O MUNDO DOS FILÓSOFOS

CONTEXTO I – Pensamento Clássico Os pré-socráticos Heráclito de Éfeso Pitágoras de Samos Zenão de Eléia Demócrito de Abdera Os sofistas Sócrates Platão Aristóteles Epicurismo, Ceticismo e Ecletismo O Estoicismo II – Pensamento Cristão Neoplatonismo – Plutarco de Queronéia O pensamento cristão O cristianismo A praxe ascética do cristianismo Santo Agostinho e a patrística pré-agostiniana Santo Agostinho A escolástica pré-tomista Santo Tomás de Aquino III – Pensamento Latino As ciências naturais na idade helenista e o pensamento latino O direito romano e a educação romana IV – Pensamento Moderno O pensamento moderno Os pensadores renascentistas – Giordano Bruno, Nicolau de Cusa O cartesianismo – Baruch Spinoza De Aristóteles à renascença René Descartes O empirismo – Francis Bacon, John Locke, George Berkeley O iluminismo francês – Jean-Jacques Rosseau Leibniz A renascença – o renovamento das antigas escolas filosóficas Nicolau Machiavelli, Galileu Galilei O cartesianismo – Malebranche, Leibniz, Wolff René Descartes O empirismo – David Hume, Thomás Hobbes O iluminismo francês – Condillac, Montesquieu, Voltaire Blaise Pascal

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V – Pensamento Contemporâneo Emmanuel Kant Hegel – o idealismo lógico Nietzsche Kierkegaard Kant – moral, metafísica e crítica do juízo O idealismo pós-kantiano – Fichte, Schelling e Schleiermacher Hegel – a idéia, a natureza, o espírito O positivismo – Auguste Comte VI - Bibliografia

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I - CLÁSSICOS Os Pré-socráticos Dualismo Grego A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísicoteológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta. O Gênio Grego A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Os Períodos Principais do Pensamento Grego
Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: pré-socrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Divisão da História da Filosofia Grega

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Primeiro Período O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística. Escola Jônica A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas. Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água" Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro.

assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém. a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Tudo provém do ar. o ápeiron (ilimitado). a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). que é ar. mesmo apresentando qualidades diferentes entre si.. (Plutarco). O ápeiron é assim algo abstrato.5 Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico.água e fogo. os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron). etc. Anaximandro de Mileto (611-547 A. geógrafo. quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. dotado de vida e imortalidade. Com essa concepção. Anaximandro prossegue na mesma via de Tales. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo.Aristóteles. o fogo é o ar rarefeito. e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente. (Aécio). discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza. astrônomo e político. Refutação. Eterno.C. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio. reduzem-se a variações quantitativas (mais raro. Para ele.que constituem o mundo. Elemento Estático .) "Ápeiron" Anaximandro de Mileto. o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. o ápeiron está em constante movimento. Anaxímenes de Mileto (588-524 A.e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) . Hipólito. mais denso) desse único elemento. matemático. a água. Diz-se também. Dedicou-se especialmente à meteorologia. infinito e em movimento perpétuo. a terra.. Esta (a natureza do ilimitado. Física". Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas. põe como princípio universal uma substância indefinida. . . Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. soberanamente nos mantém unidos. Ampliando a visão de Tales. " Com nossa alma.C. Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado. As diversas coisas que existem. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar.a geração e nutrição de todas as coisas pela água. Elemento Dinâmico . Fragmentos "Imortal. ele diz que) é sem idade e sem velhice.a flutuação sobre a água. a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar. porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. isto é. havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. um elemento não tão abstrato como o ápeiron. por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres.) "Ar" Segundo Anaxímenes. que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. frio e calor. nem palpável demais como a água. Tales acreditava em uma "alma do mundo". que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. e disto resulta uma série de pares opostos . através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida.

modificado. Heráclito diz: Tudo é devir.6 Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito Heráclito nasceu em Éfeso. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei). Filosofia de Heráclito Heráclito concebe o próprio absoluto como processo. à primeira vista. harmonia feita de tensões. Os eleatas dizem: só o ser é. Dialética imanente do objeto. O ser é o um. desta maneira. que nada é firme. o primeiro. isto é. Floresceu em 504-500 a. B.a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. o segundo é o devir até esta determinação avançou ele. Ele é a plenitude da consciência até ele . isto é. Dialética exterior. Dizemos. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos. a verdade do ser é o devir. Seu caráter altivo. um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma. e é aquele que Heráclito fez. Sem ter sido mestre. o Obscuro. em Heráclito. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos). pois que imediatamente se transforma. o que é. isto é. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser". nela temos o ser e também o não-ser. que nada se demora. apenas destruição universal. não parece. muito contraditório. pela primeira vez. Objetividade de Heráclito. como a própria dialética. Manifestou desprezo pelos antigos poetas. contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. nem permanece o mesmo". Desprezava a plebe. o devir é e também não é". É o progresso necessário. ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. produzir muito sentido. ausência de pensamento.que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente". porém. mas também o desaparecer. As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade. não o ser . o rio corre e toca-se outra água. transformado. de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). o verdadeiro é o devir. o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato. por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. a essência é mudança. É isto compara as coisas com a corrente de um rio . Isto é o primeiro concreto. Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza. este devir é o princípio. aquilo que é. mas são idênticos. que todo o resto fora deste um flui. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser". então. no dialeto jônico. portanto.C. Além . ou ser e nada são o mesmo. apenas o ser é. A dialética é: A. em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. nem é menos. um homem de profundos pensamentos. ao mesmo tempo já novamente não é. temos apenas o entendimento abstrato. E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele disso. "como a do arco e da lira". O Princípio Lógico O princípio universal. Nele encontra-se. o infinito. ambos não são para si. regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal. C. mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir. porém. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar. Recusou-se sempre a intervir na política. na contemplação do sujeito. em prosa. situando-se. Dela faz parte não apenas o surgir.Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático. compreender a própria dialética como princípio. por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. cidade da Jônia. Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece. a idéia filosófica em sua forma especulativa.uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia. ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós. misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser. disto todo o resto é formado. . é o verdadeiro. nos eleatas. nada persiste. Temos.

pensamos a mudança. relação de ambos a um. mas de tal maneira que também possam ser unidos . é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) . o objetivo somente é o devir subjetivo. que num está contido seu outro e assim o todo. sobre o princípio de Heráclito: "O um." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente. ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce. Assim também no caso dos sons. o absolutamente negativo .o absurdo disto logo se mostra . do pleno. de objetivo e subjetivo. Este um não é o abstrato. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim. e nisto reside sua identidade. Aristóteles diz. princípio. que justamente quer isto. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser. em seu conceito. "o que concorda e o dissonante". porém.. cada um apenas é. une-se consigo mesmo" . É uma grande convicção que se adquiriu. da pura oposição. agora este. a unidade essencial. que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. Estas estão inquietas nesta relação. agora mesmo. a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Mas isto não contradiz Heráclito. também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. ao qual Zenão não chegou! "Do nada.. como. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo. a primeira unidade de determinações opostas. das representações correntes dos homens. pode parecer obscuro.não devir outro. é a unidade dos opostos e. etc. Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo. em seu Banquete.. passagem absoluta para o oposto. O simples. gerado seu Filho. Sexto observa: Heráclito parte. como nas harmonia das cores. Da harmonia faz parte a diferença. devem ser diferentes. em que todo o determinado é negado. pois que a harmonia se formaria de altos e baixos. e de um tudo. na verdade. mas. pelo contrário. Platão diz. mas é também o mesmo que o todo é. vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito. que é em si e para si.a falta de movimento. A subjetividade é o outro da objetividade. quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade.nada é o mesmo. mas é especulativo. deve ser seu outro. do mesmo modo. apenas este igual a si mesmo . a substância é o todo e a parte. O essencial é que cada diferente. como os céticos. Este verdadeiro é o processo do devir. seu oposto. e de que de tudo (que se opõe) resulta um. o absoluto deve ser determinado como o devir. dos universalmente opostos. ao mesmo tempo. "como a harmonia do arco e da lira". este movimento é aqui. isto é a verdade da identidade de ambos.e isto os sons são em si. É um grande pensamento passar do ser para o devir. não de um pedaço de papel .se fosse apenas doce. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo. "o mel é doce e amargo" . e .todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. um ser. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir. Da harmonia faz parte determinada oposição. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias . por exemplo. .ser e não-ser ligam-se ao mesmo. a razão. diferenciado de si mesmo. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor. Mudança é unidade. Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo . que fala no Banquete. e o não-ser é. por exemplo. na medida em que seu outro em si esteja consigo.um por limites e um sobressumir os limites. numa forma bem imediata e universal. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. nada vem. por isso é o ser. O não ser é. por isso é o não-ser. ser e não-ser. Em Heráclito. assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. mas de seu outro. este e o outro. mas da unidade pela arte da música. mais exatamente.. Este é o grande princípio de Heráclito. vemos. reconhece um no outro. por causa de sua contradição. não a representação do ente. como o não verdadeiro.7 que Heráclito expressou com suas sentenças. a atividade de dirimirse. não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. depois aquele. nela está o princípio da vida. também é o primeiro concreto. Deixa então que Erixímaco. e os que sofrem de icterícia que é amargo . Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe . transformar-se .o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo . é ainda abstrato. É esta unidade de real e ideal. assim o puro ser é o pensamento simples. critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos. disto trata o conceito de toda a Filosofia.mas não de um abstrato qualquer outro. cada particular seja diferente de um outro . a repetição de um único som não é harmonia. o "que se une e se opõe". Tomamos nós o ente em si e para si.este é o processo da vida.

outros dizem que como ar. e este é. este conceito abstrato. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores. esta dificuldade desaparece. em Sexto. fogo. O fogo. por conseguinte.esta mudança de ser para não-ser. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo. e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. tempo. Além disso. nesta pura forma em que ele o reconheceu. o qual. na qual expôs seu princípio. somente o agora. passado . em sua exposição. Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. o simples. deu à sua idéia também uma expressão real. logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes. como Tales. como o primeiro ser do ente. mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser . no entanto. como Aristóteles e Sexto Empírico. poderia dar motivos para mal-entendidos. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir. do mesmo modo. considerando mais detidamente. para não ser. postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. outros dizem que antes o vapor que o ar. visto de maneira objetiva. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. nesta expressão em conceitos. A. contudo. dotado de tais momentos. que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta. Se quisermos representar-nos o que ele é. O tempo é intuição. ou sua forma é mais a forma natural. Não como se o tempo fosse e não fosse. no sensível. diz que ele é o primeiro ser sensível. a água. não estão de acordo entre si. É a abstrata contemplação desta mudança. B. é a primeira forma do devir. para o entendimento que segura para si o ser. na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. como subsistente. é o puro conceito. pois precisamente. que é harmônico a partir de absolutamente opostos. o subjetivo e objetivo. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência.e este não-ser passa. O tempo. mesmo o tempo é citado. e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro. expressar ambos os momentos como uma totalidade para si. esta mostra-se mais para uma análise superficial. é. ser e não-ser. . Sua essência é ser e não-ser. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito. mas deu a seu princípio a forma de um ente.8 isto é. sem. isto é. O tempo é puro transformar-se. No tempo estão os momentos. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo. na confusão de seu modo de expressão. postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica. . Assim. é o processo. mas além desta forma universal. porém. o tempo é o primeiro que se oferece como o devir. que não falam destas formas de passagem. Heráclito. a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente. o não-ser. portanto. disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo. pois as testemunhas são as melhores. é. pois ele é. compreender a natureza significa apresentá-la como processo.Processo abstrato. portanto. mas a água enquanto se transforma. mas de modo bem determinado. Enquanto intuído. portanto. o tempo é a intuição abstrata do processo. deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata. por isso. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito. de modo real. chamar a atenção para estas diferenças e contradições. De maneira alguma podia Heráclito afirmar. então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo. mas inteiramente abstrata. Os Modos da Realidade Heráclito não ficou parado. assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito. por isso. é incluído ainda na Escola Jônica. No tempo não é o passado e o futuro.ser puro e abstrato nãoser. sempre obscuro. no que se pode ver. é a essência verdadeira. Mas. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores. no puro lógico. pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo.A forma real como processo. o real e o ideal. está logo destruído. não haveria outra que nomear a não ser o tempo. como exprime Sexto. . por exemplo. ou apenas o processo. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. sem outra determinação . o tempo é o puro devir. para o ser. enquanto é para nós.

transformação do determinado. colônia grega. no processo. "Nos mesmos rios entramos e não entramos. os momentos são determinados mais exata e concretamente. que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. terra. "Os homens são deuses mortais e os deuses. Em 532-31 foi para a Itália. 2. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia. por ser ela a evaporação. a terra. O fogo. na Magna Grécia. o pôr desta oposição. vapores do sol). mudando-se para Metaponto. e 3. Pitágoras de Samos Pitágoras. por ser a evaporação. seria o incorpóreo e sempre fluído. devir. Pitágoras aspirava . e fundou em Crotona. evaporação é aqui apenas a significação superficial .C.a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política. a alma. isto é. em parte. consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. não distinguindo ainda bem forma. destes momentos . mas. os momentos da oposição subsistente. a metade disto. mas a própria vida. primeiro. pelo contrário. ou seja. o fogo é a alma. Os pitagóricos. o fundador da escola pitagórica. é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência . Da . então. sua realidade é o processo todo no qual. absoluta dissolução do que persiste . afirma-se. mas também de si mesmo. viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". e este evaporar-se. que a alma mais seca é a melhor. porém. encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra. mais explicitado como processo real. o queimar da oposição subsistente. que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje. Sob este ponto de vista.e a unidade negativa. ele não é permanente. segundo sua exposição.9 porém. ele é a idéia permanente. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo. água e ar. C.e este é o modo real do processo heracliteano. ele é para si o processo real. não tanto o ar como antes a evaporação. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante. este processo do mundo que a si mesmo se move. uma associação científico-éticopolítica. e este não é a negação do vivo. que o princípio é a alma. lei e matéria. que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são.o desaparecer de outros. como no movimento: 1.O fogo está agora mais precisamente determinado.e também conseguiu . ele é esta absoluta inquietude. em algumas notícias. falhas e contraditórias. isto é. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição. transformação em fumaça. as relações matemáticas. o retorno para a unidade.é mais: passagem. levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona. . sua essência como processo. As determinações mais próximas deste processo real são. então. a totalidade em repouso. somos e não somos". o mar e. que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga. Justamente no processo distinguem-se os momentos. assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles.". isto.o fogo em sua eclosão. Sob este ponto de vista.C. substância das coisas. a essência. e a outra metade. o raio" . Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça. é mudança. o princípio era a alma. Este é universal e muito obscuro. o puro momento negativo. a alma e a substância do processo da natureza. seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro. enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas. O fogo é o tempo físico. o momento abstrato do mesmo. é o número. pois ele é. evaporação. aí morrendo provavelmente em 497-96 a. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita. o emergir de tudo. homens imortais. Aristóteles diz de Heráclito que. A natureza é assim esse círculo. o princípio essencial de que são compostas todas as coisas. a mais viva. nasceu em Samos pelos anos 571-70 a. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. Segundo o pitagorismo. Compreendemos o que Aristóteles cita.

o Péras. as superfícies e os corpos. que não põe limites à divisão por dois. Pelo que diz respeito à moral. quente. passivo. foi em todo caso formado por dois princípios. e as práticas ascéticas e abstinenciais. os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes. que não se deve confundir com o Sol. contra o eleatismo. Dizem. e as partes múltiplas. mau. o imperfeito e o perfeito. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. imperfeito. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. portanto. curvo. masculino. trevas. por outro lado. e a delimitação. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. tudo é uma unidade". dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. dualismo. esquerda. De fato. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. um conceito contraditório. portanto: delimitado. o número é a essência própria das coisas. a Unidade veio a ser. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro. trevas. denso. e. que. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. De um lado têm-se. e ímpar.). luz. portanto. Mas. À primeira vista. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. [Teoria das cordas sonoras. modo dórico. ablongo. por conseguinte. impossível. relação de intervalos. Portanto. O número divide-se em par. é ilimitado (quer dizer. ímpar. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. têm-se também os objetos materiais. esquerda. é uma especulação totalmente insólita. sutil. é preciso partir do eleatismo. ilimitado. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. o não-ser é noite e. portanto há. masculino. O ser é luz e. mas delimitações do ilimitado. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. nesse caso. Como a filosofia da natureza. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos. frio. e o número. não quantidades de elementos (água. etc. astronômico e sonoro. bom. portanto. ilimitado. quadrado. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. I. múltiplo. Nela. que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice. reto. ímpar. imóvel. bem como a rotação da Terra. uno. não há qualidades. direita. De outro lado. mau. portanto a diversidade. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. luz. que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática). ablongo. e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. que governa e deve governar o mundo material e moral. direita. os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser. fogo. ao absolutamente Indeterminado.] . enfim. o ilimitado e o limitado. a linha. Portanto. ativo.10 racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas. se o Uno existe. quadrado. Portanto. feminino. Mas ambos compõem o Uno. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. portanto. logo. uno. par. 5): delimitado. achada a substância una e imutável das coisas. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. curvo. há também uma pluralidade. Para compreendermos seus princípios fundamentais. Radical oposição esta. 2) que tampouco tem limites. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso.o ilimitado e o limitado. e a pluralidade do ser. Desde que se têm o ponto. precisamente mediante o uno e o imutável. ou seja. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. pois. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto.sendo cada coisa número são o par e o ímpar.segundo os pitagóricos . 3) portanto. Assim. assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. não-ser e. que põe limites à divisão por dois e. bom. é limitado. inqualificado e qualificado. o par e o ímpar. reto. delimitado e ilimitado. Os elementos constitutivos de cada coisa . Mas. àquilo que não tem nenhuma qualidade. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). portanto. segundo a concepção grega. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. a qual via a perfeição na determinação). par. múltiplo. agitado. do qual se pode dizer que é impar. que são . portanto. determinado. etc. que não está em parte nenhuma. também uma pluralidade". não há nada além de quantidades. De novo. aqui. do Ápeiron. há também uma pluralidade. feminino. explicando assim o dia e a noite. imóvel. o pior e o melhor. pois. passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. agitado. toda coisa nasce de dois fatores opostos. perfeito. em todo caso. etc.

fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. quatro o volume. encontra-se. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. influindo no pensamento Ocidentel. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. que reaparece aqui pela última vez. cinco o casamento. E tal é. poderosamente. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. Dentre as religiões de mistérios. os números quadrados. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. jaz envolta num véu de mistério.600 anos vem. No mesmo sentido. o domínio da química e das ciências naturais. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. dez a perfeição. ponto de vista inteiramente novo. nesse sentido.. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. é essencialmente uma força calculadora. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. dois a opinião. três a superfície. quatro a justiça. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. agora. pois. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. Cosmogonia. se se trata de sua quantidade. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. poder-se-ia exprimir o ser do universo. agora. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. de caráter iniciático. Nos outros sistemas de física. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. a essa força. porque há. A harmonia das esferas. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. enfim. o primeiro sistema de Parmênides. a possibilidade de uma investigação exata em física. há 2. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. estritamente. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. Parmênides chamava Aphrodite. desde os tempos da antiguidade. por não se ter às mãos documentação bastante. exclusivamente com o auxílio de números. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. O vir-a-ser é um cálculo. como tal. O fato de negar-se. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. inicialmente. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar.11 A música. pelo menos em certo sentido. sem dúvida. Remetem-se. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. evidentemente. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. isso porque os ímpares. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. . a imagem. Isso lembra a palavra de Leibniz. provisoriamente. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. o Ápeiron de Anaximandro. A contribuição original dos pitagóricos é. do qual a música é. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. cuja tarefa é. e da Harmonia que une as qualidades opostas. Na química. nessas descrições. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as proporções. tiveram de erigir a noção de número. A música. um é o ponto. pai de todas as coisas. Mas estes são apenas. com analogias fantasiosas. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. se se trata de sua qualidade. etc. problemas secundários. Nossa ciência é. dois é a linha. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. davam nascimento a uma série limitada de números. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. con efeito. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. depois. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. como o Péras fixa o limite). assim. portanto. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. peremptoriamente. e quanto à tonalidade. pitagórica. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. O Universo e os planetas esféricos. ao dizer que a música é exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi (¹). que é representada inteiramente destituída de qualidade. os gnómones. a Anaximandro. Contentou-se.

e que nada mais era do que um templo. entre 592 a 570 antes da nossa era. essa ordem. em Mileto. ademais. em nossos dias. que preferem declará-lo como não existente. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. afinal. sob os trilhos da estrada de ferro. com base histórica. conhecido Zaratos. e se essa seita foi tão combatida. levado o filho à Pítia de Delfos. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. já em decadência. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. como foi Gautama Buda. tendo. hoje cara aos pitagóricos. ou Pythaia. ainda. mas provocaram. pereceu Pitágoras. Sabe-se hoje. era filho de Menesarco e de Partêmis. inúmeras viagens e peregrinações. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. Observa-se. em seu incêndio. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. certa vez. Tendo esta. . foi finalmente destruído. tomando um rumo que permaneceu ignorado. onde. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. em Babilônia. sinteticamente. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. Confúcio e Lao Tsé. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. já em tempos de César. porém. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. perto de Porta Maggiori. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). Dióspolis e Heliópolis. outros. Consta que Pitágoras. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. por casualidade. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. natural de Tiro. Mas. aluno de Tales. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. mebora esteja. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. que desde criança se revelava prodigioso. em torno dessa lenda. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. então tirano de Samos.C.12 Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. contando-nos a lenda que. onde. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. também. Conta-nos. cuja existência foi tantas vezes negada. e ouvinte das conferências de Anaximandro. em Crotona. Antes de sua localização na Magna Grécia. a inimizade de Policrates. durante vinte e cinco séculos. Em 1917. o qual. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. tendo sido. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. depois Ferécides de Siros. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. Se não existiu Pitágoras de Samos. Zoroastro (Zaratustra). recomendado ao faraó Amom. vamos a seguir relatar algo. Afirma-se. Foi depois discípulo de Sonchi. Numa obra. nos santuários de Mênfis. síria ou. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. que este realizou. segundo uns. foi descoberta uma cripta. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. foi iniciado nos mistérios egípcios.. em sua juventude. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. chamava-se Pitágoras. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. por volta de 41 a 54 d. combatido pelos democratas de então. um sacerdote egípcio. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. ou seja. ainda. fundou o seu famoso Instituto. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. também. Relata a lenda que Pitágoras. como já esteve no passado. junto com os seus mais amados discípulos. que Pitágoras nasceu em Samos. que ainda existe e tem seus seguidores. que. afirma-se. e que. proliferavam os templos pitagóricos. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. averigou-se ser pitagórica. relata-se que esteve em contato com os órficos. que antes. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. ao nosso ver. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. que liga Roma a Nápoles. posteriormente. no Peloponeso.

na segunda metade do século VI a. que ele teria deixado Samos (na Jônia). transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa. Parece certo. originário da Trácia. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. recolhe". .C.que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. será qualificada como uma "harmonia". uma distinção . por sua própria natureza. A alma aspiraria. entre todos os seres. e que se manifesta como beleza. portanto. transformando o sentido da "via de salvação".o que escuta. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia . contudo. A purificação resultaria do trabalho intelectual.C. pelos tiranos. Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. às estrelas. a alma semelhante ao cosmo. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. Para libertar-se. Partindo de idéias órficas.13 Segundo as melhores fontes. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. na transmigração da alma através de vários corpos. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. de acordo com ela. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). do ciclo das reincarnações. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. O orfismo . de natureza divina. depois do pitagórico Filolau. sobretudo. uma teve enorme difusão: o culto de Dionisio. já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. a retornar à sua pátria celeste. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a.o mal seja entendido sempre como desarmonia. de onde caíra. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica.de Orfeu. porque basicamente intelectual. das divindades "oficiais" -. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. que. que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. ou seja. de caráter iniciático.era uma religião essencialmente esotérica. entendido como unidade harmônica. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. verificou-se. a fim de efetivar sua purificação.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação. depois da derrota da liga crotoniata. assim. mas não a carregues". uma revivescência da vida religiosa. (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte. em algumas regiões do mundo grego. sustentada pela ordem e pela proporção. em geral. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . as regras da vida individual e do governo das cidades. semeia . Natural que dentro de tal concepção vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" . cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. garantida pela presença do divino em tudo. fugindo à tirania de Polícrates. porém. teria sido antes de mais nada um reformador religioso. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano.não só de natureza como também de valor . A religião órfica pressupunha. "O que fala. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica.

unidade de extensão. Estes não seriam. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. representados figurativamente. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. mínimo de corpo.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". a hipotenusa seria igual a V¯². usadas pelos gregos e depois pelos romanos. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior).esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. quanto na base mesma da matemática. enquanto o quatro produz o volume. Ou então. Ou seja. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. (Pitágoras) Em Todas as Coisas. O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. a quantidade e sua expressão espacial. às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos . o Número A partir do próprio Pitágoras. da música. o dois determina a linha. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. "Pensem o que quiserem de ti. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida".que descreve o cenário cósmico. vivo. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. Com efeito. Assim. como V¯². "Todas as coisas são números". Essa geometrização do cosmo estava aliada. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. presos a esferas homocêntricas. faze aquilo que te parece justo". Segundo a cosmologia pitagórica . o três gera a superfície. onde se processa a purificação da alma . portanto . as unidades comporiam os números. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. Sua astronomia. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. De acordo com essa concepção. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". Os primeiros números. Assim. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles.e em grande parte por causa deles . os números são reais.14 Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. Apesar desses impasses . (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação. são a própria "alma das coisas". em substituição às representações literais mais arcaicas. no pitagorismo. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente.como virão a ser mais tarde -. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto.

ou ela não é nada". mas somente é ser. para lá colher fama. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. para arrancarlhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. Defendeu o ser uno. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. Já em seu elemento tético vemos progresso. tendo. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). Zenão.15 intervalos musicais. (Pitágoras) Zenão de Eléia Vida. A característica de Zenão é a dialética. no entanto. e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. torturado e. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. mordendo-lhe. o fez torturar de todos os modos. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. Quando o tirano.ela aponta. ao mesmo tempo. Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. esta sido traída.Escreveu várias obras em prosa: Discussões. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. pois na mudança seria posto o nãoser daquilo que é. a orelha e cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. interveio na política. Nisto consistia o movimento determinado. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. porém. sons de acorde perfeito. é a razão que realiza o começo . Em Zenão. dando leis à sua pátria. tranqüila em si mesma. apenas com esta diferença fundamental. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano.é o iniciador da dialética. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. acabou preso. Este o amava muito e o adotou como filho. Dessa maneira. pleno para aquela mudança. Nasceu em Eléia (Itália). permanentemente soante. Explicação Crítica de Empédocles. De modo violento e furioso de sua reação. principalmente os pitagóricos. para caírem sobre o tirano. 1) Segundo seu elemento tético. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. por não revelar o nome dos comparsas. liquidá-lo e assim libertar-se. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. pelo contrário. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. não é. as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. Sobre a Natureza. aquelas esferas produziram. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. diante de seu povo. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". . descontínuo e divisível dos pitagóricos. . em seu movimento. em seu conteúdo. Outros ainda dizem que. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. pelo contrário. Parmênides afirmou: "O universo é imutável. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. . Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração. Contra os Físicos. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. é o nada para ela. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. Ele é o mestre da Escola Eleática. segurando-o assim. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras.Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). mas não o vemos. depois disso teria sido triturado num pilão. e ao perguntar pelos inimigos do Estado.C. Essa "harmonia das esferas". é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. a filosofia de Zenão é. perdeu a vida. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. Segundo muitas lendas. a alma pura da ciência . Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. começar com esta afirmação. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. Ao contrário de Heráclito. contra as críticas dos adversários. Também Zenão era um eleata. Parmênides.

as coisas finitas . assim não é o ente. ao igual. portanto. quer do igual quer do desigual. ou tudo é eterno. pois não se pode atribuir." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. Como. do igual. assim. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. por exemplo." Com a aceitação da igualdade. como é apenas um. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. portanto. Como Deus é em toda parte igual. b) Dar-se-ia delimitação mútua. nem vice-versa." Movido só é o que é diferente de outro. "Sendo um. negando-se predicados. nem vai para coisa alguma. não seriam. portanto. enquanto algo negativo. então só há um Deus. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. de argumentar é ainda. vê e possui também. Pois. o negativo. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. pois um dever-se-ia mover para o outro. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. Ser e não-ser situam-se assim. em outra parte de outro modo. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). pois não é aqui assim. Do nada é imediatamente nada. a reflexão em si. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. a) ilimitado é o não-ente. espaço. Deus se comporta assim. 0 ilimitado é o indeterminado. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. nosso caminho é trivial e mais óbvio. o que é impossível. possui ele a forma esférica. deuses. mas em toda parte igual. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. uma parte teria determinações que faltariam às outras). desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido.tal coisa é o ilimitado. mas. portanto. não seria capaz de tudo o que quisesse. pois. nem fim. diz ele. determinado como algo unilateral." Do fato de nada poder provir. Aristóteles conclui que. lado a lado. não passa para o ser. não está nem em repouso nem se movimenta. Se. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. pois. Em seguida. pelo contrário. somente é o múltiplo. surja" (ele relaciona isto com a divindade). nem começo. porém. inversamente." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). seria o não-ente. não fosse assim. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. porém. quando algo é. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. ouve. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. o mais antigo. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. ele não teria poder sobre eles. é em toda parte igual. o pior viesse do melhor. impossíveis. ele mesmo. o poder de Deus. Nós dizemos que Deus é imutável. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. nem é imóvel. a supressão do ser.ou não se distingue dele.16 "É impossível". mas assim já é. que dele se produza mais do que deve ser produzido. até o dia de hoje. originar-se-ia o não-ser do ente. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. b) Movido. O ser. porém. a partir daí. ou se. nem em repouso nem em movimento. "que. e é assim. raciocinando-se. "pois para ele nenhuma outra coisa advém. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. de um lado temos. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. o imóvel é negativo. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. reprimi-la-ia. Se. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. Em tudo isto. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. "O um. do ser." Diz ainda: "Já que é eterno. "o que é impossível. este afundar-se no abismo da identidade do entendimento. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. ser. se houvesse mais deuses". ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. Deus é eterno. Ser é a igualdade expressa como imediata. estes diferentes não são expressos como diferentes. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. em tal tipo de raciocínio. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . pois ele é eterno e um. Este modo. portanto. Deus é e se ele é de tal natureza. Vemos. nada pode provir". "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. ou nada existe fora de Deus. os outros sentimentos. ele não é limitado. pois este não possui nem meio. por conseguinte. válido. é o não-ente. por exemplo. se houvesse diversos. houvesse mais deuses. em toda parte. então Ihe é próprio que seja um. Ambas as coisas são. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. um e esférico. nem uma parte .

suprimem com isto essa determinação. é apenas afirmativamente. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. como a essência. tanto no um mesmo. sua nulidade não aparece nela mesma. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. ainda que deva ser por nós admirada. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. Isto pressentiu Zenão. terem mostrado que.17 e a mudança. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. algo incompreensível: pois do um. isto é. pois ele nega predicados que se opõem. mas ambas as negações que se opõem. isto é. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . isto se dá. em Zenão. passo a passo. como deve ela ser concebida. está afastada a determinação do negativo. que. que deixa o finito de lado. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. dizendo que o finito. contudo. e então é puramente infinita. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. no movimento. na negação absoluta. É a mesma separação. Mas. como o nada. portanto. Portanto. porque não concorda com o meu". então. nos sofistas. Enquanto nós deixamos valer. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. o vazio. mas apenas o ser para o outro é. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo.o lado negativo da dialética. porém. é. ou seja. conclui-se. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . não de maneira que se suprima a si mesma. eles afirmam um dos predicados que se opõem. assim. Eles põem-no fixamente. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. demonstrei isto. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão.conseqüência que. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. parte em Heráclito e. o negativo de lado. o descobridor da dialética em sua plenitude. em nossa representação. que contenha em si uma contradição. gêneros. não ser negada apenas uma determinação. segundo o pressuposto. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). Eu não . porque previu que o ser é o oposto do nada. da multiplicidade. não menos. ao menos é quem está em seu começo. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. o movimento. do ser. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. que ele é o nulo. com isto não permanece verdade alguma. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. enquanto limitado. o oposto. em seu Parmênides. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . Parmênides. de outro lado. e o gênero mais alto é então Deus. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. de nosso modo de refletir comum. os eleatas foram mais conseqüentes.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . Ou passamos do finito para o infinito. assim como se pressupõe o ser. esta somente se suprime através de um outro. a realidade do mundo finito. através de minha afirmação. e.e pelo fato de. Isto. também é determinação. e deixamos. só que nós deixamos valer como ser também o finito. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. Xenófanes. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. onde encontram. é o nada do movimento. serem-si. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. desta maneira. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. o nada não é. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. também ela finita. ela é posta através da negação. ou é negada enquanto finita. a multiplicidade está sobressumida. a mudança é em si contradição. assim. o que os eleatas desprezaram. mas sem qualquer determinação. enquanto o ser supremo. numa determinação. no que vimos. em seu pensamento. é determinada como o negativo e. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. devendo então. por exemplo. Do mesmo modo. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. deve ter seu fundamento no infinito.

quando é o múltiplo. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. ele se demonstra a si mesmo. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. na medida em que combate o movimento sensível. Zenão responde que escreveu isto. de neles apontar razões e aspectos. assim o múltiplo é infinito. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. este movimento distinto do compreender deste movimento. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto.devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição 18 . ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. e o movimento é: tornar-se outro. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. esta dialética é muito bem descrita. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. de maneira que não tem mais grandeza". se não tem tamanho e grandeza. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. o negativo. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. 0 resultado desta dialética é zero. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. Nesta consideração. de maneira objetiva e dialética. infinito é o negativo do múltiplo. leis. idéia. mas. A dialética subjetiva. A outra dialética. pois. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. é a demonstração o movimento da convicção. ligação através de mediação. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. Conforme a representação corrente da ciência. em que proposições são resultado da demonstração. enquanto limite indiferente. A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. isto é. também não é. dever-ser. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. átomos. "pequeno. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. mostra que possui determinações opostas. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. o que é infinito não é mais grande. então é grande e pequeno: grande. algo exterior. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. sem pressuposições. portanto. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. isto é. enquanto se move. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. Podem ser então razões bem exteriores. A coisa tem. não é. porém. o não-ente. segundo a grandeza" (tò mégethos). pelo contrário. O mesmo aconteceria ao ser retirado. levar a guerra para território inimigo. baseando-se em razões exteriores. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. que o múltiplo não é. sua dialética mesma em si. não segundo circunstâncias exteriores. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. razões. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. No Parmênides de Platão (127-128). antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações. A dialética como tal é a) dialética exterior. a essência do com-preender. "Ele demonstra que. nem massa (ónkos). mas em si mesmo. que raciocina. o outro não seria por isso diminuído. o sistema que se opõe está errado. nem mais múltiplo. nada". ele o dá a si. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. deve-se ultrapassar a multiplicidade. fortalecido. sobressumir-se. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". para passar para o infinito. mas em si mesmo. nem espessura. assim o que foi acrescentado não é nada. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. mas a partir da coisa mesma.

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interna. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse - como nós dizemos, não há elefantes, não há rinocerontes. Que o movimento existe, que ele é fenômeno, isto nem está em questão; o movimento possui certeza sensível, como existem elefantes. Neste sentido, Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. Pelo contrário, seu questionar vai em busca de sua verdade; mas o movimento é não verdadeiro, pois ele é contradição. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma, porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal; é pressuposta a continuidade do espaço. O que se move deve atingir uma determinada meta; este caminho é um todo. Para percorrer o todo, o que é movido deve antes ter percorrido a metade. Agora a meta é o fim desta metade. Mas esta metade é novamente um todo, este espaço possui assim uma metade; deve, portanto, ter atingido antes a metade desta metade, e assim até o infinito. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos, nunca se pode parar com a divisão. Cada grandeza - e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza - é novamente divisível em duas metades; estas devem ser percorridas e, mesmo onde colocamos um espaço o menor possível, sempre surge este mesmo estado de coisas. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina; portanto, o que é movido nunca atinge sua meta. É conhecido como Diógenes de Sínope, o Cínico, refutou tais provas da contradição do movimento, de maneira muito simples; levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá - ele as refutou pela ação. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação, Diógenes o castigou pela simples razão de que, se o professor havia discutido com argumentos, ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível; mas é preciso compreender. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. primeiro em sua contradição - uma consciência dele. O movimento, o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado, um posto segundo sua essência, a saber, (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade - do ponto contra a continuidade. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou, do mesmo modo, o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade, uma duração (dia, ano); mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. A igualdade consigo mesmo, a continuidade é absoluta homogeneidade, é eliminação de toda diferença, de todo negativo, de todo ser para si; o ponto é, pelo contrário, o puro ser para si, o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. Mas estes dois estão postos numa unidade, no espaço e no tempo, espaço e tempo, portanto, a contradição. O mais fácil é mostrá-la no movimento; pois, no movimento, o oposto é também posto para a representação. Pois o movimento e a essência, a realidade do tempo e do espaço; e, enquanto esta aparece, é posta, também é posto já o fenômeno da contradição. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. É a continuidade de um espaço, é o positivo que é posto; e nele o limite que o divide ao meio. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si, mas é algo limitado, é novamente continuidade. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto, mas põe o oposto nela limite que divide ao meio; mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade, a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. Até o infinito - com isto nos representamos um além, que não pode ser atingido, fora da representação que não pode atingi-lo. É um inacabado ultrapassar, mas presente no conceito - um passar além de uma determinação oposta para outra, de continuidade para negatividade, de negatividade para continuidade; elas estão diante de nós. Destes dois momentos pode, no processo, ser afirmado um deles como o essencial. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si, um determinado - nenhum espaço limitado, portanto, continuidade; ou Zenão afirma o avanço neste limitar.

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A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente, mas apenas divisíveis. Parece, entretanto, que, enquanto são divisíveis (potentia, dynámei, não actu, energeía), também devem estar efetivamente divididos infinitamente; pois, de outro modo, não poderiam ser divididos ao infinito - uma resposta geral para a representação. 2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles", o homem dos pés velozes. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. De dois corpos que se movem numa direção, dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância, movendo-se, porém, mais rapidamente que aquele, sabemos que o segundo alcançará o primeiro. Zenão, porém, diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido"; e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga", no começo desta determinada parte do tempo. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava, este já avançou para mais longe, deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo; e assim se vai até o infinito. B percorre numa hora duas milhas, A, no mesmo tempo, uma milha. Se estão separados entre si por duas milhas, então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. Mas o espaço (uma milha), vencido por A, será percorrido por B na metade de uma hora, e assim ao infinito. Desta maneira, o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro; o tempo de que necessita, também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição, e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". Aristóteles, que trata disto, diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. "É algo não verdadeiro; pois o rápido, contudo, alcançará o vagaroso, se Ihe for permitido ultrapassar o limite, o limitado." A resposta é correta e contém tudo. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si - isto é, são limitados, são limites um para o outro. Se, ao contrário, se admite que tempo e espaço são contínuos, de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua, então eles são, igualmente, na medida em que são dois também não dois - são idênticos. Zenão apenas faz valer o limite, a divisão, o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação; por isto surge a contradição. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento, porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto, na realidade unidos. 0 pensamento produziu a queda original, quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal; mas também ressarce este prejuízo. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa", e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo, no "não-distinguível" (en tõ nyn, katà tò íson); ele está aqui, e aqui e aqui. Assim que dizemos que sempre é o mesmo; a isto, porém, não chamamos movimento, mas repouso: o que sempre está no aqui e agora, repousa. Ou devese dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo; não consegue ultrapassar seu espaço, não conquista um outro espaço, isto é, um espaço maior ou menor. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido; o ser limitado é posto como tal, mas o limitar é, contudo, um momento. No aqui agora como tais, não há diferença. No espaço, um ponto é tão bem um aqui como o outro, isto aqui e isto aqui e mais um outro, etc.; e, contudo, o aqui é sempre o mesmo aqui; não são distintos entre si. A continuidade, a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. Cada lugar é lugar diferente - portanto, o mesmo; a diferença é apenas aparente. Não é neste estado de coisas. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares, ao menos três. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo; se, no espaço absoluto, por exemplo, o olho repousa ou se move, é inteiramente o mesmo. Ou, conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram, em círculo, um em torno do outro, surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior, os fios estendidos (tensio filorum). Se num navio caminho na direção oposta da

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direção em que se move o navio, o mover-me é movimento com relação ao navio, mas repouso com relação a outra coisa. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto, nem espaço limitado, mas apenas continuidade absoluta, transgredir todos os limites. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso, a saber, o absoluto ser-limitado, a interrupção da continuidade, nenhuma passagem para outro. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras"; pois, se não se concede isto, não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual, com velocidade igual, um a partir do fim do estádio, o outro a partir do meio, um em direção do outro; disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que, no que se move e no que está em repouso, a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual, com velocidade igual; isto, porém, é falso. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo, o comum, que deve ser atribuído inteiramente a cada parte, enquanto realiza para si apenas uma parte; b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos; é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro, partindo do mesmo ponto, caminha dois pés para o oeste; assim estamos distantes um do outro quatro pés - aqui ambos devem ser somados; na distância de ambos, ambos são positivos. Ou avancei e retrocedi dois pés - no mesmo ponto; ainda que tenha andado quatro pés, não saí do ponto em que estava. 0 movimento é, portanto, nulo; pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. Isto é então a dialética de Zenão. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo; ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. O elemento universal da dialética, a proposição universal da escola eleática foi, portanto: "0 verdadeiro é apenas o um, todo o resto é não-verdadeiro"; como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno, nada verdadeiro"; mas nisto também reside uma diferença. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal, com suas formas infinitamente diversas - este lado não possui verdade em si mesmo". Nào é, porém, isto que pensa Kant. Ele afirma: Voltando-se para o mundo, quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior), voltando-se para ele, fazemos dele um fenômeno; é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível, determinações da reflexão, etc. Só nosso conhecimento é fenômeno, o mundo é em si absolutamente verdadeiro; só nossa aplicação, nosso acréscimo o arruína para nós; o que acrescentamos, nada vale. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. Isto é então a grande diferença. Este conteúdo também é nulo em Zenão; mas, em Kant, porque é obra nossa. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo; segundo Zenão, é o mundo, o que aparece em si que é não-verdadeiro. Segundo Kant, é nosso pensar, a atividade de nosso espírito o elemento mau - é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos - enquanto seres sensíveis, tão bons ou tão maus como os pardais. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde, com os sofistas, tornou se universal. 1.5 - Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. mas muitas lendas. Viagens extraordinárias, a ruína material, as honras que recebeu de seus concidadãos, sua solidão, seu grande poder de trabalho. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. . .

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Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio, o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. Se o espaço é absolutamente pleno, não pode haver movimento. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio, pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo; se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço, poderia haver uma infinidade deles, pois o menor poderia acolher em si o maior; 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio; 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo; 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio, a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. O não ser é, portanto, também o pleno, nastón (de nasso, ou aperto), o stereón. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito, não haveria mais nenhuma grandeza, não haveria mais ser. Se deve subsistir um pleno, isto é, um ser, é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. Mas o movimento demonstra o ser, tanto quanto o não-ser. Se somente o não ser existisse, não haveria movimento. O que resta são os átomos. O ser é a unidade indivisível. Mas, se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque, é preciso que sejam de natureza idêntica. Demócrito afirma, portanto, como Pitágoras, que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. Se um átomo fosse o que o outro não é, haveria um não-ser, o que é uma contradição. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. São chamadas também idéai ou skhémata. Todas as qualidades são nómo, os seres só diferem pela quantidade. É preciso, pois, remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós, skhéma), pela ordem (diathigé, táxis), peia posição (tropé, thésis). A difere de N pela forma, AN de NA pela ordem, Z de N pela posição. A principal diferença está na forma, que indica diferença de grandeza e de peso. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). Como todos os seres são da mesma natureza, o peso deve pertencer igualmente a todos, isto é, à mesma massa, o mesmo peso. O ser, portanto, é definido como pleno, dotado de uma forma, pesado; os corpos são idênticos a esses predicados. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas, fora de nossa representação; não se pode fazer abstração delas; são: a extensão, a impermeabilidade, a forma, o número. Todas as outras qualidades são secundárias, produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos, dos quais são apenas as impressões: cor, som, gosto, odor, dureza, moleza, polido, rugoso, etc. Pode-se, portanto, fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos; desaparece quando esse grupo se desfaz, muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos; se há separação no espaço, recorre-se à teoria das aporrhoaí. Percebese, pois, que Empédocles foi utilizado a fundo, pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. Demócrito adota uma posição adversa. Anaxágoras reconhecia quatro elementos; Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos; nos outros elementos estão misturados átomos diversos; os elementos distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. É por isso que a água, a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. Demócrito pensa, com Empédocles, que somente o semelhante age sobre o semelhante. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. O ponto de partida de Demócrito, a realidade do movimento, Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles, provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. Com Anaxágoras, tem em comum os ápeira ou matérias originais. Naturalmente, é antes de tudo de Parmênides que ele procede, é este que domina todas as suas concepções fundamentais. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides, segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento, a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas.

23 De todos os sistemas antigos. Estes se movem perpetuamente. p. seu movimento. é esta que move os seres animados. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. como se fossem expulsos. as partes mais leves são empurradas para o alto. embora não racionais. Epicuro. concursu quodam fortuito. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar . tem muita analogia com a minha. anánke sem intenções. bem entendido. É a concepção mais terra-a-terra. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. a massa entra em rotação. História Natural do Céu. Não há acaso. ultrapassar as forças mais simples. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. vertical. ser feita da matéria mais móvel. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. pois. os mais leves são repelidos para o vazio exterior.. Os átomos centrais formam a terra. no espaço infinito. Demócrito. quando ela era ainda pequena e leve.. O sol e a lua. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. da espécie mais comum. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. mas um conjunto de leis rigorosas. alguns são repelidos. uma hipótese cientificamente utilizável. o materialismo. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. Leia-se Kant. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. há infinitos mundos. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". Alguns formam massas espessas. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. no começo. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. movia-se de um lado para outro. O pensamento é um movimento. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. não procura logo de início. 48. primeiramente. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. Assim a terra se solidifica. Esse turbilhão aproxima. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. Nascimento dos seres animados. perpetuamente agitados. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. e eu vos farei um mundo' ". o fogo. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. não se pode indicar sua velocidade. o que é de mesma natureza. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. Leucipo. lisos e arredondados (de fogo). mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. aqueles que se elevam formam o céu. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. enfim.. em um estágio antigo de sua formação. Estes nasceram e perecerão. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. A alma deve. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. o ar. parte das qualidades reais da matéria. de átomos sutis. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. isso seria equivalente ao repouso absoluto. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. pelo choque. pois. esta hipótese. produz-se um movimento giratório. sempre foi da maior utilidade. os outros permanecem juntos. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. tem-se. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito.. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. com o auxílio de um mecanismo cego. O movimento original é. Cada vez que nasce um mundo. A essência da alma reside em sua força animadora. a velocidade sendo desigual. Rosenkr. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. em certo sentido. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. Do mesmo modo. Parece-me que se poderia dizer aqui. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. eles se encontram. sob o efeito combinado de forças opostas.

. Assim. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. O sono . que. . Isso não acontece em um instante. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. enfim. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. se não no absoluto. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. extenso. Junta-se a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. É uma prodigiosa petição de princípios. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. potanto material. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. as representações são falsas e o pensamento é malsão. Com efeito. Enfim. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o rmaterialismo. que puxava para cima. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). Não são indignos de Demócrito. A percepção é idêntica ao pensamento. opera-se por meio das aporrhoaí. agente. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. o fogo interior escapa. O cristianismo nascente. Duas condições são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. . introduzindo. é uma representação cômoda nas ciências naturais. como a encarnação do paganismo. . assim como os de Epicuro. deduzir o único dado imediato. A tradição não prova nada. . não passa de um dado extremamente mediato.. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. por um lado. Tudo o que é objetivo. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. que o veneno já estava por demais alastrado. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. mas. Somente o semelhante sente o semelhante. Disso resulta a morte. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. O contato não é imediato. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. do espaço e da causalidade. quando atravessava o rio a cavalo. sob sua marca. de repente. tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido. É de um tal dado que o materialismo quer. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. na verdade. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. Se a respiração cessa. para cuja produção cooperamos sempre. enquanto. aqui e ali. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. É disso que nos preserva a respiração.. lembram Aristóteles e sua metropathía. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. Teoria das percepções dos sentidos. Por outro lado. a representação. um concreto extremamente relativo.24 circundante. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. Mais tarde. Se este é o inventor da idéia principal. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. disso nasce a representação das coisas.morte aparente. percebe exatamente os objetos. Trata-se do mundo que é o nosso. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. o pensamento é sadio. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. agora. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós.

Recusam-lhe uma sepultura honrada. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. Arrojo poético (poesia do atomismo).. como um mendigo. de uma completa clareza. A ética de Demócrito é conservadora. É. Sobre o problema da origem do mundo. desprezado em vida. pai do racionalismo. a viver das esmolas de seu irmão. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si. "Contenta-te com o mundo tal como é". esse Humboldt do mundo antigo. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. Entretanto.25 Todos os materialistas pensam que. Racionalista encarnado. Inquietações morais: ascetismo. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural). Inquietações políticas: quietismo. Ainda não havia notado. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração.. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. se o homem é infeliz. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. Sua cidade natal o toma por um pródigo.aquilo que Ihe era homogêneo. Ele se atrela a este. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. . Demócrito é perfeitamente claro. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. etc. um racionalista confiante. reduzido. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. O Mal excluído de seu sistema. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. sem dúvida. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. resultado do estudo cientifico. quase morrera de fome. Sentimento de um progresso poderoso. Sobre a questão da criação do mundo. Inquietações conjugais: adoção de filhos. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". pois. ele foi. ao passar em revista os sistemas anteriores. e a terra acaba por ser o que é. Sente-se impelido a correr o mundo. a queda e o choque. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. conservou. Aitíai. Clareza. Uma seqüência infinita de anos. Aversão ao bizarro. acomodava à sua maneira os deuses. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. mas sentimos sua força poética. Retorna pobre e sem recursos. É na moral que está a chave da física de Demócrito. o espetáculo dos sacrifícios. Pitágoras. Não acreditamos nos contos. pois deixavam subsistir um elemento irracional. igualmente. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. É que sua vontade é a mola de sua investigação. Viagens. Demócrito. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito.. de seus raros predecessores. é o cânon moral que o materialismo produziu. É o que prova sua própria descrição. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. é por não conhecer a natureza. Simplicidade do método. Paz de espírito. Fé absoluta em seu sistema. – É a meta de sua filosofia. seu juízo sobre os poetas. Inquietações míticas: racionalismo. ele não perde o senso da poesia.

não obstante. outrossim. detestavam qualquer tipo de estudo. na biblioteca da Academia. Se Demócrito morreu. Aristóteles. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. ao qual também os sofistas deram impulsos. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. Quanto à data do seu nascimento. Se disse isto. conhece bem Demócrito. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. outros aspectos do seu sistema. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. a Anaxágoras. Disse também algures que. Por outro lado. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. porém. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. Diz-se ter visitado o Egito. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. através dos scus fragmentos. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. pois era também jônio do Norte. e obscurece o fato de que. Fez menção a Anaxágoras. o que parece muito provável. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. como se diz. como Sócrates. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. por outro lado. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. seu contemporâneo. não sabemos. Ao contrário de Sócrates. bem como. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. sob o reinado de Tibério. isto ocorrera. Como Sócrates. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. a de Glauco de Régio. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. ensinando e escrevendo em Abdera. e sem dúvida alguma na Jonia. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. Por isso. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. temos apenas conjeturas para nos orientar. Como Protágoras. Sabemos. . porém. Em uma das principais obras. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. com a idade de noventa ou cem anos. contudo. no qual parece que o reproduz. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. e. quando Anaxágoras era velho. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. Um membro posterior da escola. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. de fato. Seja como for.C. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. Demais. e temos uma prova contemporânea. É certo. quando. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. Apolodoro de Quizico. ele era jovem. cedo demais. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". era natural de Abdera na Trácia. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. Os epicuristas. Demócrito foi discípulo de Leucipo. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. é como se não tivesse escrito quase nada. ele era um autor volumoso. Para nos. deu grande atenção ao problema do comportamento. fazer uma edição das obras de Demócrito. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. mas sim o cabeça de uma escola regular. que também os pitagóricos foram seus mestres. e nós ainda podemos constatar. como aquelas de Anaxágoras e outrem. organizada em tetralogias. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. foi possível para Trasilo. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. Parece. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. da mesma forma que ele. que geralmente fora atribuída em Atenas. entretanto. segundo a suposição dele. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão.26 Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução.

pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. Se não houvesse ar. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. mas as "imagens" (deíkela. A originalidade de Demócrito. e por que. portanto. o molhado e o seco e outros que tais. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. o tato. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. entre nós e os objetos da visão. "Pelos sentidos". que deriva mormente de Anaxágoras. isto não seria assim. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma." Porém. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. apesar de serem causadas por algo fora de nós. felizmente. A possibilidade de ciência havia sido negada. tamanho e peso. não podemos vê-las de modo algum. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. De modo idêntico. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". na realidade (etee). está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. Deveras. tais como forma. por convenção há o amargo. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. Sua doutrina. e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. Não é. afirmou Demócrito (fragmento 9). pois "a verdade jaz num abismo" . deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato." Não podemos conhecer a realidade deste modo. e era isto que exigia uma solução. as nossas que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência. porém. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. embora não com os mesmos detalhes. Chegou. o problema do comportamento tornara-se premente. mas somente alguma coisa "há o doce. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). Menos ainda está no seu sistema cosmológico. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. uma semelhança exata do corpo do qual provém. há os átomos e o vazio. as cores. que acima foi descrito. por convenção há o quente e por convenção há o frio. Parmênides afirmara claramente que o paladar. foinos preservada através de suas próprias palavras. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. e o olfato explica-se semelhantemente. se a distância for grande. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. por convenção há a cor. Este. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. naturalmente. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. Nisto. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto.27 A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". portanto. todavia. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). sensações não representam nada de externo. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. A audição explica-se de uma maneira similar. Para compreender esta questão. skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. Demócrito. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. Seguindo o exemplo de Protágoras. Ademais. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. mas somente o vazio. pelo contrário.

afinal de contas. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. e o fato. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. a audição. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. a alma é a moradia do daímon " (fragmento 171). doce para mim e amargo para você. farão irregular o cone. que é composto de círculos iguais e não desiguais. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). É. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. como o fizera do ilegítimo. É evidente. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. que significava propriamente um espírito protetor do homem. por conseguinte. Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. diz ele (fragmento 11). pensamento. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. ressalva a possibilidade de ciência. então as partes cortadas serão iguais. mas nele penetram em qualquer direção. "Há". e o cone terá a aparência de um cilindro. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo." Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. é tanto amargo quanto doce. está fora da discussão. o olfato. pois. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. Para compreender isto. Teu tiro é uma capitulação. está separado daquele. Se forem iguais. apesar de tudo. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). devemos lembrar que a palavra daímon. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. como foi dito. contudo. Segundo um comentário de Arquimedes. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). Ao mesmo tempo." O conhecimento "legítimo" não é. . O legítimo. porém. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles.28 (fragmento 117). Na realidade. Demócrito. "A felicidade não reside em rebanhos. se pudéssemos restabelecê-las integralmente. da mesma natureza do "ilegítimo". Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. O "conhecimento legítimo" é. por exemplo. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. como Sócrates. Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. mas uma espécie de sentido interno. o aspecto individual de týkhe. com efeito. pois. "Pobre Mente". Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. De um lado. pois. nem em ouro. É muito difícil. o que é o maior absurdo". e Demócrito recusou-se. o paladar e o tato. como eles. chegando assim a conhecê-los como realmente são. porém. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). Defendeu. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. Ele diz que o mel.

respectivamente. o corpo). o sossego do corpo. pitagórico. porém. e facilmente se transformam ao contrário. hedonismo vulgar.depois do qual começa a decadência . Abraça.. se fosse preciso uma demonstração. Além disso. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. como Sócrates. Este é. como Leucipo houvera feito. O interesse dos filósofos gira. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. e é a esta que devemos agora retornar. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. Os homens puseram a culpa na sorte. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. Para atingi-lo. Do nosso ponto de vista. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. que o seu real interesse está em outro sentido. sem dúvida. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. Este.29 Isto não é. Demócrito afirmou. de preferência. Por outro lado. poderemos alcançar o sossego.C. o século IV a. que foram dignas de constar nas antologias. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. através de Sócrates e Platão. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. até então limitado à natureza exterior. a Terra era ainda um disco. devemos ser capazes de ponderar. Para o nosso presente objetivo. quanto ao resto. mas em torno do homem e do espírito. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. e o sossego da alma. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. Com efeito. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. que é a alegria. culminando em Aristóteles. substancialmente. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. precursoras. Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. sendo principais a cínica e a cirenaica. não em torno da natureza. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). e este é um estado da alma. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. Para Demócrito. Se aplicarmos este critério aos prazeres. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. do estoicismo e do escolhe os mais divinos. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável das muitas perdas desse tipo. (fragmento 37). 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. porém. Infelizmente. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. que é a saúde. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida.teve duração bastante curta. "Quem escolhe os bens da alma. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". que foi um verdadeiro gênio neste campo. Ao mesmo tempo. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. Esse período esplêndido do pensamento grego . escolhe os humanos" . e através também da precedente crise cética da sofística. e. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema.

Diversamente dos filósofos gregos em geral. como acontece todas as vezes que o povo sente. a posição da sofística é extremista também. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. de repente. mas prudência e habilidade. Ao sensualismo. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. ao impulso. O centro foi Atenas. pois grandes malvados.a segunda metade do século V a. portanto. Moral. o poderoso. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. instintiva. E visto que o domínio pessoal. mas como meio para fins práticos e empíricos e. chefe de escola e teórico da sofística. tirânico. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas.C. mediante graves crimes. . quer política. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. desinteressado. exige que o forte. a única regra de conduta é o interesse particular. aliás. aliás. portanto. em nome do direito natural. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer.é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. a cultura. e entendendo por natureza. o ensinamento dos sofistas não era ideal. É esta. Seria. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. continuando até depois de Sócrates. mas sobejamente retribuído. não é mister justiça e retidão. no prazer e no domínio violento dos homens. não lhe interessa.dizem . tornaram-se mestres de eloqüência. materiais. Então a realização da humanidade perfeita. Os sofistas maiores foram quatro. houve um triunfo político da democracia. como na gnosiologia e na moral. a Atenas de Péricles. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. mas a natureza humana sensível. destruidor da ciência. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e.pode-se dizer . a sofística sustenta o relativismo prático. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. mortificador. Mas este direito natural . não para si mesma. destruidor da moral. de retórica. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. isto é. Protágoras foi o maior de todos. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. Os sofistas. à paixão de cada um em cada momento. Os menores foram uma plêiade. não a natureza humana racional. contra o direito positivo. naturalmente. os mestres de eloqüência.que a submissão à lei torne os homens felizes. não está na ação ética e ascética. no domínio de si mesmo. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. A sofística move uma justa crítica.como norma universal de conduta . A época de ouro da sofística foi . muitas vezes arbitrário. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. animal. uma pura convenção. Quanto ao direito e à religião. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. embora sem importância filosófica. Platão e Aristóteles. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. considerando a lei como fruto arbitrário. oprima o fraco em seu proveito. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. uma enciclopédia. a sua força. portanto. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. interessado. devia ter a oratória e. superficial. A moral. contra o império persa.bem como a moral . atenienses. deles procedendo a Academia e o Liceu . contingente. que a causa seja justa ou não.30 epicurismo do período seguinte. segundo o ideal dos sofistas. mas como um empecilho que incomoda o homem. na justiça para com os outros. Desta maneira. quer moral. a experiência ensina que para triunfar no mundo. por conseguinte. E tentam criticar a vaidade desta lei. compreende-se a importância que. em tal regime. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . em situação semelhante.

conforme as disposições subjetivas dos órgãos. e a um outro o de Górgias. não obstante sua pobreza. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. até estabelecer-se em Larissa na Tessália. para pedir auxílio contra os siracusanos. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. escultor. No Górgias de Platão. Viajou por toda a Grécia. É autor duma obra intitulada "Do não ser".C. mas na sua forma conhecida. passional. teve de fugir de Atenas. sutis uns. orientando-a para os valores universais. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. quarenta dedicados à sua profissão. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. na Sicília. não na sua realidade física. onde teve grande êxito. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. porém. Protágoras recorre à convenção estatal.chegam até o extremo. onde teria morrido com 109 anos de idade.segundo os sofistas.de harmonia com o ceticismo deles . relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. e sim sobre a sua natureza animal. ensinando na sua cidade natal. social. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. e especialmente em Atenas. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. sem recompensa alguma. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. e de Fenáreta. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. pois. em Atenas.). teoricamente. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. Combateu a Potidéia. Os sofistas. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. .correlacionado com Empédocles . foi um filósofo ocasional. filho de Sofrônico. outros pueris. porém. dos quais. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Sócrates A Vida Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. em outras cidades da Grécia. mais eloqüente que Protágoras. onde morreu com setenta anos (410 a. Então. o homem é a medida de todas as coisas. cuja escola conheceu . onde carregou aos ombros a Xenofonte. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas.C. exagerador dos artifícios da dialética eleática. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. onde foi processado e condenado por impiedade. na Magna Grécia.pelo ano 480. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. parteira. na qual desenvolve as três teses: Nada existe.C . Aprendeu a arte paterna. foi Sócrates. o direito natural é o direito do mais poderoso. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. Para remediar este extremo individualismo. pelo menos praticamente. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. Ensinou na Sicília. até o ateísmo. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. mediante o ensinamento da retórica. em 480-375 a. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. Refugiou-se então na Sicília. instintiva.representa a maior expressão prática da sofística. sobretudo entre os jovens. mas .31 natural . e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública. Subjetivismo. Acusado de ateísmo. em Atenas. A respeito da religião e da divindade..pátria de Demócrito . inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. negador dos valores teoréticos e morais. o único sistema jurídico admissível. segundo a via real do pensamento grego. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . Em suma. Menos profundo. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior.

Método de Sócrates É a parte polêmica. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . o conceito que se exprime pela definição. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. determinando o verdadeiro objeto da ciência.C. É a ironia socrática. Quanto à política. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. Inteiramente absorvido pela sua vocação. com 71 anos de idade. e sim o juízo eterno da razão. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. a sua atitude crítica. mas é um meio de generalização. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. No primeiro caso.diversamente dos sofistas. permanente. Mas. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. a feição austera de seu caráter. recusou. E preferiu a morte. em geral. Entretanto. hostilidade popular. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. é o inteligível. na exposição polêmica e didática destas idéias. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. o indivíduo que passa. Morreu Sócrates em 399 a. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. o particular. Sócrates. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. podemos dizer que Sócrates não teve. dirigindo-as agora ao fim de . as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. para a imortalidade. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. uma mulher ideal na quérula Xantipa. O objeto da ciência não é o sensível. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. na moldura da alta cultura ateniense da época. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. estável. que revestia uma dúplice forma. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. temperados . que vai do fenômeno à lei. a essência da coisa. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. porém. Praticamente. honestos.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. foram: "Devemos um galo a Esculápio". que remonta do indivíduo à noção universal. Declarado culpado por uma pequena minoria. No segundo caso. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. a liberdade de seus discursos. Sócrates adotava sempre o diálogo. a natureza. bem como de certos elementos racionários. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. tomou forma jurídica. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. Quanto à família. inimizades pessoais.32 gravemente ferido. eliminar-lhes as diferenças individuais. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. Diante da tirania popular. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. criaram descontentamento geral. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. na acusação movida contra ele por Mileto. por certo. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. multiplicava ainda as perguntas. apesar de sua probidade. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria.

bem como o seu biógrafo genial. que a promulgou e sancionou. pedreiro o que sabe edificar.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. que se concretizava. Com efeito. que facilitava a parturição das idéias. é a prática da virtude. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. b) com o argumento. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. em geral. da causa eficiente: se o homem é inteligente. Como é sabido. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. ignorância e vício são sinônimos. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. Em teodicéia. Sócrates reconhece também. que é o desejo da ciência mediante a virtude. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. em memória da profissão materna. também inteligente deve ser a causa que o produziu. Como os sofistas. um conceito. universal. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. autor de Anábase. de feição intelectual muito diferente. ele é cético a respeito da cosmologia e. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. "Conhece-te a ti mesmo" . O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. fim supremo do homem. virtude e ciência. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. antes. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio.como sendo o ápice da sabedoria. É a parte culminante da sua filosofia. uma definição geral do objeto em questão. distingue as duas ordens de conhecimento. Platão. "Se músico é o que sabe música. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. justo será o que sabe a justiça". Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. uma das mais características da moral socrática. Deus não só existe. sendo mais um homem de ação do que um pensador. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. identificando a vontade com a inteligência. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. Moral. um legislador. apenas esboçado. a respeito da metafísica. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. mas não define o livre arbítrio. mas sem profundidade. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. Seja como for. . fonte primordial de todo direito positivo. Xenofonte. acima das leis mutáveis e escritas.33 obter. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. Apesar destas doutrinas elevadas. por indução dos casos particulares e concretos.isto é. Em psicologia. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. de estilo simples e harmonioso. com ela se identifica. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. com finalidades práticas. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. A este processo pedagógico. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. torna-te consciente de tua ignorância . em seus Ditos Memoráveis. Sócrates não deixou nada escrito. a existência de uma lei natural independente do arbítrio humano. sensitivo e intelectual. Xenofonte. morais. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. Esta doutrina. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. mas é também Providência. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. Sócrates. pelo contrário. espiritual. em prática. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar.

É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. da crítica. A filosofia socrática. esta felicidade. que declara auxiliar os partos do espírito. o ignorante.Sócrates não sabe. ceticismo sistemático. por Aristóteles. opinião comum. ignorância. Antes de tudo. científico. Traçou. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. donde é preciso extraí-la.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. remontar do particular ao universal. desenvolverão uma gnosiologia acabada.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. razão. o itinerário. que está contra todo voluntarismo. A gnosiologia de Sócrates. partindo dos pressupostos socráticos. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. por conseguinte. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. malvado. rotina. por sua vez. isto é. portanto. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. consciência da própria ignorância inicial e. todavia.que não é absolutamente subjetivista. em particular da ciência moral. de fato. para realizar o próprio fim. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. Tudo isto tem que ser criticado. racionalismo.tornava impossível o livre arbítrio. a qual é um valor universal. costume. é mister conhecê-lo. esta intimidade da ciência . Este conceito é. não descendo até à animalidade . antes de tudo. porém. subindo até à razão. no dizer de Sócrates. mediante a doutrina do conceito.bem como ignorância e vício . do teorético. Mas. mediante a razão. mas apenas metódico. mas é a certeza objetiva da própria razão . opiniões. superado. um poderoso impulso para o saber. Esta interioridade do saber. não sentimento. logo. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. tradição.como ensinavam os sofistas. identificando conhecimento e virtude . e nos dá a essência da realidade. de par com os sofistas. definição. mas dirigida para os valores universais. nem pode precisar este bem.bem como o conhecer humano .34 trata-se. É a famosa maiêutica de Sócrates. Entretanto. a ciência. que será percorrido por Platão e acabado. uma moral. uma grande metafísica e. consciência de si mesmo quer dizer. totalmente. no entanto. no pensamento de Sócrates. enfim. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. a indução: isto é. para organizar racionalmente a própria vida. determinado precisamente mediante a definição. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. dos preconceitos. reivindica a independência da autoridade e da tradição. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. não de direito. O fim da filosofia é a moral. o prático depende. conceptual é. ação racional. antes de tudo. Se o fim do homem for o bem . portanto. Esta ignorância não é. dada a sua revalidação da ciência. Virtude é inteligência. Estes dois filósofos. pela ausência de uma metafísica. precisamente porque lhe falta uma metafísica. ainda que com finalidade diversa. para construir uma ética é necessário uma teoria. a favor da reflexão livre e da convicção racional. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. de um ceticismo de fato. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. pragmatismo. depois. introspecção. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. lei positiva. não o seu conteúdo. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. maiêutica. não particulares.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. Vale dizer que o agir humano .realizando-se o bem mediante a virtude. limita-se à gnosiologia e à ética. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. assim é o fundador. embora o pensamento socrático fique. Entretanto. precisa . este é o momento da ironia. e a virtude mediante o conhecimento . A única ciência possível e útil é a ciência da prática. Sócrates. sentimentalismo. da experiência ao conceito. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. indução. significa precisamente consciência racional de si mesmo. sem metafísica. . da opinião à ciência. ativismo. pois. se o fim da filosofia é prático. ciência.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência.

porém. e culmina em Aristóteles. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. A escola cínica. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. total responsabilidade. dele depende. pois. fundada por Euclides (449-369). o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. que. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. 445). degenerou. Fora desta escola começa a decadência e desenvolverse-ão as escolas socráticas menores. mediante o pensamento socrático. mas um cidadão podia. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. nem deixou algo de escrito. em janeiro de 399 a.. tenha. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. fundada por Aristipo. fundada por Antístenes (n. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. A escola cirenaica ou hedonista. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. do povoado de Piteo.o conceito .mesmo diferenciando-se bastante entre si . 2. é culpado de corromper a juventude. de admirar que um homem. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. Dentre estes. e. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. E. hábil ou temível. c. vemos que Sócrates. alguns. pela novidade de suas idéias. ao se aproximar do Pórtico do Rei. também. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. por último. no entanto. como Alcibíades e Eurípedes. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . assumindo. No Eutífron. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. descobriu o método e fundou uma grande escola. a qual. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. durante o segundo período. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. A escola socrática maior é a platônica. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. c. sustentando-o com a autoridade de seu nome. onde fora afixada a acusação por Meleto. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). Não é. neste caso. 3. Por isso. do povoado de Alópece. Estas . como Xenofonte. além de simples amadores. mas não só ele. (n. também Ânito e Lícon. A escola de Megara. mas somente aquele que assinava a acusação. Entre os seus numerosos discípulos. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. filho de Sofronisco. que. porém. de introduzir novos cultos. Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. verdadeiros continuadores da tradição socrática. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. das quais as mais conhecidas são: 1. o herdeiro genuíno de suas idéias. Dentre os herdeiros de Sócrates. respondeu: .35 Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. contra Sócrates. filho de Meleto.C. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. Estas escolas. direta ou indiretamente. vegetaram na penumbra. toda a especulação grega que se seguiu. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . Meleto era o acusador oficial.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. O acusador era Meleto. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. São fundadores das escolas socráticas menores. a acusação apresentada contra Sócrates.

poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. em que Zeus era o deus-pai. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. afirmara-se o culto patriarcal. Tanto isso é verdade que. por ordem dos Trinta Tiranos. em sua defesa. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes.C. e sim afastá-lo de Atenas. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. em 404 a. Ânito manteve relação com Sócrates. o mais importante dos acusadores. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. condenado. se quiseres me ouvir.C. comerciante de couro. regressou de File com estes e tomou parte da expedição armada contra o governo dos tiranos. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. Acredito chamar-se Meleto. Ânito. segundo comprova sua atuação no Mênon. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. não disse que Meleto era um desses homens. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. Julgar tratar-se do Meleto que. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos.. e sim escrita por Platão. logicamente. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. A bem da verdade. nascera por volta de – 150 a. Mas não há elementos em que basear essa suposição. que tenhas cuidado". À parte o problema da mudança de lado .C. Ânito era filho de Antemione.36 "Sei bem pouco a respeito dele. de cabelos lisos. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. não era matá-lo. Desde a época de Sócrates. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. mediante palavras e atos. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. do povoado de Piteo.C.C. já então tido como um fanático religioso. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. fique apenas no campo da suposição. o líder máximo. vindo a ser. juntamente com Trasíbulo e outros. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. Sócrates dera.C. se prestaram a deter Leon de Salamina. O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. sendo estratego em 410 a. . em 399 a.. Contudo. que se vale do nome de Meleto. nessa época de instalação do regime democrático. pois um jovem poeta de 399 a. Portanto. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro".de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. como o próprio Sócrates repete. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. existe outro obstáculo. seria muito conveniente. e eu te aconselho. isto é. um movimento reacionário em termos de culto. Desse modo.. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. é aquele que. ó Sócrates. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. mas sim por questões evidentemente políticas. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço. não resta dúvida. dava a impressão de conhecer Sócrates. embora. o qual. por conseguinte. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas. existem muitas dúvidas. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. por sua vez. Mas é preciso frisar que o propósito. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. fora discípulo de Anaxágoras. já que nada corrobora realmente esta pretensão. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. No que concerne à condenação por motivos religiosos. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. Depois da restauração do regime democrático. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens.

a mim próprio. o Deus-Agnes. porém. e não se pode afirmar. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. Réia vem a ser adorada como Hera. pelos testemunhos que possuímos. isto é. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico.37 Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. representa Hécate. em seus três aspectos: lua crescente. pois com freqüência era visto discutindo em público. Dessa maneira. isso presumindo que existisse alguma. revela-se. de fato. desprezando a economia doméstica e a riqueza. outro aspecto de Zeus. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. seus instrumentos de fertilização e prazer. bem pouco confiável. Uma. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocálos de novo à luz do dia". embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. e não os novos fatos. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. e seus aspectos: marinho. esposa de Cronos. durante o mandato dos Trinta. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. e permanece virgem. havia sido seu discípulo. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. Anfitrite é esposa de Posêidon. Portanto. o mais feroz dos Tiranos. um dos aspectos de Zeus. seu filho. não corarem . e também Alcebíades. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. como Anfitrite. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. não disseram nenhuma. que era sempre devorado pelo tempo. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. lunar e noturno. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. enquanto Sócrates pôde permanecer. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. Ademais. sobretudo. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. porém. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. portanto. Crísias. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. quanto a Cérbero. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. Querofonte foi obrigado a se exilar. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. Ártemis é filha de Zeus. Ártemis e Cérbero. assim. Com efeito. em seu comentário à Apologia. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. A Tripla Deusa. minianos e jônios. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. De verdades. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. O que significava aquela sabedoria. venerada como Réia. insiste no fato de que. lua cheia a lua minguante. e a argumentação de Burnet. quase me fizeram esquecer quem sou. ou o Agnos-Deus. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. e os jovens. Preâmbulo Desconheço atenienses. Zagreus torna-se Zeus.

Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. que especula a respeito das coisas do céu. porém. não a estranheis nem vos revolteis por isso. exceto o de um comediógrafo. repito-o. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. ao ouvi-los. sinto-me. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. o de um orador. que esquadrinha todos os segredos obscuros. eu admitiria que. sempre faltando com a verdade. sou um orador. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. como crianças que deviam ser educadas. ó atenienses. se ouvirdes. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. os que me acusam há pouco tempo. nos termos que me ocorrerem. atenienses. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. senhores. Estes. se é o que entendem. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. Se eu fosse de fato um estrangeiro. e. nem espere outra coisa qualquer um de vós. e de outro. ao mostrar-me um orador nada formidável. que poderia ser talvez pior. em contraste com eles. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. ó cidadãos. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. homem de muita sabedoria. Verdadeiramente. esses todos não podem ser encontrados. que propalaram essas coisas acerca de mim. serão expressões espontâneas. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. . e assim. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. para a minha linguagem. que é de justiça a meu ver. na minha defesa. em resumo. onde tantos dentre vós me haveis escutado. em dizer a verdade. e acusar de mentiroso a quem não responde. será excelente para vós e para mim. procuraram colocar-vos contra mim. talvez melhor. uma súplica premente. acusaram-me obstinadamente. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. Portanto. o que é mais grave. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. sem que eu contasse com alguém para me defender. e assim descobrirei se aquela calúnia. e. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. Nisso reside o mérito de um juiz. um pedido. em verdade. possa ser extirpada. Mas não por Zeus. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. portanto. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. junto das bancas. de mim. que martiriza meu coração há tanto tempo. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. Seja como for. Mas os primeiros são muito mais perigosos. atenienses. porque. em estilo florido. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. contudo. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. E se eu for bem-sucedido. vós ouvireis a verdade inteira. porém os outros – os que. aprimorados em substantivos e verbos. porque deposito confiança na justiça do que digo. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. ó atenienses. ó atenienses. nem acusar ninguém por difamação. e em outros lugares. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. não ouvireis discursos como os deles. completamente estrangeiro à linguagem do local.38 de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. são os acusadores que mais receio. Faço-vos. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. pois à lei é necessário obedecer e defender-se. de verdades eles não disseram alguma. Defender-me-ei. assim. A Defesa de Sócrates Enunciado Diversidade Entre Duas Categorias de Acusadores: os Antigos e os Recentes Em princípio. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. embora estes sejam acusadores perigosos.

O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. e. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. receio possuir esta única sabedoria. Mesmo que.39 Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. e sem ter de gastar dinheiro. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. Ó atenienses. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. ó atenienses. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. e o soube por intermédio de Cálias. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. Perguntei a ele: – Cálias. afirmando que caminha em cima das nuvens. ou seja. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. Ouvi também referências a outro homem. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. Ao . ó atenienses. acompanhando Meleto. mais ainda. Escutai-me. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. No íntimo. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. se muitos te acusaram. contudo eu não sei. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. que educação. e recorro à maioria de vós para que sirvam de testemunhas. que não consigo compreender nem um pouco. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". estou falando sério. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. portanto. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. e outro amontoado de tolices. uma sabedoria estritamente humana. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. não. Não faltaria quem. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. E a respeito de ser sábio. mas teus filhos são homens. aos quais seria mais fácil. filho de Hipônico. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. isto também não passa de mentira. que não me ocupo desses assuntos. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. parabenizei esse tal de Eveno. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. A acusação possui mais ou menos este teor. – E quem é ele? – indaguei-lhe. de Paros. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando.

as que considerava mais bem construídas. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. analisando e raciocinando em conjunto. ó atenienses. podíamos não saber nada de bom. Resumindo. dizia a mim mesmo. que nós. Pesquisa Junto aos Poetas Não obstante isso. de quem vos falava há pouco. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. basta dizer que era um de nossos políticos –. porque não sei. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. ó atenienses. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte." Por isso. e quem diz o contrário mente. Por fim. ó cidadãos. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. E longamente me mantive nesta dúvida. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. apenas com o intuito de caluniar-me. comecei a investigar acerca disso. fui procurar os poetas. também não julgava saber. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. sem fama alguma. enquanto eu. fiz a experiência que irei descrever-vos. ó atenienses. contudo. eu e ele. invocarei como testemunha. enfim. Em vista disso. ao contrário. mas aquele acreditava saber e não sabia. Estou com vergonha. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. juntamente com muitos outros. com desagrado e assombro. mas talvez não o fosse de verdade. se me afiguraram melhores e mais sábios. devo dizervos de novo a verdade. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. a partir daquele momento. mas afirmo que não a conheço. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". como não sabia. fosse mais sábio que ele. pois ele não pode mentir". e este homem aparentava ser sábio. e de sua natureza. em virtude de este haver falecido. e também este me dedicou ódio. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. E outros. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. continuei diligentemente com minha pesquisa. ao menos numa pequena coisa. Aí procurei um outro. pareceram-me quase todos em maior erro. não só ele passou a me odiar. não o era. neste sentido. Peço-vos para não fazer algazarra. Peguei suas melhores poesias. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. nem de belo. o próprio deus de Delfos. conforme a palavra do deus. e tive a impressão de que. De minha sabedoria. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". embora notando. se de fato se trata de sabedoria. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. ou seja. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobrehumana. que todos passaram a me odiar e que. . Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. Após ter ouvido a resposta do oráculo. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. como também muitos dos que se encontravam presentes. este com que. nem acredito sabê-lo. Em seguida aos políticos.40 passo que esses. diante de vós. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. conforme minha pesquisa. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. ao arrepio de minha vontade. que não é meu depoimento. Todos vós conheceis Querefonte. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo.

é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. como se tivesse dito: "Ó homens. nada respondem. Logicamente. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. ó atenienses. igualmente a Sócrates. e então. ao afirmar que Sócrates é sábio. por sua própria conta. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. e. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. cada um deles julgava-se extremamente sábio. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". naturalmente. é outra. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. De forma que eu. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. e ele quer dizer. toda vez que participava de uma discussão. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. ambiciosos. e isto eu percebi com clareza. em nome do oráculo. ambas as coisas. E compreendi também que os poetas. Porém. analisar alguma pessoa. os filhos das famílias mais ricas. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. que dizem de fato muitas coisas belas. dirigi-me aos artesãos. por intermédio de seu oráculo. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas.41 diante disto. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. Sócrates. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. A verdade. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. seguem-me de livre e espontânea vontade. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. só para não evidenciar que estão confusos. como eles. inúmeras vezes procuram imitar-me e tentam. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. a fama de sábio. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. de acordo com a palavra do deus. dominados pela paixão e numerosos como são. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. Desta maneira. e. mas não conhecem nada do que dizem. E não me equivoquei. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. e entre as calúnias. mas só usa meu nome como exemplo. porém. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. como os adivinhos e vaticinadores. e nisso eram mais sábios do que eu. porque. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. é o que ocorre entre os poetas. porque o desconhecem. pelo fato de fazerem poesias. náo se refere propriamente a mim. como acho que ninguém o seja. A verdade. é muito sábio entre vós aquele que. não querem dizer a verdade. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. porém. com a certeza de ser mais sábio que eles. sem escrúpulo . E se alguém indaga: "Afinal. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". Então afastei-me deles. e aproximadamente o mesmo. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. eles conheciam coisas que eu não conhecia. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. porém.

SÓCRATES: — Dize. Meleto afirma que corrompo a juventude. analisemos também o ato de acusação deste. ó atenienses. que o réu é o próprio Meleto. conforme afirmas. nunca se preocupou. É isto que queres dizer? crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". e recebereis sempre a mesma resposta. Meleto. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. . então. deve ter conhecimento. os juizes. também estes. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. em primeiro lugar. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. lançaramse contra mim Meleto. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. na verdade.42 algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. Portanto. de não crer nos deuses nos quais a cidade Analisemos esta acusação minuciosamente. como ficas calado. Meleto. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. sou eu quem os corrompe. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. SÓCRATES: — Quer dizer. é outra prova de que digo a verdade. Com certeza o sabes. exceto eu. nem mesmo esquivando-me dela. das leis. Meleto. Lícon por causa dos oradores. SÓCRATES: — Afirmas. MELETO: — Estes. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. SÓCRATES: — Não se trata disto. Esta é. então. todos. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. e dos acusadores que virão depois. mostra-te e responde. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. e eu digo. ó cidadãos. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. Indago-te qual é o homem que. a verdade. e eu a revelo por completo. como vos disse desde o início. finalmente. Este é o motivo pelo qual. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. sem ocultar-vos nada. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. então. ó Sócrates. SÓCRATES: — Dizes bem. agora ou depois. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. meu amigo. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. SÓCRATES: — Crês que todos. aos juizes o que os torna melhores. como ele mesmo se define. conforme dizes. Vês. dize aos juizes o que os faz melhores. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. homem digno e patriota. Indagai quanto quiserdes. Vamos. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. Contudo. procurarei em seguida defender-me de Meleto. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. ó excelente homem. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. Por sinal.

pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. de que maneira. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. no caso de saber disso. mas sim que faça com que seja afastado. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. uma vez advertido. cidadãos de Atenas. principalmente àqueles mais próximos deles. e que os bons façam o bem. que somente um os torne melhores. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. não sou ateu e. mesmo que não sejam os da cidade. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. Agora dize-me. ó juizes. então. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. pois se naqueles que acredito são deuses. e é claro que. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. realmente. não corrompo os jovens. Meleto. responde. de maneira que em ambos os casos mentes. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. eu corrompo a juventude? Não o faço. ou poucos. Apesar disso. por conseguinte. faço-o sem querer. excelente homem. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. ó Meleto. tanto para mim como para estes juizes. de acordo com tua opinião. não é difícil o que te pergunto. Meleto. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. ó Meleto. tua sabedoria sendo maior que a minha. tendo eu os anos que tenho. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. SÓCRATES: — Então. dize-nos. não posso ser culpado disso. conforme dizes. ou. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. por faltas involuntárias. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. Se eu os corrompo sem querer. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. aqueles que são peritos em cavalos. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. ao contrário. não mais farei o que fazia sem querer. Mais ainda. e sim outros. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? 43 . é por causa disso que me trazes a este tribunal. prossegue. a fim de advertir-me ou censurar-me. SÓCRATES: — Quer dizer. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. eu digo exatamente isto. ó Meleto. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. se os corrompo. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. o que mais convém. Também a lei deseja que respondas. MELETO: — Exatamente isto. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. e não censurados. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens.Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. ó Meleto. explica-te com maior clareza. da mesma maneira que os outros homens. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. Mas. Ou seja. mas em outras divindades novas? Não é. na tua idade.

ó atenienses. se não queres responder. e se algo me causará . desde o início. de outra forma. Na verdade. se estes demônios são filhos dos deuses. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. eu mesmo Ó atenienses. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. se este as apresentasse como suas. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. mesmo se fraco de intelecto. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. é verdade. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. já que não contestas. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. então. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. não é assim? Com certeza é assim. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca 44 na existência de cavalos. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. ó Meleto. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. quando declaras que eu. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. se estes demônios são deuses. nem em deuses. e naquilo que afirmas. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. como já vos exortei no começo. Mas se acredito em coisas demoníacas. Responde. vós sabeis. exceto que haja sido para pôr-me à prova. Há quem não acredite respondo. E vós. é impossível. E isto significa desejo de se divertir. Obedecer ao Deus Chega. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. devo obrigatoriamente crer em demônios. e vindo de muitas pessoas. uma vez que digo existirem demônios. SÓCRATES: — Pensas. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. mas também de acreditar nos deuses". pois não se faz necessária uma defesa muito longa. Permanecer no Lugar Adequado. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. ó atenienses. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. nem em heróis. Meleto. a ti e aos outros que aqui se encontram. ó atenienses. Por isso. Portanto. embora não acreditando na existência dos deuses. SÓCRATES: — Ora. afirmo a sua existência. O que eu vos disse. se afirmas que existem demônios. meu bom Meleto. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. Parece-me que aceitas. De outra forma. com certeza. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. ó Meleto. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. Existe alguém. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. parece-me que Meleto se contradiz na acusação.aquele grande sábio. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. isto é impossível. ó Meleto. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes.

mas o interrogaria. não será nem Meleto nem Ânito. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. mesmo sendo pequeno. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. Seria algo. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. tendo a capacidade de fazer algum bem. e enquanto for capaz. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. em verdade. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. ou. ao contrário. ninguém sabe se. e declarou: 'Rapidamente eu morra. morrerás". tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. também nada penso saber a esse respeito. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. ao passo que em Potidéia. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. Ao ouvir tais palavras. não havendo perigo que causem somente a minha perda. porque. se. também morrerás'. não o deixaria afastar-se nem iria embora. somente por isto o diria. ao receber ordens do deus. aí. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. que onde alguém se haja instalado. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. não pretendemos dar. ateniense. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. atenção a Ânito e deixamos-te livre. nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. quando sua mãe. e enquanto tiver ânimo. de fato. se bem me lembro: 'Ó filho. que era impossível não condenar-me à morte. anormal e. contra a vontade de Ânito que. esta calúnia e esta raiva das pessoas. como dizia. a mais vergonhosa das ignorâncias. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. Por isso. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. agora. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. assim diria: "E tu. como qualquer outro. eu vos responderia: "Ó atenienses. e. da verdade e da tua alma. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. contudo. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. tamanho desdém mostrou pelo perigo. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. e se me afigurasse que não possui . à exceção de na desonra e na vergonha. uma vez aqui trazido. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. acreditar saber o que não se sabe? Ora. E não é ignorância. E. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. ó cidadãos. digo. acredito. por acaso. nem te ocupes mais de filosofia. disse-lhe. tu. ó atenienses. mesmo que me concedesses a liberdade. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. atenienses. sem se envergonhar. Declaro-vos. aqui. dizia. se consigo safar-me da condenação. se. Portanto. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. o impugnaria. que és o melhor dos homens. conversando da minha maneira habitual. arriscando minha vida. ao ouvir este raciocínio de Ânito. o analisaria. logo após ter castigado a quem matou. sem te preocupar em cuidar da inteligência. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. estando ele ávido do sangue de Heitor. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. que. daquele momento em diante. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. não pararei de filosofar. mas sim este ódio. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. e a quem quer que eu encontrasse de vós. outros ainda irão perder. eu vos amo. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. atenienses. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. Por outro lado. creio. desde o começo. seja deus. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. em qualquer ocasião. repito. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. uma deusa. com esta condição me deixásseis em liberdade. me dissésseis: "Ó Sócrates.45 dano. seja homem. lá fiquei. Com efeito. Anfípolis e Délio. já que desobedece ao oráculo. fama e honras. nem em outra desgraça qualquer. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. acompanhando este teu raciocínio.

eu dou: a minha pobreza. condenar-me-eis à morte. erguereis a voz. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. permiti que vos diga. mas. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. em todo lugar. não o creio eu. e também com vós. então diz coisas insensatas. e depois. contra o dom do deus. Poderá sim. ó atenienses. desta não tiveram o despudor de me acusar. nunca paro de exortar-vos.46 virtude mas apenas afirma possuí-la. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. Pois se me matardes. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. ó cidadãos. que me sois mais estritamente próximos. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. que não necessitais pecar. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. mas falo por vós. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. vós não desconheceis. pois. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. e se desejais me ouvir. jovens e velhos. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. isto significará que minhas palavras são nocivas. Ânito. creio que vos será útil escutar. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. mesmo que não só uma. Isto. por obediência a Ânito. às quais. Convencei-vos: se me condenardes à morte. atenienses ou estrangeiros. a mim que sou como vos disse. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. mas vistes que meus detratores. absolver-me-eis ou não. Não promoveis algazarra. me poreis a salvo. aí sim haveria uma razão. É como uma voz que possuo dentro de mim . no decorrer de todo o resto de vossa existência. Afirmo. um por um. aponta no ato da acusação. de convencer-vos. Em verdade. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. de maneira alguma estou falando em minha defesa. Logo. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. Não. como alguém poderia achar. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. ó atenienses. ao contrário. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. também Meleto. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. a respeito do qual. dormireis tranqüilamente. não riam da comparação. para convencer-vos a buscar a virtude. não fazei assim. condenar-me à morte. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. ou não dareis. Ademais. então me falte coragem. de falar-vos. nem com as riquezas. talvez. mas que vos limitásseis a ouvir. e sempre. que outro como eu não nascerá facilmente. de qualquer forma. e de que das riquezas não se origina a virtude. espoliar-me dos direitos civis. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. E nem o poderiam. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. que. estando a vosso lado. se. somente uma. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. pondo-me frente a frente com uma testemunha. as infames. mas muito mais vezes devesse morrer. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. a fim de que ela se torne excelente e muito virtuosa. mas pelo seu próprio tamanho. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. cuidando das vossas. condenando-me à morte. com jeito de estar se divertindo. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. um ferrão. está certo. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. ou ao desterro. Por tudo isso.

Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. eu já teria morrido. demonstrei que a morte. estou pronto a morrer. se de fato pretende escapar da morte. levaramnos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. e. mas de não cometer injustiças ou crueldades. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. mesmo que por breve tempo. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. ó cidadãos. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. depois que surgiu a oligarquia.47 desde criança. e votei contra. e que. tanto em público. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. nunca me refutaram. seja jovem. não me obrigou a cometer um ato injusto. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. se entre os homens que me freqüentam. fico calado.Então eu me opus. Diante disso. além de não ceder. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. e a mais outros quatros. para que este viesse a morrer. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. não me atemorizou. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. e sim com fatos. pobres e ricos. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. lutando para que nada fosse feito contra a lei. ó cidadãos. principalmente se é uma pessoa que . nem nunca ensinei coisa alguma. a ninguém. como privadamente. os Trinta mandaram-me chamar. Sabeis perfeitamente. porque estou da mesma maneira à disposição de todos. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. isto sim me importa acima de qualquer coisa. fazendo-o como homem de bem. se a palavra não soar por demais vulgar. seja velho. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. em particular. atenienses. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. não digo a vós. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. em toda minha existência. meu dever mais alto? Com certeza. O Testemunho dos Discípulos. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. por algum tempo. E não me desprezei se falo assim. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. Nunca fui mestre de quem. pois é a verdade. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. Mais tarde. eu falo e se não recebo. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. um se torne de boa formação moral ou não. deixei-os ir e voltei para casa. como é necessário. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. e não palavras. apesar de prepotente. e não é verdade que. se recebo dinheiro. me ocupado dos negócios de Estado. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. Por conseguinte. mas do que mais necessitais: fatos.E aquele governo. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. que se eu tivesse. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. sempre fui o mesmo. quer que seja. mas com sinceridade. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. deseja escutar-me. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. Tendes conhecimento. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. não possui importância alguma para mim. mas a qualquer outra multidão. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam . exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. Acredito que só por causa disso. nem por vós nem por mim. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. e vós a intigá-los e a gritar. toda vez que eu a ouço. e que. E naquela ocasião. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. ó cidadãos. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. ao arrepio da lei. não com palavras. Falarei um pouco grosseiramente.

e também Lisânias de Esfeto. seria vergonhoso. Sócrates se distingue da maioria dos homens. seria ainda necessário que estes. enraivecido com minha atitude. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. se procedessem dessa maneira. que os apresente agora. envergonham a toda a cidade. eu também trouxe alguém da minha família. e outros. ao pensar em si mesmo. nem por desprezo. e Aantodoro. e. cumpro as ordens do deus. se já corrompi algum.e ainda Antífon de Cefísia. É possível que alguém entre vós. . nem de pedra nasci. que se manifeste. não é desagradável. quando eram réus em um processo. que são agora anciãos. os corrompidos. de quem ali se encontra o irmão Platão. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. desta forma. vereis que todos farão o contrário. ou por outra virtude qualquer. ainda mais na minha idade e com o meu nome. filho de Teozótides. que talvez esteja entre vós. pai de Epígeno. mas de criaturas humanas'. mas aqueles que não foram corrompidos. emita seu voto com raiva. suplicou clemência aos juizes. Nicóstrato. e pessoas desse tipo. Se de fato eu corrompo os jovens. e algumas mais. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. Muitos destes estão presentes. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. algum dia. eu os vejo. embora. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. enfim. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. um já crescido e dois ainda crianças. embora possuíssem alguma boa reputação. Por isso. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. Ao fazer isso. tenho três filhos. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. ao envelhecerem. Ali está Críton. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. ao que parece.É possível que alguém. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. não afirmo categoricamente que há. e aí está Parálio. se nos comportássemos assim. ao passo que eu não me porto desta maneira. não me pareceu honroso agir dessa maneira. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. cedo-lhe o lugar. são estas. pais. E não é por orgulho que me comporto assim. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. e. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". E estas coisas. se ele se esqueceu disso. e como Teódoto faleceu. Eu também possuo família. porque corre pela cidade que. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. como afirmam Meleto e Ânito. irmão de Teódoto. e que me fizessem pagar por isso. se não quisessem fazê-lo diretamente. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. ó atenienses. eu mesmo presenciei muitas vezes. E poderia nomear muitos outros. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. com seu filho Ésquino. verdadeiro ou falso que seja.de quem era irmão Teages. as razões que posso apresentar em minha defesa. Talvez esses. se existe alguma testemunha deste tipo. A uma pessoa assim. repito-vos. ó atenienses. que. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. Com efeito. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. não poderá falar com o irmão a meu favor. deixar-nos fazê-lo. mas pela minha reputação. além disso. Porém. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. são verdadeiras e demonstráveis. todos falarão a favor do corruptor. Ora. mas sim mostrar a todos que julgais com . possa irritar-se comigo se. irmãos. tenham alguma razão para me defender. filho de Aríston. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. em quaisquer aspectos. atenienses. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa.48 serem sábios e não o são. esteja arriscando a vida . e ali estão outros. pela vossa e de toda a cidade. Estes. Nem vos conviria. sim. são bem poucos diferentes destas. ao fazer intimamente esta comparação. têm atitudes excepcionais. porém. filho de Demódoco. e ali Adimanto. nem para provar que sou corajoso diante da mote.

mediante súplicas. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer.49 maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. Porque estes vos proporcionam felicidade. mas algo bastante diferente. Portanto. e não precisam ser sustentados como eu precioso. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. mas que farão justiça de acordo com as leis. não faremos coisas boas e piedosas. e sim em mais. e também a mim. com o que acaba de ocorrer. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. com cavalo. ó atenienses. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. ó cidadãos. e mesmo assim não logrei convencer-vos. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. estaríeis convencidos. e eu menos ainda. O que. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. tentando convencer-vos de que. e. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. o de terem votado pela minha condenação. de acordo com o direito. mas sim infomá-los e convencê-los. ó atenienses. e ao do deus. mas. e não só haver escapado delas. peço se alimentado no Pritaneu. se é que devo ser recompensado como mereço. Portanto. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . penso haver escapado das mãos de Meleto. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. aqui presente. não é necessário que vos habitueis a isso. por não haver usufruído em paz. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. E é justamente o contrário que sucede. Contudo. isso deve-se. entre outras razões. devo pedir. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. então. julgar o que será para vós e para mim o melhor. que pena apresentarei em oposição à vossa. de impiedade. eu vos ensinaria que. ó atenienses. mesmo nestas minhas palavras de agora. Porque é evidente que se eu. biga ou quadriga. mesmo assim. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. aquilo a que faço jus. tentar influir nos juízes e. ó cidadãos. E acredito que se houvesse leis entre nós. riquezas. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. interesses particulares. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. não é isso. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. então. Ao que me parece. injustos e vis. o que aprendi. ao longo da minha existência. eu que sou acusado por Meleto. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. e deixo a vosso critério. e não por tão poucos. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. Este homem. no entanto. E eu. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. Não iríeis querer então. seria culpado de não crer nos deuses. o que é bastante evidente. Não. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo . Não considero justo. pensa que mereço a pena capital. como as que há entre outros povos. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. desta acusação. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. Se. livrar-me da condenação. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. mas para julgar o justo. nem vos nem eu.

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escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso, a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior, porque não possuo dinheiro para pagá-la. Pedirei o exílio? Sim, talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. Porém, em verdade, ó atenienses, eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio, que enquanto vós, embora sendo meus concidadãos, não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos, e mais, que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela, que outros a agüentariam de bom grado? E ainda, atenienses, que excelente vida seria a minha, nesta idade, exilado, mudando sempre de país para país, perseguido em todos os lugares. Porque sei muito bem que aonde quer que eu vá, os jovens acorrerão a fim de me ouvir, como aqui, e, se eu os repelir, serão estes mesmos que me farão perseguir, convencendo os mais velhos; e se não os repelir, serei perseguido por seus pais e demais parentes. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto, ó Sócrates, não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. Porque, se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que, por conseguinte, não seria possível que eu vivesse em silêncio, não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem, meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais, e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida, se vos dissesse isto, acreditar-me-iam menos ainda. Contudo, é isto que vos digo, ó atenienses, porém é difícil convencer-vos. Por outro lado, não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. Se eu possuísse dinheiro, poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar, porque, assim, não teria me infligido mal algum. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso, exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. Portanto, multo-me em uma mina de prata. Mas vedes, ó atenienses, que Platão, Críton, Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas, que eles mesmos garantirão. Multo-me então em trinta minas. E esses homens, dignos de crédito e confiança, serão garantes dessa quantia.

Após a Condenação
Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco, atenienses, aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates, um sábio. Sim, chamar-me-ão de sábio, apesar de que eu não o seja, os que vos quiserem censurar. Se esperásseis mais algum tempo, a própria natureza satisfaria o vosso desejo. Bem sabeis a minha idade, já distante da vida e próxima da morte. Não dirijo essas palavras a todos vós, mas aos que votaram pela minha morte. Para esses mesmos, adito o seguinte: talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir, se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaramento, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm, tais como costumais ouvir dos outros. Ora, se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma, tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi; ao contrário, muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz, do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Quer no tribunal, quer na guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. Com efeito, é evidente que, nas batalhas, muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores; em cada perigo, tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. Não se tenha por difícil escapar à morte, porque muito mais difícil é escapar à maldade; ela corre mais ligeira que a morte. Neste momento, fomos apanhados, eu, que sou um velho vagaroso, pela mais lenta das duas, eu e os meus acusadores, ágeis e velozes, pela mais ligeira, a malvadez. Agora, vamos partir; eu, condenado por vós à morte; eles,

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condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Eu aceito a pena imposta; eles igualmente. Por certo, tinha de ser assim e penso que não houve excessos. Acerca do futuro, no entanto, quero fazer-vos um vaticínio, meus condenadores; de fato, eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor, quando estão para morrer. Eu vos afianço, homens que me mandais matar, que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será, por Zeus, muito mais duro que a pena capital que me impusestes. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida; mas o resultado será inteiramente oposto, eu vo-lo asseguro. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas; até agora eu os continha e vós não os percebíeis; eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens, e vossa irritação será maior. Se imaginais que, matando homens, evitareis que alguém vos repreenda a má vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, enm é inteiramente eficaz nem honrosa; esta outra, sim, é a mais honrosa e mais fácil; em vez de tapar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor possível. Com este vaticínio, despeço-me de vós que me condenastes.

Aos que o Absolveram
Com os que votaram pela absolvição, gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder, enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. Por conseguinte, senhores, ficai comigo mais um pouco; nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. Quero explicar-vos, como a amigos, o sentido exato de que me aconteceu agora. O que me ocorreu senhores juízes, a vós é que chamo com tino de juízes, foi algo prodigioso. A usual inspiração, a da divindade, sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas, quando eu ia cometer um erro; agora, porém, acaba de me ocorrer o que vós estais vendo, o que se poderia considerar, e há quem o faça, como o maior dos males; mas a advertência divina não se me opôs de manhã, ao sair de casa, nem enquanto subia aqui para o tribunal, nem quando ia dizer alguma coisa; no entanto, quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento, em nenhuma ação ou palavra. A que devo atribuir isso? Vou dizervos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. Disso tenho agora uma boa prova, porque a usual advertência não poderia deixar de oporse, se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada, e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que, se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e, contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida, pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite, bem posso imaginar que, já não digo um homem comum, mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. Logo, se a morte é isso, digo que é uma vantagem, porque, assim sendo, toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Se, do outro lado, a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos, que maior bem haveria que esse, senhores juízes? Se, ao chegar ao Hades, livre dessas pessoas que se intitulam juízes, a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que, segundo consta, lá distribuem a justiça, Minos,¹ Radamanto, Éaco, Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida, não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu,² Museu, Hesíodo e Homero? Por mm, estou pronto a morrer muitas vezes, se isso é verdade; eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso, quando encontrasse Palamedes, Ajax de Telamon e outros dos antigos, que tenham morrido por um sentença iníqua; não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e, o que é mais, passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá, a ver quem deles é sábio e quem, não o sendo, cuida que é. Quanto não se daria, senhores juízes, para sujeitar a exame aquele que

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comandou a imensa expedição contra Tróia, ou Ulisses, ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear, homens e mulheres, com quem seria uma felicidade indizível estar junto, conversando com eles, sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá, entre outros motivos, por serem imortais pelo resto do tempo, se a tradição está certa. Vós também, senhores juízes, deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há, para o homem bom, mal algum, quer na vida, quer na morte, e os deuses não descuidam de seu destino. O meu não é conseqüência do acaso; vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. Por isso é que a advertência nada me impediu. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar, mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. No entanto, só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem, castigai-os, atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um valor que não tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós assim agirdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e meus filhos também. Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue melhor destino, se eu, se vós, é segredo para todos, exceto para a divindade. ¹ Rei lendário de Creta, filho de Europa e de Zeus, marido de Pasífae, sábio legislador, juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. ² Célebre aedo da era pré-homérica, cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios, origem de seitas místicas, a que se deu o nome de orfismo. Platão A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates , que era filho do povo, Platão nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos e abastados, de antiga e nobre prosápia. Temperamento artístico e dialético - manifestação característica e suma do gênio grego - deu, na mocidade, livre curso ao seu talento poético, que o acompanhou durante a vida toda, manifestando-se na expressão estética de seus escritos; entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento, tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. Aos vinte anos, Platão travou relação com Sócrates - mais velho do que ele quarenta anos - e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Depois da morte do mestre, Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides, em Mégara. Daí deu início a suas viagens, e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Visitou o Egito, de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política; a Itália meridional, onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento); a Sicília, onde conheceu Dionísio o Antigo, tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion, cunhado daquele. Caído, porém, na desgraça do tirano pela sua fraqueza, foi vendido como escravo. Libertado graças a um amigo, voltou a Atenas. Em Atenas, pelo ano de 387, Platão fundava a sua célebre escola, que, dos jardins de Academo, onde surgiu, tomou o nome famoso de Academia. Adquiriu, perto de Colona, povoado da Ática, uma herdade, onde levantou um templo às Musas, que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio, até o tempo do imperador Justiniano (529 d.C.). Platão, ao contrário de Sócrates, interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo, após a morte de Dionísio o Antigo, voltou duas vezes - em 366 e em 361 - à Dion, esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. Estas duas viagens políticas a Siracusa, porém, não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou

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com desterro de Dion; na segunda, Platão foi preso por Dionísio, e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos, estando, então, Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Voltando para Atenas, Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras, atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo, da qual a filosofia - como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a.C., com oitenta anos de idade. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. Dos 35 diálogos, porém, que correm sob o seu nome, muitos são apócrifos, outros de autenticidade duvidosa. A forma dos escritos platônicos é o diálogo, transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. No fundador da Academia, o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. Faltamlhe ainda o rigor, a precisão, o método, a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates , até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal, que representa a evolução do pensamento platônico, do socratismo ao aristotelismo. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates, assim em Platão a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente, através da especulação, do conhecimento da ciência. Mas - diversamente de Sócrates, que limitava a pesquisa filosófica, conceptual, ao campo antropológico e moral - Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda a realidade. Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, em Platão é tornado especialmente vivo, angustioso, pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas; em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim, considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível, para o qual é atraído por um amor nostálgico, pelo eros platônico. Platão como Sócrates, parte do conhecimento empírico, sensível, da opinião do vulgo e dos sofistas, para chegar ao conhecimento intelectual, conceptual, universal e imutável. A gnosiologia platônica, porém, tem o caráter científico, filosófico, que falta a gnosiologia socrática, ainda que as conclusões sejam, mais ou menos, idênticas. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento, o conhecimento conceptual, porquanto no conhecimento humano, como efetivamente, apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. O conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, não pode explicar o conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, a imutabilidade, o absoluto (do conceito); e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser, os valores de beleza, verdade e bondade, que estão efetivamente presentes no espírito humano, e se distinguem diametralmente de seus opostos, fealdade, erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. Segundo Platão, o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível, particular, mutável e relativo, e o conhecimento intelectual, universal, imutável, absoluto, que ilumina o primeiro conhecimento, mas que dele não se pode derivar. A diferença essencial entre o conhecimento sensível, a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual, racional em geral, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro, não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso, cair no erro sem o saber; ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso, errôneo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim,

poder construir indutivamente o conceito da sensação. donde têm de ser oportunamente tirados. Aqui devemos lembrar que Platão.54 sem saber porque o estão. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . no seu valor. da opinião. precisamente porque é ciência. relembrar conforme a lei da associação. logo. inatos no espírito humano. material. os nossos conceitos são universais. em que vivemos. além do fenomenal. como também Platão. uma base e um fundamento reais. racional . que são os conceitos. negar a existência do fieri. personalizados.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. E. Sócrates estava convencido. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. diz que os conceitos são a priori. situado na esfera celeste.opinião verdadeira . aliás. no sentido platônico. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. um outro mundo de realidades. Deve. todavia.transcende inteiramente o mundo empírico. e sim a ocasião para fazê-los reviver.no dizer de Platão . para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na . não há ciência. Esse conhecimento. como as concebiam Heráclito e os sotistas . mas apenas é possível. existir. uma base real. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. Platão. alma de toda filosofia platônica. Todas as idéias existem num mundo separado. Este mundo ideal. imutáveis e eternos (Sócrates). necessários. formas abstratas do pensamento. tudo no mundo é individual. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. A ciência é objetiva. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. contigente e transitório (Heráclito). um objeto próprio: as idéias eternas e universais. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. de um lado. o saber sensível. A Metafísica As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. mas julgava. conhecimento das coisas pelas causas. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. com ele. o mundo dos inteligíveis. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. desenvolvendo. diversamente de Sócrates. pois. um conhecimento sensível verdadeiro . devido à sua natureza inferior. absoluto. isto é. portanto. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem.se possa de algum modo tirar o conceito universal. exagerando. do outro. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. As idéias não são. sensível. ao contrário. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. à opinião verdadeira. Do mesmo modo. um objeto adequado ao conhecimento conceptual. Estas realidades chamam-se Idéias. imutável. de que o saber intelectual transcende. relativa . Ora. não admite que da sensação . no máximo. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. ou alguns conceitos da mente. científico. Deste mundo material e contigente. dá ao conhecimento empírico.particular. que está no vértice. mutável. representações intelectuais. dá ao conhecimento racional. sem. Tal a célebre teoria das idéias. são realidades objetivas. conceptual. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada.

no sistema platônico. para ser verdadeiramente tal. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. pelo contrário. então. e mediante a morte libertadora. A alma não encontra no corpo o seu complemento. de natureza espiritual.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). Além disso. que o mortifica inteiramente. Desta personalidade e atividade criadora . deve existir um princípio de uma e outra. haveria. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. Segundo Platão. durante a vida terrena. começa e progride mediante a filosofia. Mas a alma está no corpo como num cárcere. dotado o Demiurgo o qual. ontológica) esclarecer. que residiria no abdome . que é papel da dialética (lógica real. unida a um corpo. esta libertação. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. Visto serem as idéias conceitos personalizados. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. ordenadora . Assim. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. de superioridade. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. a idéia do Bem. e a concupiscível (apetite). dotado de atividade sensitiva e vegetativa. na realidade. e é a opinião verdadeira. E. E. Logo. todavia. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. o seu instrumento adequado. embora superior à matéria. inteligível. que é separação espiritual da alma do corpo. A faculdade principal. Ele. isto é. e se realiza com a morte. de um mal radical. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. à qual comunica o movimento e a vida.assim como a alma racional residiria na cabeça. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. que residiria no peito. O mundo. e todos os valores (éticos. separando-se. a alma humana. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. as idéias e a matéria. religiosos e místicos. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos.55 sua efetiva realidade. Logo. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). deveria ser. sendo que a alma racional é.é. que se obtém mediante a divisão e a classificação. Portanto. como de um cárcere. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. resulta da síntese de dois princípios opostos. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. é inferior às idéias. a ordem e a harmonia. o cosmos platônico. e da qual depende totalmente a ação moral. que devem ser trabalhosamente relembradas. porquanto Platão é um pampsiquista. assim como o Demiurgo. que desvencilha para sempre a alma do corpo. serão universais. ao Demiurgo e à matéria). em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. Entretanto.ou. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. anima toda a realidade. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. segundo Platão. até violenta. melhor. No entanto. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. uma alma do . estando no vértice a idéia do Bem. pois. princípio de movimento e de ordem. a alma do corpo. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. tanto no homem como nos outros seres. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. libertar-se do corpo. de fato. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. O Mundo O mundo material. introduzindo no caos a alma. transferidos da ordem lógica à ontológica. e é o devir ordenado. donde dependem todas as demais idéias. quer dizer. em geral. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. são ordenadas em sistema hierárquico. o dever ser. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. é a realidade suprema. imutáveis. antes de tudo. As Almas A alma. Deve portanto. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria.

mas um obstáculo . que é. ao mesmo tempo. a contemplação. Agir moralmente é agir racionalmente. justiça . As que cometeram pecados expiáveis. informe. uma classificação.sobre a base da metafísica platônica da alma. e agir racionalmente é filosofar. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. ao mundo. dos filósofos. As que cometeram pecados inexpiáveis. 3. Da matéria . dos mistérios órfico-dionisíacos. em especial. é necessário que a alma racional domine. irracional. as dos filósofos. dependentes e inferiores. Entretanto. depois. passiva. juntamente com a sapiência. o universo sensível. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. donde a virtude da fortaleza. embora a esta naturalmente inferior. da razão. mas na sua final supressão. terminados os quais. a vontade no impulso. Da idéia . o mundo. as estrelas e os planetas. explicando-se deste modo o movimento circular deles. na morte. que domina também a grande concepção platônica. fortaleza. videntes de idéias. os astros. da razão. Em todo caso. segundo Platão. o destino da alma depende da sua filosofia. felicidade e virtude. por conseqüência. do bem e do mal. 2. na separação da alma do corpo. mas no da decadência. que aparecem no mundo. são esféricos. visto que a alma humana racional se acha. são a República. ao contrário. As que viveram conforme à justiça. depende da religião. e filosofar é suprimir o sensível. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo.56 mundo e. temperança. cravados em esferas ou anéis rodantes. condenadas eternamente. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento.ser. ao corpo. para receber a pena ou o prêmio merecidos. derivando daí a virtude da temperança. Noutras palavras. . morrer aos sentidos. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. encarnam-se de novo. beleza depende tudo quanto há de positivo. e domine também a alma irascível. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. tudo que há de negativo na experiência. de fato. Moral Segundo a psicologia platônica. eis o pensamento de Platão: em geral. e assim por diante. o Político e as Leis. ao redor. a saber. verdade. distingue ele três categorias de alma: 1. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. o mundo físico percorre uma grande evolução. partes da alma. chamadas depois cardeais . traça o seu estado ideal. mutável. espacial . No seu conjunto. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. a filosofia. as almas dos astros. a idéia. unida ao corpo e aos sentidos. etc. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. A terra está no centro.prudência. a alma concupiscível.indeterminada. Na República. para que se realize a sabedoria. um ciclo de dez mil anos. É a clássica concepção grega do eterno retorno. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. destarte. e. em forma de esfera e. o inteligível. a justiça.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. antes de tudo. pois. virtude fundamental. para o espírito. não no sentido do progresso. neste mundo. a virtude suma. a natureza do homem é racional. Temos. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. tudo recomeça de novo. dos homens. Em geral. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. da ordem e da desordem. transparentes. o reino do espírito. libertados da vida temporal para sempre. de racional no vir-a-ser da experiência. bondade. Quanto ao destino das almas depois da morte. conexa ao clássico dualismo grego. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. Consoante a astronomia platônica.depende. a única virtude verdadeiramente humana e racional. chegado o grande ano do mundo.

mas o sábio. não realiza tanto as obras exteriores. o bem espiritual dos cidadãos.pelo povo. antes de tudo. pois. enfim. a ordem ideal do mundo e.diz Platão . À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. ética. a sua finalidade primordial é pedagógico-espiritual. econômicos e. A música abrangendo também a poesia. a de organismo ético-transcendente. os guerreiros receberam a educação. segundo as virtudes que se referem a cada classe. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. e. pelo desprezo com que era considerado por Platão .57 Qual é. O grande.um altíssimo valor moral terreno. é necessária porquanto os trabalhos materiais. Platão foi levado a esta concepção política .ao menos positivamente . O estado deve. a dos produtores. e. mas . no organismo do estado.eticamente considerados. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. a dos guerreiros. se preocupa com espiritualizar os homens. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. também das outras duas classes. irascível e concupiscível no organismo humano. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional.consoante seu pensamento . não. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão.o trabalho material. Na concepção ideal. A essência do estado seria então. a distinção em classes. Entretanto.e pelos gregos em geral . à primeira vista. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. estas classes: a dos filósofos. Com efeito. A educação das classes superiores importa.o homem prático e empírico. Se a natureza do estado é. sobretudo. sociais. que Platão propugna para as classes superiores. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. porquanto representa precisamente . cabe a conservação econômica do estado.. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. sendo estes naturalmente superiores àqueles . corresponderiam respectivamente às almas racional. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. materialismo. da ginástica. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. por isso. em geral. o verdadeiro político não é . em castas. a ação oposta. Deveria ela equilibrar. . com a sua natureza gentil e civilizadora. o estado em nada se interessa . mas. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. idolatrando a grandeza moral. fundamentalmente. a direção da república. por conseguinte. portanto.agricultores e artesãos . político-religioso. consoante Platão. então.submetida às duas precedentes.não certamente por estes motivos. representado pelos filósofos. a ordem da sociedade humana. o indivíduo ao estado. e. tal instituição. fortificadora. como única e total expressão da eticidade transcendente. dos quais e juntamente com os quais. o pensador. consequentemente. todavia. pode causar impressão. das mulheres e dos filhos. pois. Na hierarquia das classes. a família. especialmente. porém. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. consistindo sua virtude apenas na obediência. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. Ao contrário. À classe dos produtores. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. música e ginástica. respectivamente. cuja formação é inteiramente material e subordinada. etc. por conseqüência. cultivada apenas para fins práticos e morais. privados. as quais. a história. todas as atividades presididas pelas Musas é. estar substancialmente nas mãos do estado. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. domésticos. a dominação e a riqueza. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. Segundo Platão. contemplam eles o mundo das idéias. estatais. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. pela plebe. promover. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores especialmente aos filósofos. educá-los para a virtude. essencialmente. Três são.tornada depois sinônimo de imanentismo. o fim supremo. pelo vulgo. servis. a riqueza. Platão reconhece a importância da ginástica. ascética do estado platônico. portanto. ateísmo . e estão. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. a educação deve. conhecem a realidade das coisas. o comunismo dos bens. mas dessemelhantes e desiguais. espiritual. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. a quem cabem as virtudes mais elevadas.

aceita francamente o politeísmo. No entanto. denominadas por Platão. impura fonte gnosiológica . Seu culto essencial é representado pela ciência e. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. encarnada em formas sensíveis. Vai-se acentuando a importância da experiência. pelos mitos fantásticos e imorais. narrados em torno dos deuses e dos heróis. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. sobreviveu-lhe por quase um milênio. e valorizando o elemento religioso positivo. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. conservar . animados e racionais. sucessores de Platão. . a Academia. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. média e nova.. como religião do seu estado ideal. que toma uma orientação cética. isto é. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais.dada esta sua inferior natureza teorética. como para o falso.). a arte nos atrai para o verdadeiro. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. na sua pureza lógica. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. pois.C. depois. Por conseqüência. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. como a ciência. Platão pode. mais ou menos. pois . É governada por discípulos. para o bem como para o mal. A Academia A escola filosófica fundada por Platão.torna-se outro tanto danosa no campo moral. que Platão já tinha valorizado no mito. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. conceptual.cronologicamente e logicamente .em antiga. Costuma-se dividi-la . teorético um. uma espécie de revelação superior. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. os assim chamados deuses visíveis.o Bem e as idéias .C. que foi um dos indícios da decadência grega. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. Entretanto. espiritual e ético. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. ou seja. Atuando cegamente sobre o sentimento. Segue-se na média academia. orienta-se para o ecletismo. nem sequer da religião assim chamada natural. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. Finalmente. O motivo prático é que a arte . A arte. semelhante à religião e ao amor. no conjunto do seu pensamento. subordinados ao Demiurgo. deuses eternos. de mania. portanto.como o amor. cujas divindades são os astros e o cosmo. a arte deveria ser.a religião helênica. inferior à ciência. quase um século. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. A antiga academia dura até o ano de 260 a. que é já uma cópia do mundo ideal. Quanto à avaliação da religião positiva. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela .58 não passa de uma importância instrumental e parcial. Ao lado. este absoluto . estão as demais idéias. Em todo caso. provavelmente também pela influência de Aristóteles . dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo.C. até o VI século d. mas de fenômenos. algo como que uma filosofia. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e.reformada e purificada . não pode tornar-se objeto de religião. bem como à idéia do Bem e às outras idéias. Platão hostiliza o antromorfismo. É um politeísmo estranho. prático outro. reitores. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. segundo os interesses do último Platão. prevalecendo simpatias pitagóricas. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. porquanto deveria atingir intuitivamente. inclusive Homero.embora transcendente.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. prevalece a desvalorização por dois motivos. Seja como for. gnosiologicamente. cópia não de essências. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico.

já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. ar e fogo). imóvel. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. Estava destinado. infinitamente diversas. que "o homem é a medida de todas as coisas". de um modo geral. Diremos uma palavra sobre os sofistas. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. Para compreender isto. Platão a ele se une.com inigualável poder marítimo . mas que está na origem da ciência moderna. . A alma. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. "Planta rei". aristocrata jovem e belo. Sócrates tem sessenta e três anos quando. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. assinalam a importância da catástrofe. tudo muda infinitivamente. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. tudo flui: a morte sucede à vida. seus ancestrais paternos. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. o real é o Ser único. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. A destruição da frota. corpo = túmulo). assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. em 407. segundo um ritmo regular. Os pitagóricos acreditam na metempsicose.. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. Mas Atenas. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). Tratemos. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. a uma brilhante carreira política. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. eterno. o Nous. Em outras palavras: não existe verdade absoluta. o pensamento de seu mestre Sócrates. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. anteriores e contemporâneos . as aparências coloridas do universo. que foi professor de Péricles. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais.C. como também o pensamento dos filósofos anteriores. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. "O Ser é. água. também é um místico. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles.. mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho.59 Para Entender Platão Platão. delicioso para o amador. a peste. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. a noite ao dia. que não só reencontramos em Platão. seu encontro com Sócrates. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). o não-ser não é". Todavia. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. elementos eternos. de evocar Pitágoras de Samos. dizia. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. amor à sabedoria). é amargo para o enfermo). precisamente denominados pré-socráticos. inicialmente. Um dos mais célebres. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. portanto. no entanto. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. a vigília ao sono. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. Na realidade. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). cujas combinações mutáveis são infinitas. do último rei de Atenas. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. Protágoras de Abdera. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. como punição de faltas passadas.de saída. sua matemática desemboca numa metafísica. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. Platão. Anaxágoras. com a capitulação de Atenas. nascido em 428 a. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. segundo o testemunho de Platão. Para Heráclito de Éfeso. mereça ser finalmente libertada de toda materialização.

todavia. cunhado do novo tirano. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). sem exceção. Dionísio I prendeu Platão e. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. Dionísio I. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. que. o Fédon. Ajuda-nos tão somente a refletir. 3. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. o Teeteto. isto é.. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. elaborar uma cosmologia. 4. o Timeu. porém. Platão morre em 348 a. Acontecimento político: é o partido popular. aos quarenta anos. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. segundo ele. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual". de fato. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. o Político. Tal é a ironia. ao pé da letra. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente.60 E isto é significativo e simbólico. só há salvação pelo saber. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. Sócrates. Seu método é. que era parteira. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. o Banquete. são meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto.. restam-nos. antes de tudo. por aquilo que nos concerne diretamente. nos jardins de Academos. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. ele procura depreender o conceito de justiça. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. Tal é a maiêutica socrática. "Reconheço que todos os Estados atuais. ele se comparava à sua mãe. Sócrates não pretende. devemos nos interessar. como Empédocles ou Heráclito. pertencem a um mundo que não o das aparências. que. Na Atenas vencida. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. diz Platão. de preferência. mal governados. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. ele se retrai. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. porém. pois ninguém é "maus voluntariamente". filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. um esforço de definição. dos problemas que eles colocam. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. a República. o Parmênides. seus diálogos célebres tais como o Gógias. todavia. eles a praticariam. Sócrates fá-lo compreender que. o Fedro. Devemos agora. significa a arte de interrogar. "Conhece-te a ti mesmo". Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. o Sofista. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na . a obra escrita de Platão. 2. Sócrates. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). uma escola de filosofia à portas da cidade. Muitas vezes.C. ignora o que acreditava saber. de novo no poder. devese deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. na verdade. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. secreto. na ilha de Egina. Segundo sua perspectiva racionalista. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. Na realidade. É então que ele funda. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. as Leis. é a palavra-chave do humanismo socrático. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. O ensino esotérico (isto é. Este último. Platão retornou a Atenas. portanto. perto de Colona.C.

uma sombra. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa.de seu antigo contato com as Idéias. sobre o conceito. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. por exemplo. no fundo. uma essência universal do homem. Entre todas as formas de governo. a emoção que rebata a alma diante da Beleza de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . Finalmente. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. uma vez que guardaram uma lembrança obscura . as Idéias contam mais que a vida. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. como fazem os geômetras. mais exatamente. um outro mundo onde exista o Homem em si. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. um pouco mais acima.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . segundo a doutrina órfico-pitagórica.não o homem. de certo modo. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. perpetuamente mutáveis.. "esse belo risco a ser corrido". no mais alto grau. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. o pensamento intuitivo. a vontade e o espírito. e o mundo das aparências sensíveis. antes de tudo. Todavia. as opiniões estabelecidas (pistis). pela tranqüilidade quase contente de sua morte. só é belo porque participa da Beleza em si. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau.. objeta Platão a Protágoras . para ele. nele. Desse modo. a iluminação direta pela Idéia (noesis).é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. A ascensão dialética. Em suma. como Sócrates o estabeleceu. Assim. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". a Justiça em si. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. pode ser redespertada . A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. no entanto. em seguida pelos belos corpos. os militares nos quais a Justiça será coragem. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. elas continuam capazes de reminiscência. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). para que haja. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias).a sensibilidade.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. o único mundo verdadeiro. Depois. E Sócrates. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. em seguida.que. uma definição do homem em geral. elas foram aprisionadas no corpo. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. as Idéias. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . a cidade que condena Sócrates à morte. à imagem de todas as sociedades indoeuropéias primitivas. mostra que.61 Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. Um belo efebo. Como diz muito bem André Bonnard. as simples impressões sensíveis (eikasia). A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . Platão prefere a aristocracia e. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. atesta a existência desse mundo invisível. e. eternas. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. por punição de alguma falta. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. um mundo de pernas para o ar". Platão dá realidade ao conceito socrático. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. finalmente. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. por exemplo. por exemplo. isto é. os chefes cuja Justiça é. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. Platão. A política de Platão distingue. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras.

até à morte do Mestre. em 367.62 a) O mito. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. após enfermidade. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. vigor de raciocínio. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. Preveniu ele a condenação. poder admirável de síntese. o mito ressalta as relações que. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. Escreveu sobre todas as ciências. fruto de muita observação e de profundas meditações. perto do templo de Apolo Lício. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. em que. Aristóteles. rei da Macedônia. estéticos e místicos tiveram grande influência.C. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. d) Finalmente. existem entre a poesia e a verdade. Do diferente caráter dos dois filósofos. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. como preceptor do Príncipe Alexandre. de estudo. em Siracusa. que se foi isolando da vida prática. de pesquisas. em amena palestra. no verão de 322. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. então jovem de treze anos. até à famosa expedição asiática. Aí ficou três anos. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. colônia grega da Trácia. traduz uma espécie de narração poética legendária. Aos dezoito anos. no litoral setentrional do mar Egeu. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. segundo Platão. procedimento pedagógico paradoxal. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. mais uniforme e linear a de Aristóteles. médico de Amintas. treze anos depois da morte de Platão. Morto Alexandre em 323. social e política. De volta a Atenas. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. em 384 a. filho de Nicômaco. estourando uma reação nacional. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. agudeza de penetração. Aristóteles fundava. substancialmente autêntica.C. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. os motivos políticos. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. a sua escola. isto é. éticos. de pensamento. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. nasceu em Estagira. como a sua cultura e seu gênio universal. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. ao contrário. em 335. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. onde ficou por vinte anos. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. que Platão não conseguiu. A respeito do caráter de Aristóteles. chefiada por Demóstenes. para se dedicar à investigação científica. foi acusado de ateísmo. retirando-se voluntariamente para Eubéia. variada e romanesca a de Platão. malvisto pelos atenienses. Aristóteles faleceu. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. por certo. no ano seguinte. salvo uns apócrifos e umas interpolações. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. . A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política.

os princípios supremos. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . No sentido estrito.conceito e juízos . é essencialmente dedutiva. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. II. prática e poética. nos indivíduos. o universal. é sempre verdadeira. de que constituem a essência. como o conceito. ao qual é dedicada. explicação do condicionado mediante a condição. apodíctica. em que está a solução do seu problema. demonstrativa. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. o objeto da ciência aristotélica é a forma. a ciência. mas o ponto de partida da dedução é tirado . todo o saber humano. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. portanto. em especial da segunda. O nome. exposição e expressão breve e aguda. ambas objetivas. IV. que considerava a lógica instrumento da ciência. seu filho. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. que a colocou depois da física. juntamente com a metafísica. Aristóteles é o criador da lógica. em dez livros. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. destarte. sem enfeites míticos ou poéticos. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. que. em geral. clara e ordenada. como idéia era o objeto da ciência platônica. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. de um modo e de outro. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. V. de que foi ele o criador. abrangendo. O objeto próprio da filosofia. divide-se em física. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. isto é. segundo Aristóteles.reminiscência. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. Segundo Aristóteles. em catorze livros. sobre a base socrático-platônica. as formas são imanentes na experiência. não por Aristóteles. Os elementos primeiros. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. Por certo. as verdades evidentes. cuja verdade imediata ele defende. consoante Platão. como ciência especial. incompleta. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . Também aqui se segue a ordem da realidade. A filosofia aristotélica é. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo.conforme Aristóteles. é dedutiva. entretanto. conhecidos sensivelmente. o 63 . a filosofia . tirados da experiência. em oito livros. no seu estado atual. a Poética. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. A filosofia. a filosofia prática divide-se em ética e política. intuição intelectual. refazimento da ética de Aristóteles. que corresponde a uma derivação real. porque aí está a sua gnosiologia.tem como objeto o universal e o necessário. Foi dito que. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). a Grande Ética. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica.manifestam um grande rigor científico. e pertencentes à filosofia teorética. é o silogismo. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. bem como segundo Platão . corresponde muito bem à intenção do autor. inacabada. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. portanto. A lógica aristotélica. a Política. em três livros. da representação sensível. devido a Eudemo.I. portanto. dividir-se-ia em teorética. as formas e suas relações. O seu processo característico. o necessário. bem como a platônica. entretanto. referentes à metafísica geral e à teologia. Sob o ponto de vista metafísico. A ciência platônica e aristotélica são. compêndio das duas precedentes. metafisicamente. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. Entretanto. em dois livros. provavelmente publicada por Nicômaco. não o problema da vida. racional. por sua vez. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. III. ontologicamente.mediante o intelecto da experiência. A teorética. a poética em estética e técnica. também os elementos primeiros do conhecimento . a Ética a Eudemo. clássico. pois. O seu problema fundamental é o problema do ser. são fruto de uma visão imediata.devem ser. o universal e o necessário.

requer finalmente um não-vir-a-ser. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. fica eternamente inexplicável. ela não está efetivamente acabada. gnosiologicamente. mas abandonando a solução do mestre. do mundo. é aquilo que é movido. se correspondem. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. a posteriori. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. conquistado através do precedente raciocínio. origem extra-temporal. passagem da potência ao ato. a "desindividualização" do universal do particular. realidade do vir-a-ser. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. isto é.64 inteligível. em que o universal é imanente. Como é que se formam os princípios da demonstração. por último. é anterior ao particular. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. a própria solução. d) indica. indiscutível. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. Deus. Assim sendo. Todas as partes se compõem. os conceitos. do movimento. Unidade do conjunto  Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. sem se mover a si mesmo. a saber. no estudo de uma questão. enquanto é vir-a-ser. 3. em seguida. o real puro. 2. contraditório. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. razão metafísica de todo devir. mais positivo. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. Rigor no método  Depois de estudas as leis do pensamento. Com efeito. analítico. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. Os caracteres desta grande síntese são: 1. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. em todas as suas obras. sem um primeiro motor imóvel. A formação do conceito é. concebido. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. motor imóvel. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. da passagem da potência ao ato. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. antes de tudo. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. Aristóteles. como pensamento de si mesmo. c) propõe depois as dúvidas. isto é. a coisa parece mais complicada. o processo dedutivo e indutivo aplicaos. é a priori. consequentemente. pois. o pensamento do pensamento. os juízos imediatamente evidentes. uma verdadeira síntese. porém. Então só resta possível uma indução incompleta. Deus. se confirmam. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. mas certíssima. o contigente. uma doutrina da indução. Deus é . na lógica. um ato puro enfim. a posteriori. do inteligível. baseada sobre a imediata experiência. seu nexo. e. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. entretanto. o sensível. Observação fiel da natureza  Platão. e) refuta. como ato puro. o possível puro. causa absoluta. Da análise do conceito de Deus. Aristóteles. ao contigente. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. que não tem princípio e fim no tempo. Por certo. ao sensível: mas. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. isto é. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. de outra forma teria que ser movido por sua vez. necessidade objetiva. a matéria. Este vir-a-ser. as sentenças contrárias. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. e que é o elemento constitutivo da ciência. compreende-se que Aristóteles. Quanto ao juízo. com rara habilidade. passagem da potência ao ato. da representação sensível. Geralmente. concebido como primeiro motor imóvel. isto é. ato puro. idealista. seja constrangido a elaborar. tirada da experiência. psicologicamente existe primeiro o particular. em que unicamente temos ou não temos a verdade. um motor já em ato. é aquilo que move sem ser movido. que é o nosso primeiro conhecimento.

uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. igual para todos e sempre. a sua felicidade. As virtudes intelectuais. no mesmo tempo. mecaniza-se. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. da filosofia. mas unicamente como o fim último. atraente. As virtudes éticas. com o pensamento e a vontade. como não é inata a ciência. relativo a cada qual. certamente. por conseqüência. popular. permanece o dualismo. mas unicamente conhecer e pensar. E nesta autocontemplação imutável e ativa. atividade teorética. o seu bem. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. práticas. no dizer de Aristóteles. reta. passional. estabiliza-se. razão pura. por natureza. Deus não atua sobre o mundo. não são mera atividade racional. como as virtudes intelectuais. não as aniquila e destrói. auto-suficiente. A razão aristotélica governa. Visto ser a razão a essência característica do homem. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. Se a virtude é. e só assim. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. voltando-se para ele. como causa eficiente e formal (exemplar). pois. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. e as dianoéticas. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. fundamentalmente. metafísico. do intelecto. porém. Como já foi mencionado. tem. não conhece o mundo imperfeito.como o vício. um elemento sentimental. ativas. isto é. que é precisamente uma atividade conforme à razão. isto é. afetivo. Se o agir. Se Deus é mera atividade teorética. que exige o conhecimento absoluto. a sua lei. a que é necessária à virtude. este justo meio. a vida. uma atividade segundo a razão. a prática. portanto. e a esta é necessária a razão. que deve ser governado pela razão. não é criador. da natureza e do universo. mas. isto é. e não pode. portanto. mas implicam. na ação de um homem. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". É uma distinção e uma hierarquia. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. a vontade. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. Pelo que diz respeito à virtude. como queria o ascetismo platônico. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. de que se falou quando das obras dele. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. pensamento de si. e. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. De Deus depende a ordem. como causa final. que é pensamento puro. consegue a felicidade mediante a virtude. Deus não pode agir e querer. ele. mas adquiri-se mediante a ação. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. contemplativas. isto é. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. mas uma ação com ciência. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. a virtude não é inata. sobre a ação. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. está a beatitude divina. que a transcendem. A característica fundamental da moral aristotélica é. isto é. são superiores às virtudes éticas. mas uma aplicação da razão.65 unicamente pensamento. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. torna-se quase uma segunda natureza e. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. teoréticas. . teoréticas. e variável conforme as circunstâncias. incompatível com o ser perfeito. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. Naturalmente. logo. todavia. o fim do homem é a felicidade. não é abstrato. Noutras palavras. torna-se de fácil execução . da vontade. uma disposição constante. ao contrário. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. Logo. nem providência do mundo. o exercício e. e menos ainda opera sobre ele. Deus é. pensamento de pensamento. um costume moral. mas concreto. a política. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. o racionalismo. morais. a racionalidade do mundo. A virtude ética não é. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. domina as paixões. não é unicamente ciência. por conseqüência. que constituem propriamente o objeto da moral. uma vez adquirida. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. e. ser completamente resolvido na razão.

O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. importantíssimas a poesia e a música. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. visa a conquista e a guerra. tempo e liberdade. isto é. a educação militar de Esparta. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democrático-intelectual. para tanto. do chefe a que pertence a direção da família. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. pois o homem. como Platão. tem também um fim econômico.66 A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. visto ser necessário. duas classes reconhece: a dos homens livres. em razão da imperfeição destes. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. O estado não é uma unidade substancial. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. cujo caráter e valor estão na liberdade. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. Mas o seu fim essencial é espiritual. pois os homens têm necessidades materiais. sem direitos políticos. negativas e positivas. cujo caráter e valor estão na unidade. condição e complemento da atividade moral individual. a . contudo. Eis porque Aristóteles. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. como seja tarefa essencial do estado a educação. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. a democracia. a propriedade particular e a família. aquela a coletividade. a dos cidadãos e a dos escravos. intelectuais e. e põe a conquista acima da virtude. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. porquanto a família. como as partes precedem o todo. O estado. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. é-lhe essencial a propriedade. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. Deve fazer frutificar seus bens. Daí a escravidão. inicialmente. político. Segundo Aristóteles. os escravos. E critica. bem como aptas qualidades espirituais. os bens. político. conservação e engrandecimento. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. que é o governo de muitos. O estado é um organismo moral. estes últimos seriam os escravos. a política é a doutrina moral social. Se se quiser a unidade absoluta. A ética é a doutrina moral individual. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. como o trabalho. o estado em particular. a aristocracia. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. e. cujo caráter e valor estão na qualidade. e cuja degeneração é a oligarquia. sendo naturalmente animal social. a felicidade dos súditos mediante a ciência. são necessários instrumentos inanimados e animados. condena o estado que. No entanto. O estado provê. então. as materiais. A política. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. que é o governo de um só. naturalmente. e cuja degeneração é a demagogia. deve promover a virtude e. E. precisamente. além. Quanto à forma exterior do estado. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. enquanto a guerra. a satisfação daquelas necessidades materiais. dos trabalhadores. Compreende-se. Vejamos. O estado surge. salva o direito privado. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. para que a propriedade seja produtora. e cuja degeneração é a tirania. que precede cronologicamente o estado. dessa forma. como ao estado. diversamente de Platão. defesa e segurança. de outro modo irrealizáveis. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. possuidores. isto é. consequentemente. de que acima se falou. agora. é superior ao indivíduo. Não obstante a sua concepção ética do estado. isto é. a mulher. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. mediante um treinamento profissional. então. físicas. subordinadamente. é distinta da moral. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. que exigem indivíduos particulares. que é o governo de poucos. e não máquinas. porque o fim último do estado é a virtude. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. além de um fim educativo. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. Aristóteles. o bem comum superior ao bem particular.

é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. Por isso. mítica. o imutável. particularmente de Atenas. concretizado num sensível. que não seja o Ser perfeitíssimo. pois. ser efetivo. universal é encarnado. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. deve ser encarnado. antes de tudo. não está em condições de se tornar objeto de religião. de conformidade com o fundamental realismo grego. evidência e vivacidade de expressão. capacidade de ser. mas em seus aspectos universais e necessários. imitação de uma imitação. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. o sensível. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. As leis da obra de arte serão. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. as questões gerais da metafísica. particular e universal. isto é. princípio dos movimentos e das formas do mundo. às circunstâncias de um determinado povo. os deuses astrais. isto precisamente porque o inteligível. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . íntimo sentimento do conteúdo. como é o fenômeno. destarte. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. em diversas . Não. metafísica especial.67 forma de governo clássica da Grécia. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". o mutável. e sim imitação direta da própria idéia. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. como obra política para moralizar o povo. Exporemos portanto. Explica e justifica a religião positiva. do inteligível imanente no sensível. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. concretizado pelo artista num sensível. depende a eficácia espiritual pedagógica. universal. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser  natureza e homem  e culmina no que não pode vir-a-ser. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. Entretanto. bem como o mundo mutável e material. para depois chegarmos àquela que foi chamada. num particular e. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. este Deus. com o seu profundo realismo. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. tradicional. mais tarde. produção mediante a imitação. o inteligível. Aristóteles admite a religião positiva do povo. a forma. purificadora da arte. não exclui uma espécie de politeísmo. E não fica nenhum outro objeto religioso. No entanto. não-ser atual. acontecer. que ele não conhece. não cria. num particular. graças ao artista. e ato significa realidade. o universal. I. No entanto. platônicos. mas o que por natureza deve. matéria e forma. e admite. A arte é. Na arte. acomodada às situações históricas. mais do que as transcendentes idéias platônicas. tornando intuitivo. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. até sem correção alguma. necessária e universalmente. Também Aristóteles. portanto. ainda que encarnado fantasticamente num particular. pelo seu efetivo isolamento do mundo. Todo ser. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. como Platão. porém. Deste seu conteúdo inteligível. não governa. Deus. isto é. seja embora real. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. é portanto uma síntese  um sínolo  de potência e de ato. perfeição. movido e motor. e sim concreta: deve ser relativa. imitação da forma imanente na matéria. A primeira e a última abraçam todo o ser. esse inteligível.

O indivíduo é.68 proporções. A realidade. que é de duas espécies. forma. portanto. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Herácllito. que é precisamente síntese  sínolo  de matéria e de forma. consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. é composta de indivíduos. a forma sem a matéria. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. Ao contrário. a forma e a matéria. O primeiro é potência. a causa eficiente. Um substrato comum. porém. a individualidade. Aristóteles faz o primeiro  a idéia  imanente no segundo  a matéria. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. visto ser impossível que o menos produza o mais. e sim imanente e operante nela. a essência. A matéria sem forma. produzindo esta síntese o indivíduo. Um ser desenvolve-se. que constitui precisamente a substância. de uma potencialidade anterior. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. princípio de ordem e finalidade. perfeição. que representam a potência e o ato no mundo. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. depende da matéria. a potência o ato. a realização do possível. Daí uma quarta causa. conforme o grau de perfeição. mas une-os em uma síntese conclusiva. em que a mudança se realiza. que tanto atormenta Platão. Diversamente da idéia platônica. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. elemento imutável da mudança. vamos logo falar. pressupõe uma realidade imutável. portanto. a forma aristotélica não é separada da matéria.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. Mediante a doutrina da matéria e da forma. Os elementos constitutivos da realidade são. não existe por si. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. A mudança é. A essência  igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie  deriva da forma. A matéria aristotélica. que é intuitiva. Por exemplo. causa concomitante de todos os seres reais.realizadora. por sua vez. como as idéias platônicas. matéria. Então não existe. possibilidade de assumir várias formas. não é o puro não-ser de Platão. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados  bem como a matéria não pode ser atuada  a não ser por um outro indivíduo. imperfeição. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. Esta realização do possível. imutáveis. mero princípio de decadência. o segundo é atualidade . a que é submetido tudo que tem matéria. em que se sucedem os acidentes. Aristóteles explica o indivíduo. o vir-a-ser. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. potência realizada. chamada matéria-prima. propriamente. A causa eficiente. surge o movimento. isto é. ingrediente necessário para a existência da realidade material. potência. inteligível. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. mas vice-versa. Com respeito à matéria. matéria enformada. é um mero possível. a mudança. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada  e desenvolvida . pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. de realidade dos vários seres. a natureza que ele assume. nem o ser de Parmênides. substâncias. porém. entre a matéria e a forma. na natureza em que vivemos. por sua vez. a pura matéria. a coisa movida  enquanto tal  pode ser unicamente potência. A síntese  o sinolo  da matéria e da forma constitui a substância. II. e esta. III. a alma é que move o corpo. portanto. a forma é. e as determinações que se realizam neste substrato. a causa final. que são uma síntese  um sínolo  de matéria e forma. as formas aristotélicas são universais. A mudança. IV. porém. em que a forma introduz as determinações. deve operar para um fim. forma concretizada da matéria. especificadora da matéria  . aperfeiçoa-se. racional. é o substrato imutável. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. a mudança. a substância física. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). por uma substância em ato. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. portanto. portanto. Por conseqüência. Segundo Aristóteles. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. universal particularizado. o segundo forma (substancial). Eis a grande doutrina aristotélica do motor . as qualidades acidentais. Desta doutrina da matéria e da forma. O motor pode ser unicamente ato. passando da potência ao ato. a única realidade efetiva no mundo. eternas. o imperfeito o perfeito. é um absolutamente interminado. Da relação entre a potência e o ato. Daí a necessidade de um terceiro princípio.

O senso comum é uma faculdade interna. que tem por objeto específico o homem. doutrina que culmina no motor primeiro. que. quer dizer. as essências. ato puro. cognoscitiva. Cada uma destas. A Psicologia 69 Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. a saber. A sensação embora limitada é objetiva. sensitivo e intelectivo. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas porquanto se dão atos diversos. que é precisamente a alma. funções. pelos vários sentidos. mas um espírito que anima um corpo animal. Analogamente às atividades teoréticas. a inteligência. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. representações. isto é. vivente. Objeto do sentido é o particular. o ser absoluto. sendo embora uma e única. o pensamento. pelo que ela é espírito. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. a sensação. o material. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. através do movimento de um meio. O conhecimento sensível. imediata ou à distância. que a ele confluem. pois. na sensação propriamente dita. o contingente. diversamente de Platão. tendo a função de coordenar. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. forma do corpo. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. ainda que rejeite o inatismo platônico. que tem por princípio a alma racional. deve ser espiritual e. quanto a tal. que tem por princípio a alma sensitiva. pois. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. sendo superior a estas. a alma humana. o imaterial. são percebidas por mais sentidos. a atividade fundamental da alma é teorética. se se tiver presente que o homem é um animal racional. tem várias faculdades. e é próprio da alma animal. Como se vê. De sorte que. A vontade é o impulso. a alma humana. segundo Aristóteles. não é um espírito puro. o imutável. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. a falsidade. se desdobra em dois graus. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. começa com a síntese. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. em geral. a característica da vida do homem. especificamente diverso do primeiro. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. e dessa depende a prática. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. O sensível próprio é percebido por um só sentido. as qualidades gerais das coisas tamanho. . Objeto do intelecto é o universal. Enfim. no grau sensível bem como no grau inteligível. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. isto é. e. é o pensamento. dependente do sentimento. Deus. movimento. ou a possibilidade da falsidade. etc. conforme Aristóteles. as sensações específicas são percebidas. o corpo humano não é obstáculo. cognoscitiva e operativa. que é constituída pelo segundo. o sensível comum. o apetite guiado pela razão. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. o mutável. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. E assim. ativa. com o juízo. deve ser imperecível. Assim. figura. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. Aqui nos limitamos à psicologia racional. pressupões um fato físico. contemplativa e ativa. conhecendo o imaterial. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. mas instrumento da alma racional. é a nutrição e a reprodução. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. Por conseqüência. o necessário. respectivamente. sem idéias inatas. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. A característica da vida animal. unificar as várias sensações isoladas. percepções. e se tornam. isto é. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. isto é. por isso. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. que é a forma do corpo. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível.e da coisa movida. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. repouso. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. por sua vez depende do conhecimento sensível. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. e é própria da alma racional. absolutamente imóvel. que tem por princípio a alma vegetativa.

autor do primeiro tratado de psicologia científica. "A natureza faz. Movimento espacial  mudança de lugar. condicionando todas as demais espécies de mudança. Vista Retrospectiva Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. primeiro escritor da história da filosofia. realização de uma possibilidade. é a análise dos vários tipos de movimento. moralista. Movimento qualitativo  mudança de propriedade. Movimento quantitativo  acrescimento e diminuição. a existência dos seres fora de Deus. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. porém. como filosofia da natureza. O tempo é definido como sendo o número  isto é. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. a psicologia e a lógica. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. e a matéria. na própria teoria aristotélica. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. 4. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. nascimento e morte. patriarca das ciências naturais. mudança. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". como enigma insolúvel e inexplicável. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. a realização da forma na matéria. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. que ele descortina em a natureza. de fenômenos  é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo  finalismo  por ele propugnado com base na finalidade.70 A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. com o seu espírito positivo e observador. metafísico. é. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. 2. princípio potencial. o aspecto. do "antes" e do "depois". que entende com a metafísica. de outro. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. Criador da lógica. enquanto possível. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. sempre o que é mais belo". nas suas linhas gerais. Em torno desta questão fundamental. pela doutrina do conceito. Quanto às ciências químicas. físicas e especialmente astronômicas. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. Sua moral. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dános. . e são logicamente separáveis da sua filosofia. isto é. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. ato puro. uma verdadeira contradição e deixa subsistir. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. Platão dá um passo além. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. que tem um valor teorético. nas extravagâncias dum idealismo extremo. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. Aristóteles. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. político. dum lado. Movimento substancial . 3.mudança de forma. mas encalha. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo  como sendo relações de substâncias. em torno dos quais fez ele investigações profundas. sem obrigação nem sanção. a medida  do movimento segundo a razão.

a ciência à moral. autor de De rerum natura. gosto para a formosura. A filosofia é a arte da vida. física e ética. rápida e vasta difusão no mundo romano. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. mecanicista. intuitiva. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. discípulos e amigos. resolve-se numa física.o poeta entusiasta. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. sobretudo. do alémtúmulo. missões. a percepção sensível. mensais e anuais. indivíduo material. nos jardins da sua vila.C. Em seus jardins. com setenta anos de idade. A mãe praticava a magia. Epicuro. a sua doutrina. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. a paz. imutáveis. da morte. para garantir ao homem o bem supremo. mas sempre materiais . A escola epicurista durou até o IV século d. invisíveis. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal.desinteressam-se por completo dos homens. Aliás. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. deu vida a uma sociedade genial. provavelmente. ajudas materiais. que venerava Epicuro como uma divindade. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada. semelhante ao dos deuses. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . A associação espalhou-se depois.habitadores felizes de intermundos . que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. A gnosiologia (lógica. evidente. democritiana. que seriam imagens em miniatura das coisas. fundador da escola que tomou o seu nome.. eternos.perece com o corpo. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. cartas. conforme o desejo do mestre. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros.diz Epicuro . da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. seguindo as pegadas de Demócrito.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. Faleceu em 270 a. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista.C. é uma complicação de sensações. a apatia. a alma formada de átomos sutis. a sua filosofia foi considerada como uma religião. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. . nasceu em Atenas. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. pela maior parte perdidos. arrancar-se-iam destas e chegariam até à alma imediatamente. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. para a cultura superior. também subordina a teoria à pratica.divide a filosofia em lógica. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. Igualmente.71 O Epicurismo do ateniense Néocles. feita de nobreza de sentimentos. mediante uma estável constituição. como com aquilo que precede o nascimento. e foi criado em Samos.C. A originalidade deveria manifestar-se na vida. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos.I século a. que é imediata. gravada nas jóias. . recorre Epicuro à física atomista. canônica) epicurista é rigorosamente sensista.C. num sereno lazer. a sua imagem. e . houve todavia. que constitui a realidade originária. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. Precisamente. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. O epicurismo teve. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas.como o estoicismo .. nenhuma preocupação com a morte. resumida em catecismos. em 341 a. Como a sensação. Estas nos dão o ser. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. da física . a serenidade. pertencentes a classes sociais elevadas. homens famosos. Portanto. em todos os tempos e lugares. mas teve escasso desenvolvimento. mas conservou-se fortemente organizada. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. ou mediatamente através dos sentidos. Cedo dedicou-se à filosofia. é tarefa do conhecimento do mundo. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. senso refinado. daí. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. desde logo. Tito Lucrécio Caro . em que dominava o vínculo da amizade. onde encontramos. Epicuro. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática.

. como o único mal é a dor. indivisíveis (átomos). avaliado pela razão. O único bem é o prazer. para estar tranqüilo. e na morte. portanto. Não sofrer no corpo. do filósofo. no isolamento do mundo. na insensibilidade.por exemplo. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. no peso. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. O sábio satisfaz os primeiros. a virtude dianoética de Aristóteles). Em realidade. a amizade genial. renunciando a todos os desejos possíveis. racionado? Na satisfação de uma necessidade. não naturais e não necessários . os vórtices e os mundos. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. a virtude. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. a moral epicuristas. Em que consiste. Aqui. ou de nenhum sofrimento menor. a virtude ética de Aristóteles). sem causa. no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. quando for preciso. a ambição. no sono. e não se deixar por eles dominar. do prazer imediato. O prazer espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível. que nasce de exigências não satisfeitas. esteticamente. a maneira grega. Assim. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista.no tamanho. O verdadeiro prazer não é positivo. estéticos e intelectuais. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. renuncia os segundos. indispensável para que seja possível o movimento e. aos prazeres positivos. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. e nenhum sofrimento deve ser aceito. e precisamente em uma vida curta e refinada. afinal. se ele faz uma afirmação profunda. na figura. perturbam a serenidade e a paz. critério único de moralidade é o sentimento. melhor é conhecer do que agir. esse prazer imediato. refletido. consistindo na ausência do sofrimento. escolhido prudentemente. não ser perturbado no espírito. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . daí derivam encontros e choques de átomos e. refletido. O universo não é concebido como finito e uno. trata-se do prazer imediato. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. do indeterminismo universal. porém. na apatia. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. sem alma imortal. satisfazendo suas necessidades essenciais. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo como pensava Demócrito.72 homogêneos. sujeitos ao nascimento e à morte. sabiamente. espontâneos (clinamen). se ensina a renúncia. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. O fim supremo da vida é o prazer sensível. em vigiar-se. No epicurismo não se trata. na quietude. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista.por exemplo. Estes. que é uma simples combinação da contingência. Epicuro. deve adaptar-se para viver como melhor puder. No entanto. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. da emoção. os átomos estão no espaço vazio. o instinto da reprodução. filosoficamente. na remoção do sofrimento. que é precisamente liberdade e paz. por conseguinte. pelos mesmos motivos. para os quais não há lugar no seu sistema. como os mais altos prazeres. Nesse mundo o homem. a vida ideal do sábio. É mister dominar os prazeres. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. da paixão. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. Nisto estão toda a sabedoria. mas negativo. como é desejado pelo homem vulgar. Mas precisamente ainda. consequentemente. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. físicos e espirituais. que é unicamente presente. nenhum prazer deve ser recusado. mas também na ação (cfr. a origem e a variedade das coisas. espalhado pelo espaço infindo. e. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. Também segundo Epicuro. sem providência divina. a não ser em vista de um prazer. de fato. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. Entretanto. mas ainda renuncia os terceiros. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. infinito. A filosofia toda está nesta função prática. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. por conseqüência.

que importa na contemplação do ideal. no entanto. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. nos espaços entre mundo e mundo. destarte. Epicuro venera os deuses. É de fato. representa. sem qualquer metafísica.segundo ideal grego da vida . do sossego. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. dotados de corpos luminosos. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. constituídos de átomos etéreos. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. contemplados . mas não se podem conhecer por falta de meios. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. Substancialmente.sempre acordados e sentados em jovial convívio. É preciso venerá-los para imitá-los. ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. sutis e luzentes.beatos. porque quando nós somos. especialmente do que o estoicismo. Chega-se. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. Epicuro. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. porém. Nunca nos encontraremos com a morte. portanto. que não pode ser senão cópia de realidade. Deste modo. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. mesmo negativa. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. diversamente do imanentismo estóico. A felicidade não é mais uma coisa positiva. teria praticado . mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. incoerente. inversamente. especialmente durante o sono. proclamado ateu. vivendo ocultamente.como na Academia e no Liceu. mas não é atacada pelo ceticismo. . imortais diversamente dos deuses estóicos . Epicuro é também hostil à atividade pública. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. mais do que ao mundo. Através da mais absoluta indiferença. perturbados. quando ela é nós não somos mais. O epicurismo. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. para não serem contaminados. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. negando todo absoluto e transcendente. que é inacessível ao homem". com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. na conversa arguta e delicada: numa palavra. à destruição de todos os valores. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. portanto. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. na unidade da amizade. portanto. Então. na beata solidão dos intermundos. prática e teorética.o mal da religião.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser.não atuam sobre o mundo e a humanidade. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. fora do mundo e dos mundos.como os fantasmas de todas as outras coisas . Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . uma religião desinteressada. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. uma norma de vida ordinária e espiritual. que vive no mundo de estátuas divinas. tendo forma humana belíssima. nos jardins de Epicuro. de sofrimento. conversando em grego! Mas . ela não é. paz e contemplação.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . o objeto. praticamente ateu. e a morte é a ausência de sensibilidade. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. embora imperfeita. Almejava. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. não para receber auxílio. preenchida com as mais nobres ocupações . Vivem. sorvendo ambrósia. da indiferença. dar uma unidade estética e racional à vida. existem. Os deuses de Epicuro são muitos. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva. Epicuro.desceriam até nós dos intermundos. Epicuro admite a divindade transcendente.73 do vulgo. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. escapando destarte a fatal destruição dos mundos.

moralisticamente. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. que concebem a filosofia popularmente. melhor ainda.O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. embora imensamente inferior ao ceticismo. peripatético. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônico-aristotélico. característico . Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. tudo vale igualmente.como acontece nos períodos de decadência especulativa . acadêmicos e também peripatéticos. enfim. Também o ecletismo. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante.C. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. helênica. astronomia. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. com relação às ciências especiais. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. no mundo civilizado. Temos precisamente. bem como o intelectual. da tese e da antítese. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. como opina Aristóteles. embora acriticamente. se nada é verdadeiro.529 D. desenvolve-se naturalmente a técnica. nem a da afirmação. cínica e cirenaica. não filosóficos.C.C. dada a natureza crítica do ceticismo. organismo especulativo. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. O interesse teorético. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou. este período toma o nome de helenismo. mas filologia. o vigor especulativo. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. que procura na filosofia um conforto. como julga Platão. na história da filosofia denomina-se período ético. física. matemática. literatura. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. ciências naturais. e também a opinião.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. medicina. consequentemente. como na idade moderna. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. O pragmatismo eclético foi. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes.) Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. A primeira escola cética serve-se. significando a expansão da cultura grega. ciência 74 . enfim. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. depois (ceticismo e ecletismo). Em conclusão. e não justaposição mecânica de peças sem vida. história. E. pois a filosofia é escolha. no período helenista e depois ainda. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. de várias escolas filosóficas. como o ceticismo. ao passo que a metafísica esmorece. E. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. inteiramente voltada para a prática e para a ação. sistema.. de tendência pirroniana. portanto será não a filosofia. mais ou menos). esvaziadas do seu conteúdo original. geralmente. voltando-se para a sofística. faz uso da dialética eleática. restringem-se ao particular. O ceticismo critica o conhecimento sensível. depois acadêmico e. a filosofia torna-se uma preparação para a morte. enfim. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. em ordem cronológica. uma orientação moral. construção. como uma suma de elementos estóicos. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticosascéticos dos céticos. um ecletismo estóico. bem como à moral das escolas socráticas menores. em princípios da era vulgar. que implica sempre numa crítica. Na história da civilização e da cultura. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. cuja grande obra. do relativismo sofista. que surgiram em tempos diferentes. ou não têm a força da crítica. e sim o jus. geografia. e a sabedoria é desapego da ação. . Não filosofia teorética. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades. a terceira. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo. e a coerência materialista do epicurismo. O Período Ético (300 a. toda moral. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. anula-se toda metafísica e. Do contingente e do temporal. e por demais despersonalizadas.

também da moral. Iniciou. em contradição consigo mesma e com a moral. como no precedente. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. o jus e a política dos romanos. Trataremos. em que ainda há uma metafísica.. acaba não sendo mais filosofia. O conceito. mercador. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. e anacrônica. funda a sua escola. rigoristas. juntamente com a atividade didática. para firmar a virtude e. da escola epicuréia. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. por conseqüência. nem moral.Graecia capta ferum victorem cepit. pelo ano 300. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. Como em Aristóteles. em terceiro lugar. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. valor universal como a filosofia grega. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. no fundo. Os dois últimos. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. em que a metafísica e moral são sincretistas. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. do temor de além-túmulo. A escola estóica média ou eclética. portanto. pelo que diz respeito à filosofia. que se chamou estóica. metafísica. logo. pois. elementar. da escola cética. moralizadoras. o estoicismo. pois. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. mas vastas orientações e escolas. a de escritor. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. O Estoicismo Em seu conjunto. depende de cultura grega.75 e técnica. antes de tudo. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. Não obstante esse absorvente moralismo. . mais ou menos). para assegurar ao homem a felicidade. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. como na escola eclética. uns tratados socráticos. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. stoá. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. pois. mas afirmações dogmáticas. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. uma física. de Atenas. Seu pai. aí . em outras palavras. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. a saber. isto é. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. entre os quais o cínico Crates. porém. inclusive da política e da religião. mas. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. sacerdotal. da metafísica e. um período médio ou eclético. e precisamente desse terceiro período ecletismo e estoicismo. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. No dizer dos estóicos. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. um período recente ou religioso. enfim exporemos o pensamento latino. Na lógica trata-se da gnosiologia. da escola estóica. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. anuladas. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. em segundo lugar. filosofia moral e moral prática. o helenismo. Podem-se. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. não como ciência. e. o direito romano. logo. mas como uma missão e uma prática religiosa.C. uma ética. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. em que não há mais metafísica alguma. por conseguinte. e. não sistemas críticos. a física iguala a metafísica. seguindo-se o aniquilamento da ciência. em correspondência com o discurso interior e exterior. o segundo a forma . é destruído. física e ética. leva para ele.dedica-se à filosofia. Entende-se. Finalmente. O primeiro valor dá o conteúdo. diversamente de Aristóteles. o qual. libertar o homem das preocupações transcendentais. bastante divergentes do estoicismo clássico.perdidos seus bens .

isto é. destino. mas pragmatistas. a paixão. metafísicos. a apatia dos estóicos seria. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. e sim como sendo ela própria um bem imediato. é uma pura palavra. da serenidade. não a alma. a tranqüilidade da alma.cujo conteúdo é. que são o verdadeiro. pois no sistema estóico. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. a serenidade. da indiferença universal. isto não se concilia. porém. decadente. a dor. salvo e pensamento. mas apenas indiferença. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. Esta matéria está em perpétuo vir-a-ser. morbo e vício da alma . em definitivo. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. moralistas. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. uma tendência irracional. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. fornecer alguma base à sua ética do dever. que se manifesta no mundo. quer se trate de piedade. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. Mas é uma virtude absolutamente negativa. A serenidade. a sabedoria. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. na ética. e os estóicos não são filósofos. incoerentemente declaram racional o fogo substância metafísica da realidade -. mas a sua destruição total. a independência interior. que anda como um deus entre os homens. a virtude. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. e se conforma com o demais. todavia. as propriedades das coisas. sem saudades e sem esperanças. contraditória. mas a virtude. e a tudo renuncia. salvo o seu pensamento . Devendo os estóicos. quando o homem se torna indiferente a tudo. não é o prazer. nada lhe acontece que não seja por ele querido. toda atividade é movimento. destinada a . ao prazer e ao sofrimento . ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. a emoção. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. às honras e à obscuridade. é sempre e substancialmente má. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. no fundo. pois é movimento irracional. que devem ser aniquilados. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. O sábio é beato. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. uma emoção. à riqueza e à pobreza. e para não perder. Como se vê. De tal forma. esta mesma renúncia -. como geralmente acontece. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. indiferença e renúncia a tudo. uma necessidade mecânica. se a ordem do universo é racional. até a apatia. Deus. como o Sol faz brotar da semente a planta. na filosofia estóica. Não Deus. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. Com o desenvolvimento do estoicismo. a alma. a paz. Com efeito.quer se trate de ódio. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. de tal maneira. a felicidade. assim o mal único e absoluto é o vício. que nasce da virtude negativa da apatia. à saúde e à doença. numa palavra. e dar uma explicação à razão. imaginam-no como espírito ordenador. e a lei desse princípio material só pode ser. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. mecanicismo. inteiramente absorvidos na prática. não é nem bem nem mal. de uma dura virtude. da serenidade. donde derivam o desejo. providência. A virtude estóica é. fruto de uma fatigosa conquista. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. Como o bem absoluto e único é a virtude. necessidade.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. o único bem do homem. o fim supremo. em especial no homem. sem dúvida. conforme a concepção de Heráclito. como precisamente afirmam os estóicos. inteiramente fechado na sua torre de marfim. único bem da alma. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. todavia. à maneira de Demócrito. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. porque. segundo uma ordem teológica. mal se for ligado ao vício. o sossego. A paixão. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva.76 A metafísica estóica reduz-se à física. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. da autarquia do sábio. e cujo curso é fatalmente determinado. razão da vida. naturalmente. ao repouso e à fadiga. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. espírito. supremo. Por conseguinte. não lhe resta efetivamente mais nada. devem-se conceber materialisticamente também Deus. o vício. a autarquia.

numa síntese muito original . Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. morte moral. além da verdade suprema. Os filósofos. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. mediante o monismo estóico. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana.) é bem representativo dos meios judeus helenizados que só sabiam ler a Bíblia na versão grega denominada dos Setenta (segundo a tradição. Tal é a atmosfera que vamos encontrar envolvendo tanto Filon de Alexandria. e julga poder superar. particularmente os intelectuais.aos fervores do misticismo oriental. apenas para os concidadãos. então se desenvolvem. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. e elevando. o culto de Mitra. O racionalismo lúcido dos gregos se une . promove todavia os conceitos de sociedade universal. judeus. a qual. entre o mundo e Deus: primeiro. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica.Cristão O Neoplatonismo Características Gerais do Neoplatonismo O neoplatonismo pode ser considerado como o último e supremo esforço do pensamento clássico para resolver o problema filosófico. elaborando uma moral ascética e mística. por outro lado.dualismo e racionalismo que nem sequer o gênio sintético e profundo de Aristóteles conseguiu superar. Será acentuado o dualismo platônico entre sensível e inteligível. da filosofia neoplatônica. quanto Plutarco ou Plotino. entre finito e infinito. por um lado. completar. clássico. todavia. de Ísis. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. entre matéria e espírito. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. A cidade é povoada de pensadores que dispõem de uma admirável biblioteca. que existe. ou sintético. porém. É o local privilegiado de todos os intercâmbios. em segundo lugar. II . onde campeia solitária uma justiça. cidade cosmopolita na qual vivem egípcios. integrar a filosofia mediante a religião. os estrangeiros e os inimigos. a matéria com o mal. que tinha encontrado um obstáculo intransponível no dualismo e racionalismo gregos . Abre-se caminho a um sentimento de caridade. na qual o aristotelismo fornece sobretudo os quadros lógicos. livres e íntegros. Destarte. o vértice da realidade inteligível ao suprainteligível e. Apesar das denegações dos céticos e da propaganda materialista dos epicuristas. em relação com tal metafísica. esse cosmopolitismo. não tem mais sua capital tradicional em Atenas. de direito natural. em Alexandria). nunca os homens foram tão famintos de Deus quanto nessa época. Pelo que diz respeito à política. Os homens piedosos querem fundamentar suas crenças filosoficamente. o racionalismo grego mediante o misticismo oriental. O neoplatonismo julga poder superar o dualismo. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. cidade grega por excelência. O cristianismo tomará impulso. até para os infelizes e os escravos. Seus correligionários . em seu último período. político por natureza. torna-se cosmopolita por natureza.77 resolver-se na matéria. de lei racional. Isto nos ajuda a compreender o caráter sincrético. gregos e romanos.C. O centro do pensamento então se estabelece em Alexandria. a Bíblia hebraica teria sido traduzida para o grego por setenta sábios. e o misticismo oriental o conteúdo. se esforçará por unificar os pólos opostos da realidade. Filon de Alexandria Filon de Alexandria (nascido por volta de 25 a. de perdão. As religiões de salvação. proporcionando o racionalismo grego especialmente a forma. em civilização humana e moral. fazendo com que da substância do Absoluto seja gerado todo o universo até a matéria obscura. identificando. Preocupações filosóficas e religiosas se unem estreitamente. buscam a salvação. virtude corrosiva. A filosofia antiga. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens".

. Como dirá mais tarde um discípulo de Filon. Isto porque. aos 28 anos. Platão traz a mesma mensagem sob forma filosófica. Filon pretende fazer uma síntese entre os ensinamentos de Moisés.. psyche organon theou!" Plotino Plotino nasceu em Licópolis. identificar Deus com o universo. a filosofia não era simples disciplina teórica. divina por essência. Mas Tifon. o da concordância entre razão e fé. Colocou em particular o problema do mal e da Providência em seu ensaio sobre as Dilações da Justiça Divina. pode participar do Inteligível .78 tinham-no encarregado de uma missão junto ao imperador Calígula (para serem dispensados do culto ao imperador. Leva a sério as profecias de Pítia. ao princípio transcendente do Bem se opõe um princípio do mal. que o admirou. na escola neoplatônica. Todavia. que levou Joseph de Maistre. dirigiu-se para Alexandria onde seguiu as lições do platônico Amônio Sacas. estaria fadada a uma grande existência. a fim de nascer para o inteligível? Se Deus é inacessível. destinada a transformar inteiramente a alma. Verbo eterno de Deus. Essa filosofia dualista provém de Platão e a encontraremos em todos os sistemas denominados "gnósticos". onde abriu uma escola. a traduzi-lo. ao menos. trabalha da melhor maneira possível para o renascimento do culto délfico. Ísis simboliza a matéria e Osíris o Logos. Porfírio anotou e publicou seus cursos. estabeleceu-se definitivamente em Roma. e purificá-la. mas escola de vida espiritual. ilumina o espírito de Pítia. de Platão e de Zenão de Citium. o grande problema da escolástica medieval. dirá seu discípulo Porfírio a seu respeito) um ensino muito brilhante. Plutarco encontra simbolização de sua doutrina nos mitos da salvação comuns em sua época. que é a lei do nosso mundo. Dezoito séculos antes do Pe. A união dos dois explica a criação no que ela tem de bom. Em 243. o espírito humano.ao qual Filon denomina Logos. assim como entre os estóicos. Plotino engajou-se no exército do imperador Giordano. . incompatível com o monoteísmo judaico). A idéia essencial (já presente em Platão e Plutarco) é a de que somos formados de uma alma. mas sob forma alegórica. a Bíblia diz a verdade. mas esta exprime a Revelação segundo sua mentalidade e sua cultura. sobrevivendo aos seus desastres. o próprio Deus é inefável. Plutarco de Queronéia O autor da Vida dos Homens Ilustres também é um pensador religioso. Lagrange. podemos nos aproximar d'Ele por intermédio da renúncia ao mundo e do recolhimento da alma. Aí. Para Plutarco. envolvida por uma potência malfazeja num corpo radicalmente vicioso (a encarnação é uma encarceração) e de que a salvação provém do verdadeiro conhecimento (gnosis em grego). Para Filon. isto é. é uma herança legada por Filon (é nesse sentido que Wolfson dirá que a filosofia medieval é inteiramente filoniana). A concepção que São João faz do Verbo divino muito deve às fórmulas e às idéias de Filon de Alexandria. Já Platão não houvera dito que é preciso morrer para o sensível. Plutarco aceita tornar-se sacerdote de Apolo Pítico em Delfos. temos um primeiro esboço da teoria dos gêneros literários e das mentalidades! É com relação à inspiração sagrada da Pítia que Plutarco formulará sua célebre expressão: "O corpo é o instrumento da alma e a alma o instrumento de Deus. do conhecimento dos dois princípios rivais. e. introduz a desordem e a perturbação: dispersa os membros divinos de Osíris que Ísis tenta reunir. das causas que fizeram triunfar o princípio do mal. no Alto Egito. A idéia de Filon de harmonizar a revelação e a razão. cuja exegese ele propõe: á Apolo que. o princípio do mal. diretamente. grupos de nove). com os seus hábitos de linguagem. à maneira dos estóicos. a fim de conhecer a filosofia dos persas. não podemos. Para ele. Num sentido. "Platão é um Moisés que fala grego". a Bíblia e Platão. inacessível às nossas abordagens. dos meios que permitiriam a vitória do princípio do bem. a voltá-la para as realidades sublimes). que o "converteu" à filosofia (pois. uniu às práticas ascéticas ("Tinha vergonha de estar num corpo". O conjunto compreende cinqüenta e quatro tratados agrupados em seis Enéadas (isto é. seu filho primogênito (protógonos).

Segue-se. nada tem de uma substância positiva: "O mal não é senão o apequenamento da sabedoria e uma diminuição progressiva e contínua do bem". com respeito ao pensamento. as trevas do mal. como até então não se sentira ainda. na medida em que ela é Beleza (nesta segunda hipóstase encontramos algo das Idéias de Platão e do pensamento que se pensa de Aristóteles). em termos plotinianos. e ele é plenitude. O mal. é o Uno. O mal não é uma substância original. Já no Timeu de Platão está colocada a questão de uma gênese do mundo. por outro lado. C. isto é. na medida em que ela é coerente e harmoniosa. demonstrativo. assim como o deus cósmico dos estóicos). é só o procurado pelo reflexo do bem que fracamente ainda brilha nele. não existe um mundo do mal.A doutrina fundamental de Plotino é a das três hipóstases. o desejo e o esforço de uma alma que quer se encontrar e ao mesmo tempo se perder no Uno universal e inefável. a obra de Plotino possui uma tônica de misticismo que é nova. o peso da matéria. é aqui que encontramos a opacidade da carne. livrar-se do mal. Todavia. não pode desejar coisa alguma . uma luz mergulhada na bruma. de toda beleza. tende a engendrar outros seres que se lhe assemelham. o qual não é o conhecimento (uma vez que este supõe a dualidade do sujeito cognoscente e do objeto cognoscível . A. Ao movimento de procedência corresponde o impulso de conversão pelo qual a alma. A alma que dizem prisioneira do mal é apenas uma alma que se ignora. Reservemo-nos. como diz Plotino. rival do mundo do bem. nem a essência. das três realidades eternas . assim ocorre com os seres emanados do Uno. ainda que menores. por que se degrada na multiplicidade? É certo que não está submetido a qualquer necessidade. Mas o Uno é riqueza infinita. por que o Uno não é único. de toda virtude e. manifestando-se nela obscuros vestígios da verdade. o Deus de Plotino. sente-se aí. Essa Inteligência é o princípio de toda justiça.Por que existem outras hipóstases? Por que esse Deus plotiniano. Não esqueçamos que é a leitura de Plotino que. no entanto. dialético.A realidade suprema. este último aspira à reconquista da unidade. Abaixo das três hipóstases. B. É aquilo de que promana toda existência. Para ele. caída no corpo. se assume e tenta se elevar até o Princípio original. desejar é sentir falta de algo. toda vida e todo valor.pois. não é. A alam humana também é uma parcela do próprio Deus presente em nós. generosidade sublime. a idéia do Belo desempenha importante papel. . a Inteligência. o que explica o fato de o autor das Duas Fontes Ter colocado Plotino acima de todos os filósofos. Essa filosofia. obscurecida no mal. e o mundo sensível. cuja ordem é constituída por ela. a conversão plotiniana lembra a dialética ascendente de Platão. arrancará o jovem Agostinho de suas crenças dualistas abeberadas no maniqueísmo. .embora elas derivem. mas antes a fonte inefável de todo ser e de todo pensamento. nem a vida. superior à sensibilidade. Ele é todas as coisas e nenhuma delas. o mundo material representa o último estágio dessa "difusão" divina. da qual ela procede. Em ambos os métodos de purificação. para Plotino. terceira hipóstase (que evoca o tema platônico da alma do mundo. um dia. A perfeição suprema se difunde em si mesma. abismou-se no múltiplo. A Alma é a mediação entre a Inteligência. destruir um universo para dar nascimento a outro. A Inteligência é que faz a realidade ter uma forma. A Gnosiologia A gnosiologia de Plotino é semelhante à de Platão. embora elas procedam uma das outras. Todavia. O primogênito de Deus é o Logos. 79 . opinião. Assim como de um fogo ardente as chamas se irradiam. à luz e ao repouso na fonte sublime. As almas individuais emanam dessa alma universal. o ponto extremo onde morre a luz. de ver no plotinismo um dualismo gnóstico. obscureceu-se. para Plotino. A sensação representa o primeiro grau de conhecimento humano. discursivo. enquanto o Uno dispersou-se. que atinge as idéias. as essências das coisas. a razão: conhecimento mediato. mas ele próprio é de tal ordem que nada podemos afirmar a seu respeito. é superior a tudo e fonte absoluta de tudo. não é absolutamente nova.Da Inteligência procede a Alma. o que é capital para Plotino. das três substâncias. todavia. esse êxtase foi que impressionou Bergson ao ler as Enéadas. pela desvalorização da sensibilidade como aparência. como para os gnósticos. mas antes encontrar a si mesmo em sua verdade. Nesse sentido. é.nem o Ser. . O próprio Plotino escreveu uma tratado contra as seitas gnósticas. Esse arrebatamento da alma.

não discursivo e sucessivo. A segunda emanação do Uno é a alma. Também o pensamento . em que este é imaginado como o suprainteligível. e por Plotino distintos em deuses invisíveis e visíveis. e em torno dele pode-se dizer apenas o que não é .o intelecto . O Uno.é a raiz de todo ser e de todo conhecer. transcende toda essência e todo o conhecimento. em si mesmo. que conhece enquanto vem iluminado pelo pensamento propriamente dito. ela procede do pensamento. A alma universal. pelas virtudes éticas. O Cristianismo . que é uma fulguração divina. como este procede do Uno. superior à filosofia. radicalmente ascética: libertação.segundo Plotino . Uno. material. do sentido. se completa e atinge a sua perfeição no êxtase. que se conhece a si mesma e em si as coisas. precisamente pelo fato de ser. e nunca erra.noûs. por sua vez se multiplica e especifica nas várias almas individuais. dianoéticas . que procede de Deus degradando-se até à matéria. o qual é superior ao espírito. a conversão do mundo para Deus. Por isso. Com a alma termina o mundo inteligível. êxtase .assim quatro são os graus do ser: matéria. noûs. não é apenas potencialidade. e começa o mundo sensível. mas por emanação inconsciente e necessária. culminando no êxtase. que é identificação do espírito humano com o espírito absoluto. o noûs. também ensina a metempsicose e a conversão. mas o mundo é da sua mesma natureza.há a subida. não por criação consciente e livre. mas também mal..80 A razão é a atividade do espírito. A Religião O neoplatonismo afirma certa transcendência de Deus. em que é afirmada uma relação específica com a Divindade. É conhecimento intuitivo. a alma do mundo. finalmente. compêndio do universo. que estão entre Deus e o homem. O conhecimento humano. Deus. a si e as coisas. da Inteligência . parece abrir-se o caminho para uma nova filosofia religiosa. que estão em escala decrescente do céu até os homens. Deus . Os graus dessa libertação são representados. o conhecimento participado. no espírito humano. Efetua-se ela através do homem. inteligência subsistente. ao mesmo tempo. A matéria plotiniana. indeterminação. À razão segue-se o pensamento imediato. Nesse grau de conhecimento o espírito compreende.que estão no noûs . Deus certamente transcende o mundo. do corpo. intuitiva e imutável.sensibilidade.e enforma a matéria. é inefável e pode ser atingido na sua plenitude unicamente mediante o êxtase. a que são assimiladas as divindades das religiões tradicionais. A alma contempla as idéias . imediato.a emanação das coisas do Uno .arte e filosofia . em que o espírito humano se torna passivo. O pensamento absoluto. que é autocontemplação do espírito pensante. tudo depende dele. No entanto. em linha ascendente. Também Plotino sustenta que as almas humanas caíram de uma vida pré-mundana para o cárcere corpóreo. o Uno. irracionalidade. para a valorização da religião positiva. Com esta doutrina do êxtase. purificação da matéria. intelecto. pois.representa uma atividade do espírito humano participada do pensamento absoluto. segundo o modelo delas. o pensamento vem a ser intermitente e sujeito ao erro. inconsciente. a inteligência. A Metafísica Como os graus de conhecimento são quatro . mas. E outro caminho parece abrir-se na doutrina dos intermediários. divino.teologia negativa. de sorte que é inteiramente indeterminado e inefável. isto é. está sempre em ato de conhecer. microcosmo. alma. Nisto consiste a moral plotiniana. nele. A Moral Depois da descida . O universo deriva de Deus. A primeira emanação é representada pelo noûs. razão.

dividida do seguinte modo: o Cristianismo. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz. a Israel. dilucidação. econômica e social do Ocidente. a "Idade das Trevas". o interesse central. e sim a religião. É o teísmo e o cristianismo. Sob a influência da Igreja. a Tomás de Aquino. fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. cristãos e germânicos. criadora da filosofia cristã verdadeira e própria. e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim. Características Gerais do Pensamento Cristão Foi conquistada a cidade que conquistou o universo. dedicada à história do pensamento cristão. a Patrística. mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. o máximo valor. a obra da Patrística e. solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo  que sentiu profundamente. que será a teologia dogmática. de fato. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. não é a filosofia. agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. da dogmática católica. além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral. mediante uma disciplina específica. O período medieval não foi. a justificação da Revelação em geral. o pensamento cristão tomará na grande tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. o pensamento cristão desde o II ao VIII século. . uma sabedoria. por exemplo. tentando conciliar a fé e a razão. a que é devida particularmente a construção da teologia. do cristianismo.81 As Características Filosóficas do Cristianismo Não há propriamente uma história da filosofia cristã. a fome e as grandes epidemias. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições. especialmente. o pensamento do Novo Testamento. em Aristóteles. O cristianismo fornece ainda uma  imprescindível  integração à filosofia. será. pois no pensamento cristão. O cristianismo propaga-se por diversos povos. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino. pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. sistematização racional do conteúdo da mesma. de sorte que. isto é. se o cristianismo não se apresenta. a Escolástica. o cristianismo implica uma determinação. fundam-se as primeiras universidades. elucidação. como uma filosofia. enfim. Finalmente. e a determinação. como se acreditava. Era a invasão de Roma pelos germanos e a queda do Império Romano. Isto se realizará graças especialmente à Escolástica e. como. Esta parte. ocorre a fusão de elementos culturais greco-romanos. no tocante à solução do problema do mal. E é nesse esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas. a saber. filosófica e moral. Pelo que diz respeito ao teísmo. o pensamento cristão desde o século IX até o século XV. sobretudo. A filosofia clássica sobrevive. confinada nos mosteiros religiosos. Entretanto. sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação. de Agostinho. Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. Foi esta. E. têm uma importância indireta com respeito à filosofia. porém. historicamente. porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. Mas entre os hebreus o teísmo não tem uma justificação. uma demonstração racional. pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida. dramaticamente. mas como uma religião. sobretudo. enquanto soluciona o problema filosófico do mal. a saber. assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna. No Ocidente. portanto. este problema sem o poder solucionar  frisamos que essa representa a grande originalidade teórica e prática. Depois vieram as guerras. em definitivo. A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política. uma doutrina. salientamos que o cristianismo o deve. A avalancha dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo.

pela razão. a função de órgão supranacional.C. em grande parte. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações". contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica. a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros. Apoiada em sua crescente influência religiosa. Não foram poucos. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega. a Igreja católica conseguiu manter-se como instituição social mais organizada. Em que consistia essa fé? Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma porta aberta para o pecado. pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. Em meio ao esfacelamento do Império Romano. apenas. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. Restava-lhes. decorrente." (São Paulo). Conciliado com a fé cristã. na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. por exemplo. somente acessíveis à fé. vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental. O objetivo era convencer os descrentes. das invasões germânicas. conciliador das elites dominantes. Por outro lado. Assim. afirmava Santo Ambrósio (340-397. preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana. Conquistou. "Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações da "filosofia". a dúvida. o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. numa época em que a terra era a principal base de riqueza. em termos de fé). Eles foram os responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles. política e econômica. De acordo com a doutrina católica. Neste sentido. demonstrar racionalmente as verdades da fé. o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja. Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o cristianismo entre os povos bárbaros. Patrística "A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica" . Do confronto desses povos invasores com a civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação européia de vida social. é do Espírito Santo. a Igreja exerceu amplo domínio. surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega. toda investigação filosófica ou científica não poderia. porém. Desempenhou. tento quanto possível. aproximadamente): Toda verdade. também. segundo os elementos do mundo. respectivamente. de modo algum. Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber No plano cultural. segundo a tradição dos homens. pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões européias. dita por quem quer que seja. para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos. Entre os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho e Tomás de Aquino.. contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas  especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. que corresponde ao período medieval. trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana. e não segundo Cristo. Segundo essa orientação. Assim.82 A Filosofia Medieval e o Cristianismo Ao longo do século V d. os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade. aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé.

Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas? Rosa. submetidas à teologia. merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino. enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência. tentou munir a fé de argumentos racionais. a palavra fala de uma coisa inexistente. marcando-o definitivamente. voltou a ser divulgada. Era a grande discussão sobre a existência ou não das . Terceira fase  (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos. segundo o historiador francês Jacques Le Goff. isto é. por exemplo. A Questão dos Universais: O que há entre as palavras e as coisas O método escolástico de investigação. os chamados universais de Aristóteles. Tendo a educação romana como modelo. retórica e dialética (o trivium) e geometria. caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão. de uma idéia geral. a palavra rosa continua existindo. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o Padre Agostinho. A cultura greco-romana. no entanto. Nesta fase. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente. guardada nos mosteiros até então. descobertas até então. Nesse caso. considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida. no caso de subsistirem. crer para compreender". Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles. formando parte dos mesmos". e à tradução para o latim de algumas delas. Segunda fase  (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos. se são corpóreos ou incorpóreos. A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se. começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática. Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi o inspirador neoplatônico Porfírio. é o nome de uma flor. como problema básico de especulação filosófica. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja. o período escolástico pode ser dividido em três fases: Primeira fase  (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. Todas elas estavam. (Santo Agostinho) Escolástica No século VIII. A partir do século XIII. A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosóficoteológica denominada escolástica (de escola). o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico. diretamente do grego. Era a renascença carolíngia. idéias gerais. Uma das principais correntes da filosofia patrística.83 Desde que surgiu o cristianismo. no entanto. nem. tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. "Compreender para crer. Esse problema filosófico gerou muitas disputas. aritmética. Quando a flor morre. astronomia e música (o quadrivium). mediante um trabalho de conquista espiritual. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. Nesse sentido. passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. em sua obra Isagoge: "Não tentarei "Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus". a Igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã. inspirada na filosofia greco-romana. privilegiava o estudo da linguagem (o trivium) para depois passar para o exame das coisas (o quadrivium).

mas apriorísticos. e recalcitrou contra os flagelos com que Jeová o castigava. De Israel toma o cristianismo. como elemento constitutivo.. à idéia de uma moral ascética. quer dizer.cristã do problema do mal seria vã. tendo adquirido. um redentor.Jesus Cristo . Perseguiu os Profetas. E como Jesus Cristo se torna garantia de toda uma tradição que o precedeu . que o chamavam ao temor de Deus e à penitência. porquanto este é hebraico e cristão. ou. E quanto ao direito romano. filosóficos.Novo Testamento. É o teísmo um privilégio único deste povo pequeno. E achamo-nos diante de uma personalidade extraordinária . o estado autônomo e privilegiado. a pessoa de Cristo tornar-se-ia inteiramente ininteligível. se ele não fosse Homem-Deus. até que Israel. . o direito romano. Diferentemente. no máximo dualistas ou panteístas. Jesus Cristo Entretanto.os milagres e as profecias . deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador das verdades reveladas. Daí a idéia de uma história. por certo. relativos à revelação cristã . a qual. os outros povos e civilizações.esta sua divindade.solução que representa o maior valor filosófico no cristianismo . são. o triste sentido da vaidade do mundo. o conceito de uma queda original do homem no começo da sua história.a Igreja católica. A solução integral do problema do mal viria unicamente do mistério da redenção pela cruz . um reparador. ainda que contra a sua vontade. para tanto não precisando. o verdadeiro criador do cristianismo. ainda que poderosos e ilustres. a várias interpretações. afirma-se a si mesma como divina e comprova explicitamente com prodígios e sinais . De Israel o cristianismo toma o teísmo. racionalmente premente e racionalmente insolúvel. não. e como justificador dos pressupostos metafísicos do cristianismo. caberá interpretar infalivelmente a revelação judaico-cristã e. No entanto. idéia peculiar ao cristianismo e desconhecida pelo mundo antigo. Idolatrou a vida longa e próspera. em sua novidade e originalidade.ascética . o pensamento grego e. Os argumentos em contrário não são positivos.84 Os Precedentes do Cristianismo Os fatores históricos do cristianismo são: em primeiro lugar. históricos. a solução . humanamente. a religião israelita. especialmente pelo mundo grego. também a parte que diz respeito à queda original e à relativa reparação. propriamente. religiosamente. através de dolorosas experiências. politeístas. em segundo lugar. Conceitos indispensáveis para explicar o problema do mal. E. em geral. enfim. uma vez admitido e firmado o teísmo. portanto. e não como constitutivo de seus elementos essenciais e característicos. essencial e característico. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador do novo organismo social. as riquezas da natureza e a prosperidade dos negócios. senão de provas históricas. as satisfações conjugais e domésticas. o Verbo de Deus encarnado e redentor pela cruz. leva uma vida santa. o mundano e carnal Israel resistiu tenaz e longamente a esta idéia de uma radical miséria humana -. antes de tudo. é Jesus Cristo. porém. logo se segue a possibilidade de uma revelação divina e da divindade de Cristo. portanto. os documentos fundamentais. foi submetido à sujeição e à renúncia. sem solução alguma. dependem de uma filosofia racionalista e atéia em geral.o Velho Testamento .até esquecer-se de Deus. Quanto ao pensamento grego.necessário complemento do mistério do pecado original. que ficaria. o conceito de uma revelação e assistência especial de Deus.. filosófico e histórico. que são próprios e originais do cristianismo. Pode ele dar plena solução ao problema do mal . a Igreja. Basta lembrar que. por conseqüência. evidentemente. Não é este o momento de fazer um exame crítico. e. que é desenvolvimento providencial da humanidade. também se responsabiliza por uma instituição que a ele se segue . Eis o esquema lógico da demonstração da divindade de Jesus Cristo. para determinar a personalidade de Cristo. básico. também. humanista e imanentista em especial. o poder e a glória . Na revelação cristã é filosoficamente fundamental. e também o conceito de um Messias. pode dar origem. que ensina uma grande doutrina. A esta. como a estóica e todas as demais soluções filosóficas de tal problema.unicamente se é Homem-Deus. Devem ser examinados à luz da crítica histórica. obscuro e desprezado.

por certa característica histórica e didática. são porém. fôra um inteligente e zeloso israelita. visto ser o mal um problema racionalmente insolúvel. As grandes viagens apostólicas de Paulo são três e têm como ponto de irradiação Antioquia. Paulo de Tarso. Cronologicamente. tomada com certa amplidão. que os torna comuns e os distingue do quarto evangelho. Destarte ele se pôs em contato com todas as formas de civilização do Oriente helenista e do mundo greco-romano. como qualquer outra filosofia. O quarto evangelho. foi em seguida traduzido para o grego e. nesta língua. O terceiro dos Evangelhos sinópticos é. Deus.85 O Novo Testamento Como é notório. precisamente este mal.formam um grupo à parte. tocando os centros mais importantes do mundo antigo: Jerusalém. além das testemunhas cristãs. em aramaico e destinado ao ambiente palestino. de caráter mais especulativo e teológico. realizadas para finalidades apostólicas. convertido ao cristianismo e mudado o nome de Saulo para o de Paulo. são fundamentais e mais do que suficientes para o nosso fim. que eles procuravam em suas religiões misteriosóficas . e o seu evangelho foi também escrito em grego. tanto assim que podiam desagradar a um helenista refinado como Porfírio.chamados evangelhos sinópticos . e. É este o aspecto do cristianismo que mais o impressionou. tornando em seguida um dos doze apóstolos. revelando-lhes em Cristo crucificado o Deus padecente. do pecado. um dos doze apóstolos: João. Não conheceu Jesus Cristo durante sua vida terrena. que não foi discípulo direto de Cristo. companheiro de Paulo. são elas as seguintes: Paulo de Tarso. Cristo não deixou nada escrito.no seu conjunto . Nesta cidade encerra a sua vida mortal com o martírio. tira o pecado do mundo. O segundo é o Evangelho de Marcos. juntamente com este valor histórico. o de João. o predileto do Mestre. mediante a graça de Cristo. na Cilícia. preocupa Paulo é o do mal. No Novo Testamento. Também ele não foi discípulo imediato de Cristo. Para o mesmo fim escreveu Paulo as famosas cartas às comunidades cristãs dos vários centros da Antigüidade. Cristo é o Verbo de Deus encarnado para a redenção do gênero humano. embora nos deixando na luta e no sofrimento. No Velho Testamento Deus tinha dado aos homens a lei que. por certo. cronologicamente. tem um especial valor especulativo. Escrito.e não acharam. o teólogo da Redenção.escritas em grego devemos dizer que não são cartas logicamente orgânicas e ordenadas. de sorte que o nosso conhecimento mais imediato em torno da sua personalidade se realiza através dos escritos dos seus discípulos. O problema que. de sorte que é ele. os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. A vida de Paulo é caracterizada por muitas e longas viagens. vítima e Salvador. relacionados com ele. O quarto Evangelho. João pode ser considerado o teólogo da Encarnação. embora fosse uma lei moral. transmitido. Marcos e Lucas . Atenas e Roma. O primeiro em ordem de tempo é o Evangelho de Mateus. pelo contrário. o mal assim chamado metafísico. o publicano. Quanto às Epístolas . crucificado e ressuscitado. A Solução do Problema do Mal Não há dúvida de que o problema do mal foi o escolho contra o qual debalde se bateu a grande filosofia grega. os quais . de forma incisiva e eficaz. e praticamente dolorosa a vida? Não é. é o último dos Evangelhos e dos escritos do Novo Testamento. enfim. densas de conteúdo. a saber. o de Lucas. Como Paulo pode ser considerado o teólogo da Redenção. Também o Evangelho de João foi escrito em grego. a necessária limitação de todo ser criado: porquanto esta limitação nada tira à perfeição dos vários seres a eles devida . Que coisa é. não tirava o pecado. mas. Estas últimas. tornando o homem consciente de sua falta. originariamente. por excelência. mas nos transmitiu o ensinamento de Pedro. devido à miséria do homem decaído. até o agradava. pois. sobretudo.foi escrito por um discípulo direto de Cristo.podem se considerar compostos na Segunda metade do primeiro século. Foi escrito em grego e destinado a um público não palestino. inversamente . que o chamava o caro médico. de que acha a solução em Cristo redentor. tornou-se o maior apóstolo do cristianismo entre os gentios ou pagãos. testemunha da sua vida e da sua morte.como o primeiro . Temos de Cristo testemunhas também pagãs. nem literariamente aprimoradas. estas são extracanônicas e canônicas. É o mais amplos dos Evangelhos e relata amplamente os ensinamentos de Cristo. Os Evangelhos de Mateus. do sofrimento. teológico. que tem o poder de tornar teoricamente inexplicável a realidade. porém. que Paulo sentia tão profundamente.

mas apenas aquela plenitude do ser. da racionalidade. naquele característico processo que é o conhecimento e a operação humana. fundamentalmente. o problema da vida. pois esse gênero de mal. A filosofia conhece a essência metafísica dessa natureza humana.do qual o conhecimento deve no entanto partir . mesmo quando a verdade é conhecida pelo intelecto. E bem poucos homens e só com muitas dificuldades e não sem graves erros. a psicologia e a história. Noutras palavras. a saber. físico e moral. isto é. E o livre arbítrio proporciona-lhe o modo de realizar essa possibilidade. a qual nos fala de uma queda do homem no começo de sua história. comprometeria também a sua maior conquista: Deus.com uma natureza extraordinariamente dotada . há. mas ignora-lhe a causa. do pecado. Quanto à realidade de uma queda original do homem. e especialmente uma religião entre as religiões.sobrepuja o intelecto. em geral. demais vezes o sentido . por sua natureza. enveredando pelo não-ser. o indivíduo e a humanidade. naturalmente. é um problema. Este é o mal moral. não por direito. outro meio a que pode o espírito humano razoavelmente recorrer para a solução de um problema tão premente? Apresenta-se a religião. mas unicamente se quer frisar que a dor e a morte . proporciona-lhe o modo de desviar-se efetivamente do ser. a coisa é ainda mais patente: basta lembrar o sofrimento e a morte. indispensáveis para uma solução humana do problema da vida. o instinto assenhoreia-se da vontade. precisamente se se considerar a natureza específica do homem. mas certamente exige a subordinação do sensível ao inteligível. se se considerar. o mal físico e moral. remetemos ao fato da Revelação em que é contida.86 por natureza. verdadeira imperfeição de um determinado ser. as coisas serão bem diferentes. que pertence unicamente a Deus. basta lembrar que o ser criado pode. que domina o mundo humano. se evidenciam como um estado inatural com respeito ao nosso ser espiritual e racional. precisamente por causa do mal. desta maneira.bem como a ignorância e a concupiscência . etc. teria gozado de uma espécie de deificação. É antiga e famosa a objeção: de que modo concordar a absoluta sabedoria e poder de Deus com todo o mal que há no mundo. contra as exigências da própria natureza racional. a natureza humana. mas. como o homem primigênio não só teria possuído aquela harmonia natural. de que agora é privado. Não resta. como deveria ser em uma hierarquia racional dos valores. porquanto não consegue resolver plenamente o seu problema. isto é. no teísmo. como que por nova criação. naturalmente.que são. O mal. como tal. exige que o corpo humano e a natureza em geral sejam submetidos às imposições do espírito.devido a uma culpa . chegam ao conhecimento daquelas verdades racionais . A filosofia é certamente construtiva. Temos. rigorosamente. isto é.Deus. já que. devida ao puro espírito. Com isto. Isto significa exigir que os sentidos sejam instrumentos do intelecto e o instinto seja instrumento da vontade.da vida de Deus. à ordem sobrenatural. mas por graça. então. garantidas pela interpretação da Igreja e sistematizadas pela teologia. pela irracionalidade. a qual é a natureza do animal racional. deve reconhecer os próprios limites. Não pode. desviar-se da ordem: porquanto há nele algo de não-ser. mas teria sido outrossim elevado. é plenamente explicável. sem preconceitos. e afirma esta verdade . entretanto. do material ao espiritual. o chamado físico e moral. E evidencia-se também que . deve reconhecer-lhe também a desordem.em sua atual intensidade. e a maioria dos homens viveu e vive cegamente. o homem teria participado . pois. de potência. evidencia-se. mais freqüentemente ainda. não se quer dizer que a impassibilidade e a imortalidade sejam uma exigência da natureza humana. o que não significa certamente lhe pertença a racionalidade pura. E. metafísica. com um conveniente conjunto de dons preternaturais. chegada ao seu vértice. deve tornar-se crítica. . que nos parece desordenada.bem como todo o sistema dos seus dogmas como divinamente revelada. Quanto à possibilidade de uma queda do espírito. a alma. Com efeito. teisticamente concebido como transcendente e criador. todavia. renunciar absolutamente à solução deste problema. e este propriamente em relação ao homem. porventura. por ele criado? Deve-se entender. O Pecado Original Se a filosofia é impotente para resolver plenamente o seu próprio problema. Da Escritura e da Tradição. precisamente pelo fato de ser ele um ser criado. Ora. uma natureza. Pelo que diz respeito ao mal físico. espiritual. quanto à possibilidade do mal moral. senão o mal. porquanto é limitação da natureza.

mediante uma divina dialética. por conseguinte. não se pode explicar por si mesmo. por mais supereminente e central que seja no cristianismo. não podia suscitar o problema do mal. . pois .que importa na privação da ordem sobrenatural. para que o problema do mundo tenha verdadeiramente solução. para que seja verdadeiramente a explicação do mundo. retamente definido como uma produção das coisas do nada por parte de Deus. Para a Redenção. por exemplo. isto é. porém. Há. cometida pelo primeiro homem. precisamente para reparar o pecado original e. que temos considerado insolúvel pela filosofia. E Deus. e. ingressando na Igreja. o bem e até um bem maior? É o que explica um segundo dogma da revelação cristã. Visto a ofensa feita a Deus pelo pecado ser infinita com respeito ao Infinito ofendido. ele se sacrifica até à morte de cruz. Ao contrário. por conseqüência. deve reconhecer praticamente esta sua dependência absoluta. Deus precisava de uma reparação infinita. portanto. de que temos imediatamente experiência. entende-se como o verbo de Deus assuma em Cristo a natureza humana. isto é. bem como a nenhuma natureza criada. praticando o Cristianismo. isto é. na privação do único fim humano efetivo. pois. sendo criatura e portanto dependendo totalmente de Deus. é preciso chegar até Deus. Com efeito. devia descender toda a humanidade . uma debilitação espiritual e física na natureza humana. o dogma da redenção operada por Cristo. teria sido suficiente o mínimo ato expiatório de Cristo. tomando-se esta palavra "ascética" não no sentido rigoroso de renúncia aos bens criados. a glória de Deus o fim último de toda atividade divina. lembrar como. E. a privação da mesma. ser herdada. logo. até à vulneração da própria natureza . e não pelo fato de o sobrenatural oprimir a natureza. devido à dignidade do operante.87 de orgulho contra Deus. aqui não interessa. também morais: deficiências que não dependem dos indivíduos. o homem que devia pagar. O aspecto da condição primitiva do homem. e. nem a perda dos dons praternaturais. Fez isto para dar toda a glória possível à infinita majestade de Deus no reino do mal e da dor proveniente do pecado. até ao sofrimento e à concupiscência. Deus. A razão humana constata. provinda do pecado. é.voluntário e culpado em Adão. uma enfermidade. a elevação à ordem sobrenatural sendo. frustar o plano divino da criação? Ou o próprio mal soube Deus tirar. nem pode deixar de constatar. a relação entre Deus e o mundo deve ser concebida segundo o conceito de criação. se podem transmitir deficiências materiais e. juntamente com os dons conexos. a Segunda pessoa da Trindade divina. que o mundo. visto que eles a sofrem. este seu nada ser por si. não pode certamente ser imanente. logo.teria o homem perdido aquela harmonia e a dignidade sobrenatural. suas conseqüências naturais também. enquanto não quiserem servir-se das misérias provindas do pecado original como estímulo para a Redenção. por definição. pela lei da hereditariedade. quer dizer. o que eqüivale dizer. seria culpado em seus descendentes. O pecado original. pela natureza humana.Conseqüente Praxe Ascética Ascetismo e Teísmo Das precedentes considerações segue-se que o cristianismo importa sempre e essencialmente numa praxe ascética com respeito ao mundo. por conseguinte. concernente à elevação sobrenatural. no conceito de criação. mas no sentido de que o homem. que sentido tem o mal no mundo? Conseguiu o homem. não podia causar vulneração em a natureza humana. precisamente. Segundo este dogma. Entretanto. assume natureza humana. e que deve. que unicamente Deus podia dar. não devida à natureza humana. Sendo. do qual. exige absolutamente uma explicação. tendo todo ato seu um valor infinito. gratuita. o Verbo de Deus. mediante o pecado. essencial desde o nosso nascimento. A Redenção pela Cruz Mas. Basta. Em verdade. mas por causa da desordem introduzida na ordem da natureza pelo pecado original. a raiz metafísica desta praxe ascética acha-se no próprio teísmo. mas deve ser transcendente e criador. O Cristianismo .

deste modo. quis Deus que fosse juntamente realizada a sua maior glória e o maior bem do homem. através do sacrifício mais completo por parte de Cristo. o modelo e o ideal da vida cristã. dada sempre a desordem das coisas. mas apenas tornava possível a expiação por parte do homem. Cristo  realizando a sua obra  foi julgado justo. Deus. seria também preciso admitir em Deus uma indigência. portanto. não dispensava. e um outro o traiu de morte. Com efeito. do operar positivo. Aqui falamos. como o orgulho será o pecado essencial do estulto. um dos quais  o que devia ser seu vigário  até o renegou. Tornando-se ele. Se se admitisse para a obra de Deus uma finalidade diversa. formado pela mesma natureza de Deus. em conseqüência do conceito de criação. Daí nada se poder levantar contra ele e proclamar a sua autonomia. neste caso. porque nada de quanto é real pode escapar à absoluta causalidade de Deus. e confirmou a doutrina com o exemplo. mas não lhe foi feita justiça pela majestade do direito. que não tem em si a sua explicação e. Não Deus. fundamental. foi abandonado pelos próprios e mais chegados discípulos. assim. privação.88 Ora. Unicamente deste modo o homem era redimido. não só na ordem do ser. A vida . cria o mundo do nada. propondo-se como modelo de todos os cristãos: Eu sou o caminho. Além disso. sendo negação. proveniente do pecado. E o homem faz parte dessa criação. a perfeição plena. sendo Deus a atualidade. mas deficiente. de modo que nenhum ser criado pode. Esta expiação divina. esta praxe ascética será loucura e escândalo. bem como por parte do homem. criando. mas o homem é o autor do mal. a humildade será a virtude essencial do sábio. extrínseca. ter-se-ia uma contradição semelhante à precedente. nas relações práticas com Deus  que constituem o objeto da religião em geral  e também nas relações com a remanente realidade. Contrariamente a quanto pensava o dualismo grego. por conseqüência. Então. unicamente desta maneira se realizava a glória de Deus e a redenção do homem em toda a sua plenitude. entre infinitos mundos possíveis. com todas as conseqüências acima mencionadas. unicamente através da justiça se manifestava a misericórdia de Deus. pode única e absolutamente criá-lo para a sua glória  embora esta já seja interiormente infinita. uma atitude de reconhecimento do próprio nada. como a atitude prática. com respeito à qual Deus seria passivo e. da criatura racional deva ser. Esta  tão significativa  praxe ascética tem a sua primeira e perfeita realização em Cristo. tal definição exclui que Deus organize uma pressuposta matéria qualquer. e não o tira de sua substância. exigir de participar da natureza divina e enaltecer como tal a sua natureza. para o mundo. mas enquanto querida por Deus. exigindo ao mesmo tempo que a sua justiça fosse dignamente satisfeita mediante uma expiação infinita por parte do Verbo humanado. isto é. envereda pelo caminho da cruz. logo. dispõe uma realidade essencialmente distinta de si. é excluído que o mundo seja. de modo nenhum. do bem. ao contrário. pode ou não pode criar. Mas. porquanto o mal. portanto. Os próprios israelitas sonhavam o Redentor cercado de grandeza e poder. se ela fosse necessária. não mais explicação do mundo. Compreende-se. foi condenado pelo povo que ele viera remir. assistido por algumas pobres mulheres. Cristo. evidentemente. de qualquer modo. não tem causa eficiente. de modo que Deus. haveria a contradição de que Deus seria da mesma natureza do mundo. mas o cria livremente e para a sua glória. Contrariamente ao que pensa o panteísmo. mas também na ordem de operar. redentor pela cruz. E morreu abandonado sobre a cruz. mas também apontou aos homens este caminho como sendo o caminho único para a salvação e a perfeição. e não de humildade e sofrimento. Deus. precisamente através dos sofrimentos provenientes da desordem decorrida do pecado. por isso. E. Ascetismo e Cristianismo Deus quis remir o homem. menosprezando a prudência e a fortaleza humanas. porém. a verdade e a vida. a saber: Deus teria necessidade do mundo que ele deve explicar. não mais Deus. não em si. Deus. Deus cria toda a realidade. pois. que repugna à natureza. a procura em Deus. Os Gentios julgavam naturalmente loucura a renúncia cristã. querendo criar o mundo. pode criar este ou um outro mundo. Antes. Humanamente e também racionalmente falando. não mais ato-puro. como diz Agostinho. Cristo não apenas realizou na sua pessoa o sacrifício redentor. mas já é a única via de salvação e de santificação. A este segundo princípio é conexa a absoluta liberdade da criação. então.

E realiza-se na clássica praxe cristã dos votos religiosos. embora variável nas aplicações concretas. a caridade. Em segundo lugar. a obediência. Tal ensinamento ascético de Cristo  que. consegue tirar a humilhação do receber. porquanto torna conformada e voluntária a aceitação do sofrimento. mais ou menos intensamente. Considere-se. a imitação de Cristo crucificado  diversamente embora. acharemos alimento ascético. para abraçar a pobreza. que se pode considerar o compêndio do espírito do Cristianismo. em seus termos atuais. já que não se apresenta mais como inesperado e trágico. valorizando a dor. Este ensinamento. Antes de tudo. Resolve isto verdadeiramente só a ascética cristã. e a Revelação disto dá explicação e justificação  não somente a justiça não consegue abolir a pobreza. o que à orgulhosa razão humana parece estultícia. apesar das aparências contrárias. quando a perfeição se eleva dos preceitos aos conselhos? Poderia assim parecer. mas no homem sofredor. à família. tal egoísmo está em franco contraste com o conceito de caridade. das lutas dos gladiadores. exaltando o sofrimento: bem-aventurados os pobres. com o qual e para o qual sofremos e. A caridade cristã purificou a civilização antiga da barbárie da exposição das crianças. em concreto. os poderosos. a castidade. não é argumento suficiente para que todos obedeçam à autoridade. como condição necessária para a salvação  se alguém quer vir após mim. mas os pobres. sempre idêntica e imutável na substância. A caridade cristã favoreceu ainda obras numerosas e fecundas para os infelizes. ou não parece. que procuremos a sua imagem. e exaltados não os ricos. E. impõe Cristo a renúncia total aos grandes bens do mundo: renúncia à riqueza. a própria caridade cristã. segundo os graus de perfeição cristã e as concretas diferenças individuais. a consecução da felicidade na vida eterna. para gozarmos a vida em sua companhia. Entretanto. ao contrário. Deste modo Cristo dirá que o busquemos  isto é. pois não fica certamente dispensado da dor quem neste mundo entende de viver apenas moralmente e não heroicamente. mas faz-se mister a ascética cristã para vencer este egoísmo mediante a paciência. a sua imitação  não no homem feliz. renuncia-se a si mesmo. porquanto formada de homens. a humildade. pois. Menos ainda conseguem isto a filantropia e os demais equivalentes humanistas. E também não se pode resolver naturalmente o problema árduo da sujeição à autoridade. os mesquinhos. que preocupam tão profundamente a sociedade humana. na sua morte  em abstrato se acha em toda a sua doutrina. Garante. o sermão das bem-aventuranças. em especial. Cristo dirige a todos os seus seguidores. e de uma felicidade que transcende toda aspiração e capacidade humana. no entanto necessária para que a sociedade possa sustentar-se. conforme a sabedoria cristã. é uma pena.  por causa da renúncia ao mundo devastado pelo mal  isolar fatalmente os homens dos seus semelhantes? E este isolamento não é ainda mais acentuado. mas também na religiosa. que o mundo inveja. mas especialmente no sermão da montanha. a fraude. barbárie que se repete. tome a sua cruz e siga-me. os pobres. ascético. ao homem. e nem sequer quem entende de gozar livremente dos bens da terra. racional.cristã será. da escravidão. mas nem sequer a caridade. se acha em toda a sua vida e. aos que aspiram à santidade. como claramente o prova a dura experiência. E esta a chamada via dos conselhos evangélicos. como renúncia à própria vontade. em contraposição com a vida comum dos preceitos. bem como em toda civilização mundana em geral. então. dominante na moral cristã. não é possível nas atuais condições de egoísmo e malvadez humana. A questão econômica não se pode resolver naturalmente. . não fica senão a obediência no sentido cristão. a violência. O fato de a autoridade ser necessária à existência da sociedade. especialmente o orgulho. os gozadores. Provê igualmente esta moral ascética o bem dos outros. 89 Ascetismo e Caridade Esta moral ascética cristã é racionalmente fundada sobre o teísmo e a Revelação. E isto acontece não apenas na sociedade civil. portanto. e isto é evidente se se examinam as paixões humanas. Na vida temporal esta moral ascética apresenta-se também como a mais sábia. Aí são invertidos os valores terrenos. os sofredores. à perfeita imitação dele. Com efeito  prescindindo do fato de que o trabalho. à liberdade. Tal renúncia não é imoral. por exemplo. mais ou menos desprezados e negligenciados na civilização antiga. os doentes. freqüentemente mais fortes em quem domina. a convivência social. em lugar do clássico conceito de justiça. os velhos. a questão econômica e o problema da autoridade. destarte. no egoísmo de toda civilização puramente humana. à plenitude da vida cristã. mas assim não é. moral.

todavia. os temperamentos pessoais e as necessidades sociais. unicamente quem é indiferente às qualidades alheias. no heroísmo. A Patrística é contemporânea do último período do pensamento grego. porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja. que são os construtores da teologia católica. que procuram de um lado demonstrar a inocência dos cristãos para obter em favor deles a tolerância das autoridades públicas. Os padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados padres apostólicos. A ética cristã da renúncia perfeita ao mundo é a mais proveitosa para a sociedade  familiar. transpor os confins da ética. Costuma-se designar como o nome de apologistas os escritores cristãos dos fins do segundo século.90 porque tem como objeto não a pessoa. da renúncia ao mundo. de modos muito diferentes. depois de Agostinho vem o período que. representa a decadência da Patrística. mestres da doutrina cristã. A Patrística Pré-agostiniana Características Gerais Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária. recebem o apelido de padres apostólicos. nem pode objetivamente. que é o caminho mais perfeito do que o dos preceitos. Interessam-nos particularmente os segundos. Chamam-se apostólicos os escritos não canônicos. a renúncia ascética não é estéril egoísmo. é disposto. Não considera. os lugares. com o qual tem fecundo contato. ou foram discípulos imediatos deles. Seus autores. mas o contrário. se a Patrística interessa sumamente à história do dogma. visto ser o maior dos Padres. Este será o caminho percorrido  embora de modos diferentes  pelos santos. De fato. até solícito dos mais miseráveis. Precisamente pelo fato de que o homem. e chega até ao começo da Escolástica: isto é. nacional. os séculos II-VIII da era vulgar. motivos de altruísmo. E é mediante e através desta renúncia ascética. Portanto. Dada a culminante grandeza de Agostinho. desde o fim do primeiro século até a metade do segundo. conforme os tempos. em que terá importância fundamental a Escolástica. que os santos se tornam os grandes benfeitores da humanidade. Finalmente. interessam especialmente os chamados apologistas e os padres alexandrinos. como divina. renunciando a si mesmo e dando-se em holocausto a Deus. imensamente capaz. mas o ofício. Agostinho. com o qual também polemiza. e provar do outro lado o valor da religião cristã para lhe granjear discípulos. universal. sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. quando conhecidos. cada qual realizando este ascetismo cristão com diversa intensidade. os apologistas e os controversistas. logo após a sistematização. mesmo razoáveis. filosoficamente. os super-homens do cristianismo: o caminho dos conselhos evangélicos. porquanto floresceram no templo dos Apóstolos. a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho. E é também contemporâneo do império romano. que merece um desenvolvimento à parte. de modo nenhum. Seus . não encontra limites no altruísmo. guias. a humanidade como fim último. O II Século: Os Apologistas e os Controvertistas A Patrística do II século é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo contra o paganismo. que criou o homem à sua imagem. ao passo que os primeiros e os últimos têm uma importância religiosa. precisamente porque é característica das Ordens Religiosas a via dos conselhos. a prescindir dos demais. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística. entretanto dele diferenciado-se profundamente. ou os conheceram diretamente. o período religioso. até desejoso. que nos legaram as duas primeiras gerações cristãs. E os santos mais facilmente florescem nas Ordens Religiosas. mas uma oportunidade de engrandecimento mediante o sacrifício. e o remiu com a Paixão do seu Verbo encarnado. cheio de boa vontade para sacrificar-se inteiramente para com todos. interessa assaz menos à história. o hebraísmo e as heresias. dogmática. pela defesa racional do cristianismo contra o paganismo. e que terminará por se cristianizar depois de Constantino. período em que. no âmbito do próprio cristianismo. mas conforme à transcendente vontade de Deus.

do espírito prático. para levarem. entrou no cristianismo. metafísicos. aliás. continuam filósofos também depois da conversão. Imitando os filósofos. encarnado pessoalmente em Cristo. que se ressentem. enaltecedora e potenciadora dos valores intelectuais. espécie de faculdade teológica. e morreu mártir no ano 170. mesmo do ponto de vista católico.dependem de Moisés e dos profetas. dos quais teremos. que já ia afirmando mesmo culturalmente. . levados a estimarem seus adversários. primeiro. estóica. fundidos numa característica síntese filosófico-religiosa em oposição ao cristianismo. gradualmente. está em condições de desenvolver do seu seio um pensamento. latina. Devido às perseguições anticristãs do imperador Setímio Severo.Tito Flávio Clemente . o primeiro sistema orgânico de teologia cristã. para Alexandria do Egito. por vezes. leigo embora. pragmatista. que vivem na tradição cultural helenista. Depois de ter visitado a Magna Grécia. graças a Orígenes.em oposição ao gênio grego.por exemplo. portanto. obras de controvérsia. sobretudo. Se bem que entres os padres africano-latinos apareçam vulto notáveis. uma teologia. às vezes. a Síria e a Palestina. até à conversão os pagãos. moralista latino . abriu em Roma uma escola para o ensino da doutrina cristã.nasceu no ano 150. em tempo oportuno. jurídico. de família pagã. teoréticos. naquela celebrizada escola catequética. Retirou-se . Este gnosticismo cristão se afirmou especialmente em Alexandria do Egito. empreendeu uma série de viagens em busca de mestres cristãos. E julga achá-la. E apresentavam o cristianismo como uma sabedoria. Escreveu suas obras nos meados do segundo século. São Justino Mártir . É. por conseguinte. são.em busca da verdade para a solução do problema da vida. mais cultos do que os padres apostólicos. é mister lembrar que o escopo por eles visado era. o grande centro cultural da época. foram luminares Clemente e Orígenes. e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia. por vezes. Depois de Ter peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas – peripatética. Para bem compreendê-lo. último estádio da sua peregrinação filosófica. Suas obras são duas Apologias . freqüentemente são filósofos . sem mudar a sua fisionomia original. cabendo-lhe a glória de ter o grande Orígines entre seus discípulos.sábios . pertencentes não à África oriental.ainda que não apresentem uma unidade sistemática. especulativos. mas difundidos mais ou menos em todos os filósofos antigos. uma filosofia. Os Padres deste período polemizam filosoficamente com os pensadores pagãos. Daí a distinção que então se afirmou entre os simples fiéis e os gnósticos . O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos O terceiro século apresenta um interesse particular pelo que diz respeito ao pensamento cristão. mas África ocidental. Clemente foi chamado para dirigir a famosa escola catequética. apologias propriamente ditas. onde encontrou a paz. Justino procura a unidade. Os apologistas. E são dirigidas às vezes contra os pagãos. foi. pelo ano 180. os padres africanos . entre o cristianismo e a filosofia. abandonando o platonismo. Falecido este no ano 200.especialmente Platão . Justino dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. teses. O cristianismo. como por exemplo Tertuliano. a conciliação entre paganismo e cristianismo.91 escritos.que produziu os estóicos e os cínicos romanos .cristãos. Naquele famoso didascaléion. entre filosofia e revelação. Tentouse um renovamento do paganismo com bases no panteísmo neoplatônico e nos cultos orientais. entretanto. desejoso de um conhecimento mais profundo do cristianismo. Clemente teve de suspender o seu ensino alguns anos depois. depois da doutrina famosa dos germes do Verbo. ao Egito.contra os hebreus. Clemente Alexandrino . por em focos os pontos de contato existentes entre o cristianismo e a razão. provavelmente em Atenas. Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém na Palestina em princípios do segundo século. onde o seu espírito achou finalmente paz junto do eminente mestre Panteno. Ufana-se ele de ser filósofo e cristão. que representarão a sua essência doutrinal. pitagórica . hostilizado pelos padres chamados africanos. O maior dos apologistas é certamente São Justino. como a sabedoria mais perfeita. na crença de que os filósofos clássicos . O cristianismo filosófico é próprio e característico dos padres alexandrinos.bem como os padres latinos em geral . outras vezes contra os hebreus. Converteu-se ao cristianismo talvez levado por exigências filosóficas. que mandou fechar a escola.contra os pagãos .não apresentam interesse particular para a história da filosofia.e um Diálogo com o judeu Trifão .

religiosos e cristãos sobretudo. atribuindo-se-lhe milhares de obras. declara Orígenes que a melhor apologia do cristianismo é constituída pela vitalidade divina da Igreja. abrindo em Cesaréia uma escola teológica ( chamada depois neo-alexandrina . isto é.Basílio. devido também a algumas opiniões heterodoxas contidas na sua grande obra Sobre os Princípios. e os meios empregados. foi proibido por este de ensinar e foi condenado. junto de um seu antigo discípulo. Por princípios Orígenes entende os artigos principais do ensino da Igreja. religiosamente. morais e religiosas. e para atender aos desejos de grandes personagens que queriam consultá-lo. Empreendeu então longas viagens para se instruir.isto é. Aí lecionou ainda durante vinte anos. e representa uma suma teológica verdadeira e própria. em três livros. sobretudo. dos milagres e das afirmações solenes de Cristo. que tinha estudado as fontes do cristianismo. mencionamos a obra Sobre os Princípios e os oito livros Contra Celso. Filosoficamente importante e característica é a distinção que faz Clemente dos cristãos em simples fiéis e gnósticos. que não nos interessam. Atanásio. no dizer de São Jerônimo. apesar dos ataques dos adversários. o Pedagogo. dissertações filosóficas. diversamente do simples fiel ou crente. A obra Sobre os Princípios nos proporciona a ciência baseada na Revelação. foi encarregado pelo bispo de Alexandria. sábios.as lições de Amônio Saca. é consciente de sua fé. pelo ano 185. o ataca em todos os pontos. Orígenes. escutou . Aos vinte e cinco. e as verdades primordiais deduzidas mediante a razão teológica das premissas reveladas. apresentado no primeiro o Verbo como educador das almas. e morreu nessa cidade entre 211 e 216.pequena apologia em doze capítulos. justificando-a e organizando-a racionalmente. pela sua força e virtude para a reforma moral dos homens e pela sua difusão universal. perfeitos. Prescindindo dos escritos exegéticos e as céticos. de volta à pátria. valoriza ele também. é o maior expoente filosófico da escola alexandrina. de interesse especialmente ético. o Verbo promotor da vida cristã . Durante a perseguição de Septímio Severo. Orígenes. Orígenes ostenta uma erudição extraordinária. Basta lembrar. Nasceu em Alexandria do Egito. O gnóstico cristão.92 para a Ásia Menor. filósofo pagão. O IV Século: Os Luminares de Capadócia O século quarto. negligenciando um tanto a Sagrada Escritura e a Tradição". uma serenidade nobre e inigualável. perfeitamente acabada na forma e no conteúdo. Embora as preocupações de Clemente sejam sobretudo morais e pedagógicas. Nesta obra. Tinha então Orígenes dezoito anos. acentuava demasiadamente a última. sentindo a necessidade de conhecer profundamente as doutrinas que desejava combater e querendo completar a sua formação. As obras principais de Clemente são: o Protréptico . desprezando os mais graves perigos. e também por ciúme. A atividade literária de Orígenes não conhece igual.como Plotino . sobretudo.que é uma coleção de pensamentos. de família cristã. Ordenado sacerdote no ano 230 pelos bispos de Cesaréia e de Jerusalém. Leônidas. contra a vontade de seu bispo. que superou a de Alexandria pelo seu caráter científico. considerações. que depois suscitou a grande polêmica origenista. os luminares de Capadócia . por falta de revelação formal. todavia. Retirou-se então Orígenes para a Palestina. "Querendo harmonizar a doutrina cristã com a filosofia pagã. A obra Contra Celso é a mais célebre de Orígenes sob o aspecto apologético. para a igreja oriental.tapetes . satisfatoriamente. Representa. Antes de tudo. Granjeou ao autor grande nomeada e contém o origenismo. o bispo Alexandre de Capadócia. chamado adamantino por sua energia incomparável. a filosofia. que os cristãos devem evitar. bem como o primeiro sistematizador do pensamento cristão em uma vasta síntese filosófica. Discípulo de Clemente. filosoficamente. segundo a tendência metafísica dos doutores orientais. o malho do arianismo. que o seu mestre Clemente teve que abandonar. os Strômata . especialmente a Segunda metade. e grandemente. à maneira de Justino. bem como uma fé inabalável. isto é. É uma resposta à obra Sermão Verdadeiro de Celso. Orígenes pode ser considerado o verdadeiro fundador da teologia científica.. a primeira grande síntese doutrinal da Igreja. O precoce menino recebeu do pai. e indicando nos demais dois livros os vícios mais graves. a primeira formação literária e. Demétrio. talvez. religiosa. representa a idade de ouro da Patrística. falecendo em Tiro pelo ano 254. visto que Celso. dedicada ao exame atento e pormenorizado das profecias. da direção da famosa escola didascaléion. A maior parte do escrito é. talvez. sendo ademais dotado de uma erudição prodigiosa e de uma cultura incomparável. .

Padre em Antioquia. concebido como ascética.93 Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa . de Constantinopla. em 395. inflamou os fiéis com a sua pregação brilhante e comovedora. Possui. Esforça-se para mostrar que os dados da razão e os ensinamentos da fé não se hostilizam. degredado pela fé. protegida por Constantino. aperfeiçoando-se em Atenas. e não jurídicas. direito. filosoficamente. a doutrina católica. negador da divindade do Verbo. até que afinal. porém. atacada especialmente por Ário (256-336). teológica. Gregório de Nissa é o maior filósofo dos padres gregos. e organizador da vida monástica na Capadócia. abandona o mundo e se retira para a vida ascética.. retirou-se depois para a solidão. Irmão de Basílio. e escrevendo uma Grande Regra e uma Pequena Regra. de família cristã. Ambrósio de Milão e Jerônimo. mas se harmonizam reciprocamente. como verdadeiro filósofo. As exortações do irmão e de Gregório Nazianzeno persuadiram-no da vaidade do mundo. A teologia. a grandeza da Patrística. para a precisão e a organização do dogma. Aristocrático e delicado. que. A heresia ariana . eram certamente favoráveis à cultura cristã. sobretudo graças aos luminares de Capadócia. entretanto. São Basílio. Também os grandes representantes da escola neo-alexandrina. organizando a vida solitária dos que o seguiram. Trata-se. depois de batizado. a oração. que aperfeiçoou em Atenas. Entretanto. o estudo. chamado Nizianzeno. padre alexandrino oriundo da Líbia. sendo Atanásio o mais destacado e forte opositor. nascido em Cesaréia de Capadócia pelo ano de 330 de família rica e cristã. provavelmente. talvez. pelo que será considerado o legislador do monaquismo oriental. faleceu. de regras morais. Recebeu uma educação clássica aprimorada. insigne promotor da beneficência cristã quando bispo de Cesaréia.arianismo . torna-se religião do estado com Teodósio. Os padres dessa época se exprimem em aprimorada forma clássica e possuem uma profunda cultura filosófica. Santo Agostinho . os luminares de Capadócia. São João Crisóstomo. Também São Gregório. às altas classes sociais. à lógica aristotélica. abandonando a cátedra de retórica. no quarto século. foram grandes testemunhas do caráter fundamentalmente ascético do Cristianismo. aristocrático. que proporcionam o instrumento. em seguida. pouco afeito à vida prática. foi feito bispo de Nissa. fez longos e aprofundados estudos. As grandes heresias da época obrigaram os padres a defender racionalmente. em que a atividade dos monges é distribuída entre o trabalho. São Gregório de Nissa foi o maior dos luminares de Capadócia e. foi destinado ao estado eclesiástico. destinadas a um monaquismo culto. para a vida monástica. compartilhando com ele a admiração para com Orígenes. e João Crisóstomo. quanto dogmática. declarada livre pelo Edito de Milão. não é tanto científica. A igreja católica. devido naturalmente à filosofia. Como em teologia é origenista. nasceu pelo ano 355 em Cesaréia e recebida uma informação cultural aprimorada. filosofia. falecendo pelo ano 390. Também ele admirou e praticou a vida ascética com o amigo Basílio. o gosto das definições claras e das classificações metódicas. Estas condições de paz e de privilégio. de todos os padres gregos sob o aspecto especulativo e filosófico. geralmente. faleceu em 379. em conformidade com o seu ideal ascético e contemplativo. e a grande estima do cristianismo. o mais celebrado representante da escola de Antioquia. o método. É significativo neste grande prelado o senso profundo da vaidade do mundo. em 407. pelo ano 344. nasceu de família ilustre. Os maiores dentre eles são solidamente formados na solidão monástica e ascética e pertencem.foi condenada pelo concílio de Nicéia (325). valorizou cristãmente na solidão e no ascetismo. de Antioquia. Grande admirador de Orígenes. Bispo de Sásima antes e. imponente. foi professor de retórica e casou-se. retirou-se para a vida ascética contemplativa. Em seguida. primando pela sua cultura teológica e filosófica. para a igreja ocidental. em filosofia é neoplatônico. deixou-se desviar da sua vocação. Recebido o batismo. fez estudos aprofundados. Faleceu. estudando retórica. e depois bispo de Constantinopla. torna-se uma construção intelectual sistemática. cidadezinha da Capadócia. nasceu pelo ano 330 em Capadócia.

visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida. Entrementes . Seu pai. Dada. especialmente: Da Verdadeira Religião. sobreveio a conversão moral e absoluta. Caiu em uma profunda sensualidade. A Cidade de Deus. Mônica. ao matrimônio. e. sua mãe. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são. a fim de aperfeiçoar seus estudos. é uma das maiores conseqüências do pecado original. Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta. donde partiu para Roma e. durante alguns meses. a graça. Agostinho. aos trinta e dois anos.94 A Vida e as Obras Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos. retira-se. a mentalidade agostiniana. no neoplatonismo. em que a filosofia e a teologia andam juntas. como por uma fulguração do céu. porém. a predestinação. circunscrito aos problemas de Deus e da alma. Aí vendeu todos os haveres e. em companhia da mãe. Da Trindade. por razões de saúde e. E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles. Aí escreveu seus diálogos filosóficos. no mês de setembro do ano 386. Sobre a quantidade da alma. por razões de ordem espiritual. que. que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos. Sobre o mestre. compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas. Sobre a imortalidade da alma. funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. Os solilóquios. os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos. Entretanto a conversão moral demorou ainda. em seguida.no começo do ano 386. Afastou-se definitivamente do ensino em 386. e consagrado bispo em 395. a 28 de agosto do ano 430. que o resolve. Da vida beata. Inicialmente. Do livre arbítrio. entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. Tinha trinta e três anos de idade. cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. na Páscoa do ano 387. e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã. fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. Tinha setenta e cinco anos de idade. era pagão. pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo. desviou-se moralmente. era uma cristã fervorosa. como solucionadora do problema da vida. por razões de luxúria. Tendo terminado os estudos. Indo para Cartago. Após a sua conversão. superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. e à redação de suas obras. mais ainda. abriu uma escola em Cartago. abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. cidade da Numídia. Patrício. Ordenado padre em 391. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida . para a solidão e o recolhimento. da teologia revelada. segundo ele. fazendo com que aderisse ao maniqueísmo. ou melhor. governou a igreja de Hipona até à morte. moral e intelectualmente. volta para Tagasta. Todo o seu interesse central está portanto. Sobre as duas almas. sobretudo. recebido o batismo pouco antes de morrer.depois de maduro exame crítico . As Confissões. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo. a 13 de novembro do ano 354. julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e. do filho e dalguns discípulos. Agostinho inspira-se em Platão. falecida a mãe em Óstia. e. perto de Milão. por conseqüência. Depois da conversão. começados na pátria. O Pensamento: A Gnosiologia Agostinho considera a filosofia praticamente. distribuído o dinheiro entre os pobres. Da Mentira. Da natureza do bem. O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho. ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. à carreira. Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura. Sobre a música. ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal. ele conquista uma certeza: a certeza da . para Milão. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes. juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio. dominou-o longamente. e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. de uma família burguesa. que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal. a liberdade.abandonara o maniqueísmo. recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio. Finalmente. Agostinho abandona Milão. pelo contrário. platonicamente. uma justificação da sua vida.

Deus. deram origem às existências dos seres específicos. porém. do mesmo modo. o corpo não é mau por natureza. as forças naturais do espírito. pessoa. Esta vem de Deus. acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica. Deus é concebido exatamente como livre criador. Quanto à natureza de Deus. como alguns erroneamente pensaram. são fontes de conhecimento. porquanto a matéria não pode ser essencialmente má. imutável. é o das relações entre Deus e o tempo. Quanto. enfim. platonicamente. sensitiva e intelectiva. Deus é ainda ser. para que se realize o conhecimento intelectual humano. não bastam. desenvolvendo-se. é necessária a luz física. Como se vê. No pensamento clássico grego. Por certo. moralmente. pela sua simplicidade. portanto. como o intelecto. espírito. para o conhecimento intelectual. e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. as espécies. a característica fundamental. em sentido teísta e cristão. Quanto à cosmologia. distingue. No homem a vontade é amor. a priori. amor. Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. imutável. Como já mais acima se salientou. o que era excluído pelo platonismo. ou provém da alma dos pais. de certo modo. portanto. No cristianismo. Deus e a alma. criadas. segundo a gnosiologia platônicaagostiniana. absolutamente. isto é. Certo é que a alma é imortal. saber. . a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho. cristã: Deus é poder racional infinito. porém. porém moral. mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. platonicamente. Deus não é no tempo. aberrante de Deus. como na concepção aristotélico-tomista. Antes da criação não há tempo. não nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus. dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são. tem uma realidade na vontade má. no animal é instinto. Mas a união do corpo com a alma é. e é atribuída a primazia à vontade. preso pelos problemas éticos. eterno. consciência. Permanece.rationes seminales. a existência de Deus é provada. privação. os princípios formais das coisas. Embora desvalorizando. o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. extrínseca. o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual. para o qual são transferidas as idéias platônicas. em virtude da doutrina da forma e da matéria. No Verbo de Deus existem as verdades eternas. metafisicamente. negação. o mal é. no pensamento cristão . que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista. as idéias. é uma específica criatura divina. Ao lado desta prova a priori. mais tarde.agostiniano temos ainda um dualismo. porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies. enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. às relações com o mundo. admite Agostinho que os sentidos. de outros criou as causas que. fundamentalmente. e dependente dela. que fez boas todas as coisas. A alma nasce com o indivíduo humano e. ortodoxa. A Metafísica Em relação com esta gnosiologia. pois. pouco temos a dizer. pois. religiosos. é a Verdade de Deus. Agostinho possui uma noção exata. substancial. daí tira uma verdade superior.95 própria existência espiritual. como todas as demais. é a transformação do inatismo. Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo. da reminiscência platônica. em especial. pelo pecado dos espíritos livres. em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. seria necessária uma luz espiritual. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e razão discursiva. simples. a alma em vegetativa. preferindo o mundo a Deus. E como para a visão sensível além do olho e da coisa. a princípio. sendo criada por Deus. Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo. Entretanto. O problema que Agostinho tratou. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres . criou alguns seres já completamente realizados. negada pelo moderno evolucionismo. mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus. o Verbo de Deus. insurgidos orgulhosamente contra Deus e. condição e origem de toda verdade particular. e são os modelos dos seres criados. tínhamos um dualismo metafísico. nos seres inferiores cego apetite. se a alma é criada diretamente por Deus. Agostinho.

que é puro ser e produz unicamente o ser. e não natural. Resumindo a doutrina agostiniana a . não é causa eficiente. contra a vontade de Deus. pode ser superada sobrenaturalmente. limitado. como dizia Aristóteles. além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus.do mal moral e de suas conseqüências . ele tem uma concepção negativa da função estatal. estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. O mal não é ser. transcendente e ascética. Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal. O pecado.estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal.que tanto preocupa Agostinho . tende a descurar o segundo. Entretanto a vontade é livre. e pode querer o mal. livre e limitado. finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal. não podendo lesar a Deus. Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento. Como se vê. que perturbou a natureza humana.próprio do pensamento grego. e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. considera o celibato superior ao matrimônio. nos bem-aventurados será: não poder pecar. podendo agir desordenadamente. mas deficiente. O problema da graça . Consoante Agostinho.própria do pensamento latino . do conhecimento . sendo o mal não-ser.é: poder não pecar. Quanto ao mal físico. porquanto a natureza humana já é corrompida. também um interesse filosófico. por exemplo. nega a realidade metafísica do mal. Quanto à família. Nota característica da sua moral é o voluntarismo. A vontade não é determinada pelo intelecto. depois do pecado original é: não poder não pecar. Quanto ao mal moral. a propriedade seria de direito positivo. se o mundo terminasse por causa do celibato. mas deixou permanecer o sofrimento. Ela não pode ser superada naturalmente. por isso. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão . como a obscuridade é ausência de luz. o mal físico tem. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico. deste modo. Não obstante. asceticamente. Este não-ser pode unicamente provir do homem. que atinge também a perfeição natural dos seres. se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos.antes do pecado original . Remediou este mal moral a redenção de Cristo. contrariamente ao primado do teorético. para salvar o primeiro elemento. digamos assim. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual. é possuído por um ato de inteligência.tem. a primazia do prático. A virtude não é uma ordem de razão. Homem-Deus. Agostinho tem também atitudes teoréticas como. tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem.de que dá uma vasta e viva fenomenologia. imoralmente. além de um interesse teológico. conseqüência do pecado. que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral. porquanto o mal não tem realidade metafísica. já é impotente sem a graça. a humanidade foi punida com o sofrimento. O Mal Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal . porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. físico e moral. mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo. pois. fim último das criaturas.. que não é verdadeiro mal. uma outra explicação mais profunda. Quanto à política. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus. E deve-se considerar não causa eficiente. Antes de tudo. porém. portanto. porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. a moral agostiniana é teísta e cristã e. racionalmente. Agostinho. mas privação de ser. determinando a dilaceração da sua natureza. hábito conforme à razão. da ação . E a explicação última de tudo isso . e não de Deus. quando afirma que Deus. individual e social. como da passagem do tempo para a eternidade. do que não permitir o mal. prejudica a si mesma. como Paulo apóstolo. mas conseqüência do pecado original. que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. o Estado seria inútil. porquanto a criatura. mas precede-o. A vontade humana. como meio de purificação e expiação. mas uma ordem do amor. a saber. enquanto criado. Nem a escravidão é de direito natural. logo. mas deficiente da sua ação viciosa. Como é sabido. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus. ele alegrar-se-ia. Agostinho. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica. pois é um ser limitado. ela.96 A Moral Evidentemente.

depois do juízo universal. porquanto era a filosofia ensinada nas escolas da época. moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico). Entretanto. época em que começou a separação. os confins do mundo terreno. se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal. ao fim da Idade Média. graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. o plano da história. e profetizado também. dela não podem participar. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico. A História Como é notório. A Igreja transcende. consciente ou inconscientemente. a fim de que a história seja suscetível de racionalidade. se encontram empiricamente confundidos na Igreja . mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. A Escolástica Características Gerais A Escolástica representa o último período do pensamento cristão. ainda. a cidade de Deus. por causa do basilar dualismo metafísico. invisivelmente. escolásticos. absoluta. que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. que se assinala geralmente com a descoberta da América (1492). Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo.a divisão definitiva. uma unidade e um progresso. A Igreja. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus. divididas em trívio . privação de bem (de ser). em separado. e resolve-o ainda com os conceitos de criação. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades. mas teológica: é uma teologia. mas configurada na unidade da Igreja. lhe preparavam diretamente o caminho. para entender realmente. porém. visto que todos. justíssima. no fundo. isto é. a obra prima de Agostinho. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino. Esta não é limitada por nenhuma divisão política. este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza. que culmina no império romano. no paraíso e no inferno. para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo. A Cidade de Deus representa.gramática. e pela Igreja depois de seu advento. elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade. pelos mestres. fundamentalmente. talvez. As matérias ensinadas nas escolas medievais eram representadas pelas chamadas artes liberais. Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. a solução deste problema é estética para o mal físico. Esta história. por isso. isto é. não é uma visão filosófica. plenamente. para o triunfo da Cidade de Deus . o maior monumento da antigüidade cristã e. este conceito de providência é. A terceira retoma. de que já não é mais união caótica. diremos: o mal é. por sua vez. depois da morte. predestinados e ímpios.ainda que só na unidade dialética das duas cidades. é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra. É o progresso para Cristo. Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus. que. é mister a Redenção. mundana. não uma filosofia da história. da constituição do sacro romano império bárbaro.97 respeito do mal. que é o governo divino do mundo. pois. recolhida e configurada em Israel. eterna. após o pecado original. que vai do começo do século IX até o fim do século XVI. até que ficaram confundidas em um único caos humano. retórica. além do qual está a pátria verdadeira. Este período do pensamento cristão se designa com o nome de escolástica. a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência. Contra este cidade se ergue a cidade terrena. pois.e . É uma grande visão unitária da história. a seu modo. fragmentária e dividida. desde Abraão. dialética . conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel. sempre mais claramente. que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos. chamados. exteriormente. necessário. realizar-se-á nos fins dos tempos. de pecado original e de Redenção. A primeira concerne à história das duas cidades. é acessível. onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino. também às almas de boa vontade que. Entretanto. satânica. pelos povos pagãos. representa. de Abraão até Cristo. certamente. e chega até a Abraão. com a diferença.

As escolas monásticas dos mosteiros visavam.que surgem nas cidades. aprender a escrever. Misticismo e dialeticismo. culminando na união mística.aritmética.específica do pensamento agostiniano . inicialmente. Tal desenvolvimento da escolástica no sentido da experiência e da concretidade. (São Pedro Damião e São Bernardo de Claraval) põe. o Aristóteles do pensamento filosófico cristão. a vontade. Teremos. quer pelo seu imanente caráter de mestre do povo. o escopo não era reduzir a religião aos limites da razão humana. dependente diretamente do bispo. mas levantar esta à compreensão do supra-inteligível. mesmo que os resultados lógicos pudessem ser os mesmos do racionalismo verdadeiro e próprio. Afirmam-se. Paulatinamente espalharam-se também as escolas episcopais. de experiência do Divino: o sentimento. bastante elementar: leitura. Na intenção de Carlos Magno. um clero culto. complexo devia ser o papel das escolas. antes de tudo. a formação do clero secular e também de leigos instruídos. tendências novas para a experiência e a concretidade. Carlos Magno dará muito incremento a ambas as escolas e. portanto. pelo contrário. um período pré-tomista em que persiste a tendência teológica-agostiniana. O programa de ensino era.manifesta-se não apenas na corrente chamada mística. fundará junto da corte imperial a assim chamada escola palatina. ademais. Havia nos mosteiros beneditinos escolas monásticas. no êxtase.quadrívio . O segundo. astronomia.visavam. até procurar as razões necessárias dos mistérios. representando como que o prelúdio do pensamento moderno. ao seu vasto e vário império e. E. A falta dessa distinção . educar. a escolástica declina como metafísica (séculos XIV e XV). educar intelectual. Duns Scoto. A escolástica surge. Depois destas premissas. para a vida civil. a fé. todavia. a cultura clássica e o catolicismo e lhes daria incremento. moral e religiosamente os povos bárbaros que o constituíam. Guilherme de Occam -. a formação dos leigos cultos (escolas externas). O segundo período da escolástica é dominado pela figura soberana de Tomás de Aquino. devido a um anacrônico e ilógico retorno ao agostinianismo. e o clero se apresentava como o mais apto e preparado docente. historicamente. em conformidade com as tendências positivas e práticas do espírito anglo-saxônio.Rogério Bacon. Este primeiro período da escolástica vai do começo do século IX (Carlos Magno) até à metade do século XIII (Tomás de Aquino). embora parta da revelação e do sobrenatural. este período coincide com a Segunda metade do século XIII. à filosofia ensinadas. por conseguinte. a massa popular. A tendência mística. a formação dos monges futuros (escolas internas). acima e contra a razão e o intelecto. É. Presidia a estas escolas um eclesiástico chamado scholasticus. assim. podemos dividir a escolástica em três períodos. donde o nome de escolástica à doutrina e. se diferenciam profundamente entre si. uma outra forma de conhecimento. do especial desenvolvimento da dialética. século XIII (o triunfo do aristotelismo). surgidas da própria exigência de uma observância adequada da Regra de São Bento. mas também na orientação denominada dialética do pensamento medieval pré-tomista. quer pela cultura de que era dotado. é devido em especial aos franciscanos ingleses de Osford . ao mesmo tempo. imitações atualizadas das escolas catequéticas do cristianismo primitivo. As escolas episcopais . porém. em especial. seu escopo final. e. ao passo que as escolas monásticas surgem nos mosteiros afastados das cidades . preparar uma classe dirigente em geral e. que ele ia fundando e desenvolvendo: formar. isto é. antes de tudo. em seguida. a uma espécie de intuição mística. Os docentes eram também eclesiásticos e denominados também scholastici. ao mesmo tempo. colocando o período central da escolástica a figura soberana de Tomás de Aquino. canto orfeônico e um tanto de aritmética. um racionalismo inconsciente. finalizando uma espécie de racionalismo (Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo). com efeito. Deste modo restauraria a civilização e a religião. entretanto. proporcionando. depois. música. e pode ser assim dividido: séculos IX e X (Scoto Erígena e a questão dos universais). que pode ser considerada como a 98 . mestres adequados para as escolas. o meio natural eram as escolas. séculos XI e XII (místicos e dialéticos). o amor. o ensino religioso e os rudimentos das ciências profanas. Depois de Tomás de Aquino. Educação e Cultura na Idade Média Carlos Magno pretendia dar uma unidade interior. proveniente da ignorância da verdadeira natureza e dos verdadeiros limites da razão. espiritual. em especial. os funcionários do império. toma-os como dados e pretende penetrá-los mediante a filosofia. geometria. Para tanto.

termo. O programa de Alcuíno abraçava as sete artes liberais. como. a Igreja. bem como coincidem as fases Segunda e terceira (mundo = criado). o feudalismo é uma organização social. dita Scotia maior. na filosofia. a medicina. depois. e não como alfa. da realidade. inicialmente baseada na força. bem cedo. foi constituída junto da corte de Carlos Magno a famosa escola palatina. que se espalhou pelo vasto império e perdurou invariado. Ao lado desta instrução e educação eclesiásticas. realizadas mediante o Espírito de Deus). militar. Carlos Magno chamou à corte Alcuíno (735-804. Para elaborar o seu vasto plano de política escolar. por exemplo. . princípio). Freqüentavam esta escolas o próprio imperador. de que acima falamos. política. porém. Nela ensinaram os homens mais famosos da época. geometria. o quadrívio abraçava as disciplinas reais: aritmética. o gramático Pedro de Pisa.A natureza que é criada e não cria (as coisas. o teólogo Paulino de Aquiléia. De Deus desce-se às idéias supremas. é um diálogo entre mestre e discípulo e se inspira no neoplatonismo do pseudo Dionísio Areopagita. A Escolástica Pré-Tomista Os Séculos IX e X: Scoto Erígena e o Problema dos Universais A história da filosofia escolástica começa propriamente com o nome de Scoto Erígena. econômica. fim da realidade. . Como se vê. . Eminentemente neoplatônico é o esquema especulativo de Da Divisão da Natureza: a descida da Unidade à multiplicidade. os príncipes e os jovens da nobreza. em seguida. podemos dizer. modeladas na escola palatina. por conseqüência. e pode-se dizer que representa a falência definitiva das tentativas de síntese entre neoplatonismo emanatista e criacionismo cristão. mais ou menos). . esta última desenvolvendo-se. Erígena parte da revelação divina para. e. ministradas por eclesiásticos e. como ômega. aos indivíduos. destinadas a ensinar ao povo os primeiros elementos do saber. Foi condenada pela Igreja (1225). que Erígena traduziu do grego para o latim. com o correr do tempo. exemplares e causas das coisas). Sob a direção de Alcuíno. durante toda a Idade Média. E sob a sua inspiração. Pelo ano de 874 é chamado à corte culta e brilhante de Carlos o Calvo. mais tarde. sobretudo. dialética.A natureza que é criada e cria (o Verbo de Deus. . Outras escolas surgiram. o viveiro da cultura naquela época. e vice-versa. Eriu em língua céltica.A natureza que não é criada e cria (Deus Padre). A sua obra principal é Da Divisão da Natureza (847). penetrar os mistérios mediante a razão iluminada por Deus. 3°. a eclesiásticos. música. a partir do ano 787. às espécies. fica assim configurada: 1°. Como é sabido. na supressão do sobrenatural. por mais ortodoxa que fosse a intenção do autor. retórica. católica. segundo o espírito dos bárbaros dominadores. especialmente na França. ministrada por militares e a militares. Tal pretensão de penetrar racionalmente os mistérios revelados devia acabar logicamente no racionalismo e.99 primeira universidade medieval. mais tarde. Mencionamos também como. enquanto o douto inglês ditava-lhes o programa relativo. em que são contidas as idéias eternas. donde o nome de Scoto Erígena. repartidas no trívio e no quadrívio. Parece Ter falecido em França pelo ano 877. foram emanados os decretos capitulares para a organização das escolas. 4°. as escolas paroquiais. 2°. Deus. imprimiu também a esta educação uma orientação ética. no âmbito das paróquias. aos gêneros. temos na Idade Média uma educação militar. concebido. que veio da Inglaterra. e retorno da multiplicidade à Unidade. em cinco livros.A natureza que não é criada e não cria (isto é. João Scoto Erígena nasceu na Irlanda. as fases primeira e Quarta coincidem (Deus = não criado). religiosa. o historiador Paulo Diácono. para presidir e lecionar na escola palatina. Deste modo. O trívio abraçava as disciplinas formais: gramática. astronomia. a divisão da natureza.

passar da ordem lógica para a ordem ontológica. mas também fora do objeto (universal ante rem): . isto é. o saber profano como um perigo e um luxo. o argumento ontológico não vale: porquanto não podemos. na contemplação de Deus. O seu lema é: creio para compreender. asceticamente. Anselmo de Aosta é o primeiro grande filósofo medieval. da filosofia para entender Deus e as suas obras. este argumento é contido no Proslogium. das idéias. inclusive o princípio de contradição. epicuristas. do valor dos conceitos.corresponde à posição aristotélica. dos místicos. Pretende ele demonstrar a existência de Deus. As suas obras principais são: O Monologium. céticos. conselheiro do monge Hildebrando. mais tarde Papa Gregório VII. isto é. na compaixão para com a miséria do próximo. a solução nominalista. mas apenas mental (universal post rem). teve uma solução radical no pensamento escotista. escreveu Da Divina Onipotência. da ordem real à ordem ideal. natural de Bretanha. Pedro Abelardo (1097-1142). foi monge prior e abade do mosteiro beneditino de Bec na Normandia e. daí a vaidade da ciência. dos divinos mistérios. contra os filósofos. O nome de Anselmo de Aosta é ligado ao famoso argumento ontológico. do contrário não mais seria perfeitíssimo. estudante e. e culmina no êxtase. Os maiores representantes da corrente mística são: São Pedro Damião no século XI. e. ou até puramente nominal (nominalismo) . tornou-se religioso e foi peregrinando por muitos mosteiros e cátedras. São Pedro Damião. contra a ciência (a filosofia) por eles considerada um resíduo pagão. com a doutrina da forma que determina a matéria. Segundo a solução do realismo transcendente. logo. capaz de convencer imediatamente o ateu. problema que tão cedo e tão longamente interessou a escolástica. ao contrário. particulares? O problema tem uma importância fundamental filosófica. São Bernardo de Claraval rejeita. que são universais. que são. forma. não apenas lógica e dialética. arcebispo de Canterbury na Inglaterra. até colocá-la acima de toda lei racional. Segundo a solução do realismo moderado. professor famoso em Paris. no nosso conhecimento. E isto não obstante a luta dos teólogos. As soluções desse problema oferecidas pela escolástica são substancialmente. . Deus deve também existir realmente. após Scoto Erígena. mas é imanente nos objetos singulares de que é essência. Que valor têm os conceitos. em relação e enquanto representativos das coisas. da corrente dialética os maiores expoentes são: Santo Anselmo de Aosta no século XI e Pedro Abelardo no século XII. para demonstrar a existência de Deus. São Bernardo de Claraval no século XII. 100 Os Séculos XI e XII: Místicos e Dialéticos Depois da decadência cultural que se seguiu à renascença carolíngia. e os dialéticos que a cultivavam. faltando-lhe a existência. pelas gnosiologias empirista e sensitista. o que significa partir da revelação divina. O conceito que temos de Deus é o de um ser perfeitíssimo e. mas é preciso penetrar depois a fé mediante a razão. Também ele é um platônico-agostiniano. portanto. A solução conceptualista-nominalista sustenta que o universal não tem nenhuma existência objetiva. de Cristo crucificado. começa e se manifesta nos séculos XI e XII um renascimento especulativo. estóicos. partindo do mero conceito de Deus.no mundo clássico esta posição é defendida pelos sofistas. mas também gnosiológica e metafísica. das idéias aos fatos. o universal tem em si uma realidade objetiva. onde se propõe demonstrar a existência de Deus com um argumento simples e evidente. a idéia de uma realidade em si. vaidade e orgulho. Em realidade.é a solução platônica. O caminho da sabedoria é a humildade. da fé e não da razão. A verdadeira sabedoria consiste no conhecimento da própria miséria. Santo Anselmo (1033-1109) nasceu em Aosta. a priori. mas deve-se passar das coisas às idéias. depois. princípio ativo (universal in re): . mais tarde. centro cultural do mundo católico. fora da mente. três: a solução chamada do realismo transcendente (platônica). a solução do realismo moderado. geralmente adotada pela escolástica incipiente. uma distração mundana.O problema dos universais. imanente. Nesta obra enaltece a onipotência de Deus. cardeal e arcebispo ostiense. o universal. imanente (aristotélica). não existe apenas fora da mente.

por sua vez. filósofo e teólogo.afirmava ao invés a subordinação da religião a filosofia quando as argumentações delas fossem contrastantes. queda. que salvaram das invasões bárbaras durante as trevas medievais do Ocidente latino.e secundariamente os hebreus . a fim de que haja ação plenamente moral. Também interessante é a sua posição crítica na pesquisa filosófica: a dúvida nos leva para a investigação. graças aos pensadores pertencentes às ordens religiosas. ao mesmo tempo.coleção de sentenças contrastantes dos padres sobre assuntos da Escritura e da teologia . o século de ouro da escolástica e do pensamento filosófico cristão. apaixonou-se pela filosofia aristotélica. originariamente bárbaros eles mesmos. à revelação cristã. e um retorno ao agostianismo (São Boaventura).das doutrinas das Padres.elemento descurado na Idade Média . os quais a tudo renunciaram. entraram em contato com a cultura grega. Na obra Sic et non . Escreveu as obras seguintes: História das Calamidades. salvo à ciência e à caridade. logo. foram civilizados pelo pensamento grego. Os árabes. conto biográfico da sua aventura com Heloísa.101 após uma aventura amorosa com Heloísa. uma sociedade de homens cultos surgida em Toledo. Como dissemos. foram os árabes . que estudou intensamente. Conhece-te a ti mesmo. . um culto idolátrico para com o Estagirita. Abelardo é.em confronto com o elemento objetivo. mas com intenção má. mesmo faltando-lhe a profundidade e a capacidade sistemática de Santo Anselmo. intencional. O mundo latino-cristão. formal. especialmente as tomistas. cético e sistemático. que lhe acarretou trágicas conseqüências. que são construções sistemáticas elaboradas criticamente. uma aceitação e valorização do sistema aristotélico.o famoso comentador de Aristóteles . criação. legal. . Preparam as grandes sumas medievais. foram Avicena e Averroés. que foi identificado com a própria razão humana e preferido. aristotélico. Os livros das sentenças eram coleções sistemáticas . a investigação nos leva à ciência. intensa e penetrante. mas crítica e racional. na Espanha. após terem conquistado o oriente helenista. quando não concordava com a razão (averroísmo latino). isto é. mas em harmonia hierárquica com a fé (Tomás de Aquino). Foi o que fez. foi condenado por dois concílios. chamado precisamente magister sententiarum. Esta atividade formal. filosófico. com um grande pendor para a crítica e a dialética. Abelardo sustenta ser mais moral um ato executado com reta intenção. Acusado de heresia. racional. Mais tarde . Em seguida. Os maiores filósofos árabes conhecedores de Aristóteles e que influíram profundamente sobre o Ocidente latino-cristão. nos meados do século XII. E tal conteúdo lhe foi proporcionado pela descoberta do sistema aristotélico integral. trouxeram-lhe a própria cultura impregnada de aristotelismo. na vida moral. o elemento subjetivo. Dialética. que representa o ápice do pensamento helênico. os árabes.que levaram ao conhecimento do mundo latino-cristão a filosofia de Aristóteles. (século XII). Avicena tentou harmonizar a filosofia aristotélica com a religião islâmica. grego e cristão. No ensaio ético Conhece-te a ti mesmo valoriza. Era preciso traduzir do árabe para o latim as obras de Aristóteles e os comentários árabes. Averroés. A atitude do mundo latino-cristão perante Aristóteles foi tríplice: uma decidida aversão à filosofia que queria constituir-se unicamente com meios racionais. dos autores dos libri sententiarum entre os quais o mais famoso é Pedro Lombardo. Abelardo é uma das mais originais figuras do mundo medieval. Este movimento cultural e filosófico se desenvolveu especialmente no âmbito das universidades. então surgidas e organizadas eficientemente. E assim. estendendo suas conquistas até o ocidente europeu. ainda que objetivamente mau. esperava um conteúdo adequado. Em conclusão. O Século XIII: O Triunfo de Aristóteles A atividade filosófica da escolástica pré-tomista foi essencialmente lógico-dialética e. escolástico. pelo qual se chegou à construção de uma filosofia distinta e autônoma. depois de conhecido Aristóteles através da cultura árabe. Os árabes foram admiradores de Aristóteles e da sua filosofia.mais ou menos críticas . Sic et non. Reconhecendo embora que são necessários os dois elementos. redenção.Abelardo se integra nas fileiras dos sentenciários. e considerava a religião como uma filosofia simbólica para o vulgo. especialmente na Síria. Encerra-se assim o século XII e está nos albores o século XIII. do que um ato executado conforme a lei. no fundo. meios de salvação. ordenadas segundo o esquema: Deus.

composta de forma e matéria. E julgaram os filósofos franciscanos que. O maior representante do agostinianismo antiaristotélico foi São Boaventura (1221-1274). inclusive as essências angélicas e as almas humanas. espanhol. sobre a Redução das Artes à Teologia. donde o nome de mendicantes a elas atribuído. a pluralidade das formas em um mesmo ser. propuseram-se como finalidade principal a caridade ativa e tiveram uma enorme influência sobre o povo. pois. à ciência. para tanto. ao contrário. enquanto ele é imediatamente presente ao espírito humano. porquanto admite . O maior . A característica nova e comum destas duas ordens religiosas foi a pobreza individual e coletiva. a mais ilustre universidade da Idade Média. foi geral da sua ordem e depois cardeal de Albano. como ele descreve no Itinerário. Guilherme de Maerbeke (falecido em 1286) fez essa tradução. os franciscanos. afetiva. Nessas universidades recém-organizadas. A universidade de Paris. inspirando-se na mentalidade agostiniana.julgando inapto para esse fim o racionalismo. ainda que pareça limitar-se a sustentar a existência de duas verdades paralelas e contrastantes. isto é. O conjunto dos professores e dos alunos da universidade de Paris. mais tarde. desenvolveu especialmente a filosofia e a teologia. inspirando-se na mentalidade agostiniana. bem cedo. devido à importância que tinha naquele estabelecimento do ensino superior universitário a teologia. sustenta que a alma humana é uma substância completa independentemente do corpo. a filosofia deve levar a Deus. Especialmente os papas protegeram a universidade de Paris. por conseqüência. afirma três princípios diretamente opostos ao aristotelismo tomista: a existência de uma matéria geral sem as formas específicas. nasceu na Itália. se prestasse o agostinianismo. será inteiramente infecundo. a tarefa da filosofia não é teórica e racional. e os Franciscanos. tantas quantas são as suas propriedades essenciais. A gnosiologia de Boaventura inspira-se no iluminismo agostiniano. Segundo São Boaventura.que haja teses filosóficas em contraste com o teísmo da religião. sentimental do Pobrezinho de Assis que entrevia Deus e Jesus Cristo em todas as coisas. estudou em Paris e. pois. e também certa liberdade a respeito das obrigações conventuais. Suas obras principais são: os Comentários a Pedro Lombardo. que se atinge imediatamente em todas as coisas e se possui pela união mística. que lhe sugeriu a prova intuitiva da existência de Deus. para melhor facultar o cultivo do estudo e a pregação apostólica entre o povo. fundados por São Domingos de Gusmão. destarte. entraram e tiveram preponderância professores pertencentes as duas ordens religiosas surgidas no século XIII: os Dominicanos. A psicologia de Boaventura. o empirismo e o intelectualismo aristotélicos.como admitia Averroés .102 sentiu-se a necessidade de traduzir diretamente do grego as obras de Aristóteles. Esta orientação filosófica é chamada averroísta. auto-suficiente. italiano. exercendo. e. mas prática e religiosa. as grandes universidades medievais. ao passo que a universidade de Oxford dedicou-se especialmente às ciências naturais. contra a vontade dos leigos e por desejo dos papas. tal universidade se tornou como que a cidadela cultural da ortodoxia católica. surgidas geralmente das escolas episcopais. uma universitas única. Os dominicanos dedicaram-se mais ao estudo. e obteve das autoridades civis e religiosas reconhecimento jurídico e grandes privilégios. A metafísica de Boaventura. constituiu um corpo único. é o aristotelismo exagerado averroísta. porque todos os seres são compostos de matéria e de forma. e. Ao mesmo tempo se desenvolveram as universidades. fundados por São Francisco de Assis. sua maior influência entre as classes sociais elevadas. inspirando-se no pensamento aristotélico. Diametralmente oposto a este aristotelismo agostiniano. o Itinerário da Mente para Deus. o seminário dos filósofos e dos teólogos de todo mundo. em princípios do século XII. Os Filósofos Franciscanos Os filósofos franciscanos julgaram fosse mister dar uma forma teórica à atitude prática. que proporcionou aos latinos o conhecimento do genuíno pensamento do Estagirita. Desta sorte. a universalidade da matéria fora de Deus. e não chegar até subordinar a religião à filosofia. famosas mais que todas as outras. que aceita o sistema aristotélico sem crítica nenhuma. por conselho de Tomás de Aquino. inspirando-se na mentalidade aristotélica. com o seu misticismo e voluntarismo . foram as universidades de Paris e de Oxford.

É. Nestas obras revela-se um crítico e um pensador de muito superior a São Boaventura.com suas técnicas . Conforme Bacon. na Inglaterra. deve-se entender por experiência não apenas a que se alcança pelos sentidos externos e nos oferece o mundo corpóreo. donde surgirão a história e a ciência modernas . um retorno especulativo ao agostinianismo. talvez. quer dizer. sem dúvida. Bacon aceita também a unidade entre filosofia e teologia. as Questões Várias.mas unicamente prática. nascido na Inglaterra.que constituem o valor do pensamento moderno. a razão. o tradicional comentário das sentenças de Pedro Lombardo. Também ele. da ciência. da filosofia. isto é. A escolástica pós-tomista. contudo.disciplina essencialmente especulativa . Suas obras principais são: a Obra Oxoniense. entendida como instrumento para entender a fé e não como obra autônoma do espírito. entrou na ordem franciscana e estudou nas universidades de Oxford e de Paris. a afirmação da unidade do intelecto na espécie humana e a conseqüente negação da imortalidade pessoal do homem. um movimento excessivamente novo e arrojado. no conceito de filosofia. por sua vez. a teologia não é .segundo Scoto . Rogério Bacon 103 Rogério Bacon (1210-1294). sentiu profundamente o problema da concretidade e da experiência. os Teoremas Sutilíssimos. antes de tudo. A autoridade dá-nos a crença. enciclopédico e místico. cujas características tendências empiristas. O agostinianismo de Scoto manifesta-se. para poder súbita e definitivamente impor-se no âmbito do pensamento cristão medieval. cientista e supersticioso.como julga Aquinate . um vestígio do agostinianismo tradicional. A Escolástica Pós-Tomista O tomismo era. práticas. medeia Tomás de Aquino. logo depois de uma reação violenta contra o tomismo. foi um temperamento genial e original. três são as fontes do saber: a autoridade. experimentais. a fé não porém a ciência. no mesmo século XIII. positivas. Entretanto esse movimento terminará nas posições fideístas do pré-tomismo. A razão proporciona essa compreensão. Após Ter lecionado algum tempo em Oxford. foi aluno e professor nas universidades de Oxford e de Paris. As teses mais notáveis de Siger em contraste com o cristianismo são: a negação da providência divina. que Tomás tinha distinguido. Faleceu em 1308. consequentemente. no entanto. João Duns Scoto. o doutor sutil. Crítico agressivo das maiores autoridades da sua época. a experiência. E.a respeito de Aristóteles. A sua obra mais importante é a chamada Obra Maior. se não achar fundamento e confirmação na experiência. A sua obra principal é Da Alma Intelectiva. e terminará. são conhecidas. porquanto não nos fornece a compreensão das coisas que formam o objeto da crença. indubitavelmente negligenciado pela escolástica clássica.de idolatria ou de irredutível hostilidade . publicou ainda a Obra Menor e a Terceira Obra. a ciência. Estabeleceu-se então em Paris. a afirmação da eternidade do mundo. tentando uma superação do racionalismo tomista. Do agostinianismo. O centro desta escolástica pós-tomista é a universidade de Oxford. mas também a experiência proporcionada pela iluminação interior de Deus. . foi obrigado a deixar a cátedra. Entre estas duas posições extremadas . que julgou encobrir o seu anacronismo. Segundo Bacon. acentuadas e tornadas piores após a poderosa construção crítica e racional do Aquinate. que realizará a justificação da filosofia e da teologia. todavia. Houve. inglês e franciscano.representante do averroísmo latino é Siger de Brabante (falecido pelo ano de 1284). portanto. na ruína da metafísica. condenado mais tarde pela Igreja. João Duns Scoto O maior expoente da escolástica pós-tomista é. professor na universidade parisiense. não consegue distinguir o sofisma da demonstração verdadeira. onde levou uma vida agitada e foi condenado à prisão pelos próprios superiores da sua ordem. como julga Tomás de Aquino. a Obra Parisiense. em conformidade com o espírito do voluntarismo agostiniano. como se vê. A ciência experimental constitui a fonte mais sólida da certeza.

Com efeito. pelo amor e não pelo intelecto. porém. Quanto à natureza divina. Contra o intelectualismo tomista. não o admite em linha de direito. o conhecimento sensível é superior ao conhecimento intelectual. o atributo essencial de Deus seria a infinidade. E isso seria devido . todos os seres. por natureza. o primeiro dá-nos a realidade. Centilóquio Teológico. conhecer diretamente as essências. Na psicologia escotista aparece ainda uma doutrina inspirada no agostinianismo. O conhecimento sensível dá-nos as relações reais entre as coisas reais (o nexo causal. e imorais as ações opostas. está contra o chamado empirismo aristotélico-tomista. o adultério. decorrente do pecado. refugiou-se junto do Imperador.104 A gnosiologia iluminista-intuicionista agostiniana firma-se no escotismo não tanto como participação da inteligência humana na luz divina. o empirismo do nosso conhecimento. destarte. além do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo: Sete Várias Questões. a existência de Deus é demonstrável apenas com argumentos a posteriori. quanto como sendo a espontaneidade e a independência do intelecto com respeito ao sentido. estudou e lecionou na Universidade de Oxford. pois. são compostos de matéria e de forma. A individuação não depende da matéria (pelo que o indivíduo fica incognoscível intelectualmente). É a doutrina do conhecimento intuitivo da essência da alma. E a própria ordem ética não é intrinsecamente boa por motivo racional. Scoto sustenta a primazia da vontade: a vontade não depende do intelecto. Faleceu pelo ano 1350. depois do realismo imanente aristotélico-tomista. . Guilherme de Occam Guilherme de Occam é. mas o intelecto depende da vontade. O conceito. e. não só as materiais mas também as espirituais. etc. um opositor e um discípulo de Scoto: discípulo.à escravidão da alma com respeito ao corpo. ao passo que o conhecimento intelectual nos proporciona conhecer as relações lógicas entre conceitos abstratos. que não nos permite distingui-los um do outro. a mentira. mas unicamente porquanto é querida por Deus. ao passo que o segundo é abstrato. sem nada nos dizer em torno da realidade das coisas. mas tem uma realidade sua própria. Scoto põe também em Deus esse primado de vontade sobre o intelecto. A matéria não é mera potência. por conseguinte. Guilherme nasceu em Occam na Inglaterra pouco antes do ano de 1300. princípio de todos os demais conhecimentos. por sua natureza. um sinal artificial. porquanto o primeiro é intuitivo. Processado por heresia pela Santa Sé. o indivíduo se tornaria intelectualmente cognoscível. em que. seria a alma. Deus seria atingido. mas de um elemento formal individual. é um sinal natural. mas há multiplicidade de formas em cada indivíduo. no sentido de que desenvolve o individualismo de haecceitas escotista no nominalismo. Em todo caso. ao mesmo tempo. a sensação é o sinal de um objeto na alma. Suas obras especulativas são. representado pelo nome que é. concreta e individual. o homicídio. Segundo Occam. Na teodicéia. ao passo que o segundo nos dá apenas as semelhanças entre seres reais (as idéias gerais). que ele fez reviver no ambiente experimental da universidade de Oxford. deveria a alma.segundo o doutor sutil . pela vontade. A tarefa do homem é conhecer para querer e amar. mesmos os espirituais. que poderia impor uma ordem moral oposta. variável segundo as diversas línguas. e escreveu várias obras para defender o imperador contra a Santa Sé. seriam ações morais. um conhecimento vago e confuso deles. uma substância completa. o conceito é sinal de mais objetos percebidos como semelhantes. embora procure também combinar esta demonstração com o argumento ontológico. como exige o tomismo. a priori.. inexistente sem a forma. Em conclusão. em linha de fato. E também inspira-se no agostinianismo a doutrina de certa independência da alma com respeito ao corpo. que se conhece só pela experiência). Desse modo. a forma não é única. Suma de Toda a Lógica. Pelo contrário. então em luta contra o Papa. por exemplo. o furto. fez-se franciscano. Scoto concede. as coisas criadas por Deus não dependem fundamentalmente da razão divina. segundo Scoto. conforme o qual o nosso conhecimento começa pela sensibilidade. e sim da vontade divina. na vida eterna. chamado haecceitas (que se sobrepõe à matéria por si subsistente e à hierarquia das formas). Scoto (contra a corrente agostiniana e em harmonia com o tomismo) ensina que Deus não é conhecido por intuição. na visão beatífica.

Tomás de Aquino A Vida e as Obras Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor. de que é impossível demonstrar cientificamente a imortalidade. Dois anos depois. da filosofia. onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante. etc. As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos: . Para Tomás de Aquino. exegese. passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. a vontade de Deus é absolutamente livre para criar uma moral mesmo oposta à presente. chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados. Nasceu Tomás em 1225. tendo como mestre Alberto Magno. que nos faz conhecer os seres materiais. da família feudal dos condes de Aquino. entre Nápoles e Roma. E deriva também a ruína das próprias noções de substância e causa. termina a escolástica medieval. Depois de ter estudado as artes liberais. Destarte. se Deus quisesse. Com ele declina e. faleceu no mosteiro de Fossanova. Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris. da alma. entretanto. Com o diminuir da fé medieval e com o firmar-se do humanismo moderno. pois. e deste deriva logicamente a ruína do conceito e. no castelo de Roccasecca. é abandonado inteiramente à Revelação. O pensamento de Aristóteles. conseqüentemente. e para estabelecer uma outra ordem sobrenatural (por exemplo. bem cedo a razão se porá contra a fé e a substituirá. Portanto. renunciando a tudo.a alma. Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia. segue-se que não são cognoscíveis.ciências naturais.105 Estamos na linha do experimentalismo inglês da Universidade de Oxford. porém. onde lecionou teologia. porquanto essas noções de substância e causa não são experimentáveis. na Campânia. mas logo declina. Friburgo. em 1272. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino. degenerando num formalismo lógico. da ciência. filosofia. onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino. converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico. nenhuma metafísica: o conhecimento de Deus. historicamente. da moral. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família. que o acompanhou a Colônia. mas também o pensamento patrístico. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade. abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. voltou a Nápoles. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados . o Verbo poderia Ter-se encarnado num burro). lecionou teologia na universidade de Paris. e dado outrossim o voluntarismo divino escotista. a ciência humana reduz-se à física. e também não se pode provar . Pelo fato de a alma e Deus não serem sensíveis. Dado que em torno de Deus nada conhecemos filosoficamente. ascética. entrou na ordem dominicana. Ensinou em Colônia. indispensáveis à própria ciência natural. a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. Assim. à fé (fideísmo). filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280). etc. por ordem de Gregório X. além do patrimônio de revelação judaico-cristã. Deus não se pode provar a posteriori mediante o princípio de causalidade. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris. O ocamismo tem um êxito vasto e imediato nos séculos XIV e XV. especialmente árabes. que culminou com Agostinho.pela via de causalidade . sensíveis. salvo à ciência. Estrasburgo. quando regressou à Itália. válido empiricamente. rico de elementos helenistas e neoplatônicos. converge diretamente o pensamento helênico. a lógica que nos ilustra as relações entre os conceitos. desse experimentalismo deriva o empirismo. onde ensinou até 1269. viajando para tomar parte no Concílio de Lião. coloca o ocamismo em uma posição afim à do averroísmo da dupla verdade. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França. Esta absoluta divisão entre a razão e a fé.. teologia. bem mais importante. primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia. chamado à corte papal. Adquire plena consciência dos poderes da razão. Também Alberto. e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. da moral. na sistematização imponente de Aristóteles. em 1274. Sicília e Aragão. aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem.

Sumas: Suma Contra os Gentios. logo. Da Eternidade do Mundo. abstraí-lo. a forma universal das coisas. a essência. a Dionísio pseudo-areopagita. como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta. a idéia. a espécie inteligível não é a coisa entendida. as formas. ficando inacabada devido à morte prematura do autor. A gnosiologia tomista . Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto. conheceríamos não as coisas. possui em si. destarte. compreendendo-lhes as essências. mediante a espécie inteligível. id quo intelligitur). desindividualizá-lo das condições materiais. mas sem a matéria . deste modo. temporalidade. etc. é o intelecto passivo. realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível. é absolutamente desprovido de conteúdo ideal. Comentários: à lógica. e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro. espacialidade.. É preciso claramente salientar que. que nos garante conhecermos coisas e não idéias. e é justificado experimentalmente e racionalmente. 4. à ética de Aristóteles. O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo.intus legit . no fenomenismo. O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível. pois. mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo. a que pertencem as operações racionais humanas: conceber. a representação da coisa (id quod intelligitur). que está fora de nós. é uma faculdade da alma individual. O Pensamento: A Gnosiologia Diversamente do agostinianismo. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente. Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas. a imagem. mas transcende-o. sem a materialidade do sinete. mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens. à física. isto é. potencialmente.diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica . sem a materialidade do ouro. Do mal. do mesmo modo e ainda mais perfeitamente. Suma Teológica. atual. E. no entanto. a idéia. e não noa advém de fora. 2. é preciso extraí-lo. a essência. sensível e intelectual. à Sagrada Escritura. 3.1. O intelecto vê em a natureza das coisas . mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei. à metafísica. mas os conhecimentos das coisas. a essência das coisas é contida apenas implicitamente. desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. Para que tal inteligível se torne explícito. é mister um intelecto agente que abstraia. Mas. etc.). . Questões várias. Da alma. e em harmonia com o pensamento aristotélico. aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo. sobre os quais exerce a sua atividade. etc. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia. quer dizer. desindividualizada pelo intelecto agente. a cor do ouro percebido pelo olho.não oposta . neste caso. a forma do objeto material na alma. acontece no conhecimento intelectual. na filosofia de Tomás de Aquino. para resolver o problema do mundo. sem inatismos e iluminações divinas. acabando.que representa o objeto material na sua individualidade. o da filosofia evidente e racional. Tem-se. o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera. O conhecimento humano tem dois momentos. o universal. O intelecto que propriamente entende o inteligível. ademais. a coisa sentida e o sujeito que sente. o espírito se torna todas as coisas. e o segundo pressupõe o primeiro. baseada substancialmente em demonstrações racionais. começada em 1265. Esta é a impressão. julgar. tem em si mesmo imanentes todas as coisas. Como no conhecimento sensível. isto é. Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética. Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma. é a 106 . a forma. a espécie inteligível. O conhecimento sensível do objeto.o inteligível. raciocinar. elaborar as ciências até à filosofia. Questões: Questões Disputadas (Da verdade.é empírica e racional. sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas. a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é. feita explícita.mais profundamente do que os sentidos. Na espécie sensível . desmaterialize. formam uma unidade mediante a espécie sensível. que contêm um elemento inteligível. Compreendendo as coisas. E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento.visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado. representando precisamente o elemento essencial.

Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. e.ou ontologia . válida para toda a realidade. e.). Este princípio vale unicamente para a realidade material. Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma). é a que realiza o sínolo. como a potência é determinada. potência quer dizer não-realidade. imperfeição. Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração. e chama-se matéria. de per si. outra ativa e determinante (a forma)". A Metafísica A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial.material. mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição.tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. os universais. este vidro). . isto é. a saber. e levando. os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes. que colhe a essência das coisas. em vários indivíduos. a concretização da forma. que é ciência experimental). A matéria não é absoluto. formal. porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica. toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares. Opõe-se ao ato puro a potência pura que. o mundo. uma passiva e em si mesma absolutamente indeterminada (a matéria). a psicologia racional (racional. pela qual é determinada.107 evidência. contradição. intuitivos. e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro causas . é o princípio da matéria e de forma. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente. que só realmente existem (esta água. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino. essência. É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro. A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade. vidro) e é universal. ouro. especificação do princípio de potência e ato. que depende do ser que é ato puro. mas pode tornar-se todas as coisas. verdadeiros.assim chamada. como já dissemos. destarte. Não significa. como pretendia o agostinianismo. Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes. ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas). para distinguila da teologia revelada. capacidade de concretizar-se. não são inatas na mente humana. este ouro. A metafísica geral . a fim de que possa existir um ser completo e real (substância). naturalmente é irreal. poucos são os nossos conhecimentos evidentes. porém. A individuação. e nem sequer são inatas suas relações lógicas. as idéias. No entanto. Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis. mas se tiram fundamentalmente da experiência. etc. mediante a indução. à discrepância entre o intelecto e as coisas. como a potência é determinada pelo ato. por si. porém. é nada. perfeição. irrealidade absoluta. no campo intelectual. todos os conhecimentos sensíveis são. A ciência tem como objeto esta essência das coisas. A Natureza Uma determinação. por conseqüência. A forma é a essência das coisas (água. a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. universal e necessária. A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus. é esta causa final que determina a ordem observada no universo. intuitivos. é. É necessária para a forma. tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração. O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. o espírito. consistindo em uma falsa passagem na demonstração. Daí temos a teologia racional . São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade. devidas ao intelecto. A demonstração é um processo dedutivo. este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. depende da matéria. não-ente. irreal sem a forma. a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras. uma passagem necessária do universal para o particular. Pelo contrário. Ato significa realidade. os conceitos. que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. para o mundo físico.

Tomás sustenta que a alma. Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva. é imortal. E a primeira dessas provas . que é precisamente a alma racional. como sendo a que transcende infinitamente o intelecto humano. que sem Deus seria contraditória. da alma racional. antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa). Se conhecermos apenas indiretamente. o imperfeito ao perfeito. assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus. que é uma atividade cuja origem está dentro do ser. porém. indeterminada . cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível. espiritual. as . não tem uma vida plena sem o corpo. partindo da experiência. cresce e se reproduz). como a lógica exige. existe uma forma só e. Assim. que são materiais. que pelo fato de ser imaterial. porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa. a ordem à inteligência ordenadora". esta atividade tem que depender de um princípio imaterial. "Cada uma delas se firma em dois elementos. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma. é imortal. para proceder à demonstração.ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias. isto é. a alma racional entende e quer. mas unicamente a posteriori. portanto. ainda que imortal. mas transcendendo-o . se manifestam nele também atividades espirituais. A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição.unida com o corpo. a mais da alma vegetativa. que pode ser a constatação do movimento. e também a alma. diversamente do dualismo platônico-agostiniano. que suspende o movimento ao imóvel. Segundo o Aquinate. do contingente. dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina.porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva. não recorre a argumentações a priori. a vontade humana é livre. tirando. No homem existe uma alma espiritual .da doutrina da potência e do ato. espiritual. ou seja. Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste. espiritual embora. e a alma superior cumpre as funções da alma inferior. que diz respeito ao homem. a existência de Deus. com relação ao respectivo corpo já formado. têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta. como os conceitos.que é fundamental e como que norma para as outras . sente e se move). como o ato do intelecto e o ato da vontade. estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico.e mais intimamente ainda . das causas. como a mais contém o menos. e os animais (alma sensitiva: que. chama-se alma. por conseqüência. e uma aplicação do princípio de causalidade. por conseguinte. Deus Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato. Mas. espiritual. Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição. entretanto esta demonstração é sólida e racional. as causas segundas à causa primeira. é unida substancialmente ao corpo material. por sua vez. Portanto. assim a teologia racional tomista depende . As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional). isto é. mediante a doutrina da matéria e da forma. entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus. a psicologia racional. pois segundo Tomás de Aquino. a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial. ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina. não é composta de partes e. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas. que é o seu instrumento indispensável.baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato. final.eficiente. E. O Espírito 108 Quando a forma é princípio da vida. Entretanto. e. por conseguinte. pelas provas. de que é a forma. interessa apenas a alma racional. que a individualiza. graças precisamente à famosa doutrina da analogia. nem viver. uma alma só em cada indivíduo. o contingente ao necessário. mas é cognoscível unicamente por demonstração.

subordinado. Segundo Tomás de Aquino. de que depende a conservação do gênero humano. mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. a vontade não é condição de conhecimento. portanto. essencial. à Igreja. deve a razão desempenhar os papéis seguintes: 1. são necessários dois elementos: o elemento objetivo. de Deus. não com argumentos intrínsecos. um conjunto de negações e de analogias. Filosofia e Teologia Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia. transcendentes à razão. segundo o sistema tomista. para nós. Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo. Tomás se distingue do agostinianismo. ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. A ordem moral. A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência. que é uma determinada imagem da essência divina.109 imperfeições. e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas. . mas apenas incompleto. pois a moral tomista é essencialmente intelectualista. inseparável da natureza humana. em harmonia com a natureza racional do homem. razão e revelação. logo. para a integridade do ato moral. que garantem a autenticidade divina da Revelação. de evidência. A primeira forma da sociedade humana é a família. mistérios. e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé. Desta sorte. o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica). Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto. não evidentes. não podem determinar a sua infinita capacidade de bem. Ao invés. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade. agir moralmente significa agir racionalmente. 2. que tem como escopo o bem eterno das almas. A Moral Também no campo da moral. pois. a Segunda forma é o estado. a intenção. total. o que é impossível. de que depende o bem comum dos indivíduos. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente. a razão não é estranha à fé. a vontade seria determinada por este bem infinito. que Deus quis realizar no mundo. porquanto procede da mesma Verdade eterna. e sim da necessidade racional da divina essência. fica. onde os princípios são. Não é mister acrescentar que. Com base no sólido sistema aristotélico. é resolvido com base no conceito de criação.). mas o estado um meio para o indivíduo. não depende da vontade arbitrária de Deus. que depende da vontade. que se atinge mediante a razão. com relação à fé. agostiniana. Embora o estado seja completo em seu gênero. ciência e fé. Entretanto. se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado. Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que. a ordem moral é imanente. é livre. e o elemento subjetivo. que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. Destarte. portanto. portanto. que consiste numa produção do mundo por parte de Deus. conhecido intuitivamente pelo intelecto. em tudo quanto diz respeito à religião e à moral. livre e do nada. mas com argumentos extrínsecos. ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. isto é. a lei. quer dizer. porém. de credibilidade (profecias. isto é. resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. E. é eliminada a doutrina da iluminação. toda limitação e toda potencialidade. isto é. Em todo caso. Analisando a natureza humana. mas tem como fim o conhecimento. etc. O que conhecemos a respeito de Deus é. ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos. se a vontade não determina a ordem moral. milagres. recorrendo a um argumento metafísico fundamental. mediante argumentos prováveis. que não é possível demonstração racional em matéria de fé. E compreende-se. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. A demonstração da fé. e não é falso. é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional.

o conhecimento humano se realizava não através dos sentidos.nem opõe  como faz o averroísmo  razão e fé. e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas materiais. sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma. não confunde  como faz o agostinianismo . Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural. por conseguinte. é mais perfeito do que a ação. portanto. pelo que a sacra teologia é ciência. um inteligível. por conseguinte. três questões se colocam: 1. tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana. portanto. segundo esta doutrina. assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma correspondente metafísica e antropologia. para os agostinianos. que. Essa forma é enucleada. com a primazia do intelecto sobre a vontade. ao contrário. enucleação e sistematização das verdades de fé. e tem. sim. Ademais. que conhecem mediante as espécies impressas. com todas as relativas conseqüências. segundo a antropologia aristotélico-tomista. O Tomismo O tomismo afirma-se e caracteriza-se como uma crítica que valoriza a orientação do pensamento platônico-agostiniano em nome do racionalismo aristotélico. ao misticismo agostiniano. ao passo que. o tomismo se afirma e se caracteriza como o início da filosofia no pensamento cristão e. em virtude da qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo sensível. como o início do pensamento moderno. portanto. precisamente. a uma antropologia. mas na visão beatífica da Essência divina. que pareceu um escândalo.110 3. por conseqüência. Por conseguinte. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé. com todas as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. um intelecto. Essa gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e. racionalmente. Terceira característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo. em especial. enquanto a filosofia é concebida qual construção autônoma e crítica da razão humana. Vice-versa. porquanto o intelecto possui o próprio objeto. os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica. de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus. a alma é concebida como a forma substancial do corpo. A determinação. no campo católico. ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional. A alma é. de certo modo. efetivas vulnerações da natureza humana. Acima do sentido há. esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais. sem idéias inatas  é uma tabula rasa. incompleta sem o corpo. Tomás. intuição do inteligível. e ciência em grau eminente. Por isso a alma era concebida quase como um ser autônomo. tem o seu ponto de partida nos sentidos. é essencialmente prática. mas ao lado e acima dos sentidos. mas distingue-as e as harmoniza. a Revelação e. mediante contato direto com o mundo inteligível. ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. logo. A existência de Deus é uma verdade evidente? 2. mas é um intelecto concebido como uma faculdade vazia. o espírito humano está em relação imediata com o inteligível. uma espécie de natureza angélica. Ela pode ser demonstrada? 3. O conhecimento. segundo a concepção platônico-agostiniana. pois. E demandam. A esta gnosiologia inatista. A característica do tomismo. no homem. Sabemos que. o conhecimento humano depende de uma particular iluminação divina. segundo a famosa expressão  . estas vulnerações são filosoficamente. inexplicáveis. o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento humano. porquanto essencialmente especulativa. A Existência de Deus é Evidente? Sobre a existência de Deus. é o intelectualismo. idéias inatas. sim. unida extrinsecamente a um corpo. e a materialidade do corpo era-lhe mais de obstáculo do que instrumento. Deus existe? . precisamente como as inteligências angélicas. abstraída pelo intelecto das coisas materiais sensíveis. este intelecto atinge.

 Por outro lado. a verdade e a vida". Com efeito. À segunda. todos sabem o que são o sujeito e o atributo de uma proposição. E se alguma coisa há de verdadeira. Por conseguinte. com efeito. Logo. 4 e Últimos Analíticos. 10). como o ser e o não-ser. desde que se compreenda a palavra. Animal. conhecer a existência de Deus. Muitos. de fato. acreditaram que Deus fosse um corpo. que o todo é maior que a parte. isto é. Ora. 3.  Parece que a existência de Deus é evidente. aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão num mesmo lugar". Mas. isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência de Deus. a existência de Deus é evidente. mas não para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. menos conhecidas na realidade. Por conseguinte. Ora. De fato. desde que tenhamos compreendido o sentido da palavra "Deus". no sentido de uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. Mas como não sabemos o que é Deus. devemos responder que a existência da verdade indeterminada é evidente por si mesma. essa proposição será conhecida de todos. é seu ser. De fato. que Deus existe. se alguns não sabem o que são o atributo e o sujeito de uma proposição. quando sabemos o significado de todo o significado da parte.  Além disso. a propósito dos primeiros princípios da demonstração. como é o caso dos primeiros princípios. que existe no pensamento. mas que a existência da primeira verdade não é evidente em si mesma para nós. eu afirmo que a proposição "Deus é". portanto. colocam o supremo bem do homem nas riquezas. a existência de Deus é evidente. É por isso que Boécio diz: "Certos juízos só são conhecidos pelos sábios. propriamente falando. Por conseguinte. De fato. por exemplo. Mas isto não é. Ora. a existência da verdade é evidente. de imediato. ele conhece naturalmente. uma proposição é evidente quanto o atributo está incluído no sujeito. outros o colocam nos prazeres. chamamos verdades evidentes aquelas cujo conhecimento está em nós naturalmente. À terceira. o homem deseja naturalmente a felicidade e. é evidente por si mesma. estabelece-se. o conhecimento da existência é naturalmente inato em nós. de fato. tem necessidade de ser demonstrada pelas coisas que. isto é. em compensação. conforme nos mostra o Filósofo (Metafísica. uma vez que o atributo é idêntico ao sujeito. Pois. isto não significa que todos representam a existência dessa coisa como real e não como representação da inteligência. pelos efeitos. de imediato. Mas. Ora. Daí resulta que o objeto designado pela palavra Deus. ninguém pode pensar o oposto do que é evidente.111 1. Resposta  Temos duas maneiras para dizer que uma coisa é evidente. de fato. De fato. também existe na realidade. 2. quando é o próprio Pedro que chega. de acordo com o que diz Damasceno: "O conhecimento da existência de Deus é inato em todos". sem conhecer Pedro. conforme diz o salmo 52. em estado vago e confuso. É verdadeiro. é certo que a proposição será evidente em si mesma. sabemos. são ditas evidentes as verdades que conhecemos desde que compreendamos os termos que as exprimem. 1: "O insensato diz em seu coração que não há Deus". outros alhures. Ora. 14. E não se pode concluir sua existência real salvo se se admite que essa coisa existe realmente. 6: "Eu sou o caminho. É o que o Filósofo (Últimos Analíticos. Por conseguinte. a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. por exemplo: o homem é um animal. aquele que nega a existência da verdade. que os termos são coisas gerais que todos conhecem. aquilo que ele deseja naturalmente. concorda que a verdade não existe. À primeira objeção devemos responder que. pertence à noção de homem. Se. Ela o pode ser em si mesma e não por nós. Deus. o são mais para nós. a existência de Deus não é evidente. ela não é evidente para nós. considerada em si mesma. 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. etc. a existência de Deus é evidente. I. Mas se a verdade não existe. ela o pode ser em si mesma e por nós. segundo o que diz São João. o oposto da existência de Deus pode ser pensado. Deus é a própria verdade. essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber algo que lhe seja maior. o todo e a parte. podemos responder que aquele que ouve pronunciar a palavra Deus pode ignorar que essa palavra designa uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. . uma vez que Deus é a felicidade do homem. pelos princípios das demonstrações. Ora. I. a verdade existe. Alguns. exatamente como se pudéssemos saber que alguém chega. o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento. Mesmo que sustentemos que todos entendem a palavra Deus nesse sentido.

A causa motora produz. seu assentimento a tais verdades. Mas existem outros bens que implicam nessa relação. os animais são arrastados pelo que vêem. tudo o que deseja. (Euclides. pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. por necessidade. na medida em que se dirige para o bem universal e perfeito. Ora. na medida em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. se este não se lhe apresenta como um bem.Latino As Ciências Naturais da Idade Helenista Como já salientamos.como Atenas foi o grande centro da especulação filosófica. graças às expedições de Alexandre. As ciências particulares. assim a vontade adere ao fim último. Mas a vontade daquele que vê Deus em sua essência adere necessariamente a Ele. Em Alexandria congregavam-se. Assim como a inteligência adere.112 A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? conseguinte. Ora. de fato Dionísio diz que o mal está fora do objeto da vontade. ela não é. por necessidade. que chega até as Índias. Por . são aqueles pelos quais o homem adere a Deus. necessariamente. o objeto da vontade move-a necessariamente. A inteligência não concede. ela é capaz de desejar coisas contrárias. o impulso do motor. o movimento do móvel segue. necessariamente. na técnica. no caso em que a força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que este tem de agir fica submetida à causa. tornando-se empírico nas ciências particulares. atingindo esta cidade seu maior esplendor nos séculos III e II a. assim o que é conhecido pela inteligência é objeto do apetite intelectual ou vontade. Por conseguinte. do mesmo modo como agora nós queremos. ser felizes. Por conseguinte. Assim como o que é conhecido pelos sentidos é objeto da afetividade sensível. para a satisfação das necessidades imediatas da vida empírica. visto que se pode ser feliz sem eles. necessariamente. ela não quer. A estas últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente. por sua vez. Solução: A vontade não pode tender para nenhum objeto. porquanto é impossível a consistência teórica dessas ciências sem a filosofia. A tais bens. Mas a capacidade da vontade.C. Faltando isto. Por conseguinte. Dificuldades: Isso parece exato. Por conseguinte. Mas existem proposições necessárias que possuem esta relação necessária. O centro principal dessa cultura científica é Alexandria . na idade helenista declina o vigor especulativo filosófico até ao ceticismo. ela não é necessariamente determinada por um só. fenômenos e fatos novos. O mesmo acontece com relação à vontade. Conclusão: Eis como podemos prová-lo. Mas como existe uma infinidade de bens. Entretanto: Santo Agostinho diz que a vontade é a faculdade pela qual pecamos ou vivemos segundo a justiça. parece que o objeto conhecido pela inteligência move a vontade necessariamente. e se despedaça. Existem bens particulares que não possuem relação necessária com a felicidade. a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. tais são as proposições contingentes cuja negação não implica na negação desses princípios. necessariamente. a vontade não adere necessariamente. é evidente que a vontade não quer. incentivado também pela descoberta de países novos. e daí partiam cientistas de todo o mundo civilizado. existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros princípios. a afetividade sensível. o movimento do móvel. o assentimento não é necessário. não pode estar inteiramente subordinada a qualquer bem particular. Arquimedes. antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da visão divina. tais são as conclusões demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios. segundo Santo Agostinho. Mas o objeto dos sentidos move. aos primeiros princípios. vão terminar fatalmente na prática. necessariamente. Hiparco) e no II século d. necessariamente. O objeto está para a vontade assim como o motor está para o móvel. Todavia. Concretiza-se nestas ciências o interesse teorético da época. ela tende necessariamente para o bem que lhe é proposto. tudo o que deseja. Desse modo. Desse modo.C. acionada por ele. III . necessária e naturalmente.

Apesar de ter o cônsul Marcelo ordenado aos soldados poupar a vida ao grande sábio. física.que. mas aderiu. voltando depois à pátria.(Ptolomeu). até o IV século d. o sistema astronômico era composto de cinqüenta e seis esferas concêntricas. As ciências naturais propriamente ditas. Em Alexandria havia o famoso Museu. Escreveu uma grande obra de Geografia. medicina . afirmam-se no século III a.. que ensinou em Alexandria e em Pérgamo e foi um grande geômetra da Antigüidade juntamente com Euclides e Arquimedes. etc. Dos dois ramos da matemática floresceu. Ptolomeu julgou que devia integrar a astronomia com a astrologia.C.C. as quais levaram ao conhecimento da flora e da fauna das regiões novas. observatórios. "Noli turbare circulos meos". estudou em Alexandria e em Roma. Euclides viveu em Alexandria no III século a. depois pelas grandes coleções do Museu de Alexandria. o qual viveu em Alexandria e em Rodes. Lembre-se a escola mecânica de Alexandria. durante o saque da cidade foi morto por um soldado ignorante. É o autor dos afamados Elementos de Geometria. onde passou a vida toda entre o ensino. autor do assim chamado Almagesto. . em geral. tiveram incremento na idade helenista.63 a. em dezessete livros. rico de recursos científicos . aí dedicando-se por toda a vida a estudos e pesquisas de matemática. O geocentrismo foi elaborado por Eudóxio de Cnido (408-355 a.. pouco posterior a Aristóteles e de pouco anterior a Arquimedes .30 d. No presente parágrafo examinamos brevemente as principais ciências naturais cultivadas nesta época matemática. nesta época fez grandes progressos. aritmética e estereogrande matemático e físico. geometria e mecânica. A seguir foi desenvolvido e corrigido por Apolônio de Perga (260-200 a. salas anatômicas. que seria o estudo dos influxos astrais sobre os fenômenos terrestres e. prevaleceram interesses práticos. teriam sido as suas últimas palavras. astronomia. após um interesse teórico para com esta ciência.C.C.. ciências naturais.. . Entretanto. Esta teoria desloca a terra do centro das órbitas astrais para a circunferência. Ásia.pondo especialmente em foco a influência do clima sobre o temperamento e o caráter humanos e sobre a organização social e política. e depois a aritmética . Primeiro. para poder explicar melhor e mais simplesmente os movimentos celestes. As ciências naturais progrediram entretanto na idade helenista particularmente como ciências auxiliares da medicina .e que teve uma longa e gloriosa vida desde o III século a. o sistematizador definitivo do geocentrismo é Ptolomeu. máquinas hidráulicas. onde se trata com grande clareza e rigor científico de geometria plana. Ao lado da antiga escola de Hipócrates. e a um certo complexo de observações empíricas.séculos II e II d. A hipótese heliocêntrica é devida a Aristarco de Samos.C. África . técnicos. De suas descobertas aproveitou-se também para a construção de máquinas de guerra.III século a. mediante a teoria dos excêntricos.III e II séculos a.Europa.anatomia e fisiologia . estudou em Alexandria. tal contribuição limita-se essencialmente à matemática.C.C. ciência no sentido estrito como a filosofia. já cultivadas por Aristóteles (zoologia) e Teofrasto (botânica). A geografia começou a ser cultivada no seu aspecto astronômico-matemático.) discípulo de Platão. que serão valorizadas e sistematizadas na ciência moderna. dotada de jardins botânicos e zoológicos. repreendido pelo grande sábio porque perturbava seus estudos. jardins botânicos.C. geografia.C. primeiro a geometria . por sua vez.C. mediante o qual a astronomia antiga foi transmitida e seguida até à Renascença. particularmente.). máquinas de guerra acionadas por ar comprimido.C. em 113 . como acima já dissemos.C.bibliotecas. etc. Natural de Siracusa. Quanto à física. Estrabão . ao geocentrismo. as regiões então conhecidas . floresceu antes e mais viçosamente aquela do que esta. só com Estrabão afirmou-se o caráter antrópico da geografia. A contribuição da filosofia clássica. por meio das expedições militares de Alexandre. sobre as vicissitudes humanas.C. em que foram inventados relógios de água. vivido em Alexandria no II século d. já famosa no III século a. por Hiparco de Nicéia do II século a. gabinetes. Quanto à astronomia e à geografia.particularmente em relação com o saber enciclopédico. no mundo antigo. A matemática e a física tiveram grandes cultores em Euclides e Arquimedes.. a qual explicava o organismo animal mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é chamada escola dos dogmáticos. e por Aristóteles no sistema das esferas homocêntricas.nascido no Ponto. a sistematização das descobertas matemáticas de seus predecessores e as suas pesquisas originais. A astronomia antiga conheceu a hipótese heliocêntrica. onde descreve sistematicamente. jardins zoológicos. mais ou menos . em defesa de Siracusa cercada pelos romanos durante a II guerra púnica.C. e também.

firmadas em princípios diferentes. a especulação. começados geralmente na pátria sob direção de educadores gregos. Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados no mundo biológico aos princípios da física e da metafísica. Após a conquista romana da Macedônia (168 a. não podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força medicatrix. reconhece a vis medicatrix como fator essencial da terapia. Antes de tudo. Um senatus-consulto. Entre Roma e a Grécia estabelecem-se e desenvolvem-se intensas relações culturais. justa. segue-se que foi também um filósofo. A sua filosofia é uma síntese do platonismo. o epicurista foi o primeiro romano que nos deixou um escrito filosófico: Lucrécio Caro. Começa. o Antigo . aristotelismo . Roma procede fatalmente para o Império. juntamente com Critolaus. por conseqüência. E fazem isto não por interesses científicos. Mais importante é a escola médica chamada empírica que.). por exemplo.C. o maior médico da Antigüidade. peripatético e Diógenes. também a filosofia grega dirige-se para Roma.). acelerada pelo contato com a refinada civilização helenista. Atenas e Rodes. dos dois quesitos fundamentais da filosofia moral grega .do Ocidente e do Oriente -.como passatempos. de caráter pregmatista e moral.estando à frente Catão. Características Gerais Julgamos seja preciso tratar do pensamento romano juntamente com a filosofia grega.C. da atividade. despertou grande contrariedade no velho Catão. que sobrevivem imperecíveis ao empírico fim político do império romano . a umidade. Aliás. o frio. vedava a morada em Roma aos filósofos.C. porém.os romanos se interessaram propriamente apenas pelo segundo. Os jovens mais conspícuos das famílias aristocráticas romanas vão à Grécia e à Ásia Menor. base e germe de toda sólida construção especulativa e de toda verdadeira obra artística. otia. a contemplação . sobretudo. que sobrevivem imperecíveis ao acontecimento empírico da queda política da Grécia. nos quartéis. a qual segundo Plutarco. a famosa embaixada dos filósofos gregos ao senado romano em 155 a. razoável. universal. É esta uma das maiores obras da literatura latina. Quíncio Flamínio.da filosofia grega. o direito.o calor. inversamente. elegância. Paulo Emílio. que colimava com o temperamento prático dos romanos. Antes. O gênio romano é oposto ao gênio grego.que. acadêmico. Com meios coativos. autor de De rerum natura. lazeres. norma e fundamento de uma vida civilizada ideal. elemento indispensável da alta cultura romana. E como as obras primas do gênio grego foram a filosofia e a arte. em 161 a. que dominaram a cultura médica européia até além da Idade Média.que coisa é o sumo bem. considerando o estudo. da observação dos sintomas do mal e do efeito dos remédios. assim a obraprima do gênio romano é o jus. para explicar a formação e o funcionamento dos órgãos. segundo os gregos. e como se realiza . a última vitória dos conservadores.os quais justamente percebiam o perigo da perversão dos costumes na vida romana. e. Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia. políticos. afirma o valor da experiência direta. estoicismo e. O epicurismo teve imediata.114 Alexandria outras escolas. favorecidas pelo partido iluminado chefiado por Cipião Emiliano. em oposição a todos os desvios passados e presentes. estóico.. a influência grega sobre o mundo romano. Natural de Pérgamo. é. O gênio romano cultua a primazia da prática. esta escola fez descobertas importantes sobre a circulação do sangue e sobre o sistema nervoso. Tenta ele sintetizar a doutrina hipocrática dos quatro humores com a física aristotélica dos quatro elementos e das quatro qualidades fundamentais da matéria . humana.C. de permeio a toda a barbárie antiga e moderna. representavam a mais alta tarefa da vida . é impedida pelos conservadores . portanto.em seus motivos teóricos. viveu longamente em Roma na qualidade de médico imperial e deixou numerosos escritos. porquanto também o pensamento romano depende . Temos. especulativos. mas porque o helenismo é considerado bom gosto. finalista. a idéia imperial. metafísicos . em oposição à orientação teórica e especulativa das escolas precedentes. eclético com tendências dogmáticas e hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d. Foi.. rápida e grande influência em Roma. composta de Carnéades. apesar de ambos os povos se originarem do mesmo tronco indo-europeu. moda. testemunho do entusiasmo vivo e sincero com . no foro). a Grécia tornava-se efetivamente parte do império romano. para se aperfeiçoarem nos estudos. a escola que tenta explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças fundamentais. do negotium (nos campos. afirma uma fisiologia teleológica. a secura. e precisamente depende da filosofia grega do terceiro período.

um ecletismo com tendências acadêmicas e para finalidades morais . que no estoicismo são resolvidos segundo uma metafísica elementar e contraditória. Roma teve que superar a própria nacionalidade. mas a codificação de uma longa e vasta prática. Os romanos. o direito romano no corpus juris justiniano é o lógico desenvolvimento do original germe jurídico. implica numa concepção filosófica. Ambos correspondem à índole prática do gênio romano: o primeiro condiz com o pragmatismo positivo. na Grécia a filosofia. têm uma personalidade própria. aonde não pode chegar o poder exterior. entre estes. Procurar-se-á um filósofo. O pensamento grego serviu à codificação do direito romano próprio e verdadeiro. porém.). Instaurado o Império. Epicteto e Marco Aurélio pertencentes ao primeiro e segundo século d.C. Não é de admirar. Ecletismo e Estoicismo As duas correntes mais importantes do pensamento romano são o ecletismo e o estoicismo. Roma não desnatura o seu gênio político original. uma confirmação de alto valor. num direito natural. otimista. criando um verdadeiro dicionário filosófico latino. portanto. Cícero tem mérito também como historiador da filosofia antiga. Tal sistematização jurídica. paralelamente. em Roma foi o direito. que. Sêneca é o maior como pensador. prática. que constituem o caráter essencial do estoicismo. Certamente. mas realiza-o. aliás. igualmente ilustre no mundo filosófico. E. surgindo na família. pois Roma era naturalmente feita para se tornar a capital do mundo. -. dada a sua cultura vasta e eclética. jurídico. assim. porquanto . quase religiosa. se bem que os grandes jurisconsultos romanos teriam chegado sozinhos a esta codificação.C. político. tendo renunciado a todo o resto. que no Oriente foi a religião. a profunda praxe ascética do estoicismo recebe. sendo critério de verdade o útil moral. traduzindo-o para a língua latina.segundo a índole prática do gênio romano limita-se quase exclusivamente aos problemas morais.deixando na sombra as questões teoréticas . que o pensamento grego pode deduzir da sistematização jurídica romana. de Possidônio. expande-se através da cidade e do . moralista e escritor epigramático. moral. Seu mérito principal está no fato de que ele fez ampla e eficazmente conhecer a Roma o pensamento helênico. de crítica e de sistema. Sêneca e Epicteto pertencem a esta classe de diretores espirituais. Em Atenas e em Rodes. O estoicismo romano difere do estoicismo grego. . às vezes a única fonte. estóico. E. O mais destacado expoente da primeira corrente é Marco Túlio Cícero (106-43 a. Musônio Rufo. pessimista. pela sua aceitação por parte de uma mentalidade positiva. numa filosofia do direito. da idade imperial. racional. de que representa uma fonte essencial.terem os estóicos romanos exercido uma função prática. descuidando quase que completamente dos problemas teoréticos. o sistema filosófico de Cícero é uma forma de pragmatismo eclético. que fazem parte da oposição e se apegam à liberdade espiritual do pensamento. Daí uma superioridade do estoicismo romano sobre o estoicismo grego. todavia. Carece de interesse especulativo. da idade republicana. realista. caput mundi. humano. como os cristãos procurarão um padre. toda grande casa terá um filósofo. apenas Sêneca.115 que foi aceito em Roma o epicurismo por um determinado grupo cultural . desenvolve-o. acadêmico. O seu pensamento é. podem considerar-se quase naturalmente estóicos. jurista e homem político literato e orador famoso.conforme a segunda escola estóica grega. mas uma sistematização jurídica. segundo a índole prática do gênio romano. natural. pelo menos os romanos da idade imperial. O direito romano não é uma filosofia do direito. para chegar à construção de um direito universal. Direito e Educação O Direito Romano A obra universal e imperecível. o segundo condiz com o pragmatismo negativo. e de Fedro epicurista. Não é. por conseguinte. qual era a mentalidade romana. como mais tarde terá o seu capelão. Entre os numerosos estóicos da idade imperial.ainda que a obra lucreciana seja desprovida de importância especulativa. Cícero foi discípulo de Filo. não é uma construção teórica. do mesmo modo que Roma sozinha construiu o seu império. valoriza-o.

dadas as suas predominantes qualidades práticas. tivesse o seu lugar. Um terceiro grau será. através das quais se aprendia a cultura helênica em geral. por ser "novidade contrária aos costumes e aos preceitos dos maiores". escrever e calcular. prático-social era o próprio conteúdo teorético da educação. logo. aos poucos. que se inspirou. entra e se espalha a concepção grega da vida . o treinamento ministrado pelo pai que faz o filho participar na sua atividade agrícola.porquanto estava pelo menos nas possibilidades do caráter latino. e a religião . Na reação dos conservadores contra a helenização da vida romana. a Odisséia -. quando o antigo estado-cidade. médias . helenista-imperial. por triunfar os inovadores.por exemplo. e a cultura helênica e os mestres gregos afluem a Roma sempre mais numerosos e bem acolhidos. a que chega a filosofia pelos caminhos da razão. Essencialmente práticos e sociais são os meios: o exemplo. geralmente grego .de instituição privada sem ingerência alguma do estado. E tudo isso sob uma disciplina severa. para os romanos. e não simples distração .onde se ensinava a língua latina e a grega. A Educação Romana O espírito prático romano manifesta-se também na educação. concisas e conceituosas . helenista-republicana. uma espécie de institutos universitários. a tradição doméstica e política . que surgem com uma diferenciação e uma especialização superior da escola de gramática. que na sociedade familiar romana desempenha também as funções de senhor e de sacerdote . cuja irresistível fascinação também Roma sofreu. é o pensamento grego que penetra e se difunde. em que a cultura é instrumento de ação . em que a instrução. O orador romano será o tipo do homem de ação. através do pensamento.116 estado. enfim se forma pouco a pouco uma literatura nacional romana sobre o modelo formal da grega. Evidentemente. para o espírito prático romano. Nesta obra educativa colaborava também a mãe. coisa muito séria.C. que vai da cidade ao império: os patres governam a coisa pública. do político culto.que regulavam os direitos e os deveres recíprocos naquela elementar mas forte sociedade agrícola-político-militar. entre os romanos. os censores publicavam um decreto que condenava a escola latina de retórica (92 a.paterfamilias. A educação romana sofreu necessariamente uma profunda modificação.pedagogus ou litteratus. As famílias das mais altas classes sociais hospedam em casa um mestre.a escola do grammaticus . e afinal. especialmente em Atenas. nos ideais práticos e sociais. A primeira e fundamental instituição romana de educação é a família de tipo patriarcal. E. até aquele direito natural. E. Essas escolas são de dois graus: elementares . Primeiro são traduzidas para o latim as obras literárias e poéticas gregas . constituindo escolas . depois estudamse os autores gregos no texto original. Enfim. o ensino da eloqüência abrangia toda a cultura. se estudavam os autores das duas literaturas. militar e civil. O fim da educação é prático-social: a formação do agricultor.). especialmente nos primeiros anos e no concernente aos primeiros cuidados dos filhos. E. desenvolvendo-se e expandindo-se para a nova forma do estado imperial . e é definida até como ludus impudentiae. para atender às exigências culturais e pedagógicas das famílias menos abastadas. Sentiu-se então a exigência de um novo sistema educativo. enfim. especialmente literária.C. em Roma.otium. Do direito civil chega até ao direito das gentes. todavia. Esta instrução literária partiu precisamente da cultura helênica. germe de uma sociedade mais vasta. A sua finalidade era formar o orador. . vão-se. o ideal supremo. Educador é o pai. Acabam. enquanto a elite dos jovens romanos vai se aperfeiçoar nos centros de cultura helenista. mais considerada a mulher do que na Grécia. antes. sendo a religião.mos maiorum. . e culmina no Império.as leis das doze tábuas .salus reipublicae suprema lex esto. do cidadão.entendida como prática litúrgica. a princípio é a literatura grega que se difunde em Roma. porquanto a carreira política representava. que se reduzia a uma aprendizagem mnemônica de prescrições jurídicas. constituído mediante as escolas de retórica.negotium e.veio em contato com a nova civilização helênica. portanto. em Roma. do direito até à filosofia. a família não estava mais à altura de ministrar esta nova e mais elevada instrução. deste modo. econômica.entre o terceiro e o segundo século a. depois. do guerreiro . em relação com a seriedade da ação. sumamente pobre de arte e de pensamento.a escola do litterator onde se aprendia a ler. mediante a literatura. a instrução propriamente dita.ludi .pietas . Na história da educação romana podem-se distinguir três fases principais: préhelenista. diversamente do que era na Grécia. sendo.

o fim supremo da educação romana. a interpretação dos poetas . volta. o êxtase. do pecado . para o engrandecimento do império. Tais escolas municipais foram tão vitais nas províncias.cuja figura ideal já delineara Cícero no De Oratore. homérica. propondo programas e métodos que foram em grande parte adotados sucessivamente nas escolas do império. Grã-Bretanha. semitas. absolutamente incapaz. ao contrário. do racionalismo aristotélico.positiva -. especialmente de direito. racionalmente. o pensamento grego.que nem sequer se propõe. que muitas sobreviveram à queda do império romano ocidental. Na Instituição Oratória. as escolas de retórica perdem a função prática e social. quando Vespasiano era imperador. um instrumento de penetração e de expansão da língua e dos jus romano. da velha religião grega.e dos oradores . vem a faltar o interesse político da cultura. humanistas. Por certo. transformando-se em meios de ornamento intelectual entre os lazeres de uma aristocracia cultural. do espírito. imediato. No período religioso permanecem os problemas do período ético. original. enquanto fornecem o conteúdo essencial à arte oratória. preparadora dos esplêndidos renascimentos posteriores. Trata-se. da morte. Começam os imperadores romanos por conceder imunidade e retribuições aos mestres de retórica ainda docentes em casas particulares. Germânia. se recorre à concepção de uma queda arcana. intuitivo. pelo fato de ser profundamente sentido o problema do mal. o estado romano mostra agora apreciar a cultura. uma explicação plena..do mal. e a demoliu paulatina e criticamente nos grandes sistemas clássicos. Assim. Já não se trata. significa uma decadência para o diletantismo.a que o helenismo não pudera chegar. Período Religioso Características Gerais O quarto e último período do pensamento grego denomina-se religioso. Gália. foi professor de retórica em Roma. de um conseqüente encarceramento do espírito no corpo. dianoético. Um lugar de destaque ocupam as normas e as exercitações de eloqüência. misteriosóficas. nos grandes institutos universitários. grego. místicas. Faz Quintiliano uma exposição completa. um meio. A desconfiança do conhecimento racional impede à evasão para um conhecimento supra-racional. vindo a faltar a liberdade. da dor.Cícero -. enfim são fundadas cátedras imperiais. em doze livros. Nasceu na Espanha no II século d. aqueles povos Espanha. embora modestamente. O problema da vida é agudamente sentido. mas singularmente acentuados. E o resultado foi fecundo também para a cultura como tal. O teórico da pedagogia romana pode ser considerado Quintiliano. procura-se-lhes a solução mediante uma metafísica completada pela religião. olímpica. mas. segundo o espírito prático-político romana. depois o estado passa a favorecer e promover a instituição de escolas municipais de gramática e de retórica nas províncias. por conseguinte. e de uma purificação e libertação ascética e mística. Tentar-se-á a síntese filosófica do dualismo platônico. No curso de retórica ensinam-se a interpretação dos historiadores . absolutamente falando. Deste problema não se acha. o primeiro docente pago pelo estado. No curso de gramática ensinam-se a língua latina e a língua grega.Vergílio e Homero . das religiões orientais. o direito e a filosofia. devido aos seus limites naturalistas. províncias danubianas. para a revelação.Lívio . no seu término. que partiu de uma religião . Seja como for. expõe o processo de formação do orador . e conservaram acesa na noite barbárica a chama da cultura clássica. e. transformando-se em escolas eclesiásticas graças ao monaquismo cristão.e as noções necessárias para este fim.C. da realidade absoluta. porém. especialmente propensas a estes problemas e fecundas em soluções do mais vivo interesse. porque o espírito humano procura a solução integral do problema da vida na religião ou nas religiões. políticos. representa uma purificação da cultura no sentido especulativo. do monismo estóico. porquanto foi ela levada. para a religião. A instituição escolástica compreende os dois graus tradicionais de gramática e retórica. místico. em suma. de resolver os grandes problemas transcendentes . relativamente ao espírito prático-social romano. e mais precisamente . África setentrional .117 Juntamente com a organização do império organizam-se também as escolas romanas. o que. Um dos principais motivos de interesse imperial pela cultura e a sua difusão foi o fato de se ver nela um eficaz instrumento de romanização dos povos.

de que a filosofia religiosa neoplatônica forma como que a estruturação ideal. Consequentemente. cuja mais notável expressão é Jâmblico. O sistema metafísico predominante no período religioso é o neoplatonismo. Tal dualismo não será negado. cujo maior representante é Apolônio de Tiana. O pensamento moderno. a história. com a sua doutrina de uma queda original. especialmente o pensamento da Renascença. Entretanto. a idade do império romano. da alma estóica do mundo. 118 . É evidente que a passagem da concepção dualista (clássica) à concepção teísta (cristã) é um desenvolvimento lógico. E. em Filo de Alexandria. do logos racional aristotélico. a passagem da concepção tradicional.). mas são separados entre si: Deus não conhece. Pelo contrário. à concepção moderna. mas Deus é resolvido num mundo natural e humano. terminará no monismo emanatista. O centro deste movimento filosófico é Alexandria do Egito. cujo maior expoente é Plutarco de Queronéia.do transcendente divino platônico.O Pensamento Moderno Transcendência Cristã e Imanência Moderna Achamos a característica específica do pensamento clássico na solução dualista do problema metafísico. que sistematizou definitivamente e transmitiu aos pósteros o pensamento neoplatônico. todavia. também historicamente. que se manifesta especulativamente no desenvolvimento tomista de Aristóteles. com a sua extrema transcendência da divindade. a técnica. no novo pitagorismo. finaliza em uma concepção monistaimanentista do mundo e da vida: não somente Deus e o mundo são a mesma coisa. não se pode mais falar em transcendência de valores teoréticos e morais.C. O último período do pensamento grego abrange os primeiros cinco séculos da era vulgar: substancialmente. mas a este supra-ordenada. cuja vida e pensamento nos foram transmitidos pelo discípulo Porfírio.tal transcendência. o "dever ser" coincide com o "ser". cuja mais notável expressão é Proclo. tem rumos precursores nos primeiros séculos da era vulgar: I . imanentista. Nesta síntese metafísica prevalece o platonismo. e a sua parte vital tinha sido transfundida e valorizada no cristianismo. e o seu maior expoente é Plotino (III século d. pelo menos . .obra-prima deste período religioso . etc. cultural. a política) sua integração lógica. o pensamento grego . teísta. não cria. Existem o mundo e Deus. não governa o mundo.C. encontrará nos grandes valores da civilização moderna (a ciência natural. encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente. com que o neoplatonismo tem contatos. em uma forma de triteísmo. Scoto Erígena.já tinha sido assimilado pelo pensamento cristão patrístico. II . em uma característica espécie de trindade divina. e exerceu também certa influência política com o imperador Juliano Apóstata. com a sua radical separação entre o mundo sensível e inteligível. tem seu precedente lógico no panteísmo neoplatônico. e também a idade da patrística cristã. pois "ser" e "dever ser" são a mesma coisa. com a sua religiosidade e o seu misticismo.oriental. religiosa do mundo cosmopolita helenista-romano. ao contrário. O neoplatonismo. IV . interpretada à luz do pensamento grego. Mestre Eckart.).o pensamento platônico. e no platonismo religioso. todavia. em virtude da qual é ainda afirmada a realidade e a distinção entre o mundo e Deus. aristotélico-tomista. característica do clássico dualismo grego. sede do famoso Museu. representa teoricamente uma ruptura.). mas Deus é feito criador e regedor do mundo: o mundo não pode ter explicação a não ser em um Deus que transcende o mundo.na assim chamada escola siríaca. mas desenvolvido no pensamento cristão mediante o conceito de criação.na chamada escola ateniense. Mas na metafísica neoplatônica . E também teve o neoplatonismo desenvolvimento nos últimos séculos do império romano: 1°. o pensamento grego. religiosos e políticos. 2°. que tenta a síntese do pensamento grego com a revelação hebraica. helênico-escolástico. Com a escola ateniense acaba.ocidental. pelo encerramento dessa escola ordenado por Justiniano imperador (529 d. O pensamento moderno. capital comercial. que  após ter-se afirmado como extrema expressão do pensamento clássico  permanece através de todo o pensamento cristão em tentativas mais ou menos ortodoxas de síntese entre cristianismo e neoplatonismo (Pseudo Dionísio. . por outra parte. intercâmbio e polêmicas. o pensamento tradicional.

E é na Idade Média que se formam as grandes nações modernas. alimentou suspeitas e combateu longamente contra a nascente ciência moderna. o novo tomismo. especulativo. naturalmente. interiormente organizado e politicamente soberano. mas abstrata. que é a cristã e já teve a sua expressão clássica na Cidade de Deus de Agostinho é perfeitamente conciliável com a indagação histórica moderna. O que dissemos da ciência. praticamente liberal. e foi conservada para a idade moderna. para construir uma unidade política grandiosa. Mas cumpre ter presente que. isto não foi senão uma expressão exterior daquela estrutura profunda que se chama a cristandade: equivalente civil da igreja católica. Em seguida virá a . Mas a concepção medieval da história. como. e até a agricultura. descuidada. a este respeito. a instrução cultural. a indústria. por exemplo. devendo esta última fornecer à primeira a sua rica contribuição de fatos. compreensiva e ativa com respeito ao Estado. romano. era escasso na mentalidade medieval o senso da concretidade e da individualidade. bem como o laicado distinto do clero e organizado civilmente em graus de corporações.. como tal. decadente. podemos dizê-lo analogamente da história. as comunicações. se. e. imanentista. como o Sacro Império Romano. E destes conhecimentos experimentais e matemáticos de fenômenos naturais derivava ele as primeiras grandes aplicações técnicas da ciência moderna. não teve dificuldade alguma em aceitar toda a ciência natural moderna. mas apenas práticas e morais. Noutras palavras. na alta Idade Média. Poder-se-ia fazer notar que tal efetiva distinção e relativa autonomia do Estado (e do laicado) com respeito à Igreja (e ao clero) foram alcançadas através de uma longa luta contra o predomínio e a invasão destes últimos. uma utopia universalista. que afirmava ser o objeto da ciência não as essências metafísicas das coisas. o seu interesse pela concretidade. E é devido a isso que a civilização não pereceu. em adequação à realidade. Galileu Galilei. Basta lembrar. ateu. à metafísica. Deus. imanentista. a favor da velha ciência natural aristotélica. a assistência hospitalar. religiosos  que pode decidir do valor de uma civilização. sem o qual não é possível a história verdadeira e própria. metafísico. No entanto. nos séculos de ferro.119 Não se julgue demolir a filosofia medieval. insuficiente. o do domínio natural do homem sobre a natureza: contanto que o homem reconheça. mas empírico e técnico. acima de si e de tudo. Os Precedentes do Pensamento Moderno Dada a ruptura lógica entre o pensamento tradicional. quando os homens e os tempos estivessem maduros. e. e sim os fenômenos naturais. ao passo que admitia a possibilidade de uma ciência natural diversa daquela do seu tempo. pelo fato de que ninguém estava em condições de fazê-lo. desde os comunas medievais até às grandes monarquias européias do século XVII e ainda além. no período bárbaro. como tal. A historiografia medieval é. capaz de abraçar os mais diversos organismos políticos. Costuma-se inculpar a civilização medieval por ter aniquilado o estado nacional concreto. o seu profundo senso histórico. católico. o comércio. indiferente à filosofia. a escolástica pós-tomista. Aplicações técnicas que possuem também um valor espiritual. espirituais. mas incapaz de resolver os problemas máximos da vida. sem dúvida. pois. é na Idade Média que se formou o Estado distinto da Igreja. a nova escolástica. isto é. Nem se deve esquecer que precisamente na comuna medieval se encontra a primeira origem do estado moderno. E a ciência natural da Idade Média não está absolutamente em conexão com o pensamento filosófico medieval. Aliás. orgânico. a metafísica tomista. opondo à sua elementar e fantástica ciência da natureza a ciência moderna com suas grandes aplicações técnicas. a Igreja católica estava apta e disposta  a prescindir-se das intenções dos homens e de suas fraquezas fatais  a livrar-se desses cuidados estranhos gravosos e perigosos para o seu ministério transcendente e sobrenatural. a atitude da Igreja. O valor da ciência moderna não é teorético. mas não leigo. experimentalmente provados e matematicamente conexos. etc. morais. Além disso. e o pensamento moderno. teísta. porquanto esta representa uma valor infra-filosófico. não se podem achar causas racionais dessa mudança. o próprio Tomás de Aquino julgava logicamente que a filosofia podia ser uma só. Tal era também o pensamento do grande fundador da ciência moderna. pois não é a ciência natural  capaz apenas de resolver os problemas da vida material. ingênua. mas cristão. de fato. a igreja romana e o clero católico desempenharam funções também leigas e profanas.

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justificação teórica da nova atitude espiritual, que será constituída por todo o pensamento moderno em seu desenvolvimento lógico. O grandioso edifício ideal da Idade Média, em que a religião e civilização, teologia e filosofia, Igreja e Estado, clero e laicado, estavam harmonizados na transcendente unidade cristã, foi, de fato, destruído pelo humanismo imanentista, que constitui o espírito característico do pensamento moderno. Este pensamento começa com a prevalência dada aos interesses e aos ideais materiais e terrenos, com o conseqüente esquecimento dos interesses e ideais espirituais e religiosos; e torna-se completo com a justificação dos primeiros e a exclusão dos segundos. É precisamente o que acontece com os homens inteiramente entregues aos cuidados mundanos: primeiro se esquecem das coisas transcendentes, e, em seguida, querendo ser coerentes, negam-nas. Entretanto, se não há causas lógicas do pensamento moderno, há, porém, precedentes especulativos, que, valorizados pela nova atitude espiritual, se tornarão fontes especulativas do próprio pensamento moderno. Tais precedentes especulativos podem ser resumidos desta forma: o panteísmo neoplatônico, o aristotelismo averroísta e o nominalismo ocamista, os quais foram-se afirmando contemporaneamente a uma gradual decadência do genuíno pensamento escolástico (racional, teísta, cristão), especialmente tomista, com que se acham em oposição. E tal decadência cultural é acompanhada, por sua vez, pela decadência da Igreja e do Papado  o exílio avinhonês e o cisma do ocidente. O panteísmo neoplatônico teve a sua primeira grande manifestação, no âmbito do cristianismo, com Scoto Erígena. Tentará afirmar-se de novo na própria época de Tomás de Aquino com Mestre Eckart, o iniciador da mística alemã. E receberá uma nova original elaboração do Humanismo com Nicolau de Cusa, que não pouco deve aos precedentes; e, sobretudo, com Giordano Bruno, o maior pensador da Renascença, o qual depende, por sua vez, de Nicolau de Cusa. O averroísmo latino afirmara na Idade Média a sua famosa doutrina das duas verdades: o que não é verdadeiro em filosofia pode ser verdadeiro em religião e vice-versa. Em uma idade cristã, como a Idade Média, a afirmação religiosa podia Ter a prevalência sobre a negação filosófica; obscurecendo-se a fé, como na Renascença, devia prevalecer uma concepção anti-cristã, aristotélica ou não. O occamismo marca a conclusão lógica da decadente esolástica pós-tomista, apesar de seus partidários se comprazerem em denominá-la via modernorum. E, ao mesmo tempo, apresenta um elemento fundamental da filosofia moderna com o seu empirismo e nominalismo. Nicolau de Cusa, Telésio, Bruno, Campanella serão também herdeiros do nominalismo empirista de Occam, que se combina, nos sistemas deles, com uma metafísica aventurosa de cunho particularmente neoplatônico. Como é sabido, segundo Occam, o conhecimento humano é reduzido ao conhecimento sensível do singular e, portanto, ao nominalismo. Conseqüência lógica e consciente é a destruição da metafísica, que transcende o mundo empírico, sensível, bem como da ciência, que é entretecida de conceitos, impossíveis de nominalismo, de sorte que se esvai da teodicéia, porquanto não se pode provar racionalmente a existência de Deus, nem conhecer a sua natureza; e a psicologia racional, pelo mesmo motivo. E, consequentemente, torna-se impossível a ética racional, porque  sendo desconhecida a essência de Deus e destruída a do homem  a moral fica reduzida a um conjunto de preceitos arbitrários de Deus, que o homem tem que observar por fé. Occam procurará salvar-se do ceticismo  conclusão do seu sistema, com todas as conseqüências práticas  mediante a fé. Entretanto é uma posição insustentável, porquanto a fé  não podendo mais ser um racional obséquio  torna-se uma adesão cega. Em época de religiosidade ainda viva, esse fideísmo ocamista pôde praticamente ficar de pé. Mas ruirá quando a fé vier a faltar, deixando o terreno livre ao empirismo, ao naturalismo, ao nominalismo, ao ceticismo, imanentes ao ocamismo, e que constituirão tão grande parte do pensamento da Renascença, da Reforma e também do pensamento posterior. Os Períodos do Pensamento Moderno Este grande movimento especulativo, que é o pensamento moderno, naturalmente não se manifesta na sua significação imanentista senão na plenitude do seu desenvolvimento. Portanto, manifesta-se através de uma série de períodos, que se podem historicamente (e dialeticamente) indicar assim:

1.  Antes de tudo a Renascença, em que a concepção imanentista, humanista ou naturalista, é potentemente afirmada e vivida. Trata-se, porém, de uma afirmação ainda não plenamente consciente e sistemática, em que o novo é misturado com o velho. Este, muitas vezes, prevalece, ao menos na exterioridade da forma lógica e literária. A Renascença é preparada pelo Humanismo, e tem como seu equivalente religioso a reforma protestante. 2.  A este primeiro período do pensamento moderno, que, substancialmente, abrange os séculos XV e XVI, se seguem o racionalismo e o empirismo, que abrangem os séculos XVII e XVIII. Após a revolução renascentista e protestante, sente-se a necessidade de uma séria indagação crítica, não para demolir aquelas intuições revolucionárias, mas, ao contrário, para dar-lhes uma sistematização lógica. É o que fará especialmente o racionalismo em relação ao conhecimento racional. 3.  E outro tanto fará e empirismo em relação ao conhecimento sensível. Empirismo e racionalismo são tendências especulativas, gnosiológicas, opostas entre si, como a gnosiologia sensista está certamente em oposição à gnosiologia intelectualista. Entretanto, concordam em um comum fenomenismo, pois, em ambos, o sujeito é isolado do ser e fechado no mundo das suas representações. Não se conhecem as coisas e sim o nosso conhecimento das coisas. 4.  Empirismo e racionalismo, após uma lenta, gradual e silenciosa maturação, encontrarão uma saída prática, social, política, moral, religiosa no iluminismo e, portanto, na revolução francesa (Segunda metade do século XVIII); esta representa a concreta realização do pensamento moderno na civilização moderna. Esse movimento começa na Inglaterra, triunfa na França e se espalha, em seguida, na Alemanha e na Itália. Os Pensadores Renascentistas Os Pensadores Do fundo eclético-neoplatônico do pensamento da Renascença se destacavam algumas figuras de maior vulto, cuja série começa com Nicolau de Cusa e termina com Giordano Bruno. É uma nova concepção filosófica do mundo e da vida, ainda não bem claramente esboçada, de que seus próprios autores, às vezes, não têm clara consciência. É uma época de transição, em que novo e velho se entretecem mutuamente. Os sistemas filosóficos da época conservam a linguagem (latim) e a estrutura (silogística) da idade precedente. As intuições e afirmações naturalistas, humanistas e imanentistas estão ao lado das profissões de fé católica, feitas por motivos práticos, éticos e utilitários. Entretanto, debaixo dessas aparências, germina o pensamento moderno. É o crepúsculo que prenuncia a alvorada de um novo dia. Nicolau de Cusa

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Universidade de Heidelberg, foco de nominalismo, e na de Pádua, onde aprendeu a matemática, o direito, a astronomia. Ordenado padre, teve parte notável no concílio de Basiléia (1432); foi, a seguir, legado pontifício, cardeal, bispo. Viveu seus últimos anos na Itália, onde faleceu em 1464. As obras fundamentais de Nicolau de Cusa são três: De docta ignorantia, De conjecturis, Apologia doctae ignorantiae. As fontes prediletas e principais são o misticismo alemão (Mestre Eckart), o platonismo e o neoplatonismo cristão (Santo Agostinho, Pseudo Dionísio, Scoto Erígena, São Boaventura), e os autores de tendência neoplatônica, em geral. Nicolau de Cusa admite, acima dos sentidos, dois graus do saber humano; a ratio e o intellectus. A ratio  ou intelecto discursivo  é a faculdade que abstrai das noções particulares os conceitos universais, e forma, em seguida, os juízos e os raciocínios. O seu objeto próprio é o conhecimento da multíplice e do finito. No entanto, também a coisas finitas são imperfeitamente representadas pela ratio, cujo conhecimento se realiza mediante conceitos universais, ao passo que a realidade é constituída por seres

Nicolau Krebs nasceu em 1401 em Cusa, de família modesta. Foi educado junto dos Irmãos da vida comum em Deventer, onde sofreu a influência do misticismo alemão; em seguida estudou na

individuais. Deus, uno e infinito, não pode certamente ser conhecido pela ratio, cujo objeto é o multíplice e o finito. Acima da ratio está o intellectus, atividade supra-racional iluminada pela fé ou pela mística, cujo objeto próprio é o Uno e o infinito, Deus. O agnosticismo de Nicolau de Cusa é, portanto, corrigido pelo fideísmo e pelo misticismo. A docta ignorantia consiste precisamente na consciência dos limites e da relatividade da ratio, cujas deficiências são supridas pelo intellectus. Entretanto, esta iluminação é sobrenatural e nada tem que ver com a filosofia, nem é de modo nenhum fundamentada por Cusano. Admitindo, pois, ele, que a razão não nos dá a realidade, segue-se logicamente que a sua filosofia deve finalizar no agnosticismo gnosiológico, e no panteísmo metafísico. Por certo, o piedoso cardeal foi, na intenção, ortodoxo, teísta, católico. Entretanto, o seu sistema encerra fatalmente uma tendência para o panteísmo. De fato, foi ele acusado de panteísmo emanatista, quando ainda vivia. Bernardino Telésio Mais claramente manifesta-se o imanentismo da Renascença  em seu aspecto naturalista  em Bernardino Telésio. Nasceu em 1509 em Cosenza, estudou especialmente em Pádua e faleceu em 1588. A sua obra fundamental é De rerum natura iuxta propria principia. O pensamento de Telésio representa uma sistematização do naturalismo da Renascença: a saber, uma tentativa para explicar a natureza mediante os princípios universais imanentes à mesma natureza. O mundo natural é constituído de matéria e de força. A matéria é homogênea, preenche o espaço (que existe antes da matéria) e é por si mesma inerte. A força anima, penetra, move, transforma continuamente toda a matéria. O intelecto é reduzido aos sentidos, bem como o conceito universal é reduzido à sensação. Como é naturalizado o pensamento, é também naturalizada a vontade, no sentido materialista e hedonista. Entretanto, haveria no homem também uma alma que transcende a natureza e o mundo material, criada e infundida por Deus. Por conseguinte, o homem pode pensar e querer o supra-sensível, o eterno, e dominar com a vontade livre as tendências naturais. Desse modo, acima da ciência é posta e justificada a fé e a revelação. Giordano Bruno na Ordem dos Dominicanos aos 15 anos. Acusado de heresia e afastado de sua ordem, iniciou uma vida giróvaga através da Europa. De volta a Veneza, foi processado pelo tribunal da Inquisição e reconheceu os seus erros. Entregue à Inquisição romana, foi de novo processado; mas, desta vez, recusou qualquer retratação e foi condenado à morte, que lhe foi infligida em 1600. As obras principais de Bruno são: De la causa principio e uno; De l'infinito, universo e mondi; Eroici furori; De immenso et innumerabilibus. As fontes de Bruno são: o monismo eleático e heraclíteo; o atomismo democríteo; o panteísmo estóico; o emanatismo neoplatônico; o naturalismo telesiano. A metafísica de Bruno é decididamente monista, pampsiquista e pan-materialista. A realidade é una e infinita, constituída por dois princípios fundamentais, ativo um  a alma do mundo  , passivo o outro  a matéria. São dois aspectos da mesma substância. A alma do mundo é concebida como sendo inteligente, ordenadora do mundo; mas não é transcendente, como o motor primeiro de Aristóteles e o Deus do cristianismo, e sim imanente ao mundo, de que é precisamente a alma. O Deus de Bruno é, pois, esta alma do mundo, concebida como imutável e infinita, gerando eternamente o mundo finito e que se acha em perpétuo vir-a-ser. As almas particulares não passam de individuações passageiras dessa alma cósmica. Acima desse Deus imanente, também Bruno afirma a existência de um Deus transcendente, apreendido só por fé, trata-se, porém, de uma fé imanente naturalista, bem diversa da fé cristã. Com a metafísica de Bruno estão em conexão a sua gnosiologia e a sua moral. Na sua teoria do conhecimento Bruno distingue  neoplatonicamente  quatro graus, em ordem hierárquica ascendente. São eles:

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Giordano Bruno é a maior expressão do imanentismo renascentista. Nasceu em Nola em 1548, entrou

imanentismo e o humanismo do pensador. Bruno, em oposição à moral ascética e transcendente do cristianismo, sustenta que o homem realiza a sua natureza, atinge a sua perfeição no furor heróico, a saber, na sua imanente e jubilosa participação racional na vida do Todo-um. É, pois, natural, que Bruno considere toda religião histórica, positiva (inclusive o cristianismo), como um saber infra-racional, mítico, simbólico, útil para dirigir moralmente o vulgo ignorante, e não como uma revelação supra-racional de um Deus transcendente. Pois não é isto possível no seu sistema imanentista. Tomás Campanella dos Dominicanos. É o maior continuador de Telésio. Várias vezes processado por heresia, foi, porém, absolvido; entretanto, condenaram-no por motivos políticos e passou no cárcere 27 anos, sendo, enfim, libertado. Suas obras principais são: Civitas solis; Universalis philosophia seu metaphisicarum rerum iuxta propria dogmata partes tres; De sensu rerum et magia libri X. As fontes principais do seu pensamento são: o naturalismo telesiano e o idealismo neoplatônico. Mais do que os pensadores precedentes, Campanella parece oscilar entre imanentismo e catolicismo, devido ao fato de que se acha ele já no clima espiritual da contra reforma católica. E como Giordano Bruno prenuncia a Spinoza, assim Campanella prenuncia a Descartes, Malenbranche e Leibniz, marcando destarte a passagem da Renascença à Idade Moderna. Quanto à gnosiologia, Campanella diz o seguinte: Admite ele um sensus inditus e um sensus additus. O primeiro oferece um conhecimento imediato de si mesmo; é um conhecimento fundamental, certíssimo, visto que o objeto coincide com o sujeito. Entretanto, o conhecimento do eu, a consciência, revela imediatamente as limitações do eu e, logo, a existência as coisas que limitam o eu. Estas coisas são conhecidas pela percepção externa, isto é, pelo sensus additus que nos dá um conhecimento mediato das coisas. Este, porém, não nos revela a natureza das coisas, e sim o sujeito modificado pelas coisas. Ainda inferiores ao sensus additus, pela certeza, são o intelecto e a razão, porque ainda mais se afastam do sensus inditus, da imediata intuição de si mesmo. A razão, a saber, o poder de inferir o semelhante do semelhante, é um sentido imperfeito; o intelecto, a saber, o conhecimento do universal é um sentido elanguescido, pois o universal é uma noção genérica e confusa, cujo valor é unicamente prático, cômodo para resumir vários particulares. Campanella, como Telésio, desvaloriza a razão e o intelecto e admite, ao lado e acima deles, um princípio divino, uma mente, o pensamento, que desempenha a função de garantir o nosso conhecimento e libertar-nos do ceticismo. Quanto à metafísica, salientamos que Campanella afirma de novo e acentua a animação universal, o pampsiquismo telesiano. Propriamente, a metafísica de Campanella é a doutrina dos primeiros princípios do ser; são eles o poder, a sabedoria, o amor. Tais princípios são absolutos e puros em Deus, relativos e imperfeitos nas criaturas. Daí as coisas e o espírito serem uma mistura de ser e de não-ser (ser limitado), ao passo que Deus é puro ser (ser infinito). Sobre essa nossa limitação ontológica, Campanella alicerça a religião, que é aspiração do ser limitado para o ser infinito. Para Campanella, a religião fundamental é a religião natural, racional; as religiões positivas, históricas, seriam expressões empíricas da religião natural. A característica essencial da própria revelação cristã e da igreja católica seria a restauração da religião natural, racional, universal, obscurecida pela ignorância e pela concupiscência. Portanto, o cristianismo seria reduzido à religião natural, a que a Renascença em geral aspira. Tal concepção filosófico-religiosa de Campanella teve uma expressão prática, política e pedagógica, na Cidade do Sol (Civitas solis), em que é exposta a sua utopia teocrático-comunista. Imagina ele uma república ideal, professando uma religião natural, governada por leis universais, em que, à maneira de Platão, o sábio é, ao mesmo tempo, monarca e sacerdote. Mais tarde, essa sua utopia teocrático-

os sentidos, cujo objeto é o sensível, e a verdade que manifesta é mera aparência; a razão, mediante a qual a verdade é atingida por processo dialético, discursivo, sucessivo; o intelecto, que tem a intuição imediata da verdade; a mente, que atinge a verdade na sua unidade e simplicidade absoluta. Quanto à moral deve-se dizer o seguinte: na moral de Bruno aparece de um modo característico o

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Tomás Campanella nasceu em Stilo, na Calábria, em 1568, e também ele entrou ainda moço na ordem

parece ter tido intuição da falha da filosofia cartesiana. o pensamento de Bayle. próprios daquela filosofia. implícito nas premissas do sistema e realizado apenas parcialmente pelo filósofo. afastado da vida real. Entretanto. o século de ouro da civilização francesa. quanto especialmente pelo espírito crítico. em parte. utópica.124 filosófica tomará uma forma teocrático-católica. de outro lado introduzindo na corrente racionalista-cartesiana uma preformada concepção neoplatônica de Deus. jansenista). científica . as oposições maiores contra o cartesianismo surgiram evidentemente no ambiente eclesiástico e político. Leibniz. pois. E. Malebranche. Cabe-lhe a prioridade de várias teorias. grande físico e matemático. Nesses ambientes houve a intuição de um perigo revolucionário para a religião e a ordem social. À razão matemática. "Tumultuária e aventurosa em muitos pontos  escreve Leonel Franca  a obra de Campanella encerra não poucas idéias aproveitáveis. sobre a arte de Racine e de La Fontaine. com o papa à frente. limitações ao desenvolvimento lógico e despreocupado do racionalismo. entre os quais Hobbes. particularmente na França na segunda metade do século XVII. Campanella viveu longamente na prisão.esprit de finesse . lógica. o cartesianismo forjou a mentalidade (racionalista-matemática) dos maiores filósofos até Kant. nas suas preocupações práticas. Os dois centros principais desse sincretismo são representados pelo Jansenismo e pelo Oratório. suas obras. O problema das relações entre Deus e o mundo é por ele resolvido em sentido monista: de um lado. pelo método racionalista. extrema conclusão por Spinoza. do que como chefe de uma religião positiva e sobrenatural. religiosas e políticas. Brás Pascal. a saber. a divina. mecanismo e infinidade do universo. Une os dois na mesma substância segundo um paralelismo psicofísico. manifestam uma mentalidade fantástica. no entanto. em que falta a experiência de uma vida social-concreta. e entre espírito e matéria do outro. mas de um profundo sentimento religioso e cristão. Entretanto. E exerceu tal influência não tanto como sistema metafísico. Baruch Spinoza Considerações Gerais O pensamento de Descartes exercerá uma influência vasta no mundo cultural francês e europeu. Daí surgiram o ontologismo e o ocasionalismo de Malebranche. Significativa é a influência que o criticismo e o racionalismo cartesianos exerceram sobre a cultura do século de Luís XIV. a ética de La Bruyère. por causa do criticismo.que vale para o mundo natural mas não chega até Deus. Baruch Spinoza O racionalismo cartesiano é levado a uma rápida.que leva até o cristianismo. a saber: a relação entre substância finita de um lado. E também propôs os grandes problemas em torno dos quais girou a especulação desses filósofos. Descartes teve seguidores também em determinados meios religiosos de orientação platônicoagostiniana. o papa é concebido mais como chefe concreto de uma religião natural. mais ou menos ortodoxos. O desenvolvimento lógico do cartesianismo é representado por alguns grandes pensadores originais: Spinoza. Descartes teve numerosos adversários e críticos no campo filosófico. pelo que há uma só verdadeira e própria substância. Ladeia estes três pensadores uma turma numerosa de cartesianos mais ou menos ortodoxos. desenvolvendo o conceito de substância cartesiana. Malebranche e Leibniz encontram. diretamente até Kant e indiretamente até Hegel. atribuídas depois a Descartes e Bacon". uma concepção panteísta-emanatista. fazendo da matéria e do espírito dois atributos da única substância divina. como o cristianismo. idealista. quer católico quer protestante. sobre a poética de Boileau. a harmonia preestabelecida de Leibniz e o panteísmo psicofísico de Spinoza. uma forma . contrapõe a razão integral . uma animação universal. escritas no cárcere. ao contrário. das relações entre o espírito e a matéria é resolvido por Spinoza. porém (se bem que. O problema. Spinoza é a mais coerente e extrema expressão do racionalismo moderno depois do fundador e antes de Kant.espírito geométrico .

médico e livre pensador. Um traço característico e fundamental do caráter de Spinoza é a sua concepção prática.). em 1677. Além destes fatos exteriores. Recebeu uma educação hebraica na academia israelita de Amsterdam.125 de pampsiquismo. Hegel. Mas. de filosofia. as relações travadas com alguns meios cristãoprotestantes. e também aceitando alguma ajuda do pequeno grupo de amigos e discípulos. que não se encontram em Spinoza. E. que lhe propusera Carlos Ludovico. no primeiro livro da Ethica (De Deo). exigidas pelas premissas cartesianas. Schelling. mas a sua herança mal chegou para pagar as despesas do funeral e as poucas dívidas contraídas durante a enfermidade. nas línguas clássicas. Após alguns meses de cama. com base especialmente nas Sagradas Escrituras. Spinoza quereria deduzir de Deus racionalmente. preparando lentes ópticas para microscópios e telescópios. para os arredores de Amsterdam. arte que aprendera durante a sua formação rabínica. a sua firme convicção de que a solução desse problema não é possível senão teoreticamente.em especial Malebranche . depois de se manifestar o seu racionalismo e tendo ele recusado qualquer retratação. como aparece pela . lógico-geométrico. moral. primeiro. naturalmente filtrado através da crítica kantiana. nada encontramos de notável exteriormente na breve vida de Spinoza. Vida e Obras Baruch Spinoza nasceu em Amsterdam em 1632. Deixou uma notável biblioteca filosófica. sem pátria. inteiramente dedicada à meditação filosófica e à redação de suas obras. foi iniciado na filosofia hebraica (medieval-neoplatônico-panteísta) e destinado a ser rabino. Provia pois às suas limitadas necessidades materiais. depois de Spinoza. de modesta condição social. em Haia. por parte deles. Aos vinte e cinco anos de idade esse filósofo. desenvolvimentos em outro sentido. se acha também isolado religiosamente. Spinoza faleceu aos quarenta e quatro anos de idade. em parte deriva da tradição neoplatônica. eleitor palatino. ao mesmo tempo. como solucionadora última do problema da vida. sem riqueza. Os outros acontecimentos mais notáveis na formação espiritual especulativa de Spinoza são: o contacto com Francisco van den Ende. foi excomungado pela Sinagoga em 1656. o pensamento de Spinoza acabou por interessar e influenciar particularmente a cultura moderna depois de Kant (Lessing. não se excluem os desenvolvimentos idealistas do fenomenismo racionalista por parte de Leibniz. na cultura da Renascença. Demonstrando muita inteligência. de conteúdo essencialmente moralista. Schleiermacher. e nos meios religiosos holandeses aprendeu um cristianismo sem dogmas. Também as autoridades protestantes o desterraram como blasfemador contra a Sagrada Escritura. Spinoza reitrou-se. em seguida para perto de Leida e enfim refugiou-se em Haia.de chegar até às extremas conseqüências e conclusões racionalista-monista. Por exemplo. que contém a sua filosofia religiosa e política. Goethe. Com isto não se excluem. entretanto. proporcionando ao idealismo o elemento metafísico monista. que constitui precisamente o seu sistema filosófico. intelectualmente. cronologicamente. A princípio desconhecido e atacado. o Tractatus theologivo-politicus (publicado anônimo em Hamburgo em 1670). sem família. etc. Para não comprometer a sua independência especulativa e a sua paz. cujo conteúdo monista. Em geral. Van den Ende iniciou-o no pensamento cartesiano. logicamente. emigrados para a Holanda. geometricamente toda a realidade. logicamente. recusou uma pensão oferecida pelo "grande Condé" e uma cátedra universitária em Heidelberg. em parte do próprio Descartes. As obras filosóficas principais de Spinoza são: a Ethica (publicada postumamente em Amsterdam em 1677). para a construção do seu sistema. pode-se dizer que Descartes fornece a Spinoza o elemento arquitetônico. através do conhecimento e da contemplação filosófica da realidade. filho de hebreus portugueses. estão antes dele. detidos por motivos práticos-religiosos e morais. Os demais racionalistas de maior envergadura da corrente cartesiana se seguem. Uma tuberculose enfraquecera seu corpo. substancialmente. sem saúde. pois não têm a ousadia . O Pensamento: Deus A teologia de Spinoza é contida.

do atributo pensamento da substância única. Deus não somente é racionalmente necessitado na sua vida interior. do atributo extensão da mesma substância. elementares. por sua vez. a matéria e o espírito. na sua unidade racional. como cada alma tem um corpo. irracional e incompleta.própria estrutura exterior da Ethica ordine geometrico demonstrata. para Spinoza. Das limitações do conhecimento sensível decorrem o sofrimento e a paixão. Nenhuma ação é possível entre a alma e o corpo . graças à doutrina spinoziana do paralelismo psicofísico. Pensamento e extensão são expressões diversas e irredutíveis da substância absoluta. Não nos esqueçamos de que o Deus spinoziano é a substância única e a causa única. a saber: a cada modo de ser e de operar na extensão corresponde um modo de ser e de operar do pensamento. este corpo constituiria o conteúdo fundamental do conhecimento da alma. A cada estado ou mudança da 126 alma. dada a universal correspondência spinoziana entre teorético e prático. o intelecto e a vontade. e o motus infinitus é um modo primitivo do atributo extensão. quer primitivos quer derivados. melhor. As leis do paralelismo psicofísico. Os modos primitivos representam as determinações mais imediatas e universais dos atributos e são eternos e infinitos: por exemplo. Os modos distinguem-se em primitivos e derivados. mesmo que a alma e o corpo não possam agir mutuamente uma sobre o outro. Não é preciso repetir que. cada uma tendo um grau sensível e um grau racional. mas oferece uma representação em que são fundidas as qualidades do objeto conhecido e do sujeito que conhece e dispõe tais representações numa ordem fragmentária. Desses atributos.como dizia também Descartes . como já se viu.e como Spinoza sustenta até o fundo. o espírito humano. mas nela unificadas e correspondentes. é resolvido num complexo de fenômenos psicofísicos. . o conhecimento racional em dois graus: conhecimento racional universal e conhecimento racional particular. o homem integral. ou. A ordem oferecida pelo conhecimento racional particular nada mais é que a substância divina. regem naturalmente todo o mundo dos modos. e Spinoza chama-os natura naturata (o mundo). o intelecto humano conhece dois apenas: o espírito e a matéria. Cada corpo tem uma alma. alma e corpo. isto é. Eles são modificações dos atributos. que governam o mundo dos atributos. os atributos infinitos e os infinitos modos que a determinam. E igualmente necessário é o liame que une entre si natura naturans e natura naturata. o intellectus infinitus é um modo primitivo do atributo do pensamento. isto é. A respeito do conhecimento sensível (imaginatio). O homem. corresponde um estado ou mudança do corpo. derivam necessariamente a felicidade e virtude supremas. E desse conhecimento racional intuitivo. E. A lei suprema da realidade única e universal de Spinoza é a necessidade. entretanto. mas se manifesta necessariamente no mundo. a cogitatio e a extensio. está fora do tempo e se desdobra em número infinito de perfeições ou atributos infinitos. O Homem Do primeiro livro da Ethica . Como tudo é necessário na natura naturans. Spinoza distingue. elementares. A assim chamada alma nada mais é que um conjunto de modos derivados. o homem não é uma substância. abrange ela. Descartes diminuiu estas substâncias. Mesmo negando a alma e as suas faculdades. igualmente o corpo nada mais é que um complexo de modos derivados. em que. e no monismo spinoziano descem à condição de simples atributos da substância única. tudo é necessitado. assim tudo também é necessário na natura naturata. os modos. sustenta Spinoza que é ele inteiramente subjetivo: no sentido de que o conhecimento sensível não representa a natureza da coisa conhecida. Da natura naturans (Deus) procede o mundo das coisas. corpo e alma. estamos em cheio no panteísmo. A substância e os atributos constituem a natura naturans. místico. Spinoza reconhece várias atividades psíquicas: atividade teorética e atividade prática.Spinoza passa a considerar. pois.cujo objeto é Deus . no segundo livro (De mente). A substância divina é eterna e infinita: quer dizer.

E. Tal amor intelectual de Deus é precisamente o júbilo unido com a causa racional que o produz. No estado de natureza. No entanto. verdadeiro. pois a personalidade é excluída da metafísica spinoziana. Considera ele o estado e a igreja como meios irracionais para o advento da racionalidade. ou pela máxima parte imortais. Spinoza dedica ao problema moral e à sua solução os livros III. Spinoza esclarece precisamente e particularmente a escravidão do homem sujeito às paixões. não é constituído pela relação de adequação entre a mente e a coisa. não basta o pacto apenas: precisa o homem do arrimo da força para sustentar-se. No V e último livro da Ethica. mas no sentido de que o homem é idêntico panteisticamente a Deus. o amor de Deus para consigo mesmo (por causa precisamente do panteísmo). dependem do temor e da esperança. A Moral Como é sabido. Este amor do homem para com Deus. e não moralisticamente. entretanto. então. é retribuído por Deus ao homem. causa da sua felicidade e poder. pelo que o homem considera as coisas finitas como absolutas e.que é. em uma luta de todos contra todos. auxiliando-se mutuamente. isto é. Visto que a felicidade depende da ciência. no sistema spinoziano. não é um amor como o que existe entre duas pessoas. ao passo que às almas e aos pensamentos dos homens vulgares. é destinado o quase total aniquilamento no sistema racional da substância divina. o sábio vive já na eternidade. os homens se encontravam em uma guerra perpétua. aí chegado. A imortalidade. ou eternas. neque detestari.em vista das penas ou dos prêmios temporais e eternos. que. que pertencem à substância divina. De sorte que imortais. O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e juntamente com o conhecimento racional. pelo qual prometem renunciar a toda violência. Elas. como que limitados ao conhecimento e à vida sensíveis. é claro que o conhecimento. O filósofo deve humanas actiones non ridere. A respeito da imortalidade da alma. são paixões irracionais. o amor dos homens para com Deus é idêntico ao amor de Deus para com os homens. a condição do sábio. Então a libertação das paixões dependerá do conhecimento racional. mas pela relação de adequação da mens do sujeito que conhece a mens do objeto conhecido. as figuras geométricas. do nosso livre-arbítrio.127 Visto o paralelismo psicofísico de Spinoza. considera as paixões teoricamente. servem para a tranquilidade do sábio e para o treinamento do homem vulgar. as superfícies. e as paixões podem ser tratadas com a mesma serena indiferença que as linhas. mesmo depois do pacto social. pois. é favorecida pela concepção universalmente determinista da realidade. do conhecimento racional intuitivo . Deus. isto é. este conhecimento racional não depende. As ações feitas . amará necessariamente a Deus. Chegado ao conhecimento e à vida racionais.o sábio. non lugere. Spinoza esclarece. serão as almas ou os pensamentos dos sábios. em Spinoza. no sentido de que tem conhecimento eterno do eterno. em especial. logo. É o próprio egoísmo que impede os homens a se unirem. em choque entre si e com ele. No livro III faz ele uma história natural das paixões. Tal atitude rigidamente científica. sed intelligere. IV e V da Ethica. os homens não cessam de ser. devemos dizer que é excluída naturalmente por Spinoza como sobrevivência pessoal porquanto pessoa e memória pertencem à imaginação. segundo Spinoza. em virtude da qual o mecanismo das paixões humanas é necessário como o mecanismo físicomatemático. assim se exprime Spinoza energicamente no proêmio ao II livro da Ethica. cientificamente. libertado da escravidão das paixões e da ignorância. por conseguinte. antes da organização política. a se acordarem entre si numa espécie de pacto social. o conhecimento das coisas em Deus . e sim da natureza particular de que somos dotados. De fato. Essa escravidão depende do erro do conhecimento sensível.ou não feitas . entretanto. A Política e a Religião Spinoza tratou particularmente do problema político e religioso no Tractatus theologico-politicus. que é. ameaçados ou prometidos pelo estado e pela igreja. não poderá ser entendida senão como a eternidade das idéias verdadeiras. Depois de nos ter oferecido um sistema do mecanismo das paixões no IV livro da Ethica. entretanto. mais ou . em definitivo.

estava destruída de maneira irrevogável. decairia no mandamento divino heterônomo. o direito. O conteúdo da religião positiva. que deveria derivar do conhecimento racional com a mesma necessidade pela qual a luz emana do sol. a supremacia política saiu das mãos da mãe da filosofia e da arte gregas. irracionais e. sobrevivendo apenas em seu orgulhoso discípulo. De Aristóteles à Renascença Quando Esparta bloqueou e derrotou Atenas em fins do século V a. Quando. logo. ainda que continuasse bárbaro depois de toda educação recebida de Aristóteles. Entretanto. O domínio da filosofia grega pelo macedônio Aristóteles refletia a sujeição política da Grécia pelos povos viris e mais jovens do norte. afinal.C. O próprio Alexandre. e o vigor e a independência da inteligência ateniense decaíram. quando lhes fosse cômodo e tivessem a força. E quando Felipe da Macedônia derrotou os atenienses em Queronéia em 388 a.quando mais racionais e. Então os componentes devem confiar a um poder central a força de que dispõem. do qual os súditos saíram. assim. as verdades racionais. simbolicamente. não é dominador supremo. Mas ele subestimara a inércia e a resistência da mentalidade oriental. pondo obstáculos ao desenvolvimento racional da sociedade. revelada. E de suas ruínas deverá surgir um estado mais conforme à razão. Por conseguinte. E. A morte de Alexandre (323 a. violariam. porquanto o direito sem a força não tem eficácia. segundo Spinoza. faltar-lhe-á também o direito. os súditos ..rebelarse-ão necessariamente contra ele. se o estado se mantivesse na violência e irracionalidade primitivas. o soberano podem fazer tudo o que querem: para isso têm o poder e. O outro grande instituto irracional a serviço da racionalidade é. O menino-imperador. Não passava de um sonho juvenil. a partir daqueles movimentados postos. é racional. Seu fim supremo é conhecer a Deus por meio da razão e agir de conformidade. Platão. porque o escopo dos dogmas é essencialmente prático a saber: induzir à submissão a Deus e ao amor ao próximo. e Alexandre tinha a esperança de que. pois o conhecimento filosófico de Deus decairia em uma revelação mítica. Faltando-lhe a força. e se acham eles ainda no estado de pura natureza. O desenvolvimento do comércio grego e a multiplicação dos postos de comercialização gregos por toda a Ásia Menor haviam proporcionado uma base econômica para a unificação daquela região como parte de um império helênico. Só então o estado e verdadeiramente constituído. A quantidade da Ásia mostrou-se demasiada para a qualidade da Grécia. porquanto não é o fim supremo do homem. nem se deveria procurar neles sentidos metafísicos arcanos. a ação racional. que representaria um sucedâneo da filosofia para o vulgo. Nem há quem possa opor-se a eles. nem mesmo o fato de a casa de Píndaro ter sido ostensivamente poupada conseguiu encobrir a realidade de que a independência ateniense. e Alexandre incendiou a grande cidade de Tebas por completo três anos depois. O estado. representaria sensivelmente. porém. supor que uma civilização tão imatura e instável quanto a da Grécia pudesse ser imposta a uma civilização incomensuravelmente mais dufundida e enraizada nas mais veneráveis tradições. a saber. tanto o pensamento grego como os produtos gregos fossem irradiar-se e conquistar o mundo.C. revelada. e o estado cairá fatalmente. de sorte que será a razão a norma suprema da vida humana. na hora de seu triunfo. no que se referia a governo e pensamento. de um modo apto para a mentalidade popular. em 399 a. na onda de seus exércitos vitoriosos. o governo. e por fim assombrou uma Grécia cética ao . sem mais. adotou o diadema e o manto de gala persas.. O papel do estado é auxiliar na consecução racional de Deus. quando encarnadas nos dogmas. dando-lhe a incumbência e o modo de proteger os direitos de cada um. Portanto. o estado. o que vale nos dogmas não seria a sua formulação exterior. a religião. a não ser uma força superior.C.128 menos. portanto. e a massa e a profundidade da cultura oriental. na unificação final de tudo e de todos em Deus. a religião positiva. foi conquistado pela alma do Oriente. filosóficas acerca de Deus e do homem. mas é a forma que seria absolutamente irracional. a alma de Atenas morreu com ele. portanto. Sócrates foi executado.) acelerou esse processo de decadência. havia aprendido a reverenciar a rica cultura da Grécia e sonhara em divulgar essa cultura pelo Oriente. tais verdades podem aproveitar ao bem desse último. o pacto. e sim o conteúdo moral. introduziu na Europa a idéia oriental do divino direito dos reis.C. casou-se (dentre várias damas) com a filha de Dario. Spinoza deduz do estado naturalista o estado racional. mais poderosos do que ele .

Epicuro. Não que essas antíteses naturais da teoria ética fossem de todo novas para a Grécia. No fim.C. "Não devemos evitar os prazeres. à qual. a paz do espírito. a apatia. deve ser desdenhada.. tinha sido destinado a bater nele por causa dela. que ele mesmo cultivava. e até Lucrécio difundia estoicamente o epicurismo (como instalou sua escola. ela estava no ponto para Zenon e Epicuro. Crisipo." Epicuro..a apática aceitação da derrota e o esforço para esquecer a derrota nos braços do prazer . Mas quando a Grécia havia visto Queronéia em sangue e Tebas em cinzas. Tanto o estoicismo como o epicurismo . que não acreditava na escravidão. ele tinha sido destinado. Afirmava que nada havia de mais nobre do que uma pessoa dedicar-se à filosofia". no século XIX. propõe que se procure não o prazer no seu sentido usual. mais do que os dos sentidos. Demócrito. os diques rompidos deixaram o oceano do pensamento ocidental inundar as terras baixas da ainda adolescente mente européia. em sua maioria. encontraram essas escolas rivais dividindo o campo filosófico.embora não necessariamente o prazer sensual . ele exalta os prazeres do intelecto. Os romanos. previne contra os prazeres que excitem e disturbem a alma. Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior. aos quais ensinava enquanto andava e trabalhava. a cometer aquela falta.é a única finalidade concebível.C. num magnífico estilo oriental. e. deveriam acalmar e tranqülizar. mesmo naquela época tratava-se de modos quase exóticos de pensamento: a Atenas imperial não aderiu a eles. da vida e da atividade.. disse o estóico romano Sêneca (m. por toda a aternidade. que ele era um deus. e a outra. Por isso. não é epicurista. "A natureza faz com que cada organismo prefira o seu próprio bem a qualquer outro". quando foram saquear Heléia em 146 a. mesmo que você possua o mundo. 65 d. ao contrário. ainda irá sentirse infeliz". e que o prazer . Os grandes organizadores. ou em Epíteto.. "comprou um belo jardim. mas selecioná-los. sem terem tempo nem sutileza para especulações. e vemos os discípulos de Sócrates dividindo-se em cínicos e cirenaicos sob a chefia de Antístenes e Aristipo e exaltando. No entanto. foi apenas uma das inúmeras infiltrações orientais. estava batendo num escravo seu por causa de algum delito. da escola de Zenon.). e o espírito oriental de apatia e resignação encontrou um solo pronto na Grécia decadente e abatida. e ali vivia uma vida tranqüila e agradável com seus discípulos. mas a ataraxia . que a apatia é impossível.) Era delicado e afável para com todos os homens. Um princípio desses bradava aos céus pelo seu oposto. embora subjugado ou escravizado. de acordo com a mesma filosofia. achou difícil distinguir do fatalismo oriental. levaram de volta para Roma essas filosofias. tendem a estados de espírito estóicos: é difícil ser senhor ou servo se a pessoa for sensível. Nós a encontramos no sombrio Heráclito e no "filósofo que ri". ele. que.). juntamente com outros produtos do seu saque.eram teorias sobre como o indivíduo ainda poderia ser feliz. uma escola. pelo mercador fenício Zenon (cerca de 310 a. o escravo. A introdução da filosofia estóica em Atenas.. Zenon. Se a vitória for inteiramente impossível. até mesmo o estóico sente um prazer sutil na renúncia. diz Fenelon. com a calma de um sábio. pelas mesmas linhas de comunicação que o jovem conquistador havia aberto. A Grécia caiu na gargalhada. Essa sultil infusão de uma alma asiática no corpo fatigado do senhor dos gregos foi seguida rapidamente da abundante entrada de cultos e fés orientais na Grécia. As crenças místicas e supersticiosas que haviam adquirido raízes entre os povos mais pobres de Hélade foram reforçadas e divulgadas. seja em Marco Aurélio. tanto quanto os escravos inevitáveis. equanimidade. segundo a filosofia de seu senhor. os estóicos alegavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com uma vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. Quando Zenon. e Epicuro. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos. o imperador. e perfeitamente legítima. embora tão estóico em vida quanto Zenon. Foi lá que "Se o que você possui lhe parece insuficiente.tranqülidade. os símbolos de uma Revolução despedaçada e uma França quebrada. a felicidade. e Alexandre bebeu até morrer. forneceu-o. a filosofia que Roma adotava era. então.C. o escravo alegou como atenuante que. precisamente como o pessimista estoicismo oriental de Schopenhauer e o desalentado epicurismo de Renan foram. todos os quais oscilam à beira da "apatia" de Zenon. Seu ponto de partida é uma convicção de . ao que Zenon replicou. e quando a glória havia partido de Atenas.129 anunciar. então. Assim como Schopenhauer achava inútil a vontade individual lutar contra a vontade universal. passou a ouvir Diógenes. mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações.(.

