enganar-me. "Eu sou. também não me persuadi de que eu não existia? É certo que não. que andava. malicioso e astucioso. não há a menor dúvida de que sou. espíritos alguns. No que se referia ao corpo. ou pelo paladar. nenhuma terra. espantava-me antes ao ver que semelhantes faculdades se encontravam em certos corpos. deter-me-ei em considerar aqui os pensamentos que anteriormente nasciam por si mesmos em meu espírito e que eram inspirados apenas por minha natureza quando eu me empenhava na consideração de meu ser. como um vento. ao contrário. como tendo um rosto. agora que suponho que há alguém que é extremamente poderoso e. Mas ainda não conheço bastante o que sou. Por conseguinte. que pode ser movido por diversas maneiras. Mas que é um homem? Direi que é um animal racional? Não. que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. tal como ela aparece num cadáver e a qual eu designava pelo nome de corpo.

que não as sentira efetivamente. sua grandeza aumenta. sendo redonda. mas se é verdade que não tenho corpo algum. uma vez que supus que tudo isso não era nada e que. Tomemos. mas não se pode sentir também sem o corpo. isso é certo. ou ao tato. a mesma cera permanece. se não pensasse que é capaz de receber mais variedades segundo a extensão do que nunca imaginei. Ora. não sou um ar tênue e penetrante. Enfim. essa concepção que tenho da cera não se realiza pela faculdade de imaginar. A mesma cera permanece após essa transformação? Cumpre confessar que sim. mal podemos tocá-lo. mas por quanto tempo? A saber. e que só meu entendimento é quem o concebe. pouco antes. eu sou uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente. sua cor. que conhecíamos nesse pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada do que observei nela por intermédio dos sentidos. precisamente falando. no entanto. que é essa extensão? Não será também desconhecida. e ninguém o pode negar.170 e vejamos se há alguns que existam em mim. uma vez que todas as coisas que se apresentavam ao paladar. o que é a cera. Ora. eu deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. então. ao despertar. o odor se desvanece. por todo o tempo em que eu penso. Os primeiros são alimentar-me e andar. Por conseguinte. Talvez fosse o que penso a atualmente. um entendimento ou uma razão. Mas o que será. todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo. não produzirá som algum. precisamente falando. que é isso: flexível e mutável? Não estarei imaginando que esta cera. nem essa brancura. um vapor nem nada que possa fingir e imaginar. esquenta-se. pois poderia ocorrer que. se nele batermos. é preciso que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera. além disso. outrora eu pensei sentir várias coisas durante o sono e verifiquei. disseminado por todos esses membros. eu não sou. e. a saber. é capaz de se tornar quadrada e de passar do quadrado para uma figura triangular? É certo que não. um espírito. também é verdade que não posso andar nem me alimentar. que a cera não era essa doçura do mel. se apresentava sob essas formas e que agora se faz notar sob outras. Eu não sou essa reunião de membros que se chama corpo humano. e saber. ainda retém algo do odor das flores de que foi recolhido. Mas eis que. É certo que não permanece senão algo de extenso. um sopro. Agora eu nada admito que não seja necessariamente verdadeiro: portanto. nem essa figura. que eu imagino quando a concebo dessa maneira? Consideremo-la atentamente e. ou à visão. E. visto que na cera que se funde ela aumenta e fica ainda maior quando aquela está inteiramente fundida e muito mais ainda quando o calor aumenta mais? E eu não conceberia claramente. O Pedaço De Cera 3. ou ao olfato. se eu deixasse de pensar. os corpos que tocamos e que vemos. mas apenas um corpo que. sua cor se modifica. consequentemente. enquanto falo. agora. mas que coisa? Já o disse: uma coisa que pensa. uma vez que a concebo capaz de receber uma infinidade de transformações semelhantes e. Um outro é pensar. eu não poderia percorrer essa infinidade com minha imaginação e. Não pretendo falar dos corpos em geral. ele se torna líquido. para verificar ainda se não sou algo mais. encontram-se neste. de flexível e mutável. produzirá algum som. por exemplo. alguém o aproxima do fogo: o que nele restava de sabor. isto é. ainda que batamos nele. Eu sou. este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele ainda não perdeu a doçura do mel que continha. Que é. e constato aqui que o pensamento é um atributo que me pertence. eu existo. não sou um vento. mas de qualquer corpo em particular. afastando todas as coisas que não pertencem à cera. E que mais? Excitarei ainda minha imaginação. senão uma coisa que pensa. não é isso. que são termos cuja significação me era desconhecida anteriormente. nem esse som. nem esse agradável perfume das flores. no entanto. constato que não deixo de estar certo de que sou alguma coisa. somente ele não pode ser separado de mim. sem modificar tal suposição. Um outro é sentir.ª Meditação Comecemos pelas considerações das coisas mais comuns e que julgamos compreender mais distintamente. sua figura se perde. exala-se. e segundo a verdade. ou à audição se encontram modificadas e. sua figura e sua grandeza são evidentes: ele é duro e frio quando o tocamos e. vejamos o que resta. . uma vez que essas noções gerais comumente são mais confusas.

tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei. antes. perseguir ou fugir as coisas que o entendimento nos propõe. estando habituado em todas as outras coisas a fazer distinção entre existência e essência. a idéia de um ser soberanamente perfeito. para afirmar ou negar. que não concebo de modo algum a idéia de nenhuma outra mais ampla e mais extensa: de maneira que é ela. quanto mais eu tender para um.seja em virtude do objeto. antes. E. meu pensamento não impõe necessidade alguma às coisas. na verdade. pertence-lhe efetivamente. mas. que se afigure com alguma aparência de sofisma.ª Meditação Ora. como do simples fato de eu conceber uma montanha com um vale não se segue que haja qualquer montanha no mundo. afirmar ou negar. Pois. Mas. pois. perseguir ou fugir). verifico claramente que a existência não pode ser separada da essência de um triângulo retilíneo não pode ser separada a grandeza de seus três ângulos iguais a dois retos ou. eu seria inteiramente livre. não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários. embora não exista nenhum dotado de asas. seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram. assim eu talvez pudesse atribuir existência a Deus. encontrando-se juntos aí. agimos de tal modo que não sentimos de maneira alguma força exterior que nos obrigue a isso. antes a aumentam e a fortalecem. pois. do mesmo modo. ainda que Deus . ainda o que tudo que concluí nas Meditações precedentes não fosse absolutamente verdadeiro. a tornam mais firme e mais eficaz . quando não sou de maneira alguma impelido mais para um lado do que para outro pelo peso de alguma razão. e faz antes parecer uma carência de conhecimento do que uma perfeição na vontade. assim. e como só depende de mim imaginar um cavalo alado. para que eu seja livre. portanto. agora. parece que isso não implica em que haja algum Deus existente. e. ao qual falta alguma perfeição) do que em conceber uma montanha que não tenha um vale. segue-se que tudo o que eu reconheço pertencer clara e distintamente a essa coisa. de maneira que não há menos repugnância em conceber um Deus (isto é.ª Meditação O que existe unicamente é a vontade que sinto ser tão grande em mim. que só dizem respeito aos números e às figuras: se bem que. Todavia. não pareça inteiramente manifesto. De modo que essa indiferença que sinto. não posso tirar daí um argumento e uma prova demonstrativa da existência de Deus? É certo que não encontro menos em mim sua. assim.que. principalmente que me faz conhecer que trago a imagem e a semelhança de Deus. se eu sempre conhecesse claramente o que é verdadeiro e o que é bom. todavia. sem nunca ser indiferente. somente em que. quando penso nisso com mais atenção. Pois. se do simples fato de que posso tirar de meu pensamento a idéia de alguma coisa. assim como uma montanha sem vale. E não conheço menos clara e distintamente que uma atual e eterna existência pertence à sua natureza do que conheço que tudo o que posso demonstrar de qualquer figura ou de qualquer número pertence verdadeiramente à natureza dessa figura ou desse número. da idéia de uma montanha. persuado-me facilmente de que a existência pode ser separada da essência de Deus e que. bem longe de diminuírem minha vontade. um ser soberanamente perfeito) ao qual falta a existência (isto é. do que a idéia de qualquer figura ou de qualquer número que seja. Pois. a existência de Deus deve apresentar-se em meu espírito pelo menos como tão certa quanto considerei até aqui todas as verdades da matemática. a idéia de um vale.171 A Liberdade 4. ainda que efetivamente eu não possa conceber um Deus sem existência. isso. ou. seja em virtude do conhecimento e do poder . de início. O Argumento Ontológico 5. se possa conceber Deus como não existindo atualmente. ela não me parece todavia maior se eu a considero formal e precisamente em si mesma. isto é. nunca teria dificuldade em deliberar qual juízo e qual escolha deveria fazer. seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento. É certo que a graça divina e o conhecimento natural. na medida em que ela se dirige e se estende infinitamente a mais coisas. Pois ela consiste somente em que podemos fazer uma coisa ou deixar de fazê-la (isto é. ainda que ela seja incomparavelmente maior em Deus do que em mim. é o mais baixo grau de liberdade. embora eu conceba Deus com existência.

impressões de reflexão (emoções e paixões). de causas e efeitos etc. de maneira alguma. Que existe verdadeiramente no pensamento quando se discorre sobre isso? As quais impressões vividas correspondem todas essas palavras? Aquilo que Hume chama de . Hume pertencia a uma família abastada. Ele parte do princípio de que todas as nossas "idéias" são ópias das nossas "impressões". seus Diálogos sobre a Religião Natural. brilhantes. O Método de Hume Hume quis ser o Newton da psicologia. "já nasceu morta para a imprensa". também. Sua filosofia coloca. do fato de eu não poder conceber uma montanha sem vale. sob o nome de "impressões". Mas não é assim. em 1739. e que. como me é dada a liberdade de imaginar um cavalo com ou sem asas. mas não deixa de inquietar os cristãos. acessíveis ao público mundano. dos dados empíricos: impressões de sensação. O subtítulo de seu Tratado da Natureza Humana é. porque a própria coisa. e Hume vê lhe recusarem uma cadeira de filosofia na Universidade de Glasgow. em Edimburgo em 1711. aos vinte e três anos. nesse sentido. uma volumosa História da Inglaterra (1754-1759) e uma História Natural da Religião (1757). aquilo que Bergson mais tarde denominará os dados imediatos da consciência e que os fenomenologistas denominarão a intuição originária ou o vivido. a saber. nem vale algum. Para Hume. publicou uma Investigação sobre os Princípios Morais (1751).172 nenhum existisse. ao passo que. isto é. estar separados um do outro. não está em minha liberdade conceber um Deus sem existência (isto é. O jovem Hume. rapidamente renuncia aos estudos jurídicos e comerciais. era um cientista discípulo de Newton. não se segue que haja no mundo montanha alguma. cujo professor de "filosofia". Esse fracasso deu a Hume a idéia de escrever livros curtos. ao contrário. Gaton Berger escrevia: "É preciso ir dos conceitos vazios. indispondo-se com ele em seguida. quer não existam. Pois. à primeira vista. Somente após sua morte (1776) é que foram publicados. notadamente em La Flèche. ir da idéia à impressão consiste em apenas perguntar qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras. não que meu pensamento possa fazer com que isso seja assim e que ele imponha alguma necessidade às coisas. pelos quais uma idéia é apenas visada. exatamente como Hume nos ensina a retornar das idéias para as impressões". isto é. Em 1766 ele hospeda Rosseau na Inglaterra. O Empirismo . editado em Londres. Fala-se de substância. muito próxima da de Locke. portanto.Hume David Hume David Hume nasceu na Escócia. A obra. A análise psicológica do entendimento operada por Hume parece. pois. um ser soberanamente perfeito sem uma soberana perfeição). Stewart. onde compõe. em 1779. bastante esclarecedor: "Uma tentativa de introdução do método de raciocínio experimental nas ciências morais. determina meu pensamento a concebê-lo dessa maneira. o método de Hume pode ser apresentado de maneira mais moderna. Não é este o ponto de vista tradicional do empirismo que vê na experiência a fonte de todo saber? Na realidade. mas. Ele acabará por fazer uma bela carreira na diplomacia. Hume se esforça por simplificar e vulgarizar a filosofia de seu tratado e publica então os Ensaios Filosóficos sobre o Entendimento Humano (1748). Nesse meio tempo. de princípios. Fez bons estudos no colégio de Edimburgo . em seguida transformado em universidade -. a existência de Deus. do simples fato de eu não poder conceber Deus sem existência. passa alguns anos na França. diz-nos o autor. De 1763 a 1765 ele é secretário da Embaixada em Paris e festejado no mundo dos filósofos. cujo título definitivo surgirá em edição seguinte (1758): Investigação (Inquiry) sobre o Entendimento Humano. de física e ciências naturais. Ao falar de fenomenologia contemporânea. A obra obtém sucesso. Em 1768. que sonha tornar-se homem de letras e filósofo célebre. quer existam. ele é Secretário de Estado em Londres. seu Tratado da Natureza Humana. ele existe verdadeiramente. segue-se que a existência lhe é inseparável. não podem. à intuição direta e concreta da idéia. Seus Ensaios Morais e Políticos (1742) conhecem vivo sucesso. mas apenas que a montanha e o vale.um dos melhores da Escócia. mas. pois aqui há um sofisma escondido sob a aparência dessa objeção.

Ainda aqui. constato com surpresa que quero efetuar certos movimentos e depois que esses movimentos se realizam. filósofo do século XVIII. mas ele retém a análise psicológica do grande filósofo francês. que ele se levanta. Se quero levantar o braço. elas ocorrem melhor do que à tarde (em alguns) e melhor antes da refeição do que após. não tenho experiência de uma conexão necessária. prevejo a ebulição dessa água. Mas isto não esclarece nada. o fenômeno B se segue ao fenômeno A. Pela manhã. B aparece. em nome do princípio de causalidade (as mesmas causas produzem os mesmos efeitos ou o aquecimento da água é causa da ebulição). que faço a todo momento em que sinto o poder da minha consciência sobre meu corpo. vasculham todos os lugares vizinhos sem visão nem propósitos determinados. que se precisa redescobrir sob as palavras (no empirismo de Hume. então. em seguida. Todo raciocínio experimental. Vejamos para onde nos conduzirá essa busca filosófica. de início. Mas não constato o porquê. Não sei absolutamente por meio de que engrenagem neuromuscular complexa se opera o movimento de meu braço. de saída. como eu. Ainda aqui constato a existência de uma sucessão entre meu esforço de atenção e minhas idéias. cada vez em que a repito. na esperança de que sua boa sorte irá orientá-las no sentido do objeto de suas buscas". Aos olhos de Hume. cuja língua ou cujos dedos se movem segundo minha vontade. quer levantar o braço e. as idéias ocorrem ou não. segundo os casos ou os momentos. Não terei aqui a chave do princípio de causalidade. entre os fenômenos A e B. Por exemplo. Não é evidente que minha vontade é a causa do movimento de meu corpo? Mas. "liveliness" é o pensamento atual. não cessamos de ultrapassar a experiência imediata. portanto. b) Examinemos agora essa experiência. a experiência externa: vejo que o movimento de uma bola de bilhar é seguido do movimento de outra bola com que a primeira se chocou. mas não vejo conexão necessária. E eu. Mas o que não vejo é o porquê dessa sucessão. De onde me vem esse princípio? A qual impressão corresponde essa idéia? A "investigação" filosófica vai se apresentar aqui como uma pesquisa em todas as direções: "Nós devemos proceder como essas pessoas que. afirmo que a água que acabo de pôr no fogo vai ferver. a todo momento afirmamos mais do que vemos. 173 . em nome desse princípio de causalidade. constata que nenhum movimento se segue ao seu desejo. em nenhum setor da experiência. pelo qual do presente se conclui o futuro (a água vai ferver. há uma conjunção constante. amanhã fará dia etc. simultaneamente interna e externa. esse poder não seria mais extraordinário". se refletirmos bem. que quero levantar o braço. A experiência externa apenas me fornece o e depois. Um paralítico. depois. não tenho o menor poder sobre meu coração ou sobre meu fígado. A repetição constante de um enigma não é o mesmo que sua solução. c) Quer dizer enfim da esperiência puramente interior da sucessão de minhas próprias idéias? Deve admitir que minha reflexão atenta é causa das idéias que me ocorrem? Mas. para surpresa sua. ao procurarem um objeto que lhes está oculto e quando não o encontram no lugar que esperavam. Mas não constato que B aparece porque A se mostra. que o fenômeno A é seguido do fenômeno B. essa hipótese é extravagante.).impressão e que ele caracteriza pelos termos "vividness". vivo. Constato que A se mostra e que. Permanece enigmática a ação da alma sobre o corpo: "Se tivéssemos o poder de afastar as montanhas ou controlar os planetas. tiro "de um objeto uma conclusão que o ultrapassa". repousa nesse princípio de causalidade. assim como vejo que o aquecimento é seguido da ebulição: vejo. há que ver "antes o ódio ao verbalismo do que o preconceito do sensualismo"). Lembramo-nos como a sucessão de meu querer e de meus movimentos espantava Malebranche a tal ponto que ele via em minha vontade apenas uma ocasião a partir da qual Deus produzia o movimento de meu corpo. a noção de causalidade é muito enigmática porque. a barra de metal vai se dilatar. Hume não encontrará. Vejo bem que. não me dá a origem do porquê. mas não vejo conexão necessária entre os dois fatos. uma impressão concreta de causalidade que torne legítima essa idéia de causa que pretendemos ter: a) Consideremos. É certo que posso repetir a experiência e que. A Análise da Idéia de Causa Aos olhos de Hume. levanto-o. Constato duas coisas: inicialmente. diz Laporte. essa experiência não é menos clara do que a precedente.

cedo a uma tendência criada pelo hábito. tudo pode acontecer. instintiva. não tem o menor valor de verdade. Em suma.. estas me pareceriam tão frias. o ceticismo de Hume. Ceticismo e dogmatismo não se apresentam nele segundo os domínios do saber. é porque a imaginação. em seu gabinete. na idéia de causalidade. Ele filosofa ceticamente segundo uma reflexão rigorosa e dissolvente. resvala de um evento dado àquele que comumente o acompanha. que duvida sobretudo dos sentidos para preparar a conversão do espírito ao mundo das verdades eternas. solidamente. a necessidade causal não existe realmente nas coisas. Se. Hume. inteiramente explicado por uma ilusão psicológica. poderia ocorrer . Mas essa expectativa não tem fundamento racional. Em última instância. não existe. O ceticismo de Hume. Por conseguinte. eu quisesse retornar às minhas especulações. Espero invencivelmente a ebulição da água que coloquei no fogo. anula-o". absurda no plano da reflexão.é ilusória para ele. "A necessidade é algo que existe no espírito." No domínio das proposições lógicas. É simplesmente a imaginação. que já esboçara essa análise psicológica da indução. diz Hume. ou então sou eu mesmo e nada mais.. é simultaneamente um dogmatismo instintivo e um ceticismo reflexivo. os rios se tornavam tão duros que se podia fazer deslizar trenós sobre os mesmos!!). Quando reflete como filósofo. responde Hume. Pois. portanto. lança a suspeita em toda ciência experimental. é também a imaginação que identifica o eu com o que ele possui ou. como um ceticismo absoluto. Não existe nenhuma impressão autêntica da causalidade. Pascal. por outro lado. senão o peso do meu hábito e da minha expectativa. explicar psicologicamente a crença no princípio de causalidade é recusar todo valor a esse princípio. opõe-se um ceticismo moderno . eu tenho reputação e mesmo lembranças. A crença no princípio de causalidade. em virtude de poderoso hábito: vai ferver. Se estabeleço "uma conclusão que projeta no futuro os casos passados de que tive experiência". como todo mundo. surge-nos. como dizemos. Só que Hume é o primeiro a reconhecer que seu ceticismo. dirá Hegel mais tarde. tão forçadas e ridículas que não poderia encontrar coragem e retomá-las por pouco que fosse". coleção de haveres heteróclitos que é dado como um ser. ao ceticismo antigo. Segundo Hume. as verdades da ciência experimental. De fato. diz ele curiosamente. não nos objetos. que condenara à morte o embaixador norueguês em sua corte (porque este último zombara dele ao afirmar que em seu país. . como "humorístico" o ceticismo desse filósofo inglês que. aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha experiência e essa associação determinou um hábito em mim. Até a unidade do eu . O princípio de causalidade. está persuadido de que ela vai ferver. A teoria de Hume. Podemos então qualificar. é natural. no inverno. na verdade. dizia em fórmula surpreendente: "Quem reduz o costume a seu princípio. ousou dizer que convinha a um cavalheiro pensar como os whigs. Ninguém mais do que ele separou filosofia e vida. irresistivelmente arrastada pelo peso do costume. errara muito ao negar um fato contrário à sua experiência.sem contradição que essa água aquecida se transformasse em gelo! "Qualquer coisa. mas segundo os níveis do pensamento. ele é cético. a conclusão se impõe. por conseguinte. Aparento antecipar a experiência quando. Por que será que espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque.174 Por conseguinte. hábil em mascarar a descontinuidade de todas as coisas. Para Hegel. suas "conclusões filosóficas parecem desvanecer-se como os fantasmas da noite ao nascer do dia".que se nos apresenta ingenuamente como uma evidência . O que acontece é que eu acredito na causalidade e Hume explica essa crença.que nega apenas as afirmações da metafísica e fundamenta. ou eu sou meus "estados" e minhas "qualidades" e não sou eu mesmo. o ser e o ter. idéias e sonhos do mesmo modo que tenho esta roupa ou esta casa. Aquele rei de Sião. que facilmente desliza de um estado psíquico a outro e constrói o mito da personalidade. pode produzir qualquer coisa." O Ceticismo de Hume O empirismo de Hume surge então como um ceticismo. e votar como os tories. de certo modo. partindo do hábito e da associação das idéias. ao abolir o princípio de causalidade. Mas nas "matters of fact". é artificial. quando coloca a água no fogo.de que Hume seria o corifeu . Na realidade. Coloco a água no fogo e afirmo. A não pode ser não-A. "após três ou quatro horas de diversão. por mais absoluto que seja. Quando mergulha na vida corrente. Em todos os princípios do conhecimento ele descobre as ilusões da imaginação e do hábito.

que demonstra a existência de Deus partindo das maravilhas do universo. Ele parece ter sido escrito sob a ótica da filosofia das luzes: o milagre é impossível porque contraria a experiência. A noção de um Deus-Providência parece-lhe pouco compatível com os sofrimentos e os males de que os homens são vítimas neste mundo. que eu antes acreditaria que os acontecimentos mais extraordinários nascem do seu concurso. Hume afirma que está mais próximo de Cleanto. e o cético Filon. Se o espírito não está obrigado a dar esse passo por meio de um argumento. no fim. o próprio Hume afirma ter "querido evitar esse erro vulgar que consiste em só colocar absurdos na boca dos adversários".pela pesquisa de origem psicológica da crença. não é mais misterioso do que nascer. A natureza sempre manterá seus direitos e. Ressuscitar. que para o filósofo é uma objeção maior à religião. ele deve ser conduzido por outro princípio igual em peso e em autoridade. tem-se a impressão de que Hume multiplica suas críticas "céticas" à religião natural. Em suma. é precisamente esse sofrimento que conduz o povo a buscar as consolações da religião. Em ambos os casos. que em todos os raciocínios tirados da experiência o espírito dá um passo que não é sustentado por nenhum progresso do entendimento. o papel de Filon e Demea estão sempre de acordo quando se trata de demolir o racionalismo. Por outro lado. numa carta de 1751 a Gilbert Elliot of Minto. no momento da redação de seus Diálogos. por exemplo. não estará julgando "popularmente"? Seu combate pelas luzes situar-se-ia então no plano da reflexão filosófica que justamente anula o prestígio do costume e do bom-senso indutivo. O ceticismo de Hume é um psicologismo. "O costume torna um fácil. no povo. sejam afetados por tal descoberta. não estará pensando ao nível da imaginação e do costume. Mas como Hume pode apoiar-se no determinismo. como a forca essencial da crença! Finalmente. a crítica da razão teológica tem. na medida em que tenta limitar nossas pesquisas à vida corrente. portanto. em que cada personagem sustenta seu ponto de vista com argumentos sérios. não há nenhum perigo que esses raciocínios.é muito natural! "A velhacaria e a idiotice humanas são fenômenos tão correntes. tal . em Hume. ele declara que. Os três personagens são: um deísta racionalista. fundamentava-se precisamente numa crítica análoga à de Hume para afirmar a mesmo fato. ao invés de admitir uma inverossímil violação das leis da natureza".175 Hume e o Problema da Religião Essa complexidade da filosofia de Hume torna mais difícil a elucidação de sua filosofia religiosa. nunca destrua os raciocínios de vida corrente e leve suas dúvidas tão longe a ponto de destruir toda ação como toda especulação. sua falta torna o outro impossível: popular maneira de julgar" Quando Hume rejeita o milagre. prevalecerá sobre os raciocínios abstratos. por exemplo. as leis da natureza. Enquanto muitos filósofos do século das luzes reservam sua ironia crítica para a religião revelada e encontram na ordem do mundo. ele substitui a pesquisa de um fundamento lógico que se apresenta impossível . O Textos de Hume O Problema da Causalidade (Segundo a Investigação sobre o Entendimento) Não temos necessidade de temer que esta filosofia. Demea. Consideremos. dos quais depende quase todo conhecimento. um argumento decisivo contra a Providência. Os Diálogos sobre a Religião Natural são difíceis de interpretar porque se trata de verdadeiros diálogos. na finalidade. argumentos para a religião natural. a crença popular nos milagres . Mas. possibilidade do milagre. Cleanto. Hume se apóia no determinismo físico para rejeitar a realidade do milagre e no determinismo psicológico para explicar sua ilusão tenaz. surge. o mesmo sentido que a crítica da razão experimental. Ao fim da obra. uma vez que sua crítica da causalidade fez desse próprio determinismo uma ilusão psicológica? Pascal.perfeitamente explicável pelas leis que governam a imaginação crédula dos homens . Mesmo que concluamos. observa Hume sutilmente. místico anti-racionalista. dizia. o antropomorfismo e o otimismo de Cleanto. para o filósofo. Em compensação. o célebre Ensaio Sobre os Milagres. se a verdade do sofrimento humano é.

