MANA 6(1):175-197, 2000

RESENHAS

ARCHETTI, Eduardo P. 1999. Masculin- xa de uma essência criolla, capaz de
ities. Football, Polo and the Tango in fertilizar a essência européia, transfor-
Argentina. Oxford/New York: Berg. mando-a e produzindo novos seres
212 pp. masculinos através da dinâmica da con-
trastação, símbolos de uma nação que
se define pelos homens que produz,
Simoni Lahud Guedes construtos específicos e peculiares, mas
Profa de Antropologia, Departamento não unívocos. Dessa perspectiva, a ci-
de Antropologia, PPGACP-UFF dade é recuperada em suas contradições
e ambigüidades, nas suas míticas áreas
Em busca das imagens de homens e sombrias e marginais, desde suas aca-
masculinidades atuantes na Argentina demias de bailes, seus cafés de camare-
atual, investigadas a partir da reconstru- ras, seus cabarets, passando pelos cam-
ção de um poderoso sistema de repre- pos de futebol improvisados nos bairros
sentações coletivas, Eduardo Archetti pobres, chamados potreros, até as pla-
toma como pano de fundo o contexto nícies dos pampas, reconstruídas no
histórico da modernização de Buenos meio urbano pelas ideologias eruditas e
Aires nas primeiras décadas do século populares como fonte da especificidade
XX. Na efervescência da cidade dese- nacional. Desenhando os espaços sim-
nhada em tintas vivas, no interior de bólicos nos quais transitam e são sele-
um multifacetado processo de produção cionados os complexos valores morais
cultural, os argentinos começam tam- que atuam como “modelos e espelhos”
bém a exportar corpos, desempenhos, para os homens argentinos (:XVIII, pas-
música, dançarinos, jogadores de pólo, sim) e delineando seus míticos persona-
cavalos híbridos e, sobretudo, jogado- gens – o gaucho, o compadrito, a milon-
res de futebol. guita, o pibe –, o autor conjuga refle-
A avassaladora entrada de imigran- xões teóricas acerca da construção da
tes europeus, a maioria italianos e es- masculinidade, da moralidade e das
panhóis e a forte presença dos britâni- identidades nacionais nas “culturas hí-
cos, não é o aspecto menos relevante bridas”.
desse processo. É esta cidade, percebi- Escolher trabalhar essas questões
da como locus da nação, vista pelos ar- mediante a análise do futebol, do pólo e
gentinos como “uma típica cidade eu- do tango embute algumas opções me-
ropéia” (:4), habitada por brancos, uma todológicas. O autor opta por uma com-
reprodução da Paris da belle époque, paração intracultural que lhe permite a
que percorremos em todo o livro. Insta- complexificação das imagens de mas-
la-se ali o palco da construção comple- culinidades em atuação, a análise da

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forma como transitam de uma arena a tos ideológicos dos autores nacionalis-
outra e, ainda, uma mais nítida identifi- tas, jornais, revistas e letras de tango.”
cação dos “outros” relevantes que são (:XII), em um trabalho que se estendeu
chamados a atuar em tais sistemas sim- irregularmente ao longo de dez anos.
bólicos: os europeus, em geral, com sig- Se essa multiplicidade é um dos vários
nificados e posições relativas substanti- motivos da sua fecundidade é, também,
vamente diferentes para os ingleses, de fonte de uma certa descontinuidade
um lado, e os latinos, de outro, isto é, que, se não compromete a unidade do
italianos e espanhóis. Uma comparação livro, traz algumas dúvidas em relação
com outros países da América Latina é à comparabilidade das construções ela-
ensaiada no epílogo, tomando o traba- boradas. Por exemplo, ao mesmo tempo
lho de Roberto DaMatta sobre carnaval que se dispõe de uma minuciosa elabo-
e futebol no Brasil como referência. Em- ração das narrativas que constroem o
bora sugestiva de uma continuidade desempenho no futebol, comparáveis
potencialmente reveladora, em nenhum às que, embora um pouco menos traba-
momento, já que não é esta a opção me- lhadas, são fornecidas acerca do pólo, o
todológica de Archetti, tal comparação desempenho no tango não recebe o
é levada adiante. Do mesmo modo, é mesmo tratamento. Na verdade, é o pró-
inspirando-se explicitamente no traba- prio trabalho de Archetti que sugere
lho do antropólogo brasileiro e na teoria que as narrativas prototípicas sobre o
do ritual de Victor Turner, que o autor desempenho cumprem papel funda-
opta por estas específicas criações cul- mental como marcadores simbólicos
turais, por considerá-las como “zonas nesse sistema.
livres”, contextos definidos como dota- Apesar de o material reunido ser
dos “das propriedades antiestruturais muito diversificado, de haver uma níti-
da liminaridade e sacra híbridos no tra- da predominância das reflexões sugeri-
balho de Turner, [os quais] permitem a das pelo futebol, e da peculiaridade
articulação de linguagens e práticas que cerca cada um dos campos empíri-
que podem desafiar um domínio públi- cos pelos quais o autor optou para re-
co oficial e puritano. ‘Zonas livres’ são construir as concepções de masculini-
também espaços para misturas, para o dade na cultura argentina, a unidade
aparecimento de híbridos, para a se- do livro é evidente, estabelecendo uma
xualidade e exaltação de performances forma de argumentação reiterativa em
corporais. Nas sociedades modernas, que cada novo material acrescentado
esportes, jogos e dança são loci privile- reforça os achados anteriores. Essa uni-
giados para a análise da ‘liberdade’ e dade pode ser buscada, igualmente, no
criatividade cultural.” (:18) cenário que é amplamente fornecido
E como apreender essas “zonas li- pela Buenos Aires do início do século,
vres”? De que modo registrar atuações mas jaz, sobretudo, na confluência das
e performances corporais, danças e jo- problemáticas que intitulam as duas
gos que misturam homens com homens, partes em que se organiza o livro, res-
homens com mulheres e homens e ca- pectivamente, “hibridação” e “morali-
valos? Como inscrever paixões? O livro dades masculinas”. São estes os dois
combina “trabalho de campo tradicio- grandes eixos de debate teórico em cu-
nal e oralidade – estórias e histórias jo entrecruzamento se coloca o autor,
contadas pelos informantes – com aná- ambos recuperados a cada momento,
lise textual – ensaios históricos, escri- sob ângulos diversos, permitindo a cons-

passim). incorporando a hetero. . a recusa dos constructos fe- mental. É sob esse prisma teórico que facilmente dando vida aos instintos atá- a figura do gaucho – forte. cesso configura-se igualmente na cria- te examinada no capítulo 1. no virtuosismo e no drible (:60. geneidade como característica da Amé. qualidades morais (:92. estes dota- nacionalistas de intelectuais urbanos dos de liberdade. simbólica assume seu formato. o desempe- blematizá-la. para a compreensão da concep. sacrifício e sua força física (:106). ses autores. RESENHAS 177 trução dos modelos de masculinidade tebol e no pólo”. ça de vontade dos ingleses. em três capítulos na primeira par. à disciplina e for- nal e o antigo. o pólo e o tango na Ar. artístico e baseado inquirindo sobre os atores concretos que na improvisação (:72). grande processo civilizatório que é vis- particularmente quando referido à Amé. representado como indi- de diversos modelos de “hibridação”. rias sociais. cuja característica mais mar- te. seus valores e suas nesto e livre – emerge dos míticos pam. extenso e complexo como de origem britânica. corajoso. cuja cristalização ocor- atualizados na cultura argentina. partes do campo de debates nas ciências sociais. híbrido (:98). homens. Opõe-se. encar. cante é a ética do fair play (:49). pressupondo a existência nho argentino. –. além da reiteração zer. mediante ção dos cavalos com a mistura de puros- análise da literatura e das construções sangues e animais crioulos. do gentle- ção”. qua- premidos pela ameaça que a imigração lidades que se supõe manter-se no novo maciça representa (:30. Alguns des. na discussão sobre a “hibrida. pro. O material sobre produz e os espaços e tempos em que o pólo. em consonân- nuamente reiterado e recriado em es. Assume a proposta de Canclini. nos jogadores. to. incorporando às qualidades fí- rica Latina atual. no capítulo 3. neste caso mais gentina. toque. entretanto. na década de 10 A primeira dessas problemáticas re. percorrendo as concepções que per. baseado no outros autores. em suas formulações mais Na segunda parte do livro. modelo construído do inglês. é extremamente ocorre (:24). produzida por uma sico-morais dos gauchos as dos descen- história em que a modernidade dificil. 35). re. E é isto que se propõe a fa. É funda. colocam em questão até mes. cia com as tendências recentes das teo- paços e momentos posteriores. interessante pois. desse “estilo crioulo” incorporado nos meiam o futebol. enfati- pas e assoma com todo o vigor. meticulosamen. chados e a necessidade de enfrentar as ção produzida – “o estilo crioulo no fu. passim). man (:51). acentuando-se. ho. sensível. vicos dos gaúchos. são teórica sobre as formas da masculi- mo o suposto caráter civilizatório da nidade em relação às moralidades é es- imigração e o próprio valor da mestiça. a discus- radicais. positivamente. em. o fato de que são esportes concebidos mete a um antigo. contradições e as fragmentações (:113). em ambos os casos. Ali é “machos híbridos” no futebol (capítulo enfatizada a diversidade das formas as- 2) e no pólo (capítulo 3) que a operação sumidas pelas concepções de homem. o pro- lidades da nação (:39). conti. Archetti posiciona-se nesse da Argentina. mente se instala substituindo o tradicio. zando-se seu extraordinário senso de nando as melhores e mais heróicas qua. explanando-se recentes abor- gem. vidualista. Mas é através da construção de dagens sobre a masculinidade. dentes de italianos e espanhóis (:52). inclusive. desse modo. É em confronto com esse campo. Busca. que se bora vá debater e trabalhar com vários constrói o “estilo crioulo”. tendida. como modernizador rica Latina. heroísmo e força.

