"Labirinto de labirintos": o Ar em Rosa dos Ventos

"Labirynth of labirynths": the Ar in Rosa dos Ventos

Paula de Lima Baraldi; Mestranda em Artes Cênica; Escola de Comunicações e Artes - universidade de
São Paulo, paula.baraldi@usp.br1

Resumo
No presente artigo analisamos o traje de cena do bloco Ar, em Rosa dos Ventos: o show encantado
(1971) com foco no processo de expressão artístico-política. Através de fragmentos do roteiro do
espetáculo musical de protesto de Maria Bethânia, dirigido por Fauzi Arap com cenografia e figurinos
de Flávio Império, verticalizamos nossa investigação sobre o traje no contexto do espetáculo, do
período e dos artistas envolvidos, em conjunto com a cenografia e a interpretação, buscando assim
atingir seu núcleo.

Palavras chave: Teatro Brasileiro; Traje de cena; Flávio Império

Abstract
This study analyses the theatre costume Ar, part of Rosa dos Ventos: o show encantado (1971), as an
artistic-politic expression. Through excerpts of Maria Bethânia's protest musical show, directed by Fauzi
Arap, with set design and costumes by Flávio Império, we deepened our investigation of the costume in
the context of the show, the time and the artists involved, and also the scenography and the
interpretation, thus seeking to achieve its core.

Keywords: Brazilian Theatre; Costume; Flavio Império

                                                                                                               
1Figurinista e pesquisadora do 42 Coletivo Teatral. Artista visual. Desenvolve pesquisa sobre Teatro Brasileiro e Teatro político com
ênfase em cenografia e figurino. Na área de artes visuais desenvolve pesquisa em aquarela, xilogravura e artes plásticas das décadas de
1960 e 1970.

Ar e Fogo. A ideia de tal divisão surgiu a partir de sua leitura de Jung. sentimento.] Resolvi dar às quatro partes do espetáculo o nome dos quatro elementos: Terra.. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado. Água e Eu-difícil. por significar o centro da mandala formada pelos outros. Jung havia observado que. Edifício central. e passa. Fauzi justifica que "o número cinco sempre arremata a existência dos outros quatro e. após a promulgação do Ato Institucional 5. O espetáculo era ramificado em dois atos. que observa que o número quatro organiza. parte do segundo ato do espetáculo. Maria Bethânia. bem diverso do em que primeiro se pensou. assim como a exposição do autor. Pássaro da Manhã.. Viver não é muito perigoso? [. 1981 . os artistas envolvidos apresentaram no espetáculo uma mensagem de resistência política. Império e Maria Bethânia têm em comum . [.Penetrar no labirinto2 Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. o diretor colocou o homem no centro. uma das canções mais cifradas e metafóricas do primeiro período da ditadura (1964-1971). Arap. com sua "garganta rascante-                                                                                                                 2 Trecho de "Janelas Abertas nº2". No auge da ditadura. A intérprete estreou profissionalmente em 13 de fevereiro de 1965 no show-protesto Opinião. em 1971. Eva Heller. 1971. de Maria Bethânia. como uma mensagem de resistência. sensação e intuição. Eu-difícil. como declara Arap (1998). através do traje de cena e do excerto de Água Viva. mesmo que no exílio. 2006:131). de Caetano Veloso. O percurso proposto por Fauzi. No quinto "inevitável" elemento.suas origens em grupos e montagens antológicas. 43-86). o bloco foi chamado de Eu-difícil. Também observara que eram quatro as funções principais da existência humana . 1998:152) Entretanto. "o 1º ato contava com um prólogo. O 2º Ato era composto de Fogo e Ar. qual travessia labiríntica rosiana propõe uma imersão no homem: Eu. (ARAP.   2   . pode ser classificado como um espetáculo musical de protesto. direção de Augusto Boal. À luz de Foucault. A exemplo dos pontos cardeais que conseguem nos situar geograficamente. de Clarice Lispector. ainda que cifrada para transpor as barreiras da censura. no processo de recuperação. declamado pela intérprete.além dos maravilhosos espetáculos-obras de arte .Rosa dos Ventos: o show encantado. analisamos os elementos que compõem o bloco Ar. 1977. seguido dos blocos Terra. 1979 e Estranha Forma de Vida. ao longo do processo criativo uma quinta parte foi incorporada. seus pacientes costumavam sonhar com símbolos que iam se estruturando numa forma mandálica. fio componente do tecido do espetáculo. p. (ROSA. com roteiro e direção de Fauzi Arap. mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo. como ponto de referência e resistência. que quase sempre incluía o número quatro. encerrando com um Finale" (FORIN JUNIOR.pensamento. Michel Pastoureau e Guimarães Rosa. 1994. O show encantado foi dividido inicialmente em quatro partes. A Cena Muda.. cenografia e figurinos de Flávio Império. Interpretamos a letra como o mergulho do indivíduo em seu mar interior junguiano. Água.. Rosa dos Ventos: o show encantado.] o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. 1974. realiza a inteireza da proposta" (Ibdem).

