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CAMILO, PERSONAGEM DE FANNY OWE MARGARIDA BRAGA NEVES Universidade de Lisboa “O romancista 6, para os seus personagens, o que aquéle fantasma € para os homens de came e osso. Interior e exterior a eles, po ‘nos em movimento, conforme um plano preconcebido, ou, entio, parece deixé-los operar, como se éles obedecessem apenas s suas forgas psiquicas espontaneas”. TEIXEIRA DE PASCOAIS A histéria de Fanny Owen('), publicada por Agustina Bessa-Luis em 1979, pode resumir-se em poucas palavras: baseada em factos veridicos, ocorridos em meados do século XIX, nela so narradas as tragicas paixdes do tringulo amoroso formado por José Augusto Pinto de Magalhes —morgado do Douro “banido do amor pela morte da mae”, (p. 94) — Fanny Owen —a filha mais nova de um coro- nel inglés fixado em Portugal —“era simplesmente uma amorosa, um pouco decep- cionada pela suséncia do pai", —(p. 53), € 0 romancista Camilo Castelo Branco, ¢ que culminam na morte de Fanny. Seguir-se-Ihe-4 a morte (ou 0 suicidio?) do marido, José Augusto. Quanto a Camilo, ira caber-Ihe 0 papel de cronista de tao tragicos quanto obscuros acontecimentos De acordo com a informagdo prestada pela autora no seu prefacio ao livro, este surgiu em consequéncia de um pedido formulado por um cineasta: “Foi 0 caso de me terem pedido os didlogos para um filme cujo assunto seria Fanny Owen, Para escrever os didlogos tive que conhecer as circunsténcias que os inspira~ ram; ¢ a histéria que os comporta. Assim nasceu o livro e 0 escrevi". filme, estreado em 1981, chama-se Francisca, ¢ 0 seu realizador é Manoel de Oliveira, o nome mais importante do cinema portugues. () AGUSTINA BESSA LUIS, Fanny Owen, 2. ed., Lisboa, Guimaries & C+ Editores, 1979; Todas as indicagdes de paginas se referem a esta edigho. 101 _—_—_—_ Quanto 20 romance, que no pode de modo algum confundir-se com um guifio cinematogréfico, por razGes que se prendem com as pecularidades da eserita romanesca, é um objecto especificamente literario, isto é, plasmado na (¢ pela) linguagem e dela inteiramente dependente, ¢ € nessa qualidade que nele vou fazer incidir este breve estudo, insistindo em que é na sua qualidade de personage de uma fico, ¢ apenas enquanto tal, que a figura de Camilo aqui me vai ocupar. ‘Quando, ainda no referido prefacio, A.B.L. escreve: “Pareceu-me necessério ¢ ttl trazer Camilo Castelo Branco & luz da nossa experiéncia humana sem o traduzir na experiéneia de escritor que é a minha.”, isto quer dizer que a ficgio opera a metamorfose da entidade biografica ¢ historicamente determindvel—a pessoa de Camilo Castelo Branco—numa enti- dade ficcional, apenas existente na escrita, num universo representado, que, em grande parte, parece coincidir com 0 universo real. Assim o texto ilustra, exem- plarmente, as complexas relagdes entre a Historia e a literatura, a vida ¢ a escrita, ‘as circunstncias e a ficc4o, nao s6 no romance de Agustina Bessa-Luis, como também, de modo indirecto, na propria novela camiliana. £ visivel, no desiderato expresso pela autora, o desejo de anular os efeitos do tempo, devolvendo a personagem Camilo a intemporalidade propria da meméria. A recusa em traduzir Camilo na “experiéncia de escritor” permite-nos detectar a recusa de qualquer cumplicidade, ¢ a intengao deliberada de permitir que a perso- nagem desempenhe até ao fim 0 papel que the esta destinado numa histéria (ow num “jogo completamente estranho 4 natureza tida como normal.”