PÓS-GRADUAÇÃO

CIÊNCIAS CRIMINAIS

ESTÁCIO-CERS

Prof. Dr. Sebástan Borges de Albuquerque Mello

Culpabilidade

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• O injusto penal defne quais são os comportamentos que. Cabe à culpabilidade estabelecer os critérios para se atribuir responsabilidade por estes comportamentos a um indivíduo concreto e imputar-lhe uma determinada pena. em face dos demais membros da comunidade em que vive. . • Quando se defne o fundamento material da culpabilidade. em tese. pelas infrações penais que lhe forem atribuídas. são merecedores de pena. trata-se o culpável como alguém dotado de característcas e capacidades hábeis a torná-lo responsável.Culpabilidade e dignidade da pessoa humana 1. Noções Gerais • A ideia de culpabilidade diz respeito à busca de um fundamento para se atribuir a alguém a responsabilidade pessoal pela prátca de um ilícito penal. como consequência.

a flosofa. a teologia.Culpabilidade e dignidade da pessoa humana • O conceito de pessoa culpável delimita uma concepção de ser humano como indivíduo responsável • Culpabilidade jurídica x culpabilidade moral 1) a expressão “culpabilidade” não é domínio exclusivo do Direito. pois seu conceito diz respeito a outros ramos do conhecimento. como a moral. que deve ser aplicado em consequência de característcas morais negatvas exteriorizadas pelo sujeito através do crime. 2) ainda está arraigado no meio social o sentmento de que a culpabilidade é o fundamento que justfca a pena como um castgo. a psicologia. .

e. Culpabilidade e dignidade da pessoa humana • Porque a responsabilidade penal objetva é inconsttucional e a responsabilidade civil objetva é consttucional? • Relações entre culpabilidade e pena • A razão pela qual o princípio da culpabilidade estabelece critérios mais restritos. .Culpabilidade e dignidade da pessoa humana 2. a vulneração da dignidade da pessoa humana. individualizadores e garantstas nos critérios de imputação pessoal não é outro senão a existência da pena. com ela.

a culpabilidade material representa uma tentatva não apenas de limitar o poder. e não haveria qualquer sentdo em confrontar culpabilidade e dignidade se a sanção penal não fosse dotada das característcas ignominiosas que efetvamente tem . mas de tentar legitmar e justfcar a violência que a pena representa para o indivíduo concreto. • A culpabilidade relaciona-se com a pena pela pura e simples razão de que a sanção penal viola a dignidade da pessoa humana. na esfera do injusto.Culpabilidade e dignidade da pessoa humana • assim como o bem jurídico representa uma busca de limitação a este poder.

• Efcácia vertcal e horizontal da dignidade • Teoria jurídica da culpabilidade (Kant) • Proibição de instrumentalização (homem como um fm em si mesmo) • Culpabilidade e conceito de pessoa . o ser humano. Assim a dignidade atribui o predicado de valioso a um ente. Tem suas origens no adjetvo latno dignus. no caso.Culpabilidade e dignidade da pessoa humana 3. Dignidade da pessoa humana • a palavra dignidade tem como signifcado "qualidade de digno". que pode ser traduzido como "valioso".

variedade e abertura .Culpabilidade e dignidade da pessoa humana • Dignidade Jurídica – Direito a ter direitos • Universalidade e racionalidade • Acumulação.

Culpabilidade como principio consttucional. Ninguém responderá por um resultado absolutamente imprevisível se não houver obrado com dolo ou culpa. • Responsabilidade Pessoal . Nessa acepção. da Consttuição – Nenhuma pena passará da pessoa do condenado . 2. Culpabilidade como fundamento da pena. com a missão de individualizar e subjetvizar os critérios de imputação então vigentes • Responsabilidade subjetva A culpabilidade é considerada como conceito contrário à responsabilidade objetva. • Princípio a culpabilidade como princípio. Limite da pena (graduação da pena). o princípio da culpabilidade impede a atribuição da responsabilidade objetva. XLV. 3.Art.Conceito de Culpabilidade Instrumento autônomo com três dimensões específcas: 1. 5.

e aos que com elle conversao. Título VI. • Em segundo lugar. e empece e infama os que de sua linha descendem. e empece ainda os descendentes de quem a tem. ou seu Real Stado. • • . assi o erro da traição condena o que a commete.Conceito de Culpabilidade • Ordenações Filipinas. porque assi como esta enfermidade enche todo o corpo. (transcrição do português original). que o compararao à lepra. a culpabilidade funciona como limite da pena. pelo que he apartado da comunicação da gente. in verbis: “Lesa Magestade quer dizer traição contra a pessoa do Rey. sem nunca mais se poder curar. impedindo que a pena seja imposta aquém ou além da medida prevista pela própria idéia de culpabilidade. posto que não tenhao culpa”. e que os antgos Sabedores tanto estranharao. que he tão grave e abominável crime. Nessa acepção. Livro V. a culpabilidade é tratada como elemento da determinação ou medição da pena.

