ISSN – 1807 – 2674

REVISTA

36 de ECONOMIA POLÍTICA
e HISTÓRIA ECONÔMICA
Ano 11 – Número 36 – Agosto de 2016

Índice

05
A Questão dos Antecedentes: por que não uma “pré-história” do
pensamento econômico
Luiz Eduardo Simões de Souza
13
SMEs Role and Contribution towards Trade and FDI Flows in Latin
America
Badar Alam Iqbal
Nayyar Rahman
43
Repartição da renda, inflação e conflito distributivo: uma abordagem
kaleckiana
Glaudionor Gomes Barbosa
61
Ciclos Econômicos e Conflitos Sociais
Lincoln Secco
Fernando Sarti Ferreira
79
Etapas da Regulação Petrolífera no Brasil – nacionalismo,
cosmopolitismo e a utopia do desenvolvimento
Arthur Aquino
109
A referência internacional da moeda como instrumento de poder na
economia política internacional
Gustavo Granado
138
O Nordeste, o Desenvolvimento e os Polos de Crescimento
Ramá Lucas Andrade
162
O Sistema Previdenciário sob a perspectiva Ortodoxa: uma crítica
Jessé Sales Rêgo
Ricardo Zimbrão Affonso de Paula
Alexandro Sousa Brito
196
Do Imperativo do Avanço Tecnológico à Capacidade Criativa na
Civilização Industrial: dois momentos da ideia de inovação no
pensamento de Celso Furtado
Paulo Leurquim
212
Para além do Peronismo: notas sobre o desenvolvimentismo na
Argentina
Rossana Moreira Prux
Ivan Colangelo Salomão
Resenha: MAZZEO, Antônio Carlos. Estado e Burguesia no Brasil:origens da autocracia
burguesa. São Paulo: Boitempo, 3a. edição, 2015.

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Diante disso. Economic Thought. E-mail: pabloleurquin@yahoo. do Brasil. 2 Doutorando em Direito Econômico pela Universidade Federal de Minas Gerais e em Direito Internacional e Europeu na Université Paris I. 186 Do Imperativo do Avanço Tecnológico à Capacidade Criativa na Civilização Industrial: dois momentos da ideia de inovação no pensamento de Celso Furtado1 Paulo Leurquin2 Resumo A teoria de Celso Furtado é fundamental para entender as heranças do subdesenvolvimento na estrutura econômica da América Latina. The first one is exposed in the book “Development and underdevelopment” (1961). Classificação JEL: O310 1 Artigo apresentado em 10/02/2016. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Direito Econômico (GPDE) da FDUFMG. Keywords: Celso Furtado. Aprovado em 15/04/2016. no qual Celso Furtado investiga a dependência criativa na economia globalizada. o objetivo desse artigo é evidenciar dois momentos distintos da ideia de inovação na obra de Celso Furtado.br . A atualidade do pensamento do autor se revela ao investigar as motivações das mudanças dos conceitos ao longo de sua trajetória acadêmica e o contexto teórico-político que permitiu as eventuais sofisticações analíticas. no qual o autor está preocupado com o imperativo de avanço tecnológico. in which the author is concerned about the technological advancement imperative. financiado pelo CNPq. Innovation. Palavras-chave: Celso Furtado. Mestre em Direito Econômico pela Universidade Federal de Minas Gerais. in which Furtado investigates the creative’s dependence in the globalized economy. em especial. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O segundo momento é sintetizado no livro “Criatividade e dependência na civilização industrial” (1978). The second moment is synthesized in the book “Creativity and dependence in the industrial civilization” (1978). Inovação. this paper aims to evidence two distinct moments of the idea of innovation in Furtado’s work. Pensamento Econômico. Undervelopment. especially in Brazil. Abstract Celso Furtado’s theory is fundamental to understand the legacies of underdevelopment in the economic structure of Latin America. The actuality of his thought can be observed by an investigation into the motivations of changing concepts throughout author’s academic trajectory and the theoretical-political context that allowed some analytical sophistications. Subdesenvolvimento. Therefore. com bolsa do CNPq e da CAPES/PSDE. Panthéon-Sorbonne. O primeiro deles está exposto no livro “Desenvolvimento e subdesenvolvimento” (1961).com.

