Camilo, Personagem de Fanny Owen, por Margarida Braga Neves
100%(2)100% found this document useful (2 votes)
208 views10 pagesDescription:
A autora estuda a transposição da figura histórica Camilo Castelo Branco para a ficção de Agustina Bessa-Luís.
Date uploaded
Jul 13, 2017
Copyright
© © All Rights Reserved
Available Formats
PDF or read online from Scribd
Did you find this document useful?
Description:
A autora estuda a transposição da figura histórica Camilo Castelo Branco para a ficção de Agustina Bessa-Luís.
Copyright:
© All Rights Reserved
Available Formats
Download as PDF or read online from Scribd
100%(2)100% found this document useful (2 votes)
208 views10 pagesCamilo, Personagem de Fanny Owen, por Margarida Braga Neves
Description:
A autora estuda a transposição da figura histórica Camilo Castelo Branco para a ficção de Agustina Bessa-Luís.
Copyright:
© All Rights Reserved
Available Formats
Download as PDF or read online from Scribd
CAMILO, PERSONAGEM DE FANNY OWE
MARGARIDA BRAGA NEVES
Universidade de Lisboa
“O romancista 6, para os seus personagens, o que aquéle fantasma
€ para os homens de came e osso. Interior e exterior a eles, po
‘nos em movimento, conforme um plano preconcebido, ou, entio,
parece deixé-los operar, como se éles obedecessem apenas s suas
forgas psiquicas espontaneas”.
TEIXEIRA DE PASCOAIS
A histéria de Fanny Owen('), publicada por Agustina Bessa-Luis em 1979,
pode resumir-se em poucas palavras: baseada em factos veridicos, ocorridos em
meados do século XIX, nela so narradas as tragicas paixdes do tringulo amoroso
formado por José Augusto Pinto de Magalhes —morgado do Douro “banido do
amor pela morte da mae”, (p. 94) — Fanny Owen —a filha mais nova de um coro-
nel inglés fixado em Portugal —“era simplesmente uma amorosa, um pouco decep-
cionada pela suséncia do pai", —(p. 53), € 0 romancista Camilo Castelo Branco, ¢
que culminam na morte de Fanny. Seguir-se-Ihe-4 a morte (ou 0 suicidio?) do
marido, José Augusto. Quanto a Camilo, ira caber-Ihe 0 papel de cronista de tao
tragicos quanto obscuros acontecimentos
De acordo com a informagdo prestada pela autora no seu prefacio ao livro,
este surgiu em consequéncia de um pedido formulado por um cineasta:
“Foi 0 caso de me terem pedido os didlogos para um filme cujo assunto seria Fanny
Owen, Para escrever os didlogos tive que conhecer as circunsténcias que os inspira~
ram; ¢ a histéria que os comporta. Assim nasceu o livro e 0 escrevi".
filme, estreado em 1981, chama-se Francisca, ¢ 0 seu realizador é Manoel de
Oliveira, o nome mais importante do cinema portugues.
() AGUSTINA BESSA LUIS, Fanny Owen, 2. ed., Lisboa, Guimaries & C+ Editores,
1979; Todas as indicagdes de paginas se referem a esta edigho.
101_—_—_—_
Quanto 20 romance, que no pode de modo algum confundir-se com um
guifio cinematogréfico, por razGes que se prendem com as pecularidades da eserita
romanesca, é um objecto especificamente literario, isto é, plasmado na (¢ pela)
linguagem e dela inteiramente dependente, ¢ € nessa qualidade que nele vou fazer
incidir este breve estudo, insistindo em que é na sua qualidade de personage de
uma fico, ¢ apenas enquanto tal, que a figura de Camilo aqui me vai ocupar.
‘Quando, ainda no referido prefacio, A.B.L. escreve:
“Pareceu-me necessério ¢ ttl trazer Camilo Castelo Branco & luz da nossa experiéncia
humana sem o traduzir na experiéneia de escritor que é a minha.”,
isto quer dizer que a ficgio opera a metamorfose da entidade biografica ¢
historicamente determindvel—a pessoa de Camilo Castelo Branco—numa enti-
dade ficcional, apenas existente na escrita, num universo representado, que, em
grande parte, parece coincidir com 0 universo real. Assim o texto ilustra, exem-
plarmente, as complexas relagdes entre a Historia e a literatura, a vida ¢ a escrita,
‘as circunstncias e a ficc4o, nao s6 no romance de Agustina Bessa-Luis, como
também, de modo indirecto, na propria novela camiliana.
