DESMONTANDO A DEMONIZAÇÃO SOBRE AS RELIGIÕES

AFROBRASILEIRAS

Daniel Torquato Fonseca de Lima
Ivonildes da Silva Fonseca
Paula Maria Fernandes
RESUMO

A partir da lei 10.639/03 alterada pela 11.645/08 a movimentação em prol de capacitar
docentes para ministrar as disciplinas História da África e Cultura afrobrasileira é algo que vem
acontecendo no âmbito de instituições públicas e privadas. Todavia, vimos observando no
estado da Paraíba desde o ano de 2005 uma resistência por parte dos docentes a conhecerem o
mundo das religiões afrobrasileiras o que nos levou a identificar que a idéia de demonização,
propagada em especial pelo segmento neopentescostal, está fortemente instalada na
mentalidade social. Assim, o desmonte dessa demonização é primordial no combate ao
preconceito com relação à cultura negra.

Palavras-chave: Demonização – Religiões afrobrasileiras – Ensino religioso

DÉMONTAGE DE LA DIABOLISATION DE L'AFRO-RELIGIONS
BRÉSILIENNES
Résumé

De la loi 10.639/03 modifié par 11.645/08 entraînement en vue de permettre aux enseignants
d'enseigner les matières de l'histoire de l'Afrique et Afro-culture brésilienne est quelque chose
qui se passe au sein des institutions publiques et privées. Toutefois, on observe l'état de Paraiba
partir de l'année 2005, une résistance de la part des enseignants de connaître le monde de l'afro-
religions brésiliennes, qui nous a conduit à identifier l'idée de la diabolisation, propagées en
particulier par la neopentescostal thread est fortement installée dans l'esprit sociale. Ainsi, le
démantèlement de cette diabolisation est essentiel pour combattre les préjugés contre la culture
noire.

Mots-clés: la diabolisation - Afro-religions brésiliennes - L'éducation religieuse

Com a promulgação da lei 10.639/03 tornou-se obrigatório nas escolas brasileiras o
ensino de História a da África e da Cultura afrobrasileira e a necessidade de capacitar os
docentes tornou -se um dos principais empecilhos para a concretização da legislação.
Na Paraíba as instituições governamentais a nível municipal e estadual iniciaram as
capacitações dos seus docentes e nessas a abordagem sobre as religiões afrobrasileiras recebia
visível rejeição que era atribuída a demonização dos candomblés, umbandas e juremas.
Nas turmas que tinham em média vinte pessoas apenas quatro ou cinco se propunham
a discutir sobre assuntos relacionados à essas religiões afrobrasileiras. As demais
demonstravam desinteresse, apresentavam questões depreciativas.

mesmo . MAGALHÃES. principalmente. No segmento neopentecostal a principal agente de depreciação das religiões afrobrasileiras é a Igreja Universal do Reino de Deus .87-89) pontuam o crescimento do pentecostalismo na América Latina e contribuem para o conhecimento das características do fenômeno demarcando a existência de três ondas: a “Primeira Onda ou Pentecostalismo Clássico”. 2001/2003. 2001/2003. p.IURD que utiliza os meios de comunicação de massa. (SOUZA. p. seguindo o modelo adotado pelos Estados Unidos cujo expoente é o pregador Billy Grahaam. p.88-89) O método deste pregador. Discorrendo sobre a ligação entre os pentecostais.nas quais a ênfase na culpa pelo pecado e a necessidade de arrependimento para a salvação eram o tema principal. A partir da argumentação nem sempre visível por parte dos docentes. esse processo é iniciado por volta dos anos de 1950 com “a chegada de dois missionários norte-americanos” membros da Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular. 2001/2003. em São Paulo. identificamos que a fonte de alimentação dessa demonização é o segmento neopentecostal. O “falar línguas” será tido como um sinal “do batismo do Espírito Santo”. (SOUZA. A primeira onda ou Pentecostalismo Clássico com marco entre 1910 e 1950 teve no Brasil. que se projeta nos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial até a eleição de Nixon. p. públicas. Nessa onda há uma prioridade em trazer o público para mais perto dos pregadores e assim há “o uso do rádio” e “as tendas de lona” atendem a essa prerrogativa. a fé e a política as autoras Souza. (SOUZA. . Além das rejeições a comprovação era evocada utilizando exemplos da vida de pobreza material de muitas lideranças espirituais e das possessões que aconteciam nesse tipo de religião. enfatizando-se ainda que.87) Na segunda onda ou Pentecostalismo Neoclássico há a característica de associar o dom de falar línguas com a “cura divina”. a fundação de várias organizações religiosas. MAGALHÃES.87) A Terceira Onda ou Neopentecostal datando da segunda metade de 1970 tem a sua expansão se verificando ainda em dias atuais com o uso dos meios de comunicação de massa. MAGALHÃES. As rejeições tinham a justificativa de que as religiões afrobrasileiras eram inferiores ou tinham parte com o diabo. Magalhães (2001/2003. a “Segunda Onda ou Pentecostalismo Neoclássico”. o espaço físico dos seus templos e os seus adeptos para agirem como “soldados de Cristo” e estes agem nas escolas . pode ser assim sintetizado: reunir multidões sob uma cobertura desmontável e realizar pregações ao ar livre. Nesse momento os povos indígenas são os escolhidos para receberem a evangelização. Essas organizações se firmam com “forte oposição ao catolicismo” enfatizando a glossolalia e “conduta ascética”. No Brasil. a “Terceira Onda ou Neopentecostal”.