que é um conjunto de artigos e estudos produzidos ao longo da década de 1950 e publicado em 1961. 187 Revista de Economia Política e História Econômica. segundo o autor. A abordagem do conceito de inovação sofreu significativas alterações no decorrer de sua obra e essa trajetória traduz mudanças no pensamento do autor. O objetivo desse estudo é investigar as alterações que a concepção de inovação sofreu na teoria de Celso Furtado. O livro “Desenvolvimento e subdesenvolvimento”. Na primeira seção explora-se como Celso Furtado constrói a ideia que o subdesenvolvimento seria ultrapassado se houvesse diversificação do núcleo industrial. ao processo histórico em destaque. p. O Imperativo do Avanço Tecnológico: a preocupação com a superação de economia subdesenvolvida Ricardo Bielschowsky (2000. em especial. atrelado a isso. mas também a tese de termos de declínio do comércio. Ao discorrer acerca da produção intelectual de Celso Furtado dos anos 1950. do conceito de Prebisch-Singer de centro-periferia. o autor traça as diferenças históricas fundamentais na caracterização das economias como desenvolvidas e subdesenvolvidas. Considerações Iniciais A ideia de inovação em Celso Furtado é um componente central para entender as suas contribuições à teoria econômica. Mauro Boianovsky identifica as principais influências acadêmicas que o autor tinha na época. 2. ele teria participado de um seminário em Chicago em 1951. 6). obra que tem como fio condutor os constrangimentos que a civilização industrial impõe à criatividade humana. à compreensão do fenômeno do subdesenvolvimento (ALBUQUERQUE. aplicação e divulgação do pensamento estruturalista. Com essa finalidade. 3). p. que passou a vislumbrar o subdesenvolvimento sob uma ótica mais ampla. em que Alexander Gerschenkron apresentou pela primeira vez as formulações iniciais de crescimento equilibrado. p. Além disso. até 1964. 133) considera que. Nesse momento. 1. Essas diferenças são expostas nessa seção. tomando como base os livros “Desenvolvimento e subdesenvolvimento” (1961) e “Criatividade e dependência na civilização industrial” (1978). identificando de que maneira a ideia de inovação é articulada. Para isso. Para sustentar seu argumento. número 36. Inicialmente. O autor entende que existe progressivo deslocamento dos centros de decisão dos Estados em direção às empresas transnacionais e que. encontra-se nesse contexto. agosto de 2016. de maneira que este ficasse capacitado a produzir parte dos equipamentos necessários à expansão da sua capacidade produtiva. que se vincula ao que se considera a palavra chave dessa obra: a criatividade (BOSI. as mudanças teóricas serão avaliadas considerando-se os momentos históricos que os livros foram produzidos e o contexto acadêmico que o autor se encontrava. o artigo é dividido em duas seções. o conceito de inovação tem uma dimensão mais abrangente. 2008. Celso Furtado também . ancorando-se no estruturalismo. a dependência tecnológica se dá pela dependência cultural dos países periféricos aos países centrais. Na segunda seção aborda-se a ideia de inovação no livro “Criatividade e dependência”. a produção intelectual de Celso Furtado volta-se ao refinamento. 2013.

