Fichamento – Ferran Tamarit POLLAK, Michael.

Memória e identidade social

Referência POLLAK, Michael. “Memória e identidade social”, In: Estudos Históricos, vol.5, n.10. Rio de
Bibliográfica Janeiro, 1992, pp. 200-212.
Questões centrais
Resumo Ligação entre memória e identidade social nas histórias de vida (história oral).
O que é a A memória parece ser um fenômeno individual, íntimo e próprio da pessoa, mas seguindo
memória? Maurice Halbwachs, o autor enfatiza como a memória pode ser entendida como um “fenômeno
coletivo e social [...] construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações,
mudanças constantes” (p.201). Porem, na maioria de memórias e histórias de vida existem
“marcos ou pontos relativamente invariáveis, imutáveis” que acabam formando parte da própria
essência da pessoa.

Elementos constitutivos da memória (individual ou coletiva):
• Acontecimentos: vividos pessoalmente ou “vividos por tabela” (p.201) – vividos pelo grupo ou
coletividade. Estes podem (a) não ser vividos pela pessoa, mas a força com que foram
colocados no imaginário torna eles indistinguíveis; (b) estar situados fora do espaço-tempo da
pessoa/grupo, mas a socialização política ou histórica os projeta no tempo (memória quase
herdada).
• Pessoas e personagens: podemos aplicar o mesmo esquema que no caso anterior.
• Lugares: lugares de memória ligados a uma lembrança, ou até lugares de apoio a memória
(lugares de comemoração), ou lugares que configuram a identidade grupal (migrantes).

Tais elementos podem “estar empiricamente fundados em fatos concretos” ou podem ser uma
“projeção [ou transferência] de outros eventos” (p.202). Estes são afetados por “vestígios
datados da memória” (aquilo que fica gravado como data de um acontecimento), caracterizados
pela diferença entre o âmbito privado e o âmbito público/político. Em pessoas públicas “a vida
familiar, a vida privada, vai quase desaparecer do relato”. Por isso “não se deve considerar
esses aspectos como indicadores de dissimulação ou falsificação do relato. O que importa é
saber qual é a ligação real disso com a construção da personagem” (p.203).
Em relação a memórias oficiais/públicas, o autor escreve “além da transferência entre datas
oficiais, há também predomínio da memória sobre determinada cronologia política” (p.203).
Caracterização do • É seletiva: não tudo fica gravado nem é registrado.
fenômeno da • É em parte herdada: não se refere apenas à vida física das pessoas.
memória • Sofre flutuações: preocupações pessoais/políticas do momento estruturam a memória.
• É um fenômeno construído: nível consciente/inconsciente, e social/individual.
• É um elemento constituinte do sentimento de identidade (memória herdada): identidade
entendida como “imagem que a pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a
imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, para acreditar na sua própria
representação, mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos
outros” (p.204). A identidade é construída em relação ao Outro e aos critérios de
aceitabilidade, admissibilidade, credibilidade, por negociação direta (p.204):
o Unidade física: sentimento de se ter fronteiras (corpo ou pertencimento a um grupo).
o Continuidade dentro do tempo: no sentido físico, mas também moral e psicológico.
o Sentimento de coerência: diferentes elementos que individuam são unificados.
• Memória e identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais: afetam (a)
nível familiar, onde memória/identidade são pontos de conflito; (b) nível grupal, grupos e
subgrupos disputam lembranças e memórias vivenciadas de forma diferente e sua
valorização na sociedade geral; (c) nível das organizações/famílias políticas ou ideológicas,
que disputam o reconhecimento/valorização de suas memórias específicas. Existe por tanto
um “trabalho” muito duro de “valorização e hierarquização das datas, das personagens e
dos acontecimentos” (p.205).
o Trabalho do enquadramento da memória: historiadores orgânicos (Gramsci) cuja tarefa
seria enquadrar as memórias dos coletivos nos quais militam para formar uma
identidade nacional. Este “trabalho” pode ser analisado como um “investimento”, e
pode ser objeto de análise de uma “história social da história” (p.206).
o Trabalho da própria memória em si: trabalho de manutenção da coerência, unidade,
continuidade da organização. Importante em momentos em que pela percepção de
outras organizações é preciso um “trabalho de rearrumação memória do próprio grupo”
(p.206). Este sempre implica um “preço a ser pago, em termos de investimento e de
risco” (p.207). Segundo o autor, existiria uma correlação entre períodos de
instabilidade política, crise ou guerra entre países e a necessidade de rearrumar
memórias e identidades coletivas.