utilizando os procedimentos de distanciamento brechtianos. 10% da população do Ceará emigrou. dirigidos por Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa. na total contramão do que está em voga atualmente . mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus estados natais. considerado a primeira geração de arquitetos modernos brasileiros pós Niemeyer e Artigas. 7 de abril de 1999.para se tornar diretor e autor. Entre as obras de maior expressão de sua carreira estão os espetáculos em parceria com os Teatros de Arena e Oficina. mata e come" . 4 Música de João do Vale e Zé Cândido. que "pega. Fauzi Arap: aprendiz de feiticeiro. iniciou sua carreira no teatro também pelas mãos de Augusto Boal e Zé Celso.   3   .principalmente por seu posicionamento firme em não ser "garoto-propaganda de si mesmo"6. como nos mostra a canção-tema: Podem me prender Podem me bater Podem até deixar-me sem comer Que eu não mudo de opinião3 Além da arquifamosa Carcará4 que evidencia a temática do sertão nordestino e concomitantemente denuncia os abusos da ave de rapina. O Opinião foi a primeira resposta da classe artística à Censura imposta pelo golpe de 1964. com firmeza e mensagem clara de resistência. ao lado de João do Vale e Zé Keti. em tom de denuncia: "em 1950. que apresentava na cenografia projeções 5 com informações sobre a chegada de emigrantes sertanejos às cidades metropolitanas e as causas do êxodo. "Opinião" de Zé Keti.metálica" (SALOMÃO 2010) substituindo Nara Leão. ao lado de Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre formou o Grupo Arquitetura Nova. e passou a ser símbolo de posicionamento político e questionamento sobre as condições do país e das classes populares. seguida dos dados de migração do Nordeste. 6 Fauzi Arap em entrevista a revista Istoé. 1964.                                                                                                                 3 Letra-protesto. Fauzi Arap. Ainda que em uma espécie de montagem premonitória do que viria a ser abordado no Opinião.e em nada difere do regime militar . em voga no período. respectivamente. que rendeu a Maria Bethânia o título de cantora de protesto. 13% do Piauí! 15% da Bahia! 17% de Alagoas!". Em total sintonia com o quadro acima estava Flávio Império. dirigida por Clemente Portella. Sua primeira peça profissional foi Morte de Vida Severina. Flávio. em 1961. e deixou de atuar no auge do sucesso . assim como Maria Bethânia e Império. a cenografia vanguardista com projeções de slides. uma das principais do espetáculo. foi um dos primeiros registros de uso do recurso em cena no Brasil. carnívora. há clara consonância entre os propósitos. cenógrafo e figurinista no grupo amador do Teatro da Comunidade Cristo Operário. diretor e idealizador de Rosa dos Ventos. que iniciou sua carreira como diretor. 5 Como boa parte das criações de Flávio Império.