nunca faria conjecturas ou raciocínios sobre qualquer questão de fato. de algum modo desconhecido. se conciliar com ele. unicamente porque um acontecimento precede outro em um único caso. Não existe razão para se inferir a existência de um pela aparição do outro. O Problema do Mal (Discurso de Filon nos Diálogos sobre a Religião Natural. o mal nunca teria acesso ao universo. e que teria sido tão fácil remediar isto para tanto que o entendimento humano possa ser admitido a julgar em tal assunto. todas a vezes que a repetição de uma operação ou de um ato particular produz uma tendência no sentido de renovar o mesmo ato ou a mesma operação sem o impulso de qualquer raciocínio ou progresso do entendimento. seja subitamente transportado por este mundo. ele não adquiriu. Esse princípio é o costume. Que imensa profusão de seres animados e organizados. o hábito. nenhuma idéia.entendo uma bondade tal qual a do homem . de atingir a idéia de causa e efeito. afirmamos que. quando existem tantos males no universo. Mas ele sempre se acha determinado a tirá-la. A natureza desse princípio bem merece que nos entrguemos ao esforço de investigar sobre ela. Pois. não bastariam para perturbar o dito princípio. Apenas designamos um princípio de natureza humana. Vejam este universo em torno de vocês. pois os poderes particulares que concretizam todas as operações naturais nunca se apresentam aos sentidos. Suponha-se que um homem. capítulo XI) Se todas as criaturas vivas fossem incapazes de sofrer ou se o mundo fosse administrado por volições particulares. não pode haver nenhum motivo em favor de tal inferência. Numa palavra. Todavia. ele seria incapaz. as únicas que vale a pena considerar.pudesse ser estabelecida por razões a priori admissíveis. ele continuaria a ter o mesmo pensamento. Suponha-se ainda que este homem tenha adquirido mais experiência e que tenha vivido por muito tempo no mundo para que tenha observado a conjugação constante de objetos e de acontecimentos familiares. Convenhamos que. para sua própria felicidade! . não obstante todos os meus raciocínios. que um seja a causa e o outro o efeito. se a bondade divina . dotado das mais poderosas faculdades de razão e de reflexão. que resulta dessa experiência? Ele imediatamente infere a existência de um dos objetos pela aparição do outro. Ao empregar esta palavra não pretendemos ter dado a razão última de tal tendência. e não é por nenhum progresso de raciocínio que ele é obrigado a chegar a esta conclusão. por mais deploráveis que fossem. Sua formação pode ser arbitrária e acidental. certamente ele observaria de imediato uma contínua sucessão de objetos. com toda sua experiência. Existe um outro princípio que o determina a estabelecer tal conclusão. aquele homem. um acontecimento seguir-se a outro. podem ser compatíveis com tais atributos. Que diremos então nesta ocasião? Diremos que tais circunstâncias não são necessárias e que facilmente poderiam ter sido mudadas no arranjo do universo? Tal decisão parece demasiado presunçosa para criaturas tão cegas e ignorantes como nós. Tal conclusão não poderia resultar do ceticismo: é preciso que ela provenha dos fenômenos e de nossa confiança nos raciocínios que deles deduzimos. mas seria incapaz de descobrir outra coisa. por meio de algum raciocínio. universalmente reconhecido e bem conhecido por seus efeitos. sem mais experiência. Sejamos mais modestos em nossas conclusões. Sou suficientemente cético para convir que as más aparências. como essa bondade não é previamente estabelecida. tanto quanto são. mas deve ser inferida segundo os fenômenos. e se os animais fossem dotados de uma ampla provisão de forças e de faculdades.176 princípio conservará sua influência por tanto tempo que a natureza humana permanecerá a mesma. mesmo que o convencêssemos que seu entendimento de modo algum participa na operação. De saída. sensíveis e agentes! Vocês admiram esta variedade e esta fecundidade prodigiosa. dizemos sempre que essa tendência é o efeito do costume. necessariamente teria havido muito pouco mal em comparação ao de que nos ressentimos efetivamente. só estaria certo do que está imediatamente presente em sua memória e em seus sentidos. Como são hostis e destruidoras umas para as outras! Como são insuficientes. Mas examinem um pouco mais de perto essas existências vivas. mas poderiam facilmente. se as diversas forças e princípios do universo fossem exatamente construídos para sempre conservar o temperamento justo e o justo meio. esses fenômenos. Todavia. e. e não é razoável concluir. nenhum conhecimento do poder oculto pelo qual um dos objetos produz o outro.

Hobbes. Na fonte de todos os nossos valores. onde se sente ameaçado por causa de suas convicções monarquistas. impregnada por um princípio vivificante e que deixa cair de seu regaço. que possuem perfeita maldade. que são opostas e ao mesmo tempo possuem bondade e maldade e que não possuem bondade nem maldade. na medida em que dá uma explicação plausível da estranha mistura de bem e de mal que surge na vida. leve e pesado! A verdadeira conclusão é que a fonte original de todas as coisas é inteiramente indiferente a todos esses princípios e prefere tanto o bem ao mal quanto o quente ao frio. princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações. Existem quatro hipóteses possíveis no que se refere às primeiras causas do universo: que são dotadas de perfeita bondade. isto é.177 Quão desprezíveis ou odiosas para o espectador! O todo só suscita a idéia de uma natureza cega. o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias. sem discernimento nem cuidados maternos. Retornará à Inglaterra por ocasião da restauração de Carlos II em 1660. O Empirismo . forma e autoridade de uma comunidade eclesiástica e civil. em 1588. se considerarmos a uniformidade e a concordância perfeitas das partes do universo. Em 1642. em 1651. faz publicar em Londres o Leviatã ou matéria. Por conseguinte. descobre-lhe uma origem natural. em latim.Hobbes Tomás Hobbes Tomás Hobbes nasceu em Westport. Todavia. em Amsterdam. A origem de todo conhecimento é a sensação. esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada (esse tema do conatus será reencontrado no spinozismo). É partindo de tais fundamentos psicológicos que Hobbes elabora sua justificação do despotismo. ele será o amigo devotado dos Stuarts. . mais exatamente. Mas trata-se de um jogo do pensamento. Assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro. que são isentos de mistura. Mas a essa lógica só concernem símbolos. Hobbes crê na possibilidade de uma lógica pura. sem prova decisiva. Ao lado de uma indução empírica aproximativa. o seco ao úmido ou o leve ao pesado. o quarto parece muito mais provável. há o que Hobbes denomina endeavour. Viajará por diversos países da Europa. Hobbes. mas todas as operações da natureza não se realizam por uma oposição de princípios como quente e frio. Hobbes admite a existência de uma lógica pura. por outro lado. sai da Universidade de Oxford e se torna preceptor do filho de Lord Cavendish. e. seus filhos estropiados e abortados! Aqui o sistema maniqueu se apresenta como uma hipótese adequada para resolver a dificuldade. O Leviatã será traduzido para o latim em 1688. num certo sentido. e conatus. notadamente pela Itália (encontrará Galileu em Florença) e sobretudo pela França (encontrará o padre Mersenne em Paris). ele foge da Inglaterra. sem dúvida. Fenômenos mistos nunca poderiam provar os dois primeiros princípios. idênticas aos princípios de que partimos. mas nunca foi integralmente traduzido para o francês. O absolutismo da época de Hobbes geralmente se apóia na teologia (Deus teria investido os reis de seu poder absoluto). ele publica em Paris o De Cive e. Mas. de afirmação e de crescimento de si próprio. em inglês. palavras (Hobbes é nominalista). Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras do emprego dos signos. ele é mais especioso e apresenta mais probabilidades do que a hipótese comum. A uniformidade e a firmeza das leis gerais parecem se opor ao terceiro. que vai suprimir o poder real. perfeitamente racional. Filho de clérigo. Hobbes é um empirista inglês e nele encontramos os temas fundamentais que serão sempre os da escola. Durante toda sua vida. the trayan of imagination). de um raciocínio demonstrativo muito rigoroso. Antes mesmo da revolução de 1648. assim a moral se reduz ao interesse e à paixão. A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. isto é. o instinto de conservação ou. podemos chegar a conclusões rigorosas. em 1608. É certo que existe uma oposição entre dores e prazeres nas afecções das criaturas sensíveis. úmido e seco. estranho às realidades concretas. ao justificar o poder absoluto do soberano. não descobriremos aí qualquer marca do combate de um ser malfazejo contra um ser benfazejo. que da experiência passada conclui.

o poder religioso ao poder político. No estado social. em definitivo. um estado de insegurança e de angústia. Para Hobbes. reduz-se à força. de fato. em Hobbes. o homem é o lobo do homem. Em todo caso. Assim sendo. Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. o ofendido procura vingar-se. uma espécie de laicização da oposição teológica entre o orgulho espiritual e o temor a Deus ou humildade. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano.comumente não deseja a morte de seu adversário e deseja seu cativeiro a fim de poder ler. por isso.178 Para ele. mas distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político. em suas dioceses. Houve. (Essa psicologia da vaidade e do medo é. Mas não houve pacto nem contrato. . ninguém está protegido. O maior sofrimento é ser desprezado. cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos. como no de natureza. Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade. Finalmente. o reconhecimento de sua própria superioridade. a força é a única medida do direito. é a paixão que vai dar a palavra à razão. Os homens. o totalitarismo de Hobbes submete . para todos. em última instância mais poderoso do que o orgulho. ao menos a sujeição do outro. Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. terá um poder absoluto. basta descrever o que se passa no estado natural. uma vez que o soberano terá. Pois. na segurança. portanto. "Bellum omnium contra omnes". o estado natural é. Por conseguinte. em que cada um procura senão a morte. cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses pessoais.sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte. No estado natural. o maior interesse em fazer reinar a ordem se quiser permanecer no poder. Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário em lembrança de uma passagem da Bíblia (Jó XLI) em que tal palavra designa um animal monstruoso.por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças . Assim sendo. mas sobretudo as alegrias da vaidade (pride). notemo-lo bem.apesar de prudentes reservas . Quanto a este último. é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança. que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política. uma atemorizada renúncia do seu próprio poder. o poder de cada um é medido por seu poder real. o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor.observa Hobbes. ao herdar os direitos de todos. da parte de cada indivíduo. ao invés de uma desigualdade. procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais. antecipando aqui os temas hegelianos . o homem não possui instinto social. o que houve. Este último . foi "uma alienação e não uma delegação de poderes". No estado de sociedade. o homem. querem usurpar". para todos. em seu olhar atemorizado e submisso. É claro que esse estado. Assim é que ele exclui o "papismo" e o "presbiterianismo" por causa "dessa autoridade que alguns concedem ao papa em reinos que não lhe pertencem ou que alguns bispos. Para compreender como o homem se resolve a criar a instituição artificial do governo. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. como diz Halbwachs. Isto só será possível se cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um soberano que. por natureza. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: "Homo homini lupus". Ele não é sociável por natureza e só o será por acidente. Apesar de tudo. o direito. o homem se distingue dos insetos sociais. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura. o monopólio da força pertence ao soberano. portanto. é um estado extremamente infeliz.) É o medo. O efeito comum do poder consistirá. é a guerra de todos contra todos. como as abelhas e as formigas. mas . mas não possui o menor compromisso em relação a seus súditos. esse poder absoluto permanece um poder de fato que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer do que obedecer. esta á a origem psicológica que Hobbes atribui ao poder despótico. ele é o senhor absoluto desde então. em todos os casos.

em sua Razão. XIII . não ao homem solitário.179 O Estado Natural e o Pacto Social Leviatã. Na realidade. inicialmente. O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade. possantes e originais. se apóia na Paixões e. Por conseguinte. não há lei. Eis então. não há injustiça. em outras palavras. justiça e injustiça são qualidades relativas aos homens em sociedade. para forçar os homens a executar seus pactos pelo temor de uma punição maior do que o benefício que poderiam esperar se os violassem. e onde não há Poder Constrangedor estabelecido. E não existe tal poder constrangedor antes da instituição de um Estado. por exemplo. por um lado. nada há que seja Injusto. nessa situação.doutrinas de Hegel ou de Augusto Comte . nem na distinção entre o Meu e o Teu. é bem verdade.. para garantir-lhes a propriedade do que adquirem por Contrato mútuo em substituição e no lugar do Direito universal que perdem. por outro.. quando nada é próprio. A mesma situação de guerra não implica na existência da propriedade.. Cap. O Estado de natureza... As noções de certo e errado.. e os do século XIX . daí resulta que. Leibnitz. as grandes "visões do mundo".. 1. e por muito tempo. de sair dela. As paixões que inclinam o homem para a paz são o temor à morte violenta e o desejo de tudo o que é necessário a uma vida confortável. e marca o triunfo da inteligência crítica. em seguida. Onde não há Poder comum... quando não há propriedade. a triste condição em que o homem é colocado pela natureza com a possibilidade. possibilidade que. onde não há Estado.. É o que também resulta da definição que as Escolas dão geralmente da justiça. ela ignora as grandes sínteses.a filosofia do século XVIII ocupa um lugar original. onde não há lei. XV . Antes que se possa utilizar das palavras justo e injusto. essa guerra de todos contra todos tem por conseqüência o fato de nada ser injusto. XIV . é preciso que haja um Poder constrangedor. "Newton criou a física e Locke a metafísica". não há injustiça: força e astúcia são virtudes cardeais na guerra.. . O Iluminismo Francês O Iluminismo Francês Entre os grandes sistemas do século XVII. nesse caso.. mesmo até o corpo dos outros. como os de Spinoza. de justiça e de injustiça não têm lugar nessa situação. não há Propriedade e cada homem tem direito a todas as coisas. elas poderiam ser encontradas num homem que estivesse sozinho no mundo (como acontece com seus sentidos ou suas paixões). sua própria vida. isto é. para salvaguardar sua própria natureza. não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança.. cada um tem direito sobre todas as coisas.ª parte: Do Homem Cap... E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um. que a justiça é a vontade de atribuir a cada um o que lhe cabe pertencer.. A substância doutrinal de quase todos os filósofos desse século provém de sistemas anteriores. pois. pois. E a Razão sugere artigos de paz convenientes sobre os quais os homens podem ser levados a concordar. Cap. Justiça e injustiça não pertencem à lista das faculdades naturais do Espírito ou do Corpo. enquanto não há Estado. a saber. segundo d'Alembert. ou seja. Malebranche. mas apenas no fato de que a cada um pertence aquilo que for capaz de o guardar. Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos.

privada de toda sensação (tabula rasa) e que. que é o mais pobre dos sentidos.idéia ou relação. os pensadores do século XVIII farão suas armas: eles são. pela resistência que o nosso esforço encontra no mundo externo. Condillac (1715-1780) O filósofo mais notável do iluminismo francês é Estevão Bannot de Condillac (1715-1780).) Daí o tom particular desses filósofos que fazem panfletos contra o poder. entretanto. na trapaça de uns e na credulidade de outros. a realidade. mediante um só sentido. contudo. a física de Newton destrona a de Descartes. a direção voluntária de atenção sobre uma determinada sensação .e as leis ditas eventos sobrenaturais. ele explica o movimento dos planetas. Da sensação (agradável ou dolorosa) nasce o sentimento (de prazer ou de dor). nasce a distinção entre presente e passado. o desejo preponderante torna-se paixão. a idéia de que o homem não é "um império num império". em dado momento. derivando da mera sensação sem reflexão . (É o século das luzes. dir-se-ia hoje. preceptor. constituindo a sensação o primeiro grau. na corte de Parma. assim. e que querem criar movimentos de opinião: a ironia e a clareza do estilo adquirem eficácia particular para tais empreendimentos. c) Sem dúvida. estamos perante um ceticismo metafísico. "Hypotheses non fingo". adquire consciência do mundo físico. de Fernando de Bourbon. porquanto se trata sempre de sensações.toda a experiência. durante um decênio (1758-1767). Aufklärung. a primeira permanece com uma intensidade atenuada. prodígios. mas exprime os fatos realmente dados na linguagem rigorosa da matemática. O espírito. isto é. a gravidade. em que desenvolve a sua concepção sensista. contra a Igreja. isto é. a idéia de que o motor de todos os sêres é o desejo. começa a ter uma sensação de olfato. profecias. o desejo estável torna-se vontade. isto é. A matemática do infinitesimal descreve adequadamente as variações contínuas dos fenômenos. O século XVIII caracteriza-se por uma tendência empírica e analítica: procura-se explicar as idéias complexas a partir das simples e as idéias a partir dos fatos. a memória o segundo. o olfato. não forjo imagens metafísicas. "o esforço de perseverar em seu ser". de Spinoza. b) Locke passa por ser o criador da "metafísica". Condillac imagina o homem como uma estátua. afastada a primeira sensação e sobrevindo outra. a reflexão. A sensação odorosa (de uma rosa) torna-se memória. tornam-se desejo. mas cujo método racionalista é bem acolhido). milagres. devido ao fato de ter ele sido. e também de Descartes (cuja "visão"metafísica é rejeitada. quando. herdeiro daquele trono. Tem-se. a abstração. a consciência. dizia Newton. que é comparação entre sensações presentes e passadas. orientando-a paa o sensismo. filosoficamente. Podemos dizer que a física de Newton contribuiu largamente para a formação do espírito moderno. uma série de três graus de atenção. O espírito adquire. o eu. do racionalismo. há que acrescentar a influência capital de Spinoza. ao descrever o "como" dos fenômenos. mediante o tato. da ciência do espírito humano. De sua doutrina evidenciar-se-á sobretudo o naturalismo. e a generalização.180 a) Já na metade do século. a imaginação o terceiro. a capacidade de noções gerais. o juízo. Comparando a sensação atual com a sensação lembrada. que é uma coleção de sensações atuais e lembradas. a separação de uma idéia de outra. Deus é identificado com a natureza . as marés. o mundo externo é afirmado dogmaticamente. encontram. juízo . do próprio corpo e dos demais corpos. Newton não faz o romance da matéria. isto é. simultaneamente racionalista e experimental. de sorte que. filósofos engajados. . Condillac exerceu uma influência particular sobre a cultura italiana. o exercício de todas as suas faculdades. A lembrança de sensações agradáveis e a comparação com as presentes. de Locke. do mundo externo. renunciando a imaginar o longínquo "por que" metafísico. Com as idéias de Newton. isto é. A obra filosófica mais importante de Condillac é o Traité des sensations. a existência. Paralelamente ao desenvolvimento teórico do espírito procede o desenvolvimento prático.Deus sive natura . Uma lembrança vivaz torna-se imaginação. Isto não prova. ao relatar os fatos reais em linguagem matemática. a distinção entre atividade (na memória) e passividade (na sensação).em uma série de idéias e juízos. Ele desenvolveu o empirismo de Locke num sentido francamente sensista. Consideramse os artífices da felicidade humana e se empenham na destruição dos preconceitos e na difusão das "luzes". mas que é regido pelas leis de todo o universo. de atividade do espírito. explicação suficiente e perfeitamente natural. deste modo.

quais aquelas que. pelo espírito cívico da população. necessariamente. cabendo ao legislador descobri-las e aplicá-las. todos os raios eram desiguais". Voltaire. é uma prodigiosa colocação de teses que testemunha sua incomparável erudição e que será possuído por todos os intelectuais do século XVIII). E Fontenelle já colocara (Conversações sobre a pluralidade dos mundos) a nova astronomia ao alcance dos marqueses. pela disposição das coisas. O "direito natural". Bayle já apresenta ardis tipicamente voltairianos para comprometer. de que fala Montesquieu. mantém o princípio de um Deus justiceiro. dizer que só o que as leis positivas ordenam ou proíbem é que constitui o que há de justo e injusto. O próprio espírito voltairiano teve seus precursores. "é preciso que. Assim é que cada forma de governo determina. as "relações necessárias". Montesquieu. sendo que as melhores pertencem a este ou aquele governo. Todavia. Pierre Bayle (1647-1707). É preciso encontrar em cada clima. estas ou aquelas instituições. Ela se caracteriza pela busca de um justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão. Criticou Leibnitz e seu "melhor dos mundos possíveis" que. Voltaire (1694-1778) Voltaire. esta ou aquela psicologia para com os cidadãos: a democracia da cidade antiga só é viável em função da "virtude". entre certos tipos de governo e certas leis possíveis. de certo modo. pode estabelecer uma certa justiça sobre a terra e alcançar uma certa felicidade. para ser bem compreendido. é um deísta convicto: a organização do mundo. Montesquieu. em cada forma de governo. harmônica. só se explicam pela existência de um Criador inteligente ("Este mundo me espanta e não posso imaginar / Que este relógio exista e não tenha relojoeiro"). reduzido apenas aos seus recursos. possuía a arte de. Como diz muito bem Brehier. a fim de ressaltar de suas contradições a necessidade da tolerância (o Dicionário histórico e crítico de Bayle. necessariamente. mas são "relações necessárias que derivam da natureza das coisas". não são originais. antes de Voltaire. é o tipo acabado do "filósofo" do século XVIII. 1697. a justiça ideal preexistem às leis escritas. protestante francês exilado em Roterdam. surge como essencialmente racionalista. este ou aquele tipo de lei. por exemplo. Para que ninguém possa abusar da autoridade. Só os maus legisladores favorecem os vícios do clima. realizarão o conjunto mais justo. opor os sistemas metafísicos entre si. exposta no Espírito das Leis (1748). possui sobretudo concepção racionalista das leis que não resultam dos caprichos arbitrários do soberano. Em seus Pensamentos sobre o cometa. "a variável aqui é a forma de governo de que as legislações políticas. Não vemos como na Inglaterra a liberdade política conduz à existência de leis particulares que não encontramos em outros regimes? As leis obedecem a um determinismo racional. Fontenelle (1657-1757) mostrou. na situação considerada. uma vez que lhes servem de guia. A monarquia tradicional repousa num sistema hierárquico de suseranos e vassalos que só funciona a partir de uma moral da honra. são muito menos a expressão de um determinismo sociológico de tipo materialista do que a afirmação de uma ligação ideal. mais harmonioso. Apesar de negar o pecado original. Voltaire. em toda parte. ser citado com seu comentário: "e teu novo arrendatário / Por não crer em Deus. nunca afirmou que o clima determina. o poder detenha o poder". permanece otimista. sua finalidade interna. "A verdadeira lei da humanidade é a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. poder executivo e poder judiciário. . O célebre verso de Voltaire "Se Deus não existisse precisaria ser inventado" deve. quais as leis melhor adaptadas. a fé nos milagres do cristianismo. após o terremoto de Lisboa. porém. em sua crítica aos prodígios e superstições populares. ele acha que o homem. que a história se explica mais pelo jogo das paixões humanas do que pelo decreto da Providência. inimigo encarniçado do cristianismo. em cada circunstância em que se está colocado.181 Montesquieu (1689-1755) A política de Montesquieu. É certo que esse Deus policial é sobretudo requisitado para manter a ordem social e as vantagens econômicas aproveitadas por Voltaire e os outros grandes burgueses. antes que se tivesse traçado os círculos. antes de Voltaire. isto é. As idéias filosóficas de Voltaire. no entanto. civil e outras são as funções". significa dizer que. contra Pascal. "misantropo sublime". Daí a separação entre poder legislativo. ao passo que o despotismo só subsiste com a manutenção. da força do medo. tirada de Locke e de Newton.

Assim. Durante esse intervalo não o deixou ocioso. Segundo sua irmã e biógrafa. Procurava tracá-las corretamente. Tudo isso aguçava ainda mais a curiosidade do menino. Blaise recebeu os livros dos Elementos de Euclides e pôde dedicar-se à vontade ao estudo da geometria. era o único filho do sexo masculino. em nome desse finalismo estático. Diante de uma explicação insuficiente.providencial. depois de propor axiomas relativos às figuras. no entanto. considerado muito bom para sua idade. de sorte que quando veio a aprendê-las sabia o que fazia e dedicava-se aos aspectos que lhe exigiam maior dedicação". ensinou-lhe como haviam sido reduzidas as gramáticas sob certas regras. Gilberte Périer. Étienne Pascal ensinava outras coisas ao filho: dava-lhe rudimentos sobre as leis da natureza e sobre as técnicas humanas. depois passou a buscar as proporções entre elas e. no entanto. dedicou-se a fazer demonstrações exatas. Perdeu a mãe aos três anos de idade. Blaise Pascal era filho de Étienne Pascal. a família Pascal mudou-se para Paris. Essa precaução serviu apenas para aumentar a curiosidade de Blaise. Essa idéia geral esclarecia-lhe o espírito e fazia-o compreender o motivo das regras da gramática. Étienne Pascal era matemático e sua casa era muito freqüentada por geômetras. Aos onze anos. pagar-te-á melhor?" É certo. Para ele. as espécies vivas são fixas. A irmã Gilberte escreverá mais tarde: "A máxima dessa educação consistia em manter a criança acima das tarefas que lhe eram impostas. e de Antoinette Bégon. suas experiências sobre os sons levaram-no a escrever um pequeno tratado. mas sobretudo pelas questões que ele próprio levantava a respeito da natureza das coisas. nunca o enviando a colégios. que permitia que se fizesse nenenhuma operação sem lápis nem papel. A partir de então. Os avanços foram rápidos: aos dezesseis anos escreveu Tratado Sobre as Cônicas. por sua própria vontade. não só pelas respostas que dava a certas questões. afinal. a educação de Blaise permaneceu ao encargo do pai. Mesmo quando. sem que se soubesse qualquer regra de aritmética. para que aprendesse com maior facilidade. prometendo-lhe que a ensinaria quando ele já soubesse grego e latim. passava a pesquisar por conta própria até encontrar uma resposta satisfatória e. Como queria que Blaise estudasse línguas e. Blaise Pascal Vida e Obras Nascido em Clermont-Ferrand. Além das línguas. Nas demais ciências realizou surpreendentes progressos e aos dezenove anos inventou a máquina aritmética. presidente da Corte de Apelação. o pai apegou-se muito a ele e encarregou-se de sua instrução. que. Admitir que as montanhas outrora estiveram submersas. Com isso chegou até a 32ª proposição do livro I de Euclides. que passou a se divertir com as figuras geométricas que o pai lhe havia mostrado. Recusa-se a crer nos fósseis de animais marinhos descobertos nas montanhas por aquela época. não foi impresso na época. Entre a Ciência e a Religião Não apenas na matemática revelou-se o gênio precoce de Pascal. numa finalidade 182 . que Voltaire crê na ordem do mundo. pois o ocupava com todas as coisas de que o julgava capaz. a 19 de junho de 1623. e que por esses meios todas as línguas haviam podido ser comunicadas de um país para outro. Mostrava-lhe de um modo geral o que eram as línguas. por esse motivo só deixou que aprendesse latim aos doze anos. a estrutura geográfica da terra. que queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais. em 1631. evitou por muito tempo que o filho a conhecesse. Pascal revelou desde cedo um espírito extraordinário. o pai verificou que o filho descobrira sozinho a matemática. que tais regras tinham exceções assinaladas com cuidade. não o largava até resolvê-lo plenamente. sabendo como a matemática é apaixonante e absorvente. seria negar a estabilidade e a finalidade da ordem atual do mundo. Estarrecido. (Ele também teme que esses fósseis marinhos nas montanhas só sirvam para os cristãos provarem a história do dilúvio!). quando se defrontava com um problema. ele rejeita as idéias evolucionistas que começam a se difundir.

