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SOARES, Carmen Lúcia. Notas sobre a educação no corpo. Educ. rev.

,
Curitiba , n. 16, p. 43-60, Dec. 2000 . Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
40602000000200004&lng=en&nrm=iso>. access on 10 July 2017.
Notas sobre a educação no corpo*
http://dx.doi.org/10.1590/0104-4060.205.

Carmen Lúcia Soares**

RESUMO

Os Sistemas Ginásticos são aqui compreendidos como um conjunto de
conhecimentos sistematizado pelo pensamento científico que se consolida
na Europa ao longo do século XIX constituindo, assim, formas modelares
de educação do corpo. Revelam-se como mais um produto resultante do
alargamento do urbano, da afirmação do urbano na vida em sociedade que
tem a cidade como centro de poder. A cidade e os corpos que nela habi-
tam tornam-se objeto de intervenção e de domínio da ciência. Os Sistemas
Ginásticos têm a pretensão de contribuir para a regeneração física da so-
ciedade, preservando a saúde da população em geral, assim como
preparando o soldado para o combate. A Ginástica que surge e se afirma
no período apresenta, então, uma competência tutelada, de um lado, pelo
exército, através de certas técnicas e, de um outro, pela instituição médica
de quem recebe a autoridade de seu saber. Constitui-se, portanto, como
modelo técnico de educação do corpo, entendido como conjunto de forças
capaz de por em movimento determinações precisas, conter e reprimir de-
sejos, preservar energia.
Palavras-chave: corpo, ginástica, educação.

ABSTRACT

The Gymnastic Systems are understood here as a group of knowledge
systematized by the scientific thought, which had been solidified in
Europe along the nineteenth century, thus constituting shaped forms of
body education. They are revealed as one more product resulting from ur-
ban enlargement, urban affirmation of life in society, which has the city as

* Este texto foi originalmente apresentado no VII Congresso Brasileiro de História da
Educação Física, Esporte, Lazer e Dança, na Mesa Redonda intitulada “ Os Sistemas Ginásticos e
a Educação Física Brasileira”, realizado na cidade de Gramado/RS, no período de 29/05 a 01/06
de 2000.
** Doutora em Educação, Faculdade de Educação da Universidade de Campinas - Uni-
camp.

Educar, Curitiba, n. 16, p. 43-60. 2000. Editora da UFPR 43

bem como sobre o modo seletivo como são incorporados por parte da elite brasileira que. do circo. dos espetáculos de rua. 2000. Notas sobre a educação no corpo a center of power. 1996. ed. Tratado de Educação Física: problema pedagógico e histórico. which are able to start moving pre- cise determinations. porém. D. R.d. comprehended as a group of forces. A Ginástica que será objeto de interesse. com abordagens científicas acerca da realidade individual e social. À Ginástica é exigido o rompimento com o seu núcleo primordial. PEREIRA. made up as a technical model of body educa- tion. n. C. 16. no século XIX. 43-60. Para sua aceitação. presents on one hand. Possui em seu interior princípios de ordem e disciplina coletiva que podem ser potencializados. in general. cuja característica dominante localiza-se no campo dos divertimentos.]. preserving. C. dos exercícios militares. pouco a pouco. Histoire de la Gymnastique en Europe: de l’antiquité à nos jours. LANGLADE. become an object of intervention and domain of science. com idéias de progresso. Editora da UFPR . therefore. So the Gymnastics. estes princípios de disciplina e ordem não são suficientes. It is. Teoría general de la Gimnasia. a protective competence by the army through certain techniques. The Gymnastic Systems intend to con- tribute to the physical regeneration of society. Key-words: body. 1986. A. gymnastics. The city and bodies. Buenos Aires: Stadium. which inhabit in it. [s. M. identificava- se com o novo. Curitiba. 2. and on the other hand. Lisboa: Bertrand. Como expressão da cultura. bem como dos passatempos da aristocracia. N. F. 44 Educar. afirmá-la como parte da educação dos in- 1 Sobre a Ginástica na Europa do século XIX ver entre outros: LANGLADE. popula- tion is health. education. by the medical institution from whom it receives the authority of its knowledge. de estudo e de aplicação no Brasil é aquela já praticada em diferentes países europeus ao longo do século XIX1. as well as getting the soldier ready for the battle. contain and repress desires. p. a gradativa aceitação dos princípios de ordem e disciplina formulados pela Ginástica e também o gradativo afastamento de seu núcleo primordial que vão. É. Paris: Presses Universitaires de France. a Ginástica européia constrói-se a partir dos divertimentos populares. which appears and asseverates itself in the period. preserve energy. Introdução Minha leitura da relação e influência dos chamados Sistemas Ginásticos Europeus na formação da Educação Física brasileira recai sobre o conhe- cimento que constitui estes Sistemas.. L.SOARES. LATY. portanto.