£ visivel, no desiderato expresso pela autora, o desejo de anular os efeitos do
tempo, devolvendo a personagem Camilo a intemporalidade propria da meméria.
A recusa em traduzir Camilo na “experiéncia de escritor” permite-nos detectar a
recusa de qualquer cumplicidade, ¢ a intengao deliberada de permitir que a perso-
nagem desempenhe até ao fim 0 papel que the esta destinado numa histéria (ow
num “jogo completamente estranho 4 natureza tida como normal.”? (p. 96)) de que
é, simultaneamente, autor, encenador ¢ actor “Camilo comportou-se como se obe-
decesse a um tragado minucioso”. (p. 118).
Este aspecto nio pode deixar de relacionar-se com 0 facto de 0 texto procurar,
por intermédio de uma estratégia que passa pelo anunciado @ voluntério afasta-
mente do autor-narrador () relativamente &s personagens ¢ acontecimentos, apa-
rentemente s6s no palco, fazer crer que existe, efectivamente, da sua parte, neutrali-
dade em relacio & matéria narrada, quase como se ela se contasse a si propria,
independentemente da voz e da visio que a configuram.
Por outras palavras: a recusa em “traduzir” Camilo significa, por um lado, 0
desejo de 0 deixar entregue & sua sorte, colocando-o sob o foco incandescente ¢
impiedoso do julgamento colectivo—o que € uma forma de implicar o leitor —.
nele se implicando também a autora, na qualidade de jurada de um processo reali
zado em nome daquilo que designa por “nossa consciéneia humana”. Por outro
()) Nao é este 0 fnomento mais oportuno para nos ocuparmos do estatuto desta enti
dade hibrida em que se confundem o narrador, aquele que conta a hist6ria, € o autor, aquele
{que a escreve, Salientaremos apenas que estamos perante uma sobreposigdo de vores respon
sével pelo esbatimento das fronteiras da histéria e da narrago, o que equivale a dizer que
nos defrontamos com uma vor intemporal e onnnisciente, capaz de tudo ver ¢ saber.
102lado; isto reflecte o desejo de uma espécie de “ajuste de contas” a partir do presente,
‘uma confirmagao da culpabilidade que se pressente ma sentenga lavrada pela Histo-
ria “com esse faro infalivel para a verdade, que atinge sempre, ainda que a faga
atravessar as forgas caudinas do lugar comum, o povo atribufa a Camilo papel
mefistofélico”. (p. 182).
‘Condenada pela opinidio puiblica—de que se faz eco 0 narrador-autor—, resta
& personagem tentar ultrapassar, por, todos os meios ao seu aleance, os estreitos
limites que a sua-condigdo Ihe impde. Convém aqui acentuar que em Camilo se
intersectam trés niveis distintos que correspondem, respectivamente, & sua tripla
qualidade de personagem de ficedo, entidade biogréfica.e, sobretudo, de roman-
cista, Se as duas primeiras so comuns as outras personagens, 0 mesmo nao acon-
tece com a tiltima; por isso ele se impSe como o eixo de toda(s) a(s) intriga(s), ©
vértice de toda(s) a(s) teia(s) romanesca(s),
Quer isto dizer que o titulo do romance nos fornece uma falsa pista ¢ nos
induz em erro, Apesar de ser Fanny o “pélo libidinal de toda a intriga” (p. 223), ela
mais nao é do que um joguete nas m&os de Camilo, uma amorosa devorada por
paixdes que desencadeia sem saber controlar. Nos bastidores da intriga sentimen-
tal, € Camilo quem tudo manipula , como oportunamente revela a Fanny no dié-
logo que antecede o seu rapto por José Augusto:
“© vosso amor é feito de coisas que no vos pertencem. E feito com o meu
desejo, a minha alegria, o meu sofrimento, Eu dei-vos uma alma ¢, com ela, tudo
do que uma alma é capaz. Eu posso embrulhar essa alma na minha sombra €
levi-la comigo. E voets, depois”? (p. 151).