Começa então a fase apologética da obra de Pascal. ele ficou emocionado com o milagre porque nele Deus era gloorificado e porque ocorria num tempo em que a fé da maioria era medíocre. quando ele se une aos jansenistas do Port-Royal. do cálculo integral. sob a influência de sua irmã. mediador entre o finito (as criaturas) e o infinito (Deus criador). O fato é narrado pela irmã de Pascal. que havia entrado para o convento. Pascal tinha então trinta anos. Começou mudando de bairro e. cujo sacrifício infunde a graça santificante no coração dos homens e os redime.183 mas com segurança infalível. dos dogmas e da Igreja católica e da teologia em geral.. pois determinam o centro de todas as suas reflexões religiosas e filosóficas: a figura de Cristo. Pascal foi decisivamente marcado por um acontecimento. provando que os efeitos comumente atribuídos ao vácuo eram. A cura de sua sobrinha e afilhada repercuriu profundamente em Pascal: ". Assim. Mais tarde . denominada "a experiência do vácuo". acalentando o projeto de reunir a sociedade laica e a cristã e de combater a corrupção que teria sido causada pela evolução dos últimos séculos. quando "resolveu desistir dos compromissos sociais. permite calcular as combinações possíveis de m objetos agrupados n a n. Na verdade. realizada por Leibniz (1646-1716) e Newton (16421727). O invento de Pascal foi considerado uma verdadeira revolução. na verdade. foi morar no campo. resultantes do peso do ar. As análises sobre o milagre são fundamentais no pensamento de Pascal. em que aborda a questão dos "infinitamente pequenos". Essa fístula era maligna e os maiores cirurgiões de Paris consideravam incurável. e esse milagre foi atestado por vários cirurgiões e médicos. o Novo revelaria a misericórdia de Deus. muito complicada e Pascal levou dois anos trabalhando com os artesãos.a partir de 1652 -. e enfim Deus permitiu que ela se curasse tocando o Santo Espinho que existe em Port-Royal. Gilberte Périer: "Foi por esse tempo que aprouve a Deus curar minha filha de uma fístula lacrimal que a afligia havia três anos e meio. Blaise e outros jovens. pois transformava uma máquina em ciência. que se tornou muito frágil daí por diante. Em Ruão. para melhor romper com seus hábitos. foi. Pascal dirigiu seu interesse para as questões da Igreja e da Revelação. curva descrita por um ponto da circunferência que rola sem deslizar sobre uma reta. A idéia central de Pascal . Segundo o relato de Gilberte. como seu espírito ocupava-se de tudo com muita reflexão. e reconhecido pelo juízo solene da Igreja". que determinou a mudança de sua trajetória espiritual: o "milagre do Santo Espinho". A alegria que experimentou foi tão grande que se sentiu completamente penetrado por ela. Essa fadiga comprometeu definitivamente sua saúde. Blaise conheceu Jacques Forton. Jacqueline conseguiu persuaadir o irmão de que "a salvação devia ser preferível a todas as coisas e que era um erro atentar para um bem passageiro do corpo quando se tratava do bem eterno da alma". Um dos últimos trabalhos científicos de Pascal nesse período é o Tratado Sobre as Potências Numéricas. Nesse período escreve o Memorial. senhor de SaintAnge-Montcard. O chamado Triângulo de Pascal foi um dos resultados dessas pesquisas sobre jogos de azar: trata-se de uma tabela numérica que. tomou conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) referente à pressão atmostérica e realizou uma outra. e. Aos 23 anos. num derradeiro estudo científico sobre a área de ciclóide. As pesquisas que fez a esse respeito conduziram-no à formulação do cálculo das probabilidades. passou a sse interessaar pelos problemas matemáticos relacionados aos jogos de dados. seus amigos. onde tanto fez para abandonar o mundo que o mundo afinal o abandonou". A construção da máquina. obra mística. perante a qual todos os homens seriam culpados pela transmissão do pecado original. Em função de Cristo. que ele denominou Aleae Geometria (Geometria do Acaso). logo consideraram Saint-AngeMontcard um herético pernicioso. entre outras propriedades. depois do período em que procurou a verdade científica e a glória humana no domínio da natureza e da razão. para onde se havia mudado a família Pascal. com quem teve as primeiras discussões a respeito da Bíblia. O método aplicado por Pascal para estabelecer essa área abriu caminho à descoberta. Jacqueline Pascal. A essa questão voltará mais uma vez em 1658.. ciência que reside inteiramente no espírito. que o leva a descer entre os homens por intermédio de seu Filho. esse milagre foi a ocasião para que nele se produzissem muitos pensamentos importantes sobre milagres em geral". Pascal estabelece a verdadeira relação entre os dois Testamentos: o Antigo revelaria a justiça de Deus. todavia. e os trabalhos de cunho apologético Colóquios com o Senhor de Saci Sobre Epicteto e Montaigne e as Províncias.

Descontente com o exagerado raacionalismo dos teólogos escolásticos.Saint-Cyran. Até 1637. buscando nas obras de Santo Agostinho (354-430) elementos que permitissem conciliar as teses dos partidários da Reforma com a doutrina católica. O jansenismo expandiu-se principalmente na França. Jansenismo e Monarquia Absoluta Com o intuito de reformular globalmente a vida cristã. A partir de então é que nasce o jansenismo propriamente dito: afirmação de que é impossível para o verdadeiro cristão e para o verdadeiro eclesiástico participar da vida . que o orienta infalivelmente para o bem. que logo foi atingido pelos anátemas do papa. na virtude e na luz. o homem não pode deixar de pecar. está na felicidade. embora dele discordassem quanto a alguns pontos importantes: preconizavam uma aliança com a Espanha católica e luta mortal contra os huguenotes. em sua evolução. Jansênio. passava de monarquia temperada do Antigo Regime (caracterizada pela primazia da realeza sobre os senhores. a oposição entre o grupo e Richilieu não consistia em indagar se a vida cristã era ou não compatível com a política. com Cristo. Antes do início dpo movimento. que o arrastou para o mal. Os jansenistas dedicaram-se particularmente à discussão do problema da graça. A vitória de Richilieu desencadeou a ruptura com o grupo e um de seus membros (Saint-Cyran) permaneceu. Era uma época de profundas transformações políticas na França. de adminstradores e de oficiais) à monarquia absoluta. juntamente com outros intelectuais.doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres . portanto. na qual as atribuições dos oficiais e das cortes são transferidas para o corpo de comissários do rei. já os cristãos seriam os que crêem num Deus de amor e de consolação. E a ideologia que vai diversificar o interior desse grupo apresenta como núcleo a afirmação da impossibilidade radical de se realizar uma vida válida neste mundo.uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne. antes de pecar. futuro abade de Saint-Cyran. graças à atuação do abade de Saint-Cyran e de Antoine Arnauld (1612-1694). pelo pecado perdeu a liberdade e tornou-se escravo da concupiscência. independentemente das ações que comete. na prisão do castelo de Vincennes. que estivessem dentro ou fora do país. Arnauld d'Andilly. chegando por intermédio dele a conhecer o verdadeiro Deus. instalaram-se em Port-Royal. os judeus e os cristãos: os pagãos (isto é. durante dez anos. os mais destacados integrantes do grupo de Port-Royal eram amigos e companheiros do cardeal Richelieu. que também pretendia o retorno so catolicismo à disciplina e à moral religiosa dos primórdios do cristianismo. arrastados para a condenação ou para a salvação. A monarquia. declarava que a razão filosófica era "a mãe de todas as heresias". mas a abandonar toda e qualquer função social. Desse modo.pertenciam à nobreza togada e em especial a um grupo desses nobres que esperavam passar à condição de comissários do rei. Jansênio . 184 A figura de Cristo permite ainda a Pascal distinguir os pagãos. Somente aquele que chega ao fundo da miséria e da indignidade e que sabe do mediador (Cristo). do corpo de legistas. que faz com que eles sintam interiormente a miséria em que vivem e a infinita misericórdia de quem os criou. que. apresentando-se como um verdadeiro cisma. sustentava que Adão. pois só o mediador poderia reparar a miséria do homem. graças ao apoio do Terceiro Estado. Submetidos à lei férrea desse dúplice amor. a não ser que intervenha a caridade (amor celeste). Ali o jansenismo assumiu forma ascética e polêmica. mas sim qual era a política cristã.sobre o problema religioso é. o homem estaria predestinado para o céu ou para o inferno. no sentido corrente do termo. Antoine Le Maître . os filósofos) seriam aqueles que acreditam num Deus que é si mplesmente o autor das verdade geométricas e da ordem dos elementos. os judeus seriam os que acreditam num Deus que exerce sua providência sobre a vida e os bens dos homens a fim de dar-lhes um seqüência de anos felizes. Baseando em Santo Agostinho sua doutrina do dúplice amor. os seres humanos tornaram-se escravos da Terra ou do Céu. na obra Augustinus. Os indicadores do movimento jansenista na França . isso leva homens e mulheres não apenas a abandonar a vida mundana. o holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) deu início a um movimento que abalou a Igreja caatólica durante os séculos XVII e XVIII. era livre. Em conseqüência disso. a de que sem Cristo o homem está no vício e na miséria.

em princípio.e por isso afirmam tragicamente a vaidade essencial do mundo e a salvação pelo retiro e pela solidão. através da militância religiosa que procura o triunfo da verdade (ciência) na Igreja e o triunfo da fé (religião na sociedade laica. ideologicamente. Esse encontro permite a Pascal estabelecer o acordo entre a consciência e a vida. advogados e membros das cortes supremas. que se estendeu de Paris às províncias. . paradoxal: exprime o descontentamento em face da monarquia absoluta. A situação dos jansenistas é. Deve-se notar que o pai de Pascal era membro da Corte Suprema de Clermont-Ferrand. que lhe permitiu exprimir melhor sua sede de absoluto e de transcendência. À fase apologética daas Proncinciais segue-se então a fase dos Pensamentos. oficiais. escreve Lucien Goldmann. dele se afastassem e a ele se opusessem. entre as duas atitudes que já existiam entre os próprios jansenistas da militância (Arnauld.e isso significa que a militância religiosa não mais pode ser efetuada. contudo. assim. não se manterá. Essa mudança é determinada pela condenação do jansenismo pelo papa Alexandre VI. e a realidade prática de uma vida consagrada ao mundo. Esta última é que terá maior sucesso depois da Fronda e é ela que prossegue. A oposição dos jansenistas constituía apenas uma das modalidades de oposição que se fazia. Pascal participa de ambas as correntes. o paradoxo.que Pascal pôde escrever os Pensamentos e abrir um capítulo novo na história do pensamento filosófico". na época. Nessa terceira fase de sua vida. porém. que se 185 Pascal morreu em 29 de agosto de 1662. O centro da trajetória espiritual de Pascal reside no seu encontro com o jansenismo. poder desejar sua destruição ou sua transformação radical. seguidos de discussões com vários sábios da época). " Pascal política e social. em momentos diversos de sua vida. no século XVIII. Todavia. Até o encontro com o jansenismo havia na vida de Pascal uma contradição entre a primazia atribuída. os membros das Cortes. Tinha 39 anos de idade. desgostosos com o poder dos comissários do rei. à uma hora da madrugada. em geral.que para o homem é certo e incerto. será ainda entre os jansenistas que Pascal chegará à conclusão de que é importante retirar-se definitivamente do mundo e até mesmo da militância religiosa. a segunda optava pela militância religiosa. Pascal acaba submetendo-se ao poder papal . descobre a tragédia". que passaram a exercer as antigas funções dos oficiais e das cortes. A vanguarda jansenista era constituída por advogados e suas famílias. Pascal transita. embora. a luta contra a monarquia absoluta. Os Pensamentos revelam ser os escritos de um homem a quem "o silêncio eterno dos espaços infinitos apavora". O "milagre do Santo Espinho" reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza" . E é estendendo o paradoxo até o próprio Deus . à monarquia e que contará com maior número de adeptos depois da Fronda (sublevação contra o primeiroministro Mazarin. presente e ausente. mas seus escritos religiosos perdem o tom apologético para se tornar trágicos. "a incerteza radical e certa. Pascal exprime uma só certeza: a de que a única verdadeira grandeza do homem reside na consciência de seus limites e de suas fraquezas. os oficiais. Esse acordo. Mas jansenismo aapresentou duas vertentes: uma preconizava o retiro completo. Enquanto nobreza togada. os simpatizantes do movimento eram. a recusa intramundana do mundo e o apelo de Deus. dependiam economicamente do Estado. Os jansenistas são trágicos porque vivem uma situação trágica .como escreve sua irmã Gilberte. Jacqueline Pascal). esperança e risco . Da Militância ao Recolhimento O jansenismo podia propor uma atitude abstencionista em relação à política porque estava constituído por pessoas que pertenciam a um grupo social cuja base econômica dependia diretamente do Estado.incompatibilizaram com a política de Richilieu. Na fase final de sua vida e de sua obra. sem. à religião. Nicole) passa ao retiro (Barcos. A vocação religiosa de Pascal encontra no jansenismo o solo favorável para sua expansão. Pascal volta a dedicar-se à ciência (estudos sobre a ciclóide e sobre a roleta. assim. de 1648 a 1652).

apesar do título. Em 1781. a Crítica do Juízo (1790) trata das noções de beleza (e da arte) e de finalidade. em 1762. Kant encontrara proteção e admiração em Frederico II. A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795). do problema das relações entre a religião natural e a religião revelada! Dentre suas últimas obras citamos A doutrina do direito. e a influência do racionalismo: o de Leibnitz. Kant. desse modo. e a notícia da vitória francesa em Valmy. no Conflito das Faculdades (1798). . Kant foi "a razão pura encarnada".assim como uma das últimas. deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade. não hesitou em tratar. Segundo Fichte.Contemporâneo Emmanuel Kant Vida e Obras Kant nasceu. cuja segunda edição. e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relações com a Academia Real de Berlim. Frederico-Guilherme II. onde o criticismo kantiano é exposto. após o advento de Frederico-Guilherme III. em 1787. inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que. A Crítica da Razão Pura explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. Jamais deixou essa grande cidade da Prússia Oriental. Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religião. ao mundo moral onde reina a liberdade. era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religião nos limites da simples razão. como se diz nas universidades alemãs). A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). que o sensibilizou em relação do poder interior da consciência moral. menos independente dos meios devotos. segue-se a Dissertação de 1770. buscando. por mais inimigo que fosse da restrição mental. "como súdito fiel de Sua Majestade". o Ensaio sobre o mal radical consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a noção de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz. A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafísica dos Costumes (1785) e a Crítica da Razão Prática (1788). Kant sofreu duas influências contraditórias: a influência do pietismo. assim como do da Aufklärung. protestantismo luterano de tendência mística e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneração). cidade universitária e também centro comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses. surgem as grandes obras da maturidade. mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. Levantava-se às 5 horas da manhã. que vale a seu autor a nomeação para o cargo de professor titular (professor "ordinário". submetido à necessidade. Nela. ingleses. Seu sucessor. Após uma obra em que Kant critica as ilusões de "visionário" de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além). uma passagem que una o mundo da natureza. A primeira obra importante de Kant . herdeiro do otimismo dos escoláticos. fosse inverno ou verão. Em seguida. que Wolf ensinara brilhantemente. holandeses.186 V . em 1792. temos a Crítica da Razão Pura. estudou. Acrescentemos a literatura de Hume que "despertou Kant de seu sono dogmático" e a literatura de Russeau. lecionou e morreu em Koenigsberg. achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse príncipe! E. Os prolegômenos a toda metafísica futura (1783) estão para a Crítica da Razão Pura assim como a Investigação sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificação brilhante para o uso de um público mais amplo. Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a publicação do Contrato Social de Rosseau. explicará suas intenções "críticas" (um estudo sobre os limites do conhecimento). Finalmente. O mal não é a simples "privatio bone". tomada pelas novas idéias). que foi a religião da mãe de Kant e de vários de seus mestres. Kant distingue o conhecimento sensível (que abrange as instituições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas).

os juízos sintéticos. etc. pelas quais unificamos os fenômenos esparsos na experiência. são naturalmente a posteriori. assim como o tempo. isto é. são dados a posteriori. por outro. Como se explica que tais juízos sintéticos e a priori sejam possíveis? Eu demonstro o valor da soma dos ângulos do triângulo fazendo uma construção no espaço. estaria anulada). por um lado. Mas. Eis um conhecimento sintético a posteirori que nada tem de necessário (pois sei que a régua poderia não ser verde) nem de universal (pois todas as réguas não são verdes). ou quanto no solo em que Sócrates traçava figuras geométricas para um escravo? É porque o espaço.187 A Ciência e a Metafísica O método de Kant é a "crítica". isto é. também existem (este enigma é o ponto de partida de Kant) juízos que são. São quadros a priori de meu espírito. Para dizer que o calor faz ferver a água. Em compensação. De fato eu não tenho necessidade de uma constatação experimental para conhecer essa propriedade. Essas categorias são necessárias e universais. À primeira vista. necessários e universais de minha percepção (o que Kant mostra na primeira parte da Crítica da Razão Pura. ao mesmo tempo. Em nenhum momento Kant duvida da verdade da física de Newton. sobre que se fundam tais verdades? Em que condições são elas racionalmente justificadas? Em compensação. como acreditou Hume. Por que esse fracasso? Os juízos rigorosamente verdadeiros. denominada Estética transcendental. Faço-o por intermédio de uma demonstração rigorosa. é a priori. só sei que a régua é verde porque a vi. aqueles cujo atributo enriquece o sujeito (por exemplo: esta régua é verde). Estética significa teoria da percepção. para mim. dispõe a experiência em seu quadro espacio-temporal (o que Kant mostrará na Estética transcendental) e. Os fenômenos. eu falo não só do quadro a priori da experiência.. todos os bons espíritos. As verdades da ciência newtoniana. de acordo quanto à verdade das leis de Newton? Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser justo. então. Consiste em remontar do conhecimento às condições que o tornam eventualmente legítimo. é um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espírito.. simultaneamente anterior à experiência e condição da experiência). as categorias. Um triângulo é uma figura de três ângulos: basta-me analisar a própria definição desse termo para dizê-lo. Aqui. por mais sintéticas que sejam. é preciso que eu constate. a análise reflexiva. eu digo que o aquecimento da água é a causa necessária de sua ebulição (se não houvesse aí senão uma constatação empírica. as regras. ainda. antes de toda experiência concreta.. O próprio Hume. toda ciência. Tomo conhecimento dela sem ter necessidade de medir os ângulos com um transferidor. sempre particular e contigente. mas é nosso espírito que. são a priori. parece evidente que esses juízos a priori são juízos analíticos. imprime-lhe . Assim sendo. Como. Não estão. eles próprios. isto é independentes dos azares da experiência. ao pretender que o hábito é a causa de nossa crença na causalidade. mas o espírito possui. as verdades da metafísica são objeto de incessantes discussões. responde Kant. a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento. necessários e universais. são exigências a priori do nosso espírito. O espaço e o tempo são quadros a priori. mas. são necessárias (não podem não ser) e universais (valem para todos os homens e em todos os tempos). não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crítica que nos oferece? "Todas as intuições sensíveis estão submetidas às categorias como às únicas condições sob as quais a diversidade da intuição pode unificar-se em uma consciência". Eis um juízo sintético (o valor dessa soma de ângulos acrescenta algo à idéia de triângulo) que. Também em física. Entretanto. O espaço e o tempo não são. assim como do valor das regras morais que sua mãe e seus mestres lhe haviam ensinado. Mas o caso da física é mais complexo. enquanto verdade necessária e universal. que a coragem vale mais do que do que a covardia.. sintéticos e a priori! Por exemplo:a soma dos ângulos de um triângulo equivale a dois retos. aquisições da experiência. uma exigência de unificação dos fenômenos entre si. Juízo analítico é aquele cujo predicado está contido no sujeito. assim como as verdades morais. necessários e universais? É porque. uma exigência de explicação por meio de causas e efeitos. necessárias e universais. Eis por que as construções espaciais do geômetra. são a priori. nos quais a experiência vem se depositar. Mas por que a demonstração se opera tão bem em minha folha de papel quanto no quadro negro. Os maiores pensadores estão em desacordo quanto às proposições da metafísica. enquanto transcendental significa a priori. no entanto. que não se deve mentir. dos próprios fenômenos que nela ocorrem. os juízos do físico podem ser a priori. isto é.