A inovação técnica no processo de desenvolvimento O livro “Desenvolvimento e Subdesenvolvimento” é composto por seis capítulos. de viabilizar o crescimento (BIELSCHOSWKY. Para compreender o pensamento de Celso Furtado. Três acontecimentos merecem destaque: em 1960. pois. com especial relevo a defesa da tributação progressiva. do seu “Manifesto Latino-Americano”. completavam-se dez anos da sua nomeação como diretor da divisão de desenvolvimento na CEPAL. influenciado pela teoria de Raúl Prebisch. desconcentração regional de renda e reforma agrária (BIELSHOWSKY. ainda na época da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL). Mauro Boianosvky (2010. nas economias desenvolvidas. 2011. sendo os três primeiros destinados à análise do fenômeno do desenvolvimento em economias centrais. formulada por Ragnar Nurkse e Rosenstein-Rodan. com especial ênfase ao planejamento econômico. a industrialização e a inovação técnica assumem papel central na sua teoria. em especial. pode-se dizer que ela decorreu especialmente do diálogo. o desenvolvimento ocorreria com a acumulação de novos . Ricardo Bielschowsky afirma: Prebisch usa o contraste com as economias ‘centrais’ para caracterizar as economias latino-americanas. Sobre este. Elas exigem estratégias de crescimento coordenadas pelo Estado. O terceiro é a preocupação com reformas de cunho social. Celso Furtado acabava de passar um ano como pesquisador na Universidade de Cambridge. as forças de mercado são incapazes. no Rio de Janeiro. número 36. em um congresso ocorrido em 1950. 11). 188 Revista de Economia Política e História Econômica. por si só. p. Por fim. O primeiro é o papel central do Estado na promoção do desenvolvimento. Nesse sentido. 14) afirma que o modelo de crescimento de Evsey Domar era a espinha dorsal da sua interpretação do mecanismo de desenvolvimento econômico. Dessa maneira. Ancorado na preocupação de superar a condição de subdesenvolvimento econômico do Brasil. que impõem restrições ao processo de industrialização e ao progresso técnico. Celso Furtado afirma que ele consiste na recombinação de fatores de produção que visam aumentar a produtividade do trabalho. 2000. com Raúl Prebisch e sua obra. p. teria acessado as ideias da teoria do Big push. 134). p. Sobre a visão estruturalista presente no pensamento de Celso Furtado. deve-se ressaltar que ele foi publicado em uma época marcada por forte agitação na vida política de Celso Furtado. retoma-se o seu raciocínio sobre o processo de desenvolvimento. nessas condições. O argumento é o de que as diferenças correspondem a condições inadequadas de crescimento na periferia. agosto de 2016. Para compreender o livro “Desenvolvimento e Subdesenvolvimento”. pode-se dizer que o estruturalismo de Celso Furtado era marcado por três fundamentos. O segundo é a defesa da submissão da política monetária e cambial à política de desenvolvimento. e ele voltava à vida política nacional com objetivo de implantar as reformas da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) para acelerar o desenvolvimento do Nordeste.

destacando que. a incorporação deste excedente possibilitou o aumento da produtividade (FURTADO. Portanto. O autor compreende que o caráter altamente dinâmico da economia industrial trouxe duas mudanças fundamentais no entendimento da técnica de produção. número 36. 137). 2009. 109). 2009. a fonte do lucro do empresário e a oportunidade de aplicar remuneradoramente esses lucros. Com a melhora dos métodos de produção. E não é somente isso: inovar nas técnicas de produção significa. conhecimentos científicos e de progressos na aplicação tecnológica desses conhecimentos (FURTADO. 85). com o excedente da produção. Ele ressalta. na organização e na técnica de produção que está o elemento focal do novo sistema econômico. a renda real social cresce. portanto. . sendo ela um conjunto de normas que viabiliza o aumento de produtividade. A outra mudança é a possibilidade de novas formas de inversão que surgiram com a economia industrial. Celso Furtado sintetiza o processo econômico que marcou as sociedades pré-industriais. no novo sistema econômico. abrir oportunidade ao capital – que sob a forma de lucro está afluindo às mãos do empresário – de reincorporar-se ao sistema produtivo. via de regra. A eficiência produtiva e o avanço da técnica constituem. havendo uma ampliação na quantidade de bens e serviços disponíveis à população. que exigem conhecimento crescente dos recursos naturais e mundo físico. compreendeu-se que o empresário poderia aplicar seus capitais na própria fronteira econômica estabelecida. como a tecnologia não é outra coisa senão a aplicação ao sistema produtivo do conhecimento do mundo físico. quando se aumenta a produtividade. Apesar disso. Ao logo dos três primeiros capítulos. Nessa obra. é nesse momento da História que se incorpora esse impulso do espírito humano ao elemento motor do sistema econômico. Um dos pontos centrais dessa construção é a consideração da técnica de produção como ponto focal do novo sistema econômico. E. A primeira delas é a valorização da pesquisa empírica. p. 2009. a ideia de inovação está vinculada à compreensão da técnica moderna. o que acaba alterando a estrutura de produção (FURTADO. Cabe. Sobre esse assunto. cumulado à apropriação deste por um grupo minoritário. 2009. Com a elevação das remunerações que decorrem do aumento da renda real. assim. não sendo necessário abrir novas linhas de comércio. que a preocupação em compreender o mundo físico e metafísico é traço comum a todas as culturas. 86). destaca-se: É. portanto. o autor descreve os pormenores do processo de industrialização e seus impactos nas economias europeias. p. que se vincula a uma tentativa de aperfeiçoar as técnicas de produção. p. Portanto. à tecnologia desempenhar o papel de fator dinâmico na economia industrial. agosto de 2016. entretanto. pode-se afirmar que a economia industrial só encontra limites de expansão no conhecimento do mundo em que vive (FURTADO. 189 Revista de Economia Política e História Econômica. os consumidores tendem a modificar a estrutura da procura. os lucros da classe empresário industrial passaram a ser aplicados no próprio sistema industrial. A partir dessa compreensão.