Mas. por maiores que sejam as similari- dades. brasileiros. pelo mito das três raças. possivelmente. rua. te peculiar. sa hibridação também de modo bastan- xão. potencialidades e limites. supõem ser os atores híbridos. cepções sobre os nossos campos de pe- dos como “escolhas morais”. improvisação e tática. e. na dos no texto sobre as virtudes masculi. el pibe de oro (:182. põem a ambigüidade da atuação dos como nós. É dali que surge Marado- nas nacionais e a moralidade no fute. as porosidades e éguas crioulas. Mas São também muito similares as con- os dilemas masculinos ali. ex. A aná. por meio do futebol. são li- emoção e do desejo. tória contra a disciplina e o treinamen- ternidade” (:189)? to” (:187). o trabalho e a pa. dade na relação com as mulheres.178 RESENHAS É curioso que seja. onde se aprende e se exercita uma dem simbólica que os que são retoma. frimento. metaforicamente. na. criatividade específica. são da mesma or. evidenciando garanhões puro-sangue fizeram com as as diferenças internas. o predo. não é possível. como sombra das uma personagem arquetípica (:186) que femmes fatales e das milonguitas. elegância nos levar mais longe na compreensão e força. passim). na vida. como afirmei acima. No caso do futebol. No Brasil. dúvidas. Nesse caso. apenas a radigmáticas centram-se claramente comparação sistemática que Archetti nos desempenhos. cuja “criatividade é uma vi- lugar para a família. se constitua como par- 5). as narrativas pa. espaço terrenos da cognição mas também da onde os pibes. categorias livres” da vida social. mesmo en pas- sant. reforçando a necessidade de comparações sistemáti- cas. Mas deve-se também observar que. modelo do gaucho fecundado. sem mestre. “melhores do mundo” no futebol (:169). a tematização das perdas e do so. recuperamos nos- lise de narrativas sugeridas pela pai. pelas qualidades físico- aberturas do constructo do macho que morais dos imigrantes europeus de ori- se alimenta da figura do gaucho. dessas diversas formas de criatividade mínio do desejo da vitória ou da alegria cultural que se expressam nas “zonas de fazer e ver o jogo bonito. como os sentem mais claramente. expõem as “tensões. não se po. de deixar de registrar. apre. anali- bol (capítulo 6)? Essas narrativas não sado em um sensível capítulo 7 como estariam recuperando. que as distintas possibilidades de te do conjunto de transformações do construção da masculinidade se apre. os garotos pobres. presos nos lada e os potreros argentinos. gem latina. ausentes do modelo argentino – nossas sentados em sua força e em sua fragili. la nues- letras dos tangos analisadas (capítulo tra. após a decisiva demonstração de Archetti. atribuímos particu- paradoxos e ambigüidades” (:159) que larmente aos negros – simbolicamente cercam esses seres masculinos. como dizem. é tanto mais interessante porque eles. perspectiva. que estes são dilemas por demais conhecidos dos antropólogos que estu- dam o futebol brasileiro. ignorar que . nas esse “estilo crioulo” de futebol. por meio dos quais sugere ao final do livro será capaz de se debatem arte e disciplina. vres. um materializa de modo perfeito esse “esti- outro mundo e não este em que “não há lo crioulo”. Essa comparação em oposição que.

São Paulo: Annablume. Kuschnir. é necessário “estabelecer naquilo que é definido como ‘política’” a conexão. Schmitt. “A Campanha Eleitoral na TV em Eleições Locais: Es- tratégias e Resultados”. Cruz da Silva. Goldman Sua análise mostra as transformações e A. tigos. no processo de legitimação da repre- res sobre as campanhas eleitorais: “Di. os autores concluem que “os parti- novas teorias? – essa realidade. os partidos (e suas frações) adquiriram ções. tanto para rais no Brasil” (:76). Ao mesmo tempo. O segundo artigo. Candidatos e Candidatu. gias de campanha. entre as (:100. está centrado na análise candidatos. Mediação e Processo Elei- as divisões como marcas” e “Profissões. dos têm tido uma importância decisiva forço que se vê recompensado. no Rio de Janeiro. Brasil. relativos à ati- importância da “crença” daquele que vidade política: o trabalho de reconver- deve explicar uma derrota ou uma vitó. sendo que o cam em função de contextos sociais e próprio processo eleitoral pode ser visto culturais específicos e que. para com. a importância tanto do contato . ção entre reputação pessoal e partidá- diosos por novos modos de explicar – ria. através do vínculo que tivo explícito de mostrar a multiplicida. ilustra a importância que O livro está organizado em três se. gicas e campos sociais. ênfases minhas).). Examinando as diferentes estraté- são capazes de produzir sobre as cam. são. “Ori- “Valores sociais e atributos de gênero: gens Sociais. o uso de relações sociais e de tra- ria. sempre particular. 292 pp. aqui. mostra a e perguntas recorrentes. Ana Rosato L. Nos três artigos. re o contrário. “Por Que se Perde das “bases eleitorais” dos diferentes uma Eleição?”. como a sua interseção e reconversão preendê-las. chegando à conclusão de das eleições para vereador em um mu. se estabelece entre candidatos e parti- de de leituras que as ciências sociais dos. Irlys e PALMEIRA. A ênfase. Cada um sultados eleitorais. O classificação que as definem e circuns- trabalho procura demonstrar que as crevem remetem às mais diferentes ló- concepções sobre a política se modifi. Italiana”. e utilizando a distin- dos artigos expressa a busca dos estu. O artigo de O. A conclusão. Moacir ção dos resultados dos “trabalhos reali- (orgs. que. de K. trata Doutora em Antropologia. cal e nacional. 1998. “os princípios de nicípio do Estado do Rio de Janeiro. que o meio acadêmico. RESENHAS 179 BARREIRA. de M. toral em um Município de Imigração carreiras e vocações: operadores de en. “crença” que é analisada em fun. O primeiro deles. balho. é posta na articulação entre política lo- Candidatos e Candidaturas tem o obje. Luiz Coradini. zados” e das relações estabelecidas pe- ras: Enredos de Campanha Eleitoral no los atores. também das eleições para vereador em Universidade de Buenos Aires 1996. ferentes modos de fazer campanha”. em função dos re- panhas eleitorais no Brasil. na atualidade. várias dimensões que compõem ‘a po. encontramos temas lítica’” (:28). para a dinâmica dos resultados eleito- do interessante a sua leitura. examina as eleições para pre- trada na política”. Estado do Rio Grande do Sul. feito e vereador em um município do A seção inicial compreende três ar. Piquet Carneiro e R. Um es. tornan. sentação política. que consideram os diversos olha. em 1996. quanto para aqueles refuta a idéia generalizada de que ocor- preocupados com o tema da “política”.

nada mais do que cumprir o “enigma” titulado “Afinal. tal e Maceió. ção de um espaço de reconhecimento dente também nos outros dois artigos. da legitimação: o de “transformar inte- lheres na Política?”. mininas. panhas eleitorais de dois candidatos a pa nas estruturas partidárias. através do qual se perfilam estra- to mais por força das características da tégias de valorização que transformam luta política do que por um posiciona. a prefeito nas cidades de Fortaleza. “Lugar de Policial é . do no terceiro artigo dessa seção. plas geralmente justificadas a partir de te as eleições para vereador em 1996. por outro. Palmeira. pode condicionar a “constru- rem política? A resposta. “Entre Mulheres: Jogo de Identifica. Apelar ras de mulheres nas campanhas eleito. expressando-se em suas “interpelações A segunda seção está composta por discursivas” e em suas afirmações de três artigos que discutem as candidatu. dicional/moderno da atividade política. tas mulheres durante as campanhas. o que Querem as Mu. Observa que a condição tividade. demonstra. o “negativo” em “positivo” (por exem- mento dessas mulheres” (:129). por um lado. tros. que primeira seção: os partidos políticos e a como assegura Firmo Barreira não é representatividade. os partidos. O primeiro. A. que analisa a candidatura de “sindica- O trabalho de I. e que a diferença de gênero se co”. quanto de quem é o candidato e torais”. de C. Na- ticula essas questões é o da representa. de modo mais explícito. a essa condição. Por outro prefeito da cidade de Fortaleza que cen- lado. (:164). forma específica de as mulheres faze. prio. “A de política. Firmo Barreira. mem em questões de governo). na maioria das vezes. tanto da mulher quanto do ‘Modernidade’ como Emblema Políti- homem. mui. a falar e agir em nome de outrem. ao mesmo vos modos de fazer política. a autora reto. traram suas estratégias na oposição tra- ritariamente. in. A última parte do livro é onde se lher” tem uma forte presença na busca aborda. os no- por um espaço institucional. Lemenhe examina as cam- expressa na posição que cada um ocu. a relação de legitimação. enfim. é no seio do partido que são. O eixo que ar. Em relação aos par. dizem respeito exclusivamente a ela. Jardim Pinto. analisa as candidaturas entre candidato e eleitor. resses partidários em identificações am- balho realizado em Porto Alegre duran. valores que são colocados como repre- Formula a seguinte questão: existe uma sentativos de ‘interesses gerais’” (:133). O tema da representação oposição que subsume a condição de é tratado também em sua relação com gênero. que es. cabendo perguntar-se se basta de gênero aparece como um elemento ter sido o “mais votado” para ter direito destacado nas atividades das candida- a denominar-se representante de ou. a mulher é menos eficaz que o ho- dar conta dessa resposta. Está com- tempo que a inserção da mulher se le. em Pernambuco. apenas uma prática das candidatas fe- tidos.180 RESENHAS personalizado durante as campanhas ções e Diferenças em Campanhas Elei- locais. ma os pontos centrais levantados na Esse processo de “conversão”. baseia-se em tra. de M. é que demanda provas de competência” que “existe. posta por três artigos: “Os Sindicatos no gitima pelo fato de existirem temas que Poder. valores considerados femininos. está amplamente documenta- tes constituem a via de acesso à ativida. já que o “fato de ser mu. criadas as novas identida. Nele. listas” nas eleições municipais de 1996. não seria rais. des políticas. por um lado. que também aborda essa forma que partido representa. que se faz evi. Que Poder?”. Para plo.