É o que se reconhecerá logo 188 . Sem as categorias. mas. da qual propriamente dependem. as intuições sensíveis seriam "cegas".ª edição da Crítica da Razão Pura) Um rápido olhar lançado nesta obra levará a pensar. pois so o mundo é objeto de minha experiência).. pelo fato mesmo de os princípios sobre os quais se apóia a razão especulativa. Descartes ou Spinoza que a razão humana tem intuições fora e acima do mundo sensível. é por isso que não conhecemos o fundo das coisas. Ela inventa o mito de uma "almasubstância" porque supõe realizada a unificação completa dos meus estados d'alma no tempo e o mito de um Deus criador porque busca um fundamento do mundo que seja a unificação total do que se passa neste mundo.. uma vez que não tinha ponto de apoio em que pudesse aplicar suas forças". Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafísico. é passar por "visionário" e se iludir com quimeras: "A pomba ligeira. de início. O princípio da causalidade. É a isto que Kant chama de sua revolução copernicana. que gira em torno da Terra. É o próprio espírito humano que constrói . tem uma utilidade positiva da mais alta importância. uma crítica que limita a razão em seu uso especulativo é. apesar de todos os seus esforços. tanto a tese quanto a antítese (por exemplo: o universo tem um começo? Sim pois o infinito para trás é impossível. não teriam nada para unificar. Aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espírito. a razão não deixa de construir sistemas metafísicos porque sua vocação própria é buscar unificar incessantemente. os materiais que lhe são fornecidos pela intuição sensível. Emmanuel Kant O Alcance da Crítica Kantiana (Prefácio da 2. perde-se nas antinomias. mas sem as intuições sensíveis concretas as categorias seriam "vazias". e é isso que lhe dá sua primeira utilidade. O conhecimento.o objeto do seu saber. mas. na realidade terem por conseqüência inevitável não a extensão. pois eu sempre posso me perguntar: que havia antes do começo do universo?). não deve servir de permissão para inventar. Não é o Sol. a restrição do uso de nossa razão. diz Kant. ao fundamentar solidamente o conhecimento. isto é. mas é esta que gira em torno daquele. o metafísico abusa da causalidade na medida em que se afasta deliberadamente da experiência concreta (quando imagino um Deus como causa do mundo. essa crítica. Não. poderia imaginar que voaria ainda melhor no vácuo. daí a necessidade de um ponto de partida. que sua utilidade é inteiramente negativa ou que ela só serve para nos impedir de conduzir a razão especulativa além dos limites da experiência. contrária e favoravelmente. não é o reflexo do objeto exterior. Na terceira parte de sua Crítica da Razão Pura. demonstrando. olhando mais de perto. com efeito. na dialética transcendental. por esse lado. que em seu vôo livre fende os ares de cuja resistência se ressente. Não se apercebia que. esses princípios ameaçam de tudo enfeixar nos limites da sensibilidade. limitam o seu alcance. Enquanto o cientista faz um uso legítimo da causalidade. tal como cera mole. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza. de fato. ao suprimir com um mesmo golpe o obstáculo que restringe seu uso prático ou que até ameaça anulá-la. constrói a ordem do universo. Mas privada de qualquer ponto de apoio na experiência. diz Kant. mesmo além de toda experiência possível. para se aventurar fora de seus limites. foi relacionado pelo espírito humano. dissera Copérnico. afasto-me da experiência. As únicas intuições de que dispomos são as intuições sensíveis. receberia passivamente. graças às suas estruturas a priori. como louca. e assim reduzir a nada o uso puro (prático) da razão.com os dados do conhecimento sensível . É que. bem negativa. não abria nenhum caminho. Foi assim que Platão se aventurou nas asas das idéias. nos espaços vazios da razão pura. desordenadas e confusas. convite à descoberta. Pretender como Platão. a razão. que se limita a por em ordem. Ora. É o próprio espírito que. As análises precedentes. Só conhecemos os fenômenos e não as coisas em si ou noumenos. Só conhecemos o mundo refratado através dos quadros subjetivos do espaço e do tempo. isto é. que ele emprega para unificar fenômenos dados na experiência (aquecimento e ebulição). Entretanto. No entanto. graças às categorias. O que é fundamentado é o conhecimento científico. Mas logo se perceberá também que sua utilidade é positiva.ordem e coerência por intermédio de suas categorias (o que Kant mostra na Analítica transcendental).

isto é. Quando se supõe que nossa crítica não tenha feito a distinção que ela estabelece necessariamente entre as coisas como objetos de experiência e essas coisas como objetos em si. mas apenas como objeto da intuição sensível. de outro. e com ela a moralidade (cujo contrário não implica em contradição. surge aí uma reserva: é que. pensar a liberdade. se não podemos conhecer esses objetos como coisas em si. será preciso então que se estenda a todas as coisas em geral. a moral pode manter sua posição enquanto a física conserva a sua. porém. consideradas como causas eficientes. o princípio da causalidade e. por conseguinte. por conseguinte. por exemplo. que a liberdade. não há necessidade de se lhe ter um conhecimento mais amplo. Se assim não fora. será preciso então que necessariamente a suposição moral dê lugar àquela cujo contrário implica em evidente contradição. da alma humana. do ponto de vista fenomenal (em seus atos visíveis). sem para isso ter necessidade do auxílio da razão especulativa. é o que será provado na parte analítica e daí resultará que todo conhecimento especulativo possível da razão se reduz unicamente aos objetos da experiência. podemos ao menos pensá-los como tais. do ponto de vista da moral. sem que uma intuição correspondente nos seja dada. embora sob esse último ponto de vista eu não possa conhecer minha alma por intermédio da razão especulativa (e ainda menos pela observação empírica) e. como fenômeno. tomei a alma no mesmo sentido. enquanto faz parte das coisas em si. conseqüentemente. que. isto é. não poderia encará-la de outro modo. a fim de não cair em contradição consigo mesma. Todavia. eu também possa conhecer a liberdade como a propriedade de um ser ao qual atribuo efeitos no mundo sensível . Por conseguinte. não tenhamos conceitos do entendimento e. ao passo que no segundo sentido essas mesmas coisas não mais lhe estejam submetidas. que sua idéia não contém a menor contradição. é o que não teríamos descoberto se a crítica não nos houvesse previamente instruído sobre nossa inevitável ignorância relativamente às coisas em si e se ela não houvesse limitado . a fim de que cada um possa realizar seus negócios tranqüilamente e em segurança. seriam absolutamente impossíveis. Admitamos agora que a moral supõe necessariamente a liberdade (no sentido mais estrito) como uma propriedade de nossa vontade. pois aqui nenhuma intuição pode ser submetida ao meu conceito) . como livre.189 que se esteja convencido de que a razão pura tem um uso prático absolutamente necessário (quero significar o uso moral). conseqüentemente. à lei física. e que. quer estar assegurada contra toda oposição de sua parte. chegaríamos à absurda proposição de que existem fenômenos ou aparências sem que haja nada que apareça. desaparecem no mecanismo da natureza. conseqüentemente. sem essa suposição. como é suficiente que. portanto. quando não se supõe a liberdade previamente). assim como a restrição que daí deriva relativamente aos conceitos puros do entendimento e. Negar que a crítica. das condições da existência das coisas como fenômenos. mas não no tempo (o que é impossível. que não é livre. e como. de um lado. isto é. conseqüentemente. que sua vontade é livre e que. o princípio da causalidade só se aplica às coisas no primeiro sentido. desde que não se coloque como obstáculo ao mecanismo natural da própria ação (tomados num outro sentido). a liberdade não seja contraditória e que. sem as advertências da crítica. conseqüentemente. sem cair em evidente contradição. isto é. a razão prática. mas admitamos também que a razão especulativa tenha provado que a liberdade não fosse de modo algum concebida. por conseguinte. aos princípios decorrentes desses conceitos. como estando necessariamente submetida. Que o espaço e o tempo só sejam formas da intuição sensível e. nas duas proposições. porque sua função consiste unicamente em fechar as portas à violência que os cidadãos poderiam temer uns aos outros. Mas se a crítica não se enganou ao ensinar-nos a considerar o objeto em dois sentidos diferentes. sem contradição. quaisquer elementos para o conhecimento das coisas. como fenômeno e como coisa em si. como uma coisa em geral (como objeto em si) e. É que. Ora. entretanto.eu posso. o mecanismo natural que ele determina. colocando a priori como dados da razão princípios práticos que dela se originam e que. como não sendo livre e. tenha uma utilidade positiva. isto é. está submetida à necessidade física. no entanto. Mas. como escapando a essa lei. se a dedução dos conceitos do entendimento é exata e se. não possamos conhecer nenhum objeto como coisa em si. ela possa ser concebida. Ora. ao prestar-nos esse serviço. a mesma vontade pode ser concebida. conseqüentemente. o que é preciso marcar bem. desde que admita nossa distinção crítica dos dois modos de representação (o modo sensível e o intelectual). no qual ela se estende inevitavelmente além dos limites da sensibilidade e no qual. eu não poderia dizer do próprio ser.posto que seria necessário que eu a conhecesse de uma maneira determinada em sua existência. além disso.

Se numa coisa eu concebo toda realidade. ao contrário. Se assim fora. Dialética Transcendental) Cem táleres reais não contêm mais do que cem táleres possíveis. pode-se mostrar essa mesma utilidade dos princípios críticos da razão pura relativamente à idéia de Deus. caso o objeto contivesse mais do que o conceito. e eu não mais poderia dizer que é exatamente o objeto do meu conceito que existe. mesmo que esse algo não possa ser um objeto de experiência. ainda falta. Se. eu concebo uma coisa. e. para os objetos do pensamento puro. não existe nenhum meio de reconhecer sua existência. não será de espantar que não possamos indicar nenhum critério que sirva para distingui-la da simples possibilidade. existiria outra coisa diferente do que concebi. sempre resta saber se esse ser existe ou não. mas algo além do que pensei no conceito. exceto uma. segundo as leis empíricas. o objeto na realidade não está simplesmente contido de uma maneira analítica em meu conceito. quisermos pensar a existência unicamente por intermédio da pura categoria. Crítica ao Argumento Ontológico (Crítica da Razão Pura. a liberdade e a imoratalidade segundo a necessidade que minha razão tem em seu uso prático necessário. quer resulte de raciocínios que unem alguma coisa à percepção) pertence inteiramente à unidade da experiência. De fato. e só por isso eu acrescente que essa coisa existe. ele é inteiramente incapaz de estender a si só nosso conhecimento com relação ao que existe. ela também não deixa de ser uma suposição que nada pode justificar. embora em meu conceito não falte nada do conteúdo real possível de uma coisa em geral. pois. como os táleres possíveis exprimem o conceito e os reais o objeto e sua posição em si mesma. mas. a saber. se eles são simplesmente possíveis). pois. porém. nossa consciência de toda existência (quer ela resulte imediatamente da percepção. Tive então que suprimir o saber para substituí-lo pela crença. somos obrigados a sair desse conceito para lhe atribuir a existência. e desse modo declaram impossível toda extensão prática da razão pura. precisamente porque é apenas uma idéia. já que seria preciso reconhecê-la inteiramente a priori. a realidade que lhe falta não lhe será acrescentada por isto. lhe é necessário empregar princípios que na realidade só se aplicam a objetos da experiência sensível e que sempre transformam em fenômenos aquilo a que se aplicam. mas ela existe precisamente tão defeituosa quanto a concebo. Qualquer que seja a natureza e a extensão do conteúdo de nosso conceito de um objeto. De fato. Se se tratasse de um objeto dos sentidos. a passagem se faz por meio do encadeamento que liga o conceito a alguma de minhas percepções. por conseguinte. Nem pode mesmo nos instruir o suficiente com relação à possibilidade. Pois. então. Se. o conceito só me faz conceber o objeto como concordante com as condições universais de um conhecimento empírico possível em geral. Mas sou mais rico com cem táleres reais do que com sua idéia (isto é. e se uma existência fora desse campo não deve ser tida por absolutamente impossível. e pelo fato de dizer que essa coisa defeituosa existe. mas. quaisquer que sejam e por mais numerosos que sejam os predicados por meio dos quais eu a concebo (mesmo que a determine completamente). meu conceito não exprimiria o objeto inteiramente e conseqüentemente não estaria de acordo com ele. E aqui se mostra a causa da dificuldade que reina nesse ponto. O conceito de um ser supremo é uma idéia muito útil com relação a muitas coisas. Com relação a objetos sensíveis. de outro modo. Quando. para chegar aí. não existiria mais a mesma coisa. eu não poderia confundir a existência da coisa com seu simples conceito. que o conhecimento de um objeto seja possível a posteriori. mas ele enriqueceu sinteticamente meu conceito (que é uma determinação do meu estado). nosso pensamento dele recebe em acréscimo mais percepção possível. É certo que . Desse modo. sem que os cem táleres concebidos sejam aumentados por este ser que está situado fora do meu conceito. De fato.190 aos simples fenômenos todo nosso conhecimento teórico. eu não estarei acrescentando absolutamente nada à coisa. sem rechaçar ao mesmo tempo as pretensões da razão especulativa em suas visões transcendentes. se o conceito do objeto não é de modo algum aumentado para sua ligação com o conteúdo de toda experiência. alguma coisa com relação a todo meu estado intelectual. eu concebo um ser como a suprema realidade (sem falhas). enquanto a existência me faz concebê-lo como compreendido no contexto de toda experiência.

então sua máxima possui um valor moral. só então sua ação terá verdadeiro valor moral. isto é.que consiste no fato de que simples posições (realidades) não engendram contradição . mesmo sem qualquer motivo de vaidade ou de interesse. no entanto. mas que não seja tocado pelo infortúnio dos outros. poderia facilmente tornar-se uma grande tentação de violar seus deveres. é por isso que a solicitude. por mais de acordo com o dever e mais amável que seja. e que nessas condições em que nenhuma inclinação não mais o leve a isso. freqüentemente inquieta. conserva a vida sem amá-la. mas por dever. é um dever e. a ambição. por estar demasiado absorvido pelo seu próprio. se aquele homem (honesto de resto) fosse frio por temperamento e indiferente aos sofrimentos de outrem. se deseja a morte e. elas experimentam uma satisfação íntima em irradiar alegria em torno de si e vivem o contentamento de outrem. as inclinações se unificam numa . posto que as realidades não nos são dadas especificamente. existem certas almas tão capacitadas para a simpatia que. na medida em que ele é obra sua. é honorável. Mas. como a ligação de todas as propriedades reais numa coisa é uma síntese cuja possibilidade não podemos julgar a priori. não é menos desprovida de todo valor intrínseco e é por isso que sua máxima não possui nenhum valor moral. quando se pode. além disso. e.191 o caráter analítico da possibilidade . não por inclinação ou temor. ele suponha que também nos outros. merece louvor e encorajamento. É certo que eles conservam sua vida de acordo com o dever. então. com ânimo forte. Mas eu acho que no caso de uma ação desse tipo. valor moral e incomparavelmente o mais elevado. precisamente nessa idéia de felicidade. à qual o objeto de uma idéia não pode pertencer. chegar a conhecer a priori a possibilidade de um ser ideal tão elevado. pois. sem pensar no dever. com o viver pressionado por inúmeros cuidados em meio de necessidades não satisfeitas. faz-se muito necessário que o ilustre Leibnitz tenha feito aquilo de que se orgulhava. é uma coisa para a qual todos possuem uma inclinação imediata. unicamente por dever. pois falta a essa máxima o valor moral. então. O Rigorismo de Kant (Fundamento da Metafísica dos Costumes) Conservar a própria vida é um dever e. ademais. não encontraria ele. ele porém se arranque dessa insensibilidade mortal e aja. se a natureza não tivesse formado esse homem particularmente o que na verdade não seria sua obra pior) para fazer dele um filantropo. que não resultaria daí nenhum juízo. mesmo que isso acontecesse. Em compensação. Assegurar a própria felicidade é um dever (indireto. que provém daquele que faz o bem não por inclinação. ao menos). livre da influência de qualquer inclinação. mas por dever. por eles próprios.não lhe pode ser contestado. a inclinação para a felicidade mais duradoura e mais íntima. mas não por dever. ele acrescentasse alguns zeros em seu livro de caixa. Ser bom. quando contrariedades ou uma aflição sem esperança tenha roubado de um homem todo gosto de viver e se o infeliz. por exemplo. em si próprio o meio de se dar um valor muito superior ao que possa ter um temperamento naturalmente bonsoso? Certamente! E á aqui precisamente que surge o valor do caráter. ou deles exija as mesmas qualidades. aqui ainda. o fato de que essas ações sejam feitas não por inclinação. já que ela se coloca no mesmo plano de outras inclinações. então. isto é. perde. mas por dever. com que a maior parte dos homens se dedica a isso. com o que. Essa prova ontológica (cartesiana) tão glorificada. fica muito mais indignado com sua sorte do que desencorajado ou abatido. talvez porque. o caráter da possibilidade dos conhecimentos sintéticos que deve ser sempre buscado na experiência. todo seu valor e não nos tornaremos mais ricos em conhecimentos com simples idéias quanto um comerciante não se tornaria em dinheiro se. com o pensamento de aumentar sua fortuna. E digo mais: se a natureza tivesse colocado no coração deste ou daquele um pouco de simpatia. Ora. pois. quando coincide com o que realmente está de acordo com o interesse público e o dever. que. que pretende demonstrar por meio de conceitos a existência de um ser supremo. Suponha-se então que a alma daquele filantropo esteja ensombrada por um desses desgostos pessoais que sufocam toda simpatia pela sorte de outrem e que ele sempre ainda tenha o poder de fazer bem a outros infelizes. por conseguinte. não possui porém verdadeiro valor moral. tendo para com seus próprios sofrimentos um dom especial de resistência e de paciente energia. o fato de não estar contente com a própria situação. mas não respeito. todos os homens já têm. mas.

o idealismo fenomênico kantiano alcança logicamente o seu vértice metafísico. em definitivo. mas o próprio modo de ser das coisas: "O racional é real e o real é racional". ao mesmo tempo. com relação à crítica kantiana do conhecimento. Na realidade. o futuro mostraria amplamente que a filosofia do pensador oficial da monarquia escondia um grande poder explosivo! Como a filosofia de Spinoza. Este vir-a-ser. Mas. é racionalizado por Hegel. mas por dever. devem ser certa e igualmente compreendidas as passagens da Escritura em que é ordenado amar ao próximo. Faleceu em 1831 vítima de cólera. Ela é não só um modo de pensar as coisas. pois. que reside na vontade e não na tendência da sensibilidade. no entanto. entrementes. ao menos nessa circunstância ela não se privou. um retorno à ontologia. o homem não pode fazer um conceito definido e certo dessa soma de satisfações a ser dada a todas a que chama de felicidade. segundo seu cálculo. não fosse coisa tão importante de fazer entrar em seus cálculos. Hegel era ao mesmo tempo suficientemente prudente e sufucientemente hermético para que se tornasse muito difícil fazer-lhe acusações precisas dessa ordem! O poeta Heinrich Heine. simpatizando-se pelo criticismo e pelo iluminismo. porém. elevado a processo dialético. mas fazer o bem precisamente por dever. uma vez que. possa levar vantagem sobre uma idéia flutuante. portanto. Ela é igualmente a realidade profunda das coisas. e é por isto somente que sua conduta possui um verdadeiro valor moral. e mesmo que uma aversão natural e invencível a isto se oponha. em 1770.192 totalidade. o que restaria ainda aqui. do gozo do momento presente. para ele. em princípios da ação e não numa compaixão debilitante. não há por que se surpreender que uma inclinação única. para ela ao menos. corre o boato de que ele duvida da imortalidade da alma. concebendo a realidade como vir-a-ser. A razão aqui não é apenas. a essência do próprio Ser. torna-se suspeito de panteísmo. Renunciara. uma lei que ordena trabalhar para a própria felicidade não por inclinação. considerar Hegel como o filósofo idealista por excelência. emanentista. respondeu bruscamente a um estudante que lhe falava do Paraíso: "O senhor então precisa de uma gorjeta porque cuidou de sua mãe enferma e porque não envenenou ninguém!" Em todo caso. e. Heidelberg e Berlim. Podemos. se atendência universal não determinasse sua vontade. Sua filosofia representa. Interessou-se pelos problemas religiosos e políticos. ora. Pois. Idéia. Hegel fica fiel ao historicismo romântico. Em seus últimos anos. nesse caso igualmente. Ocorre apenas que o preceito que ordena o tornar-se feliz muitas vezes assume tal caráter. um dia. por causa da talvez enganosa esperança de uma felicidade a ser encontrada na saúde. alguns o ridicularizaram (apelidando-o de Absolutus von Hegelingen). Espírito. Nessa última universidade lecionou até há morte. a de Hegel é uma filosofia da inteligibilidade total. desenvolvimento. É o ser em sua totalidade que é significativo e cada acontecimento particular no mundo só tem sentido finalmente em função do Absoluto do qual não é mais do que um aspecto ou um momento. que seguiu seus cursos de 1821 a 1823. que traz grande prejuízo a algumas inclinações. Hegel O Idealismo Lógico: Hegel Com o idealismo absoluto de Hegel. que ele. ainda que inimigo. adquirindo grande renome e exercendo vasta influência. o amor como inclinação não pode ser ordenado. como em todos os outros casos. o conjunto dos princípios e das regras segundo as quais pensamos o mundo. e este processo dialético não é um movimento a quo adi quod. o fundo do Ser (longe de ser uma coisa em si inacessível) é. em seguida se dedicou ao historicismo romântico. . Estudou teologia e filosofia. da imanência absoluta. para favorecer as tendências absolutistas e intransigentes do estado prussiano. eis aí um amor prático e não patológico. por exemplo. determinada quanto ao que promete e quanto à época em que pode ser satisfeita. Jorge Guilherme Frederico Hegel nasceu em Stutgart. afastando-se deles em seguida até combatê-los quando professor nas universidades de Jena. desse modo. que. Aproximou-se dos sistemas de Fichte e de Schelling. uma pessoa que sofre de gota possa gostar mais de saborear o que é de seu gosto e sofra em seguida. conta. aos ideais revolucionários e críticos. na medida em que não há inclinação que nos conduza a isso. seria uma lei. se a saúde. e sim um processo circular. contudo. Assim. esse amor é o único que pode ser ordenado. o entendimento humano. como em Kant.

é uma odisséia do Espírito Universal". ao contrário. tem por missão realizar uma etapa desse progresso do Espírito.193 Hegel porém se distingue de Spinoza e surge para nós como um filósofo essencialmente moderno. Hegel é daqueles que acham que a força não "oprime" o direito (essa fórmula. O Espírito humano é de início uma consciência confusa. Consideremos a história da terra. ao mesmo tempo em que é o motor da história. "exprime o curso do mundo". bem como a sua capacidade sistemática. é o domínio do mutável. Como isso é possível? É possível porque Hegel concebe um processo racional original . Tal é o espírito objetivo que se realiza naquilo que Hegel chama de "o mundo da cultura". essa identificação da Razão com o Devir histórico é absolutamente paradoxal. O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. A Enciclopédia das Ciências Filosóficas. logo como consciência. Segundo as normas da lógica clássica. como liberdade. Não temos a impressão de que seres cada vez mais complexos. O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir. O acontecimento de hoje é diferente do de ontem. O que há de original em seu idealismo é que. Por conseguinte. a lógica clássica considera que uma proposição fica demonstrada quando é reduzida. a plena posse. depois. como todos os seus contemporâneos. tanto assim que se pode considerar o Aristóteles e o Tomás de Aquino do pensamento contemporâneo. nada significa). A Filosofia do Direito. recusar o tempo. o mais dotado de valor e que a virtude. de certo modo. cada vez mais autônomos surgem no Universo? O Espírito. Após ter saudado em Napoleão "o espírito universal a cavalo". A lógica vai do idêntico ao idêntico. se nos permitem o jogo de palavras. que. Foi um gênio poderoso. o mundo que manifesta a Idéia não é uma natureza semelhante a si mesma em todos os tempos. A Lógica. muito meditou sobre a Revolução Francesa. nessa filosofia puramente imanentista. Ele o contradiz. a história. ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin).no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço. uma "teodisséia". assim como os pensamentos dos homens. diz Hegel. abusivamente atribuída a Bismarck. o racionalismo de Hegel coloca o devir. o Espírito se descobre mais claramente na consciência artística e na consciência religiosa para finalmente apreender-se na Filosofia (notadamente na filosofia de Hegel. melhor exprime o Espírito. em seguida. pois. contrariando tudo isso. surge cada vez mais manifestamente como ordem. animais. a idéia se manifesta como processo histórico: "A história universal nada mais é do que a manifestação da razão". No entanto. é a sensação imediata. dissimulado e como que estranho a si mesmo. simultaneamente. a forma de civilização que triunfa a cada etapa da história é aquela que. em todo caso. por conseguinte. que no fundo tudo permanece idêntico. no final. "alienado" no universo. ao contrário. a história. que pretende totalizar sob sua alçada todas as outras filosofias) como Saber Absoluto. Esse progresso do Espírito continua e se concluirá através da história dos homens. subvertidas no decurso da história. em suma. De início só existem minerais.o processo dialético . Por conseguinte. ele consegue encarnar-se.Deus é o que se realizará na História. cada vez mais organizados. diz Hegel. de início adormecido. vegetais e. mas que o exprime. freqüentemente deforma os fatos para enquadrá-los no esquema lógico do seu sistema racionalista-dialético. (Neste sentido. Compreendemos bem. um espírito puramente subjetivo. a plena consciência de si mesmo. Enfim. Deus não é o que é . As principais obras de Hegel são: A Fenomenologia do Espírito. a filosofia é o saber de todos os saberes: a sabedoria suprema que. naquele momento. no final. podem ser modificadas. Cada povo cada civilização. que dizia que a leitura dos jornais era "sua prece matinal cotidiana". só no final será o que ele é na realidade". para Hegel. e esta lhe mostra que as estruturas sociais. que aquele que é vitorioso na História é. que o pássaro de Minerva levanta vôo). bem como altera este por interesses práticos e políticos. Aplicar a razão à história. objetivar-se sob a forma de civilizações. "O absoluto. Depois.ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é . para ele. De fato. já que esta última não é . em primeiro plano. O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. seria mostrar que a mudança é aparente. Desse modo. para Hegel. Aplicar a razão à história seria negar a história. como ele diz. de instituições organizadas. Em outras palavras. Hegel verá no estado prussiano de seu tempo a expressão mais perfeita do Espírito Absoluto. sua cultura foi vastíssima. A história. Ora. mas. É preciso compreender também que a história é um progresso. se transforma no próprio motor do pensamento. totaliza todas as obras da cultura (é só no crepúsculo. identificada a uma proposição já admitida. Deus só se realiza na história.

Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações. numa situação de submissão absoluta. uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. puro e simples. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito. transformada em outra que não ela mesma ("alienada"). Assim. foi conservado. daí. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. como o conceito fundamental de ser se enriquece dialeticamente. Aceita arriscar sua vida no combate. O senhor não cultiva seu jardim. em última análise. ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. O pensamento não é mais estático. é vencido. transcender a experiência. conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. por exemplo. Um deles é pleno de coragem. porquanto é da íntima natureza da síntese a priori não poder. É fácil ver que essa contradição se resolve no vir-a-ser (posto que vir-a-ser é não mais ser o que se era). mostrando assim que é um homem livre. Mas. não faz cozer seus alimentos. de sorte que Hegel se achava fatalmente impelido a um monismo imanentista. Os dois contrários que engendram o devir (síntese). Desse modo. A primeira proposição encontrar-se-á finalmente transformada e enriquecida numa nova fórmula que era. deviam se achar na realidade única da experiência as características divinas do antigo Deus transcendente. o escravo. Assim. não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. entre as duas precedentes. superior à sua vida. sem qualquer qualidade ou determinação . o escravo incessantemente ocupado com o trabalho. vai encontrar uma nova forma de liberdade. c) De fato. a libertar-se de tudo o que o oprime. de modo nenhum. uma "mediação" (síntese). b) Entretanto. O vencedor não mata o prisioneiro. Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana que será um dos pontos de partida da reflexão de Karl Marx. . não ser. é livre. ele é uma espécie de escravo de seu escravo. Tal é o escravo.é. a mais vazia e a mais compreensiva (essa noção em que o velho Parmênides se fechava: o ser é. em que o espírito é constituído substancialmente como sendo o construtor da realidade e toda a sua atividade é reduzida ao âmbito da experiência. Dois homens lutam entre si. essa noção simultaneamente a mais abstrata e a mais real. Repudiando o princípio da contradição de Aristóteles e de Leibnitz. transformado pelas provações e pelo próprio trabalho. a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão. destruído por Kant. Ser. Vejamos. que não ousa arriscar a vida. ao mesmo tempo. como num diálogo em que a verdade surge a partir da discussão e das contradições. o escravo. à sintese. fundamentalmente. a) O senhor obriga o escravo. que devia necessariamente tornar-se panlogista. aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. Hegel parte. Por uma conversão dialética exemplar. desenvolvendo uma consciência pessoal. essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo. que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu). Como é que o ser. da tese à antítese e. ao pé da letra. Hegel devia. ao mesmo tempo. nada mais podemos dizer). ele procede por meio de contradições superadas. em virtude do qual uma coisa não pode ser e. mas também o mais pobre. dialético. Nesse sentido. da síntese a priori de Kant. O senhor. o "servus".194 senão o Pensamento que se realiza. aquele que. sobretudo. reconciliados. Hegel põe a contradição no próprio núcleo do pensamento e das coisas simultaneamente. aí se reencontram fundidos. o do senhor e o escravo. que condiciona a sua. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material. A Dialética A dialética para Hegel é o procedimento superior do pensamento é. ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho. ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. transforma-se em outra coisa? É em virtude da contradição que esse conceito envolve. repetimo-la. Uma proposição (tese) não pode se pôr sem se opor a outra (antítese) em que a primeira é negada. uma ligação. porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo. O outro. é não ser! O ser. O conceito de ser é o mais geral. "a marcha e o ritmo das próprias coisas". não ser absolutamente nada. equivale ao não-ser (eis a antítese). ao contrário. o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. aprende a se afastar de todos os eventos exteriores.

ainda que entendido dialeticamente. o grande crítico do idealismo racionalista e otimista. em que a positividade se realiza através da negatividade. igualmente não é preciso salientar como o conceito concreto. ainda que não totalmente. não podem. não só nos aspectos gerais. o mal. ao passo que a lógica hegeliana assimila a filosofia com a história. enquanto apreende o ser imutável. 4. físico e moral. e sim dinâmico. em que o próprio objeto já não é mais o ser. dinamicamente. nos momentos essenciais. é levado às suas extremas conseqüências metafísicas imanentistas. Estamos. Apresentava-se. ser concebida mediante o ser (da filosofia aristotélica). da história.o monismo. tudo que há no mundo de arracional e de irracional. enquanto o nosso pensamento. que Schopenhauer. como o de Spinoza. antítese e síntese. por causa do assim chamado mal metafísico. declarará nada mais ser que ateísmo imanentista. Podemos resumir assim: 1. cujo objeto é o particular e o mutável. isto é. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que o conceito é universal concreto. Hegel julgou dever deduzir a priori o desenvolvimento lógico da idéia. toma o lugar do conceito abstrato. Dispensa-se acrescentar como. sendo o mundo da experiência limitado e deficiente. Essa dialética dos opostos resolve e compõe em si mesma o elemento positivo da tese e da antítese. e demonstrar a necessidade racional da história natural e humana.° .através do idealismo absoluto . do ritmo famoso de tese. não podia. E por isso Hegel inventou a dialética dos opostos. e a negação e o mal são condições de positividade e de bem. Mas essa racionalidade absoluta da realidade da experiência devia ser concebida mediante o vir-a-ser absoluto (de Heráclito). A nova lógica hegeliana difere da antiga. mas o devir absoluto. ao passo que a lógica hegeliana coincide com a ontologia. Visto que a realidade é o vir-a-ser dialético da Idéia. enquanto o ser é vir-a-ser. a realidade deveria transformar-se rigorosamente na racionalidade em um sistema coerente de pensamento idealista e imanentista. de modo nenhum. Hegel se achava obrigado a mostrar a racionalidade absoluta da realidade da experiência.A lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si mesmo e exclui o seu oposto (princípio de identidade e de contradição). a necessidade da invenção de uma nova lógica. Isto é. para poder elevar a realidade da experiência à ordem da realidade absoluta. em uma possível assimilação do devir empírico do desenvolvimento lógico .A lógica tradicional afirma que o conceito é universal abstrato. Não é mister dizer que essa história dialética nada mais é que a história empírica. estabelecendo-se a si mesmo absolutamente (tese) e não esgotando o Absoluto de que é um momento. No entanto. que Hegel considerava panteísmo. Quer dizer. em uma realidade mais rica (síntese). gerar naturalmente valores positivos de bem verdadeiro. idêntico a si mesmo e excluindo o seu oposto. isto é. logo. perante um panlogismo. portanto. o particular conexo historicamente com o todo. coincide com a ontologia. que nega e o qual integra. a experiência sendo a realidade absoluta. divina.° .como eram concebidos na lógica antiga . isto é. onde tudo é essencialmente conexo com tudo. por certo. onde um elemento gera o seu oposto. e sendo também vir-a-ser. a negação. para daqui começar de novo o processo dialético. a qual. que no espírito humano adquire plena consciência de si mesmo. a autoconsciência racional de Deus. cujo objeto é o universal e o imutável. não estático. antítese e síntese. a história em geral se valoriza na filosofia. 3. e onde a limitação. Tal história dialética deveria.° . conexão histórica do particular com a totalidade do real. E. cuja característica fundamental é a negação. demanda o seu oposto (antítese).mas também porquanto a nova lógica é considerada como sendo a própria lei do ser.° . em que a Idéia teria acabado a . todo elemento da realidade. devir. não somente pela negação do princípio de identidade e de contradição . para poder racionalizar o elemento potencial e negativo da experiência. enfim. realmente. mas em toda particularidade da história. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que a realidade é essencialmente mudança. segundo a conhecida tríade de tese.como faz o pensamento de Deus. não o esgota totalmente . com efeito. 2. passagem de um elemento ao seu oposto. terminar com o advento da filosofia hegeliana.A lógica tradicional distingue-se da ontologia. chegar ao panteísmo imanentista. arbitrariamente potenciada segundo a não menos arbitrária lógica hegeliana. que representa o elemento universal e comum dos particulares. se apreende o ser.A lógica tradicional distingue substancialmente a filosofia. porquanto a realidade é o desenvolvimento dialético do próprio "logos" divino. em que .195 portanto.

Mas esse em-si é universalidade abstrata caso negligenciemos sua natureza de ser para-si e. ser definidos como um jogo de amor para consigo mesmo. se se quiser. se lhe retirarmos a seriedade. a oposição entre verdadeiro e falso é algo de fixo. para a qual o ser. por isso. e é nisto precisamente que consiste sua natureza de ser sujeito atual ou Devir de si. a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. . o pensamento. portanto. isto é. O broto desaparece na eclosão da flor e poder-se-ia dizer que aquele é refutado por esta. É inexato crer. isto é. não é a forma imediata de sua manifestação. sua certeza de existir para si. Textos de Hegel Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento Para o senso comum. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. então. momentos mutuamente necessários. Mas. a dor. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certametne ser reconhecido como pessoa. Há que dizer do absoluto que ele é essencialmente resultado. é a serena igualdade e a unidade consigo que nada têm a fazer com o ser-outro e a alienação. habitualmente ele espera que se aprove ou se rejeite em bloco um sistema filosófico existente.196 sua odisséia. que o conhecimento possa se satisfazer com o em-si ou a intuição absoluta da primeira dispensam o acabamento da primeira e o desenvolvimento da segunda. não se deve apreendê-la ou exprimi-la apenas como essência. que ele não é senão por fim o que ele é em verdade. e reconhecer na forma. e. mas também como forma e em toda riqueza da forma desenvolvida. nem com a superação dessa alienação. A verdade é o todo. adquirindo consciência de si mesma. para ele. mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente. pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro. da sua divindade. nada mais é que o infinito vir-a-ser dialético. o movimento espontâneo da forma. cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Por conseguinte. numa explicação sobre tal sistema. Mas o todo não é senão a essência que se conclui por seu desenvolvimento. viria a ser negada a própria essência da filosofia hegeliana. e essa igual necessidade faz a vida do conjunto. Não concebe a diferença entre os sistemas filosóficos como o desenvolvimento progressivo da verdade. sua natureza cambiante faz delas momentos da unidade orgânica em que não só não estão em conflito mas onde tanto um quanto outro é necessário. Essa vida. como absoluto. ele só admite uma ou outra dessas atitudes.(¹) O senhor é a consciência que é por si mesma. Precisamente porque a forma é tão essencial à essência quanto a essência a si própria. prova que ela. do que parece se combater e se contradizer. Mas comumente não é assim que se compreende a contradição entre sistemas filosóficos. desse modo. o fruto declara que a flor é uma falsa existência da planta e a substitui enquanto verdade da planta. está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência(²). diversidade significa unicamente contradição. O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade A vida e o reconhecimento divinos podem. mas se suplantam como incompatíveis. essa idéia cai no nível da edificação e mesmo da insipidez. não é senão puro ser para-si. em-si. no espírito humano. mas essa consciência. aqui. e. isto é. do mesmo modo. Só então é que ela é concebida e exprimida como atual. como substância imediata ou pura intuição de si do divino. Essas formas não só se distinguem. Não podem evitar essa luta. não é sua imersão no oceano da vida. O Senhor e o Escravo Buscar a morte do outro implica em arriscar a própria vida. ao declarar a forma como igual à essência. ademais. o espírito que apreende a contradição habitualmente não sabe liberá-la ou conservá-la livre de sua unilateralidade. No entanto. a paciência e o trabalho do negativo. Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela.

seu fim é a verdade. o que o levou a mostrar-se dependente. objeto do apetite. Na luta de duas consciências. Cada filosofia é "o espírito da época existente como espírito que se pensa". "a filosofia quer conhecer o imperecível. aos objetos das necessidades. Quanto ao senhor. Concepção Dialética da História da Filosofia Em suas lições sobre a história da filosofia. o senhor domina os objetos por mediação do escravo que trabalha. (³) Graças ao trabalho do escravo. Pensamos nos versos de Valéry: Como o fruto se funde em fruição Como em delícias ele muda sua ausência Numa boca em que sua forma se extingue. de início. deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha. Torna-se tembém escravo do senhor que o conserva (servus = conservado) a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória. aquilo que o apetite não conseguiu. mas o senhor. só entra em contato com o aspecto dependente da coisa. pois é precisamente a ela que o escravo está preso. domina a coisa e se satisfaz na fruição. ao colocar o escravo contra ela e si próprio. mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode. o eterno. mas (b) é simultaneamente mediação. a relação do senhor com a coisa é uma relação de simples gozo que equivale à negação da coisa. ele é. Hegel assinalava que a noção de História da Filosofia "envolve uma contradição interna". ele se relaciona (a) imediatamente com os dois e (b) imediatamente com cada um por intermédio do outro. com o escravo. que transforma os objetos materiais em objetos de consumo e de fruição para o senhor. uma relação. aquele que se rendeu. "ela não penetra na esfera do que passa e não tem história". por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica. uma relação mediata em virtude da existência independente. Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo. aquele que é vitorioso no combate. graças a essa mediação. A idéia geral de filosofia permanece abstrata se não se confunde com os diversos sistemas dos filósofos no decurso da história. Por conseguinte. fruindo-a puramente. o senhor também o domina. escravo da vida e de seus objetos empíricos. Mas a história conta o que foi numa época e que desapareceu em outra. Por conseguinte. O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal. Hegel examina simultaneamente a relação de dois "eu" e a relação de cada eu com sua própria vida. Uma vez que o senhor (a). é relação imediata do ser para-si. Na realidade. (²) Hegel quer dizer que o senhor não é senhor "em-si". ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta. No ponto de partida. por meio de sua negação. mas por meio de uma mediação. o senhor domina os objetos da necessidade. substituído por outra coisa". posto que no campo de batalha ele se mostrou corajoso. isto é. assim como a noção geral de fruto só se explicita quando efetivamente se trata de "cerejas. Em compensação. Se a verdade é eterna. Secundariamente. para o senhor. Entretanto. pois provou na luta que o considera como puramente negativo. ameixas ou uvas". e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa. ele é mais do que ela. enquanto conceito da consciência de si. aceitou arriscar a vida. O "senhor". Com efeito. O senhor se define por sua relação com o escravo (e por sua relação com os objetos que depende. portanto. a uma etapa na conquista do espírito absoluto. em outras palavras. relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa.197 notadamente por uma consciência cuja natureza implica no fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo. enquanto consciência de si. . este último. isto é.(³) (¹) Este difícil texto de é característico do método hegeliano. ele é a potência que domina esse ser externo. tem medo de perder a vida. Ela surge "no devido momento. ela própria. ele só faz trabalhar. posto que possuía sua independência numa coisa externa. um ser para-si que só o é por meio do outro. a filosofia encontra-se toda nos sistemas dos filósofos. uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo. chegar a suprimi-la. O senhor tem. superior à sua vida. Ele inspirou amplamente as análises de nossos contemporâneos sobre as relações do eu com o outro. da relação com o escravo). ele o consegue. cada filosofia corresponde a um momento da história. O vencido. a fim de se fazer reconhecer como consciência.

pessoa culta e delicada. A posição dos precedentes é determinada pelo que se segue. se transformam em envoltório a serviço do fruto. Nesse sentido.. supera-se-o sem que se encontre no interior. localidade próxima a Leipzig. é o fundamento de tudo. a determinação precedente torna-se apenas um ingrediente da nova. opondo-se.198 nenhuma ultrapassou seu tempo" (¹). mas engana-se quando acredita os ter eliminado. pois ambos são necessários. uma após outra. A filosofia de Platão. citaremos um excerto das lições sobre a História da Filosofia: A razão é una e essa racionalidade una. portanto. em seguida. de início. A história da filosofia oferece momentos privilegiados ou. como diz Hegel. cujas forças mais sutis e mais ocultas se traduzem em idéias filosóficas. A dificuldade consiste em ver o que os sistemas filosóficos contêm de verdadeiro. eles são os frutos de seu tempo. "nós" em que vêm se reconciliar dialeticamente os contraditórios. É importante. Os princípios gerais surgem segundo a necessidade da noção fundamental. num contexto materialista: "Os filósofos não brotam da terra como cogumelos. . para a categoria de um momento. na seguinte. ela é assumida sem ser rejeitada. por exemplo.. depois é o botão e o cálice que. Nada mais fácil do que criticar. seu pai.. a unidade.. uma união em uma viva unidade do pensamento. mas uma reunião das filosofias precedentes que então formam um todo vivo. para o segundo. é preciso ver a verdade que ela contém. conhecer os princípios dos sistemas filosóficos e em seguida reconhecer cada um deles como necessário. Limitar-se a refutar uma filosofia é não compreendê-la. é assim que o primeiro elemento é colocado numa categoria inferior pelo seguinte. a essência da história da filosofia consiste em que princípios exclusivos transformam-se em momentos. Um estudo mais avançado mostrar-nos-á como progridem seus princípios. o prazer para um. Se se for mais adiante. O princípio de uma filosofia passa. Desse modo. de suas deficiências. por isso. aliás. o Uno. As filosofias são as formas do Uno.. Não se refuta uma filosofia. O estoicismo faz do pensamento um princípio. O mesmo espírito fabrica as teorias filosóficas na mente dos filósofos e constrói as estradas de ferro com as mãos dos operários.. ele sim.. é o homem pensante. As filosofias sucessivas não se refutam. apenas sua posição é que é refutada. sendo necessário. A filosofia não é exterior ao mundo". Mas ambas se manifestam. antes de tudo. mas se só se vê a negação. Karl Ludwig. ele se apresenta em sua época como superior. aquilo que se desenvolve na razão progride na unidade dessa razão. do pensamento e da sensibilidade. por assim dizer. em elementos concretos e se conservam. ignora-se o conteúdo que. só quando são justificados em si próprios é que se pode falar de seu limites. um sistema e. são o modo de existência mais elevado da planta. o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira. compõe-se dos dois elementos. Assim. A história de Platão não é um ecletismo. é afirmativo. mas o epicurismo proclama vedadeiro o princípio diretamente oposto: o sentimento. isto é sobretudo gosto característico dos jovens. Desse modo. é o geral e para outro o particular. e seus dois avós eram pastores protestantes. ele afasta o caráter exclusivo de um e outro. Sua união é a verdade. As folhas. o individual: para o primeiro. num nó. de maneira que o seguinte é uma nova determinação do precedente. Conhecer verdadeiramente um sistema é tê-lo justificado em-si. do que ver em alguma parte o caráter negativo. Nietzsche Vida e Obra Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken. o que dá no mesmo. o princípio das concepções subseqüentes é superior ou. de seu povo. Somente sua reunião constitui a totalidade da noção e o homem. todos os princípios são conservados. do geral e do particular.. mais profundo. O ceticismo é o princípio negativo que se eleva contra os dois precedentes. a evolução das determinações do pensamento é igualmente racional. o homem sensível. (¹) Encontramos essa idéia em Marx. mas as novas filosofias mostram as anteriores como verdades parciais passíveis de serem integradas numa síntese mais ampla que se elabora com o tempo. é a síntese do imóvel ser parmenídico com a mobilidade heracliteana.

para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos.C. escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". o deus da exuberância. publicou O Nascimento da Tragédia.C. complementares entre si. passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega. em 1869. seu pai e seu irmão faleceram. sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música. Em cartas ao amigo Erwin Rohde. Partiu em seguida para Bonn. Nietzsche responde que isso aconteceu porque a existência grega já tinha perdido sua "bela imediatez". onde Nietzsche cresceu. o apolíneo e o dionisíaco. diz Nietzsche. Ritschl. a do Logos e da lógica. foram separados pela civilização. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias. desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig. assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força criadora. Nessa obra. Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical. Dioniso. Na universidade. Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. Criança feliz. mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação. A casa de campo de Tribschen. uma nova forma de disputa (ágon). entre Eros e Logos. num povo amante da beleza. mas. seus autores favoritos. contraindo difteria e disenteria. Em 1858. de Dioniso e Apolo. Para ele a Grécia socrática.) e Ésquilo (525-456 a. mas estudos das instituições e do pensamento. que viria a ser.) um "sedutor". às margens do lago de Lucerna.). por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805). tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". isto é. Em 1867. III). A tragédia grega. VI a. Nietzsche pergunta como. Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação. seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor". entre o cidadão e o político. Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza. aluno modelo. entre os clássicos. esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia.C. alemão e latim. Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824). foram Platão (428-348 a. coisa tão querida pelos gregos. mas por pouco tempo. Sócrates pôde atrair os jovens com a dialética. onde Wagner morava. começou a declinar quando. de Schopenhauer (1788-1860). filha de Liszt (1811-1886). considera Sócrates (470 ou 469 a.199 Em 1849. entre o poeta e o filósofo. aos poucos. Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer. duas tias e da avó. Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883).C.). foi invadida pelo racionalismo. da desordem e da música. em obra posterior. principalmente com Tristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. sob a influência "decadente" de Sócrates. Em 1871. Nietzsche restabeleceu-se lentamente e voltou a Basiléia a fim de prosseguir seus cursos. e . a da cidade-Estado. pois logo adoeceu. nessa ocasião. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos. sob essa influência e a de alguns professores. A partir desses trabalhos foi nomeado. por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg. professor de filologia em Basiléia. dócil e leal. que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima. apaixonou-se por Cosima. a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner.C. escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. influenciado por seu professor predileto. onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). Durante o último ano em Pforta. Segundo Nietzsche. onde permaneceu por dez anos. pequena cidade às margens do Saale. a "sonhada Ariane". da harmonia e da ordem. O Filósofo e o Músico Em 1870. a Alemanha entrou em guerra com a França. com eles criou uma pequena sociedade artística e literária. assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia. Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual e o intelectual. dedicando-se à filologia. VIII a. Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig.-399 a. Nietzsche serviu o exército como enfermeiro. depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma". Hesíodo (séc.) e Homero. Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar. Na mesma época. Assim. em companhia da mãe.C.

Para Além de Bem e Mal (1886). Nietzsche voltou à cátedra. quando os valores não são mais do que algo "humano. Mas sua voz agora era tão imperceptível que os ouvintes deixaram de freqüentar seus cursos. não houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e. Nessa ocasião. O homem. Nietzsche escreveu: "Não há nada de exausto. Ecce Homo. e. Nietzsche propôs-lhe casamento e foi recusado. perturbações oculares. O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte. Crepúsculo dos Ídolos. a fim de dominar os instintos contraditórios. . Apesar da companhia dos familiares. Em 1882. Nietzsche não se encontrava bem instalado. "foi durante o inverno e no meio desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra". para Nietzsche. Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela alternância da criação e da destruição. Nietzsche contra Wagner (1888). dizia Nietzsche. Solidão. agitador anti-semita. Lou Andreas Salomé. como reduto da cristandade teutônica. mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente". durante um passeio. nada que calunie o mundo no reino do espírito. ele dissimula o mais negro obscurantismo nos orbes luminosos do ideal. Nietzsche desprezava o anti-semitismo. é o criador dos valores. assim. mostrava-se muito contrariado. esperava-se com seu estado de saúde: dores de cabeça. redigido logo depois. Encontraram-se mais tarde na Alemanha. achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. porém. Ao mesmo tempo. Agonia e Morte Em 1880. e depois para Roma. Irritado com o antigo amigo. ao mesmo tempo. veio à luz A Gaia Ciência. isto é. dificuldades na fala. Seu livro foi mal acolhido pela crítica. Terminada a licença da universidade para que tratasse da saúde. De Silvaplana. Ele acaricia todo o instinto niilista (budista) e embeleza-o com a música. Mas o "entusiasmo grosseiro" da multidão e a atitude de Wagner embriagado pelo sucesso o irritaram. para assistir à apresentação de O Anel dos Nibelungos. Em Rapallo. afastou-se da filosofia de Schopenhauer. acaricia toda a forma de cristianismo e toda expressão religiosa de decadência" . mudou de opinião. Erwin Rohde nem chegou a agradecer-lhe o recebimento da obra. o que o impeliu a refletir sobre a incompatibilidade entre o "pensador privado" e o "professor público".200 tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução lançasse mão de uma "razão tirânica". abandonou Naumburg. Em seguida. a recusa do cristianismo e de Schopenhauer. Nietzsche residiu em Haute-Engandine. Nessa época Wagner voltara-se. da fraqueza e da negação. ambos são parentes porque são a manifestação da decadência. Em 1879. isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. Ditirambos Dionisíacos. seus amigos não o compreenderam. onde permaneceu por insistência de Fräulein von Meysenburg. teve a intuição de O Eterno Retorno. Demasiado Humano. mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua amiga e discípula. que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia". Mais uma vez. que pretendia fundar uma empresa colonial no Paraguai. nada de caduco. no outono de 1881. seu trabalho não foi bem acolhido por seus amigos. passando o inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. Nietzsche transferiu-se para Gênova. iniciou sua grande crítica dos valores. acabaram por se afastar definitivamente. Interrompeu assim sua carreira universitária por um ano. retornou à Itália. depois Assim falou Zaratustra (1884). de "eterno" e "verdadeiro". sentia-se cada vez mais só. outrora tão brilhantes. pediu demissão do cargo. que pretendia casá-lo com uma jovem finlandesa. porém. Durante o verão de 1881. O Caso Wagner. do bem e do mal. pois sua irmã tencionava casar-se com Herr Foster. na pequena aldeia de Silvaplana. nem respondeu à carta que Nietzsche lhe enviara. Além disso. Nietzsche. demasiado humano". Mesmo doente foi até Bayreuth. escrevendo Humano. No outono de 1883 voltou para a Alemanha e passou a residir em Naumburg. da alegria e do sofrimento. que não tenha encontrado secretamente abrigo em sua arte. e. Em 1882. nada de perigoso para a vida. em companhia da mãe e da irmã. ao mesmo tempo. de Wagner. com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia". não conseguindo influenciar a irmã. recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre". Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e. Nietzsche publicou O Andarilho e sua Sombra: um ano depois apareceu Aurora.

