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A metrópole e as perfídias

do capital:
uma análise da relação entre Estado,
megaeventos esportivos e grandes projetos
de desenvolvimento urbano na (re)produção
do capital e da cidade contemporânea
Alexandre Sabino do Nascimento

Resumo: Acredita-se que o capitalismo passa por mais uma de suas crises e que
a forma que vem encontrando para sair de suas crises cíclicas inclui a produção do espaço.
Assim, questiona-se, neste artigo, quais as possíveis consequências para o desenvolvimento
de metrópoles como o Recife da relação entre Estado, megaeventos esportivos e capital
financeiro no contexto da produção de Grandes Projetos de Desenvolvimento Urbano
e Regional, e sua relação com a reprodução do capital. Conclui-se que a Copa de 2014
significa um extraordinário instrumento de legitimação de grandes projetos de transfor-
mação do tecido urbano, com vistas a intensificar retornos privados em termos de valo-
rização imobiliária e financeira, haja vista a dimensão dos recursos públicos envolvidos
e o regime jurídico excepcional de que são beneficiários, justificando-se os elevados custos
aos cofres públicos e permitindo o encontro de interesses entre agentes locais e estrangeiros
para reestruturar o espaço urbano de metrópoles em benefício da expansão e valorização
dos capitais envolvidos.

Pa l av r a s - c h av e: metrópole; Estado; capital financeiro; megae-
1 Segundo os autores ana-
ventos esportivos; grandes projetos de desenvolvimento urbano; Recife; Copa de 2014. listas do “Novo Desenvolvi-
mentismo”, o Estado conti-
nua tendo papel de destaque
na estratégia “novo desen-
volvimentista”, porém com
Introdução funções distintas daquelas
exercidas no período ante-
rior. Dentre suas principais
Desde os anos 80 os municípios brasileiros vêm fortalecendo seu papel de gestores funções destacam-se: ter
de políticas públicas ligadas ao seu desenvolvimento autônomo. Uma das ações que capacidade para regular a
economia, estimulando um
passam a fazer parte das agendas de gestores das metrópoles pelo mundo afora, e agora mercado forte e um siste-
também do Brasil, é a promoção e realização de Megaeventos e seus Grandes Projetos ma financeiro a serviço do
desenvolvimento e não das
de Desenvolvimento Urbano (GPDUs) correlatos, ou não, ligados em muitos casos a atividades especulativas; im-
projetos políticos de desenvolvimento urbano e à busca de competitividade e investi- plementar políticas macroe-
conômicas defensivas e em
mentos dentro de uma “guerra de lugares” no chamado mercado de cidades. favor do crescimento; adotar
A metrópole de Recife, capital do estado de Pernambuco, não fica de fora desse políticas que estimulem a
competitividade industrial e
processo. Nos últimos anos, puxada por um projeto de cunho “Novo desenvolvimen- melhorem a inserção do país
tista” do Estado1 (BRESSER-PEREIRA, 2010; NOVY, 2009) – com grande apoio no comércio internacional.
Sendo que essas funções
do governo federal, passou a disputar seu lugar no hall das metrópoles ligadas a uma são assumidas em diferentes
nova economia, centrada na produção e consumo do espaço. proporções e de forma varia-
da nos diferentes projetos
Com base em Harvey (2011) acredita-se que o capitalismo passa por mais uma políticos.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V.16, N.2, p.27-44, / NOVEMBRO 2014 27

que porta características ligadas a um planejamento estratégico e de cunho “novo desenvolvimentista”. justamente no momento de seu maior crescimento econômico. Entende-se a Copa de 2014 como um importante fator catalisador de projetos políticos de desenvolvimento urbano para a qual produzem- se espaços. Daí a importância de se procurar entender quais as razões para que megapro- jetos de infraestrutura correlatos.16.. Pretende-se. temos as considerações finais e uma síntese do que foi exposto.. assim. Há uma massa crescente de dinheiro à procura de algo rentável para se colocar” (HARVEY. as quais podem levar à intensificação das desigualdades socioespaciais que já caracterizam a metrópole do Recife. Grupo Petrópolis investirá Este artigo se divide em quatro partes. do Grupo Petrópolis. particularmente desde a crise de 1973 a 1982. Destaca-se que os grandes projetos urbanos ligados a megaeventos são instrumentos prou o naming rights da Arena Pernambuco. fazer uma abordagem panorâmica enfo- cando dois dos principais GPDUs que se encontram ligados. que se dão em paralelo ao curso das últimas grandes crises do sistema. suburbanas ou periféricas. du- rante 10 anos. como o Brasil. A segunda parte procura abordar algumas teoriza- ções e definições sobre a produção do espaço e sua relação com a reprodução do capital e. nesse interregno. nas últimas décadas. e regiões periféricas do mesmo. por meio de ajustes espaço-temporais. o papel dos megaeventos em meio a essa relação na contempora- neidade. Este estudo objetiva analisar a relação entre Estado e Megaeventos Esportivos (Copa de 2014) via produção de GPDUs. N. ou não.]. de modo a compreender como se deu esse processo na economia brasileira e pernambucana para que se realizasse esse tipo de projeto estandardizado mundo afora. A M E T R Ó P O L E E A S P E R F Í D I A S D O C A P I T A L de suas crises e que a forma que vem encontrando para sair de suas crises cíclicas inclui a produção do espaço. onde o de redefinição de uso do solo em áreas centrais. pelo escopo do trabalho. 28 R. Como propõe o autor: “Há um grave problema subjacente. Observa- buco recebe esse nome porque a cerveja Itaipava. que são 2 Itaipava Arena Pernam. como o Nordeste. p. a fim de que o leitor compreenda o contexto estudado. se. via projetos desenvol- vimentistas de seus governos. alcançando finalmente países ditos de econo- mias emergentes. com.2. sobre como absorver montantes de capital excedente na produção de bens e serviços cada vez maiores [. em que destacaremos as características das PPPs e Socie- dades de Propósito Específico (SPE) celebradas bem como a forma de financiamento dos projetos. A questão central deste estudo diz respeito a quais as possíveis consequências para o desenvolvimento de metrópoles como o Recife da relação entre Estado. 31). A R$ 10 milhões por ano. B.27-44. Por fim. Pretende-se analisar o papel do Estado na viabi- lização desses projetos e sua consecução via financiamento e construção de parcerias público-privadas (PPPs). mas em diferentes estágios de execução: a Itaipava Arena Pernambuco2 e a Cidade da Copa. 2011. sem contar com esta introdução. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. Na terceira temos a discussão sobre as formas de articulação entre Estado e capital nos projetos citados. e a como se teceu a parceria entre esses agentes na metrópole do Recife. primeira parte apresenta um quadro da dinâmica recente de desenvolvimento do estado de Pernambuco e de sua metrópole Recife. p. projetos ligados a uma nova fronteira imobiliária e de expansão territorial. bastante expressivos da reestruturação espacial por qual passa a metrópole. flexibilizam-se políticas regulatórias e criam-se engenharias financeiras e institucionais. megae- ventos esportivos e capital financeiro no contexto da produção de Grandes Projetos de Desenvolvimento Urbano e Regional. / NOVEMBRO 2014 . a megaeventos terem sido reproduzidos extensivamente.