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isto é decorrente de uma abordagem positivista. do grau de segurança interna da pessoa” (p. pelo que “somos levados a perder. e também em função de uma vivência diferenciada das realidades” (p. Michael.213): a) Estilos de relato usados para se referir a si próprio (relatos longos são construídos a partir da combinação dos três estilos): i. a qual cria uma oposição entre historia oral e historia social subjetivo por quantificada que ele não reconhece (p. mas história oral como eles trabalham” (p. ou um indicador. Relatos fatuais usavam “eu” e “a gente” (forma impessoal). ii. Finalmente aponta para a desconstrução do uso de binarismos opositivos – que só serviriam para acusar o autolegitimar – e propõe “estudar as condições de possibilidade dessas oposições” (p.211). Estilo temático: relato pouco ligado à cronologia (grau elevado de escolarização e experiência profissional).212). Segundo o autor. devemos superar o estruturalismo e reintroduzir a escrita subjetiva e literária nas ciências humanas. Aponta ao corporativismo e a “tradição” dentro do campo histórico como explicação. “seria importante estudar não com o que eles [os historiadores] trabalham.208). de produzir As fontes orais abriram novos campos de pesquisa e nos obrigam “a levar ainda mais a sério a representações. “o predomínio de determinados pronomes pessoais no conjunto de um relato de vida seria uma medida.211).211). da qual discorda pois para ele “a fonte escrita fonte escrita não possui validade superior à da fonte oral” (p. Aponta também como interpretar imagens linha interessante a história social da arte. Memória e identidade social Respostas debate Crítica à história oral “Se a memória é socialmente construída. Superioridade da Para ele. mesmo assumindo que no nível prático o controle de todos os dados é muito complicado. Assim ele propõe “fazer e levantar meios de controlar as distorções ou a gestão da memória” (p. Sensibilidade na Para o autor. uma “objetivação que leva em conta a pluralidade das realidades e dos atos”. mas critica das fontes”. surgiu a partir dos “pontos de ruptura nas tendências de séries relativamente historia oral homogêneas” que permaneciam inexplicáveis por meios quantitativos. Se você não estiver numa situação social de justificação ou de políticos construção de você próprio [. e por conseguinte não é verdadeiro. “a história está se transformando em histórias. Para esta autora. enquanto a “construção romanesca” permitiria “restituir a verdade social em todas as suas alternativas e toda sua pluralidade” (p. é obvio que toda documentação também é.Fichamento – Ferran Tamarit POLLAK. 2 .208). Depoimento pré. Para o autor. e afirma que “o discurso científico. Para mim como método capaz não há diferença fundamental entre fonte escrita e fonte oral” (p. é preciso analisar os relatos políticos a partir do estilo.. O autor considera que é possível construir um discurso científico sensível à pluralidade. historias parciais e plurais. no sentido do enquadramento da memória. Limitação da história O autor discorda e diz que a história oral pode sim fazer uma história do tempo presente. Assim.210). até mesmo sob o aspecto da cronologia” (p. Para o autor. referenciada no romance polifônico de Proust ou Joyce. em função do seu momento de construção. podemos encontrar aquilo que é mais importante para a pessoa” (p. pois “contar a própria vida construído nos nada tem de natural. entre aquilo que o relato tem de mais solidificado e de mais variável..210).207).210).209).209). além da ingenuidade positivista.210). “a história virá a se tornar uma disciplina particularizada – se tornar parcial” o que leva a uma continuidade entre a “história social quantificada e a história oral” (p. oral ao tempo porem destaca a oposição entre fontes clássicas (legítimas) e fontes que estão adquirindo presente legitimidade.215). já que não leva em conta o plural” (p. pois “existem cronologias plurais. Inicio do uso da Segundo ele. A autora recusa as histórias de vida individuais diretamente relatadas por considerar que expressam o “pré-construído social”. considera que este oposição ao objetivo debate “transformou-se num debate opondo a escrita literária à escrita cientificista” (p. b) Importância dos pronomes pessoais usados para falar de si: relatos cronológicos e políticos usavam “eu” e “nós” (segurança e domínio da realidade). Seguindo Régine Robin. pois há sensibilidade no trabalho científico que afeta os materiais e tudo aquilo ligado ao que os historiadores pesquisam e sobre o qual escrevem (p. a não reconstruções do ambição e as condições de possibilidade de uma história vista como ciência da síntese para real todas as outras ciências humanas e sociais”. com o seu fechamento e sua tendência reducionista. Estilo cronológico: relato onde se pensa sobre um mesmo em termos de duração e continuidade (grau mínimo de escolarização e presença de socialização política). Estilo factual: relato completamente desordenado com temas misturados (pouco grau de escolarização e pouca experiência profissional e política). Iconografia e Para o autor existe uma “memória visual que é reconstruída” (p.212). iii.] é estranho” (p. Todas as fontes (até as histórias de vida individuais) podem ser criticadas por cruzamento de informações de fontes diferentes. e sinaliza que “entre o “falso” e o “verdadeiro”. Tendência da história Isto seria decorrente da bondade (“quase militante”) dos historiadores de “dar a palavra oral a valorizar o àqueles que jamais a tiveram”. é um discurso que restringe a realidade.214).