INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

Pesquisa Teórica
em Psicologia
Aspectos Filosóficos e Metodológicos

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

Organizadores
Caro Lina Laurenti
Psicóloga, doutora em Fiiosofia peLa Universidade Federai de São Carios e professora do Departa­
mento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá.
laurenticarol@gmaÍ!.conn

Carlos Eduardo Lopes
Psicólogo, doutor em Filosofia pela Universidade Federa! de São Carlos e professor do Departamento
de Psicologia da Univers:dade Estadual de Maringá,
caed Lopes@gm a iLcom

Saulo de Freitas Araújo
Psicólogo, doutor em. Filosofia pela Universidade de Campinas/Umversitàt Leipzig e professor do De­
partamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora.
saulo.araujo@ufjf.edu.br

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

) Pesquisa Teórica em Psicologia Aspectos Filosóficos e Metodológicos N UHFIP hogrefe INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Carolina Laurenti Carlos Eduardo Lopes Saulo de Freitas Araujo (Orgs.

Todos os diretos desta edição reservados à Editora Hogrefe CETEPP R. Bibliografia.: +55 11 5543-4592 www. 2016. Psicologia . Psicologia : Aspectos filosóficos e metodológicos 150. métodos etc. Brasil) índices para catálogo sistemático: 1. Laurenti. Araujo.1 Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Lingua Portuguesa. Brasil CEP: 04602-020 Tel. 30 Brooklin. Saulo de Freitas Araújo. São Paulo . Lopes. II.). Comendador Norberto Jorge. Saulo de Freitas. SP. (orgs. 16-03198 CDD-150. ISBN 978-85-85439-25-5 1. Carlos Eduardo. com. Psicologia . Psicologia . Carlos Eduardo Lopes. Vários autores.1 (Câmara Brasileira do Livro.Teoria.SP. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Copyright © 2016 Hogrefe CETEPP Editora: Cristiana Negrão Capa: Oscar Vila Diagramação: Claudio Braghini Junior Preparação: Patricia Almeida Revisão: Leticia Teóíilo Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Pesquisa teórica em psicologia: aspectos filosóficos e metodológicos / Carolina Laurenti.História 3. Carolina. ISBN: 978-85-85439-25-5 INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . I. incluindo fotocó­ pias e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita.h ogrefe.Filosofia 2. —São Paulo: Hogrefe CETEPP.br Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qual­ quer forma ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico. III.

...125 Biografia científica e pesquisa teórica da historiografia da psicologia..............................15 Metodologia da pesquisa conceituai em psicologia............................. 71 A integração entre a história da psicologia e a filosofia da psicologia como programa de pesquisa teórica.............................................95 A investigação histórica de teorias e conceitos psicológicos: breves considerações metodológicas......................................................................................167 INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! ..147 Sobre os autores.......41 Fontes de confusão conceituai na psicologia............................................................... INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Sumário Introdução.................................... 7 Relações entre pesquisa teórica e pesquisa empírica em psicologia..............................................................................

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .

Por quê? A pergunta não deixa de ser intrigante. Afinal. o argumento de que os problemas da psicologia de­ correm do fato de ela ainda ser uma ciência jovem parece cada vez menos adequado . No entanto. o que parece ter mudado de lá para cá foi tanto a proliferação de estratégias ou procedimentos metodo­ lógicos quanto o agravamento. meno­ res seriam seus problemas. No caso da psicologia. da confusão conceituai. e ainda muita confusão conceituai. o “diagnóstico” de Wittgenstein pode ser atualizado: na psicologia há métodos experimentais e não experimentais. Em outras palavras. ao invés de resolver os problemas da psicologia. De acordo com essa perspectiva. é inegável que nas últimas dé­ cadas houve uma ampliação das formas de produção de conhecimento no campo da pesquisa empírica. uma concepção progressista de história cria a expectativa de que quanto mais uma ciência avança. como o fortalecimento da dicotomia entre pesquisas qualitativas e quantitativas. e ainda é.pelo menos quando se entende que a maturidade de uma ciência é aferida pelo grau de aprimoramento de procedimentos metodológicos em pesquisas empíricas. o que fazer? A resposta parece simples: INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Introdução » A necessidade da pesquisa teórica em psicologia O campo psicológico foi. segundo a qual na psico­ logia existem métodos experimentais e confusão conceituai. Passado mais de meio século. Mas se avanços metodológicos em pesquisas empíricas não garantem a solução de problem as conceituais. como o desenvolvimento de sofisticadas fer­ ramentas estatísticas e o aperfeiçoamento das chamadas metodologias qua­ litativas. inclusive os de natureza conceituai. esse desenvolvimento metodológico criou novas confusões conceituais. Uma delas foi resumida na famosa constatação de Wittgenstein. ou pelo menos a manutenção. alvo de inúmeras críticas.

Desta forma. essas formas de pesquisa teórica não são sequer reconhecidas como pesquisas legítimas e independentes. que descrevem resultados de pesquisas pontuais. o caráter “artesanai” da pesquisa teórica entra em descompasso com o ritmo acelerado da pro­ dução acadêmica exigida atualmente pelas agências de fomento à pesquisa. eles mobilizam pouco interesse das agências de fomento que. então. que valoriza acima de tudo a dimensão técnica e as aplicações “práticas”. o quadro atual sugere uma atitude inversa. em alguns casos. o exame diligente de seus compromissos filosóficos e a análise de seu contexto histórico. A publicação dos resultados de pesquisas teóricas tam bém tem encontrado obstáculos na política editorial de alguns periódicos nacionais e internacio­ nais de psicologia. A análise conceituai e a investigação histórico-filo­ sófica de teorias psicológicas são geralmente preteridas em favor de outros aspectos no ensino de pesquisa em psicologia (como observação. entendida aqui como a investigação de teorias e conceitos psicológicos. a própria confusão conceituai em objeto de estudo. experimen­ tação e matematização). Além disso. não raro. como os resultados de pesquisas teóricas não se traduzem facilmente em in­ crementos técnicos. sendo muitas vezes consideradas atividades inúteis e. Mais do que isso. a psicologia seria um terreno propício para o desenvolvimento de pesquisas teóricas. Os pré-requisitos para a formação do pesquisador teórico caminham na contramão do modelo dominante de formação em psicologia. o que nos leva a um tipo específico de pesquisa. que. Há alguns motivos para essa indisposição. se compa­ rada a outras modalidades de investigação. portan­ to. como se pode observar em cursos de graduação e pós-graduação no país. Ademais. Consequentemente. privilegiam as pesquisas com viés tecnológico. a pesquisa teórica não tem um forte apelo acadêmico. O que parece estar sendo privilegiado são textos mais curtos e superficiais. parece não haver espaço para o estudo da gramática dos conceitos de uma teoria. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! é preciso transform ar. a pes­ quisa teórica. cujo incentivo poderia constituir um caminho para a compreensão e o enfrentam ento das fontes de confu­ são conceituai. Na verdade. Todavia. a saber. o que vai de encontro à INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . muitas vezes. restringem a modalidade “artigos teó­ ricos” a trabalhos de revisão de literatura. dispensáveis para a psicologia como um todo.

alinhavando noções. a investigação teórica. A defe­ sa cega e obstinada de uma dada teoria como verdade incontestável (dogmatis­ mo) parece ser uma das maneiras de o neófito em psicologia imprimir algum sentido à colcha de retalhos teórica característica do campo psicológico. o ecletismo. Mesmo que isso provoque algum desconforto. a pesquisa teórica contribui para o desenvolvimento das teorias psicológicas. uma investigação de teorias e conceitos geralmente põe em evidência ambiguidades. Nesse processo de doutrinação. No primeiro caso. algo fundamental ao avanço de qualquer área de conhecimento. contrassensos dos projetos de psicologia. aprimoramento e avanço das teorias investigadas. Em suma. há uma proliferação de equívocos conceituais e de interpretações apressadas das teorias. lacunas. esses resultados podem descortinar possi­ bilidades até então não vislumbradas de correção. excessos. esse dogmatismo é insuflado pelos próprios professores. rebaixam as demais como desvios da “verdadeira psicologia”. Outra consequência da explicitação e do esclarecimento de problemas teórico- conceituais é a sua contribuição para uma conduta menos dogmática. Na contramão do dogmatismo. ao in­ vés de pesquisadores e profissionais. Evidentemente. todas essas dificuldades conduzem à se­ guinte questão: vale a pena? Afinal. e os atributos positivos. Mui­ tas vezes. contradições. além de evi­ tar a reprodução de erros. as falhas são pintadas com cores mais fortes. por que os psicólogos deveriam se preo­ cupar com pesquisas teóricas? Em primeiro lugar. buscam formar discípulos: por um lado. oferece material para apreciação crítica das teorias e conceitos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! natureza e ao tempo requerido para o desenvolvimento de uma pesquisa teórica de qualidade. as virtudes são acentuadas e as lacunas eclipsadas. A pesquisa teórica tam bém desafia outra atitude comum em psicologia. no segundo. o cenário atual não é favorável para aqueles que se dedicam à pesquisa teórica. daquelas que são alvo de crí­ tica. apagados. imprecisões. mais ainda. que. forjando uma caricatura da teoria defendida e. Tentar suprir as deficiências ou lacunas de uma teoria com os pontos fortes de outra. princípios e conceitos que INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . exaltam a teoria de interesse. insuficiências. Nesse ponto. falácias. a despeito da persistência de problemas teórico-conceituais em psicologia. por outro.

aprim orando o corpus teórico-científico da própria teoria. pois contribui para afastá-la de um empirismo ingênuo. estabelecer pontos de contato entre teorias psicológicas distintas. porque pode orientar e justificar a escolha das abordagens e das técnicas de intervenção. dando maior sentido e coerência aos resultados obtidos. portanto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . ao mesmo tempo em que esconde ou minimiza as diferenças significativas. o ecletismo tam bém é responsável pela propagação de confusões conceituais na psico­ logia. pois. um a vez que este tipo de investigação ajuda o psicólogo acadêmico a despertar de seu “sono dogmáti­ co”: (ii) na pesquisa empírica. caracterizado pela mera descrição de dados empíricos com pou­ ca ou nenhuma reflexão teórica. Ao contribuir para uma formação menos dogmática e eclética.sem subscrever o dogmatismo o que também é obtido com a análise filosófica e histórica de teorias e conceitos. (iü) na prática profissional. obstrui o desenvol­ vimento de uma dada área de conhecimento. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! retiram seus significados de matrizes filosóficas distintas e até mesmo in­ compatíveis (ecletismo). O desafio ao psicólogo já formado ou em formação é. algo que é elaborado com a elucidação dos pressupostos filosóficos subjacentes às diferentes perspectivas teóricas em psicologia. Do mesmo modo. Nesse sentido. Tal como o dogmatismo. a investigação teórica poderia ajudar a interrom per a oscilação entre dogmatismo e ecletismo tão presente na formação em psicologia. Pontos de contato entre teorias distintas também podem ser evidenciados por meio de relações de influência. Essas intersecções podem advir do estabelecimento de relações de afinidade entre teorias psicológicas. algo que é alcançado pela análise histórica de teorias e conceitos psicológicos. ao invés de encorajar o preenchimento de lacunas e a dissolução de ambiguidades. a pesquisa teórica também ressoa: (i) na atuação acadêmica. Em última instância. o ecletismo contribui para a circulação de visões equivocadas das teorias psicológicas. busca solucionar esses proble­ mas recorrendo a conceitos de outras perspectivas psicológicas. deixando a teoria de interesse inalterada. Outro desafio consiste em indicar distanciamentos entre as diferentes propostas . passando ao largo do ecletismo. na medida em que forja semelhanças teórico-conceituais inexistentes. consiste em outro esforço de conferir alguma coe­ rência ao caos teórico-conceitual da psicologia.

promovendo a curiosidade e a criativi­ dade. Por mais que seja um trabalho “lento”. entendida aqui como a investigação de teorias e conceitos psicológicos. A despeito da importância dos resultados da pesquisa teórica para a formação e atuação do psicólogo. Lidar com essa pluralidade por meio do esclarecimento conceituai.e não mais pelas vias do dogmatismo e do ecletismo . Por mais que seja uma atividade relativamente solitária. arrogância e ressentimentos entre os pares. Por mais que destrua a ilusão da Verdade Absoluta. Partindo dessa constatação. é capaz de inspirar conversas consistentes com aqueles que exibem diferentes perspectivas teóricas. sendo difícil encon­ trar interlocutores interessados e disponíveis. na medida em que o torna mais cauteloso para tecer relações e proferir interpretações. reúne seis capí­ tulos que compilam reflexões e experiências dos autores na execução e orien­ tação de trabalhos de natureza teórica. o desgaste físico e cog­ nitivo envolvido pode representar algo novo. Com isso. Por mais que seja um a tarefa que re­ quer esforço e. poderia fomentar mais debates. ela pode contri­ buir para uma atitude de maior modéstia do psicólogo. humildade e respeito. ela pode inaugurar outras possibilidades investigativas. propicia também a experiência gratificante de participar da integralidade do processo produtivo. a área ainda carece de publicações que discutam a au­ tonomia epistêmica desse tipo de pesquisa. o objetivo deste livro é discutir filosófica e metodologicamente a pesquisa teórica em psicologia. criativo e não apenas tedioso. Para tanto. pontos de contato. portanto. intitulado Relações entre pesquisa INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . preconceito. em nível tanto de graduação quanto de pós-graduação. especialmente no que diz respeito ao Brasil. expressa tanto na diversidade de perspec­ tivas teóricas quanto em suas múltiplas áreas de atuação. a pesquisa teórica pode também ajudar a dar um mínimo de coe­ rência à pluralidade da psicologia. filosófico e histórico das teorias psicológicas . Por fim. No primeiro capítulo. algum grau de desconforto. sem apelar ao ecletismo e ao dogmatismo. ela demanda do pesquisador a delimitação e explicitação de critérios para avaliação e cor­ reção dos resultados de suas próprias investigações.poderia gerar menos exclusão. Por mais que seus requisitos possam despertar a ideia de que seja algo pedante ou presunçoso. por mais que a pesquisa teórica traga o sabor amargo provoca­ do pela explicitação da fragilidade de teorias e conceitos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Desse modo.