a culpabilidade. consciência da ilicitude e exigibilidade da conduta. • A culpabilidade passa a consttuir um conjunto de elementos que justfcam ou vedam a incidência da pena a um autor individual. como fundamento da pena. refere-se ao fato de ser possível ou não a aplicação de uma pena ao autor de um fato tpico e antjurídico. exige-se os seguintes elementos da culpabilidade: capacidade de culpabilidade. A ausência de qualquer desses elementos é sufciente para impedir a aplicação de uma sanção penal. . e é neste nível que a culpabilidade é referida no sistema jurídico-dogmátco penal • Para isso.Conceito de Culpabilidade Por fm.

livre. A Culpabilidade e o livre-arbítrio clássico • Racionalidade penal moderna. O crime como decisão livre e racional do homem (visão da Escola Clássica) • Característcas do indivíduo – Igual.1. racional • Tese de Carmigniani e depois Carrara – Forças fsicas e morais do delito • A negação do livre-arbítrio positvista (para além de uma visão determinista – uma visão agnóstca) .Conceito de Culpabilidade 2.

utliza a expressão culpabilidade em vez de imputato juris. fazia com que ilicitude e culpabilidade entrelaçassem- se num conceito superior de imputação (Zurechnung). não confere à culpabilidade o status de categoria autônoma dentro da estrutura do delito. Para Binding. de 1867. Para Merkel. . A culpabilidade consttui-se num momento essencial da antnormatvidade.Teoria Psicológica da Culpabilidade Teoria Psicológica da Culpabilidade • Prolegômenos – a culpabilidade na segunda metade do século XIX. causalidade e culpabilidade não são coisas distntas. mas sim a culpabilidade é a própria conduta causal digna de imputação • Binding. não representava – até o surgimento da concepção psicológica – um conceito autônomo e independente em relação à Teoria do Delito. o injusto é injusto culpável. em 1872 . • A teoria unitária de Merkel. pois inexiste antnormatvidade não culpável.

e não na do juiz. • O dolo e a culpa stricto sensu são as duas espécies ou formas possíveis de culpabilidade. Se adstringe ao estado mental do autor do delito. segundo a concepção psicológica. Ela está. para a teoria psicológica. como pressuposto. Ao lado deles fguram. que deve estar presente no momento da ação ou da omissão . a imputabilidade.Teoria Psicológica da Culpabilidade • Teoria Psicológica • Fundamento: positvismo cientfco • A culpabilidade é um fato psíquico. na cabeça do agente. é o vínculo que liga o agente a seu fato. • A culpabilidade. assim. sobre a base daqueles fatos que foram reconhecíveis por meio da observação e acessíveis a uma descrição.

Teoria Psicológica da Culpabilidade Estrutura da Teoria Psicológica a) Tipicidade e ilicitude – Objetva • Causalidade material b) Culpabilidade – Subjetva (Causalidade psíquica) • Pressuposto – imputabilidade • Espécies – Dolo e culpa • Propósito – evitar valorações tdas como imprecisas. conferindo segurança “cientfca” .

na qual não há qualquer vínculo psíquico entre o autor e o fato . Crítcas à Teoria psicológica • Elementos subjetvos nas causas de justfcação • Culpa inconsciente.Teoria Psicológica da Culpabilidade 2.3.

Teorias normatvas da culpabilidade 3.Teorias normatvas da culpabilidade 3. Windelband e Lask.1. Radbruch • Categorias do conhecimento apriorístcas • Valoração no âmbito jurídico .Rickert. Neokantsmo a) Escola de Marburgo – Stammler b) Escola Sudocidental Alemã (Escola de Baden) .

Enxerga um elemento normatvo na culpabilidade. apenas colocando um específco elemento normatvo junto aos demais elementos da culpabilidade estruturados de outra forma.2. Graf zu Dohna) 2) concepções segundo as quais a culpabilidade possui um elemento normatvo. não estendendo a normatvidade à culpabilidade em geral.Tendências do neokantsmo na teoria do delito 1) tendências etzantes. em si mesma. Encontram na essência da culpabilidade uma valoração .Teorias normatvas da culpabilidade 3. 3) concepções nas quais a culpabilidade é. Daí a expressão teoria psicológico-normatva. o núcleo da culpabilidade é uma contrariedade ao dever etcamente determinado (Mayer. normatva.