E todas estas características permearam o ideário de intelectuais brasileiros na elaboração e implementação da Ginástica3 que. L. 1999. n. de preparação do soldado e de moralização. L. Assim. O sistemas ginásticos. no século XIX. assim. cresce a mendicância. 18 a 33. a Ginástica passa a ser vista como prática capaz de potencializar a necessidade de utilidade das ações e dos gestos e de ensinar o indivíduo a internalizar uma noção de economia de tempo. S. devolvida à população como conjunto de preceitos e normas de bem viver. A. 16.2 Embora existam singularidades a partir do país de origem. de busca de saúde. O Método francês e a Educação Física no Brasil: da caserna à escola. SOARES. V. de certo modo. Campinas: Autores Associados. Porém. tais como: a idéia de regeneração física. 1992. É a partir deste reconhecimento que. ficou restrita ao discurso do poder4. 43-60. Campinas. do alargamento do urbano na vida em sociedade que se dá no século XIX. ela pode ser compreendida como instru- mento de divulgação de preceitos e normas. faltam moradias e saneamento. A cidade precisa ser organizada. Curitiba. SOARES. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) . 2000. consolidou-se como centro do Ocidente. pois nela se alastram doenças. Notas sobre a educação no corpo divíduos. p. de modos de comportamento. é possível destacar que o seu reconhecimento pelos círculos científicos é fator decisivo para sua aceitação por uma burguesia que a deseja transformada e. de gasto de energia e de cultivo à saúde como princípios organizadores do cotidiano. Especialmente capítulo 2.Univeridade de Campinas. 4 Ver a respeito a pesquisa de MORENO. da técnica e das condições políticas de uma Europa que. Uma Ginástica que estará reformulando seus preceitos a partir da ciência. é possível considerar a existência de características comuns à Ginástica praticada. C. Imagens da educação no corpo. o corpo e a instauração da ordem Os Sistemas Ginásticos europeus constituem-se como produto do mundo urbano. Editora da UFPR 45 . de fato. É também nela que se encontra o centro do poder. Mosaico de imagens e textos: a ginástica e o corpo masculino. 3 Ver especialmente a pesquisa de GOELLNER. como mecanismo de constituição e regulação da consciência. Educar. Texto de Exame de Qualificação (Doutorado) . C. 1998. Porto Alegre.Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2 Cf. p.

L. 42. é construção humana. é expressão do discurso e prática do poder. a concepção de saúde que se estrutura nesse período. O corpo do indivíduo é a con- cretização da força de trabalho.6 A afirmação da Ginástica no mundo urbano está fortemente vinculada à instauração da ordem e a ordem militar é. Notas sobre a educação no corpo As relações que se estabelecem com o corpo e. Seus manuais. uma competência científica e afirma-se em seu discurso como prática científica. entre normalidade física e moral. o corpo social é a garantia de reprodução dessa mercadoria. É aí que a ati- tude militar. 6 VIGARELLO. e o desenvolvimento de todas as nossas faculdades. O corpo do mundo: reflexões acerca da expectativa de corpo na modernidade. sua inspiração. Vale-se de explicações científicas para diferenciar-se de artistas de rua. 154. 16. portanto. por exemplo. pela busca de uma altivez aristocrática matizada de utilita- rismo burguês. O corpo é entendido como conjunto de forças capaz de por em movimento determinações precisas. A Ginástica. C. M. Porém. 2000. Florianópolis. nossos costumes. como modelo técnico de educação do corpo. de acrobatas. conter e reprimir desejos. n. sem dúvida. p. mas de moral. de funâmbulos. e toda sua precisão. G. Editora da UFPR . empresta denso material para o campo das pedagogias que vão incidir sobre o corpo. nossos sentimentos. A. ela reivindica de modo explícito e constante. nossa inteligência. Em seus preceitos. ela surge como vestimenta necessária a um corpo que se apre- senta em uma nudez não de vestes.SOARES. do mundo do circo.5 O corpo. 43-60. p. são verdadeiras teias tecidas a partir de referenciais científicos que concebem a Ginástica [. a como colocar-se e manter-se ereto. apresentam fortes marcas de uma ordem econômica tão diversa quanto a do capitalismo. mercadoria fundamental nesta nova ordem. a prestar atenção a esta postura de retidão. Curitiba. de suas relações com nossos sentidos. preservar ener- gia. Paris: Jean Pierre Delarge. é objeto de conhecimento e de intervenção. A Ginástica vai ensinar as distâncias e os alinhamentos do corpo no espaço. Les corps rédressé. Revela sua estética que pode ser traduzida pela retidão dos corpos. é algo que se domina.. 1999. sendo a Ginástica aquela que se revela como técnica singular de intervenção. A Ginástica abarca a prática de todos os exercícios que tendem a tornar o homem mais corajoso. Tese (Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas) - Universidade Federal de Santa Catarina. p. Assim. mais intrépido. paralelamente.. há uma clara percepção das relações entre o físico e o moral.. 1978.] como a ciência fundamentada de nossos movimentos. aqueles que se elaboram no século XIX.. 5 SILVA. é mensurável. a tomar consciência da posição do corpo no espaço. 46 Educar.

as quais lhe foram fixadas pelo poder. muitas vezes. Curitiba. mais sensível. o médico passa a consagrar uma parte cada vez maior de seu tempo às tarefas mais gerais do ponto de vista administrativo. já en- tendida como técnica geral de saúde. 9 FOUCAULT. 16. n. v. mais flexível e mais ágil e que nos dispõem a resistir a todas as in- tempéries das estações. O autor ainda observa que é a . pela Instituição Médica de quem recebe a autoridade do saber.“o médico se torna o grande conselheiro e o grande perito. de suas habitações.7 No interior destes manuais. y O. antes de sê-la econômica e socialmente no século XIX. 1838.”10 7 AMOROS. 202.. de um outro. de todos os sa- crifícios. 2000. 1. o aumento da força e da riqueza individual e pública são seus resultados positivos. mais forte. serviços de destaque ao Estado e à humanidade. através da utilização de certas técnicas e.. corrigir. pelo Exército. 43-60. mais veloz. a saúde. “função de higienista mais do que (os) prestígios de terapeuta. melhorar o corpo social e mantê-lo em permanente saúde. a todas as variações climáticas. 6. F. C. Nouveau Manuel d’Éducation Physique. de suas condições de vida. M. a medicina. enfim. 203. a prática de todas as virtudes sociais. cit. p.8 A Ginástica que se consolida no século XIX afirma. pelo menos na de observar. uma com- petência tutelada. a triunfar sobre todos os perigos e todos obstáculos. pois contemplam preocupações acerca da saúde e da doença dos indivíduos. pensadores da Antiguidade e do Renascimento são invo- cados e.. Gymnastique e Morale. então. Foucault9 observa que dentro de uma maquinaria de poder estatal que tende a se estender e se afirmar durante o século XVIII. a vencer todas as dificuldades. Editora da UFPR 47 . 8 Exemplos mais evidentes são encontrados com referência à cultura grega e também à obra de F.” Educar. o pro- longamento da vida. a prestar. 1. se não na arte de governar. Notas sobre a educação no corpo mais inteligente. mais desembaraçado. Por sua vez. 1986. têm suas obras deslocadas e roubadas de sua inteireza para afirmar a cientificidade da Ginástica e os novos cânones do corpo limpo e civili- zado trazidos pela sua prática constante. p. os mais difíceis e os mais generosos são os seus meios.. p. mas também em publicações que tratam dos benefícios da Ginástica. Essas tarefas dizem respeito à própria dinâmica da sociedade. p. Paris: La Librairie Encyclopédique de Roret. o aprimoramento da espécie humana. SOARES. seus costumes e seus hábitos. op. É nesse momento que tem início a formação de um saber médico administrativo e .. Rio de Janeiro: Edições Graal. Rabelais. assume lugar cada vez mais destacado e de importância. a suportar todas as pri- vações e contrariedades da vida. L. Microfísica do poder. de um lado. ed. 10 FOUCAULT. A beneficência e a utilidade pública são o objetivo principal da ginástica. que (assegura aos médicos) esta posição politicamente privilegiada no século XVIII. mais astuto.