pregam os neopentecostais. No Brasil. MAGALHÃES. não apenas com palavras. Integra seus discursos a ênfase na missão redentora dos Estados Unidos. na forma como se prega e nos argumentos utilizados.45) Entendemos que.p. a maior expressão deste segmento religioso é a IURD que fomenta uma relação na qual Deus “é um instrumento nas mãos do fiel” caracterizando um tipo de relacionamento inspirado na Teologia da Prosperidade. mas com suas emoções.p. tendo como antagonista segundo impunha o espírito da época. a exemplo do termo “encosto”. mesmo de seus adversários. O estudioso Prandi inicia o seu livro Mitologia dos Orixás narrando . a classificação. (SOUZA. p. Essa apropriação que a IURD faz dos elementos das religiões afrobrasileiras confere à própria. Se a educação é entendida como um elemento importante para compor uma “política multilinear “ que venha a alterar a imagem negativa da pessoa negra e da sua cultura esta também é utilizada para reforçar a mesma imagem que foi construída ao longo do tempo. (SOUZA. adotada por significativa parte dos docentes é um trabalho que reforça a ligação da imagem do diabo com a cultura religiosa negra. considerada o principal inimigo da fé. MAGALHÃES.(MUNANGA.1984. O “encosto”na ressignificação feita pela IURD remete de forma depreciativa às entidades espirituais do panteão africano e a mais enfatizada é Exu que tem as suas características invertidas e erroneamente relacionada com o diabo cristão. Mas além da solução à pobreza material todos os males e desequilíbrios seja de ordem afetiva ou doenças podem ser resolvidos combatendo a ação maléfica do diabo. a postura de não querer discutir e muito menos conhecer as religiões afrobrasileiras. p. deveriam despertar-se para a sua fé (revival).98) A forma de ataque processado por parte da IURD para com as religiões afrobrasileiras tem um detalhe no mínimo curioso no sentido de que aquela faz a apropriação dos elementos simbólicos desta.33) de ser religiofágica”: isto é : “uma igreja que construiu seu repertório simbólico. (SOUZA.99) Prosperar financeiramente.89) Assim. 2001/2003. a União Soviética. MAGALHÃES. o neopentecostalismo é caracterizado por mudanças no tipo de espaço de pregação. 2001/2003. A adoção e inserção da palavra “encosto” tem um poder que determinará a criação da sessão do descarrego”. aqueles que já eram convertidos. é uma possibilidade para todas as pessoas e o impedimento está na “ação diabólica” que ganhou ao longo do ano 2001 o nome de “encosto” configurando um ataque direto às religiões afrobrasileiras. p. suas crenças e ritualística incorporando e ressemantizando pedaços de crenças de outras religiões. Torna-se então oportuna interrogar quem é esse diabo que erroneamente foi sincretizado com Exu. 2001/2003. segundo Oro (2007. na qual se processa a retirada do espírito maligno do diabo que atrapalha a vida das pessoas.