Teorias normatvas da culpabilidade Estrutura da culpabilidade normatva do neokantsmo • Dolo (normatvo – dolus malus – consciência da ilicitude) e culpa • Imputabilidade • Exigibilidade de conduta diversa .

Dolus malus é o dolo mais a consciência da ilicitude. graus. ao lado da exigibilidade de conduta conforme ao Direito. requisitos ou elementos. • Por abrigar requisitos psicológicos e normatvos é que a teoria normatva da culpabilidade é também chamada teoria psicológico-normatva da culpabilidade. . não como as espécies de culpabilidade.Teorias normatvas da culpabilidade • O dolo e a culpa são mantdos na culpabilidade. que acolhe o dolus malus. mas já agora como formas.

Teorias normatvas da culpabilidade

Principais expoentes do Normatvismo
• Frank
• Goldschimidt
• Freudenthal
• Mezger

Teorias normatvas da culpabilidade

Reinhard Frank (1907)
• Exemplo dos caixeiros viajantes com culpabilidades distntas
• Culpabilidade como reprovabilidade
• Culpabilidade presente nas circunstâncias concomitantes
• Inserção da imputabilidade como elemento da culpabilidade

• culpabilidade como um fenômeno complexo, formado de elementos
subjetvos e normatvos, reunidos sob a denominação de reprovabilidade

Teorias normatvas da culpabilidade

James Goldschmidt (1913)
• Norma de direito (rechtnorm) e norma de dever (pfitchnorm)
• A norma de dever ordena o sujeito a conduzir sua conduta interna e motvar-se
pelas representações de valor jurídico.
• A norma externa se refere à conduta exterior, à causalidade, e a norma interna
refere-se à conduta interior, sua motvação
• A norma de dever marca o limite extremo da exigibilidade, que será, portanto, o
fundamento das causas de exculpação, quando a motvação anormal ou contrária
à norma de dever não é penalmente reprovável

o registro de crianças em dias úteis • Aproximação da linguagem dos juristas à linguagem popular • Exigibilidade de conduta diversa (possibilidade de atuar de outro modo) • a existência de elementos normatvos no dolo .Teorias normatvas da culpabilidade Berthold Freudenthal (1922) • Hipóteses de culpabilidade sem dolo (O caso do cavalo arredio.

que a valoração decisiva jurídico-penal determina como contrária ao dever e censurável (juízo valoratvo da culpabilidade)”. • Culpabilidade pela condução de vida (direito penal do autor) .Teorias normatvas da culpabilidade Edmund Mezger • Conceito complexo de culpabilidade • a culpabilidade é um juízo normatvo acerca de uma situação de fato psicológica • “A culpabilidade é uma situação de fato psicológica (situação de fato da culpabilidade).

em comparação com o que efetvamente fez . agora a vontade passa a consttuir a “espinha dorsal da ação” e é. afrma que a valoração que interessa para a culpabilidade se refere àquilo que o homem havia podido e devido fazer.Teoria normatva pura Finalismo – Teoria Normatva pura • Fundado em estruturas lógico-objetvas/ Objeto da valoração e valoração do objeto • Com a teoria fnalista abandona-se o clássico conceito de ação que a via como mero impulso mecânico. não se investgando o conteúdo da vontade. pois o autor poderia realizá-la de acordo com a norma. Somente aquilo que depende da vontade do homem pode ser censurado como culpável. Por isso. • culpabilidade de vontade. o núcleo do injusto pessoal do agir • há culpabilidade quando a conduta do autor não é como exige o direito. nesta doutrina.

assim. de reprovação que recai sobre o autor do injusto penal. excluída de qualquer dado psicológico. • O que se reprova. logo. eles passam a ser “objeto da valoração” da culpabilidade. não fazem parte da culpabilidade. O mesmo acontece com a culpa. na culpabilidade. puro juízo de valor. não pode a culpabilidade abrigar em seu seio requisitos subjetvos ou psicológicos. o dolo que é psicológico. é afastado do âmbito da culpabilidade e passa a compor o tpo subjetvo dos delitos dolosos. é a confguração da vontade manifestada no fato antjurídico. • O dolo e a culpa. Eles integram o tpo e uma vez ausentes o fato é atpico. • Sendo puro juízo de censura. é puramente valoratva ou normatva. isto é. e isso pressupõe a imputabilidade e a consciência do injusto (ao menos potencial).Teoria normatva pura • A culpabilidade. que passa a fazer parte do tpo nos crimes culposos. • Substtuiçãp do dolus malus pelo dolo natural ( o dolo é objeto da valoração) . segundo a teoria fnalista da ação.