no contexto. labiríntico. período em que predominava o medo . cita Clarice Lispector como alguém que conseguiu compreender e expressar o indizível. cedido pela autora especialmente antes do lançamento do livro. utilizou diversos fragmentos de sua obra em shows e peças teatrais. O espetáculo composto de forma fragmentária. viagens e outros caminhos8.sete anos após o golpe de 1964. mantêm-se atuais. música muito conhecida na voz de Maria Bethânia. O diretor justifica a escolha de formas poéticas de expressão não exatamente como opção mas. textos e depoimento da própria cantora. Quando a construção ficou pronta e Dédalo a examinou."9. para o teatro e. (SCHWAB Apud STEWART. sincronicidade.O labirinto de labirintos7 Fauzi Arap. verdade/ verossimilhança e a busca pessoal do indivíduo através da compreensão de seu semelhante. de Clarice Lispector. poemas. ao indivíduo pensante e questionador da ordem. A temática das peças de Arap. ora para frente. como veremos. para além disso. o próprio inventor quase não conseguiu retornar à sua soleira. três após o AI-5. Os inúmeros corredores emaranhavam-se como Maíandros. que desconcertavam olhos e pés daquele que nele penetrava.34) No início. tal a esquisitice enganadora do que criara. As obras delineiam o retrato de um período e. especialmente na década de 1970. Dentre os textos de Rosa dos Ventos. exercem fascínio por abordarem conceitos sob o prisma junguiano de individuação. que em seu correr incerto. inconsciente coletivo. Fauzi adaptou e dirigiu em 1965 o texto Perto do Coração Selvagem. ora para trás. como alternativa para burlar a ditadura. O propósito oculto do espetáculo era o de evocar a volta dos exilados. e então começa o show encantado. especialmente Caetano Veloso e Gilberto                                                                                                                 7 Vide nota 2. 2007. em sua autobiografia Mare Nostrum: sonhos.   4   . atingindo desta maneira o principal propósito da obra de arte de protesto: preconizar a reflexão do espectador necessariamente transcendendo a censura através das mensagens cifradas. como o exílio. a repressão e o desejo de resposta: "essa chama que não vai passar/ é mais forte que eu/ e eu não quero dela me afastar. O espírito inventivo de Dédalo ergueu o labirinto. Rosa dos Ventos seria considerado censurável não fosse seu caráter vanguardista. o palco vazio. ao levantar questões de seu micro-universo. No entanto. assim como dos shows de Música Popular Brasileira dirigidos por ele. por sua proximidade com a autora. acabavam por ir de encontro às suas próprias ondas. cura através da arte/ arte como salvação. uma construção cheia de sinuosidades serpeadas. preto sobre preto. aborda temas comuns a grande parte da classe artística. todos os caminhos levam ao centro. com trechos de músicas. inconsciente. há um excerto de Água Viva. 1998. 8 Editora SENAC. P. 9 "Resposta" de Maysa.