o que acabou por distanciar cada vez mais o “teórico” do “empírico”. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! teórica e pesquisa empírica em psicologia. de autoria de Carolina Laurentí e Carlos Eduardo Lopes. José Antônio Damásio Abib discute minuciosamente quatro fontes comuns de confusão conceituai na psicologia. de autoria de Saulo de Freitas Araújo. em­ bora tal contribuição não pareça sustentar a proposta de um projeto unitário de psicologia científica. ilustram como a investigação histórica pode enriquecer a pesquisa teórica em psico­ logia. No terceiro capítulo. Os capítulos quatro e cinco. Além de discutir o objetivo. o escopo e os pressupostos filosóficos da pesquisa conceituai. intitulado Fontes de confusão conceituai na psicologia. Na sequência. o capítulo mos­ tra as contribuições da análise conceituai para corrigir esses equívocos. são apresentadas algumas diretrizes metodo­ lógicas para a elaboração e realização de projetos voltados à investigação INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . discutindo seus impactos sobre a pesquisa histórica em psicologia. Carlos Eduardo Lopes indica algu­ mas raízes históricas da “divisão de trabalho” entre pesquisadores interessa­ dos em questões teóricas e aqueles interessados em investigações empíricas. Como essas confusões conceituais têm ampla repercussão no campo do conhecimento psicológico. com destaque para o Procedimento de interpreta­ ção Conceituai de Texto (PICT). O capítulo A integração entre a história da psicologia e a filosofia da psi­ cologia como programa de pesquisa teórica defende uma perspectiva promis­ sora para o futuro da pesquisa histórica em psicologia. De modo pouco convencional. Trata-se de um a pesquisa que parte do esclarecimento da estrutura conceituai de tex­ tos para construir interpretações de teorias psicológicas. intitulado A investigação histórica de teorias e conceitos psicológicos: breves considerações metodológicas. o objeto. discute um tipo específico de pesquisa teórica em psicologia: a pesquisa conceituai. os níveis de análise. o capítulo Metodologia da pesquisa conceituai em psicologia. o capítulo apresenta uma proposta de método para esse tipo de investigação. a proposta de uma história filosófica da psicologia. No capítulo cinco. o capítulo mostra que uma relação conflituosa entre pesquisas teóricas e empíricas parece ser uma alternativa promissora para se enfrentar os problemas oriundos dessa cisão. Essa defesa pauta-se na apreciação das dificuldades de integração entre história e filosofia da ciência. a saber.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! histórica de teorias e conceitos psicológicos. Carolina Laurenti Carlos Eduardo Lopes Saulo de Freitas Araujo (Orgs. seu caráter de incompletude. O autor argumenta que a incorporação da bio­ grafia ao campo historiográfico da psicologia pode auxiliar no esclarecimen­ to de teorias e conceitos psicológicos. discutindo suas repercussões na historiografia da história e da história da ciência. destacando suas potencialidades e especi­ ficidades metodológicas. Robson Nascimento da Cruz delineia um panorama das principais questões que perpassam a história do gênero biográfico. o livro não pretende exaurir as possibilidades de investigação teórica em psicologia. com destaque para a historiografia da psicologia. fornecer material para o ensino de habilidades de pesquisa em psicologia. Por meio de um exemplo concreto. porém. e auxiliar no reconhecimento da pesquisa teórica como forma legítima de produção de conhecimento psicológico. Em Biografia científica e a pesquisa teórica da historiografia da psicologia. Em que pese.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Certamente. o capítulo oferece exemplos de como o pesquisador pode se orientar metodologicamente ao planejar uma investigação histórica em psicologia. Pelo contrário. em nível tanto de graduação quanto de pós-gradua­ ção. ele mostra como a compreensão do desenvolvimento teórico e metodológico dos primórdios de um dado sistema explicativo psicológico é ampliada com o recurso a fontes biográficas e autobiográficas. esperamos que este livro pos­ sa trazer pelo menos três contribuições para a psicologia no país: dar maior visibilidade às pesquisas teóricas. com suas respectivas metodologias. Além disso. as discussões apresentadas aqui po­ dem e devem ser complementadas com trabalhos futuros que contemplem outras formas de pesquisa teórica.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

Relações entre pesquisa
teórica e pesquisa empírica em
psicologia

Carlos Eduardo Lopes

The reciprocal relationship of epistemology and science is of
noteworthy kind. They are dependent upon each other. Episte­
mology without contact with science becomes an empty sche­
me. Science without epistemology is - insofar as it is thinkable
at all - primitive and muddled. (Einstein, 1970, pp. 683-684)

Atualmente, as diferenças entre pesquisa empírica e pesquisa teórica são
evidentes. Pesquisas empíricas lidam com dados obtidos a partir de investi­
gações do mundo (físico ou social) mediadas por um background teórico, do
qual participam compromissos filosóficos mais ou menos explícitos e regras
mantidas por uma comunidade científica. Pesquisas teóricas investigam esse
background teórico que orienta as pesquisas empíricas1, que vai desde a rela­
ção entre conceitos até sua dimensão histórica. Nesse sentido, parece haver,
em princípio, uma estreita relação entre investigações empíricas e teóricas:
sem teoria não há fatos, ou ainda, diferentes teorias fornecem diferentes
fatos e, portanto, o esclarecimento promovido por pesquisas teóricas parece
ser conditio sine qua non para as pesquisas empíricas. De outro lado, os
próprios dados obtidos por pesquisas empíricas, sobretudo quando parecem
não se ajustar ao que é teoricam ente previsto, lançam desafios à pesquisa
teórica. A presentada dessa forma, a relação entre pesquisa empírica e

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

pesquisa teórica parece harmoniosa e completamente compatível, mas será
que isso é necessariamente assim?

Este capítulo tem o objetivo de discutir as relações entre pesquisa teórica e
empírica na psicologia contemporânea. Para tanto, essa questão será con-
textualizada na relação entre filosofia e ciência, estabelecida desde a mo­
dernidade. Desse modo, descrevemos, ainda que brevemente, o processo
de separação entre filosofia e ciência na modernidade, destacando que uma
relação harmoniosa entre as atividades teórica e empírica foi preservada
nas propostas iniciais da ciência moderna. Prosseguiremos mostrando que,
graças a algumas mudanças ocorridas na ciência e na filosofia no século XX,
essas duas atividades distanciaram-se, dando origem a duas formas de pes­
quisa diferentes e relativamente autônomas. Isso criou condições para que a
relação entre pesquisas empíricas e teóricas deixasse de ser necessariamente
harmoniosa. Argumentaremos que um dos reflexos desse processo na psico­
logia contemporânea foi a fragmentação do campo psicológico, que passou a
se polarizar entre os extremos científico-objetivo versus filosófico-subjetivo.
Essa pluralidade da psicologia conduz, por sua vez, a diferentes relações
entre psicologia, ciência e filosofia, e, consequentemente, a modos distintos
de considerar as relações entre pesquisas empíricas e teóricas. Partindo des­
sas combinações, discutiremos quando as relações entre esses dois tipos de
pesquisa são harmoniosas e quando são conflituosas.

Por fim, mostraremos que, de forma quase paradoxal, as pesquisas teóricas
contribuem de modo mais efetivo com pesquisas empíricas quando a relação
entre essas duas formas de produzir conhecimento é conflituosa. Com isso,
defenderemos a necessidade de manter um diálogo conflituoso entre pesqui­
sas empíricas e teóricas.

1. Filosofia e ciência no início da
modernidade

A relação entre pesquisas teóricas e empíricas pode ser compreendida, de
modo mais amplo, a partir da relação entre filosofia e ciência. Essa temáti­
ca ganhou destaque com a denominada revolução científica m oderna, que

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

teria instituído a ciência como um campo de conhecimento distinto da filo­
sofia. No entanto, um vislumbre na história da ciência mostra que a relação
entre filosofia e ciência, durante a modernidade, está longe de ser simples,
e que a conclusão de que a ciência moderna é completamente independente
da filosofia é, no mínimo, questionável (Burtt, 1925; Koyré, 1957/1979;
Paty, 1993).

Em primeiro lugar, muitos protagonistas da ciência moderna não defende­
ram uma cisão radical entre ciência e filosofia. Isso porque no contexto ins­
titucional em que a ciência moderna se desenvolveu, na Europa entre os sé­
culos XVII e XVIII, simplesmente não existia um campo científico separado
da filosofia (Janiak, 2008). O que hoje se entende por física, por exemplo,
estava, nessa época, imiscuído em questões metafísicas, epistemológicas
e teológicas na disciplina denominada filosofia natural2. Mesmo a obra
de Newton, que muitas vezes é invocada como o marco de consolidação da
ciência moderna e, consequentemente, de sua cisão com a filosofia, estava
inserida nesse contexto. De acordo com Janiak (2008), embora Newton te­
nha criado condições favoráveis para a ruptura entre física e filosofia, sobre­
tudo com o emprego do tratam ento matemático da força e do movimento,
sua obra é um todo que envolve questões consideradas atualmente metafísi­
cas e até mesmo teológicas, tais como a relação de Deus com o mundo físico,
a noção de substância e uma ontologia do espaço e do tempo. A diferença
é que, contrariando seus predecessores, Newton não formulou um sistema
metafísico de modo explícito e claro (Janiak, 2008). Nesse sentido, Burtt
(1925) argumenta que a tentativa newtoniana de evitar a formalização de
uma metafísica pode ser a raiz da ideia moderna de que é possível fazer
ciência sem qualquer metafísica, ou mesmo sem qualquer filosofia:

[Newton] dava ou presumia respostas definidas a questões fundamen­
tais, como a natureza do espaço, do tempo e da matéria; as relações
do homem com os objetos de seu conhecimento; e são justamente
essas respostas que constituem a metafísica. . . [Tal fato] pode ter
contribuído significativamente para insinuar um conjunto de ideias

2 A obra de Descartes é emblemática para percebermos essa mistura. Para esse autor, as discus­
sões metafísicas, que incluem, por exemplo, as provas de existência de Deus no enfrentamento do
ceticismo, são condição de possibilidade para a própria ciência (cf. Descartes, 1641/1973).

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

ela será passada adiante a outros bem mais prontamente do que outras noções. a ciência moderna só pode ser compreendida a partir de uma nova filosofia. além disso. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Um testemunho extremamente interessan­ te da penetrante influência da filosofia primeira newtoniana. mas como a vitória de uma nova metafísica sobre a metafísica medieval3. é a incapacidade de um estudante sério de Newton em ver que seu mestre possuía uma metafísica das mais importantes. Diferente disso. Além disso. seria incorreto pensar que a m odernidade criou uma ciência sem filosofia (ou mesmo sem metafísica). ela emerge como inquestionável. haveria uma relação direta entre a recusa em discutir essa nova metafísica e sua força: justamente porque a metafísica que embasa a ciência moderna não é explicitamente assumida como tal. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! aceitas acriticamente a respeito do mundo no background intelectual comum do homem moderno. No entanto. Burtt (1925) conclui que a ciência m oderna não deveria ser compreendida como a vitória da ciência sobre a metafísica. 225-226) Nesse sentido. que nesse caso sua metafísica será mantida acriticamente porque é inconsciente. como algo que não poderia ser de outra maneira: Por essa razão. que tipo de meta­ física você provavelmente cultiva quando acredita fortemente estar livre dessa abominação? É claro. (pp. a ausência de uma separação institucional entre filosofia e ciência na Europa dos séculos XVII e XVIII permitia uma formação mais 3 Burtt (1925) assinala que as principais características da metafísica da ciência moderna seriam: 1) uma concepção de realidade como partículas atômicas (e eventualmente subatômicas) movendo-se de acordo com leis gerais passíveis de serem descritas matematicamente. como às vezes alguns cientistas sugerem. 1925. Em segundo lugar. 20*21) Desse modo. esse autor admite que as mudanças na física e na biologia contemporâneas estariam mudando essa metafísica. há um perigo extremamente sutil e insidioso no po­ sitivismo. 3) uma concepção sobre a mente humana assentada no dualismo. uma vez que será propagada por insinuação ao invés de argumento direto. não é necessário dizer. ao longo do curso do pensamento moderno. pp. Se você não pode evitar a metafísica. como um fato. (Burtt. na doutrina da distinção entre qualidades primárias e secundárias e no reconhecimento do papel do cérebro. 2) uma concepção de explica­ ção em termos de elementos mais simples relacionados temporalmente por meio de causas eficientes.

e a forma­ ção decorrente desse contexto. como aponta Koyré (1957/1979}. Consequentemente. o desenvolvimento científico parece ter distanciado essas duas atividades. ele considerou Descartes um desses gigantes ííaniak. O próprio Newton ti­ nha um sólido conhecimento de filosofia. a separação deve-se muito mais ao fato de Newton não estar disposto a enfrentar publicamente o debate com Leibniz do que à existência de uma cisão entre atividade científica e filosófica. a ciência m oderna conso- Udou-se como o exemplo primordial de conhecimento verdadeiro. há um Newton apenas. por S. o que. não estava de modo algum separado de questões filosóficas. uma teórico-filosófica e outra empírico-científica. Logo. 5 Leibniz foi possivelmente o adversário mais emblemático da metafísica newtoniana. Suas críticas foram respondidas. Clarke voltava-se à filosofia. o resultado foi uma nova forma de relação entre filosofia e ciência (Janiak. portanto. 2008). No entanto. Embora Newton tenha se esfor­ çado para separar a antiga metafísica da nova física . a colaboração entre trabalho teórico-filosófico e investiga­ ção empírica pode ser observada em muitos dos pioneiros da ciência mo­ derna. naquele contexto. 2008). passando a ser amplamente reconhecido como tal. e uma declarada admiração por fi­ lósofos que o precederam 4. Uma possível explicação desse reconhecimento da ciência deve-se ao avanço tecnológico promovido por 4 Uma das provas disso é que na carta em que Newton escreveu a famosa frase: “Se pude ver mais longe é porque estava sobre o ombro de gigantes”. fazendo aquilo que depois se convencionou denominar como física. Para tanto. Desse modo. ele provavelmente foi incumbido pelo próprio Newton de responder às críticas. 2. por outro lado. um cientista e um filósofo. o que pode ter contribuído para a ideia posterior de uma completa separação entre ciência e filosofia: enquanto Newton dedicava-se ao trabalho estrita­ mente científico. por um lado. Entre os séculos XIX e XX. dois “Newtons” separados e incomunicáveis. inviabilizava uma separação completa entre as dimensões filosófica e científica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! erudita e menos técnica do que a atual formação científica.ou hipóteses de dados experimentais isso era feito por uma mesma pessoa e orientado por com­ promissos filosóficos mais ou menos explícitos5. na época. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . sugerindo pessoalmente as respostas. nesse período não fazia sentido pensar em dois tipos de pesquisa diferentes e autônomas. A separação entre filosofia e ciência Se. Clarke. Newton deve ter acompanhado toda a correspondência entre Leibniz e Clarke. Clarke não era um mero defensor das posições filosóficas de Newton. o contexto institucional. Não há.

