Fichamento – Ferran Tamarit COESSENS, Kathleen.

A arte da pesquisa em artes: Traçando práxis e reflexão

Referência COESSENS, Kathleen. “A arte da pesquisa em artes: Traçando práxis e reflexão”, In: ARJ, vol.
Bibliográfica 1/2, julho/dezembro 2014, pp. 1-20.
Resumo “O que se sabe é esmagadoramente determinado pela maneira que é conhecido” (p. 17). O
objetivo do artigo é “explorar o potencial da pesquisa artística como campo experimental que
beneficie nossa sociedade” (p.2). A autora usa três ferramentas ópticas – binóculos, prismas e
sala de espelhos – para refletir sobre a pesquisa artística. Por um lado, destaca como “a
pesquisa sempre oferece certo foco no mundo; ela “dramatiza” o mundo de maneira particular”
(p.3). Segundo ela, só o artista pode oferecer novas vias ao processo experimental por sua
situação como sujeito e objeto simultaneamente e sua capacidade reflexiva não determinada
por paradigmas hegemônicos.
Questões centrais
Sobre binóculos e A autora cita a Petellier (2009) quando escreve que “a construção do objeto de estudo não é
primas, flaneurs e essencialmente metodológica [...]. É estético, porque uma narrativa baseada em pesquisa
exploradores dramatiza o mundo de maneira particular” (p.3). Existem assim “nichos intelectuais e
disciplinares” (p. 4) que determinam o que conta e é desejável como conhecimento. Enquanto
outras disciplinas focam nos seus objetos, a arte procura olhar para ângulos diferentes e
inesperados, pois [...] os artistas, como os etnógrafos, treinam seus olhos para verem coisas
que outras pessoas não veem” (Hoyern, 2009; p. 4). O artista – tal como surgiu no século XIX –
é um observador do mundo exterior e também do próprio mundo interior, seu pensamento e
imaginação; resistindo as tentações das ideologias dominantes. Sua experiência se configura
num “campo rizomático de trajetórias” (p. 5) que o levam para explorar e investigar em
profundidade tanto aquilo desconhecido como as práticas próprias.
Experiência, Com a revolução científica ocidental (século XVIII) surgiram a ciência, a experimentação e o
experimento, método científico. Nesta abordagem orientada pela teoria – chamada de cognitiva – é
experimentação privilegiado o intelecto, “a abstração e a objetividade distanciada” (p. 6). Esta é conduzida pelo
pensamento “intencional” o qual cria uma distância entre sujeito e objeto. Em palavras da
autora, “o binóculo ofuscou o prisma” (p. 6).
No polo oposto, a abordagem orientada pela experiência guia as pesquisas não-científicas ou
artísticas. Nela, não existem restrições físicas, mas só as da imaginação humana, ampliando o
horizonte de significados e levando a uma imprevisibilidade das suas ações. O artista extravasa
a teoria e procura em lugares inexplorados. A própria reflexão gera o “conhecimento artístico” e
revelam uma atitude de teorização que “sugere frequentemente provocação e investigação de
caráter aberto por um lado, integração e foco por outro” (p. 8).
Práxis e reflexão A metáfora da sala de espelhos permite uma “experiência multissensorial de auto-exibição” (p.
na rede da prática 9), a qual permite experimentar o que geralmente é reservado aos outros sobre o próprio corpo;
artística a reflexão no ambiente permite uma reflexão sobre o próprio corpo (descentralização) que
permite integrar sujeito e objeto; e finalmente permite a reflexão sobre o próprio processo de
refletir a partir de uma “rede de prática artística [...] tecida ao longo do tempo e do espaço e é
composta por diferentes dimensões tácitas” (p. 10): (a) dimensão encarnada, relação com o
corpo como primeiro meio de expressão; (b) conhecimento pessoal do artista, que envolve a
participação numa comunidade que compartilha crenças e opiniões as quais geralmente são
escondidas; (c) ambiente ecológico, influência ou impacto do espaço circundante e suas
características sobre a prática do artista; (d) possibilidades culturais para a arte, relacionados
com os sistemas semióticos e a evolução tecnológica para comunicar; (e) auto-reflexividade,
que desde o âmbito do discurso e da interação humana pode ser considerada “a consciência e
a experiência de si mesmo [...] e também a experiência da diferencia e da dissonância” (p. 12).
Estas redes de prática são construídas constantemente e o artista precisa ajustar-se a elas
“explorando novas situações, adaptando e reajustando suas habilidades e competências [...]
habilidades incorporadas, conhecimento pessoal, códigos semióticos, meio ambientes, auto-
reflexividade e presencia dos outros” (p. 12).
Segundo a autora, “a pesquisa artística então, sendo prismática e reflexiva, vai construir um
conhecimento caleidoscópico, explorando partes e parcelas a partir da rede artística do
conhecimento” (p. 13).
Rastreamento da A autora apresenta então seis exemplos nos quais diferentes artistas descreveram seus
exploração para a processos artísticos, mostrando como este conhecimento pode ser divulgado. Em alguns casos,
expressão este envolve materiais visuais, em outros poesia e outros foram escritos. Assim, enquanto a
pesquisa acadêmica é focada no leitor, centrada na experiência e relacionada ao discurso, a
pesquisa artística é focada no artista, dentro da experiência e com base na prática (p. 17).
O processo de escrita pode ser tanto um reflexo como um processo reflexivo, e envolve
relações experimentais que podem estar nas práticas artísticas, mas também na interação do
mundo artístico com a ciência. Assim, “o livro do artista-pesquisador, pode existir nas
interseções do visual e do auditivo, da fotografia e da poesia, da narrativa experimental e das
artes visuais, do desempenho e da transmissão” (p. 17).

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