2002. mudanças no paradigma também da ação de uma ordem distante (LEFEBVRE.. graças à extrema in- Em meio a todos os investimentos abrigados em solo pernambucano como tencionalidade de sua pro- dução e de sua localização respostas ao dinamismo do governo e da atual conjuntura econômica. e o aumento do crédito bancário. da Copa de 2014 projeta-se ainda mais para o mundo..ALEXANDRE SABINO DO NASCIMENTO Breve panorama da dinâmica social e econômica do estado de Pernambuco e de sua metrópole Recife A partir da segunda metade dos anos 1970 até o início da década de 1990 o estado de Pernambuco vivenciou um ciclo de desaceleração econômica resultante da perda de dinamismo e competitividade nas até então atividades tradicionais de sua economia. a Temos também a criação da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia que estamos chamando de meio técnico-científico-in- (Hemobrás). E como consequência temos o crescimento (23 set. / NOVEMBRO 2014 29 .] Neste período. no papel do Estado como indutor de atividades econômicas. Nesse meio podemos situar o atual período pelo Espaço. como a globa. que ele se mantenha de for- Uma maior abertura das economias periféricas. que desde 2002 vem crescendo mais do que o índice nacional.27-44. O maior polo de atração de gem como informação. N. decorrentes de novos pro- gressos [. na última década. norte da Região Metropolitana do Recife p. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia atraiu empresas e ampliou o e Estatística (IBGE). globaliza- mento em muitos casos) e estimulou o engajamento de diversas políticas. 2013).1 bilhões seriam investidos em Pernambuco (US$ 2 bilhões na trutura logística para apoiar esse crescimento. Assim. a exemplo do Polo Petroquímico de Camaçari e do Polo mínero-metalúrgico de São Luís. princi. industrial. p. R. automotivo. o que traz novos atrativos para investimentos voltados ao atendimento anos recentes.. B. 3 Reportagem do Estadão palmente através do aumento do consumo. em A Natureza do técnico-científico-informacional”4. nos do mercado. co-informacional em alguns espaço selecionados. tem-se os investimentos realizados nos demais estados da região Nordeste. (INHESTA. destaque em de mercados crescentes.] estamos diante trução civil. 1991) de alguns fenômenos tecnológico e a consequente e intencional constituição que vêm influenciando de forma marcante as atividades econômicas. no entan- região disponibilizava de US$ 50 bilhões para investimentos nos maiores polos até to. investimentos em infraes- 2015. Ainda faltam.16.] hoje. já que. de um meio técnico-científi- lização econômica associada a mudanças de paradigma tecnológico ou a configu. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. 2013) afirmava que “O Nordeste tem sido. A melhora da renda de toda sorte (ARAÚJO. Todavia. o que se deve a fatores como: os aumentos reais no salário mínimo. os programas de transferência direta de renda para as populações mais pobres. cons. que após candidatura e escolha como cidade-sede tendem a ser ao mesmo tem- po técnico e informacionais. 4 Sobre essa nova relação en- tre investimentos. Ministério do Trabalho e Ministério do Desenvolvimento a mercado de consumo na re- gião. os objetos técnicos qual passa a metrópole do Recife. tecnológico. um com certeza [obras da Copa]. sendo que 28. as aposentadorias rurais e urbanas para não contribuintes da previdência. construção no município de Goiana/PE.2. 2013). forjou a entrada de diversos investimentos no estado de Pernambuco (crédito via bancos de desenvolvi. resultados ção. assim como maior necessidade de provisão de infraestruturas crescimento econômico no País. Em 2012 a região Nordeste representava 28% dos brasileiros e 14% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. PORTO. os ventos sopraram a favor do Nordeste e de Pernambuco. resultado às manifestações geográficas da soma de investimentos de diversos setores: petroquímico. farmacêutico. indústria naval etc. em formacional (SANTOS.1 bilhões em Suape)3. e garantir Fábrica FIAT – Goiana e US$ 26. além da redução da função de entreposto comercial que o estado exercia. afirma: “[. temos um grande crescimento da demanda agregada. [.. da produção de algo novo. 238).. quando nos referimos negócios do Nordeste brasileiro vem alavancando a economia do estado. eles já sur- se destaca: o Complexo Industrial Portuário de Suape.. que será uma das âncoras do Polo Farmacoquímico de Pernambuco. bem como uma transformação ma sustentável”. Concomitante a esse processo. biotecnológico. Santos ração em alguns espaços selecionados do que Santos (2002) denominou de “meio (2002).

mais rico o Estado se torna. tratando sobre o papel do Estado no desenvolvimento e a acumulação com a Lei Nº11. a fábrica da FIAT. construção da ferrovia Transnordestina. 2011. dentro de suas fronteiras. / NOVEMBRO 2014 . Dentro dessas inovações podemos de cidades. referente ao ano de 2010. analisado neste trabalho. energia. organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) (NERI. mostra uma queda na posição do estado em relação a 2000: caiu da 14ª para a 18ª posição entre os 26 estados brasileiros.27-44. jurídicas (mudanças no Plano Diretor) e administrativas (Programa ano. com expectativa de um projeto nos moldes dos implementados em São geração de mais de 3. foi publicado o os outros sobre como todas as outras esferas no âmbito do processo coevolutivo se reúnem Decreto Nº 28. ampliação da malha viária) e por imóveis. uma Desse quadro atual surge uma maior demanda por infraestrutura (urbana das principais vias que corta e regional. figurando na 17ª posição no ranking de desigualdade das 27 capitais brasi- leiras. telecomunicações. Project de cidade inteligente do Finance etc. O enquadrar o projeto Cidade da Copa. que se destaca negativa- mente entre as cidades mais desiguais do país. Não é o que presenciamos na metrópole de Recife. SWYNGEDOUW. etapa mais avançada do re. apresentando índice de GINI (baseado na Desigualdade de Renda Domiciliar per Capita) no valor de 0. diante da Parcerias Público-Privadas (PPP-PE) foi iniciado a partir “falta” de poupança do Estado para neles investir diretamente. Dentre os fatores apresentados por Harvey como ingredientes de sucesso de uma gestão do Estado na captação e uso de investimentos está a criação de condições favoráveis a uma elevada qualidade de vida diária de seus habitantes. A gestão estatal do processo coevo- (PERNAMBUCO. a Paulo (Rodoanel) e Rio de Ja. 30 R. estimada em R$ 1. industriais. 2002). também no município de Goiana. N.844.). que instituiu normas gerais para licitação e contratação de O “sucesso” de um determinado Estado (nacional ou local) frequentemente é medido parcerias público-privadas no âmbito dos Poderes da pelo grau em que capta os fluxos de capital. que inclui uma arena multiuso e um funcionará como alternativa bairro planejado.6 putação depois que a cidade de Singapura levou o prêmio Temos também inovações financeiras (Debêntures de Infraestrutura. o Polo Médico localizado na RMR. 161). Quanto mais acumulação de capital é capturada Programa Estadual. lacionamento entre conver- gência tecnológica. define as mesmas como a mais próxima entre Estado. o CGPE. que instalou o Comitê Gestor do em algum tipo de trabalho conjunto. em 1999.765. dual Nº 12. no mesmo ano. dos Estados. (HARVEY. 7 O Programa Estadual de RODRÍGUEZ. em consonância Harvey. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. lutivo surge como uma meta de governo. tanto para a habitação como comerciais e 6 Strapazzon (2010). diz que: de dezembro de 2004. amparada no esteio do grande projeto Cidade da Copa. em janeiro habitantes. Contudo. neiro. obras para a metrópole de Recife. apresentando dados preocupantes. do Dis. o poder público da publicação da Lei Esta. O Arco será uma via expressa e pedagiada que município de São Lourenço da Mata (PE). como as PPPs. uma cidade inteligente “smart city”. e.6383. recorre a políticas de cunho neoliberal. gestão arenas multiuso. rápida ao estrangulado tre- cho urbano da BR-101. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvol- vimento (PNUD).2. em janeiro de 2005. o que se dá via inovações espaciais (“cidades planejadas” [condomínios fechados]. de 30 capitalista.5 mil postos de trabalho. e o projeto do Arco Metropolitano5. como em 2008 ao encabeçar a lista das cidades mais desiguais do país em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). que se propõe a ser tema começou a ganhar re. além dos já citados GPDUs (MOULAERT. mas. como saneamento ambiental. 2009).21 2014. capital dentro de suas fronteiras e garante uma elevada qualidade de vida diária a seus trito Federal e dos Municí- pios.16. Estes necessitam de grandes investimentos. p. mercado imobiliário. cria condições favoráveis à acumulação do União. [20--]). tem-se a escolha de Pernambuco como subsede da Copa do Mundo tros. Por fim. que compreende uma nova rodovia de 77 quilôme. B. torres empresariais e shoppings). qualidade de vida e competitividade. a ser concluído no bilhão. observamos que vem emergindo simultaneamente uma relação tigo intitulado Smart Cities. Os Estados estão inevitavelmente envolvidos em uma concorrência uns com de 2006. em ar. Estadual de PPPs7). A seguir. p. A M E T R Ó P O L E E A S P E R F Í D I A S D O C A P I T A L 5 O Arco Metropolitano é (RMR). construção civil e capital financeiro.079.