Neste fragmento vemos que Camilo julga “emprestar” o sopro vital as suas
“marionnettes”, vivendo, por interposta pessoa —se assim se pode dizer—e
comungando aparentemente das suas alegrias ¢ tristezas, contra as quais, no fundo,
est imunizado. Enquanto romancista, vive miltiplas vidas, alheiamente suas, num
processo de certo modo semelhante ao que de mais radical existe na experiencia
pessoana.
Aureolado de uma omnipoténcia que roca o divino, Camilo afirma-se, antes
de mais, como um criador, um contador de histéria(s), um efabulador, isto 6,
alguém que, impossibilitado de aceder & Verdade, impedido de franquear a distin
cia que separa as coisas da criagfo literdria ¢ o conhecimento da conjectura, usa as
possibilidades que a imaginacdo e a fantasia Ihe concedem, seu tinico modo de
saber:
“Saber que no transpunha esse fosso que vai da realidade-real sua efabula-
Gao, irritava Camilo ¢ incitava-o a requintar 0 seu proceso de vaia, as vezes duma
vulgaridade que Ihe denunciava o despeito, Sengio o despeito, pelo menos um feri-
‘mento do entusiasmo criador”. (p. 111).
elo que anteriormente foi dito, pode compreender-se que a perturbante simi-
litude entre a histéria de Fanny, José Augusto ¢ Camilo, ¢ os enredos deste diltimo
ou, dito de outro modo, que a forma como, no quadro de uma estética romantica
da desmesura passional, a vida imita a literatura, nfio deve surpreender, nem &
103inteiramente fruto do acaso, mas resulta da intervengio de Camilo, ocasional
agente do destino.
Na medida em que “dominava o terreno em que o inconsciente se projecta [...},
a sua influéncia nos outros era fatal” (p. 104). Funesto para aqueles que com ele se
cruzam, permaneceré incélume, pois pode afirmar com toda a tranquilidade “Os
romances no me do nem me tiram a tranguilidade”. (p. 68) ¢, um pouco mais
adiante, “Os romances fazem mal a muita gente, menos aos autores” (p. 69). E, com
feito, quem melhor do que Camilo, pela boca do narrador-autor, para fazer tais
afirmagies?
Tudo isto contribui para acentuar o cardcter diabélico, desagregador e incon-
trolavel da literatura que, por dever “mais aos diabos do que aos santos” (p. 97),
convém nao despertar. Pouco habituados aos tratos com o deménio (¢ com os seus
préprios deménios interiores), Fanny e José Augusto perecerao. Camilo resiste,
aparentemente ileso, atravessando, apés 0 desaparecimento dos amigos, um
periodo de grande fulgor criativo, 0 que parece confirmar 0 quanto a capacidade
criadora se alimenta da meméria, onde fervilham todas as paixGes transfiguradas,
na energia criadora de que falam as iltimas paginas do romance:
“Depois da morte de Fanny ¢ José Augusto, comegou o tempo mais fecundo
do escritor. A partida dos que amamos alimenta a sede de criagio. Fle ndo os
esquecia; plantava neles as hortas € os rosais das suas produgdes. Nunca soube
‘exactamente 0 que se passou no coragao deles, ¢ contribuiu muito para a turbulén-
cia das suas vidas”. (p. 226/227). .
Acrescenta ainda a autora no prefiicio que se trata “de um romance de evasdes
€ do fascinio que é a regra de todas as intercepgdes”. Isto parece indicar que, para
A.B. L,, a intercepedio € uma das fungdes primordiais do romancista, pelo menos
nos romances que, como este, reivindicam um cardcter histérico; 0 que nfo obsta a
que nele se detecte um pendor que o aproxima, por vezes, da biografia, Mas, nao
esquegamos que, tanto num caso como no outro, o tinico modo de suprir as inevi-
taveis lacunas de informago, passa pelo recurso & conjectura ¢ & elaboragio de
hipéteses explicativas.
Convém talvez nfo esquecer que interceptar significa “pér de permeio, impe-
dir, interromper 0 curso de, o que aponta para a postura do(s) romaneista(s) neste
romance: um mediador, um intermediério na infindavel cadeia de comunicacao que
une (ou separa?) o sujeito ¢ a realidade. Sabendo que nenhuma mediacio &
inocente —e a ficgdo menos que todas —, 0 romancista, um mistificador, sabe que
imprime a sua marca em tudo 0 que toca e que, por conseguinte, todo o discurso &
profundamente pessoal, porque enraizado numa subjectividade que Ihe da o ser.
