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REVERÊNCIA E SILÊNCIO

Escrevo esta abertura voando de volta do Oriente Médio. Do alto de 35 mil pés,
voando a uma velocidade de 800 quilômetros por hora, podemos ver melhor,
com pavor muitas vezes, o quão insustentável é a existência do ser. Nossa vida se
dá, em grande parte, como a de um animal que vive fora de seu lugar: sonhamos
em ser imortais mas sempre acabamos por experimentar o mundo finito e o
limite de nossos sonhos. O Oriente Médio é sempre um bom antídoto para o
mundo contemporâneo, afogado no ressentimento de seus habitantes,
“revoltados” contra essa mesma insustentabilidade da vida. Nossa cultura
contemporânea se desmancha diante da violência que paira sobre o Oriente
Médio (não só lá, claro). Mas não faço aqui um julgamento desta região do
mundo, aliás, muito bela. Quero apontar o fato evidente de que as manias de luxo
dos mimados ocidentais que creem fazer alguma diferença com suas causas do
Facebook se dissolvem contra a realidade que se vê nas fronteiras políticas,
étnicas ou religiosas em guerra nesses países. Ali os povos se matam há, no
mínimo, 5 mil anos ininterruptamente. Deveríamos olhar para essa constância na
morte com alguma reverência, no mínimo com algum silêncio respeitoso, porque
eles, provavelmente, se matarão para sempre, e nisso carregam uma marca
humana indelével: a de ser uma espécie violenta que consegue vencer sua
natureza a muito custo. A mentira, a moda contemporânea mais perene, não
ajuda nesse esforço descomunal de arrancar a humanização das pedras.

No deserto, sempre somos chamados a essa reverência e a esse silêncio.

POR QUE UMA AGENDA PARA O CONTEMPORÂNEO?

É urgente sobrevivermos ao ridículo do mundo contemporâneo. E, para
sobreviver a ele, devemos desprezá-lo de alguma forma, como dizia o mestre
Carpeaux (maior intelectual que já viveu entre nós no Brasil) acerca do realismo.
Segundo ele, como cito na abertura deste capítulo, os grandes mestres repudiam
o realismo. A verdadeira sabedoria passa, em algum momento, pelo desprezo do
mundo a sua volta.

Em mil anos seremos esquecidos. Nossa época não ocupará mais do que um
parágrafo nos livros de História no futuro. Passarão da bomba atômica – que
verão com bons olhos porque terão recuperado a consciência dos verdadeiros
riscos do mundo (sem a bomba atômica a guerra no Japão teria durado, no
mínimo, mais um ano e mais gente teria morrido; só os idiotas da paz não
entendem isso), ao contrário de nós, que nos afogamos em mimos de gente rica e
chique que falam de um mundo melhor enquanto tomam vinho chileno em
segurança – para as grandes trevas do final do século XXI, causadas por nossas
manias com saúde, luxo, alimentação, sexualidade (aquilo que os picaretas das
Ciências Humanas chamam de “gênero”), opções sexuais, democracia, direitos
humanos, liberdade e narcisismo. A Idade Média perderá seu título de era das
trevas e nós receberemos essa maldição. Lembrarão de nós como mimados,
ressentidos e covardes. Rirão de nosso apego ao voto democrático e de nossa fé
em manifestações do povo. Ouvirão falar vagamente de nossas redes sociais e de
nossa crença em seu potencial revolucionário, como hoje ouvimos falar, com
desdém, da crença antiga no poder de se ler o futuro nas entranhas dos animais.
Aliás, a própria ideia de revolução será vista como uma forma de animismo.
Levarão mais a sério os gregos, romanos e hebreus, porque verão neles povos que
buscavam o conhecimento, e não suas próprias imagens no rosto do universo.

Uma agenda para o contemporâneo é um ato de coragem. Sua missão é nos fazer
ver quem somos numa época afogada em narcisismo. Assim como quem
atravessa o deserto, sem água e comida, alguns de nós, contemporâneos, que
não desistimos do fardo animal de nossa consciência, apontaremos o dedo
indicador em direção ao horizonte, acreditando que pensar, trabalhar, falar e
escrever ainda são as melhores formas de resistir ao nosso abandono na Terra.
Continuaremos a retirar o sentido das pedras, como antes de nós faziam nossos

patriarcas pré-históricos, porque ele não habita nenhum outro espaço a não ser o
das nossas entranhas. Ofereço esta agenda a todos que, como eu, estão fugindo
das modas de um mundo viciado em seus ridículos fantasmas de sucesso. Assim
como Freud traiu nossa falsa inocência infantil, pretendo trair nossa
mediocridade.

Este livro deve ser lido como uma série de ondas (ensaios e aforismos) que
atingem a praia e se acumulam, uma depois da outra, desenhando nosso rosto na
areia.

OLHAR TEÓRICO:A AGONIA DO MUNDO

Antes de avançar, um reparo teórico importante. Não lido com a ideia de uma
história “integrada” ou “orgânica”, portadora de um “telos” (sentido) como é a
História para Hegel ou Marx; prefiro abordagens como a do sociólogo americano
Daniel Bell em sua obra magistral The Cultural Contradictions of Capitalism. Se
você pensa, como eu, que o mundo contemporâneo tem problemas, mas não crê
na religião de Marx, leia esse livro. Penso que a esquerda só atrapalha nosso
esforço de compreensão das contradições do capitalismo, justamente porque ela
é infantil e mitológica em sua visão de mundo.

Para Bell, a sociedade e a História são “disjuntivas em suas dimensões
constituintes”, ou seja, não está indo para lugar nenhum e é bem contraditória se
somarmos todos os elementos que compõem a sociedade e a vida como um todo.
Não há integração ou organicidade nenhuma, nem essa bobagem de que está na
moda falar: vivemos numa “sociedade em rede” em que as pessoas se
comunicam cada vez mais construindo um mundo melhor. O fato das pessoas se
comunicarem e de haver relações econômicas globais e computadores “que se
comunicam”, não implica “redes” de significado integrado ou processual, isto é,
não há nenhum avanço total da sociedade. Cada pessoa ou grupo se move em
culturas de significado e valores distintos e conflitantes, como diria o filósofo
britânico Isaiah Berlin, no século XX. Cada um vê o mundo de um jeito e muitas
vezes de formas antagônicas e excludentes. No Brasil, essa bobagem atingiu

Essa ideia é um caso típico de bens invisíveis de consumo que os inteligentinhos adoram cultuar em seu jantares seguros e chiques na zona oeste de São Paulo. A disjunção da qual fala Bell (o fato de a história não estar indo para lugar nenhum e viver em conflito consigo mesma) se dá entre as dimensões que. organiza e distribui os significados que tornam uma sociedade uma identidade de sentido (as religiões. Assumo essa disjunção como pano de fundo amplo do que chamo “era do ressentimento” e de “contemporâneo”. 3.mesmo o nível político partidário (“A Rede”) para fingir que não é partido. Política. responsável pela geração e distribuição da produção que visa reduzir a escassez natural da condição humana (a vida é pobre e frágil e lutamos contra isso o tempo todo). compõem a sociedade. Ambos os conceitos se estendem pelas três dimensões. segundo ele. mesmo quando resvalo em temas . apesar de se materializarem também nas duas anteriores). Até Jesus. Estrutura tecnoeconômica. gerando conflitos contínuos dentro da estrutura. política e cultural. nascem nessa dimensão. causando problemas intermináveis a serem administrados pelas instâncias responsáveis por cada uma delas ou pelo conjunto disjuntivo (ou desintegrado) da vida social. assim como as tendências de comportamento. Como se darmos as mãos imaginariamente num grande círculo de “boa vontade” fosse um ato possível. aquele visionário ingênuo. O “bem” virou mais um objeto de consumo. dimensão que produz. não acreditaria em “abraçar” o planeta como forma de amor. instância que gera e administra o poder e a violência legítima numa sociedade (a organização de quem manda e quem obedece de forma legal). Cultural. 2. apesar de que nascem na cultural e é prioritariamente nela que me movo ao longo desses ensaios e aforismos. Essa identidade de sentido nos diz quem somos e por que vivemos do modo que vivemos. A disjunção dessas três dimensões se dá dentro das sociedades modernas avançadas (conceito muito mais geopolítico e cultural do que geográfico ou temporal). a saber: 1.

quase sempre fundamentalista. O casal religioso. A emancipação feminina e gay amplia esse quadro. A TRAGÉDIA DO SECULARISMO O mundo contemporâneo é marcado pela opção secular. individualista e industrial nas cidades. pautada pela democracia liberal de consumo e pelo conhecimento agregado da ciência. No máximo dois filhos por casal. como falam os idiotas do bem. A vida em comunidade encolheu na sua totalidade.tecnoeconômicos ou políticos. Esta se caracteriza por uma vida “racional” e programada. sem nenhuma cura possível) em sua operação. eles esquecem que seleção natural é . Não há nenhuma metafísica nesse mundo em que me movo (como há no marxista). Somos uns eugênicos que fingem odiar a Ciência e amar a natureza que condena os filhos a serem limitados como nós. dos sonhos noturnos aos pesadelos da vigília diurna. “Amamos” mais nossos filhos e de modo obsessivo. O casal secular tem filhos apenas como projeto pessoal e com forte expectativa de retorno afetivo. do consumo às crenças religiosas. O mundo secular nasceu com a modernidade e o encolhimento da vida religiosa comunitária em nome de uma vida profissional. faz com que o movimento de nossa História tenda cada vez mais ao conflito e jamais a um “mundo de paz e igualdade”. distante de doutrinas religiosas. apenas homens e mulheres numa batalha cotidiana para lidar com essa disjunção que atravessa a nós todos. Estamos mais no âmbito do agon grego (conflito. agonia) do que do messianismo barato que sustenta o marxismo hegeliano. tem mais filhos. contraditória. O amor do narcísico ressentido vem sempre acompanhado de uma grande contabilidade de afetos. Mas esse “amor” é muito mais projeção de nossos desejos do que amor por eles. Alguns de nós exigem mesmo que os filhos nasçam com nossos defeitos a fim de fazer um statement contra a engenharia genética que esconde nossa projeção narcísica. O fato de a sociedade contemporânea ser cada vez mais disjuntiva (conflituosa. Apesar dos seculares simpatizarem com a teoria darwinista como oposição à proposta religiosa criacionista e dogmática. do trabalho ao amor. um ou nenhum.

vida simples.. Apesar de este autor assumir que padece do velho mal-estar romântico com a modernidade. apesar de os seculares produzirem muitas ideias sobre como deve ser uma vida perfeita. a vida eficaz. pedagógicas e políticas pautadas por causas do Facebook.. os direitos democráticos. o que importa é se fecundamos alguma mulher em nossa vida. A batalha contra a vida religiosa prática se perde a cada mulher que toma pílula e luta pelo aborto. As mulheres religiosas no Ocidente têm uma média de 2.5 por mulher. como demonstra o demógrafo Eric Kaufmann no seu brilhante Shall the Religious Inherit the Earth?. os religiosos produzem mais bebês. A MENTIRA DO PRESENTE Não é intenção deste ensaio afirmar que o passado era melhor. As modas de alimentação. Nunca foi. Deverá atingir graus demográficos críticos até 2100. não há aqui nenhuma intenção de afirmar que o passado era um paraíso (é provável que me contradiga em algum momento e afirme que o passado era melhor. os seculares matam seus fetos no ventre infértil da mulher livre. Não importa o que você ou eu pensamos sobre o modo certo de se viver.demografia: quem reproduz mais sobrevive. sem usufruir das inúmeras utopias que o romantismo produziu (natureza. mas reproduz pouco. socialismo. equilibrada e saudável. Isso indica claramente que. enquanto as seculares mal chegam a 0. Além de reproduzir pouco. talvez padeça apenas da utopia do amor romântico. O mal-estar romântico se caracteriza pela sensação. muitas vezes vaga e imprecisa. de que se perdeu algo quando se atingiu as certezas científicas. Ela faz mais sexo. os “avanços” do narcisismo como forma de personalidade autocentrada. o que conta muito mais em termos de adaptação da espécie. mas apenas em alguns casos muito específicos).1 filhos por mulher. O secularismo é estéril e como tal será tratado pelos historiadores no futuro. O que este autor modestamente diria é que nunca se mentiu tanto no mundo . de nada adiantam em termos de sobrevivência.). que marcam a vida dos seculares. A vida secular está condenada no mundo.

