Notas sobre a contribuição do negro para a difusão e constituição da língua

portuguesa no Brasil.

A colonização portuguesa no Brasil introduziu, para o beneficio da Metrópole, a grande
propriedade, a monocultura para exportação e o trabalho compulsório, a escravidão.
Primeiro a dos povos nativos e, posteriormente, com a impossibilidade desta, a do negro
africano e afro-brasileiro, utilizada em larga escala.

Estima-se que entre 1550 a 1855 cerca de 4 milhões – ou bem mais, isto sem contar o
numero próximo a isso dos que morreram no caminho - de africanos foram trazidos para
o Brasil e submetidos a mais brutal, desumana e violenta condição: a de escravo na
colônia portuguesa. O Brasil colônia, 1500 – 1808, era uma “maquina de moer gente”,
para enriquecer a metrópole, o comercio europeu e, secundariamente, os senhores de
escravos e aventureiros de toda ordem no Brasil.

Os escravos negros foram certamente responsáveis pela parte mais substancial de toda
riqueza material produzida na colônia e depois dela, porém totalmente impedidos da
fruição desta riqueza. Entretanto, os negros deram também importantes contribuições
para a cultura brasileira nos mais diferentes ramos: da culinária a musica, da religião a
língua e a literatura. A contribuição do negro, ainda que sufocada, reprimida, atacada, é
parte fundamental da nossa brasilidade.

No caso da língua o negro não só contribuiu para a formação e constituição do
português brasileiro, como também para a difusão do português na Babel que era o
Brasil colônia.

A colônia e o multilinguismo.

Na colônia, da extração do Pau-Brasil até a montagem da empresa colonial, com sua
grande propriedade monocultora para exportação e a mineração, o que vigorava nas
capitanias era a chamada língua geral, que era fundamentalmente a língua dos nativos,
do grupo denominado Tupi-Guarani.

Grupo bastante homogêneo em termos culturais e linguísticos os Tupis-Guaranis
habitavam a maior parte da costa brasileira, do Ceara à Lagoa dos patos, no extremo sul.
Os Tupis, também chamados tupinambás, localizavam-se, sobretudo, na faixa litorânea
do Norte ao sul do atual Estado de São Paulo. Os guaranis, sobretudo, na bacia Paraná-
Paraguai. Na capitania de São Paulo, por exemplo, a língua falada pela maioria da
população era a língua geral paulista de base Guarani/Tupiniquim.

O governador da capitania de São Paulo em um relatório escrito em 1692, referindo-se
as mulheres e os filhos, elemento mais estável da sociedade, já que permanecia sempre
na casa, diz: “os filhos primeiro sabem a língua do gentio do que a materna”, “isto é a
portuguesa” (B.H.S. Raízes do Brasil. 2007. p, 124), acrescenta Sergio Buarque de
Holanda

muitas vezes com cultura e língua muito distinta da sua. já os bantos. bem como o holandês foi praticada. que avança. onde se criou em um ilhéu da Guanabara uma colônia francesa denominada França Antártica. derrotados por volta de 1560. O negro escravizado chegava ao Brasil. Portanto. o negro escravizados. eram proeminentes da áfrica ocidental. O negro e a difusão língua portuguesa. nem tão pouco a língua que as gentes. dos povoados e cidades. Os negros africanos trazidos para o Brasil e escravizados. advinham de localidades. mais línguas circulam no Brasil. Sudão egípcio e norte do golfo de Guine . o português. a partir do Maranhão sobre a região amazônica. foi importante para difundir a língua portuguesa no Brasil como língua única. Fundamentalmente os escravizados vieram da costa ocidental africana e podemos distinguir três grandes grupos étnicos: sudaneses (yorubas). Não só estas línguas eram praticadas no Brasil. o seu semelhante. o negro não entendia. e tinham uma cultura islamizada. Havia também a língua geral amazônica de base Tupi. Naturalmente a administração portuguesa procurava implementar uma política linguística para tornar a língua portuguesa oficial e única no Brasil. No entanto a língua oficial. política que só alcança êxito no século XIX. entretanto. sobretudo. culturas e línguas distintas. Era uma política administrativa evitar colocar negros provenientes do mesmo local e de mesma língua juntos. a língua do senhor de escravos. durante as invasões holandesas no século XVIII em regiões do nordeste. como ficaram conhecidos na Bahia. depois da vinda da Coroa Portuguesa para o Brasil em 1808. que não conhecia a língua. das correspondências com a metrópole. o negro já inserido nesse inferno tropical. o negro recém-chegado. era a língua portuguesa. do Norte da Nigéria. Esta era a condição do boçal. Os primeiros representados principalmente pelo grupo linguístico yoruba. a parte substancial da gente que aqui se moía para a produção de riquezas para outrem. como também a língua dos mandos. bantos e. outros grupos nativos praticavam suas línguas. também o Frances em 1555. o ladino. dentre outras coisas. as línguas Africanas. sobretudo. falavam: a língua geral. com o estabelecimento do primeiro governo geral em 1549 a oficialização do trafico de escravos trazidos da África. praticadas em maior ou menor grau. do congo e Moçambique. que esta na mesma situação. falante da língua do senhor e conhecedor do trabalho e do castigo. da África equatorial e tropical parte do golfo de Guine. também conhecidos como nagô. . território hostil e cruel. Os terceiros vinham. deparava-se com outros negros na mesma condição. nem a forma de trabalho. por muitas vezes. Contraposto a isso havia o ladino. Além destas línguas. os males e no Rio como Alufas. Certamente.

preso a sua cultura autóctone e capaz apenas de estabelecer uma comunicação rudimentar com seus iguais. este ganhará mais força. uma provisão real proíbe o uso da língua dos nativos. um tanto distinto do português de Portugal. o negro deu uma contribuição fundamental . no período pombalino. devido ao elemento de diferenças culturais e linguísticas. uma vez que a línguas gerais já estava sendo suplantada as língua portuguesa. que também foi elemento de comunicação entre os próprios escravos. sobretudo.O negro devido ao menor contato com os povos nativos e ao contato direto com capatazes. no que tange a língua portuguesa no Brasil. Nesse processo os negros escravizados. 2008 p. 103). mas. O negro já conhecedor da língua também a ensinava para os recém-chegados. Em 1757. para a condição de ladino que capaz de comunicar-se na língua do opressor e inclusive oferecer resistência. não só contribuíram para sua difusão como para sua constituição. que cumpriu também o de integração nacional. além de influenciar de múltiplas maneiras as áreas culturais onde mais se concentraram. . após a vinda da família real e da independência do país.centenas de palavras que nos são tão comuns hoje. como diz Darcy ribeiro: “acabarão conseguindo aportuguesar o Brasil. preservando um pouco de sua cultura na língua do explorador. Aprender o português foi elemento fundamental para que o negro transitasse de boçal. Darcy. maluco dentre outras – para formação e difusão do português brasileiro. que foram o nordeste açucareiro e as zonas de mineração do centro do país” (RIBEIRO. O português falado pelos negros era um português mais popular. teve que aprender o português. que eram a maioria da população nos centros econômicos da colônia. que lhes gritavam. sobretudo. Os negros. Os negros escravizados. tiveram importante papel de difusão da língua portuguesa. pela proibição de os escravos manterem sua cultura e sua língua. como moleque.