de que a ciência moderna não é uma teoria. que. (Rorty. Evidentemente. mas um fato. Esse tecnicismo consolidou como critério de avaliação do co­ nhecimento científico. mas a partir do século XIX a atividade científica converteu-se mais claramente em tecnociência. resistindo à ameaça da ciência. queria dizer que seu novo vocabulário matemá­ tico e reducionista nâo funcionava por acaso. A faceta tecnológica da ciência m oderna esteve presente desde seus primórdios (Mariconda. desesperadamente vagos". Ele queria dizer que o vocabulário funcionava porque se ajustava ao universo como uma chave se ajusta a uma fechadura. Os primeiros representavam uma filosofia transcendente. 191-192) Essa concepção de que a ciência tem a virtude de descobrir como as coisas realmente são não apenas reforçará a separação entre filosofia e ciência. O reconhecimento da efetividade da ciência m oderna tornou-se uma prova de que o conhecimento científico é um espelho da natureza. mesmo nessa altura. mas sustentará a crença de que muitas questões que anteriormente eram parte do escopo da filosofia (ou pelo menos da filosofia natural) poderiam agora ser tratadas de modo puramente científico. se a ciência descobre a realidade tal como ela é. somada ao reconhecimento dos avanços da ciência moderna. 1982. Rorty (1982) lembra que isso já estava anunciado nos primórdios da ciência moderna: Quando Galileu disse que o Livro da Natureza estava escrito em lin­ guagem matemática. fomentará. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . xv). 2006). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! ela durante esse período. uma cisão en­ tre os filósofos. sua funcionalidade. isso representa uma ameaça à filosofia: afinal. juntamente com a coerência lógica e a comprovação empírica. descrita por Rorty (1982) como uma oposição entre platôni­ cos e positivistas6. mas mantém seu uso justificando que “cada intelectual sabia aproximadamente onde se situava em relação aos dois movimentos” (p. ainda no século XIX. mas que funcionava por- que era o modo como as coisas realmente eram. recusava a ideia de que a ciência natural 6 Rorty (1982) reconhece que “tais termos eram. Isso quer dizer que a produção desse conhecimento passou a ser exclusi­ vamente dirigida para (e orientada pela) resolução de problemas concretos e imediatos. pp. qual a função da filosofia? Essa ameaça à legitimidade da filosofia.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! era a última palavra sobre os assuntos filosóficos e defendia “que havia mais Verdade para descobrir” (p. encontrar-se-iam as filosofias humanistas.. Entre os séculos XIX e XX. 8 O termo filosofia continental foi cunhado por fiiósofos analíticos anglófonos para designar um conjunto de filosofias originadas na Europa continental. 1994/2005). As filosofias contemporâneas (do século XX) que se destacam sob essa rubrica são a fenomenolo- gia. continua defendendo o limite desse tipo de conhecimento e uma assimetria insuperável em relação à filosofia (haveria algo mais a fazer com a filosofia do que mera epistemologia científica). partindo do reconhecimento dos avanços científicos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . o existencialismo. interessadas apenas por questões colocadas pela ciência. 7 De modo similar. 1982). que. xv). James considera o pragmatismo como uma concepção intermediária. Embora essa classificação seja carregada de controvérsias. argumentando que o século XX foi palco do embate entre filosofia continental8 e filosofia analítica. Geralmente essas mudanças são in­ vocadas como marco da constituição da filosofia contemporânea. tentam conciliar o ser humano com a natureza7. Já a filosofia cientificista (ou analítica) continuará a serviço da ciência. em especial pela ciência natural.. Entre esses extremos. encontrar-se-ia uma série de filosofias intermediárias que. que. adotan­ do a vida humana (em seus diferentes aspectos) como objeto de reflexão primordial. a teoria crítica e o pós-estruturalísmo (Mullarkey. uma vez que há diferentes formas de organizar tudo aquilo que se considera filosofia contemporânea. xv). principaimente na Alemanha c na França. uma maneira de interpretar a diversidade filosófica do século XX consis­ te em compreendê-la como movendo-se entre dois polos (Ferrater Mora. estariam as filosofias cientificistas. ao mesmo tempo em que reconhece a importância da ciência. aceitava e defendia a tese de que "a ciência natural. William James apresenta em suas conferências sobre pragmatismo (James. era toda a Verdade que havia” (p. Já os positivistas representavam uma filo­ sofia empírica. 2009). mudanças culturais e críticas surgidas no in­ terior da própria filosofia levaram as filosofias transcendente e empírica à mudanças fundamentais (Rorty. De outro lado. 1907/1988) a filosofia da época em termos da polaridade entre radonalístas e empiristas. eventualmente. defendendo que não há atividade filosófica relevante que possa ir além do conhecimento científico. Rorty (1982) apresenta uma classificação semelhante. De um lado. A despeito das diferenças terminológicas. filósofos orientados pela filosofia hu­ manista (ou continental) continuarão distanciando-se de uma visão de mun­ do estritamente científica e defendendo que o trabalho filosófico consiste em buscar algo que a ciência é incapaz de alcançar. Nesse contexto.

Do lado da filosofia humanista. principalmente. o que quer dizer. que não têm qualquer relação com a atividade científica e. a atividade filosófica buscará emular a ciência no que concerne ao seu rigor. que sequer podem ser considerados enunciados. defen­ derá a intuição. por fim. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Além disso. nunca alcançarão um grau de verdade comparável ao da ciência. seria uma forma de dominação e opressão com uma roupagem objetiva. Do lado das filosofias cientificistas. essa corrente filosófica acentuará a separação entre metafísica e epistemologia. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Nesse ponto fica claro que a partir do século XX a relação entre ciência e filosofia sofrerá mudanças. a ética e a política. reafirmando a incapacidade da ciência em lidar com o que realmente importa. uma “construção de verdades” orientadas basicamente por relações de poder. serão reconhecidos como “puramente filosóficos”. Em segundo lugar. portanto. reconhecendo. Essas concepções de filosofia ganharam força a partir da Segunda Guerra. naquele contexto representada pela psicologia experimental (Araujo. a filosofia passa a restrin­ gir-se a assuntos estritamente epistemoíógicos. 9 O manifesto de 19í3 dos filósofos contra a ocupação de cadeiras dc filosofia por psicólogos é um exemplo dessa defesa da autonomia da filosofia na Alemanha (reconhecidamente um dos berços da filosofia continental). tradicionalmente associada ao positivismo. Trata-se de uma tentativa de resistir à invasão da filosofia pela ciência. depois que são desprovidos de sentido e. será mantida e desenvolvida: inicialmente defendendo-se que enunciados metafísicos são falsos. Por fim. como a verdade do conhe­ cimento produzido cientificamente. principalmente de­ pois da constatação do papel da ciência no desenvolvimento da tecnologia bélica nuclear. a au­ tonomia da filosofia em relação à ciência9. sem ser contaminada por assuntos científicos. de outro lado. a estética como formas mais adequadas de filosofar. como a estética. A prim eira atitude dessa corrente filosófica será garantir que a filosofia mantenha-se “pura”. Mais tarde. a crença de que o conhecimento científico não é capaz de alcançar a Verdade fará com que esses filósofos se distanciem cada vez mais da ciência. consequentemente. nos campos que tangenciam o comportamento humano. a filosofia humanista fomentará uma série de críticas à ciência moderna: de um lado. outros campos filosóficos. o estatuto epistemológico das teorias científicas e o papel da lógica na ciência. nesse contexto. argumentará que a ciência natural. o sentimento. 2013a). Em primeiro lugar. a tese antimetafísica.

uma vez que é preciso. filosoficamente reformuladas por Kant (1781/1997). Schultz & Schultz.g.. no qual se insere a psicologia. Isso tem reflexos diretos na compreensão do projeto de psicologia de W undt. envolveria a constituição de uma nova metafísica (Araújo. alguns trabalhos têm mostrado que esse não é o caso de Wilhelm W undt (e. A metafísica wundtíana seria o último passo no projeto de reforma do co­ nhecimento humano. 2010)10. agora. Para W undt. 2010). 2013b. Por outro lado. que integraria. Soma­ do ao intenso trabalho teórico-filosófico de Wundt. 2010. 2010). que passa pelos campos da lógica. Araújo. teoria do conhecimento. 1979). Wundt defende que a ciência. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! 3. 2012). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . G undlach. é possível dizer que a psicologia de Wundt tenta manter-se isenta e distante da metafísica (tal como a física de Newton tenta não se comprometer com hipóteses não verificadas experimentalmente). as diferentes descobertas empíricas das ciências (Araújo. No entanto. 1998. 2004/2006. 2010). No entanto. isso coloca em suspeita a visão difundida pela historiografia tradicional. O crescente reconhecim ento da psicologia na A lem anha. em um todo coerente. Abib. sobretudo da psicologia 10 Seguindo as recomendações newtonianas. O contexto institucional das universidades alem ãs entre o final do sé­ culo XIX e o início do século XX tam bém pode ajudar a com preen­ der o caso de W undt (A raújo. que restringe a psicologia wundtíana à fundação do laboratório de Leipzig e ao emprego do método experimental no estudo dos processos psicológicos (e. justamente quando ocorre mais claramente a cisão entre filosofia e ciên­ cia. mas sua filosofia não. o projeto filosófico de Wundt. filosofia e ciência (in­ cluindo a psicologia) seriam parte de um mesmo todo coerente e contínuo de produção de conhecimento (Araújo. pelo menos. Danziger. ética e até mesmo metafísica. esse resgate do trabalho filosófico de W undt deve ser feito preservando uma concepção harmônica com sua produção empírico-científica. reconhecer que essa proposta de psicologia científica está intimamen­ te relacionada às formulações filosóficas desse autor (Araújo. no caso a psicologia científica. insistiam na separação entre filosofia e psicologia científica. 2013a. 1992/1996). 1895/1897). Isso pode nos levar a acreditar que esses projetos iniciais de psicologia científica eram claramente antifilosóficos ou que.. Nesse sentido. Hothersall. A harmonia inicial entre filosofia e psicologia Os primeiros projetos de psicologia moderna surgem entre os séculos XIX e XX. deveria se eximir de questões meta­ físicas apriori (Wundt.g.

progre­ diria pari passu ao avanço de discussões teóricas do comportamentalismo radical. a ciência do comportam ento propriamente dita. eventualmente. por exemplo.da qual W undt era um dos principais expoentes criou uma dem anda por cadeiras de psicologia experim ental nas universidades (Araújo. embora sua formação principal fosse em medicina. Esse tipo de forma­ ção permitiu que W undt tivesse uma compreensão ampla dos problemas filosóficos imanentes ao empreendimento científico em geral. e psicológico em particular. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . e. antigas cadeiras de filosofia foram gradualm ente sendo ocupadas por psicólogos11. Nessa querela. bem como o capacitou a desem penhar atividades filosóficas e científicas de modo harmonioso. refere-se a professores com formação em filosofia. Mesmo durante o século XX. F. Esse seria o contexto para se interpretar a afirmação skinneriana de que o comportamentalismo radical não é a ciência do comportamento. Esse processo culminou na publicação do Manifesto de 1913. Gundlach. na exata medida em que ele não via com bons olhos a completa separação entre filosofia e psicologia. corrigida pela filosofia que. seu conhecimento em filosofia era inegável. o psicólogo profissional (Ash. No entanto. assinado por docentes e professores que se posicionavam contra a ocupação de cadeiras de filosofia por psicólogos. Vale lem­ brar que até meados do século XX não existia. novas cadeiras não foram criadas. lidando com dados empíricos. Esse autor defendia explicitamente que a pesquisa empírica. 2013a. psicólogo. há ainda tentativas de manutenção de uma relação harmoniosa entre filosofia e psicologia. A obra de B. na Alemanha. mas a filosofia dessa ciência (Skinner. 2012). tanto que foi nessa área que ocupou o cargo de professor (Araújo. fosse desafiada e. nesse sentido. retrata uma pretensão de complementariedade entre questões teó­ rico-filosóficas e dados empíricos. psicologia como disciplina indepen­ dente. Skinner. 2010. medicina ou direito. 2013a). 1974). tal como se defendia no manifesto (Araújo. W undt foi um dos professores contrários às reivindica­ ções dos filósofos. que se dedicavam ao estudo de assuntos psicológicos. 2012). por sua vez. aqui. ao invés disso. também não existia. Além disso. Tudo se passa como se a ciên­ cia do comportam ento. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! experim ental . de modo institucionalizado. 2010). 1987. Gundlach. deveria organizar 11 O termo psicólogo empregado nesse contexto é diferente de seu uso contemporâneo. teologia. 2013a). W undt era um polímata e. o que desencadeou um conjunto de com entários e réplicas (Araújo. Dessa forma.

por vezes. Subjaz a essa narrativa a ideia de que a psicologia se constituiu como disciplina independente.g. com a implementação do laboratório de Leipzig (e. de um objetivo comum e. o aspecto aplicado como mais um pilar nessa relação (cf. 4 .. Schultz & Schultz. Schultz e Schultz (1992/1996). Tourinho. por exemplo. confirmando assim sua independência em relação à filosofia. (p. na ciência em geral e na psicologia em par­ ticular. de forma harmoniosa e complementar. 2004/2006. 18) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .0 conflito entre psicologia e filosofia Uma narrativa histórica bastante difundida em manuais de história da psi­ cologia é que a institucionalização da psicologia ocorreu primeiramente na Alemanha. Somente há cerca de cem anos os psicólogos definiram o objeto de estudo da psicologia e esta­ beleceram seus fundamentos. embora a modernidade tenha criado condições para a separação das dimensões filosófica e científica. pesquisadores e profissionais interessados na análise do comportamento. portanto. 1999). Isso era bastante evidente e factível nos casos em que o psicólogo se dedicava tanto à elabora­ ção teórica quanto à pesquisa empírica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! os resultados empíricos de modo coerente em uma teoria do comporta­ mento (Tourinho. O cenário pintado é de uma colaboração mútua. 1999). declaram: Somente quando os pesquisadores passaram a se apoiar na observa­ ção e na experimentação cuidadosamente controladas para estudar a mente humana é que a psicologia começou a alcançar uma identidade que a distinguia de suas raízes filosóficas. parece que por algum tempo manteve-se no horizonte a noção de que esses dois modos de produção de conhecimento poderiam e deveriam caminhar juntos. de uma relação harmoniosa. Embora questionável. Assim. professores e um corpo de conhecimento próprios quando se se­ parou da filosofia e adotou métodos científicos (principalmente o método experimental) para investigar os fenômenos psicológicos. com alunos. incluindo. 1992/1996). essa harm onia continua sendo reafirmada por professores. Hother- sall.

embora a psicologia experimental já existisse desde o século XVIII. mesmo quando eram reconhecida­ mente científicas. 1998. Na Alemanha. como as psicologias de W undt. 1987)'2. 2013a). Esse processo de institucionalização orientado exclusivamente pela aplica­ ção do conhecimento psicológico teve ao menos duas consequências visíveis na história da psicologia. 1987). parece que foi justamente uma faceta tecnocientífica da psicologia que prosperou e orientou a institucionalização da psicologia como disciplina independente. Danzinger. ainda que uma teoria seja filosoficamente questionável contenha contradições e careça de clareza na definição de seus conceitos. propostas que se afastaram dessa pretensão eminentemente aplicada. ao mesmo tempo em que propaga equívocos e confusões conceituais. a psicologia ganha reconhecimento institucional ainda no século XIX e isso se acentua com a participação de psicólogos no contexto educacional no início do século XX (Abib. de Titchener e de Kõhler. havia um pano de fundo razoavelmente comum nas grandes universidades: a polarização en­ tre filosofia e ciência. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Geuter. Consequentemente. Mas índependentemente das diferenças culturais que influenciaram a ins­ titucionalização acadêmica da psicologia em cada país. esse tecnicismo da psicologia m oderna desenhou uma triste história da institucionalização acadêmica dessa disciplina. Em segundo lugar. 1998. essa narrativa histórica. é bastante questionável quando W undt é tomado como refe­ rência para essa separação (Araújo. 1998. só apareceu durante a Segunda Guerra (Abib. fazendo com que a funcionalidade do conhecimento produzido seja considerada mais importante do que sua coerência. por exemplo. 2010. que separa psicologia de filosofia. ela deverá ser aceita. simplesmente foram extintas e hoje. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Como mencionado alhures. na melhor das hipóteses. ou mais especificamente entre filosofia humanista 12 Além disso. quanto pela ideologia do controle social a partir do final do século XIX nos Estados Unidos (Abib. algumas vezes o tecnicismo na psicologia é levado às suas últimas consequências. que passa tanto pela fun­ damentação ideológica do nazismo na Alemanha (Geuter. Por outro lado. }á nos Estados Unidos. Esse “pragmatismo grosseiro” tem expulsado até mesmo a epistemologia do campo psicológico. 2012). Em primeiro lugar. 1987. Danzinger. 1987). Gundlach. aparecem ape­ nas como curiosidades em cursos de história da psicologia. entendida aqui como uma formação universitária específi­ ca para psicólogos. se ela for capaz dc resolver os problemas a que se propõe. a institucionalização da psicologia como disciplina independente.

afastando-se de preo­ cupações científicas. fica clara a ideia de que a psicologia deveria escolher a ciência ou a filosofia. eventualmente. Nesse dilema. descrito por Grecó (1967/1981): “é a infelicidade do psicólogo: nunca há certeza de que ele ‘faça ciência’. até mesmo. isso geralmente ocorre por meio de disciplinas ministradas por diferentes professores (por exemplo. como discussões metodológicas e até mesmo a com­ provação empírica dos enunciados teóricos. que. Mesmo nos casos em que se tenta evitar essa polarização. buscando seguir os cânones das ciências naturais. para o sentimento. permitindo que o aluno de psicologia tenha acesso tanto à ciência quanto à filosofia. surgiram concepções de psicologia que se aproximavam da ciência moderna. portanto. De um lado. irracional. surgiram projetos psicológicos que. seguindo o modelo de uma ciência autônoma e independente de questões teóricas. o que ainda se mantém nos cursos de psicologia atuais. seguindo os mesmos argumentos da filosofia humanista: aquilo que é legitimamente psicológico não poderia ser captado pela ciência e. em boa medida. 292). na quantificação dos fenômenos psicológicos. uma verdadeira psicologia deveria voltar-se para a intuição. já psico­ logias que recusaram o cientificismo identificaram-se mais facilmente com atividades filosóficas típicas da filosofia humanista ou continental. Essa tensão entre filosofia e ciência terá reflexos diretos na formação do psicólogo. as investigações científicas e as discussões filosóficas já não são vistas de modo harmonioso na psicologia. afastaram-se da ciência. De outro lado. e que. Se a faz. para o que é pré-verbal ou. tenderam a se afastar de questões filosóficas. Alguns cursos privilegiam a dimensão científica da psicologia. reproduziram essa polarização. insistindo no uso de métodos reconhecidamente cientí­ ficos. Essa po­ larização da psicologia moderna é bem representada pelo famoso dilema do psicólogo. psicó- INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . nunca há certeza de que seja psicologia” (p. parece que a separação e o conflito entre filosofia e ciência tiveram como reflexo uma cisão fundamental da psicologia contemporânea: psicologias que se situaram no polo científico. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! e ciência natural. Isso criou condições para a constituição de diferentes projetos psicológicos. outros cursos enfatizam o aspecto teórico-filosófico da psicologia. nesse sentido. na objetividade e. de forma deliberada. Desse modo.

