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GARCÍA, C. M. Estrutura Conceptual da Formação de Professores.

In: Formação de
professores: para uma mudança educativa. Porto: Porto Editora Ltda, 1999. Capítulo 1,
p.17-46.

O texto de García (1999) expõe os vários conceitos que estão ligados à disciplina de
Formação de Professores e que a estruturam como tal. A discussão do autor é iniciada com
considerações acerca do uso do termo “formação”, que, como explica García (1999), em
outros contextos, tem sua ideia referenciada de formas distintas, por meio de termos como
“educação” ou “treino”, comumente usados em países da área anglófona. Além da
diversidade de termos utilizados para se referir à educação e preparação dos professores, o
próprio termo “formação” é encarado sob diferentes perspectivas, e, como explica García
(1999) ao citar Menze, três tendências distintas permeiam o conceito de formação. As duas
primeiras tendem a considerá-lo um conceito amplo demais, desvirtuado, de múltiplas
dimensões e significações e até mesmo contraditório. Uma outra tendência, no entanto,
reconhecida por Menze (1980) e aquela com a qual concorda o autor do texto, não o
considera como um conceito geral subordinado aos conceitos de educação e ensino, mas
encara-o como aquele que estaria relacionado a ações voltadas para o desenvolvimento do
sujeito adulto, visando colaborar para que o mesmo adquira saberes sobre como ‘saber-
fazer’, mais do que de como ‘saber-ser’ (p.19). Essa perspectiva, explica-nos García (1999),
é proposta por Berbaum.

García (1999) esclarece que o conceito de formação é passível de múltiplas
perspectivas, sendo entendido como função social, como um processo de desenvolvimento
e de estruturação da pessoa e ainda como instituição. A sua associação à ideia de
desenvolvimento pessoal, tem sido, no entanto, a mais comum, sobrepondo-se a visões que
se detenham ao entendimento da formação como uma mera instrução técnica e dando
destaque ao chamado “componente pessoal”. Nesse sentido, García (1999) esclarece que
enfatizar o componente pessoal não significa dizer que a formação se ocorra apenas de
forma autônoma, há ao menos três caminhos pelos quais a formação pode ocorrer, a saber:
a autoformação, marcada pela ideia do indivíduo participativo independente, que se
mantem no controle de sua própria formação; a heteroformação, que ocorreria de fora para
dentro, pelos especialistas; e a interformação, que diz respeito à formação por meio de
práticas interpessoais, pelo diálogo entre futuros e/ou atuais professores. Essas três
distinções foram propostas por Debesse (1982) e sugerem que a formação do professor vai
além da mera proposição que o termo treino sugeriria. Isto porque os professores são vistos

e ainda outra que focaliza a situação da sociedade real e postula que o indivíduo aprende continuamente por meio da formação (Teoria da formação técnica). de fato. também como contribuintes de sua própria formação. à preparação e capacitação do sujeito. confere-lhe também códigos e uma linguagem para compreensão da realidade. uma vez que formá-los significaria despertar-lhes a capacidade de transformação partindo das representações e competências que tais sujeitos adultos já trazem consigo. Klafki defende. Nessa perspectiva. com enfoque na auto-realização pessoal dos sujeitos (Teoria dialogística da formação).21). ou. bem como estruturas próprias de pensamento e desenvolvimento cognitivo (Teoria da formação categorial). o trabalho intelectual ao físico.“não se identifica nem se dilui dentro de outros conceitos que também se usam” (p. que se caracteriza. enquanto que a segunda se relacionaria à formação profissional. o que fica ainda mais claro quando o autor aponta a distinção sugerida por Klafki entre uma formação geral e a especializada. uma segunda que. . As discussões de García (1999) acerca da formação postulam-na como um fenômeno complexo e diverso. que o mais apropriado seria eliminar a divisão entre essas duas dimensões e unir o teoria e prática. Uma definição mais básica e geral do autor acerca do que . além de conferir ao indivíduo os conhecimentos específicos. García (1999) sugere também em seu texto que a formação pode abarcar aspectos além dos técnicos e instrumentais. A primeira estaria ligada às dimensões da moral. os âmbitos com os quais a formação do professor deve se preocupar para que esteja. no entanto. García (1999) aborda os conceitos que estariam ligados à formação do professor. da seguinte maneira: . desempenhando um papel de formação ou melhora do professor. Num segundo momento de seu texto. Ainda no que se refere às implicações do termo “formação”.21).relaciona-se tanto com a capacidade quanto com a vontade de formação. a terceira. García (1999) menciona a necessidade de criação de uma teoria da formação que visaria. .“inclui uma dimensão pessoal de desenvolvimento humano global” (p. de modo mais simples. em suma. ajudar o homem a encontrar o caminho a ser percorrido para que para que possa se tornar ‘homem’. quatro teorias da formação foram propostas por Menze (1980): uma mais voltada para o desenvolvimento das faculdades psíquicas e dos processos intelectuais dos sujeitos (Teoria da formação formal). sobretudo. estética e conhecimento.