2. Dessa forma. Rio de Janeiro. mas as atribuições de dominação inerentes à hierarquia dos grupos e dos lugares.. 2013). Recife teria muitas outras prioridades para seus gastos públicos ao invés dos governos estadual e muni- cipal se endividarem para cumprir as demandas em prol da realização da Copa 2014. 1978. em um jogo de seguidos reordenamentos. 1978. megaeventos e a produção de capital fixo A teoria da “produção do espaço” de Henri Lefebvre enfatiza a produção contínua do espaço e sua ligação com o seu principal produtor na cidade: o Estado (CARLOS. que tem o espaço por instrumento privilegiado (LEFEBVRE. etc. p. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. 1991. 2009). elaborado anualmente pela Organização Não Governamental (ONG) mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal. / NOVEMBRO 2014 31 . O entorno da capital pernambucana foi um dos cinco que mereceram um tópico específico no texto. ele tende a impor uma racionalidade. Neste estudo compreende-se que a (re)produção do espaço de várias cidades – no caso da Copa de 2014 são doze. 2). Na próxima parte tentar-se-á analisar a relação entre a produção do espaço e o processo de acumulação do capital. com características próprias e metas específicas. 2011. Ele tende a reconduzir não somente as atribuições sociais inerentes à produção in- dustrial. N. Sobre essa relação Lefebvre afirma: [. Ele reorganiza as atribuições (sociais de produção) em função do supor- te espacial.16. a sua. LEFEBVRE. Produção do espaço e acumulação de capital: uma análise da relação entre crises econômicas.ALEXANDRE SABINO DO NASCIMENTO No ranking das 50 cidades com maior índice de homicídios do mundo. 2014).27-44. cidades históricas. Essa relação possui caracterís- ticas próprias e segue metas. quatro a mais do que o limite recomendado pela Fédération Internationale de Football Association (FIFA) para serem vistas pelo mundo todo no curto período de um mês durante o evento – representa uma nova concepção R.Informações Territoriais do IBGE. 1999).. Belém e Salvador (MOTA. atentando-se para o papel das crises sistêmicas do sistema capitalista e dos megaeventos e seus megaprojetos correlatos. No caos das classes. ele reencontra e choca o espaço econômico pré-existente: polos de crescimento espontâneos. Essa concentração mereceu destaque no relatório da pesquisa Aglomerados Subnormais . B. ao lado das grandes São Paulo. sendo a principal delas a compatibilização da produção do espaço com a reprodução das relações capitalistas de produção. a metrópole de Recife se encontra na 39º posição (FAROESTE. Essa contextualização socioeconômica de Pernambuco e de sua metrópole Recife e seus desafios no tocante a uma maior distribuição de renda com justiça social fundamenta uma análise da conta dos investimentos direcionados para a realização da Copa de 2014 como custos de oportunidade (BARCLAY. p. comercialização do espaço fracionado e vendido em lotes.] O espaço produzido pelo Estado deve dizer-se político. Destaca-se também que quase 97% dos aglomerados subnormais de Pernam- buco encontram-se na Região Metropolitana do Recife.

escritórios e shoppings centers em excesso. p. Harvey (2011). o ex-governador do estado de Pernambuco – Eduardo Campos – fala das últimas décadas do século XX e do desmantelamento do Estado e da falta de impulso para o crescimento econômico no Brasil. Um mundo que parecia estar “inundado com excesso de liquidez” de repente se viu sem dinheiro e inundado de casas.2. por exemplo. no capitalismo classificados como desenvolvidos encontram-se inseridos em graves crises econômicas. No fim de 2008 todos os segmentos da economia dos Estados Unidos da América (EUA) estavam com problemas profundos. o aumento do nível de investimento em grandes projetos e a geração de emprego” (CAMPOS. a posterior queda do Banco Lehman Brothers e o congelamento dos mercados (OLIVEIRA. 234). a anarquia tivemos o desmantelamento de todos os grandes bancos de investimento de Wall do sistema. o de Julho de 2014. 2008. Keynes ilustra ironicamente sua teoria de uma política econômica anticíclica do “ deficit spending” quando afirma que ao Estado cumpre erguer pirâmides para criar “empregos”. Embora a política keynesiana das intervenções estatais tenha sido “oficialmente” sepultada e substituída pelo consenso neoliberal. / NOVEMBRO 2014 . segundo Marinho. exatamente porque o forte A respeito da última grande crise econômica mundial temos que. o Estado tem ao passo que países classificados como subdesenvolvidos ou os ditos emergentes. dessa vez em proporções catastróficas”.16. e foi um dos vetores de susten- seu clássico Elegia para uma re(li)gião. 12). p. Sobre o papel dos GPDUs neste contexto. Pode-se fazer uma relação um tem que ser colocado como pouco pertinente com alguns momentos recentes vividos pela economia mundial que pressuposto geral de toda atividade econômica. O mesmo destaca a recente retomada do crescimento e das políticas impulsionadoras desse processo. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. em esta máxima ainda está bem presente nos dias de hoje. e a saída da longa crise vivida pelo país. observamos uma nova ordem na produção do espaço descartável. segundo processo de centralização do capital ampliaria. A M E T R Ó P O L E E A S P E R F Í D I A S D O C A P I T A L de reprodução do capital produzindo o espaço. B. Temos assim uma série de GPDUs feitos ad hoc para receberem os capitais sobreacumulados nacionais e mundiais para sua valorização e fixação em um ambiente construído. vivem uma conjuntura de crescimento econômico do capital: “A teoria do de. 2007 era o primeiro ano do segundo mandato do 32 R. Na medida em que temos a produção de megaprojetos para serem utilizados em um fugaz e efêmero período de um mês. Lembrando também da China que sediou os Jogos Olímpicos de 2008. em função de um conjunto de políticas públicas direcionadas à elevação da renda dos mais pobres e à im- plementação de políticas de desenvolvimento voltadas para o fortalecimento da infraes- trutura. maior. Street. como de ser necessariamente parte ativa da reprodução África do Sul e Brasil. de meados de 2007 até o dia 07 de setembro de 2008 – quando vés de reduzir. Paralelo a tudo isso. é curioso notar que 8 Francisco de Oliveira. e em especial no Nordeste. Campagnani e Cosentino (2014). e que se somam às que a economia capitalista possibilidades abertas para a reprodução do capital sobreacumulado na produção do ver-se-ia a braços com crises cíclicas da maior gravidade. espaço e em megaeventos esportivos. no livro O Brasil em evidência: a utopia do desenvolvimento. de crédito. Destaca-se o montante de recursos e obras realizadas para atender à demanda de um único evento no período de um único mês. e diz: “Note-se que a recente retomada do crescimento se deu.27-44. que é ficit spending é a explicação de que o Tesouro Público a grande locomotiva econômica dos países emergentes. p. monopolista. N. sem o potencializam a tese da fuga de capitais para países como o Brasil. no livro Copa para quem e para quê?. ao in. 2012. justamente. o papel da teoria do “deficit A escolha do Brasil para sediar a Copa acontece no momento que em os países spending” de Keynes afir- mando que. atenta para tação do país diante da crise de 2007/20088. sucedeu-se uma série de acontecimentos pelo mundo.

ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. A respeito desse processo de reconstrução urbana mundial. 2011). após um período de decadência do índice entre 1999 e 2003.27-44. Aquele ano foi marcado pela continuação de um projeto político que se baseou no aumento da renda do brasileiro. 2014). Esse período coincide com a crise econômica dos EUA e também com a vinda da Copa para o Brasil e sua subsede. já as classes que mais precisavam continuaram sem habitação. hoje ela se mostrou acertada. O editorial afirmava que o país parecia ter feito sua entrada no cenário mundial.1% do PIB da Indústria Geral de Pernambuco. (MARINHO. sendo lastreado com a conquista do direito de realizar uma Copa e de transmitir mundialmente a imagem de que o Brasil estava no caminho certo.6% do total da produção do setor imobi- liário.8% do total. A construção civil cresceu a uma taxa de 21. pois não representam altos lucros para o mercado imobiliário (FIX. Destaca-se que. 2008).ALEXANDRE SABINO DO NASCIMENTO presidente Luiz Inácio Lula da Silva. a fatia das construções imobiliárias representa 53. CAMPAGNANI. com a criação do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) em 2009. assistiu-se a um novo arranjo combinando a maior entrada de fluxos de capital nacional e estran- geiro que teve efeitos significativos. já que o país vem apresentando um desempenho econômico invejável (BRASIL. COSENTINO. mas manteve o antigo padrão de construção para classes alta e média alta.2% – maior índice desde o início da pesquisa.2. Acrescenta-se outro exemplo desse período quanto aos seus rebatimentos na produção do espaço nas cidades brasileiras.5% da indús- tria em geral no mesmo período. Assim este momento fez parte de um projeto de governo de se afirmar politicamente interna e externamente. A atração de investimentos vem criando uma demanda enorme no setor imobi- liário da Região Metropolitana de Recife e um consequente crescimento do setor de construção civil.6%) (ADEMI-PE. internamente a esse desenvolvimento. quando o país candidatou-se a sede da Copa de 2014. A revista dizia que. / NOVEMBRO 2014 33 . pois a produção de habitação para as mesmas tinha demanda mais solvável. contra 17. na medida em que as obras de infraestrutura representam 21.2% no segundo trimestre de 2010.16. em tradução literal). 2009). sendo considerado pela FGV como o “ano da classe média” (PESQUISA. A ADEMI-PE trabalha com um índice que é consideravelmente importante para compreender o setor da construção civil e o fluxo de capital via produção do espaço na cidade: o Índice de Velocidade de Venda (IVV). Rússia. quando chegou a 14. No Recife. p. Cabe aqui enumerar alguns dados do IBGE apresentados pela Asso- ciação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (ADEMI-PE) sobre esse setor que representa 26. Índia e China) surpreendeu muitos. Em dezembro de 2009 a capa da revista inglesa The Economist dizia: “Brazil Takes Off ” (“O Brasil Decola”. segundo o autor: R. diferente dos países centrais. Sobre esses altos lucros para o mercado imobiliários Harvey chama atenção para como a qualidade de vida urbana torna-se hoje uma mercadoria tão importante quanto o próprio direito à cidade. B. que mede o aumento da velocidade de venda dos empreendimentos lançados. [20--]). a metrópole de Recife. tendo um aumento significativo entre 2009 e 2010. N. O que falta se deve a serviços especializados para construção (24. o IVV cresceu de 2004 a 2010. Daí vemos a importância simbólica de sediar um megaevento para a imagem de um país. Mariana Fix (2011) afirma que. se em 2003 a inclusão do Brasil no grupo de emergentes BRICs (Brasil. marcada simbolicamente pela escolha do Rio como sede olímpica em 2016.

muitas vezes interligadas ao desenvolvimento econômi. tornaram-se os principais aspectos da econo- mia política do desenvolvimento urbano (HARVEY. por exemplo. Assim. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. naquele entorno que você possa ir até a pé. comerciais. esportes e entretenimento.]. 2000). centros educacio- nais e hospitalares. Grande parte desses novos aspectos da economia política do desenvolvimento urbano apontados por Harvey podem ser catalisados em uma cidade que recebe um megaevento esportivo. administrativas e gs centers. vemos como o projeto Cidade da ção cultural e de espaços Copa enquadra-se nessa nova produção de espaços ligados a um tipo de “Economia que a recebam. dente de capital” (HARVEY.. e também a perpétua dependência em relação à economia política do espetáculo. é jurídicas etc. / NOVEMBRO 2014 . 75). O Consórcio Arena atividades têm assumido re- lativa importância na políti- Pernambuco Negócios [vencedor da disputa para construção]. O conceito do LA Live serviu de inspiração para o projeto da Cidade da Copa. arte. mento apontados por Harvey. tante de considerações da mudança do futuro urbano (GIBSON.] A AEG é dona do negócio. p. Falamos de uma economia cultural atividades culturais são de dos bens simbólicos que produz cidades criativas e/ou bairros criativos ligados a ativi- importância crescente para as economias urbanas e re. A urbanização é uma forma de absorver o exce- qualidade para que você possa trabalhar e ter o mí. A ‘virada cultural’ de salas comerciais. vemos em Recife a criação de equipamentos de lazer e entretenimento. [. 2004.” mundo.] Cultural”9 que já está presente em seu projeto. área da cidade americana. tratados acima. (residenciais. em São Lourenço [. além da conhecida arena Staples o lugar – fazendo o desenho urbano e o planejamento Center – que recebe megashows.16. A ‘economia conforme reportagem do Jornal do Commercio sobre a consecução do projeto: cultural’ define esta inter- secção em um amplo espec- tro de empreendimentos A fórmula da Cidade da Copa não saiu do nada.2. Após muita procura. tem 21 mil metros quadrados social.. p. lazer. 2011). tradução nossa). as indústrias culturais e de conhecimento. noções e imagens. p. produção de eventos. criativa’ (LANDRY. A M E T R Ó P O L E E A S P E R F Í D I A S D O C A P I T A L A qualidade de vida urbana tornou-se uma mercadoria para aqueles com dinheiro. as quais acompanham as ações de reestruturação urbana.. a regeneração urbana e com um complexo hoteleiro de US$ 1 bilhão. encontrou a AEG World Wide. Quanto à questão do marketing de nicho e das indústrias culturais e do conheci- 9 Sobre essa nova economia urbana baseada na produ. jogos da NBA e até de boxe –. o consumismo. colocando construção quanto na manutenção. 2011. SCOTT. Temos o turismo puxado pela exposição midiática da cidade- sede no evento como um dos grandes argumentos para a realização dos megaeventos. o marketing de nicho. Destaca-se aqui o pensamento de Harvey MI-PE) afirma que esse tipo quando diz que “O ambiente construído que constitui um vasto campo de meios de empreendimento é uma tendência do mercado: “A coletivos de produção e consumo absorve enormes quantidades de capital tanto na empresa vê que. 143). requalificação de 10 O presidente do Con. (BAIRROS. televisão. gra para o contrato de construção da Arena Pernambuco o desenvolvimento de um grande cinema. na verdade composto por duas ca urbana e no planejamento empresas do grupo Odebrecht.. (2013. dades econômicas de base tecnológica e atividades culturais. num mundo onde o turismo. (PPPs. segundo Sánchez et al. shoppin. industriais). 2012). 2011. 01): 34 R. assim como para a própria cidade. residências e. começou a buscar um parceiro com experiência para desenvol- da cidade individualmente ou coletivamente como se- ver o projeto. como podemos veri- gionais na idade da ‘cidade ficar com a ideia de se criar uma smart city na região oeste da metrópole de Recife. Decorre desse processo uma expansão geográfica da produção selho Consultivo da Asso. a terceira maior dos Estados Unidos. bairros e cidades planejadas10. Assim. uma gigante americana da tores-chave para iniciativas. 2000. incluindo música. p. que integra várias facetas. teatro. Gibson e Freestone afirmam que “[.27-44. O LA Live fica no centro de Los Angeles e revitalizou aquela no planejamento da cidade tece uma dimensão impor. B. (SANDES. N. a realização de megaeventos busca a produção de uma marca para as uma questão apenas de op. cidades que os recebem no âmbito de uma economia simbólica que afirma visões de ção de morar mais próximo do seu local de trabalho. p. ou Apoiados em formas complexas de articulação de atores públicos e privados seja.). imobiliária. nimo de deslocamento. música. O governo estadual estipulou como re- criativos. FREESTONE. design e mídia. Estas projeto imobiliário nos 240 hectares do terreno. incorporando espaços e produzindo cada vez mais imóveis de todo tipo ciação das Empresas do Mercado Imobiliário (ADE. Operações Urbanas Consorciadas e inovações espaciais. Ele conta co. áreas degradadas etc. 2. shoppings...