Pensavam em viver próximos à natureza e. com suas luzes e seus direitos. e de forma organizada. . será lembrada como um período de trevas por conta de nossa irrelevância. A fuga mundi é um tema recorrente na Filosofia e na espiritualidade. reaprender o fato de que tudo está morrendo. longe do vazio da vida civilizada. colocou sua tenda no deserto e nas trevas. é sempre da morte que fugimos.como hoje. O risco de as Ciências Humanas se tornarem alvo de ridículo no futuro é enorme (confiarão mais nas revistas femininas e nas pesquisas publicitárias). o mais covarde que já caminhou sobre a Terra. Eis os idiotas do bem. Nossa época. na solidão. Na Antiguidade. a dor e o fracasso. ao final. Deus. Gente medíocre a nossa volta que imagina um mundo de gente feliz. considero Deus muito inteligente. justamente porque elas perderam qualquer contato com a realidade e afirmam seus delírios sobre homens e mulheres que não existem. causada por preocupações excessivamente pessoais. estoicos defendiam a fuga mundi como um modo de se defender das ilusões e frustrações causadas pela vida em sociedade. Este livro elenca algumas das razões para esse desejo de fuga. Muitos continuam fugindo por recusarem os vícios de um mundo dado a vaidades. com ela. O homem contemporâneo é. Monges de várias religiões fugiram e fogem do mundo em busca de alguma forma mais sólida de vida. Na verdade. FUGA MUNDI Por que dediquei este livro a todos que estão fugindo? Porque fugir do mundo é sempre uma opção que povoa minha mente. na tradição hebraica. sobre a qual deixará sua marca de incompetência em lidar com a morte. alimento o sonho de um dia fugir. Isso significa muita coisa para quem Nele crê. E. Apesar de não ter fé. no silêncio. ou de suas representações. talvez.

nesses casos. inesperada. muitas vezes mais próximas de fait divers (assuntos diversos) do que de grande dramas filosóficos. A beleza nasce no pântano e na lama do mundo. como sempre quando escrevo. autor do clássico O Coração das Trevas. Minha agonia é sentir-me cercado por ressentidos. em detalhes. quando expressa. Ressentidos são pessoas que passam a vida buscando não sentir o que a vida é: falta de sentido. Entre eles. pelo menos. deve ser rara. Joseph Conrad. Virtudes assim são impossíveis num mundo de ressentidos. De todos os medos que me povoam. ele se manifesta também em pequenas misérias cotidianas. Este livro é. No espírito de Santo Agostinho. mas apenas quando temos clareza desse lado obscuro do mundo é que podemos vislumbrar alguma beleza. Estes preferem culpar os outros em vez de assumirem a própria vida. senão perde a . Tal atitude tem consequências enormes.RAÇA DE ABANDONADOS O filósofo alemão Horkheimer dizia que somos uma raça de abandonados. Claro. Exigimos ter uma importância maior do que temos no universo. Os covardes. devem se preparar para ler este livro. São vários os sintomas dessa raça. e este livro se dedica a analisar algumas delas. sofrimento ou o que os psicanalistas chamam de “falta”. porque ele pretende desenhar seus rostos e se transformar num espelho de suas misérias. incerteza. também falava que somos uma raça abandonada por Deus e que nossos valores mantêm a Terra e suspendem os céus diante de nossos olhos para que acreditemos neles. ser ressentido é dos piores deles. Conrad é famoso por valorizar o heroísmo daqueles que enfrentam a falta de sentido da vida com coragem e disciplina. Talvez. que são a maioria. escrevo para não me sentir só. A beleza. AUTORRETRATO Devo falar da minha agonia. uma confissão. indiferença. seja mais ridículo ainda porque não tem. Mas esse abandono não se manifesta apenas em agonias espirituais. o apelo da grande literatura. o ressentimento. não só.

Daí ser tão fácil cair no ressentimento. o medo. Matamos Cristo porque ele era belo. Mas por viver se lambendo. é justamente o contrário. O ressentimento é uma forma invisível de cegueira. citado na abertura deste livro. como diz o psiquiatra Theodore Dalrymple. todos eles ruins e destrutivos. isso é coisa de idiota e covarde. a teologia cristã sabe disso. e o teólogo Hans Urs von Balthasar descreve isso muito bem quando fala da destruição da beleza na figura do Cristo crucificado. Não a suportamos. A ERA DO RESSENTIMENTO No futuro. Ninguém normal busca a dor. aí. o desespero existencial que farão a história das mentalidades de nossa era. a disciplina. esse sentimento que.cor. Os utilitaristas estavam certos. mas como a era do ressentimento. nem da Apple. Mas o que é o ressentimento? . Uma chaga. pautada por pequenas intenções narcísicas. O ressentimento é uma forma de cegueira espiritual. pensamos ser ele alguém que se ama muito. E mais: não conseguimos viver com a beleza porque ela desnuda nossa falta de beleza e. considerarão os gregos e romanos mais importantes para as civilizações do futuro do que a nossa presente. no entanto. sendo que. o narcisista vive a serviço de si mesmo. Incapaz de ter vínculos. O narcisismo não é a marca de alguém que se ama muito. Provavelmente. Mas fazer da felicidade um direito. é cego. odiamos mulheres bonitas porque não a temos ou porque as mulheres feias – imensa maioria – detestam as belas. Pobre diabo que enche nossas ruas e nossas camas. mas o sentimento de que merecemos mais do que temos. Não será a coragem. mas a marca de alguém que vive lambendo suas feridas porque é um miserável afetivo. Caçamos a beleza como uma espécie em extinção e maldita. A tragédia é que isso tudo é ressentimento e o ressentimento não vê a beleza. não seremos lembrados como a era do iPad. é eterno e infinito nos seus efeitos. Claro que fugimos da dor. ficamos ressentidos porque alguém é mais belo do que nós.

Nietzsche conta que. Ledo engano: a praga sobreviveu à morte de Deus. poderíamos pensar que o ressentimento morreria junto. porque o ressentimento vive bem com a vida desperdiçada no consumo. existem modos distintos para nos relacionarmos com ele. as religiões. que os insetos tinham em alta conta. Esta crítica é largamente conhecida. uma estrela tinha um planeta a sua volta. política. Não há cura para uma verdade. Para Nietzsche. A covardia contemporânea é nosso modo específico de evitar essa verdade íntima. Morto Deus. Com a morte da estrela. Estética. Não me interessa aqui refazê-la. a moral são criações do ressentimento. prova de que sua raiz é mais profunda do que a crença em Deus. uma raça de insetos viveu por 1 milhão de anos e criou uma coisa chamada conhecimento. mas um dos seus efeitos mais marcantes é exatamente a tendência de nos tornar superficiais. A alegria breve do consumo alivia o peso da chaga do vazio que segue sendo nossa sombra.NIETZSCHE E A CRÍTICA DO RESSENTIMENTO Nietzsche foi o primeiro filósofo a perceber de forma clara o ressentimento como marca humana essencial. É da indiferença do universo que nasce nossa mágua. Neste. os sintomas do ressentimento assumiram formas infinitas. E o universo continuou no seu silêncio e na sua indiferença. a metafísica. tema na moda por décadas. O ressentimento tem uma raiz profunda (o pânico diante da indiferença no universo vazio). . porque assim nos protege da consciência do próprio ressentimento. tudo se apagou. Desse modo. num recanto distante do universo. Mas essa moda se deve justamente ao fato de a luta de classes ser um conceito que deita raízes justamente no ressentimento que a vida social gera porque somos o tempo todo lançados a conviver com gente melhor do que nós. Nesse sentido. foi mais profundo do que todo o blábláblá da luta de classes. apenas modos de enfrentá-la ou de evitá-la. uma vida para o consumo cai bem. De lá para cá. Prefiro falar da espiritualidade ressentida contemporânea. Nasce aí nosso ressentimento. Não existe cura para a causa do ressentimento.

sexual. A verdadeira espiritualidade trilha aquele caminho que os pietistas alemães (luteranos que odiavam o mundo e viam o pecado em si mesmos e no mundo o tempo todo e. devemos chamar o ressentimento por seu nome e seus atributos: inveja de quem é melhor. um ressentido. Sinto muito em dizê-lo. essa ridícula. deuses ou gente melhor do que nós. Dar nome às coisas é essencial. A Bíblia é um reservatório de sabedoria. INFERTILIDADE FEMININA . sentimento sufocante de que eu tenho o “direito” de ser melhor do que ele é. por isso. Costumo dizer que não devemos falar mal da Bíblia como fazem grandes inteligentinhos como Saramago.ética. ESPIRITUALIDADE RESSENTIDA Se você já fez algum workshop xamânico. Toda vez que encontramos Deus. pretende recuperar espiritualidades mortas num fim de semana. provavelmente. como todo livro de grandes tradições religiosas. Espiritualidade nada tem a ver com cursos de três dias sobre sabedoria egípcia antiga ou textos védicos. Mas a alma contemporânea. faziam silêncio para acalmar a Criação do ruído do mal) chamavam de “inferno do conhecimento de si mesmo”. Espiritualidade tem mais a ver com colocar filhos para dormir todos os dias do que com aprender línguas mortas. Um deus que serve ao homem não vale a pena ser adorado. afundamos no ressentimento. todos os deuses que adoram estão a serviço de seus projetos pessoais. Mistura budismo com seres de outros planetas como quem mistura molhos de comida étnica. No fundo. NÃO SOU Deus já tinha nos dito na Bíblia que nossa missão é dar nome às coisas. você é. conclusão aterrizadora de que não sou.

E aqui fica muito claro que “contemporâneo” não é um conceito temporal. Argumento considerado absurdo pelos ressentidos. Pessoalmente. é mais da ordem da digestão. uma vez irreversível. rapidamente se transforma em discurso ideológico que tenta afirmar que não ter filhos torna os casais mais felizes ou que não ter filhos é uma prova de independência feminina. ele é breve como toda verdade além do bem e do mal. A infertilidade feminina contemporânea é símbolo da infertilidade geral do mundo. As mulheres culturalmente inférteis dirão que estão investindo em outras opções de realização da vida. Ter filhos nada tem a ver com felicidade pessoal. para além do caso específico das mulheres inférteis contemporâneas (refiro-me às mulheres seculares). Não se trata de doença biológica. Você até pode emagrecer. em algum momento verá o deserto em seu espelho. Todo mundo que nega a vida em nome da realização da vida é um medroso chique. maridos que já chegam com filhos de outros casamentos e se recusam a ter outros ou quadros psíquicos instáveis). Ter filhos nada tem a ver com realização pessoal. mas em grande parte das situações ocasionada por fatos como casamentos infelizes. O aumento significativo de mulheres que não são mães é como um aumento de pessoas que optam por respirar menos. A infertilidade feminina tem suas cheerleaders: mulheres sem filhos e profissionalmente ativas. Um acúmulo de crenças comumente relacionadas ao narcisismo e às suas soluções de continuidade. em virtude da infertilidade biológica trazida pela menopausa. Mas a mentira por trás do discurso bem resolvido da maioria dessas mulheres inférteis por estímulo cultural é que a ausência de filhos (às vezes causada por livre escolha. tem mais a ver com a lei da gravidade do que com a felicidade de uma escolha. A verdadeira realização pessoal é silenciosa e não fala de si. mas os pulmões apodrecem e perdem sua função. mas um estilo de vida. Contemporâneo é o narcisismo e seu enfrentamento como praga. mas de opção cultural causada pelo medo. . julgo que toda vez que alguém (mulher ou homem) levanta o argumento da preocupação com a realização pessoal. estamos diante de um ressentido. A mulher que pensa em se realizar contra seu útero.Há um aumento significativo da infertilidade feminina no mundo contemporâneo. Isso não quer dizer que todas as mulheres devem ser mães felizes. da respiração.

