Fichamento – Ferran Tamarit KASTRUP, Virgínia.

O funcionamento da atenção no trabalho cartográfico

Referência KASTRUP, Virgínia. “O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo”. In: Psicologia &
Bibliográfica Sociedade, 19 (1), jan/abr. 2007, p. 15-22.
Questões centrais
Conceito de A cartografia (Deleuze e Guattari) tenta estudar a subjetividade acompanhando processos (não
Atenção e Atenção descrevendo objetos). Focada na atenção, a autora analisa: (a) Função da atenção, na
Cartográfica detecção de signos, cenas e discursos a partir de uma concentração sem focalização (Deleuze);
(b) Funcionamento da atenção, formando “variedades atencionais” que acabam configurando
“políticas cognitivas”. Estas são definidas por ela como “um tipo de atitude consciente ou de
relação encarnada, no sentido em que não é consciente, que se estabelece com o
conhecimento, com o mundo e consigo mesmo” (p.15).
Estas políticas cognitivas (além de posições epistemológicas) definem “atitudes atencionais”.
Por exemplo, a diferença da política cognitiva realista (o mundo fornece informações que devem
ser recolhidas), na perspectiva construtivista o conhecimento é uma invenção engendrada
conjuntamente com o agente do conhecimento. Na atenção cartográfica, esta se define como
“flutuante, concentrada, aberta” e inibida pela atenção seletiva (p.16).
Atenção flutuante No campo, o cartógrafo precisa selecionar e “pousar” sua atenção (W. James), e isso tem
(Freud) relação com o território de observação, configurado pela própria atenção (Merleau-Ponty) (p.16).
Na atenção flutuante, Freud propõe manter uma atenção “uniformemente suspensa” na qual
se presta igual atenção a tudo. (p.16). A fenomenologia por sua parte, destacou a “mobilidade
da atenção” (Vermersch) como “fundo de flutuação da cognição” (p.17), situando-a como uma
caraterística geral da atenção e não como um tipo específico (como em Freud).
Perspectiva O conceito de suspensão (Husserl) se refere a botar entre parênteses os juízos sobre o mundo,
Fenomenológica marcando distância com as políticas cognitivas realistas baseadas na relação sujeito-objeto
(p.17). Na sua dimensão prática (pragmática fenomenológica), representa um processo onde
emoções, reflexões o formulações teóricas são afastadas, o qual se pode dar num contexto
geral (macro) ou no contexto dos pequenos problemas surgidos durante a pesquisa (micro).
Este gesto de suspensão se desdobra em: (a) mudança de direção da atenção, que se volta
para o interior; (b) mudança de qualidade/natureza da atenção, que deixa de buscar
informações e se situa numa atitude de “deixar vir” (letting go).
Assim, neste processo “signos são recolhidos numa atitude atencional de ativa receptividade”
(p.18) constituindo uma desaceleração da atenção (breakdown), uma parada para a exploração
mais cuidadosa que mobiliza memórias e imaginações.
Variedades da Rastreio: gesto de “varredura do campo”, diferente da busca de informação, no qual se adopta
atenção do uma “atitude de concentração pelo problema e no problema” (p.18). Seu objetivo é alcançar
Cartógrafo uma atitude de movimento próxima da “percepção háptica”, entendida como uma exploração do
objeto-processo desde uma perspectiva de proximidade.
Toque: sensação rápida que aciona a seleção, como quando “algo se destaca e ganha relevo
no conjunto” (p.19). Esta não é subjetiva (provem do ambiente) e mostra que há algum processo
em andamento. Como no conceito de mismatch da psicologia cognitiva, instala uma decalagem
entre dois estados cognitivos sucessivos graças a que “a atenção do cartógrafo é capturada de
modo involuntário, quase reflexo” (p.19). Este “toque” pode ter diferentes graus e intensidades.
Pouso: indica uma mudança de escala da atenção que implica diferentes “janelas atencionais”
(Vermersch): (a) joia: micro (zoom), atividades focais; (b) página: orientação e distribuição da
atenção; (c) sala: atenção dividida. Movimento da cabeça/corpo no espaço; (d) pátio: atividades
de deslocamento e orientação; (e) paisagem: panorâmica, permite distinguir/conectar o próximo
do distante (p.19). Cada mudança de janela reconfigura o território de observação (p.20).
Reconhecimento Atento: gesto de “parar” à atenção para compreender os processos. Bergson
distinguiu entre: (a) reconhecimento automático, o qual “tem como base e como alvo à ação”;
(b) reconhecimento atento, no qual o conhecimento é produzido ao longo do processo e
configura o próprio território de observação (p.20). Esta perspectiva aponta para um
reconhecimento configurado por circuitos não lineares nem baseados na acumulação de ideias
ou no encadeamento de percepções, que envolvem a “expansão da cognição” (p.21).
A Atenção A atenção cartográfica – flutuante, concentrada e aberta – pode ser adquirida através da
cartográfica e a aprendizagem por cultivo (Depraz, Varela e Vermersch) segundo a qual não aprendemos novas
Política cognitiva habilidades/competências, mas se ativam potencialidades ou se potencializam as que já
construtivista existiam. A partir da metáfora do tono muscular, esta precisa ser exercitada e desenvolvida
como política cognitiva pelo que podemos pensar na cartografia como uma performance
(Deleuze e Guattari) e não como uma competência (p.21).
De forma diferente ao objetivismo/subjetivismo (hegemônicos e “naturalizados” por muitos
pesquisadores como formas de realismo cognitivo), no construtivismo “o conhecimento que se
produz não resulta da representação de uma realidade pré-existente”. Assim, na cartografia o
conhecimento surge como uma “composição” ou “invenção” a qual “se dá através do cartógrafo,
mas não por ele, pois não há agente da invenção” (p.21).
A autora propõe o conceito de Atenção Cartográfica como solução contra o “movimento
retrógrado do pensamento” (Bergson), no qual se produz uma “ilusão da inteligência” que leva
ao esquecimento do processo de construção do conhecimento e de sua importância (p.22).

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