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ESPETÁCULO PERFAZ AVENTURA DO CONHECIMENTO Agosto 2005 Jornal Folha de São Paulo JANAINA FIDALGO

DA REPORTAGEM LOCAL

" – E se os nossos esforços forem inúteis, e os homens mergulharem cada vez mais na autodestruição?" " – Será uma pena. Mas o universo não derramará lágrimas!" O diálogo de Charles Chaplin e Albert Einstein, proferido na cena final de "A Dança do Universo", reverbera o discernimento do homem em contraposição à sua capacidade destrutiva exatos 60 anos após a explosão da bomba atômica em Hiroshima, no Japão. Baseado no livro homônimo do físico Marcelo Gleiser, colunista da Folha, e permeado por números musicais, é com esses extremos que o espetáculo do grupo Arte Ciência no Palco estréia hoje à noite no teatro João Caetano. "O universo está aí, o homem está dentro dele. Se o homem se destruir, a natureza vai continuar. Isso mostra a responsabilidade que cabe a cada um de nós", diz o ator e dramaturgo Oswaldo Mendes. "Esse conceito está presente o tempo todo na peça. Foi isso que me tocou, que deu o 'start' [em adaptar o livro]. É uma boa maneira de refletir sobre a nossa responsabilidade, e não deixar só para os homens da ciência." Para tratar do conhecimento científico em oposição à ignorância, Mendes recorre a embates/ tributos entre nomes da ciência e da arte que ajudaram a "aliviar o peso da existência humana". "Pontuei com personagens que foram exemplares nesta trajetória humana do conhecimento", diz. Em "A Dança do Universo", dirigido por Soledad Yunge, o dramaturgo contrapõe o poeta Lucrécio (c. 99-55 a.C.), para quem o medo é fruto da ignorância, a santo Agostinho (354-430 d.C.), que sofre com a tentação do conhecimento. Próximo de nós, aparece o físico pernambucano Mário Schënberg (1941-1990), reticente

quanto a aceitar o título de professor emérito da USP, que o proibiu de lecionar durante a ditadura. No choque entre Galileu Galilei (1564-1642) e Johannes Kepler (1571-1630), o astrônomo italiano nega Copérnico, enquanto Kepler, na miséria, mendiga ajuda. "É um contraponto da arrogância de Galileu à fragilidade de Kepler", conta o ator Carlos Palma, 51, um dos três Galileus da peça, contra os quatro Keplers – Palma assina também a cenografia. Bramindo contra todos, Newton nega os dogmas cristãos e todos os "intermediários" de Deus. Já a conversa de Chaplin e Einstein surge para sintetizar a idéia do encontro da arte com a ciência. "Na vida real, eles trocaram correspondência, mas nunca se encontraram", conta o dramaturgo. "A minha visão está na boca de Einstein. O Chaplin diz que a divisão do átomo nos encurralou. O Einstein responde: 'Não, os avanços do conhecimento científico não trouxeram novos problemas, só trouxeram à luz os problemas que já existiam. A ciência só fez revelá-los'. [O conflito vem da] relação do homem com o outro homem, de países e nacionalidades". Teatro e ciência Com um repertório composto por montagens relacionadas a temas científicos, a companhia – que integra a programação do Ano Mundial da Física – fará em setembro e outubro uma retrospectiva com as peças "Einstein", "E Agora, Sr. Feynman?", "Copenhagen" e "20.000 Léguas Submarinas... Ufa!". "Nossa experiência é muito boa. No meu caso, é a realização de um projeto de vida", conta Mendes. "O sentir e o pensar têm de caminhar juntos. A arte trabalha com a emoção, mas não pode prescindir do pensar. E a ciência, se não tiver emoção, fica inútil. Mesmo quem não gosta de ciência _como eu, que não gostava_ fica fascinado. Não existe tesão maior do que o do conhecimento, o momento em que você entende alguma coisa." A Dança do Universo Quando: qui. a sáb., às 21h; dom., às 19h; de hoje a 28/8 Onde: João Caetano (r. Borges Lagoa, 650, Vila Clementino, tel.

5573-3774) Quanto: R$ 10