p. ao libertar. através do [. ed. localizado. Isto porque a Ginástica. O processo civilizador: uma história dos costumes. sobretudo. o caráter contraditório deste conhecimento que.. A nova 11 FOUCAULT. op. que o poder exerceu sobre o corpo das crianças. meticuloso. o que nos interessa analisar. a exaltação do belo corpo [. sobre o corpo sadio. 14 Este tema está mais amplamente desenvolvido em SOARES. a nudez. 13 Ver ELIAS. cit. cit. 1994. 146.] efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica. Fisiologia. cit.13 Daí a obsessiva negação da Ginástica de seus vínculos com os di- vertimentos populares. N. 48 Educar. e assim aumentar o tempo de vida dos indivíduos. com as mais variadas formas do corpo como espetáculo de rua.] através de um trabalho insistente. na Anatomia.14 Quando a negação deste universo tornava-se impossível. os exercícios. 43-60.. juntamente com a compreensão de ser ela técnica capaz de con- tribuir para a incorporação de alguns cuidados de si. Notas sobre a educação no corpo Cabe ressaltar que o conhecimento médico. 1.12 Esta forte vincu- lação com o universo científico é que foi permitindo sua inserção no discurso do poder.. aprisiona e revela-se como mecanismo de poder por parte do Estado que o utiliza como poder disciplinar e de modo ora sutil. as explicações buscadas recaíam sempre no caráter de utilidade das ações de- senvolvidas15. 2000.11 Os Sistemas Ginásticos europeus e o conhecimento que os constitui A Ginástica privilegiou em suas sistematizações o conhecimento cien- tífico. à Música e ao Canto. v. Higiene e Mecânica. Portanto. op. Rio de Janeiro: Zahar. de novos códigos de civilidade. obstinado. dele se vale para o controle das massas urbanas. neste particular.SOARES. ora acintoso. dos soldados. também. 12 Ver especialmente AMOROS. n. C. Entretanto. deseja construir um corpo reves- tido milimetricamente. os quais foram copiados dos funâmbulos italianos da Idade Média e Renascimento. ao curar doenças. conter epidemias. fazendo alguma alusão à Filosofia. o de- senvolvimento muscular. cujo porte deve exibir simetrias nunca vistas. Curitiba. 16. 15 Como exemplo podemos nos referir aos aparelhos utilizados por AMOROS. p. cabe ressaltar. é tudo o que se ousou fazer em nome da saúde para a manutenção da ordem e.. L. significou uma certa “ libertação”. no século XIX. op. Editora da UFPR .. 2.

sobretudo nela. ou. Notas sobre a educação no corpo roupagem deste corpo deve ocultar qualquer vestígio de exibição do orgânico. cit. o termo Ginástica. 1983. assim. danças e canto18. de designação feminina e que historicamente se constrói a partir de atributos culturalmente definidos como masculinos: força. op. A História do corpo. energia/têmpera de caráter. racional. acrobacias. agilidade. da crença no chamado progresso e. Como decorrência de sua prática sistemática. qualquer perda de fixidez. sal- tos. qualquer sinal de mutação. LUZ. Destaca-se pelo seu caráter ordenativo. SOARES. M. comparado. social: razão médica e racionalidade científica moderna. mais pre- cisamente. ed. esgrima. pertencente ao gênero feminino. Editora da UFPR 49 .. organicistas e mecanicistas.. n. A Ginástica é constitutiva desta mentalidade. Esta era a opinião de médicos e pedago- gos que. que os mantenha em verticalidade. 1990. entre outros. são jogos populares ou da nobreza. Curitiba.. pretendendo estabelecer uma ordem lógica nas atividades e um adequado aproveitamento do tempo ou. compreendida já como con- quista e responsabilidade individual. 2000. Os corpos devem apresentar-se em uma normalidade utilitária e desde a infância. E. passa a compreender diferentes práticas corporais. J. p. 1988. T. do simples ao complexo. L. p.17 A ciência deste período dirige um certo tipo de esquadrinhamento da vida em todas as suas dimensões. p. op. 16. deve incidir uma educação que privilegie a retidão. Abarcando uma enorme gama de práticas corporais. uma economia de energias. 16 VIGARELLO. LANGLADE. op. disciplinador e metódico. Rio de Janeiro: Campus. Educar. cit. 2. cit. ou melhor. A Ginástica. corridas. portanto. é também parte de uma ideologia cientificista que impregna a vida de indivíduos. LANGLADE. grupos e classes. da industrialização e do crescimento de disciplinas e de instituições sociais. ao afirmarem a Ginástica. equitação.. Da divisão do trabalho social. 9. classificado. Natural. 18 Sobre o assunto consultar: PEREIRA. A partir de visões de mundo geradas no interior de teorias evolucionis- tas. acentuavam as críticas aos “excessos do corpo” vividos por acrobatas e funâmbulos. virilidade. 78-79. São Paulo: Abril Cultural. é parte de uma mentalidade científica. CRESPO. definido e generalizado a partir da descoberta cons- tante de “leis”. 57 p. adquire-se e preserva-se a saúde. São exercícios militares de preparação para a guerra. 43-60. Lisboa: Difel. transformando a so- ciedade em um grande organismo vivo que tende a evoluir do inferior ao su- perior. como afirma Vigarello16. o século XIX realiza a grande revolução cien- tífica dos laboratórios. C. e onde tudo pode (e deve) ser medido. 17 A esse respeito ver DURKHEIM.