das glórias alcançadas e dos insucessos sofridos.Conta o mito que Exu foi aconselhado a ouvir do povo todas as histórias que falassem dos dramas vividos pelos seres humanos. a doença. (. Histórias que falassem da ventura e do sofrimento. que são chamados babalaôs ou pais do segredo. também chamado Ifá. por menos importantes que pudessem parecer. Assim fez ele. das lutas vencidas e perdidas.. tanto os homens como os orixás. O processo de demonização sobre Exu remonta ao século XV momento histórico em que os colonizadores europeus chegaram em terras africanas e estranharam a forma como Exu se apresentava e sua representação.) todo esse saber foi dado a um adivinho de nome Orunmilá. reunindo 301 histórias. sensual e a representação em forma de falo ereto não foi entendida dentro do contexto africano no qual a simbologia remetia à fertilidade e à 1 O nome Exu é o mais conhecido no Brasil. de acordo com o sistema de enumeração dos antigos iorubas. que Exu juntou um número incontável de histórias. Eleguá (nome pelo qual é conhecido em Cuba). o mensageiro. entre o invisível e o visível. brincalhão.todavia. Legbara ou Elegbara. Exu deveria estar atento também aos relatos sobre as providências tomadas e as oferendas feitas aos deuses para se chegar a um final feliz em cada desafio enfrentado. o que significa. o orixá mensageiro tinha diante de si todo o conhecimento necessário para o desvendamento dos mistérios sobre a origem e o governo do mundo dos homens e da natureza. entre os orixás e os humanos. Todas as narrativas a respeito dos fatos do cotidiano. Realizada essa pacientíssima missão. a perda dos bens materiais e de posições sociais .assim como por animais e outros seres que dividem a Terra com o homem. a pobreza. 2 O Orum é o mundo sobrenatural.ou seja. os sacerdotes do oráculo de Ifá. a morte. o intermediário entre o Orum e o Aiê2. há os nomes de Legba (entre os fon do Benin (antigo Daomé) ..pelas próprias divindades. . Um dia. sobre o desenrolar do destino dos homens. tinham que ser devidamente consideradas.(Bará (é o nome de Exu no batuque gaúcho). provocador. o responsável pela comunicação entre o indizível e o dizível.mundo dos Orixás e o Aiê é a terra onde vivem os seres humanos. a infertilidade. um mensageiro chamado Exu andava de aldeia em aldeia à procura de solução para terríveis problemas que na ocasião afligiam a todos. em terras africanas dos povos iorubas. mulheres e crianças e sobre os caminhos de cada um na luta cotidiana contra os infortúnios que a todo momento ameaçam cada um de nós. que o transmitiu aos seus seguidores. das dificuldades na luta pela manutenção da saúde contra os ataques da doença e da morte. a derrota em face do adversário traiçoeiro. A apresentação deste Orixá da comunicação em estilo descontraído.sobre o papel de Exu1.