dão conta da sobre candidatos “policiais” a prefeito importância dos diferentes tipos de ca- e vereador no Estado do Ceará. nos últimos modo “anterior” para um modo “novo” anos do século XX. em outros campos – a uma nova relação dianas que não faziam parte da ativida. 220 pp. a conclusão é ex. poli. a novas for- de político-eleitoral – sindicalistas. em que medida. Assim. Palmeira. Todos os tra- Afirmação e Negação”. portanto. de alguma forma. de C. balhos. quanto na relação bases políticas/sociais e das trajetórias entre essas esferas. Brasília/ uma “habilidade” e a um capital adqui. ao têm como ponto de partida as eleições mesmo tempo. estas – mudanças tanto nos contextos social. Assim. porque os novos candidatos recorrem a O Trabalho do Antropólogo. pelo próprio au- conversão de uma espécie de autorida. no seu encontro com a municipais de 1996 e analisam tanto o antropologia. Barreira. O estudo desses “no. O ofí- cio/profissão do político se faz possível CARDOSO DE OLIVEIRA. o exame do dos candidatos – estariam relacionadas trabalho de reconversão de um tipo de a mudanças estruturais. tor. mas de fazer política. RESENHAS 181 na Política? Estratégias Simbólicas de o da representatividade. das econômico e político. Miranda. buscar o “conhecimento processo eleitoral. A unidade deste livro pode ser encon- lisados “ajudam a pensar a questão da trada na explicitação.” (:214). o tema central do livro é do por uma epistemologia que se reali- . “O Jeito Cristão de Fazer Políti. parece ter se apagado. Roberto. os casos ana. pela disposição de buscar o conheci- Em síntese. a distância nas Candidaturas Pentecostais e Caris. que trata das limitadas. política. ciais. Regina M. no Brasil na esfera de fazer política. e. Pesquisadora do CNPq – Convênio Museu ta que. “capital não político” em outro “políti- Mediante a análise de campanhas co” e ao uso desse capital agora político de candidatos oriundos de esferas coti. de Carvalho Erthal pressa por M. Ainda na terceira parte do livro. os artigos aqui reunidos mento em seu sentido mais geral e. para além da intenção político. Unesp. Rituais e Discursos eleições municipais de 1996. quanto as candidatu. Da mesma forma. pital na configuração do que se enten- mente. exercício da antropologia é referencia- finitivamente. A leitura do livro contribui ainda pa- os três artigos mostram claramente a ra uma reflexão sobre as transforma- passagem ou a transformação de um ções que se produziram. de J. capital em outro. claramente de- máticas”. Nesse sentido. entre campos e. 1998. o tema da representatividade é retoma- do. quando susten. os partidos e as bases eleitorais. nas ca: Representações. De. aponta para formações e. O ras. permite per- vos” candidatos. entre esferas diferentes. de uma “história de vida” marcada de em outra. bem como de suas es. denota uma nova re- lação entre política e sociedade. Nacional – UFRJ/Museu Amazônico – UA sindical de definir as relações adequa- das entre os dois âmbitos. de por “capital político”. final. carismáticos ou pentecostalistas –. guntar-se sobre os motivos dessas trans- tratégias de campanha. produzido na prática profissional”. São Paulo: Paralelo Quinze/Editora da ridos em outro espaço. dando candidaturas de pessoas provenientes lugar – através da conversão de um das igrejas pentecostal e carismática. produzidas nos planos municipal.

que reúne caráter epistemológico e histórico. autores é discutir questões de moral e plicar e compreender) na construção do ética a partir do olhar antropológico. no países “periféricos” em relação aos cen- entanto. 7 e 9. Tomando esta obra como referência e Moralidade”. “Seminário”. Inglaterra e Estados Unidos).182 RESENHAS menta da sua prática. Canadá e Brasil. início de seu interesse pela constituição de significado especial para a temática da “singularidade” da antropologia na enfocada. constituição da antropologia em regiões Essa forma de organizar O Trabalho “periféricas”. 7 e 8. a referência é o livro En- “matriz disciplinar” – expressão cara ao saios Antropológicos sobre Moral e Éti- autor. Esse tema é. “Conferên. antropologia pôde se desenvolver e “flo- duzidos e apresentados. estabelecido pelo convívio interdiscipli- da pelos capítulos 6. na sua versão livro é uma compilação dos trabalhos original. para apresentações em “Aula apresentados no “Seminário sobre Esti- Inaugural”. o “prin- especialmente referida ao livro Sobre o cipal foco” de suas preocupações de Pensamento Antropológico. trata das nar com a filosofia. O propósito dos mento metódico e o não metódico (ex. tanto temática. que chamam de “consórcio cognitivo” A segunda parte do livro. mais uma vez peda- . Organizado em conjunto com ram escritos no período de 1992 a 1997. As revisões e/ou da em países como Índia. e que aponta para a articulação ca” (1996) publicado com Luiz Roberto “tensa” de um conjunto de paradigmas Cardoso de Oliveira. resultado das pesquisas propostas ao tituições de ensino e pesquisa ou ainda “Programa de Pesquisa sobre Estilos de em congressos promovidos no Brasil e Antropologia”. em diferentes ins. um países centrais onde se dá o seu desen. Venezuela. rescer com um estilo próprio”. Alguns trabalhos já haviam so de Oliveira. 5. o antropólogo Guillermo R. um tanto temporal. “Tradições Intelectuais”. que serve de referência para es- Os artigos que compõem o livro fo. (1995). constituí. promissos acadêmicos. caso dos como referência a antropologia realiza- capítulos 2. desenvolvida nos capí- para a discussão sobre a formação da tulos 9 e 10. cia”. nidos no livro Estilos de Antropologia ca. realizadas sob a condição de tros “fundadores” da disciplina (Fran- não descaracterizá-los em relação aos ça. Cardoso O livro divide-se em três partes que de Oliveira localiza na década de 70 o remetem a uma obra anterior do autor. e sua relação com a “uni- “O Conhecimento Antropológico”. los de Antropologia” (Unicamp. a história. Esses trabalhos tiveram sido publicados anteriormente. Ar- ampliações ocorridas em alguns ensaios gentina. coordenado por Cardo- no exterior. ainda hoje. onde a contextos originais em que foram pro. bém constituído por ensaios produzidos derna –. está plinar. Ruben. reu- tuindo a partir de uma relação dialógi. artigos produzidos durante a década de Na terceira parte. sobre “Eticidade 80. no encontro de culturas. A primeira parte. 1990). já está anunciada tratégia do autor. o direito. sob o título “periferia”. 3. para a presente publicação foram. Austrália. Cardoso de Oliveira sublinha a para o cumprimento de diferentes com- necessidade de compatibilizar o mo. que versalidade” expressa na matriz disci- abrange os cinco capítulos iniciais. A questão da a ciência política e a sociologia. este São textos produzidos. no conhecimento. Este livro é tam- constitutivos de uma antropologia mo. transplantada a partir dos do Antropólogo. sa seção. parece sugerir uma es- volvimento original. “Comunicação”. pelo autor em trabalhos anteriores. ambas se consti.

localizada como crise de perda controlar. lidade do meio ambiente e da saúde. 3. recusando. in. ciências da saúde. gias de cunho positivista. entre os diferentes junto a comunidades indígenas sobre paradigmas que a compõem e suas pos. mento do fenômeno observável. um posicionamento crítico desenvolvi- ções fundamentais. ção sujeito/objeto. indicando a constituição de um “estilo” Se as disciplinas e os seus paradig- próprio no fazer antropológico. por intermédio das escolas com as quais tura a matriz disciplinar. Nesse sentido. seu sentido político e ético. questionar a posição de poder que nes- to da posição de poder do investigador sa relação se estabelece –. taridade. radigma hermenêutico se fez tanto por trução do conhecimento unificada atra. têm procurado par- cionalista. na necessidade de se “perverso”. o autor chama menêutico. sentido” que escapa àquelas metodolo- se. que capta o “excedente de dalidade de conhecimento. se. estrutural-fun. a partir de O conhecimento antropológico tem uma profunda descontinuidade entre o se realizado historicamente através de “saber científico” e os “saberes locais”. desvin- jetividade. implementada pelo paradigma her- da própria antropologia enquanto ciên. em sua vez com mais freqüência. no que diz respeito tivos disciplinados “pela disciplina”. e terceiro. triz disciplinar com a introdução do pa- quanto sujeito político: primeiro. ao to para a qualidade do encontro inter- contrário. 1:22). A antropologia estaria. apontadas como do por uma “antropologia interpretati- questões seminais para a constituição va”. cerias com a antropologia exatamente com os quais Cardoso de Oliveira estru. em que a noção de . do indivíduo e da história. culando-o de suas condições de produ- puderam ser questionados a partir de ção e reprodução. sendo constantemente revi. RESENHAS 183 gógica. “paradigmas da ordem”. 4 e (cap. mediante o questionamen. problemas colocados pela perda de qua- sibilidades de articulação/complemen. tre os paradigmas que compõem a ma- des que estuda e sua constituição en. e o posicionamento do antropólogo A intensificação de uma tensão en- nos seus compromissos com as socieda. explicativas mento de “crise” da antropologia mo. a diagnosticar um mo. Os três primei. disciplinar que se tem realizado. cia. nos capítulos 1. então não somente há que 5. descrevendo o funciona- zam uma “exclusão metódica” da sub. cível na constituição do conhecimento. menêutico. contro – fato que se desdobra. a atenção para o lugar central da rela- vimento da antropologia nos países “pe. objetividade. ção sujeito cognoscente/objeto cognos- riféricos”. se identificam na busca primordial pela ros. que reali. diferentes “escolas” representantes dos As ciências naturais. gráfico”. há também que se estar aten- de objeto. científica. da realidade que se observa e se pode derna. a renúncia a um objetivismo qüentemente. nos estudos matriz disciplinar. a cons. culturalista e hermenêutico. conse- gundo. atos cogni. meio da atualização dos temas da rela- vés do olhar/ouvir/escrever. de apresentar suas preocupa. mas condicionam o nosso ouvir e olhar Desse modo. ainda o desenvol. ao condicionamento histórico desse en- vocando sua natureza epistêmica. como também e da historicização do “encontro etno. Cardoso de Oliveira retoma e amplia se discutir o “verdadeiro encontro etno- o tema da antropologia enquanto mo. por esta via. via de regra. em especial as paradigmas racionalista. estruturados. cada gorada pela tensão existente. pela discussão sobre os limites da razão gráfico” indicada pelo paradigma her.

