Barthes, Efeito do Real

Estudos
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Realismo precisa de 'funções'.

No entanto, do ponto de vista da estrutura, é preciso de notações escandalosas,
que não tenham nenhuma função.

Barometro não participa da ordem do 'notável', do inventário de descrições realistas que
possuem funções.

Caráter enigmático de toda descrição: diferentemente de se “dizer ao leitor”, de dar
informçaão, ele não predica nada.

A descrição parece não ser justificada por nenhuma finalidade de ação ou de comunicação.
Estruturalmente, ela não tem função.

Descrição = detalhe inútil. > Importante para a análise estrutura: Questão principal: “Tudo, no
discurso narrativo, é significante, e se não for, se subsistem no sintagma narrativo algumas
regiões insignificantes, qual é a significação dessa insignificância?

Pressuposto: a insignificância é significante, já que está lá, tem que ser significante. O termo
significância remete puramente, até agora, à 'função narrativa'.

> Para a estrutura, nada pode ser insignificante.

Historicamente: descrição tinha uma finalidade (no ocidente): dentro da corrente retórica, a
descrição precisa ser bela. Eis sua função. Na idade média, a descrição não tinha por função
ser realista: apenas fazer parte da descrição.?

Salto para Flaubert: descrição = função retórica no sentido de 'embelezar'. “como se Rouen
não fosse notável senão por suas substituições” - segue-se lista de símiles. “Toda a cena é
construída para aparentar Rouen à uma pintura”.

Para barthes, Flaubert cumpria o que sentenciava Platão: criador de terceiro grau,
sujeito à “regras tirânicas” da essência, da retórica etc.

> Sentido da estrutura de Madame Bovary é que é tudo justificado pelas leis da literatura,
“regras culturais da representação”.

“Se não estivesse submetida a uma escolha estética ou retórica, qualquer vista seria
inesgotável pelo discurso: haveria sempre um cantinho, um detalhe, uma inflexão de espaço a
relatar”.

> ou seja, o realismo de Flaubert segue regras referenciais e estéticas. O realismo segue o
referente, substiuo-o do real, como um escravo.

A representação do real é contra o sentido: sem função, cria oposição entre o vivido e o
inteligível. A “significância do insignificante” é que o vivido não precisa ser inteligível. Sua
não funcionalidade baseia-se num 'real concreto'.

O modelo de objetividade histórica tem as mesmas características do realismo. O “real”
basta-se a si mesmo, desmente ideias de 'função'.

que seria parte da doxa do leitor.doxa) Para Barthes. O artista tornou-se um trabalhador. O problema é a própria descrição. diz Barbey. essa doxa do real. como necessidade interna'. O real pelo real Tese de Rancière: o 'real' do realismo (referencialidade) é um momento de bifurcação radical. estabelecido na modernidade. dar-lhe um lugar na estrutura. Nas caixas do novo romancista. A notação agora é o puro encontro do objeto real e sua expressão. É o novo verossímil do realismo. “Para um crítico. o romance realista é um monstro que não obedece à harmonia do corpo. Análise estrutural deve fazer a insignificância “significar”. tem a ver com a cultura midiática da doxa. Ranciére. Rancière recupera o que Barthes ignorou: a crítica dos contemporâneos (reacionários) de Flaubert às descrições realistas. seguindo a retórica. perca sua natureza tripartida. da mesma forma que o operário carrega suas pedras adiante num carrinho de mão. o real se opunha ao verossímil. No entanto.Na Antiguidade. então a representação realista. Nenhuma notação podia ser relegada à guarda do 'real'. Existe. o que Rancière insere na discussão é essa “política”. O efeito de real. categoria do real). e deixa de ver a questão política envolvida no excesso realista Ou seja. Também porque a 'estrutura modernista' também tá de acordo com a 'lógica representativa'. Se para a antiguidade a verossimilhança era necessária. (realismo = referencialidade. todas as coisas estão embaralhadas. e o realismo moderno produziu seu novo verossímil (discurso que aceita enunciações creditadas somente pelo referente) Os detalhes insignificantes tentam 'denotar'o real. e com isso cria uma nova verossimilhança (typich Barthes. por causa da vida insignificante que o romance realista procurava: “É exatamente o oposto do romance . rompe com essa regra. Ele carrega suas sentenças adiante. no século XX escritores denunciavam a futilidade da descrição realista > Breton x Dostoievski. portanto . devota à referencialidade. composto de significante e significado. o real como inteligível (e não como tradição de embelezamento da retórica). O real pelo real. Importa menos o que foi do que o leitor consegue saber. uma ruptura entre o verossímil antigo e o realismo moderno. doxa – paradoxa .” Outro crítico: nova democracia: insignificância = igualdade dos detalhes. Efeito de Realidade - Para Ranciére. Perde de vista a 'ruptura' da ficção realista. esse fetichismo. mas na real o conotam: o que o barometro de Flaubert significa é a “categoria do real”. Borges x Proust. Barthes “formula sistemáticamente o desprezo estruturalista: nada pode ser supérfluo). A comparação mostra que essa nova cosmologia ficcional é também uma nova cosmologia social. O efeito do real quer fazer com que o signo. 'excesso de representação “análise estrutural de Barthes preserva ideia modernista da arte como anti-referencial. segundo Rancière. toda paradoxa se endurece em uma doxa.