por indução externa – e não nas inovações . Atrelado a isso. A terceira é a expansão da economia industrial em direção às regiões já ocupadas. Além disso. O fato de se alcançar essa etapa não implica que o elemento dinâmico principal passe. deve-se incorporar os impactos da Revolução Industrial na economia mundial. As estruturas subdesenvolvidas e a industrialização Os três últimos capítulos do livro “Desenvolvimento e Subdesenvolvimento” são dedicados à teorização do subdesenvolvimento. Segundo o autor. ocupando terras de características similares à Europa. p. A análise de Celso Furtado sobre as economias desenvolvidas. A principal premissa de Celso Furtado é que ele é um fenômeno histórico e não uma etapa pela qual as economias passam antes de alcançar um grau superior de desenvolvimento. enquanto outra comportava-se como sistema capitalista. A partir desse contexto. 190 Revista de Economia Política e História Econômica. automaticamente. A Revolução Industrial transformou a Europa do século XVIII em um poderoso núcleo dinâmico. para uma análise mais concreta do subdesenvolvimento. o elemento dinâmico reside ainda na procura preexistente – formada. O processo normal de desenvolvimento do núcleo industrial é ainda o da substituição de importações. número 36. permitiu ao autor concluir que o conhecimento tecnológico voltado para o ganho de produtividade passou a ser o elemento central do novo sistema econômico. uma região mantinha-se atrelada à estrutura econômica pré- existente. destarte. que produziu três relevantes alterações. O impacto da expansão capitalistas em estruturas econômicas arcaicas ocorreu de maneira diferente em cada região. ou seja. A segunda é o deslocamento da economia industrial para além de suas fronteiras. o desenvolvimento econômico em todo o mundo passou a ser condicionado por esse núcleo industrial. principalmente. 2009. Entretanto. agosto de 2016. a ser o núcleo industrial ligado ao mercado interno. com especial atenção ao processo de industrialização. Essas mudanças relacionam-se diretamente à estrutura econômica dos países subdesenvolvidos. O subdesenvolvimento decorreria das alterações que a Revolução Industrial causou na economia mundial (BIELSCHOWSKY. p. mas todas com sistemas econômicos de natureza pré-capitalista. A primeira é a mudança da realidade política decorrente da desorganização da economia artesanal pré-capitalista e da absorção dos fatores liberados em uma estrutura com maior produtividade. De acordo com o autor: A etapa superior do subdesenvolvimento é alcançada quando se diversifica o núcleo industrial e este fica capacitado a produzir parte dos equipamentos requeridos pela expansão de sua capacidade produtiva. 138). Celso Furtado evidencia a sua preocupação em oferecer soluções ao subdesenvolvimento. houve uma alteração dos fatores que condicionavam o comportamento da economia mundial. 2000. pode-se concluir que não se deve tratar o fenômeno do desenvolvimento ignorando os aspectos históricos da formação econômica do país. É justamente esse fenômeno que Celso Furtado denomina de subdesenvolvimento contemporâneo (FURTADO. Dessas constatações. 161). dessa interação decorreu a criação de estruturas híbridas.