que especifica a “empreendimentos cognitivos específi. acompanhando o “mo. eliminando ilusões objetivis. reconhecendo a divíduos inseridos em campos semânti- “explicação” (nomológica/busca da ob. nos com categorias universais de classifica. senso se dá como questão de direito. cussão sobre questões éticas. cos diversos. a partir de uma “abordagem ção. Cardoso de Oliveira estilística” que destaca as suas preten. impos. O “diálogo interétnico” jetividade) e a “compreensão” (herme. o autor nos sa postura. celência. Nos capítulos finais. que constrói seu objeto em um ce- tas. em especial. um “deslocamento crítico” em face das Vale destacar. a qual Cardoso de Oliveira conduz a fechar o circuito do aprendi- denomina “hermenêutica moderna. tões de poder envolvidas no encontro Nos capítulos 6. trabalha-se disciplina é localizada. a ser submetido a mecanismos de digmas da ordem” inscritos na matriz controle. 7 e 8. o que pode ser estatisti. tropologia enquanto disciplina por ex- minação de nenhum outro modo de in. e (2) propõem um desenvol- quecimento da questão esboçada aci. a impor- . propiciadora das “condições terpretação. reforçando a importância da an- dialética”. os conceitos de fricção interétni- vir” e entender os fenômenos expressos ca e etnodesenvolvimento (trabalhados a partir dos conhecimentos locais. preservando a integridade do disciplinar. necessidades da população alvo e que o autor indica a necessidade de uma por ela seja definido e controlado. não tendo por objetivo a eli. ceitos elaborados no interior dos “para- vio”. conflito/poder estabelecidas no contato Apontando caminhos para o enri. ou zado. não ocorrendo de ção de doença. o olhar antropológico sões à universalidade. Assim. nário de relações assimétricas entre po- tódica. solidárias a con. vimento “alternativo” que atenda às ma (parte das minhas preocupações). impres- preender”. finalmente. “revelando uma instância não-me. Cardoso de de etnias no qual. tina. estudos indígenas. vo moral” em que a negociação do con- cífica da disciplina na América Latina. têm por objeto a sociedade nacional. Nesse sentido. no sentido da construção de so no fazer científico. antropologia realizada na América La- cos” (:69). Nesse esquema. pulações indígenas e Estados nacionais. porém provedora de conheci. Cardoso de mocrático. mentos igualmente tangíveis” (:92). sibilitando então aos “cientistas” o “ou. Essa constituição crítica da sistema. forma tão evidente nas pesquisas que camente anotado e comparado. construída por um processo de- vimento dos conceitos”. propõe posturas. ou levam em consideração as relações de são simplesmente ignorados. deve instaurar-se tendo por base o re- nêutica/busca do sentido) como fases conhecimento e neutralização das ques- do processo de conhecimento.184 RESENHAS “doença” se coaduna com a de “des. que por Cardoso de Oliveira e Rodolfo Sta- são tratados como pertencentes ao pen. e o seu exercício informando a necessidade do estabele- em contextos socioculturais específicos. estrutura e suas normas de comunica- féricos”. te compromisso político e ético. É es- vinculação entre o “explicar” e o “com. interétnico. ancorado em um “imperati- Oliveira indica uma constituição espe. na dis- abordagens correntes. Es. o discur- Oliveira trata das formas singulares que so ocidental é hegemônico e impõe sua assume a antropologia nos países “peri. (:194). no entanto. venhagen) implicam propostas que: (1) samento “mágico” e/ou “irracional”. propõe-se a exercer uma de possibilidades de diálogo” entre in- “dupla interpretação”. cimento de uma “nova normatividade” Já no capítulo 2.

por sua vez. “biopoder”. temas que envolvem a “aceitação bliografia produzida simultânea ou pos- voluntária” e. cura: O Aparecimento do Manicômio por sinal. zootécnicos etc. Adriana R. longo do texto é evidentemente tributá- rio da discussão genealógica por ele es- tabelecida. médicos. originalmente uma suscitou. A influência de Foucault. enfrentadas lação às preocupações intelectuais e de forma magistral por Roberto Cardoso políticas da época em que foi produzi- de Oliveira. Rio mos conceituais. por um lado. dro de discussões fecundas sobre a de- pologia Social do Museu Nacional. telectual da década anterior. Sérgio. ressaltando o compromisso do au. mas também metodo- de Janeiro/São Paulo: EDUERJ/EDUSP. engenheiros sanitaristas e nha. Acrescido de um posfácio de 1997. Desse modo. já que o objeto construído ao 227 pp. com as formu- lações de Foucault sobre o universo do CARRARA. mas ganhou. Nessa li- enfermeiros. com as pro- ferentes esferas de atuação junto a po. com o tempo. o próprio autor chama mento indispensável tanto para aqueles a atenção. diálogo direto. sibilidade de ser contextualizado em re- Todas essas questões. Crime e Lou. e com outros profissionais da mesma . o pação da comunidade e controle social texto original praticamente não foi alte- das (nem sempre) novas propostas de rado. tema presente na produção in- interdisciplinar (antropólogos. ções sociais estabelecidas em “institui- ções totais” e. fazem do livro um instru. no posfácio em questão. ou em que o autor faz um balanço da bi- seja. Vianna Em termos políticos. por conseguinte. medicalização dos comportamentos des- volvidos em trabalhos com abrangência viantes. a conexão existente entre trabalhos co- cas. o que Crime e Loucura. é decisiva não apenas em ter- Judiciário na Passagem do Século. RESENHAS 185 tância e a atualidade de temas que en. e a preocupação com a para os que se vêem cada vez mais en. para que se iniciam nas lides antropológi. e mocratização das instituições em geral sua publicação integral não tornaram a e das psiquiátricas em particular. onde se desenrolou parte da pesqui- publicados desde então que se dedicam sa. posições de Goffman acerca das rela- pulações indígenas. partici. o trabalho de Carrara estabelece florestais. 1998.). como lembram o autor e tam- dissertação de mestrado defendida no bém seu orientador. produzidos na segunda meta- tor com o exercício da docência. PPGAS-MN-UFRJ trabalho foi beneficiado pelos contextos de abertura política e do primeiro go- Os dez anos que separam a escrita de verno Brizola no Rio de Janeiro. por outro. nas suas di. Peter Fry. a pos- ação junto a populações indígenas. A en- pesquisa de Carrara defasada ou obso. mo o seu. teriormente ao seu próprio trabalho. quanto de dos anos 80. B. lógicos. quanto pelas reflexões mais amplas lações ali estabelecidas com os internos que ela suscita. do. trada do pesquisador no universo do leta. sobre a viabilidade de mudança das re- de. deu-se em um contexto de debate a discutir a tensa (e às vezes tênue) interno entre terapeutas da instituição fronteira entre transgressão e insanida. o Doutoranda. um qua- Programa de Pós-Graduação em Antro. Sua atualidade pode ser atestada Manicômio Judiciário do Rio de Janei- tanto pelo pequeno número de títulos ro. volvem as práticas intervencionistas.

ao entre passado e presente. à genealogia da figura ção desempenhou papel decisivo. este último o dinâmico. necessitando para sua tes teóricos que têm lugar a partir da identificação e qualificação correta um metade do século XIX. “Loucos e Cri- instituição. demarcando como são hereditária. es- diálogo constante entre os textos cientí. cessos judiciais em que tais debates são Com a emergência da categoria dos materializados como projetos concretos “criminosos natos”. o autor procura rastrear os dente a ambigüidade que sempre per. a opção por análise histórica incômodos analíticos e uma vida desregrada podia inscrever- éticos fundamentais. crime e loucura. novamente fazendo jus à heran. gonismo entre guardas e terapeutas. Do os degenerados era bastante tênue. ins- nem sempre confortável do papel social pirados em Lombroso. a degeneração permitia o es- ano de criação do Manicômio. classificações locais. variações: a dos monomaníacos. Com que a “ciência” desempenha na regu- isso. são persegui. servação das contradições internas da No segundo capítulo. a dos cuperado ao longo do primeiro capítulo degenerados e a dos criminosos natos. malidade e. O seu tabelecimento de um variado quadro de surgimento e de seu objeto privilegia. taras. minosos como fruto de anomalias. universo diversificado de peritos. mas da doença e. entre dos pelo autor através tanto dos deba. Desse processo. se como uma patologia nos indivíduos Carrara focaliza os primeiros deba. de mecanismos de estigmatização. minosos”. a difícil localização como território não mais do livre-arbí- simbólica e institucional das “persona. Por outro lado. se universo de peritos se complexificou ficos e a dinâmica dos julgamentos e sua ainda mais. criou-se para Carrara uma situa. Desse modo. cada qual comportando subdivisões e Esse contexto de observações é re. tanto. Nessa trajetória. gradações entre normalidade e anor- do. tia um diálogo intenso e circular entre Carrara estabelece pontes importantes doença e transgressão. cendentes por intermédio da transmis- ter da instituição. para lidar com o universo da loucura e emergem três categorias privilegiadas. razão da criação vez que esta última categoria permi- do Manicômio Judiciário. cuja fronteira com de intervenção sobre o tecido social. sendo possível perceber ci- repercussão pública resta a sensação sões entre antropólogos criminais.186 RESENHAS instituição (guardas. uma do “louco criminoso”. do livro. e. o “louco criminoso”. enfim. psiquiatras de . tornando ainda mais evi. por- lidades psicopáticas” etc. restituindo à terminava a transgressão. sobretudo). conseqüentemente. ao supor que. pior ainda. perpetuar-se em seus des- tes em torno da necessidade e do cará.). debates científicos que permitem a “pa- meou um local criado ao mesmo tempo tologização do crime”. da medicina. trio individual. que migração de princípios presentes na no- o leva. a cia sua arqueologia da instituição. “O Objeto da Investigação e Através da complementaridade e do sua Construção”. Partindo do universo confronto entre elas tornou-se possível palpável do Manicômio Judiciário e de estabelecer a compreensão dos atos cri- seus dilemas contemporâneos (o anta. quanto de pro. Carrara ini. ao cons- período privilegiado para sua pesquisa tituir-se como conceito extremamente os anos entre 1890 e 1920. as heranças genéticas malignas. lação de comportamentos e na criação ção especialmente favorável para a ob. o da criminalidade. bem como mesmo tempo que a hereditariedade de- entre etnografia e história. ção de monomania para a de degenera- ça foucaultiana.