Prandi (2005. Para os iorubás cada Orixá tem a sua porção de positividade e a de negatividade bem como nós seres humanos também a temos. Na sincretização favorecedora da demonização.fecundação da terra abrangendo o reino vegetal e animal.230) afirma não haver essa dicotomização no candomblé mas o mesmo não ocorre com a umbanda que “ quando se formou. os do mal seriam os exus. vigoram até os dias atuais. Esse tipo de organização favoreceu sobremaneira ao neopentecostalismo que erroneamente identifica as entidades dos exus e das pombagiras com o diabo e este seria o responsável por todas as injustiças e dessaranjos individuais e sociais. O perfil do diabo construído pelo cristianismo é associado.230) Com a separação entre o mundo do bem e o do mal.p.. pela perversão ou seja na divisão entre o bem e o mal operada pelos cristãos. pela imoralidade.Essa combinação entre a produção da igreja cristã e a ciência.68) explica que o sincretismo proporcionou a que a religião dos orixás absorvesse “valores e noções completamente estranhos ao pensamento africano” incorporasse ritos da igreja católica “e transformou profundamente divindades centrais do culto africano. à moda kardecista” . Essas características foram invertidas e utilizando do sincretismo fizeram com que o Exu dos iorubás fosse erroneamente relacionado com o diabo cristão.. é atribuída a Exu a responsabilidade pelo desequilíbrio . pombagiras que se encarregam de trabalhar para o mal. fertilidade e fecundação que garantiam a vida.) Na sincretização foi estabelecida uma correlação entre Exu e o diabo. o Exu corresponde ao anjo decaído. Todavia. há uma história de demonização que surge antes da umbanda conforme pontuamos data dos primeiros contatos dos europeus em África.) como “bons e virtuosos. (2005. Numa intenção para destruir as religiões afrobrasileiras as igrejas neopentecostais amplia a associação equivocada com o diabo não ficando restrita a Exu e pombagiras mas se estendendo também para os outros orixás. a umbanda classifica também as suas entidades considerando os “caboclos. com as teorias evolucionistas raciológicas formando uma combinação sólida para os ataques às manifestações afroreligiosas. p. o Satanás sendo que na mitologia iorubá não existe diabo e não há oposição ao Ser supremo. Acerca da concepção de bem ou mal Prandi (2005.. cristã. . a partir do século XIX. é a personificação do mal. duas instâncias de reconhecimento e prestígio social. p. E outros sincretismos foram operados com os outros orixás. pretos-velhos e outros espíritos”(.”(. imaginou-se também como religião ética. capaz de fazer a distinção entre o bem e o mal à moda ocidental..

essa teologia prega “que o respeito transcende todas as culturas ”e ao se voltar para a cultura do povo negro elabora a sua visão valorizando os elementos desse segmento étnico. políticas públicas específicas para o povo de santo promovendo o seu bem estar social e assim modificar a sua imagem social. Essa ação conforme o autor citado partiu de grupos ligados à Teologia da Libertação que priorizavam “o retorno à verdadeira palavra da Bíblia “ e isso direciona a atenção para o contexto social e econômico das comunidades trabalhadas e para a “experiência espiritual do indivíduo”. p. segundo d”Adesky a reelaboração feita pela Igreja Católica desassociando o candomblé e a umbanda do demonismo. . ( 2001. ainda acompanhando o raciocínio de d’Adesky. Sendo assim.52) As alternativas para o desmonte dessa demonização são apontadas pelo próprio povo de santo que pleteia espaço nos ambientes escolares para exporem sobre a sua crença. vale ressaltar. enfocar sobre a noção de diabo no cristianismo comparando-o com outras religiões. Todavia.

. Kabengele. 2001/2003. Intolerância religiosa Iurdiana e reações afro no Rio Grande do Sul. p.nº 22. Saúde. v 43. São Paulo: Companhia das Letras.1.Prefácio ou notícias de uma guerra nada particular: os ataques neopentecostais às religiões afro-brasileiras e aos símbolos da herança africana no Brasil. p. Soc. 2007.). de . São Paulo Disponível em: HTTP://www. Vagner Gonçalves da (org. MAGALHÃES. Reginaldo. In: SILVA. Os pentecostais:entre a fé e a política . Raízes científicas do mito do negro e do racismo ocidental. Temas IMESC. 1984 ORO. Vagner Gonçalves da Silva (org). São Paulo.REFERENCIAS D’ADESKY.scielo.. 2002. Mitologia dos Orixás. Os pentecostais:entre a fé e a política . p. São Paulo: EDUSP.br Acesso em: 18 de setembro de 2009 .). Vagner Gonçalves da (org. 2007 SILVA. In: Revista Brasileira de História. Vagner Gonçalves da (org. nº1.39-47. Ari Pedro. v 43. Intolerância religiosa:impactos do neopentecostalismo no campo religiosa afro-brasileiro. Intolerância religiosa:impactos do neopentecostalismo no campo religiosa afro-brasileiro. Pluralismo étnico e multiculturalismo: racismos e anti-racismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas. In: SILVA. Dir. Jacques. 2007. Etiane Caloy B. 85-105 _________. v. p.nº 22.). São Paulo: EDUSP. 9-27 SOUZA. São Paulo: EDUSP. 29-69 PRANDI.São Paulo. In: Revista Brasileira de História.2001 SILVA. Intolerância religiosa: impactos do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro. Marionilde Dias Brephol de. 2001 MUNANGA.