Este é um romance sobre um romancista que, & pergunta “Como se escrevem os
romances?” responde do seguinte modo:
“com superficial candura, com desabrimento, com distraceio, por mera forma-
lidade e inépcia. Os romances escrevem-se com doses ¢ doses de dissimulagdo, com
virtudes pestilentas porque supuram do medo humano e nao séo fruto da coragem,
do amor ou do édio. [..] E ele mentia, com as suas heroinas nobilissimas os seus,
104capatazes do pecado, com o mundo patarata como natureza para digerir e amar. A
indignagio faz os folhetins; mas o que faz 0 homem é 0 medo e a sua revolta”. (pp.
71/72).
Toma-se claro que assistimos aqui a uma dupla quebra da limpidez comunica-
tiva ou, usando a expresso do texto, a uma dupla mentira, precisamente porque
ha—pelo menos— dois intermediérios. © primeiro ¢ Camilo, testemunha privile-
giada dos acontecimentos, diante de cujas falas o narrador-autor procura
subalternizar-se, reduzindo (assim o afirma) a sua intervengo ao minimo: a recolha,
© organizagio de materiais de cardcter diverso. Quando A. B. L. afirma “usei a
ccolagem € quase todas as suas [de Camilo] falas so as auténticas que ele escreveu
em novelas, nos dispersos e nas folhas em que anotava os seus pensamentos,” est
novamente a langar uma falsa pista para o leitor mais desprevenido, levando-o a
acreditar na efectiva neutralidade do seu narrador.
Por outro lado, esta passagem alerta-nos para o entrelagado de textos diversos
de que a superficie do romance, aparentemente una, resulta. Quer isto dizer que
esta juncada de outras vozes e do outros textos —cartas e didrios de Fanny e José
Augusto, crénicas € textos memorialisticos e ficcionais de C.C.B.—abundan-
temente citados ¢ glosados € que 0 texto agustiniano consegue habilmente cerzir,
numa continuidade sem falhas em que todas as partes se ajustam. Desse modo se
ria aquela densidade que caracteriza a escrita romanesca de A. B. L., conferindo-
Ihe uma especificidade que reside, menos na constante incorporacao de falas
alheias, do que na sua conjugagao numa fala romanesca nova e continua,
Ainda acerea do prefacio de Fanny Owen, & conveniente recordar que se trata
de um dos raros prefacios da autora, 0 que desde logo nos alerta para uma das
caracteristicas do texto: a sua incapacidade de encetar sozinho a peregrinagao que
em larga medida tende a ser. Como palavra que se acrescenta ¢ que orienta (ou
perturba, lancando falsas pistas), este prefacio cumpre as atribuigdes do prefiicio
original, tal como 0 concebe Genette(°), a saber, elucidar acerca das origens da
obra ¢ das condigSes da sua génese, fornecendo ainda indicagdes sobre os materiais
nela utilizados. Mas nao fica por aqui, na medida em que procura condicionar a
leitura, iniciando de imediato a manipulacao do leitor, o que equivale a dizer que
inele se inicia a fiegdo.
Sobre a “colagem” de (¢ as) falas de Camilo é bom nfo esquecermos as reti-
c@ncias que elas merecem: ou porque se trata de ficgdo, e nesse caso, como vimos,
no se podem submeter & prova de verdade, ou porque, tratando-se de textos de
carécter memorialistico como sucede com Duas horas de Leitura, publicado em
1857, ¢ No Bom Jesus do Monte, publicado em 1864, ou seja, respectivamente trés
€ dez anos apés a consumag&o da tragédia, ainda assim nao se Ihes pode dar
demasiado crédito. Camilo, sabendo que escreve para os contemporaneos com 0
fito “de ser proposto para a Academia logo que publicasse um romance sério” (p.
() Cf. GERARD GENETTE, “Les frontiéres de la préface originale” in Seuls, Paris, Seuil,
1987, pp. 182-218.
10573), bem sabe que esereve para a posterioridadé, como se depreende da Ieitura do
excerto de Vinte Horas de Liteira em que alude precisamente a No Bom Jesus do
Monte nos seguintes termos:
“Referi a Anténio Joaquim a tragédia de José Augusto. Caia a propésito
conti-la aqui ao leitor, mas, no més que vem, hi-de boiar “no rio do negro esque
cimento e eterno sono” mais um livro meu, desvelando a face enigmatica daquela
grande desventura, que o mundo impiedoso quis explicar com uma calinia
maior”.