O Dionisíaco e o Socrático Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com meios de expressão: o aforismo e o poema. o avaliador seria o artista que considera e cria perspectivas. inteligível e sensível. em Turim. Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. Por seu lado. ora "o Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia. teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente "submisso". o Bem. escrevia cartas ora assinando "Dioniso". Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica. veio a falecer muito cedo. O intérprete seria uma espécie de fisiologista e de médico. constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. Em lugar do filósofo-legislador. viajou para Nice. formula que. algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos. corresponde ao aforismo "só o homem que concebe o bem é virtuoso". Com tal concepção. A interpretação procuraria fixar o sentido de um fenômeno. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional. Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro. Provavelmente de origem sifilítica. enfrentou o auge da crise. publicado em um jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florença. Um ano mais tarde. afirma Nietzsche. o aforismo nietzschiano é. medido. o Verdadeiro. Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de "mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que me trata dessa maneira". crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos. cada vez mais isolado. a arte da tragédia desvia o homem do caminho da verdade: "uma obra só é bela se obedecer à razão". que lera Assim falou Zaratustra e escrevera um artigo. segundo Nietzsche. Nietzsche faleceu em Weimar. tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. sucedendo-se alternâncias entre euforia e depressão. opondo a ela valores pretensamente superiores. simultaneamente. pela oposição entre essencial e aparente. veio a público a Quarta parte de Assim falou Zaratustra. surgiu o filósofo metafísico. o que o amargurou profundamente. sempre parcial e fragmentário. fazendo da vida aquilo que deve ser julgado. Para Nietzsche. Essa degeneração. no entanto. Reunindo as duas capacidades. a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada. Em 1885. nesse sentido. Segundo Sócrates. ao mesmo tempo. condenando-a. isto é. limitado. a 25 de agosto de 1900. Certa vez. Assim. mediando-a por eles. mas sim de interpretar e avaliar. no entanto. o Belo. Esse bem ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo supra-sensível. um tipo de filósofo encontra-se entre os pré-socráticos. onde recebeu a visita do barão Heinrich von Stein. Depois disso. Nietzsche viu no rapaz um discípulo capaz de compreender o seu Zaratustra. no "verdadeiro mundo". atenuar ou suprimir a pluralidade. a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida". onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky. apareceu claramente com Sócrates. a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e. em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo. quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos. Para Nietzsche. e. sem. o filósofo do futuro deveria ser artista e médico-legislador. Com Sócrates. partindo depois para a Suíça. totalizando os fragmentos.201 Em princípio de abril de 1884 chegou a Veneza. e o poema constitui a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. inaugurando a época da razão e do homem teórico. . onde foi diagnosticada uma "paralisia progressiva". os quais só revelariam o aparente e irreal. jovem discípulo de Wagner. verdadeiro e falso. diz Nietzsche. nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida. a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos. inacessível ao conhecimento dos sentidos. Von Stein esperava que o filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal. aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos. falando pelo poema. talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu ataque contra Wagner. e o pensamento "afirmando" a vida. Von Stein. a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia. criou-se. Depois de 1888. o autor só encontrou sete pessoas a quem enviála. impondo-lhes limites. que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia. Sócrates "inventou" a metafísica. esta "estimulando" o pensamento. em nome de valores "superiores" como o Divino. Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos".

o homem está destinado à multiplicidade. o método filológico. Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos . possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato.. Para Nietzsche. por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia. e a consciência uma força crítica e negativa. o homem se afastou cada vez mais desse conhecimento. de "um platonismo para o povo". e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora". A imagem da tocha simboliza. pois procura "fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo". dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas). o corpo. bonus significa também o "guerreiro". para Nietzsche. a única atividade digna do homem. Com ele. restou a Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito. Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento ("é tua culpa se sou fraco e infeliz"). significado este que foi sepultado pelo cristianismo. à dor e à luta. continua Nietzsche. outros significados precisariam ser recuperados. Em latim. Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: "munido de uma tocha cuja luz não treme. vontade de aniquilamento. entende o terrestre. esforço. em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. "Este ódio de tudo que é humano".202 segundo Nietzsche. tudo isso significa. a vontade de potência deixa de querer significar "criar" para querer dizer "dominar". uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora. esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em arte". Nietzsche combateu a metafísica. faltou-lhe a visão mística. morte. diz Nietzsche. Assim como esse. Assim. o "homem teórico". criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à vida. este horror da felicidade e da beleza. Nietzsche traz à tona. como o provisório. de uma vulgarização da metafísica. o aspecto lógico-racional. este temor dos sentidos. é a aparência e seu reverso não é mais o Ser. Por essa razão. diz Nietzsche. Assim. triunfando o negativo e a reação contra a ação. dever. levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal". e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades". São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria. autêntico e verdadeiro. Quando esse niilismo triunfa. com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de "bem" e de "mal". à luz das idéias do outro mundo. no pensamento de Nietzsche. "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria'. desejo mesmo. a Ascensão da Montanha A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é. porém. a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam. a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação. ao mesmo tempo. na fórmula "tu és mau. recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". essa é a maneira como o escravo a concebe. racional. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica. o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas. distinguindo o verdadeiro do aparente e do erro era.. inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes. foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. e a única coisa permitida é sua interpretação. O cristianismo. logo eu sou bom". na medida em que abandonou o fenômeno do trágico. este desejo de fugir de tudo que é aparência. Penetrar a própria razão das coisas.. uma luta acirrada contra o cristianismo. portanto. mas como "sinais". hostilidade à vida. verdadeira natureza da realidade. Sócrates. retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente. para Sócrates. forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo. o sensível. segundo Nietzsche. por exemplo. e impondo a resignação e a renúncia como virtudes.. Essa concepção constitui uma metafísica que. A única existência. é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo. um significado esquecido da palavra "bom". mudança. o inautêntico e o aparente. que é preciso desmistificar. Segundo Nietzsche. A partir daqui. lógico. diz Nietzsche. O Vôo da Águia. Trata-se.

A "profundidade da consciência" que busca o Bem e a Verdade. a um ciclo. pois o que o tornava doente era a idéia de que o eterno retorno estava ligado. diz Nietzsche. oferece. uma "saída fora da mentira de dois mil anos". Assim. Com essa concepção. amoral e superior ao lógico. e que ele faria tudo voltar. Para Dioniso. mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso. como desejo de dominar. diz Nietzsche. O eterno retorno. Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência. o intérprete por excelência. Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso. o vôo da águia. Para Nietzsche. pois as próprias palavras não passam de interpretações. implica resignação. Por outro lado. o sofrimento. mas impõem uma interpretação. Fazer isso é "aliviar o que vive. mas o Crucificado. dançar. da alegria e do sofrimento. se Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o desigual e a seleção.203 que negam a vida. diz Nietzsche. é como Dioniso. Em dois momentos de Assim falou Zaratustra (Zaratustra doente e Zaratustra convalescente). diz Zaratustra. Dessa forma. mesmo o homem. e se elas só significam porque são "interpretações essenciais". aí está a causa de meu cansaço e de toda a existência. concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade. eu negam a "afirmação". ao percorrer os signos para denunciá-las. do bem e do mal. é o além-do-homem. e a transmutação dos valores traz consigo o novo homem que se situa além do próprio homem. sempre foram inventadas pelas classes superiores e. Esse super-homem nietzschiano não é um ser. O grande desgosto do homem. da ressurreição e da volta. no entanto. portanto. hipocrisia e máscara. e o "eterno retorno". o eterno retorno causa ao personagem-título. a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície. avaliação. o verdadeiro oposto a Dioniso não é mais Sócrates. do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos. Nietzsche responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma vida para a qual tudo se tornou vão. Vontade de potência. a afirmação do devir e do múltiplo. a baixeza transforma-se em nobreza. não indicam um significado. a morte e o declínio são apenas a outra face da alegria. Zaratustra. o homem descobre no eterno retorno a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e da destruição. do "guerreiro". portanto. o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida. totalmente irresponsável. A etimologia nietzschiana mostra que não existe um "sentido original". Os Limites do Humano: O Além-do-Homem Em Ecce Homo. "mas. "os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas". desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força criadora de novos valores. o "homem pequeno". Se se interpreta vontade de potência. de outro. "dar" e "avaliar". Com isso. deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado. segundo Nietzsche. apesar de tudo. primeiramente. deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a "profundidade da interioridade" é coisa diferente do que ela mesma pretende ser. como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias. antes mesmo de serem signos. a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência. faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. cuja vontade "deseje dominar". Por isso. aberta para o futuro. diz Nietzsche. esta. na medida em que tudo é máscara. o Bem é a vontade do mais forte. interpretação. e o intérprete-filólogo. mesmo do mais pequeno. criar". assim. dirão à vida: uma vez mais". E o eterno retorno. entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano. uma repulsa e um medo intoleráveis que desaparecem por ocasião de sua cura. que faz do futuro numa repetição. de um lado. neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes. como um deus artista. . As palavras. e apenas ele. do super-homem. o eterno retorno nietzschiano é essencialmente seletivo. a verdadeira oposição é a que contrapõe. aí está o que me sufocou e que me tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o adivinho: tudo é igual. diz Nietzsche. significa "criar". não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo. O trabalho do etimologista. Em outros termos.

Por outro lado. em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio do super-homem. que lhe parecem "imorais". pelo risco. Nietzsche caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de "obediência e longas pernas". Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e nacional. Por outro lado. Nietzsche revela o desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth. é a pura afirmação. depois do suicídio do marido. pois impossibilitam que se pense a diferença entre os valores dos "senhores e dos escravos". até o anti-semitismo". entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento. . da piedade. mas em Vontade de Potência exorta os operários a reagirem "como soldados". Esta obra constitui uma interpretação. é necessário. Assim. à moral da compaixão. que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta. Para compreender corretamente as idéias políticas de Nietzsche. tentou colocá-lo a serviço do nacional-socialismo. Compreende-se. a vitória da Alemanha sobre a França teria como conseqüência "um poder altamente perigoso para a cultura". Jacob Burckhardt (1818-1897). pelo amor ao distante. ao contrário. que leva a negação a seu último grau. uma instância a serviço daquele que cria. Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção. e. não há mais elevado fim do que servilo. para Nietzsche. piedade. Nietzsche recusa o socialismo. humildade. essas teorias seriam apenas "fantásticas". retendo até 1908 Ecce Homo. que fracassara em um projeto colonial no Paraguai. Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez". da doçura feminina e cristã. por causa do nacionalismo e anti-semitismo do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que desprezo. Nessa época. para ele. assim. desde sua participação na guerra francoprussiana (1870-1871). amor ao próximo. Oposta.. o profeta do além-do-homem. pela personalidade criadora. o Estado tem uma origem "terrível". sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. em Weimar. Nietzsche alistou-se no exército alemão. impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos. Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães. portanto. feita por Nietzsche. ao assegurar a difusão de seu pensamento. No mesmo sentido. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: "estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados. escrita em 1888. que insistia junto a seus alunos para que não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício de verdadeira grandeza. que. de sua própria filosofia. pelo orgulho. pois. Por ocasião desse conflito. é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. para ele. desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista. Zaratustra.. Uma Filosofia Confiscada Apoiado na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência. objetividade. fazendo publicar Vontade de Potência como a última e a mais representativa das obras de Nietzsche. disciplinados como uma cifre oculta em um número". afirmou Nietzsche. assim. bondade. porque Nietzsche desacredita das doutrinas igualitárias. que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. E acabou rompendo definitivamente com Wagner. aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia. purificá-lo de todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome. portanto.204 Nesse sentido. Em Para Além de Bem e Mal. reuniu arbitrariamente notas e rascunhos do irmão. organizando o Nietzsche-Archiv. mas seu ardor patriótico logo se dissolveu. assim. "A democracia é a forma histórica de decadência do Estado". a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. fazendo dela uma ação. que só sabem obedecer pesadamente. Ambos foram combatidos pelo filósofo. constituem valores inferiores. de tal forma que se passou a ver no autor de Assim Falou Zaratustra um percursor do nazismo. Elisabeth. quando confiou ao "louro" a tarefa de "virilizar a Europa". A moral do além-do-homem. que afirma. como a crítica total que acompanha a criação. segundo as quais o estado é o mais alto fim do homem. O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação.

Ao contrário disso. pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. Essa opinião. Trocou a Universidade de Copenhague. a vontade de potência. seus alicerces encontram-se na máxima que diz: "o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância. verdadeiro e falso. os teatros. tornando-a estática e estereotipada. nem a doença são entidades. "Por que escrevo livros tão bons?". a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade. para ele. nem a saúde. sendo a doença um desvio interior à própria vida. que cultuava a maneira exacerbada os rígidos princípios do protestantismo dinamarquês. usurpação e violência". Para entendê-lo corretamente. aniquilar as paixões é uma "triste loucura". quando o pai. como conseqüência. a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados "manifestações diabólicas". alguma coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados foram espalhados pela Grécia". Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade". doença e saúde são apenas jogos de superfície. chamava a si mesmo de "filho da velhice" e teria seguido a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um estudante indisciplinado e boêmio. com isso. Assim Falou Zaratustra Em Ecce Homo. para Nietzsche. pelos cafés da cidade. incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo – herança de um pai extremamente religioso.205 sendo criação da violência e da conquista e. tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre. As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e. que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões. da saúde à doença. esconde um saber fatal e "demasiado certo". A filosofia foi. Há uma continuidade. as oposições entre bem e mal. "Por que sou tão inteligente?". a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa. Kierkegaard Kierkegaard é um dos raros autores cuja vida exerceu profunda influência no desenvolvimento da obra. . que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença "um ponto de vista" sobre a saúde e vice-versa. Sua crise final apenas marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. Para Nietzsche. Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e desqualificada pela loucura. os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria. é necessário colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção da filosofia: Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia. está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem. pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas. O Estado. rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. Nietzsche intitulou seus capítulos: "Por que sou tão finalista?". sob o travestimento da loucura. rico comerciante de Copenhague. Mas. diz Nietzsche. portanto. diz Nietzsche. entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau. tinha 56 e a mãe 44 –. onde entrara em 1830 para estudar filosofia e teologia. É dentro dessa perspectiva. Para ele. e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: "Na verdade. a vida social. assim. religião de Estado. como tal. portanto. A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a "meditação ascética". Em suma.. ainda que para outros signifique doença. a arte de deslocar as perspectivas. As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas em seus textos. a fisiologia e a patologia são uma única coisa. Sétimo filho de um casamento que já durava muitos anos – nasceu em 1813. aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso. aos "filósofos além de bem e mal". não há fato patológico. A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa. "Por que sou tão sábio?". diz Nietzsche. cuja decifração cabe à filosofia. o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-dohomem.. no entanto. revela um superficial entendimento de seu pensamento.

viajou. o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização de uma totalidade infinita se compraz na finitude. descobre a necessidade da solidão e do distanciamento mundano. Escola do Cristianismo. Filósofo ou Religioso? A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a levantar dúvidas a respeito do caráter filosófico de seu pensamento. mas. Volta a Copenhague em 1842. Rompido o noivado. ou. publicou Doença Mortal e. mas de uma concepção muito profunda da situação do homem. Para Kierkegaard. Para ele. de Copenhague. e um ano depois apresentava "Sobre o Conceito de Ironia". para a Alemanha. comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossa condição. na afirmação radical da própria individualidade. Em Kierkegaard não encontramos. essa era a única maneira de vivenciar sua fé. a filosofia assume. a partir de uma dimensão sobre-humana. no mundo e perante aquilo que o ultrapassa. sua tese de doutorado. Assim. qual a finalidade que ele intencionalmente deu à sua obra. enquanto ser individual. Polemista por excelência. e em 1843 publica A Alternativa. e foi execrado pelo semanário satírico O Corsário. Não devemos buscar o sentido do indivíduo numa harmonia racional que anula as singularidades. Estamos habituados a ver. por exemplo. sim. da moral. O noivado. que sua vida mudou. em que analisa a deterioração do sentimento religioso.206 Foi só em 1837. o Post-scriptum a Migalhas Filosóficas. Morreu em 1855. cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard. estritamente. Para Hegel. o particular pelo geral. A maior parte desses textos constitui uma tentativa de explicar a Regina. Em vez de pastor e pai de família. Trata-se muito mais de rebelar-se contra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa. o indivíduo é um momento de uma totalidade sistemática que o ultrapassa e na qual. porque a vê como uma etapa de algo maior. Kierkegaard escolheu a solidão. essa defesa arraigada daquilo que é único? Não de uma contraposição teórico-filosófica a Hegel. Pode-se perguntar. Não se trata de questionar as incorreções ou as inconsistências do sistema hegeliano. de sua especificidade e do caráter insuperável de sua realidade. Ora. o infinito. é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por uma finalidade que. cujo sentido é infinito. Em 1849. a divindade. na raiz das tentativas filosóficas que se deram ao longo da história. Esse é o momento da segunda grande mudança em sua vida. dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do tempo. mas como a solidão característica do homem que se coloca como finito perante o infinito. é editado As Etapas no Caminho da Vida e. ao optar pelo compromisso radical com a transcendência. Kierkegaard criticou a Igreja oficial da Dinamarca. Um ano depois. O individual se explica pelo sistema. razões da ordem da reforma do conhecimento. mais religioso. A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e seu pensamento. com a morte do pai e o relacionamento com Regina Oslen (de quem se tornaria noivo em 1840). A crise vivida por um homem que. Isso fica bem evidenciado quando ele reage às filosofias de sua época – em especial à de Hegel. em particular. ainda em 1841. . Na Alemanha. no entanto. A individualidade define a existência. da política. em 1850. os paradoxos da existência religiosa. nenhuma dessas motivações tradicionais. Temor e Tremor e A Repetição. e a ele mesmo. a um só tempo. em 1846. De onde provém. quais as questões fundamentais que lhe motivam a reflexão. tratar-se-ia muito mais de um pensador religioso do que de um filósofo. A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como um conceito lógico. Também em 1840 ele conclui o curso de teologia. está em Diários. então. ao mesmo tempo. foi aluno de Schelling e esboça alguns de seus textos mais importantes. Para além das minúcias que essa distinção envolveria. ele encontra sua realização. exerceria uma influência decisiva em sua obra. o caráter socrático do autoconhecimento e o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduo diante da verdade cristã. Em 1844 saem Migalhas Filosóficas e O Conceito de Angústia. Em Kierkegaard há um forte sentimento de irredutibilidade do indivíduo. com a qual travou um debate acirrado. Pra elas. Kierkegaard elabora seu pensamento a partir do exame concreto do homem religioso historicamente situado.

um modo de existir. insuperável modo de existir. O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz. definitivamente. Não há. A mediação é o Cristo vivo. ou seja. exceto a relação com Deus. possui uma dimensão que o torna referência intemporal para se vivenciar a fé. se realiza na vivência da religiosidade cristã. segundo ele. E esse modo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo. igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos. embora histórico. de optar entre dois códigos de ética. tampouco é um estágio provisório que dure apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão. ou entre dois sistemas de valores. Aqui se situam as circunstâncias que fazem do advento da Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada com as pompas do conceito e do sistema. E a compreensão irradia luz sobre a redenção e a graça. Não se trata. minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé. estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. o aprofundamento da subjetividade. Cristo. Foi a mediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso. conseqüentemente. histórico. este jamais teria acesso à Verdade. portanto. Não há portanto uma mediação conceitual. principalmente o protestantismo dinamarquês. O fato da redenção. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua época. Cristo é portanto o fato primordial para a compreensão que o homem tem de si. naquilo que São Paulo já havia chamado de "loucura". no entender de Kierkegaard. penetrado. de posse da verdade humana do cristianismo. O paradoxo de Deus feito homem e o absurdo das circunstâncias do advento da Verdade. É. mais precisamente de um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar: a fé. A autêntica subjetividade. Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse sentimento. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. Tudo está suspenso. Somente dessa maneira nos colocamos no caminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto. Mas o próprio Cristo é incompreensível. com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo. Se permanecesse a distância infinita que separa Deus e o homem. Seu profundo significado a-histórico tem a ver. . Essa angústia. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito. somente aprofundando a subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos aproximaremos da compreensão original de nossa natureza: o pecado original. algum tipo de prova racional que me transporte para a compreensão da divindade. mais do que com essa característica do Romantismo. da mediação do Cristo. enquanto Deus tornado homem. No entanto. é o absurdo que possibilita a Verdade. de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso. O Sofrimento Necessário A subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário. O cristão é aquele que se sente continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo. e o fato igualmente incompreensível do sacrifício na cruz. jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção e. dotado. É por meio de Cristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolvia sua época. nesse caso. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente. é o mediador entre o homem e Deus. Por isso devemos dizer: creio porque é absurdo.207 Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não se vê diante de um sistema de idéias mas diante de fatos. O acesso à Verdade suprema depende pois da crença no absurdo.

mas por alternativas e saltos. mesmo que essa ação seja materialmente boa. fica submetida às flutuações de minha natureza. que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em presença um do outro. Continuaria sendo o assassino de seu filho. a ausência de mediação humana. da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon. Toda ação que toma seus móveis da sensibilidade. Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões. Por exemplo: se me empenho por alguém por cálculo interessado ou mesmo por afeição. muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos. A fé representa um salto. Com efeito. minha conduta não é moral. Kant se opõe não só ao naturalismo dos filósofos iluministas.208 O Salto da Fé Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade. Nada está em jogo. O imperativo moral não é um imperativo hipotético que submeteria o bem ao desejo (cumpre teu dever se nele satisfazes teu interesse. Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade do Cristo. se teus sentimentos espontâneos a ele te conduzem). há o que Hegel mais tarde denominará uma visão oral do mundo que afasta a ética dos equívocos da natureza. Em que consiste esse dever? Uma vez que as leis que a Razão se impõe não podem. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual. meus cálculos e meus sentimentos espontâneos poderiam levar-me a atos contrários. Mas. Emmanuel Kant A Moral de Kant É só no domínio da moral que a razão poderá. Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé. amanhã. isto é. caso o sacrifício se tivesse consumado. "Age sempre de tal maneira que a máxima de tua ação possa ser erigida em regra universal" (primeira regra). âmbito em que o entendimento é cego. o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação. para ser ela própria. que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. manifestar-se em toda sua pujança. ética. em nenhum caso. mas. é estranha à moral. Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humana. Nesse ponto. deve ao contrário. A fé reúne a reflexão e o êxtase. mas o imperativo categórico: Cumpre teu dever incondicionalmente. A razão prática. O respeito pela razão estende-se ao sujeito racional: "Age sempre de maneira a tratares a humanidade em ti e nos outros sempre ao mesmo tempo . legitimamente. Do ponto de vista humano. a procura infindável e a visão instantânea da Verdade. receber um conteúdo da experiência e que devem exprimir a autonomia da razão pura prática. e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. Deus não está testando a sabedoria de Abraão. a não ser ele mesmo e a sua fé. a felicidade. também. ela não pode ser elucidada pelo conceito. A vontade que tem por fim o prazer. A crença é inseparável da angústia. Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta. o temor de Deus é inseparável do tremor. ou então. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto. à ontologia otimista de São Tomás. como no caso da tragédia grega. não constituirá fundamento adequado da vida e da ação. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito. já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso. A razão teórica tinha necessidade da experiência para não se perder no vácuo da metafísica. tudo que seja sensível ou empírico. dos desejos empíricos. A filosofia deve ser imanente à vida. precisamente porque não pode haver transição racional entre o finito e o infinito. as regras morais só podem consistir na própria forma da lei. Em Kant. A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação. ultrapassar. a comunidade). a dúvida permaneceria para sempre. para quem a felicidade é o fim legítimo de todas as nossas ações. Existir é existir diante de Deus.

ele me realiza como ser racional que obedece à lei moral. sentiria uma atração instintiva e irresistível pelos valores morais). pelo qual o mundo se me apresenta no conhecimento. Por trás desse determinismo aparente. porque é preciso. Ela não possui outro fundamento além da consciência humana. Em tal sistema. Desse modo. a obrigação moral exclui a necessidade dos atos humanos. no entanto. ao preço de grande esforço. patológico. Por exemplo. Aquele crime pode ser explicado pelas paixões de seu autor. Moral e Metafísica A moral de Kant é o que chamamos de uma moral independente. ao invés de buscar os fundamentos de sua moral na metafísica. da experiência. como diríamos hoje. que o mau escolheu livremente o seu caráter de mau. às tendências de tudo o que é empírico. Kant então postula a imortalidade da alma.para ser absolutamente rigoroso. Com efeito. E. Ele então postula que um Deus justiceiro.essa metafísica cuja demonstração era impossível. do determinismo. ele me engrandece. 209 . é fora do tempo. passional. são determinados uns pelos outros no tempo. essa consciência que é essencialmente razão. ele vai estabelecer os fundamentos de uma metafísica na moral. isto é. o domínio da moral não é o da natureza (submissão animal aos instintos) nem o da santidade (em que a natureza. como diz Kant. O mérito moral é medido precisamente pelo esforço que fazemos para submeter nossa natureza às exigências do dever. A razão fala sobre a forma severa do dever porque é preciso impor silêncio à natureza carnal. os homens só têm que obedecer às exigências de sua própria razão: "Age como se fosses ao mesmo tempo legislador e súdito na república das vontades" (terceira regra). neste mundo em que. aos instintos. a título de "postulados da razão prática". Kant vai reerguer a metafísica . o homem se sente responsável. então podes. mesmo que me diga: e se todos fizessem o mesmo? A mentira de todos para com todos é contraditória. Tal é o rigoríssimo kantiano. segunda a crítica da razão pura. Por outro lado. como um fim e jamais como um simples meio" (segunda regra). mas é a própria lei moral que o produz em mim. Mesmo que o universo não tenha o menor sentido. pelo fato de ser puramente formal. A moral de Kant. Vimos que. um ato concreto a realizar. o discípulo de Kant se sabe obrigado a respeitas as máximas da razão. Por conseguinte. O único sentimento que tem por si mesmo um valor moral nessa ética racionalista é o sentimento do respeito. por conseguinte." Esta liberdade não poderia ser demonstrada. de um modo geral. Por exemplo: o dever me prescreve a realização de certa perfeição moral que não consigo atingir na vida presente (posto que não chego a purificar totalmente a determinação de querer dos móveis sensíveis). passivo. Kant vai postular a liberdade humana. vejo de imediato que não tenho o direito de mentir. A originalidade de Kant está no fato de que. é ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal. do que hoje denominamos ciência psicológica. transfigurada pela graça. No plano dos fenômenos. por conseguinte. livre. mesmo que a alma seja mortal. Ela simplesmente autoriza ou proíbe este ou aquele ato que tenho vontade de praticar. submeter a humana vontade à lei do dever. os maus são muito prósperos. o princípio do dever. "Tu deves. etc. eu vejo que meus atos. essa moral não me propõe. é um mundo de aparências. pela deplorável educação que recebeu. exprime sua desconfiança com relação à natureza humana. esconde-se a realidade numenal de minha liberdade. Como diz Jan Kélévitch. Ser moralmente obrigado é ter o poder de responder sim ou não à regra moral.. ao privilegiar a razão humana. como diz Kant. restabelecerá no além a harmonia entre virtude e felicidade. diz Kant. Para se unirem numa justa reciprocidade de direitos e obrigações. portanto. A moral formal. A obrigação não teria o menor sentido se minha conduta fosse automaticamente determinada por minhas tendências ou pelas influências que sofri. é nas profundezas do ser inacessível ao saber científico. o imperativo categórico é um "proibitivo categórico". não implica em nenhuma "alienação". em nenhuma "heteronomia". pois não é anterior à lei. ao contrário. apresenta-se como essencialmente negativa. por intermédio de um sistema de recompensa e punições. Por conseguinte. Não esqueçamos que o mundo dos fenômenos.. Kant constata que a virtude e a felicidade quase não estão juntas. partindo da consciência da obrigação moral. Finalmente. Todavia. proibída. ou. efetivamente. isto é.

literatos. idealismo objetivo e idealismo absoluto. para o qual já fora orientado por Kant. e esta é totalmente produzida pelo espírito. Schelling. com Goethe à frente. por conseguinte. especialmente alemão. Hegel. a filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica. presentes na obra de arte. Dele depende todo pensamento posterior. a irredutível oposição entre a coisa e o espírito será eliminada. e o seu pensamento encaminha decisivamente o idealismo para a trilha do monismo imanentista. o entendimento não pode conhecer o fundo das coisas e se limita a "soletrar os fenômenos". a beleza oferece à nossa imaginação a oportunidade de uma satisfação inteiramente desinteressada. Kant representa o centro do pensamento moderno. A natureza não seja talvez não seja apenas o domínio do determinismo. Hegel. mais ou menos. me "arrebata". ao definir em uma palavra os sistemas de Fichte. Nessas condições. harmonia pura. na contemplação estética. poetas. já que. A Crítica do Juízo. Tudo se passa como se o pássaro fosse feito para voar. Schopenhauer) dependem. A Crítica do Juízo Desse modo. a outra fonte essencial do idealismo alemão é Spinoza. Os valores de beleza. particularmente o idealismo clássico alemão. O Idealismo Pós-Kantiano Considerações Gerais A maior parte dos filósofos (é sua vocação mais preciosa. Paralelo e correspondente ao movimento filosófico do idealismo pode ser considerado o romantismo. Schleiermacher. Como é então que o mundo sensível se deixa organizar. Ela é. se ordenado pelas categorias do espírito? E por que Kant mantém essa coisa em si que. seríamos totalmente livres em nossa realidade numenal: daí se segue que nenhum pecado poderia ser escusável. mas também o da finalidade que aparece notadamente na organização harmoniosa dos seres vivos. no mundo kantiano. caracteriza-os sucessivamente como idealismo subjetivo. que desenvolve o conceito de criatividade do sujeito. Em sua terceira grande obra. se o princípio de causalidade (determinismo) é constitutivo da experiência (não posso dispensá-lo para explicar a natureza).210 portanto. Todos os filósofos idealistas (Fichte. não podemos conhecer nem designar? Os sucessores de Kant. dele me liberta e. Totalmente determinados nas aparências fenomenais. Para ele convergem e nele se compõem em um fenomenismo absoluto o fenomenismo racionalista e o fenomenismo empírico. longe de manifestar meu egoísmo dominador. fenômeno artístico e literário. para uma forma de monismo imanentista. Este filósofo é arrancado do desprezo e do esquecimento em que jazia. vão propor sistemas em que. o exemplo único de uma satisfação ao mesmo tempo sensível e pura de todo egoísmo. de síntese a priori. o momento privilegiado em que uma emoção. Todavia. Kant se esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo natural e o da liberdade. como se diz muito bem. de Spinoza. de autonomia do espírito. de modo diferente. bem como dele dependem artistas. de Schelling. em que toda realidade se resolve nos limites da experiência. fora de todo móvel exterior à obra de arte). também o romantismo é denominado . Finalidade sem fim (isto é. Além de Kant. a empresa kantiana só pode deixar os filósofos insatisfeitos: para Kant. puramente regulador (posso interpretar o agrupamento de certas condições como a manifestação de um fim). a menos que não seja seu pecado original) visa à inteligibilidade perfeita e à unidade total. não existe liberdade parcial nem meia-responsabilidade. a bela aparência que admiramos parece inteiramente penetrada dos valores do espírito. igualmente nos oferecem uma espécie de reconciliação entre a razão e a imaginação. já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da Razão Prática). Com efeito. segundo afirma. o princípio de finalidade permanece facultativo. ao mesmo tempo que o seu próprio. mas uma coisa apenas é certa: o pássaro voa porque é constituído de tal maneira.