então. pela ciência e pela técnica.. L.. mas sobretudo na Biologia e na História Natu- ral. Solicitava-se da ciência. na preservação da disciplina e da ordem. 50 Educar. é o modelo mecanicista. o estabelecimento de diferenças. portanto.. desejam aprisionar todas as formas/lin- guagens das práticas corporais sob uma única denominação: GINÁSTICA. 2000. que se baseia não apenas na Física. o termo Ginástica foi assim compreendido. 20 LUZ. Balizaram o pensamento moderno em torno das práticas corporais que se construíram fora do mundo do trabalho. op.] reconduzido à sua natureza biológica que determina de uma maneira natural os seus caracteres e as suas propriedades [.. O que predomina no pensamento científico no século XIX. trazendo a idéia de saúde. e pensava-se. E é somente a partir da constatação da cientificidade da Ginástica que a burguesia. especialmente p.. um primeiro esboço deste esforço e o lugar de onde partiram as teorias da hoje denominada Edu- cação Física no Ocidente. 16. p. Os Sistemas Ginásticos Europeus foram. inicia um lento processo de tentativa de diferenciar sua aplicação entre os militares e a população civil.19 Ciência e técnica parecem sempre ter comparecido para afirmar a Ginástica como instrumento de aquisição de saúde. 423 e seguintes. A Ginástica deveria transformar-se em objeto de investigação científica e. Editora da UFPR . vigor. sobretudo. Suécia e França. especialmente na Ale- manha. podendo ser pensados como conjunto sistematizado. cit. 43-60. cit. n. C. Notas sobre a educação no corpo Em suas primeiras sistematizações na sociedade ocidental européia. não de oposições. tão caras à instituição militar. Quando os círculos científicos se debruçam sobre o seu conteúdo. experimentado e explicado.SOARES. Este indivíduo aparece como in- dependente da cultura. 74.20 O modelo de conhecimento adotado por este pensamento científico. Curitiba. podendo assim ser [. desse modo. no século XIX. alheio a uma interação. no qual o indivíduo.] o indivíduo humano é biologi- 19 Sobre o assunto consultar PEREIRA. do que ocorreu em diferentes países ao longo do século XIX. Comparecem. op. sobretudo. de formação estética e de treinamento do soldado. p. energia e moral coladas à sua aplicação. sujeito que conhece. para revelar a Ginástica como protagonista do que é racional. aparece isolado da sociedade. apartar-se definitivamente de seus vínculos populares.. sobretudo na constituição das disciplinas sociais? Predomina o pensamento naturalista do positivismo que fará nascer a disciplina que terá como objeto de enunciados positivos (científicos) a própria sociedade como tal e suas leis.

Editora da UFPR 51 . p. cujas relações humanas não vão além daquelas que a própria natureza estabelece. G. a ordem. então. 2. duas palavras que revelam descontinuidades radicais de sen- tido. re- duzindo-os à mecânica do movimento. Consolida-se. Rio de Janeiro: Zahar. J. elementos da ideologia igualitária. 16. assim. N. SOARES. Ao reorganizar os gestos. 31. mas que são largamente utilizadas no campo da Ginástica. como já ob- servamos. em suas prescrições. Curitiba. evocam-se as “ap- tidões naturais”. p. Após a Revolução Francesa. a função que ela exerce se altera radicalmente: a noção de aptidão. a hierarquia e a saúde como responsabili- dade individual. A Ginástica será. São Paulo: Martins Fontes. 78. a partir daí. 1983. Notas sobre a educação no corpo camente determinado e introduz esta determinação no processo do conhe- cimento por intermédio do seu aparelho perceptivo. Em nome do progresso e da necessidade de diferentes indivíduos para ocuparem diferentes postos na sociedade capitalista. n.] as noções de mérito e responsabilidade individual. invariáveis e independentes da ação hu- mana porque até mesmo o ser humano fica reduzido aos seus determinantes biológicos. quando aparece articulada com [. Assim. Noelle Bisseret22constata que a atribuição de importância à palavra ap- tidão torna-se evidente a partir do século XVIII. surge como um grande organismo vivo. As metáforas organicistas afirmam-se e a própria sociedade. L. História e verdade. C. pautada por este modelo do conhe- cimento. Uma vez abstraído o elemento histórico-social na constituição do sujeito que conhece. Educar. a causa das desigualdades só pode ser atribuída a um dado “natu- ral”. 43-60. vai produzir um conjunto de teorias que passarão a justificar as desigualdades sociais pela via das desigualdades biológicas e.21 A abordagem positivista de ciência. a idéia de que é regida por leis naturais. o que resta é um ser determinado pelas leis biológicas. Como a nova sociedade e as instituições escolares são colocadas como igualitárias. 22 BISSERET. figuram de um modo singular. p. (Org).. a disciplina. 2000. ed. “desigualdades naturais”. Educação e hegemonia de classe. mais uma expressão da naturalização da so- ciedade. como tal. apenas registra e trans- forma os impulsos vindos do mundo exterior. se o seu lugar permanece central nesse sistema ideológico. A Ideologia das aptidões naturais. A. In: DURAND. contribui para a criação de hábitos e 21 SCHAFF.. C. 1978. serve progressivamente de suporte para justificar a manutenção das desigualdades sociais e escolares que as traduzem e perpetuam. de uma sociedade que deseja ordem e hierarquia.