o conhecimento. a produção de capital fixo pode servir de saída para crises de superacumulação em curto prazo. modernos. 2011. expressas. nou-se força produtiva ime- diata e. Harvey (2005). a indústria automobilística. (HARVEY. que gerenciamento de cidades. as primeiras décadas do século XXI). Marx já havia declarado em O Capital que “uma crise sempre cria o ponto de partida para novos investimentos”. das mercadorias. Marx. como no caso das ferrovias e os navios a vapor.2. tentando formular uma teoria geográfica e histórica do capita- lismo e de sua expansão. (MARX. consequentemente. A tese de Harvey que embasa este estudo intenta provar como os processos gerais de produção do espaço são presas de processos de formação e resolução de crises de superacumulação. p. capital fixo em uma base periódica. Assim. / NOVEMBRO 2014 35 . (MARX. em sua posição dominante Os excedentes da força de trabalho. 11 Nos Grundisse.27-44. Harvey (2013. Harvey argumenta que um dos principais mecanismos de geração das precon. Baseados no descrito acima. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V.. 2011). como a produção de capital fixo (vias e a Crise da Dívida Soberana Europeia. 12 A Crise Financeira Interna- acreditamos que as últimas crises12 produziram espaço para novos investimentos cional ou Crise do Subprime do tipo especulativos via capital financeiro. Hoje tem-se a difusão de toda uma sorte de espaços espetacu- lares. até que ponto as condições dições necessárias para a formação do capital fixo é a superacumulação que surge no do processo vital da socieda- de passaram sob o controle capitalismo de forma mais periódica. grandes projetos urbanos e megaequipamentos culturais ou esportivos são acionados para soldar as forças sociais das cidades e trazidos pela mão de coalizões de promotores urbanos que apresentam projetos de cidade ditos consensuais e competitivos.16. p. o autor utiliza a ideia de ordenação espaço- temporal. B. lembra que “ondas inovadoras” – que autores influenciados por Schumpeter consideram fundamentais para absorção dos excedentes de capital e de força de trabalho ao longo do tempo – tinham tudo a ver com a transformação do espaço. acumular que envolve a criação de capital não empregado em um polo e uma popu. da capacidade produtiva e do capital no mercado relativo à pro- dução de megaeventos e monetário são potencialmente conversíveis em capital fixo. shoppings centers. que servem de geral. 298) arremata: representada por consulto- res de renome internacional. [. Entender que o desenvolvimento dos meios de trabalho em vimento do capital fixo indica até que grau o saber social maquinaria não é casual e obedece às intencionalidades do capital. Como pode- mos perceber com a ação de lação de trabalhadores desempregados em outro. 582). as telecomunicações etc. Numa situação de crise a união dessas precondições proporciona a formação de capital fixo. Pernambuco e sua metrópole Recife) e pelos seguintes fatores: deslocamento temporal via investimentos R. 2011). p. Para tanto. arenas multiuso) e bens de consumo.] Ele diz na verdade. em um sistema territorial (Brasil. Assim. Marx (2011) evoca a possibilidade Uma das teorias que embasa este estudo é a que analisa o papel da produção de de um capitalismo pós-in- capital fixo de larga escala e bens de consumo – Cidade da Copa – de grande dura. como no caso do primeiro sistema de geração solar fotovoltaico do estado de Pernambuco que foi inaugurado na Itaipava Arena Pernambuco11. 2013). que aborda a absorção dos excedentes de capital e trabalho característica do processo de sobreacumulação em um dado tempo (neste estudo. tor- alavancas para a acumulação. inovadores e “sustentáveis” para a realização de megaeventos. como a habitação (Cidade da Copa). as contradições da acumulação produzem as precondições necessárias para a formação do (SÁNCHEZ.. N.ALEXANDRE SABINO DO NASCIMENTO Operações para reconversão de territórios. baseado no insight teórico de certa expertise internacional. dustrial baseado em formas altamente socializadas do bilidade na tentativa de absorver excedentes de capital que hoje circulam o mundo conhecimento: “o desenvol- em busca de valorização. resultado da sanha capitalista de acumular por do intellect geral”.