? (p. 96)) de que é, simultaneamente, autor, encenador ¢ actor “Camilo comportou-se como se obe- decesse a um tragado minucioso”. (p. 118). Este aspecto nio pode deixar de relacionar-se com 0 facto de 0 texto procurar, por intermédio de uma estratégia que passa pelo anunciado @ voluntério afasta- mente do autor-narrador () relativamente &s personagens ¢ acontecimentos, apa- rentemente s6s no palco, fazer crer que existe, efectivamente, da sua parte, neutrali- dade em relacio & matéria narrada, quase como se ela se contasse a si propria, independentemente da voz e da visio que a configuram. Por outras palavras: a recusa em “traduzir” Camilo significa, por um lado, 0 desejo de 0 deixar entregue & sua sorte, colocando-o sob o foco incandescente ¢ impiedoso do julgamento colectivo—o que € uma forma de implicar o leitor —. nele se implicando também a autora, na qualidade de jurada de um processo reali zado em nome daquilo que designa por “nossa consciéneia humana”. Por outro ()) Nao é este 0 fnomento mais oportuno para nos ocuparmos do estatuto desta enti dade hibrida em que se confundem o narrador, aquele que conta a hist6ria, € o autor, aquele {que a escreve, Salientaremos apenas que estamos perante uma sobreposigdo de vores respon sével pelo esbatimento das fronteiras da histéria e da narrago, o que equivale a dizer que nos defrontamos com uma vor intemporal e onnnisciente, capaz de tudo ver ¢ saber. 102 lado; isto reflecte o desejo de uma espécie de “ajuste de contas” a partir do presente, ‘uma confirmagao da culpabilidade que se pressente ma sentenga lavrada pela Histo- ria “com esse faro infalivel para a verdade, que atinge sempre, ainda que a faga atravessar as forgas caudinas do lugar comum, o povo atribufa a Camilo papel mefistofélico”. (p. 182). ‘Condenada pela opinidio puiblica—de que se faz eco 0 narrador-autor—, resta & personagem tentar ultrapassar, por, todos os meios ao seu aleance, os estreitos limites que a sua-condigdo Ihe impde. Convém aqui acentuar que em Camilo se intersectam trés niveis distintos que correspondem, respectivamente, & sua tripla qualidade de personagem de ficedo, entidade biogréfica.e, sobretudo, de roman- cista, Se as duas primeiras so comuns as outras personagens, 0 mesmo nao acon- tece com a tiltima; por isso ele se impSe como o eixo de toda(s) a(s) intriga(s), © vértice de toda(s) a(s) teia(s) romanesca(s), Quer isto dizer que o titulo do romance nos fornece uma falsa pista ¢ nos induz em erro, Apesar de ser Fanny o “pélo libidinal de toda a intriga” (p. 223), ela mais nao é do que um joguete nas m&os de Camilo, uma amorosa devorada por paixdes que desencadeia sem saber controlar. Nos bastidores da intriga sentimen- tal, € Camilo quem tudo manipula , como oportunamente revela a Fanny no dié- logo que antecede o seu rapto por José Augusto: “© vosso amor é feito de coisas que no vos pertencem. E feito com o meu desejo, a minha alegria, o meu sofrimento, Eu dei-vos uma alma ¢, com ela, tudo do que uma alma é capaz. Eu posso embrulhar essa alma na minha sombra € levi-la comigo. E voets, depois”? (p. 151). Neste fragmento vemos que Camilo julga “emprestar” o sopro vital as suas “marionnettes”, vivendo, por interposta pessoa —se assim se pode dizer—e comungando aparentemente das suas alegrias ¢ tristezas, contra as quais, no fundo, est imunizado. Enquanto romancista, vive miltiplas vidas, alheiamente suas, num processo de certo modo semelhante ao que de mais radical existe na experiencia pessoana. Aureolado de uma omnipoténcia que roca o divino, Camilo afirma-se, antes de mais, como um criador, um contador de histéria(s), um efabulador, isto 6, alguém que, impossibilitado de aceder & Verdade, impedido de franquear a distin cia que separa as coisas da criagfo literdria ¢ o conhecimento da conjectura, usa as possibilidades que a imaginacdo e a fantasia Ihe concedem, seu tinico modo de saber: “Saber que no transpunha esse