CARTA DE POVOAÇÃO/LINHARES (ES

)
06 de Julho de 2017.
"De repente minha justiça chegará, minha salvação vai aparecer, (meu braço fará justiça aos povos), as ilhas em mim
terão esperança e contarão com meu braço."
Is. 51,5

Nós, agentes pastorais do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), reunidos com diversos pescadores e pescadoras artesanais
e organizações da sociedade civil, realizamos no dia 22 de Junho de 2017, em Povoação (Linhares/ES), um “Seminário sobre
Impactos do crime da Samarco/Vale/BHP às Comunidades Tradicionais Pesqueiras”. Em preparação a este evento, realizamos
uma semana missionária, onde, durante cinco dias ouvimos e vimos a situação vivenciada pelas populações pesqueiras atingidas
pelo crime socioambiental cometido pela Samarco/Vale/BHP.
Verificamos que, não somente a pesca e as atividades econômicas como a agricultura e a lavação de roupas estão
comprometidas, mas também todo um modo de vida, que carrega tradições e conhecimentos ancestrais, que manifestam uma
relação de respeito com a natureza, de uma cultura vivida em volta do rio, uma relação íntima, que corre como uma extensão da
vida dessas comunidades.
Ao final de toda esta experiência, vimos a público manifestar nosso repúdio a ação predatória das empresas
Vale/BHP/Samarco, empreendedoras deste modelo de desenvolvimento que mercantiliza a vida com todas as suas condições de
existência.

REPUDIAMOS:
Este modelo de desenvolvimento baseado na super exploração dos recursos naturais, ignorando a natureza como
sustentação da vida, destruindo povos e comunidades que tem sua existência imbricada nas águas e na terra.
· A conivência dos órgãos competentes que até então, não tem atuado efetivamente para punir a Vale/BHP/Samarco à
altura do crime por elas cometido. Pelo contrário, vem permitindo que estas atuem com intimidações e ações espúrias
que aumentam ainda mais a gravidade do quadro visto inclusive, manipulando as pessoas para assinarem acordos sem a
presença de alguém de sua confiança e sem as devidas informações quanto ao teor e consequências dos contratos;
· O consórcio criminoso das mineradoras, responsáveis pelo crime, que não tem cumprido com o dever de assistir à
população e, utiliza de estratégias que desconstroem laços familiares e comunitários assistindo umas pessoas e outras
não, como forma de individualizar as ações, causar divisões que acirram conflitos nas comunidades, enfraquecendo as
organizações do povo como forma de se auto proteger, negar os direitos dos atingidos e poupar seus recursos e a própria
imagem;
· Ausência de socialização de dados confiáveis de pesquisas relacionadas à contaminação das águas, da terra, dos
pescados e das plantas, de forma a subsidiar as comunidades na busca pelos seus direitos, resguardando sua saúde e
suas vidas;
· O descaso do Estado e das referidas empresas quanto à assistência à saúde das pessoas frente ao processo de
adoecimento, que vem se dando desde a ocorrência do crime, tais como doenças de pele, depressão e outros;
· O impacto sobre o modo de vida das comunidades, que inclui trabalho, ocupação e renda, levando à ociosidade e à falta
de perspectiva, que aumenta o alcoolismo e o consumo de drogas;
· A falta de acesso à agua potável, forçando as famílias a comprarem água ou consumirem água contaminada pelos rejeitos
trazidos pela lama.
Concluímos, com as lideranças das comunidades que, não se sabe ainda qual a dimensão do Crime da Vale/BHP/Samarco. Isto
poderá levar anos indeterminados para ser mensurado, se é que será possível! Pois, além dos danos à própria natureza, os afetos,
os sentimentos e as vidas ceifadas pelo crime são irrecuperáveis.
Nestes dias de missão, vimos também, famílias e comunidades resistindo e com desejo profundo de reencontrar e resgatar seu
modo de vida em harmonia com as águas e seus territórios. Por isto, com eles e elas, iniciamos um caminho de solidariedade,
somando-nos no fortalecimento das iniciativas em curso, construindo e revigorando as possibilidades de seguir em frente
animando a esperança de dias melhores.
Neste sentido proclamamos que, no mutirão da vida, em busca da construção do Bem Viver, faremos juntos a recriação de
nossa Casa Comum!
Brasília, 6 de julho de 2017
Conselho Pastoral dos Pescadores