infidelidade. apesar de também o ser. A INVEJA DOS DEUSES E O ORÁCULO O ressentimento é um problema profundo. nunca fracassar.Talvez a melhor forma de definir uma mulher independente seja defini-la como incapaz de encontrar um homem que queira fecundá-la e que a obedeça. fracasso. sede. Nunca ser traído. Não foi outro sentimento que tomou a alma de Adão e Eva: conviver com Deus e sua beleza. que os levou a dar o passo errado. um drama que nunca deixa de ser o que é porque se refere a condições imutáveis. inveja da imortalidade. sendo este apenas uma solução falsa para a falta que nos causa inveja. inveja das “pequenas imortalidades” que são dispersas pela vida inteira. nunca ser menos inteligente. Na Grécia Antiga. isso não significava conhecer nossas histórias pessoais de vida. falta de beleza. A morte se declina em várias formas: doença. querendo ser iguais a Deus. Esse sentimento é o sentimento mais essencial de nossa condição frágil. O ressentimento é nossa fúria para com a mortalidade que nos define e torna quase todas as nossas qualidades irrelevantes. A teologia agostiniana diz que foi o orgulho deles. sua eternidade não deve ter sido fácil. quando o oráculo de Apolo dizia para os homens “Conhece-te a ti mesmo”. O ressentimento é um drama ontológico. O ressentimento humano nasce aí: inveja dos deuses. porque a morte é uma guerreira sem pressa e sem vaidade. Revolta essa sem possibilidade de vitória. bactérias. frio. e nós deuses não”. como se pensa hoje depois da cultura da psicologia. é nossa revolta contra os elementos naturais (vírus. dor) que nos devoram. como se diz em Filosofia. mas sim “saibas que tu é mortal. e não apenas social. No final. Mas a inveja vem antes do orgulho. porque sempre vence. como dizia o escritor Joseph Conrad. fome. seu poder. nunca ser feio. Adão e Eva quiseram ser imortais. o mesmo problema dos gregos diante de seus deuses. falta de inteligência. isto é. . nunca adoecer.

A beleza espontânea da música de Mozart enlouquece o medíocre Salieri. para nossa miséria mediana. Salieri sempre quis ser um músico famoso cantando a beleza de Deus. Com o decorrer do filme. veremos que Mozart é também ingênuo. O contraste entre o dedicado e mentiroso não pecador-medíocre em música e o mulherengo vulgar pecador gênio destrói a vida de Salieri para sempre. imprevidente e bêbado. Até o ponto em que ele leva Mozart à destruição e ele mesmo morre. e sofre por isso. como diz Salieri.O COMPLEXO DE SALIERI Desgraçadamente. sentindo-se culpado e autodenominando-se o “príncipe” dos medíocres. se tornará amante de Amadeus) e come doces escondido. Em troca. Deus parece ter dado a ele. Algumas pessoas podem fazer o papel de um deus para nós e com isso disparar o ressentimento em nós. O cenário está montado para o ressentimento. Ele conhece Mozart na casa do arcebispo de Viena. significa seu esforço disciplinado. Principalmente quando ele parece fazer sem nenhum esforço e de uma maneira muito melhor o que nos esforçamos para fazer. o que. Um Amadeus é alguém que é melhor do que nós. e Mozart está se pegando com uma mulher no momento exato em que Salieri come doces escondido na copa. Afora toda a trama. que. Vejamos o que acontece no filme. O complexo de Salieri é universal: todo mundo encontra seu Amadeus na vida. ele promete a Deus sua industry. esta “criatura”. Salieri também vive em castidade (reprime o desejo por uma cantora aluna sua. Mas Salieri é mais do que isso. o dom que este julgava ser seu no “acordo” feito com Deus. esta fala final de Salieri é muito significativa porque universaliza seu ressentimento como marca da condição de todos quando nos deparamos com um gênio que aponta. depois. em inglês. mesmo sem querer (pior ainda quando é sem querer). É assim a relação entre o músico Wolfgang Amadeus Mozart e Antonio Salieri no filme Amadeus. nem só de deuses vive nosso ressentimento. Ele reconhece seu ressentimento (começando por . O ressentimento brotará do fundo de nossa alma como um veneno. e pede a Deus que então dê-lhe tal dom.

contemporâneos. morre o narrador. Com a morte do amadurecimento. com os anos. Há saída para isso? Talvez sendo extemporâneo. Ninguém mais assume a responsabilidade de falar do significado da vida. O mundo nunca viu gente tão acuada como nós. em pânico. recusando-se a ser contemporâneo. Mas. De fato. Todos querem fingir que tudo pode ser uma balada. que sabemos que a maioria esmagadora não sabe nada de especial. porque são tantos os idosos. A maturidade está fora de moda. Ver o que há de ridículo em fazer parte da balada dos . e num mundo dominado pela sensibilidade de classe média (o lugar social do ressentimento por definição). torna-se quase um crime dizer que há ressentimento. nos ajudam a resistir ao terror do envelhecimento (dread of old age. é difícil resistir ao pânico do envelhecimento. MEDOS CONTEMPORÂNEOS Somos seres assustados. apenas perdem as funções vitais e se tornam obsoletos. A noção de “direito” é uma das maiores formas de burocracia para o ressentimento já inventada. nega esse ressentimento. mas se tornar. é pior. porque todos acham que têm o direito de serem Amadeus. O resultado é a aposta em envelhecer. hoje em dia. já que as ideias não parecem sobreviver ao esmagamento da solidão do envelhecimento. que cunhou o conceito “cultura do narcisismo” em seu livro homônimo). além de terapias baratas. Denegação absoluta. a alma se faz ridícula. O espelho é nosso algoz. “Eu me invento”. sofrem diante de pais e mães ridículos em seus modos e rostos falsamente juvenis. Aliás. Como resistir a esse desespero? Algumas cirurgias e livros de autoajuda. À medida que a pele murcha e o corpo cai. eis o mandamento máximo do ressentido. fingindo que não. Não envelhecemos. Nesse sentido ele tem alguma redenção. um retardado feliz.ele saber que Mozart é melhor do que ele e não negar isso). Os mais jovens. como diz o historiador americano Cristopher Lasch. apodrecemos. não creio que tenha existido alguma época mais ressentida do que a nossa. como diria o filósofo alemão Walter Benjamin. Um horror estético talvez funcione mais. A maioria de nós.

Alguns dizem mesmo estar preocupados com a evolução espiritual e. tristes e retardados. ao mesmo tempo. serão em breve a principal espécie em extinção. A infertilidade feminina por razões culturais. em meio . espero chegar à idade avançada com aquela tranquilidade de quem busca o “escurecimento” presente em telas como os últimos autorretratos de Rembrandt. após o feminismo. E como ficou muito mais fácil achar sexo e elas pagam pelo jantar e pelo motel. com medo das mulheres. Quase tudo que é dito soa irrelevante. acuada por um futuro em que a solidão será o resultado final de escolhas “conscientes”. E a solidão? O mundo nunca foi tão cheio de gente que se comunica e fala o que pensa. principalmente nas mulheres. Como dizia o mestre Carpeaux. ao falarmos. O discurso normalmente segue o sentido de falar de outras realizações. como a que vivemos hoje em dia. e não imposição de alguma regra monástica. Essa noite que busca revelar apenas o que há de essencial na vida e romper com as contingências da mentira. E vai piorar quando o aborto ascender à categoria de ganho das políticas de direitos humanos. Não deixam de ter certa razão esses medrosos. Pobre juventude que habita um mundo em que é escolhida como guru. Vivemos em meio a uma vida social que varia entre balada e depressão. desse medo da responsabilidade de ter filhos. eles. a desculpa é que as mulheres não são de confiança e não merecem investimento. está condenado a querer sempre ser jovem. Os filhos. Mas a solidão corrói. por que se preocupar em bancá-las? Triste condição delas. envelhecidas e cheias de papo. cada vez mais raros (até as escolas e universidades sentem isso na queda de matrículas). e todo jovem que permanece jovem logo se descobre um retardado.apavorados pode ter algum efeito. não parecem mesmo acolher o esforço dos mais generosos entre nós. Quando um jovem é colocado na condição de guia. por isso. não podem ter filhos. Nunca se disse tanta besteira. sendo mais facilmente bobos do que as meninas. pois as mulheres. O velho sábio despreza os ritos do mundo porque já cansou dele. livres. porque somos banais e. Nos homens. serve e é causa. falamos de nós mesmos e nossas pequenas taras. O medo de ser pai e mãe está intimamente associado ao medo do amadurecimento.

enfim. o medo do amor. E. Tendo a achar que sim. Sempre existiram razões para a solidão de valor. O filósofo irlandês Edmund Burke (século XVIII) dizia que. talvez pela falta de opção. Nunca se tirou tanta foto e nunca se viu tão pouco uma. a solidão chegará. e pode ser mesmo o contrário da felicidade. Inundados por esse mar de irrelevância cantada em prosa e verso. o feminismo teve esse efeito. A solidão nos ataca como um enxame de abelhas. O amor exige demais para personalidades narcísicas como a contemporânea. tal como floresceu na Terra. acima de tudo.a uma solidão sem espiritualidade. Mas alguém afirmar que seja uma invenção da literatura medieval é confessar sua pobreza afetiva. talvez porque as mulheres eram mais bonitas com seus vestidos dos anos 1940 e. Uma das dificuldades do amor é que ele não está necessariamente ligado à felicidade. claro. Evidentemente que nem todos o conhecem e alguns nunca o conhecerão. Veredito final: para os homens. A noite é o paraíso maldito dos “livres”. . Alguns dizem mesmo que ele não existe. A politização da vida em breve vai acabar com a vida. e não a deusa das fotos e dos nossos sonhos. logo descobririam que uma mulher era apenas um animal. também irrelevantes. quando os jacobinos descobrissem que a rainha era apenas uma mulher. Direitos não garantem amor. A solidão da vida contemporânea aparece por trás da alegria montada para as fotos. mas o fato é que alguns felizardos o experimentam. mas esta é rara e exige certa personalidade sofisticada e singular. também teria direito ao amor. que gira ao redor de suas misérias bem pessoais. simplesmente a decoração que faz um quarto ser mais belo do que apenas o lugar onde se dorme. Talvez o amor seja como a moral. talvez pela ingenuidade. Pouco adianta resgatar o valor sonhado dizendo que animais têm direitos e que ela. com ares de ressaca sem gozo prévio. Descobrimos que a mulher era apenas um animal. O medo do amor se alastra por toda parte com seu efeito amargo de agonia. sendo um animal. não é a solidão da vida contemporânea. depois de muita fé em si mesmo. eram menos ressentidas. Pode-se perguntar se amamos mais no passado. como diria o sociólogo Zygmunt Bauman.

É uma tragédia porque . como o talento.BELEZA A beleza é uma obsessão contemporânea. Mentira. as normais. como sempre foi. Fazemos qualquer coisa pela beleza. A física. nos fere porque revela o vazio em nós. Atrai e condena os envolvidos com ela. Coisa rara no mundo contemporâneo. Uma mulher bonita é a prova de que existem muitas feias. virou moda dizer que homem que pensa primeiro na beleza física da mulher é machista. A beleza. A beleza traz todas as marcas do pecado. e estas são quase sempre más. ou seja. Por exemplo. Na maior parte do tempo. não há regras 100% em se tratando de seres humanos). mas esta é rara. como quase tudo no mundo contemporâneo é fake. como já sabia o poeta grego ao avisar os guerreiros de Ulisses quando se aproximavam das sereias. o que é verdade é imutável. Deixamos de desconfiar da vaidade e com isso o mundo se escureceu. Para chegar na beleza interior da mulher. Mas isso não quer dizer que seja fácil. Quem se interessa por alguma forma de beleza interior. Quem fala muito em beleza interior é porque é feio. o ódio à beleza. dominado pela praga da propaganda de si mesmo. Mas. Quem diz o contrário mente. deve falar pouco de si mesmo e de sua próprias qualidades. Virou coisa comum se apresentar como pessoa ética (uma das formas mais comuns de beleza interior). Um homem pode destruir uma vida de sentido construído no dia a dia por conta de pernas lindas. No futuro esta será uma das razões para sermos considerados povos de uma era menor: a facilidade com a qual fazemos julgamentos positivos sobre nós mesmos. Não. mas quase sempre as feias são más por conta desse sentimento – talvez o mais humano de todos: a inveja e seu filho mais sofisticado. Homens levam tempo para ver a beleza interior numa mulher. e elas sabem disso muito bem. o ressentimento. Uma mania contemporânea é dizer que homens bem resolvidos veem a beleza interior feminina. Não diria que isso seja uma regra 100% (a rigor. a moral. o homem deve já ter se cansado um pouco da beleza física dela. quero dizer. E isso leva tempo porque a beleza feminina nos enlouquece. por isso se enfeitam. é normal. Fala-se muito da interior.