fosso que vai da realidade-real sua efabula- Gao, irritava Camilo ¢ incitava-o a requintar 0 seu proceso de vaia, as vezes duma vulgaridade que Ihe denunciava o despeito, Sengio o despeito, pelo menos um feri- ‘mento do entusiasmo criador”. (p. 111). elo que anteriormente foi dito, pode compreender-se que a perturbante simi- litude entre a histéria de Fanny, José Augusto ¢ Camilo, ¢ os enredos deste diltimo ou, dito de outro modo, que a forma como, no quadro de uma estética romantica da desmesura passional, a vida imita a literatura, nfio deve surpreender, nem & 103 inteiramente fruto do acaso, mas resulta da intervengio de Camilo, ocasional agente do destino. Na medida em que “dominava o terreno em que o inconsciente se projecta [...}, a sua influéncia nos outros era fatal” (p. 104). Funesto para aqueles que com ele se cruzam, permaneceré incélume, pois pode afirmar com toda a tranquilidade “Os romances no me do nem me tiram a tranguilidade”. (p. 68) ¢, um pouco mais adiante, “Os romances fazem mal a muita gente, menos aos autores” (p. 69). E, com feito, quem melhor do que Camilo, pela boca do narrador-autor, para fazer tais afirmagies? Tudo isto contribui para acentuar o cardcter diabélico, desagregador e incon- trolavel da literatura que, por dever “mais aos diabos do que aos santos” (p. 97), convém nao despertar. Pouco habituados aos tratos com o deménio (¢ com os seus préprios deménios interiores), Fanny e José Augusto perecerao. Camilo resiste, aparentemente ileso, atravessando, apés 0 desaparecimento dos amigos, um periodo de grande fulgor criativo, 0 que parece confirmar 0 quanto a capacidade criadora se alimenta da meméria, onde fervilham todas as paixGes transfiguradas, na energia criadora de que falam as iltimas paginas do romance: “Depois da morte de Fanny ¢ José Augusto, comegou o tempo mais fecundo do escritor. A partida dos que amamos alimenta a sede de criagio. Fle ndo os esquecia; plantava neles as hortas € os rosais das suas produgdes. Nunca soube ‘exactamente 0 que se passou no coragao deles, ¢ contribuiu muito para a turbulén- cia das suas vidas”. (p. 226/227). . Acrescenta ainda a autora no prefiicio que se trata “de um romance de evasdes € do fascinio que é a regra de todas as intercepgdes”. Isto parece indicar que, para A.B. L,, a intercepedio € uma das fungdes primordiais do romancista, pelo menos nos romances que, como este, reivindicam um cardcter histérico; 0 que nfo obsta a que nele se detecte um pendor que o aproxima, por vezes, da biografia, Mas, nao esquegamos que, tanto num caso como no outro, o tinico modo de suprir as inevi- taveis lacunas de informago, passa pelo recurso & conjectura ¢ & elaboragio de hipéteses explicativas. Convém talvez nfo esquecer que interceptar significa “pér de permeio, impe- dir, interromper 0 curso de, o que aponta para a postura do(s) romaneista(s) neste romance: um mediador, um intermediério na infindavel cadeia de comunicacao que une (ou separa?) o sujeito ¢ a realidade. Sabendo que nenhuma mediacio & inocente —e a ficgdo menos que todas —, 0 romancista, um mistificador, sabe que imprime a sua marca em tudo 0 que toca e que, por conseguinte, todo o discurso & profundamente pessoal, porque enraizado numa subjectividade que Ihe da o ser. Este é um romance sobre um romancista que, & pergunta “Como se escrevem os romances?” responde do seguinte modo: “com superficial candura, com desabrimento, com distraceio, por mera forma- lidade e inépcia. Os romances escrevem-se com doses ¢ doses de dissimulagdo, com virtudes pestilentas porque supuram do medo humano e nao séo fruto da coragem, do amor ou do édio. [..] E ele mentia, com as suas heroinas nobilissimas os seus, 104 capatazes