C. Notas sobre a educação no corpo atitudes necessários à ordem capitalista e seus códigos. material ou institucional) como ob- 23 Este tema está desenvolvido mais amplamente em SOARES. diferentes formas de intervenção na so- ciedade. 2000. O pensamento médico23. Apresenta. Pensamento médico e consolidação da Ginástica O pensamento médico e a medicina como instituição. n.. Curitiba. a saúde. com profundas implicações moralizadoras. Editora da UFPR . aproximando-se de um entendimento da medicina como medicina social. Química. Apresenta. L. tinham espaço alargado aquelas que tematizavam o meio circundante ( natural. Estas concepções da medicina social não foram dominantes e sim aquelas que se apresentavam a partir de “[. diferentes conceitos sobre a doença. p. 24 LUZ. 1994. chegando até a elaborar um pensamento que vê o homem para além dos limites dados pela Biologia. não possui uma homogeneidade de discurso e prática. pensamento que deu origem a um novo ramo no interior das ciências médicas: a medicina social.. 24 No conjunto destas concepções. não era suficiente a intervenção médica no corpo indi- vidual ou no coletivo social como postulava a medicina clínica. sim. A medicina social que se estruturou a partir do século XIX. 94. o pensamento médico. procurava demonstrar que a causa ou determinação das doenças era a realidade social do capitalismo e. com propostas políticas impli- cando adaptação de sujeitos. 16.] teorias e categorias higienistas. L. A saúde seria conquistada e conservada com a mudança da sociedade. A apropriação do espaço e do tempo possuem outra lógica a ser internalizada. 52 Educar. para tal.SOARES. C. tiveram um papel significativo na construção e ordenação de uma racionalidade social que nasce colada às exigências de saúde a partir de uma compreensão de corpo como corpo biológico.. op. Neste quadro de conceitos científicos e morais é que se situa um pen- samento importante na consolidação da Ginástica. cit. Campinas: Autores Associados. contudo. Fisiologia. p. grupos e classes às regras médicas num processo racionalizador civilizatório”. Educação Física: raízes européias e Brasil. também. 43-60. É a estrutura social que explica o surgimento das doenças. a cura.

sobre a saúde. PEREIRA. sadio e útil.. entre os quais. Todavia. físicas (meio físico). constituiram-se em instrumentos de intervenção na sociedade. 25-26. as quais. e sobretudo no campo da Biologia. e ainda às formas assumidas historicamente por essas relações. estes mesmos conhecimentos retar- daram largamente a compreensão do homem como um ser de natureza social. 16. n. O pensamento médico higienista teve uma forte influência no conjunto de conhecimentos que constituíram a Ginástica. suas propostas e projetos iam ao encontro desta expectativa. p. O discurso e a prática médica em suas con- cepções higienistas. pois [. cuja humanidade provém de sua vida em sociedade. ao lado dos saudáveis. evidenciando que as causas das doenças não eram mais um castigo de Deus. normativo e adaptativo-edu- cativo. 43-60. pensada então como um me- canismo a mais na construção de um corpo limpo. ao mesmo tempo que divulgavam cuidados básicos sobre o corpo. 2. Editora da UFPR 53 . uma vez conhecidas. p. SOARES. Notas sobre a educação no corpo jeto da intervenção médica tais como o sanitarismo. Para o poder.] na medida em que a multiplicidade das determinações que marcam o corpo dizem respeito à forma pela qual o homem se relaciona com o meio físico e com os outros homens. o corpo anátomo-fisiológico aparece como um corpo investido social- mente. Curitiba. L. ed. so- bre os modos de viver eram traduzidas pelo discurso da boa higiene que pos- tulou regras de bem viver. F. 2000. Se as causas não poderiam ser sociais. Educar. L. 1979. a polícia médica e a engenharia sanitária. era necessário elaborar outras razões que não as sociais. uma prática que opera tanto no corpo individual quanto na so- ciedade em seu conjunto. Não é possível negar que os conhecimentos gerados no interior das ciên- cias médicas. Porém. E a explicação para a existência de corpos doentes não deveria re- cair sobre as condições de vida. A expectativa do poder era por corpos saudáveis e as intervenções médi- cas. as relações de produção capitalista. As tecnologias políticas que investiram sobre o corpo. elas seriam biológicas. tiveram um significado de libertação. Saúde e sociedade. quando tornada hábito.25 25 DONNANGELO. É através das formas elaboradas na vida coletiva que o corpo se dimen- siona e adquire o significado por referência à especialidade da estrutura social. M. C. São Paulo: Duas Cidades. o exercício físico. de forte caráter moralizador.. naturais e morais. os corpos doentes estavam também presentes em abundância. permitiriam o alcance da tão almejada saúde. É deste enquadramento de idéias que emerge a educação do corpo pela Ginástica.. C.