/ NOVEMBRO 2014 . – e a produção de fundo de consumo. A M E T R Ó P O L E E A S P E R F Í D I A S D O C A P I T A L de capital de longo prazo (Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2). por Pernambuco (HARVEY. Assim. no tocante ao estado gimento de novas formas de governança urbana. em e Rodríguez (2002). cedidos pelos bancos em questão (BORGES. uma nova forma de atuação do Estado na produção do espaço urbano que se dá na estaduais e federais envolvi- dos com o evento.. PMCMV). analisa 15/07/2014 com o título O legado da Copa: o que será dos 12 estádios usados no como os processos de globa- lização e liberalização econô.2.. como elas serão usadas e quem vai usá-las? E afirma que. destacando as características das PPPs e SPE celebradas bem como também a forma de financiamento dos projetos. estão por trás deles e entre os diversos agentes e suas ações. No circuito secundário do capital os fluxos tomam dois caminhos. B. como a habitação (Cidade da Copa. Atualmente destaca-se ção dos órgãos municipais. p. de Moulaert. 2014). renas. SWYNGEDOUW.7 milhões cas de poder na cidade. SUAPE) e de recursos. entroncamentos ferroviários (Transnordestina). N. o livro The globalized city: economic na construção de megaeventos restructuring and social po- larization in European Cities. Swyngedouw Reportagem do site da rede de TV por assinatura ESPN publicada. através da análise dos fluxos de capital dentro dos circuitos do capital. deslocamentos espaciais por meio da abertura de novos mercados (expansão imobiliária para as regiões sul e oeste da metrópole de Recife). administrativas14. 2003). obras da Copa) ou gastos sociais (Bolsa Família). Mundial. sociais e de trabalho (HARVEY. especificamente para acompanhar as obras rela. sociais e econômi- buco [. RODRÍGUEZ. em especial neste trabalho. 2003). O autor prefere a combinação desses dois fatores. mas segundo o Portal da Transparência do governo federal. que absorvem o capital excedente em investimentos de longa duração. indica a passagem desses fluxos do circuito primário (produção e consumo imediatos) para os circuitos secundário (capital fixo e de formação de fundo de consumo) e terciário (gastos sociais e de pesquisa e desenvolvimento). a fim de retardar a circulação de valores de capital. 200213) investidores privados.] O governo pernambucano alega ter recebido empréstimos de R$ 276. Assim. rodovias (Ramal da Copa. Ligações perigosas: grandes projetos de desenvolvimento urbano e inovações 13 Sobre o papel dos GPDUs administrativas e financeiras nesse contexto. Na próxima seção aprofundaremos a discussão sobre as formas de articulação entre Estado e capital nos projetos citados. taria Extraordinária da Copa 2014. passamos a tentar destrinchar esses números e as relações nebulosas que cionadas à Copa do Mundo 2014 e coordenar a integra. associados à iniciativa privada via inovações políticas.27-44. financeiras 36 R.9 milhões do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) para bancar a 14 Em janeiro de 2011 foi criada pelo Governo do Esta- obra. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. além dos consecução de GPDUs (MOULAERT. e sobre a de Pernambuco: relação entre os projetos de desenvolvimento urbano em grande escala e as relações São nebulosas as informações sobre o dinheiro investido na construção da Arena Pernam- políticas.16. do BNDES e de 217. faz as seguintes questões: como serão pagas a partir de agora essas mega-a- mica se articulam com o sur. R$ 922 milhões foram do de Pernambuco a Secre. Arco Metropolitano) e portos (Suape) etc. como podemos ver alguns exemplos no estado de Pernambuco: capital fixo – instalações fabris (FIAT- Goiana). novas capacidades produtivas (Fábrica da FIAT. Avulta-se aqui que esse circuito é um grande absorvedor de capital e trabalho. principalmente em condições de expansão geográfica como a vivida pelo Nordeste e. equipamentos (Itaipava Arena Pernambuco).

O masterplan (plano ações. idealizadores. ou novas formas espaciais ligadas ao consumo. por um comitê especial – entretenimento e habitação.. nas últimas décadas. purpose company (SPC) é um modelo de organização em- BIENENSTEIN.. p. 2009). o Copa de 2014 como projeto prioritário na carteira do Pro- planejamento atual das cidades tem por objetivo central ‘inserir a cidade-alvo em um nó grama Estadual das Parcerias da rede internacional de cidades’. elemento-chave do Projeto Cidade da Copa. / NOVEMBRO 2014 37 . obras e investimentos geral urbanístico) foi feito pela Aecom. que também assina o do Parque Olímpico públicos na região de São Lourenço da Mata e afirma- Rio-2016. a de Recife tomou área até então rural e a transformou num verdadeiro filão para o entre os dias 15 e 30 de ju- nho. passa a ser um planejamento apresentadas pelo Comitê de Organização Local (COL) estratégico empresarial. tado: a Arena Pernambuco foi construída e será palco liário – diferentemente de outras sedes onde as arenas estão na capital da metrópole.. com intervenções urbanísticas pontuais. refletida na maioria dos GPDUs na forma de 16 Sociedade de Propósito instrumentos como Parcerias Público-Privadas (PPPs)15.] uma região ocupada por indutor de desenvolvimento urbano para o município de São Lourenço da Mata e posseiros. (MÁXIMA. edifícios comerciais e universidade e que.] modelos de desenvolvimento internacional exercem forte influência nas dinâmicas elegeu. Operações Urbanas Consorciadas etc. em seus municípios circunvizinhos – Recife. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. N. 2013. propiciando a criação de uma nova centralidade urbana na Região Metropolitana recebeu uma carga enorme de desenvolvimento urbano de Recife e ordenando a expansão metropolitana no sentido do interior do estado. Resul- Temos a produção de um novo espaço e uma expansão geográfica do mercado imobi. onde os pilares 17 Matéria do Jornal do Com- moradia. A liberalização de ativos como a terra se dá através de manobras institucionais. Esses projetos representam ícones ligados tanto à produção de novos 15 A gestão das PPPs no es- tado de Pernambuco é feita espaços na cidade contemporânea. nas quais seus gestores se utilizam de estratégias de ‘branding’ e ‘city marketing’ tiuso para sediar os jogos da para promover a transformação de diversos espaços da cidade. nos últimos dois anos. Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes –.2.16. O estado de Pernambuco [. Os mercio de 19 de maio de 2013 já destacava o papel das envolvidos estimam que o projeto estará a todo vapor em 2025. tem-se forte demanda habitacional da Região Metropolitana do também a gestão da cidade como um negócio ou uma empresa e uma coalizão dos Recife. deveria atuar como palco de jogos internacionais [. va que: “De terreno rural a A Arena. B. 2013). liberando o ativo terra para a especulação (HARVEY. São Lourenço da Mata. shopping centers. que define Destaca-se também o papel dos megaeventos na inserção das cidades em uma os serviços prioritários para execução no regime de PPP rede internacional de cidades via sua produção como marca. da Copa das Confederações. como também à refuncionalização ou requalificação de Comitê Gestor do Programa Estadual de Parceria Público outros espaços tidos como degradados ou mal utilizados.ALEXANDRE SABINO DO NASCIMENTO e espaciais. para poder receber o de Metrô Cosme e Damião e megaprojeto Cidade da Copa.. educação. flexível. denominada “Cidade da Copa” – com uma estimativa de absorver presa com fim específico e aproximadamente 60 mil novos habitantes. Ramalho destaca: a duplicação da BR-408 trans- formaram a paisagem antes rural em um local urbaniza- do”. (MASCARENHAS. hotéis. (BRASIL. R. presarial pelo qual duas ou O governo de Pernambuco lançou o megaempreendimento imobiliário – uma mais empresas se associam para constituir uma nova em- cidade planejada. limitadas da Copa do Mundo 2014 e à no tempo e no espaço (GPDUs) e orientadas pelo e para o mercado. procurando criar uma nova centralidade com prazo determinado para realização de um contrato de urbana/metropolitana. 2012). -Privada (CGPE) –.. sobre isso Sánchez et al. em outubro/2008. Jardim Penedo. Assim. Estação como a alteração do Plano Diretor de São Lourenço da Mata. 2) Público-Privadas (PPP-PE). transforme-se numa verdadeira cidade (Smart City). e da Copa do Mundo de mercado17. Elaborou-se. (SÁNCHEZ et al. a implantação de Arena Mul- das cidades. Nos arredores do local. Radial da Copa. SÁNCHEZ. Segundo Arantes (2000). a ponte do Ramal Cidade da Copa. assim. Re- gião Metropolitana do Recife. segundo seus tiva (SEBRAE.27-44. p. parceria com finalidade lucra- cias. projeto visando o desenvolvimen- to de um empreendimento É importante ressaltar que muitas dessas estratégias estão ligadas a mudanças no que atendesse às exigências planejamento urbano moderno que. 2011). A ideia é que em no máximo 25 anos o local tenha residên. Sobre isso. trabalho e lazer estariam conjugados num mesmo local. e os critérios para subsidiar afirmam: a análise da conveniência de contratação sob esse regime. Sociedades de Propósito Específico (SPE) ou special Específico (SPE)16. 2014. 2011). interesses públicos com os privados.