Incorre-se. na visão ingênua de que é possível uma ciência desprovida de teoria e isenta de qualquer filosofia. Pesquisas empíricas versus pesquisas teóricas na psicologia Nesse novo contexto. portanto. o contexto institucional contemporâneo favorece a cisão entre filosofia e psicologia científica. bem como a formação que decorre dele. as pes­ quisas teóricas são vistas pelos psicólogos-dentistas como “pseudopesqui- sas” inócuas e. organizada em torno dos polos objetivista-cientificista versus subjetivista-humanista. pesquisas empíricas e pesquisas teóricas são desenvolvidas por pessoas diferentes. com objetivos diferentes. é bastante diferente daquele que sustentava uma relação harmoniosa entre o trabalho teórico-filosófico e empírico-científico nos primórdios da ciência e psicologia modernas. com formações diferentes e. aqui. mantém o “dilema do psicólogo” exigindo que o aluno escolha por um dos lados e se especialize. O resultado é uma “es­ pecialização” na psicologia contemporânea. Fica claro. a pluralidade de psicologias. Em suma. Desse modo. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! logos-cientistas de um lado e filósofos profissionais de outro). muitas vezes. as relações entre pesquisas empíricas e teóricas na psicologia tornam-se mais complexas. criando um círculo vicioso no qual psicólogos são formados como especialistas (em ciência ou em filosofia) por professores especialistas. sobretudo aquelas que seguem os passos da ciência natural. o mero acesso à filosofia e à ciência em um contexto em que a cisão entre esses campos já está consolidada não garante a integração. ou seja. cria diferentes formas de relação entre pesquisas em­ píricas e teóricas. Psicologias com um viés cientificista reconhecem as pesquisas empírico-cien­ tíficas como prioritárias. ignorando. portanto. Quando o cientificismo é radicalizado. pelo contrário. 5. portanto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Em primeiro lugar. Há pelo menos dois posicionamentos desse tipo de psicologia em relação às pesquisas teóricas. dispensáveis para uma psicologia verdadeiramente científica. que esse cenário acadêmico. que a própria ciência moderna se constituiu a partir de pressupostos filosóficos.

Esse realismo teórico é aceito por pesquisadores ligados à produção de co­ nhecimento empírico.que. 2007). uma harmonia assentada na subordinação da pesquisa teórica aos resultados da pesquisa empírica. ao “pesquisador teórico” descrever esses pressupostos de maneira cuidadosa. Uma visão cientifícista mais ponderada e menos ingênua admite a impor­ tância relativa do trabalho teórico. uma vez que defende a existência de um conjunto “fechado” de pressupostos (um tipo de realidade). Aqui fica evidente o quanto essa forma de trabalho teórico tenta se aproximar da pes­ quisa empírica: do mesmo modo que as pesquisas empíricas descobrem a realidade (física ou social). Koyré. o realismo teórico pressu­ põe uma plena harmonia entre pesquisa empírica e pesquisa teórica. 1925. Essa forma de conce­ ber a pesquisa teórica pode ser denominada realismo teórico. Assim. Além disso. Muitas vezes esse tipo de recomendação está assentado em uma teoria mais ou menos explícita. que seriam descobertos ou desvelados pela pesquisa. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . o realismo teórico tam bém não garante a legitimidade da pesquisa teórica. Machado & Silva. Uma vez que se acredita na existência de um conjunto “fechado” de pres­ supostos filosóficos. geralmente denominados fundamentos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! mais ou menos explícitos. é uma questão de tempo para que a pesquisa teórica se torne supérflua: depois que esses fundamentos forem descritos. tudo o que sobra é. Machado & Silva. respeitando suas características. as pesquisas teóricas descobrem os fundamentos (teórico-filosóficos). defende-se que um pro­ jeto de psicologia científica estaria assentado em um conjunto unívoco e imutável de pressupostos filosóficos. há outro problema. nesse contexto. Assim. para recusar concepções centrais da filosofia esco­ lástica (Burtt. o realismo teórico não garante a au­ tonomia das pesquisas teóricas . então. 1957/1979). Consequentemente. sequer são chamadas de pesquisas (cf. Nesse contexto. na melhor das hipóteses. repetição do que já foi dito. Caberia. 2007). no 13 Algumas recomendações atuais de restituir análises teóricas na psicologia científica podem ser entendidas como tentativas de orientar essas análises por questões exclusivamente epistemológi- cas. como a coerência lógica dos enunciados. a teoria de verdade e outros assuntos relacionados (cf. que defende que apenas essas questões fazem parte do conheci­ mento científico. desde que os pressupostos filosóficos “descobertos” na pesquisa teórica sejam os mesmos com os quais esses pesquisadores já trabalham implícita ou explicitamente13.

à semelhança do que acontece com psicologias cientifícistas. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . duas formas de conduzir as pesquisas teóricas. Psicologias subjetivistas mais ponderadas fomentam pesquisas teóricas in­ teressadas não na desqualificação da ciência m oderna. mas na constituição 14 Na medida em que essa forma de psicologia tende ao irracionalismo. irracionalista. por vezes. sem qualquer relação com pesquisas empíricas. ao menos. por vezes. Quando o posicionamento anticientífico é exacerbado. são geralmente reproduções superficiais de argumentos apresentados por repre­ sentantes da filosofia continental. dirigidas ostensivamente à ciência. Os resultados tendem a ser confusos e as críticas. Trata-se de uma espécie de solipsismo ieórico. O solipsismo teórico garante a autonomia da pesquisa teórica em relação a pesquisas empíricas. no qual a psicologia se converte em pura teoria e. e. o critério de coerência entre conceitos como sufi­ ciente para a psicologia14. são mais favorá­ veis a pesquisas teóricas do que a pesquisas empíricas. o grau de radicalização de seus posicionamentos refletir-se-á em. essa concepção torna-se responsável pela propagação de confusões conceituais e contradições. cm alguns momentos até mesmo a coerência c abandonada como um critério válido. ele culmina em um irracionalismo que torna a pesquisa teórica um fim em si mesma. Com isso. erram o alvo justamente por falta de conhecimento científico mínimo. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! sentido de que essa atividade de pesquisa não é capaz produzir conhecimen­ to de forma contínua. nesse extremo não há qualquer critério de refutação de elaborações teóri- co-conceituais. o que faz com que as pesquisas teóricas desenvolvidas nesse contexto sejam. psicologias com um viés subjetivista. Consequentemente. Aqui. isso quer dizer que não há sequer um ponto de contato a partir do qual possa haver um diálogo entre as dimensões empírica e teórica. na medida em que se afastam deliberadamente dos ideais científicos modernos. admitindo. mas isso tem um preço. vazias do ponto de vista empírico ou inúteis do ponto de vista aplicado. Trata-se de definições e redefinições que não reconhecem a necessidade de uma articulação com dados empíricos. portanto. deliberadamente cega aos dados empíricos. Dificilmente pesquisadores empíricos levarão em consideração o conhecimento teórico produzido nesse viés. pois ele é deliberadamente anticientífico e. Por outro lado. quando muito. na maioria das vezes.

gerando dificuldades na validade e reprodutibili- dade dos resultados obtidos. geralmente. o que se ganha em engajamento perde-se em questões metodológicas. 1987/2004). A pesquisa teórica conduzida nesses moldes compartilha a mesma visão de mundo que insiste em criticar e. essas psicolo­ gias veem o ser humano como “sobrenatural”. Mas. métodos quantitativos versus métodos qualitativos. como ciências naturais versus ciências hum anas. Isso mostra que as pesquisas teóricas desenvol­ vidas nesse contexto carecem de discussões epistemológicas fundamentais. pesquisadores teóricos só são ouvidos por pesquisadores empíricos quando os resultados teóricos não contrariam o trabalho no campo empí rico. nesse caso. no caso epistemológicos. como liberdade e vontade. que possam colocar em xeque a legitimidade desse modo de conceber a psicologia. Essa assimetria entre natureza e ser humano é uma boa chave de leitura para compreender as características centrais da m odernidade como o meca- nicismo. as pesqui­ sas teóricas são aceitas pela psicologia subjetivista. explicação versus compreensão. Esse panorama mostra que a relação entre pesquisas empírica e teórica é complexa e nem sempre harmoniosa. cumpre perguntar qual seria a função da pesquisa teórica? Reiterar aquilo que já foi apresentado com evidências empíricas? INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . ou seja. Ao fazer isso. inócuas em relação à teoria psicológica que toma como alvo de investigação. Desse modo. típica da modernidade. que poderiam instruir uma forma mais efetiva de produzir conhecimento. desde que o trabalho teó- rico não conduza a questionamentos. essa harmonia só existe quando as pesquisas teóricas são “acríticas” e. tal como acontece com as psicologias cientificistas. Na verdade. essas pesquisas reiteram um a série de dicotomias. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! de formas alternativas de produção de conhecimento. portanto. como um ser fora da natureza. certa ingenuidade filosófica continua operando aqui. Com partilhando a mesma concepção mecanicista de natureza. Mais especifica­ mente. o antropocentrism o e a exploração da natureza pelo ser humano (tecnicismo) (Santos. a matematização das ciências da natureza. Mas. A influência da filosofia continental contemporânea sobre esse tipo de psico­ logia reflete-se em pesquisas empíricas voltadas para assuntos socialmente relevantes. dotado de características especiais. deslocando os compromissos filosóficos da epistemologia para a ética e a política. geral­ mente. nesse sentido.

não são (e não devem ser) mais assunto de investigação. Essas caixas-pre­ tas são pontos de partida para outras pesquisas e. Esse conflito deve-se ao fato de que. a pesquisa teórica a tem como objeto de análise. conduzirão direta ou indiretamente à produção de tecnologias. Latour (1998/2000) usa uma metáfora para descrever o funcionamento da ciência. quando não é inócua. a pesquisa teórica operaria obstruindo o caminho da pesquisa empírica. elas são lacradas para evitar que sejam abertas por alguém. De acordo com esse autor. enquanto a pesquisa empírica tem uma teoria como ponto de partida. aproximações e distanciamentos com outras teorias. a relação entre as duas formas de produção de conhecimento torna-se dramaticamente conflituosa. Tudo se passa como se a pesquisa teórica. eventual­ mente. Dessa forma. o que não acrescenta nada em sua pesquisa? Por outro lado. como tais. A pesqui­ sa empírica parte de pressupostos teóricos (geralmente considerados como “fundamentos”). nesse caso. instrum entos. muitas vezes. entendido como um conjunto “fechado” de compromissos filosóficos. apontando suas lacunas. eventuais contradições. inquestionáveis. a caixa-preta é na verdade uma caixa de Pandora (que guarda algo que foi deüberadam ente esquecido pelos pesqui­ sadores empíricos em favor do avanço da ciência). portanto. aberturas interpretativas. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . por que o pes­ quisador empírico deveria parar para ouvir aquilo que ele já sabe. procedim en­ tos. insistisse em abrir as caixas-pretas da pesquisa empírica. Isso inviabiliza a defesa de um “fundamento”. cada uma dessas pesquisas assume objetivos distintos. ou seja. que passam a ser tacitam ente aceitos pela comunidade científica como a-históricos e. ao mesmo tempo. que pode ser empregada aqui para esclarecer o conflito entre pesquisas empíricas e teóricas. discutir conceitos. que. situar a teoria em uma tradição filosófica mais ampla e assim por diante. ideias. A noção de “caixa-preta” sin­ tetiza justam ente estas características: praticam ente ninguém sabe o que há ali dentro e. a ciência avança criando “caixas-pretas”. Desse modo. a pesquisa teórica m ostra que. contextualizá-los historicamente. entendidas como conceitos. quando pesquisadores teóricos não se restringem a emular a ciência ou a fornecer um a espécie de “certificado filosófico” para pesquisas empíricas. com o intuito de produzir dados empíricos. Já a pesquisa teórica atém-se à própria teoria. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Traduzir filosoficamente a atividade dos psicólogos? Afinal. Ao fazer isso.