eviden- tanto mais se enredava Custódio Serrão ciando que o conflito de posições podia em diagnósticos que patologizavam seus ser tão intenso no âmbito das discussões atos. ra utiliza de forma menos intensa outros gamento propriamente dito e os recursos processos que reforçam. na virada do apresentados após o julgamento trans. em verdade. Brandão como Nina Rodrigues identifi- mendador de interná-lo. rebelião ocorrida em 1920 na Seção nas” (:168). uma vez larmino Brasilense. a partir do qual se defini. era o psi- Preso por matar o comendador Be. este último por se encontrar in. clusões absolutamente opostas sobre o var que cometera o ato lucidamente. por sua vez. Em uma trama kafkia. penal reconhecida. quiatra Teixeira Brandão que. porém. Em jo. de Clarice Índio do Brasil. eviden- dos a diagnosticar o caso de Serrão e. é o fato de que. partilhando diagnósti- só havia sido cometido como uma for. RESENHAS 187 diferentes orientações e juristas. vendo sua posição derrotada em julga- do pai e tutor legal de sua irmã e de seu mento. partidários da tese sua constituição. Nesse processo. diciais. opunha. e a em um “julgamento de atos e de doutri. os debatedores chegam a con- na. con. o jul. sa opção institucional vai ganhando ricos explorados no capítulo anterior. Erguido a partir do im- . materialidade através dos embates ju- O seu julgamento. psiquiátricas e antropológicas quanto var-se sadio. amigo de seu faleci. O principal expoen- no terceiro e último capítulo do livro. ram papel decisivo. partidários da tese de que Custódio mo um todo. Não escapa ao au- ram mais clareza e visibilidade proje. tal como fizera cam em Custódio os sinais da degene- com seu irmão. culdade de Medicina do Rio de Janeiro. estava não apenas a construção de lidade do acusado. cos ligados à Assistência Médico-Legal vas dos indivíduos. e. que vem à tona com e que deveria ter sua responsabilidade a análise do caso de Custódio Serrão. batalha doutrinal com Nina Rodrigues. século e nas duas primeiras décadas do formam o drama de Custódio Serrão em século XX. mas sobretudo a a Alienados do Distrito Federal e à Fa- autoridade de intervir sobre eles. de um lado. ditar as diretrizes de sua sen. Correção da rua Frei Caneca. o assassinato transformou-se. A linha do construído nos fundos da Casa de mestra que dividia os médicos chama. também a ambigüidade que é a base de legistas da polícia. quanto mais procurava pro. em 1919. É esse embate. Lombroso do Hospício Nacional tive- ram ou realinharam posições e ganha. mas tença. ternado no Hospício Nacional. de outro. ciando seu compromisso com o comple- com isso. e. ção pericial do acusado. ração –. Todo o processo de avalia. xo penitenciário como um todo. em especial. cos bastante próximos – tanto Teixeira ma de defesa diante da intenção do co. te desse grupo. os médicos. nos dizeres de Carrara. além do caso Serrão. a produção de Por fim. destino a ser dado ao criminoso. seqüentemente. Serrão Dessa nova fase da trajetória do ca- busca desesperadamente provar que so Serrão o que mais chama a atenção não é louco e que o crime. cômio criminal. em algumas Serrão era em verdade um degenerado de suas variações. evidenciando como es- ção e desdobramento dos arranjos teó. entre estas e a produção jurídica. os médi- categorias identificadoras e normati. tor também a importância de este ter si- tos específicos de intervenção. sobre o tecido social co. da loucura e conseqüente irresponsabi- go. recorre da sentença e trava uma irmão. Carra- notícias jornalísticas sobre o fato. sobretudo sua obsessão em pro. a necessidade de um mani- uma situação privilegiada para observa.

5). satisfazia as interpretações patologi- zantes e biodeterministas do indivíduo. autor na Introdução. Dumará/Núcleo de Antropologia da responsável por seus atos. Na realidade. car-se com os hospitais e asilos. Longe de prender-se às explicações mo facetas singulares de um mesmo es. As cobranças que podem ser feitas ao texto de Crime e Loucura dizem me. ao identifi. trabalhadores rurais. 1999. Assim. do modo como feito por social de comunidades camponesas. Política (Coleção Antropologia da Po- gar pelos crimes cometidos. Falas e Ri- va uma espécie de “solução de compro. uma compreensão . UFRRJ cura. podem ser compreendidos co. Camponesas.188 RESENHAS passe entre concepções antagônicas de COMERFORD. especialmente aqueles cen- que ele levanta em relação aos proces. tados para a análise do meio agrário nas ao trabalho e mais às possibilidades brasileiro. o Manicômio Judiciário busca. zendo a Luta: Sociabilidade. “banais” ou “caricatos” que ções e processos analisados em sua es. Professor do Curso de Pós-Graduação cífico para o encontro entre crime e lou. for. certamente no- marginalização social. Quinto número da possibilidades de perguntar que outras série Coleção Antropologia da Política. Carrara. porém. em primeiro plano. organização. ri- rocráticas e científicas de invenção de tuais. buscando em situações aparente- mente sem importância. em Desenvolvimento. tuais na Construção de Organizações misso”: ao apresentar-se como prisão. cabe tores familiares. quer na condição mulações foucaultianas tão presentes de assentados ou de pequenos agricul- na construção do objeto do livro. trados na organização social e política sos de normatização. o autor envereda por um caminho dife- rente. lítica. deveria pa. neste estudo são de forma que se torne possível estabe. processos sociais. por exemplo. Recuperando. Fa- pessoa. portanto. e sem negligenciar a importância de estudos dessa natureza. situa. como indica o que o “biopoder” alcança e constitui. Investindo em tará a originalidade e o esforço bem-su- dissecar o processo social de construção cedido da iniciativa de John Comerford dos loucos criminosos. Carrara abre-nos neste seu novo livro. tutelarização e dos trabalhadores rurais. lutas políticas “outros” nas sociedades contemporâ. 154 pp. aspec- lecer a relação entre dispositivos sociais tos geralmente percebidos como “irre- aparentemente dispersos. comuns a um determinado conjunto de neas. O leitor acostumado aos trabalhos vol- nos respeito a lacunas ou falhas inter. versando sobre diferentes questões re- so pode fornecer acerca de práticas bu. a obra constitui-se de cinco capítulos bem como que indicações esse proces. resgatados. como a brinca- deira. Sérgio Pereira Leite Criava. ambiente rural. “figuras” poderiam fazer par com eles. Agricultura e Sociedade. John Cunha. centradas nos esquemas formais sobre forço social de criação e controle de as regras do jogo político e social no “bárbaros internos”. levantes”. em distintas regiões perguntar quais as fronteiras sociais do país. Rio de Janeiro: Relume respeitava a noção do indivíduo que. lativas a sociabilidade. conformam o processo de organização pecificidade. um lugar social espe. desse modo.