do pecado, com o mundo patarata como natureza para digerir e amar. A indignagio faz os folhetins; mas o que faz 0 homem é 0 medo e a sua revolta”. (pp. 71/72). Toma-se claro que assistimos aqui a uma dupla quebra da limpidez comunica- tiva ou, usando a expresso do texto, a uma dupla mentira, precisamente porque ha—pelo menos— dois intermediérios. © primeiro ¢ Camilo, testemunha privile- giada dos acontecimentos, diante de cujas falas o narrador-autor procura subalternizar-se, reduzindo (assim o afirma) a sua intervengo ao minimo: a recolha, © organizagio de materiais de cardcter diverso. Quando A. B. L. afirma “usei a ccolagem € quase todas as suas [de Camilo] falas so as auténticas que ele escreveu em novelas, nos dispersos e nas folhas em que anotava os seus pensamentos,” est novamente a langar uma falsa pista para o leitor mais desprevenido, levando-o a acreditar na efectiva neutralidade do seu narrador. Por outro lado, esta passagem alerta-nos para o entrelagado de textos diversos de que a superficie do romance, aparentemente una, resulta. Quer isto dizer que esta juncada de outras vozes e do outros textos —cartas e didrios de Fanny e José Augusto, crénicas € textos memorialisticos e ficcionais de C.C.B.—abundan- temente citados ¢ glosados € que 0 texto agustiniano consegue habilmente cerzir, numa continuidade sem falhas em que todas as partes se ajustam. Desse modo se ria aquela densidade que caracteriza a escrita romanesca de A. B. L., conferindo- Ihe uma especificidade que reside, menos na constante incorporacao de falas alheias, do que na sua conjugagao numa fala romanesca nova e continua, Ainda acerea do prefacio de Fanny Owen, & conveniente recordar que se trata de um dos raros prefacios da autora, 0 que desde logo nos alerta para uma das caracteristicas do texto: a sua incapacidade de encetar sozinho a peregrinagao que em larga medida tende a ser. Como palavra que se acrescenta ¢ que orienta (ou perturba, lancando falsas pistas), este prefacio cumpre as atribuigdes do prefiicio original, tal como 0 concebe Genette(°), a saber, elucidar acerca das origens da obra ¢ das condigSes da sua génese, fornecendo ainda indicagdes sobre os materiais nela utilizados. Mas nao fica por aqui, na medida em que procura condicionar a leitura, iniciando de imediato a manipulacao do leitor, o que equivale a dizer que inele se inicia a fiegdo. Sobre a “colagem” de (¢ as) falas de Camilo é bom nfo esquecermos as reti- c@ncias que elas merecem: ou porque se trata de ficgdo, e nesse caso, como vimos, no se podem submeter & prova de verdade, ou porque, tratando-se de textos de carécter memorialistico como sucede com Duas horas de Leitura, publicado em 1857, ¢ No Bom Jesus do Monte, publicado em 1864, ou seja, respectivamente trés € dez anos apés a consumag&o da tragédia, ainda assim nao se Ihes pode dar demasiado crédito. Camilo, sabendo que escreve para os contemporaneos com 0 fito “de ser proposto para a Academia logo que publicasse um romance sério” (p. () Cf. GERARD GENETTE, “Les frontiéres de la préface originale” in Seuls, Paris, Seuil, 1987, pp. 182-218. 105 73), bem sabe que esereve para a posterioridadé, como se depreende da Ieitura do excerto de Vinte Horas de Liteira em que alude precisamente a No Bom Jesus do Monte nos seguintes termos: “Referi a Anténio Joaquim a tragédia de José Augusto. Caia a propésito conti-la aqui ao leitor, mas, no més que vem, hi-de boiar “no rio do negro esque cimento e eterno sono” mais um livro meu, desvelando a face enigmatica daquela grande desventura, que o mundo impiedoso quis explicar com uma calinia maior”. ‘Aliado ao factor tempo ¢ @ parcialidade de Camilo, o narrador-autor insiste ainda no facto de, em