Dessa maneira. artigos. 5). & Silva. há uma inversão de valores: o dado torna-se um fim em si mesmo. Em nosso país. que 15 Nesse artigo os autores analisam a realidade da psicologia norte-americana. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! O resultado desse conflito parece ter favorecido as pesquisas empíricas. Dessa forma. Além disso. que envolvem delineamentos cada vez mais complexos. As expressões e consequências dessa assimetria na produção de conhecimento na psicologia contemporânea foram apresentados de maneira eloquente por Machado. 2000. os avanços técnicos em coleta e análise de dados em­ píricos. Por exemplo. No entanto. Nas palavras dos autores: Experimentação e análise estatística dos dados são práticas indispen­ sáveis na ciência. Isso porque boa parte dos de­ sacordos que estão na base dessa fragmentação são de natureza estritamente teórica. encontros. se dão à custa da crescente fragilização das análises teóricas. os resultados descritos por Machado. Lourenço e Silva (2000) talvez também possam ser encontrados no Brasil em breve. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . quando se considera que apenas questões passíveis de serem respondidas por experimentos valem a pena. se acompanharmos as políticas editoriais dos principais periódicos brasileiros descobriremos que elas têm se aproximado do cenário descrito por Machado. que evidentemente não c a mesma do Brasil. emprego de estatística elaborada. livros. (Ma­ chado. a maioria dos periódicos mais bem avaliados pelo Gua/is-Capes restringem ou pelo menos limitam a publicação de trabalhos teóricos. Mas quando elas são tomadas como fins ao invés de meios. quando experimentos são publicados porque usam técnicas sofisticadas. Lourenço e Silva (2000)l5. e congressos parece desproporcional ao número de descobertas explicadas de maneira convincente ou de problemas efetivamente resolvi­ dos” (p. cuja produção tem aumentado sem ser acompanhada de análises teóricas satis­ fatórias. então temos os sinais de um estado epistêmico dominado desproporcionalmente pelas investigações factuais. e quando os núme­ ros são privilegiados independentemente da mensuração verdadeira ter sído alcançada. equipamen­ tos de ponta. Louren­ ço e Silva (2000). A primeira expressão desse estado de desequilíbrio entre pesquisas empíricas e teóricas se vê no número excessivo de publicações de “resultados” empíricos inócuos: "a produtividade anual que vem dessa avalanche de periódicos. Lourenço. parece ainda haver uma maior diversidade de produções em psicologia. Com isso. a falta de compreensão adequada de uma teoria. 7) A carência de pesquisas teóricas consistentes também conduz a psicologia contemporânea a uma fragmentação artificial. p.

pp. como no caso das psicologias subjetivistas mais extremadas. & Silva. por sua vez. 10-12). Lourenço. passando a ser disseminadas na própria psicologia. as teorias se multiplicam e incompreensões instituem-se. 35). Da mesma forma. Isso acon­ tece tanto no âmbito da formação de psicólogos por meio de livros-texto im­ precisos (e. A pesquisa teórica isola­ da acabaria adiando indefinidamente a possibilidade de produção de dados empíricos. bem como de tecnologias derivadas. quanto na produção de conhe­ cimento em pesquisas empíricas. embora estabeleçam um a relação harmoniosa. sobre equívocos encontrados acerca do comportamentalismo radical em livros-texto). pesquisas teóricas “dóceis”. Por outro lado. de modo quase paradoxal. Além disso.. a solução não parece ser o abandono da produção empírica em favor da pesquisa teórica: “se é certo que investigações conceituais sozi­ nhas não resolverão a multiplicidade de problemas da psicologia. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . ou seja. Nesse sentido. complementem-se e corrijam-se. obrigando que esses dois tipos de pesquisa convivam. culminam na apresentação de novas teorias. cria falsas lacunas que. incluindo discussões de outros aspectos filosóficos.g. também é certo que sem elas possivelmente nenhuma tentativa de solução será bem- -sucedida” (Machado. ou mesmo da recusa em produzir conhecimento empírico. como éticos. 2000. Lourenço. Sc Silva. que também serão mal compreendidas. psicologias com um viés cientificistas precisariam fomentar mais do que pesquisas teóricas puram ente epistemo- lógicas. Todd & Morris. a pesquisa teórica mais proveitosa para a produção de conhecimento empírico parece ser justamente aquela que parte de uma relação conflituosa. que simplesmente reproduzem distorções teóricas (exemplos dessas distorções propagadas por pesquisas empíricas são examinados por Machado. têm resultados inúteis. A saída parece ser buscar meios de equilibrar a produção empírica e teórica. p. da coerência e da confirmação empírica na produção de um conhecimento psicológico válido. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! poderia ser alcançada por pesquisas teóricas que tomassem essa teoria como objeto de investigação. Ao mesmo tempo. em favor de um rigor teóri­ co inalcançável. sem nunca se opor a elas. políticos e até mesmo estéticos. reconhecendo a importância da lógica. 1983. psicologias subjetivistas precisariam ouvir e enfrentar os desafios colocados por pesquisas teóricas epistemológicas. aquelas que simplesmente assistem pesquisas empíricas. Uma vez que esse ciclo não é rompido.

dedican­ do-se exclusivamente à pesquisa empírica. ou a produção empírico-científica). Em outras palavras. o clima acadêmico não é favorável à pesquisa teórica. uma vez que se trata de uma investigação mais demorada. Além disso. Considerações finais Na medida em que uma ciência se consolida. fomentar uma relação conflituosa entre pesquisas empíricas e teóricas parece ser a única solução viável. em última instância. paradoxalmente. bastante complexa. com professores que não apre­ sentam as habilidades e competências de um pesquisador teórico. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! A relação entre pesquisas teóricas e empíricas na psicologia contemporânea é. o que retroalimenta todo o sistema. da mesma maneira que um pesquisador teórico especialista desenvolverá pesquisas empíricas reple­ tas de falhas. consolidada no século XX. somada à tendência de especialização da formação acadêmica atual (que prioriza ou a discussão teórico-filosófica. que dificilmente conseguirá atingir as exigências de produção colocadas nos critérios das agências de fomento e órgãos responsáveis pela política científica nacional. que precisariam abandonar eventuais preferências e reconhe­ cer que o trabalho teórico funciona “contra” a produção empírica. sobre as comunidades e organizações de psicologia. um pesquisador empírico especialista pro­ moverá discussões teóricas ingênuas ou superficiais. Essa complexidade. quase “artesanal”. e que isso é. sobretudo no contexto do “produtivismo” acadêmico con­ temporâneo. acaba com as esperan­ ças de que uma relação harmoniosa entre as atividades teórica e empírica pudesse ser alcançada quando um mesmo pesquisador desenvolve ambas atividades. A responsabilidade pela busca desse equilíbrio recai. O conflito dá sentido para a pesquisa teórica: INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . portanto. pelo menos por enquanto. tornando ainda mais difícil rom per esse círculo vicioso. desejável. parece que o cientista é forçado a abandonar a filosofia. 6. Seguindo a separação entre filosofia e ciência. mais ela exige um trabalho especializado. O resultado é que os programas de pós-graduação em psicologia tendem a restringir esse tipo de trabalho. O primeiro passo para tal ruptura é admitir a importância de um equilíbrio entre pesquisas empíricas e teóricas. Isso mostra que.

por geração espontânea. como já haviam constatado Machado. (2004). Trata-se de abandonar a concepção filosoficamente ingênua de que a produção empírica é com­ pletamente isenta de compromissos filosóficos.. uma reposição (eclética) de ar­ gumentos e pontos de vista de autores diversos. Lourenço. Uma relação conflituosa im­ pede. clareza e distinção” (p. de modo que a pesquisa teórica. Nesse sentido. como se da sua colocação em série no artigo em questão emergisse. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! é preciso olhar para uma teoria psicológica como algo que instrui a atividade de psicólogos. não possa se resumir a elaborações teóricas vazias e inúteis. ainda. Já do lado da pesquisa empírica. com a qual lida a pesquisa teórica. Lourenço. palpáveis. & Silva. Caberia à pesquisa teórica explicitar esses compromissos. é preciso não apenas reconhecer o conflito entre pesquisas em­ pírica e teórica. Com isso. 2004. é preciso m anter no horizonte a necessidade de a teoria ser empiricamente sustentada por pesquisas e interessada em aspectos “reais”. é preciso reconhecer que muito do que vem sendo produzido sob a rubrica de pes­ quisa teórica talvez possa ser abandonado sem qualquer prejuízo para a psicologia. sobretudo quando eles são apenas implícitos nas prá­ ticas de pesquisa e nas atuações profissionais. 2012). a confusão conceituai. o contato conflituoso com a pesquisa teóri­ ca evita o “empirismo bárbaro”. 326). que a pesquisa empírica seja completamente sequestrada pelo “produtivismo” acadêmico. em geral. Além do mais. 2000). mas promovê-lo. Desse modo. voltada para essa teoria. como argumentam Machado et al. ético-políticos e até mesmo ontológicos. Pinheiro e Silva (2004) em um exame de publicações portuguesas: “as análises que eram supostas serem conceituais são. que há algum tempo difunde-se na ciência em geral e na psicologia em especial (Furlan. Isso pode ser feito por políticas científicas INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . coloca em xeque a própria cientificidade do que está sendo produzido pela pesquisa empírica: “o valor incontornável de uma análise conceituai digna de tal nome fica justificado quando temos presente que uma experiência concebida em atmosfera de confusão conceituai jamais merece ser adjetivada de científica” (Machado et al. sejam eles epistemológicos. exe­ quíveis. que orienta escolhas metodológicas e técnicas. pela exigência de uma produção maci­ ça e acrítica de dados ininteligíveis e inúteis (Machado. p. 326). ou seja.

Araujo (Ed. Juiz de Fora. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Juiz de Fora. ciência e atuação profissional. F. In S. Araujo. agências de fomento deveriam buscar algum equilíbrio entre as diferentes formas de pesquisa. F. em favor de um diálogo conflituoso. O manifesto dos filósofos alemães contra a psicolo­ gia experimental: introdução. Araujo (Ed. historicamente consciente de seus compromissos filosóficos e con- textualizada na realidade e nos problemas contemporâneos. recusando a tradição que defende uma harm onia inócua. Além disso. O projeto de uma psicologia científica em Wilhelm W undt: uma nova interpretação. aproveitando a diversidade da psicologia e suas múltiplas relações com a ciência e com a filosofia para construir uma formação teoricamente coerente. In S. a ciência ingênua e o tecnicismo acrítico. (2013b). em última instância. uma articulação entre teoria. 81-91). 14{ 1). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! que estejam esclarecidas em relação a esse ponto. MG: UFJF. Ecos do passado: estudos de história e filosofia da psicologia (pp. principalmente. MG: UFJF.). evitando a teorização inócua. J. o que poderia. Sociedades científicas poderiam considerar como meta o equilíbrio nos trabalhos que serão apresentados em suas programações. F. Virada social na historiografia da psicologia e indepen­ dência institucional da psicologia. Os cursos de graduação deveriam garantir um equilíbrio e. Uma maneira de fazer isso é usar a pluralidade do campo psicológico a favor da formação. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 77-84. porém produtivo. (2010). S. tradução e comentários. Araujo. Araujo. Wilhelm Wundt e a fundação do primeiro centro inter­ nacional de formação de psicólogos. (2013a). refletir-se na natureza dos trabalhos desenvolvidos em programas de pós-gra­ duação. Assim. Revistas pode­ riam incluir em suas políticas editoriais seções para discussões teóricas que possam lançar desafios à produção empírica. Juiz de Fora. F. Ecos do passado: estudos de história e filosofia da psicologia (pp. é preciso reestruturar o modo como está organizada a formação de psicólogos. S. A. MG: UFJF.). Referências Abib. S. D. (1998). F. 177-193).

G. ]. (2005). Trench. 15.). (2012). F. Campanário. S. Meditações concernentes à primeira filosofia nas quais a existência de Deus e a distinção real entre a alma e o corpo do homem são demonstradas (J. (1979). A psicologia como ciência e como disciplina: o caso da Alemanha. The metaphysical foundations o f modern physical science: a historical and critical essay. 13-33). In V. São Paulo: Loyola. (Trabalho original publicado em 1641. R. Prado Júnior. Gonçalves. (M. N. Guinsburg & B. Juiz de Fora. 203-221). Formação de psicólogos e relação de poder: sobre a misé­ ria da psicologia (pp.A . (2012). 663- 688). M. In M. 15.) Furlan. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Ash. Ash & W. Remarks to the essays appearing in this collective vo­ lume. Woodward (Eds. A. São Paulo: Abril Cultural. Ferrater Mora. U. São Paulo: Casa do Psicólogo. História e filosofia da psicologia: perspecti­ vas contemporâneas (pp. The positivist repudiation of Wundt. B urtt. Sobral. Schilpp (Ed.). Psychology in twen­ tieth-century thought and society (pp. (1987). In M. pp. 91-150). Psychology and politics in interwar Vienna: the Vienna Psychological Institute. (1925). Social context and investigative practice in early twen­ tieth-century. Danzinger. 205-230. Journal o f the History o f the Behavioral Sciences. K.). Trads. (Trabalho original publicado em 1994. New York: MJF Books. Ash & W. (1973). G. MA: Cambridge University Press. Psychology in twentieth-century thought and society (pp. & N. Bagno. Descartes. Gundlach. Os pensadores (Vol.E . M. Danzinger. Uma experiência filosófica de um curso de psicologia. (1970). A.). Dicionário de filosofia: tomo II. Civita (Ed. 143-164). 133-165). R. MG: UFJF. R. In P. Trads. H. In S. Trubner & Co.). Woodward (Eds.). Cambridge: Cambridge University Press. R. A. H. K. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Cambridge. Albert Einstein: philosopher-scientist (pp. S. London: Kegan Paul.). G. Araujo (Ed.) Einstein.). 1922-1942. Patto (Ed. In M. (1987).

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

Geuter, U. (1987). German psychology during the Nazi period. In M. G.
Ash & W. R. Woodward (Eds.), Psychology in twentieth-century thought and
society (pp. 165-187). Cambridge, MA: Cambridge University Press.

Grecó, P. (1981). Epistemologia da psicologia. In J. Piaget (Ed.), Lógica e
conhecimento cientifico (pp. 285-333). Porto: Civilização Editora. (Trabalho
original publicado em 1967.)

Hothersall, D. (2006). História da psicologia (E. Pepe & E. Fittipaldi, Trads.).
São Paulo: McGraw-Hill. (Trabalho original publicado em 2004.)

James, W. (1988), Pragmatism: a new name for some old ways of thinking.
In B. Kuklick (Ed.), Pragmatism. Indianapolis, In: Hackett Publishing Com­
pany. (Trabalho original publicado em 1907.)

Janiak, A. (2008). Newton as philosopher. New York: Cambridge University
Press.

Kant, E. (1997). Crítica da razão pura (Morujão, Trad.). Lisboa: Calouste
Coulbekian. (Trabalho original publicado em 1781-87.)

Koyré, A. (1979). Do mundo fechado ao universo infinito (D. M. Garscha-
gen, Trad.). São Paulo: Forense-Universitária/Edusp. (Trabalho original pu­
blicado em 1957.)

Latour, B. (2000). Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros so­
ciedade afora (I. C. Benedetti, Trad.). São Paulo: Unesp. (Trabalho original
publicado em 1998.)

Machado, A., Lourenço, O., Pinheiro, A., & Silva, C. (2004). As duas faces
de Janus da psicologia em Portugal. Análise Psicológica, 22(2), 319-333.

Machado, A., Lourenço, O., & Silva, F. J. (2000). Facts, concepts, and theo­
ries: the shape of psychology’s epistemic triangle. Behavior and Philosophy,
28, 1-40.

Machado, A., & Silva, F. J. (2007). Toward a richer view of the scientific me­
thod: the role of conceptual analysis. American Psychologist, 62(7), 671-681.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

Mariconda, P. R. (2006). O controle da natureza e as origens da dicotomia
entre fato e valor. Scientiae Studia, 4(3), 453-472.

Mullarkey, J. (2009). The future of continental philosophy. In J. Mullarkey
& B. Lord (Eds.), The continuum companion to continental philosophy (pp.
259-275). London: Continuum.

Paty, M. (1993). Einstein, cientista e filósofo? Estudos Avançados, 7(19),
91-130.

Rorty, R. (1982). Consequences o f pragmatism (Essays: 1972-1980). Minnea­
polis, MN: University of Minnesota Press.

Santos, B. S. (2004). Um discurso sobre as ciências, São Paulo: Cortez. (Tra­
balho original publicado em 1987.)

Schultz, D. P., & Schultz, S. E. (1996). História da psicologia moderna (8a
ed.) (A. U. Sobral & M. S. Gonçalves, Trads.). São Paulo: Cultrix. (Trabalho
original publicado em 1992.)

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf.

Todd, J. T , & Morris, E. K. (1983). Misconception and miseducation: pre­
sentations of radical behaviorism in psychology textbooks. The Behavior
Analyst, 6(2), 153-160.

Tourinho, E. Z. (1999). Estudos conceituais na análise do comportamento.
Temas em Psicologia, 7(3), 213-222.