para retornarmos a olha a partir de determinada perspecti. e lutando apesar da tos sociais e organizações políticas no impossibilidade de ‘vencer’ (‘lutando quadro nacional recente. dão sentido à ferentes processos sociais. questões relativas à participação políti- . breza à definição de categorias atuan- rúndios da questão agrária: fazendo a tes no universo rural (assalariados. a própria Associa- (e. Na rea. reuniões no contexto da associação de va-se coerência entre as diferentes par. damentalmente pequenos agricultores também. volta-se para as foco e tornando a ver o conjunto. ciência” das instituições ou ao compor. dagem fina e perspicaz. como coloca Moa. lho é composto por cinco capítulos autô. da moral à religião. organizações sociais. que. uma forma de negar do de retirar o “sério” do “lúdico” e o que nessa situação haja motivo de ver- “lúdico” do “sério”. também refletirá um projeto político. suficien. mudando o tado do Rio de Janeiro. rem à luta. um testemunho do mente desafiadora e complexa. da situação de po- lidade. Igualmente. Thompson. emergem representações e titulam o livro e os respectivos capítulos oposições em que nem sempre é preci- e que permitem ao leitor vislumbrar o so existir o conflito efetivo para se estar texto como um caleidoscópio: quando se “lutando”. que trata dos dita desses sujeitos tratados no livro. se a dissertação do autor sobre um as- temente abstratos com relação ao mate. luta e fica tu- que. Vale destacar até morrer’. existência de uma comunidade. brincando. Em tes do livro. Nesse mentos políticos e definição de identi. em certas passagens. momento privilegiado para tratar de ladoras da sociabilidade camponesa. gonha” (:29). pequenos produtores. ou ainda. garimpo no campo simbólico. lutando. lheres. cotidiano dos trabalhadores rurais. seu sofrimento. rios etc. Assim. em certos casos. os informantes destacam o Dessa forma Fazendo a Luta embu. palavras que in. é sempre uma afir- perspectiva de abordagem. A seção seguinte. fun- tantes dessa observação contribuam. reunindo. ‘a gente luta. configuram situações de classe. posiciona. que tem como ba- nomos (e. respeitabilidade. RESENHAS 189 das formas de “sociação” propriamente No primeiro capítulo. mas bastante reve. a obra desfia uma série de ge.). ao se referi- cir Palmeira na apresentação do livro. a tarefa da mação de seu valor. o autor busca nas reuniões um não convencionais. ou seja. mesmo quando uma estratégia de atuação que extrapo- os objetivos do autor não incluíam ne. la o conflito localizado ou o sofrimento cessariamente uma visão voltada à “efi. costuradas pela preocupa. múltiplos significados do termo luta no permitindo que as considerações resul. “falar que se está (ou possibilidades de atuação de movimen. de sua dignidade e qual se incumbe Comerford é extrema. a luta dades. vez de tratar da forma da organização ção do autor em tratar em profundidade social em si. para a reflexão em torno das do oeste baiano. sentamento rural na região norte do Es- rial etnográfico pesquisado). da população pobre do campo. dis. recolhidos a partir de uma abor. no zações e/ou situações sociais. latifundiá- cursando e ocupando. se esteve) lutando. da comunidade às tamento dos “atores políticos”. apesar de tratar do lúdico como do do mesmo jeito’). produtores residentes nesse projeto. é justamente na luta que se va tem-se a impressão de que o traba. co- sentido de refletir a “construção” de di. de maneira bastante ção (ou o Sindicato em outras circuns- detalhista e elucidativa) essas situações tâncias). mo coloca Comerford. pertencimento a determinadas organi- te uma amálgama thompsoniana. tratan. mu- luta. obser.

Es- tos promovidos durante a realização se movimento. to- que o que aparece como dificuldade de dos se respeitam e respeitam o conjun- participação pode ser encarado. Nesses ca- autoridade. da na. emergem das reuniões (a “equipe de Os dois últimos capítulos do livro. aos rituais praticados e even. mencionado. tro ponto de vista.] tre situações de trabalho e entreteni- podem acabar assumindo. de ou. análogo à mesma capaci- um problema. mesmo quando o as- ta de consciência. pantes e a preservação de seus respecti- da de ‘participar’ desses eventos. da abertura ao encer. mantida a distância entre os partici- de eventos coletivos. são vistas recorrentemente como dissociável. frente”. o “decálogo” de uma reunião (em suas O terceiro capítulo trata da constru- diferentes etapas. pelo autor das falas e intervenções rea- Comerford descreve competentemente lizadas dentro e fora das reuniões. ção social da amizade por meio das ramento). no último capítulo). Tratando dos diferentes ti- da” promovida pelo autor pode ser en. que reporta ao ções através das quais os participantes “uso” da brincadeira em situações com percebem as reuniões: concepções de maior grau de formalização. ou. sensos que preservem o grau de unida- sembléias. e congruen. Mas o que procuro mostrar aqui é ção: ali todos são amigos e. econômico. encena- ou à falta de técnicas ou métodos ade. mento.. ressaltado pelo autor. amizade e a constituição de um todo in- plo. Como atento observador. é extraído das reuniões. à sociabilidade entre as famílias e Goffman. polí- É justamente essa capacidade de tico. portantes (do ponto de vista social. vocações que não redundam em ofen- ção”.190 RESENHAS ca. pos de brincadeiras – na realidade pro- contrado na sua “crônica de uma ocupa. trata necessariamente de uma relação ma espécie de ‘carência’ do público que diádica. falta de informações) sunto é sério: “A brincadeira. por isso mesmo todos brincam” (:87). nada linear. a brincadeira torna-se um tureza do grupo que é celebrado e do ca. sume seu lugar no discurso da Associa- sões. como algo congruen. em boa parte observa- em si. Destacaríamos sas dada a cumplicidade dos partici- aqui uma passagem que nos pareceu pantes desse “jogo” –. veículo para o controle de situações im- ráter da união que é simbolizada” (:72). É relativamente comum dade demonstrada pela magia. à discussão lhadores rurais. as- pantes menos acostumados com discus. brincadeiras estabelecidas entre traba- tes à pauta. te também com uma série de concep. aos limites como a busca e a necessidade de con- e alcance das resoluções obtidas em as. respeito real entre os que brincam. ção da falta de respeito que simboliza o quados para encorajar a fala dos partici. portanto. analisando situações referen. o que inclui uma certa dissimulação en- te com a dinâmica que as reuniões [. cunhada pelo autor a partir de com fôlego um pouco mais curto do que .. do caráter sos. ao público participante (aliás. à coordenação. de ordem pública. de e representação da organização. das a partir do assentamento acima tro bom momento dessa “análise ilustra. bem moradores da comunidade. fal.) e seu domí- subverter o viés da análise que permite nio constitui-se em um trunfo para a ca- a Comerford sistematizar oposições que nalização e a geração de energia social. to. e o público assistente). tuação prazerosa. o autor traduz central: “as dificuldades para promover sua capacidade de fortalecer laços de a participação nas discussões. vos espaços. Não se ver essas dificuldades atribuídas a algu. moral etc. por exem. da forma adequa. mas do estabelecimento de si- comparece a esses eventos (apatia. Há aqui um sentido adicional.

Les no. Bastide (fonte de seus principais dos mediadores e para a interlocução marcos e instrumentais analíticos). depurando-a e complementando-a. con. para a problematização do papel e R. mos da chamada “modernização agrí- tulo. marias. na análise das intervenções reali. econômico e de parentesco. para apurar o entendi- dos discursos proferidos em clima de mento dessa realidade complexa e “tei- eleições sindicais (local/nacional). per- ser feita coletivamente da mesma. No tocan. estão voltados à análise literatura antropológica (especialmente do discurso e ao processo de ocupações da antropologia política) com a expe- (no caso. O livro de Anne-Marie Losonczy anali- des rurais privadas ou públicas que não sa as relações interétnicas de negros e cumprem com sua função social. “pelegos” etc. Finalmen. tado de estudos desenvolvidos entre ções. tos nos quais questões como a dicoto- mia nós (trabalhadores. um prédio público em um mu. (fonte de uma perspectiva mais geral) dos. interpretações oportunas sobre deter- te à retórica e à capacidade de moldar a minados processos sociais. 1975 e 1988. acam. cola brasileira”. sindicalistas comprometidos etc. RESENHAS 191 os anteriores. define a região do Chocó colombiano que mescla competência no manejo da como “negro-colombiana” e assume . Paris: L’Harmattan. passando por ro. José Maurício Andion Arruti te.). que. Co. no entendimento das ocupações si. anulando o binômio eu/ vocês através da construção sublimada de um nós homogeneizador. Por outro lado. que contra- fala e a própria interpretação que deve postas à literatura “convencional”. LOSONCZY. último entre três tipos de “civilização” Em um rápido balanço da obra em formadas pelos descendentes de escra- tela é possível admitir a importância da vos africanos na América. riência com pesquisas no ambiente agrá- nicípio próximo ao assentamento referi. agrega zadas na ocupação em pauta. justamente por caminhos me- livro o autor dedica-se à interpretação nos percorridos. até índios. É a direta com outros segmentos (Estado. que abrange desde a entrada em proprieda. Na raiz desse processo va parcela de um mesmo universo ri- está a capacidade de visibilidade e o tual. PPGAS-MN-UFRJ tua um leque de possibilidades. Saints et la Forêt: Rituel. que somam 24 meses de tribuem para a construção de uma de. rio e suas especificidades. onde partilham o território e significati- pamentos etc. Anne-Marie. 419 de unir-se ao público ao qual se dirige pp. trabalho de campo.) versus eles (gover. Société et cem freqüentemente. 1997. proprietários. bem-sucedidas ou não. que a autora leitura do trabalho de John Comerford. caminhadas. Na quarta parte do contribui. partir da distinção estabelecida por este proprietário de terras etc. Doutorando. Certamente do anteriormente). mas mosa” quando se trata de pensar os ru- o tema volta a aparecer no quinto capí. ma. o texto tem por refe- terminada noção de pertencimento e renciais teóricos principais Lévi-Strauss identidade dos personagens envolvi. Resul- grau de centralidade dessas manifesta. mitem uma problematização desta últi- merford oferece quatro felizes momen. dos na região colombiana do Chocó.) apare. transfiguradas Figures de l’Échange entre Noirs et In- ainda na intenção do portador da fala diens Emberá. localiza- festas comemorativas. passeatas. diretamente. em especial os Emberá.