a análise da estrutura perde de vista a novidade de Flaubert. agora . na literatura. que era na verdade um reflexo da hierarquia social. 1) designa arranjo de eventos. se o tempo será bom ou ruim . Verossimilhança não é só o que se espera de uma causa. do que os indivíduos podem viver. até mesmo um barômetro. nomeadamente. Qualquer coisa pode produzir um efeito profundo. é justamente acabar com essa hierarquia para fazer a partilha do sensível. mas também o que se espera de um indivíduo: que tipo de percepção. para Rancière. Hegel: “Os quadros dos meninos pedintes que um príncipe comprou. Poética clássica: poesia = concatenação de ações. nem de funcionalidade narrativa – é a redistribuição democrática da sensorialidade A questão do estruturalismo de Barthes: A arte de escrever na modernidade não é opor estrutura e insignificância. a partir da ruína do paradigma aristocrático/representacional. não é mais retórica de embelezamento. uma mulher da classe baixa experimentar sentimentos relegados somente às classes altas. “fazer nada” de Stendhal. É esta nova capacidade de qualquer um de viver vidas alternativas que coíbe a subordinação das partes ao todo Na questão da imagem. ao contrário do calculismo político-social a que estava submetido. é a vida. o que podem experienciar e até que ponto vale a pena contar a outros seus sentimentos. Auerbach em Mímesis já sugere. gestos e comportamentos O barômetro não está lá para comprovar que o real é o real. é o momento quando a "vida nua" . O exemplo de Dostoievski ilustra bem isso. na "era representativa". Causa e consequência. o romance dos tempos monárquicos e aristocráticos. dia após dia. Rancière: Concatenação = indivíduos heróicos que lidavam contra o destino.tradicional. Causa e consequência. com Stendhal.a vida normalmente devotada a olhar. mas não de planificação. É um efeito de igualdade.assume a temporalidade de uma cadeia de eventos sensorialmente apreciáveis que merecem ser relatados Ou seja. Democracia (literária) é amedrontadora: “qualquer um pode sentir qualquer coisa”. mas também desifna a relação entre um mundo referencial e mundos alternativos (fora da hierarquia). tem-se o que antes era chamado de 'insignificância' pela hierarquia dos gêneros. sentimento ou comportamento pode ser atribuído a ela. como propõe Barthes de maneira a realizar sua crítica ao real como real: na verdade. Ficção = dois aspectos. Ação e descrição: a crítica de Breton ao excesso de referencialidade de Dostoievski: ação não está separada de descrição na literatura moderna. e não sucessão histórica. como ilustrações pitorescas das maneiras de ser das pessoas das classes baixas. que se beneficiavam do espaço criado por uma clara hierarquia social estratificada” Rancière: a ruptura da lógica da verossimilhança clássica é na verdade a ruptura da diferença hierárquica entre as classes. Barthes esquece disso. afeta profundamente o padrão de “vinculação entre pensar. a literatura moderna. sentir e fazer”. econômico e social. de permitir na literatura que o que estava antes excluído aparecesse. Com Flaubert. que o homem está num mundo político. A questão não é o real. drama clássico etc. Isso é questão de uma distribuição de capacidades de experiência sensorial.