W undt, W, (1897). Outlines o f psychology (C. H. Judd, Trad.). Leipzig: Wi­
lhelm Engelmann. (Trabalho original publicado em 1895.)

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

Metodologia da pesquisa
conceituai em psicologia

Carolina Laurenti

Carlos Eduardo Lopes

Embora não seja suficiente para caracterizar a complexidade de aspectos
que definem a pesquisa científica, o uso de métodos contribui para dar visibi­
lidade aos critérios que servirão de pedra de toque para aferir a plausibilida­
de das hipóteses levantadas no decurso da investigação científica, bem como
a confiabilidade dos resultados obtidos. Isso é bastante evidente quando se
trata de pesquisas empíricas, pois, nesse caso, a explicitação do itinerário
metodológico é um dos principais responsáveis pela pragmática da pesquisa,
permitindo reprodução, avaliação e eventual correção dos resultados, por
diferentes pesquisadores (Kõche, 2002).

Q uando a pesquisa é de natureza conceituai, a questão do m étodo geral­
mente perde destaque, conduzindo à ideia de que esse tipo de pesquisa
seria refratário à discussão de aspectos metodológicos. Isso, muitas vezes,
acaba relegando a pesquisa conceituai a um tipo de “pesquisa m enor” e,
algumas vezes, cria suspeitas quanto ao seu próprio status de pesquisa
(Laurenti, 2012).

Considerando esse panoram a, este capítulo parte da ideia de que a pesqui­
sa conceituai apresenta uma metodologia específica, o que garante não ape­
nas seu status de pesquisa, mas também seu papel no desenvolvimento da
psicologia em geral (Abib, 1996; Machado, Lourenço, & Silva, 2000; Ma­
chado & Silva, 2007; Petocz & Newbery, 2010; Tourinho, Carvalho Neto,
& Neno, 2004). Uma vez que a noção de metodologia é mais ampla que a
de métodos e técnicas (cf. Minayo, 2010, pp. 43-44), o objetivo deste capítu­

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

lo é apresentar um procedimento metodológico para pesquisas conceituais
em psicologia, contextualizando-o em características basilares desse tipo de
pesquisa, como seu objeto de estudo, objetivo, níveis de análise, escopo e
pressupostos filosóficos.

Com isso não se pretende esgotar o assunto, tampouco apresentar uma lei­
tura cabal dos compromissos filosóficos da pesquisa conceituai, ou delinear
uma definição absoluta com procedimentos metodológicos definitivos. O
que se segue é uma tentativa de sistematizar algumas reflexões e propostas
de desenvolvimento de pesquisa conceituai em psicologia, de modo a jus­
tificar sua importância e, principalmente, auxiliar no ensino desse tipo de
pesquisa na graduação e pós-graduação.

Espera-se que as diretrizes metodológicas, bem como as discussões a respei­
to da pesquisa conceituai tecidas neste livro, possam também ser úteis ao
desenvolvimento das diversas correntes e ramos da ciência psicológica, de
modo que a pungente constatação de Wittgenstein (1953/1975), “existem
na psicologia métodos experimentais e confusão conceituai” (p. 226), possa
ser, ao menos, atenuada.

1. Objeto, objetivo, níveis de análise e escopo
da pesquisa conceituai

O que é pesquisa conceituai? Uma forma de tentar responder a essa ques­
tão consiste em, primeiramente, delimitar o objeto de estudo desse tipo de
pesquisa. De acordo com Machado, Lourenço e Silva (2000): “investigações
conceituais sempre são relativas a uma teoria particular” (p. 22), No en­
tanto, ao invés de dar uma resposta à pergunta inicial, isso coloca um novo
questionamento ainda mais complicado: em que consiste uma teoria e, em
especial, uma teoria psicológica? A questão é espinhosa, pois “na maior par­
te dos casos usa-se ‘teoria’ sem se definir o que se entende por esse termo
e confiando-se numa compreensão intuitiva do uso do vocábulo” (Ferrater
Mora, 1994/2001, p. 2852). Além disso, o termo teoria participa de uma
diversidade de controvérsias filosóficas, como as distinções entre teoria e

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

prática, teoria e práxis, ou teoria e ação; as diferenças e semelhanças entre
teoria, princípio, lei e hipótese; a natureza e a estrutura das teorias científi­
cas; a relação entre teoria e fatos; o estatuto cognitivo das teorias, e assim
por diante (cf. Ferrater Mora, 1994/2001, pp. 2851-2852).

Uma maneira de não se comprometer com a discussão dessas dificuldades, o
que ultrapassaria o escopo deste texto, é adotar uma definição mais genérica
de teoria como “um corpo coerente de conhecimentos sobre um campo de
objetos” (Ferrater Mora, 1994/2001, p. 2852). Assim, a teoria psicológica
poderia ser entendida como um conjunto de enunciados verbais a respeito
do campo psicológico (Machado, Lourenço, & Silva, 2000). Os enunciados
verbais de uma teoria psicológica compõem uma trama conceituai ou uma
rede de conceitos, que, espera-se, sejam articulados entre si de modo coeren­
te e não contraditório, fornecendo uma definição e explicação dos fenôme­
nos psicológicos. Na medida em que a trama conceituai que compõe uma
teoria é escrita, a teoria psicológica pode ser considerada um texto (Abib,
1996). Desse modo, a pesquisa conceituai pode ser definida como uma in­
terpretação da teoria ou texto psicológico.

Para a construção dessa interpretação, a pesquisa conceituai pode assumir
diferentes níveis de análise da teoria ou texto psicológico. Em um nível
mais restrito, a investigação conceituai interroga e interpela a teoria psico­
lógica sondando “os conceitos nucleares da teoria, seus significados e suas
gramáticas” (Machado, Lourenço, & Silva, 2000, p. 23). Trata-se de fazer
um escrutínio da teoria psicológica, explicitando as “regras” que regulam o
uso de conceitos da teoria em diferentes contextos (Machado, Lourenço, &
Silva, 2000; Machado & Silva, 2007)l6. Em que consistiria, por exemplo, o
conceito de expectativa em uma dada teoria psicológica? A elucidação do
uso do conceito pode m ostrar que expectativa descreve regularidades na
sucessão entre eventos, sendo frustrada quando a regularidade é interrom ­
pida sem aviso prévio (cf. Machado, Lourenço, & Silva, 2000, p. 24). Ra­
ciocínio semelhante estende-se para o esclarecimento do uso de metáforas

16 É o caso de situar um conceito em um “jogo de linguagem" (Wittgenstein, 1953/1975} ou de
pôr às claras o uso de conceitos psicológicos em uma teoria, a exemplo das análises de Ryle (1949}
de conceitos mentais.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

ou de termos oriundos de diferentes áreas de conhecimento na linguagem
comum de uma dada teoria psicológica (Machado & Silva, 2007).

A pesquisa conceituai pode partir para um nível de análise sistêmico, mos­
trando, que em uma teoria, um dado conceito está associado a outras no­
ções ou conceitos, e que sua compreensão exige justamente a explicitação
dessa rede de relações. Por exemplo, uma análise sistêmica do texto de
Skinner (1969) intitulado Comportamento Operante, mostra que a elucida­
ção do conceito de comportam ento depende de outros conceitos correla-
tos como ação, consequência, antecedente, classe, probabilidade, relação
funcional, contingência. Ainda nesse nível de análise, o conceito pode ser
investigado em diferentes textos de um mesmo autor, dando visibilidade às
suas eventuais mudanças e inflexões (isto é, sua evolução). Continuando o
exemplo, a tarefa seria sondar o conceito de comportam ento em diferentes
textos de Skinner.

O utro nível de análise conceituai seria interpelar os conceitos psicológicos
com as categorias da filosofia, dando relevo às afinidades filosóficas do
núcleo conceituai de uma teoria psicológica. Isso perm itiria filiar o texto
psicológico a certos compromissos filosóficos, como determ inadas meta­
físicas (mecanicísmo, pluralismo, substancialismo); epistemologias (empi­
rismo, instrumentalismo, realismo); teorias éticas (utilitarismo, egoísmo
ético, hedonismo); ideologias políticas (anarquismo, liberalismo, indivi­
dualismo, utopismo), e assim por diante. Nessa perspectiva de análise, po­
dem ser evidenciadas, por exemplo, afinidades do conceito skinneriano de
relações funcionais com uma metafísica mecanicista (Marr, 1993), em bora
esse mesmo conceito já tenha sido analisado em termos de uma visão de
mundo contextualista (Morris, 1988). Do ponto de vista epistemológico,
é possível destacar tendências realistas (Simanke, 2009) ou instrum enta­
listas (Fulgêncio, 2003) da rede conceituai que compõe a metapsicologia
freudiana. Em relação ao campo ético, o conceito de moralidade de Piaget
já foi discutido em term os de um “kantismo evolutivo” (Freitas, 2002),
embora La Taille (2006) argum ente que a motivação das ações morais não
pode ser compreendida em Piaget sem referência ao conceito de afetivida­
de - nesse sentido, a teoria moral piagetiana não poderia ser identificada
integramente com a concepção de Kant. No âmbito político, Patto (1984),

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

políticos. e o próprio texto. 2005. estéticos. Willis) e de sua formulação mais bem-acabada (com G. considerou o behaviorismo como um instrum ento de dominação. do ponto de vista INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Para tanto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! seguindo uma análise de Deleuze. Prochaska). 54). já que eles. Esses diferentes níveis de análise mostram que. envolve uma análise intertextual. metafísicos. A autora mostra uma mudança nessa rede conceituai entre as décadas de 1930 e 1980. a dimensão histórica da pesquisa conceituai “faz perguntas contextuais e procura respostas na história intelectual e cultural do texto” (Abib. pressupostos filosóficos e contexto histórico (Abib. indicando o momento de seu aparecimento (com T. por meio de uma “biologização” do conceito de comportam ento. na qual são examinadas as inter-relações entre texto psicológico. 2005). estão situados em uma dada época e cultura. a depender de suas dimensões de análise. Nessa perspectiva analítica. por influência de diferentes modelos de ciência (físico-químico e biológico). Situar o núcleo conceituai do texto em sua moldura histórica significa tam ­ bém acionar um exame do Zeitgeist e das visões de mundo que vigoravam em uma dada época. sondando uma gama de aspectos: culturais. em documentos (por exemplo. correspondências e testemunhos de colegas e discípulos e até mesmo na investigação da orientação intelectual de colaboradores” (p. e assim por dian­ te. o conceito é contextuali- zado em um dado período histórico ou em diferentes períodos. como em “autobiografia e biografias do autor do texto. O trabalho de Micheletto (1995) é um exemplo de análise histórica da rede conceituai envolvida na noção de ciência do comportamento na obra de Skinner. 54). que opera m ascarando a historicidade da so­ ciedade. p. anais e resumos de congressos. ideológicos. ao descrever a traje­ tória do conceito de reflexo ao longo dos séculos XVII e XVIII. participação em associações profissionais). Uma análise histórica mais ampla de um conceito é feita por Canguilhem (1955/1975). a pesquisa conceituai. enquanto Holland (1978) descreveu afinidades dessa mesma teoria com valores socialistas e revolucionários. éticos. Tais respostas podem ser encontradas em diversas fon­ tes. Assim. que vigoravam nesse período. Mas o esclarecimento conceituai do texto também pode advir de uma análise histórica dos conceitos. econômi­ cos.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Supondo ainda que algu­ mas teorias psicológicas podem ser consideradas científicas. Ferrater Mora. Como a pesquisa conceituai pode envolver também uma intertextualidade. por sua vez. Santos. A depender do nível de complexi­ dade da investigação pretendida. o intérprete precisa não só exibir um razoável domínio com respeito à teoria psicológica de interesse. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! da história. ou de seus pres­ supostos filosóficos. Pode ser demandado: (i) o estudo de um conceito em um único texto de um autor. 1994/2005. 1996). ela requer um relativo do­ mínio da teoria psicológica que se quer investigar. filosofia e sociologia das ciências. mas também ter uma formação mínima em filoso­ fia e história das ciências. exigindo. (iii) o exame de dois ou mais conceitos em um ou vários tex­ tos de um mesmo autor. (ii) a investigação de um conceito em vários textos de um mesmo autor. a pesquisa conceituai pode assumir contornos mais “internalistas”. Mas quando abrange também a análise histórica dos conceitos. cor­ respondências. portanto. é necessário conhecer as discussões basilares em ciência para situar minimamente o nú­ cleo conceituai em exame nesse âmbito. anais de congressos etc. Em cada uma dessas propostas de estudo exige-se um grau de familiaridade distinto com a teoria psicológica sob investigação. na qual um ou mais conceitos seriam examinados em textos de diferentes autores. O esclarecimento filosófico do conceito envolve o conhecimento das categorias basilares da filosofia. o pesquisador conceituai precisa. mais será mobilizado do intérprete para a pesquisa conceituai. a pesquisa conceituai pode acabar ofuscando os limites entre “in- ternalismo” e “externalismo” (cf. 2002. A depender do escopo da investigação proposta. quando se volta estritamente para uma análise do uso de um conceito. são polissêmicas. como o escrutínio de diferentes tipos de documentos (biografias. que.). Tendo em vista as suas diferentes possibilidades de análise. 1987/2004). Já a análise histórica de conceitos pode mobilizar algumas técnicas de investigação típicas do historiador. o recurso à história da filosofia para sua elucidação preliminar (Abib. como será discutido adiante) uma série de habilidades. uma pesquisa conceituai exige do pesquisador (ou intérprete do texto. por vezes. 985-986). Por exemplo. Em uma pesquisa ainda mais ampla. de sua rede conceituai. autobiografias. como a problemática dos diferentes modelos de ciência (Kõche. pp. o intérprete teria de dominar as teorias envolvidas nessa proposta de pesquisa.

contudo. então. já que eles podem filiar a pesquisa conceituai a diferentes compromissos filosóficos. cuja natureza não admite erro. Se isso for assim. esperando que um intérprete qualificado o traga INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 1986/2002. o objetivo de uma pesquisa conceituai em psicologia seria propor uma interpretação do texto psicológico. de modo a propiciar um conhecimento suficiente para esclarecer os diferentes sentidos dos conceitos do texto psicológico. cabendo ao intérprete descobri-lo. O processo de esclarecimento do significado do texto pode ser denominado interpretação. 2. 1992/2001. que o texto é “fechado”. filósofo e historiador. A noção de interpretação. então. Uma pesquisa conceituai orientada por essa concepção de interpretação pressupõe que o significado de um con­ ceito está latente no texto. envolve uma vasta e calorosa discus­ são a respeito de sua definição (cf. Ricoeur. jamais ao texto como tal. mais especificamente. A origem de tal acepção remonta à atividade de exegese dos textos bíblicos. Compromissos filosóficos da pesquisa conceituai: notas sobre interpretação Como apresentado alhures. o sentido que ele quis dar ao escrevê-lo. que busca por um sentido Verdadeiro e. 1969/2003). Logo. Nesse contexto original. 1969/2003. há ape­ nas um significado ou itinerário possível. Eco. Pode-se dizer. o texto psicológico. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! de uma formação plural. portanto. e o principal objetivo desse tipo de pesquisa é esclarecer os conceitos que com­ põem esse texto. serão discuti­ dos neste texto apenas três sentidos emblemáticos de interpretação. A concepção mais tradicional de interpretação (e por vezes ainda defendida em pesquisas conceituais em psicologia) considera que interpretar é desco­ brir a intenção do autor do texto. único desses textos (Ri­ coeur. o objeto de estudo de pesquisas conceituais em psicologia é a teoria psicológica ou. Vitorino. a justificativa para definir inter­ pretação como descoberta do verdadeiro sentido do texto é evidente: como o texto sagrado é uma revelação divina. ou seja. 2006). seu verdadeiro autor é Deus. toda e qualquer ambiguidade e incoerência devem-se às falhas do intérprete. A despeito dessa complexidade. trilhando o curso interpretativo correto. como cientista. e muito menos ao seu autor.