Não quero dizer que o mundo foi melhor um dia. para além da pílula. O mundo contemporâneo optou pela masturbação como forma independente de erotismo. Mas. sexo oral e anal eram comuns como o ar que respiramos. Sucesso na Medicina nos fazendo viver muito sem ter ninguém com quem viver. A secularização. hoje. que logo levará a modernidade secular ao abismo. Sucesso na solidão feita de liberdades. Onde está a farsa? A cartilha com demandas é tanta que a libido morre de medo de falhar. EROTISMO Já disse e vou repetir: a revolução sexual é uma farsa. E estão “certos” no que fazem porque mulheres e homens são. O que vai matar o mundo contemporâneo são seus sucessos. andamos sozinhos pela casa. contemporâneos. Hoje o sexo anal é algo . em matéria de sexo. poços sem fim de exigências. Sucesso na democracia tornando a vida irrespirável de tantos direitos. ao contrário do que se imagina. logo será ensinada nos jardins de infância como direito sexual à liberdade. mobiliada com nossas demandas pessoais. A luxúria. Espelhos vazios. Mulheres não relaxam querendo se manter jovens e independentes.é a pura verdade. Mesmo quando mantidas virgens. homens tomam Viagra aos 15 anos com medo de não satisfazerem as namoradas. Nossas avós faziam sexo melhor do que nós. que um dia nos assustou e excitou. e não seus fracassos. Há que se lutar contra isso como se luta contra a gravidade quando se cai do 10o andar. não tenho dúvidas de que foi. deixou todo mundo estéril. Uma vida de masturbação (mesmo que a dois) cria uma manada de entediados. Nós. O modo como alguns inteligentinhos afirmam que vivem “pelo desejo” chega a nos tocar. fazendo que a piedade precise ser maior do que a que existe no estoque. entregando o mundo ocidental nas mãos dos evangélicos que engravidam suas mulheres com competência. Nunca foram santinhas (e mesmo quando foram).

Soa estranho. isto é. Os iluministas gostavam de pensar a felicidade como a vida com a razão e próxima da Ciência. É um adolescente tardio. os islamitas cheguem à conclusão de que as mulheres não mais precisam usar burca porque o desejo acabou. O utilitarismo de massa ajudou muito a criar essa ideia de que bem-estar está . FELICIDADE COMO DOENÇA Deus me livre de ser feliz. Qual é a sintomatologia? Primeiro. as mulheres começam a sonhar com o dia em que eram objeto de desejo masculino. E os contemporâneos inventaram a felicidade como neurose do desejo. Outro sintoma é a excessiva preocupação com a alimentação.. Muitos dirão que existem vários tipos de felicidade e estarão certos em dizê-lo. Que canseira. Quer mais um? Ler artigos que dão formas de felicidade a preços baixos. mas me parece essencial nos afastarmos da neurose da felicidade. Outro sintoma é pensar em você o tempo todo. Os utilitaristas pensaram a felicidade como a otimização do bem-estar. Nesse caso.. Os antigos gregos pensavam a felicidade como uma vida longe das paixões e pautada pelo pensamento e pela virtude pública. em breve.. Hoje. já fracassou como adulto. felicidade é adquirir geladeira e TV de tela plana e dizer que faz sexo duas vezes por hora. a capacidade de viver sem pensar em si mesmos e voltados para o outro. Talvez. Os cristãos pensaram a felicidade como beatitude. os índices de felicidade inventados pelos governos pra ganhar voto.que se conquista. Se você tem mais de trinta anos e se considera a pessoa mais importante do mundo. Qualquer mulher sabe reconhecer um homem que sofre de síndrome de Peter Pan. faz-nos dar o que ela quiser. Ser saudável demais depõe contra você. como os acadêmicos que “provam” que não ter filhos deixa você mais feliz – coisa de preguiçoso. Escutar o orgasmo de uma mulher é como o canto de uma sereia grega.. Outro sintoma são pesquisas encomendadas por grupos que querem ver seu modo de vida afirmado como a forma mais feliz de viver.

não sentem ciúmes do parceiro. Óbvio que os outros são mais felizes do que nós. mas de dizer que a felicidade deve ser discreta e falar pouco de si mesma.acima de tudo. ou primos sem grana que gostam de posar de profundo e artístico. provavelmente não é um desses). pode dar para qualquer um. o pior mesmo é quando gente bem resolvida tem grana. é óbvio que existem artistas de fato. ser um desses ressentidos ofendidos. GENTE BEM RESOLVIDA FAZ MAL Uma das pragas contemporâneas é gente bem resolvida. Acima de tudo. porque o que elas ouvem é: “Estou te rifando meu amor. Para começo de conversa.. leitor. . Gente bem resolvida costuma acreditar que seus filhos (normalmente tem apenas um filho e meio) estão de fato preocupados com os pandas e não fazem bullying com os mais fracos e as mais feias na escola. Dizem coisas como “se minha mulher for a um congresso e encontrar um parceiro interessante para aquela noite. Não se trata de dizer que a felicidade não importa. Afaste-se delas. no caso de você. Homens bem resolvidos que dizem coisas assim logo são desmascarados em sua estupidez por suas mulheres (nunca uso termos como “esposa” ou “companheira” porque são bregas). Andam de bike pra salvar o planeta provando sua condição de playboy light. Porque aí eles acreditam mesmo que são bem resolvidos porque podem fazer viagens espirituais ao Vietnã. eles não vivem as nossas misérias tão pessoais e que nos definem de forma silenciosa e constante. Pessoas que sofrem dessa neurose estão sempre tomadas pelo sentimento de que as fotos dos outros que elas veem no celular provam que os outros estão “aproveitando” mais a vida do que elas. quando é assim (bem resolvido e mal-sucedido). Mas. mas se você se ofendeu com o que leu. Mas o narcisismo e sua preocupação consigo mesmo é o campeão. A insatisfação como um ruído cada vez mais alto as atormenta. Mulheres de verdade não querem homens bem resolvidos. loiras aos 50. A elegância na felicidade é mais importante do que na tristeza. dou o maior apoio”. é menos pior porque as causas do sofrimento estão à vista.”. A desculpa de ser artista costuma colar para quem é preguiçoso (claro. Muitas vezes são cunhadas chatas e solitárias..

mas como sua ideologia gostaria que fosse. Os documentos estudados pelos nossos descendentes para compreender como vivemos. Não servem para nada. Peguemos um exemplo: entre mulheres ativas profissionalmente. E qual é este conhecimento? Simples: dizer a verdade. virá das agências de publicidade. e um intelectual nunca erra porque o que ele diz não tem consequências reais no mundo. sentimos. onde muita grana circula. esses templos da empiria contemporânea.querem homens que tenham atitude e pegada. A PUBLICIDADE É A MELHOR CIÊNCIA SOCIAL CONTEMPORÂNEA No futuro. A vida não cede às formulações simplistas. Por um motivo simples: não lidam com a vida como ela é. não existe dinheiro nesses departamentos. Além disso. melhores cientistas sociais do mundo contemporâneo. apenas umas poucas bolsas e salários irrelevantes. casadas e com filhos. como uma nulidade. sonhamos e morremos serão as pesquisas de mercado feitas pelas agências de publicidade. e mulheres religiosas . Como diz o intelectual americano Thomas Sowell. verão nossas pesquisas em Ciências Humanas. Esses dois conceitos serão os mais lembrados por nossos descendentes quando estudarem o “conhecimento proibido” de nossa época. ao contrário do mundo da publicidade. a visão que nossos descendentes terão de nós. Além de não padecerem da doença ideológica. um piloto não pode errar no que faz. os publicitários e marketeiros. Uma das razões de os departamentos de Ciências Humanas serem um deserto sem nenhuma sensibilidade empírica para a realidade é o fato de serem pobres e não arcarem com as consequências das bobagens que falam em sala de aula para os seus discípulos apaixonados. AS RELIGIOSAS SÃO MAIS FELIZES E SAUDÁVEIS Muitos livros de autoajuda oferecem fórmulas de sucesso. Portanto. perdem o emprego ou a conta do cliente se não entregarem uma percepção o mais próxima possível da realidade para o seu cliente. a mais científica possível. trabalhamos. realizadas nas universidades.

e este beco tem muito a ver com os efeitos colaterais de nossas próprias escolhas e da secularização em geral. Rirão de como perdemos tempo xingando as pessoas nas redes. estas têm uma vida mais equilibrada e se sentem mais amadas e valorizadas. Nossos ancestrais verão nossa crença no poder redentor das redes sociais como vemos as crenças dos antepassados nos deuses da chuva. “elas têm um valor profissional talvez indiscutível”. pode facilmente se transformar em pura solidão. Com isso quero dizer que há um beco sem saída na vida contemporânea. Nem sou religioso. Quem ficar postando fotos depois dos 25 anos de idade será visto como portador de algum retardo mental. Não se preocupar com a saúde. menos adaptação. Ter ciúmes. Além disso. a pressão profissional. o desgaste verdadeiro de nossas ilusões. Mas quem precisa delas é quem não tem sucesso o bastante para ser indiferente a elas.praticantes que se dedicam às suas famílias. que pode ser um prazer e uma realização verdadeira. nos debilita com o passar dos anos. menos futuro. a marca definitiva do contemporâneo é o narcisismo estéril e o individualismo histérico. . VIRTUDES CONTEMPORÂNEAS Não querer ser informado. Ser indiferente ao que pensam de você. Menos bebês. Logo. O impasse contemporâneo nasce justamente de não podermos voltar atrás. Romper com as redes sociais. Enfrentar o contemporâneo significa não tapar o sol com a peneira e perceber que. em breve. Claro que. Não quero dizer com isso que devemos aderir aos radicais Amish. a não ser deixando de ser contemporâneos. a civilização secular vai desaparecer por conta da recusa das mulheres “emancipadas” de terem filhos. dirão. De alguma forma. quem tiver Facebook será visto como gente brega e carente. Parafraseando aquele ditado popular: “não é política imbecil. Ou alguma forma de solidão arrasadora. Afora o aspecto religioso. também com o passar dos anos. Muita gente sente um profundo ressentimento por ter que sustentar (não só financeiramente) suas próprias vidas sem nenhuma garantia de felicidade. é demografia”.

Mas. escorrendo pelo chão. ELEGÂNCIA Uma das maiores formas de elegância é não querer saber de ninguém. SANTOS ECOLÓGICOS . Pode também ser um pecado. Mas num mundo de carentes bem vestidos. Nosso maior pecado foi acreditar que superamos as superstições porque criamos outras novas. não enquanto elas se virem com a teoria da redenção disponível. por isso. Picaretas teóricos chegaram a inventar teorias complexas para não terem de afirmar nada de definitivo sobre o mundo. para que eu nunca caia nessa tentação. e os pecados. se dissolvem. cozidas em seus apartamentos vazios. O maior problema com a liquidez da qual fala o sociólogo Bauman é o fato de não ser possível aprender a nadar nela. Não há o que se esperar das Ciências Humanas nos próximo duzentos anos. sempre foram elegantes.FALSA COMPLEXIDADE Umas das maiores mentiras sobre a vida contemporânea é ela ser complexa. até certo limite. os contemporâneos se agarram a suas pequenas teorias de mundo. entre elas a crença em si mesmo. protegem as pessoas de terem qualquer forma de compromisso. para aquele deus que não tenho. trasvestido de superação de preconceitos atávicos. Ao lado de uma longevidade tecnicamente sustentada. Nunca a vida foi mais simples porque ela nunca foi tão pequena na sua multiplicidade do mesmo. vale a pena correr o risco de ser elegante e pecador. um vazio de vínculos. nos quais as paredes sofrem do mesmo mal e. Rezo todo dia. diante do sofrimento.