seu entender, a meméria de Camilo ndo ser das melhores. ‘Assim, descreve-o como “um mogo com talento, bexigas e ma meméria. A ma meméria é essencial para escrever romances ¢ para os poder viver; na vida e nos romances tudo se repete.” (p. 11). E acrescenta: “porque 0 génio néio convence se no estiver aturdido com certa dureza de espirito que nao da conta de quanto a fantasia é coisa venerdvel pela velhice que testemunha.” (p. 11). Esta sistematica descrenga na narrativa de Camilo, leva-o mesmo a afirmar: “Nao vamos acreditar piamente no que Camilo conta depois da tragédia con- sumada, Nessa altura ele queria sobretudo descarregar de cima dos ombros uma boa parte da calinia que acabara por merecer. O seu furor era ainda tio vivo contra José Augusto—que Fanny pudera finalmente arrastar com ela fixando 0 simbolo pela propria morte—, que no hesitou em deixar no ar a suspeita da sua impoténcia ou até insipidez no que toca a mulheres.” (p. 186). £ visivel que esta insisténcia na infidelidade de Camilo em relagio 4 verdade, 0 mesmo Camilo que de acordo com o narrador, durante toda a vida “havia de cobrir com um manto sujo aquela amizade que Ihe tinha parecido capaz de precipi- tar os proprios deuses no Olimpo”. (p. 206), serve para langar um véu sobre as suas inverdades. Com efeito, a narrativa deste narrador que, desde o prefacio, preten- dera alertar para a sua obsesséio com o rigor, chegando mesmo a afirmar omitir 0 nome de uma personagem porque o desconhecia, merece-nos reservas —e muitas. No seu projecto desmedido ce devassar os mais intimos recessos das persona- ‘gens, com o secreto intuito de se apoderar da formula alquimica das paixOes que a todos uniu e, em larga medida perdeu, o narrador —lic&o de Camilo —joga cons- tantemente um jogo em que alternam os avancos ¢ os recuos, a ocultaglio ¢ 0 desvendamento dos factos, Desse modo mantém 0 leitor suspenso ¢ perplexo, confrontando-o com a constante fragmentagdo de um saber que @ todo © momento parece deixar fugir; 6 nitido o seu comprarimento nesta atitude que, a exemplo da de numerosos narradores de Camilo, poderiamos qualificar de manifestadamente liidica. ‘Um tanto & margem do que vinhamos dizendo, é ainda de referir que a nitida parcialidade do relato de Camilo, pode ter alguma rela¢do com o modo, por assim ©) CamiLo CasTELO BRANCO, Vinte Horas de Liteira, Lisboa, Ulmeiro, 1989, p. 86. dizer bélico, como utiliza a linguagem o que deixa entrever algo de uma estratégia guerreira, em relag&o & qual o narrador se mostra particularmente sensivel, como ressalta da seguinte passagem: “Basta ver como Camilo usava a Lingua portuguesa para ficarmos informados sobre a sua vontade de poder, de conquistar a atenc&o, a fama e alma da Praga. Isso acontece com o espirito que é avido porque é extremamente sobrecarregado de talentos.” (p. 118). Longe de caracterizar unicamente o estilo da prosa camiliana, isto traduz uma vontade de poder que ¢€ comum ao narrador-autor, também ele interessado na conquista e manutenc&o do enorme poder que a palavra (Ihe) confere. ‘Ao longo do romance vamo-nos apercebendo.da teia de equivocos ¢ meias- ~verdades que urdem Camilo ¢ o narrador-autor, uma teia tecida toda de palavras, em si nem verdadeiras nem falsas, como se pode ler no texto: “Mas 0 que so as palavras? Sio uma espécie de lei, mas n&o se sabe, na verdade, ao que ela se aplica, essa lei.” (p. 71). Verifica-se, como que uma descoincidencia entre o desejo e a sua expresso pela linguagem no caso das personagens; s6 o(8) narrador(es) se movimenta(m) com agilidade nesse complexo campo. Precisamente porque se ser- vem da linguagem e, brandindo-a ambos sobre os seus contemporaneos, a langam. sobre a posterioridade, que