então. Editora da UFPR . MAREY e G. p. 2000. e também de sua aplicação no trabalho. a formação específica dar-se-ia em duas etapas. 1988. 16. 43-60. Curitiba. Na primeira. Rio de Janeiro: Paz e Terra. a criação da ergonomia. VIGARELLO. p. cit. em movimento. Os excluídos da história: operários. M. uma pedagogia terapêutica No âmbito. aquele que pleiteia a tarefa de ensinar Ginástica deveria ter uma formação no campo da Filosofia e rece- ber lições de canto e expressão musical. elabora-se. Assim. 54 Educar. n.27 Nesse momento. Cabe destacar também os sofisticados estudos realizados por E. cuja obra foi sistematizada na primeira metade do século XIX. com requinte. Mais amplamente. passa a ser visto como o centro do aparelho produtivo.. op.28 O profissional da Ginástica A Ginástica tornava-se algo com relativa importância e uma formação específica para ensiná-la colocava-se como necessária. L. mulheres e prisioneiros. C. um modelo novo de corpo útil e uma tecnologia do orgânico se conceitualiza com a finalidade de fazer crescer a chamada eficácia funcional. sobretudo da resistência ao desgaste nervoso. 28 Para maiores informações consultar VIGARELLO. Na segunda metade do século XIX. a Ginástica é abraçada por ser percebida como capaz de revelar. op. o que resulta em re- dução da importância da força física para parcela significativa da população. 27 Cf. ainda. Para Amoros. Fortemente influenciado pela idéia de 26 PERROT.78. DEMENY sobre a decomposição do movimento. Notas sobre a educação no corpo Ginástica. A Ginástica. 215.SOARES. do conhecimento que constitui a Ginástica. J. 86. p. cabe res- saltar os estudos relativos às doenças pulmonares e aos problemas respi- ratórios. há uma progressiva e cada vez mais espe- cializada utilização de máquinas no mundo do trabalho. uma visão totalmente nova do movimento corporal. cit. a partir de sua apurada sistematização. p.. a utilização da cronofotografia. passa a compor a terapêutica destas doenças com acentuada ênfase na educação da respiração. é possível afirmar com Michele Perrot26 que o corpo vivo. fundador do chamado Método Francês de Ginástica. O que se torna relevante é a obtenção e sustentação da resistência.

deviam estar vinculadas ao pragmatismo utilita- 29 ROUSSEAU. o deslocamento das explicações da Física para a Biologia e da preponderância do orgânico nas explicações do social dadas pela ciência. J. H. v. discorre largamente sobre a necessidade de uma educação dos sentidos em sua obra Emílio. destreza e resistên- cia. Os saberes sensíveis estavam na base da formação e somente de posse deles é que se passava para os conhecimentos científicos com lições de Anatomia e Fisiologia. marcadamente aristocráticas. à Pátria e a Deus. Curitiba. o zelo. Deveriam ser vir- tuosos. 1990. 2000. acrescidas ainda pela Mecânica. sobretudo daqueles portadores de taras biológicas. 1. Estética. Mas estas características. agilidade. a precisão. 1997. bem como a possibilidade de proceder a interpretações acerca do caráter de seus alunos. é ainda pre- sente na atualidade. Educar. op. até mesmo através dos cantos. reforma e criação de máquinas e instrumentos para as aulas. A inclusão destes saberes atestava o fascínio que as máquinas em geral sempre despertaram e que. encontram-se idéias sobre a formação daquele que ensina Ginástica. qual seja. a temperança. SOARES. a generosidade e o amor ao bem. Editora da UFPR 55 . C. ainda. a graciosidade. cujo conteúdo compreendia noções de cálculo e geometria e era voltado para a construção. traz em seu inte- rior uma idéia de força própria do romantismo. ao longo de toda a obra. 30 Ver AMOROS. velocidade. a energia e a perseverança. cit. Rio de Janeiro: Sprint. Amoros acreditava que para moldar o corpo era necessário um refinamento do espírito. Seus alunos eram ensinados.30 Estas ciências. Esta formação física e moral perseguida por Amoros. n. não só no âmbito da Ginástica. conferiam legitimidade àqueles que delas fizessem uso em suas profissões. L.. a servir ao Rei. leais e praticar o bem em qualquer situação. 43-60. No caso daquele que ensinava Ginástica. a reinvenção do herói e a dinamização do mito da nação. nesse período. a bondade. p. Por fim. a formação daquele que ensina Ginástica na perspectiva amorosiana comportava. As faculdades puramente físicas eram delimitadas em torno da força. A formação daquele que ensinava Ginástica completava-se pela com- preensão profunda do principal objetivo do método de Amoros: desenvolver as faculdades físicas e morais dos indivíduos. Para além do conjunto de conhecimentos científicos. As faculdades físicas e morais eram a regularidade. Lisboa: Europa-América. estas ciências. Ver Também LOVISOLO. L. permitiam-lhe a compreensão dos movimentos corporais e das suas funções. a tecnolo- gia ginástica. pela importância que possuíam na sociedade da época. Vale ressaltar. Notas sobre a educação no corpo uma educação dos sentidos29. Esporte e Educação Física. especialmente o capítulo 2. as faculdades puramente morais eram a sabedoria. 16.

E. A Engenharia desenvolvera uma apurada tecnologia nas construções de grandes estradas de ferro. Paris: Librairie Félix Alcan. E a Ginástica compunha este mosaico de certezas. L. Les bases scientifiques de l’Éducation Physique. atingia de modo direto o homem social e estava vinculada ao conceito de evolução. pontes e palácios públicos. onde apenas as ações úteis e passíveis de comprovações experimentais tinham lugar.32 A Biologia. por sua vez. n. As ações deviam ser úteis e não apenas boas ou belas ou leais. aquele que ensinava Ginástica deveria reunir os conhecimentos do sábio. a Ginástica não poderia aparecer as- sociada a práticas e locais onde o gasto de forças não era medido. sob a forma de racismo. evidências e estatísticas. Para ele. como afirma Hobsbawm. 43-60.SOARES. “monumentos às belas artes”. deslocando a culpa das desigualdades da sociedade para a “natureza”. ed. p. p. 8. 32 HOBSBAWM. C. cuja importância já era incontestável no fi- nal do século XIX. 16. A eficiência orgânica. adaptá-los ao aperfeiçoamento do homem. 2. Assim tornava-se possível. Conforme Hobsbawm. 2000.31 Demeny denominava este profissional com uma expressão bastante cu- riosa: “engenheiro biologista”. 315. parece revelar uma tentativa de Demeny de aproximar ainda mais a Ginástica de dois campos já reconhecidos e destacados da so- ciedade oitocentista. uma tentativa de fazer destas construções obras de arte ou. 31 Para maiores esclarecimentos consultar DEMENY. atestando. o biólogo Georges Demeny também deu atenção especial à problemática em torno da formação de um profissional do ramo. 1931. mais que em qualquer outro. De um certo modo. ed. bem como aqueles do prático para. navegar em certezas. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Curitiba. sobretudo nos círculos científicos: a Engenharia e a Bio- logia. 24-25. Notas sobre a educação no corpo rista da burguesia. há um outro ângulo a ser considerado nesta im- portância atribuída à Biologia. inclusive. tal como para Amoros. Para ele. Porém. Na segunda metade do século XIX. a planificação do tra- balho. G. as descrições e os números mostrados sempre com mais exatidão por uma Fisiologia cardio-pulmonar atestavam a soberania da Ciência. nesse momento em que predominava uma visão tecnificada da vida humana. expressão que sugere algumas interpretações. A era dos impérios: 1875-1914. então. a Biologia fornece os elementos essenciais para a elaboração da ideologia igualitária da burguesia. nem econo- mizado. 1988. 56 Educar. Editora da UFPR . p.

Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde. Rui Barbosa vai defender a educação pública e estatal para o povo. Obras completas. SOARES. através de um processo de ruptura com o contexto de origem e de uma adequação/adaptação aos padrões de desenvolvimento das in- cipientes relações capitalistas no Brasil. doenças e prostituição. A sociedade em seu conjunto é pensada a partir de um processo de importação de teorias européias que. da saúde e a Ginástica seria o elemento capaz de promover a saúde. Nesse momento. 174. bem como na elaboração e implementação de leis que viessem assegurar e ampliar direitos civis. 2000. fim do século XIX. entre elas . De fato. Utilizo aqui a edição de 1942. Como parte da elite que se identifica com o progresso e o desenvolvimento. da educação da respiração. por exemplo. Rui Barbosa representa parte da elite brasileira identificada com o progresso e o desenvolvimento. esboça-se no Brasil uma economia urbano-industrial e uma elite com idéias burguesas e européias projeta-se num espaço onde caminham lado a lado com uma acentuada miséria. bem como de sua ampla aceitação. 33 33 BARBOSA. Em sua obra. Editora da UFPR 57 . 9. a Saúde e também a Ginástica. L. reivindicando a eliminação da ignorância. na qual podem ser encontradas extensas análises do desenvolvimento da Ginástica na Europa. como parte integrante dos currículos escolares. era dever primário da existência humana cuidar do corpo. a escola. v. p. pois sua obrigato- riedade já era universalmente aceita. 16. da urbanidade e do asseio”. Deveria fazer parte do currículo escolar como conteúdo obrigatório. p. assimiladas seletivamente. dialoga com um Brasil que reflete de modo marcante os seus três séculos de regime colonial e o nascente e incipiente pro- cesso de transformação econômica e cultural que teve um forte impulso no início do Império e que se alarga com a proclamação da República. n. a Ginástica deveria acompanhar todo o ensino e plantar no homem o sentimento de sua necessidade assim como o do “pudor. 1882. através do exercitar de músculos. R. Educar. a Educação. passam a instrumentalizar diferentes práticas sociais. naquele continente. Para Rui Barbosa. 1. C. Curitiba. T. Notas sobre a educação no corpo Os Sistemas Ginásticos europeus e sua importância para o desenvolvimento da hoje chamada Educação Física brasileira Uma leitura possível da importância dos Sistemas Ginásticos europeus para a Educação Física brasileira pode ser efetuada através da obra de intelec- tuais que tiveram um papel determinante no fortalecimento e expansão de ins- tituições públicas como. Para este trabalho tomei como referência aspectos da obra de Rui Bar- bosa. o capitalismo está nascendo no Brasil. 43-60. Em sua concepção de educação escolar.

diplomacia e competência para. respaldada no campo das ciências biológicas.] a ginástica. R. em si mesma. Procede. um exercício eminentemente.SOARES.” A Ginástica científica. Em nome do novo.. p. do científico.. através de um exa- cerbado cuidado higiênico com o corpo. de 19 de abril de 1879. nem se podem improvisar. a uma extensa exposição de idéias baseadas em dados empíricos dos benefícios da Ginástica. C. expedido pelo ministro do Império. pedagógicas e morais. além de ser o regimen fundamental para a reconstituição de um povo cuja virilidade se depaupera e desaparece de dia em dia a olhos vistos. Curitiba. Utilizo aqui a edição de 1946. 58 Educar. asseio no vestuário e no corpo. so- bretudo. v. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde. do moderno. 16. 2. desenvolver corpos saudáveis em meio à miséria física e social do povo.. 36 Desenvolvi mais amplamente esta temática no livro Educação Física: raízes européias e Brasil. Dando à criança uma presença erecta e varonil. tornava-se.247. Para tal. um eficaz ins- trumento de veiculação de uma moral adequada ao poder. precisão e rapidez de movimentos.. assentamos insensivelmente a base de hábitos morais. 2000. especialistas num tão delicado assunto como a Ginástica escolar. 10. L.34 Quais as fontes em que se baseia Rui Barbosa em sua argumentação a favor da Ginástica? Baseia-se em obras de médicos e naquelas que tratam dos Sistemas Ginásticos europeus. o que o faz concluir. prontidão no obedecer. de fato. Editora da UFPR . integrar a Ginástica aos currículos escolares. p.] Não existem entre nós. recomendada mundialmente por médicos. pela necessidade de se fundar uma escola normal de Ginástica para formar professores. E Rui Barbosa teve habilidade. 43-60. um germem de ordem e um vigoroso alimento da liberdade. 7. em seu parecer acerca da Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública35. colocou a Ginástica como potencialmente capaz de. dedicando parte de seus estudos à análise de estatísticas de diferentes países europeus que adotaram a Ginástica por suas propriedades médicas. 1883. professor Carlos Leôncio de Carvalho. damos lições práticas de moral talvez mais poderosas do que os preceitos inculcados verbalmente. é ao mesmo tempo. passo firme e regular. especialmente página 115 e seguintes. 98.36 34 BARBOSA. insuperavelmente moralizador. Obras completas. Notas sobre a educação no corpo Rui Barbosa observa que [. n. relacionados pelo modo mais íntimo com o conforto pessoal e a felicidade da futura família. 35 Este Parecer é resultado do estudo a que a Câmara dos Deputados teve de proceder a respeito do decreto n. assim. caberia ao governo obter contratos no exterior de ginastas europeus notáveis pois “[. T.