‘Aliado ao factor tempo ¢ @ parcialidade de Camilo, o narrador-autor insiste
ainda no facto de, em seu entender, a meméria de Camilo ndo ser das melhores.
‘Assim, descreve-o como “um mogo com talento, bexigas e ma meméria. A ma
meméria é essencial para escrever romances ¢ para os poder viver; na vida e nos
romances tudo se repete.” (p. 11). E acrescenta: “porque 0 génio néio convence se
no estiver aturdido com certa dureza de espirito que nao da conta de quanto a
fantasia é coisa venerdvel pela velhice que testemunha.” (p. 11). Esta sistematica
descrenga na narrativa de Camilo, leva-o mesmo a afirmar:
“Nao vamos acreditar piamente no que Camilo conta depois da tragédia con-
sumada, Nessa altura ele queria sobretudo descarregar de cima dos ombros uma
boa parte da calinia que acabara por merecer. O seu furor era ainda tio vivo
contra José Augusto—que Fanny pudera finalmente arrastar com ela fixando 0
simbolo pela propria morte—, que no hesitou em deixar no ar a suspeita da sua
impoténcia ou até insipidez no que toca a mulheres.” (p. 186).
£ visivel que esta insisténcia na infidelidade de Camilo em relagio 4 verdade, 0
mesmo Camilo que de acordo com o narrador, durante toda a vida “havia de
cobrir com um manto sujo aquela amizade que Ihe tinha parecido capaz de precipi-
tar os proprios deuses no Olimpo”. (p. 206), serve para langar um véu sobre as suas
inverdades. Com efeito, a narrativa deste narrador que, desde o prefacio, preten-
dera alertar para a sua obsesséio com o rigor, chegando mesmo a afirmar omitir 0
nome de uma personagem porque o desconhecia, merece-nos reservas —e muitas.
No seu projecto desmedido ce devassar os mais intimos recessos das persona-
‘gens, com o secreto intuito de se apoderar da formula alquimica das paixOes que a
todos uniu e, em larga medida perdeu, o narrador —lic&o de Camilo —joga cons-
tantemente um jogo em que alternam os avancos ¢ os recuos, a ocultaglio ¢ 0
desvendamento dos factos, Desse modo mantém 0 leitor suspenso ¢ perplexo,
confrontando-o com a constante fragmentagdo de um saber que @ todo © momento
parece deixar fugir; 6 nitido o seu comprarimento nesta atitude que, a exemplo da
de numerosos narradores de Camilo, poderiamos qualificar de manifestadamente
liidica.
‘Um tanto & margem do que vinhamos dizendo, é ainda de referir que a nitida
parcialidade do relato de Camilo, pode ter alguma rela¢do com o modo, por assim
©) CamiLo CasTELO BRANCO, Vinte Horas de Liteira, Lisboa, Ulmeiro, 1989, p. 86.dizer bélico, como utiliza a linguagem o que deixa entrever algo de uma estratégia
guerreira, em relag&o & qual o narrador se mostra particularmente sensivel, como
ressalta da seguinte passagem:
“Basta ver como Camilo usava a Lingua portuguesa para ficarmos informados
sobre a sua vontade de poder, de conquistar a atenc&o, a fama e alma da Praga.
Isso acontece com o espirito que é avido porque é extremamente sobrecarregado de
talentos.” (p. 118).
Longe de caracterizar unicamente o estilo da prosa camiliana, isto traduz uma
vontade de poder que ¢€ comum ao narrador-autor, também ele interessado na
conquista e manutenc&o do enorme poder que a palavra (Ihe) confere.
‘Ao longo do romance vamo-nos apercebendo.da teia de equivocos ¢ meias-
~verdades que urdem Camilo ¢ o narrador-autor, uma teia tecida toda de palavras,
em si nem verdadeiras nem falsas, como se pode ler no texto: “Mas 0 que so as
palavras? Sio uma espécie de lei, mas n&o se sabe, na verdade, ao que ela se
aplica, essa lei.” (p. 71). Verifica-se, como que uma descoincidencia entre o desejo e
a sua expresso pela linguagem no caso das personagens; s6 o(8) narrador(es) se
movimenta(m) com agilidade nesse complexo campo. Precisamente porque se ser-
vem da linguagem e, brandindo-a ambos sobre os seus contemporaneos, a langam.
sobre a posterioridade, que enredam nas suas malhas. Daqui resulta que dois esti
los, distintos nalguns aspectos, tm em comum um tom sentencioso e profético,
particularmente propicio & moralizagao e, no caso do narrador, a frase lapidar e ao
aforismo.