. No segundo ato. alcançar o "ponto de furo" (BRANCO. que permeia todo o show em forma de Mar e Rio. Simplesmente eu sou eu. sair do labirinto. é renascer. MAR-ia Bethânia. águas doce e salgada. atingindo assim a menor unidade de medida . o vermelho vivo em cena. conta Arap". Fauzi AR-ap e TERRA Trio. Flávio Impé-RIO. cerne do roteiro. ligar-se novamente à Terra Mãe. Maria Bethânia declama Clarice Lispector. Folha de São Paulo. correndo solta. vai durar.CO2 E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma hora da madrugada em desespero - eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Rosa dos Ventos. "Pau de Arara"12. preto sobre preto. há o elemento Terra. É vasto. enquadrada pelo nascimento e pela morte. para que possamos dessa maneira. O fio. nosso objeto de estudo no presente artigo. (SANCHES. costurando e unindo todas as partes. Elas alimentam a inesgotável compreensão do desenrolar de toda a existência. 2014:94-95) Na abertura. daí seu uso iniciático em diversas culturas e religiões.como esgotamento de possibilidades: o âmago da questão. Fiando seu mundo a partir de si mesma. C . a espiral e o círculo.] Tanto faz que os corredores de um labirinto sejam curtos ou compridos. 3 de julho de 1997. retorno ao vácuo. Atingir o centro é encontrar a origem da vida. A canção O tempo e o Rio está presente nos dois atos. partilha a simbologia da teia. e você é você. A correlação estabelecida entre o fio/novelo e a vida é anterior mesmo ao ato de fiar e tecer. Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida mas por enquanto olha para mim e me ama. criado através da sobreposição e fragmentação de músicas e textos. e a mensagem de resistência é seu fio condutor.Gil10.o ponto . funcionou como uma das forças motrizes de Rosa dos Ventos. O roteiro de Arap funciona como mote principal do show. seguido pelo Ar. antes do encerramento. compartilham do motivo da fecundidade/fertilidade/continuidade da vida. Ilustrada). ela encontra sua origem na teia e sua senhora. Não: tu olhas para ti e te amas. plenitude sem fulminação. denso. 12 "Quando eu vim do sertão seu moço/ do meu bodocó/ a maleta era um saco/ e o cadeado era um nó/ Só trazia coragem e a cara/ viajando num pau de arara/ Eu penei. Encerra o primeiro ato o Eu-difícil. desde 1969. letra de Palmeira Guimarães e Rosil Cavalcanti. em contrapartida. É lindo. 'Cantávamos a volta dos dois. do período e do conjunto da obra. Fui ao encontro de mim. Caetano veio ver o show'. alegre. Calma. São Paulo. "Carcará" entre outras. mas aqui cheguei" canção de Luiz Gonzaga e Guido Moraes. Oxum e Iemanjá. É o que está certo.                                                                                                                 10 "O exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil. 1988) do texto-tecido. (ROSA In FURTADO. sem ser explícitos e isso acabou por acontecer. a aranha. Seguido pela Água. Pedro Alexandre. como "Último pau de arara"11. O labirinto como o novelo.   5   . (Clarice Lispector) Na última parte do espetáculo. como o novelo. Após uma longa negociação. vazio inicial. a presença do Fogo. ele é um entrelaçar de caminhos [. 11 "A vida aqui só é ruim quando não chove no chão/ mas se chover dá de tudo fartura tem de porção/ tomara que chova logo tomara meu Deus tomara/ só deixo o meu cariri no último pau-de-arara". com canções que soam a denúncia e lamento.. Analisamos o texto no contexto do espetáculo. a aranha e seu fazer são a prefiguração de uma das divindades mais antigas: as fiandeiras.