consiste na dificuldade de se tomar uma decisão quanto a quem descobriu o verdadeiro significado do texto: na dis­ puta entre duas interpretações conflitantes. ao interpretar um texto. 1992/2001). e assim por diante. que de certo modo decorre desses questionamentos. paradoxalmen­ te. Dessa perspectiva. Uma vez descoberto o sentido verdadeiro dos textos que compõem a obra de um autor. é o intérprete qualificado para desvendar o verdadeiro significado do texto17. o princípio de autoridade. a interpretação seria ilegítima porque “não foi isso que o autor quis dizer”? O autor teria. Mesmo que essa dificuldade possa ser contornada. Isso porque. por meio de um mapeamento exaustivo de fontes biográficas e autobiográficas. subscrevendo uma postura dogmática na pesquisa conceituai. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . a quem outorgar a chancela da interpretação verdadeira? Mais ainda: como saber quando se esgotaram as possibilidades de sentido de um texto? Essas questões geralmente são termi­ nadas com argumentos de autoridade. mesmo que a intenção do autor possa ser considerada. portanto. Uma das críticas a essa concepção clássica de interpretação é que a “desco­ berta” do significado originário da obra ou da intenção do autor. ainda resta considerar a possibilidade de que o texto não seja completamente fechado a interpretações diversas. O leitor. Em outras palavras. o “Verdadeiro James”. o “Verdadeiro Skinner”. prerrogativa na avaliação da interpretação? Será que o autor é isento de falhas? Ou. uma “fran­ 17 Embora seja uma característica medieval. ao mesmo tempo em que a modernidade criticou a autoridade nas ciências naturais. presente nesse modo de conceber a interpretação. que. não podendo mais captar todas as condições que estavam presentes quando da gênese do texto. será que o autor tem total controle de seu texto? Outra objeção. 1992/2001). um relato autobiográfico (a intenção declarada do autor ao redigir o texto). o objetivo de uma investigação conceitua] em psicologia seria esclarecer o sentido dos textos buscando-se. ainda. tomando-se por base. por exemplo. o faz a partir de sua própria história de vida pessoal e cultural. decorre mais diretamente da modernidade. por exemplo. “o Verdadeiro W undt”. em relação aos leitores de seu tempo. o “Verdadeiro Freud”. Esse modo de considerar a interpretação traz consigo ainda outra característica clássica: a defesa da autoridade. Nesse caso. 2006). nesse caso. é praticamente impossível (Eco. continuou aceitando-a c defendendo-a como critério para a validação de interpretações de textos no âmbito das ciências morais (Martconda. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! à tona. ainda assim é possível que o texto “escape ao controle do autor”. abrindo caminhos interpretativos inicialmente imprevisíveis (Eco.

fica difícil encontrar critérios para decisão quanto à adequabilida- de de uma dada interpretação. interpretações ulteriores deveriam se reportar a essa interpretação canônica para tratar dos mesmos textos. pois ele agora é considerado tão flexível e maleável quanto for o processo interpretativo do leitor. Isso quer dizer que a “autoridade” do autor é substituída pela liberdade do intérprete. No entanto. o objetivo da pesquisa conceituai seria INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Desse modo. assume-se que o autor do texto nunca tem controle de todas as possibilidades de significação por parte do seu intérprete (Eco. interpretar passa a ser entendido como o processo de invenção ou criação de significados de um texto. por meio de elementos biográficos e autobiográficos que tornariam a interpretação legítima. a segunda é demasiado inclusiva: qualquer interpretação seria adequada. Recorrendo às características irremediavelmente ambíguas da linguagem. declara-se a “morte do autor”. Se a primeira concepção de interpretação é excludente. Essa acepção opõe-se em vários aspectos à ideia de que interpretar é descobrir ou revelar o significado oculto do texto. Ricoeur. Em outro extremo. 1986/2002). em princípio. O texto seria vazio. Em última instância. por conseguinte. Com efeito. constituindo uma interpretação canônica . portanto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! quia intelectual” é pleiteada. muitas vezes. Consequentemente. 1992/2001). conta com a “aprovação” do próprio autor. argumenta-se que tudo que é dito é passível de ser interpreta­ do de modos diversos e até mesmo contraditórios (cf. válida. sucumbindo passivamente à ati­ vidade criativa do intérprete. Uma das principais críticas a essa proposta é justamente a ênfase exagerada no leitor ou intérprete (Eco. havendo apenas uma única interpretação possível. qualquer leitura é. Dessa perspectiva. esse modo de conceber a interpretação também acaba por promover a “morte do texto”. a ideia de que existam interpretações incorretas ou equivocadas.o que. 1992/2001). pois é apenas a leitura do intérprete que dará sentido ao texto. a interpretação parece re­ pousar única e exclusivamente no processo de imaginação do leitor. Desse modo. O texto seria. Assumindo que o texto é indefinidamente aberto em suas possibilidades interpretativas perde-se. reiterando-a e jamais colocando-a em xeque. Aqui. não se exige aqui um “intérprete qualificado”. infinitamente aberto: o sentido de um texto nun­ ca poderia ser estabelecido de uma vez por todas.

admite-se que há uma contribuição positiva do intérprete: ele pode construir sentidos por meio de diversas relações textuais (biográficas. 1986/2002). 1969/2003. antropológicas etc. de James etc. tantos “Freuds”. O texto permanece aberto a interpretações que ultrapassem a intenção do autor. ou seja. o “Verdadeiro Freud”. entende que interpretar é construir um significado na inter-relação entre autor. como no caso de correspondências. o “Verdadeiro Skinner”. a depender do background filosófico e cultural do intérprete. de Skinner. de W undt. propostas inconsis­ tentes ou contraditórias entre si podem ser combinadas livremente. Uma terceira possibilidade. mas isso não é a última palavra. e para todos os problemas advindos desse posicionamento. Ricoeur.). 1992/2001. pois. “W undts” e “James” quanto forem seus intérpretes. Como discutido anteriormente. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! proliferar diferentes significados possíveis dos textos de Freud. Por outro lado. A noção de construção opõe-se à ideia de que interpretar é descobrir um significado latente. Além disso. discussões políticas e outros fatores que foram invisíveis ao autor do texto. 1992/2001). deixando de ser um proble­ ma. não parece haver lu­ gar para disputa ou controvérsia. Assim. também pode ser ocasião para o ecletismo na pesquisa conceituai: como não há critério de exclusão entre interpretações. por meio de uma investigação conceituai. o “Verdadeiro W undt”. isso não significa que qualquer interpretação é INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Em outras palavras. o processo de interpretação pode filiar o texto a tradições de pensa­ mento. pois como não há critério para avaliação dessas diversas interpretações. Por outro lado. é até possível encontrar evidências da intenção do autor para escrever o texto. filosóficas. Dessa perspec­ tiva. Há. leitor e texto (Eco. A depender do tipo de fonte em que se baseia a inter­ pretação. com a justificativa de se conferir uma nova interpretação da obra de um autor. Nesse ponto. o texto pode dizer mais do que o autor quis dizer (Eco. mas que nem por isso são menos possí­ veis. seria improcedente buscar. “Skinners”. as contradições que eventualmente surgirem entre elas não poderão ser enfrentadas. como a falta de uma avaliação rigorosa das interpretações propostas. compromissos filosóficos. sociológicas. o “Verdadeiro James”. mais afinada com as proposições deste capítu­ lo. autobiográficas. Essa concepção abre o flanco para o completo relativismo na pesquisa conceituai. econômicas. o texto psicológico pode ser analisado em diferen­ tes níveis. biografias e autobiografias. as contradições tornam-se imanentes ao processo interpretativo.

outras possíveis. o texto exibe certa autonomia em relação ao seu autor. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! permitida. depois de publicada. genericamente. entre ou­ tros. havendo. (ii) natureza das fontes (se são fontes primárias. de acordo com critérios estabelecidos. Certamente. Vale mencionar INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . as principais discussões a respeito da noção de interpretação é importante. níveis de análise. mas para avaliar sua adequação e o papel de seus procedimentos metodológicos. oriundas de edições confiáveis). falácias ou equívocos filosóficos). mas também em relação ao leitor. que não está autorizado a “forçar uma interpretação”. Em outras palavras. ser definida como o processo de interpretação de textos. escopo e compromissos filosóficos da pesquisa conceituai. é o momento de apresentar uma proposta de procedimento para a realização deste tipo de pesquisa. Assim. Em suma. uma “superinterpretação” (Eco. sejam apresentadas. por mais que a pesquisa conceituai possa. (iv) apreciação crítica da comunidade acadêmica (se. a interpretação proposta resiste às críticas). Diretrizes metodológicas da pesquisa conceituai Uma vez descritos objetivo. não só para que se possa compreender melhor o processo de investigação conceituai. interpretações confiáveis podem ser alcançadas e perdurarão até que interpretações mais fiáveis. o texto é aber­ to a uma pluralidade de interpretações. Com isso. a apresentar uma interpretação sem o devido amparo textual. 1992/2001). a relação com o ob­ jeto de estudo (o texto psicológico) ganha matizes distintos a depender da concepção de interpretação que orienta a investigação. (iii) apoio textual (se é possível identificar claramente as partes do texto que justificam a in­ terpretação proposta). O limite entre “várias” e “qualquer” é dado por critérios de avaliação de uma interpretação em termos de: (Í) consistência lógico-filosófica (se é isenta de contradições. a partir dos quais é possível identificar erros ou equívocos interpretativos (Eco. mini­ mamente. ou seja. 1992/2001). mas não a qualquer interpretação. 3. portanto. pois o texto estabelece limites intransponíveis. tra­ ta-se de uma proposta. Conhecer. objeto.

Esse procedimento INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 2000. a pesquisa propriamente dita. O método demarca. Há diferentes modelos de projeto de pesquisa. é na seção de método que surgem as principais dúvi­ das quando se tenta elaborar um projeto de pesquisa conceituai. 2013). Contudo. 2010. 2002. Um projeto de pesquisa não é. Em linhas gerais. uma pesquisa conceituai precisa ser descrita nos moldes de um projeto de pesquisa. pela delimitação de um tema e pela formulação de uma pergunta de pesquisa. os demais aspectos de um projeto. Volpato. será apresentada uma descrição de um procedimento de construção de interpretações de textos. Uma descrição pormenorizada de como elaborar um projeto de pesquisa pode ser encontrada em diferentes livros e manuais de metodologia científi­ ca (e. Kóche. A elaboração de um projeto de pesquisa conceituai segue estes mesmos pa­ râmetros: passa pela escolha do assunto. Independentemente de algumas especificidades. as considerações sobre como elaborar um projeto de pesquisa podem ser devidamente ajusta­ das a um problema de pesquisa de natureza conceituai. Como qualquer outro tipo de investigação científico- -acadêmica. qual é o caminho investigativo que será trilhado para a obtenção das informações necessárias para se responder ao problema de pesquisa ou para atingir os objetivos. de modo mais sistemático. Como isso pode ser feito no caso de uma pesquisa conceituai? Considerando a necessidade de se mostrar. a justificati­ va da pesquisa. e que variam conforme a instituição na qual será realizada a investigação. que expõe um plano de ação para que se avalie a relevância e a viabilidade de sua execução. um projeto de pesquisa apresenta alguns elementos básicos. operacionalmente. Severino. Com base nesses elementos.. 2003.g. os objetivos. como a introdução. Lakatos & Marconi. como lidar com o objeto de estudo de uma pesqui­ sa conceituai (o texto psicológico). um projeto de pesquisa é um documento sintético (cerca de vinte laudas). mas um a proposta de investigação acerca de uma problemática específica. o método e o cronograma de execução podem ser redigidos. portanto. Como a pesquisa conceituai também segue as diretri­ zes lógico-formais de uma pesquisa científico-acadêmica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! que todo procedimento metodológico só faz sentido quando situado em uma proposta de pesquisa. Minayo. que são definidos conforme a lógica de cada tipo de pesquisa. usualmente.

mantendo sempre no horizonte suas limitações para uma investigação conceituai. Honda. for escrito em um idioma distinto daquele do intérprete. p. Por exemplo. se se trata de um INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 2012. alvo de exame. como a dentadura ou os óculos. antes de analisar os textos de acordo com as diretrizes desse procedimento. Skinner. 1968. O procedimento de seleção dos textos de uma pesquisa conceituai depen­ derá também do escopo da investigação. 1968/1972. 18). Skin- ner. Em ou­ tros casos. 2011). Se a leitura do texto na língua ori­ ginal do autor for realmente inviável. uma alternativa seria buscar traduções comentadas e conhecer as recensões sobre as traduções dos conceitos mais importantes do texto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! pode ser aplicado com cada um dos textos que foram escolhidos como objeto de investigação da pesquisa. p. Seleção dos textos Uma investigação conceituai precisa lidar com o texto do autor em sua lín­ gua original. na qual não constam. mudando completamente o sentido original (cf. no caso. Isso porque “nem sempre as traduções fazem justiça ao pensa­ mento do autor” (Eco. Por esses e outros problemas. 48). p. Resenhas. como da partícula ne­ gativa na tradução para o português de uma frase do livro Verbal Behavior. Skinner. 1957/1978. o domínio de alguma língua estrangeira quando o texto psicológico. Por isso. 39). análises ou discussões elaboradas por comentadores são fontes secundárias (Eco. o texto do autor na sua língua vernácula. portanto. Outro problema consiste na omissão de palavras ou termos. Existem importantes implicações teóricas do uso de determinados termos nas traduções. Tradução. algumas traduções podem deixar lacunas em relação ao texto primário. como diz Eco (1977/2010). ou de “primeira m ão”. como é o caso da tradução para o português de The Technology o f Teaching de Skinner. 169). 180). 1977/2010. recomenda-se que a pesquisa conceituai lide com fontes primárias. 3. Estêvão. na tradução brasileira (cf. é preciso discutir como selecioná-los. A pesquisa conceituai requer. não é sequer fonte: “é uma prótese. um meio de atingir de forma limitada algo que se acha fora do alcance” (p. alguns trechos (cf. como se verifica na celeuma em torno da tradução do conceito de Trieb para instinto ou pulsão em textos psicanalíticos de Freud (cf. 1977/2010).1. p.