o que predomina é uma abordagem natu- ralizada do conhecimento tratado. destacar a problemática da formação do profis- sional do ramo. p. n. Biomecânica. con- tudo. Partindo da premissa de serem os Sistemas Ginásticos europeus as primeiras sistematizações científicas da Ginástica e que serviram de base para a constituição de um pensamento científico acerca das atividades físicas nos últimos 200 anos.]. a qual se dá pela eleição de conhecimentos entendidos como necessários e importantes em diferentes momentos históricos. d. embora largamente tratadas em densas re- 37 Ver. Editora da UFPR 59 . L. Estes aspectos. mesmo com todas as críticas de nosso olhar do presente. 2000. as explicações para os fenômenos contemporâneos acerca do corpo e das atividades “físicas”. O predomínio de uma abordagem traz sérias conseqüências. Brasil. Educar. 16. e cujas per- manências merecem uma análise mais cuidadosa. es- tamos diante de uma densa problemática que. pode comprometer a compreensão da historicidade da Educação Física brasileira. MARINHO. C. 43-60. talvez pudéssemos. a formação científica é dada pela Anatomia. tendo-se ou não co- nhecimento a seu respeito. Notas sobre a educação no corpo Palavras finais Há vários aspectos que indicam as fortes marcas dos Sistemas Ginásti- cos europeus na hoje chamada Educação Física brasileira. O que permanece e o que predomina até os dias de hoje na formação do profissional do ramo no Brasil? Mesmo sendo esta formação constituída por diferentes campos do conhecimento. Tal qual nos Sistemas Ginásticos. SOARES. Desse modo. sua funcionalidade e as atividades ditas “físicas”. Curitiba. para além do que já foi tratado em torno da constituição do conhecimento que permitiu a construção destes sistemas. [s.37 A título de finalização deste trabalho. a Filosofia. Fisiologia. P. por exemplo. essencial a uma área interdiscipli- nar como a Educação Física. a Pedagogia e o campo das Ciências Físicas e Biológicas. A influência destes Sistemas Ginásticos é real. pelo pouco esforço no campo da pesquisa em privilegiar esta temática. portanto é o campo das ciências biológicas e físicas que fornece o argumento de autoridade para o profissional do ramo. I. se não tratada adequadamente. São Paulo: Cia. perde-se em críticas e querelas em torno da busca de hegemonia na formação. O diálogo entre as Ciências Sociais. uma vez que amplia um campo que é reconhecido como hierarquicamente superior aos demais para fornecer explicações sobre o corpo. História da Educação Física no Brasil. entre elas. são pouco explorados na área pelas mais diferentes razões. as Artes.

é regulado por um ciclo de ab- sorção e de eliminação tanto do orgânico quanto do econômico. p. Parece que aos profissionais do ramo bastam as explicações próprias da racionalidade instru- mental. [s. 40 COURTINE. os apelos da mídia às fórmulas frenéticas de cuidar do corpo não seriam a nova roupagem de um higienismo e um eugenismo pós-moderno?” Se. Em 1990. M.l. Filosofia. os ciclos de consumo e gasto energético.] A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. no século XIX. pelo jovem. sem polissemia.. p.. D.]40 O historiador Marc Bloch nos diz que “[. a obsessão era pela retidão dos corpos.. Editora da UFPR . 81-114.”41 38 Cf. A eles se impõe uma cultura do consumo. 1995. Dissertação (Mestrado em Educação: Filosofia e História da Educação) . Introdução à história. São Paulo: Estação Liberdade.38A formação deste profissional ainda é cercada de ingenuidade e o conjunto das atividades físicas é visto sempre como positividade.SOARES. Pedagogia.. L. 86-87. p. onde tudo. hoje é pelos seus invólucros. cit. ed. [s. paixão regenerativa da pele[. pelo esbelto... 86. ansiedade frente a tudo o que na aparên- cia pareça relaxado. ou conforme Courtine [.. A influência do pensamento médico higienista na Educação Física no Brasil: 1850-1930.]: Europa-América. 5. 39 SOARES. Notas sobre a educação no corpo flexões no campo das Ciências Sociais. sem contradições. 2000. Políticas do corpo. Uma negação laboriosa de sua morte próxima. p.]é tal a força da solidariedade das épocas que os laços de inteligibilidade entre elas se tecem verdadeira- mente [. enrugado. J-J. COURTINE. Os stakhanovistas do narcisismo: body-building e puritanismo ostentatório na cultura americana do corpo. até mesmo o corpo. pelo fresco. pelo polido. C. a composição corporal. pesado amolecido ou distendido: uma contestação ativa das marcas do envelhecimento no organismo. op. amarrotado. In: SANT’ANNA. n. Artes e por parte da Educação Física.. São Paulo.] o desejo de obter uma tensão máxima da pele. machucado.]. gestão rigorosa do corpo. L. franzido. pouco tem chegado àqueles que vão trabalhar com elas e ensiná-las nos mais distintos espaços de suas aplicações.d. uma racionalidade do consumo.. 1990. 43-60. C. encerrei minha pesquisa de mestrado39 com a seguinte inda- gação: “.PUC/SP. 60 Educar. 42.. p.. 16. Prazeres am- bíguos do exercício. Curitiba. o amor pelo liso. 41 BLOCH. a ob- sessão esportiva.