a certeza da morte em contraponto com as incertezas da vida.226) A personagem "Calma. vai durar" . 1998. Interpretamos tal confusão como deslocamento quando a personagem pede. Retomando a ideia de caos. como se estivesse suspensa no ar. sem forma e vazia. apresenta dados da pulsão de vida. em uma trajetória que vai do desconhecido à luz. é vasto. A percepção elementar: "Eu sou eu."É lindo. ainda que não saiba o que fazer. (ARAP. e você é você" está carregada de significados. interior é negro. No momento em que a intérprete declama. assim como da descoberta de si. "olha pra mim e me ama". A personagem dorme. mas é o caminho para seu labirinto interno. "ao encontro de si". desta maneira. é o que está certo". destacando ainda mais Maria Bethânia. o breu e então: Fiat Lux! O traje criado por Flávio Império para a quinta parte do espetáculo (Figura 1) é inteiro preto. ao mergulho no inconsciente. O que teria sido a força motriz para o caminho de iluminação? A longa tarde de reflexão . a insônia se apresenta duplamente. acorda "à uma hora da madrugada".simultaneamente evoca a finitude na vida. que tem sua lógica própria em constante comunicação com o consciente. noção amplificada pelo piso preto subindo às paredes. Mas talvez seja essa mesma coisa tão escura.o fim do espetáculo sincronicamente está atrelado ao fim do livro de Lispector . primeiramente enquanto desejo de individualidade. o amor se desloca entre o "Eu" e o "outro". o escuro. dorme novamente e enfim "às três horas da madrugada" acorda e "se encontra". plenitude sem fulminação". a cor preta domina a cena. Cleusa R. dúvida que permanece. a personagem acessa o seu caminho. o escuro nem sempre é associado à ausência de luz. no                                                                                                                 13 Anotação da aula de "Crítica literária e Psicanálise". Só a visão estreita do comum dos mortais costuma atribuir ao isolamento e à morte uma cor escura ou ausência de luz. P. seguida da negação conclusiva: "Não: tu olhas para ti e te amas. mas também há nisso a angústia permanente humana da noção de que "só se vê inteiro no outro ou a partir de uma deformação de si: o espelho"13. assim como a cenografia na caixa preta. P.No início do trecho de Água Viva .   6   . Passos no dia 19 de março de 2013.longa no sentido em que quando buscamos algo as horas passam mais devagar? O curto período de sono? Teria a personagem sonhado com algo que a fez despertar duas vezes? Há no começo do texto a dualidade entre caos e ordem. O efeito de tal sobreposição da cor é o de flutuação. No entanto. do "não saber o que fazer". pulsão de vida e pulsão de morte. Uma possibilidade de interpretação é a de que no período da madrugada. não podemos deixar de citar o primeiro relato da Criação: no princípio era o céu e a terra. pois o mar profundo. Dra. sem que saibamos que nos conduza. Após uma tarde inteira de dúvidas. criando uma espécie de vazio.observamos o "Eu" em questionamento. desespero e encontro. e seja ela mesma nosso guia em nossa procura incansável de uma possível luz absoluta. alegre. com o desejo de que a beleza dure . ministrada pela Prof.

observando que em distintos períodos e sociedades a interpretação das cores varia . popularmente conhecido como gás carbônico contêm em sua fórmula fuligem . dado que cremos não ter sido ignorado por Arap. Fotografia de cena. de autoria desconhecida. seja transmitir pelos signos implícitos . representando o elemento Ar. diretora. "fluído gasoso que forma a atmosfera". Figura 1 . percepção reforçada pela presença da lua na barra do vestido de modelagem ampla. 2 de maio de 1972.de cor preta . o universo. engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. pesquisadora e professora de teatro. Hidrográfica e grafite sobre papel. por nós entrevistada em junho de 2014.vácuo.   7   .ou conduzir o espectador a decifrar a mensagem do espetáculo. Fonte: Acervo Flávio Império. por sugestão de Bodstein14. que seria a própria metonímia do ar condensado. tudo o que está em cena o faz com objetivos claros. o teatro é uma arte iniciática. Ao centro fotografia de cena do espetáculo. À direita. relacionado à cor remete também ao espaço. a fórmula de composição do Ar e encontramos apontamentos de que o dióxido de carbono. uma vez que tanto para Flávio quanto para Fauzi. Justamente o ar. e da fumaça de nuvens. Além do efeito ótico em cena. Fonte: Jornal Folha de São Paulo.                                                                                                                 14 Érika Bodstein. invisível e vital.quando há grande concentração de carbono.Desenho de figurino de Flávio Império para Maria Bethânia. buscamos também outras possibilidades de associação do uso do preto associado ao elemento da transparência por excelência. Buscamos. portanto.