“Criatividade e dependência na civilização industrial” é uma forma de resposta ao discurso político e econômico adotado pelos referidos governantes. que deveria ocorrer justamente com o fim da heterogeneidade tecnológica. A ideia de inovação de Celso Furtado nesse momento da sua obra está relacionada. Ele foi publicado em 1978. com a compreensão que o avanço tecnológico se traduziu na articulação do processo de formação de capital com o avanço da ciência experimental no contexto da Europa do Século XVIII. Em seguida. como é o caso de François Perroux. ele trata da heterogeneidade tecnológica entre setores ou departamentos de uma economia subdesenvolvida. para entender o livro “L’économie du XXème siècle”. Alfredo Bosi ressalta que Celso Furtado apresenta suas reflexões sem preocupações metodológicas acadêmicas. 191 Revista de Economia Política e História Econômica. encontra-se em outro contexto histórico e acadêmico. inicialmente. que cassou seus direitos políticos por dez anos. 300). Durante essa época ele era professor catedrático de desenvolvimento econômico na Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris. 14). Além disso. 2012. 3. em especial. A Capacidade Criativa na Civilização Industrial A obra de Celso Furtado das décadas de 1950 e 1960 foi inspirada pelo desafio de superar a condição de subdesenvolvimento. Ressalta-se também que os anos 1970 foram marcados por governos autoritários e “desenvolvimentistas” na América Latina e que o próprio autor sofreu diretamente com uma dessas ditaduras. o conceito de criação coletiva é central. pode-se destacar que a preocupação com a criatividade marcou a produção intelectual de François Perroux e Celso Furtado durante os anos 1970. da economia universitária. 2012. Frisa-se que. 170). p. Compreendido isso. período em que Celso Furtado encontrava-se exilado após o Ato Institucional nº I de 1964. como ocorre nas economias industriais totalmente desenvolvidas (FURTADO. p. introduzidas nos processos produtivos. que é marcado por uma visão holística. por sua vez. Apenas após a morte de François Perroux. agosto de 2016. Celso Furtado escreveu um texto afirmando que a teoria daquele completava a compreensão de Raúl Prebisch sobre a relação centro-periferia (FURTADO. 2009. Essa característica fica ainda mais evidente no último capítulo do livro. o que permitiu maior diálogo com importantes pensadores. número 36. Dada as características intelectuais e políticas de Celso Furtado nesse momento de sua vida. p. de maneira a mapear as várias frentes de resistência que os países pobres estão atuando de maneira a resistir às violências do . que passava além da personalidade inovadora e pode ser associado com a criação coletiva da realidade econômica no contexto da sociedade industrial moderna (CUNHA e BRITO. Nesse sentido. passa-se a analisar a ideia de inovação no livro “Criatividade e dependência na civilização industrial”. O livro “Criatividade e dependência na civilização industrial”. o autor se preocupa com os prognósticos necessários para a superação da condição de subdesenvolvimento. Sobre a estruturação do texto.

Os impactos da dependência cultural no processo de industrialização Celso Furtado afirma que. sistema (BOSI. Dessa forma. como novos centros de decisão em escala global. Celso Furtado diagnosticou nos países periféricos. as técnicas produtivas passaram a ser vistas como mercadorias. que coexistem com amplas maiorias cujo baixo nível de vida serve de escusa para os ínfimos salário que lhe são impostos. agosto de 2016. 2008. que teve como uma das mudanças estruturais a canalização do processo acumulativo para o sistema de produção. e sim de agravação destas. De certa maneira. cumpre trazer os seus argumentos sobre a relação entre dependência cultural e industrialização nos países de capitalismo periférico. antes da revolução burguesa. Celso Furtado afirma: No quadro de dependência. depois. Esse fenômeno se articula com o aprofundamento da incorporação da racionalidade instrumental no corpo social. p. Nesse contexto. a inovação nos métodos produtivos passou a ser uma forma de surpreender os concorrentes. 98). Em síntese: o desenvolvimento das forças produtivas em condições de dependência não engendra as transformações sociais que estão na base da valorização da força trabalho (FURTADO. o crescimento da produtividade e o aumento da acumulação. o que acabou produzindo uma civilização caracterizada pela industrialização. Francisco de Oliveira (2003. p. a dependência cultural devido a difusão . como o processo de recriação das relações sociais decorrente da acumulação (FURTADO. ou seja. a difusão da civilização industrial levou a experiências frustradas de homogeneização social (a exemplo do ocorrido no Uruguai) ou tipos de sociedade de crescente heterogeneidade. nessa obra. as técnicas produtivas eram componentes da memória social e. ao discorrer sobre o acesso indireto à civilização industrial. p. 73). que são responsáveis por parte crescente da acumulação nos países desenvolvidos. têm como contrapartida uma crescente pressão sobre a massa trabalhadora. p. ele faz referência ao fortalecimento das empresas transnacionais. corroborando com essa visão. O autor utiliza a categoria civilização industrial para fazer referência à essa nova realidade social. Entretanto. 31). número 36. Diante dessas observações. 65). p. Na visão do autor. urbanização e secularização (FURTADO. 32) afirma que esta obra se encontra na fase filosófica do autor. Celso Furtado mostra-se preocupado com a dependência externa. não se pode considerar como processo de desenvolvimento a simples elevação da produtividade econômica da força de trabalho e crescimento mais intenso do excedente apropriado localmente. 2008. 2008. um elemento de poder. dando sequência à investigação da ideia de inovação de Celso Furtado. a inovação é vista como um meio que possibilita que a acumulação introduza modificações no sistema de produção e nas estruturas sociais. Não se trata de simples reprodução das desigualdades sociais. 192 Revista de Economia Política e História Econômica. já em 1978. Com isso. nesses casos. O desenvolvimento é compreendido. 2008. que acompanham a difusão da civilização industrial. nas quais o próprio dinamismo da economia parece requerer a hiperdiversificação do consumo de minorias. Quando o autor cita a dependência.