A estes podem-se acrescentar Schelling e Schleiermacher. este é transcendental .e não transcendente . na universidade de Berlim. posse de si mesmo. perante o qual o espírito é passivo. em que está a sua divindade infinita. Assentado isto. opera. da natureza. seria prático. Faleceu em Berlim. naturalmente. depois dedicou-se entusiasticamente à filosofia kantiana. em Rommenau. e ter travado relações com um círculo romântico. de fato. . propende.tiveram intuição do seu anticristianismo e ateísmo. no mundo empírico. Primeiro estudou teologia na universidade de Jena. em 1814. procurou a sua justificação teorética em uma metafísica monista-imanentista. independência. Aí teve que enfrentar a oposição das autoridades religiosas e políticas. criado pelo espírito para se realizar a si mesmo como eticidade e liberdade. para incitar os seus patrícios contra Napoleão que humilhara e vencera a Alemanha. é Fichte. estabeleceu-se definitivamente. no tempo e no espaço. Apesar das suas desculpas. que. imanentismo. Esse mundo de coisa em si. O mundo da matéria.protestantes embora . de que o eu empírico. ético. propriamente. de síntese a priori. pelo qual se decide em favor do idealismo e não em favor do dogmatismo. é uma criação inconsciente do espírito. Kant deixara ainda uns dados. debilidade. no qual unicamente. que . mas pertencem também ao movimento romântico. ao passo que se deu o contrário com o racionalismo precedente. portanto. Eu puro. em um processo infinito. Sustenta Fichte que o motivo fundamental. E. que são produtos históricos.com respeito à multiplicidade e ao vir-a-ser do mundo empírico. a principal é Fundamentos da doutrina da ciência. o espírito se realiza. pois. é representado especialmente de um lado por aquela misteriosa matéria. isto é. entretanto. o Eu puro vive. desenvolve-se. moral. O Desenvolvimento do Idealismo Apesar do seu conceito de criatividade do espírito. como uma produção do eu. Entre as suas obras. no dizer de Kant. fraqueza. Dogmatismo significa passividade. o idealismo clássico nega todo dado. acomodação. Nesses eus empíricos. de um eu universal. João Amadeu Fichte nasceu em 1762. Este. e não em uma metafísica transcendente e teísta. Trata-se. Em 1794 foi convidado a lecionar na universidade de Jena. O Idealismo Ético: Fichte O primeiro e maior discípulo de Kant. pela íntima unidade espiritual do romantismo e do idealismo. em suma. mais para a arte e a poesia. transcendental. absoluto. filósofos idealistas. Depois de ter peregrinado por várias universidades. e com o idealismo tem em comum o historicismo. Os maiores românticos alemães são Schlegel e Novalis. moral. em geral. liberdade. uma questão de caráter. e reduz tudo à mais absoluta imanência do espírito. como o idealismo. no mundo da natureza. que encaminhou decididamente o criticismo pela senda do idealismo imanentista. pois Fichte mantém o conceito kantiano do primado da razão prática. vive. a valorização da nacionalidade e da religião. perante o qual. isto é. e. significaria atividade. das sensações. em face dos quais o espírito é passivo: o mundo dos noumenons. donde derivaria toda a atividade organizadora e criadora do espírito. ou coisa em si. se concretiza a si mesmo indefinita e livremente.211 pelo conceito de criatividade e liberdade do espírito. e é plenamente cognoscível a si mesmo. este motivo prático. e de outro lado por aquele mundo inteligível. onde expõe sistematicamente o seu pensamento. ficou sendo a base do idealismo posterior. o conceito de desenvolvimento. são eles. esse mundo de dados. precisamente no conceito do espírito como eticidade. isto é. por conseguinte. que o espírito não consegue conhecer. onde pronunciou os famosos Discursos à Nação Alemã. e unicamente neles. do realismo. e conheceu pessoalmente Kant. em 1810. e portanto nega o transcendente mundo kantiano dos noumenons. Ora. Fichte concebe idealisticamente toda a realidade. o espírito seria passivo. Resolve ele o mundo kantiano da sensibilidade. enfim teve Fichte que deixar o ensino universitário. tanto espiritual quanto material. os diversos "eus empíricos" seriam concretizações particulares. do que para as ciências e a matemática. ao passo que idealismo.

que aspira aos valores espirituais e morais. em que o "deve ser" é reduzido ao "ser". Fica. a dualidade do eu teorético e do eu prático. O Idealismo Estético: Schelling Embora colega de Fichte e mais velho que Hegel. uma consciência de unidade e autonomia nacionais. . era um dado e inexplicável. porque. Mas. Temos o eu teorético. temos. julga Fichte ter justificado. religioso e cultural. todavia. mundo que. o obstáculo a superar para realizar a sua eticidade. de sorte que o verdadeiro conceito de Deus é logicamente anulado. Não é preciso lembrar que o Deus de Fichte não é transcendente. denominada filosofia da identidade. tal produção do não-eu por parte do eu. Daqui se pode compreender a ação política exercida por Fichte na Prússia. consciente e inconsciente. em um sistema imanentista .como é o de Fichte . das nações. moralidade. É um mito romântico da Alemanha. mas é imanente. não tem fim. em Berlim . que deveriam ter culminado em um estado alemão. impessoal e gerador do mundo. deduzido do eu o mundo da matéria. que indiscutivelmente ela possui. do não-eu (imaginação produtora). pelo menos na primeira grande fase da sua especulação filosófica. O próprio Fichte notou essa grave deficiência. do eu cognoscitivo e do eu ativo. Tal processo ascendente. Fichte pensa que a natureza íntima. Schelling está logicamente entre Fichte e Hegel. Naturalmente. e a realidade cairia do nada. prevalece o segundo elemento. e cada indivíduo e cada ação sua. isto é. Para realizá-la.212 Desenvolvendo a doutrina kantiana do primado da razão prática. Segundo ele.durante a ocupação. para que o espírito possa aplicar a ele a sua atividade. uma nação. Mas. um estado ideal. a dominação de Napoleão. racionalmente indeduzível o conteúdo desse mundo da natureza. as acusações de ateísmo levantadas contra Fichte. para que seja superado e vencido esse mundo natural. da natureza. quando. encarnando a idéia da humanidade.como mais tarde. dos povos. a sua liberdade. Consciência e liberdade que encontram um progresso na sociedade humana. para Kant. eticidade. inconsciente no momento da produção da natureza. minerais. criador. mas também procura evidenciar o seu primado no mundo. primado moral e civil. tem por fim a sempre mais perfeita realização do próprio espírito. pelo contrário. teorética e prática. destarte. essa demolição de Deus. Entretanto. natural. No conhecimento começa a manifestar-se aquela atividade consciente do espírito. isto é. a fim de que seja possível a síntese ética. volta ele para uma concepção de Deus absoluto e imutável. deva ser guiada e ensinada por um povo. procurará fazer Hegel. o eu criaria o mundo da natureza. tal produção da natureza por parte do espírito é inconsciente. isto é. na antítese eu não-eu. Nesta obra Gioberti não somente quer dar à Itália unidade e independência nacional e política. Daí uma terceira duplicação do eu. despedaçado e dominado. como herdeira da cultura clássica e sede do cristianismo católico romano. O Deus de Fichte é apenas ordo ordinans. a antítese que ele põe como tese. E. porquanto em um sistema de idealismo absoluto deveria ser tudo racionalmente justificado . em uma sociedade de seres livres. como justamente observa Schopenhauer. em que o povo alemão é considerado como o povo puro e originário. que é precisamente eticidade. isto é. em uma segunda fase do seu pensamento. como o Deus do teísmo e do cristianismo. a qual é atividade. por Gioberti que escreveu o famoso livro Primato morale e civile degli Italiani. ideal para o qual tende o afanoso evolucionar humano. Tal série ideal da atividade do espírito. Fichte tem uma concepção ética do estado. Essa atividade utópica-política de Fichte tem certa semelhança com a atividade desenvolvida alguns anos depois na Itália.com os Discursos à Nação Alemã. do mundo. esse estado seria a Alemanha. o eu prático quando prevalece o primeiro elemento. apagar-se-ia a vida do espírito. o espírito. do eu. no estado. ao invés. profunda. Nestes discursos esforça-se Fichte para despertar no povo alemão. vegetais. do eu (reflexão). é necessário que a natureza seja conhecida pelo espírito. deveria ser a ordem moral do mundo. superestado em face de outros estados.acaba por coincidir com a ordem real. que era. se terminasse. isto é. Este seria precisamente como que o campo da sua atividade. originária do eu seja atividade. pessoa. não é Deus no sentido verdadeiro e próprio. pois. oporia a si mesmo o não-eu. Compreendem-se. causa de humilhação para o povo germânico . bem como na multiplicação do "eu puro" nos "eus empíricos". animais. assim. a consciência da sua natureza absoluta e divina.

que é um progresso. o conceito de Fichte de que a natureza tenha uma existência puramente relativa ao espírito. anterior ao eu e ao não-eu: será precisamente a identidade absoluta do eu e do não-eu. recusa. em 1854. com o qual. revelação de Deus a si mesmo. Foi sucessivamente professor nas universidades de Jena. não no científico. é princípio de tudo. e depois o espírito com toda a sua história. Faleceu em Berlim. . representa ele a filosofia do romantismo. uma continuação com respeito ao desenvolvimento da natureza. Essa realização de racionalidade. primeiro. essa revelação de Deus a si mesmo se realizam na determinação das idéias eternas em Deus. vontade inconsciente que aspira à racionalidade. que é a obra do gênio. ou o multíplice. onde dominara o seu adversário Hegel. a natureza e o seu desenvolvimento. ao indistinto. a realidade absoluta é identidade entre natureza e espírito. porém. A unidade. de Fichte. mesmo ilusória. passando da filosofia da identidade à filosofia da liberdade. idealista: o espírito. Tal passagem é representada pela segunda fase do seu pensamento. Ao surgir a sensibilidade. a natureza embora concebida idealisticamente . As suas obras principais são: o Sistema do idealismo Transcendental. Logo. Nessa segunda fase.213 Ademais. Mas então surge o problema que assoma em toda concepção monista da realidade: ou a realidade verdadeira cabe ao idêntico. Erlangen. sujeito e objeto. ser aprendida pela intuição estética expressa na obra de arte. à própria autorevelação. a identidade profunda entre natureza e espírito deveria. segundo Schelling. cujo racionalismo ele demole. a um sistema irracional. fundamentalmente. Então o princípio da realidade não é mais o eu de Fichte (o eu absoluto. de um sistema racional. e o da filosofia da liberdade. o sujeito. princípio absoluto da realidade. mas como seu desenvolvimento e consciência. e como exemplares universais e imutáveis das existências particulares e in fieri. sustentou pesada polêmica. enquanto Schelling assume no seu sistema a concepção romântica. a multiplicidade e o devir do mundo. em seguida. e nada existe fora dela. filosofia da identidade). o eu. não como sendo oposição e negação da natureza. Em Tubinga teve Hegel como condiscípulo. Schelling foi um autor variado e fecundo. em Leonberg. Munique e Berlim. propende para a primeira solução: o idêntico não é a causa do universo. Passou da teologia à filosofia e dedicou-se ao estudo de Spinoza. E o gênio se encontra só no campo estético. e precisamente mediante a sua finalidade. a natureza e o espírito. Para ele. filosofia da liberdade). em virtude da qual toda a natureza é espiritualizada. Schelling julga demonstrá-lo mediante a racionalidade imanente na própria natureza. o devir do mundo tem uma realidade verdadeira. Em Leipzig integrou a sua cultura humanista e literária com estudos científicos. mas é o próprio universo. Dessa identidade. no segundo. Que a natureza seja espiritualidade latente e progressiva. Mas então como se explica a visão. Filosofia e Religião. mas deverá ser um princípio mais profundo. As faces do seu pensamento são fundamentalmente duas: o período da filosofia da identidade. à consciência. espírito e natureza. e o espírito humano atinge a essência metafísica da realidade através de uma intuição estética. como indiferença de irracional e racional. No primeiro caso. Schelling concebe as idéias eternas ao mesmo tempo como verbo de Deus. Nele influíram também as turvas fantasias da mística alemã. como e donde pode surgir essa visão destruidora do Absoluto? Schelling procura resolver esse problema. objeto e sujeito: unidade de uma multiplicidade. afastando-se entretanto dele em seguida. Pesquisas Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana e os Objetos Conexos com Esta (segunda fase. o sujeito puro). Deus. Frederico Guilherme Schelling nasceu em 1775. A natureza é o espírito na fase de consciência obscura. Würzburg. são meras aparências subjetivas. Unicamente o gênio artístico atinge e revela o artista misterioso que atua no universo. decorrerá. possibilidade do irracional e do racional. ao uno imutável. que constitui o pressuposto imediato do seu pensamento. do qual deriva a sua concepção idealista. Como Fichte. A filosofia de Schelling é. Representação do meu Sistema (primeira fase. Schelling imagina o ser absoluto. do universo que aparece múltiplo e in fieri? Se a realidade absoluta é una e imutável. começa o desenvolvimento do espírito humano.tem uma realidade autônoma com respeito ao sujeito. quando o idealismo já estava esfacelado. como o espírito é a natureza na fase de consciência clara. nasce no universo a consciência espiritual. admite que a natureza é uma produção necessária do espírito.

Frederico Scheleiermacher nasceu em Breslau. para celebrar uma religiosidade estética. Para Kant. Embora Scheleiermacher pense que não podemos conhecer nada a respeito de Deus. das idéias. mas implicam também numa concepção metafísica do mundo e da vida. a do idealismo romântico. justificar a religião. É. Estes críticos têm um interesse religioso. ciência. difícil e proteiforme. porém. como julgava Hegel. com todo o mal que nele existe. Essa redenção redimiria não só e não tanto o mundo e o homem. Scheleiermacher quer libertar a religião não só da ciência. que é liberdade e vontade. a ética ser resolvida na dialética. do Uno. O Absoluto . em ordem cronológica. e é. do monismo imanentista. elas se podem destacar do Absoluto. Tal passagem se explica então mediante um ato arracional. da individualidade. portanto. mas também da moral. uma valorização no sentido imanentista. é racional o mundo das ciências. da multiplicidade à Unidade. irracional da vontade. do mundo ideal. secundário. idealista. da realidade. e a religião aniquilada na filosofia. porque as idéias eternas participam da natureza divina. Scheleiermacher teve uma influência vasta e duradoura sobre o protestantismo liberal alemão. ele. porquanto há essencial heterogeneidade entre o perfeito. mediante a qual o autor procura justificar a religião em geral e o cristianismo em especial. Por conseguinte. desprezada e expulsa da vida do espírito pelo racionalismo iluminista. porquanto ele também é ligado estritamente ao movimento romântico. mas pelo sentimento potenciado romanticamente em sentido metafísico. Foi professor em Halle e Berlim. repete de muitos modos que a realidade é una. racional. . do finito ao Infinito. em 1768. teoreticamente. sentimento este que seria precisamente a faculdade do Absoluto. Monólogos. pois. elemento germinal da Reforma luterana. onde faleceu em 1831. para Schelling. o universal e o imperfeito. mas o próprio Deus: porquanto. Pensa ele . deveria realizar-se progressivamente a redenção dessa queda original. Crítica das Doutrinas. filósofo do Romantismo.segundo Scheleiermacher . e a raiz comum das outras atividades psíquicas. ao passo que o segundo pode ser unicamente descrito com base na experiência. ao mundo empírico e contingente. o particular. Juntamente com o Romantismo. Segundo Scheleiermacher. portanto. são: Discursos sobre a Religião. isto é. da história da natureza e da humanidade. elucidando o princípio da experiência interior. de sorte que a religião se torna necessariamente e ainda mais radicalmente demolida. com efeito. daí ser a metafísica substituída pela moral.como Schelling que o Absoluto é atingido mediante a intuição estética. como. como o conhecimento e a vontade. tal separação aconteceu e constitui o mundo material e espiritual. e que o espírito humano na sua plena atualidade é a consciência de Deus imanente. filosofia. A Fé Cristã. O pensamento de Schelling é. moral.é atingido pelo sentimento: não pelo simples sentimento entendido em sentido psicológico. daí ser a religião reduzida aos limites da razão prática. E isto é possível. não se pode realizar mediante uma dedução lógica. a que Schleiermacher julga poder dar um específico valor religioso. Mas o Absoluto não é atingível sequer por via teorética. assim. Com relação ao primeiro é possível conhecimento racional. decair no mundo empírico da multiplicidade. o retorno das coisas a Deus. o temporal. isto é.214 A passagem de Deus. e é. A concepção filosófica de Scheleiermacher é. Através. de liberdade. o imutável. tal queda. do contingente. Scheleiermacher procura valorizar. natural e humano. E. a atividade que atinge o Absoluto é a vontade moral. do devir. mas irracional o mundo da existência. O Idealismo Religioso: Schleiermacher A Schelling pode-se ligar Schleiermacher. dependente e limitado. embora muito inferior a Schelling como metafísico. conquistando a sua racionalidade. As suas obras principais. o Absoluto não é atingível por via prática. que é uma atividade coordenada ao conhecimento e à vontade. fundamentalmente. dada a sua concepção panlogista-imanentista da realidade (toda a realidade é racional e toda a racionalidade é real): daí a lógica coincidir com a ontologia. pelo que se vê. superaria o seu fundo originário arracional e irracional. a razão prática. Compreende-se. resolvida na moral. revelando-se plenamente a si mesmo. como julgava Kant. Daí o primado da razão prática.

deveria desenvolver-se mais ou . passa da fase em si à fase fora de si. se determine essa dualidade. E por que esta atividade deve ser considerada religiosa e não. por sua vez. É. valorizado metafisicamente. e no sentimento. uma expressão da distinção geral idealista entre eu empírico e eu transcendental. mas em compensação adquire uma concretidade que antes não tinha. Hegel A Idéia. Ao sentimento ele reconhece o valor particular de imediata autoconsciência e transforma-o metafisicamente. Chegada ao fim de seu desenvolvimento abstrato. A prescindir das críticas externas e internas que se podem fazer a essa construção metafísicoimanentista. como sentimento indeterminado da Unidade indeterminada. Segundo a experiência religiosa. a doutrina e a moral. portanto. todavia. (sujeito e objeto). assim como o sentimento ocupa o vértice da vida espiritual. isto é. E como se realiza uma relação. indiferença absoluta. anterior a estes. o espírito. não arbitrariamente. Mediante a doutrina desses dois sentimentos. que é a consciência do Absoluto. e nem sequer pela vontade. pela ética. assim na atividade religiosa a teoria e a prática. estética? Scheleiermacher parece proceder deste modo. ao mais alto e mais puro Eu. poder-se distinguir em Scheleiermacher uma religiosidade em sentido amplo. uma excluindo a outra. entre os quais Scheleiermacher institui uma equação? O Absoluto não é atingido pelo conhecimento.a ciência e a moral . que. que é uno. uma multiplicidade. pela consciência imediata do eu . que representam os esquemas do mundo natural e do espiritual. por exemplo. antítese. Em a natureza a idéia perde como que a sua pureza lógica. que é uno. esta fase representa a grande antítese à grande tese. como de criatura a Criador. do sentimento. e uma religiosidade em sentido específico. A Natureza. a saber. seria explicada a relação religiosa. porquanto. mas apenas logicamente. a religião como sendo a relação do finito com o infinito. e. para Scheleiermacher. É o escolho fatal do monismo. segundo Scheleiermacher. A idéia. A filosofia religiosa de Scheleiermacher teve uma grande influência sobre o protestantismo liberal alemão do século XIX. síntese). que é precisamente a idéia. estético-romântica. O Espírito Os três grandes momentos hegelianos no devir dialético da realidade são a idéia. a natureza é a exteriorização da idéia no espaço e no tempo. evidentemente. cujo complexo é obejto da Lógica. ao Uno. a idéia torna-se natureza. ele define. o qual deveria ser apreendido pelo sentimento em sentido metafísico. mas como dualidade na unidade. mas não se compreende como no Absoluto. a idéia é o sistema dos conceitos puros. de fato.ao Absoluto. E conclui finalizando na equação sentimento-religião. Nisto consistiria a religiosidade verdadeira e própria. portanto. a religião ocupa o mais alto grau da atividade humana. A idéia constitui o princípio inteligível da realidade. ao Eu. Parece. se desenvolve interiormente em um processo dialético. que é abstrata unidade. E como na vida espiritual o conhecimento e a vontade seriam secundários e derivados com respeito ao sentimento. que seria a referência das várias e mutáveis determinações da autoconsciência ao Absoluto.não podem atingir o Absoluto. no sentimento. que deveria ser a plena consciência do Absoluto? Propriamente pela referência do sujeito empírico . portanto.apreendido imediatamente pelo sentimento psicológico. (empírico e metafísico). é certo que. segundo o sólito esquema triádico (tese. A primeira grande fase no absoluto devir do espírito é representada pela idéia. e sim pelo sentimento. Essa relação não é. Que relação existe entre sentimento e religião. a natureza. E julga que o privilégio de apreender a unidade metafísica do ser é devido ao sentimento. segundo Scheleiermacher. porquanto o conhecimento e a vontade implicam a multiplicidade decorrente da relativa mudança dos estados de consciência e a dualidade de duas atividades. a relação do finito com o infinito não pode ser senão dependência absoluta. seriam expressões inadequadas e simbólicas da religiosidade. acaba admitindo o primado da religião. também na ordem da natureza. contra o qual Scheleiermacher em vão se bateu.215 Scheleiermacher sustenta que o conhecimento e a vontade . o espírito é o retorno da idéia para si mesma. que constitui a nossa essência. pela ciência.