A vida verdadeiramente afirmada é silenciosa e não frequenta as baladas de quem crê na histeria do desejo. sempre perguntava para as pessoas quando as conhecia: “Você acredita na vida? Só confio em quem acredita na vida”. morte dos valores. Tampouco tem a ver com alguma forma de espiritualidade de consumo do tipo quântica xamânica. mas da aplicação do niilismo à crença na redenção pelo desejo. do genial romance de Aldous Huxley Contraponto. ele era um devoto de São Francisco porque este era um defensor da natureza. O canalha Burlap. Reafirmar a vida como ideia é já uma negação dela. O PÓS-MATERIALISMO Existe vida após o materialismo? É possível sobreviver a ele? Antes de tudo. O materialismo hedonista. O pós-materialismo não espera nada da Ciência além de bons remédios que nos façam viver mais. abençoassem o mundo. e sempre acaba acontecendo de não termos o que fazer. e . lido como redenção. gozar mais e nos realizarmos como plenos entediados. Ele parte do niilismo aplicado não às coisas que o niilismo na sua origem representava (morte de Deus. Além disso. Ou na crença idiota de que o acaso nos liberta. diria nosso filósofo do niilismo. tudo contra playboys lights que desfilam bikes como se isso os tornasse membros de um novo clero de puros. Nietzsche. Burlap era um canalha. Ao final. morte da família). O pós-materialismo nada tem a ver com uma crítica ao materialismo nem ao consumismo. como faz o americano Stephen Greenblatt no seu belo livro A Virada.Uma nova praga: gente de bike na rua. Todos nós já estivemos nesse lugar porque a vida é longa demais (ela deixou de ser curta há muito tempo). mas com o tédio do materialismo como arrogância e fausto. o pós-materialismo se constitui na negação da crença de que o átomo (unidade máxima de sentido e mínima de matéria no materialismo) seja alguma forma de resposta possível ao sentido da vida. Andam como se. vale lembrar que o consumismo é ato de quem não tem o que fazer. morte da Igreja. Nada contra bicicletas. O incrível é como tanta gente letrada não percebe o ridículo. é apenas uma tentativa pueril de reafirmar a vida. com seu suor.

cheias de bons sentimentos. as faculdades ricas. No fundo. esse tipo de pensamento esconde sua verdadeira face: o acúmulo de luxo e conforto que caracteriza grande parte do mundo ocidental e mesmo do extremo leste ocidentalizado. para comer as meninas. teria ganho a guerra. Uma de nossas tragédias está no fato de que quase sempre é o fracasso . Uma das marcas mais visíveis da infantilização é ter “causas”. Coreia do Sul. por isso as redes sociais lhes servem tão bem. as estradas bem feitas. As “causas” contemporâneas (crianças na África. tudo contribuiu para nos tornar uns mimados que escondem sua inapetência para a vida real atrás de discursos que negam a realidade a serviço da infantilização compulsória. de fato. Primeiro que seus professores afirmariam que matar é feio e opressor e que supor que os nazistas deveriam ser combatidos seria pura manifestação de intolerância e preconceito com o “diferente”. A segurança. o ar-condicionado. meio ambiente.como todo bom canalha “acreditava na vida”. acordaríamos de nosso sonho de bens invisíveis de consumo. As “causas” funcionam como marketing moral. como Japão. as aulas que não precisam ser vistas porque os professores apenas conclamavam a revolução – na realidade. e os puros de hoje não têm pecados. e hoje os meninos também –. CONTRADIÇÕES INSUPORTÁVEIS Falava anteriormente da infantilização. Talvez. Simplifica a vida de uma forma como nem o puritanismo o fez. o sistema de luxo acumulado ruísse. os bares legais. Tema recorrente em qualquer sociologia do comportamento contemporâneo. se. sempre comer as meninas. porque este se baseava no medo do “pecado em mim”. Negam as contradições. Austrália e Nova Zelândia. OS COVARDES CHIQUES Se Hitler tivesse de enfrentar os jovens e adultos jovens de nossa época. a Medicina avançada. A infantilização aqui se revela no fato de que essas pessoas são como Branca de Neve. bikes).

A natureza não é equilibrada. é natural. a ideia de uma relação perfeita é entediante. Medida é como os deuses para nós: uma sede por sentido e valor. justamente pelo seu aspecto Barbie. e. mas perfeição na vida. desesperada. os novos puros do mundo. Medida é uma busca humana. A BÊNÇÃO DA IMPERFEIÇÃO A mania de perfeição é seguramente uma das doenças do nosso mundo. insegurança. é o desejo de uma natureza sob medida para nosso delírios de paraíso (as praias desertas nas quais gente metida da zona oeste de São Paulo gosta de desfilar seu horror pela classe média). O ridículo da natureza sob medida se revela na necessidade de quem padece desse mal sempre tentar transformar sua “estadia” nela em algo pleno de harmonia: entre o casal. por outro lado.que torna a vida real. ou seu equilíbrio serve apenas à devastação e à violência. o terror absoluto de tudo que. entre os amigos eleitos como “bacanas”. culpa. Sexo só vai bem com imperfeição. Assim como muitas mulheres lindas entediam. NATUREZA SOB MEDIDA Vejo nas pessoas com “causas” uma forma de infantilização a serviço do neopuritanismo contemporâneo. uma visão da natureza como uma deusa pós-moderna de consumo de bens “equilibrados”. Equilíbrio em tudo. com os filhos. A natureza não tem nenhuma medida. medo. de fato. No caso do tema “natureza” – uma das causas contemporâneas mais comuns – uma contradição muito clara se revela: por um lado. na realidade. duas coisas que não existem entre as pedras em que habitamos. Um dos lugares onde o estrago é maior é no sexo. pecado e uma dose de . Um dos maiores danos da revolução sexual foi justamente a idealização do sexo e da parceira afetiva. o que. Aprenderíamos muito se ouvíssemos nossos ancestrais pré-históricos. como os instintos que não servem às mesmas “causas” sobre as quais falava há pouco. tentativa e erro. Não me refiro à perfeição como obsessão racional banal.

Por isso. Somos seres cada vez mais ilhados e com carência. Se é uma inverdade que o carro será taylor made. É uma ironia máxima o fato de a cultura do desejo ser justamente a que matou o desejo. quando cria uma assinatura como essa. mesmo que cercados de amigos no Facebook. Isso será. é impossível. mas de desejo de vínculos. Quando sexo vira fórmula de saúde comportamental. Mas a segunda ideia. mesmo que não saiba. uma epidemia mundial. o que. saiu na mídia a notícia de que os jovens japoneses perderam o interesse pelo sexo. Graças à revolução sexual e ao discurso da liberdade. mais psicológica.desrespeito. do que nas incertezas de uma relação afetiva com pessoas. é uma verdade evidente em nosso mundo que estamos cada vez mais sós. ou . o que é muito pior. de fotos por toda parte e de celulares que falam conosco o tempo todo. obviamente. Recentemente. era a de que você não está só porque a Volvo está ao seu lado na hora de fazer seu carro. É essa solidão essencial que a marca tem em mente. Pode-se confiar muito mais no serviço de assistência técnica e de pós-venda da Volvo. e mais importante para entender o lugar das marcas como agentes de sentido no mundo contemporâneo. assim como poderemos ter saudade de mulheres sensuais. DESIGN AROUND YOU Há alguns anos. além do fato óbvio de que um carro de boa marca é muito mais seguro (no caso da Volvo isso ainda é mais evidente) do que o casamento ou ter filhos. com suas meninas lindas e doces ao portador. Que saudade teremos da repressão em poucos anos. Nesse sentido. a parceria de uma marca é essencial. aquilo que se chama branding em breve será um ramo da ontologia. em breve. a marca Volvo lançou uma campanha internacional cuja assinatura era design around you. inclusive porque entrega um “uso de parceria” muito mais seguro do que o “uso” que as pessoas entregam com suas ambivalências e traições. estamos quase todos brochas. não só de vínculos. Toda ciência do sexo é um equívoco em si. A primeira ideia comercial era que a marca projetaria o carro levando em conta as necessidades de cada consumidor.

Isso fica claro quando o tédio. o debate político é. por alguém que seja confiável o bastante para que. espaço por excelência no qual os sentidos da vida se dissolvem. aquela que não se pauta por causas da “Ética”. Ironia máxima que. se materializa na busca desenfreada por uma parceria abstrata. uma das palavras que. antes de tudo. quando chegarmos lá. Hoje. num mundo obcecado pelo desejo. deverão cumprir cada vez mais o papel de dizer o que é essencial como valor (e fazer esse valor valer. teremos adentrado o terreno do pós-humano e do pós-materialismo. hoje em dia. uma política da difamação. e não do acidente. mesmo sabendo que eu não sou de confiança. a disciplina na Filosofia que trata do essencial. portanto. essa marca da consciência contemporânea. A MORTE DO DESEJO NA SOCIEDADE DO DESEJO Grande ironia que. indica que você está diante de um mau caráter. uma vez que seus produtos são confiáveis naquilo que ela diz representar) e separar o joio do trigo na vida dos contemporâneos desesperados por sentido que não os prenda em vínculos incertos e dolorosos. e. as pessoas não desejem mais.seja. me tolere. POLÍTICAS DA DIFAMAÇÃO A era das redes sociais e da tagarelice total é também a era que consolidou a destruição do debate político tal como os filósofos idealistas do Iluminismo sonharam quando conceberam a democracia republicana. As marcas. quando você ouve alguém usando. num mundo onde a fala de tolerância ao diferente ocupe todos os espaços. ao ponto de se preocupar mais com pandas e o ártico do que com o lento e gradual abandono da vida concreta. Tal fato não se restringe apenas ao . Do design around you migraremos logo para meaning around you. seja este mesmo mundo que declarou de uma vez por todas que os seres humanos são intoleráveis. tendo em vista que o materialismo representado por produtos do capitalismo estará ensaiando sua nova vida como doador de sentido para o cotidiano.