enredam nas suas malhas. Daqui resulta que dois esti los, distintos nalguns aspectos, tm em comum um tom sentencioso e profético, particularmente propicio & moralizagao e, no caso do narrador, a frase lapidar e ao aforismo. E chegado o momento de perguntar: qual é a imagem que esse narrador-autor, pretensamente imparcial, faz de Cainilo. Para respondermos a esta questiio, temos que recordar a intengdo inicial assumida pela autora de deixar a cada um a possibi- lidade de julgar os actos do novelista; possibilidade que o narrador permanente- mente restringe, pois dos actos e pensamentos de Camilo, sabemos aquilo que esta fiegdo nos quer revelar. Uma das maneiras de mais eficazmente aparentar neutralidade em relagao personagem, € fazer crer que ela se vé a si mesma com os olhos doentes mas liicidos que, sendo seus, sio também os dos outros, pois permanentemente se desdobra em sujeito e objecto do olhar, sentido predominante e principal metafora de conheci- mento em todo romance. Exemplar ¢ 0 monélogo-didlogo que trava frente ao espelho e que passamos a citar: “Olhou para o paleté bastante cogado ¢ para o chapéu de castorina a que faltava pélo. O seu tinico luxo era o barrete de dormir, de caxemira vermelha com uma borla de seda azul. Era pobre, sempre fora pobre, e por isso os seus inimigos eram bogais ou insignificantes; as suas mulheres eram vulgares vizinhas, com nomes que inspiravam mais compaixio do que improvisos poéticos, Nascera em “hora esquerda” e bebera o leite da obscuridade, comera alméndegas de carne dura ¢ aprendera que todas as perdas tém remédio, menos a perda do dinheiro. Os comer ciantes podem falir com honra; 0s letrados nao podem senfio agonizar em situagdes baixamente cémicas. Viu-se no espelho do guarda-fatos e disse alto: 107 —Desde 15 de Julho até 15 de Agosto posso amar espantosamente, Mas no Inverno, nem amor, nem intelecto. O que me espera neste lugar sem flores, sem luz, sem sol, sem natureza? Se nao tivesse tanto sono, escrevia um artigo de fundo. E tudo 0 que se pode fazer sem pensar. “ Dito isto, entrou na cama amornada pelo esquentador de brasas e adormeceu” (pp. 28/29) ‘Camilo, tal como é visto pelo olhar frio € impiedoso jé referido, leva a sua lucidez ao ponto de nio confundir o parecer com 0 ser, assumindo voluntaria ¢ conscientemente, de viva voz, uma considerdvel dose de calculismo ¢ perversidade, nomeadamente quando afirma aquilo que os seus actos parecem indiciar: “Nao sou um bom rapaz, ndo sou. [...] Nao desejo parecer mau, que isso ¢ uma grande maldade. Sou mesmo mau” (p. 214) ‘As forgas motrizes que o impulsionam na sua relacio com José Augusto so, por um lado, a inveja—“Ha em Camilo um movimento de inveja que é 0 que verdadeiramente se ope a constancia da amizade com José Augusto.” (p. 221) —e, por outro, a admirago, misturada com um certo receio "A verdade € que José Augusto 0 impressionava. Ria-se de Camilo com uma delicada indiferenca Emprestara-the dinheiro que jamais pedira que ele Ihe devolvesse.” (p. 116). Ha algo de demoniaco ¢ de inclutavelmente fatal nessa atracg%o que © prende aquele homem e que o leva a dedicar-se & “Andlise minuciosa de cardcter do seu amigo. Todos os dias observava e anotava por escrito as particularidades daquele rapaz sem vicios ¢ sem virtudes”. (p. 92). Isto revela, desde logo, a intencdo de se apode- rar, por todos os meios ao seu alcance, da matéria-prima que constitui o seu pré- prio universo novelistico. Assim: “Aquele morgado, que seria inofensivo se 0 deixassem ser apenas um l6gico com riscos hereditarios, foi, nas suas m&os, um desgracado acima das suas posses. E um personagem.” (p. 118). Quer isto dizer que os seres so matéria plistica ¢ moldavel, nas