561 et passim)   8   . mas seu canto se eleva mais alto. O croqui de Império aponta para um decote profundo o suficiente para alongar a figura que canta como uma jovem árvore que queima numa crepitação de madeira que se extingue para o alto.. a receptividade. Maria Bethânia canta com a liberdade dos pássaros para fora e para cima. na imaginação. [. A noite não anoitece pelos meus olhos. para transmitir uma mensagem de amor e poesia como raramente acontece. e que modela nossa sensibilidade profunda. O universo não é uma ideia minha. nas fantasias. a noite. transitório e influenciável. formando o desenho. A bênção Maria Bethânia. A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos. feitas de cinzas. com uma realidade de juta. está dentro do Sol (Figura 2). Tudo é combustão nessa extraordinária cantora cuja voz nos veio da Bahia. realça nossa percepção sobre a escolha da cor. lírico. Seu canto é livre e puro. enquanto Caetano Veloso. um casamento do mundo com o infinito. A Lua. frequentemente associado a elementos místicos. como opostos complementares. o psiquismo.. em que Maria Bethânia aparece como a Lua. Na barra do vestido há uma Lua minguante.] A Lua é também o símbolo do sonho e do inconsciente. Simboliza o princípio passivo. contém em sua composição a cor azul.]É a parte do primitivo que dormita em nós. seu irmão. seu pano de fundo. capa do programa e disco do espetáculo. Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos A noite anoitece concretamente (Alberto Caeiro) Segundo Heller. vivaz ainda no sono. (Vinícius de Moraes. com nuvens bordadas e "queimadas". Nela o timbre crestado. P. mas sem perda dessa intimidade fundamental à comunicação. A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha. cravejado de estrelas. cor e matéria escolhidas por Flávio pra o traje. a umidade. nos sonhos. o sonho. O símbolo da Lua. que contém em si a lua. [. cujo disco aparente é do mesmo tamanho do Sol. a mulher e tudo que é instável. "o preto mais profundo do mundo é o do veludo preto" (2013:129). mas não de uma pureza casta e desumana: é o encontro do céu com a terra.. embriagado de espaço. 2006. por analogia com seu papel de refletor da luz solar. bem como dos valores noturnos. é um dos componentes mais humanos. (CHEVALIER e GHEERBRANT. a imaginação. O Sol e a Lua estão também presentes na obra de Império criada para a fachada do teatro. O astro lunar é colocado em oposição ao solar por refletí-lo e ser inconstante. mas fecundo. tem na astrologia um papel especialmente importante. com uma ponta em brasa diretamente sobre o tecido. em 3 de dezembro de 1965) O preto indicado no desenho não é puro. o subconsciente..

Só assim transparece seu sentido completo. O preto não combina com os meus orixás. a cor é originalmente o símbolo da fecundidade. 2006:741).Figura 2 . um olho. No Egito Antigo assim como na África do Norte. ao mesmo tempo em que é luto.." Trecho de entrevista de Maria Bethânia concedida à Revista Playboy em 1996. O preto é ambíguo. seja do ponto de vista social. usando uma toga de cor escura na ocasião. Aponta para a vida.. paixão. Paixão.Desenho de Flávio Império. P. simultaneamente. Maria Bethânia como a Lua e Caetano Veloso como o Sol e. É o início da prática de usar roupas em sinal de luto" (Ibidem. artístico ou simbólico.                                                                                                                 15"[. pela última vez a cor em cena." (2011:10). não sabia de nada. Fonte: Acervo Flávio Império. por motivos religiosos15. a renúncia da vaidade. Foi a primeira coisa que o candomblé me proibiu.] Sabe como eu conheci a Mãe Menininha? Através do Vinícius de Moraes. desde o século II antes de Cristo. paixão! Eu. quando "o preto começa a aparecer nas roupas dos magistrados que participam dos funerais. na "busca da luz infinita". A cor preta é associado ao luto. como sabemos. Foi ele que me apresentou a ela. baiana. Michel Pastoureau afirma que "como qualquer fator social uma cor só tem significado na relação que estebelece com as outras. uma das maiores alegrias da minha vida.33)   e. tanto que encerrava Rosa dos Ventos vestida de preto da cabeça aos pés.   9   . a cor da terra fértil e das nuvens inchadas de chuva (CHEVALIER e GHEERBRANT. a ditadura fez muitas vítimas e calou muitas vozes. É importante ressaltar também que Maria Bethânia usou.

