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Desde antes de Cristo já havia festa no mês de junho e julho, acendiam-se fogueiras para saudarem o verão

europeu, até que o catolicismo fundiu as comemorações pagãs ao aniversário de São João dando origem assim às
hoje conhecidas festas juninas.

Por Marcelo Affini
access_time31 maio 1995, 22h00 - Atualizado em 31 out 2016, 18h21

Antes de Cristo já havia festa de São João… com outro nome. Eram as fogueiras que saudavam a chegada
do verão Europeu. Até que, no século VI, o catolicismo associou essas celebrações pagãs ao aniversário de
São João. No século XIII, os portugueses passaram a comemorar também as noites de São Pedro e Santo
Antonio. No Brasil, as festas são populares desde 1583.
A fogueira de São João nasceu antes de são João. Quando o Vaticano instituiu, no século VI, o dia 24 de
junho para a comemoração do nascimento daquele que batizou Cristo, os povos europeus já celebravam,
com grandes fogueiras, a chegada do sol e do calor. Em 58 a.C., quando o imperador romano César
conquistou a Gália (França), os bárbaros já comemoravam o solstício do verão, no dia 22 ou 23 de junho – o
momento em que o Sol pára de afastar-se (solstício vem do latim e significa “ sol estático” ) e volta a incidir
em cheio sobre o hemisfério norte. “ Os cultos pagãos eram rituais de abundância e fertilidade” , diz a
professora maria Montes, antropóloga da Universidade de São Paulo. “ Havia sacrifícios de animais e
oferendas de cereais para afastar os demônios da esterilidade, das pestes agrícolas e da estiagem” . O
cristianismo, na verdade, apenas “ converteu” uma tradição pagã em festa católica.
Até hoje, as tradições pagãs e cristãs convivem. A seita uika, inspirada nos antigos celtas (povo que dominou
oeste da Europa no primeiro milênio antes de Cristo) acende grandes fogueiras ao redor do mundo, no
solstício do verão europeu. no Brasil, a Uika promove comemorações místicas, com mais de 500 pessoas, no
dia de São João, em São Tomé das Letras (MG) e Mauá (RJ). Na Espanha, as Hogueras de San Juan são
uma das tradições mais cultivadas, especialmente na Catalunha.
Em portugal, as comemorações foram ampliadas no século XIII, incluindo o dia de nascimento de Santo
Antonio de Pádua (que nasceu em Portugal mas morreu na Itália, no dia 13 de junho de 1195), e o da morte
de São Pedro, em 29 de junho. Transportadas para o Brasil colonial, as festas “ pegaram” entre índios e
escravos. Descrevendo as celebrações católicas “ assimiladas” pelos índigenas, o jesuítas Fernão Cardim
escreveu em 1583, em seu Tratado da Terra e da Gente do Brasil: “ A mais alegre é a das fogueiras de São
João, porque suas aldeias ardem em fogo e, para saltarem as fogueiras, não os estorva a roupa, ainda que
algumas vezes chamusquem o couro.
Com a chegada da família real portuguesa, que se transferiu para o Brasil fugindo de Napoleão, na Europa,
as festas juninas tomaram novo rumo. Junto com os 15 000 aristocratas que desembarcaram no Rio, em
1808, veio a contradança (originada nas country-dances, bailes camponeses da Normandia e da Inglaterra)
que animava as festas da realeza. Era uma dança de casais que trocavam de pares. Não demorou muito, as
contradanças saíram dos salões nobres para as festas populares. Casamentos, batizados, festas juninas,
festas de padroeira e muitas outras passaram a ser comemoradas com a dança francesa.
No final do século XIX surgiram formas mais modernas e urbanas de dançar, como a polca, o maxime e
lundu, e as quadrilhas foram desbancadas. Entretanto, permaneceram na zona rural, onde a população é
mais conservadora. A partir de 1930, quando o nacionalismo de Vargas estimulou a busca de uma identidade
cultural brasileira, a vida rural foi revalorizada. Segundo o antropólogo Renato da Silva Queiroz, da USP,
junto com a temática do homem do campo surgiu a dança caipira que nada mais é do que a quadrilha de
origem aristocrática com adaptações.
Hoje, a evolução segue a direção do espetáculo. Segundo o antropólogo Ricardo Lima, da Funarte
(Fundação Nacional da Arte), no Rio de Janeiro, há mais de 750 “ quadrilhas monumentais “ no estado. São
grupos de encenação que vestem roupas caríssimas, imitam os trajes das contradanças franceses do século
XVIII e aproveitam as quadras de escola de samba para ensaios” , conta Lima. As novas quadrilhas usam,
cada vez mais, temas como enredos de carnaval, adotam alegorias e dançam ao som de música sertaneja e
música funk. Dentro em pouco, teremos a techno-quadrilha.