2008. atrelando à mesma a noção de criatividade como liberdade. 2008. número 36. a industrialização que ocorre em uma situação de dependência não é capaz de promover transformações estruturais nas relações sociais. ele traça uma série de críticas aos governos totalitários de alguns países da América Latina nessa época. do consumismo e a tecnológica. “segurança nacional”. Em outras palavras. com produção voltada a uma minoria modernizada (FURTADO. Nesse sentido. O fenômeno da dependência se manifesta em um primeiro momento pela imposição externa de padrões de consumos. possibilitando a liberação do homem. Sendo assim. deve-se estabelecer possibilidades políticas e institucionais para se superar a dependência cultural dos países subdesenvolvidos. 109). Quiçá o aspecto mais negativo da tutela das transnacionais sobre os sistemas . transplantar maciçamente as técnicas geradas em sociedades que se encontram em fase avançada de acumulação não pode ser considerado com processo de desenvolvimento (FURTADO. Sobre esse aspecto. “defesa da família” ou “civilização cristã” são exemplos de superideologias que ameaçam o pluralismo ideológico e reforçam as estruturas de poder vigentes (FURTADO. o autor afirma que a atividade política é necessária para que a criatividade se manifeste no plano institucional. destaca-se a opinião do mesmo: Contudo. 2013b. 193 Revista de Economia Política e História Econômica. A criatividade como liberdade Conforme já foi frisado. os discursos de “nacionalismo”. percebe-se que a preocupação com inovação assume uma outra dimensão no pensamento do autor. Para reforçar essa visão. e este não existe sem a libertação da capacidade criadora de um povo. 120). Nesse contexto. a industrialização que ocorre com dependência cultural não pode levar ao verdadeiro desenvolvimento econômico. Nesse sentido. uma vinculada às atividades tradicionais e outra relacionada à industrias de elevada densidade de capital. Ou seja. o autor buscou construir uma visão mais ampla da concepção de inovação. 193). p. Essa nova perspectiva se dá com a incorporação do elemento da cultura e da criatividade em sua elaboração teórica. conforme se desenvolve em seguida. não se deve perder de vista que a luta contra a dependência não é senão um aspecto do processo de desenvolvimento. nessa obra. que é diferente da encontrada no livro “Desenvolvimento e Subdesenvolvimento”. a geração de excedentes é mantida mediante a geração de excedente criado no comércio exterior. Percebe-se que. quando a industrialização se propõe a substituir os bens importados. p. por elas serem as detentoras do conhecimento técnico mais avançado. Apenas dessa forma é possível a inovação das formas sociais de maneira a restringir as tensões geradas pela acumulação. p. a partir da metade do livro “Criatividade e dependência na civilização industrial”. a produção se divide em duas dimensões. a preocupação de Celso Furtado com o subdesenvolvimento está atrelada aos esforços em garantir a liberação da capacidade criativa de um povo. na visão de Celso Furtado. Nesse contexto. agosto de 2016. Portanto.