• O sujeito não é culpável quando o sujeito não tem possibilidade de atuar conforme o direito: a) porque lhe falta capacidade de culpabilidade (imputabilidade). b) quando há carência no elemento intelectual (o potencial conhecimento da ilicitude) c) Carência no seu elemento volitvo (exigibilidade) .Teoria normatva pura • Culpabilidade concreta é formada por elementos intelectuais e volitvos.

Teoria normatva pura Estrutura da culpabilidade fnalista • Tipicidade (inclui dolo natural e culpa) e ilicitude possuem elementos objetvos e subjetvos • Culpabilidade a) Imputabilidade b) Potencial consciência da ilicitude c) Exigibilidade de conduta diversa .

Teoria normatva pura Conceito material de culpabilidade • Poder atuar de outro modo • Liberdade a) Antropológica – capacidade de desviar-se dos impulsos b) Caracteriológico – surgimento do “eu” regulador c) Categorial – compreender entre os impulsos. o impulso do conhecimento .

Teoria normatva pura Crítcas ao fnalismo • Difculdade de demonstração empírica do “poder atuar de outro modo” • Insustentabilidade polítco-criminal .

Culpabilidade e funcionalismo Culpabilidade funcionalista 1. Teorias generalizantes antecedentes A) Jescheck. Schmidt) • Crítca – Estado Democrátco de Direito e Multculturalismo • Culpabilidade como attude interna juridicamente desaprovada . Weigend e Wessels • A fgura do “homem médio” (origem – Eb.

Claus Roxin •Importância da polítca criminal e das fnalidades preventvas •Criação de um conceito maior que se chama de “Responsabilidade”. •Culpabilidade e prevenção como conceitos que se limitam dialetcamente • A culpabilidade é insufciente para justfcar a responsabilidade pois somente seria possivel fazê-lo com penas restributvas . formado por: A)Culpabilidade.Culpabilidade e funcionalismo 2. B)Necessidades preventvas da pena.

a)A capacidade de autocontrole.Culpabilidade e funcionalismo Claus Roxin •Culpabilidade como conceito empírico/normatvo. é a realização do injusto apesar da idoneidade para ser destnatário de normas e da capacidade de autodeterminação que daí deve decorrer”. como elemento empírico b)A possibilidade de conduta conforme a exigência do direito. como elemento normatvo •“culpabilidade. •Fundamento material na dirigibilidade normatva (ex: trânsito) . para o Direito Penal.

E se pune o sujeito para manter a confança geral na norma. para estabilizar o ordenamento. •A conduta criminosa desautoriza a norma. na medida em que o juízo contdo na norma confgura um modelo de orientação que foi desrespeitado pelo sujeito •A concepção material de culpabilidade como o defeito de motvação jurídica do autor. . gerando um confito social. •A motvação do autor em desconformidade ao Direito é o motvo do confito. Günther Jakobs •Pena como reação social à contradição normatva representada pela infração penal.Culpabilidade e funcionalismo 3.

4)Concorrência de alguns elementos especiais da culpabilidade. como capacidade de questonar a validez da norma. de uma pessoa que é defnida como igual (e a igualdade.Culpabilidade e funcionalismo Günther Jakobs •O tpo positvo de culpabilidade depende: 1)Comportamento antjurídico. na medida em que é a objetvação necessária para imputar o defeito de motvação. para determinada categoria de delitos. aqui. Estes requisitos positvos deverão estar cumulatvamente presentes para que haja a realização do tpo de culpabilidade. ou não impedem. o processo motvatório. 2) Imputabilidade. pois o injusto pertence à culpabilidade. . 3)Atuação com desrespeito ao fundamento de validez das normas. é tda como o conjunto de característcas básicas e gerais que formam.

desde que “[. •Jakobs uma teoria da pena preventvo-geral. sendo ele responsável por dita falta.] se defna o delinquente como ser igual . •A ideia de culpabilidade do funcionalismo sistêmico está vinculada à fnalidade preventva... que se comportou de maneira contrária ao Direito. de tal modo que “se honra ao delinquente como ser racional”. na medida em que tnha capacidade para respeitar o fundamento das normas •Hegel – um de seus inspiradores –a pena consttui-se num direito do delinquente. de modo que a imputação da pena ao autor é feita porque houve um defeito na motvação jurídica de um sujeito.Culpabilidade e funcionalismo Günther Jakobs •O tpo negatvo de culpabilidade ocorre quando o autor atua com uma disposição de ânimo exculpante ou em um contexto exculpante (inexigibilidade). considerando que a pena é um direito do delinquente.