Nada existe a não ser átomos.. é tão deprimente quanto as Dissertações do escravo. Ao crescente culto do céu e do inferno entre o povo de Roma. como os indivíduos. À evolução e à dissolução astronômicas. Vejo os sóis. como aquelas também tu Irás. cresem com o seu crescimento. Englobados por átomos. Fragmento se agarra a fragmento.) Mais e mais monstros (. outros sem bocas. e assim viverá com prosperidade. toda a velha alegria pagã de viver desapareceu. exceto deuses cavalheirescos.. com tuas estrelas.. com toda certeza. aconteçam segundo a sua preferência. e que não existem deuses. imaginem o inebriante otimismo de estóicos declarados como Aurélio ou Epíteto. E onde estão. (. Nada perdura.. porque a natureza proibiu o aumento do número deles. "Não procure fazer com que as coisas o universo. acompanha Epicuro em condenar o prazer ao elogiá-lo sem entusiasmo. caindo devagar ou depressa. morrem: "algumas nações prosperam. e em pouco tempo as raças das coisas vivas são alteradas e.) e muitas raças de coisas vivas devem ter se extinguido..teus impérios.) alguns sem pés. nem ser unidos em casamento. nunca foi tão brincalhona como quando deu a esse abstêmio e épico pessimista o nome de epicurista. por sua vez. ó Terra . outras decaem. vejo os sistemas erguerem Suas formas. Teus mares.) desse tipo a Terra tentou produzir." Não há dúvida de que é possível assim. mas prefira que elas aconteçam como têm de acontecer. Cortar com suas alvas foices outras baías. que nada é a não ser humorista.) Aqueles aos quais a natureza não concedeu nenhuma dessas qualidades ficavam expostos para servirem de vítima e presa de outros. divertindo-se melancolicamente). e concluiu sua vigorosa pregação do prazer cometendo suicídio. nem procurar comida. a coragem ou a velocidade vêm desde o início protegendo e preservando cada raça. (. Alma e mente desenvolvem-se com o corpo. até que a natureza extinguisse a sua espécia. Segundo consta o senhor de Epíteto. eles não podiam alcançar a cobiçada flor da idade. Diante da guerra e da morte inevitável. ele viveu em meio a torverlinhos e alarmes. como corredores. a menos que se trate das Meditações do imperador. Aos poucos Elas se dissolvem e já não são mais as coisas que conhecemos. não há sabedoria a não ser a ataraxia ."encarar todas as coisas com serenidade de espírito". Sua nobre epopéia. de todas as galáxias. que vivem em um jardim de Epicuro nas nuvens e nunca se intrometem nos negócios dos homens. mas todas as coisas fluem. A história. ficado impossibilitadas de procriar e continuar e continuar a linhagem. como aquelas. certo dia Muitos monstros também a Terra de antigamente tentou produzir. a cada hora. Porque no caso de todas as coisas que vós vedes respirando o sopro da vida. sua pena nervosa está eternamente compondo orações à tranqülidade e à paz. Estás indo. outros mais sem olhos. Desaparecem. Até que ficamos conhecendo-as e lhes damos nomes. Sobre a Natureza das Coisas. Tu também. aquelas areias lunares abandonam seu lugar.. passam adiante a lâmpada da vida". mas em vão. acrescentem a origem e a eliminação das espécies. ele opõe um materialismo implacável. (. e a lei das leis é a da evolução e da dissolução em toda parte Coisa alguma perdura. a astúcia. E se for esse o espírito do adepto de Epicuro. e até os sistemas e seus sóis Irão voltar lentamente à eterna deriva. terras e mares A menor.. (. que o tratava com uma crueldade inalterável. coisas de estranhas caras e membros. e morrem com a sua morte. em suave neblina. Também as nações. porque ele nunca se cansa de dizer a seus leitores que não existe inferno. Quase contemporâneo de César e Pompéia. alguns sem mãos.. Aqui.. as coisas crescem assim. evidentemente. espaço e lei. Nós o imaginamos como uma alma tímida cuja juventude havia sido obscurecida por temores religiosos. Englobada da deriva como aquelas. Nada. e um espírito quase exótico toca uma lira quebrada. crescem lentamente e. em toda a literatura. exceto aqui. outros mares irão. sofrem com seus sofrimentos.130 o inglês de Heine. ditar o futuro e fingir que dominamos ..

Dessas Dissertações e das Meditações de Aurélio há apenas um passo para A Imitação de Cristo. ela uniu. ano após ano. mas não a sabedoria." O senhor continuou. a fronteira. há uma certa nobilidade mística nessa filosofia. os bens se multiplicaram. a maior parte dos povos de um continente. Bravos navegantes. No século XIII. na riqueza e no raio de influência. Seja qual for a causa. O papel. o ambiente histórico derretia-se para formar cenas mais novas. fragmentos da doutrina estóica flutuando na corrente do pensamento? Em Epíteto. 'perdi isso assim. A Igreja. mosteiros e retiros escondidos. admiráveis pela delicadeza do fio e do trabalho. e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro. "vai quebrar a minha perna. a riqueza de Roma transformou-se em pobreza. por via indireta. As Cruzadas abriram os caminhos para o Oriente e permitiram a entrada de uma torrente de artigos de luxo e heresias que condenaram à morte e ascetismo e o dogma. Tua mulher morreu? Foi restituída. a cultura pagã cedeu aos cultos orientais. o dogma. trabalham segundo a substância desta e por ela 131 mais tarde. antes ou depois. em universidades. a transformação de Aristóteles em um teólogo medieval. "Eu não lhe disse". de fato. a alma greco-romana perdeu o seu paganismo e está pronta para uma nova fé. observadores pacientes. uma fé comum exaltada por sanções sobrenaturais acima das mudanças e das corrosões do tempo. decidiu torcer-lhe a perna para passar o tempo. Era dentro dessa concha que a filosofia escolástica se deslocava acanhadamente entre fé e razão e vice-versa. 1294). teve um aumento rápido no número de adeptos. homens deixaram de disputar e começaram a investigar. Seu livro teve a distinção de ser adotado como manual religioso pela primitiva Igrja Cristã. o poder e o orgulho em decadência e apatia. chegava barato do Egito. No século XIII. o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem. com a magia de uma crença invariável. num desconcertante circuito de pressupostos não criticados e conclusões pré-ordenadas. armados agora de bússolas. "Nunca diga. portanto. e a perna se quebrou. O resultado foi a sutileza. armados de telescópios. já possuía um terço do solo da Europa. Durante mil anos. O despertar começou com Roger Bacon (m. Mas essa unidade exigia. as pequenas famílias dos romanos de instrução eram ultrapassadas. da astrologia. quase que imperceptivelmente. mas se trabalharem consigo mesmo." Mais cedo ou . Cidades voltaram a fundir-se com o interior sem distinção. estourou como um explosivo libertado e espalhou sua influência destruidora e esclarecedora por toda parte. observou Epíteto mansamente. definitivo e definido. uma organização tão difundida e tão pacífica. a alquimia foi transformada em química. e das fábulas dos animais que falavam veio a ciência da zoologia. os homens foram tateando com tímida ousadia para a astronomia. agora. Depois de mil anos de cultivo. Tua filha morreu? Foi restituída. "Se continuar". e sim. o império se transformou em papado. "que o senhor iria quebrar minha perna?" No entanto. como pensava a Igreja.modo. e. toda a cristandade ficou assustada e estimulada por traduções árabes e judaicas de Aristóteles. Perdeste os teus bens? Também não foram restituídos?" Em trechos assim. como disse Bacon. como na tranqülia coragem de um pacifista dostoievskiano. Aqui e ali. e seus cofres estavam inchados com donativos de ricos e pobres. a organização em desintegração. de qualquer sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires. mas sem substância ou proveito. aventuraram-se para além dos confins do dogma e conquistaram a ignorância do homem quanto ao céu. o solo voltou a florescer. e o comércio em suas encruzilhadas voltou a construir grandes cidades nas quais os homens podiam cooperar para estimular a cultura e reconstruir a civilização. não eram a ética cristã da abnegação. 'eu restituí tal coisa'. pelos vigorosos alemães sem instrução que cruzavam. mas o poder da Igreja ainda era suficiente para garantir. em número. aumentou ficarão limitados. "se trabalharem com a matéria. assim'. o intelecto da Europa iria irromper de dentro dessa concha. serão intermináveis e produzirão realmente teias de saber. disse Epíteto com calma. foi colocado como uma concha sobre a mentalidade adolescente da Europa medieval. a imprensa. Há um notável trecho em Lucrécio que descreve a decadência da agricultura no Estado romano e a atribui à exaustão do solo. substituindo o caro pergaminho que tornara o saber um monopólio dos sacerdotes. aventuraram-se na imensidão dos mares e conquistaram a ignorância do homem a respeito da Terra. Enquanto isso. que durante muito tempo esperava por um meio barato. graças aos esforços no sentido de transformar metais inferiores em ouro. as estradas ficaram sem manutenção e já não ecoavam a agitação do comércio. através de Tomás de Aquino e outros. apoiada nos primeiros séculos pelos imperadores cujos poderes ela absorveu aos poucos. "A inteligência e a mentalidade do homem". nunca houve. criando excedentes que levaram ao comércio.

Mesland. simples criatura ultrapassada por seu criador (concebo Deus porque descubro em mim a marca de sua infinitude. sua física (dada. 1. navegarem à volta do mundo inteiro. e de Harvey (1578-1657) sobre a circulação do sangue. É certo que. "O fato de pequenos navios. como os corpos celestes. A transcendência do criador afasta qualquer panteísmo. Isto consiste. diminuía o medo. situada além de todas as razões. Deus propõe e o homem. para Descartes. Acrescentemos que. inteiramente entregue à sua exploração. À medida que aumentava o conhecimento. Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos de um triângulo seja igual a dois ângulos retos. sou eu que peco. Descartes fala da liberdade esclarecida. barreiras foram derrubadas. juntamente com Fermat. dessa liberdade que não pode tratar da verdade ou do bem. Toda finalidade desaparece e a natureza é reduzida a um mecanicismo inteiramente transparente para a linguagem matemática. A natureza nada tem de divino. pode dizer sim ou não às ordens de Deus. Deus Foi "inteiramente indiferente ao criar as coisas que criou". O homem. a) A natureza. recebo. a Ciência e o Livre-arbítrio Para Descartes. Meu livre-arbítrio me faz merecedor ou culpado. mais como uma possibilidade . René Descartes Deus. alcançou sua plenitude na astronomia de Copérnico (14731543) e Galileu (1564-1642). Deus não é o culpado dos meus erros nem dos meus pecados. 2. Todo dinamismo pertence ao criador. O homem é livre. não havia limites. por intermédio de seu livre-arbítrio. Esta época pode usar. ao mesmo tempo. É importante compreender que essa transcendência radical de Deus possui duas conseqüências fundamentais. e mais em dominá-lo. não possui dinamismo próprio. Todo espírito vital foi estimulado por uma nova confiança. Desse modo. em virtude da vontade do criador. As leis da natureza só são o que são a cada momento. Sou eu que me engano. O livre-arbítrio humano e a independência da ciência. esperança e vigor. Foi Francis Bacon. agora. de Vesálio (1514-1564) em anatomia. o Deus criador transcende radicalmente a natureza. Deus criou o mundo instante por instante (é a "criação contínua"). Se sua ótica e suas considerações sobre a expressão algébrica das curvas (ele é. uma alma sintética para resumir o seu espírito e decidir. "a mais poderosa inteligência dos tempos modernos. criou as verdades. o poder de recusar a Verdade e o Bem até mesmo na presença da evidência que se manifesta. situado no mesmo plano da inteligência humana. nas pesquisas de Gilbert (1544-1603) sobre magnetismo e eletricidade. o inventor da geometria analítica) constituem incontestável contribuição científica. assim. já o vimos. Descartes afirma radicalmente o livre-arbítrio. por conseguinte. Esses textos esclarecem a teoria do juízo presente na Quarta meditação. O tempo é descontínuo e a natureza não tem nenhum poder próprio. segundo Descartes. Em virtude do poder de seu livre-arbítrio. O entendimento concebe a verdade e é a vontade que dá as costas a ou afirma essa verdade. é a felicidade da nossa era. Na medida em que a natureza é despojada de toda profundidade metafísica. para o que o homem poderia fazer. na rejeição de todo naturalismo pagão (a natureza não é uma deusa) e na fundamentação metafísica do racionalismo científico. de novos começos e empreendimentos em todos os campos. dispõe. a transcendência de Deus vai tornar possível uma ciência puramente racional e mecanicista da natureza. era uma era que esperava por uma voz. mas não o compreendo). Descartes pode eliminar as noções aristotélicas e medievais de forma. alma. os homens pensavam menos em adorar o desconhecido." Foi uma era de realizações. ato e potência. na Quarta Meditação. com toda justiça. uma autonomia que será perdida no sistema panteísta de Spinoza. plus ultra" (mais além) "onde os antigos usavam non plus ultra. que tocou a sineta que reuniu as inteligências" e anunciou que a Europa havia atingido a maioridade. e. Não se submeteu a nenhuma verdade prévia.°  Do mesmo modo.132 com o ilimitado Leonardo (1452-1519). Mas nos Princípios e sobretudo nas cartas ao Pe. é um objeto criado. b) Nem tudo tem o mesmo valor na obra científica de Descartes.°  O homem não é uma parte de Deus. de 2 de maio de 1644 e 9 de fevereiro de 1645. dessa liberdade que é antes um estado de libertação do que uma decisão pura. aliás.

então. para Descartes. enquanto espírito. Quando Descartes declara que os animais são máquinas. exceto essa livre disposição de suas vontades. na realidade. nessa técnica. epicuristas e cristãs estão presentes nela. a medicina desempenha importante papel. Descartes adota uma moral provisória  pois a ação não pode esperar que a filosofia cartesiana engendre uma nova moral! Recordemos seus três preceitos: a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país.133 racional do que como a verdade certa) não passa de um romance.°  No Discurso dobre o Método. e em parte no sentimento de uma firme e constante resolução de bem usá-la. O bom funcionamento do corpo. isto é. o ponto de aplicação da alma ao corpo é a glândula pineal. que é possível explicar as funções fisiológicas por intermédio de mecanismos semelhantes àqueles que fazem mover os autômatos que vemos "nos jardins de nossos reis". antes de ser uma filosofia da inteligência. a afetividade em sentido amplo. antes de tudo. na consciência de que nada lhe pertence verdadeiramente. Mas. As coisas se determinam reciprocamente (leis do choque). como uma técnica de felicidade e. isto é. puramente vivido e ininteligível.°  É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade perfeita. ele coloca. O detalhe das explicações não passa de um sonho. Na plano das idéias claras e distintas. 2. somos obrigados a levar em conta as paixões. E Ele. acha que devemos antes dominá-las do que desenvolvê-las. A moral surge aqui como uma aplicação direta ao mecanicismo cartesiano. (Para Descartes. a epífise. Primeiramente. isto é. o mundo físico não possui mistérios. consiste. essa complexidade reflete a própria complexidade da condição humana. O Programa Cartesiano "De acordo com o prefácio dos Princípios" Gostaria de explicar aqui a ordem que. em princípio. Na medida em que Descartes considera o homem no que ele tem de essencial. "A verdadeira generosidade que faz com que um homem se estime. as ligações harmoniosas entre os espíritos animais e os pensamentos humanos são altamente desejáveis. Após isso. Influências estóicas. no ponto máximo em que ele pode legitimamente estimar-se. em parte.) Mas isso não esclarece a união da alma e do corpo. E no entanto. Descartes separa claramente as duas substâncias. tudo o que o corpo determina na alma. Paixão é. sua moral assume aspectos diferentes: a) Consideremos o homem enquanto espírito. b) Se considerarmos o homem enquanto espírito unido a um corpo. o homem que ainda só possui conhecimento vulgar e imperfeito.. não a da Escola  pois ela nada mais é do que uma dialética que ensina os meios para fazer .. por contato direto. ou quando se ocupa do composto humano. Isso porque ele se coloca do ponto de vista da felicidade. b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do mundo e vencer-se a si próprio do que à fortuna. encarregar-se de formar uma moral que seja suficiente para ordenar as ações da vida. à semelhança do viajante perdido na floresta que. que nada tem de asceta. Mas o espírito dessa física e da fisiologia cartesiana  que não passa de um capítulo da física  nada mais é do que o espírito do mecanicismo. de nunca lhe faltar vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar melhores. enquanto liberdade: o valor supremo é a generosidade. é uma filosofia da vontade). saber decidir-se mesmo na ausência de toda evidência. num espaço em que não existe o vazio. porque isso não deve ser adiado e porque devemos sobretudo procurar viver bem. ao invés de ficar fazendo voltas. A moral surge. adota uma direção qualquer e nela se mantém! (O cartesianismo. o pensamento está preso a esse fragmento de extensão. Para Descartes. a do corpo é ser um objeto no espaço. O Problema do Homem: a Moral 1. Mas a direção tomada é a ciência moderna. que é um fato de experiência. A alma age sobre o corpo e este age sobre ela. alma e corpo: a essência da alma é pensar. deve. parece-me. também deve estudar lógica. o que é seguir a virtude perfeitamente". c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações. devemos seguir para que nos instruamos.

Pela Dióptrica. Depois. que pressupõe inteiro conhecimento das outras ciências. assim a principal utilidade da filosofia depende das utilidades de suas partes. desse modo. quando me pareceu que esses tratados procedentes haviam preparado bem o espírito dos leitores para receber os Princípios da Filosofia. procurei fazer com que se reconhecesse a diferença existente entre a filosofia que eu cultivo e aquela ensinada nas escolas em que se tem o hábito de tratar da mesma matéria. da água. após ter encontrado os verdadeiros princípios das coisas materiais. As outras partes foram três tratados: um da Dióptrica. é preciso ler antes as Meditações que escrevi sobre o mesmo assunto. dividi o livro em quatro partes. que eu aí explico. procurei explicar seus pontos principais num livro de Meditações que não é grande. Ora. sem ter admitido nenhuma das coisas que devem preceder as últimas sobre as quais escrevi. o zelo que sempre tive no sentido de prestar algum serviço ao público levou-me a publicar. desse modo. fazer acreditar que ainda podemos. nesse campo. Eis por que. A segunda é a física. Mas. qual a natureza da terra e de todos os corpos que se encontram mais comumente em torno dela como o ar. depois. os cometas e o universo em geral são compostos. das quais a primeira contém os princípios do conhecimento e que podemos denominar filosofia primeira ou metafísica. Após o que também é necessário examinar em particular a natureza das plantas. do homem.Bacon Francis Bacon . é bom que ele se exercite. a mecânica e a moral. as estrelas fixas. assim como não é das raízes nem do tronco que colhemos os frutos. os planetas. dessa forma. enquanto ainda não se estabelece algo de melhor. a fim de que se seja capaz de. sem julgamento. prevendo a dificuldade que muitos teriam para conceber os fundamentos da metafísica. sobretudo. da imaterialidade de nossas almas e de todas as noções claras e simples que estão em nós. a saber: a medicina. Desse modo. mas da extremidade dos ramos. pela Geometria. a fim de bem compreendê-la. As outras três partes contêm tudo o que há de mais geral na física. o peso e semelhantes. pretendi mostrar que se pode avançar bastante em filosofia para se chegar. ele deve começar a aplicar-se à verdadeira filosofia cuja primeira parte é a metafísica. há uns dez ou doze anos. na prática de regras pernitentes a questões fáceis e simples como as da matemática. examinamos em geral como o universo é composto. embora eu as ignore quase todas. outro dos Meteoros e o último da Geometria. sobre as que não se sabe. é uma das mais difíceis das que já foram procuradas. alguns ensaios sobre as coisas que me parecera ter aprendido. mas cujo volume foi aumentado e cuja matéria foi muito clarificada pelas objeções que várias pessoas muito doutas me enviaram sobre o assunto e pelas respostas que lhes dei. do ar. Finalmente. incitando. o calor. o ímã e outros minerais. A primeira parte desses ensaios foi um discurso sobre o método de bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. O Empirismo . a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica.134 entender a outrem as coisas que já se sabe ou então de emitir opiniões. quando já tiver adquirido o hábito de encontrar a verdade nessas questões. dos animais e. que se reduzem a três principais. depois. penso ter começado a explicar toda a filosofia ordenadamente. as quais só podemos aprender por último. na qual apresentei sumariamente as principais regras da lógica e de uma moral imperfeita que pode ser seguida provisoriamente. a saber. na qual. encontrar as outras ciências que lhe são úteis. entre as quais está a explicação dos principais atributos de Deus. Pelos Meteoros. a explicação das primeiras leis ou princípios da natureza e a maneira pela qual os céus. o fogo. depois. eu acho que a mais elevada e mais perfeita moral. pretendi demonstrar que eu descobrira várias coisas ignoradas até então e. E porque ela depende muito do uso. ao conhecimento das artes que são úteis à vida e porque a invenção das lunetas de aproximação. a natureza desta terra. em particular. que contém os princípios do conhecimento. por muito tempo. eu os publiquei então. é o último grau da sabedoria. todos os homens a procurarem a verdade. por meio disso. descobrir várias outras. Depois disso. do fogo e do ímã  que são os corpos que podemos encontrar mais comumente em torno dela  e de todas as qualidades que observamos nesses corpos como o são a luz. por seu intermédio. Finalmente. em particular. a água. ela antes corrompe o bom-senso do que o desenvolve  mas aquela que ensina a bem conduzir a razão na descoberta de verdades que se ignora. o tronco a física e os ramos que daí saem todas as outras ciências.

"A fama do pai". Porque.. "Dedicar-se em demasia aos estudos é indolência. Os Ensaios Sua ascensão parecia tornar realidade os sonhos de Platão de um rei-filósofo. críticas e metodológicas. usá-los em demasia como ornamento é afetação.isto é.) Os homens astutos condenam os estudos. segundo o espírito positivo e prático da mentalidade anglo-saxônia. II . lorde Burghley. a consciência crítica do empirismo.. passo a passo com a sua subida para o poder político.o mundo transcendente e cristão. fazer julgamentos seguindo inteiramente suas regras é o capricho de um scholar. embora desconfiasse de que essa dupla direção de sua vida fosse encurtar o seu alcance e reduzir suas realizações. que nos primeiros vinte anos do reinado de Elizabeth tinha sido o Guardião do Sinete. acontece em Bacon o que aconteceu a muitos pensadores da Renascença. e não tinha dificuldade em se corresponder em grego com bispos. e o que acontecerá a muitos outros pensadores do empirismo e do racionalismo: isto é. Mas sir Nicholas não era um homem comum. subindo até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613. É quase inacreditável que o imenso saber e as realizações literárias desse homem fossem apenas os incidentes e as digressões de uma turbulenta carreira política. Sua esperança era de ser filósofo e estadista. Bacon estivera escalando os píncaros da filosofia. retirouse para as suas terras. O pai dela tinha sido o tutor-chefe do rei Eduardo VI. membro do Conselho particular em 1616. Começou a sua carreira de homem político e jurista. Faleceu em 1626. tanto mais quanto esta é menos elaborada. Londres. A obra principal de Bacon é a Instauratio magna scientiarum.bene vixit qui bene latuit.135 O iniciador do empirismo é Francis Bacon.mais ou menos logicamente . antes. residência de seu pai sir Nicholas Bacon. escreve ele. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre se gostava mais da vida contemplativa ou da ativa. Perdoado pelo rei. vasta síntese que deveria ter compreendido seis grandes partes. Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços para que ele tivesse instrução. que foi tesoureiro-mor de Elizabeth e um dos homens mais poderosos da Inglaterra. grega e escolástica. ela mesma era lingüista e teóloga. aristotélica e tomista. o . convencido da sua missão de cientista. As duas partes acabadas são precisamente: I . Entretanto. Bacon freqüentou a Universidade de Cambridge. e mais ainda pelo conteúdo. Bacon continua afirmando . deixando sobre o resto esboços e fragmentos. e "se a mistura de contemplações com uma vida ativa ou o retiro inteiramente dedicado a contemplações é o que mais incapacita ou prejudica a ment. "É difícil dizer". Vida e Obras Francis Bacon nasceu no dia 22 de janeiro de 1561 na York House. Ademais." Achava que os estudos não podiam ser um fim ou a sabedoria por si sós. da nova filosofia. cunhada de sir William Cecil. Albano. continua a considerar a filosofia como esclarecedora da essência da realidade. também. Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de Verulamo e Visconde de S. depois. Era seu lema que se vivia melhor na vida oculta . (. Teve uma inteligência muito esclarecida. Mas terminou apenas duas. antes sob a rainha Isabel. "foi ofuscada pela do filh". e.Novum organum scientiarum. das formas. Como se vê pelos títulos. e viveu também em Paris." Eis uma nova nota que marca o fim da escolástica . chanceler do reino em 1618. sob Jaime I.De dignitate et argumentis scientiarum. trata-se de pesquisas gnosiológicas. a metafísica tradicional persiste neles todos histórica e praticamente ao lado da nova filosofia. que o transcendente e a razão acabam por desaparecer na sombra. e que o conhecimento não aplicado em ação era uma pálida vaidade acadêmica. e os homens sábios se utilizam deles. que foram aos poucos conquistando os seus sucessores e discípulos até Hume. acabada e consciente de si mesma. que deveria dar ao homem o domínio da realidade. sustentáculo e causa dos fenômenos sensíveis. para lançar as bases lógicas da nova ciência. Entretanto foi acusado de concussão e condenado pelo Parlamento a uma multa avultuada. obtida graças à observação. os homens simples os admiram. dedicando-se inteiramente aos estudos. É uma posição filosófica que apela para a metafísica tradicional. diz Maucaulay. Enalteceu ele a experiência e o método dedutivo de tal modo. como Sêneca. Falta-lhe." A mãe de Bacon foi lady Anne Cooke. no entanto.

Bacon abomina os recheios e detesta desperdiçar uma palavra. que é namorá-la ou cortejá-la. deixado de amar os livros e a meditação. e mais aptos para novos projetos do que para atividades já estabelecidas. agitam mais do que podem acalmar. Mas a sua riqueza no que se refere a metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a exuberância da Renascença. Não há dúvida de que os Ensaios devem ser incluídos entre os poucos livros que merecem ser mastigados e digeridos. No ensaio "Da Juventude e da Idade" ele condensa um livro em um parágrafo.) Os jovens.. A mente é o homem. o conhecimento da verdade. felicidade igual à possibilidade da mente do homem elevar-se acima da confusão das coisas de onde ele possa ter uma atenção especial para com a ordem da natureza e o erro dos homens? De contentamento e não de benefício? Será que não devemos perceber tanto a riqueza do armazém da natureza quanto a beleza de sua loja? Será estéril a verdade? Não poderemos. porque ali se acha uma linguagem de tão alta qualidade na prosa quanto é a de Shakespeare em verso. arrependem-se cedo demais e raramente "A indagação da verdade. em palavras que lembram Sócrates. a destilada sutileza de uma mente de mestre sobre um importante aspecto da vida. e alguns poucos para serem mastigados e digeridos"." Nos livros. ele dá todos os graus de honra a realizações políticas e militares. em como)" inovar. nenhum a literárias e filosóficas. é tão fértil em comparações significativas e substanciosas. e a crença na verdade. mas em coisas novas. que é o elogio a ela. cada um desses ensaios fornece. Existirá. se a matéria ou o estilo. (. apenas. mas tomados quatro ou cinco de cada vez. os Ensaios (1597-1623). (. constituem o melhor alimento intelectual.) Os homens maduros fazem objeções demais. No Ensaio sobre a Honra e a Reputação. Não que Bacon tivesse. e levado por algum destino. ele nos oferece uma infinita riqueza numa pequena frase. É um estilo como o do vigoroso Tácito. nenhum homem. o que provoca transtornos desconhecidos. arriscam-se muito pouco. como na ação conversamos com tolos". "a vida ativa".e coloca aquela ênfase na experiência e nos resultados que distingue a filosofia inglesa. e descreve a si mesmo como. "um homem naturalmente mais propenso à literatura do que a qualquer outra coisa. os maltrata. mostram-no ainda indeciso entre dois amores. produzir efeitos dignos e dotar a vida do homem com uma infinidade de coisas úteis?" Sua mais bela produção literária. a política e a filosofia. e não são os prazeres do intelecto maiores do que os prazeres das afeições? Não se trata. Isto é. A excessiva sucessão dessas comparações constitui o único defeito do estilo de Bacon: as intermináveis metáforas. outros para serem engolidos. não quero viver".. (. voam para o fim sem consideração para com os meios e os graus. em uma ou duas páginas. então. não se importam em "(isto é. através dela. afinal de contas.. e o conhecimento é a mente. se soubermos escolher os nossos livros. um homem é apenas aquilo que ele sabe.. abraçam mais do que podem segurar. mais aptos para a execução do que para o assessoramento. que é gozá-la.. aptos para inventar do que para julgar.. Os Ensaios são como um alimento rico e pesado. "Certos livros são para serem provados". Raramente se encontrará uma refeição tão substanciosa. e na verdade uma parte de sua concisão se deve a uma habilidosa adaptação do idioma e do frasear latinos. todos esses grupos formam. perseguem absurdamente alguns princípios com que toparam por acaso. uma porção infinitesimal dos oceanos e cataratas de tinta nos quais o mundo é diariamente banhado. são as nuvens do erro que se transformam nas tempestades das perturbações. essas avaliações desproporcionadas. demoram-se demais em consultas. Mas no ensaio Da Verdade. por um instante. Quase que a sua primeira publicação recebeu o título de O Elogio do Conhecimento (1592). tão admiravelmente preparada e temperada. porque a experiência da idade em coisas que estejam ao alcance dessa idade os dirige.136 divórcio entre o conhecimento e o uso e a observação . que não pode ser digerido em grandes quantidades de uma só vez. em um prato tão pequeno. alegorias e alusões caem como chicotes sobre os nossos nervos e acabam por nos exaurir. o entusiasmo do trabalho pela filosofia nos obriga a uma citação. envenenado e afogado. É difícil dizer o que é mais excelente. "conversamos com os sábios. ele escreve: "sem filosofia. contra a inclinação de seu gênio" (isto é caráter). compacto mas refinado.) Não são os prazeres das afeições maiores do que os prazeres dos sentidos. são o bem soberano das naturezas humanas. ele escreve: . sem dúvida. na conduta e na administração dos atos. na literatura inglesa. "Os jovens são mais "Meu elogio será dedicado à própria mente. e culmina no pragmatismo. de um verdadeiro e natural prazer do qual não há saciedade? Não é só esse conhecimento que livra a mente de todas as perturbações? Quantas coisas existem que imaginamos não existirem? Quantas coisas estimamos e valorizamos mais do que são? Essas vãs imaginações.

Bacon não confia no povo. o debate." Tal como Aristóteles.escolha o melhor. "De modo geral.. é dividir seus inimigos e unir os amigos. (. e que não se concentrem demais no pensor dos filhos. e colocá-las longe uma das outras. Antonio Pio e Aurélio. perguntou o que tinha feito de errado. a opressão generalizada.." Bacon acha. que na sua época praticamente não tinha acesso à educação. Bacon quer um forte poder central. fantasia. tinha a esperança de que aos nomes deles a posteridade acrescentasse o seu. estranhas. "Deve haver três pontos essenciais nas atividades" do governo: "a preparação.. tão audazmente iniciado pela ciência e pela política da Renascença." Mas isso não significa socialismo ou. deveria ter constituído a summa philosophica dos tempos novos. é difícil dizer de onde virá a fagulha que irá atear-lhe fogo. baseada no respectivo predomínio das três faculdades que presidem à organização do saber: memória. "Que os pais escolhem cedo as vocações e os cursos que pretendem que seus filhos sigam.. com a classificação geral das disciplinas humanas. e lançado o fundamento do regnum hominis. (. claro. Começa-se." A sugestão de todos os líderes. os impostos. com o primeiro e o último ficando a cargo de uns poucos. a eficiência de um Estado varia com a concentração do poder. e acima de todos. ele será dono de todo esse ouro. porque muitas vezes o desprezo é a melhor forma de contê-los. apesar de tudo. é bom não contrariá-los. que só o do meio fique a cargo de muitos. as modificações de leis e costumes.. primeiro.. porque as virtudes de qualquer um deles poderão corrigir os defeitos dos dois.. mas se contentam com uma mediocridade de sucesso. soldados desmobilizados. ou pelo menos semear a desconfiança entre elas. e tudo aquilo que. "Quando não há exemplos de que um governo não tenha prosperado com governos cultos." Uma receita melhor para evitar as revoluções é uma distribuição eqüitativa da riqueza: "O dinheiro é como o esterco. portanto. e lamenta uma paz prolongada. uma aristocracia para a administração." O que Bacon quer é. levam o empreendimento até o fim. as privações.. O Pensamento: A "Instauratio Magna" A Instauratio magna scientiarum deveria ter precisamente representado a reforma do saber. e as providências para reprimi-los só fazem dar vida longa à especulação." A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em que aspira ao governo. ou exame. o cancelamento de privilégios. não é um dos piores remédios. reconhece a importância das matérias-primas: "Sólon disse a Creso (quando. "a mais baixa das lisonjas é a lisonja do homem do povo". faz com que ele se una em uma casa comum.) A substância da sedição é de dois tipos: muita pobreza e muito descontentamento.liberdade demasiada e. "O meio mais seguro de evitar sedições (. uma pequena burguesia de proprietários rurais." Ele cita Sêneca. deplora o crescimento da indústria por considerar que isso deixa os homens despreparados para a guerra. assim. pensando que estes irão dedicar-se melhor àquilo para que estejam mais inclinados." Ele é um militarista confesso.. "Se quiserdes presteza. se chegar qualquer outro que tenha melhor ferro do que vós. suave et facile illud faciet consuetudo" . mas em geral.). o hábito irá torná-lo agradável e fácil. ao ser aplaudido pela multidão. Não há dúvida de que é bom forçar o emprego de ambos (. e os que estão contra ele estão inteiros e unidos. da discussão) "com demasiada severidade deva ser o remédio para os problemas. crescer desordenadas e relaxadas.. por ostentação. democracia. que a juventude e a infância podem ter uma 137 . Porque "o hábito é o principal magistrado da vida do homem. depois. (. A monarquia é a melhor forma de governo. pois é nessa fase que eles são mais flexíveis..) é afastar a causa. mesmo.) contrárias ao Estado. Bacon dá alguns conselhos para se evitarem revoluções. porque é desesperador o caso em que aqueles que apóiam o governo estão cheios de discórdia e cisões. e a conclusão" (ou execução). por aplacar o guerreiro que existe no homem. e em geral. segundo o novo ideal humano e prático e imanentista. o progresso de pessoas indignas. é bom o preceito" dos pitagóricos: "Optimum lege. ao ofender um povo. porque se o combustível estiver preparado. é dividir e enfraquecer todas as facções (. e "Fócion compreendeu bem quando.. Apesar disso. um rei-filósofo. só é bom se for espalhado.) Tampouco se segue que a supressão dos rumores" (isto é. Creso lhe mostrou o seu ouro): "Senhor. Essa obra deveria ter abraçado a enciclopédia das ciências e compreendido também as técnicas. É verdade que se os pendores ou a aptidão dos filhos forem extraordinários.) As causas e motivos das sedições são as inovações na religião. facções desesperadas.

A filosofia natural ou física. da genuína interpretação da natureza para dominá-la. Na sua linguagem imaginosa Bacon chama as causas destes erros comuns. provenientes do comércio social ou da linguagem imperfeita. 3) tabelas de gradações. Têm-se. Esta não é a ontologia tradicional. Bacon põe uma ciência filosófica comum. mas a ciência dos princípios comuns às várias ciências.bem conhecida pela filosofia tradicional . Enfim registra o aumentar ou o diminuir do fenômeno em questão. o verdadeiro porquê). a princípio. quer no mesmo objeto. aí aumentará ou diminuirá também a sua causa e lei. a saber. e em ciência da sociedade humana (philosophia civilis). Mas. A primeira. desta maneira. antes de tudo.é determinada por Bacon. 4) Idola theatri. calor.e os divide em quatro grupos fundamentais. nos casos em que o fenômeno não se manifesta.Bacon recolhe. erros da praça. é mister conhecer as que Bacon chama de formas. as essências ou causas formais. Essa classificação é baseada não no objeto do conhecimento. se divide em física especial ("que procura a causa eficiente e material"). conhecimento racional de Deus. com base nos fenômenos presentes na primeira tabela. as formas são leis genéticas e organizadoras das naturezas. 3) Ciência ou filosofia. objeto da metafísica de Bacon. por um jogo cênico. A ciência do homem divide-se em ciência do homem individual (philosophia humanitatis). 2) tabelas de ausência.138 razão.). A primeira diz respeito ao homem todo. desconhecido dos predecessores.idola . não sendo fácil. 1) Idola tribus. e. Bacon reivindica. que deveria conter precisamente as regras para a construção da ciência da natureza. portanto. aí se encontrará também a sua causa e lei. divide-se em especulativa e operativa. aí faltará também a sua causa e lei. O "Novum Organum" Entretanto. Bacon passa a tratar da natureza positiva. o Novum organum. em que um determinado fenômeno aparece. objeto da física especial (luz. isto é. o que transcende a experiência do que a experiência. Pertencem pois à física operativa as artes mecânicas. pêso. do homem e da natureza. A causa (forma) dos fenômenos (naturezas) será procurada. e em metafísica ("que procura a causa final e a forma"). dos fenômenos às essências . a ciência do ser em geral. mas prescinde da revelação cristã e da religião positiva. fantasmas . esta passagem das naturezas às formas. ter-se . etc. o verdadeiro método da indução científica compreende uma parte negativa ou crítica. depois enumera os casos que mais se assemelham às primeiras. e sim no sujeito que conhece. em que. A parte negativa consiste. nas famosas tabulae baconianas. que substituem o mundo real por um mundo fantástico. construtiva. 2) Poesia. Para determinar de um modo certo as causas e as leis dos fenômenos . elaboração imaginativa desses dados. 1) História tanto civil quanto natural. e sim a ciência da natureza. e até o reconheceram como único procedimento inicial do conhecimento humano. antes de tudo. e nos casos onde o fenômeno aumenta ou diminui. os erros provenientes das escolas filosóficas. A teologia natural de Bacon não exclui. entretanto a eles interessavam muito mais as causas do que a experiência. o método indutivo. e uma parte positiva ou construtiva. causa e lei da ação e da ordem das naturezas. muito mais a metafísica do que a ciência. segundo um método preciso. Acima das ciências filosóficas particulares. porém. quer em objetos diferentes. denominando-a philosophia prima. Segundo Bacon. 2) Idola specus (por alusão à caverna de Platão) determinados pelas disposições subjetivas de cada um. É evidente que nos casos onde uma determinada natureza ou fenômeno aparecem. Aristóteles e Tomás de Aquino afirmaram claramente este método. o maior número possível de exemplos. o mesmo fenômeno não aparece. pois. quando procura a conquista da ciência verdadeira. para tanto. A segunda diz respeito à arte de governar e às relações sociais e aos negócios. três espécies de registros ou tabelas: 1) tabelas de presença. em alertar a mente contra os erros comuns. as formas das naturezas . os erroa da raça humana "fundamentados em a natureza como tal" (não se sabe. por sua vez.isto é. Desembaraçado o terreno destes erros. o que interessa mais a Bacon não é esta ciência dos princípios comuns. portanto. que registra (memória) os dados de fato. os princípios imanentes. espírito e matéria. Como é sabido. contra Aristóteles e a Escolástica. isto é. Esta pesquisa. 3) Idola fori. isto é. As naturezas são precisamente os fenômenos experimentais.

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tabelas completas e isolar as naturezas simples, e desta maneira pôr em evidência a causa, é mister estabelecê-la por hipótese, que será, em seguida, averiguada pelas experimentações. Essa gnosiologia, metodologia (empírica) é baseada em uma metafísica, uma física materialista e, mais precisamente, atomista, bastante semelhante à de Demócrito. O mundo material é constituído de corpúsculos, qualitativamente idênticos, diversos apenas por grandeza, forma e posição. Estes corpúsculos são animados por uma força, em virtude da qual se agrupam em determinados complexos, que constituem as formas baconianas. O Empirismo - Locke John Locke Sobre a linha do desenvolvimento do empirismo, Locke representa um progresso em confronto com os precedentes: no sentido de que a sua gnosiologia fenomenista-empirista não é dogmaticamente acompanhada de uma metafísica mais ou menos materialista. Limita-se a nos oferecer, filosoficamente, uma teoria do conhecimento, mesmo aceitando a metafísica tradicional, e do senso comum pelo que concerne a Deus, à alma, à moral e à religião. Com relação à religião natural, não muito diferente do deísmo abstrato da época; o poder político tem o direito de impor essa religião, porquanto é baseada na razão. Locke professa a tolerância e o respeito às religiões particulares, históricas, positivas. Locke viajou fora da Inglaterra, especialmente em França, onde ampliou o seu horizonte cultural, entrou em contato com movimentos filosóficos diversos, em especial com o racionalismo. Tornou-se mais consciente do seu empirismo, que procurou completar com elementos racionalistas (o que, entretanto, representa um desvio na linha do desenvolvimento do empirismo, procedente de Bacon até Hume). Vida e Obras

João Locke nasceu em Wrington, em 1632. Estudou na Universidade de Oxford filosofia, ciências naturais e medicina. Em 1665 foi enviado para Brandenburgo como secretário de legação. Passou, em seguida, ao serviço de Loed Ashley, futuro conde de Shaftesbury, a quem ficou fiel também nas desgraças políticas. Foi, portanto, para a França, onde conheceu as personalidades mais destacadas da cultura francesa do "grand siècle". Em 1683 refugiou-se na Holanda, aí participando no movimento político que levou ao trono da Inglaterra Guilherme de Orange. De volta à pátria, recusou o cargo de embaixador e dedicou-se inteiramente aos estudos filosóficos, morais, políticos. Passou seus últimos anos de vida no castelo de Oates (Essex), junto de Sir Francisco Masham. Faleceu em 1704. As suas obras filosóficas mais notáveis são: o Tratado do Governo Civil (1689); o Ensaio sobre o Intelecto Humano (1690); os Pensamentos sobre a Educação (1693). As dontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo escolástico, cujo centro famoso era Oxford; o empirismo inglês da época; o racionalismo cartesiano e a filosofia de Malebranche.
O Pensamento: A Gnosiologia Locke julga, como Bacon, que o fim da filosofia é prático. Entretanto - diversamente de Bacon, que julgava fim da filosofia o conhecimento da natureza para dominá-la (fim econômico) - Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente moral; quer dizer: a filosofia deve proporcionar uma norma racional para a vida do homem. E, como os seus predecessores empiristas, ele sente, antes de mais nada, a necessidade de instituir uma investigação sobre o conhecimento humano, elaborar uma gnosiologia, para achar um critério de verdade. Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este problema gnosiológico, para logo passar a uma filosofia moral (e política, pedagógica, religiosa), sem uma adequada e intermédia metafísica. Locke não parte, realisticamente, do ser, e sim, fenomenisticamente, do pensamento. No nosso pensamento acham-se apenas idéias (no sentido genérico das representações): qual é a sua origem e o

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seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles se formam, derivam da experiência; antes da experiência o espírito é como uma folha em branco, uma tabula rasa. No entanto, a experiência é dúplice: externa e interna. A primeira realiza-se através da sensação, e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores, sons, odores, sabores, extensão, forma, movimento, etc. A segunda realiza-se através da reflexão, que nos proporciona a representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação, como: conhecer, crer, lembrar, duvidar, querer, etc. Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa, Locke distingue as qualidades primárias, absolutamente objetivas, e as qualidades secundárias, subjetivas (objetivas apenas em sua causa). As idéias ou representações dividem-se em idéias simples e idéias complexas, que são uma combinação das primeiras. Perante as idéias simples - que constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento - o espírito é puramente passivo; pelo contrário, é ele ativo na formação das idéias complexas. Entre estas últimas, a mais importante é a substância: que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples, referida pelo espírito a um misterioso substrato unificador. O espírito é também ativo nas sínteses que são as idéias de relação, e nas análises que são as idéias gerais. Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia assim isolada, obtendo-se, desse modo, a idéia abstrata (por exemplo, a brancura). Locke é, mais ou menos, nominalista: existem, propriamente, só indivíduos com uma essência individual, e as idéias gerais não passam de nomes, que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. Entretanto, os nomes que designam uma idéia abstrata, isto é, uma propriedade semelhante em muitas coisas, têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a se conduzirem na vida. Dado o nominalismo de Locke, compreende-se como, para ele, é impossível a ciência verdadeira da natureza, considerada como conhecimento das leis universais e necessárias. Locke julga também inaplicável à natureza a matemática - reconhecendo-lhe embora o caráter de verdadeira ciência - isto é, não acredita na físico-matemática, à maneira de Galileu. Entretanto, mesmo que a ciência da natureza não nos desse senão a probabilidade, a opinião, seria útil enquanto prática. Até aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. É mister agora propor a questão do seu valor lógico. Costuma-se dizer que as idéias são "verdadeiras ou falsas"; melhor seria chamá-las "justas ou erradas", porque, propriamente, "a verdade e a falsidade pertencem às proposições", em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. E esta relação, afirmada ou negada, pode ser precisamente falsa ou verdadeira. O conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é, segundo Locke, de dois tipos: intuitivo e demonstrativo. No primeiro caso a relação é colhida intuitiva, imediata e evidentemente. Por exemplo: 3 = 2 + 1. No segundo caso a relação é colhida mediatamente, recorrendo às idéias intermediárias, ao raciocínio. Por exemplo: a existência de Deus demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade. Naturalmente, a demonstração é inferior à intuição. Idéias Metafísicas Estamos, porém, ainda fechados no mundo subjetivo, fenomênico; de fato, tratou-se, até agora, de relações positivas ou negativas, concordes ou desacordes com as idéias. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo objetivo, isto é, podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua existência e na sua natureza? Locke afirma-o, sem mostrar, entretanto, como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista) concepção e definição do conhecimento. É a sólita posição de um fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. Corta as relações com o ser e vai para o fenomenismo absoluto, mas tem ainda saudade desse ser do qual se isolou. Em todo caso, Locke acredita poder atingir, antes de tudo, o nosso ser, depois o de Deus, e, finalmente, o das coisas. O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão. A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa, partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A existência das coisas, alfim, seria sentida invencivelmente, porque nos sentimos passivos em nossas sensações, que deveriam ser causadas por seres externos a nós.

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Entretanto, pelo que diz respeito ao nosso ser, é mister ter presente que nós não conhecemos intuitivamente a substância da alma, e sim as suas atividades. Pelo que diz respeito a Deus, a prova da sua existência vale, se vale absolutamente o princípio de causa - o que Locke não demonstrou. Enfim, pelo que diz respeito às coisas externas, mesmo admitida a prova aduzida por Locke - segundo a confissão do próprio filósofo - tal prova vale apenas pelo que concerne à existência das coisas, e não pelo que concerne à natureza delas. De fato, segundo a filosofia de Locke, não sabemos se as idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas. Moral e Política Locke não admite, naturalmente, idéias e princípios inatos nem sequer no campo da moral. A sua moral, todavia, é muito mais intelectualista do que empirista, pois ele lhe reconhece o caráter de verdadeira ciência, universal e necessária. Entretanto, não basta ter construído uma moral em abstrato, embora racional. É preciso torná-la praticamente eficaz, isto é, faz-se mister uma obrigação moral, que se imponha à nossa vontade. Ora, visto que é natural, no homem, a tendência para o próprio bem-estar, é natural que ele seja atingido pelas penas, pelas sanções, que precisamente lhe impedem tal realização. Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega, propriamente, o livre arbítrio, porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem determinado e devemos desejar o bem maior. Quanto à política, Locke deriva a lei civil da lei natural, racional, moral, em virtude da qual todos os homens - como seres racionais - são livre iguais, têm direito à vida e à propriedade; e, entretanto na vida política, não podem renunciar a estes direitos, sem renunciar à própria dignidade, à natureza humana. Locke admite um originário estado de natureza antes do estado civilizado. Não, porém, no sentido brutal e egoísta de inimizade universal, como dizia Hobbes; mas em um sentido moral, em virtude do qual cada um sente o dever racional de respeitar nos outros a mesma personalidade que nele se encontra. Também Locke admite a passagem do estado de natureza ao estado civilizado, porquanto, no primeiro, falta a certeza e a regularidade da defesa e da punição, que existe no segundo, graças à autoridade do superior. Entretanto, estipulando este contrato social, os indivíduos não renunciam a todos os direitos, porquanto os direitos que constituem a natureza humana (vida, liberdade, bens), são inalienáveis; mas renunciam unicamente ao direito de defesa e de fazer justiça, para conseguir que os direitos inalienáveis sejam melhor garantidos. Antes, se o estado violasse esses direitos inalienáveis, os indivíduos teriam o direito e o dever de a ele resistir e de se revoltar contra o poder usurpador. A doutrina política de Locke, contida no seu Tratado sobre o Governo Civil, é a expressão teórica do constitucionalismo liberal inglês, em contraste com a doutrina do absolutismo naturalista de Hobbes. Idéias Pedagógicas Com respeito à religião, Locke toma uma atitude racionalista moderada. Admite uma religião natural, exigível também politicamente, porquanto fundamentada na razão. E professa a tolerância a respeito das religiões particulares, históricas, positivas. Locke interessou-se especialmente pelos problemas pedagógicos, escrevendo os Pensamentos sobre a Educação. Aí afirma a nossa passividade, pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da experiência; mas, ao mesmo tempo, afirma a nossa parte ativa, enquanto o intelecto constrói a experiência, elaborando as idéias simples. Afirma-se que todos nascemos iguais, dotados de razão; mas, ao mesmo tempo, todos temos temperamentos diferentes, que devem ser desenvolvidos de conformidade com o temperamento de cada um. Esta educação individual não exclui, mas implica a educação, a formação social, para ampliar, enriquecer a própria personalidade. Tem muita importância a obra do educador, mas é fundamental a colaboração do discípulo, pois trata-se da formação do intelecto, da razão, que é, necessariamente, autônoma. A formação educacional consiste, portanto, fundamentalmente, no desenvolvimento do intelecto mediante a moral, precisamente pelo fato de que se trata de formar seres conscientes, livres, senhores de si mesmos. Por conseguinte, a educação deve ser formativa, desenvolvendo o intelecto, e

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não informativa, erudita, mnemônica. Igualmente Locke é fautor de educação física, mas como o meio para o domínio de si mesmo. O Empirismo - Berkeley Jorge Berkeley Uma etapa ulterior do fenomenismo empirista é representada por Berkeley. Ele suprime, criticamente, as qualidades primárias, as sensações objetivas de Locke, evidenciando que são semelhantes às secundárias e, logo, também elas subjetivas. E suprime também, definitivamente, o conceito lockiano de substância material, que deveria ter sido a causa misteriosa de nossas sensações, objetivas, visto que, no empirismo, a substância não passa de um nome. Isto não impede que Berkeley - por motivos práticos, morais e religiosos - incoerentemente, conserve ainda no seu empirismo os conceitos de substância, causa e espírito, isto é, os conceitos de substância e causa espiritual. Este resíduo realista e transcendente será definitivamente eliminado pela crítica radical e coerente de Hume, o último e o maior dos empiristas prá-kantianos. Vida e Obras Estudou no Trinity College em Dublin, formando-se mestre em artes em 1707. Ordenado pela Igreja anglicana, a princípio ensina grego (sua obra, um dia, assumirá um tom platônico), em seguida hebreu e teologia no Trinity College. Entre 1702 e 1710, podemos seguir, em seu caderno de anotações (Commonplace book), a formação de seu pensamento. Desde 1709 ele escreve sua Nova teoria da Visão. Seu Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano é publicado em 1710. As intenções apologéticas de sua obra aparecem claramente nos artigos polêmicos, que escreveu em 1713, no jornal The Guardian, contra as idéias de um célebre livre-pensador, Arthur Collins. Em 1713, igualmente, aparece os Diálogos entre Hylas e Philonous. Berkeley então viaja pela França e pela Itália; em seguida se decide a propagar o pensamento cristão nas possessões americanas da Inglaterra, partindo para as Bermudas, onde sonha fundar um colégio, idéia à qual deve renunciar, posto que o governo inglês não lhe envia os fundos prometidos. Nessa época, ele lê Plotino sobretudo. Ao retornar, é nomeado bispo anglicano de Cloyne. Publica uma nova obra contra os livres-pensadores, "Alciphrom ou o filosofúsculo" (Alciphrom or the minute philosopher). Em 1740, sobrevém uma epidemia na Irlanda, que o improvisa como médico; cuida de suas ovelhas com água de alcatrão (receita que conheceu na América), na qual vê um remédio universal, o que o leva a uma cadeia (seiris, em grego) de reflexões muito platônicas sobre a natureza, a Providência e Deus, que ele nos oferece em sua última obra, "Síris ou Reflexões e pelo físico Molyneux): Como podemos ver a distância de um objeto? O raio luminoso, orientado perpendicularmente ao olho, só projeta um ponto que invariavelmente é o mesmo, quer a distância seja longa ou curta. Por conseguinte, falando estritamente, não vemos a distância. Um cego de nascença, afirma Berkeley, ao qual fosse dado ver repentinamente, teria a impressão de que todos os objetos tocavam seus olhos (vinte anos após o obra de Berkeley, o cirurgião Cheselden publicará, nas Philosophical Transactions of the Royal Society, a observação de um menino de quatorze anos, operado de catarata, que parece confirmar o ponto de vista de Berkeley. Voltaire, em sua Filosofia de Newton, 1741, torna conhecida essa experiência que Condillac e Diderot discutirão em sua Carta sobre os cegos para uso dos que vêem). Para Berkeley, a distância, portanto, não é percebida, mas julgada a partir de signos tais como a grandeza aparente ou da luminosidade mais ou menos viva dos objetos. Esse homem pequenino e pouco visível está longe de mim, porque a experiência mostra que quando um homem tem essa grandeza aparente, deve andar por alguns momentos a fim de o tocar. Por conseguinte, a experiência me ensina a interpretar aparências visuais como o sinal da distância maior ou menor dos objetos.

Jorge Berkeley nasceu em 1685 perto de Dysert Castle, na Irlanda, de uma família de origem inglesa.

pesquisas filosóficas concernentes às virtudes da água de alcatrão e diversos outros temas conexos entre si e originados um do outro" (1744). Na Teoria da Visão, Berkeley parte do seguinte problema (colocado

o cubo que vejo e aquele em que toco não são um só e mesmo objeto!! Não mais existem relações entre um e outro. espaço "em-si". É a experiência. ao passo que a cor é subjetiva. exatamente como a experiência. b) As correspondências existentes entre os dados visuais e a distância dos objetos não podem ser previstas a priori. É por preconceito que acredito na existência de "objetos". nada me autoriza a imaginar. para ele. Por exemplo. Sua forma e a extensão que ela ocupa são sensações. por abstração. sua cor verde uma sensação visual. quando represento mentalmente um homem. fora de minhas sensações! Absolutamente. Uma imagem concreta. isto é. exceto a que existe entre o cubo em que toco e a palavra de quatro letras com que o designo. e o que possui apenas duas dimensões. se Berkeley nega a idéia abstrata. um conjunto de "idéias". pois todos os objetos me são dados simultaneamente como extensos e coloridos. Esta porta nada mais é do que uma soma de representações mentais. como dizia a filosofia escolástica. As correspondências entre o atlas tátil e o atlas visual simplesmente manifestam a Providência de Deus. A imagem concreta se torna geral quando se transforma em signo. Pensar não é. Não é verdadeiramente uma coisa material que existe como tal. O Imaterialismo É a outra doutrina fundamental de Berkeley que facilmente vemos estar ligada ao seu nominalismo. pintada de verde e contra a qual me choco dolorosamente. ele admite a idéia geral. simultaneamente percebido pela visão e pelo tato. Mas essa imagem sonora. De um modo mais geral. E. Por isso ele se aproxima de Locke e do ponto de vista de todos os outros empiristas ingleses. Berkeley tira conclusões importantes: 143 . o objeto e a sensação são idênticos e não podem ser abstraídos um do outro. por conseguinte. para Berkeley. e um espaço tátil (a exploração tátil me revela. Não possuo mais o direito de dizer que tenho uma ou várias idéias da porta. e só ela. mas passar de uma imagem a outra graças à função simbólica. nem a extensão geométrica. toda linguagem é a instituição de um espírito. grande ou pequeno. o contato de minha mão com ela uma sensação tátil e a própria dor que sinto após o choque é um estado de consciência. "Não posso representar em meus pensamentos uma coisa sensível ou um objeto isolados da sensação que deles tenho. em substituto de outras imagens concretas. a palavra idéia significa representação mental) é o símbolo de outras idéias concretas. toda abstração é ilegítima. para Berkeley. os "signos" desempenham um grande papel. não tenho o direito de dizer. Os dados visuais são o signo dos dados táteis." Eis uma porta alta e sólida. responde Berkeley. uma simples palavra (uma imagem concreta. que me faz conhecer a ligação entre uma mudança de claridade e uma mudança de distância. idéia e imagem são a mesma coisa. Ora. como Descartes. Por exemplo: que é a idéia abstrata de Homem? Um nome. aprender uma essência abstrata. na origem. a existência de pretensos objetos materiais fora de meus estados de consciência. Compreendemos bem que. b) Todavia. Para ele. disforme ou bem proporcionado. Não tenho a menor razão de abstrair da realidade sensível que é a dos meus estados de Dessa análise psicológica. uma linguagem universal da natureza (como aquela que faz dos dados visuais o signo das experiências táteis) só pode ser obra de um Espírito universal. etc. Tudo o que a experiência me fornece é uma multidão de sensações diversas entre as quais existem correspondências. pois. lida ou ouvida).a) Não existe espaço objetivo. a aprendizagem da língua natal me faz conhecer a ligação convencional entre os objetos e as palavras que os designam. por exemplo. que a extensão existe objetivamente. Nominalismo de Berkeley a) Ele declara não compreender o que seja uma idéia abstrata. No universo de Berkeley. as distâncias dos objetos). é preciso que essa imagem seja a de um homem particular. de uma imagem sonora concreta. tão cara aos cartesianos. o que me ensina a decifrar as correspondências entre esses dois tipos de sensações (visuais e táteis). posto que ela não passa de um conjunto de idéias. uma idéia concreta (para Berkeley. Existem dois espaços distintos: um visual. em suma. relativo ao sentido da visão. eu a faço corresponder a um sem-número de imagens visuais (as de todos os homens que posso ver). O espaço não é o "sensível-comum". essa palavra "homem" que pronuncio não passa.

significa amigo do espírito).antes de Bergson . significa matéria). . Se . Para Berkeley. portanto. no mesmo lugar. pretensas coisas materiais que. quero antes transformar as idéias em coisas. segundo a qual a realidade se reduz ao que nos é dado concretamente. A ordem de minhas "idéias". nada envolve. o imaterialista Philonous (esse nome. Berkeley recusa todo ceticismo e aceita o dado tal qual é: "O cavalo está na cocheira e os livros estão na biblioteca como antes". O único tempo real é o tempo concretamente percebido. A filosofia de Berkeley. pois os objetos imediatos da percepção que. segundo você. É o que. O que não vemos e não tocamos não existe. Berkeley . Sua filosofia. Não aceita a "extensão inteligível" de Malebranche e só admite um espaço sensível. eu os considero coisas reais". invisível. como é que todas as pessoas presentes podem pretender ver a mesma coisa? b) Berkeley responde a isso. chamará de "a ilusão dos além-mundos". nossas percepções. são apenas as aparências das coisas. misteriosamente. o imaterialismo de Berkeley suscita uma dificuldade. Mas. estão erigidas como prova do poder e da bondade do Criador. Se não há nenhuma transcendência das coisas. que ela nada oculta. portanto. "mais longo na dor do que no prazer". uma vez divisível ao infinito seria admitir que um fragmento de extensão existe sem ser percebido. das qualidades sensíveis. porta-voz de Berkeley. impalpável.144 consciência. se como pensa Philonous-Berkeley. Deus já estava encarregado de explicar as admiráveis correspondências entre dados táteis e visuais. a existência das coisas sob a condição de que se aceite que existir é "ser percebido" e nada mais. existiriam além de minhas percepções. Como diz Bergson muito bem: "O que o idealismo de Berkeley significa é que a matéria é coextensiva à nossa representação. O que ele não admite é a coisa que estaria oculta sob nossas representações. que ela não tem interior. "Esse est percipi". E agora Berkeley nos diz que Deus é quem nos envia. homogêneo e mensurável dos físicos. as pessoas que neste momento se encontram em meu escritório podem dizer que aí existe uma poltrona de couro. nossas sensações não remetem a um objeto exterior. A aparência é que é a verdadeira realidade. é um além material que transcenderia o percebido. nos célebres diálogos. a mesma coisa? Por exemplo. se o objeto nada mais é do que a representação que dele tenho. fazendo com que Deus intervenha. O espaço dado aos sentidos não pode ser divisível ao infinito. Berkeley não nega. O mundo visual tem realmente as cores que aparenta ter. demonstra a Hylas (cujo nome. isto é . Realismo ou Idealismo? O que Berkeley rejeita é a realidade de uma substância material que seria o suporte misterioso. etc. que ativamente percebo. Por conseguinte. com as percepções dos outros espíritos. Não há no mundo senão idéias e espíritos. não tem suporte.Dado esse detalhe. portanto. em grego. serão falsas a seus olhos. isto é. como é possível que vários espectadores vejam juntos. o mundo da audição é verdadeiramente sonoro. não quero transformar as coisas em idéias. Berkeley rejeita todas as "abstrações" dos matemáticos e dos físicos. em grego. As novas matemáticas do infinitesimal. era ele o autor dessa linguagem universal e benfazeja da natureza. Como Philonous declara a Hylas: "Você se engana. é a filosofia do realismo concreto levada às suas últimas conseqüências: o que existe é o que vemos e tocamos.rejeita como ficção o tempo abstrato. É certo que o ser não se reduz ao que é passivamente percebido e que eu. A única realidade das coisas é serem percebidas. sua admirável concordância com as "idéias". portanto. Imaterialismo e Teologia a) Tal como expusemos. mais tarde. ser é ser percebido ou perceber: "Esse est percipi vel percipere". não há dificuldade. que se estende superficialmente e que se coloca inteira a todo instante no que ela dá". Berkeley reclama o bom-senso popular e se ri de Descartes que duvidava de seus sentidos. o chamado idealismo de Berkeley não passa de um realismo ingênuo. numa ordem harmoniosa. Do mesmo modo. nossas "idéias".como pensava Hylas . quer nos libertar daquilo que Nietzche. também existo.a poltrona de couro existe materialmente e nossas sensações a refletem.

isto é. É Deus quem nos fornece nossas "idéias". afastariam nossa atenção do sentido do som e nos impediriam de acompanhar a palavra divina". dando-lhe um destino. tornando espessa cada sílaba. de força. como sublinhou Gueroult. é diretamente imprimido pelo Criador na consciência das criaturas. Aos materialistas. "Curiosa síntese.de quem as virtudes terapêuticas da água de alcatrão lhe recordam a benevolência ativa . Da primeira à segunda edição de seus Princípios do Conhecimento. se a terra de origem do iluminismo é a Inglaterra. inspirado pelos platônicos que pregam a libertação quanto aos sentidos e insistem no conhecimento das realidades espirituais. Na primeira edição. Berkeley responde: "É a matéria que não existe. Só Deus e os espíritos existem".surge-lhe. o alcance apologético que Berkeley pretende dar a seu imaterialismo. Entre ele e nossas representações sensíveis surgem (como nas filosofias neoplatônicas) intermediários. Berkeley não aceita que a vontade das criaturas seja uma simples causa ocasional. a alma não existe. nas primeiras obras. à maneira dos neoplatônicos. assim. Berkeley aprofunda sua reflexão sobre o conhecimento dessas realidades. criador das idéias em nossas consciências. se chega mesmo a ir mais além de Malebranche ao negar a existência das coisas materiais (que Malebranche aceita de acordo com o testemunho da Bíblia). ele me fala diretamente quando decifro o mundo sensível. torna-se um Deus malebranchiano. É um "discurso que Deus faz aos Homens". seguimos facilmente o aprofundamento de seu pensamento. mas morada das Idéias. vemos. então." Todavia.-J. por Locke e Newton. uma liberdade real. como um fogo sutil que circula através do Universo. com uma evolução cada vez mais acentuada em sua velhice para o malebranchismo. Este último que. que lera na América. no espiritualismo tradicional. colocam uma tela de pesadas ficções entre Deus e essa palavra cotidiana de Deus que é o mundo. são essencialmente passivas. . erigindo-a em entidade independente.145 c) Por que dizer. Jean-Jacques Rosseau O Iluminismo Francês Voltaire traz o iluminismo da Inglaterra para a França. aos ateus que proclamam: Deus não existe. aceita a teoria das causas ocasionais na matéria (a idéia visível não é a causa. longe de ressaltar de maneira ininteligível uma matéria opaca. escrevendo as famosas Lettres sur les Anglais. mas não temos idéia do próprio Deus. era um Deus cartesiano. O mundo é uma mensagem de Deus. Quando as metafísicas materialistas falam de substância. Em todo caso. podemos conhecê-lo? A segunda edição traz uma resposta a esse problema e Siris vem explicitar essa resposta: temos uma noção de Deus. Se. Berkeley então nos propõe uma espécie de síntese muito original entre as filosofias de Locke e de Malebranche. pela ciência nova. recaindo. de extensão abstrata. com efeito. Thonnard. Assim. desde então. diz muito bem F. arquétipos em que Deus se fundamenta para produzir nossas representações. As metafísicas da matéria. no fundo. pelo livre pensamento. Berkeley mostra que as idéias. Bergson apreende efetivamente o que há de essencial na doutrina de Berkeley quando a comenta nos seguintes termos: "A matéria seria uma língua em que Deus nos fala. Aí assumirá aquele caráter extremado e difusivo pelo qual o iluminismo ficará definitivamente individuado. entre empirismo e espiritualismo. por tudo isso. posto que ele é atividade suprema. Berkeley nunca seguirá Malebranche até o fim. mas o signo da idéia tangível que Deus produz em mim). E logo se desperta na França uma verdadeira anglomania: pelo constitucionalismo inglês. se finalmente recai no tema da visão de Deus. O Problema da Evolução em Berkeley a) Em Siris. como um fluido vital que o penetra inteiramente. que Deus criou a matéria e que o homem a conhece por meio de "idéias"? Não se pode fazer economia dessa entidade misteriosa? Basta pensar que o espetáculo do universo. Berkeley enriquece seu imaterialismo com uma dimensão nova. Como. A Providência . b) Por outro lado. a sua terra clássica é a França. não apenas causa das idéias. Ele atribui à pessoa humana uma verdadeira "eficácia". entre gosto pelo sensível e aversão pela matéria. as representações mentais. já bem disposta para assimilá-lo e valorizá-lo.

à história e à tradição em geral. ou mais ou menos. um alemão que viveu em Paris. Esta corrente. mas não no povo que se quer elevar. segundo o ideal deísta (Voltaire). enfim. a atitude iluminista é decididamente hostil à igreja católica e se propõe a si mesma esmagá-la (écraser l'infâme): quer admita uma religião natural. na imortalidade da alma. em que a razão certamente não domina. julga. é a Enciclopédia: Enciclopédie ou dictionaire des sciences. manifesta confiança no povo ou. como. des arts et des métiers. Foi dirigida por João D'Alembert (1717-1783). do absolutismo racional.Pensées sur l'interprétation de la nature 146 (1754). Pelo que diz respeito ao problema filosófico em geral. autor do Dictionnaire Historique et Critique. cujo reino. religioso. ou até no ceticismo. às divisões nacionais e à guerra. inclusive o cristianismo. Característica . econômico. na burguesia. É o que fez desabusadamente e desapiedadamente a revolução francesa. autor do famoso Discours préliminaire. Se o iluminismo demole toda a história. onde o materialismo se manifesta em cheio. a deusa razão da revolução francesa. para o bem dos povos e da humanidade acredita-se na razão. são: Lettres sur les Anglais (1734). a esta religião a religião humanista e imanentista da razão. a corrente iluminista chefiada por Cláudio Helvetius (1715-1771). A figura dominante do iluminismo francês é Francisco Maria Arouet. sustentando a irracionalidade da Revelação: mesmo contra a própria intenção do autor. Pelo que concerne aos problemas sociais e políticos. Assim. Viveu em Londres entre 1726 e 1729. etc. tudo isto levará à demolição. chamados por isso enciclopedistas. porém. ao sentimento. substitui. Entre eles Voltaire e Rosseau. E se ele demole toda religião positiva. isto é. desejosa e capaz de liberdade. político. todavia. voltar. foi acolhido (1750-1753) por Frederico II. No campo social. à destruição da ordem constituída. Julião Offrai de La Mettrie (1709-1751) é o autor do famoso livro L'homme machine. Métaphysique de Newton (1740). também a religião natural de um Deus transcendente. Dictionnaire Philosophique (1764). A razão (humana) deve dominar acima de tudo e acima de todos. realizado o seu ideal racional no começo da humanidade. Candide ou de L'optimisme (1756). autor do livro De l'Esprit. Pertence a esta última tendência Pedro Bayle (1647-1706). e. por exemplo. à fantasia. manifestam-se também duas atitudes: a do assim chamado despotismo iluminado. com a crença em Deus. à paixão. sendo a razão humana impotente para solucioná-los. em 34 volumes. Entre as suas obras. Acerca do problema religioso. em geral. no homem primitivo para o qual se deverá. Bayle propagou a incredulidade pela Europa toda. nas sanções ultraterrenas. em definitivo. que pretendia mostrar a necessidade de se apoiar na Fé em face dos máximos problemas. trazendo para a França o iluminismo. Daí a necessidade da força a serviço da razão. o barão Teodorico D'Holbach (1723-1789). se encontra neste mundo e na vida terrena.O traço específico do iluminismo francês é o culto da razão. Daí a guerra a qualquer atividade e instituição que não sejam puramente racionais. porque a razão é universal. melhor. para os quais o iluminismo tinha naturalmente um interesse especial. quando conculca os direitos naturais do indivíduo. retirou-se para Ferney. quer chegue até ao ateísmo e ao hedonismo. dito Voltaire (1694-1778). Caído na desgraça do Rei e da Corte da França. as que mais interessam à filosofia. ao estado. é o autor do não menos famoso Système de la nature. meio eficaz de difusão do iluminismo antes da grande enciclopédia. déspota absoluta. Os Homens e os Problemas A obra fundamental do iluminismo francês e europeu. às desigualdades sociais. como sendo necessárias para a conservação da ordem moral e política. O movimento dos enciclopedistas foi um poderoso meio para a difusão e vulgarização das idéias iluministas. Éléments de la Philosophie de Newton (1741). o mecanismo (empirista e racionalista) é levado até o materialismo por La Mettrie e D'Holbach. atacados por Voltaire. o iluminismo francês adere ao empirismo de Locke desenvolvido no sensismo de Condillac. perto de Genebra. todavia. pelo contrário. e aí escreveu as famosas Lettres sur les Anglais. daí dominando o mundo da cultura européia. Entretanto colaboraram na enciclopédia os iluministas mais famosos. A outra atitude ou tendência é a que deriva do liberalismo constitucional. na França e no estrangeiro. Foi publicada entre 1751 e 1780. e por Denis Diderot (1713-1784) autor também de alguns escritos filosóficos . Réponse ou Système de la nature (1777). em 1755.

Rosseau pesquisa as condições de um Estado social que fosse legítimo. aparentemente ao menos. na realidade representa uma reação espiritualista contra a filosofia das luzes e o otimismo dos enciclopedistas. Rosseau só encontra refúgio na Inglaterra. mas antes depreender (o que é possível com a maioria das vozes. o campeão de uma pedagogia naturalista que confia nas tendências espontâneas da criança. ele escreve para responder a uma questão que a Academia de Dijon colocara em concurso: Rosseau declara-se inimigo do progresso. porém. Esta última faz abstração dos interesses divergentes e das paixões de cada um para só cuidar do bem comum. unindo-se a todos. como homem. o reflexo do costume. desenvolvido em sentido historicista. ete. diz. aliás. prende-se ao ensinamento de Jesus. Entenda-se bem: "cada indivíduo pode. nos debates do povo reunido) uma vontade geral. das idéias dos filósofos racionalistas. essa consciência moral que. Em seu primeiro livro. A teoria política de Rosseau. o progresso das ciências e das artes tornou o homem vicioso e mau. tais como se encontram em seu romance A Nova Heloísa (1761) e na Profissão de fé do Vigário saboiano. A Nova Heloísa apresenta-se como uma apologia da religião e da moral. um mês apenas após sua publicação. Para Rosseau. se desentenderá pouco depois). . os maus triunfam neste mundo. aproxima-se bastante. junto a Hume. Nestes escritos se manifesta um racionalismo iluminista temperado. Barão de Montesquieu (1689-1755). Freqüentemente se resume a tese de Rosseau aos seguintes termos: o homem é bom por natureza. a pedagogia da chamada Escola Nova. dessa "lei divina do dever e da virtude" em nome da qual a paixão amorosa se sacrifica heroicamente. É censurado por escolher a religião natural (aquela que o homem encontra no próprio coração) e rejeitar a religião revelada. ter uma vontade particular contrária ou dessemelhante da vontade geral que ele tem como cidadão". das Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence. em Paris e em Genebra. como dizia Montaigne. cujos atos. ao invés de submetê-la a constrangimentos difíceis? (Nesse sentido. o pacto social não tem por fim conciliar todos os interesses egoístas. Rosseau adota o dualismo moral popular. É o autor das Lettres persanes. Todavia. e do Esprit des lois. que atende às suas necessidades mais profundas. executivo e juduciário. ao passo que o justo é infeliz. No entanto. pelo sentido de variedade das leis em relação às condições dos povos.desta concepção política é a divisão absoluta dos poderes supremos: legislativo. não obedeça. deve ser uma resposta"). a sociedade o corrompeu. "Somos tentados pelas paixões e detidos pela consciência". Na realidade. Discurso sobre as Ciências e as Artes. senão a si próprio e permaneça tão livre quanto antes. desses filósofos do "conventículo holbáquico" que ele destacava e pelos quais era odiado. segundo ele. dirá Dewey em nossos dias. O problema que ele coloca recai no de Locke ou de d'Holbach: "Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda força comum 147 a pessoa e os bens da cada associado e pela qual cada um. a justiça divina recompensará os bons ("a vida da alma só começa com a morte do corpo") e punirá os maus que são culpados de serem assim ("dependia deles não se tornarem maus"). corrompendo sua natureza íntima. Para ele. é uma exigência inata em nós e não. são melhores atestados do que os da vida de Sócrates. peça mestra do Emílio (1762). exposta no Contrato Social. Nessa obra. Jean-Jacques Rosseau A obra de Rosseau (1712-1778) que foi mal compreendida e que ainda o é nos meios do catolicismo tradicional. O arcebispo de Paris condena-lo-á em célebre ordenação (perseguido por toda parte. que não mais corrompesse o homem. O maior expoente dessa corrente é Carlos de Secondat. A obra será solenemente queimada. fundada nas tendências e nos centros de interesse espontâneos da criança. Também é certo que ele desconfia das interpretações que a Igreja possa dar dos Evangelhos ("quantos homens entre mim e Deus!"). Todavia. É certo que a profissão de fé do Vigário suscitou as iras dos poderes públicos e das igrejas constituídas. Não há dúvida de que ele declara que todas as religiões são boas e que cada crente pode conseguir a salvação na sua (o que é contrário ao que. concreto. a moral e a filosofia de Rosseau. o problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social". é uma pedagogia rousseauniana: "Toda lição. Não se fará. Mas seria uma grave erro confundir o "naturalismo" de Rosseau com o dos filósofos das luzes. recaem nos temas do espiritualismo mais tradicional. na época. no Emílio. Por conseguinte. com quem. era pensado nas igrejas católicas e protestantes).

Se é verdade que o bem seja bem. à força de se concentrar dentro de si. Se a bondade moral concorda com nossa natureza. não temos senão o direito de recusá-la. o homem humano seria um animal tão depravado quanto um lobo desprezível. as paixões são a voz do corpo. as doçuras da amizade humana nos consolam em nossas penas. aquele que. à paciência com que as guarda. estaríamos demaisados sós e seríamos demasiados miseráveis se não tivéssemos com quem os dividir. Basta-me consultar-me sobre o que quero fazer. e mesmo em nossos prazeres. Sem entrar aqui nessa discussão. O instinto. O primeiro de todos os cuidados é o consigo mesmo: todavia. A consciência é a voz da alma. provêm esses transportes de admiração pelas ações heróicas. a maneira pela qual ele explica esse progresso obriga-nos a concluir que as crianças refletem mais do que os adultos. escritas pela natureza em caracteres indeléveis. matando-as em seguida para deixá-las ali. nada mais é do que um hábito privado de reflexão. oh. o homem não poderia ser são de espírito. obedece a natureza e não teme se perder. desprezamos o que diz aos nossos corações. o dos tormentos ou o da felicidade de outrem? Que é que nos é mais doce fazer e que nos deixa agradável impressão após o ter feito. assim como uma doce trnura nunca umedece seus olhos.148 nessa vontade geral descobriremos outra coisa que não o interesse. deixando à parte qualquer interesse pessoal. não deixa de admitir essa obscura faculdade chamada instinto que parece guiar os animais. e só quando se comercia com ela é que se recorre às sutilezas do raciocínio. etc. os princípios de uma alta filosofia. o desejo de felicidade. um ato benfazejo ou um ato malfazejo? Por quem vos interessais mais em vossos teatros? É com a maldade que vos divertis? É com seus autores punidos que derramais lágrimas? Tudo nos é indiferente. ao contrário. meu jovem amigo! Examinemos. se não fosse bom. a regra da consciência. e a virtude só nos deixaria remorsos. Qual o espetáculo que mais nos envaidece. É espantoso que muitas vezes essas duas linguagens se contradigam? A qual delas se deve ouvir? A razão freqüentemente nos engana. Se nada existe de moral no coração do homem. Penetremos em nós mesmos. que só admite o que explica. mas as encontro. esse juízo inato do bem e do mal que cada um descobre em si mesmo. não mais tem transportes e seu coração congelado não mais palpita de alegria. Encontraremos aí. quem a segue. a bondade não seria senão um vício contra a natureza. o infeliz não sente mais. sem qualquer conhecimento adquirido. no fundo. é o verdadeiro guia do homem: ela está para a alma assim como o instinto está para o corpo(¹). escutando o que ela diz dos nossos sentidos. Se não concorda. quando. (¹) A filosofia moderna. ele o deve ser tanto no fundo de nossos corações quanto em nossas obras. mas adquirido por reflexão. de onde. ao fazer nosso bem a expensas de outrem. no fundo do meu coração. A Consciência segundo Rosseau (Profissão de Fé do Vigário Saboiano) Não tiro dessas regras. sem que jamais alguém o . quando dissipa seus desejos egoístas "no silêncio das paixões". mas a consciência nunca engana. fazemos o mal! Acreditamos seguir o impulso da natureza e lhe resistimos. proseguiu meu benfeitor. não vive mais. jogando-as por terra no momento em que saltam. e o maior prêmio da justiça é sentir que a praticamos. assim como o lobo para devorar sua presa. do que César triunfante? Tirai de nossos corações esse amor ao belo. qual a relação que ele tem com nosso interesse privado? Por que eu preferiria ser Catão. que rasga as entranhas. segundo um de nossos mais sábios filósofos (Condillac). pergunto que nome devo dar ao ardor com que meu cão faz guerra às toupeiras que não come. quantas vezes a voz interior nos diz que. exceto nosso interesse. então o homem é naturalmente mau e não o pode deixar de ser sem se corromper. Este ponto é importante. acaba por amar apenas a si mesmo. no sentido de algum fim. A moralidade de nossas ações está no juízo que delas fazemos. não goza mais nada. Feito para prejudicar seus semelhantes. Aquele cujas paixões vis sufocaram esses sentimentos deliciosos em sua alma estreita. o ser ativo obedece e o ser passivo ordena. tudo o que sinto ser bem é bem e tudo o que sinto ser mal é mal: o melhor de todos os casuístas é a consciência. vendo que eu ia interrompê-lo: esperai que eu me detenha um pouco mais a esclarecê-lo. nem bem constituído. paradoxo muito estranho para valer a pena ser examinado. para onde nossas tendências nos conduzem. já está morto. Esse entusiasmo da virtude. então. que tirareis todo o encanto da vida. esses transportes de amor pelas grandes almas. dizem eles.

Leibniz encontra-se em Amsterdam com Espinosa. Esperava. que inventaria ao mesmo tempo que Newton. em Nuremberg. Quê?! meu cão. no estudo da lógica aristotélica. apresenta muitas semelhanças com a de Bacon: Leibniz sabia mover-se agilmente em meio às intrigas da corte a fim de realizar seus grandes planos. cidade na qual passaria ao restantes quarenta . Galileu (15641642) e Descartes (1596-1650). com filósofos e escritores antigos. como Platão (428-347 a. no entanto. as variações das funções são comparadas ao movimento dos corpos. e isso é mais importante. filho de um professor de filosofia moral. um novo método de cálculo. Desde essa época. Que os filósofos. o que o leva a empregar o algoritmo. assim. ao contrário. Leibniz foi encarregado de uma missão em Paris. sem me deixar dobrar. já inventara. Leibniz encontrou os elementos que o levaram à idéia de uma análise combinatória filosófica. Nesse trabalho procurou encontrar para a filosofia leis tão certas quanto as matemáticas e esboçou as premissas do cálculo diferencial. (Nota de Rosseau) Leibniz Vida e Obra Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig. desviar as atenções do rei e evitar que ele utilizasse sua potência militar contra a Alemanha. No mesmo ano torna-se bibliotecário-chefe em Hanôver. mal acabado de nascer.). Por causa desse trabalho. Entrou em contato com alguns dos mais conhecidos intelectuais da época: Arnauld (1612-1694). numa atitude suplicante e mais própria para me comover. Em 1676. teve contato. O ingresso nessa Sociedade valeu-lhe uma pensão e. embora sob ponto de vista diferente. o método das fluxões. sendo. passando a dedicar-se às matemáticas. desse modo. então não teria mais nada a dizer e não mais falarei de instinto. 70-19 a. Leibniz dedicou ao príncipe-eleitor de Mogúncia um trabalho no qual mostrava a necessidade de uma filosofia e uma aritmética do direito e uma tabela de correspondência jurídica. por que. as patas dobradas. Em 1676. Leibniz descobriu o cálculo diferencial. introduzindo a noção de quantidades infinitamente pequenas. desde 1665. eu lhe batesse. com quem discute problemas metafísicos. já teria adquirido idéias morais? Sabia o que era clemência e generosidade? Em virtude de que luzes adquiridas esperava me acalmar. Ainda aluno da Universidade de Leipzig. na biblioteca paterna. ele se atirou de costas no chão. com o qual tudo poderia ser descoberto. Em Newton. Hobbes (1588-1679). escreveu. Com esse título. permitiu que ele se iniciasse na vida política. que o expliquem de maneira satisfatória para todo homem sensato. que tão desdenhosamente rejeitam o instinto. Em 1667. Nos anos seguintes. Em 1670. Pergunto ainda. e nada falo aqui que não possa ser verificado por todos. mas os três anos de estada em Paris não lhe foram inúteis. Por outro lado. Desde muito cedo.C. Pretendia convencer o rei Luís XIV a conquistar o Egito. foi convidado para fazer a revisão do "corpus juris latini". em 1663. que. aniquilando. a idéia de velocidade que fundamentava seu cálculo. A partir de então. situando-se entre os maiores matemáticos da época. Aristóteles (384-322 a. Leibniz se preocupou em vincular a filosofia às matemáticas escrevendo uma Dissertação Sobre a Arte Combinatória. abandonando-se assim à minha discrição? Todos os cães do mundo fazem quase o mesmo no mesmo caso.C.) e Virgílio (c. filiou-se à Sociedade Rosa-Cruz. um trabalho sobre o princípio da individuação.).149 tenha dirigido para essa caça ou lhe ensinado que existem toupeiras. postura em que não permaneceria se. precedido por Newton. sendo dotado também daquela "ardente ambição que levara Bacon à ruína". segundo o historiador Windelband. ao que tudo indica. a vida de Leibniz. vislumbrando a possibilidade de cria um alfabeto dos pensamentos humanos. e com a filosofia e a teologia escolásticas. Fora. doutorou-se em direito na Universidade de Altdorf e. Leibniz. na primeira vez em que ameacei esse mesmo cão. depois foi para Iena. em 1672. pequenino. Aos quinze anos começou a ler Bacon (1561-1626). foi nomeado conselheiro da Alta Corte de Justiça de Mogúncia. queiram explicar esse fato apenas pelo jogo das sensações e dos conhecimentos que elas nos fazem adquirir. parte de uma colocação metafísica. Seu projeto foi rejeitado. a 1° de julho de 1646. a Turquia e protegendo a Europa das invasões "bárbaras". portanto.C. Huygens (1629-1695). a fim de seguir os cursos do matemático Ehrard Wigel.

torna-se bastante difícil uma interpretação da filosofia leibniziana que não dê margem a dúvida e não suscite polêmica. A primeira funda-se no caráter não-contraditório daquilo que é explicado ou demonstrado. Racionalismo e Finalismo Apesar de sua intensa e agitada vida pública. portanto. Correspondência com Arnauld. um plano de organização civil e moral para o país. durante três anos. Sobre a Sabedoria. viajou para a Rússia a fim de propor ao czar Pedro. Sobre a Liberdade e Correspondência com Padre Bosses. Leibniz pretendia lançar as bases de uma combinatória universal. Outra parte (a volumosíssima correspondência e os trabalhos publicados somente após sua morte) revela – segundo Russel e outros – um pensador bastante diferente do Leibniz público Acrescentando-se a essa dupla face de seus escritos o fato de que muitos deles sequer foram concluídos. dos quais se poderiam deduzir uma concepção do mundo e uma ética dotada inclusive de implicações políticas. O princípio de razão consiste em submeter toda e qualquer explicação ou demonstração a duas exigências. com os quais – segundo muitos historiadores – tentava apenas obter favores dos governantes. ao contrário. Sobre a Origem Radical das Coisas. Correspondência com Clarke. Leibniz deixou uma obra extensa. em que trata de quase todos os assuntos políticos. As duas doutrinas foram sintetizadas pela filosofia de Leibniz. com a morte de sua protetora. a princesa Sofia. Em seguida. De qualquer modo – e embora Leibniz tenha criado um amplo sistema de idéias dotado de "múltiplas entradas" –. pois estas constituem Sua natureza imutável. esteve em Viena. portanto. Sobre o Verdadeiro Método em Filosofia e Teologia. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. que uma coisa só pode existir necessariamente se. Parte considerável da obra de Leibniz e constituída por escritos de circunstância. Dilthey. a vontade do Criador (na qual se fundamenta o finalismo) submete-se ao Seu entendimento (racionalismo). a partir dessa idéia. Característica Universal. é a razão suficiente. ou seja. realizou seus principais trabalhos filosóficos. Saiu de Hanôver apenas para percorrer. Leibniz conservou a concepção segundo a qual o universo está organizado de maneira teleológica. o mundo criado por Deus estaria impregnado de racionalidade. outro de Aristóteles e da escolástica medieval. Essa síntese entre o racionalismo cartesiano e o finalismo aristotélico apresenta como núcleo uma série de princípios de conhecimento. Relativamente esquecido e isolado dos assuntos públicos. Para Leibniz. De Aristóteles e da escolástica. além de explicado ou demonstrado não ser contraditório (e sendo. onde conheceu o príncipe Eugênio de Savóia. Considerações Sobre o Princípio da Vida. Leibniz veio a falecer a 14 de novembro de 1716. . possível sua existência). cumprindo objetivos propostos pela mente divina. houver uma causa que a faça existir. ao qual dedicaria a Monadologia. pode-se tomar para ponto de partida da compreensão da sua filosofia dois temas provenientes de fontes distintas: um da filosofia de Descartes. O primeiro desses princípios é o de razão. Sobre as Noções de Direito e de Justiça. O princípio de razão afirma. a coisa em questão também existe realmente. é a razão necessária ou princípio de não-contradição. além de não ser contraditória. espécie de cálculo filosófico que lhe permitiria encontrar o verdadeiro conhecimento e desvendar a natureza das coisas. A Segunda exigência consiste em que. a Alemanha e a Itália. Em 1711. Ensaio de Teodicéia. Descartes forneceu-lhe o ideal de uma explicação matemática do mundo. Deus não pode romper Sua própria lógica e agir sem razões. Cálculo Diferencial e Integral. tudo aquilo que acontece. o Grande. apesar de ter sido um dos maiores responsáveis para que Hanôver se transformasse em eleitorado e para que fosse criada a Academia de Ciências de Berlim. acontece para cumprir determinados fins. Nessa época. Dentre seus escritos destacam-se: Sobre a Arte Combinatória. Discurso de Metafísica. O que é Idéia. realizando pesquisas em bibliotecas e arquivos destinadas a fundamentar suas missões diplomáticas. Conseqüentemente. científicos e filosóficos de seu tempo. considera que Leibniz perseguia um sincero ideal de síntese de todos os conhecimentos e das diferentes confissões religiosas de seu tempo.150 anos de sua vida. Monadologia. Leibniz encontrou diminuído seu prestígio. aparecendo unificadas na concepção de Deus. De volta a Hanôver. fazendo todas as conciliações possíveis.

Leibniz afirma. formulado por Descartes. da razão suficiente. Os princípios do melhor. A apetição consiste na tendência de cada mônada de fugir da dor e desejar o prazer. Nos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. mas a quantidade de força viva". embora apenas virtualmente. mas têm o poder interno de exprimir o resto do universo. Além dos princípios de razão (não-contadição e suficiência) e do princípio do melhor. a experiência indica que o que se conserva num ciclo de movimento não é – como pensava Descartes – a quantidade do movimento. essas eternas leis da razão. Cada representação por parte das mônadas é um reflexo obscuro. a mônada é um ponto de vista. A primeira é de tipo matemático e mecânico. Leibniz chega à idéia de que o universo é composto por unidades de força. segundo a qual a origem das idéias encontra-se na experiência. O finalismo sustenta. constitutivos da própria razão humana e. noção fundamental de sua metafísica. as mônadas. As notas que caracterizam as mônadas leibnizianas são a percepção. Pela percepção as mônadas representam as coisas do universo. a apetição e a expressão. passando de uma percepção para outra. explica os seres não como máquinas que se movem. Isto se deve ao fato de que o universo é múltiplo e infinito. Essa noção. portanto. além da causa eficiente que produz as coisas segundo o princípio de razão (nãocontadição e suficiência). Leibniz rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704). desse modo. enquanto toda a . Leibniz constrói uma concepção dinâmica. Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos e que sua diferença não é numérica nem espacial ou temporal. O princípio dos indiscerníveis daria conta da multiplicidade e individualidade das coisas existentes. cada uma de per si espelha o universo todo. as mônadas. Finalmente. o otimismo leibniziano do melhor dos mundos possíveis. contudo. inatos. mas errariam ao esquecer o papel do espírito. a mônada é a consciência. O finalismo é que sustenta o princípio do melhor: Deus calcula vários mundos possíveis. Leibniz chega também à noção de mônada mediante a experiência interior que cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma substância ao mesmo tempo una e indivisível. da não-contradição. Para Leibniz. a apercepção. A diferença é de essência e manifesta-se no plano visível das próprias coisas. a Segunda é dinâmica e moral. revelam-se não como extensão mas como forças. por outro lado. Os Fundamentos da Monadologia esforços e sem pesquisa. que deseja essa produção. O princípio da continuidade afirma que a natureza não dá saltos. não recebem seus conhecimentos de fora. A apercepção é a capacidade que a mônada espiritual tem de auto-representar-se. uma folha de papel em branco. da continuidade e dos indiscerníveis são considerados. ao contrário. mas intrínseca. boa e perfeita de Deus. Leibniz completa a fórmula de Locke – "Nada há no intelecto que não tenha passado primeiro pelos sentidos" – com o adendo "a não ser o próprio intelecto". a partir de si mesmas. Enquanto Descartes formula uma concepção geométrica e mecânica dos corpos. não se esgota na adição do atributo força ao conceito da matéria. intervém também nessa produção a causa final. mas é bastante que as descubramos em nós por um esforço de atenção. não tendo "portas sem janelas". por sua resistência e impenetrabilidade.151 Para Leibniz. Por isso. isto é. apenas uma "tabula rasa". isto é. O fim da produção das coisas é a vontade justa. como o édito do pretor é lido em seu caderno. com ele Leibniz pretende demonstrar que o mal é a simples sombra necessária do bem. a experiência só fornece a ocasião para o conhecimento dos princípios inatos ao intelecto: "Não se deve imaginar que se possa ler na alma. que dão conta da produção das coisas. assim como não há vazios no espaço. sem mundo sensível. mas faz existir o melhor desses mundos. assim também não existem descontinuidades na hierarquia dos seres. por Leibniz. cada ser é em si diferente de qualquer outro. uma vez que as ocasiões são fornecidas pelos sentidos". mas como forças vivas: "Os corpos materiais. Os empiristas teriam razão ao afirmar que as idéias surgem do contato com o Os princípios do conhecimento formulados por Leibniz levaram-no a uma concepção do mundo oposta à cartesiana. de refletir. Nesse sentido. O critério do melhor é sobretudo moral. jamais havendo consciência clara de todas as impressões. por exemplo. A partir da noção de matéria como essencialmente atividade. Leibniz faz com que intervenham também os princípios da continuidade e dos indiscerníveis. que as plantas não passam de animais imperfeitos.