mas em forma sentimental. O espírito desenvolve-se através dos momentos dialéticos de subjetivo (indivíduo). que não passa de uma história das mesmas. em que. através de uma última hierarquia ternária de graus (arte. um valor ético superior ao valor particular e privado das sociedades precedentes. das formas ínfimas do mundo físico até às formas mais perfeitas da vida orgânica. A história do mundo . Não estando. segundo a metafísica monista-imanentista de Hegel. grças à qual.216 menos. imanente no primeiro. no estado). filosofia). em uma plena adequação consigo mesmo. a idéia. não porque seja um instrumento mais perfeito para a realização dos fins materiais e espirituais da pessoa humana (a qual unicamente tem realidade metafísica). a consciência que o espírito (humano) adquire da sua natureza divina. O espírito subjetivo compreende três graus dialéticos: consciência. Com o espírito subjetivo. deus terreno. O espírito subjetivo é estudado. ao contrário.verdadeiro-falso. plena do absoluto). e aquele tem culpa unicamente porque é vencido.com todo o mal. de realizar a plena consciência e liberdade do espírito. Esta hierarquia dinâmica é estudada. . tem razão sobre o vencido unicamente porque é vencedor. em arte (expressão do absoluto na intuição estética). a qual é estudada em seus desenvolvimentos pela Filosofia do Espírito. devido precisamente à sua maior universalidade e amplitude. a sociedade. Se bem que no sistema hegeliano a vida do espírito culmine efetivamente no estado. os crimes de que está cheia . religião. volta para si. Este. o espírito realizaria finalmente a consciência plena da sua infinidade. enquanto no ministério da encarnação do Verbo. toma consciência se si no espírito. com esta última é atingida a consciência da unidade do eu e do não-eu. fenomenologia do espírito. e necessária. tendo a natureza esgotado a sua fecundidade. lógica. isto é. porquanto igualmente necessários para a realização da idéia). ao predomínio de um estado se segue o predomínio de um outro. A sociedade do estado transcende a sociedade familiar bem como a sociedade civil. pois. surge e se afirma a fase do espírito objetivo. o espírito individual em condição de alcançar. a eticidade ou moralidade social (que atribui uma finalidade concreta à ação moral. Na arte o espírito tem intuição. os fins do espírito. Hegel distingue ainda três graus dialéticos: o direito (que reconhece a personalidade em cada homem. o belo é a idéia concretizada sensivelmente. graças à dialética dos opostos. psicologia propriamente dita. é uma superior objetivação do espírito. quer dizer. O estado transcende estas sociedades. racionais e progressivos. absoluto (Deus). no momento estético. No espírito objetivo. segundo o seu sólito método dialético. etc. racional e progressiva é a luta. em sentido vasto. isto é. (O que se compreende. por sua vez. e se determina hierarquicamente na família. quando se faz coincidir o "ser" com o "deve ser". mas porque. nasce a consciência do mundo. em que os valores . tem ele mesmo uma realidade metafísica. este último se desenvolve. se efetua a unidade do finito e do infinito. no seu isolamento. Segundo a dialética hegeliana. como acontece de fato no sistema hegeliano. mítica.são nivelados. o infinito é visto como finito. Nessa classificação das religiões o cristianismo é colocado no vértice como religião absoluta. razão encarnada. mas pode regular apenas a conduta externa dos homens). daí derivando uma concepção ético-humanista do estado. da humanação de Deus. assim concretizada. imaginativa. no fundo. que é um conjunto de interesses econômicos e se diferencia em classes e corporações. Na religião. a guerra. a um povo eleito sucede um outro. em um objeto sensível. a individualidade empírica. Portanto. que é precisamente a idéia por si: a grande síntese dos opostos (idéia e natureza). filosofia (expressão conceptual. . pela Filosofia da natureza. a moralidade (que subordina interiormente o espírito humano à lei do dever). no seu complexo. autoconsciência e razão. que se divide em antropologia.seria destarte o tribunal do mundo. na sociedade civil. pelo contrário. objetivo (sociedade). ele vê. Finalmente. nas concretizações da sociedade. da sua natureza divina. naturalmente a sucessão e o predomínio dos vários estados na história da humanidade são necessários. pela psicologia. Hegel traça uma classificação das religiões. religião (expressão do absoluto na representação mítica). segundo Hegel. põe dialeticamente acima do espírito objetivo o espírito absoluto. da sua essência absoluta. segundo o processo dialético. denominada por Hegel espírito vivente. bem-mal. as injustiças.

produtora de bens materiais. autoconsciente. mas também o seu maior valor como descrição e análise objetiva da experiência . A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. que alterava a experiência.com respeito ao idealismo. particularmente das biológicas e fisiológicas. os fatos positivos. de todos os fatos humanos e naturais. justificação transcendente ou imanente. Dada essa objetividade da ciência e da história do pensamento positivista. E delas dependem. portanto. para as ideologias econômico-sociais. com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. utilitários. o segundo.enquanto não lesar a liberdade alheia sustenta também a livre concorrência econômica através da lida mecânica. O liberalismo. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia. também pelo país clássico de sua floração (a Inglaterra) e porquanto reduz. o centro da vida humana está na atividade econômica. que domina o mundo concebido positivisticamente. Como as várias religiões representam um processo dialético para a religião absoluta. da quantidade. florescidos igualmente no âmbito natural do positivismo. como resulta das ciências naturais. do conflito material das forças econômicas. pura. o absoluto do fenômeno. defendendo. naturalista. que sustenta a liberdade completa do indivíduo . "O fato é divino". conceptual. porém. Na filosofia o espírito se torna inteiramente autotransparente. econômicos (materialismo histórico). como fonte única de conhecimento e critério de verdade. O Positivismo . a metafísica à ciência. mais ou menos. Dessas premissas teoréticas decorrem necessariamente as concepções morais hedonistas e utilitárias. Além de ser uma reação contra o idealismo. aplicado. quer limitar-se à experiência imediata. Para o socialismo. que florescem no seio do positivismo. a ciência e a história. Tal conceito representa um equivalente naturalista do historicismo romântico da primeira metade do século XIX. da enumeração material dos votos (sufrágio universal). Entretanto. Gnosiologicamente. como resolvedora do problema do mundo e da vida. infinidade. ao contrário. o formalismo. que dominaram o mesmo século XIX. técnico. isto é.a vontade popular se manifesta através do número. considerada como lei fundamental dos fenômenos empíricos. A lei única e suprema. O positivismo do século XIX pode semelhar ao empirismo. mais ou menos. sensível. mais ou menos. o positivismo admite. espalhado em todo o mundo civilizado. da experiência. Nenhuma metafísica. Sendo grandemente valorizada a atividade econômica. conquista a sua absoluta liberdade. ao sensismo (e ao naturalismo) dos séculos XVII e XVIII. o positivismo teve impulso. que se encontram na história da filosofia. é natural se procure uma base filosófica positiva. os diversos sistemas filosóficos. assim. em que a soberania é atribuída ao povo. graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais. morais e religiosos. Na democracia moderna que é a concepção política. A diferença fundamental entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação. exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. Enfim. a segunda metade do mesmo século. que ocupa. como já fizera o empirismo. substancialmente.Acima da religião e do cristianismo está a filosofia. Diferencia-se. com as relativas conseqüências práticas. lógica. o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do idealismo e do pensamento moderno em geral. o espírito à natureza. mas em forma racional.Comte Características Gerais do Positivismo Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo. 217 . representariam os momentos necessários para o advento da filosofia absoluta. uma unificação da experiência mediante a razão. com esta diferença. do século XIX. materialista. produtora de bens materiais. os dados sensíveis. enfim. desses sistemas por um elemento característico: o conceito de vir-a-ser. e a história da humanidade é acionada por interesses materiais. compreende-se porque elas são fecundas no campo prático. dizia Ardigò. é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista. o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais. o idealismo. Daí a sua pobreza filosófica. como interpretação. à massa . o conhecimento humano ao conhecimento sensível. também os sistemas políticoeconômico-sociais.através da história e da ciência . e não por interesses espirituais. a experiência. que seria o idealismo absoluto de Hegel. que tem o mesmo conteúdo da religião. de evolução. O positivismo representa uma reação contra o apriorismo.

de Saint-Simon: O Organizador.(que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol). de reconstrução filosófica. depois. ou não implica uma metafísica naturalista inconsciente e. "Viver para o próximo". Na primavera de 1845.218 entretanto. uma eliminação do organismo mais imperfeito. que será uma revisão e uma crítica do positivismo. nem mesmo a cátedra de história geral das ciências positivas no Collège de France. ao passo que o positivismo o concebe como evolução. Em 1844 publica o prefácio do curso sob o título: Discurso dobre o espírito positivo. Institui o "Calendário positivista" (cujos santos são os grandes pensadores da história). um curso público e gratuito de astronomia elementar destinado aos "operários de Paris". em relação com exigências mais ou menos metafísicas ou espiritualistas. Através de um conflito mecânico de seres e de forças. examinador de vestibular. Já de posse. porém. É em outubro de 1844 que se situa o segundo encontro capital que vai marcar uma reviravolta na filosofia de Augusto Comte. Comte é nomeado em 1832 explicador de análise e de mecânica nessa mesma escola e. A obra de Comte guarda estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. a única realidade existente. pode-se distinguir duas fases principais: uma negativa. Comte abre em sua casa. rua do Faubourg Montmartre. Portanto. nosso filósofo de 47 anos declara a esta mulher de 30 seu amor fervoroso.Vida e Obras Estudante da Politécnica aos 16 anos. Desde 1831 Comte abrirá. esposa abandonada de um cobrador de impostos (que fugira para a Bélgica após algumas irregularidades financeiras). nada de espírito e valores espirituais. Nessa crítica e vitória sobre o positivsmo. Trata-se da irmã de um de seus alunos. outra positiva. Entre 1851 e 1854 aparecem os enormes volumes do Sistema de política positiva ou Tratado de sociologia que intitui a religião da humanidade. o cognoscível. mas atual e eterna". curso este que ele levaria avante por sete anos consecutivos. e concebe. determina-se uma seleção natural. de um progresso concebido naturalisticamente. nada de metafísica e filosofia. Retoma o ensino em 1829. em 1837. o Sistema Industrial. o progresso por fim". por causas. funda numerosas igrejas positivistas (ainda existem algumas como exemplo no . "Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura. o que se pode atingir cientificamente. A publicação do Curso inicia-se em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. numa sala da prefeitura do 3. Clotilde oferece-lhe sua amizade. Daí uma revisão e uma crítica da ciência por parte dos mesmos cientistas. discutível pelo menos tanto quanto a metafísica espiritualista? Nos fins do século passado e nos princípios deste século se determina uma crise interior da ciência mecaniscista. mediante a luta pela existência. O último volume sobre o Futuro humano prevê uma reformulação total da obra sob o título de Síntese Subjetiva. desde 1826. a criação de uma ciência social e de uma política científica. não obterá o desejado cargo de professor da Politécnica.° distrito. sobrevivendo o mais perfeito. Ver-se-á retirado desta última função em 1844 e de seu posto de explicador em 1851. no âmbito do positivismo. ideal e ídolo do positivismo. forja divisas "Ordem e Progresso". como no âmbito do idealismo se determinou uma crítica ao idealismo. Mas. das grandes linhas de seu sistema. para o bem-estar material. a partir daí. igualmente. Em 1817. um Curso de filosofia positiva . Comte sente então sua razão vacilar. Clotilde de Vaux. Augusto Comte . No entanto. é a realidade física. Dois encontros capitais presidem as duas grandes etapas desta obra. que é a experiência? E a ciência positivista é pura ciência. Trata-se.como nele já acreditava o idealismo. involuntariamente.rapidamente interrompido por uma depressão nervosa . que o idealismo concebia o vir-a-ser como desenvolvimento racional. teológico. de crítica à ciência e ao positivismo. atinge a ciência fielmente a sua realidade. mas entrega-se corajosamente ao trabalho. para dar lugar a outras interpretações do mundo natural no âmbito das próprias ciências positivas. Apesar de seus reiterados pedidos. quer nos meios quer no fim. a ordem por base. Daí acreditar o positismo firmemente no progresso . Desde 1847 Comte proclamou-se grande sacerdote da Religião da Humanidade. ele conhece H. É o "ano sem par" que termina com a morte de Clotilde a 6 de abril de 1846. que quisera criar em benefício próprio. "O amor por princípio.

"separar Comte dele mesmo". inspirado pelo amor platônico do filósofo por Clotilde. diz ele sem falsa modéstia. Acrescentemos que para Augusto Comte a lei dos três estados não é somente verdadeira para a história da nossa espécie. por longo tempo atribuído à natureza. c) O estado positivo é aquele em que o espírito renuncia a procurar os fins últimos e a responder aos últimos "por quês". a filosofia comtista da história é "uma filosofia da história do espírito através das ciências".autor do célebre Dicionário. que em 1851 abandona a sociedade positivista. quando um fenômeno é dado. Na primeira. sempre pensou que a filosofia positivista deveria terminar finalmente em aplicações políticas e nas fundação de uma nova religião. será explicada pela "virtude dinâmica"do ar (²). prever o fenômeno que se seguirá e. em nome de suas próprias concepções.que a inteligência alternadamente produziu no curso da história. por exemplo. ela o é também para o desenvolvimento de cada indivíduo. ele foi Aristóteles e na segunda será São Paulo. já antes do Curso de filosofia positiva (e principalmente em seu "opúsculo fundamental" de 1822). A explicação dita teológica ou metafísica é uma explicação ingenuamente psicológica. em seu esforço para explicar o universo. em descobrir as leis (exprimíveis em linguagem matemática) segundo as quais os fenômenos se encadeiam uns nos outros. Eolo).(¹) (¹) Comte. O espírito não poderia conhecer-se interiormente (Comte rejeita a introspecção. A criança dá explicações . Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e ao monoteísmo. reconhece que houve duas carreiras em sua vida. Este estado é no fundo tão antropomórfico quanto o primeiro ( a natureza tem "horror" do vazio exatamente como a senhora Baronesa tem horror de chá). será explicada por um capricho do deus dos ventos. O homem projeta espontaneamente sua própria psicologia sobre a natureza. Mas o historiador. mas sem conteúdo real. Assim como diz muito bem Gouhier. b) O estado metafísico substitui os deuses por princípios abstratos como "o horror ao vazio". A tempestade. Tal concepção do saber desemboca diretamente na técnica: o conhecimento das leis positivas da natureza nos permite.reivindicação crítica contra os deveres teológicos anteriores. tal como a concebe Comte. eventualmente agindo sobre o primeiro. é de certa forma tão idealista quanto a de Hegel.obras de civilização e história dos conhecimentos e das ciências . O espírito humano. Compreende-se que alguns tenham contestado a unidade de sua doutrina. é certo que Comte. passa sucessivamente por três estados: a) O estado teológico ou "fictício" explica os fatos por meio de vontades análogas à nossa (a tempestade. com efeito. os revolucionários de 1789 são "metafísicos" quando evocam os "direitos" do homem . Para Comte "as idéias conduzem e transformam o mundo" e é a evolução da inteligência humana que comanda o desenrolar da história. Littré podia sem dúvida.219 Brasil). A vida espiritual autêntica não é uma vida interior. Como Hegel ainda. Desse modo. Ele morre em 1857 após ter anunciado que "antes do ano de 1860" pregaria "o positivismo em Notre-Dame como a única religião real e completas". que não deve considerar a obra com um julgamento pessoal. porque o sujeito do conhecimento confunde-se com o objeto estudado e porque pode descobrir-se apenas através das obras da cultura e particularmente através da história das ciências. previsão donde ação"). Comte partiu de uma crítica científica da teologia para terminar como profeta. é a atividade científica que se desenvolve através do tempo. Comte pensa que nós não podemos conhecer o espírito humano senão através de obras sucessivas . afirmando vigorosamente a unidade de seu sistema. pode considerar-se autorizado a afirmar a unidade essencial e profunda da doutrina de Comte. ("Ciência donde previsão. Littré . A Lei dos Três Estados A filosofia da história. Contentar-nos-emos em descrever como os fatos se passam. notadamente seu discípulo Littré. A explicação metafísica tem para Comte uma importância sobretudo histórica como crítica e negação da explicação teológica precedente. divulgador do positivismo nos artigos do Nacional . Todavia. por exemplo.aceita o que ele chama a primeira filosofia de Augusto Comte e vê na segunda uma espécie de delírio político-religioso. mesmo se o encontro com Clotilde deu à obra do filósofo um novo tom. transformar o segundo. A noção de causa (transposição abusiva de nossa expeirência interior do querer para a natureza) é por ele substituída pela noção de lei.

do mais abstrato ao mais concreto e de uma proximidade crescente em relação ao homem. que a psicologia não figura nesta classificação. a ela tudo se reduz". O próprio Comte acredita coroar o edifício científico criando a sociologia. a mais concreta e complexa. Para Comte o objeto da psicologia pode ser repartido sem prejuízo entre a biologia e a sociologia. Como cada ciência depende da precedente sem a ela se reduzir. com Galileu e Newton. a sexta ciência fundamental. A Humanidade A última das ciências que Comte chamara primeiramente física social. biologia. A astronomia descobre bem cedo suas primeiras leis positivas. É refletindo sobre a sociologia positiva que compreenderemos que as duas doutrinas de Comte são apenas uma. Um dos melhores comentadores de Comte. Dela tudo parte. se as ciências mais complexas dependem das mais simples. De saída. o sociólogo deve conhecer o essencial de todas as disciplinas que precedem a sua. ao criar a sociologia. Nota-se. numa disciplina positiva (elas são.220 teológicas. (²) São igualmente metafísicas as tentativas de explicação dos fatos biológicos que partem do "princípio vital". como também às leis mais gerais. Um ser vivo está submetido. a física espera o século XVII para. É preciso ser matemático para saber física. Sua especialização própria se confunde. tem razão de sublinhar: "A criação da ciência social é o momento decisivo na filosofia de Comte.com a totalidade do saber. não poderíamos deduzi-las de. em parte. Um biólogo deve conhecer matemática. Esta ordem corresponde à ordem histórica da aparição das ciências positivas. o adolescente é metafísico. e sobretudo. física. como a matéria inerte. uma metafísica e uma mística do número). ao passo que o adulto chega a uma concepção "positivista" das coisas. para Comte. As ciências mais complexas e mais concretas dependem das mais abstratas. cujo objeto é a "humanidade". tornar-se positiva. aliás. antes um instrumento de todas as ciências do que uma ciência particular). Das matemáticas à sociologia a ordem é a do mais simples ao mais complexo. O nascimento da sociologia tem uma importância que não podia ter o da biologia ou o da física: ele representa o fato de que não mais existe no universo qualquer refúgio para os deuses e suas imagens metafísicas. para Comte."Quando a última ciência chega ao último estado. é a criação da sociologia que. mas numa certa ordem de sucessão que corresponde à célebre classificação: matemáticas. Comte afirma energicamente que cada etapa da classificação introduz um campo novo. mas a biologia não é uma química orgânica. a própria filosofia. irredutível aos precedentes. Os fenômenos psicoquímicos condicionam os fenômenos biológicos. desde a antiguidade. a história do conhecimento e a política positiva. física e química. às leis da gravidade. pois . os objetos das ciências dependem uns dos outros. físicas e químicas de todos os corpos (vivos ou inertes). Nela irão se reunir o positivismo religioso. química.em sua admirável introdução ao Textos Escolhidos de Comte. enfim. constituem-se.diferentemente do que se passa para os outros sábios . não se tornaram "positivas" na mesma data. As matemáticas (que com os pitagóricos eram ainda. entretanto. fundamentalmente. nos faz compreender o que é. isso não significa apenas o aparecimento de uma nova ciência. permitindo aquilo que Kant denominava uma "totalização da experiência". Entretanto. astronomia. nem reduzi-las a estas últimas. Além disso. os métodos de uma ciência supõem que já sejam conhecidos os das ciências que a precederam na classificação. publicados por Aubier . encerra as conquistas do espírito positivo: como diz excelentemente Gouhier . LevyBruhl. A oportunidade da química vem no século XVIII (Lavoisier). Significa dizer que o sociólogo é idêntico ao . Enfim. assim como as explicações das condutas humanas que partem da noção de "alma". Os seres vivos estão submetidos não só às leis particulares da vida. no decurso da história. Ele se opõe ao materialismo que é "a explicação do superior pelo inferior". A Classificação das Ciências As ciências. sociologia. A biologia se torna uma disciplina positiva no século XIX. e para a qual depois inventou o nome de sociologia reveste-se de importância capital. Comte.

exercem suas faculdades de invenção apenas dentro do quadro do que elas receberam. por sua vez. transpõe . Comte distingue a sociologia estática da sociologia dinâmica. assim. A espécie das abelhas é apenas a sucessão de gerações que repetem suas condutas instintivas: não há. cuja aparição dependeu de todas as outras ciências tornadas positivas. o próprio Augusto Comte). a mutação que faz do filósofo um profeta. exatamente como a propriedade cria um capital material). Três instituições sempre são necessárias para fazer com que o altruísmo predomine sobre o egoísmo (condição de vida social). mas não rejeita a filosofia concebida como interpretação totalizante da história e. A ciência que prepara a união de todos os espíritos concluirá a obra de unidade (que a Igreja católica havia parcialmente realizado na Idade Média) e tornará o altruísmo universal. Vê-se que é sobre a sociologia que vem articular a mudança de perspectiva. isto é. As abelhas não têm história. fazer provisões. a ciência última que supõe todas as outras. sociedades animais. a ciência da humanidade. (Para Comte. "regenerando. do estado militar ao industrial na ordem prática . que terão.meio onde vive a humanidade podem. a ciência. "é um animal que tem uma história". pois. o papa positivista. seu poder temporal (os industriais e os banqueiros) e seu pdoer espiritual (³) (os sábios. em nome da "humanidade". "planetário". considerada em si mesma. tenha desencorajado os racionalistas que de saída viram no positivismo uma apologia do espírito científico! A religião positiva substitui o Deus das religiões reveladas pela própria humanidade. nos últimos milênios. A herança do passado só torna possíveis os progressos do futuro e "a humanidade compõe-se mais de mortos que de vivos". Como diz Comte. exatametne como a sociedade cristã da Idade Média. proibindo. Gutemberg ainda imprime todos os livros do mundo. em qualquer tempo e lugar. ao lado do lavrador. por isto. A sociologia dinâmica estuda as condições da evolução da sociedade: do estado teológico ao estado positivo na ordem intelectual. a sociologia regerá todas as ciências. que envolve com um olhar enciclopédico toda a evolução da inteligência. A sociedade positiva terá. Somente o homem tem uma história porque é ao mesmo tempo um inventor e um herdeiro. em todas as disciplinas do conhecimento. desde o estado teológico ao estado positivo. por exemplo. instrumentos que transmitem este patrimônio pela palavra. de seus sábios aos quais devemos prestar culto após a morte (esta sobrevivência na veneração de nossa memória chama-se "imortalidade subjetiva"). ou ao menos a essência social dos animais reduz-se à natureza biológica. A primeira estuda as condições gerais de toda a vida social.a história . num sentido estrito. A terra chamar-se-á o "Grande-Fetiche". a família (educadora insubstituível para o sentimento de solidariedade e respeito às tradições). A religião da humanidade. Aquelas de que fala Virgílio nas Geórgicas comportavam-se exatamente como as de hoje em dia. As duas idéias de tradição e de progresso. para ter uma influência sobre a terra e sobre a humanidade e interditar-se aos estudos politicamente estéreis dos corpos celestes mais afastados!!) Compreende-se que esta "síntese subjetiva". que estão muito próximos de n'so. e o inventor do arado trabalha. ser objeto de culto. principalemtne os sociólogos. o Grão-Sacerdote da Humanidade.as idéias e até a linguagem da crenças . a constituição de um capital intelectual.do estado de egoísmo ao de altruísmo na ordem afetiva. Este Ser do qual fazemos parte nos ultrapassa entretanto . sob a forma de escrita. pois. poder-se-ia dizer em termos hegelianos. por isso mesmo. isto é. O homem. Comte repudia a metafísica. identificação com a sociologia. A propriedade (que permite ao homem produzir mais do que para as suas necessidades egoístas imediatas. acumular um capital que será útil a todos). se completam.pelo gênio de seus grandes homens. integrando-se inteiramente no sistema de Comte. do "universal concreto". Assim é que. a linguagem (que permite a comunicação entre os indivíduos e. diz-nos Comte. transforma-se-á na política que guiará as outras ciências. as pesquisas inúteis. A sociologia.o que faz a originalidade da civilização (da "cultura" diriam os sociólogos do século XIX). considerada como Grande-Ser. longe de se excluírem. "especialista em generalidades". Ele cria línguas.ainda mais que não as repudia . invisível. pela escrita às gerações seguintes que. todos os elementos que concorreram para sua própria formação". O objeto próprio da sociologia é a humanidade e é necessário compreender que a humanidade não se reduz a uma espécie biológica: há na humanidade uma dimensão suplementar . e. por sua vez. A terra e o ar .221 próprio filósofo. à sua testa. o astrônomo deve estudar somente o Sol e a Lua.

Rio de Janeiro. São Paulo. Herdeiro da Revolução.II. Compreende-se que ele tenha encontrado discípulos tanto nos pensadores "de direita" como nos "de esquerda". vol. 1991. Abril Cultural. Apologia de Sócrates / Platão. . Os Pré-socráticos. Comte é também o filósofo da ordem. Umberto e CASTAGNOLA. ao mesmo tempo.ª edição. Diálogos / Platão. História da Filosofia Ilustrada pelos Textos. André e HUISMAN.ª edição. 1980. 1.ª edição. 1974.A Vida e as Idéias dos Grandes Filósofos. Aqueles que não compreenderem terão que se submeter cegamente (esta submissão será o equivalente da fé na religião positivista). História da Filosofia . vol. J. 1. Denis. São Paulo. São Paulo. Assim como "não há liberdade de consciência em astronomia". agosto 1973. Edições Melhoramentos. Abril Cultural. DURANT. Will. História da Filosofia. março 1999. VERGEZ. VI . Filósofo do progresso. assim uma política verdadeiramente científica pode impor suas conclusões. Noções de História da Filosofia. São Paulo. (³) Comte rejeita como metafísica a doutrina dos direitos do homem e da liberdade. ele é. São Paulo. PADOVANI. 1. Luís. __ Coleção Os Pensadores. Defesa de Sócrates / Platão. conservador e admirador da bela unidade dos espíritos da Idade Média. FRANCA S. Editora Freitas Bastos. __ Coleção Os Pensadores. São Paulo. 10.222 anteriores. Nova Cultural.. agosto 1972.ª edição. 4.Referências Bibliográficas __ Coleção Os Pensadores. Nova Cultural. Editora Nacional. 5. __ Coleção Os Pensadores. Padre Leonel.I. 1926.ª edição.ª edição.