Culpabilidade e funcionalismo Günther Jakobs •Culpabilidade e direito penal do inimigo. não é um inimigo. resgatando a confança normatva atngida pela prátca de uma infração penal. mata ou prende os vassalos sem declarar guerra ao Rei. mas um ladrão . o crime é um aspecto acidental. ao estado. O Direito Penal tem a missão de estabilizar os confitos sociais. trata-se de um desvio na conduta provocada por um defeito na motvação jurídica. Seguindo a linha de Roussseau. quem furta. •Jakobs diferencia duas vertentes do Direito Penal: o Direito Penal do Cidadão (Bürgerstrafrecht) e o Direito Penal do Inimigo (Feindstrafrecht). •No Direito Penal do Cidadão.

os inimigos. querem destruir o Estado. •O Estado não pode tratá-los como cidadãos mas como inimigos porque destroem a vigência da norma.Culpabilidade e funcionalismo Günther Jakobs •Direito Penal do inimigo como uma coação contra aqueles que põem em perigo a paz social •Estas pessoas. •O Estado deve agir antecipadamente de modo a neutralizar o inimigo antes que ele possa agir •Substtuição da culpabilidade pela periculosidade .

. E)Substtuição da culpabilidade pela prevenção. (direito penal do Autor) F)Despersonalização do indivíduo.Culpabilidade e funcionalismo Günther Jakobs Pilares: A)Antecipação da punição. C)Relatvização e/ou supressão de certas garantas processuais D)Criação de leis severas direcionadas à clientela dessa específca engenharia. B)Desproporcionalidade das penas.

pelo menos até os dias atuais. o princípio de culpabilidade vem perdendo cada vez mais o poder de fundamentar ou de medir a pena com base na culpabilidade. ao qual se reservou.Culpabilidade no pós-fnalismo Winfried Hassemer •“[. afrma que até mesmo essa função limitadora se encontra em perigo. •Ex: Medidas de segurança com consequências mais graves do que penas. a tarefa de estabelecer limites dentro dos quais o delinquente poderia ser sacrifcado em nome dos interesses preventvos de estabilização normatva.] face ao crescente interesse polítco criminal na produção de consequências favoráveis através do Direito Penal. intmidação e tratamento.. na medida em que as modernas teorias da culpabilidade relacionam culpabilidade com teorias preventvas. •Penas alternatvas sem culpabilidade •Hassemer sustenta ser impossível renunciar ao princípio da culpabilidade. No entanto. .. É a “funcionalização da culpa” através de princípios preventvos.

. •“a capacidade de culpabilidade. mesmo diante da mais urgente necessidade polítco-criminal •A “culpabilidade” “consiste num conjunto de direitos negatvos de imputação adquiridos historicamente.Culpabilidade no pós-fnalismo Winfried Hassemer •Um dos efeitos mais salutares do princípio da culpabilidade consiste em obstar a satsfação de interesses polítco-criminais de intmidação e tratamento. pelo menos em tese. Assim. cujo fundamento está na ideia de proporcionalidade. embora sejam formulados pela legislação de forma negatva. o conhecimento da proibição e a exigibilidade de conduta em conformidade com a norma são pressupostos positvos” do últmo plano justfcador de verifcação do fato criminoso. quando estes pudessem produzir um castgo desproporcional. a culpabilidade era um limite que deveria prevalecer claramente.

Culpabilidade no pós-fnalismo Schünemann • Adota um modelo híbrido. Pondera-se que os conceitos devem estar em consonância com a realidade. estruturado na linguagem. pertencente a uma capa especialmente elementar. pautado no “interacionismo simbólico”. no qual normatvismo e ontologismo se completam. (Witgenstein) • O livre arbítrio não seria um mero dado biofsico. cujo abandono somente seria concebível em caso de liquidação da cultura na sua . • A estrutura fsica da realidade e a experiência constroem os fundamentos ontológicos do sistema • A existência do livre arbítrio seria um “estado antropológico fundamental”. mas uma parte da reconstrução social da realidade.

Culpabilidade no pós-fnalismo Schünemann • A culpabilidade não seria isenta de elementos subjetvos. de forma que o elemento cognoscitvo seria analisado no âmbito da tpicidade. Haveria uma repartção dos elementos do dolo. • A culpabilidade deve ser entendida como “el resultado de una valoración de la estructura psíquica del comportamento . enquanto o componente volitvo deveria ser examinado na culpabilidade (componente emocional).