E chegado o momento de perguntar: qual é a imagem que esse narrador-autor,
pretensamente imparcial, faz de Cainilo. Para respondermos a esta questiio, temos
que recordar a intengdo inicial assumida pela autora de deixar a cada um a possibi-
lidade de julgar os actos do novelista; possibilidade que o narrador permanente-
mente restringe, pois dos actos e pensamentos de Camilo, sabemos aquilo que esta
fiegdo nos quer revelar.
Uma das maneiras de mais eficazmente aparentar neutralidade em relagao
personagem, € fazer crer que ela se vé a si mesma com os olhos doentes mas liicidos
que, sendo seus, sio também os dos outros, pois permanentemente se desdobra em
sujeito e objecto do olhar, sentido predominante e principal metafora de conheci-
mento em todo romance. Exemplar ¢ 0 monélogo-didlogo que trava frente ao
espelho e que passamos a citar:
“Olhou para o paleté bastante cogado ¢ para o chapéu de castorina a que
faltava pélo. O seu tinico luxo era o barrete de dormir, de caxemira vermelha com
uma borla de seda azul. Era pobre, sempre fora pobre, e por isso os seus inimigos
eram bogais ou insignificantes; as suas mulheres eram vulgares vizinhas, com nomes
que inspiravam mais compaixio do que improvisos poéticos, Nascera em “hora
esquerda” e bebera o leite da obscuridade, comera alméndegas de carne dura ¢
aprendera que todas as perdas tém remédio, menos a perda do dinheiro. Os comer
ciantes podem falir com honra; 0s letrados nao podem senfio agonizar em situagdes
baixamente cémicas. Viu-se no espelho do guarda-fatos e disse alto:
107—Desde 15 de Julho até 15 de Agosto posso amar espantosamente, Mas no
Inverno, nem amor, nem intelecto. O que me espera neste lugar sem flores, sem luz,
sem sol, sem natureza? Se nao tivesse tanto sono, escrevia um artigo de fundo. E
tudo 0 que se pode fazer sem pensar. “
Dito isto, entrou na cama amornada pelo esquentador de brasas e adormeceu”
(pp. 28/29)
‘Camilo, tal como é visto pelo olhar frio € impiedoso jé referido, leva a sua
lucidez ao ponto de nio confundir o parecer com 0 ser, assumindo voluntaria ¢
conscientemente, de viva voz, uma considerdvel dose de calculismo ¢ perversidade,
nomeadamente quando afirma aquilo que os seus actos parecem indiciar:
“Nao sou um bom rapaz, ndo sou. [...] Nao desejo parecer mau, que isso ¢
uma grande maldade. Sou mesmo mau” (p. 214)
‘As forgas motrizes que o impulsionam na sua relacio com José Augusto so,
por um lado, a inveja—“Ha em Camilo um movimento de inveja que é 0 que
verdadeiramente se ope a constancia da amizade com José Augusto.” (p. 221) —e,
por outro, a admirago, misturada com um certo receio "A verdade € que José
Augusto 0 impressionava. Ria-se de Camilo com uma delicada indiferenca
Emprestara-the dinheiro que jamais pedira que ele Ihe devolvesse.” (p. 116). Ha algo
de demoniaco ¢ de inclutavelmente fatal nessa atracg%o que © prende aquele
homem e que o leva a dedicar-se & “Andlise minuciosa de cardcter do seu amigo.
Todos os dias observava e anotava por escrito as particularidades daquele rapaz
sem vicios ¢ sem virtudes”. (p. 92). Isto revela, desde logo, a intencdo de se apode-
rar, por todos os meios ao seu alcance, da matéria-prima que constitui o seu pré-
prio universo novelistico. Assim:
“Aquele morgado, que seria inofensivo se 0 deixassem ser apenas um l6gico
com riscos hereditarios, foi, nas suas m&os, um desgracado acima das suas posses.