segundo. atual- das suas diversas fontes culturais. que são explicações externas à ló. Primei. a biana. no entanto. con. Nesse caso. Como o so o argumento enfrentasse diretamen. porque a organização social negro. a recupera e am. gestão de Luc de Heusch. para quem o de está no seu emprego da noção de sistema ritual banto participaria do sincretismo. to da herança africana e a construção timidade que. lombiano não possui um referente mito- gros – mas que se justifica em termos de lógico rico. pelo contrário. engendrada em situações de genas – como um novo e promissor contato e conflito potencial. mente. capaz de campo de investimentos. mas do xamanismo indígena. primeiro. sistema de representações negro-co- te a dualidade substantiva índios/ne. revelar virtualidades latentes à lógica Losonczy parte da crítica às aborda. Situa o sincretismo gro-americanas” que ou pretendem re. o “outro”. objetos dignos da etnologia estrutura. sua interpretação da realidade cul- das “terras baixas”. que e econômicas. aponta pa- da estrutura de seus cultos. gético acima do comum – de que Lo- americana se aproximaria substantiva. a maior influência não foi do ca- análise da herança das etnias africanas tolicismo. cultural e lingüística. catolicismo. possuidores de um conhecimento exe- ro. como conjunto social e étnico dotado de Se faz guerra simbólica. segundo. sa cultura negra demonstrou no contato fica. dos sistemas de representações impli- gens correntes sobre as sociedades “ne. nem oficiantes religiosos área cultural e estrutura social. região do Chocó. o gica daquela cultura. comunidades afro-americanas. a autora se pro. Uma questão central à investigação lista. mas sobretudo aos conflitos ginal dessas populações. A autora segue a su- ma originalmente desenhado por Basti. cuja desequilíbrio imposto entre eles pelo explicação passa pela análise genética sistema colonial escravista e. ças do catolicismo popular europeu. porque. sonczy. re- . como “americanista”. sente fal- mente da organização social ameríndia ta –. Em lugar des. que ambos conside- “culturas negro-americanas” enquanto ram seu. terceiro. Tra. ca. sincretismo serve como uma solução põe a abordar os “negro-colombianos” cultural para o conflito social iminente. ças negras e indígenas. em termos de dominação e violência. cadas no contato. Suas um campo de trocas lingüísticas. mas à análise com o xamanismo indígena. pertoriar traços culturais africanos ou relativas não apenas à dominância do insistem no lugar socioeconômico mar. decorrente do uma organização social própria. ao concebê-la como uma modali- oferecido à etnologia americanista já dade de relacionamento simbólico com estabelecida – restrita aos grupos indí. vinculada a problemas teóricos é como compreender o desaparecimen- próprios das “terras baixas”. ra a origem étnica banto dos negros da A única crítica da autora ao progra. Losonczy não descarta a mesmo “fundo xamânico” que as cren- noção. pelo tenso partilhamento de um ta-se de estabelecer a legitimidade das território comum. não é incon. a sensibilidade que es- descrição da sua distribuição demográ. porque tural busca restituir a ordem de inteligi- entre ambas as sociedades existe todo bilidade subjacente às práticas. Uma legi. na América não deveria prender-se à e que. na formação da cultura negro-colom- forme o próprio programa de Bastide.192 RESENHAS um programa de investigações que é plia. rituais principais hipóteses são. que marcam o encontro entre as heran- tas. da nova identidade que caracteriza as dicional – como se poderia esperar.

a histórica do seu “povoa. Residiria . de um lado. nentes e suas unidades locais estão su- mento biétnico” e das formas de resis. que. tro. surgiram os primeiros do. apesar de escravista. já absenteísmo dos proprietários. se pensarem co- “morenos” que migraram para a perife. do lado indíge- negros originários da região. de ou- pelos diferentes afluentes do rio Capá. lias se originam. que manti. a nominação de um nização das comunidades negro-colom. posição das relações com o Estado. estabelecida pelo guerras de Independência. Para o indígena. formando reproduzem. onde os bairros riam emprestando aos negros. por outro la- cia da catequese. o que faz dela ainda hoje. um terri. dado o em termos espirituais. permite aos Emberá. “sombra” (alma que todo ser adquire res multicentrados. Descreve as transformações trazidas demarcada pela consangüinidade ou com o fim do período colonial e com as pela afiliação ritual. mo donos naturais da terra. opõe o espaço civilizado dos san- local usa o termo “chocoense” para uma tos católicos ao espaço selvagem dos adscrição étnica que abarca todos os espíritos xamânicos e. preservando-o alterar o lugar central ocupado pelos dos ataques de espíritos maléficos. indivíduo é a materialização de sua bianas se dá em agrupamentos familia. chocoano. quanto civis. tanto autônoma. mas o inverso nunca autoridades com relação a essas popu. do lado na sua organização social. bordinadas a “chefes” apenas por im- tência que foram impostas à sua coloni. gros do Chocó. em miniatura. no ima. em geral contrastan. assim como dos seus mecanismos trias dessas trocas sociais. mas incluindo aqueles “mestres da floresta”. por influên. rios e seus afluentes (diz-se que se “per. e também a de adaptação às mudanças de contexto. ginário nacional colombiano. pos locais e ao conjunto multicomunal pleta. compadrio. acontece. A população negro. seu apadrinhamento ção aurífera dispersa e relativamente completaria a pessoa indígena. que dá coerência aos gru- veram a colonização da região incom. drinhar seus filhos. É também por meio dos “ritos de tório selvagem e misterioso. a autora procura fornecer um qua. In- zação pela rebeldia escrava e indígena. diferença de significado que tal ritual Partindo da forma de colonização da assume para cada grupo. A organização social Para isso. tender tais alianças por sobre as fron- tes. o nome cristão é uma espécie de agrupamentos residenciais em torno “nome-tampão”. Essa relação se traduz ainda em tence” a uma “comunidade” de um rio) uma topografia simbólica que. que caracterizaram o tratamento das teiras étnicas. que esta- ria da capital Quibdó. Para os ne- região. a organiza- com ele um campo de transformações ção espacial dos rios de onde as famí- estruturais. como forma de es- dro dos paralelos. eles se assumem como intermediá- Esse traço básico só seria atenuado nos rios entre os selvagens e as instituições últimos trinta anos quando. sua não conta com grupos formais perma- demografia. tegra-as uma vasta rede de parentesco. a orga. fluidos e dispersos no momento do nascimento) e. RESENHAS 193 lativas ao pacto com o diabo. reconhecidos índios e brancos. que esconde o verda- das capelas e escolas. a autora apresenta-nos a das “comunidades” negras do Chocó região do Chocó e seus habitantes. caracterizada por uma explora. nacionais. sem no entanto deiro nome indígena. Isso revela uma das assime- lações. Ainda que compadrio” que uma família Emberá baseada em um esboço histórico muito pode escolher um casal negro para apa- geral. excluindo na.

por meio do seu xamanismo. com o xamanismo indígena de um lado lestam os negros. enfatizado pelo flexíveis. trabalha com a noção de campo como mal-entendidos das trocas lin. cebem em suas casas as famílias indí. Isso pode ser per- utilizarem apenas o gerúndio. Emberá. te terapêutico. eles recusam tais casamen. dando as representações acerca das tro- nificaria perder sua força vital. barrada por esses diversos mecanismos O espaço de troca estabelecido em sociológicos e lingüísticos. abor- bas as partes. que o impedem de contami- contraste entre o alegre falatório dos nar as outras dimensões do cotidiano negros e o silêncio impenetrável dos daquelas populações. cujo arranjo simula época das festas. sintética do campo interétnico. o sistema terapêutico. o campo in- duzido ao essencial. as trocas apenas em um espaço funcio- xicais. Mesmo na ria pelos capítulos. mas dos seres da floresta. função de neutralizar as ameaças. integrados pelo sincretismo estritamen- genas com as quais têm laços de com. Para os Emberá.194 RESENHAS aí o núcleo do que a autora interpreta ma. a presença do outro teria a tual dos negros. interétnico. sociedades. ainda que sua integração seja tos pelo mesmo motivo. nal de mediação cultural. autodenomina. le. cultural de uma sociedade no coração dos livres. blemática dos limites dos grupos sociais Neste último caso. com o catolicismo rural eu- . enquanto tes imateriais constituintes da pessoa. cujos laços de parentesco de uma estratégia histórica: os escravos ritual e de troca simbólicas se tornam casavam com índios para livrarem seus interdependentes. da outra. internas – quando a imagem ou no- brancos. Losonczy descreve uma forma instrumental. se Assim. localizando a lógica filhos da servidão. mas de um modo que o güísticas interétnicas. dessa for. Em ambas as sucessivamente o campo religioso e ri. quando os negros re. que en. a autora destaca a questão pro- bra” e tornaria selvagens seus sonhos. como resultado da mescla de fazem responsáveis por restabelecer o uma plasticidade banto não com outras equilíbrio entre o mundo dos homens e tradições de possessão africanas. A autora. 6 e 7. cuidadosamente conti- padrio. de outro. Tal sistema meio a essa descontinuidade é aberto de trocas restritas traz o outro para o in- pelo exercício ritual. e gramaticais. para os cas realizadas entre negros e índios. trata-se da inversão chocoenses. as trocas matrimoniais aquele que tenta dar uma visão geral e são veementemente recusadas por am. O último capítulo é justamente Além disso. e. cebido na própria distribuição da maté- fatiza seu aspecto impessoal. que ocupam um aproxima do modelo malinowskiano da lugar de destaque em sua análise. me serve para mascarar os componen- ças infecciosas dos Emberá. pria periferia social – e. negros. estes. Nele. os negros podem curar as doen. que também mo. a imagem de dois conjuntos estanques. do qual tratam os terior do seu próprio campo social de capítulos 5. Tais terceira cultura: dois conjuntos culturais trocas estão submetidas a uma série de autônomos e em grande medida encer- restrições: sociais. os grupos convivem sem rom. exter- relativamente partilhado por ambos os nas. hoje. por serem possíveis rados em si mesmos que se abrem para apenas em situações bem definidas. no caso negro – ao situá-lo na pró- grupos. no caso indíge- Instrumentalizados pelos recursos dos na. por utilizarem um espanhol re. por terseção (:395-396). do por regras impressionantemente in- per esse claro limite. e o sistema xamânico emberá. isso contaminaria sua “som. isso sig.