Entende que a tpicidade seria uma estrutura exclusivamente técnico-formal e que os valores fundamentais do Direito penal estariam representados pela antjuridicidade (que não consttuiria uma categoria autônoma) e pela culpabilidade . • Um conceito de delito formado por injusto (Unrecht) e culpabilidade (Schuld).Culpabilidade no pós-fnalismo Schünemann • A liberdade de vontade poderia ser concebida como um êxito da evolução cultural do homem. consistente na aquisição da faculdade de direção do comportamento segundo valores analisados critcamente e comprovados corretamente por meio da consciência.

ha propiciado una extraordinaria depuración del Derecho penal . en interés de una protección preventva de bienes jurídicos. llegue a castgar incluso aquellos hechos que el autor no podía evitar y por los cuales no se le puede dirigir ningún reproche personal. de modo necesario. como principio de limitación y. más allá de todas las causas de exclusión de la culpabilidad confguradas preventvamente.• solo el principio de culpabilidad puede evitar también que el Estado. a la vez. el principio de legitmación conocido como <<culpabilidad>> opera. De este modo.

democracia e racionalidade do discurso • As normas jurídicas são válidas quando todos os possíveis atngidos pelos seus efeitos poderiam dar seu assentmento. para um conceito de legitmação através de um discurso racional entre indivíduos iguais que normatzam regras do direito a partr da “liberdade comunicatva” . que pode ser vista nos pensadores iluministas clássicos (notadamente Rousseau).Culpabilidade e linguagem 1. a comunicação racional (linguagem) serve como garanta do princípio democrátco. Klaus Gunther • Infuência de Jürgen Habermas sobre legitmidade. em que há uma manifesta modifcação do paradigma da prevalência da vontade da maioria pura e simples. na qualidade de partcipantes de discursos racionais • No pensamento habermasiano.

Culpabilidade e linguagem Klaus Gunther •O sujeito é autor racional das normas a partr do processo discursivo e democrátco das normas jurídicas •Conceito de pessoa deliberatva como capaz critcamente de tomar posições motvadas. mas também autores das normas jurídicas. numa democracia. não são apenas destnatários. . sendo capaz de seguir os respectvos motvos •os cidadãos. que pressupõe do indivíduo a capacidade crítca em relação a condutas e manifestações (tanto alheias quanto próprias). Esta dupla condição é alicerçada numa concepção comunitária de pessoa.

volitvo •A relação do conceito de pessoa com a partcipação democrátca nos processos argumentatvos termina por legitmar a obediência à norma jurídica. no sentdo do injusto.Culpabilidade e linguagem Klaus Gunther • O fundamento da liberdade se origina da capacidade crítca do cidadão de tomar posições motvadas. cognitvo e um segundo. e legitma a imposição de uma sanção penal a um indivíduo . •Esta capacidade de attude crítca. sendo capaz de seguir os respectvos motvos e com base neles executar ações. que envolve a escolha dos motvos que determinam uma ação. compreende dois momentos: um primeiro. •A argumentação desenvolvida justfca o fundamento de obediência à norma.

em relação a seu próprio plano de ação. Esta capacidade é o critério geral para a capacidade de imputação da pessoa capaz de direito. Uma eventual lesão normatva somente poderá ser imputada ao sujeito quando esta pessoa tver capacidade crítca em relação às suas ações e manifestações próprias e alheias. isto é. . de ter uma attude crítca perante suas próprias manifestações e ações. •.Culpabilidade e linguagem Klaus Gunther •Deve-se examinar a capacidade da pessoa. como destnatária.

Kindhäuser •Numa sociedade secularizada e laica. pressupondo ao mesmo tempo que o indivíduo não pode ser utlizado como instrumento para a execução de propósitos heterônomos .Culpabilidade e linguagem 2. não existe nenhum conteúdo apriorístco das normas jurídicas. sendo que a legitmidade somente poderá ser deduzida da autonomia dos partcipantes no processo de integração social.

•A culpabilidade formal não responde por que este défcit de motvação para cumprir a norma deverá ser castgado. pois a ordem jurídica não pode obrigar o sujeito a adotar uma motvação. então poderia evitar a prátca de um fato antjurídico. como conteúdo da censura da culpabilidade. Se o autor tvesse formado uma motvação dominante para observar a norma. Kindhäuser •Culpabilidade formal. . nem tampouco por que o autor deveria motvar-se para cumprir a norma penal •Culpabilidade Material • Para o Direito. devem ser indiferentes as razões e os motvos pelos quais se cumprem suas determinações.Culpabilidade e linguagem 2. pois isto é âmbito de uma norma moral.