mas a distribuição do sensível que tornou esse ócio possível. Quando o jovem Marx opõe a "revolução humana" à revolução "meramente política". identificando a concatenação causal das ações narrativas com o jogo das intrigas sociais. pela capacidade plebéia de "fazer nada". ao permitir a partilha do sensível às classes baixas.> IMPORTANTE ←. O assim chamado "efeito de realidade". A primeira procura a disjunção entre ser e fazer. sim. aquela que via na superficialidade burguesa sua revolução. Rousseau pode devanear ociosoamente porque estava livre das hierarquias clássicas.o reino da paixão selvagem e do ócio também. sim senhor: O momento de perfeito júbilo do personagem é aquele em que a lógica do enredo. primeiro significa essa quebra. agora adquiriram o ócio que antes só os deuses olímpicos podiam (no regime hierárquico). e não de mudanças institucionais ou governamentais. e o plebeu de Stendhal. esta separação no coração da performance narrativa. ele está dando continuidade à descoberta de uma igualdade "sensorial" que vai além da transformação das instituições governamentais.ele se distancia das formas de emancipação dos trabalhadores que afirmam sua capacidade de gozar aqui e agora um mundo de igualdade perceptiva. Não foi o ócio que invadiu a literatura. o efeito do real de Barthes é na verdade possível apenas porque antes esses seres estavam relegados ao trabalho ou a preguiça ou à quaisquer reinos inferiores da existência que se queira. agora geral pode sofrer paixão selvagem ou ócio. O farniente do devaneio não é preguiça. As palavras são excessivas por causa desse excesso. É uma questão de estrutura. a segunda é a da burguesia. Preguiça é o vício do mau trabalhador. a capacidade de "nada fazer" e preocupar-se com nada. sem lutar contra forças. Como a estrutura ficcional de concatenação de fins e meios ou causas e efeitos tende a identificar-se com a luta das forças sociais. o excesso realista não tem nada a ver com a ostentação burguesa da riqueza e da confiança no reino da Burguesia que alguns autores ali detectaram. entre a hierarquia e o ser.expressa uma nova qualidade estética. É por isso que Marx se dedicou a aniquilar este "fazer nada" mediante a afirmação de uma privação radical ou de uma nulidade radical. Descoberta de uma “igualdade sensorial” . Mas quando ele prega a ação revolucionária baseado na existência de uma classe de homens inteiramente despossuídos de sua humanidade. O ponto é: pedintes despreocupados. ela é mutilada por uma força de inércia >>>> Assim. o foco no "inútil" e "ocioso" cotidiano. Diferença entre democracia política e democracia literária. O ócio é a virtude daqueles que não precisam se preocupar com trabalhar. Então. a aptidão ao ócio que pertence aos deuses olímpicos” → ilustração da quebra do regime hierárquico do sensível. → Basicamente. que é constituído pela entrada dos filhos de artesãos e camponeses num novo mundo da sensibilidade . que vem a noção de self (e também todo o seu romantismo). Daí. colapsa. a nulidade da classe que não tem nada a perder a não ser seus grilhões . A decisão política parecia ser corroída pela igualdade estética. O que está no seu coração é muito mais a confusão introduzida quando o excesso de paixão e o vazio do devaneio são apropriados pelas almas das classes baixas A democracia literária é a oposta à da democracia política.

técnicas de comunicação. recursos técnicos para incorparar valores. Autor. uma forma de comunismo que escapa aos dilemas das estratégias comunistas por inverter o segredo niilista da falta de objetivo da vida O sonho da planificação cubista/modernista foi destroçado pelo realismo socialista e epla contradição inerente da democracia que o realismo representa. efeito Arte = expressão individual e interior. como se forma publico Qual a função do artista? Qual sua posição social e quais os limites de sua autonomia criadora? . - Antônio Cândido A literatura e a vida social Aspectos sociais que envolvem a vida artística: Separação entre artista e o meio. destaca indivíduos da coletividade. comunicando. Esquema do sociólogo: para ele. mas utilizando-se do arsenal civilizatório comum a todos. O cinema cria. Esclarecer aspectos. segundo para renovar o sistema simbólico. comunicado. Para Rancière. – Comunicante. Posição social do artista. o efeito de real é parte desse esquecimento. Refletem a integração e a diferenciação . obra. Diferenciação: particularidades e diferenças entre os indivíduos. não explicar. portanto. na sociologia Integração = conjunto de fatores que tendem a acentuar no indivíduo ou no grupo a participação nos valores comuns. Público: qual o papel do arista. grupos receptores. a arte é um sistema simbólico de comunicaçao humana.. Arte e homem equilibram as duas categorias. Sociologia não pode esgotar. valores e ideologias. Arte de agregação e arte de segregação: categorias sociológicas 1o utiliza-se da coletividade para agregar. Fatores que determinal a análise sociológica da obra: estrutura social. Forma e conteúdo fatura e transmissão. é auxiliar.

é tudo uma questão midiática. é sobre o sentido.Arte pressupõe indivíduo que assume a iniciativa. como aponta não só diversas obras de DeLillo que lidam com fatos e com acontecimento históricos. mas ele procura nisso o sentido e a política em gente simplesmente ouvindo e vendo essas coisas. produção (controlar a técnica. faz uma espécie de distribuição do sentido. onde pessoas vão tirar foto etc. há a cena do “most photographed barn in america”. assim como em Beckett. assim como toda a obra de DeLillo. Se a referência é o drama aristotélico. . de 1980. Mídia: em seu romance mais famoso. Para DeLillo. Baader-Meinhof é sobre terrorismo e sentido. White Noise. Qual a necessidade da sociedade de reconhecer e legitimar o artista? - DeLillo. É um novo tipo de beleza. Não há troca de infos. Mas talvez precise distanciar-se da produção para poder especializar-se. acidentes nucleares. modificá-la) Entrevista de DeLillo: “são só pessoas falando diálogo”. com guerras. Há um interesse pela política e pela história. assassinatos em massa. beleza textual-oral. política/partilha do sensível. acidentes químicos. Baader-Meinhof Pensar com os operadores de Bathes. Baader-Meinhof. Rancière e Benjamin: notação estruturalista. Libra é sobre imagens.