desapareceu. 2010). Da mesma forma. mas as pessoas continuaram a fazer dos espaços escuros. A Lua é para o homem o símbolo desta passagem da vida à morte e da morte à vida. grutas. galerias subterrâneas ou rupestres. de retomar energias. roteiro ou fragmentos de texto. o estranho familiar .                                                                                                                 16"Tens algo do fogo/ tens algo do ar/ tens algo da terra/ tens algo dos animais/ tens a vontade e ela é livre" Poema de autor desconhecido. que conduz à desordem. locais de nascimento ou de metamorfose. Queremos "ver o que os não iniciados não veêm" (COLLI Apud AZEVEDO. o deus estrangeiro. P. Arap e Maria Bethânia.Das Unheimlich. considera-se que os mortos adquirem uma nova modalidade de existência. Mais tarde. segundo Arap. talvez sob influência das mitologias nórdicas. Prakriti. é a compreesão de suas crenças. com o traje negro.742) na escola oriental. vazio. estudada por Fauzi Arap através das teorias de I-ching e Tao. em cada mês lunar. Do período Paleolítico até as épocas históricas. são cadinhos férteis.. as grutas e cavernas tornaram-se os locais favoritos de nascimento dos deuses e dos heróis. Depois reaparece e cresce em brilho. O alcance proporcionado pela ampliação da observação analítica em conjunto com a psicanálise é para nós fundamental. da indiferenciação primordial. A Lua é também o primeiro morto. O preto é "a cor da Substância universal. Império. Posteriormente. como as cavernas e todos os lugares naturais que parecem comunicar-se com as entranhas da terra: antros. abismos.. consequentemente. do caos original" (Ibidem. elas abrigaram quase todas as cerimônias mágicas ou religiosas. e para sua obra O Homem nu.   10   . seja de trajes de cena. ela está como morta. da prima materia. ao mesmo tempo em que liberta e faz vibrar. Durante um período bastante longo. pedimos passagem a Chronos. principalmente porque acreditamos que a única forma de haver aproximação verdadeira com a obra dos criadores. receptáculos de energia. o espetáculo se revela iniciático para os artistas - consequentemente catártico para os espectadores. 2011:20) A análise. utilizado por Flávio Império em 1973 como mote do espetáculo Labirinto: o balanço da vida. à embriaguez. se bem que privados de luz. das criações de Lispector. (Ibidem. P. um caminho cíclico. assim como aqueles que são possuídos por Dioniso. retomado no último ato. lugares sagrados. realizar este ou aquele rito de passagem. é senhor absoluto do que cria (1998).561) Tens a vontade e ela é livre16 Acreditamos que o espetáculo percorre em sua trajetória. e por essa mesma razão são espaços sagrados que provavelmente constituíram os locais mais antigos de culto da humanidade. as florestas se sucederam às cavernas. Esses lugares. Ainda que quarenta e quatro anos separem a estréia de Rosa dos Ventos do presente estudo. motivações e referências já que. o negro matricial das origens permanece associado à simbólica de certos lugares. cada homem acaba cercado pelo que acredita. em seguida os locais de refúgio ou de metamorfose: as pessoas dirigem-se para lá a fim de esconder-se. Através da compreensão da sobreposição de signos e símbolos. com seu início no caos. pode e deve se apoiar em todos os pilares que sustentam o objeto e não serem feitas de forma isolada. ou privados de luz. Durante três noites. (PASTOUREAU. para transpor as barreiras temporais e nos cercar das crenças e. em forma de mandala.

Como atingí-los? Só chegando. ao núcleo último da pessoa". Em sincronia.Clarice Lispector questiona e mostra o caminho do aprofundamento quando afirma "quero pintar uma tela branca. suponho. A nudez. pessoas esquisitas. Como se faz? É a coisa mais difícil do mundo. Caminho esse que procuramos trilhar na compreensão do espetáculo através da profícua união de saberes. sons etc. Manoel de Barros diz que "ninguém é pai de um poema sem morrer" e "poesia designa também a armação de objetos lúdicos com emprego de palavras. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta e como doido compreendo o que é perigoso compreender. imagens. (Clarice Lispector)   11   . Geralmente feitos por crianças. loucos e bêbados". O número zero. cores.

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