o sujeito viola o acordo que a fundamenta. E essa lealdade comunicatva é chamada por Kindhäuser como fdelidade à lei. Não é a racionalidade. mas a lealdade comunicatva frente à autonomia de outra pessoa que vincula o autor com a norma. e. . com isso. orientado para o resultado (ação instrumental) e outro. a autonomia comunicatva do partcipante (pouco importando se este concorda ou não internamente com o conteúdo das normas). orientado para o acordo (ação discursiva). •Com o descumprimento da norma.Culpabilidade e linguagem Kindhäuser •dois tpos de comportamento comunicatvo: um deles.

tão somente. que não precisa ser afrmado. uma conduta com possibilidade de subsunção tpica (pretensão de verdade ou tpicidade formal) e com caráter perigoso ou danoso que induz à cominação de uma pena (pretensão de ofensividade ou de antjuridicidade material). Vives Antón •Infuência da flosofa da linguagem de Witgenstein •A liberdade em Vives Antón é concebida como um pressuposto da própria ação.Culpabilidade e linguagem 2. . pela indicação da ocorrência de uma conduta que interessa ao Direito Penal. mas. percebido.pretensão de relevância. •A primeira condição de validade normatva .

Culpabilidade e linguagem Vives Antón •Pretensão de antjuridicidade formal. a partr de duas condições: imputabilidade e consciência da ilicitude da ação. naquilo que chama de “pretensões fracas” . A exigibilidade fca na pretensão objetva de ilicitude. •A terceira é a pretensão de reprovabilidade (juízo de culpabilidade). que indica a contradição entre a ação e uma norma. que recai sobre o autor e induz ao exame da exigibilidade jurídica da atuação de modo diverso.

Culpabilidade por vulnerabilidade Eugenio Raul Zafaroni • Criminalização como corolário de processos de defnição e seleção que escolhem determinados indivíduos aos quais se atribui o status de criminoso. Ministério Público e Poder Judiciário) c) a criminalização terciária (ingresso de indivíduos no sistema prisional). b) a criminalização secundária (atuação da Polícia. • Esses processos se realizam por três fases distntas: a) a criminalização primária (criação dos tpos penais). .

esta sociedade deve arcar em parte com as conseqüências deste ônus por ela imposto aos indivíduos. limitando de diferentes formas sua capacidade de autodeterminação e escolha. portanto. visando a igualdade material . arcabouço de desigualdades. dividindo a responsabilização através de uma espécie de co-culpabilidade. acabem por cometer infrações penais” • Redução ou isenção de pena como forma de correção de desigualdades. e atenuando a punição daqueles que. por serem menos favorecidos. age de certa forma sobre os sujeitos.Culpabilidade por vulnerabilidade Eugenio Raul Zafaroni • Coculpabilidade “se a sociedade moderna.

Culpabilidade por vulnerabilidade Eugenio Raul Zafaroni • Culpabilidade por vulnerabilidade • Uma parcela da população necessita ser selecionada. punida e aprisionada pelo sistema – esses são os “vulneráveis” • 3 tpos de vulneráveis A) Conforme ao estereótpo de criminoso (valores negatvos associados a determinados padrões ou etquetas B) Por comportamento grotesco ou trágico. julgada. que chama a atenção pelo seu caráter espetacular C) Falta de cobertura polítca. como efeito simbólico .

julgada.Culpabilidade por vulnerabilidade Eugenio Raul Zafaroni • Culpabilidade por vulnerabilidade • Uma parcela da população necessita ser selecionada. que chama a atenção pelo seu caráter espetacular C) Falta de cobertura polítca. como efeito simbólico . punida e aprisionada pelo sistema – esses são os “vulneráveis” • 3 tpos de vulneráveis A) Conforme ao estereótpo de criminoso (valores negatvos associados a determinados padrões ou etquetas B) Por comportamento grotesco ou trágico.

a partr de critérios de isonomia.Culpabilidade por vulnerabilidade Eugenio Raul Zafaroni • Correção da culpabilidade a partr da vulnerabilidade • A culpabilidade como vulnerabilidade expressa a busca pela limitação da violência punitva. . do reconhecimento da falta de legitmidade do sistema penal e da utlização da pessoa humana como meio de balizá-la.

Freud. por sua vez. a partr da seleção natural. mas sim uma entre tantas outras que evoluíram a partr de um ancestral comum. o ser humano não é uma espécie diferenciada. A crise do livre-arbítrio • dogma do livre-arbítrio • As três feridas narcísicas 1.heliocentrismo. Coopérnico . ao suscitar que a consciência é a menor parte e a mais fraca da vida psíquica. mas apenas mais um entre tantos outros que giram em torno do sol. é responsável pela últma ferida. existndo uma série de fatores não conscientes que demonstram que “o ‘eu’ não é senhor em sua própria casa . o mundo em que vivemos não é o centro do universo. 2. Darwin.Culpabilidade e neurociência 1. 3.