o terceiro diz respeito à necessidade de considerar-se o desenvolvimento organizacional da escola nos processos de formação de professores.seria a formação de professores incluiria a ideia de uma união entre formador e formandos. Essa mudança seria fruto de uma intervenção e dependeria da participação consciente e da vontade explícita do formando e/ou do formador de alcançar o objetivo estabelecido. o que ocorre quando os professores se tornam mais eficazes e melhores. inovação e desenvolvimento curricular. que possam garantir a melhoria do ensino. que garantiria a satisfação . Já o sexto princípio diz respeito à adequação do conteúdo e do método. A diferenciação da formação de professores está fundamentada no englobamento de diferentes áreas em sua dimensão conceptual. a de formação inicial (iniciada nas instituições onde adquire conhecimentos pedagógicos e de disciplinas acadêmicas). por sua vez. as escolas onde ensinam. definem ao menos quatro fases distintas: a de pré-treino (que envolve as experiências prévias do professor enquanto aluno). 24). Este se associa ao quinto princípio. O segundo faz referência à necessidade de engajar os professores em processos de mudança. uma aprendizagem que deve permanecer ao longo da carreira e por meio dela própria. dentro de um contexto específico visando uma mudança. e o sétimo. a fase de iniciação (advinda de suas primeiras experiências ao exercer a profissão). que ressalta a importância de integração da teoria-prática na formação dos professores. Num terceiro momento. A formação dos professores não é. os alunos a quem ensinam e o conteúdo” (p. tais quais “os professores como profissionais. ao princípio da individualização. unívoca. que lhe seriam necessárias para se firmar como tal. o que. O primeiro deles diz respeito à visão da formação do professor como um processo contínuo. Já o entendimento da formação de professores como uma disciplina fundamenta-se no fato de a mesma dispor de uma estrutura conceptual (teórica) e sintática (metodológica). García (1999) faz uma ressalva importante ao dizer que ensinar e ser professor não são a mesma coisa. O quarto princípio é relativo aos conteúdos acadêmicos e disciplinares e à formação pedagógica dos professores. como explica García (1999). e autores como Sharoon Feiman (1983) apud García (1999). advém da formação de um sujeito reflexivo e inovador. García (1999) enfatiza oito princípios que sustentam a validez do conceito de formação de professores. e a fase de formação permanente (quando busca aperfeiçoar seu ensino com o auxílio das instituições ou por si próprio). García (1999) salienta que a formação de professores tem fundamental importância na melhoria da qualidade do ensino.