A percepção consciente (apercepção) resulta do conjunto das "pequenas percepções". Deus escolhe o melhor dos mundos dentre todos aqueles que se apresentam como possíveis. Portanto. Isso explicaria a conservação das lembranças. pela mudança de todos os outros. Deus teria colocado em cada mônada. A imperfeição metafísica original de definiria. físico e moral. Para Leibniz. sua posição. revive o modelo estóico: o universo é concebido à semelhança de um organismo pleno. "É verdade". mesmo quando esquecidos no estado de vigília. apenas como uma não- explicar a presença do mal no mundo? . é necessariamente finita. com consciência e vontade. que se deve ouvir mesmo sem ter consciência. pois se ela não fosse imperfeita. como o ruído do choque de duas gotas de água. no instante da criação. Assim.152 substância. o trabalho da imaginação nos "bastidores da consciência". seria o próprio Deus. em Leibniz. todos os seus movimentos correspondem certas "percepções" ou pensamentos mais ou menos confusos da alma. Ao mesmo tempo. O corpo humano. afirmando inicialmente que o mal se manifesta de três modos: metafísico. O mal metafísico seria a fonte do mal moral. diz Leibniz. A noção de ordem. mas é preciso que eu tenha alguma percepção do movimento de cada vaga de um rio. os estados sucessivos da alma estariam ligados uns aos outros e a todo universo. assim estruturado. cada ponto de uma das séries é definido. assume feição diferente da que possuía em Descartes: desliga-se da de nexo linear e passa a se vincular à noção de "situação" (as situações resultantes das diversas séries que se entrecruzam). O Melhor dos Mundos Possíveis O racionalismo leibniziano tende à constituição de um saber globalizador. a cada instante. para Leibniz. seu desenvolvimento. próprio das simples mônadas enquanto são apenas "espelhos do universo". a alma também tem algum pensamento de todos os movimentos do universo. exatamente ao de todas as outras. e deste decorreria o mal físico. por seu lugar. o sistema de Leibniz estrutura-se como um conjunto de múltiplas séries que convergem e se entrecruzam. O pluralismo das séries convergentes que constituem o universo pode assim apresentar-se como pluralismo conciliado e harmônico. O sistema todo. os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras. de alguma forma. Em Leibniz. toda mônada. deixando em seguida que seus mecanismos operem sozinhos. corresponde. isso constituiria a harmonia preestabelecida. assim. é afetado. cujas partes convivem numa harmonia natural e onde tudo é análogo a tudo. O mal metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura. Dessa forma. todavia. Do ponto de vista lógico. de uma mathesis universalis. Leibniz afirma ainda que existem dois tipos de inconscientes: o inconsciente de percepção.. o conjunto todo organiza-se numa topologia. com exceção de Deus. por conseguinte. organiza-os com perfeição de maneira a marcarem sempre a mesma hora e dá-lhes corda a partir do mesmo instante.). não é possível "que nossa alma (mônada superior) possa atingir tudo em particular". isto é.. a fim de poder me aperceber daquilo que resulta de seu conjunto. dentro da complexa teia. Coloca-se então a questão: como Leibniz tentou responder a esse problema. esse grande ruído que se escuta perto do mar". isto é. a continuidade existente entre os seres não anula a diferença de natureza entre as simples mônadas e os espíritos. mas espelhos dotados de reflexão. A doutrina leibniziana da harmonia preestabelecida sustenta que Deus cria as mônadas como se fossem relógios. assim como a realidade dos sonhos. Graças a essa harmonia preestabelecida. conduz à possibilidade de tradução de uma ordem em outra. todas as suas percepções. os pontos de vista de cada mônada sobre o universo concordariam entre si. O inconsciente seria inerente a todas as substâncias criadas e seus diferentes graus seriam paralelos aos graus de perfeição dessas substâncias. "que não nos apercebemos distintamente de todos os movimentos de nosso corpo. A razão dessa diferença. pertencente apenas aos espíritos enquanto não são apenas espelhos. e o inconsciente da imitação. encontra-se no fato de que as mônadas não possuem o mesmo grau de perfeição: acima das "mônadas nuas" (corpos brutos que só têm percepções inconscientes e apetições cegas) existem "mônadas sensitivas" (animais dotados de apercepções e desejos) e as "mônadas racionais". criando-as de tal modo que cada uma se desenvolve como se estivesse só. como por exemplo o da linfa (. Assim.

É. de tal forma que o mundo comporta o máximo de bem e o mínimo de mal. (. que atravessou toda a Idade Média. porque Deus proporciona a todos as mesmas graças. mas não de seu atraso. o que é manifestado pelo seu individualismo. retomando Leibniz a concepção neoplatônica e agostiniana. tão rigorosa quanto as dos máximos e mínimos matemáticos ou as leis do equilíbrio.153 perfeição. Algumas passagens das obras do próprio Leibniz. responsabilizar o criador pela existência do mal. de humanismo e de imanentismo. tem percepções inadequadas e se deixa envolver pelo confuso. característico da idade moderna. metafísica original se definiria. porquanto espiritual e interior. ou mecânica metafísica. Entretanto. concluiria assim sua tentativa de síntese sistemática de uma filosofia que concebe o mundo como rigorosamente racional e como o melhor dos mundos possíveis. ou avançam depois de terem recuado. logo. responsável pela determinação do máximo de existência. pois aquilo que é perfeito pode contemplar o Bem. formulada por Leibniz. podendo ser considerado. Não se deveria. Deus autoriza o sofrimento porque este é necessário para a produção de um Bem Superior: "Experimenta-se suficientemente a saúde. assim também Deus é a causa da perfeição da Natureza. dominar. definir-se pela palavra: o homem potenciado. Deus escolheu o menor dos males. outras. assim como a correnteza é a causa do movimento do barco. como a reta. na Idade Média. que recuam depois de terem avançado. como a espiral. mas cada um pode se beneficiar delas de acordo com sua limitação original. deixam uma réstia de dúvida sobre seu otimismo: "Pode-se duvidar se o mundo avança sempre em perfeição ou se avança e recua por períodos. apenas como uma não-perfeição. isto é. gozar com meios humanos. O Humanismo pode.) Pode-se pois questionar se todas as criaturas avançam sempre. como as ovais". tal espírito era corrigido. Leibniz afirma que. Mas o início do Humanismo e da Renascença é rico de todos os germes que se desenvolverão no sucessivo período moderno. É uma multiplicidade de motivos indiscutivelmente dominada pelo espírito panteísta do neoplatonismo. pelo seu naturalismo que diviniza o homem material . um não-ser. a dor física seria expressão da dor metafísica. dominador da natureza. do Humanismo e da Renascença não é coisa fácil. falta ao Humanismo moderno a espontaneidade e a serenidade do paganismo antigo: o Humanismo moderno não descansará em um tranqüilo gozo da vida. um paganismo ainda mais radical que o antigo. da mesma forma que existem linhas que avançam sempre. senhor do mundo. Em decorrência da harmonia preestabelecida. sobretudo.. Na própria origem das coisas. como a circular. tão característica dos homens da época. pois trata-se de um período inicial. pelo seu estetismo. sem possibilidade de erro. particularmente no campo da prática. O mal físico é entendido por Leibniz como conseqüência do mal moral. e de que parece um retorno. mas uma substância imperfeita não é capaz de aprender o todo. em que se entretecem motivos multíplices. entretanto. sem nunca se ter estado doente? Não é preciso que um pouco de Mal torne o Bem sensível. ou.. religiosamente. pelo seu ardente interesse pelo mundo a conquistar. celebrado. e. finalmente. Dar uma documentação formal desse caráter pagão. apela. que a alma experimenta por causa de sua imperfeição. se existem aquelas que realizam períodos no final dos quais percebem não ter ganho nem perdido. para o qual o Humanismo. enfim. diz Leibniz. exaltado até à divindade. livre de si mesmo. outras que voltam e avançam ao mesmo tempo. O mal metafísico é a raiz do mal moral. isto é. imanentista. em que se poderá claramente conhecer a árvore pelos frutos. outras que voltam sem avançar ou recuar. contudo. de fato. A Renascença Características Gerais A Renascença é uma poderosa afirmação. o velho persiste ao lado do novo. imanentista. Segundo Leibniz. dando origem àquela duplicidade especulativa e prática. uma conseqüência física da limitação original e uma conseqüência ética. ao mesmo tempo. ao menos no final de seus períodos. assim.como já aconteceu no paganismo antigo. contudo. ou se existem também aquelas que perdem e recuam sempre. Ao produzir o mundo tal como ele é. com razão. punição do pecado. Maior?" A teoria do Mal. exerce-se uma certa matemática divina. mas procurará alimento no ativismo agitado e sem meta. . mas não de seus defeitos.

Na Renascença são representadas. e enaltecia não o Pobrezinho de Assis e sim o Príncipe Valentino.do pensamento grego e do jus romano .154 pela teologia católica e. realçando-lhes o conteúdo de humanidade. precipuamente a primeira. a política . pela escolástica tomista. medeiam quinze séculos. é o vértice da humanidade. a técnica. e. conhecedores profundos de Platão. nem podiam ser. em geral. mera obra do homem. monista e humanista . o aristotelismo.sem possuir uma metafísica consciente . mais propriamente. já não é mais possível o retorno à serenidade clássica de Aristóteles ou ao ascetismo imanentista dos estóicos. E valorizam-se as antigas escolas filosóficas. a unidade real e potencial dos grandes valores da civilização no valor sumo da religião. racionalmente. as escolas filosóficas clássicas em sua espontaneidade original. a história. em si mesmos. Naturalmente não são. do Humanismo e da Renascença: uma alma pagã. Entretanto foi o Concílio de Florença (1439) que deu um impulso decisivo aos estudos platônicos na Itália ¾ bem como aos estudos aristotélicos e dos filósofos clássicos. e sustenta ou a interpretação naturalista de Alexandre de Afrodísia. tal conhecimento e valorização diziam respeito aos maiores filósofos gregos. são infrafilosóficos. o estoicismo. mais ou menos. em especial a Aristóteles. portanto. que seria uma contradição em termos. O aristotelismo da Renascença exclui. naturalmente.a ciência. Mestre Eckart). em que não será difícil separar o elemento interior do elemento exterior: se se considerar. iniciando. todas as escolas filosóficas antigas: o platonismo. de volta de Constantinopla. ao contrário. Domingos de Gusmão e Tomás de Aquino. neoplatonismo: já porque assim se tinha fixado na antigüidade e neste sentido influenciara toda a Idade Média (pseudo Dionísio Areopagita. ou a panteísta de Averroés. presente em todas elas. devido à queda de Constantinopla . No entanto. O Platonismo O ídolo da Renascença é Platão: artista e dialético. indiferentes a qualquer concepção da realidade. volta-se à sancta antiquitas.racionalista. profundamente influenciados pela mensagem cristã. Outros vieram pouco depois. e prefere o paganismo ao cristianismo. Essa é a alma. não o valor. iniciador da ciência matemática da natureza. não obstante a variedade de suas orientações. um humanismo cristão. o significado. se se tiver presente Nicolau Machiavelli. se se pensar em Giordano Bruno. pois. mas tem consciência de que a sua doutrina . Esses elementos são essencialmente formais e estéticos porque a grande valorização cristã da civilização clássica . E os elementos novos do humanismo . o ideal da vida daquela época. destarte. E. Em 1404 Leonardo Bruni aretino (1369-1440) publicava a primeira tradução parcial de Platão. a renascença platônica. mas do século que se abre com Inocêncio III e se encerra com Dante. O platonismo é.está persuadido de que o Estado.não se podem dizer imanentistas antes que cristãos. ao lado do humanismo pagão. É uma dualidade composta de velho e de novo. o ceticismo e o ecletismo. em oposição ao espírito cristão. pois. não é obra dos séculos XV e XVI. levava para a Itália o conjunto completo dos escritos platônicos. o qual parece reconhecer a obscuridade e a incoerência do seu pensamento. Especialmente as duas primeiras e. teórico do amor e da beleza. a interpretação de Aristóteles dada por Tomás de Aquino. e viu Francisco de Assis e Antonio de Lisboa. após o aparecimento da Cruz. Esse Concílio foi convocado para a união da igreja grega com a igreja latina. o epicurismo. que chamava virtude a força. em geral. Scoto Erígena. entre estas. e chamou para a Itália vários doutores orientais. Na Idade Média o pensamento clássico foi bem conhecido e valorizado.é um crepúsculo preludiando o dia e não a noite. O Renovamento das Antigas Escolas Filosóficas Uma das manifestações características da Renascença é o renovamento das antigas escolas filosóficas. O renascimento cristão. que . clássicas. Na Renascença. Não há. estando acima da religião e da moral transcendente. já porque a sua fundamental concepção panteísta e o seu potenciamento do espírito humano podiam melhor corresponder ao imanentismo e humanismo da Renascença. Em 1429 o camaldulense frei Ambrósio Traversari. o maior filósofo da época. gregas. entre a classicidade e a Renascença.era já um fato consumado.

considerando o intelecto humano como sendo a atividade de uma essência transcendente e divina. que o presenteou com uma Quinta. em que acreditava seriamente. Como já foi dito. com o cristianismo. porquanto. no século XV. Também o aristotelismo. pela sua doutrina em torno de Deus e da alma. A escola averroísta. Sua idéia animadora é a exaltação do homem como microcosmo. de que era entusiasta. Famoso é Jorge Gemistos Pleton (1355-1450). Traduziu elegantemente. "Blasonava de poder disputar de omni rescibili . graças aos sábios gregos vindos para a Itália. Dotado da mais vasta e heterogênea cultura. Protegido por Cosme De Médices. neoplatônico.(1453) em mãos dos turcos. aparecem confusos no sincretismo neoplatônico. Esse escrito provocou uma resposta violenta ao aristotélico Jorge de Trebizonda (Comparatio Platonis et Aristotelis). Depois de Marsílio Ficino. onde teve sua sede a academia platônica. e a panteísta-neoplatônica. na Segunda metade do século XV surge e firma-se um platonismo italiano.e foi tido por seus contemporâneos como um prodígio de memória.apelando também para Tomás de Aquino . estabeleceu-se em Florença junto de Lourenço. Teodoro de Gaza e o já mencionado Jorge de Trebizonda. Prevalece a escola alexandrina. o Magnífico. Marcílio Ficino nasceu em 1433 em Figline Valdarno.1491). teve impulso. pode consagrar toda a sua vida aos prediletos estudos filosóficos. Outra idéia sua inspiradora é o conceito de uma continuidade do desenvolvimento religioso. que é a tendência especulativa dominante na época. contrasta o humanismo imanentista da mesma Renascença. e pela conseqüente possibilidade de concordar a sua filosofia com o cristianismo. Foi feito cardeal pelo Papa Eugênio IV e permaneceu na Itália.até o cristianismo: expressão do universalismo religioso da Renascença. como o platonismo.Zoroastro. ambas contrárias à interpretação tomista-cristã. tradutores de Aristóteles e dos seus comentadores. síntese do universo: conceito antigo. entretanto. é uma polêmica antiaristotélica. Faleceu em 1499. animador da célebre academia platônica florentina. o mais famoso platônico pode ser considerado João Pico della Mirandolla (1463-1494). Expôs o seu pensamento em uma grande obra (Theologia platonica de immortalitate animorum . Esta academia nasceu graças a um cenáculo de literatos. João Pico della Mirandola e o próprio Lourenço. Em 1473 foi ordenado padre e a sua vida foi muito austera no meio de Florença do século XV. mas que teve no humanismo do Renascimento um valor e um significado particulares. O centro foi precisamente Florença. além de outros neoplatônicos. Platão (1477) e Plotino (1485). 155 . eminente prelado da igreja oriental. para tratar da unificação da igreja grega com a igreja latina. para o latim. mas um eclético e suas finalidades eram morais. autor da obra Sobre a Diferença da Filosofia Platônica e Aristotélica. Aí entrou em contato com Marsílio Ficino. inspirando-se em Averroés. equilibrando-o filosófica e religiosamente. que. realmente. após várias peregrinações. cooperando eficazmente para o incremento do ressuscitado helenismo. Platão . entre os quais lembramos. o aristotelismo da Renascença se distingue em duas correntes principais: a naturalista inspirando-se em Alexandre Afrodísio. que influiu no seu temperamento exuberante e passional. Sua atividade principal foi traduzir. que vai desde os antigos sábios e filósofos . Fizeram parte deste cenáculo Poliziano. Seu principal representante foi Marsílio Ficino. Orfeu. Depois desse platonismo de importação oriental. Aos 18 anos sabia 22 línguas"! O Aristotelismo Não é sempre fácil distinguir o aristotelismo do platonismo da Renascença.sustenta a superioridade de Aristóteles sobre Platão pelo seu espírito científico. onde foi celebrado o famoso Concílio. replicou contra Jorge de Trebizonda o seu concidadão Basílio Bessarione (1403-1472) com o escrito In calumniatorem Platonis. Este filósofo . o Magnífico. que professa verdadeiramente um ecletismo baseado no platonismo e no cabalismo. freqüentemente. autor de De dignitate hominis. Bessarione. Pulci. Pitágoras. artistas e pensadores. veio para a Itália com o séqüito do imperador João VII Paleólogo. Entretanto não foi um metafísico. amigos da casa De Médicis.escreve Franca . cujo imanentismo naturalista é mais conforme ao espírito do Renascimento. em que procura concordar o platonismo. Da parte platônica.

professor em Lovaina. na Renascença. e de Manuductio ad stoicam philosophiam. Seja como for. Aristóteles sustentara ser a arte . Valla oscila entre a sua negação e uma representação no sentido hedonista. alexandrista. mas tornou-se ideal de vida moral em lugar do cristianismo. a variedade e o contraste das diversas escolas e tradições (filosóficas e religiosas). considerada causa de perturbação. O Epicurismo O epicurismo. Dominador das coisas e dos eventos. no século XV. em especial por parte dos literatos. É célebre o seu opúsculo Sobre a Imortalidade da Alma.uma imitação da realidade. que julgava salvar a fé deprimindo a razão. em o século XIV. Neste opúsculo conclui em favor da mortalidade da alma. publicado em Bolonha em 1516. tendo esta atacado. freqüente e violentamente. a moral estóica. quer estóico. E também este novo ceticismo renascentista surgiu mais por fins práticos do que por motivos teoréticos. mais ou menos ajustada ao cristianismo. imanentista e mundano da Renascença. escola de energia e de conforto.bem como a história . em torno de que se disputou longa e fervidamente. autor do famoso livro De voluptate ac de vero bono. e incapaz de levantar grandes construções sistemáticas. melhor do que o estoicismo. O expoente mais notável dessa tendência epicurista é Lourenço Valla (1407-1459). professor de filosofia nas universidades de Pádua. contra a concepção transcendente e ascética cristã. uma certa conciliação entre epicurismo e cristianismo. naturalmente. onde o autor compara a moral estóica e a epicurista. Entretanto. autor de De Constantia. quer cristão. condizia com o espírito humanista. porém. literária. Respondiam a Pomponazzi. o acidental. da concretidade. o mundo. são duas expressões práticas desse espírito epicurista. ao passo que a história tem como objeto o particular. onde faleceu em 1525. em oposição ao pensamento antigo e medieval. voluptuosa e artística da cortes esplêndidas da época. Nem a morte pôs termo àquela polêmica. justificada como sendo a filosofia do vulgo. Os motivos mais específicos que deram origem ao ceticismo da Renascença foram: a sede do individual. O estóico mais notável da Renascença foi o belga Justo Lípsio (1547-1606). da poética. Em torno deste tema se travam as disputas mais variadas. para finalidade prática e pedagógica.O mais famoso entre esses novos aristotélicos é Pedro Pomponazzi. a religiosidade persistente. no fundo. com esta última. a vida. Nifo (averroísta) e Contarini (tomista) com dois ensaios tendo o mesmo título (Sobre a Imortalidade da Alma). simpatizando. em especial na vida gozadora e requintada. O estoicismo renascentista enaltece o homem. e tente. porquanto tem como objeto o universal. o contingente. por obra de Jorge Valla. esse seu racionalismo com a religião cristã. cuja primeira tradução remonta ao ano de 1498. negador da ação. desfrutou de grande favor junto dos filósofos das mais diferentes tendências nos séculos XVI e XVII. o necessário. e Pomponazzi replica como uma Apologia (contra Contarini) e com um Defensorium (contra Nifo). e Lourenço. Para conciliar. voltados para o universo e o abstrato. a paixão pela observação detalhada própria do pensamento moderno em geral. a arte é superior à história. a religião. João Boccaccio. autor do Decamerone. apaixonada pela estética. recorre a certas distinções que relembram a velha teoria averroísta das duas verdades: a religião é. o contraste entre a 156 . nascido em Mântua em 1462. Ferrara e Bolonha. pois. O Estoicismo O espírito autônomo da Renascença devia provar viva simpatia para o sábio estóico. impassível. uma fortuna especial no campo da estética. é preso pela ação. o Magnífico. sustentando que esta realiza o seu fim último na vida terrena. O aristotelismo teve. a mentalidade literária da época. Parte-se da Poética de Aristóteles. O estoicismo não foi apenas objeto de admiração cultural. O estoicismo da Renascença. Quanto à vida futura. a essência das coisas. mas fica decididamente hostil ao ascetismo. O Ceticismo Também o ceticismo da Renascença foi inspirado pelo ceticismo clássico. e também na literatura e no pensamento. diversamente do estoicismo clássico.

de direito são dela independentes. necessariamente. a que tudo deve ser subordinado. Então é preciso organizar naturalisticamente e subordinar mecanicamente um complexo de paixões e de egoísmos a um egoísmo maior. e sim como caráter. tanto os indivíduos como todos os valores. o seu grande início. voltou ainda à pátria. chamado pelos amigos. não resolvem. são independentes de qualquer filosofia: porquanto. inteiramente absorvidos pelo universal e pela transcendência. semelhante à cristã. mundanas. quase que desconhecidos do pensamento clássico e do pensamento medieval. ainda que o seu pensamento seja alicerçado na metafísica do humanismo e do imanentismo renascentista. francês. Estas duas grandes conquistas  história e ciência  embora se apresentem em conexão com a filosofia imanentista. não filósofo. A expressão clássica da nova ciência política é Nicolau Machiavelli. é o autor dos famosos Essais: "Que sais-je"? O seu interesse é voltado para o estudo do eu. Faleceu em 1527. e na ciência natural. obscuro e abandonado. aliás. Destituído e exilado. É preciso constituir uma ciência política sobre a base de um utilitarismo rigoroso. A este propósito é característica e intuitiva a comparação que Machiavelli faz entre o cristianismo católico e o paganismo antigo. Daí a máxima famosa: o fim justifica os meios. e não reconhece poder algum humano superior a ele.atinge a paz abandonando-se à diretriz da natureza. que o cristianismo oferece. naturalista da época. É o fruto do vivo interesse e da penetrante observação da experiência e da concretidade. Entre seus escritos têm particular interesse filosófico Il Principe e os Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. história e ciência. . ficando no âmbito da experiência. Este . está na história humana. Daí a necessidade da fé. concluindo em favor da superioridade (política) do segundo. ao passo que o cristianismo é uma concepção e uma praxe transcendentes e ascéticas. Daí derivam. Ele também não foi filósofo. mas de uma fé em que Deus serve ao homem. O que especialmente emerge em Montaigne é o individualismo da Renascença. o grande valor. Tudo o mais lhe parece incerto: os sentidos enganamnos. tem que transcender o próprio campo da experiência. em que tudo é subordinado ao estado. A experiência histórica lhe diz que a natureza do homem é profundamente egoísta e malvada. a maior conquista do pensamento da Renascença. a razão perde-se num labirinto infindo. Ele tem do homem uma concepção pessimista. Indivíduos e valores devem servir unicamente como instrumentos de governo. nem podem resolver o problema filosófico. centro unitário das mais variadas experiências humanas. mas sem a explicação (o pecado original) e sem o remédio (a redenção pela cruz). o do príncipe e do estado.como já pensavam os céticos antigos . E a maior expressão da ciência nova é Galileu Galilei. mas teórico e técnico da renovada ciência da natureza. e sim teórico da técnica política. O ceticismo da Renascença tem seus maiores expoentes fora da Itália. como. em seguida. e o maior é Montaigne. a moral varia conforme os tempos e os lugares. A Renascença A Política Nova e a Ciência Nova A prescindir da arte e da literatura. partindo do terreno realista da experiência e prescindindo de qualquer valor espiritual e transcendente. Miguel de Montaigne (1533-1592). cuja solução. não como substância espiritual. e podem ser aniquilados pelo estado. ético e religioso. Machiavelli propõe-se o problema: como constituir um estado. mesmo que tenha veleidades e faça afirmações de alcance metafísico. humanista. Nicolau Machiavelli Nicolau Machiavelli nasceu em Florença em 1469. O fim último é o estado. até os morais e religiosos. na Renascença.157 exigência religiosa e o paganismo da vida que surgia de novo. Foi secretário e historiador da república florentina. a ciência política e a técnica científica (ciência aplicada) que tiveram. Precisamente pelo fato de que o paganismo representa uma concepção e uma praxe humanistas.

mas. instrumento precioso. tendo defendido com persistência o supradito sistema. inclinados profundamente para o mal. Galileu. Leonardo fez uma notável quantidade de pesquisas e de invenções preciosas no campo das ciências: em matemática. diversamente daqueles dois filósofos que partem da experiência para transcendê-la e construir uma metafísica geral e especial. ainda que deva mirar a um ideal superior e imutável. isto é. dependem todos os valores e todo o ser. o livro da natureza é escrito com caracteres que são "triângulos. Entretanto. Entretanto. Passou seus últimos anos de vida na vila de Arcetri. etc. bem como o aconselha a encaminhar para a milícia e para a guerra. valorizar os homens efetivamente egoístas e inclinados ao mal. aconselha-o a respeitar plenamente a religião (católica). perto de Florença. Galileu fica no âmbito da própria experiência. onde faleceu em 1642. por vezes. . sobretudo em Galileu Galilei. o Diálogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632). pois. a política de Machiavelli não está em contraste com uma ética humanista e imanentista. muitas vezes. astronomia. essencialmente imutável. Leonardo da Vinci. que seria a razão que governa o mundo natural. a instintiva ferocidade humana. Galileu Galilei As ciências físicas e naturais. aliás. geologia. Entre suas obras são famosas: O Saggiatore (1623). tem que ter os pés sobre a terra. Não nos interessa como artista. Entretanto. acontece também na moral individual no caso do assim chamado conflito dos deveres). isto é. para colher os fenômenos e suas leis. que foi causa do segundo processo. têm na Renascença a sua maior expressão em Leonardo da Vinci e. para colher as essências imutáveis das coisas. terá de agir com força decidida e com refinada prudência. na sua essência. A doutrina política de Machiavelli todavia. convencido de que era mister partir da experiência. isto é. nascido perto de Florença em 1452. de conformidade com o espírito católico e concreto da Contra-Reforma. Como Aristóteles e Tomás de Aquino. em geral. o que é verdade. que condenou aquele sistema (1616). variável. é indispensável a fim de que o homem realize a sua natureza racional: é ético o estado. com base na profunda experiência humana. em harmonia com os ideais e as conquistas da idade nova. as seguir. livro polêmico contra os aristotélicos. círculos. Neste sentido conceberá a política o piemontês João Botero (1540-1617) na sua obra Della ragione di stato. será preciso subordinar um princípio moral a outro princípio superior da moral (como. o estado. E. Pela sua defesa do sistema astronômico de Copérnico (heliocêntrico) foi para Roma onde foi processado pelo Santo Ofício. porquanto a moralidade. para chegar à razão. Aplicou a matemática à física. embora receba de Deus a sua eticidade transcendente.158 A política de Machiavelli foi acusada. pelo que diz respeito em especial à astronomia. nascido em Tosacana (Pisa) em 1564. o grande metodólogo da ciência natural é Galileu Galilei. mas como cientista. conserva um grande valor também para a concepção transcendente do mundo e da vida. pois o estado. deverá ser leão ou raposa  no dizer de Machiavelli. disciplinar. se se confrontar com uma concepção transcendente e ascética do mundo e da vida. mecânica. em que se revela um gênio soberano e um teórico genial. Galileu está convencido de que o conhecimento humano deve firmar-se na experiência. em Florença. e o Diálogo delle scienze nuove (1638). como é a teísta e a cristã. e sim transcendentes (como todos os valores absolutos). pisar na realidade concreta. em Roma e na França onde faleceu em 1519. Aplicou ele imediatamente à técnica. exercitou a sua profissão de artista e técnico em Milão. Ensinou nas universidades de Pisa e de Pádua. à matemática. de imoralidade. Leonardo não deixou obras sistemáticas e editadas. como de Deus. ao domínio da natureza. em Copérnico e Kepler. seus princípios teóricos. quadrados. foi processado e condenado novamente em 1633. Galileu estuda o mundo não para conhecê-lo metafisicamente. Tais leis julga Galileu sejam as matemáticas. não é o estado e sim Deus. por exemplo aconselha ele ao Príncipe ocultar prudentemente suas fraquezas eventuais. em Florença. técnico e teórico da ciência. aliás. para a concretização dessa concepção transcendente da vida. como matemático e filósofo. e os meios para atingir o fim último não são substancialmente variáveis conforme as circunstâncias dos tempos e dos lugares. física. que não tem fins transcendentes e leis morais estáveis. histórica. fisiologia. para conservar a reputação real. mas fisicamente. deriva da natureza racional do homem. Nesta obra. e sim uma grande quantidade de apontamentos e bosquejos preciosos. anatomia. Deve organizar. Por isso. botânica. publicados mais tarde. indispensável para tornar politicamente dóceis os homens.

pirâmides e outras figuras matemáticas muito aptas para tal leitura". Com Galileu começa a tendência da filosofia moderna . quando confirmada experimentalmente. está evidentemente em contraste com o seu fenomenismo. Para constituir a ciência. com que estava de fato. o Sol está imóvel no centro do sistema e giram-lhe em volta os planetas e também a Terra que tem duplo movimento: diurno em volta do próprio eixo. ao passo que considera subjetivas (transformação das objetivas por obra dos nossos órgãos sensoriais) as propriedades qualitativas: a cor. que explica o equilíbrio dos corpos celestes. sem razão. do outro lado. Quanto ao procedimento metódico e particular para construir a ciência. Neste processo não há duvidar da boa fé de Galileu. Esta. permanecendo entre os limites da experiência. por conseguinte. Caberá mais tarde a Newton completar o sistema com a grande lei da gravitação universal. finito.159 esferas. que não concernem à história da filosofia. especialmente na Itália. que a ciência moderna. b) a hipótese. pela pretensão de explicar tudo matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da realidade. Nicolau Copérnico nasceu em Thorn. o movimento dos corpos celestes é circular e uniforme. escapando ao alcance da físico-matemática.que serão mais tarde chamadas qualidades secundárias. contrariamente ao afirmado agnosticismo galileiano sob este aspecto cientificamente fecundo. Leibniz. e será tão fecundo em resultados práticos.de reduzir a metafísica à física. que constituía a base racional da religião. a saber. Daí a explicação da matemática à física. adquira consciência da sua limitação. o calor . a doutrina astronômica heliocêntrica chama-se copernicana. pois o atomismo mecânico implica evidentemente uma concepção materialista da realidade. portanto. cujo objeto próprio são as idéias. etc. a alma nem sequer o elemento qualitativo da realidade empírica. De volta à pátria. sendo seu verdadeiro fundador Copérnico. a posição. católico convicto. anual em volta do Sol. julgava-se erroneamente. Deus. E tal atomismo mecânico está logicamente em contraste com a convicção religiosa de Galileu. portanto. E temos. uma ciência . . que é a verificação da hipótese. pessoais. nem da dos seus juizes. Galileu distingue três momentos principais: a) a observação. que se julgava. universal e necessário da ciência moderna. todos os corpos celestes são esféricos. Ele também segue o princípio de que a natureza é governada por leis matemáticas: ubi materia. porquanto constitui sempre uma filosofia da natureza. que Galileu pressupôs para a sua gnosiologia empirista-matemática. o sabor. e não pretenda tornar-se metafísica. o número . O seu sistema astronômico pode ser assim resumido: o mundo é esférico. em 1473. técnicos. mesmo no seu aspecto racional-matemático. acarretaria consigo a ruína da filosofia. uma sólida filosofia. o frio. retirou-se para Frauenburg. c) a experimentação. terá de se libertar de igualmente infundada pretensão de que também a ciência natural seja filosofia. e dedicou-se às meditações astronômicas. transforma-se em lei. Deste modo. cones. o seu princípio racional é matemático: é físico-matemática. quantitativa. sentido e discurso. cujo resultado publicou na famosa obra De obrium coelestium revolutionibus. Esta. como diz Galileu. os sistemas.que serão mais tarde chamadas qualidades primárias. o som. e se julgava de direito. de um lado. e não os homens e suas intenções. Em todo caso devemos prescindir de tais questões práticas. sobremaneira prejudicou à metafísica tradicional na idade moderna. poderá logicamente separar-se da física aristotélica e da astronomia ptolemaica. ibi geometria. o movimento. ligada. cuja ruína. Temos. mecânica. A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional O atomismo mecânico. liame este que. Será mister. como ficou evidente também pelo famoso processo de Galileu. O que é irredutível à quantidade é considerado como subjetivo. historicamente. por sua parte. onde era cônego. Spinoza. metafísica. o tamanho. Como é sabido. Estudou em vários lugares. A ciência galileiana é. resultando assim a físico-matemática: o que constituirá o elemento verdadeiramente racional. porquanto não se podem reduzir à quantidade o espirito. na Polônia. é mister a experiência e a razão. publicada em 1543 e dedicada ao papa. entre os quais se destaca São Roberto Belarmino. E destarte será ela inteiramente valorizável e conciliável com a metafísica tradicional aristotélico-tomista. conexa necessariamente com a ciência da época.que se manifestará claramente no racionalismo de Descartes. Pretensão evidentemente infundada. Galileu considera objetivas as propriedades geométrico-mecânicas: a figura.

conseqüentemente pode-se e deve-se compor a filosofia tradicional com a ciência nova. em 1660. heliocêntrico. Estudou filosofia no colégio "De la Marche" e teologia na Sorbona. o racionalismo cartesiano entra em síntese com o panteísmo neoplatônico. o temor da crítica demolidora.160 prodigiosa. Estas são as duas fontes principais do seu pensamento. entretanto não ousa afirmá-lo como substância única. Faleceu em 1715. sofre um regresso sobre a linha do seu lógico desenvolvimento panteísta e racionalista. Foi profundamente influenciado pelo agostinianismo dominante no Oratório. e a outra tese da infinidade dos mundos. As principais obras são: Recherche de la vérité (1674-1675). sobre a base de um inicial platonismo comum. e também ele recorre a Deus para explicar as relações entre o espírito e a matéria. por parte da igreja católica. Pisando as pegadas de Agostinho e de Descartes. Méditations chrétiennes et métaphysiques (1683). Acrescenta-se a tudo isso. e pelo cartesianismo.como deve ser .temor confirmado pela veleidade de interpretação da Sagrada Escritura. o segundo. não pode vir a estar em contraste com a filosofia e a teologia. As obras de Malebranche tiveram grande êxito e levaram-no a várias polêmicas. presente a tese geral do matematismo universal. a gnosiologia de Malebranche desvaloriza o conhecimento sensível. Entrando jovem na Congregação do Oratório. Spinoza resolvera o primeiro mediante o seu rígido monismo da substância.e se tivesse consciência da sua relatividade. pelo que diz respeito ao segundo. o cartesianismo entra em síntese com o agostinianismo. Vida e Obras Nicolau Malebranche nasceu em Paris em 1638. pelo que diz respeito ao primeiro problema. é particular e contingente. afilosófica. Visto essas idéias serem necessárias e universais. por parte de Galileu.como Descartes e Spinoza . erradamente. declara as idéias eternas e imutáveis. como a sensação. O Cartesianismo Nicolau Malebranche Com Spinoza. Entretiens sur la métaphysique et sur la religion (1688). entre a filosofia tradicional e a ciência nova. A oposição entre sistema ptoleimaco e sistema copernicano. chega a conceber Deus como causa única. se permanecer nos limites da experiência . Traité de morale (1684). verdadeiras objetivamente. procurando conciliá-las no seu sistema filosófico. nega também ele . pois. acima de tudo. a saber. não só não podem derivar da sensação. O Pensamento: A Gnosiologia Como Descartes e o conseqüente racionalismo. mas nem sequer ser produzidas pelo espírito humano. mediante o famoso paralelismo dos atributos extensão e pensamento na substância. Malebranche. exteriores ao sujeito que conhece. se punha em contradição com a filosofia tradicional e em conexão com a nova filosofia humanista e imanentista. E se compreenderá então historicamente o processo e a condenação de Galileu. Mas. que teve tão grave manifestação no livre exame protestante . se julgava derivar do sistema copernicano. para ajustá-la à nova astronomia. nada mais são que o próprio objeto inteligível presente ao nosso pensamento: são idéias ontológicas. claras e distintas e.toda interação entre espírito e matéria. são os arquétipos . foi ordenado padre em 1664. ao mesmo tempo. As idéias. erradamente. Dos dois problemas fundamentais deixados em herança por Descartes (relações entre Deus e mundo. Com Malebranche. que. indiferente. cessaria no dia em que se adquirisse consciência da natureza infrafilosófica. devido ao teísmo e ao cristianismo que Malebranche se esforça por conciliar com o cartesianismo. cujo objeto é metafísico. A ciência. Tenha-se. que. da ciência. entre espírito e matéria). especialmente os sentidos externos e atribui às idéias todo o valor do conhecimento. portanto. com suas inevitáveis conseqüências materialistas. portanto.

da sua natureza. Malebranche baseia esta doutrina em duas teses de origem cartesiana: em física. necessários e universais. As relações . produzir alguma coisa. porque temos a idéia clara de extensão inteligível. a fim de explicar plena e verdadeiramente o homem na sua realidade atual. ele só atinge a existência contingente. mas apenas o que há nele de imitável. mas.ao contrário das idéias . admite uma pluralidade de substância. para o pecado original. Temos dele uma idéia clara. o que as idéias não podem fazer. não é causa produtora. único elemento constitutivo das coisas materiais. Temos uma intuição da sua existência. os filósofos "são obrigados à religião (revelada). vemos a extensão inteligível em Deus. não propriamente a Deus. bem como o erro no conhecimento. nem da alma sobre o corpo. A Metafísica Se bem que malebranche afirme que Deus está intimamente presente ao nosso espírito como revelador das idéias. Assim. em todo caso. mas no sentido de que é capaz de suspender a ação divina em si: suspensão (antes de que produção) de efeitos. nem do corpo sobre a alma. Não há.é racionalmente confuso. Como não temos uma idéia clara de Deus. ele só é causa e atividade. espírito e matéria. e as assim chamadas causas segundas não passam de ocasiões para o operar da causa única divina (ocasionalismo).161 eternos e imutáveis. Aspecto característico da moral de Malebranche é o apelo para o cristianismo e. Malebranche teística e cristãmente afirma Deus criador dos espíritos e da matéria: quer dizer. Temos. isto é. precisamente. A respeito das relações entre Deus e o mundo. a impossibilidade de uma interação entre corpo e alma. julga ele que seja essencialmente incognoscível. a vontade. Para demonstrar a existência de Deus. Dessa maneira. tais idéias estão na mente de Deus e nele nós temos a intuição delas (ontologismo). material. isto é. logo.a interação entre as coisas materiais de um lado e os espíritos humanos do outro. causalidade ativa nem dos corpos entre si. inércia natural da extensão. que . das coisas. A Moral Malebranche procura conciliar essa atividade universal divina com o live arbítrio humano. caro aos platônicos e aos agostinianos. A respeito da natureza de Deus. Noutras palavras: nós vemos. e tal idéia se torna representativa de Deus pelo seu caráter de infinidade. sente ele a necessidade de provar a existência de Deus na sua realidade subsistente e de determinar-lhe a natureza. Malebranche recorre substancialmente ao sólito argumento ontológico. Deus opera diretamente em todas as criaturas. Toda energia produtora de ser e de atividade pertence propriamente a Deus. em psicologia. encontram só no pecado original a causa única que os explica. tanto assim que é mister a revelação cristã. Diversamente afirma a unidade da causa. assim não temos uma idéia clara da nossa alma. Acontece o contrário a respeito do mundo físico. . livre embora. pois só ela pode tirá-los do embaraço em que se encontram". O homem é livre não no sentido de que seja capaz de fazer. trata-se de uma percepção sensível inferior à da existência do espírito. para que estejamos propriamente certos da sua existência. um sentimento. Sem o pecado haveria perfeita harmonia entre corpo e espírito. Esta visão é possível porque Deus está intimamente presente ao nosso espírito e lhe pode revelar a sua essência porquanto é comunicável. porquanto não há causas segundas. A única idéia clara e distinta que temos é a de extensão inteligível (e de seus modos). entre alma e corpo . porém. pois nós não temos uma idéia clara e distinta do infinito. um sentimento confuso da existência atual do mundo material. impulso e vontade.dependem de Deus e são produzidas diretamente por ele segundo a doutrina do ocasionalismo. sensibilidade e pensamento. que nos diz ter Deus criado o mundo. quer dizer. A desordem das paixões.

O resultado é que a necessidade universal permanece. Malebranche tentara a síntese do racionalismo com o platonismo agostiniano.iniciou-o no conhecimento da igreja católica e introduziu-o na Corte eleitoral de Mogúncia. Foi um autodidata desejoso de tudo conhecer. E chegará também à negação da realidade material. com a supressão do mundo físico. Entretanto. tomou contacto com Malebranche. Mais profundamente ainda. professor de moral na . inventor. que constituía um perigo contínuo contra a Alemanha. Pádua. Também Malebranche influenciou profundamente Leibniz. como conselheiro áulico e bibliotecário. mas publicada postumamente em 1765). em seguida. estudou filosofia e história da filosofia. As fontes culturais e filosóficas de Leibniz são muitas e várias. chefiou uma missão diplomática junto de Luís XIV. Spinoza influiu sobre Leibniz. Deve-se ainda acrescentar uma copiosa correspondência filosófica. o racionalismo abre as portas ao idealismo. O barão de Boinebourg convertido ao catolicismo . Entre outros. escritas pela maior parte em francês e em latim. escrita para resolver o problema do mal e publicada em 1710. Conheceu certamente o pensamento da Renascença. tanto assim que do ocasionalismo de Malebranche surgirá a harmonia preestabelecida de Leibniz. matemática e jurisprudência. Entre os filósofos antigos preferiu Platão e Plotino. Eis as principais: Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano (crítica ao Ensaio de Locke. Guilherme Leibniz nasceu em Leipzig. Estudou Suarez e Tomás de Aquino. Leibniz tentará uma síntese mais vasta. para induzir o Rei Sol a dirigir contra os turcos a sua atividade de expansão. visitando Veneza. Realizou outras viagens a Viena e Berlim. que ele fundiu em um ecletismo superior. Estudou também o empirismo. para os quais teve estima no que concerne ao pensamento. escrita em francês para o príncipe Eugênio de Sabóia em 1714 e publicada postumamente. escrevendo contra o Ensaio sobre o Intelecto Humano de Locke os seus Novos Ensaios sobre o Intelecto Humano. formando-se em direito em Altorf em 1666-1667. ainda que sobre um plano mais rico e superior. que pode ser considerado spinoziano de fato se não de intenção. Entre 1672 e 1676. parou na Holanda e visitou Spinoza. São ensaios ocasionais e esporádicos. Seu pai era um jurista. Diversamente de Spinoza e de acordo com Malebranche. As obras de Leibniz. da res extensa. Seu sistema é uma afirmação do monismo spinoziano. conheceu também Newton. ocupando-se com escrever a história da casa Brunschwig foi à Itália. também o panteísmo. composta em 1701. do cálculo infinitesimal. correspondendo-se com Bossuet para este fim. Aristóteles influiu nele sobretudo pelo que diz respeito à lógica. onde fundou a Sociedade das Ciências. em 1646. Faleceu em Hannover em 1716. como ele. e que. mas de grande penetração e agudeza crítica. não constituem uma elaboração sistemática e completa do seu pensamento. Teodicéia. e. Durante uma viagem a Londres. resolvendo a realidade material em uma aparência fenomênica do espírito. em especial o neoplatonismo renascentista. Academia Prussiana. Indo de Paris para a sua nova sede. Vida e Obras universidade. Leibniz travou relações com os maiores filósofos e cientistas da época. Fez tentativas para a união das igrejas protestante e católica e para a federalização política das nações cristãs.162 Guilherme Leibniz Spinoza tentara a síntese do racionalismo cartesiano com o panteísmo neoplatônico. Em 1676 foi convidado por João Frederico de Brunschwig para a corte ducal de Hannover. procurará compor a necessidade racionalista-matemática com a contingência e a liberdade. Entretanto foi o cartesianismo o sistema filosófico que influiu mais profundamente sobre Leibniz. a do pensamento aristotélico-tomista com o empirismo moderno. Roma e Nápoles. também antigas e medievais. devido sobretudo ao racionalismo matemático. chamada. Monadologia. A missão fracassou. logo. criticando entretanto a forma deles. que ele procurou conciliar com uma concepção dinâmica da realidade. Florença. Ficou até à morte naquele emprego.

o mundo físico. também as proposições contingentes verdadeiras seriam racionais e demonstráveis. ou Deus. Isto quer dizer. reflete todo o universo de um determinado ponto de vista. fundamentais. Leibniz chama-os mônadas. não há duas mônadas perfeitamente iguais. Mas. 3.ª) mônadas racionais. o princípio de razão suficiente na realidade criada.ª) mônada suprema. representativa: cada uma representa. Entretanto. seria um conjunto de mônadas de grau diverso.realidade única informada por uma alma côsmica recorda a tão combatida Substância spinoziana. A matéria. para quem a penetrasse até o fundo. enriquecidas de conhecimento científico e consciência reflexa. Leibniz distingue quatro grandes ordens: 1. que constituem o corpo. nem esta sobre o corpo. o indivíduo humano. Conforme o seu conteúdo representativo. a matéria. em virtude da qual a uma modificação física corresponde uma modificação psíquica e vice-versa. que constituem o reino mineral e as plantas. Não apenas o homem é um microcosmo. dotada de percepção. seriam necessárias como as outras. ou almas humanas. as verdades de razão (juízos necessários de essência). mas também finalisticamente. Deus. esta deve proporcionar o método para inventar e demonstrar todas as ciências. constituindo a alma. mas cada ser é um microcosmo. a corporeidade. Afirma Leibniz. As verdades de razão fundamentam-se sobre o princípio de indentidade. "Nesta escala. necessário. "A substância é um ser capaz de ação". Para Leibniz. O homem. um fundamento. imediatamente evidente. da realidade. feita por Leibniz dinâmica. de um ponto de vista absoluto. como explicar a ordem do universo? Leibniz responde com a célebre teoria da harmonia preestabelecida. Elas não têm relações recíproca: "as mônadas são sem janelas" . mais ou menos. Negada às mônadas a faculdade de agirem transitivamente. As verdades de fato seriam representadas por juízos de experiência.ª) mônadas nuas. 4. a sua imensa série se dispõe em escala hierárquica ascendente. teria. isto é. A uma mônada central. A realidade apresenta-se indiscutivelmente sob dois aspectos: um idêntico. A Metafísica A Metafísica de Leibniz é a doutrina das mônadas (monadologia). mais ou menos elevado. com respeito a nós. universal. da ínfima mônada até à suprema. quoad se. As mônadas são eternas. inúmeras. em que o predicado tem identidade com o sujeito. A ordem entre elas é explicada pela harmonia preestabelecida. e o outro diverso. tais verdades reduzíveis a juízos. o conceito tradicional de Deus. as mônadas são dotadas de propriedade de perceber (pampsiquismo). criadora e ordenadora de todas as outras. Este Absoluto . causa eficiente de todas as outras". porém. é um fenômeno. particular.ª) mônadas sensitivas. devido à nossa ignorância. desenvolvendo-se não apenas matematicamente. Deus seria a mônada suprema. constituem as almas dos brutos. capazes de representação consciente ou apercepção. ab aeterno. não tem existência real. Os elementos primeiros. uma aparência da psiquicidade. regularizou todas as ações das mônadas de tal forma que . e são concebidos como átomos espirituais dotados de atividade. dotadas de representação insconsciente (pampsiquismo). absolutamente perfeita. Então Leibniz procura conciliar a necessidade do racionalismo com as exigências da contingência: as verdades de fato seriam contingentes quoad nos.diz Leibniz. Leibniz distingue. nem todas percebem conscientemente. ativa. Deus. Este todo é regulado pela harmonia preestabelecida. seria verdadeiramente o antecendente lógico infalível de cada um dos predicados. pois o corpo não atua diretamente sobre a alma. substâncias-forças. se pode ser tirado analiticamente dele. portanto. que colheriam o segundo aspecto. estes juízos escapam às pretensões da necessidade racionalista. e as verdades de fato (juízos da existência contingente). 2. A definição do sujeito.163 O Pensamento: A Gnosiologia A gnosiologia de Leibniz é fundamentalmente representada pela ciência geral ou lógica universal. porque o predicado é contido na noção adequada do sujeito. entretanto. uma sobre as outras. contingente. unem-se mônadas subconscientes e mônadas inconscientes. que colheriam o primeiro aspecto da realidade. consciente. A natureza das mônadas é espiritual. em que o predicado não se pode extrair analiticamente do sujeito. contínua. que Deus introduziu na criação.

distingue o mal em metafísico. do pensamento de Wolff. e. a reação kantiana e a acusação de dogmatismo movida contra essa orientação filosófica. que. por certo. compreende-se como ele se diferencia profundamente da escolástica clássica. Se é que Wolff teve algum conhecimento particular da escolástica aristotélico-tomista. Dedicou-se aos problemas morais e religiosos. que tinha condensado e ordenado em mil parágrafos o prolixo sistema de Wolff. Leibniz interessou-se especialmente pelo problema do mal e da liberdade. O primeiro não é verdadeiro mal. com Cristiano Wolff. A Moral A moralidade é reconduzida à atividade. do modo melhor. Vida e Obras Cristiano Wolff nasceu em Breslau em 1679. partindo dedutivamente. Compreende-se. analiticamente. a metafísica deveria ser construída a priori. certamente não compreendeu o espírito íntimo desse sistema.164 se correspondessem como se realmente houvesse entre elas um influxo mútuo de causalidade recíproca. Leibniz explica o mal físico mediante a estética. da idéia inata de ser. é consciente e racional. sistemático teve um êxito imenso. esta explicação não serve no caso do homem. Wolff retirou-se então para a Universidade de Marburgo. Em Wolff. mas estes se baseiam no terreno sólido da experiência. sem se influenciarem mutuamente. No entanto. "Assim. O seu ensino claro e metódico. humanos. aí ensinando até à morte (1754). para a Universidade de Halle. a livre escolha. aristotélico-tomista. mesmo prescindindo da existência de Deus. Dado esse caráter apriorístico. Cristiano Wolff O racionalismo moderno toma uma sistematização rígida. no homem. em seguida. graças ao qual teve em 1707 uma cátedra de matemática e filosofia na Universidade de Halle. no seu sistema subsiste a liberdade metafísica. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. Entrou. que. as desarmonias particulares realçam a harmonia do todo. racionalista-matemático. na resistência humana à ação de Deus. pois cada homem não é um meio e sim um fim. racionalista. foi demitido sob acusação de ateísmo em religião e determinismo em moral. formal. O mal moral. à ação de Deus. . A reação é facilmente compreensível. Também o mal moral é uma privação de ser. que pretendia ser válido para a realidade concreta um sistema construído a priori: um mundo de idéias para um mundo de coisas. A primeira acusação tem um fundamento na afirmação de Wolff de que a moral estaria de pé igualmente. O mal dos vários seres se torna um bem para o conjunto. Entretanto. porquanto ambos atuam necessariamente. a espontaneidade racional. se se considerar que os manuais de Wolff invadiram a cultura alemã da época. pois a natureza destes seres é necessariamente limitada. devido à sua tese da ação necessariamente dirigida para o melhor. como o mal metafísico: tem uma causa deficiente e não eficiente. moral e físico. Formou-se em filosofia em Leipzig em 1703. sim. vulgarizador do pensamento de Leibniz.como é sabido . em relações com Leibniz. porquanto constitui a limitação necessária dos seres criados. ao contrário. sendo um ser racional. marcam ao mesmo tempo as mesmas horas". e Kant lecionava na universidade servindo-se da Metaphysica de Baumgarten. estudando também matemática. No campo da moral. um hábil relojoeiro constrói dois relógios. Mas vem fenecer o livre arbítrio. A segunda explica-se pela sua adesão ao determinismo racionalista de Leibniz. desde logo. Leibniz . sem uma relação real entre as duas ordens. portanto. em 1723. A filosofia. quer no homem quer em Deus. o racionalismo moderno manifesta explicitamente o seu caráter fenomenista abstrato. a ciência como uma dedução necessária de elementos e princípios primeiros. Sem esta limitação não haveria sequer o mundo. em que a liberdade de Deus e do homem vêm fornecer. a qual concebe. enquanto são criados. voltando. é devido à resistência voluntária dos entes criados. Afirma ele a liberdade.

Quanto à idéia de ética. decepcionado com a escola. Cosmologia generalis. Eis por que o jovem Descartes. logo. Só as matemáticas demonstram o que afirmam: "As matemáticas agradavam-me sobretudo por causa da certeza e da evidência de seus raciocínios". ocupa-se sobretudo com matemática. O Pensamento Wolff divide a filosofia em lógica. hoje perdido). a teologia natural. pois levanta-se quando quer. É notável o critério de verdade segundo Wolff: a verdade consiste exclusivamente na coerência entre as idéias. em ver cortes e exércitos. a experiência da vida e a reflexão pessoal: "Assim que a idade me permitiu 165 sair da sujeição a meus preceptores. Jus naturae. pelo qual não há relação entre pensamento e ser. Mas as matemáticas são uma exceção. Psychologia practica universalis. e finaliza na negação desta última. A série dos manuais em latim. mesmo no caso do ateísmo (como se a negação de Deus não implicasse necessariamente na negação de todos os valores). tomisticamente. da religião positiva. nascido em 1596 em La Haye  não a cidade dos Países-Baixos. diríamos. Apesar de apreciado por seus professores. Diversamente. nem a religião natural. Wolff é o pai do Aufklärung. A filosofia prática abrange. ele se declara. uma vez que ainda não se tentou aplicar seu rigoroso método a outros domínios. ao contrário. Wolff não nega Deus. a cosmologia geral. Oeconomia. a metafísica. a filosofia prática geral e o direito natural e. conviver com pessoas de diversos temperamentos e condições". e resolvendo não procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo. a psicologia. Philosophia moralis seu ethica. Aí gozará de um regime de privilégio. Psychologia empirica. onde se ocupa com equitação e esgrima (chega mesmo a redigir um tratado de esgrima. uma em latim. pelo qual a verdade é. Na Holanda. Tais manuais tiveram um grande êxito. "Não encontramos aí nenhuma coisa sobre a qual não se dispute". parte à procura de novas fontes de conhecimento. compreende precisamente: Philosophia rationalis sive logica. Mas é um estranho oficial que recusa qualquer soldo. Em todo caso. Separa. estuda no colégio jesuíta de La Flèche. vamos encontrá-lo na Holanda engajado no exército do príncipe Maurício de Nassau. A Filosofia de Descartes Sua Vida René Descartes. necessária. Wolff diz justamente que a lei moral não pode depender ao arbítrio divino. a filosofia que conhece a religião natural. abrangendo a ontologia. a saber. porém. que mantém seus equipamentos e suas despesas e que se declara menos um "ator" do que um "espectador": antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. daí o aposto "fidalgo poitevino". antes de tudo. ou revelada. longe dos livros e dos regentes de colégio. Desta o filósofo prescinde. É a revelação completa so fenomenismo racionalista. fundamentalmente. empreguei o resto de minha juventude em viajar. a economia.As obras filosóficas de Wolff são constituídas por duas séries de manuais. e a outra em alemão. no "Discurso sobre o Método". especulativa e prática. mas é absoluta. É bem diverso o critério de verdade do sistema aristotélico-tomista. do iluminismo racionalista alemão. derivante da própria natureza de Deus e das coisas por ele criadas). primitiva (isto é. De 1604 a 1614. que sustenta o divórcio entre a religião natural e a religião positiva. Psychologia rationalis. decepcionado com o ensino que lhe foi ministrado: a filosofia escolástica não conduz a nenhuma verdade indiscutível. a política. a ética. mas um povoado da Touraine. a adequação especulativa da mente com a coisa. admite a obrigação absoluta da lei moral. pequeno domínio do Poitou. ao lado de Isaac Beeckman. É dessa época (tem cerca de 23 anos) que data . A filosofia especulativa é. Jus gentium. o que o leva a adquirir um hábito que o acompanhará por toda sua vida: meditar no próprio leito. abandonei inteiramente o estudo das letras. numa família nobre  terá o título de senhor de Perron. Philosophia prima seu ontologia. Após alguns meses de elegante lazer com sua família em Rennes.

ele quer preparar os espíritos para. 2. são acompanhados por um prefácio e esse prefácio foi que se tornou famoso: é o Discurso sobre o Método. de quem ele é. morrendo a 9 de fevereiro de 1650. Seu ataúde. um dia. Após muitas tergiversações. a cuja publicação ele renuncia visto que em 1633 toma conhecimento da condenação de Galileu. será transportado para a França. de ter vindo "viver no país dos ursos. Segundo Pierre Frederix. seu Tratado das Paixões  embarca para Amsterdã e chega a Estocolmo em outubro de 1649. por ocasião da rápida viagem a Paris. um simples acessório. Podemos facilmente imaginá-lo alojado "numa estufa". para antes do outono. Descartes. ele vive na Holanda. Chanut. 166 . inspirado no rigor matemático e em suas "longas cadeias de razão". Muito pelo contrário! Em 1641. as "Regras para a direção do espírito" (Regulae ad directionem ingenii). em 1637. Por conseguinte. a evidência é o que salta aos olhos. ele que "nasceu nos jardins da Touraine". Descartes encontra o embaixador da frança junto à corte sueca. É ao surgir da aurora (5 da manhã!) que ele dá lições de filosofia cartesiana à sua real discípula. Em virtude do inverno. Finalmente. ele antes de tudo quer fugir às querelas e preservar a própria paz. Mas ele aguardará até 1628 para escrever um pequeno livro em latim. como diz bem Jankélévitch. Eu caminho mascarado. inspirado nas matemáticas. para Descartes. à qual ele parece Ter-se submetido sempre e com humildade.sua misteriosa divisa "Larvatus prodeo". apesar de todos os meus esforços. acompanhadas de respostas às objeções. é aquilo de que não posso duvidar. sua obra-prima. entre rochedos e geleiras". aparecem as Meditações Metafísicas. Em outras palavras. isto é. A 10 de novembro de 1619. isto é. evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto. é o que resiste a todos os assaltos da dúvida. Esses resumos. o Tratado do Mundo. Em 1644. que quase não são lidos atualmente.  A segunda. colocará todas as suas obras no Index. O Método Descartes quer estabelecer um método universal. "uma evidência juvenil. o filósofo. é capaz de provar rigorosamente a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo. Entre 1629 e 1649. Em 1619. Descartes quer apenas significar que é um jovem sábio disfarçado de soldado. Mas é demasiado tarde. Em seguida. Os Meteoros e A Geometria. Contrai uma pneumonia e se recusa a ingerir as drogas dos charlatões e a sofrer sangrias sistemáticas ("Poupai o sangue francês. logo se arrepende. em certo sentido. ele publica uma espécie de manual cartesiano. que sofre atrozmente com o frio. É certo que ele nada tem a temer da Inquisição. Luís XIV proibirá os funerais solenes e o elogio público do defunto: desde 1662 a Igreja Católica Romana. A idéia fundamental que aí se encontra é a de que a unidade do espírito humano (qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa) deve permitir a invenção de um método universal. apesar de todos os resíduos. mas quadragenária". não antes de encarregar seu editor de imprimir. num quarto bem aquecido por um desses fogareiros de porcelana cujo uso começa a se difundir. de outro. servido por um criado e inteiramente entregue à meditação. país protestante. é a regra da análise: "dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis". o produto do espírito crítico. ei-lo a serviço do Duque de Baviera. Não. Mas Descartes. 1. o que "eu não tenho a menor oportunidade de duvidar". Desse modo. que o põe em contato com a rainha Cristina. o diretor de consciência e com quem troca importante correspondência. Os Princípios de Filosofia. sonhos maravilhosos advertem que está destinado a unificar todos os conhecimentos humanos por meio de uma "ciência admirável" da qual será o inventor. aceitarem todas as conseqüências do método  inclusive o movimento da Terra em torno do Sol! Isto não quer dizer que a metafísica seja. Ele faz ver que o seu método. Esta última chama Descartes para junto de si. Descartes prepara uma obra de física. de um lado é católico sincero (embora pouco devoto). alguns anos mais tarde. Em 1644. ele se decide a publicar três pequenos resumos de sua obra científica: A Dióptrica. senhores").  A primeira regra é a evidência: não admitir "nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". aquartela-se às margens do Danúbio. dedicado à princesa palatina Elisabeth.

A dedução limita-se a veicular. só as idéias da razão são claras e distintas. é muito mais que um simples acidente gramatical do verbo cogitare). 2. foi porque os séculos posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo. É a idéia de perfeição. uma coisa de que não posso duvidar. porém. A dedução nada mais é do que uma intuição continuada. °  Existe. suas indicações são confusas e obscuras. nesse momento de seu itinerário espiritual. como já se disse.  A terceira. como que por meio de degraus. diz Descartes nesse sentido. a evidência sensível e empírica. é importante ressaltar. a ponto de estar certo de nada ter omitido". só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me ultrapassa e que é o autor do meu ser. a) Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias. e mais sólida que a do matemático. de seu ser pensante (pois. que tenho a idéia de Perfeição. mas o próprio ato de duvidar é indubitável. desde que possa encontrar um argumento. Não posso tê-la tirado de mim mesmo. E nota-se que se trata de um Deus perfeito. 4. de infinito. ergo sum". Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro alcance que a dúvida metódica do cientista. 3.. mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento). na verdade. Eu. Para bem compreender sua metafísica. "é mais fácil de ser conhecida que o corpo"). Ferdinand Alquié). por conseguinte. aos poucos. Descartes pensa sobretudo na ciência. °  Nesse nível. Duvidemos também das próprias evidências científicas e das verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade  quer eu sonhe ou esteja desperto  que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida. Por conseguinte. tão imperfeito. sempre posso duvidar do objeto (permitam-me retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes. visto que sou finito e imperfeito. Duvidemos dos sentidos. os instrumentos da dúvida nada mais são do que os auxiliares psicológicos. chamamos de idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo conhecimento). ao longo das belas cadeias da razão. 167 . É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará dessa solidão. portanto. mas de um ser. se Deus fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas? Tanto quanto duvido do Ser. ocupado em escrever algo junto à lareira. é a regra da síntese: "concluir por ordem meus pensamentos. Ela trata não de um objeto. não é. Ego cogito (e o ego. resta a certeza de que eu penso. Não é um raciocínio (apesar do logo. Eu penso. 1. metamatemática. pois. aos mais complexos". mesmo que o demônio queira sempre me enganar. do ergo). pois é uma intuição metafísica. que. de modo algum. isto é. Descartes duvida voluntária e sistematicamente de tudo. os instrumentos de um verdadeiro "exército espiritual". de uma ascese. Descartes é solipsista. Mesmo que tudo o que penso seja falso. eis demonstrada a existência de Deus. diz Descartes. mas uma intuição. em filosofia. por mais frágil que seja. logo existo. o excluiu expressamente: o político e o religioso (Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo de seu método). A Metafísica No Discurso sobre o Método. cogito. b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes parte não é. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente extraordinária. uma vez que eles freqüentemente nos enganam.  A última á a dos "desmembramentos tão complexos.3. O cogito de Descartes. a alma. nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido com o "robe de chambre". "estava despido em meu leito").. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. Ele só tem certeza de seu ser. Por conseguinte. sempre duvido desse objeto que é meu corpo. entretanto. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para. Os sentidos nos enganam. sem aborrecer Brunschvicg. "Penso. é necessário ler as Meditações. ascender. a evidência intuitiva das "naturezas simples". Se esse método tornou-se muito célebre. o ato de nascimento do que.°  Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com a dúvida.

eu então posso crer na existência do mundo. que tenho a idéia de Deus. até que. É ela que fundamenta a ciência (um ateu. no momento. ainda aqui. e.168 é todo bondade. e. não menos ardiloso e enganador do que poderoso. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade. para tanto. teme ser . O caminho é exatamente o inverso do seguido por São Tomás. isto é. uma vez que. de uma experiência espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio. que é a soberana fonte da verdade. que há. Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata da mesma evidência. enquanto eu as considerar tais como efetivamente são. fingindo que todos esses pensamentos são falsos e imaginários. pelo menos estará em meu poder fazer a suspensão de meu juízo. Se Deus é perfeito. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento.ª Meditação Descartes resolve duvidar de todas as suas opiniões: Mas não basta ter feito essas observações. Pois uma perfeição nãoexistente não seria uma perfeição. A evidência ontológica que. muito prováveis. mas certo gênio maligno. como acabei de provar. a longa e familiar convivência que tiveram comigo. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. É o argumento ontológico. a metafísica tem. Suporei. 4. mas somente de meditar e de conhecer. no entanto. René Descartes A Dúvida. de nenhuma verdade. as cores. as figuras. Apreender a idéia de perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. pelo cogito. quando começa a suspeitar que essa liberdade é apenas um sonho. nem sangue. e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida comum. não pode haver perigo nem erro nesse caminho e de que eu hoje não poderia conceder muito à minha desconfiança. como não tendo nenhum dos sentidos. °  A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a existência de Deus. mas acreditando falsamente possuir todas essas coisas. Eis por que penso que as utilizarei mais prudentemente se. Pois estou certo de que. nem carne. é preciso ainda que eu cuide de não me esquecer delas. dirá Descartes. Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso. dominado por maus usos e afastado do caminho reto que o pode conduzir ao conhecimento da verdade. eles não possam fazer com que minha opinião tenda mais para um lado do que para outro. a extensão e o movimento). tomando um partido contrário. o que lhes dá o direito de ocupar o meu espírito sem que eu o queira e de quase se tornarem senhoras de minha crença. daqui por diante. e prepararei tão bem meu espírito em face de todos os ardis desse grande enganador que. Pensarei que o céu. isto é. não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser vivo). no entanto. o ar. o que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável. Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria. para Descartes. uma evidência mais profunda que a ciência. empregar todos os esforços no sentido de enganar-me a mim mesmo. o argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo) reencontra: trata-se. E. nem olhos. Não mais se trata de partir de mim. de certo modo duvidosas. exatamente como o escravo que se comprazia no sonho de uma liberdade imaginaria e que. não se trata d agir. Uma vez que Deus existe. que empregou toda sua indústria em enganar-me. me conduz a Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. E nunca me desacostumarei a essa aquiescência e a confiar nelas. então. Compreenda-se que. se por esse medo. os sons. tendo de tal modo avaliado meus preconceitos. e meu julgamento não mais seja. não pode ser geômetra!). por mais poderoso e astucioso que seja. não um verdadeiro Deus. mas antes da idéia de Deus que há em mim. a terra. mais de uma intuição. Por conseguinte. pois essas antigas e comuns opiniões freqüentemente revivem em meu pensamento. ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. não estiver em meu poder atingir o conhecimento. nunca poderá impor-me coisa alguma. de maneira que se tenha mais razão em acreditar nelas do que em negá-las. Considerar-me-ei a mim mesmo como não tendo mãos. Exercício Espiritual 1.

é necessariamente verdadeira. que emprega todas as suas forças e toda a sua indústria em enganar-me? Poderei ter a certeza de possuir a menor de todas as coisas que acima atribuí à natureza corpórea? Detenho-me a pensar nisso em meu espírito. certamente.ª Meditação Eu me persuadi de que nada existia no mundo. eu não duvidava de modo algum de sua natureza. enquanto eu pensar ser alguma coisa. Por conseguinte. ao contrário. espantava-me antes ao ver que semelhantes faculdades se encontravam em certos corpos. antes de penetrar nesses últimos pensamentos. para não tomar imprudentemente alguma outra coisa por mim e assim não me equivocar nesse conhecimento que sustento ser mais certo e mais evidente do que todos os que tive até o momento. Por outro lado. Eis por que considerarei de novo o que acreditava ser. por mais que ele queira enganar-me. todas as vezes em que a enuncio ou em que a concebo em meu espírito. mas por algo alheio pelo qual seja tocado e do qual se pudesse atribuir à natureza corpórea vantagens como a de ter o poder de mover-se a si própria. enganador muito poderoso e astucioso. e. malicioso e astucioso. não fossem suficientes para aclarar as trevas das dificuldades que acabam de ser tratadas. não por si mesmo. se ouso dizelo. de uma só questão. Por conseguinte. que andava. mãos. corpos alguns. Mas que é um homem? Direi que é um animal racional? Não. e eu não gostaria de abusar do pouco tempo e do lazer que me resta. antes. que sentia e que pensava. pois seria necessário que em seguida pesquisasse o que é animal e o que é racional e assim. entendo tudo o que pode ser limitado por alguma figura. Eu Sou Uma Coisa Que Pensa 2. após ter pensado bastante nisto e ter cuidadosamente examinado todas as coisas. passemos aos atributos da alma . tal como ela aparece num cadáver e a qual eu designava pelo nome de corpo. ou pelo paladar. também não me persuadi de que eu não existia? É certo que não. nunca poderá fazer com que eu nada seja. que é que eu acreditava ser até aqui? Sem dificuldade. Considerava-me. há que concluir finalmente e ter por constante que esta proposição. se quisesse explicá-la segundo as noções que tinha dela. Mas eu. que estou certo de que sou. e não encontro nenhuma que possa dizer que existe em mim. que pode ser compreendido em qualquer lugar e preencher um espaço de tal maneira que todo outro corpo seja dela excluído. braços e toda essa máquina composta de osso e carne. tê-laia descrito da seguinte maneira: por corpo. imaginava que ela era algo de extremamente raro e sutil. cairíamos insensivelmente numa infinidade de outras mais difíceis e embaraçosas. mas não me detinha em pensar o que era essa alma ou. agora que suponho que há alguém que é extremamente poderoso e. ou pela audição. ou pelo olfato. ao invés de propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade. Mas há um não sei quem. que pode ser movido por diversas maneiras. eu pensei que era um homem. eu existo". Mas ainda não conheço bastante o que sou. uma chama ou um ar muito tênue. por mim mesmo. eu. se aí me demorava. como um vento. primeiramente. espíritos alguns. De maneira que. como tendo um rosto. então. No que se referia ao corpo. assim eu. e de minhas antigas opiniões abolirei tudo o que pode ser combatido pelas razões que há pouco aleguei.169 despertado e conspira com essas agradáveis ilusões para ser mais longamente enganado. retorno invisivelmente às minhas antigas opiniões e receio despertar dessa sonolência. empregando-o em desvendar semelhantes sutilezas. de maneira a só permanecer precisamente o que é inteiramente indubitável. eu existia sem dúvida. ou pela visão. que sou eu. de agora em diante. temendo que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso. nenhuma terra. "Eu sou. deter-me-ei em considerar aqui os pensamentos que anteriormente nasciam por si mesmos em meu espírito e que eram inspirados apenas por minha natureza quando eu me empenhava na consideração de meu ser. que pode ser sentido pelo tato. Não é necessário que me demore a enumerá-las. que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. que estava insinuado e disseminado nas minhas partes mais grosseiras. que não havia nenhum céu. não há a menor dúvida de que sou. se é que me persuadi ou somente pensei alguma coisa. é preciso que eu atente cuidadosamente. relacionando todas essas ações à alma. Por conseguinte. se ele me engana. considerava que eu me alimentava. Mas. de maneira que. pois eu pensava conhecê-la mui distintamente e.

um sopro. ainda retém algo do odor das flores de que foi recolhido. que a cera não era essa doçura do mel. disseminado por todos esses membros. outrora eu pensei sentir várias coisas durante o sono e verifiquei. uma vez que supus que tudo isso não era nada e que. Eu sou. eu não sou. não sou um ar tênue e penetrante. sua figura e sua grandeza são evidentes: ele é duro e frio quando o tocamos e. e constato aqui que o pensamento é um atributo que me pertence. mas se é verdade que não tenho corpo algum. então. ao despertar. eu deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. vejamos o que resta. Um outro é pensar. por exemplo. se apresentava sob essas formas e que agora se faz notar sob outras. ou ao olfato. pois poderia ocorrer que. ou ao tato. que conhecíamos nesse pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada do que observei nela por intermédio dos sentidos. ou à visão. sendo redonda. Mas o que será. Não pretendo falar dos corpos em geral. senão uma coisa que pensa. Ora. se não pensasse que é capaz de receber mais variedades segundo a extensão do que nunca imaginei. mas que coisa? Já o disse: uma coisa que pensa. e saber. precisamente falando. Mas eis que. um espírito. É certo que não permanece senão algo de extenso. um vapor nem nada que possa fingir e imaginar. Enfim. Eu não sou essa reunião de membros que se chama corpo humano. O Pedaço De Cera 3. alguém o aproxima do fogo: o que nele restava de sabor. de flexível e mutável. Um outro é sentir. não é isso. uma vez que todas as coisas que se apresentavam ao paladar. agora. somente ele não pode ser separado de mim. não produzirá som algum. mas de qualquer corpo em particular. esquenta-se. uma vez que a concebo capaz de receber uma infinidade de transformações semelhantes e. mas apenas um corpo que. que não as sentira efetivamente. nem essa figura. eu sou uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente. ainda que batamos nele. mas não se pode sentir também sem o corpo. e que só meu entendimento é quem o concebe. eu existo. o que é a cera. Agora eu nada admito que não seja necessariamente verdadeiro: portanto. além disso. sem modificar tal suposição. enquanto falo. a saber. os corpos que tocamos e que vemos. sua cor. encontram-se neste. sua cor se modifica. E que mais? Excitarei ainda minha imaginação. ele se torna líquido. nem esse agradável perfume das flores. que eu imagino quando a concebo dessa maneira? Consideremo-la atentamente e. E. isto é. precisamente falando. Talvez fosse o que penso a atualmente. uma vez que essas noções gerais comumente são mais confusas. pouco antes. eu não poderia percorrer essa infinidade com minha imaginação e. . visto que na cera que se funde ela aumenta e fica ainda maior quando aquela está inteiramente fundida e muito mais ainda quando o calor aumenta mais? E eu não conceberia claramente. no entanto. isso é certo. também é verdade que não posso andar nem me alimentar. mas por quanto tempo? A saber. e ninguém o pode negar.ª Meditação Comecemos pelas considerações das coisas mais comuns e que julgamos compreender mais distintamente. Que é. exala-se. constato que não deixo de estar certo de que sou alguma coisa. Ora. nem esse som. um entendimento ou uma razão. é capaz de se tornar quadrada e de passar do quadrado para uma figura triangular? É certo que não. e. a mesma cera permanece. que é essa extensão? Não será também desconhecida. este pedaço de cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele ainda não perdeu a doçura do mel que continha. Os primeiros são alimentar-me e andar. no entanto. se nele batermos. por todo o tempo em que eu penso. se eu deixasse de pensar.170 e vejamos se há alguns que existam em mim. Por conseguinte. ou à audição se encontram modificadas e. é preciso que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera. e segundo a verdade. consequentemente. afastando todas as coisas que não pertencem à cera. para verificar ainda se não sou algo mais. que é isso: flexível e mutável? Não estarei imaginando que esta cera. Tomemos. produzirá algum som. mal podemos tocá-lo. sua figura se perde. o odor se desvanece. A mesma cera permanece após essa transformação? Cumpre confessar que sim. não sou um vento. essa concepção que tenho da cera não se realiza pela faculdade de imaginar. sua grandeza aumenta. todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo. que são termos cuja significação me era desconhecida anteriormente. nem essa brancura.

do mesmo modo. De modo que essa indiferença que sinto. do que a idéia de qualquer figura ou de qualquer número que seja.171 A Liberdade 4. persuado-me facilmente de que a existência pode ser separada da essência de Deus e que. bem longe de diminuírem minha vontade. ela não me parece todavia maior se eu a considero formal e precisamente em si mesma. tanto mais livremente o escolherei e o abraçarei. um ser soberanamente perfeito) ao qual falta a existência (isto é. não posso tirar daí um argumento e uma prova demonstrativa da existência de Deus? É certo que não encontro menos em mim sua. Pois. principalmente que me faz conhecer que trago a imagem e a semelhança de Deus. quando não sou de maneira alguma impelido mais para um lado do que para outro pelo peso de alguma razão. pois. de maneira que não há menos repugnância em conceber um Deus (isto é. eu seria inteiramente livre. isto é. que não concebo de modo algum a idéia de nenhuma outra mais ampla e mais extensa: de maneira que é ela. E. e como só depende de mim imaginar um cavalo alado. de início. assim eu talvez pudesse atribuir existência a Deus. pertence-lhe efetivamente. para afirmar ou negar. é o mais baixo grau de liberdade. a idéia de um vale. assim como uma montanha sem vale. quando penso nisso com mais atenção. a existência de Deus deve apresentar-se em meu espírito pelo menos como tão certa quanto considerei até aqui todas as verdades da matemática. como do simples fato de eu conceber uma montanha com um vale não se segue que haja qualquer montanha no mundo. Todavia. a tornam mais firme e mais eficaz . perseguir ou fugir). encontrando-se juntos aí. na medida em que ela se dirige e se estende infinitamente a mais coisas. verifico claramente que a existência não pode ser separada da essência de um triângulo retilíneo não pode ser separada a grandeza de seus três ângulos iguais a dois retos ou. e. antes. mas. para que eu seja livre. se eu sempre conhecesse claramente o que é verdadeiro e o que é bom. nunca teria dificuldade em deliberar qual juízo e qual escolha deveria fazer. parece que isso não implica em que haja algum Deus existente. ao qual falta alguma perfeição) do que em conceber uma montanha que não tenha um vale. seja porque eu conheça evidentemente que o bem e o verdadeiro aí se encontram.ª Meditação Ora. O Argumento Ontológico 5. pois. ainda que ela seja incomparavelmente maior em Deus do que em mim. É certo que a graça divina e o conhecimento natural. isso. Pois ela consiste somente em que podemos fazer uma coisa ou deixar de fazê-la (isto é. não pareça inteiramente manifesto. a idéia de um ser soberanamente perfeito. ainda que efetivamente eu não possa conceber um Deus sem existência. Mas. E não conheço menos clara e distintamente que uma atual e eterna existência pertence à sua natureza do que conheço que tudo o que posso demonstrar de qualquer figura ou de qualquer número pertence verdadeiramente à natureza dessa figura ou desse número. sem nunca ser indiferente. agora. meu pensamento não impõe necessidade alguma às coisas. assim. agimos de tal modo que não sentimos de maneira alguma força exterior que nos obrigue a isso. que só dizem respeito aos números e às figuras: se bem que.ª Meditação O que existe unicamente é a vontade que sinto ser tão grande em mim. seja em virtude do conhecimento e do poder . e faz antes parecer uma carência de conhecimento do que uma perfeição na vontade. assim. se possa conceber Deus como não existindo atualmente. estando habituado em todas as outras coisas a fazer distinção entre existência e essência. Pois. seja porque Deus disponha assim o interior do meu pensamento. não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um ou outro dos dois contrários. se do simples fato de que posso tirar de meu pensamento a idéia de alguma coisa. quanto mais eu tender para um. ainda que Deus . ou. que se afigure com alguma aparência de sofisma.que.seja em virtude do objeto. na verdade. portanto. segue-se que tudo o que eu reconheço pertencer clara e distintamente a essa coisa. perseguir ou fugir as coisas que o entendimento nos propõe. afirmar ou negar. embora eu conceba Deus com existência. antes. da idéia de uma montanha. embora não exista nenhum dotado de asas. todavia. ainda o que tudo que concluí nas Meditações precedentes não fosse absolutamente verdadeiro. somente em que. antes a aumentam e a fortalecem. Pois.

mas. brilhantes. era um cientista discípulo de Newton. aos vinte e três anos. quer existam. O Método de Hume Hume quis ser o Newton da psicologia. de física e ciências naturais. A obra obtém sucesso. Para Hume. pois. de causas e efeitos etc.172 nenhum existisse.um dos melhores da Escócia. O subtítulo de seu Tratado da Natureza Humana é. onde compõe. estar separados um do outro. de princípios. Esse fracasso deu a Hume a idéia de escrever livros curtos. Hume se esforça por simplificar e vulgarizar a filosofia de seu tratado e publica então os Ensaios Filosóficos sobre o Entendimento Humano (1748). em seguida transformado em universidade -. não se segue que haja no mundo montanha alguma. à intuição direta e concreta da idéia. a saber. portanto. isto é. Ele parte do princípio de que todas as nossas "idéias" são ópias das nossas "impressões". ele existe verdadeiramente. O Empirismo . pelos quais uma idéia é apenas visada. cujo professor de "filosofia". Seus Ensaios Morais e Políticos (1742) conhecem vivo sucesso. em Edimburgo em 1711.Hume David Hume David Hume nasceu na Escócia. sob o nome de "impressões". e Hume vê lhe recusarem uma cadeira de filosofia na Universidade de Glasgow. ao passo que. Somente após sua morte (1776) é que foram publicados. A análise psicológica do entendimento operada por Hume parece. porque a própria coisa. como me é dada a liberdade de imaginar um cavalo com ou sem asas. Nesse meio tempo. nesse sentido. um ser soberanamente perfeito sem uma soberana perfeição). Em 1766 ele hospeda Rosseau na Inglaterra. A obra. a existência de Deus. notadamente em La Flèche. não está em minha liberdade conceber um Deus sem existência (isto é. mas apenas que a montanha e o vale. Em 1768. Fala-se de substância. do fato de eu não poder conceber uma montanha sem vale. De 1763 a 1765 ele é secretário da Embaixada em Paris e festejado no mundo dos filósofos. passa alguns anos na França. o método de Hume pode ser apresentado de maneira mais moderna. editado em Londres. segue-se que a existência lhe é inseparável. não podem. em 1739. Hume pertencia a uma família abastada. em 1779. pois aqui há um sofisma escondido sob a aparência dessa objeção. ao contrário. dos dados empíricos: impressões de sensação. mas não deixa de inquietar os cristãos. acessíveis ao público mundano. Sua filosofia coloca. ele é Secretário de Estado em Londres. Stewart. indispondo-se com ele em seguida. Mas não é assim. do simples fato de eu não poder conceber Deus sem existência. ir da idéia à impressão consiste em apenas perguntar qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras. e que. exatamente como Hume nos ensina a retornar das idéias para as impressões". de maneira alguma. determina meu pensamento a concebê-lo dessa maneira. "já nasceu morta para a imprensa". Gaton Berger escrevia: "É preciso ir dos conceitos vazios. também. uma volumosa História da Inglaterra (1754-1759) e uma História Natural da Religião (1757). cujo título definitivo surgirá em edição seguinte (1758): Investigação (Inquiry) sobre o Entendimento Humano. que sonha tornar-se homem de letras e filósofo célebre. seus Diálogos sobre a Religião Natural. seu Tratado da Natureza Humana. Fez bons estudos no colégio de Edimburgo . Pois. aquilo que Bergson mais tarde denominará os dados imediatos da consciência e que os fenomenologistas denominarão a intuição originária ou o vivido. Não é este o ponto de vista tradicional do empirismo que vê na experiência a fonte de todo saber? Na realidade. à primeira vista. mas. publicou uma Investigação sobre os Princípios Morais (1751). Ao falar de fenomenologia contemporânea. Ele acabará por fazer uma bela carreira na diplomacia. O jovem Hume. bastante esclarecedor: "Uma tentativa de introdução do método de raciocínio experimental nas ciências morais. quer não existam. nem vale algum. não que meu pensamento possa fazer com que isso seja assim e que ele imponha alguma necessidade às coisas. impressões de reflexão (emoções e paixões). diz-nos o autor. muito próxima da de Locke. isto é. rapidamente renuncia aos estudos jurídicos e comerciais. Que existe verdadeiramente no pensamento quando se discorre sobre isso? As quais impressões vividas correspondem todas essas palavras? Aquilo que Hume chama de .

que faço a todo momento em que sinto o poder da minha consciência sobre meu corpo. há uma conjunção constante. em nenhum setor da experiência. não cessamos de ultrapassar a experiência imediata.impressão e que ele caracteriza pelos termos "vividness". simultaneamente interna e externa. Por exemplo. a experiência externa: vejo que o movimento de uma bola de bilhar é seguido do movimento de outra bola com que a primeira se chocou. segundo os casos ou os momentos. na esperança de que sua boa sorte irá orientá-las no sentido do objeto de suas buscas". tiro "de um objeto uma conclusão que o ultrapassa". A Análise da Idéia de Causa Aos olhos de Hume. Constato que A se mostra e que. de saída. B aparece. mas ele retém a análise psicológica do grande filósofo francês. afirmo que a água que acabo de pôr no fogo vai ferver. Hume não encontrará. quer levantar o braço e. Ainda aqui. uma impressão concreta de causalidade que torne legítima essa idéia de causa que pretendemos ter: a) Consideremos. então. que se precisa redescobrir sob as palavras (no empirismo de Hume. Aos olhos de Hume. que o fenômeno A é seguido do fenômeno B. a noção de causalidade é muito enigmática porque. para surpresa sua. em nome desse princípio de causalidade. esse poder não seria mais extraordinário". Permanece enigmática a ação da alma sobre o corpo: "Se tivéssemos o poder de afastar as montanhas ou controlar os planetas. Mas isto não esclarece nada. não me dá a origem do porquê. essa hipótese é extravagante. constato com surpresa que quero efetuar certos movimentos e depois que esses movimentos se realizam. em nome do princípio de causalidade (as mesmas causas produzem os mesmos efeitos ou o aquecimento da água é causa da ebulição). elas ocorrem melhor do que à tarde (em alguns) e melhor antes da refeição do que após. Um paralítico. Constato duas coisas: inicialmente. depois. Não terei aqui a chave do princípio de causalidade. portanto. a barra de metal vai se dilatar. que quero levantar o braço. amanhã fará dia etc. assim como vejo que o aquecimento é seguido da ebulição: vejo. b) Examinemos agora essa experiência. c) Quer dizer enfim da esperiência puramente interior da sucessão de minhas próprias idéias? Deve admitir que minha reflexão atenta é causa das idéias que me ocorrem? Mas. Mas o que não vejo é o porquê dessa sucessão. filósofo do século XVIII. não tenho o menor poder sobre meu coração ou sobre meu fígado. não tenho experiência de uma conexão necessária. como eu. Todo raciocínio experimental. E eu. que ele se levanta. Se quero levantar o braço. em seguida. pelo qual do presente se conclui o futuro (a água vai ferver. Não sei absolutamente por meio de que engrenagem neuromuscular complexa se opera o movimento de meu braço. há que ver "antes o ódio ao verbalismo do que o preconceito do sensualismo"). cuja língua ou cujos dedos se movem segundo minha vontade. De onde me vem esse princípio? A qual impressão corresponde essa idéia? A "investigação" filosófica vai se apresentar aqui como uma pesquisa em todas as direções: "Nós devemos proceder como essas pessoas que. repousa nesse princípio de causalidade. 173 . mas não vejo conexão necessária. constata que nenhum movimento se segue ao seu desejo. Vejamos para onde nos conduzirá essa busca filosófica. entre os fenômenos A e B. o fenômeno B se segue ao fenômeno A. as idéias ocorrem ou não. "liveliness" é o pensamento atual. Mas não constato que B aparece porque A se mostra. É certo que posso repetir a experiência e que. vasculham todos os lugares vizinhos sem visão nem propósitos determinados. Pela manhã.). diz Laporte. a todo momento afirmamos mais do que vemos. Lembramo-nos como a sucessão de meu querer e de meus movimentos espantava Malebranche a tal ponto que ele via em minha vontade apenas uma ocasião a partir da qual Deus produzia o movimento de meu corpo. Não é evidente que minha vontade é a causa do movimento de meu corpo? Mas. vivo. ao procurarem um objeto que lhes está oculto e quando não o encontram no lugar que esperavam. mas não vejo conexão necessária entre os dois fatos. de início. se refletirmos bem. Mas não constato o porquê. essa experiência não é menos clara do que a precedente. cada vez em que a repito. A repetição constante de um enigma não é o mesmo que sua solução. prevejo a ebulição dessa água. A experiência externa apenas me fornece o e depois. Ainda aqui constato a existência de uma sucessão entre meu esforço de atenção e minhas idéias. Vejo bem que. levanto-o.