O mundo é. um espaço atávico no qual se repetem nossos instintos e nossas obsessões. Toda a idealização da cultura caiu por terra. Esse pequeno romance poderia ser um . Lord of the flies. desde os anos 1960. mas também ao universo dos agentes culturais (não há gente menos confiável do que a maioria das pessoas que trabalha com os produtos do intelecto e da estética). tudo está perdido – ele é o limite de nossa esperança histórica na civilização. as crianças vão paulatinamente recriando o mundo adulto no qual os fracos são rebaixados. obra na qual o autor narra a saga de crianças náufragas numa ilha deserta sem adultos – chegam adultos ao final. possamos ainda salvar os mais jovens do naufrágio para o qual. e os místicos vão delirando com uma realidade que não existe. O comércio é marca última da condição humana moral. perde-se o essencial da vida civilizada. Na história em questão. os oportunistas seguem humilhando e esmagando todos os outros. é como se você não pudesse mais confiar em quem lhe vende um produto porque sabe que ele não vai entregá-lo. antes de tudo. E quando não se pode confiar mais na atividade comercial. seja ela qual for. Quando se perde a fé no comércio. os inteligentes são esmagados. Esse pequeno livro deveria ser distribuído toda vez que algum professor idiota de Ciências Sociais ou alguma política oportunista fala dos jovens como uma força revolucionária para o bem. Esperamos que um ceticismo sistemático venha nos salvar da fé cega no conhecimento institucionalizado nas universidades e nos centros culturais. SENHOR DAS MOSCAS HOJE É conhecido o clássico de William Golding. O mundo da cultura é um mundo no qual a difamação é a principal arma no duelo de ideias. O Senhor das Moscas deveria ser lido em voz alta nas praças públicas a fim de que. Só uma criança pode confiar nos agentes produtores de cultura. Os inimigos do pensamento dominaram o comércio das ideias.óbvio da miséria das redes sociais. Quando o comércio de ideias se contamina com a má-fé. mas isso não nos interessa aqui. os empurramos sob a falsa afirmação de que eles inventariam um mundo melhor. o Senhor das moscas. talvez.

porque quanto mais privacidade temos. o infeliz em potencial que somos todos nós poderá recair no vício de mendigar atenção pelas redes). Mas entre os vícios que compõem essa masmorra que são as redes sociais. em sua obra Ética pós-moderna. O mundo contemporâneo inventou o impossível: a multiplicidade de diferenças que não fazem nenhuma diferença. o deserto de valores em que vivemos. O vazio do sujeito se manifesta no desespero por alguém que “curta” as bobagens que posta. E a psicologia social e sua falsa ideia de construção social de um sujeito socialmente “são” só ampliará a morte do sujeito real. mais claro é o vazio das horas. CAUSAS DO FACE Muitas vezes digo que. A saída é buscar ser invadido pelos outros num delírio de celebridades e redes sociais. O sintoma indica claramente a patologia: a candente dissolução de qualquer subjetividade real. mas para descrever o que poderíamos chamar de deserto da privacidade. Logo. ela é um tormento. ele voltou ao tema do deserto. Hoje. Toda vez que o poder serve à fantasia ele se torna estéril. Um dia. estar fora das redes sociais depois dos 40 anos será índice seguro de elegância e sucesso profissional e afetivo (claro que esse “sucesso” é relativo. Mais recentemente. a qualquer hora. porque chegaremos à conclusão de que ser um sujeito é um vício de gente atrasada.antídoto para toda pedagoga incapaz de reconhecer uma criança verdadeira porque se tornou cega em razão de suas próprias obsessões de poder estéril. um . A falta de orientação em meio a um deserto de informações inúteis e indiferentes. em breve. a privacidade foi um bem a ser defendido a sete chaves. a psicologia do sujeito será uma ciência morta como a alquimia. O DESERTO DA PRIVACIDADE O sociólogo Zygmunt Bauman já havia identificado.

curar o mundo do mal comendo comida vegetariana ou declarar guerra à morte de crianças na África a partir de seu Android (se tiver mais grana. Hoje. POSSO SER O QUE EU QUISER Não. combinar passeios de bike pela zona oeste da cidade para salvar o planeta. Mais uma mentira a serviço de nossa incapacidade para lidar com o sofrimento. Se Nietzsche vivesse hoje. hoje. Essas causas variam desde defender o modo indígena de viver (neolítico) a partir de seu Mac. muitos contemporâneos afirmam que. Esses pequenos fragmentos da bondade contemporânea são normalmente acompanhados da crença light de que amar todo mundo é possível. Mas esse tipo de discurso.dos mais risíveis é o de ter “causas do face”. Eu conheci essa experiência muitas vezes. mesmo que você fracasse continuamente em amar sua irmã insuportável. o ressentimento se sofisticou. E veja que é bastante possível entediar-se consigo mesmo. serei apenas ridículo ou louco. se sou X. do seu iPhone). portanto. Sim. talvez eu poderei ser médico se me esforçar muito. Numa mistura bombástica entre crítica dos anos 1960 à Psiquiatria (crítica essa que teve apoio de grandes filósofos franceses para centros acadêmicos de Ciências Sociais como Deleuze e Foucault) e simples preguiça mental. A capacidade para autoindulgência se tornou uma praga entre os adultos infantilizados. o sou porque quis. Coisas básicas como ser “eu mesmo” se tornou tamanho desafio que é melhor crermos em ficções como “posso me inventar quando quiser”. se eu quiser ser X. apenas revela o tédio da própria identidade. É modinha. sou livre. logo. mas não posso ser Jesus se quiser. que parece buscar uma liberdade total. a ponto de assumir ares da crença no próprio ego. posso ser. Talvez o maior equívoco da cultura em que afogamos nossos jovens seja essa ideia de que eles teriam . Se pensar que sim. afirmar que posso ser o que eu quiser. você não pode ser o que quiser. teria saudades do ressentimento que se revelava pueril no modo de crer num carpinteiro frágil e fracassado. Mas o traço característico dessa forma de preguiça é confundir o peso da identidade com o sonho infantil de que me livro dela quando quiser e que.

a saber. Se não tenho emprego. que somos obrigados a suportar essa ladainha daqueles que não conseguem compreender o que. essa forma de ressentimento se escondeu nas camadas mais medíocres da existência: assumiu a forma de uma petição contínua para que eu seja uma eterna criança a ser cuidada. que algo ou alguém garanta nossa sobrevida. científica e racionalizada). Também não acho isso agradável. AS VAIDADES . Se me endivido. Algo que. Se Freud dizia que amadurecer é aceitar uma orfandade. desde a tragédia grega. a autonomia seja a escolha moral possível diante do simples aniquilamento de nossa heroica humanidade abandonada na face da Terra. o amadurecimento passou a ser considerado um modo de opressão. OS COITADOS É comum nos referirmos às pessoas como coitadas porque têm de enfrentar a vida. A questão é: quem foi o desgraçado que inventou essa história de que devemos amadurecer e enfrentar o fato de que não há garantias para nada? Por que esses ressentidos acham que a sociedade deve nos dar tudo e com isso fazer de nós uns retardados mentais em termos de moral? A necessidade de que a vida seja garantida atinge níveis metafísicos desde sempre: este é o núcleo de nosso desejo metafísico religioso. Coitados de todos nós. antes.descoberto modos de resolver a vida e se inventar. como pensava o escocês Adam Smith. a culpa é da sociedade que me obriga a trabalhar. mesmo depois da morte. hoje se tornou um erro cósmico. era considerado óbvio – a vida não tem garantias –. a culpa é do banco. Em casos como esses é que o ressentimento se torna mais evidente: a sociedade e as pessoas devem ser responsabilizadas por escolhas individuais. se sabe: a vida nunca teve garantias. como a vida secular. Esse equívoco se evidencia de forma mais gritante no olhar que muita gente tem sobre as contingências da vida social e econômica. mas. Criticamos o mundo como se ele fosse responsável por sobrevivermos ou não. talvez. Morto Deus (pelo menos tendo Ele concorrentes mais próximos.

para mim. Vanitas. Nascer. é a de que nada existe de novo embaixo do sol. significa o vazio que nos ronda e que se materializa em nossos limites tão .Há muito que leio a Bíblia. a sensação de que a tagarelice contemporânea e sua excessiva crença em si mesma mais atrapalham do que ajudam é gritante. tem dificuldade em apreender o que seriam grandes rotinas que se repetem desde muitos milênios e que se impõem a nós. Uma ideia que. Claro que mudanças acontecem. plantar. a Medicina avança. apesar de ter nascido sem o órgão da fé. definindo-as como políticas ou construções sociais. colher. pergunto-me se a experiência cotidiana não está contida numa incapacidade humana de mudar nossa condição na Terra: por que estamos aqui? Para onde vamos? Qual é o sentido de tanta labuta? Normalmente. nos afogamos na incapacidade de dar nomes aos nossos impulsos e sentimentos. vento que passa”. Diante de uma sociedade afeita a modas. apesar de que. e não do equilíbrio!) e a utopia de um homem inventado por ideias. Caminhamos como se a vida fosse livre como a escolha de um desodorante. Mas a questão sobre um nível perene da realidade se coloca noutro plano. as ideias políticas circulam. reproduzir e morrer são algumas marcas desses processos ou instantes. diante de um ataque cardíaco ou da morte de um ente amado. Entre a crença nos instintos como símbolo de algum equilíbrio natural (a natureza é o lugar do desequilíbrio. antes de ser uma luta contra o envelhecimento e a falta de beleza. A pergunta no livro Eclesiastes acerca da vaidade como fundo de tudo sob o sol está ancorada no significado mais profundo da palavra latina (vanitas) que traduz neste livro bíblico a expressão do hebraico antigo “nuvem de nada. As tecnologias avançam. Nosso mundo. apesar do grito geral a favor de um mundo de luxos e direitos. como nos fala o sábio bíblico do texto Eclesiastes. tomado pela moda como ontologia (a essência do mundo contemporâneo é seu caráter lifestyle como modo de ser). e muito estranha ao mundo contemporâneo. Outro exemplo pontual é a tentativa de reinventar as relações entre os seres humanos. no silêncio do dia a dia. dormir. aquele de processos que se repetem e nos fazem perguntar se há algo de novo sob o sol. nascer e morrer. fracassamos diante da necessidade de comer. crescer. Ridículos chegam a afirmar que podemos nos definir até no sexo. é insuperável.

): a angústia de saber que jamais seremos felizes. Como crianças malcriadas que atingiram os 40 anos. o fracasso. pensamos que podemos votar contra o medo. que jamais alcançam aquilo que nos define como adultos (Freud dizia que apenas umas cinco pessoas chegavam à maturidade. Um mundo incapaz de suportar essa falta é um mundo povoado por adultos retardados mentais. não somos o que a Psicanálise chama de “ser da falta”. como o sábio de Viena disse que acontece. e a sociedade é que nos faz feios) para não experimentarmos o fracasso de nossa virtude.indesejados. gritamos contra a “injustiça” do universo contra nós e declaramos esse vazio uma falta de respeito. A mulher não é mais tão gostosa. o objeto que o realiza tomba sob o efeito do tédio.. declarado uma forma de preconceito contra nosso direito à eternidade. . No mundo contemporâneo. Aliás. a mentira e a hipocrisia. Desejamos o tempo todo porque nunca estamos satisfeitos. A cada realização de um desejo. A FALTA NEGADA A Psicanálise afirma que somos seres da falta. Mesmo a psicologia profissional tomba diante da negação da falta. criamos utopias que sustentem um paraíso onde ninguém viverá o mal-estar do qual nos falava Freud. assim. declaramos guerra à verdade dizendo que tudo é culpa de uma má construção social do sujeito. no limite. essa falta é declarada irreal. Essa falta está inscrita na nossa incapacidade de sermos seres plenos. Compramos tudo para não a sentir por cinco minutos. Essa negação do fato de que não existe almoço de graça prepara a negação maior de que. apesar de repetirmos esse mal-estar ao longo da vida. a inveja. O suor é. A maquiagem como “mentira da beleza” é menos enganosa do que uma cultura que gosta de se reafirmar como livre da gravidade e do trabalho de sol a sol. acreditamos em teorias absurdas sobre a natureza humana (somos lindos. No mundo de mimados em que vivemos. o homem tampouco permanece tão sedutor..

ele o identificaria por trás da política como forma de redenção da vida. intelectuais. E o objetivo dela é a realização da plenitude social. talvez a mais ridícula sejam as políticas do ressentimento. Claro que nada é fácil. um dia. OS UNGIDOS Muitos de nós. talvez a civilização mais fútil que já andou sobre a Terra. São políticas do ressentimento toda forma de política que afirma termos direito à felicidade (e não à sua procura. Se não sou feliz. Se o sol é indiferente ao nosso sofrimento. Todo mundo sabe que a única forma de alguém experimentar um pouco de dignidade é quando somos responsáveis por nossa sobrevivência. a culpa é seguramente de alguém que não sou eu.POLÍTICAS DO RESSENTIMENTO De todas as formas de negação da falta que nos define. negam esse fato. e não a do consultório. Se Nietzsche havia. como um dia abolimos a escravidão. Para esses picaretas da terapia política. hoje. os “ungidos”. levando sua população a crer que podem abolir a necessidade de trabalho sem garantias. mas as políticas do ressentimento servem para negar nossa responsabilidade em nossa miséria. Nada cresce onde há ressentimento transformado em direito. a verdadeira clínica é a política. deve sê-lo por algum preconceito contra nosso direito “político” a sermos o centro do universo. se não sou capaz de reduzir minha pobreza e sofrimento. Estas se caracterizam por afirmar que tudo que nos molesta tem causa política e negam nosso direito “político” à plenitude. mergulhando num poço de políticas do ressentimento. Mas países como os europeus ocidentais. identificado o ressentimento por trás das religiões. Qualquer pai e mãe de filhos mimados e respondões sabe quando está diante de uma afirmação vazia: basta que paguemos tudo para eles para que não tenham a mínima noção do que é responsabilidade. seguramente. como fala o escritor americano Thomas . como diz sabiamente a constituição dos Estados Unidos).