B. e sua relação com a shows e um programa diver. dividir o risco entre vários interessados – principalmente com o Estado –.27-44. p. projeto grande demais para um só patrocinador ou evitar a necessidade de garantias tebol presentes nas cidades reais. que possuem taxas de juros diferenciadas (Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP)). (OII) e Odebrecht Serviços de Engenharia e Construção para uma nova exploração do uso. zado sob o modelo de PPP pactuado entre o governo do estado de Pernambuco e a lecido. Toda a área onde está sendo implantada a Cidade da Copa [. 38 R. Ex. S. viabilizando a construção de novos padrões ar- quitetônicos para uma população solvável. Para a criação desse novo empreendimento. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V.. de modo que vem crescendo no país a assunção de inovações na área de PPPs. Considera-se colaboração financei- ra estruturada sob a forma de project finance a operação de crédito realizada que possua. preservar a capacidade de endividamento de seus empreendedores ou patrocinadores. (OSEC). Assim. as seguintes características: O cliente deve ser uma Sociedade por Ações com o propósito específico de implementar o projeto financiado. na verdade. Após o prazo estabe. autogerado). em favor dos financiadores (BNDES. a área da Cidade da Copa passou a ser classificada como Zona de Urbanização Preferencial. 33 anos. 18 Arena multiuso com ca- pacidade para 46 mil pes. p. Rio de Janeiro e Recife). patrimônio e riscos do projeto” isso indica. cumulativamente. surgem novos tipos de relações entre o capital público e o privado nesses projetos. 13).A. percebemos que se trata de projeto reali- sificado com bares e restau- rantes. utilizando apenas a garantia de recebíveis do próprio projeto (fluxo de caixa brasileiras vai se dando pe- las arenas multiusos que. Com uma observação mais atenta dos termos percebemos que quando se diz “segregar os fluxos de caixa. também terão ou- tras funções: espetáculos. ou cedidas. que se trata de uma engenharia de projeto estruturado para segregar o risco. construção da Itaipava Arena Pernambuco18. patrimônio e riscos do projeto. a arena será SPE Arena Pernambuco Negócios e Investimentos S. como também formas de divisão de risco que podem ser danosas ao Estado e. [20--]a). consti- tuída para segregar os fluxos de caixa.] era uma Zona Especial de Interesse Social – ZEIS 2. A substituição dos antigos estádios de fu. de jogos. servindo como garantia os ativos e recebíveis desse mesmo projeto.A. N. cujas diretrizes urbanísticas previam a implantação de conjuntos habitacionais de interesse social nas áreas vazias e a regularização fundiária das ocupações existentes. por conse- guinte. Project Finance representa: Projeto financeiro ou financiamento relacionado a projeto: é uma forma de engenharia financeira suportada contratualmente pelo fluxo de caixa de um projeto. Os fluxos de caixa esperados do projeto devem ser suficientes para saldar os financiamentos.. Segundo o site do próprio BNDES. além de servirem para locais No que diz respeito ao último ponto. à população. constituída após o certame devolvida para o governo de Pernambuco.16.. como modelos de projetos baseados em financiamentos do tipo Project Finance (modelo já assumido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em algumas arenas em cidades-sede. As receitas futuras do projeto devem ser vinculadas. em março de 2010. / NOVEMBRO 2014 . utilizando apenas a garantia de recebíveis do próprio projeto”. “evitar a necessidade de garantias reais. 2013. economizar soas e estacionamento para no pagamento de tributos – perda de arrecadação do Estado –. A M E T R Ó P O L E E A S P E R F Í D I A S D O C A P I T A L A primeira iniciativa para a viabilização do empreendimento Cidade da Copa no muni- cípio de São Lourenço da Mata foi a alteração do seu Plano Diretor. (RAMALHO. que poderá licitatório vencido pelo consórcio formado pelas empresas Odebrecht Investimentos licitar uma nova empresa em Infraestrutura Ltda. levar adiante um 6 mil veículos.2.

Note-se que mais uma vez o governo de Pernambuco sai perdendo nesse contrato de parceria. destinada a financiar o ressarcimento das obras executadas pela SPE. previa-se que os gastos seriam de R$ 389 milhões. Destaca-se que com o BNB o consórcio contraiu um empréstimo total de R$ 250 milhões. B.2. em 2007. pagamentos de contraprestações públicas mensais ses municípios contraíram R$ 3. Mundial. segundo Costa et al. como o BNDES. e os investidores que compraram suas debêntures. a fim de assegurar sua rentabilidade.. No total. com um montante anual previsto de pagamentos do Estado ao parceiro cerca de R$ 12. Muitos foram à Justiça cobrar reembolso 20 O financiamento de obras previstas para a Copa do do dinheiro pela FIFA. No contrato o estado de Pernambuco garante um patamar mínimo de receita para a Arena Pernambuco Negócios e Investimentos S. Já o financiamento com o BNDES vem do programa “BNDES ProCopa Arenas”. a concessionária também teve R$ 70 milhões desem- bolsados através de debêntures19 (títulos de dívida) com um banco comercial (ITAU 19 Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos UNIBANCO S. ou seja. [2011]). (2013). os gastos para a construção da Arena Mercados Financeiro e de Pernambuco estavam orçados em R$ 532 milhões (base maio/2009). Na primeira operação o estado contratou R$ 400 milhões de financiamento junto ao BNDES (IAF. crédito contra a companhia emissora. p. / NOVEMBRO 2014 39 .). derações e da Copa do Mundo – pagas pelo estado de Pernambuco e que foram alvo de contestação pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE). no tocante às garantias da SPE. Isso sem falar em outro termo que está nesse mecanismo da PPP. nessa ordem. ao final da obra.A. também. de longo prazo. a blicos. para os empreendedores privados como os acionistas da Arena Pernambuco Negócios e Investimentos S. Esses recursos obje. 2012). mas interligadas: uma operação de crédito com o estado de Pernam- buco. pois é corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). menos. em 30% o endividamen- to de oito cidades-sede do (SANDES. destinada a financiar parte dos recursos para a construção da Arena Pernambuco. alegando não haver interesse público nos gastos. temos uma contrapres. de curto prazo. em mé- servido apenas para “elevar ainda mais os lucros já altíssimos” da entidade esportiva dia. (BRASIL. Assim. Essas mesmas cidades já deviam longo prazo. 2013).2 bilhões re- privado de R$ 3. provenientes do Fundo Constitucional do Nordeste para o Turismo (FNE/Proatur). As prefeituras des- Estão previstos. incluindo a contratação de auditoria independente. e outra operação de crédito com a SPE. Entretanto.27-44. dependendo do desempenho da SPE e do risco compartilhado de variação de receita (COSTA et al. BRASIL. 21 A Arena Pernambuco tem uma previsão contratual de tação paga pelo poder público que tem por objetivo complementar a remuneração R$ 73. com a União e bancos pú- tivam complementar as receitas da SPE e viabilizar financeiramente o projeto. debên- tures são valores mobiliários o contrato de construção. A. 2013.7 bilhões em empréstimos pelo Poder Concedente durante a fase de operação da Arena. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. verifica-se que o modelo de financiamento do BNDES para o Projeto Cidade da Copa compõe-se de duas operações de crédito distintas. esse valor já está defasado.ALEXANDRE SABINO DO NASCIMENTO Conforme relatório de acompanhamento da obra do Tribunal de Contas da União. as debêntures e parte da dívida do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). despesas pré-operacionais e o ressarcimento pelo estudo de representativos de dívida de viabilidade. que teriam Mundo aumentou. a SPE deveria receber a quantia de R$ 482 milhões. em maio de 2013.99 milhões (data-base maio/2009). a exemplo do que ocorreu em outras sedes do evento20. médio e longo prazos que asseguram a seus detento- mas a esse montante não se somaram os quase R$ 80 milhões gastos para montar as res (debenturistas) direito de estruturas temporárias – que só funcionaram durante o período da Copa das Confe. Destaca-se que. que seria utilizada para repagar a dívida do BNDES. 2014). modificáveis para mais ou para ferentes a financiamentos antigos (DANTAS..2 milhões de fatura- dos acionistas. o compartilha- mento de perdas e ganhos. aumentando o retorno financeiro do projeto e tornando-o atrativo mento por ano. oficialmente. Assim. Além disso.A. 2012)21.16. caso a Arena tenha performance abaixo da R. N. valor que inclui Capitais (ANBIMA).