maos magicas tocadas pela genialidade que, por essa via, as fazem transcender a sua condigdo mediocremente humana. Ambos, criador e personage, necessitam da relagdo reciproca, fora da qual nada seriam. Em consequéncia disso, gera-se a dialéctica do senhor e do escravo: “Camilo foi seu escravo, porque empe- hou o seu génio em submeter valores que muito 0 seduziam;” (p. 221). ‘Tratando-se de personalidades tao diversas , a miitua atracgo compreende-se por se tratar—no dizer de Camilo—de ‘uma alianga de extremos” (p. 94) baseada, menos nas afinidades, de entre as quais avulta naturalmente Fanny que funciona como uma espécie de apoio estético €, mais tarde, como simbolo, ou seja, uma “realidade psicolégica extremamente excitante e capaz de anular a exigéncia da realidade fisica”, (p. 105), do que nas irredutiveis diferengas. Opostos em quase tudo, existe entre eles uma complementaridade que € quase simetria: “José Augusto era um homem de paixdo; Camilo um homem de sensagdes. Entre eles estava Fanny, que servia ambos— os desejos insaciaveis ¢ as fraquezas que nascem dos sentidos traidos.” (pp. 122/123). Ao fazerem de Fanny um, sim- bolo, ¢ 0 seu fragil elo de ligacdo, esto a condend-la A tinica saida possivel. Cin- dida, repartida, Fanny morre porque nao Ihe cabe escolher, A ruptura entre José Augusto e Fanny surge na sequéncia das cartas desta, alegadamente enviadas a um espanhol, que o narrador julga nao ser outro seni um produto da imaginagdo de Camilo para iludir as suspeitas que sobre si recafam, Depois da reuniio em que 0 morgado solicita 0 conselho dos amigos acerca da necessidade de, por fidelidade & palavra dada, casar com a menina que raptara, apesar das cartas por ela escritas a um outro homem, reunigo na qual Camilo Pronuncia palavras de grande ambiguidade e perfidia, ele que era um mestre con- sumado “na arte de saber dizer a iltima palavra” (p. 184), vai o romancista desen volver contra José Augusto, de forma metédica, “uma vinganga persistente ¢ atroz” (p. 183) que se transformara, rapidamente, num “duelo mortal” (p. 183) entre os dois homens. Muito tempo depois da morte do desventurado casal, & ainda a curiosidade morbida ¢ insaciével que percorre Camilo e o impulsiona na sua Ansia de tudo saber sobre a vida intima dos dois infelizes. Nada, nenhuma baixeza ou indiscrigao © fario hesitar. Todos os testemunhos Ihe servirio — os dos criados, os de amigos comuns ¢ possiveis confidentes de Fanny, os dos diérios, chegando mesmo a fazer f€ no testemunho do Dr. Janota, responsével pela autopsia de Fanny e pela con. firmacdo da sua virgindade. O mesmo Dr, Janota que, noutros textos, apoda de incompetente... Como comenta 0 narrador, a propésito do relato de No Bom Jesus do Monte, “é preciso que uma deméncia de citime ainda o habite para que, passa dos nove anos, confesse essa atroz curiosidade”. (p. 211). No que se refere ao destino inelutavel de Fanny ¢ do marido, & de assinalar que ele se deve, em larga medida, a impossibilidade de levar a bom termo a dupli- cidade de papéis que os principais protagonistas siio obrigados a representar, na fentativa de adequagdo 20 modelo imposto por um Romantismo j decadente. Neste sentido, as frequentes alusdes &s méscaras, disseminadas ao longo do texto (), contribuem para acentuar a atmosfera de intensa sedugio que de Fanny — mulher sem rosto, € por isso, mulher de todos os rostos —itradia, e 4o mesmo tempo, 0 cardcter trégico de uma representago em que ninguém conhece a sua verdadeira face. Todos os actores esto afinal repartidos, atravessados Por pulsdes Contraditérias e, por isso mesmo, devastadoras. E 0 caso da paixio da leiturajes. crita, nem sempre fécil de harmonizar com as restantes, No