da bateria de mentiras morais contemporâneas das pessoas que se dizem voltadas para os menos favorecidos. Mas. e não um processo interminável e inseguro de sucesso. .Sowell. o que mais nos cega para compreendermos a pobreza material. mas não reconhecem nenhuma disparidade que faça diferença. quando verdadeira. Afirmam que existe uma “distribuição injusta de renda”. é a presunção com a qual julgamos quem precisa “se virar” para viver. traem sua função. e não somente como alto acúmulo de bens) fosse algo que cai do céu. Assumem que sabem mais do que as pessoas conhecem do seu próprio cotidiano. muitas vezes. infelizmente. escapam da compreensão de quem tem mais sorte ou competência produtiva na vida. a segunda. Supostos guias culturais de nosso mundo. enquanto nada querem saber (por preguiça ou incompetência) das diferenças de produtividade ou de mérito entre as pessoas. enquanto não são responsáveis nem pelo que falam em sala de aula (no sentido de que quase nada do que falam deve guardar uma mínima relação para além de seus delírios sobre o mundo). parte da consciência de que precisamos pedir ajuda porque não conseguimos atribuir sentido à vida por nós mesmos. Decretam o modo como empresários e pessoas que dão emprego devem agir. Julgam policiais que devem disparar armas em meio a uma pressão que eles nunca viveram. A primeira nos prende a uma ansiedade de controle sobre o mundo. POBREZA A pobreza material nos obriga a soluções que. oferecendo ao mundo uma enorme masturbação improdutiva. Ungidos de todos os tipos afirmam absurdos como “devemos nos libertar do tempo de trabalho”. como se a riqueza (entendida como saída da pobreza. EXPECTATIVAS É urgente sabermos que ter expectativas não é a mesma coisa que ter esperança. os “ungidos”. julgam muitos fatos sem entender nada sobre eles. Ou seja. elegem “a diferença” como objeto de culto. e que faz parte.

porque ela é como a gravidade. OS HOMENS NÃO DESEJARÃO MAIS AS MULHERES? Em breve. restou pouco às belas. Isso nada tem a ver com injustiça social. com o mínimo de ressentimento possível.. porque não existe “justiça social”. Na maioria dos casos. mas não é mais. Mas. sempre vence quando cansamos de nadar. psicologicamente. nem sempre glorioso. claro). O ressentimento faz de nós incapazes de ver algo simples: o universo é indiferente aos nossos desejos. porque homens não mais fecundarão mulheres por terem desistido de correr o risco de serem vistos como maus. meninos que cantarem meninas serão castrados.Basta. os mesmos “progressistas” que condenam a sociedade de mercado (porque ela foi indiferente ao ressentimento no início. ao longo da história. Ver a beleza de uma mulher por detrás de sua roupa. a não ser a criação de condições para as pessoas. O fim da heterossexualidade virá quando for determinado definitivamente que olhar para uma mulher será crime de gênero.. assim como quem rouba um pedaço do paraíso. as não desejadas. no futuro. condenadas à invisibilidade. e muitas delas vestidas de hábitos eclesiais. como sempre. Ridículo pensar como. tentar roubar esse pedaço do paraíso nada mais era do que o início de um sonho para ele ou para ela. pararmos de nos mexer para cairmos na pobreza. se não fisicamente. Talvez a única garantia seja mesmo abandonar o desejo por elas. DESEJOS E LIMITES Sabemos que a marca essencial de toda forma de paraíso imaginado é a de um . nem sempre seguro. uma vez que o ressentimento virou um mercado per se. tendo vencido as feias (ressentidas. escaparem da miséria pelo trabalho. O mais seguro será mesmo desejar outros meninos.) defenderão um mundo em que a reprodução da espécie virá apenas mediada por recursos artificiais providos pelo mercado biotecnológico. A riqueza é antinatural e não faz parte dos planos da Criação. nada tem a ver com chegarmos à violência física.

mesmo que isso seja uma cultura neolítica que nem conhecia a roda há 500 anos. O que esse “direito” quer dizer? Direito a que os outros paguem suas contas. o consumo de bens de reconhecimento. produto tardio da era do ressentimento (assim como as feias que venceram as bonitas na luta contra o desejo masculino). Os idiotas da bondade. porque gostamos de comida vegetariana. de alguma forma. donos do nosso mundo contemporâneo. tal como descreve o sociólogo Axel Honeth (herdeiro da famosa escola de crítica social de Frankfurt). Todos queremos ser reconhecidos por alguma coisa de valor que pensamos ter. um caso . limitados. como nunca aconteceu na história. esse sentimento de que a escassez é nosso destino cósmico. a saída dos ressentidos. Pior do que o consumo de bens materiais. Pobres querem ser reconhecidos na sua condição de terem o direito de serem menos eficientes em produtividade. RECONHECIMENTO Um parceiro do ressentimento em sua era é a mania por reconhecimento. Ou queremos ser reconhecidos no nosso título de salvador do planeta porque moramos num bairro legal e perto do trabalho e. por isso. quando felizes. um lugar no qual o círculo forma um quadrado. vamos de bike. demonizam a desarmonia entre desejos e necessidades porque não suportam o fato de nossos desejos serem infinitos e os recursos para realizá-los serem. quem sabe.lugar no qual desejos e necessidades são iguais e harmônicos. Por isso. assim como a nova psicanálise. é negar esse desequilíbrio que nos move. Jogados contra esse fato da vida real. a uma declaração de que o universo foi feito errado porque não levou em conta nossa necessidade de reconhecimento. negará a falta em breve. ou de serem azarados por nascerem em situações horríveis. Só mortos desejam o que necessitam: o nada. A irrelevância humana. nos lança. mas também por nossos desejos. movida pela era do ressentimento. não apenas por nossas necessidades. Ou. essa marca de Caim. Portanto. Ou pelo tipo de sexo que praticamos: amantes de práticas sadomasoquistas exigem “respeito” e também que seu gosto (seu estilo?) seja reconhecido pela pedagoga da escola de seu filho. a necessidade de lutarmos pela sobrevivência tanto nos ofende: sabemos que trabalhamos.

Ninguém. desistiram da vida. GUERRAS E CROISSANT Uma marca do contemporâneo é afirmar que as guerras acabaram. mesmo um certo prazer estranho. Supomos que guerras são traços de civilizações atrasadas e que não atingiram o nível da civilização que compreende o horror que é a guerra. A mania de reconhecimento. caçadas como animais perigosos. é o que nos levará à primeira crise evidente de sustentabilidade: ninguém suporta sustentar pessoas que querem ser reconhecidas o tempo inteiro em suas irrelevâncias. goza com a guerra. afora os estranhos amantes da morte e da força desesperada. as guerras são parte . Talvez seja uma delas que muita gente confundiu com os deuses. quem sabe estoico. de fato. Sim. é um insulto a quem. a infeliz combateu até o fim. ESPÉCIE EM EXTINÇÃO Ouvi dizer que existem por aí pessoas que não são ressentidas. Daria tudo para conhecer uma pessoa não ressentida. porque. ao contrário do que os inteligentinhos e bonzinhos pensam. sim. Segundo o que contam as pessoas que viram fotos postadas nas redes sociais. Mas isso nada tem a ver com o fim das guerras. já sofreu na face da Terra. de fato guerras são horríveis. por ver que logo se libertaria de viver num mundo dominado por esses idiotas do bem. que não os culpam pelas suas mediocridades. que não responsabilizam os outros por terem mais desejos do que necessidades. Talvez. um vício de sociedades ricas como a Europa ocidental. e parecia ter gestos ambivalentes entre o ódio mais puro de seus algozes e a misericórdia por perceber que eles.específico de bens invisíveis de consumo (direitos transformados em direitos legais adquiridos porque somos fracassados em alguma área são um exemplo disso). Ouvi dizer que elas se escondem pelos cantos. Ouvi mesmo dizer que outro dia uma foi espancada até a morte enquanto idiotas do bem cantavam músicas pela liberdade e contra toda forma de discriminação.

com suas guerras há cinco mil anos. se necessário e interessante. visitando parte do meu passado.essencial do modo como os povos se relacionam. com ou sem razão. coberta de sangue. bons e ruins para quem mata e quem morre. ninguém sabe o que vai acontecer. a 60 quilômetros de onde eu andava. quando ela será lembrada muito mais pela sua Filosofia e pelo seu croissant. apesar das danças e do palavrório contra a agressão russa. Aliás. Nunca vão acabar. com ares de virgem chocada. preparo-me para atravessar a fronteira entre Israel e a Jordânia. ameaçando de não fazer mais negócios com a Rússia. Nunca haverá paz no mundo. inclusive porque a vida não se declina no singular: a vida de muitos atrapalha a vida de muitos outros. Todos os direitos humanos e as democracias não resistiriam a dez noites de escuridão. e isso nunca vai acabar. aprendemos que a vida é frágil. só quando ele acabar e o silêncio do universo nos cobrir com seu véu de indiferença. Aquela que detestamos ver como nossa. ouvia os ruídos das bombas na Síria. porque o motivo da guerra é a vida em seu movimento de criação e destruição. e isso nada tem de bonito ou desejável. pelas colinas de Golan. o mundo acompanha. a invasão da Ucrânia pela Rússia (mais especificamente. Aqui no Oriente Médio aprende-se rápido que. A essa altura. Damasco. não resistiria a duas semanas de falta de luz ou água ou a uma disputa por esses dois recursos. Aqui no Oriente Médio. já está sozinha. a Ucrânia ficará sozinha diante da ameaça do Império Russo. é a verdadeira face humana. a região da Crimeia. A frágil paz aqui contrasta com a violência maior. O ressentimento destrói em nós a capacidade de pensar e compreender a realidade. A revolução será vista como mais uma guerra em meio a muitas outras. países que vivem hoje um frágil acordo de paz. Todo mundo sabe que isso é um circo e que. mas o “Ocidente” (Estado Unidos e Comunidade Europeia) faz seu circo diplomático. Nesses dias. parte da Ucrânia com mais de 50% de população etnicamente russa e simpática ao exército russo). Parte dos efeitos do ressentimento é a incapacidade de encarar a vida como ela é: matamos por vários motivos. a França será lembrada em mil anos pela sua revolução (esse mito moderno). apesar de o mundo contemporâneo ser muito real em seu acúmulo de tecnologia e Ciência. . Neste exato momento em que escrevo. caminhando pelo norte de Israel. Pensamos que. Ontem. de fato.

Acompanho aqui o sábio de Creta para dizer que também eu reúno minhas ferramentas.CARTA A NÊMESIS: O PESO DO BARRO E DO SANGUE Nikos Kazantzakis diz. na abertura de sua Carta ao El Greco. A história de um mundo contemporâneo saturado de palavras e teorias que parecem visar apenas as fórmulas de autoajuda que pensam poder lançar sobre a Atenas e Jerusalém a sombra de um pequeno eu angustiado. da pessoa. Não consigo ser nem ateu nem crente. era algo comum no período do nascimento do Cristianismo. Todo idiota do bem se acha uma pessoa singular. a filosofia grega. que ele reúne suas ferramentas – o barro. o sangue (elementos essenciais do corpo e da alma) – e parte para tentar refletir sobre sua vida como um testamento feito sob a égide do pintor de Creta – como ele. arrisco dizer que devemos viver o mundo contemporâneo assim como quem atravessa um deserto desinteressante de pessoas que. e busco enfrentar tanto a minha pequena vida feita de meias escolhas e grande traumas quanto a história a qual estou submetido. Esta é minha “Carta a Nêmesis”. Mas nunca foi tão . permaneço preso a um mundo que pouco se interessa pela vida eterna. Israel. vítimas de uma fé no invisível que. O INSUPORTÁVEL SINGULAR Interessante contradição da era do ressentimento: fala-se muito dos direitos do eu. acreditando piamente em si mesmas. a deusa grega da vingança. O hábito de se colocar sob uma tradição ou sob o nome de um sábio. Ser uma pessoa singular virou um produto de marketing do eu. a sabedoria religiosa judaica e cristã. atingiram o apogeu da banalidade. Kazantzakis – El Greco. livre de preconceitos que o definam. pecado máximo dos idiotas do bem. mas que não padece nem da ilusão da fé nem da arrogância infantil do ateísmo. Contemplo as religiões como grandes continentes de saber. mas ninguém suporta a singularidade. quando se materializa no mundo da carne. como nos evangelhos. Escrevendo este grito na terra sagrada da Galileia. do indivíduo. de fato. enlouquece com o peso do barro e do sangue.