não promovem mudanças estruturais nas relações sociais. durante a época em que a obra foi escrita. a ideia de inovação relaciona-se a técnica de produção. 194 Revista de Economia Política e História Econômica. essa pesquisa permite concluir que a ideia de inovação sofreu importantes mudanças ao longo de sua trajetória acadêmica. Isso fica claro. esse livro é marcado por uma dura crítica aos discursos “desenvolvimentistas” dos regimes totalitários da América Latina da época. devido a sua atuação política e preocupação com o Nordeste. Considerações Finais Celso Furtado. que passava pela industrialização e a consequente diversificação do núcleo industrial. Celso Furtado deixa claro que os discursos de desenvolvimento pregados pelos governos militares da América Latina. Dependência econômica. devido à dependência tecnológica e cultural. . Marx e a sociologia norte-americana (FURTADO. no texto “Aventuras de um economista brasileiro”. agosto de 2016. mesmo com processo de industrialização. por exemplo. 2008. como um teórico do subdesenvolvimento. a tendência da reprodução da estrutura social. 2008. Isso decorre da inexistência de abertura política que permita a libertação da capacidade criativa da sociedade. número 36. A inovação. tutela cultural e autoritarismos político se completam e reforçam mutuamente (FURTADO. ainda no início de sua carreira. em “Criatividade e dependência na civilização industrial”. p. como preferem alguns autores. Esta a razão pela qual o autoritarismo político a ele adapta como uma luva. Por outro lado. nesse momento da sua obra. Nesse sentido. Ele passa a ver no subdesenvolvimento. p. Entretanto. o que acaba passando uma ideia de que existe linearidade em toda a sua teoria. o autor sistematiza as suas três maiores influências são: o positivismo. 2013a. Celso Furtado. teria decorrido da sua experiência como gestor público. 162). Nele. costuma conferir uma espécie de unidade em seu pensamento ao longo dos anos. A ideia de planejamento. publicado em 1973. 40). 4. por sua vez. a ideia de inovação de Celso Furtado está vinculada à criatividade como liberdade. ampliando a sua análise sobre o fenômeno do subdesenvolvimento. a ausência de liberdade política para a libertação da capacidade criativa de um povo impede um verdadeiro desenvolvimento. 212). p. fruto dos contextos políticos diferentes e de diálogos com outros intelectuais. No livro “Desenvolvimento e subdesenvolvimento”. de produção na periferia esteja na transformação dos quadros dirigentes em simples correias de transmissão de valores culturais gerados no exterior. Dessa forma. O sistema dependente perde a faculdade de conceber os próprios fins. está preocupado em oferecer subsídios para a solução do problema do subdesenvolvimento. bem como pela comunidade acadêmica em que ele se inseria. em seus textos autobiográficos. nesse momento da obra do autor está relacionada à ideia de criatividade como liberdade política (FURTADO. Sendo assim. o autor entende a inovação sob uma perspectiva mais ampla ou filosófica.

Desenvolvimento e subdesenvolvimento (1961). . A view from the tropics: Celso Furtado and the therory of economic development in the 1950s. History of Political Economy. Domination and collective creation or creative and dependece : parallels between the though of François Perroux and Celso Furtado. BOIANOVSKY. Criatividade e dependência na civilização industrial (1978). Criatividade e dependência na civilização industrial (1978).2010. 42(2). Laurrent. Referências Bibliográficas ALBUQUERQUE. A navegação venturosa ensaios sobre Celso Furtado. Gustavo. 10. 2000. Rosa Freire (org. In: LOTY. n. In: D’AGUIAR. 195 Revista de Economia Política e História Econômica. Alexandre Mendes. Jean-Louis. _______________. v. _______________. Rio de Janeiro. Eduardo Motta. Essencial Celso Furtado. _______________. Prebisch e Furtado. 7. 2013b. BIELSCHOWSKY. Rosa Freire (org. CUNHA. BRITO. São Paulo: Companhia das Letras. 2012. 2009. número 36. Rio de Janeiro: Contraponto: Centro Internacional Celso Furtado. FURTADO. Mauro. 2013a. Francisco de. Inovação em Celso Furtado: criatividade humana e crítica ao capitalismo (texto para discussão). 2013. BOSI. Belo Horizonte: Cedeplar-UFMG. Ramós. Cadernos do desenvolvimento. In: FURTADO. Celso Furtado: rumo a uma visão holística. TORTAJADA.). Essencial Celso Furtado. Prefácio. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras. 2012. Rio de Janeiro: Contraponto. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras. Ricardo. São Paulo: Companhia das Letras. OLIVEIRA. _______________. O Manifesto Latino- Americano e Outros Ensaios. _______________. Raúl. Celso. Rio de Janeiro: Contraponto: Centro Internacional Celso Furtado. In: PREBISCH. agosto de 2016. 2011. São Paulo: Boitempo. In: Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. (Orgs. 2008. 2008.). Retorno à visão global de Perroux e Prebisch. 5 ed. 2003. Subdesenvolvimento e dependência: as conexões fundamentais (1973). Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimento (1988). Alfredo. Prefácio. In: D’AGUIAR. Aventuras de um economista brasileiro (1973). PERRAULT. Celso.) Vers une économie humaine. Dossiê Celso Furtado.