O último princípio ressalta a importância da formação de docentes críticos. que reforça um caráter mais pessoal de ensino. Nesse modelo. as quais consideram desde os aspectos relativos às características pessoas e individuais do professor. e. . entende a si e o mundo de forma realista e se identifica com os outros. até o destaque para suas habilidades e competências. autoconceito e desenvolvimento marcam presença. visto que rejeita a visão do professor como “enciclopédia” (p. por fim. que postula o ensino como uma ciência e o professor como um técnico. tende a uma visão positiva acerca de si mesmo. até um modelo que busca estabelecer preparar o professor para ser um solucionador de problemas. já que o professor deveria ter capacidade intelectual para a tomada de decisões e adequação dos seus conhecimentos às situações vividas na prática. e o considera um intelectual capaz de repensar e compreender os conteúdos que ensina e propor os melhores caminhos para ensiná-los. um que mantem seu enfoque no treino das habilidades do professor. que não sejam apenas consumidores mas também geradores de conhecimento. encontramos no texto de García (1999) um panorama das orientações ou tradições mais marcantes na formação de professores. chamada de compreensiva. Um professor eficaz seria então o professor suficiente. Há ainda a orientação tecnológica. parece-nos. Há ainda a orientação personalista. os quais vão desde o tradicionalismo da separação entre prática e teoria. Essa orientação foi marcante na formação do professor por um longo período e enfatizou a ideia de competência docente. Por fim. enfatizar uma formação mais reflexiva e geradora de melhores resultados. havendo ainda os que enfatizam os aspectos afetivos e da personalidade dos professores. e. . junto ao domínio do conteúdo e de conhecimentos científicos.34). A primeira delas e também a mais predominante é a orientação acadêmica. Uma variante desse modelo é a chamada competência para a tomada de decisões. numa perspectiva mais recente. a que enfatiza os elementos cognitivos de sua prática. bem como as relações interpessoais que se forma entre os professores em diferentes momentos de sua carreira são fundamentais. Também os modelos diversos de formação de professor que se adota são mencionados por García (1999). que confere ao professor o papel de especialista. no entanto.individual do professor e de suas expectativas. está bem informado. Aqui os conceitos de si próprio. García (1999) aponta as distintas concepções de professor encontradas. os aspectos pessoais e de personalidade. que propôs uma ideia de maior autonomia e de ensino reflexivo. em suas destrezas e competências específicas. Mais à frente. que. A abordagem identificada por Pérez Gómez.

e que integre a teoria à prática. a experiência fica em destaque nessa orientação. o leque de competências que os professores devem possuir passa a abranger as competências empírica. portanto. a prática. . Uma ideia importante propaga no âmbito dessa orientação é a da prática reflexiva. que convida o professor a melhorar sua prática através da observação e análise crítica de sua própria prática docente. estratégica. ou sob uma perspectiva mais humana e crítica. que levaria o professor a ser um sujeito mais passivo. de modo que a competência de condutas perde lugar para a ideia de competências cognitivas. A leitura do texto de García (1999) permite-nos. Segundo García (1999). e. Considera-se que a aprendizagem ocorre pela experiência e pela observação. é a orientação prática. tal como a orientação acadêmica. crítico. Outra orientação destacada e que. essa orientação chama a atenção para a necessidade de uma reflexão não apenas de cunho técnico. O contexto social que permeia o processo de ensino e aprendizagem representa extrema importância nessa orientação. portanto. como já nos sugere o nome. Por fim. compreender as diversas possibilidades existentes de formação de professor e os diferentes aspectos que incluiriam. mas também social e ética. prática e de comunicação. Dessa maneira. pode tanto ocorrer num âmbito mais técnico. possui grande relevância para que se aprenda a arte. mais flexível e aberto à mudança sugere também uma maior abrangência das competências que o professor deve possuir. avaliativa. esperando-se que o professor vá além das análises teóricas. que conduziria o mesmo a reflexões significativas acerca da teoria e da prática em busca de mudanças e melhorias para a qualidade do ensino. tem-se a orientação social-reconstrucionista. que vise a promoção de uma educação mais justa e democrática. analítica. A ideia de um professor reflexivo. García (1999) pontua que. a a técnica e o ensino. segundo essa leitura. A formação do professor.