E um personagem.” (p. 118). Quer isto dizer que os seres so matéria plistica ¢
moldavel, nas maos magicas tocadas pela genialidade que, por essa via, as fazem
transcender a sua condigdo mediocremente humana. Ambos, criador e personage,
necessitam da relagdo reciproca, fora da qual nada seriam. Em consequéncia disso,
gera-se a dialéctica do senhor e do escravo: “Camilo foi seu escravo, porque empe-
hou o seu génio em submeter valores que muito 0 seduziam;” (p. 221).
‘Tratando-se de personalidades tao diversas , a miitua atracgo compreende-se
por se tratar—no dizer de Camilo—de ‘uma alianga de extremos” (p. 94)
baseada, menos nas afinidades, de entre as quais avulta naturalmente Fanny que
funciona como uma espécie de apoio estético €, mais tarde, como simbolo, ou seja,
uma “realidade psicolégica extremamente excitante e capaz de anular a exigéncia
da realidade fisica”, (p. 105), do que nas irredutiveis diferengas. Opostos em quase
tudo, existe entre eles uma complementaridade que € quase simetria:
“José Augusto era um homem de paixdo; Camilo um homem de sensagdes.
Entre eles estava Fanny, que servia ambos— os desejos insaciaveis ¢ as fraquezas
que nascem dos sentidos traidos.” (pp. 122/123). Ao fazerem de Fanny um, sim-bolo, ¢ 0 seu fragil elo de ligacdo, esto a condend-la A tinica saida possivel. Cin-
dida, repartida, Fanny morre porque nao Ihe cabe escolher,
A ruptura entre José Augusto e Fanny surge na sequéncia das cartas desta,
alegadamente enviadas a um espanhol, que o narrador julga nao ser outro seni
um produto da imaginagdo de Camilo para iludir as suspeitas que sobre si recafam,
Depois da reuniio em que 0 morgado solicita 0 conselho dos amigos acerca da
necessidade de, por fidelidade & palavra dada, casar com a menina que raptara,
apesar das cartas por ela escritas a um outro homem, reunigo na qual Camilo
Pronuncia palavras de grande ambiguidade e perfidia, ele que era um mestre con-
sumado “na arte de saber dizer a iltima palavra” (p. 184), vai o romancista desen
volver contra José Augusto, de forma metédica, “uma vinganga persistente ¢ atroz”
(p. 183) que se transformara, rapidamente, num “duelo mortal” (p. 183) entre os
dois homens.
Muito tempo depois da morte do desventurado casal, & ainda a curiosidade
morbida ¢ insaciével que percorre Camilo e o impulsiona na sua Ansia de tudo
saber sobre a vida intima dos dois infelizes. Nada, nenhuma baixeza ou indiscrigao
© fario hesitar. Todos os testemunhos Ihe servirio — os dos criados, os de amigos
comuns ¢ possiveis confidentes de Fanny, os dos diérios, chegando mesmo a fazer
f€ no testemunho do Dr. Janota, responsével pela autopsia de Fanny e pela con.
firmacdo da sua virgindade. O mesmo Dr, Janota que, noutros textos, apoda de
incompetente... Como comenta 0 narrador, a propésito do relato de No Bom Jesus
do Monte, “é preciso que uma deméncia de citime ainda o habite para que, passa
dos nove anos, confesse essa atroz curiosidade”. (p. 211).
No que se refere ao destino inelutavel de Fanny ¢ do marido, & de assinalar
que ele se deve, em larga medida, a impossibilidade de levar a bom termo a dupli-
cidade de papéis que os principais protagonistas siio obrigados a representar, na
fentativa de adequagdo 20 modelo imposto por um Romantismo j decadente.
Neste sentido, as frequentes alusdes &s méscaras, disseminadas ao longo do
texto (), contribuem para acentuar a atmosfera de intensa sedugio que de Fanny —
mulher sem rosto, € por isso, mulher de todos os rostos —itradia, e 4o mesmo
tempo, 0 cardcter trégico de uma representago em que ninguém conhece a sua
verdadeira face. Todos os actores esto afinal repartidos, atravessados Por pulsdes
Contraditérias e, por isso mesmo, devastadoras. E 0 caso da paixio da leiturajes.
crita, nem sempre fécil de harmonizar com as restantes,
No caso de Camilo—enquanto personagem que narra—, a principal fora que
impulsiona a sua escrita sobre os amigos é, para além das ja mencionadas, a leitura
vida ¢ despudorada dos livros e diérios de Fanny e José Augusto, que resgata seis
anos apés a morte de ambos, recolhendo-os “como despojos de um naufrigio”(p.