Por conseguinte. ." O Ceticismo de Hume O empirismo de Hume surge então como um ceticismo. idéias e sonhos do mesmo modo que tenho esta roupa ou esta casa. Para Hegel. estas me pareceriam tão frias. Em última instância. os rios se tornavam tão duros que se podia fazer deslizar trenós sobre os mesmos!!). Se. dirá Hegel mais tarde. senão o peso do meu hábito e da minha expectativa. O ceticismo de Hume. coleção de haveres heteróclitos que é dado como um ser. opõe-se um ceticismo moderno . Aparento antecipar a experiência quando. anula-o". Só que Hume é o primeiro a reconhecer que seu ceticismo. como todo mundo. ou eu sou meus "estados" e minhas "qualidades" e não sou eu mesmo. Pois. que já esboçara essa análise psicológica da indução. lança a suspeita em toda ciência experimental. pode produzir qualquer coisa. ao ceticismo antigo. por mais absoluto que seja. Aquele rei de Sião. eu quisesse retornar às minhas especulações. Em todos os princípios do conhecimento ele descobre as ilusões da imaginação e do hábito. Não existe nenhuma impressão autêntica da causalidade. Quando mergulha na vida corrente. a conclusão se impõe. partindo do hábito e da associação das idéias. portanto. mas segundo os níveis do pensamento.que se nos apresenta ingenuamente como uma evidência . Ninguém mais do que ele separou filosofia e vida. A não pode ser não-A. Ceticismo e dogmatismo não se apresentam nele segundo os domínios do saber. é natural. como um ceticismo absoluto.sem contradição que essa água aquecida se transformasse em gelo! "Qualquer coisa. é artificial. Quando reflete como filósofo. ousou dizer que convinha a um cavalheiro pensar como os whigs. hábil em mascarar a descontinuidade de todas as coisas. na verdade. Espero invencivelmente a ebulição da água que coloquei no fogo. O que acontece é que eu acredito na causalidade e Hume explica essa crença. o ser e o ter.que nega apenas as afirmações da metafísica e fundamenta. por conseguinte. diz Hume. ele é cético. não nos objetos. Podemos então qualificar. absurda no plano da reflexão. poderia ocorrer . e votar como os tories. O princípio de causalidade. como dizemos. Em suma. eu tenho reputação e mesmo lembranças." No domínio das proposições lógicas.de que Hume seria o corifeu . explicar psicologicamente a crença no princípio de causalidade é recusar todo valor a esse princípio. dizia em fórmula surpreendente: "Quem reduz o costume a seu princípio.. como "humorístico" o ceticismo desse filósofo inglês que. é porque a imaginação. A crença no princípio de causalidade. Coloco a água no fogo e afirmo.174 Por conseguinte. diz ele curiosamente. inteiramente explicado por uma ilusão psicológica. Hume. aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha experiência e essa associação determinou um hábito em mim. é também a imaginação que identifica o eu com o que ele possui ou. o ceticismo de Hume. que condenara à morte o embaixador norueguês em sua corte (porque este último zombara dele ao afirmar que em seu país. suas "conclusões filosóficas parecem desvanecer-se como os fantasmas da noite ao nascer do dia". Segundo Hume. tão forçadas e ridículas que não poderia encontrar coragem e retomá-las por pouco que fosse". a necessidade causal não existe realmente nas coisas. "A necessidade é algo que existe no espírito. É simplesmente a imaginação. Pascal. é simultaneamente um dogmatismo instintivo e um ceticismo reflexivo. quando coloca a água no fogo. Por que será que espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque. que duvida sobretudo dos sentidos para preparar a conversão do espírito ao mundo das verdades eternas. não tem o menor valor de verdade. de certo modo. em virtude de poderoso hábito: vai ferver. De fato. cedo a uma tendência criada pelo hábito. ou então sou eu mesmo e nada mais. que facilmente desliza de um estado psíquico a outro e constrói o mito da personalidade. não existe. Se estabeleço "uma conclusão que projeta no futuro os casos passados de que tive experiência". Mas nas "matters of fact". surge-nos. as verdades da ciência experimental. errara muito ao negar um fato contrário à sua experiência. Ele filosofa ceticamente segundo uma reflexão rigorosa e dissolvente. Mas essa expectativa não tem fundamento racional. tudo pode acontecer. A teoria de Hume. "após três ou quatro horas de diversão.é ilusória para ele. no inverno. resvala de um evento dado àquele que comumente o acompanha. instintiva. está persuadido de que ela vai ferver.. Na realidade. Até a unidade do eu . em seu gabinete. solidamente. na idéia de causalidade. por outro lado. irresistivelmente arrastada pelo peso do costume. ao abolir o princípio de causalidade. responde Hume.

para o filósofo. numa carta de 1751 a Gilbert Elliot of Minto. Em ambos os casos. ele declara que.pela pesquisa de origem psicológica da crença.é muito natural! "A velhacaria e a idiotice humanas são fenômenos tão correntes. Ressuscitar. no fim. ao invés de admitir uma inverossímil violação das leis da natureza". no momento da redação de seus Diálogos. o próprio Hume afirma ter "querido evitar esse erro vulgar que consiste em só colocar absurdos na boca dos adversários".175 Hume e o Problema da Religião Essa complexidade da filosofia de Hume torna mais difícil a elucidação de sua filosofia religiosa. um argumento decisivo contra a Providência. não estará julgando "popularmente"? Seu combate pelas luzes situar-se-ia então no plano da reflexão filosófica que justamente anula o prestígio do costume e do bom-senso indutivo. o mesmo sentido que a crítica da razão experimental. prevalecerá sobre os raciocínios abstratos. Cleanto. dizia. Por outro lado. o antropomorfismo e o otimismo de Cleanto. ele deve ser conduzido por outro princípio igual em peso e em autoridade. em Hume. as leis da natureza. sejam afetados por tal descoberta. Se o espírito não está obrigado a dar esse passo por meio de um argumento. ele substitui a pesquisa de um fundamento lógico que se apresenta impossível . Consideremos. dos quais depende quase todo conhecimento. por exemplo. o papel de Filon e Demea estão sempre de acordo quando se trata de demolir o racionalismo. observa Hume sutilmente. se a verdade do sofrimento humano é. sua falta torna o outro impossível: popular maneira de julgar" Quando Hume rejeita o milagre. no povo. "O costume torna um fácil. Os Diálogos sobre a Religião Natural são difíceis de interpretar porque se trata de verdadeiros diálogos. Em compensação. como a forca essencial da crença! Finalmente. que eu antes acreditaria que os acontecimentos mais extraordinários nascem do seu concurso. A natureza sempre manterá seus direitos e. O Textos de Hume O Problema da Causalidade (Segundo a Investigação sobre o Entendimento) Não temos necessidade de temer que esta filosofia. é precisamente esse sofrimento que conduz o povo a buscar as consolações da religião. que para o filósofo é uma objeção maior à religião. Ao fim da obra. Os três personagens são: um deísta racionalista. que demonstra a existência de Deus partindo das maravilhas do universo. na medida em que tenta limitar nossas pesquisas à vida corrente. Mas. portanto. Ele parece ter sido escrito sob a ótica da filosofia das luzes: o milagre é impossível porque contraria a experiência. não há nenhum perigo que esses raciocínios. nunca destrua os raciocínios de vida corrente e leve suas dúvidas tão longe a ponto de destruir toda ação como toda especulação. tal . A noção de um Deus-Providência parece-lhe pouco compatível com os sofrimentos e os males de que os homens são vítimas neste mundo. em que cada personagem sustenta seu ponto de vista com argumentos sérios. místico anti-racionalista.perfeitamente explicável pelas leis que governam a imaginação crédula dos homens . por exemplo. Em suma. fundamentava-se precisamente numa crítica análoga à de Hume para afirmar a mesmo fato. argumentos para a religião natural. surge. Hume se apóia no determinismo físico para rejeitar a realidade do milagre e no determinismo psicológico para explicar sua ilusão tenaz. O ceticismo de Hume é um psicologismo. que em todos os raciocínios tirados da experiência o espírito dá um passo que não é sustentado por nenhum progresso do entendimento. Mesmo que concluamos. a crença popular nos milagres . possibilidade do milagre. Enquanto muitos filósofos do século das luzes reservam sua ironia crítica para a religião revelada e encontram na ordem do mundo. não estará pensando ao nível da imaginação e do costume. não é mais misterioso do que nascer. uma vez que sua crítica da causalidade fez desse próprio determinismo uma ilusão psicológica? Pascal. e o cético Filon. Demea. o célebre Ensaio Sobre os Milagres. a crítica da razão teológica tem. na finalidade. Hume afirma que está mais próximo de Cleanto. tem-se a impressão de que Hume multiplica suas críticas "céticas" à religião natural. Mas como Hume pode apoiar-se no determinismo.

Existe um outro princípio que o determina a estabelecer tal conclusão. Apenas designamos um princípio de natureza humana. Vejam este universo em torno de vocês. nenhum conhecimento do poder oculto pelo qual um dos objetos produz o outro. Como são hostis e destruidoras umas para as outras! Como são insuficientes. Mas examinem um pouco mais de perto essas existências vivas. pois os poderes particulares que concretizam todas as operações naturais nunca se apresentam aos sentidos. mesmo que o convencêssemos que seu entendimento de modo algum participa na operação. não obstante todos os meus raciocínios. o hábito. nenhuma idéia.pudesse ser estabelecida por razões a priori admissíveis. mas deve ser inferida segundo os fenômenos. e não é por nenhum progresso de raciocínio que ele é obrigado a chegar a esta conclusão. O Problema do Mal (Discurso de Filon nos Diálogos sobre a Religião Natural. Sua formação pode ser arbitrária e acidental. que um seja a causa e o outro o efeito. mas seria incapaz de descobrir outra coisa. Que diremos então nesta ocasião? Diremos que tais circunstâncias não são necessárias e que facilmente poderiam ter sido mudadas no arranjo do universo? Tal decisão parece demasiado presunçosa para criaturas tão cegas e ignorantes como nós. as únicas que vale a pena considerar. necessariamente teria havido muito pouco mal em comparação ao de que nos ressentimos efetivamente. podem ser compatíveis com tais atributos. com toda sua experiência. unicamente porque um acontecimento precede outro em um único caso. Esse princípio é o costume. dizemos sempre que essa tendência é o efeito do costume. De saída. o mal nunca teria acesso ao universo. Pois. Mas ele sempre se acha determinado a tirá-la. só estaria certo do que está imediatamente presente em sua memória e em seus sentidos. de algum modo desconhecido. sensíveis e agentes! Vocês admiram esta variedade e esta fecundidade prodigiosa. Tal conclusão não poderia resultar do ceticismo: é preciso que ela provenha dos fenômenos e de nossa confiança nos raciocínios que deles deduzimos. e que teria sido tão fácil remediar isto para tanto que o entendimento humano possa ser admitido a julgar em tal assunto. dotado das mais poderosas faculdades de razão e de reflexão. se as diversas forças e princípios do universo fossem exatamente construídos para sempre conservar o temperamento justo e o justo meio. Todavia. Não existe razão para se inferir a existência de um pela aparição do outro. Sejamos mais modestos em nossas conclusões. se a bondade divina . se conciliar com ele. quando existem tantos males no universo. todas a vezes que a repetição de uma operação ou de um ato particular produz uma tendência no sentido de renovar o mesmo ato ou a mesma operação sem o impulso de qualquer raciocínio ou progresso do entendimento. Que imensa profusão de seres animados e organizados. nunca faria conjecturas ou raciocínios sobre qualquer questão de fato. ele não adquiriu. para sua própria felicidade! . ele seria incapaz.entendo uma bondade tal qual a do homem . Convenhamos que. que resulta dessa experiência? Ele imediatamente infere a existência de um dos objetos pela aparição do outro. Todavia. capítulo XI) Se todas as criaturas vivas fossem incapazes de sofrer ou se o mundo fosse administrado por volições particulares. seja subitamente transportado por este mundo. ele continuaria a ter o mesmo pensamento. e.176 princípio conservará sua influência por tanto tempo que a natureza humana permanecerá a mesma. mas poderiam facilmente. por meio de algum raciocínio. aquele homem. afirmamos que. Suponha-se ainda que este homem tenha adquirido mais experiência e que tenha vivido por muito tempo no mundo para que tenha observado a conjugação constante de objetos e de acontecimentos familiares. como essa bondade não é previamente estabelecida. e não é razoável concluir. A natureza desse princípio bem merece que nos entrguemos ao esforço de investigar sobre ela. não bastariam para perturbar o dito princípio. Numa palavra. sem mais experiência. Suponha-se que um homem. não pode haver nenhum motivo em favor de tal inferência. universalmente reconhecido e bem conhecido por seus efeitos. tanto quanto são. e se os animais fossem dotados de uma ampla provisão de forças e de faculdades. certamente ele observaria de imediato uma contínua sucessão de objetos. de atingir a idéia de causa e efeito. Sou suficientemente cético para convir que as más aparências. esses fenômenos. Ao empregar esta palavra não pretendemos ter dado a razão última de tal tendência. por mais deploráveis que fossem. um acontecimento seguir-se a outro.

em 1651. o quarto parece muito mais provável. ele foge da Inglaterra. Na fonte de todos os nossos valores. que são opostas e ao mesmo tempo possuem bondade e maldade e que não possuem bondade nem maldade. . Mas a essa lógica só concernem símbolos. Durante toda sua vida. palavras (Hobbes é nominalista). O Empirismo . onde se sente ameaçado por causa de suas convicções monarquistas. e. estranho às realidades concretas. que da experiência passada conclui. faz publicar em Londres o Leviatã ou matéria. mais exatamente. Hobbes é um empirista inglês e nele encontramos os temas fundamentais que serão sempre os da escola. idênticas aos princípios de que partimos. O absolutismo da época de Hobbes geralmente se apóia na teologia (Deus teria investido os reis de seu poder absoluto). em latim. Hobbes crê na possibilidade de uma lógica pura. em 1608. Todavia. Por conseguinte. Hobbes. úmido e seco. descobre-lhe uma origem natural. notadamente pela Itália (encontrará Galileu em Florença) e sobretudo pela França (encontrará o padre Mersenne em Paris). em inglês. sem discernimento nem cuidados maternos. o instinto de conservação ou. em 1588. mas todas as operações da natureza não se realizam por uma oposição de princípios como quente e frio. ele é mais especioso e apresenta mais probabilidades do que a hipótese comum. não descobriremos aí qualquer marca do combate de um ser malfazejo contra um ser benfazejo. na medida em que dá uma explicação plausível da estranha mistura de bem e de mal que surge na vida. que possuem perfeita maldade. de um raciocínio demonstrativo muito rigoroso. perfeitamente racional. mas nunca foi integralmente traduzido para o francês. Ao lado de uma indução empírica aproximativa. podemos chegar a conclusões rigorosas. num certo sentido. Viajará por diversos países da Europa. Hobbes admite a existência de uma lógica pura. Antes mesmo da revolução de 1648. o seco ao úmido ou o leve ao pesado. O Leviatã será traduzido para o latim em 1688. Assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro. por outro lado.177 Quão desprezíveis ou odiosas para o espectador! O todo só suscita a idéia de uma natureza cega. forma e autoridade de uma comunidade eclesiástica e civil. ao justificar o poder absoluto do soberano.Hobbes Tomás Hobbes Tomás Hobbes nasceu em Westport. em Amsterdam. o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias. A uniformidade e a firmeza das leis gerais parecem se opor ao terceiro. Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras do emprego dos signos. leve e pesado! A verdadeira conclusão é que a fonte original de todas as coisas é inteiramente indiferente a todos esses princípios e prefere tanto o bem ao mal quanto o quente ao frio. A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista. isto é. se considerarmos a uniformidade e a concordância perfeitas das partes do universo. que são isentos de mistura. impregnada por um princípio vivificante e que deixa cair de seu regaço. e conatus. Em 1642. Mas trata-se de um jogo do pensamento. esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada (esse tema do conatus será reencontrado no spinozismo). Filho de clérigo. sem dúvida. seus filhos estropiados e abortados! Aqui o sistema maniqueu se apresenta como uma hipótese adequada para resolver a dificuldade. há o que Hobbes denomina endeavour. princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações. É partindo de tais fundamentos psicológicos que Hobbes elabora sua justificação do despotismo. que vai suprimir o poder real. É certo que existe uma oposição entre dores e prazeres nas afecções das criaturas sensíveis. de afirmação e de crescimento de si próprio. sai da Universidade de Oxford e se torna preceptor do filho de Lord Cavendish. ele publica em Paris o De Cive e. ele será o amigo devotado dos Stuarts. assim a moral se reduz ao interesse e à paixão. Hobbes. the trayan of imagination). Existem quatro hipóteses possíveis no que se refere às primeiras causas do universo: que são dotadas de perfeita bondade. Mas. sem prova decisiva. Fenômenos mistos nunca poderiam provar os dois primeiros princípios. A origem de todo conhecimento é a sensação. Retornará à Inglaterra por ocasião da restauração de Carlos II em 1660. isto é.

procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais.apesar de prudentes reservas . Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário em lembrança de uma passagem da Bíblia (Jó XLI) em que tal palavra designa um animal monstruoso. foi "uma alienação e não uma delegação de poderes". (Essa psicologia da vaidade e do medo é. portanto. por isso. o direito. em suas dioceses. o totalitarismo de Hobbes submete . No estado de sociedade. em última instância mais poderoso do que o orgulho. Para compreender como o homem se resolve a criar a instituição artificial do governo. o homem. Assim sendo. a força é a única medida do direito.) É o medo.178 Para ele. como diz Halbwachs. basta descrever o que se passa no estado natural. . mas distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político. ele é o senhor absoluto desde então. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. para todos. Quanto a este último. Este último . mas não possui o menor compromisso em relação a seus súditos. o homem é o lobo do homem. vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança. Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. "Bellum omnium contra omnes". o monopólio da força pertence ao soberano. o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor. esta á a origem psicológica que Hobbes atribui ao poder despótico. é a guerra de todos contra todos. em todos os casos. da parte de cada indivíduo. reduz-se à força. ninguém está protegido. em seu olhar atemorizado e submisso. Houve. em que cada um procura senão a morte. Isto só será possível se cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um soberano que. o maior interesse em fazer reinar a ordem se quiser permanecer no poder. uma espécie de laicização da oposição teológica entre o orgulho espiritual e o temor a Deus ou humildade. Assim sendo. Por conseguinte. Mas não houve pacto nem contrato. Em todo caso. o homem não possui instinto social. ao herdar os direitos de todos. Apesar de tudo. portanto. cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos. em Hobbes. o poder de cada um é medido por seu poder real. uma atemorizada renúncia do seu próprio poder. Assim é que ele exclui o "papismo" e o "presbiterianismo" por causa "dessa autoridade que alguns concedem ao papa em reinos que não lhe pertencem ou que alguns bispos. mas sobretudo as alegrias da vaidade (pride). esse poder absoluto permanece um poder de fato que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer do que obedecer. No estado social. Para Hobbes. o homem se distingue dos insetos sociais. que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política. Ele não é sociável por natureza e só o será por acidente. terá um poder absoluto. como as abelhas e as formigas. em definitivo. o ofendido procura vingar-se. No estado natural. na segurança. ao invés de uma desigualdade. querem usurpar".sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte. notemo-lo bem. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: "Homo homini lupus". Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. O maior sofrimento é ser desprezado. como no de natureza.o poder religioso ao poder político. Pois.observa Hobbes. uma vez que o soberano terá. antecipando aqui os temas hegelianos . Finalmente. por natureza. ao menos a sujeição do outro. Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade.comumente não deseja a morte de seu adversário e deseja seu cativeiro a fim de poder ler. o reconhecimento de sua própria superioridade. o que houve. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura. é a paixão que vai dar a palavra à razão. é um estado extremamente infeliz. É claro que esse estado.por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças . de fato. O efeito comum do poder consistirá. um estado de insegurança e de angústia. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano. o estado natural é. Os homens. mas . para todos. cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses pessoais.

não há Propriedade e cada homem tem direito a todas as coisas. O Iluminismo Francês O Iluminismo Francês Entre os grandes sistemas do século XVII. elas poderiam ser encontradas num homem que estivesse sozinho no mundo (como acontece com seus sentidos ou suas paixões). isto é. em sua Razão. justiça e injustiça são qualidades relativas aos homens em sociedade. XV . por um lado. é preciso que haja um Poder constrangedor. Justiça e injustiça não pertencem à lista das faculdades naturais do Espírito ou do Corpo. possibilidade que. se apóia na Paixões e. A substância doutrinal de quase todos os filósofos desse século provém de sistemas anteriores. as grandes "visões do mundo". não há injustiça. pois. Eis então. nesse caso. As noções de certo e errado. cada um tem direito sobre todas as coisas.. em outras palavras. É o que também resulta da definição que as Escolas dão geralmente da justiça. é bem verdade. Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos. O Estado de natureza. Cap. As paixões que inclinam o homem para a paz são o temor à morte violenta e o desejo de tudo o que é necessário a uma vida confortável. nada há que seja Injusto. Leibnitz.. para garantir-lhes a propriedade do que adquirem por Contrato mútuo em substituição e no lugar do Direito universal que perdem.. XIV . possantes e originais.a filosofia do século XVIII ocupa um lugar original..... essa guerra de todos contra todos tem por conseqüência o fato de nada ser injusto. daí resulta que. E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um. enquanto não há Estado... "Newton criou a física e Locke a metafísica". por exemplo. onde não há Estado.. não ao homem solitário. Por conseguinte. nessa situação. E a Razão sugere artigos de paz convenientes sobre os quais os homens podem ser levados a concordar. ou seja. não há lei. e por muito tempo. e marca o triunfo da inteligência crítica. a triste condição em que o homem é colocado pela natureza com a possibilidade. Antes que se possa utilizar das palavras justo e injusto. XIII . e onde não há Poder Constrangedor estabelecido..179 O Estado Natural e o Pacto Social Leviatã. nem na distinção entre o Meu e o Teu. 1. como os de Spinoza. Cap. pois. de justiça e de injustiça não têm lugar nessa situação. sua própria vida.. ela ignora as grandes sínteses. segundo d'Alembert. para salvaguardar sua própria natureza. em seguida.. e os do século XIX . Onde não há Poder comum. inicialmente. onde não há lei. para forçar os homens a executar seus pactos pelo temor de uma punição maior do que o benefício que poderiam esperar se os violassem. mas apenas no fato de que a cada um pertence aquilo que for capaz de o guardar.doutrinas de Hegel ou de Augusto Comte . de sair dela. mesmo até o corpo dos outros. não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança...ª parte: Do Homem Cap. por outro. A mesma situação de guerra não implica na existência da propriedade. quando não há propriedade. E não existe tal poder constrangedor antes da instituição de um Estado. a saber. Malebranche. . Na realidade. quando nada é próprio.. não há injustiça: força e astúcia são virtudes cardeais na guerra. O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade. que a justiça é a vontade de atribuir a cada um o que lhe cabe pertencer.

toda a experiência. em dado momento. encontram. O século XVIII caracteriza-se por uma tendência empírica e analítica: procura-se explicar as idéias complexas a partir das simples e as idéias a partir dos fatos. ele explica o movimento dos planetas. Ele desenvolveu o empirismo de Locke num sentido francamente sensista. Consideramse os artífices da felicidade humana e se empenham na destruição dos preconceitos e na difusão das "luzes". Condillac (1715-1780) O filósofo mais notável do iluminismo francês é Estevão Bannot de Condillac (1715-1780). mediante o tato. isto é. juízo . o juízo. que é comparação entre sensações presentes e passadas. a idéia de que o homem não é "um império num império". o exercício de todas as suas faculdades. a gravidade. nasce a distinção entre presente e passado. o mundo externo é afirmado dogmaticamente. Paralelamente ao desenvolvimento teórico do espírito procede o desenvolvimento prático. Newton não faz o romance da matéria. isto é. durante um decênio (1758-1767). e que querem criar movimentos de opinião: a ironia e a clareza do estilo adquirem eficácia particular para tais empreendimentos. a imaginação o terceiro. A sensação odorosa (de uma rosa) torna-se memória. devido ao fato de ter ele sido. A lembrança de sensações agradáveis e a comparação com as presentes. (É o século das luzes. preceptor. adquire consciência do mundo físico. pela resistência que o nosso esforço encontra no mundo externo. que é o mais pobre dos sentidos. mas exprime os fatos realmente dados na linguagem rigorosa da matemática. de Locke. a física de Newton destrona a de Descartes. começa a ter uma sensação de olfato. a realidade. Condillac exerceu uma influência particular sobre a cultura italiana. De sua doutrina evidenciar-se-á sobretudo o naturalismo. O espírito. prodígios. profecias. b) Locke passa por ser o criador da "metafísica". isto é.e as leis ditas eventos sobrenaturais. Comparando a sensação atual com a sensação lembrada. afastada a primeira sensação e sobrevindo outra. ao descrever o "como" dos fenômenos. o desejo estável torna-se vontade. na corte de Parma. tornam-se desejo. Da sensação (agradável ou dolorosa) nasce o sentimento (de prazer ou de dor). a capacidade de noções gerais. a primeira permanece com uma intensidade atenuada. entretanto. porquanto se trata sempre de sensações. o olfato. uma série de três graus de atenção. do racionalismo. dir-se-ia hoje. na trapaça de uns e na credulidade de outros. Isto não prova. A obra filosófica mais importante de Condillac é o Traité des sensations. e a generalização. a memória o segundo. estamos perante um ceticismo metafísico. deste modo. não forjo imagens metafísicas. do mundo externo. Condillac imagina o homem como uma estátua. a distinção entre atividade (na memória) e passividade (na sensação). filósofos engajados. mas cujo método racionalista é bem acolhido). o desejo preponderante torna-se paixão. de atividade do espírito. mas que é regido pelas leis de todo o universo. a reflexão. Aufklärung. constituindo a sensação o primeiro grau. simultaneamente racionalista e experimental. ao relatar os fatos reais em linguagem matemática. a idéia de que o motor de todos os sêres é o desejo. c) Sem dúvida. derivando da mera sensação sem reflexão . o eu.Deus sive natura . de Fernando de Bourbon. isto é.idéia ou relação. Uma lembrança vivaz torna-se imaginação. em que desenvolve a sua concepção sensista. Com as idéias de Newton. isto é. filosoficamente. herdeiro daquele trono. renunciando a imaginar o longínquo "por que" metafísico. milagres.) Daí o tom particular desses filósofos que fazem panfletos contra o poder.180 a) Já na metade do século. O espírito adquire. mediante um só sentido. orientando-a paa o sensismo. a consciência. Tem-se. há que acrescentar a influência capital de Spinoza. "o esforço de perseverar em seu ser". quando. a direção voluntária de atenção sobre uma determinada sensação . Deus é identificado com a natureza . as marés. contudo. a existência. assim. do próprio corpo e dos demais corpos. de Spinoza. dizia Newton. da ciência do espírito humano. a abstração. contra a Igreja. A matemática do infinitesimal descreve adequadamente as variações contínuas dos fenômenos. a separação de uma idéia de outra. que é uma coleção de sensações atuais e lembradas. e também de Descartes (cuja "visão"metafísica é rejeitada. os pensadores do século XVIII farão suas armas: eles são.em uma série de idéias e juízos. Podemos dizer que a física de Newton contribuiu largamente para a formação do espírito moderno. . explicação suficiente e perfeitamente natural. privada de toda sensação (tabula rasa) e que. de sorte que. "Hypotheses non fingo".

em cada circunstância em que se está colocado. a fé nos milagres do cristianismo. pelo espírito cívico da população. por exemplo. "misantropo sublime". porém. exposta no Espírito das Leis (1748). "A verdadeira lei da humanidade é a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. Voltaire (1694-1778) Voltaire. são muito menos a expressão de um determinismo sociológico de tipo materialista do que a afirmação de uma ligação ideal. não são originais. Pierre Bayle (1647-1707). pode estabelecer uma certa justiça sobre a terra e alcançar uma certa felicidade. Montesquieu. permanece otimista. opor os sistemas metafísicos entre si. contra Pascal. Só os maus legisladores favorecem os vícios do clima. Voltaire. sua finalidade interna. em sua crítica aos prodígios e superstições populares. protestante francês exilado em Roterdam. estas ou aquelas instituições. reduzido apenas aos seus recursos. Fontenelle (1657-1757) mostrou. antes que se tivesse traçado os círculos. pela disposição das coisas. Voltaire. uma vez que lhes servem de guia. Daí a separação entre poder legislativo. possui sobretudo concepção racionalista das leis que não resultam dos caprichos arbitrários do soberano. em toda parte. Como diz muito bem Brehier. nunca afirmou que o clima determina. realizarão o conjunto mais justo. de que fala Montesquieu. 1697. todos os raios eram desiguais". sendo que as melhores pertencem a este ou aquele governo. Ela se caracteriza pela busca de um justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão. de certo modo. após o terremoto de Lisboa. este ou aquele tipo de lei. necessariamente. A monarquia tradicional repousa num sistema hierárquico de suseranos e vassalos que só funciona a partir de uma moral da honra. mais harmonioso. é uma prodigiosa colocação de teses que testemunha sua incomparável erudição e que será possuído por todos os intelectuais do século XVIII). O "direito natural". a fim de ressaltar de suas contradições a necessidade da tolerância (o Dicionário histórico e crítico de Bayle. que a história se explica mais pelo jogo das paixões humanas do que pelo decreto da Providência. E Fontenelle já colocara (Conversações sobre a pluralidade dos mundos) a nova astronomia ao alcance dos marqueses. "é preciso que. quais aquelas que. Para que ninguém possa abusar da autoridade. surge como essencialmente racionalista.181 Montesquieu (1689-1755) A política de Montesquieu. para ser bem compreendido. mas são "relações necessárias que derivam da natureza das coisas". o poder detenha o poder". entre certos tipos de governo e certas leis possíveis. antes de Voltaire. . é um deísta convicto: a organização do mundo. poder executivo e poder judiciário. Em seus Pensamentos sobre o cometa. Assim é que cada forma de governo determina. Montesquieu. dizer que só o que as leis positivas ordenam ou proíbem é que constitui o que há de justo e injusto. As idéias filosóficas de Voltaire. Apesar de negar o pecado original. só se explicam pela existência de um Criador inteligente ("Este mundo me espanta e não posso imaginar / Que este relógio exista e não tenha relojoeiro"). na situação considerada. É preciso encontrar em cada clima. Não vemos como na Inglaterra a liberdade política conduz à existência de leis particulares que não encontramos em outros regimes? As leis obedecem a um determinismo racional. cabendo ao legislador descobri-las e aplicá-las. em cada forma de governo. a justiça ideal preexistem às leis escritas. "a variável aqui é a forma de governo de que as legislações políticas. inimigo encarniçado do cristianismo. esta ou aquela psicologia para com os cidadãos: a democracia da cidade antiga só é viável em função da "virtude". civil e outras são as funções". isto é. as "relações necessárias". mantém o princípio de um Deus justiceiro. quais as leis melhor adaptadas. da força do medo. ao passo que o despotismo só subsiste com a manutenção. Todavia. É certo que esse Deus policial é sobretudo requisitado para manter a ordem social e as vantagens econômicas aproveitadas por Voltaire e os outros grandes burgueses. é o tipo acabado do "filósofo" do século XVIII. tirada de Locke e de Newton. significa dizer que. O célebre verso de Voltaire "Se Deus não existisse precisaria ser inventado" deve. O próprio espírito voltairiano teve seus precursores. necessariamente. possuía a arte de. Criticou Leibnitz e seu "melhor dos mundos possíveis" que. Bayle já apresenta ardis tipicamente voltairianos para comprometer. ele acha que o homem. harmônica. no entanto. antes de Voltaire. ser citado com seu comentário: "e teu novo arrendatário / Por não crer em Deus.

Mesmo quando. considerado muito bom para sua idade. não o largava até resolvê-lo plenamente. Os avanços foram rápidos: aos dezesseis anos escreveu Tratado Sobre as Cônicas. passava a pesquisar por conta própria até encontrar uma resposta satisfatória e. Admitir que as montanhas outrora estiveram submersas. e que por esses meios todas as línguas haviam podido ser comunicadas de um país para outro. que. Para ele. presidente da Corte de Apelação. mas sobretudo pelas questões que ele próprio levantava a respeito da natureza das coisas. a educação de Blaise permaneceu ao encargo do pai. no entanto. Blaise recebeu os livros dos Elementos de Euclides e pôde dedicar-se à vontade ao estudo da geometria. Estarrecido. pagar-te-á melhor?" É certo. as espécies vivas são fixas. que queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais. por sua própria vontade. a 19 de junho de 1623. Perdeu a mãe aos três anos de idade. Procurava tracá-las corretamente. pois o ocupava com todas as coisas de que o julgava capaz. o pai apegou-se muito a ele e encarregou-se de sua instrução. que tais regras tinham exceções assinaladas com cuidade. não foi impresso na época. Mostrava-lhe de um modo geral o que eram as línguas. Pascal revelou desde cedo um espírito extraordinário. o pai verificou que o filho descobrira sozinho a matemática. ensinou-lhe como haviam sido reduzidas as gramáticas sob certas regras. em nome desse finalismo estático. Essa idéia geral esclarecia-lhe o espírito e fazia-o compreender o motivo das regras da gramática. em 1631. Gilberte Périer. Nas demais ciências realizou surpreendentes progressos e aos dezenove anos inventou a máquina aritmética. nunca o enviando a colégios. depois de propor axiomas relativos às figuras. para que aprendesse com maior facilidade. de sorte que quando veio a aprendê-las sabia o que fazia e dedicava-se aos aspectos que lhe exigiam maior dedicação". sabendo como a matemática é apaixonante e absorvente. Durante esse intervalo não o deixou ocioso. a estrutura geográfica da terra. numa finalidade 182 . Blaise Pascal Vida e Obras Nascido em Clermont-Ferrand. ele rejeita as idéias evolucionistas que começam a se difundir. no entanto. evitou por muito tempo que o filho a conhecesse. Além das línguas. dedicou-se a fazer demonstrações exatas. que passou a se divertir com as figuras geométricas que o pai lhe havia mostrado. Segundo sua irmã e biógrafa. Essa precaução serviu apenas para aumentar a curiosidade de Blaise. prometendo-lhe que a ensinaria quando ele já soubesse grego e latim. Aos onze anos. por esse motivo só deixou que aprendesse latim aos doze anos. sem que se soubesse qualquer regra de aritmética. que Voltaire crê na ordem do mundo. Étienne Pascal ensinava outras coisas ao filho: dava-lhe rudimentos sobre as leis da natureza e sobre as técnicas humanas. não só pelas respostas que dava a certas questões. que permitia que se fizesse nenenhuma operação sem lápis nem papel. Com isso chegou até a 32ª proposição do livro I de Euclides. quando se defrontava com um problema. Assim. afinal. Tudo isso aguçava ainda mais a curiosidade do menino. Étienne Pascal era matemático e sua casa era muito freqüentada por geômetras. A irmã Gilberte escreverá mais tarde: "A máxima dessa educação consistia em manter a criança acima das tarefas que lhe eram impostas. depois passou a buscar as proporções entre elas e. seria negar a estabilidade e a finalidade da ordem atual do mundo. Blaise Pascal era filho de Étienne Pascal. Diante de uma explicação insuficiente. A partir de então. e de Antoinette Bégon. Como queria que Blaise estudasse línguas e. era o único filho do sexo masculino. suas experiências sobre os sons levaram-no a escrever um pequeno tratado. Recusa-se a crer nos fósseis de animais marinhos descobertos nas montanhas por aquela época. a família Pascal mudou-se para Paris.providencial. Entre a Ciência e a Religião Não apenas na matemática revelou-se o gênio precoce de Pascal. (Ele também teme que esses fósseis marinhos nas montanhas só sirvam para os cristãos provarem a história do dilúvio!).

quando "resolveu desistir dos compromissos sociais. e reconhecido pelo juízo solene da Igreja". Blaise conheceu Jacques Forton.. senhor de SaintAnge-Montcard. Gilberte Périer: "Foi por esse tempo que aprouve a Deus curar minha filha de uma fístula lacrimal que a afligia havia três anos e meio. que se tornou muito frágil daí por diante. tomou conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) referente à pressão atmostérica e realizou uma outra. Essa fadiga comprometeu definitivamente sua saúde. logo consideraram Saint-AngeMontcard um herético pernicioso.. passou a sse interessaar pelos problemas matemáticos relacionados aos jogos de dados. Aos 23 anos. entre outras propriedades. A cura de sua sobrinha e afilhada repercuriu profundamente em Pascal: ". curva descrita por um ponto da circunferência que rola sem deslizar sobre uma reta. Assim. O método aplicado por Pascal para estabelecer essa área abriu caminho à descoberta. Começa então a fase apologética da obra de Pascal. em que aborda a questão dos "infinitamente pequenos". pois transformava uma máquina em ciência. esse milagre foi a ocasião para que nele se produzissem muitos pensamentos importantes sobre milagres em geral". A alegria que experimentou foi tão grande que se sentiu completamente penetrado por ela.a partir de 1652 -. acalentando o projeto de reunir a sociedade laica e a cristã e de combater a corrupção que teria sido causada pela evolução dos últimos séculos. num derradeiro estudo científico sobre a área de ciclóide. Começou mudando de bairro e. depois do período em que procurou a verdade científica e a glória humana no domínio da natureza e da razão. Jacqueline Pascal. com quem teve as primeiras discussões a respeito da Bíblia. provando que os efeitos comumente atribuídos ao vácuo eram. e. na verdade. mediador entre o finito (as criaturas) e o infinito (Deus criador). As análises sobre o milagre são fundamentais no pensamento de Pascal. O invento de Pascal foi considerado uma verdadeira revolução. A construção da máquina. Mais tarde . foi. quando ele se une aos jansenistas do Port-Royal. Segundo o relato de Gilberte. que ele denominou Aleae Geometria (Geometria do Acaso). Um dos últimos trabalhos científicos de Pascal nesse período é o Tratado Sobre as Potências Numéricas. Na verdade. realizada por Leibniz (1646-1716) e Newton (16421727). A idéia central de Pascal . As pesquisas que fez a esse respeito conduziram-no à formulação do cálculo das probabilidades. seus amigos. permite calcular as combinações possíveis de m objetos agrupados n a n. Pascal tinha então trinta anos. O fato é narrado pela irmã de Pascal. muito complicada e Pascal levou dois anos trabalhando com os artesãos. que determinou a mudança de sua trajetória espiritual: o "milagre do Santo Espinho". onde tanto fez para abandonar o mundo que o mundo afinal o abandonou". para onde se havia mudado a família Pascal. Pascal dirigiu seu interesse para as questões da Igreja e da Revelação. e enfim Deus permitiu que ela se curasse tocando o Santo Espinho que existe em Port-Royal. Essa fístula era maligna e os maiores cirurgiões de Paris consideravam incurável. O chamado Triângulo de Pascal foi um dos resultados dessas pesquisas sobre jogos de azar: trata-se de uma tabela numérica que. Pascal estabelece a verdadeira relação entre os dois Testamentos: o Antigo revelaria a justiça de Deus. que o leva a descer entre os homens por intermédio de seu Filho. todavia. como seu espírito ocupava-se de tudo com muita reflexão. obra mística. ele ficou emocionado com o milagre porque nele Deus era gloorificado e porque ocorria num tempo em que a fé da maioria era medíocre. Em Ruão. denominada "a experiência do vácuo". para melhor romper com seus hábitos. dos dogmas e da Igreja católica e da teologia em geral. Jacqueline conseguiu persuaadir o irmão de que "a salvação devia ser preferível a todas as coisas e que era um erro atentar para um bem passageiro do corpo quando se tratava do bem eterno da alma".183 mas com segurança infalível. pois determinam o centro de todas as suas reflexões religiosas e filosóficas: a figura de Cristo. ciência que reside inteiramente no espírito. foi morar no campo. e esse milagre foi atestado por vários cirurgiões e médicos. Nesse período escreve o Memorial. perante a qual todos os homens seriam culpados pela transmissão do pecado original. A essa questão voltará mais uma vez em 1658. Em função de Cristo. cujo sacrifício infunde a graça santificante no coração dos homens e os redime. sob a influência de sua irmã. Blaise e outros jovens. e os trabalhos de cunho apologético Colóquios com o Senhor de Saci Sobre Epicteto e Montaigne e as Províncias. o Novo revelaria a misericórdia de Deus. do cálculo integral. Pascal foi decisivamente marcado por um acontecimento. resultantes do peso do ar. que havia entrado para o convento.

Desse modo. buscando nas obras de Santo Agostinho (354-430) elementos que permitissem conciliar as teses dos partidários da Reforma com a doutrina católica. Os jansenistas dedicaram-se particularmente à discussão do problema da graça. mas a abandonar toda e qualquer função social.sobre o problema religioso é. na prisão do castelo de Vincennes. Ali o jansenismo assumiu forma ascética e polêmica. A partir de então é que nasce o jansenismo propriamente dito: afirmação de que é impossível para o verdadeiro cristão e para o verdadeiro eclesiástico participar da vida . na virtude e na luz. do corpo de legistas. Os indicadores do movimento jansenista na França . o holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) deu início a um movimento que abalou a Igreja caatólica durante os séculos XVII e XVIII. com Cristo. graças à atuação do abade de Saint-Cyran e de Antoine Arnauld (1612-1694). A vitória de Richilieu desencadeou a ruptura com o grupo e um de seus membros (Saint-Cyran) permaneceu. Jansênio. que. instalaram-se em Port-Royal. de adminstradores e de oficiais) à monarquia absoluta. os seres humanos tornaram-se escravos da Terra ou do Céu.Saint-Cyran. está na felicidade. já os cristãos seriam os que crêem num Deus de amor e de consolação. no sentido corrente do termo. A monarquia. independentemente das ações que comete.pertenciam à nobreza togada e em especial a um grupo desses nobres que esperavam passar à condição de comissários do rei. na qual as atribuições dos oficiais e das cortes são transferidas para o corpo de comissários do rei. os judeus e os cristãos: os pagãos (isto é.doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres . Antes do início dpo movimento. que logo foi atingido pelos anátemas do papa. que também pretendia o retorno so catolicismo à disciplina e à moral religiosa dos primórdios do cristianismo. sustentava que Adão. isso leva homens e mulheres não apenas a abandonar a vida mundana. o homem não pode deixar de pecar. embora dele discordassem quanto a alguns pontos importantes: preconizavam uma aliança com a Espanha católica e luta mortal contra os huguenotes. futuro abade de Saint-Cyran. Arnauld d'Andilly. a de que sem Cristo o homem está no vício e na miséria. Até 1637. apresentando-se como um verdadeiro cisma. durante dez anos. Somente aquele que chega ao fundo da miséria e da indignidade e que sabe do mediador (Cristo). antes de pecar. mas sim qual era a política cristã.uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne. pois só o mediador poderia reparar a miséria do homem. os judeus seriam os que acreditam num Deus que exerce sua providência sobre a vida e os bens dos homens a fim de dar-lhes um seqüência de anos felizes. que o arrastou para o mal. E a ideologia que vai diversificar o interior desse grupo apresenta como núcleo a afirmação da impossibilidade radical de se realizar uma vida válida neste mundo. 184 A figura de Cristo permite ainda a Pascal distinguir os pagãos. Submetidos à lei férrea desse dúplice amor. em sua evolução. a oposição entre o grupo e Richilieu não consistia em indagar se a vida cristã era ou não compatível com a política. juntamente com outros intelectuais. Era uma época de profundas transformações políticas na França. era livre. passava de monarquia temperada do Antigo Regime (caracterizada pela primazia da realeza sobre os senhores. o homem estaria predestinado para o céu ou para o inferno. que o orienta infalivelmente para o bem. arrastados para a condenação ou para a salvação. que estivessem dentro ou fora do país. Baseando em Santo Agostinho sua doutrina do dúplice amor. os filósofos) seriam aqueles que acreditam num Deus que é si mplesmente o autor das verdade geométricas e da ordem dos elementos. Descontente com o exagerado raacionalismo dos teólogos escolásticos. Jansenismo e Monarquia Absoluta Com o intuito de reformular globalmente a vida cristã. chegando por intermédio dele a conhecer o verdadeiro Deus. na obra Augustinus. Jansênio . pelo pecado perdeu a liberdade e tornou-se escravo da concupiscência. portanto. Antoine Le Maître . O jansenismo expandiu-se principalmente na França. declarava que a razão filosófica era "a mãe de todas as heresias". os mais destacados integrantes do grupo de Port-Royal eram amigos e companheiros do cardeal Richelieu. que faz com que eles sintam interiormente a miséria em que vivem e a infinita misericórdia de quem os criou. a não ser que intervenha a caridade (amor celeste). graças ao apoio do Terceiro Estado. Em conseqüência disso.

entre as duas atitudes que já existiam entre os próprios jansenistas da militância (Arnauld. à uma hora da madrugada. Pascal exprime uma só certeza: a de que a única verdadeira grandeza do homem reside na consciência de seus limites e de suas fraquezas.que para o homem é certo e incerto. mas seus escritos religiosos perdem o tom apologético para se tornar trágicos. Os jansenistas são trágicos porque vivem uma situação trágica . Esse acordo.e por isso afirmam tragicamente a vaidade essencial do mundo e a salvação pelo retiro e pela solidão. desgostosos com o poder dos comissários do rei. que passaram a exercer as antigas funções dos oficiais e das cortes. em momentos diversos de sua vida. de 1648 a 1652). poder desejar sua destruição ou sua transformação radical. porém. Esta última é que terá maior sucesso depois da Fronda e é ela que prossegue. Pascal participa de ambas as correntes. A vanguarda jansenista era constituída por advogados e suas famílias. O centro da trajetória espiritual de Pascal reside no seu encontro com o jansenismo. assim. que lhe permitiu exprimir melhor sua sede de absoluto e de transcendência. a luta contra a monarquia absoluta. contudo.incompatibilizaram com a política de Richilieu. será ainda entre os jansenistas que Pascal chegará à conclusão de que é importante retirar-se definitivamente do mundo e até mesmo da militância religiosa. paradoxal: exprime o descontentamento em face da monarquia absoluta. escreve Lucien Goldmann. Jacqueline Pascal). descobre a tragédia".e isso significa que a militância religiosa não mais pode ser efetuada. seguidos de discussões com vários sábios da época). A oposição dos jansenistas constituía apenas uma das modalidades de oposição que se fazia. no século XVIII. que se 185 Pascal morreu em 29 de agosto de 1662. E é estendendo o paradoxo até o próprio Deus . advogados e membros das cortes supremas. oficiais. Nicole) passa ao retiro (Barcos. Os Pensamentos revelam ser os escritos de um homem a quem "o silêncio eterno dos espaços infinitos apavora". em geral. À fase apologética daas Proncinciais segue-se então a fase dos Pensamentos. dele se afastassem e a ele se opusessem. que se estendeu de Paris às províncias. os membros das Cortes. Até o encontro com o jansenismo havia na vida de Pascal uma contradição entre a primazia atribuída. através da militância religiosa que procura o triunfo da verdade (ciência) na Igreja e o triunfo da fé (religião na sociedade laica. Todavia. Essa mudança é determinada pela condenação do jansenismo pelo papa Alexandre VI. Nessa terceira fase de sua vida. Pascal volta a dedicar-se à ciência (estudos sobre a ciclóide e sobre a roleta. embora. Na fase final de sua vida e de sua obra. A vocação religiosa de Pascal encontra no jansenismo o solo favorável para sua expansão. Mas jansenismo aapresentou duas vertentes: uma preconizava o retiro completo. Deve-se notar que o pai de Pascal era membro da Corte Suprema de Clermont-Ferrand. os oficiais. Pascal transita. em princípio. dependiam economicamente do Estado.como escreve sua irmã Gilberte. assim. à religião. Da Militância ao Recolhimento O jansenismo podia propor uma atitude abstencionista em relação à política porque estava constituído por pessoas que pertenciam a um grupo social cuja base econômica dependia diretamente do Estado. Tinha 39 anos de idade. O "milagre do Santo Espinho" reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que "há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza" . não se manterá. Esse encontro permite a Pascal estabelecer o acordo entre a consciência e a vida. a recusa intramundana do mundo e o apelo de Deus. e a realidade prática de uma vida consagrada ao mundo. " Pascal política e social.que Pascal pôde escrever os Pensamentos e abrir um capítulo novo na história do pensamento filosófico". os simpatizantes do movimento eram. A situação dos jansenistas é. a segunda optava pela militância religiosa. sem. presente e ausente. na época. Pascal acaba submetendo-se ao poder papal . esperança e risco . Enquanto nobreza togada. o paradoxo. ideologicamente. "a incerteza radical e certa. à monarquia e que contará com maior número de adeptos depois da Fronda (sublevação contra o primeiroministro Mazarin. .

segue-se a Dissertação de 1770.assim como uma das últimas. o Ensaio sobre o mal radical consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para introduzir em filosofia a noção de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz. em 1762. Levantava-se às 5 horas da manhã. "como súdito fiel de Sua Majestade". Acrescentemos a literatura de Hume que "despertou Kant de seu sono dogmático" e a literatura de Russeau. Em seguida. onde o criticismo kantiano é exposto. assim como do da Aufklärung. Seu sucessor. O mal não é a simples "privatio bone". do problema das relações entre a religião natural e a religião revelada! Dentre suas últimas obras citamos A doutrina do direito. uma passagem que una o mundo da natureza. em 1792. . explicará suas intenções "críticas" (um estudo sobre os limites do conhecimento). tomada pelas novas idéias). Nela. como se diz nas universidades alemãs). ao mundo moral onde reina a liberdade. deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade.Contemporâneo Emmanuel Kant Vida e Obras Kant nasceu. holandeses. protestantismo luterano de tendência mística e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneração). Finalmente. temos a Crítica da Razão Pura. A Crítica da Razão Pura explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. submetido à necessidade. Segundo Fichte. apesar do título. estudou. lecionou e morreu em Koenigsberg. surgem as grandes obras da maturidade. e a influência do racionalismo: o de Leibnitz. inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que. fosse inverno ou verão.186 V . Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a publicação do Contrato Social de Rosseau. em 1787. menos independente dos meios devotos. Kant distingue o conhecimento sensível (que abrange as instituições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas). no Conflito das Faculdades (1798). mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. herdeiro do otimismo dos escoláticos. Kant foi "a razão pura encarnada". A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafísica dos Costumes (1785) e a Crítica da Razão Prática (1788). achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse príncipe! E. buscando. não hesitou em tratar. Em 1781. por mais inimigo que fosse da restrição mental. Jamais deixou essa grande cidade da Prússia Oriental. que o sensibilizou em relação do poder interior da consciência moral. Frederico-Guilherme II. era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religião nos limites da simples razão. Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religião. Kant. A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795). Os prolegômenos a toda metafísica futura (1783) estão para a Crítica da Razão Pura assim como a Investigação sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificação brilhante para o uso de um público mais amplo. que vale a seu autor a nomeação para o cargo de professor titular (professor "ordinário". e a notícia da vitória francesa em Valmy. A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). cuja segunda edição. Kant sofreu duas influências contraditórias: a influência do pietismo. A primeira obra importante de Kant . Após uma obra em que Kant critica as ilusões de "visionário" de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além). ingleses. e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relações com a Academia Real de Berlim. desse modo. que foi a religião da mãe de Kant e de vários de seus mestres. que Wolf ensinara brilhantemente. cidade universitária e também centro comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses. Kant encontrara proteção e admiração em Frederico II. após o advento de Frederico-Guilherme III. a Crítica do Juízo (1790) trata das noções de beleza (e da arte) e de finalidade.

são dados a posteriori. aquisições da experiência. Aqui. sobre que se fundam tais verdades? Em que condições são elas racionalmente justificadas? Em compensação. que a coragem vale mais do que do que a covardia. ao pretender que o hábito é a causa de nossa crença na causalidade. necessários e universais? É porque. mas o espírito possui. eles próprios. De fato eu não tenho necessidade de uma constatação experimental para conhecer essa propriedade. as verdades da metafísica são objeto de incessantes discussões. a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento. todos os bons espíritos.. antes de toda experiência concreta. Juízo analítico é aquele cujo predicado está contido no sujeito. eu falo não só do quadro a priori da experiência. sempre particular e contigente. que não se deve mentir. O espaço e o tempo são quadros a priori. por mais sintéticas que sejam. ainda. São quadros a priori de meu espírito. necessárias e universais. Faço-o por intermédio de uma demonstração rigorosa. por outro. Também em física. Consiste em remontar do conhecimento às condições que o tornam eventualmente legítimo. Essas categorias são necessárias e universais. no entanto. isto é independentes dos azares da experiência. Os fenômenos. dos próprios fenômenos que nela ocorrem. é um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espírito. assim como as verdades morais. necessários e universais. isto é. nos quais a experiência vem se depositar. de acordo quanto à verdade das leis de Newton? Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser justo. Estética significa teoria da percepção.. aqueles cujo atributo enriquece o sujeito (por exemplo: esta régua é verde). uma exigência de unificação dos fenômenos entre si. por um lado. é a priori. Eis um juízo sintético (o valor dessa soma de ângulos acrescenta algo à idéia de triângulo) que. necessários e universais de minha percepção (o que Kant mostra na primeira parte da Crítica da Razão Pura. parece evidente que esses juízos a priori são juízos analíticos. também existem (este enigma é o ponto de partida de Kant) juízos que são. as regras. mas. Para dizer que o calor faz ferver a água. As verdades da ciência newtoniana. só sei que a régua é verde porque a vi. Um triângulo é uma figura de três ângulos: basta-me analisar a própria definição desse termo para dizê-lo. então. À primeira vista. pelas quais unificamos os fenômenos esparsos na experiência. são exigências a priori do nosso espírito. como acreditou Hume. são necessárias (não podem não ser) e universais (valem para todos os homens e em todos os tempos). são a priori. Mas o caso da física é mais complexo. assim como do valor das regras morais que sua mãe e seus mestres lhe haviam ensinado. Em compensação. denominada Estética transcendental. é preciso que eu constate. os juízos sintéticos.. Como se explica que tais juízos sintéticos e a priori sejam possíveis? Eu demonstro o valor da soma dos ângulos do triângulo fazendo uma construção no espaço. dispõe a experiência em seu quadro espacio-temporal (o que Kant mostrará na Estética transcendental) e.187 A Ciência e a Metafísica O método de Kant é a "crítica". Eis um conhecimento sintético a posteirori que nada tem de necessário (pois sei que a régua poderia não ser verde) nem de universal (pois todas as réguas não são verdes).. responde Kant. O próprio Hume. Tomo conhecimento dela sem ter necessidade de medir os ângulos com um transferidor. uma exigência de explicação por meio de causas e efeitos. as categorias. são naturalmente a posteriori. O espaço e o tempo não são. para mim. isto é. mas é nosso espírito que. Por que esse fracasso? Os juízos rigorosamente verdadeiros. Eis por que as construções espaciais do geômetra. ao mesmo tempo. etc. os juízos do físico podem ser a priori. Como. são a priori. Assim sendo. imprime-lhe . estaria anulada). enquanto transcendental significa a priori. Mas por que a demonstração se opera tão bem em minha folha de papel quanto no quadro negro. ou quanto no solo em que Sócrates traçava figuras geométricas para um escravo? É porque o espaço. Entretanto. isto é. não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crítica que nos oferece? "Todas as intuições sensíveis estão submetidas às categorias como às únicas condições sob as quais a diversidade da intuição pode unificar-se em uma consciência". Os maiores pensadores estão em desacordo quanto às proposições da metafísica. assim como o tempo. Não estão. sintéticos e a priori! Por exemplo:a soma dos ângulos de um triângulo equivale a dois retos. Em nenhum momento Kant duvida da verdade da física de Newton. a análise reflexiva. simultaneamente anterior à experiência e condição da experiência). enquanto verdade necessária e universal. toda ciência. eu digo que o aquecimento da água é a causa necessária de sua ebulição (se não houvesse aí senão uma constatação empírica. Mas.

tem uma utilidade positiva da mais alta importância.. É o próprio espírito que. É a isto que Kant chama de sua revolução copernicana. É o próprio espírito humano que constrói .ª edição da Crítica da Razão Pura) Um rápido olhar lançado nesta obra levará a pensar. nos espaços vazios da razão pura. diz Kant. como louca. de início. perde-se nas antinomias. não abria nenhum caminho. mesmo além de toda experiência possível. Só conhecemos os fenômenos e não as coisas em si ou noumenos. convite à descoberta. mas sem as intuições sensíveis concretas as categorias seriam "vazias". limitam o seu alcance. daí a necessidade de um ponto de partida. que em seu vôo livre fende os ares de cuja resistência se ressente. constrói a ordem do universo. uma crítica que limita a razão em seu uso especulativo é. Ora.com os dados do conhecimento sensível . tanto a tese quanto a antítese (por exemplo: o universo tem um começo? Sim pois o infinito para trás é impossível. o metafísico abusa da causalidade na medida em que se afasta deliberadamente da experiência concreta (quando imagino um Deus como causa do mundo. ao suprimir com um mesmo golpe o obstáculo que restringe seu uso prático ou que até ameaça anulá-la. da qual propriamente dependem.o objeto do seu saber. É o que se reconhecerá logo 188 . No entanto. pois so o mundo é objeto de minha experiência). Enquanto o cientista faz um uso legítimo da causalidade. não é o reflexo do objeto exterior. O princípio da causalidade. Só conhecemos o mundo refratado através dos quadros subjetivos do espaço e do tempo. esses princípios ameaçam de tudo enfeixar nos limites da sensibilidade. na realidade terem por conseqüência inevitável não a extensão. as intuições sensíveis seriam "cegas". por esse lado. olhando mais de perto. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza. essa crítica. ao fundamentar solidamente o conhecimento. Entretanto. para se aventurar fora de seus limites. a restrição do uso de nossa razão. Aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espírito. que ele emprega para unificar fenômenos dados na experiência (aquecimento e ebulição). As análises precedentes. Não se apercebia que. Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafísico. Na terceira parte de sua Crítica da Razão Pura. que sua utilidade é inteiramente negativa ou que ela só serve para nos impedir de conduzir a razão especulativa além dos limites da experiência. foi relacionado pelo espírito humano. Mas privada de qualquer ponto de apoio na experiência. mas. Ela inventa o mito de uma "almasubstância" porque supõe realizada a unificação completa dos meus estados d'alma no tempo e o mito de um Deus criador porque busca um fundamento do mundo que seja a unificação total do que se passa neste mundo. isto é. que se limita a por em ordem. não deve servir de permissão para inventar. pelo fato mesmo de os princípios sobre os quais se apóia a razão especulativa. os materiais que lhe são fornecidos pela intuição sensível. dissera Copérnico. O conhecimento. poderia imaginar que voaria ainda melhor no vácuo. tal como cera mole. na dialética transcendental. Não é o Sol. e assim reduzir a nada o uso puro (prático) da razão. isto é. pois eu sempre posso me perguntar: que havia antes do começo do universo?). contrária e favoravelmente. com efeito. bem negativa. a razão. Mas logo se perceberá também que sua utilidade é positiva. Não. demonstrando. diz Kant. O que é fundamentado é o conhecimento científico. receberia passivamente. É que. Emmanuel Kant O Alcance da Crítica Kantiana (Prefácio da 2. mas. afasto-me da experiência. Foi assim que Platão se aventurou nas asas das idéias. uma vez que não tinha ponto de apoio em que pudesse aplicar suas forças". As únicas intuições de que dispomos são as intuições sensíveis. Sem as categorias. é passar por "visionário" e se iludir com quimeras: "A pomba ligeira. Pretender como Platão. que gira em torno da Terra. de fato.ordem e coerência por intermédio de suas categorias (o que Kant mostra na Analítica transcendental). e é isso que lhe dá sua primeira utilidade.. apesar de todos os seus esforços. não teriam nada para unificar. mas é esta que gira em torno daquele. desordenadas e confusas. graças às categorias. a razão não deixa de construir sistemas metafísicos porque sua vocação própria é buscar unificar incessantemente. é por isso que não conhecemos o fundo das coisas. graças às suas estruturas a priori. Descartes ou Spinoza que a razão humana tem intuições fora e acima do mundo sensível.

além disso. sem para isso ter necessidade do auxílio da razão especulativa. eu também possa conhecer a liberdade como a propriedade de um ser ao qual atribuo efeitos no mundo sensível . da alma humana. quer estar assegurada contra toda oposição de sua parte. à lei física. mas não no tempo (o que é impossível. Mas. Por conseguinte. no qual ela se estende inevitavelmente além dos limites da sensibilidade e no qual. Admitamos agora que a moral supõe necessariamente a liberdade (no sentido mais estrito) como uma propriedade de nossa vontade. como livre. Todavia. como não sendo livre e. é o que será provado na parte analítica e daí resultará que todo conhecimento especulativo possível da razão se reduz unicamente aos objetos da experiência. não poderia encará-la de outro modo. desaparecem no mecanismo da natureza. no entanto. como fenômeno e como coisa em si. nas duas proposições. sem contradição. conseqüentemente. entretanto. eu não poderia dizer do próprio ser. não tenhamos conceitos do entendimento e. consideradas como causas eficientes. surge aí uma reserva: é que. de um lado. mas apenas como objeto da intuição sensível. conseqüentemente. a moral pode manter sua posição enquanto a física conserva a sua. pois aqui nenhuma intuição pode ser submetida ao meu conceito) . aos princípios decorrentes desses conceitos. quando não se supõe a liberdade previamente). isto é. desde que não se coloque como obstáculo ao mecanismo natural da própria ação (tomados num outro sentido). tomei a alma no mesmo sentido. seriam absolutamente impossíveis. sem cair em evidente contradição. como uma coisa em geral (como objeto em si) e.eu posso. Ora. quaisquer elementos para o conhecimento das coisas. isto é. é o que não teríamos descoberto se a crítica não nos houvesse previamente instruído sobre nossa inevitável ignorância relativamente às coisas em si e se ela não houvesse limitado . assim como a restrição que daí deriva relativamente aos conceitos puros do entendimento e. conseqüentemente. e como. É que. de outro. que. como escapando a essa lei. sem as advertências da crítica. e com ela a moralidade (cujo contrário não implica em contradição. do ponto de vista da moral. isto é.189 que se esteja convencido de que a razão pura tem um uso prático absolutamente necessário (quero significar o uso moral). conseqüentemente. pensar a liberdade. Quando se supõe que nossa crítica não tenha feito a distinção que ela estabelece necessariamente entre as coisas como objetos de experiência e essas coisas como objetos em si. desde que admita nossa distinção crítica dos dois modos de representação (o modo sensível e o intelectual). mas admitamos também que a razão especulativa tenha provado que a liberdade não fosse de modo algum concebida. conseqüentemente. a razão prática. como fenômeno. colocando a priori como dados da razão princípios práticos que dela se originam e que. Mas se a crítica não se enganou ao ensinar-nos a considerar o objeto em dois sentidos diferentes. sem que uma intuição correspondente nos seja dada. não há necessidade de se lhe ter um conhecimento mais amplo. a mesma vontade pode ser concebida. Negar que a crítica. e que. sem essa suposição. o que é preciso marcar bem. o princípio da causalidade e. por conseguinte. será preciso então que se estenda a todas as coisas em geral. podemos ao menos pensá-los como tais. que sua idéia não contém a menor contradição. se a dedução dos conceitos do entendimento é exata e se. a fim de que cada um possa realizar seus negócios tranqüilamente e em segurança. Que o espaço e o tempo só sejam formas da intuição sensível e. ela possa ser concebida. como é suficiente que. a liberdade não seja contraditória e que. ao prestar-nos esse serviço. das condições da existência das coisas como fenômenos. embora sob esse último ponto de vista eu não possa conhecer minha alma por intermédio da razão especulativa (e ainda menos pela observação empírica) e. Ora. o princípio da causalidade só se aplica às coisas no primeiro sentido. Se assim não fora. não possamos conhecer nenhum objeto como coisa em si. isto é. enquanto faz parte das coisas em si. que a liberdade. ao passo que no segundo sentido essas mesmas coisas não mais lhe estejam submetidas. se não podemos conhecer esses objetos como coisas em si. por exemplo. porém. por conseguinte. isto é. por conseguinte. está submetida à necessidade física. chegaríamos à absurda proposição de que existem fenômenos ou aparências sem que haja nada que apareça. como estando necessariamente submetida. conseqüentemente. o mecanismo natural que ele determina. a fim de não cair em contradição consigo mesma. porque sua função consiste unicamente em fechar as portas à violência que os cidadãos poderiam temer uns aos outros.posto que seria necessário que eu a conhecesse de uma maneira determinada em sua existência. do ponto de vista fenomenal (em seus atos visíveis). portanto. que sua vontade é livre e que. tenha uma utilidade positiva. que não é livre. será preciso então que necessariamente a suposição moral dê lugar àquela cujo contrário implica em evidente contradição.

mas algo além do que pensei no conceito. de outro modo. a realidade que lhe falta não lhe será acrescentada por isto. pois. pois. não existe nenhum meio de reconhecer sua existência. ao contrário. se eles são simplesmente possíveis). segundo as leis empíricas. mas ela existe precisamente tão defeituosa quanto a concebo. para os objetos do pensamento puro. Se. sempre resta saber se esse ser existe ou não. Pois. quer resulte de raciocínios que unem alguma coisa à percepção) pertence inteiramente à unidade da experiência. embora em meu conceito não falte nada do conteúdo real possível de uma coisa em geral. nossa consciência de toda existência (quer ela resulte imediatamente da percepção. existiria outra coisa diferente do que concebi. e se uma existência fora desse campo não deve ser tida por absolutamente impossível. E aqui se mostra a causa da dificuldade que reina nesse ponto. Tive então que suprimir o saber para substituí-lo pela crença. alguma coisa com relação a todo meu estado intelectual. ainda falta. eu concebo um ser como a suprema realidade (sem falhas). mesmo que esse algo não possa ser um objeto de experiência. somos obrigados a sair desse conceito para lhe atribuir a existência. quaisquer que sejam e por mais numerosos que sejam os predicados por meio dos quais eu a concebo (mesmo que a determine completamente). mas ele enriqueceu sinteticamente meu conceito (que é uma determinação do meu estado). ele é inteiramente incapaz de estender a si só nosso conhecimento com relação ao que existe. mas. ela também não deixa de ser uma suposição que nada pode justificar. se o conceito do objeto não é de modo algum aumentado para sua ligação com o conteúdo de toda experiência. Mas sou mais rico com cem táleres reais do que com sua idéia (isto é. e só por isso eu acrescente que essa coisa existe. então. Se se tratasse de um objeto dos sentidos. que o conhecimento de um objeto seja possível a posteriori. já que seria preciso reconhecê-la inteiramente a priori. De fato. o conceito só me faz conceber o objeto como concordante com as condições universais de um conhecimento empírico possível em geral. o objeto na realidade não está simplesmente contido de uma maneira analítica em meu conceito. sem que os cem táleres concebidos sejam aumentados por este ser que está situado fora do meu conceito. É certo que . precisamente porque é apenas uma idéia. e eu não mais poderia dizer que é exatamente o objeto do meu conceito que existe. porém. Desse modo. e pelo fato de dizer que essa coisa defeituosa existe. a liberdade e a imoratalidade segundo a necessidade que minha razão tem em seu uso prático necessário. Qualquer que seja a natureza e a extensão do conteúdo de nosso conceito de um objeto. eu não poderia confundir a existência da coisa com seu simples conceito. O conceito de um ser supremo é uma idéia muito útil com relação a muitas coisas. Se numa coisa eu concebo toda realidade. Se assim fora. a saber. eu não estarei acrescentando absolutamente nada à coisa. lhe é necessário empregar princípios que na realidade só se aplicam a objetos da experiência sensível e que sempre transformam em fenômenos aquilo a que se aplicam. Quando. Crítica ao Argumento Ontológico (Crítica da Razão Pura. caso o objeto contivesse mais do que o conceito. quisermos pensar a existência unicamente por intermédio da pura categoria. não será de espantar que não possamos indicar nenhum critério que sirva para distingui-la da simples possibilidade.190 aos simples fenômenos todo nosso conhecimento teórico. eu concebo uma coisa. De fato. enquanto a existência me faz concebê-lo como compreendido no contexto de toda experiência. Com relação a objetos sensíveis. e. para chegar aí. meu conceito não exprimiria o objeto inteiramente e conseqüentemente não estaria de acordo com ele. Nem pode mesmo nos instruir o suficiente com relação à possibilidade. e desse modo declaram impossível toda extensão prática da razão pura. por conseguinte. a passagem se faz por meio do encadeamento que liga o conceito a alguma de minhas percepções. como os táleres possíveis exprimem o conceito e os reais o objeto e sua posição em si mesma. sem rechaçar ao mesmo tempo as pretensões da razão especulativa em suas visões transcendentes. não existiria mais a mesma coisa. Dialética Transcendental) Cem táleres reais não contêm mais do que cem táleres possíveis. pode-se mostrar essa mesma utilidade dos princípios críticos da razão pura relativamente à idéia de Deus. mas. exceto uma. nosso pensamento dele recebe em acréscimo mais percepção possível. Se. De fato.

à qual o objeto de uma idéia não pode pertencer. tendo para com seus próprios sofrimentos um dom especial de resistência e de paciente energia. conserva a vida sem amá-la. precisamente nessa idéia de felicidade. não encontraria ele. por eles próprios. não por inclinação ou temor.que consiste no fato de que simples posições (realidades) não engendram contradição . se aquele homem (honesto de resto) fosse frio por temperamento e indiferente aos sofrimentos de outrem. Suponha-se então que a alma daquele filantropo esteja ensombrada por um desses desgostos pessoais que sufocam toda simpatia pela sorte de outrem e que ele sempre ainda tenha o poder de fazer bem a outros infelizes. aqui ainda. isto é. quando contrariedades ou uma aflição sem esperança tenha roubado de um homem todo gosto de viver e se o infeliz. ao menos). ele porém se arranque dessa insensibilidade mortal e aja. O Rigorismo de Kant (Fundamento da Metafísica dos Costumes) Conservar a própria vida é um dever e. que não resultaria daí nenhum juízo. se a natureza não tivesse formado esse homem particularmente o que na verdade não seria sua obra pior) para fazer dele um filantropo. ele acrescentasse alguns zeros em seu livro de caixa. elas experimentam uma satisfação íntima em irradiar alegria em torno de si e vivem o contentamento de outrem. que. o fato de que essas ações sejam feitas não por inclinação. no entanto. o fato de não estar contente com a própria situação. mas por dever. posto que as realidades não nos são dadas especificamente. quando coincide com o que realmente está de acordo com o interesse público e o dever. ademais. pois falta a essa máxima o valor moral. poderia facilmente tornar-se uma grande tentação de violar seus deveres. mas por dever. só então sua ação terá verdadeiro valor moral. pois. por estar demasiado absorvido pelo seu próprio. chegar a conhecer a priori a possibilidade de um ser ideal tão elevado. é um dever e. por conseguinte. livre da influência de qualquer inclinação. todo seu valor e não nos tornaremos mais ricos em conhecimentos com simples idéias quanto um comerciante não se tornaria em dinheiro se.191 o caráter analítico da possibilidade . com o viver pressionado por inúmeros cuidados em meio de necessidades não satisfeitas. Assegurar a própria felicidade é um dever (indireto. é por isso que a solicitude. unicamente por dever. ou deles exija as mesmas qualidades. mas não respeito. Mas eu acho que no caso de uma ação desse tipo. não possui porém verdadeiro valor moral. ele suponha que também nos outros. fica muito mais indignado com sua sorte do que desencorajado ou abatido. é honorável. mas por dever. como a ligação de todas as propriedades reais numa coisa é uma síntese cuja possibilidade não podemos julgar a priori. Essa prova ontológica (cartesiana) tão glorificada. É certo que eles conservam sua vida de acordo com o dever. pois. merece louvor e encorajamento. com o que. todos os homens já têm. isto é. mas que não seja tocado pelo infortúnio dos outros. então. o caráter da possibilidade dos conhecimentos sintéticos que deve ser sempre buscado na experiência. que pretende demonstrar por meio de conceitos a existência de um ser supremo. já que ela se coloca no mesmo plano de outras inclinações. Ora. por mais de acordo com o dever e mais amável que seja. quando se pode. valor moral e incomparavelmente o mais elevado. com ânimo forte. faz-se muito necessário que o ilustre Leibnitz tenha feito aquilo de que se orgulhava. a ambição. e. sem pensar no dever. com o pensamento de aumentar sua fortuna. mesmo sem qualquer motivo de vaidade ou de interesse. E digo mais: se a natureza tivesse colocado no coração deste ou daquele um pouco de simpatia. com que a maior parte dos homens se dedica a isso. em si próprio o meio de se dar um valor muito superior ao que possa ter um temperamento naturalmente bonsoso? Certamente! E á aqui precisamente que surge o valor do caráter. Mas. é uma coisa para a qual todos possuem uma inclinação imediata.não lhe pode ser contestado. então. mesmo que isso acontecesse. que provém daquele que faz o bem não por inclinação. freqüentemente inquieta. Ser bom. então sua máxima possui um valor moral. se deseja a morte e. mas não por dever. mas. não é menos desprovida de todo valor intrínseco e é por isso que sua máxima não possui nenhum valor moral. na medida em que ele é obra sua. perde. existem certas almas tão capacitadas para a simpatia que. além disso. as inclinações se unificam numa . por exemplo. então. talvez porque. Em compensação. a inclinação para a felicidade mais duradoura e mais íntima. e que nessas condições em que nenhuma inclinação não mais o leve a isso.

é racionalizado por Hegel. É o ser em sua totalidade que é significativo e cada acontecimento particular no mundo só tem sentido finalmente em função do Absoluto do qual não é mais do que um aspecto ou um momento. o que restaria ainda aqui. uma lei que ordena trabalhar para a própria felicidade não por inclinação. considerar Hegel como o filósofo idealista por excelência. torna-se suspeito de panteísmo. respondeu bruscamente a um estudante que lhe falava do Paraíso: "O senhor então precisa de uma gorjeta porque cuidou de sua mãe enferma e porque não envenenou ninguém!" Em todo caso. Ela é igualmente a realidade profunda das coisas. o homem não pode fazer um conceito definido e certo dessa soma de satisfações a ser dada a todas a que chama de felicidade. ao menos nessa circunstância ela não se privou. para favorecer as tendências absolutistas e intransigentes do estado prussiano. Hegel O Idealismo Lógico: Hegel Com o idealismo absoluto de Hegel. um retorno à ontologia. se atendência universal não determinasse sua vontade. que ele. Nessa última universidade lecionou até há morte. e. não fosse coisa tão importante de fazer entrar em seus cálculos. simpatizando-se pelo criticismo e pelo iluminismo. nesse caso igualmente. que traz grande prejuízo a algumas inclinações. como em todos os outros casos. da imanência absoluta. Sua filosofia representa. esse amor é o único que pode ser ordenado. Interessou-se pelos problemas religiosos e políticos. devem ser certa e igualmente compreendidas as passagens da Escritura em que é ordenado amar ao próximo. Hegel fica fiel ao historicismo romântico. a de Hegel é uma filosofia da inteligibilidade total. e sim um processo circular. no entanto. o entendimento humano. para ela ao menos. ainda que inimigo. elevado a processo dialético. um dia. a essência do próprio Ser. entrementes. mas por dever. como em Kant. corre o boato de que ele duvida da imortalidade da alma. na medida em que não há inclinação que nos conduza a isso. adquirindo grande renome e exercendo vasta influência. concebendo a realidade como vir-a-ser. Podemos. mas fazer o bem precisamente por dever. Ocorre apenas que o preceito que ordena o tornar-se feliz muitas vezes assume tal caráter. possa levar vantagem sobre uma idéia flutuante. Aproximou-se dos sistemas de Fichte e de Schelling. . pois. mas o próprio modo de ser das coisas: "O racional é real e o real é racional". Este vir-a-ser. Pois. emanentista. contudo. Na realidade. se a saúde. o idealismo fenomênico kantiano alcança logicamente o seu vértice metafísico. Mas. segundo seu cálculo. determinada quanto ao que promete e quanto à época em que pode ser satisfeita. ao mesmo tempo. com relação à crítica kantiana do conhecimento. o fundo do Ser (longe de ser uma coisa em si inacessível) é. ora. que seguiu seus cursos de 1821 a 1823. o conjunto dos princípios e das regras segundo as quais pensamos o mundo. Espírito. por exemplo. Idéia. em seguida se dedicou ao historicismo romântico. alguns o ridicularizaram (apelidando-o de Absolutus von Hegelingen). para ele. desenvolvimento. não há por que se surpreender que uma inclinação única. o futuro mostraria amplamente que a filosofia do pensador oficial da monarquia escondia um grande poder explosivo! Como a filosofia de Spinoza. afastando-se deles em seguida até combatê-los quando professor nas universidades de Jena. e mesmo que uma aversão natural e invencível a isto se oponha. o amor como inclinação não pode ser ordenado. eis aí um amor prático e não patológico. desse modo. e este processo dialético não é um movimento a quo adi quod. Faleceu em 1831 vítima de cólera. porém. portanto. uma pessoa que sofre de gota possa gostar mais de saborear o que é de seu gosto e sofra em seguida. Hegel era ao mesmo tempo suficientemente prudente e sufucientemente hermético para que se tornasse muito difícil fazer-lhe acusações precisas dessa ordem! O poeta Heinrich Heine. e é por isto somente que sua conduta possui um verdadeiro valor moral. do gozo do momento presente. uma vez que. conta. por causa da talvez enganosa esperança de uma felicidade a ser encontrada na saúde. em 1770. Heidelberg e Berlim. A razão aqui não é apenas. Estudou teologia e filosofia. em princípios da ação e não numa compaixão debilitante. em definitivo. seria uma lei. aos ideais revolucionários e críticos. que. Assim.192 totalidade. Renunciara. Em seus últimos anos. que reside na vontade e não na tendência da sensibilidade. Jorge Guilherme Frederico Hegel nasceu em Stutgart. Ela é não só um modo de pensar as coisas.

O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir.no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço. Como isso é possível? É possível porque Hegel concebe um processo racional original . mas. tanto assim que se pode considerar o Aristóteles e o Tomás de Aquino do pensamento contemporâneo. em seguida. assim como os pensamentos dos homens. a plena posse. totaliza todas as obras da cultura (é só no crepúsculo. logo como consciência. Por conseguinte. Deus só se realiza na história. se transforma no próprio motor do pensamento. abusivamente atribuída a Bismarck. de certo modo. Tal é o espírito objetivo que se realiza naquilo que Hegel chama de "o mundo da cultura". diz Hegel. a forma de civilização que triunfa a cada etapa da história é aquela que. pois. para Hegel. em suma. o mais dotado de valor e que a virtude. podem ser modificadas. dissimulado e como que estranho a si mesmo. naquele momento. a história. Enfim. só no final será o que ele é na realidade". que pretende totalizar sob sua alçada todas as outras filosofias) como Saber Absoluto. nada significa). Desse modo. Hegel é daqueles que acham que a força não "oprime" o direito (essa fórmula. Por conseguinte.193 Hegel porém se distingue de Spinoza e surge para nós como um filósofo essencialmente moderno. que dizia que a leitura dos jornais era "sua prece matinal cotidiana".Deus é o que se realizará na História. ao contrário. No entanto. Compreendemos bem. ao mesmo tempo em que é o motor da história. é uma odisséia do Espírito Universal". um espírito puramente subjetivo. diz Hegel. A lógica vai do idêntico ao idêntico. em primeiro plano. para Hegel. simultaneamente. depois. em todo caso. As principais obras de Hegel são: A Fenomenologia do Espírito. Ora. ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin). que. cada vez mais autônomos surgem no Universo? O Espírito. Não temos a impressão de que seres cada vez mais complexos. para ele. De fato. seria mostrar que a mudança é aparente. uma "teodisséia". É preciso compreender também que a história é um progresso. Aplicar a razão à história. melhor exprime o Espírito. vegetais e. Ele o contradiz. Foi um gênio poderoso.o processo dialético . O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. mas que o exprime. de instituições organizadas. Esse progresso do Espírito continua e se concluirá através da história dos homens. (Neste sentido. A Lógica. como todos os seus contemporâneos. bem como altera este por interesses práticos e políticos. A história. ao contrário. a filosofia é o saber de todos os saberes: a sabedoria suprema que. já que esta última não é . "exprime o curso do mundo". muito meditou sobre a Revolução Francesa. "O absoluto. sua cultura foi vastíssima. é a sensação imediata. recusar o tempo. Deus não é o que é . Após ter saudado em Napoleão "o espírito universal a cavalo". por conseguinte. cada vez mais organizados. bem como a sua capacidade sistemática. contrariando tudo isso. Depois.ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é . O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. "alienado" no universo. tem por missão realizar uma etapa desse progresso do Espírito. essa identificação da Razão com o Devir histórico é absolutamente paradoxal. Consideremos a história da terra. que no fundo tudo permanece idêntico. que aquele que é vitorioso na História é. como liberdade. Hegel verá no estado prussiano de seu tempo a expressão mais perfeita do Espírito Absoluto. o Espírito se descobre mais claramente na consciência artística e na consciência religiosa para finalmente apreender-se na Filosofia (notadamente na filosofia de Hegel. o racionalismo de Hegel coloca o devir. objetivar-se sob a forma de civilizações. é o domínio do mutável. a história. a plena consciência de si mesmo. subvertidas no decurso da história. ele consegue encarnar-se. a idéia se manifesta como processo histórico: "A história universal nada mais é do que a manifestação da razão". O que há de original em seu idealismo é que. Em outras palavras. Cada povo cada civilização. de início adormecido. A Filosofia do Direito. que o pássaro de Minerva levanta vôo). como ele diz. De início só existem minerais. surge cada vez mais manifestamente como ordem. O acontecimento de hoje é diferente do de ontem. no final. e esta lhe mostra que as estruturas sociais. animais. a lógica clássica considera que uma proposição fica demonstrada quando é reduzida. no final. se nos permitem o jogo de palavras. Segundo as normas da lógica clássica. Aplicar a razão à história seria negar a história. freqüentemente deforma os fatos para enquadrá-los no esquema lógico do seu sistema racionalista-dialético. A Enciclopédia das Ciências Filosóficas. O Espírito humano é de início uma consciência confusa. nessa filosofia puramente imanentista. o mundo que manifesta a Idéia não é uma natureza semelhante a si mesma em todos os tempos. identificada a uma proposição já admitida.

O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. é vencido. aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho.194 senão o Pensamento que se realiza. aí se reencontram fundidos. de modo nenhum. Aceita arriscar sua vida no combate. O outro. aprende a se afastar de todos os eventos exteriores. o "servus". é não ser! O ser. uma ligação. ao contrário. o escravo. equivale ao não-ser (eis a antítese). O conceito de ser é o mais geral. Um deles é pleno de coragem. A Dialética A dialética para Hegel é o procedimento superior do pensamento é. da tese à antítese e. transformado pelas provações e pelo próprio trabalho. essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo. essa noção simultaneamente a mais abstrata e a mais real. o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. a mais vazia e a mais compreensiva (essa noção em que o velho Parmênides se fechava: o ser é. Dois homens lutam entre si. Desse modo. sem qualquer qualidade ou determinação . ao mesmo tempo. O senhor. nada mais podemos dizer). . reconciliados. transforma-se em outra coisa? É em virtude da contradição que esse conceito envolve. O pensamento não é mais estático. c) De fato. não faz cozer seus alimentos. ele é uma espécie de escravo de seu escravo. conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. em que o espírito é constituído substancialmente como sendo o construtor da realidade e toda a sua atividade é reduzida ao âmbito da experiência. A primeira proposição encontrar-se-á finalmente transformada e enriquecida numa nova fórmula que era. Por uma conversão dialética exemplar. porquanto é da íntima natureza da síntese a priori não poder.é. sobretudo. o do senhor e o escravo. superior à sua vida. ele procede por meio de contradições superadas. b) Entretanto. Vejamos. puro e simples. Hegel põe a contradição no próprio núcleo do pensamento e das coisas simultaneamente. o escravo. É fácil ver que essa contradição se resolve no vir-a-ser (posto que vir-a-ser é não mais ser o que se era). como num diálogo em que a verdade surge a partir da discussão e das contradições. ao pé da letra. transformada em outra que não ela mesma ("alienada"). Hegel parte. como o conceito fundamental de ser se enriquece dialeticamente. transcender a experiência. Os dois contrários que engendram o devir (síntese). ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho. a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão. deviam se achar na realidade única da experiência as características divinas do antigo Deus transcendente. uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. não ser. Assim. da síntese a priori de Kant. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito. Mas. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações. ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. que devia necessariamente tornar-se panlogista. que não ousa arriscar a vida. Tal é o escravo. uma "mediação" (síntese). Ser. não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. em última análise. dialético. Nesse sentido. a) O senhor obriga o escravo. à sintese. mas também o mais pobre. aquele que. o escravo incessantemente ocupado com o trabalho. Uma proposição (tese) não pode se pôr sem se opor a outra (antítese) em que a primeira é negada. Assim. vai encontrar uma nova forma de liberdade. a libertar-se de tudo o que o oprime. que condiciona a sua. de sorte que Hegel se achava fatalmente impelido a um monismo imanentista. daí. foi conservado. em virtude do qual uma coisa não pode ser e. que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu). Como é que o ser. destruído por Kant. O vencedor não mata o prisioneiro. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material. porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo. ao mesmo tempo. "a marcha e o ritmo das próprias coisas". fundamentalmente. O senhor não cultiva seu jardim. por exemplo. numa situação de submissão absoluta. desenvolvendo uma consciência pessoal. não ser absolutamente nada. entre as duas precedentes. repetimo-la. Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana que será um dos pontos de partida da reflexão de Karl Marx. mostrando assim que é um homem livre. ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. Hegel devia. Repudiando o princípio da contradição de Aristóteles e de Leibnitz. é livre.

físico e moral. que Hegel considerava panteísmo. isto é. E por isso Hegel inventou a dialética dos opostos. demanda o seu oposto (antítese). onde um elemento gera o seu oposto. a experiência sendo a realidade absoluta.A lógica tradicional afirma que o conceito é universal abstrato. arbitrariamente potenciada segundo a não menos arbitrária lógica hegeliana. divina. cujo objeto é o universal e o imutável. coincide com a ontologia. passagem de um elemento ao seu oposto. que nega e o qual integra. antítese e síntese. ao passo que a lógica hegeliana coincide com a ontologia. isto é. 4. Quer dizer. Dispensa-se acrescentar como. todo elemento da realidade. mas o devir absoluto. a negação. logo. não podia. nos momentos essenciais. portanto.° . ao passo que a lógica hegeliana sustenta que o conceito é universal concreto. E. o particular conexo historicamente com o todo. Estamos. com efeito. antítese e síntese. Não é mister dizer que essa história dialética nada mais é que a história empírica. gerar naturalmente valores positivos de bem verdadeiro. de modo nenhum. devir. e demonstrar a necessidade racional da história natural e humana.ainda que entendido dialeticamente. para poder racionalizar o elemento potencial e negativo da experiência. Mas essa racionalidade absoluta da realidade da experiência devia ser concebida mediante o vir-a-ser absoluto (de Heráclito). para daqui começar de novo o processo dialético.como eram concebidos na lógica antiga . em que a Idéia teria acabado a . e onde a limitação. por certo. a história em geral se valoriza na filosofia. idêntico a si mesmo e excluindo o seu oposto. a qual. No entanto. que representa o elemento universal e comum dos particulares. porquanto a realidade é o desenvolvimento dialético do próprio "logos" divino. mas em toda particularidade da história. é levado às suas extremas conseqüências metafísicas imanentistas. enquanto o nosso pensamento. não estático. toma o lugar do conceito abstrato. em que o próprio objeto já não é mais o ser. Tal história dialética deveria. chegar ao panteísmo imanentista. Essa dialética dos opostos resolve e compõe em si mesma o elemento positivo da tese e da antítese. do ritmo famoso de tese. isto é. conexão histórica do particular com a totalidade do real. o grande crítico do idealismo racionalista e otimista.195 portanto. dinamicamente. igualmente não é preciso salientar como o conceito concreto. por causa do assim chamado mal metafísico.° .o monismo. como o de Spinoza. Podemos resumir assim: 1. Hegel julgou dever deduzir a priori o desenvolvimento lógico da idéia. segundo a conhecida tríade de tese. em que a positividade se realiza através da negatividade. tudo que há no mundo de arracional e de irracional.° . a necessidade da invenção de uma nova lógica.como faz o pensamento de Deus. perante um panlogismo. terminar com o advento da filosofia hegeliana. 3. cuja característica fundamental é a negação. enquanto o ser é vir-a-ser. em que . cujo objeto é o particular e o mutável. não só nos aspectos gerais. realmente. não o esgota totalmente . e sim dinâmico. em uma realidade mais rica (síntese). para poder elevar a realidade da experiência à ordem da realidade absoluta. que no espírito humano adquire plena consciência de si mesmo. da história. não somente pela negação do princípio de identidade e de contradição .mas também porquanto a nova lógica é considerada como sendo a própria lei do ser. enquanto apreende o ser imutável. declarará nada mais ser que ateísmo imanentista. 2.A lógica tradicional distingue substancialmente a filosofia. Hegel se achava obrigado a mostrar a racionalidade absoluta da realidade da experiência. o mal. onde tudo é essencialmente conexo com tudo. ser concebida mediante o ser (da filosofia aristotélica). em uma possível assimilação do devir empírico do desenvolvimento lógico . Visto que a realidade é o vir-a-ser dialético da Idéia. se apreende o ser.A lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si mesmo e exclui o seu oposto (princípio de identidade e de contradição).° . e a negação e o mal são condições de positividade e de bem.A lógica tradicional distingue-se da ontologia. não podem. ao passo que a lógica hegeliana assimila a filosofia com a história. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que a realidade é essencialmente mudança.através do idealismo absoluto . A nova lógica hegeliana difere da antiga. estabelecendo-se a si mesmo absolutamente (tese) e não esgotando o Absoluto de que é um momento. e sendo também vir-a-ser. Apresentava-se. Isto é. sendo o mundo da experiência limitado e deficiente. que Schopenhauer. ainda que não totalmente. a autoconsciência racional de Deus. enfim. a realidade deveria transformar-se rigorosamente na racionalidade em um sistema coerente de pensamento idealista e imanentista.

e reconhecer na forma. adquirindo consciência de si mesma. e essa igual necessidade faz a vida do conjunto. se se quiser. não é senão puro ser para-si. do mesmo modo. aqui. Não concebe a diferença entre os sistemas filosóficos como o desenvolvimento progressivo da verdade. ser definidos como um jogo de amor para consigo mesmo. mas também como forma e em toda riqueza da forma desenvolvida. A verdade é o todo. O Absoluto Por Fim Não é Senão Aquilo Que Ele é na Realidade A vida e o reconhecimento divinos podem. ademais. se lhe retirarmos a seriedade. Essas formas não só se distinguem. portanto. a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. numa explicação sobre tal sistema. que ele não é senão por fim o que ele é em verdade. como substância imediata ou pura intuição de si do divino. em-si. O Senhor e o Escravo Buscar a morte do outro implica em arriscar a própria vida. ele só admite uma ou outra dessas atitudes. Mas. Por conseguinte. Textos de Hegel Dialética Hegeliana: A Contradição é o Motor do Pensamento Para o senso comum. não se deve apreendê-la ou exprimi-la apenas como essência. prova que ela.196 sua odisséia. como absoluto. momentos mutuamente necessários. Mas esse em-si é universalidade abstrata caso negligenciemos sua natureza de ser para-si e. É inexato crer. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certametne ser reconhecido como pessoa. Essa vida. do que parece se combater e se contradizer. o movimento espontâneo da forma. por isso. diversidade significa unicamente contradição. é a serena igualdade e a unidade consigo que nada têm a fazer com o ser-outro e a alienação. a oposição entre verdadeiro e falso é algo de fixo. ao declarar a forma como igual à essência. O broto desaparece na eclosão da flor e poder-se-ia dizer que aquele é refutado por esta. nada mais é que o infinito vir-a-ser dialético. Só então é que ela é concebida e exprimida como atual. está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por uma outra consciência(²). pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si. cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Precisamente porque a forma é tão essencial à essência quanto a essência a si própria. que o conhecimento possa se satisfazer com o em-si ou a intuição absoluta da primeira dispensam o acabamento da primeira e o desenvolvimento da segunda. sua natureza cambiante faz delas momentos da unidade orgânica em que não só não estão em conflito mas onde tanto um quanto outro é necessário. a dor. sua certeza de existir para si. mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente. isto é. Mas o todo não é senão a essência que se conclui por seu desenvolvimento. não é a forma imediata de sua manifestação. nem com a superação dessa alienação. então. não é sua imersão no oceano da vida. e é nisto precisamente que consiste sua natureza de ser sujeito atual ou Devir de si. o espírito que apreende a contradição habitualmente não sabe liberá-la ou conservá-la livre de sua unilateralidade.(¹) O senhor é a consciência que é por si mesma. Não podem evitar essa luta. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro. habitualmente ele espera que se aprove ou se rejeite em bloco um sistema filosófico existente. viria a ser negada a própria essência da filosofia hegeliana. e. desse modo. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. e. isto é. o pensamento. isto é. No entanto. Há que dizer do absoluto que ele é essencialmente resultado. para a qual o ser. para ele. no espírito humano. . mas se suplantam como incompatíveis. mas essa consciência. essa idéia cai no nível da edificação e mesmo da insipidez. da sua divindade. o fruto declara que a flor é uma falsa existência da planta e a substitui enquanto verdade da planta. a paciência e o trabalho do negativo. Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela. Mas comumente não é assim que se compreende a contradição entre sistemas filosóficos.

um ser para-si que só o é por meio do outro. Na realidade. chegar a suprimi-la. assim como a noção geral de fruto só se explicita quando efetivamente se trata de "cerejas. posto que possuía sua independência numa coisa externa. com o escravo. mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode. Hegel assinalava que a noção de História da Filosofia "envolve uma contradição interna". a uma etapa na conquista do espírito absoluto. Ele inspirou amplamente as análises de nossos contemporâneos sobre as relações do eu com o outro. Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo. ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta. portanto. Mas a história conta o que foi numa época e que desapareceu em outra. aquele que é vitorioso no combate. "ela não penetra na esfera do que passa e não tem história". ele o consegue. mas (b) é simultaneamente mediação. a relação do senhor com a coisa é uma relação de simples gozo que equivale à negação da coisa. o senhor domina os objetos da necessidade. O vencido. A idéia geral de filosofia permanece abstrata se não se confunde com os diversos sistemas dos filósofos no decurso da história. escravo da vida e de seus objetos empíricos. ele é mais do que ela. objeto do apetite. Pensamos nos versos de Valéry: Como o fruto se funde em fruição Como em delícias ele muda sua ausência Numa boca em que sua forma se extingue. ele é a potência que domina esse ser externo. relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa. isto é. o eterno. pois é precisamente a ela que o escravo está preso. ele se relaciona (a) imediatamente com os dois e (b) imediatamente com cada um por intermédio do outro. Com efeito. seu fim é a verdade. Torna-se tembém escravo do senhor que o conserva (servus = conservado) a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória. tem medo de perder a vida. a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo. Entretanto. O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal. No ponto de partida. é relação imediata do ser para-si. Quanto ao senhor. uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo. a filosofia encontra-se toda nos sistemas dos filósofos. da relação com o escravo). Em compensação. o senhor também o domina. uma relação. de início. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa. aquilo que o apetite não conseguiu. aos objetos das necessidades. em outras palavras. Secundariamente. posto que no campo de batalha ele se mostrou corajoso. O senhor se define por sua relação com o escravo (e por sua relação com os objetos que depende. uma relação mediata em virtude da existência independente. o senhor domina os objetos por mediação do escravo que trabalha. (²) Hegel quer dizer que o senhor não é senhor "em-si". fruindo-a puramente. Concepção Dialética da História da Filosofia Em suas lições sobre a história da filosofia. ao colocar o escravo contra ela e si próprio.197 notadamente por uma consciência cuja natureza implica no fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral.(³) (¹) Este difícil texto de é característico do método hegeliano. mas por meio de uma mediação. Ela surge "no devido momento. superior à sua vida. pois provou na luta que o considera como puramente negativo. aquele que se rendeu. Uma vez que o senhor (a). Hegel examina simultaneamente a relação de dois "eu" e a relação de cada eu com sua própria vida. substituído por outra coisa". por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica. ele é. este último. graças a essa mediação. e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa. O senhor tem. domina a coisa e se satisfaz na fruição. por meio de sua negação. Na luta de duas consciências. Cada filosofia é "o espírito da época existente como espírito que se pensa". ele só faz trabalhar. Se a verdade é eterna. que transforma os objetos materiais em objetos de consumo e de fruição para o senhor. a fim de se fazer reconhecer como consciência. isto é. . ameixas ou uvas". (³) Graças ao trabalho do escravo. ela própria. deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha. Por conseguinte. o que o levou a mostrar-se dependente. enquanto conceito da consciência de si. aceitou arriscar a vida. enquanto consciência de si. só entra em contato com o aspecto dependente da coisa. para o senhor. "a filosofia quer conhecer o imperecível. O "senhor". mas o senhor. Por conseguinte. cada filosofia corresponde a um momento da história.