. Uma pessoa corroída pelo ressentimento não suporta a singularidade porque ela escapa a qualquer enquadramento num “projeto psicológico de si mesmo”. PEDAGOGIA DOS RESSENTIDOS Há alguns anos fazia sucesso uma teoria pedagógica conhecida como “pedagogia dos oprimidos”. Na vida. Mesmo uma boa análise deverá levá-lo ao fracasso das fórmulas de si mesmo que montou ao longo dos anos. sem garantias. mesmo nos Estados Unidos. mas fracassar em ser bem resolvido e viver um dia após o outro tendo que criar sua própria sinfonia. A contradição salta aos olhos uma vez que nós falamos muito no eu livre das tradições. apenas sabendo que não pertence a um bando de vitoriosos. Na realidade.impossível sustentar essa posição. quando desisto de me autoafirmar. sem modas. A singularidade pesa como uma cruz. mais sou como um conjunto de projeções e manias herdadas dos outros ou criadas por meu próprio narcisismo. A ideia de colocar no centro da sala de aula o “oprimido” transformou-se numa . porque a singularidade exige um percurso mais próximo dos exercícios espirituais dos velhos monges do deserto do que das preocupações com a felicidade típica dos mimados contemporâneos. como um desdobramento da universalização da ideia (verdadeira) de que existam oprimidos no mundo e de que os salvamos (ideia falsa) fazendo que sua ignorância e sofrimento sejam colocados na conta dos outros.). torno-me menos ridículo. A verdade é: quanto mais quero ser eu mesmo. sem militâncias. A singularidade de uma alma não é ser “bem resolvida” (como pensam essas mães para quem os filhos serão crianças e adolescentes melhores porque comem comida natural e estudam em escolas democráticas. as maiores formas de opressão são a contingência que nos assola e o sucesso dos outros.. faz sucesso até hoje. e os monges buscavam o aniquilamento do eu a fim de fazê-lo dissolver-se numa tradição. Às vezes. Melhor seria falar de pedagogia dos ressentidos. a do Cristianismo.

no fundo.das maiores marcas dos idiotas do bem. e que esconde. maldita. No mínimo. e toda socialização gera ressentimento e aprende (ou não) a lidar com ele: “ela é mais bonita. o mais seguro é não ler qualquer teórico da Educação porque ou são pura autoajuda ou são defensores dos oprimidos. a educação. o filósofo francês que amou a revolução de queijos e vinhos que encheu as ruas de Paris em maio de 1968) que nos assolam. no caso específico. Em geral. INTELIGENTINHOS Quem são os inteligentinhos? São descendentes daqueles que Otto Maria Carpeaux chamava de “semiletrados” e que Paulo Francis descrevia como . vaca!”. mais rica. de meninos e meninas inimigos (as meninas. criativos e destruidores encontros. mas nomeá-lo. porque são vítimas do movimento das feias e infelizes que as dominam. mais inteligente. A pedagogia do ressentimento atrapalha o ensino e o amadurecimento dos alunos na medida em que faz. tem mais amigos. A solução para o ressentimento não é negá-lo. a escola deveria voltar a ensinar as capitais dos países e não tentar dizer que a história da África (com o valor que possa ter) é mais importante e mais rica do que a europeia ou asiática para a história das civilizações em seus múltiplos. por exemplo. como neste exemplo. devastando. mais gostosa. mas o meninos também carregam ressentimento. ler sobre ele. tem os melhores meninos atrás dela. e não a de teóricos mimados como Deleuze. é o veneno do ressentimento que sobe à alma: a escola é um dos espaços de socialização básico. carregam o ressentimento em modo explícito. e os mais feios e fracos não). Não adianta negar as diferenças (as que valem. enfim. perceber que é impossível não o ter em nós em alguma medida porque sempre conviveremos com pessoas melhores do que nós. Mas. miserável. nesse caso. porque os outros pegam as gostosas e legais. o cerne do problema da socialização: resolver o drama de como lidar com o fato de que o mundo é indiferente e existem muitas pessoas melhores do que eu.

aliás. Homens inteligentinhos dizem coisas como “as mulheres são vítimas de opressão”. E passou a acreditar que a solução para o mundo estava em suas ideias ou em sua “concepção de mundo”. quando. e que a paz por lá poderia ser construída com um festival de cinema iraniano e palestino). fala. Inteligentinhas dizem que desprezam bolsa Prada. pelo menos. Quem lê um pouco mais sabe como é difícil ter opiniões. numa versão mais violenta e estética do comportamento inteligentinho. na verdade. acima de tudo. O inteligentinho lê pouco porque fala muito e tem muitas opiniões. esse afeto neolítico). o levou a achar que entende o Oriente Médio. afetiva (morre de medo de ser traída ou traído. O inteligentinho é alguém que crê nas suas modas de “mobilidade urbana” (termo típico de inteligentinho. o inteligentinho. morrem de ciúme do tesão intelectual que sua mulher tem num cara que discorda de tudo que ele. são piores para homens inteligentinhos do que para homens ciumentos. mas morrem de inveja silenciosamente da amiga que ganhou uma do marido. sabem que sofrem por causa delas. E sempre tem um budista light no meio. com olhos de ressaca. usado num jantar inteligente. SEXO RESSENTIDO . e não numa reunião pra resolver metrôs que param na hora do rush) e de alimentação. Mulheres voluntariosas.“frouxos e jecas”. ouviu mal alguém que leu mal Nietzsche) e pensou que ressentidos são os outros que acreditam na Igreja e em ferramentas óbvias que servem ao ressentimento. intelectual (não vai a cinemas de shopping center porque condena esses templos da perdição babilônica). Um inteligentinho é puro ressentimento travestido de arrogância estética (descolado ao se vestir). e. O inteligentinho leu mal Nietzsche (isto é. mas posa de ter superado o ciúme. Alguém que tem “uma busca espiritual” numa casa de campo com outros amigos inteligentinhos. como é arriscado tê-las. porque estes. Um inteligentinho é alguém que tem uma “concepção de mundo” construída a partir dos livros que leu e dos muitos filmes iranianos que assistiu (o que.

quando acordo. sufoca a esperança. essa ciência que se faz falsa ao afirmar que podemos construir um mundo sem ressentimento ou afirmar que este é culpa do capital e do patriarcalismo. O ressentimento das feias e infelizes construiu as relações entre homens e mulheres nas últimas décadas. e sem generosidade não há sexo que não seja comprado. Qualquer ciência exata nessa área será apenas uma matemática da mentira. pelas enormes demandas de ser profissional. O pessimismo. jovem. perguntando-se a razão de termos confundido expectativas com esperanças. de termos escolhido o marketing moral dos amadores em Filosofia como ciência da vida prática. por um lado. quando já Aristóteles sabia que toda moral é uma ciência da contingência e na contingência. buscarão sinais dos restos que deixarmos. E a contingência é o nome do horror ao nosso abandono. o ressentimento mata a generosidade.Mulheres feias e chatas estão ganhando a guerra contra as felizes e belas. não conheço uma época em que tal moda tenha sido tão universal quanto no mundo contemporâneo. peço que a esperança me visite. por outro. Homens covardes se aproveitam da difícil condição da mulher contemporânea (esmagadas. e. gostosa. . tenhamos capitulado diante desse afeto humano. como arqueólogos que vasculham cacos e fragmentos. pela vocação à quantidade que a democracia e a sociedade de mercado carregam em sua natureza. e sem esperança nada resiste à consciência negativa que o niilismo nos apresenta: a mentira é a moda. Talvez. saudável forever) para fugirem do gozo de penetrar na vida delas. e. meu pecado natural. Mesmo a psicologia capitula vestindo o manto da psicologia social. que é sofrer por nossa mediocridade e negá-la. segura. demasiado humano. Nossos descendentes. O conjunto da crítica social praticada hoje irá para a lata de lixo da história. ORAÇÃO DIÁRIA Todo dia. que nunca conheceram bons homens. pelo resultado das promessas e dos efeitos colaterais dos atos das infelizes conhecidas como feministas. como sempre.

egoístas e covardes e pouco merecemos. incapazes de olhar para além de nosso espelho de solidão e desencanto. que somos incompetentes. Pergunta Deus à Justiça se valeria a pena criar o homem e a mulher. Um ressentido é incapaz de reconhecer a graça quando a vê brilhando a sua volta. ainda que minta. porque o ressentimento corrói nossa disposição natural para a gratidão. Ao optarmos pela sociedade do “eu”. Ela responde que não seria uma boa . Quando o mundo é um lugar dominado pelo sentimento de que todos nos devem algo. a generosidade que nos faz sair de nossos “direitos adquiridos” e a gratidão que é a maior qualidade de alguém que conseguiu amadurecer minimamente. pode nos tirar de tamanha cegueira. Valeria a pena criá-los? Na Sua intuição divina. chama Seus auxiliares para trocar uma ideia. Só quando somos capazes de ver o que é melhor do que nós no mundo podemos ter esperança em algo. raiz de toda virtude não narcísica. sabe que não há como contar com ele. irmã gêmea da gratidão. As políticas do ressentimento nos tornam ressecados. GRATIDÃO E GENEROSIDADE Um dos efeitos mais nefastos da era do ressentimento é a incapacidade de produzir esperança e de ser generoso. é impossível encontrar esperança. Deus suspeitava que teria problemas com o homem e a mulher mais do que com qualquer outro ser criado. quando Deus foi criar o homem e a mulher. perdemos a chance de respirar qualquer espiritualidade de fato. seja de quem for. aquela que caminha sobre a esperança que os outros nos emprestam. Tudo isso é invisível para quem nunca percebeu o quão incapaz dessas virtudes sempre foi.BENS INVISÍVEIS: ESPERANÇA. Deus. Apenas a misericórdia. Ele ficou em dúvida. mas que tudo nos foi dado de graça. A VERDADE E A MISERICÓRDIA EM PEDAÇOS Os rabinos contam que. porque eles iriam faltar com a verdade e evoluir para serem grandes mentirosos. no fundo de nosso ressentimento. só sobrevive num terreno em que sabemos que nada nos é de direito. O “eu” é por definição um incapaz de sentir esperança porque se conhece muito bem. A generosidade. e. então. porque sabemos.

esses pedaços. pensa e decide criar o homem e a mulher. dizendo que. mentindo e traindo Sua confiança. lança-as sobre a Criação. . ainda que o homem e a mulher seguramente trouxessem problemas. Decide Deus.ideia. sem os quais suas almas jamais teriam paz. nenhum outro ser daria a Deus maior alegria em alguns poucos momentos. por sua vez. decide também jogar a Misericórdia e a Verdade no chão. um detalhe em meio a um mar de desilusões. Deus para. obrigando-os a buscar pela vida inteira. apaixonados por conhecer a totalidade da verdade e por sentir um pouco de misericórdia em meio a um mundo indiferente a eles. cravar no coração do homem e da mulher uma paixão enlouquecida pela Misericórdia e pela Verdade. como numa sede infinita. então. mas. assim. Sabemos pelos rabinos que Deus sempre apreciou os detalhes. e despedaçando-as em milhares de pedaços. discordou da Justiça. espalhando-as como pérolas ao vento sobre o mundo. uma vez que eles iriam traí-Lo. A Misericórdia. Amém. A alegria seria.