221), Trata-se — como seria de esperar —de um leitor muito especial, que se permite
anotar ¢ comentar os dlbuns alheios, 0 que parece traduzir um desejo de posse
Péstuma daquilo que em vida sempre Ihe escapara. A consulta dos documentos
(CE, pores, p. 19 ep. 193comprova a afirmagiio do narrador-autor, segundo a qual Camilo compusera “um
epitafio sem gosto nem nobreza” (p. 196). Com efeito, no didrio de José Augusto
pode-se er, na primeira pagina ¢ em nota escrita a lépis pelo punho de Camilo:
“Estes documentos provam a que miséria 0 romantismo de hé trinta anos
podia levar dois desgracados com o eérebro vazio e 0 coracio cheio de asneiras.”
(p. 178).
Fanny ¢ José Augusto serdo as vitimas de vertiginosa paixiio da leitura ¢ da
escrita, que incapazes de dominasem, os dominard, José Augusto vé-se forgado a agit
em conformidade com 0 romance em que transformara a sua vida, enquanto
Camilo assiste —espectador sereno —a essa investidura do amigo na personagem
que decidira encarnar ¢ o conduziria & ruina, consigo arrastando os que com ele
privavam. “Raptara Fanny para corresponder as obrigagdes do romance que ele
proprio forjara e de que o seu didrio apresentava todas as incertezas.” (p. 177)
Quanto a Fanny, participante de um turbilhio de forgas de que o marido tenta
em vio apoderar-se, revelar-se-4, através das cartas e das peripécias por elas provo-
cadas, aquilo que o narrador designa por “uma novelista sem pablico” (p. 27. £
possivel que, por intermédio da escrita, Fanny procurasse forjar um destino (pelo
menos literario), um futuro que tudo na sa condi¢ao de mulher the parecia negar.
Fracassada a tentativa de sair—através de Camilo —para 0 exterior da relagdo
com José Augusto, vé-se obrigada a desdobrar-se na destinatéria da sua propria
escrita, em circuito fechado., Assim, constata amargamente 0 seu falhango enquanto
co-autora do romance que (Ihe) é a vida, como transparece na passagem em que diz
a0 marido: “Construimos um péssimo romance porque a sineeridade niio se dé com
0 bcio.” (p. 200).
Conchiindo, podemos dizer que, a exemplo de Fanny, para que a escrita € 0
tinico meio de atingir uma iluséria e fugaz centelha de poder, todo este romance
gira precisamente em torno da questo da posse. Posse de verdade, mesmo que
lacunar ¢ fragmentaria; posse do conhecimento, ainda que hipotético; posse do
tempo e da Historia, obrigados pelo romance a fluir por entre as margens que a
fiogio thes traga. Posse, finalmente, de livros e de escritos, o que revela a impossibi-
lidade de apropriago dos seres, paixdes, almas ¢ corpos, ou do ue deles resta—o
cadaver embalsamado de Fanny, 0 seu corago num bocal—um retrato, uma
recordagiio, Posse ainda da, e pela palavra, na impossiblidade de possuir o mistério.
(O enigma de Fanny ¢ das restantes personagens desta historia de paixfo ©
morte permanece envolto em neblina, pé ¢ siléncio. Como diz 0 texto quase no
final, pela boca de Hugo Owen, irmio de Fanny, “Talvez [o mistério] soja matéria
fecunda daqui a muitos anos. Nao nos compete a nés descobri-lo.” (p. 224).
‘A nos sim. £ essa a nossa interminavel tarefa, Cabe-nos a todos — autores,
titicos, professores, estudantes ¢ leitores — fazé-lo emergir do olvido, porque a lei-
tura resgata da morte ¢ do nada ¢ tudo recorta na meméria resplandecente ¢ sem
‘macula, feita pura energia. Uma energia cujo nome desconhecemos, mas no ces-
samos de demandar.
More From Marisa Henriques
Much more than documents.
Discover everything Scribd has to offer, including books and audiobooks from major publishers.
Cancel anytime.