A consciência é apenas a menor parte daquilo que revela o cérebro. Eagleman. O cérebro cuida de seus negócios incógnito .Culpabilidade e neurociência As experiências de Benjamin Libet •a descoberta de que a maior parta daquilo que cada pessoa faz ou sente não está sob o seu controle consciente. •O cérebro é visto como um órgão que toma decisões sem que nossa consciência perceba. conjurando ideias como uma magia tremenda. e a maioria das operações cerebrais – inclusive algumas daquelas relacionadas a tomada de decisões – está acima do espaço da mente consciente. “o cérebro faz suas maquinações em segredo. Ele não permite que seu colossal sistema operacional seja sondado pela cognição consciente.

.Culpabilidade e neurociência • Neurodeterminismo a) Gerhard Roth: As decisões. um produto cultural que não existe na realidade. isto é. uma construção teoria. desejos e intenções ocorrem no sistema límbico alguns segundos antes que possa ser percebida de modo consciente. e que ditos estados cerebrais estão determinados pela organização genétca previamente dada pelo sistema nervoso. b) Wolfgang Prinz: Compara a liberdade de vontade ao “unicórnio”. c) Wolf Singer: Cada ação corresponderia por uma combinação entre a constelação que forma o estmulo atual e os estados cerebrais imediatamente anteriores. O “eu” é uma ilusão. .

pena a ser aplicada. e se o crime não pode ser evitado.Culpabilidade e neurociência • A neurociência. não tem como evitar o crime. fcando no mesmo plano metafsico em que se encontram as religiões e a superstção • Problemas • Substtuição da culpabilidade pela causalidade? • Se o homem não tem liberdade de decisão. . portanto. mas sim uma série de medidas visando frear os impulsos criminosos. resume o que se chama de livre-arbítrio a um conjunto de processos causais que se processam no sistema límbico. portanto. não pode tampouco ser proibido. sendo que a suposta consciência de liberdade consistria numa mera ilusão sem base cientfca. Não haveria.

adotar uma postura determinista. automatcamente. • Liberdade é diferente de livre-arbítrio . pela sua indemonstrabilidade. a existência de processo decisórios inconscientes. não signifca. Demonstrou. até porque a neurociência não conseguiu – pelo menos até o presente momento – estabelecer um critério seguro e verifcável empiricamente de determinismo. sim.Culpabilidade e neurociência • Negar o livre-arbítrio.

seja a favor do indeterminismo). porque uma análise empírica retrospectva da liberdade conduz ao determinismo.Culpabilidade e neurociência • A questão da liberdade não pode ser decidida de modo empírico (seja em favor do determinismo. mas sim porque tratar o homem em razão desses atributos se considera valoratvamente positvo”. pois “[..] as Consttuições confguram uma imagem do homem conforme determinadas característcas. e uma análise prospectva . não são característcas humanas que se possam constatar como a cor dos olhos. 2) a liberdade estudada por métodos empíricos leva a resultados contraditórios. e não outras). não porque não sejam incontestáveis no mundo fsico.. por duas razões: 1) a liberdade (assim como a dignidade ou a igualdade). pois se trata de determinar as causas que levaram o sujeito a agir desta ou daquela maneira (que serão apenas aquelas.

não são conceitos pertencentes ao mundo fsico. mas ao dever-ser e. mas de imputação. assim como a dignidade. não se sujeitam a critérios de causalidade.Culpabilidade e neurociência • Se não há perspectva de resolver de maneira defnitva a questão empírica da liberdade. por isso. . a partr da perspectva de homem prevista na Consttuição. mas sim do mundo valoratvo. não pertencem ao ser. • A liberdade. deve-se analisá-la de acordo com a metodologia jurídica.

É a liberdade um bem jurídico- penal protegido através de normas penais. é a perda da liberdade a consequência jurídica mais frequente imposta ao condenado pela prátca da infração penal. a Consttuição reconhece a liberdade como um dos princípios e garantas fundamentais. Mas o direito à liberdade existe. o sofrimento e a vulnerabilidade humana quando há perda de liberdade são facilmente perceptveis. . é pela liberdade que se luta quando o homem se vê oprimido pela violência ou pelo arbítrio. é uma questão de alta indagação sobre a qual ainda não há resposta. se existe ou não no plano ontológico.Culpabilidade e neurociência • A liberdade.