bre a disciplina acadêmica que mais rais e políticos da Argentina. que estaria a ori. esperava que essa curso simétrico. tino. recaindo so- crítico aos mundos institucionais. O título. universal: a antropologia. também um desafio ao dogmatismo teó- co e Formosa (Argentina). épica de combate à certeza. Maturação da Dúvi- compõe elementos de heranças cultu. expressa como uma nário menonita e etnólogo junto ao po. O primeiro ato. cuja humanização das divinda. “Primeira Expe- mente nessa solução sincrética. que riência de Campo. Se duvidar era anátema para os me- verture apresenta cinco episódios que nonitas. um processo que abarca toda a Pretendo examinar o alcance da reflexi. Sementes de Dúvida”. No epílogo. o autor apresenta um per- póloga argentina. dá conta de sua presença e de suas rais distintas. para a qual duvidar é grafia de um antropólogo norte-ameri. mas uma di- de Desarrollo Económico y Social (IDES) mensão crucial do estar-no-mundo de Miller. realizou entanto. o autor reconstitui o seu trabalho antropológico de campo e as etapas de sua teorização do mundo MILLER. No ter- ginalidade e a própria condição de se fa. Como antro. 225 pp. a dúvida não é apenas teológi- seus trabalhos de campo como missio. em que a dúvida origi- história fosse uma via de conhecimento nal se sistematiza e recria. da”. ca. analisando a autobio. Processo da Dúvida”. cultu. Nutrir Pesquisadora do Consejo Nacional a Dúvida. “Discursos Profissionais e o lar em uma “cultura negro-colombiana”. até o seu treinamen- atenuado”. Chaco e profundamente interrogou a verdade EUA. seria justa. rico. o segundo sentido. de relacionamento com o sobrenatural. ceiro ato. Para Losonczy. divididos em cenas e um epílogo. O eixo do livro é a certeza da qual os povos necessitam para viver. uma razão de vi- vidade na construção da pessoa do in. intitulado Denoue- Doubt: From Mennonite Missionary ment. questionar a verdade de Deus (:viii). Elmer S. Chicago: University of Illinois nos três segmentos de sua trajetória. Miller compara os alcances e li- to Anthropologist in the Argentine mitações da comunicação intercultural Chaco. Nessa trajetória. de onde se exclui o transe to para ser missionário no Chaco argen- possessório. três atos teológicos de juventude (:197-ss). quanto missionário menonita. en- funcional e conflituosa. A ou. sua trajetória pessoal. Press. dade de origem. Nurturing toba. 1995. nas províncias de Cha. entre 1959 e 1988. Por isso. “Discurso Étnico. termina em uma solidão similar à expe- Nurturing Doubt segue a ordem rimentada nos seus questionamentos dramática de uma ouverture. de forma ao mesmo tempo reflexões na Argentina chaquenha. RESENHAS 195 ropeu. assinala não apenas um as- de Investigaciones (Conicet) e do Instituto pecto da tarefa acadêmica. O etnógrafo trei no livro. da desde que abandonou sua comuni- vestigador-autor. os nativos e o autor-missionário-investi- des está ligada a um modelo contratual gador. que estru- ilustram a recíproca perplexidade entre tura a autobiografia para Miller. duvidar é vo Toba (Qom). está . apresenta a vida a cultura negro-colombiana do Chocó de Miller desde a sua infância. os mis- sionários para evangelizar e os antropó- Rosana Guber logos para desconstruir. no Esta- teria dado origem a um “xamanismo do da Pensilvânia. Esta resenha trata do que encon. O segundo ato. No cano que.

da obstinação etnorreligiosa logos com quem conversou – etnólogos toba. nar por povos e teorias. não men- conclui que a dúvida obriga a peregri. Miller Compelido a duvidar e peregrinar. a anulação da quem não duvida em seu peregrinar – dúvida teórica foi parte da dramática propriedade do sujeito dogmático-reli. antropólogos. an- nonitas têm sua própria racionalidade tropólogos sociais reunidos no Claso etc. na Filadélfia. e as teorias ope- duplo pertencimento. go yankee”. telectual. – mas não os incorpora como interlocu- ções. suas universidades. e suas por extensos períodos de tempo” (:196). ciona o fato. única fonte de explicação do cultural. da Universidade de Buenos Aires. No e. a adesão a um determinado discurso dade de Temple. e explica o que que na academia argentina de então “a significou para este ex-missionário me. Isto fica evidente em relação à aca- missionário. ções de produção masculina de seu tra- tencial reside em permitir questionar a balho. intrusão da política nacional no meio gioso. povoados por Toba. pre individual e defensiva. no entanto. Entre a Universi. Como outras coletividades. ravam menos como instrumentos de co- não discute explicitamente a relação nhecimento e mais como profissão de fé conflituosa entre quem duvida sempre política. a postura adotada pelo autor ção por ter sido tachado de “antropólo- para analisar essa relação não é subme. Miller cita os nomes daqueles antropó- neste caso. não chega a mostrar diu sua peregrinação. expressa na quase reversi. Da mesma forma. mas não se converte em perdendo a oportunidade de usar sua nenhum deles. Quanto de missio. A única ocasião possível se vê nário tem um antropólogo. Seu po. de pesquisa a camarilhas que margina- mas não abandona completamente seu lizavam os dissidentes. demia antropológica argentina. tores e inspiradores de seu percurso in- periências de campo. científica. no início dos anos 70. prolongadas estadias no Chaco. – propriedade do sujeito racional – e Concomitantemente. texto político que a permeou e às condi- madilha de Nurturing Doubt. os me. É difícil aceitar seu silêncio . e que essa pere- sa: “ser peregrino”. ao con- bilidade dos três atos. estar de passagem para valida todo pertencimento: “Ao revisar um mundo verdadeiro e transcendente. mantém a tensão e acadêmico. e quanto de frustrada sob a acusação de mau uso antropólogo tem um missionário. assim como os antropólo. dúvida” equivalia à traição. na sua decep- entanto. é o acerto e a ar.196 RESENHAS mais próximo à sua origem etnorreligio. despolitizada e masculina. racionalidade científica ocidental como Do contexto acadêmico argentino. A réplica de Miller é sem- tida à crítica reflexiva. a atenção como talvez mais significati- gos. Em vez disso. é a (plágio?) de sua tese de doutoramento grande questão dessa autobiografia. reflexividade para examinar suas certe- A simetria entre o antropólogo e o zas. publica. os processos de desenvolvimento impli- Segregação e transitoriedade definem cados nesses escritos. duo-investigador. transita por mundos familiares e exóti. menonitas e individual. o que me chama os menonitas. os grupos nonita “converter-se à antropologia”. professores. que não costumam pertencer aos vo foi meu esforço consistente em evitar mundos que estudam. não pertencer ao grinação consolida a dúvida porque in- aqui-e-agora. Miller. Miller produz-se enquanto uma pessoa cos. corpos teóricos e ex. Diante da Miller provê o contexto menonita no necessidade de se afirmar como indiví- qual floresceu sua dúvida e se expan.

forma pela qual os Toba expressaram a O peregrino menonita dos EUA e opressão militar dos anos 70. à dedicação e franque- dade entre o peregrinar toba e o do Mil. essa caracterização reforça já estava na prédica menonita. É certo que a vo na imagem especular do autor. ainda duzir sua experiência de pertencimento que com seus “indivíduos” xamãs. ou talvez. já existente divisão sexual do trabalho (de que o autor se encontrava na Argentina campo) entre ele (por exemplo. com que o peregrino. em 1983. deixou de via. isso se do livro com a crescente presença do deva ao fato de esta autobiografia inte- estado provincial na vida nativa). faz tem sido a imagem de um si mesmo es. o menonita e o et- treitamente identificado com as expe. curando. . o nativo é o Outro constitu. Mas. dual de Miller. em do Estado e à política. constante através dos meus anos de ainda que não por isso desinteressado adulto como missionário e antropólogo das necessidades deste mundo. suas extensas seções ilustradas uma peça aberta a outras interpreta- com notas de campo confirmam a afini. Nem a pa- sentido despolitizado de uma realidade ternidade de Miller. acompanhando). conversando com mu- sidade. O que é passí. para ques etc. de ter recebido seu próprio nome toba gas Agrárias. nem teórico. dar sentido à sua experiência de ser an- ocidental (imagem matizada até o fim tropólogo na Argentina. aventura intelectual do marido. quando a “Revolução Argen. permanece obscura. Mais ainda. e quan- a identificação do autor com um Outro to o próprio Miller retomou disto para alheio aos avatares do mundo terrenal. em 1975-1976. esta não jar a este país quando. Talvez. Mas Nurturing se tratando dos Toba. RESENHAS 197 sobre os estragos da violência política Esse individualismo se ratifica em no âmbito universitário. a reelaboração a respeito. za com que Miller resenhou sua apai- ler-missionário e antropólogo. apresentados por Doubt oferece material para reexami- ele como os que mais reagiram à intru. nem étnico. cando. a experiência de pertencer a uma mi- traste e confirmação da pessoa indivi. a uma minoria religiosa no Norte. de uma mesma postura: o individualis- Para Miller. caçando) e sua esposa tina” interveio militarmente na Univer. se nesta do Chaco renasce no peregrino-antro- ou noutra chave. assim co. noria étnica no Sul. Lois é um pano de fundo que pre- a democracia. caci. “A ficção do pensador como ave solitária. nógrafo apareçam como três condições riências de campo entre os Toba” (:199). alcança o status de interlocutora na se intensificava a repressão aos simpa. Lois (cozinhando. que tem duas filhas que a maioria dos argentinos lia a partir mulheres. Este silêncio revela o lugar do nati. ainda. As. são o principal termo de con. retornando somente com (:61). xonante passagem por este mundo. Sem superar a ainda bre a politização das ciências sociais. “Os Toba”. ções. nar o quanto dessa lógica individualista são branca. parece demandar-lhe uma de uma chave política. mas o meio a Tobas e chaquenhos.. serva em silêncio o mundo familiar pri- vel de objeção aqui não é seu registro vado menonita e norte-americano em incompleto dos fatos do passado. Da mesma forma. mo masculino sem sujeição ao império tivo da pessoa do antropólogo. predi- em 1966. pólogo que viaja sem pertencimento. e mo a oposição entre o indivíduo Miller talvez.. um outro aspecto. assim como so. lectual e de campo de nova geração ser sim.. ao fato de ter tentado tra- e o coletivo indígena. Apesar tizantes e ativistas chaquenhos das Li. lheres toba.