caso de Camilo—enquanto personagem que narra—, a principal fora que impulsiona a sua escrita sobre os amigos é, para além das ja mencionadas, a leitura vida ¢ despudorada dos livros e diérios de Fanny e José Augusto, que resgata seis anos apés a morte de ambos, recolhendo-os “como despojos de um naufrigio”(p. 221), Trata-se — como seria de esperar —de um leitor muito especial, que se permite anotar ¢ comentar os dlbuns alheios, 0 que parece traduzir um desejo de posse Péstuma daquilo que em vida sempre Ihe escapara. A consulta dos documentos (CE, pores, p. 19 ep. 193 comprova a afirmagiio do narrador-autor, segundo a qual Camilo compusera “um epitafio sem gosto nem nobreza” (p. 196). Com efeito, no didrio de José Augusto pode-se er, na primeira pagina ¢ em nota escrita a lépis pelo punho de Camilo: “Estes documentos provam a que miséria 0 romantismo de hé trinta anos podia levar dois desgracados com o eérebro vazio e 0 coracio cheio de asneiras.” (p. 178). Fanny ¢ José Augusto serdo as vitimas de vertiginosa paixiio da leitura ¢ da escrita, que incapazes de dominasem, os dominard, José Augusto vé-se forgado a agit em conformidade com 0 romance em que transformara a sua vida, enquanto Camilo assiste —espectador sereno —a essa investidura do amigo na personagem que decidira encarnar ¢ o conduziria & ruina, consigo arrastando os que com ele privavam. “Raptara Fanny para corresponder as obrigagdes do romance que ele proprio forjara e de que o seu didrio apresentava todas as incertezas.” (p. 177) Quanto a Fanny, participante de um turbilhio de forgas de que o marido tenta em vio apoderar-se, revelar-se-4, através das cartas e das peripécias por elas provo- cadas, aquilo que o narrador designa por “uma novelista sem pablico” (p. 27. £ possivel que, por intermédio da escrita, Fanny procurasse forjar um destino (pelo menos literario), um futuro que tudo na sa condi¢ao de mulher the parecia negar. Fracassada a tentativa de sair—através de Camilo —para 0 exterior da relagdo com José Augusto, vé-se obrigada a desdobrar-se na destinatéria da sua propria escrita, em circuito fechado., Assim, constata amargamente 0 seu falhango enquanto co-autora do romance que (Ihe) é a vida, como transparece na passagem em que diz a0 marido: “Construimos um péssimo romance porque a sineeridade niio se dé com 0 bcio.” (p. 200). Conchiindo, podemos dizer que, a exemplo de Fanny, para que a escrita € 0 tinico meio de atingir uma iluséria e fugaz centelha de poder, todo este romance gira precisamente em torno da questo da posse. Posse de verdade, mesmo que lacunar ¢ fragmentaria; posse do conhecimento, ainda que hipotético; posse do tempo e da Historia, obrigados pelo romance a fluir por entre as margens que a fiogio thes traga. Posse, finalmente, de livros e de escritos, o que revela a impossibi- lidade de apropriago dos seres, paixdes, almas ¢ corpos, ou do ue deles resta—o cadaver embalsamado de Fanny, 0 seu corago num bocal—um retrato, uma recordagiio, Posse ainda da, e pela palavra, na impossiblidade de possuir o mistério. (O enigma de Fanny ¢ das restantes personagens desta historia de paixfo © morte permanece envolto em neblina, pé ¢ siléncio. Como diz 0 texto quase no final, pela boca de Hugo Owen, irmio de Fanny, “Talvez [o mistério] soja matéria fecunda daqui a muitos anos. Nao nos compete a nés descobri-lo.” (p. 224). ‘A nos sim. £ essa a nossa interminavel tarefa, Cabe-nos a todos — autores, titicos, professores, estudantes ¢ leitores — fazé-lo emergir do olvido, porque a lei- tura resgata da morte ¢ do nada ¢ tudo recorta na meméria resplandecente ¢ sem ‘macula, feita pura energia. Uma energia cujo nome desconhecemos, mas no ces- samos de demandar.