como afirma Barclay: [. Arenas (BNDES.27-44. Assim. RODRÍGUEZ.] a construção de novos estádios pode aumentar a atividade econômica. Daí Harvey (2004) falar de uma “opressão via capital” exercida pelos poderes do Estado e pela acumulação do capital. 2011). Observamos. produzir alto custo de manutenção.0048. MOULAERT. 2009.16. haja vista a dimensão dos recursos públicos envolvidos e o regime jurídico excepcional de que são beneficiários.02. tem por conse- quência a redução de outros serviços públicos. a falta de planejamento após o megaevento esportivo pode provocar a subutilização das infraestruturas construí- das e. Assim.BNDES ProCopa que deveriam garantir necessidades básicas da população. vinte jogos na nova arena. pois todos os grandes clubes de Recife possuem seus estádios e alguns ainda têm projetos de construção de arenas multiuso (Sport e Santa Cruz) (SEGALLA. N. Considerações Finais Optou-se por uma pesquisa qualitativa que objetivou inquerir se a Copa de 2014 significa um extraordinário instrumento de legitimação de grandes projetos de transformação do tecido urbano. com vistas a intensificar retornos privados em termos de valorização imobiliária e financeira. mas a mesma já foi descabida. 2005. mas também pode elevar os custos de oportunidade para o setor público e. cada um. p. Para os países em desenvolvimento existem grandes riscos na promoção de um megaevento. estão comprometidos caso os governos não quitem seus débitos. na era de uma economia especulativa. que buscam um ambiente institucional seguro (lei. com isso. de que somos testemunha há mais de uma década em escala mundial. ainda. Destaca-se. 2013). / NOVEMBRO 2014 . A M E T R Ó P O L E E A S P E R F Í D I A S D O C A P I T A L prevista. [20--]b). 2002). ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V.2..1) foi assinado em 22/2/2011. os GPDUs não são gerados somente pelos gastos estatais mas também diretamente pelo impulso econômico do capital financeiro. (HARVEY. mais um termo abusivo que compromete ainda mais o governo. 40 R. haja vista que os estádios cons- truídos podem se tornar ‘elefantes brancos’ (BARCLAY. desse modo. Aliado ao aspecto do endividamento público. Sport e Santa Cruz) jogassem. como saúde e educação. ele precisa sempre buscar novas possibilidades de ativos reais para se valorizar. parcelas ou quotas-parte do Fundo de Participação dos Estados e 22 Ver Programa BNDES de do Distrito Federal (FPE)22. A expectativa era de que os três principais times do Recife (Náutico. geralmente. vinculando em garantia. p. O “capital fictício” das bolhas financeiras não pode ser armazenado eternamente nos mercados financeiros. SWYNGEDOUW. justi- ficando-se os elevados custos aos cofres públicos (HARVEY. propriedade privada.. B. 63. Temos o que Harvey (2005) chama de acumulação por espoliação via Estado. os repasses federais para os Estados e municípios Arenas para a Copa do Mun- do de 2014 . o governo irá complementar o resultado aumentando a contraprestação. pois o contrato entre o BNDES e o governo do estado de Pernambuco (Contrato 11. contrato). criando redes espaciais capitalistas. tradução nossa). em favor do BNDES. um maior empréstimo do governo ou im- postos mais altos. a questão das consequências e custos de opor- tunidade que impactam uma cidade ou país que recebe um megaevento.

2013. muitos sem garantias materiais? Quais as E-mail: geographerspower@ gmail. / NOVEMBRO 2014 41 . em empreendimentos de alto custo e risco. tão em alta ultimamente nas cidades pelo mundo. MARICATO.27-44. entre outras grandes obras de rearranjo espacial que são levadas a cabo pelo Estado (PAC.com.gov. p. São Paulo: Vozes. de forma a começarmos a refletir e a compreender como está se dando esse processo na economia brasileira e pernam- bucana para que se possa realizar esse tipo de evento estandardizado mundo afora. PMCMV) em parceria com o capital. doutorando em Geografia pela Universidade Federal de projeto Cidade da Copa. 29. p. BNDES Project Finance. BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.bndes. Mercado imobiliário – IVV. Sem falar das grandes obras de mobilidade.com. Acesso em: 20 jan. mestre em Geografia pela Universidade metrópoles em benefício da expansão da valorização dos capitais envolvidos. n. a construção de shoppings centers. entre as quais a responsável pelo mega.ALEXANDRE SABINO DO NASCIMENTO Dentro da lógica de circulação do capital que permeia tudo isso tem-se como exemplos desse espaço produzido. assim como atentou-se para a importância dos megaeventos e seus grandes projetos de “desenvolvimento” urbano (GPDUs) correlatos para o sistema capitalista. 2. Bibliografia consultada ADEMI-PE.2. B. a produção de megaeventos esportivos. centros empresariais. 2014. E. BARCLAY. C. Rio de Janeiro: BNDES. empreendi- mentos de turismo e lazer (arenas multiuso). Destaca-se a importância de se analisar a relação entre o capital financeiro. J.ademi-pe. consequências disso para o maior endividamento do Estado (Dívida Pública)? E quais Artigo recebido em maio de os custos de oportunidades para sanar ou minimizar problemas sociais históricos das 2014 e aprovado para publi- metrópoles brasileiras? cação em julho de 2014. T. Resta perguntar como o dinheiro público pode ser usado Pernambuco (UFPE). ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS V. Acesso em: 12 jan. (Org. p. que representam uma nova forma de relação entre mercado e Estado. ARAÚJO. [20--]. B. Disponível em: <http://g1.). 2009. Por fim. 2009.globo. Rio de Janeiro: FLACSO Brasil. Esse Federal do Ceará (UFC). ARANTES. 2014. Recife: ADEMI-PE. [20--]a. Predicting the costs and benefits of mega-sporting events: misjudgement of olympic proportions? Economic Affairs. jun. encontro se dá na forma de consórcios e SPE.br/SiteB- NDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Apoio_Financeiro/Produtos/Project_Finance/>.. 2014. 26 jun. BAIRROS planejados viram tendência no mercado imobiliário de PE. Disponível em: <http://www. 157-171. G1 Pernambuco. Analisou-se o papel do Estado na viabilização desses eventos e sua consecução via financiamento e construção de PPPs. R.br/mercado-imobiliario-ivv/>. N.html>. Brasil. 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. o Estado e os projetos urbanos de larga escala. VAINER. O. São Paulo: Boitempo.com/pernambuco/noticia/2012/06/bairros -planejados-viram-tendencia-no-mercado-imobiliario-de-pe.. In: SADER. Desenvolvimento regional brasileiro e políticas públicas federais no governo Lula. Disponível em: <http:// www. E. v. A cidade do pensamento único: desman- chando consensos. em consonância com o capital financeiro. B. 2012. 62-66. conclui-se que tudo isso permite o encontro de interesses entre agentes Alexandre Sabino do Nasci- locais e estrangeiros para reestruturar o espaço urbano (e regional em Recife) de mento é geógrafo.16. grandes condomí- nios e loteamentos fechados e hotéis. com a finalidade de criar novos espaços que sirvam à lógica de circulação e absorção do capital. Acesso em: 30 jul.

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