Se se for mais adiante. ele afasta o caráter exclusivo de um e outro. Mas ambas se manifestam. A dificuldade consiste em ver o que os sistemas filosóficos contêm de verdadeiro. Os princípios gerais surgem segundo a necessidade da noção fundamental. a essência da história da filosofia consiste em que princípios exclusivos transformam-se em momentos. é afirmativo. ... em seguida. num nó. As filosofias são as formas do Uno. depois é o botão e o cálice que. A filosofia de Platão. O princípio de uma filosofia passa.. é a síntese do imóvel ser parmenídico com a mobilidade heracliteana. citaremos um excerto das lições sobre a História da Filosofia: A razão é una e essa racionalidade una. ela é assumida sem ser rejeitada. pessoa culta e delicada. o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira.. compõe-se dos dois elementos.. mais profundo. isto é sobretudo gosto característico dos jovens. "nós" em que vêm se reconciliar dialeticamente os contraditórios. apenas sua posição é que é refutada.. Assim. aliás. de suas deficiências. uma após outra. sendo necessário. para o segundo. por assim dizer. Limitar-se a refutar uma filosofia é não compreendê-la. (¹) Encontramos essa idéia em Marx. Um estudo mais avançado mostrar-nos-á como progridem seus princípios. O ceticismo é o princípio negativo que se eleva contra os dois precedentes. é assim que o primeiro elemento é colocado numa categoria inferior pelo seguinte. mas as novas filosofias mostram as anteriores como verdades parciais passíveis de serem integradas numa síntese mais ampla que se elabora com o tempo. o Uno. do que ver em alguma parte o caráter negativo. eles são os frutos de seu tempo. Nesse sentido. uma união em uma viva unidade do pensamento. As filosofias sucessivas não se refutam. seu pai. pois ambos são necessários. todos os princípios são conservados. um sistema e. A posição dos precedentes é determinada pelo que se segue. do geral e do particular. a determinação precedente torna-se apenas um ingrediente da nova. Conhecer verdadeiramente um sistema é tê-lo justificado em-si. é preciso ver a verdade que ela contém. o princípio das concepções subseqüentes é superior ou. mas se só se vê a negação. mas engana-se quando acredita os ter eliminado. Desse modo. é o fundamento de tudo.. é o geral e para outro o particular. antes de tudo. de seu povo. Karl Ludwig. na seguinte. aquilo que se desenvolve na razão progride na unidade dessa razão. o homem sensível. O estoicismo faz do pensamento um princípio. em elementos concretos e se conservam. como diz Hegel. mas o epicurismo proclama vedadeiro o princípio diretamente oposto: o sentimento. portanto. por exemplo. Somente sua reunião constitui a totalidade da noção e o homem. ignora-se o conteúdo que. só quando são justificados em si próprios é que se pode falar de seu limites. se transformam em envoltório a serviço do fruto. para a categoria de um momento. o que dá no mesmo. localidade próxima a Leipzig. o prazer para um. Não se refuta uma filosofia. Nada mais fácil do que criticar. o individual: para o primeiro. e seus dois avós eram pastores protestantes. conhecer os princípios dos sistemas filosóficos e em seguida reconhecer cada um deles como necessário. cujas forças mais sutis e mais ocultas se traduzem em idéias filosóficas.. Desse modo.198 nenhuma ultrapassou seu tempo" (¹). a unidade. ele sim. O mesmo espírito fabrica as teorias filosóficas na mente dos filósofos e constrói as estradas de ferro com as mãos dos operários. opondo-se. Nietzsche Vida e Obra Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken. mas uma reunião das filosofias precedentes que então formam um todo vivo. do pensamento e da sensibilidade. As folhas. de maneira que o seguinte é uma nova determinação do precedente. Sua união é a verdade. num contexto materialista: "Os filósofos não brotam da terra como cogumelos. A história de Platão não é um ecletismo. supera-se-o sem que se encontre no interior. A filosofia não é exterior ao mundo". a evolução das determinações do pensamento é igualmente racional. ele se apresenta em sua época como superior. A história da filosofia oferece momentos privilegiados ou. são o modo de existência mais elevado da planta. é o homem pensante. de início. É importante. por isso.

da desordem e da música. onde Nietzsche cresceu. diz Nietzsche. pois logo adoeceu. onde Wagner morava. apaixonou-se por Cosima. A tragédia grega. Em 1871. mas por pouco tempo.-399 a. Hesíodo (séc. Em cartas ao amigo Erwin Rohde. mas. Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta. influenciado por seu professor predileto. Nessa obra. de Schopenhauer (1788-1860). o apolíneo e o dionisíaco. Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805). Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883).C.C. assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia. Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824). a do Logos e da lógica. sob a influência "decadente" de Sócrates. publicou O Nascimento da Tragédia.199 Em 1849. onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). onde permaneceu por dez anos. para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos. Durante o último ano em Pforta. da harmonia e da ordem. Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical.C. depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma". VI a. por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg. sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música. alemão e latim. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida. Sócrates pôde atrair os jovens com a dialética. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos. assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força criadora. com eles criou uma pequena sociedade artística e literária. em 1869. o deus da exuberância. a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner. entre o cidadão e o político. passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega. mas estudos das instituições e do pensamento. a da cidade-Estado. começou a declinar quando. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias. Em 1858. Na universidade.C. complementares entre si. principalmente com Tristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. pequena cidade às margens do Saale. VIII a. aluno modelo. Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc.) um "sedutor". que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima. nessa ocasião.C.) e Homero. escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia. tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". dócil e leal. escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. professor de filologia em Basiléia. Segundo Nietzsche.). dedicando-se à filologia. Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza. Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual e o intelectual. Partiu em seguida para Bonn. duas tias e da avó. A partir desses trabalhos foi nomeado. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação.). em companhia da mãe. mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação. seus autores favoritos. a Alemanha entrou em guerra com a França. Ritschl. Para ele a Grécia socrática. Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar. Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. O Filósofo e o Músico Em 1870. Dioniso. coisa tão querida pelos gregos. isto é. filha de Liszt (1811-1886). desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig. considera Sócrates (470 ou 469 a. Nietzsche serviu o exército como enfermeiro. e .) e Ésquilo (525-456 a. Assim. Nietzsche pergunta como. A casa de campo de Tribschen. Na mesma época. Nietzsche responde que isso aconteceu porque a existência grega já tinha perdido sua "bela imediatez". Criança feliz. foram separados pela civilização. Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer. a "sonhada Ariane". aos poucos. entre os clássicos. num povo amante da beleza. seu pai e seu irmão faleceram. entre Eros e Logos.C. foi invadida pelo racionalismo. contraindo difteria e disenteria. foram Platão (428-348 a. Em 1867. Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. em obra posterior. de Dioniso e Apolo. Nietzsche restabeleceu-se lentamente e voltou a Basiléia a fim de prosseguir seus cursos. esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. uma nova forma de disputa (ágon). entre o poeta e o filósofo. às margens do lago de Lucerna. seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor". III). que viria a ser. sob essa influência e a de alguns professores.

O Caso Wagner. esperava-se com seu estado de saúde: dores de cabeça. Nietzsche escreveu: "Não há nada de exausto. Mas o "entusiasmo grosseiro" da multidão e a atitude de Wagner embriagado pelo sucesso o irritaram. Nietzsche voltou à cátedra. porém. ambos são parentes porque são a manifestação da decadência. Demasiado Humano. com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia". mudou de opinião. Nietzsche publicou O Andarilho e sua Sombra: um ano depois apareceu Aurora. e. seu trabalho não foi bem acolhido por seus amigos. passando o inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. seus amigos não o compreenderam. O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte. Mas sua voz agora era tão imperceptível que os ouvintes deixaram de freqüentar seus cursos. Nietzsche não se encontrava bem instalado. Nietzsche propôs-lhe casamento e foi recusado. dificuldades na fala. mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua amiga e discípula. de Wagner. Crepúsculo dos Ídolos. sentia-se cada vez mais só. e. pediu demissão do cargo. . Nietzsche transferiu-se para Gênova. veio à luz A Gaia Ciência. ao mesmo tempo. outrora tão brilhantes. durante um passeio. para assistir à apresentação de O Anel dos Nibelungos. como reduto da cristandade teutônica. Ecce Homo. acaricia toda a forma de cristianismo e toda expressão religiosa de decadência" . achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. redigido logo depois. Ele acaricia todo o instinto niilista (budista) e embeleza-o com a música. Nessa ocasião. Encontraram-se mais tarde na Alemanha. ele dissimula o mais negro obscurantismo nos orbes luminosos do ideal. na pequena aldeia de Silvaplana. No outono de 1883 voltou para a Alemanha e passou a residir em Naumburg. é o criador dos valores. dizia Nietzsche. que pretendia casá-lo com uma jovem finlandesa. nem respondeu à carta que Nietzsche lhe enviara. Nietzsche residiu em Haute-Engandine. Em 1882. isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. Erwin Rohde nem chegou a agradecer-lhe o recebimento da obra. da fraqueza e da negação. Para Além de Bem e Mal (1886). Em Rapallo. onde permaneceu por insistência de Fräulein von Meysenburg. depois Assim falou Zaratustra (1884). que pretendia fundar uma empresa colonial no Paraguai. para Nietzsche. que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia". Mais uma vez. Em 1882. O homem. nada que calunie o mundo no reino do espírito. Em 1879. e depois para Roma. quando os valores não são mais do que algo "humano. do bem e do mal. no outono de 1881. Agonia e Morte Em 1880. Em seguida. Nietzsche desprezava o anti-semitismo. Terminada a licença da universidade para que tratasse da saúde. nada de perigoso para a vida. a recusa do cristianismo e de Schopenhauer. isto é. não conseguindo influenciar a irmã. Ao mesmo tempo. Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e. Além disso. recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre". Interrompeu assim sua carreira universitária por um ano. perturbações oculares. mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente". que não tenha encontrado secretamente abrigo em sua arte. Nietzsche contra Wagner (1888). pois sua irmã tencionava casar-se com Herr Foster. "foi durante o inverno e no meio desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra". Irritado com o antigo amigo. não houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e. em companhia da mãe e da irmã. mostrava-se muito contrariado.200 tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução lançasse mão de uma "razão tirânica". de "eterno" e "verdadeiro". Mesmo doente foi até Bayreuth. ao mesmo tempo. Apesar da companhia dos familiares. teve a intuição de O Eterno Retorno. o que o impeliu a refletir sobre a incompatibilidade entre o "pensador privado" e o "professor público". da alegria e do sofrimento. Nietzsche. Solidão. demasiado humano". a fim de dominar os instintos contraditórios. Nessa época Wagner voltara-se. iniciou sua grande crítica dos valores. Seu livro foi mal acolhido pela crítica. De Silvaplana. nada de caduco. agitador anti-semita. escrevendo Humano. Durante o verão de 1881. retornou à Itália. Ditirambos Dionisíacos. porém. abandonou Naumburg. Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela alternância da criação e da destruição. Lou Andreas Salomé. assim. acabaram por se afastar definitivamente. afastou-se da filosofia de Schopenhauer.

fazendo da vida aquilo que deve ser julgado. em nome de valores "superiores" como o Divino. jovem discípulo de Wagner. O Dionisíaco e o Socrático Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com meios de expressão: o aforismo e o poema. criou-se. Com tal concepção. totalizando os fragmentos. em Turim. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional. Sócrates "inventou" a metafísica. veio a público a Quarta parte de Assim falou Zaratustra. . partindo depois para a Suíça. o Belo. o avaliador seria o artista que considera e cria perspectivas. inteligível e sensível. e o pensamento "afirmando" a vida. o que o amargurou profundamente. A interpretação procuraria fixar o sentido de um fenômeno. onde recebeu a visita do barão Heinrich von Stein. medido. Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica. no entanto. falando pelo poema. Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. Depois disso. constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. viajou para Nice. sempre parcial e fragmentário. Essa degeneração. Por seu lado. mas sim de interpretar e avaliar. limitado. Depois de 1888. o aforismo nietzschiano é. Provavelmente de origem sifilítica. mediando-a por eles. ao mesmo tempo. Von Stein. escrevia cartas ora assinando "Dioniso".201 Em princípio de abril de 1884 chegou a Veneza. algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos. segundo Nietzsche. Segundo Sócrates. enfrentou o auge da crise. onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky. atenuar ou suprimir a pluralidade. impondo-lhes limites. a arte da tragédia desvia o homem do caminho da verdade: "uma obra só é bela se obedecer à razão". condenando-a. ora "o Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia. surgiu o filósofo metafísico. cada vez mais isolado. Com Sócrates. Assim. verdadeiro e falso. Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos". Para Nietzsche. um tipo de filósofo encontra-se entre os pré-socráticos. o Verdadeiro. Nietzsche viu no rapaz um discípulo capaz de compreender o seu Zaratustra. Esse bem ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo supra-sensível. o Bem. Von Stein esperava que o filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal. onde foi diagnosticada uma "paralisia progressiva". e o poema constitui a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. isto é. Nietzsche faleceu em Weimar. O intérprete seria uma espécie de fisiologista e de médico. talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu ataque contra Wagner. Para Nietzsche. simultaneamente. sem. a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada. a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e. o filósofo do futuro deveria ser artista e médico-legislador. sucedendo-se alternâncias entre euforia e depressão. apareceu claramente com Sócrates. afirma Nietzsche. a 25 de agosto de 1900. crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos. esta "estimulando" o pensamento. nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida. corresponde ao aforismo "só o homem que concebe o bem é virtuoso". Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro. em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo. publicado em um jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florença. no entanto. a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida". a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos. opondo a ela valores pretensamente superiores. nesse sentido. aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos. Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de "mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que me trata dessa maneira". inacessível ao conhecimento dos sentidos. Um ano mais tarde. que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia. Em lugar do filósofo-legislador. veio a falecer muito cedo. que lera Assim falou Zaratustra e escrevera um artigo. pela oposição entre essencial e aparente. teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente "submisso". diz Nietzsche. tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. no "verdadeiro mundo". o autor só encontrou sete pessoas a quem enviála. Em 1885. os quais só revelariam o aparente e irreal. a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia. inaugurando a época da razão e do homem teórico. e. Certa vez. quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos. formula que. Reunindo as duas capacidades.

a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam. o inautêntico e o aparente. lógico. Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos . pois procura "fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo". com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de "bem" e de "mal". em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora". "Este ódio de tudo que é humano". Nietzsche combateu a metafísica. vontade de aniquilamento. Quando esse niilismo triunfa. autêntico e verdadeiro. dever. mudança. levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal". Nietzsche traz à tona. uma luta acirrada contra o cristianismo. Essa concepção constitui uma metafísica que. criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. triunfando o negativo e a reação contra a ação. desejo mesmo. Para Nietzsche. verdadeira natureza da realidade. Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: "munido de uma tocha cuja luz não treme. e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades". A partir daqui. na fórmula "tu és mau. tudo isso significa. de "um platonismo para o povo". logo eu sou bom". o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas. possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato. é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo. e a consciência uma força crítica e negativa. à luz das idéias do outro mundo. para Sócrates. essa é a maneira como o escravo a concebe. para Nietzsche. A imagem da tocha simboliza. significado este que foi sepultado pelo cristianismo. o corpo. na medida em que abandonou o fenômeno do trágico. Segundo Nietzsche. segundo Nietzsche... entende o terrestre. à dor e à luta. Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento ("é tua culpa se sou fraco e infeliz"). forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo. O Vôo da Águia.. esforço. Em latim. Penetrar a própria razão das coisas. e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). o aspecto lógico-racional. e a única coisa permitida é sua interpretação. A única existência. retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente. esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em arte". Assim. o homem se afastou cada vez mais desse conhecimento. o sensível. um significado esquecido da palavra "bom". faltou-lhe a visão mística. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria. por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia. em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. mas como "sinais". Assim. Por essa razão. racional. o método filológico. "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria'. Assim como esse. por exemplo. foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. o "homem teórico". que é preciso desmistificar. hostilidade à vida. Sócrates. no pensamento de Nietzsche. dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas). porém. recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". a única atividade digna do homem. distinguindo o verdadeiro do aparente e do erro era. inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes. o homem está destinado à multiplicidade. uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica. outros significados precisariam ser recuperados. a vontade de potência deixa de querer significar "criar" para querer dizer "dominar".202 segundo Nietzsche. portanto. bonus significa também o "guerreiro". diz Nietzsche. este temor dos sentidos. a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação. a Ascensão da Montanha A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é. ao mesmo tempo. de uma vulgarização da metafísica. repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à vida. este desejo de fugir de tudo que é aparência.. diz Nietzsche. este horror da felicidade e da beleza. continua Nietzsche. e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. restou a Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito. como o provisório. Trata-se. O cristianismo. diz Nietzsche. morte. Com ele. é a aparência e seu reverso não é mais o Ser.

portanto. sempre foram inventadas pelas classes superiores e. mas impõem uma interpretação. Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso. do "guerreiro". concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade. E o eterno retorno. A etimologia nietzschiana mostra que não existe um "sentido original". é o além-do-homem. totalmente irresponsável. aí está a causa de meu cansaço e de toda a existência. Por outro lado. diz Nietzsche. se Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o desigual e a seleção. e apenas ele. a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície. e a transmutação dos valores traz consigo o novo homem que se situa além do próprio homem. o eterno retorno nietzschiano é essencialmente seletivo. avaliação. o eterno retorno causa ao personagem-título. faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. amoral e superior ao lógico. cuja vontade "deseje dominar". como um deus artista. criar". Dessa forma. "mas. a um ciclo. o Bem é a vontade do mais forte. apesar de tudo. o verdadeiro oposto a Dioniso não é mais Sócrates. que faz do futuro numa repetição. diz Nietzsche. Com essa concepção. o intérprete por excelência. e o intérprete-filólogo. Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência. Os Limites do Humano: O Além-do-Homem Em Ecce Homo. da ressurreição e da volta. esta. do super-homem. dirão à vida: uma vez mais". neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes. Em dois momentos de Assim falou Zaratustra (Zaratustra doente e Zaratustra convalescente). eu negam a "afirmação". As palavras. . antes mesmo de serem signos. O grande desgosto do homem. oferece. da alegria e do sofrimento. Com isso. Para Nietzsche. a baixeza transforma-se em nobreza. na medida em que tudo é máscara. a verdadeira oposição é a que contrapõe. diz Nietzsche. "dar" e "avaliar". hipocrisia e máscara. Assim. de um lado. Vontade de potência. e que ele faria tudo voltar. aberta para o futuro. como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias. o sofrimento. deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a "profundidade da interioridade" é coisa diferente do que ela mesma pretende ser. pois as próprias palavras não passam de interpretações. O trabalho do etimologista.203 que negam a vida. Para Dioniso. mas o Crucificado. assim. como desejo de dominar. diz Nietzsche. a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência. primeiramente. o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida. é como Dioniso. mesmo o homem. "os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas". Em outros termos. mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso. o vôo da águia. segundo Nietzsche. ao percorrer os signos para denunciá-las. diz Nietzsche. a morte e o declínio são apenas a outra face da alegria. no entanto. Esse super-homem nietzschiano não é um ser. Por isso. mesmo do mais pequeno. e o "eterno retorno". implica resignação. significa "criar". diz Zaratustra. Fazer isso é "aliviar o que vive. O eterno retorno. pois o que o tornava doente era a idéia de que o eterno retorno estava ligado. entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano. A "profundidade da consciência" que busca o Bem e a Verdade. interpretação. do bem e do mal. a afirmação do devir e do múltiplo. do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos. o homem descobre no eterno retorno a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e da destruição. não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo. Zaratustra. aí está o que me sufocou e que me tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o adivinho: tudo é igual. portanto. de outro. Se se interpreta vontade de potência. o "homem pequeno". uma "saída fora da mentira de dois mil anos". Nietzsche responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma vida para a qual tudo se tornou vão. não indicam um significado. deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado. uma repulsa e um medo intoleráveis que desaparecem por ocasião de sua cura. desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força criadora de novos valores. e se elas só significam porque são "interpretações essenciais". dançar.

Uma Filosofia Confiscada Apoiado na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã. não há mais elevado fim do que servilo. a vitória da Alemanha sobre a França teria como conseqüência "um poder altamente perigoso para a cultura". e. é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. fazendo publicar Vontade de Potência como a última e a mais representativa das obras de Nietzsche. a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães. em Weimar. sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth. de tal forma que se passou a ver no autor de Assim Falou Zaratustra um percursor do nazismo. Em Para Além de Bem e Mal. assim. para ele. mas seu ardor patriótico logo se dissolveu. reuniu arbitrariamente notas e rascunhos do irmão. que leva a negação a seu último grau. homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e nacional.. Por ocasião desse conflito. No mesmo sentido. o profeta do além-do-homem. pois impossibilitam que se pense a diferença entre os valores dos "senhores e dos escravos". Nessa época. o Estado tem uma origem "terrível". humildade. desde sua participação na guerra francoprussiana (1870-1871). uma instância a serviço daquele que cria. portanto. de sua própria filosofia. fazendo dela uma ação. organizando o Nietzsche-Archiv. O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação. ao contrário. entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento. desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista. que lhe parecem "imorais". à moral da compaixão. Compreende-se. em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio do super-homem. Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. por causa do nacionalismo e anti-semitismo do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que desprezo. assim. para ele. Por outro lado. amor ao próximo. Esta obra constitui uma interpretação. para Nietzsche. piedade. purificá-lo de todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome. disciplinados como uma cifre oculta em um número". segundo as quais o estado é o mais alto fim do homem. é necessário. pela personalidade criadora. Nietzsche caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de "obediência e longas pernas". Nietzsche revela o desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. que afirma. quando confiou ao "louro" a tarefa de "virilizar a Europa". aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia. Por outro lado. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência. Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção. pelo amor ao distante. Ambos foram combatidos pelo filósofo.. porque Nietzsche desacredita das doutrinas igualitárias. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: "estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados. constituem valores inferiores. depois do suicídio do marido. Nietzsche alistou-se no exército alemão. retendo até 1908 Ecce Homo.204 Nesse sentido. que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta. Nietzsche recusa o socialismo. objetividade. que. feita por Nietzsche. da doçura feminina e cristã. assim. bondade. Zaratustra. Oposta. . da piedade. Para compreender corretamente as idéias políticas de Nietzsche. ao assegurar a difusão de seu pensamento. é a pura afirmação. A moral do além-do-homem. Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez". até o anti-semitismo". pelo orgulho. portanto. como a crítica total que acompanha a criação. impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos. E acabou rompendo definitivamente com Wagner. Jacob Burckhardt (1818-1897). afirmou Nietzsche. tentou colocá-lo a serviço do nacional-socialismo. que insistia junto a seus alunos para que não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício de verdadeira grandeza. mas em Vontade de Potência exorta os operários a reagirem "como soldados". pelo risco. Assim. essas teorias seriam apenas "fantásticas". pois. Elisabeth. que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. escrita em 1888. "A democracia é a forma histórica de decadência do Estado". que só sabem obedecer pesadamente. que fracassara em um projeto colonial no Paraguai.

Trocou a Universidade de Copenhague. chamava a si mesmo de "filho da velhice" e teria seguido a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um estudante indisciplinado e boêmio. que cultuava a maneira exacerbada os rígidos princípios do protestantismo dinamarquês. A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a "meditação ascética". É dentro dessa perspectiva. sendo a doença um desvio interior à própria vida. pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas. revela um superficial entendimento de seu pensamento. está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem. verdadeiro e falso. Nietzsche intitulou seus capítulos: "Por que sou tão finalista?". Ao contrário disso. que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões. portanto. Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade". portanto. diz Nietzsche. a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade. nem a doença são entidades. tinha 56 e a mãe 44 –. nem a saúde. fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença "um ponto de vista" sobre a saúde e vice-versa. rico comerciante de Copenhague. Sua crise final apenas marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. Kierkegaard Kierkegaard é um dos raros autores cuja vida exerceu profunda influência no desenvolvimento da obra. tornando-a estática e estereotipada. Há uma continuidade. sob o travestimento da loucura. incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo – herança de um pai extremamente religioso. diz Nietzsche. como tal. assim. as oposições entre bem e mal. da saúde à doença. . doença e saúde são apenas jogos de superfície. e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: "Na verdade. alguma coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados foram espalhados pela Grécia". os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria.205 sendo criação da violência e da conquista e. tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre. ainda que para outros signifique doença. é necessário colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção da filosofia: Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia. A filosofia foi. onde entrara em 1830 para estudar filosofia e teologia. seus alicerces encontram-se na máxima que diz: "o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância. Em suma. não há fato patológico. com isso. no entanto. quando o pai. As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas em seus textos. para ele. entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau. diz Nietzsche. a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa. que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e. pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. os teatros. a fisiologia e a patologia são uma única coisa. a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados "manifestações diabólicas". "Por que sou tão inteligente?". Assim Falou Zaratustra Em Ecce Homo. Para ele. o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-dohomem. aos "filósofos além de bem e mal". Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e desqualificada pela loucura. aniquilar as paixões é uma "triste loucura". religião de Estado. pelos cafés da cidade. Sétimo filho de um casamento que já durava muitos anos – nasceu em 1813.. Para Nietzsche. "Por que escrevo livros tão bons?". Mas.. a vontade de potência. "Por que sou tão sábio?". rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso. A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa. Para entendê-lo corretamente. Essa opinião. para Nietzsche. esconde um saber fatal e "demasiado certo". usurpação e violência". a arte de deslocar as perspectivas. cuja decifração cabe à filosofia. como conseqüência. a vida social. O Estado.

de sua especificidade e do caráter insuperável de sua realidade. Assim. comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossa condição. essa defesa arraigada daquilo que é único? Não de uma contraposição teórico-filosófica a Hegel. Kierkegaard escolheu a solidão. A crise vivida por um homem que. ao mesmo tempo. ao optar pelo compromisso radical com a transcendência. enquanto ser individual. mais religioso. da moral. na raiz das tentativas filosóficas que se deram ao longo da história. mas. Volta a Copenhague em 1842. Trata-se muito mais de rebelar-se contra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa. está em Diários. Polemista por excelência. Pra elas. de Copenhague. o Post-scriptum a Migalhas Filosóficas. o particular pelo geral. Um ano depois. ainda em 1841. na afirmação radical da própria individualidade. por exemplo. essa era a única maneira de vivenciar sua fé. publicou Doença Mortal e. Isso fica bem evidenciado quando ele reage às filosofias de sua época – em especial à de Hegel. Filósofo ou Religioso? A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a levantar dúvidas a respeito do caráter filosófico de seu pensamento. Estamos habituados a ver. o caráter socrático do autoconhecimento e o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduo diante da verdade cristã. a divindade. Em Kierkegaard não encontramos. então. a filosofia assume. Não se trata de questionar as incorreções ou as inconsistências do sistema hegeliano. Para Kierkegaard. Em Kierkegaard há um forte sentimento de irredutibilidade do indivíduo. razões da ordem da reforma do conhecimento. Não devemos buscar o sentido do indivíduo numa harmonia racional que anula as singularidades. mas como a solidão característica do homem que se coloca como finito perante o infinito. dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do tempo. qual a finalidade que ele intencionalmente deu à sua obra. da política. quais as questões fundamentais que lhe motivam a reflexão. em particular. A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como um conceito lógico. Rompido o noivado. Morreu em 1855. Escola do Cristianismo. Na Alemanha. Para Hegel. em 1850. com a qual travou um debate acirrado. descobre a necessidade da solidão e do distanciamento mundano. Para além das minúcias que essa distinção envolveria. exerceria uma influência decisiva em sua obra. estritamente. Kierkegaard elabora seu pensamento a partir do exame concreto do homem religioso historicamente situado. que sua vida mudou. Temor e Tremor e A Repetição. e um ano depois apresentava "Sobre o Conceito de Ironia". sim. Ora. A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e seu pensamento. tratar-se-ia muito mais de um pensador religioso do que de um filósofo. Para ele. sua tese de doutorado. no mundo e perante aquilo que o ultrapassa. Em 1849. o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização de uma totalidade infinita se compraz na finitude. Em 1844 saem Migalhas Filosóficas e O Conceito de Angústia. em que analisa a deterioração do sentimento religioso. O individual se explica pelo sistema. nenhuma dessas motivações tradicionais. a um só tempo. no entanto. e em 1843 publica A Alternativa. Também em 1840 ele conclui o curso de teologia. De onde provém. porque a vê como uma etapa de algo maior. a partir de uma dimensão sobre-humana. é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por uma finalidade que. o infinito. é editado As Etapas no Caminho da Vida e. A individualidade define a existência. ele encontra sua realização. os paradoxos da existência religiosa. A maior parte desses textos constitui uma tentativa de explicar a Regina. cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard. mas de uma concepção muito profunda da situação do homem. em 1846. com a morte do pai e o relacionamento com Regina Oslen (de quem se tornaria noivo em 1840).206 Foi só em 1837. O noivado. para a Alemanha. cujo sentido é infinito. ou. e a ele mesmo. foi aluno de Schelling e esboça alguns de seus textos mais importantes. viajou. o indivíduo é um momento de uma totalidade sistemática que o ultrapassa e na qual. Esse é o momento da segunda grande mudança em sua vida. Pode-se perguntar. Em vez de pastor e pai de família. . Kierkegaard criticou a Igreja oficial da Dinamarca. e foi execrado pelo semanário satírico O Corsário.

dotado. ou seja. penetrado. embora histórico. Por isso devemos dizer: creio porque é absurdo. Essa angústia. outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade. Cristo. O Sofrimento Necessário A subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário. de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso. jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção e. e o fato igualmente incompreensível do sacrifício na cruz. de posse da verdade humana do cristianismo. Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse sentimento. O fato da redenção. este jamais teria acesso à Verdade. se realiza na vivência da religiosidade cristã. de optar entre dois códigos de ética. possui uma dimensão que o torna referência intemporal para se vivenciar a fé. é o mediador entre o homem e Deus. Mas o próprio Cristo é incompreensível. Somente dessa maneira nos colocamos no caminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto. Seu profundo significado a-histórico tem a ver.207 Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não se vê diante de um sistema de idéias mas diante de fatos. insuperável modo de existir. O paradoxo de Deus feito homem e o absurdo das circunstâncias do advento da Verdade. Não há portanto uma mediação conceitual. A mediação é o Cristo vivo. minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente. Não se trata. principalmente o protestantismo dinamarquês. definitivamente. estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. segundo ele. enquanto Deus tornado homem. mais precisamente de um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar: a fé. igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos. Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. no entender de Kierkegaard. o aprofundamento da subjetividade. Aqui se situam as circunstâncias que fazem do advento da Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada com as pompas do conceito e do sistema. com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo. E esse modo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo. . É por meio de Cristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua época. Foi a mediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. histórico. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. Cristo é portanto o fato primordial para a compreensão que o homem tem de si. algum tipo de prova racional que me transporte para a compreensão da divindade. Tudo está suspenso. A autêntica subjetividade. ou entre dois sistemas de valores. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz. mais do que com essa característica do Romantismo. É. somente aprofundando a subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos aproximaremos da compreensão original de nossa natureza: o pecado original. um modo de existir. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso. Se permanecesse a distância infinita que separa Deus e o homem. da mediação do Cristo. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito. O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens. Não há. A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolvia sua época. exceto a relação com Deus. O acesso à Verdade suprema depende pois da crença no absurdo. conseqüentemente. No entanto. nesse caso. portanto. naquilo que São Paulo já havia chamado de "loucura". é o absurdo que possibilita a Verdade. O cristão é aquele que se sente continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo. E a compreensão irradia luz sobre a redenção e a graça. tampouco é um estágio provisório que dure apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão.

ela não pode ser elucidada pelo conceito. que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual. a procura infindável e a visão instantânea da Verdade. Do ponto de vista humano. A filosofia deve ser imanente à vida. manifestar-se em toda sua pujança. para ser ela própria. O imperativo moral não é um imperativo hipotético que submeteria o bem ao desejo (cumpre teu dever se nele satisfazes teu interesse. mas por alternativas e saltos. Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé. precisamente porque não pode haver transição racional entre o finito e o infinito. Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões. Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humana. Mas. a felicidade. há o que Hegel mais tarde denominará uma visão oral do mundo que afasta a ética dos equívocos da natureza. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso. fica submetida às flutuações de minha natureza. o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação. isto é. Emmanuel Kant A Moral de Kant É só no domínio da moral que a razão poderá. o temor de Deus é inseparável do tremor. e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. é estranha à moral. receber um conteúdo da experiência e que devem exprimir a autonomia da razão pura prática. Kant se opõe não só ao naturalismo dos filósofos iluministas. a não ser ele mesmo e a sua fé. não constituirá fundamento adequado da vida e da ação. Nada está em jogo. Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta. legitimamente. tudo que seja sensível ou empírico. que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em presença um do outro. Deus não está testando a sabedoria de Abraão. A razão prática. ética. Em Kant. "Age sempre de tal maneira que a máxima de tua ação possa ser erigida em regra universal" (primeira regra). Em que consiste esse dever? Uma vez que as leis que a Razão se impõe não podem. ou então. Nesse ponto. Existir é existir diante de Deus. ultrapassar. amanhã. A vontade que tem por fim o prazer. a dúvida permaneceria para sempre. também. mas. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito. para quem a felicidade é o fim legítimo de todas as nossas ações. minha conduta não é moral. a comunidade). deve ao contrário. meus cálculos e meus sentimentos espontâneos poderiam levar-me a atos contrários. já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo. mesmo que essa ação seja materialmente boa. à ontologia otimista de São Tomás. A fé representa um salto. A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação. muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto. âmbito em que o entendimento é cego. A crença é inseparável da angústia. da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon. Continuaria sendo o assassino de seu filho. mas o imperativo categórico: Cumpre teu dever incondicionalmente. em nenhum caso. dos desejos empíricos. Por exemplo: se me empenho por alguém por cálculo interessado ou mesmo por afeição.208 O Salto da Fé Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade. a ausência de mediação humana. Toda ação que toma seus móveis da sensibilidade. Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade do Cristo. A fé reúne a reflexão e o êxtase. se teus sentimentos espontâneos a ele te conduzem). Com efeito. as regras morais só podem consistir na própria forma da lei. A razão teórica tinha necessidade da experiência para não se perder no vácuo da metafísica. como no caso da tragédia grega. caso o sacrifício se tivesse consumado. O respeito pela razão estende-se ao sujeito racional: "Age sempre de maneira a tratares a humanidade em ti e nos outros sempre ao mesmo tempo .

restabelecerá no além a harmonia entre virtude e felicidade. pelo qual o mundo se me apresenta no conhecimento. ao invés de buscar os fundamentos de sua moral na metafísica. a título de "postulados da razão prática". portanto. O mérito moral é medido precisamente pelo esforço que fazemos para submeter nossa natureza às exigências do dever. Kant então postula a imortalidade da alma. o discípulo de Kant se sabe obrigado a respeitas as máximas da razão. isto é. pois não é anterior à lei. o imperativo categórico é um "proibitivo categórico". Kant vai reerguer a metafísica . da experiência. A razão fala sobre a forma severa do dever porque é preciso impor silêncio à natureza carnal. Finalmente. ele vai estabelecer os fundamentos de uma metafísica na moral. efetivamente. no entanto. então podes.essa metafísica cuja demonstração era impossível. Ser moralmente obrigado é ter o poder de responder sim ou não à regra moral.. essa consciência que é essencialmente razão. como um fim e jamais como um simples meio" (segunda regra). Ela simplesmente autoriza ou proíbe este ou aquele ato que tenho vontade de praticar. os maus são muito prósperos.para ser absolutamente rigoroso. às tendências de tudo o que é empírico. neste mundo em que. Aquele crime pode ser explicado pelas paixões de seu autor. "Tu deves. Como diz Jan Kélévitch. Todavia. passional. aos instintos. Em tal sistema. transfigurada pela graça. é um mundo de aparências. Desse modo. não implica em nenhuma "alienação". ele me engrandece. vejo de imediato que não tenho o direito de mentir. mas é a própria lei moral que o produz em mim. como diríamos hoje. o domínio da moral não é o da natureza (submissão animal aos instintos) nem o da santidade (em que a natureza. Com efeito. Para se unirem numa justa reciprocidade de direitos e obrigações. ele me realiza como ser racional que obedece à lei moral. a obrigação moral exclui a necessidade dos atos humanos. como diz Kant. diz Kant. A moral formal. essa moral não me propõe. Ele então postula que um Deus justiceiro. Kant vai postular a liberdade humana. apresenta-se como essencialmente negativa. o princípio do dever. é fora do tempo. livre. submeter a humana vontade à lei do dever. é ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal. eu vejo que meus atos. porque é preciso. em nenhuma "heteronomia". os homens só têm que obedecer às exigências de sua própria razão: "Age como se fosses ao mesmo tempo legislador e súdito na república das vontades" (terceira regra). Vimos que. é nas profundezas do ser inacessível ao saber científico. E. Ela não possui outro fundamento além da consciência humana. A moral de Kant. ao preço de grande esforço. mesmo que me diga: e se todos fizessem o mesmo? A mentira de todos para com todos é contraditória." Esta liberdade não poderia ser demonstrada. são determinados uns pelos outros no tempo. Não esqueçamos que o mundo dos fenômenos. isto é. por conseguinte. do que hoje denominamos ciência psicológica. pelo fato de ser puramente formal. um ato concreto a realizar. que o mau escolheu livremente o seu caráter de mau. ou. como diz Kant. Por conseguinte. o homem se sente responsável. sentiria uma atração instintiva e irresistível pelos valores morais). proibída. por intermédio de um sistema de recompensa e punições. Mesmo que o universo não tenha o menor sentido. pela deplorável educação que recebeu. A obrigação não teria o menor sentido se minha conduta fosse automaticamente determinada por minhas tendências ou pelas influências que sofri. exprime sua desconfiança com relação à natureza humana. etc. 209 . Por exemplo. Por exemplo: o dever me prescreve a realização de certa perfeição moral que não consigo atingir na vida presente (posto que não chego a purificar totalmente a determinação de querer dos móveis sensíveis). mesmo que a alma seja mortal. por conseguinte. ao contrário. de um modo geral. esconde-se a realidade numenal de minha liberdade. ao privilegiar a razão humana. segunda a crítica da razão pura. passivo.. Por trás desse determinismo aparente. No plano dos fenômenos. Moral e Metafísica A moral de Kant é o que chamamos de uma moral independente. A originalidade de Kant está no fato de que. Por conseguinte. patológico. O único sentimento que tem por si mesmo um valor moral nessa ética racionalista é o sentimento do respeito. partindo da consciência da obrigação moral. Tal é o rigoríssimo kantiano. Kant constata que a virtude e a felicidade quase não estão juntas. Por outro lado. do determinismo.

a beleza oferece à nossa imaginação a oportunidade de uma satisfação inteiramente desinteressada. no mundo kantiano. não existe liberdade parcial nem meia-responsabilidade. que desenvolve o conceito de criatividade do sujeito. a filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica. mais ou menos. de síntese a priori. o exemplo único de uma satisfação ao mesmo tempo sensível e pura de todo egoísmo. A Crítica do Juízo. Totalmente determinados nas aparências fenomenais. também o romantismo é denominado . o entendimento não pode conhecer o fundo das coisas e se limita a "soletrar os fenômenos". literatos. ao mesmo tempo que o seu próprio. Schelling. Schleiermacher. idealismo objetivo e idealismo absoluto. a empresa kantiana só pode deixar os filósofos insatisfeitos: para Kant. a menos que não seja seu pecado original) visa à inteligibilidade perfeita e à unidade total. Ela é. já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da Razão Prática). O Idealismo Pós-Kantiano Considerações Gerais A maior parte dos filósofos (é sua vocação mais preciosa. e o seu pensamento encaminha decisivamente o idealismo para a trilha do monismo imanentista. Kant se esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo natural e o da liberdade. me "arrebata". Com efeito. Todavia.210 portanto. Os valores de beleza. longe de manifestar meu egoísmo dominador. Finalidade sem fim (isto é. caracteriza-os sucessivamente como idealismo subjetivo. Como é então que o mundo sensível se deixa organizar. para o qual já fora orientado por Kant. seríamos totalmente livres em nossa realidade numenal: daí se segue que nenhum pecado poderia ser escusável. especialmente alemão. o momento privilegiado em que uma emoção. presentes na obra de arte. fenômeno artístico e literário. de Schelling. Paralelo e correspondente ao movimento filosófico do idealismo pode ser considerado o romantismo. já que. como se diz muito bem. Dele depende todo pensamento posterior. particularmente o idealismo clássico alemão. na contemplação estética. para uma forma de monismo imanentista. igualmente nos oferecem uma espécie de reconciliação entre a razão e a imaginação. vão propor sistemas em que. não podemos conhecer nem designar? Os sucessores de Kant. dele me liberta e. bem como dele dependem artistas. segundo afirma. Kant representa o centro do pensamento moderno. Schopenhauer) dependem. poetas. de modo diferente. Todos os filósofos idealistas (Fichte. Este filósofo é arrancado do desprezo e do esquecimento em que jazia. de Spinoza. o princípio de finalidade permanece facultativo. a irredutível oposição entre a coisa e o espírito será eliminada. A natureza não seja talvez não seja apenas o domínio do determinismo. de autonomia do espírito. A Crítica do Juízo Desse modo. Hegel. mas também o da finalidade que aparece notadamente na organização harmoniosa dos seres vivos. harmonia pura. Para ele convergem e nele se compõem em um fenomenismo absoluto o fenomenismo racionalista e o fenomenismo empírico. por conseguinte. Nessas condições. Hegel. com Goethe à frente. a bela aparência que admiramos parece inteiramente penetrada dos valores do espírito. se ordenado pelas categorias do espírito? E por que Kant mantém essa coisa em si que. em que toda realidade se resolve nos limites da experiência. Tudo se passa como se o pássaro fosse feito para voar. e esta é totalmente produzida pelo espírito. Em sua terceira grande obra. se o princípio de causalidade (determinismo) é constitutivo da experiência (não posso dispensá-lo para explicar a natureza). mas uma coisa apenas é certa: o pássaro voa porque é constituído de tal maneira. ao definir em uma palavra os sistemas de Fichte. a outra fonte essencial do idealismo alemão é Spinoza. Além de Kant. fora de todo móvel exterior à obra de arte). puramente regulador (posso interpretar o agrupamento de certas condições como a manifestação de um fim).

e com o idealismo tem em comum o historicismo. no tempo e no espaço. Resolve ele o mundo kantiano da sensibilidade. este motivo prático. pelo qual se decide em favor do idealismo e não em favor do dogmatismo. Ora. que são produtos históricos. seria prático. absoluto. mais para a arte e a poesia. Primeiro estudou teologia na universidade de Jena. de fato. Faleceu em Berlim.211 pelo conceito de criatividade e liberdade do espírito. a principal é Fundamentos da doutrina da ciência. perante o qual. ou coisa em si. propriamente. o Eu puro vive. E. o espírito seria passivo. em geral. opera. este é transcendental . no mundo empírico. de um eu universal. em suma. O Desenvolvimento do Idealismo Apesar do seu conceito de criatividade do espírito.com respeito à multiplicidade e ao vir-a-ser do mundo empírico.protestantes embora . Nesses eus empíricos. portanto.tiveram intuição do seu anticristianismo e ateísmo. ao passo que idealismo. tanto espiritual quanto material. enfim teve Fichte que deixar o ensino universitário. Trata-se. do realismo. para incitar os seus patrícios contra Napoleão que humilhara e vencera a Alemanha. donde derivaria toda a atividade organizadora e criadora do espírito. e ter travado relações com um círculo romântico. onde expõe sistematicamente o seu pensamento. em 1814. e conheceu pessoalmente Kant. Kant deixara ainda uns dados.e não transcendente . Assentado isto. em Rommenau. e não em uma metafísica transcendente e teísta. que o espírito não consegue conhecer. em que está a sua divindade infinita. acomodação. transcendental. isto é. é representado especialmente de um lado por aquela misteriosa matéria. isto é. João Amadeu Fichte nasceu em 1762. O Idealismo Ético: Fichte O primeiro e maior discípulo de Kant. imanentismo. propende. e de outro lado por aquele mundo inteligível. e é plenamente cognoscível a si mesmo. desenvolve-se. é uma criação inconsciente do espírito. pois. liberdade. precisamente no conceito do espírito como eticidade. moral. o conceito de desenvolvimento. são eles. da natureza. que . procurou a sua justificação teorética em uma metafísica monista-imanentista. em um processo infinito. se concretiza a si mesmo indefinita e livremente. Fichte concebe idealisticamente toda a realidade. debilidade. Os maiores românticos alemães são Schlegel e Novalis. A estes podem-se acrescentar Schelling e Schleiermacher. como o idealismo. em face dos quais o espírito é passivo: o mundo dos noumenons. posse de si mesmo. e unicamente neles. no qual unicamente. e. Esse mundo de coisa em si. estabeleceu-se definitivamente. significaria atividade. que encaminhou decididamente o criticismo pela senda do idealismo imanentista. uma questão de caráter. Apesar das suas desculpas. ao passo que se deu o contrário com o racionalismo precedente. pela íntima unidade espiritual do romantismo e do idealismo. o espírito se realiza. O mundo da matéria. esse mundo de dados. independência. Em 1794 foi convidado a lecionar na universidade de Jena. no mundo da natureza. a valorização da nacionalidade e da religião. que. das sensações. pois Fichte mantém o conceito kantiano do primado da razão prática. entretanto. do que para as ciências e a matemática. depois dedicou-se entusiasticamente à filosofia kantiana. . naturalmente. filósofos idealistas. criado pelo espírito para se realizar a si mesmo como eticidade e liberdade. Depois de ter peregrinado por várias universidades. na universidade de Berlim. de que o eu empírico. em 1810. os diversos "eus empíricos" seriam concretizações particulares. Dogmatismo significa passividade. o idealismo clássico nega todo dado. Eu puro. e reduz tudo à mais absoluta imanência do espírito. moral. ético. e portanto nega o transcendente mundo kantiano dos noumenons. onde pronunciou os famosos Discursos à Nação Alemã. Entre as suas obras. Sustenta Fichte que o motivo fundamental. isto é. ficou sendo a base do idealismo posterior. Aí teve que enfrentar a oposição das autoridades religiosas e políticas. Este. como uma produção do eu. perante o qual o espírito é passivo. por conseguinte. de síntese a priori. mas pertencem também ao movimento romântico. é Fichte. vive. no dizer de Kant. fraqueza.

e a realidade cairia do nada. religioso e cultural. Daí uma terceira duplicação do eu. Essa atividade utópica-política de Fichte tem certa semelhança com a atividade desenvolvida alguns anos depois na Itália. na antítese eu não-eu. do mundo. no estado. tal produção do não-eu por parte do eu. isto é. que indiscutivelmente ela possui. Consciência e liberdade que encontram um progresso na sociedade humana. do não-eu (imaginação produtora). que aspira aos valores espirituais e morais. O próprio Fichte notou essa grave deficiência. teorética e prática. deveria ser a ordem moral do mundo. Schelling está logicamente entre Fichte e Hegel. Não é preciso lembrar que o Deus de Fichte não é transcendente. impessoal e gerador do mundo. Segundo ele. em que o povo alemão é considerado como o povo puro e originário. mas é imanente. O Idealismo Estético: Schelling Embora colega de Fichte e mais velho que Hegel. isto é. É um mito romântico da Alemanha. como o Deus do teísmo e do cristianismo. despedaçado e dominado. da natureza. de sorte que o verdadeiro conceito de Deus é logicamente anulado. encarnando a idéia da humanidade. que deveriam ter culminado em um estado alemão. Este seria precisamente como que o campo da sua atividade. Fica. eticidade. ao invés. porque.212 Desenvolvendo a doutrina kantiana do primado da razão prática.durante a ocupação. Nestes discursos esforça-se Fichte para despertar no povo alemão. das nações. mundo que. superestado em face de outros estados. originária do eu seja atividade. o eu prático quando prevalece o primeiro elemento. quando. a fim de que seja possível a síntese ética. Entretanto. julga Fichte ter justificado. se terminasse. o espírito. O Deus de Fichte é apenas ordo ordinans. Para realizá-la. tal produção da natureza por parte do espírito é inconsciente. e cada indivíduo e cada ação sua. em uma segunda fase do seu pensamento. esse estado seria a Alemanha. o eu criaria o mundo da natureza. do eu. pois. que é precisamente eticidade. natural. em que o "deve ser" é reduzido ao "ser". oporia a si mesmo o não-eu. não é Deus no sentido verdadeiro e próprio. Daqui se pode compreender a ação política exercida por Fichte na Prússia. E. Fichte tem uma concepção ética do estado. era um dado e inexplicável. isto é. racionalmente indeduzível o conteúdo desse mundo da natureza. temos. consciente e inconsciente. causa de humilhação para o povo germânico . moralidade. dos povos. em Berlim . pelo menos na primeira grande fase da sua especulação filosófica. assim. procurará fazer Hegel. . Tal série ideal da atividade do espírito. isto é. todavia. a consciência da sua natureza absoluta e divina. volta ele para uma concepção de Deus absoluto e imutável. Mas.como é o de Fichte . apagar-se-ia a vida do espírito. deva ser guiada e ensinada por um povo. deduzido do eu o mundo da matéria. Naturalmente. do eu (reflexão). em um sistema imanentista . animais. mas também procura evidenciar o seu primado no mundo. a sua liberdade. profunda. Nesta obra Gioberti não somente quer dar à Itália unidade e independência nacional e política. bem como na multiplicação do "eu puro" nos "eus empíricos". porquanto em um sistema de idealismo absoluto deveria ser tudo racionalmente justificado . Temos o eu teorético. vegetais. uma consciência de unidade e autonomia nacionais. criador. Fichte pensa que a natureza íntima. pelo contrário. a dominação de Napoleão. as acusações de ateísmo levantadas contra Fichte. essa demolição de Deus. é necessário que a natureza seja conhecida pelo espírito. para que seja superado e vencido esse mundo natural. a qual é atividade. Compreendem-se. tem por fim a sempre mais perfeita realização do próprio espírito. inconsciente no momento da produção da natureza.como mais tarde. denominada filosofia da identidade.acaba por coincidir com a ordem real. como herdeira da cultura clássica e sede do cristianismo católico romano. o obstáculo a superar para realizar a sua eticidade. Mas. como justamente observa Schopenhauer. um estado ideal.com os Discursos à Nação Alemã. para Kant. Tal processo ascendente. por Gioberti que escreveu o famoso livro Primato morale e civile degli Italiani. primado moral e civil. destarte. isto é. que era. a dualidade do eu teorético e do eu prático. prevalece o segundo elemento. No conhecimento começa a manifestar-se aquela atividade consciente do espírito. não tem fim. em uma sociedade de seres livres. minerais. ideal para o qual tende o afanoso evolucionar humano. a antítese que ele põe como tese. pessoa. uma nação. do eu cognoscitivo e do eu ativo. para que o espírito possa aplicar a ele a sua atividade.

e nada existe fora dela. como indiferença de irracional e racional. e o espírito humano atinge a essência metafísica da realidade através de uma intuição estética. ao uno imutável. sujeito e objeto. são meras aparências subjetivas. a natureza e o seu desenvolvimento. Deus. e depois o espírito com toda a sua história. Mas então surge o problema que assoma em toda concepção monista da realidade: ou a realidade verdadeira cabe ao idêntico. Munique e Berlim.tem uma realidade autônoma com respeito ao sujeito. Como Fichte. do universo que aparece múltiplo e in fieri? Se a realidade absoluta é una e imutável. Passou da teologia à filosofia e dedicou-se ao estudo de Spinoza. Frederico Guilherme Schelling nasceu em 1775. Representação do meu Sistema (primeira fase. passando da filosofia da identidade à filosofia da liberdade. Em Leipzig integrou a sua cultura humanista e literária com estudos científicos. essa revelação de Deus a si mesmo se realizam na determinação das idéias eternas em Deus. a identidade profunda entre natureza e espírito deveria. uma continuação com respeito ao desenvolvimento da natureza. representa ele a filosofia do romantismo. Então o princípio da realidade não é mais o eu de Fichte (o eu absoluto. mas é o próprio universo. Schelling imagina o ser absoluto. Logo. que constitui o pressuposto imediato do seu pensamento. princípio absoluto da realidade. Erlangen. mas como seu desenvolvimento e consciência. a realidade absoluta é identidade entre natureza e espírito. espírito e natureza. que é a obra do gênio. e como exemplares universais e imutáveis das existências particulares e in fieri. Faleceu em Berlim.213 Ademais. afastando-se entretanto dele em seguida. em seguida. primeiro. filosofia da liberdade). A filosofia de Schelling é. em Leonberg. Para ele. quando o idealismo já estava esfacelado. com o qual. em virtude da qual toda a natureza é espiritualizada. ou o multíplice. idealista: o espírito. não no científico. segundo Schelling. Ao surgir a sensibilidade. Würzburg. sustentou pesada polêmica. porém. a multiplicidade e o devir do mundo. A natureza é o espírito na fase de consciência obscura. As suas obras principais são: o Sistema do idealismo Transcendental. nasce no universo a consciência espiritual. mas deverá ser um princípio mais profundo. ao indistinto. à consciência. recusa. Unicamente o gênio artístico atinge e revela o artista misterioso que atua no universo. ser aprendida pela intuição estética expressa na obra de arte. e precisamente mediante a sua finalidade. Schelling concebe as idéias eternas ao mesmo tempo como verbo de Deus. Mas então como se explica a visão. que é um progresso. Que a natureza seja espiritualidade latente e progressiva. o sujeito puro). o devir do mundo tem uma realidade verdadeira. revelação de Deus a si mesmo. Filosofia e Religião. anterior ao eu e ao não-eu: será precisamente a identidade absoluta do eu e do não-eu. a um sistema irracional. Dessa identidade. onde dominara o seu adversário Hegel. como e donde pode surgir essa visão destruidora do Absoluto? Schelling procura resolver esse problema. de um sistema racional. admite que a natureza é uma produção necessária do espírito. Schelling foi um autor variado e fecundo. fundamentalmente. a natureza e o espírito. como o espírito é a natureza na fase de consciência clara. Pesquisas Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana e os Objetos Conexos com Esta (segunda fase. vontade inconsciente que aspira à racionalidade. propende para a primeira solução: o idêntico não é a causa do universo. E o gênio se encontra só no campo estético. mesmo ilusória. possibilidade do irracional e do racional. Schelling julga demonstrá-lo mediante a racionalidade imanente na própria natureza. é princípio de tudo. Nessa segunda fase. Em Tubinga teve Hegel como condiscípulo. de Fichte. . decorrerá. No primeiro caso. filosofia da identidade). no segundo. o eu. começa o desenvolvimento do espírito humano. A unidade. do qual deriva a sua concepção idealista. Tal passagem é representada pela segunda fase do seu pensamento. em 1854. e o da filosofia da liberdade. à própria autorevelação. Foi sucessivamente professor nas universidades de Jena. Nele influíram também as turvas fantasias da mística alemã. não como sendo oposição e negação da natureza. objeto e sujeito: unidade de uma multiplicidade. cujo racionalismo ele demole. Essa realização de racionalidade. enquanto Schelling assume no seu sistema a concepção romântica. o conceito de Fichte de que a natureza tenha uma existência puramente relativa ao espírito. o sujeito. a natureza embora concebida idealisticamente . As faces do seu pensamento são fundamentalmente duas: o período da filosofia da identidade.

O Idealismo Religioso: Schleiermacher A Schelling pode-se ligar Schleiermacher. com efeito. e a raiz comum das outras atividades psíquicas. porquanto há essencial heterogeneidade entre o perfeito. para Schelling. Mas o Absoluto não é atingível sequer por via teorética. das idéias. Para Kant. É. ciência. desprezada e expulsa da vida do espírito pelo racionalismo iluminista. Compreende-se. como. pois. fundamentalmente. Foi professor em Halle e Berlim. a do idealismo romântico. A Fé Cristã. resolvida na moral.214 A passagem de Deus. Scheleiermacher quer libertar a religião não só da ciência. dada a sua concepção panlogista-imanentista da realidade (toda a realidade é racional e toda a racionalidade é real): daí a lógica coincidir com a ontologia. ao passo que o segundo pode ser unicamente descrito com base na experiência. As suas obras principais. mas também da moral. do contingente. E isto é possível. do Uno. filósofo do Romantismo. do finito ao Infinito. a atividade que atinge o Absoluto é a vontade moral. em 1768. E. onde faleceu em 1831. isto é. mas pelo sentimento potenciado romanticamente em sentido metafísico. com todo o mal que nele existe. filosofia. Essa redenção redimiria não só e não tanto o mundo e o homem. mas irracional o mundo da existência. daí ser a religião reduzida aos limites da razão prática. porque as idéias eternas participam da natureza divina. Frederico Scheleiermacher nasceu em Breslau. do monismo imanentista. Juntamente com o Romantismo. superaria o seu fundo originário arracional e irracional. isto é. a razão prática. daí ser a metafísica substituída pela moral. o particular. Pensa ele . tal separação aconteceu e constitui o mundo material e espiritual. a ética ser resolvida na dialética. para celebrar uma religiosidade estética. que é liberdade e vontade.como Schelling que o Absoluto é atingido mediante a intuição estética. de sorte que a religião se torna necessariamente e ainda mais radicalmente demolida. racional. repete de muitos modos que a realidade é una. é racional o mundo das ciências. elas se podem destacar do Absoluto. da realidade. ao mundo empírico e contingente. justificar a religião. elemento germinal da Reforma luterana. Por conseguinte. conquistando a sua racionalidade. mas o próprio Deus: porquanto. portanto. da história da natureza e da humanidade. e que o espírito humano na sua plena atualidade é a consciência de Deus imanente. difícil e proteiforme. decair no mundo empírico da multiplicidade. e a religião aniquilada na filosofia. Monólogos. o retorno das coisas a Deus. Crítica das Doutrinas. porquanto ele também é ligado estritamente ao movimento romântico. em ordem cronológica. não se pode realizar mediante uma dedução lógica. O Absoluto . do devir. deveria realizar-se progressivamente a redenção dessa queda original. do mundo ideal. são: Discursos sobre a Religião. porém. natural e humano. a que Schleiermacher julga poder dar um específico valor religioso. elucidando o princípio da experiência interior. como julgava Kant. Scheleiermacher procura valorizar. o imutável. dependente e limitado. que é uma atividade coordenada ao conhecimento e à vontade. A concepção filosófica de Scheleiermacher é. e é. O pensamento de Schelling é. ele. o temporal. tal queda.é atingido pelo sentimento: não pelo simples sentimento entendido em sentido psicológico. o universal e o imperfeito. teoreticamente. secundário.segundo Scheleiermacher . pelo que se vê. Scheleiermacher teve uma influência vasta e duradoura sobre o protestantismo liberal alemão. da multiplicidade à Unidade. e é. idealista. assim. Segundo Scheleiermacher. portanto. moral. Através. uma valorização no sentido imanentista. revelando-se plenamente a si mesmo. o Absoluto não é atingível por via prática. mas implicam também numa concepção metafísica do mundo e da vida. mediante a qual o autor procura justificar a religião em geral e o cristianismo em especial. como julgava Hegel. Embora Scheleiermacher pense que não podemos conhecer nada a respeito de Deus. irracional da vontade. sentimento este que seria precisamente a faculdade do Absoluto. Com relação ao primeiro é possível conhecimento racional. . Daí o primado da razão prática. Estes críticos têm um interesse religioso. Tal passagem se explica então mediante um ato arracional. embora muito inferior a Schelling como metafísico. como o conhecimento e a vontade. da individualidade. de liberdade.

E por que esta atividade deve ser considerada religiosa e não. segundo o sólito esquema triádico (tese. acaba admitindo o primado da religião. deveria desenvolver-se mais ou .não podem atingir o Absoluto. a religião ocupa o mais alto grau da atividade humana. ele define. ao Eu. a religião como sendo a relação do finito com o infinito. Parece. Em a natureza a idéia perde como que a sua pureza lógica. (sujeito e objeto). a saber. E como se realiza uma relação. e nem sequer pela vontade. ao mais alto e mais puro Eu. pela ética. evidentemente. que é precisamente a idéia. também na ordem da natureza. não arbitrariamente. Essa relação não é. A Natureza. E julga que o privilégio de apreender a unidade metafísica do ser é devido ao sentimento. assim como o sentimento ocupa o vértice da vida espiritual. e sim pelo sentimento. que é uno. do sentimento. é certo que. A prescindir das críticas externas e internas que se podem fazer a essa construção metafísicoimanentista. A filosofia religiosa de Scheleiermacher teve uma grande influência sobre o protestantismo liberal alemão do século XIX. segundo Scheleiermacher. que é uno. pela ciência. a natureza é a exteriorização da idéia no espaço e no tempo. uma multiplicidade. passa da fase em si à fase fora de si. como de criatura a Criador. Segundo a experiência religiosa. que é a consciência do Absoluto. pela consciência imediata do eu . seriam expressões inadequadas e simbólicas da religiosidade. A idéia constitui o princípio inteligível da realidade. a idéia torna-se natureza.a ciência e a moral . ao Uno. se desenvolve interiormente em um processo dialético. portanto. portanto. que. (empírico e metafísico). como sentimento indeterminado da Unidade indeterminada. a doutrina e a moral. e uma religiosidade em sentido específico. todavia. mas apenas logicamente. que representam os esquemas do mundo natural e do espiritual. Ao sentimento ele reconhece o valor particular de imediata autoconsciência e transforma-o metafisicamente. que seria a referência das várias e mutáveis determinações da autoconsciência ao Absoluto. E como na vida espiritual o conhecimento e a vontade seriam secundários e derivados com respeito ao sentimento. esta fase representa a grande antítese à grande tese. no sentimento. antítese. uma expressão da distinção geral idealista entre eu empírico e eu transcendental. A idéia. se determine essa dualidade. por exemplo. estético-romântica. o espírito. e no sentimento. e. indiferença absoluta. a natureza. Hegel A Idéia. Nisto consistiria a religiosidade verdadeira e própria. o espírito é o retorno da idéia para si mesma. porquanto. que constitui a nossa essência. cujo complexo é obejto da Lógica. É. seria explicada a relação religiosa. O Espírito Os três grandes momentos hegelianos no devir dialético da realidade são a idéia. poder-se distinguir em Scheleiermacher uma religiosidade em sentido amplo. mas como dualidade na unidade. para Scheleiermacher.215 Scheleiermacher sustenta que o conhecimento e a vontade . anterior a estes. contra o qual Scheleiermacher em vão se bateu. A primeira grande fase no absoluto devir do espírito é representada pela idéia. E conclui finalizando na equação sentimento-religião. que é abstrata unidade. assim na atividade religiosa a teoria e a prática.ao Absoluto. Que relação existe entre sentimento e religião. estética? Scheleiermacher parece proceder deste modo. valorizado metafisicamente. mas em compensação adquire uma concretidade que antes não tinha. mas não se compreende como no Absoluto. porquanto o conhecimento e a vontade implicam a multiplicidade decorrente da relativa mudança dos estados de consciência e a dualidade de duas atividades. portanto. uma excluindo a outra. o qual deveria ser apreendido pelo sentimento em sentido metafísico. a relação do finito com o infinito não pode ser senão dependência absoluta. por sua vez.apreendido imediatamente pelo sentimento psicológico. Chegada ao fim de seu desenvolvimento abstrato. de fato. É o escolho fatal do monismo. segundo Scheleiermacher. isto é. a idéia é o sistema dos conceitos puros. Mediante a doutrina desses dois sentimentos. síntese). que deveria ser a plena consciência do Absoluto? Propriamente pela referência do sujeito empírico . entre os quais Scheleiermacher institui uma equação? O Absoluto não é atingido pelo conhecimento.

em um objeto sensível. O espírito subjetivo compreende três graus dialéticos: consciência. a moralidade (que subordina interiormente o espírito humano à lei do dever). pois. isto é. das formas ínfimas do mundo físico até às formas mais perfeitas da vida orgânica. A sociedade do estado transcende a sociedade familiar bem como a sociedade civil. Com o espírito subjetivo. Na religião. as injustiças. racionais e progressivos. Não estando. os fins do espírito. não porque seja um instrumento mais perfeito para a realização dos fins materiais e espirituais da pessoa humana (a qual unicamente tem realidade metafísica). No espírito objetivo. no fundo.216 menos. mítica. em que os valores . Segundo a dialética hegeliana. o belo é a idéia concretizada sensivelmente. os crimes de que está cheia . . tem ele mesmo uma realidade metafísica. quer dizer. põe dialeticamente acima do espírito objetivo o espírito absoluto. no seu isolamento. tendo a natureza esgotado a sua fecundidade. filosofia). Nessa classificação das religiões o cristianismo é colocado no vértice como religião absoluta. este último se desenvolve. no momento estético. nas concretizações da sociedade. e se determina hierarquicamente na família. Hegel traça uma classificação das religiões. nasce a consciência do mundo. quando se faz coincidir o "ser" com o "deve ser". absoluto (Deus). de realizar a plena consciência e liberdade do espírito. segundo Hegel. que é precisamente a idéia por si: a grande síntese dos opostos (idéia e natureza). segundo a metafísica monista-imanentista de Hegel. pelo contrário. porquanto igualmente necessários para a realização da idéia). pela psicologia. toma consciência se si no espírito. etc. da humanação de Deus. plena do absoluto). a consciência que o espírito (humano) adquire da sua natureza divina. a guerra. em que. a idéia. denominada por Hegel espírito vivente. o espírito realizaria finalmente a consciência plena da sua infinidade. ao predomínio de um estado se segue o predomínio de um outro. tem razão sobre o vencido unicamente porque é vencedor. a individualidade empírica. devido precisamente à sua maior universalidade e amplitude. se efetua a unidade do finito e do infinito. que não passa de uma história das mesmas. o espírito individual em condição de alcançar. Finalmente. razão encarnada. assim concretizada. ao contrário.com todo o mal. A história do mundo . Hegel distingue ainda três graus dialéticos: o direito (que reconhece a personalidade em cada homem.são nivelados. no estado). a sociedade. pela Filosofia da natureza. Portanto. O estado transcende estas sociedades. o infinito é visto como finito. surge e se afirma a fase do espírito objetivo. da sua essência absoluta. Este. e aquele tem culpa unicamente porque é vencido. com esta última é atingida a consciência da unidade do eu e do não-eu. O espírito desenvolve-se através dos momentos dialéticos de subjetivo (indivíduo). O espírito subjetivo é estudado. imaginativa. Esta hierarquia dinâmica é estudada. deus terreno. a eticidade ou moralidade social (que atribui uma finalidade concreta à ação moral. mas pode regular apenas a conduta externa dos homens). bem-mal. lógica. isto é. a um povo eleito sucede um outro. mas porque. . na sociedade civil. autoconsciência e razão. segundo o seu sólito método dialético.seria destarte o tribunal do mundo. da sua natureza divina. e necessária. um valor ético superior ao valor particular e privado das sociedades precedentes. psicologia propriamente dita. grças à qual. ele vê. que se divide em antropologia. volta para si. Na arte o espírito tem intuição. segundo o processo dialético. imanente no primeiro. em uma plena adequação consigo mesmo. é uma superior objetivação do espírito. em sentido vasto. no seu complexo. filosofia (expressão conceptual. através de uma última hierarquia ternária de graus (arte. que é um conjunto de interesses econômicos e se diferencia em classes e corporações. (O que se compreende. a qual é estudada em seus desenvolvimentos pela Filosofia do Espírito. religião (expressão do absoluto na representação mítica). religião. por sua vez. como acontece de fato no sistema hegeliano. objetivo (sociedade). daí derivando uma concepção ético-humanista do estado.verdadeiro-falso. Se bem que no sistema hegeliano a vida do espírito culmine efetivamente no estado. fenomenologia do espírito. naturalmente a sucessão e o predomínio dos vários estados na história da humanidade são necessários. racional e progressiva é a luta. mas em forma sentimental. graças à dialética dos opostos. enquanto no ministério da encarnação do Verbo. em arte (expressão do absoluto na intuição estética).

representariam os momentos necessários para o advento da filosofia absoluta. mas em forma racional. defendendo. ao contrário. em que a soberania é atribuída ao povo. materialista. o centro da vida humana está na atividade econômica. enfim. naturalista. dizia Ardigò. o absoluto do fenômeno. os diversos sistemas filosóficos. O Positivismo . Gnosiologicamente. que se encontram na história da filosofia. Sendo grandemente valorizada a atividade econômica. o idealismo.a vontade popular se manifesta através do número. de todos os fatos humanos e naturais. Tal conceito representa um equivalente naturalista do historicismo romântico da primeira metade do século XIX. da enumeração material dos votos (sufrágio universal). que seria o idealismo absoluto de Hegel. e não por interesses espirituais. O positivismo do século XIX pode semelhar ao empirismo. com esta diferença. o positivismo teve impulso. como fonte única de conhecimento e critério de verdade. espalhado em todo o mundo civilizado. mais ou menos.Comte Características Gerais do Positivismo Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo. técnico. Dessas premissas teoréticas decorrem necessariamente as concepções morais hedonistas e utilitárias. substancialmente. Nenhuma metafísica.através da história e da ciência . uma unificação da experiência mediante a razão. como já fizera o empirismo. assim. mas também o seu maior valor como descrição e análise objetiva da experiência . o espírito à natureza. florescidos igualmente no âmbito natural do positivismo. Na filosofia o espírito se torna inteiramente autotransparente. A lei única e suprema. mais ou menos. a ciência e a história. produtora de bens materiais. "O fato é divino". que domina o mundo concebido positivisticamente. isto é. utilitários. como interpretação. que ocupa. a experiência. econômicos (materialismo histórico). Além de ser uma reação contra o idealismo. o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do idealismo e do pensamento moderno em geral. A diferença fundamental entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação. o segundo. a metafísica à ciência. Para o socialismo.enquanto não lesar a liberdade alheia sustenta também a livre concorrência econômica através da lida mecânica. autoconsciente. Daí a sua pobreza filosófica. lógica. exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. compreende-se porque elas são fecundas no campo prático. Como as várias religiões representam um processo dialético para a religião absoluta. também os sistemas políticoeconômico-sociais. que dominaram o mesmo século XIX. particularmente das biológicas e fisiológicas. com as relativas conseqüências práticas. os fatos positivos. o conhecimento humano ao conhecimento sensível. do século XIX. que florescem no seio do positivismo.com respeito ao idealismo. E delas dependem. infinidade. morais e religiosos. Dada essa objetividade da ciência e da história do pensamento positivista.Acima da religião e do cristianismo está a filosofia. como resulta das ciências naturais. portanto. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia. como resolvedora do problema do mundo e da vida. de evolução. o positivismo admite. O positivismo representa uma reação contra o apriorismo. pura. é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista. conceptual. o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais. aplicado. da experiência. que tem o mesmo conteúdo da religião. ao sensismo (e ao naturalismo) dos séculos XVII e XVIII. para as ideologias econômico-sociais. que alterava a experiência. conquista a sua absoluta liberdade. O liberalismo. à massa . 217 . que sustenta a liberdade completa do indivíduo . da quantidade. graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais. Diferencia-se. justificação transcendente ou imanente. A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. a segunda metade do mesmo século. Entretanto. Na democracia moderna que é a concepção política. quer limitar-se à experiência imediata. produtora de bens materiais. e a história da humanidade é acionada por interesses materiais. sensível. desses sistemas por um elemento característico: o conceito de vir-a-ser. considerada como lei fundamental dos fenômenos empíricos. também pelo país clássico de sua floração (a Inglaterra) e porquanto reduz. mais ou menos. o formalismo. com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. é natural se procure uma base filosófica positiva. do conflito material das forças econômicas. Enfim. os dados sensíveis. porém.

Apesar de seus reiterados pedidos. Daí uma revisão e uma crítica da ciência por parte dos mesmos cientistas. É o "ano sem par" que termina com a morte de Clotilde a 6 de abril de 1846. de crítica à ciência e ao positivismo. pode-se distinguir duas fases principais: uma negativa. Comte é nomeado em 1832 explicador de análise e de mecânica nessa mesma escola e. "Viver para o próximo". esposa abandonada de um cobrador de impostos (que fugira para a Bélgica após algumas irregularidades financeiras). Retoma o ensino em 1829. como no âmbito do idealismo se determinou uma crítica ao idealismo. A publicação do Curso inicia-se em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. desde 1826. nada de metafísica e filosofia. ou não implica uma metafísica naturalista inconsciente e. examinador de vestibular. Em 1844 publica o prefácio do curso sob o título: Discurso dobre o espírito positivo. O último volume sobre o Futuro humano prevê uma reformulação total da obra sob o título de Síntese Subjetiva. Ver-se-á retirado desta última função em 1844 e de seu posto de explicador em 1851. de um progresso concebido naturalisticamente. em relação com exigências mais ou menos metafísicas ou espiritualistas. o Sistema Industrial. curso este que ele levaria avante por sete anos consecutivos. nem mesmo a cátedra de história geral das ciências positivas no Collège de France. Dois encontros capitais presidem as duas grandes etapas desta obra. nosso filósofo de 47 anos declara a esta mulher de 30 seu amor fervoroso. numa sala da prefeitura do 3. Desde 1847 Comte proclamou-se grande sacerdote da Religião da Humanidade. das grandes linhas de seu sistema. que quisera criar em benefício próprio. Comte sente então sua razão vacilar. "Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura. No entanto. mediante a luta pela existência. Portanto. quer nos meios quer no fim. no âmbito do positivismo. por causas. forja divisas "Ordem e Progresso". ao passo que o positivismo o concebe como evolução. é a realidade física. Augusto Comte . e concebe. rua do Faubourg Montmartre. nada de espírito e valores espirituais.218 entretanto. que será uma revisão e uma crítica do positivismo. ideal e ídolo do positivismo. a criação de uma ciência social e de uma política científica.(que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol). um curso público e gratuito de astronomia elementar destinado aos "operários de Paris". que o idealismo concebia o vir-a-ser como desenvolvimento racional. mas atual e eterna". Através de um conflito mecânico de seres e de forças. Entre 1851 e 1854 aparecem os enormes volumes do Sistema de política positiva ou Tratado de sociologia que intitui a religião da humanidade. de reconstrução filosófica. Desde 1831 Comte abrirá. para o bem-estar material. ele conhece H. Comte abre em sua casa.rapidamente interrompido por uma depressão nervosa . Clotilde de Vaux. Já de posse. não obterá o desejado cargo de professor da Politécnica. o cognoscível. a ordem por base. Trata-se da irmã de um de seus alunos. a partir daí. outra positiva. o progresso por fim".Vida e Obras Estudante da Politécnica aos 16 anos.° distrito. de Saint-Simon: O Organizador. É em outubro de 1844 que se situa o segundo encontro capital que vai marcar uma reviravolta na filosofia de Augusto Comte. Clotilde oferece-lhe sua amizade. Nessa crítica e vitória sobre o positivsmo. A obra de Comte guarda estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. Mas. depois. para dar lugar a outras interpretações do mundo natural no âmbito das próprias ciências positivas. igualmente. mas entrega-se corajosamente ao trabalho. Na primavera de 1845. atinge a ciência fielmente a sua realidade. sobrevivendo o mais perfeito. um Curso de filosofia positiva . a única realidade existente. "O amor por princípio. Daí acreditar o positismo firmemente no progresso . teológico. discutível pelo menos tanto quanto a metafísica espiritualista? Nos fins do século passado e nos princípios deste século se determina uma crise interior da ciência mecaniscista. o que se pode atingir cientificamente. determina-se uma seleção natural. Institui o "Calendário positivista" (cujos santos são os grandes pensadores da história). Em 1817. que é a experiência? E a ciência positivista é pura ciência. Trata-se. funda numerosas igrejas positivistas (ainda existem algumas como exemplo no . em 1837. uma eliminação do organismo mais imperfeito.como nele já acreditava o idealismo. porém. involuntariamente.

diz ele sem falsa modéstia. afirmando vigorosamente a unidade de seu sistema. tal como a concebe Comte. Todavia. por exemplo. Littré . ("Ciência donde previsão. divulgador do positivismo nos artigos do Nacional .que a inteligência alternadamente produziu no curso da história. reconhece que houve duas carreiras em sua vida. A explicação metafísica tem para Comte uma importância sobretudo histórica como crítica e negação da explicação teológica precedente. Mas o historiador. será explicada pela "virtude dinâmica"do ar (²). notadamente seu discípulo Littré. transformar o segundo.219 Brasil). por longo tempo atribuído à natureza. Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e ao monoteísmo. previsão donde ação"). em nome de suas próprias concepções. Desse modo. prever o fenômeno que se seguirá e. mas sem conteúdo real. os revolucionários de 1789 são "metafísicos" quando evocam os "direitos" do homem . Contentar-nos-emos em descrever como os fatos se passam.reivindicação crítica contra os deveres teológicos anteriores. O espírito humano. que em 1851 abandona a sociedade positivista. é de certa forma tão idealista quanto a de Hegel. b) O estado metafísico substitui os deuses por princípios abstratos como "o horror ao vazio". em descobrir as leis (exprimíveis em linguagem matemática) segundo as quais os fenômenos se encadeiam uns nos outros. ela o é também para o desenvolvimento de cada indivíduo. A explicação dita teológica ou metafísica é uma explicação ingenuamente psicológica. com efeito. O espírito não poderia conhecer-se interiormente (Comte rejeita a introspecção. pode considerar-se autorizado a afirmar a unidade essencial e profunda da doutrina de Comte. em seu esforço para explicar o universo. já antes do Curso de filosofia positiva (e principalmente em seu "opúsculo fundamental" de 1822). será explicada por um capricho do deus dos ventos. Na primeira. por exemplo. Tal concepção do saber desemboca diretamente na técnica: o conhecimento das leis positivas da natureza nos permite. eventualmente agindo sobre o primeiro. passa sucessivamente por três estados: a) O estado teológico ou "fictício" explica os fatos por meio de vontades análogas à nossa (a tempestade. Este estado é no fundo tão antropomórfico quanto o primeiro ( a natureza tem "horror" do vazio exatamente como a senhora Baronesa tem horror de chá).aceita o que ele chama a primeira filosofia de Augusto Comte e vê na segunda uma espécie de delírio político-religioso. que não deve considerar a obra com um julgamento pessoal. c) O estado positivo é aquele em que o espírito renuncia a procurar os fins últimos e a responder aos últimos "por quês". Comte partiu de uma crítica científica da teologia para terminar como profeta. porque o sujeito do conhecimento confunde-se com o objeto estudado e porque pode descobrir-se apenas através das obras da cultura e particularmente através da história das ciências. A vida espiritual autêntica não é uma vida interior. A tempestade. "separar Comte dele mesmo". Como Hegel ainda.autor do célebre Dicionário. A Lei dos Três Estados A filosofia da história. Para Comte "as idéias conduzem e transformam o mundo" e é a evolução da inteligência humana que comanda o desenrolar da história.obras de civilização e história dos conhecimentos e das ciências . a filosofia comtista da história é "uma filosofia da história do espírito através das ciências". Eolo). Compreende-se que alguns tenham contestado a unidade de sua doutrina. é a atividade científica que se desenvolve através do tempo. sempre pensou que a filosofia positivista deveria terminar finalmente em aplicações políticas e nas fundação de uma nova religião. Assim como diz muito bem Gouhier. A criança dá explicações . A noção de causa (transposição abusiva de nossa expeirência interior do querer para a natureza) é por ele substituída pela noção de lei. Acrescentemos que para Augusto Comte a lei dos três estados não é somente verdadeira para a história da nossa espécie.(¹) (¹) Comte. Littré podia sem dúvida. ele foi Aristóteles e na segunda será São Paulo. mesmo se o encontro com Clotilde deu à obra do filósofo um novo tom. inspirado pelo amor platônico do filósofo por Clotilde. é certo que Comte. quando um fenômeno é dado. Comte pensa que nós não podemos conhecer o espírito humano senão através de obras sucessivas . O homem projeta espontaneamente sua própria psicologia sobre a natureza. Ele morre em 1857 após ter anunciado que "antes do ano de 1860" pregaria "o positivismo em Notre-Dame como a única religião real e completas".

para Comte. a ela tudo se reduz". (²) São igualmente metafísicas as tentativas de explicação dos fatos biológicos que partem do "princípio vital". É preciso ser matemático para saber física. O nascimento da sociologia tem uma importância que não podia ter o da biologia ou o da física: ele representa o fato de que não mais existe no universo qualquer refúgio para os deuses e suas imagens metafísicas. A Humanidade A última das ciências que Comte chamara primeiramente física social.em sua admirável introdução ao Textos Escolhidos de Comte."Quando a última ciência chega ao último estado.diferentemente do que se passa para os outros sábios . é a criação da sociologia que. para Comte. publicados por Aubier . Os seres vivos estão submetidos não só às leis particulares da vida. físicas e químicas de todos os corpos (vivos ou inertes). permitindo aquilo que Kant denominava uma "totalização da experiência". mas numa certa ordem de sucessão que corresponde à célebre classificação: matemáticas. em parte. Para Comte o objeto da psicologia pode ser repartido sem prejuízo entre a biologia e a sociologia. Esta ordem corresponde à ordem histórica da aparição das ciências positivas. Um biólogo deve conhecer matemática. tornar-se positiva. os objetos das ciências dependem uns dos outros. Enfim. nos faz compreender o que é. A biologia se torna uma disciplina positiva no século XIX. não poderíamos deduzi-las de. Dela tudo parte. se as ciências mais complexas dependem das mais simples. É refletindo sobre a sociologia positiva que compreenderemos que as duas doutrinas de Comte são apenas uma. no decurso da história. Significa dizer que o sociólogo é idêntico ao . a história do conhecimento e a política positiva. Entretanto. LevyBruhl. a mais concreta e complexa. Os fenômenos psicoquímicos condicionam os fenômenos biológicos. Comte afirma energicamente que cada etapa da classificação introduz um campo novo. assim como as explicações das condutas humanas que partem da noção de "alma". Das matemáticas à sociologia a ordem é a do mais simples ao mais complexo. física e química. antes um instrumento de todas as ciências do que uma ciência particular). A Classificação das Ciências As ciências. pois .com a totalidade do saber. entretanto.220 teológicas. o sociólogo deve conhecer o essencial de todas as disciplinas que precedem a sua. enfim. nem reduzi-las a estas últimas. encerra as conquistas do espírito positivo: como diz excelentemente Gouhier . De saída. astronomia. isso não significa apenas o aparecimento de uma nova ciência. o adolescente é metafísico. biologia. a física espera o século XVII para. fundamentalmente. como a matéria inerte. às leis da gravidade. O próprio Comte acredita coroar o edifício científico criando a sociologia. mas a biologia não é uma química orgânica. ao criar a sociologia. e para a qual depois inventou o nome de sociologia reveste-se de importância capital. A astronomia descobre bem cedo suas primeiras leis positivas. a própria filosofia. e sobretudo. constituem-se. A oportunidade da química vem no século XVIII (Lavoisier). As ciências mais complexas e mais concretas dependem das mais abstratas. Nota-se. que a psicologia não figura nesta classificação. Como cada ciência depende da precedente sem a ela se reduzir. cujo objeto é a "humanidade". Comte. desde a antiguidade. Ele se opõe ao materialismo que é "a explicação do superior pelo inferior". aliás. a sexta ciência fundamental. Sua especialização própria se confunde. numa disciplina positiva (elas são. uma metafísica e uma mística do número). não se tornaram "positivas" na mesma data. Um ser vivo está submetido. os métodos de uma ciência supõem que já sejam conhecidos os das ciências que a precederam na classificação. As matemáticas (que com os pitagóricos eram ainda. tem razão de sublinhar: "A criação da ciência social é o momento decisivo na filosofia de Comte. física. Nela irão se reunir o positivismo religioso. química. com Galileu e Newton. Um dos melhores comentadores de Comte. Além disso. ao passo que o adulto chega a uma concepção "positivista" das coisas. sociologia. irredutível aos precedentes. como também às leis mais gerais. do mais abstrato ao mais concreto e de uma proximidade crescente em relação ao homem.

as idéias e até a linguagem da crenças . à sua testa. A herança do passado só torna possíveis os progressos do futuro e "a humanidade compõe-se mais de mortos que de vivos". exercem suas faculdades de invenção apenas dentro do quadro do que elas receberam. diz-nos Comte. considerada como Grande-Ser. longe de se excluírem. Vê-se que é sobre a sociologia que vem articular a mudança de perspectiva. proibindo. a ciência última que supõe todas as outras. e. A espécie das abelhas é apenas a sucessão de gerações que repetem suas condutas instintivas: não há. em nome da "humanidade". "regenerando. fazer provisões. transforma-se-á na política que guiará as outras ciências. Três instituições sempre são necessárias para fazer com que o altruísmo predomine sobre o egoísmo (condição de vida social).o que faz a originalidade da civilização (da "cultura" diriam os sociólogos do século XIX). por exemplo. por isso mesmo. transpõe . Este Ser do qual fazemos parte nos ultrapassa entretanto . O homem. As abelhas não têm história. ao lado do lavrador. nos últimos milênios. em qualquer tempo e lugar.meio onde vive a humanidade podem. Ele cria línguas. a constituição de um capital intelectual. o próprio Augusto Comte). seu poder temporal (os industriais e os banqueiros) e seu pdoer espiritual (³) (os sábios. o astrônomo deve estudar somente o Sol e a Lua. A propriedade (que permite ao homem produzir mais do que para as suas necessidades egoístas imediatas. integrando-se inteiramente no sistema de Comte. pois.pelo gênio de seus grandes homens. As duas idéias de tradição e de progresso. mas não rejeita a filosofia concebida como interpretação totalizante da história e. A primeira estuda as condições gerais de toda a vida social. a família (educadora insubstituível para o sentimento de solidariedade e respeito às tradições). por sua vez. sociedades animais. principalemtne os sociólogos. "especialista em generalidades". desde o estado teológico ao estado positivo. Aquelas de que fala Virgílio nas Geórgicas comportavam-se exatamente como as de hoje em dia. do "universal concreto". para ter uma influência sobre a terra e sobre a humanidade e interditar-se aos estudos politicamente estéreis dos corpos celestes mais afastados!!) Compreende-se que esta "síntese subjetiva". em todas as disciplinas do conhecimento. A sociedade positiva terá. a linguagem (que permite a comunicação entre os indivíduos e. A sociologia dinâmica estuda as condições da evolução da sociedade: do estado teológico ao estado positivo na ordem intelectual. do estado militar ao industrial na ordem prática . exatametne como a sociedade cristã da Idade Média. sob a forma de escrita. se completam. que terão. ou ao menos a essência social dos animais reduz-se à natureza biológica. A religião da humanidade.221 próprio filósofo. que estão muito próximos de n'so. Como diz Comte. Comte repudia a metafísica. o Grão-Sacerdote da Humanidade. A terra e o ar . por isto. a ciência. e o inventor do arado trabalha. considerada em si mesma. A terra chamar-se-á o "Grande-Fetiche". exatamente como a propriedade cria um capital material). as pesquisas inúteis. Assim é que.a história . a sociologia regerá todas as ciências. num sentido estrito. instrumentos que transmitem este patrimônio pela palavra. A sociologia. pela escrita às gerações seguintes que. Comte distingue a sociologia estática da sociologia dinâmica. assim. pois. poder-se-ia dizer em termos hegelianos.ainda mais que não as repudia . "planetário". o papa positivista. que envolve com um olhar enciclopédico toda a evolução da inteligência. O objeto próprio da sociologia é a humanidade e é necessário compreender que a humanidade não se reduz a uma espécie biológica: há na humanidade uma dimensão suplementar . "é um animal que tem uma história". por sua vez. de seus sábios aos quais devemos prestar culto após a morte (esta sobrevivência na veneração de nossa memória chama-se "imortalidade subjetiva"). isto é. A ciência que prepara a união de todos os espíritos concluirá a obra de unidade (que a Igreja católica havia parcialmente realizado na Idade Média) e tornará o altruísmo universal. todos os elementos que concorreram para sua própria formação". identificação com a sociologia. Somente o homem tem uma história porque é ao mesmo tempo um inventor e um herdeiro. a mutação que faz do filósofo um profeta. tenha desencorajado os racionalistas que de saída viram no positivismo uma apologia do espírito científico! A religião positiva substitui o Deus das religiões reveladas pela própria humanidade. ser objeto de culto. isto é.do estado de egoísmo ao de altruísmo na ordem afetiva. Gutemberg ainda imprime todos os livros do mundo. acumular um capital que será útil a todos). invisível. a ciência da humanidade. (Para Comte. cuja aparição dependeu de todas as outras ciências tornadas positivas.

São Paulo. Compreende-se que ele tenha encontrado discípulos tanto nos pensadores "de direita" como nos "de esquerda". DURANT. Edições Melhoramentos.222 anteriores. __ Coleção Os Pensadores. conservador e admirador da bela unidade dos espíritos da Idade Média.II. março 1999. Herdeiro da Revolução. __ Coleção Os Pensadores. São Paulo. J. agosto 1973. História da Filosofia .ª edição. PADOVANI. (³) Comte rejeita como metafísica a doutrina dos direitos do homem e da liberdade. Abril Cultural. Noções de História da Filosofia. Abril Cultural. 1991. Editora Freitas Bastos. VI . 4. São Paulo. História da Filosofia. Nova Cultural. São Paulo. agosto 1972.A Vida e as Idéias dos Grandes Filósofos. 10. Os Pré-socráticos. Luís. 1980. vol. Umberto e CASTAGNOLA.. 1. 1974. História da Filosofia Ilustrada pelos Textos. Diálogos / Platão. 1. VERGEZ. 5. Filósofo do progresso. ao mesmo tempo. Apologia de Sócrates / Platão. Rio de Janeiro.ª edição. André e HUISMAN. .ª edição. Defesa de Sócrates / Platão. Will. assim uma política verdadeiramente científica pode impor suas conclusões.ª edição.ª edição.I. Aqueles que não compreenderem terão que se submeter cegamente (esta submissão será o equivalente da fé na religião positivista). Comte é também o filósofo da ordem. Editora Nacional. 1. São Paulo. Padre Leonel. FRANCA S. Denis. 1926. ele é. __ Coleção Os Pensadores.ª edição.Referências Bibliográficas __ Coleção Os Pensadores. vol. Nova Cultural. São Paulo. Assim como "não há liberdade de consciência em astronomia".