Essa informação pode ser encontrada consultando artigos es­ pecíficos. há um procedimento suplementar para a seleção dos textos. do confronto entre dois ou mais textos de um autor. Freud (Freud. m ostrando que se trata de um texto em blem ático p ara um período da obra. o levantamento das obras de um autor pode ainda ajudar a decidir como operar recortes cronológicos e outras questões específicas desse nível de análise. A despeito disso. contexto histórico. ou que marca uma transição importante. No caso de pesquisas conceituais que utilizarão um livro ou conjunto de livros de um autor. & Isakower. Kris. portanto. edições críticas e outras fontes que apresentam uma lista dos trabalhos publicados do autor18. 1977). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! texto de um único autor. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . ao final. compromissos filosóficos. uma lista dos principais conceitos tratados no livro. índices de obras completas. Skinner. No caso de pesquisas conceituais históricas. Trata-se do índice remissivo ou index do 18 Alguns exemplos dessas fontes são: a bibliografia comentada de William James (McDermott. Vale ressaltar que eventualmente a lista de publicações de um autor é atualizada com textos que tinham sido ignorados em um primeiro momento. e assim por dian­ te. A maioria dos livros em língua estrangeira (infelizmente no Brasil isso é raro) traz. a lista de trabalhos publicados pode aju­ dar a avaliar se os textos inicialmente considerados para elaborar a pesquisa são suficientes e adequados para os objetivos propostos. com a respectiva paginação. 1952). Micheletto c Sério (2004) sobre os trabalhos publicados de B. Depende também do nível de análise pretendido: uso de um conceito. rede conceituai. Como a elaboração de um projeto de pesquisa conceituai já supõe alguma familiaridade com a obra do autor. a Gesammelte Werke de S. os ar­ tigos de Carrara (1992) e de Andery. F. é preciso fazer um levantamento da(s) obra(s) do(s) autor(es) do(s) texto(s) analisado(s). a lista de obras pode ser em pregada para justificar a escolha de um texto especí­ fico do autor. é importan­ te levar isso em consideração ao buscar essa informação. Além disso. Bibring. da relação entre textos de diferentes autores. a escolha das fontes sempre será orientada pelo problema de pesquisa: que texto ou conjunto de textos poderiam conter as informa­ ções necessárias para se alcançar o objetivo da pesquisa? Em primeiro lugar. e assim por diante. Hoffer.

de m ostrar a maneira como uma proposta de interpretação foi cons­ truída. além de auxiliar na identifica­ ção de seus compromissos e afinidades filosóficos. culminariam em uma in­ terpretação alternativa. Isso quer dizer que com a busca nos indexes é possível ampliar o nível de análise de uma pesquisa de um conceito para um conjunto de conceitos que estariam inter-relacionados na obra do autor. que pode ser vislumbrada acrescentando-se algumas diretrizes descritas no capítulo A investigação histórica de teorias e conceitos psicológicos: breves considera­ ções metodológicas. Trata-se. que. sendo cada um a delas subdividida em passos. De antemão. a consulta ao índice remissivo pode ser substituída por uma busca direta pelos conceitos no corpo do texto. Procedimento de interpretação conceituai de texto: conceituação e etapas Uma vez definidos quais textos serão analisados durante a execução da pes­ quisa. se corrigidas. empregando recursos como "CTRL + F” ou mecanismos de busca de aplicativos para leitura de e-books. diferentemente do que acontece com muitas pesquisas empí­ ricas. vale ressaltar que. Do modo como será apresentado. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . O procedim ento não abarca. O Procedimento de Interpretação Conceituai de Texto (PICT) é um a manei­ ra de construir interpretações e. o PICT está voltado para a análise do uso de um conceito ou da rede conceituai de um texto psicológico. Além de ser um recurso bastante ütil para a seleção de textos em um livro . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! livro19. isto sim. a dimensão histórica da análise conceituai. Uma descrição sum ária e esquem ática deste procedim ento 19 Quando for possível acessar um livro em formato eletrônico. abrindo a possibilidade de críticas que apontem falhas nesse processo. é preciso descrever como essa análise será feita. o itinerário interpretativo.indicando em quais capítulos o conceito é tratado a busca por conceitos em índices remissivos permite a construção de uma rede concei­ tuai. a descrição de procedimentos metodológicos em pesquisa conceituai não tem a função de garantir a reprodutibilidade dos resultados. O PICT é com posto por quatro etapas. portanto. 3. produzir material pertinente ao desenvolvimento de pesquisas de natureza conceituai.2. portanto.

) e o(s) parágrafo(s) (§) nos quais elas podem ser futuramente localizadas. fi­ losóficas) que julgar importante (o parâmetro desse julgamento é o problema de pesquisa: diferentes problemas de pesquisa demarcam conceitos distintos). Para ilustrar de m odo concreto cada passo. em todas as partes do texto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . ao final dessa caracterização o leitor encontrará um exemplo de regis­ tros produzidos pela aplicação do PICT ao texto The scope o f psychology (O escopo da psicologia). no texto. numere todos os parágrafos do texto. trata-se apenas de um recurso didático para m ostrar como aplicar o procedim ento em um “texto real”. ao mesmo tempo em que cumpre o critério de apoio textual da interpretação construída. citando a(s) página(s) (p. Isso não quer dizer que a análise completa desse texto será descrita aqui ou que um a interpretação acabada será apresentada ao final (o que evidentem ente excederia os limites e os objetivos deste capítulo). transcreva as definições entre aspas. acrescentando outros elementos. Isso significa registrar tudo aquilo que foi dito sobre cada conceito e doutrina. ou seja. os conceitos e doutrinas (psicológicas. de William James (1890/1955). As vezes.o que deve ser feito de modo literal diminuem-se as chances de uma “superinterpretação”. O problema de pesquisa é o que es­ tabelece. Para tanto. Primeira etapa: levantamento dos principais conceitos do texto Esta etapa consiste em listar os principais conceitos citados no texto e de­ fini-los pautando-se no próprio texto. A etapa subdivide-se em quatro passos: Passo 1: grife e enumere. Como a etapa exige que os conceitos listados sejam definidos pelo próprio texto . em um primeiro momento. E preci­ so ficar atento a esse movimento. Passo 5 : anote todos os resultados. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! será apresentada a seguir. se um conceito é “principal” ou “se­ cundário”. Passo 2 : tente encontrar a definição de cada conceito e doutrina no próprio texto. o autor retoma o conceito em diferentes momentos do texto.

de ética. A articulação das teses do texto se dá em termos de: i) teses tradicionais . teorias ou doutrinas.os problemas que o autor do texto menciona em relação às teses tradicionais. Segunda etapa: caracterização das teses do texto Esta etapa tem o objetivo de apresentar o texto em termos de sua estrutura conceituai.afirmações feitas por outros autores. Anote a definição e registre que ela foi encontrada em outra fonte. explicitando a articulação de teses. o uso de argum entos retóricos falaciosos para 20 Alguns exemplos dessas obras de referendas podem ser encontrados no capítulo A investigação histórica de teorias e conceitos psicológicos: breves considerações metodológicas. você terá que recorrer a outros textos do mesmo autor. indicando em que sentidos são defendidos e criticados. de metafísica20). aqui. você deve buscar definições em obras de referência. No caso de doutrinas “indefinidas”. Isso será importante para avaliar. Esta etapa tam bém perm ite uma avaliação crítica do autor. como confundir tese tradicional com tese al­ ternativa). ü) críticas . portanto. iii) teses alternativas . isso indica que o texto não é apropriado e. filosofia etc. a identificação da estrutura concei­ tuai de um texto evita um dos equívocos interpretativos mais grosseiros: dizer que um autor está defendendo aquilo que ele critica. A prim eira contribuição desta etapa é explicitar o posicionam ento do au­ tor em relação aos conceitos investigados. e que serão discutidas e criticadas pelo autor do texto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Passo 4 : faça uma lista dos conceitos e doutrinas cujas definições não foram encontradas no texto. ou vice-versa (o que é entendido.) ou compêndios (de epistemologia. posteriormente. como dicionários específicos (de psicologia. Uma tese é uma afirmação que o autor faz em relação a um determinado assunto. Se um desses conceitos “indefinidos” for prioritário para o seu problema de pesquisa. diferente do texto. do qual participam os conceitos levantados na prim eira etapa. se o autor do texto está considerando ou não essa “definição-padrão”. por exemplo. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .a(s) proposta(s) do autor para substituir as teses tradicionais criticadas evitando seus problemas. Além disso. identificando.

neste passo. A etapa subdivide-se em quatro passos: Passo 1: escreva as teses tradicionais (TT) citadas no texto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! fragilizar adversários. Passo 2 : escreva as críticas (C) dirigidas às teses tradicionais (quais proble­ mas decorrem da adoção das teses tradicionais?). Terceira etapa: elaboração de esquemas Esta etapa consiste em representar na form a de figuras e/o u diagramas. crítica e teses alternativas identifi­ INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . volte a ela e tente defini-los. compromissos e afinidades filosóficos (autores ou doutrinas que são listadas. E im portan­ te. nesse caso. doutrinas ou teorias são citados como precursores dessa proposta. e assim por diante. as relações entre teses tradicionais. se faz justiça aos adversários. esta etapa tam bém perm ite que um “perfil” do autor seja esboçado. ao lado do próprio autor. Por fim. e seu estilo argum entativo (se está preocupado mais em apresentar críticas. identificando a participação de conceitos e doutrinas listados na etapa anterior. não se esqueça de considerar as definições da primeira etapa). equívocos cometidos em relação a doutrinas e teo­ rias criticadas. como representantes das teses alternativas). se tem propostas explícitas etc. identificando adversários (dou­ trinas consideradas representantes das teses tradicionais). definir as teses tradicionais com base no texto. Observação: se nesta etapa você identificar alguma tese (tradicional ou al­ ternativa) que menciona conceitos ou doutrinas que não foram listados na primeira etapa. Passo 4: agrupe em categorias temáticas a articulação entre teses sobre um mesmo assunto.). Passo 5 : escreva as teses alternativas (TA) propostas pelo autor do texto com base na crítica (verifique se autores. Dê um título que ilustre de forma clara essa categorização. atentando para como o autor as apresenta ou define (considere o que foi descrito na etapa anterior).

Exemplo de registros produzidos pela aplicação do Procedimento de Interpretação Conceituai de Texto (PICT) Texto: lames. Great books o f the western world (Voi 53) . discutindo o texto original. quando for oportuno. Chicago: Encyclopaedia Britannica. as afinidades filosóficas. W. reproduzi-lo. quadrados e outras figuras. talvez seja o caso de refazer as etapas do procedimento. valendo-se. identificando relações entre conceitos. 3. Se for necessário consultar a todo momento o texto original. bem como outros elementos que foram identificados ao longo do procedimento. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! cadas na etapa anterior. Isso pode ser feito na forma de tópicos ou de diagramas/fluxo- gramas com setas. sem. The escope of psychology.). Q uarta etapa: síntese interpretativa O objetivo desta etapa é realizar uma síntese das relações conceituais cons­ truídas ao longo das etapas anteriores.2. (1955). doutrinas e teorias. Hutchins (Ed. bem como eventuais lacunas e equívocos cometidos pelo autor. Passo único: faça um esquema geral do texto para evidenciar sua estrutura conceituai. M. contudo. A ideia é que o pesquisador te­ nha familiaridade com o texto sob investigação. de modo que sua visualização seja suficiente para se falar ou escrever sobre o texto sem voltar a ele. Trata-se de produzir um texto inter- pretativo pautando-se principalmente nos esquemas elaborados na Etapa 3. (Trabalho original publicado em 1890. Esse novo texto deve contemplar as lacunas. Os esquem as ajudam a visualizar a estrutura argum entativa do texto. In R. A ideia é que o esquema seja capaz de substituir o texto original. o texto deve ser escrito com linguagem e estilo próprios. de citações diretas. 1-7).The principies o f psychology (pp.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . que podem ser acessadas nos registros da primeira etapa do método.1. no sentido de transcrever suas partes. Portanto.

1. p. § 3. decisões” (p. § 1). § 1). p. em especial os cerebrais: “certa quantidade de fisiologia cerebral preci­ sa ser pressuposta ou incluída na psicologia” (p. 4.] Tais peculiaridades parecem completamente fantásticas.. tanto de seus fenômenos quanto de suas condições” (p. § 6): “portanto. § 5. p. como qualquer coisa considerada a priori. § 1). [. precisam estar entre aquelas condições da vida mental que a psicologia deve levar em consideração” (p. assim descobertos. em seguida. 1. A relação com o mundo ou ambiente é outra condição da vida mental. 2. A psicologia precisa considerar processos corpo­ rais. ou seja. § 6). Modo de unificar os fenômenos mentais: classifi­ cação (cf. desejos. “sua variedade e complexidade é tamanha que conduz o observador a uma impressão caótica” (p. § 9). 3.. 1. Quando con­ siderados superficialmente. As faculdades (como cognição e memória) são consideradas propriedades absolutas da alma (cf. 1. 1. refere-se à psicologia proposta por Herbert Spencer: “na qual a essência da vida mental e da vida corporal são a mesma. “e. § 1). § 2). poderiam ser preci- INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . e.). p. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Primeira etapa: levantamento dos principais conceitos do texto • Psicologia: “ciência da vida mental. 1.• • Teoria espiritualista: representantes “teoria ortodoxa da escolástica” e “senso comum” (p. supõe aquilo que precisa ser explicado (a priori). 1. • Condições da vida mental: “a faculdade [mental] não existe de maneira ab­ soluta. cognições. § 6). raciocínios. a uma entidade simples. 3. e a busca dessas condições torna-se a tarefa de maior interesse do psicólogo” (p. subentende-se que para essa teoria o self ou o ego de um indivíduo é uma “fonte preexistente de representações” (p. § 1). da qual eles são toma­ dos como manifestações de suas várias faculdades” (p. experiências corporais. mas funciona sob certas condições. Não consegue explicar os fenômenos men­ tais (reminiscências. ligar os diversos modos mentais. 2. e mais especificamente experiências cere­ brais. efeitos da febre e drogas sobre a memória etc. e “mentes habitam ambientes que agem sobre elas e aos quais elas reagem por sua vez” (p. 4. • Fenômenos da vida mental: “são aquelas coisas que chamamos de senti­ mentos. “há algo de grotesco e irracional na suposição de que a alma é equipada com poderes elementares de uma en- genhosidade tão complexa. § 1). O funcio­ namento cerebral é uma das condições da vida mental (cf. § 9). Ao contrastar com o associacionismo. § 1). à alma pessoal. ‘ajustamentos internos a relações externas’” (p. 1. itálicos do autor). 3.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . No entanto. § 1. Mills [Ja­ mes e J. assim. itálicos do autor). 2. repulsão e formas de sucessão. a marca e o critério da presença de mentalidade em um fenôm eno” (p. § 15. 3. 1. “construíram uma psicologia sem uma alma” (p. Introduz a ordem na experiência a partir do mundo externo. O espiritualista precisa considerar as condições cerebrais (cf. Stuart] e Bain na Inglaterra”. coisas como reminiscências. Hume. 1. paixões. § 1). mas produto das representações (cf. percepções. ao invés de buscar um agente comum atrás deles. 1. § 1). § 5). § 5). § 3). emoções. um pouco mutilada e alterada. 5. p. teorias e todo o resto de uma mobília de uma mente indi­ vidual podem ser engendradas” (p. Modo de unificar os fenômenos mentais: “buscar elementos comuns nos diversos fatos mentais. itálicos do autor). § 5). • Critério de “mentalidade” (ou presença de capacidades ou faculdades mentais): “a busca de fins futuros e a escolha de meios para sua realização são. 2. e mostrando como. isso não é suficiente para explicar o modo de funcionamento da vida mental: “A simples existência de um fato passado não é motivo para nossa lembrança dele” (p. por sua coesão. Essas formas de arranjo devem-se a princípios de associação “tomando ‘ideias* discretas. com a ideia de cópia: “a dança das ideias é uma cópia. Segunda etapa: caracterização das teses do texto Sobre explicações da vida mental TTI: Teoria espiritualista: a vida mental é produto de faculdades absolutas da alma. da ordem dos fenômenos” (p. • Associacionismo: representantes “Herbart na Alemanha. volições. p. fracas ou vívidas. pelo menos até que tenham impressionado primeiro nossos sentidos e nosso cérebro” (p. algo negligenciado pelos asso- ciacionistas: “mas a mínima reflexão mostra que os fenômenos não têm ab­ solutamente nenhum poder de influenciar nossas ideias. § 6). O self ou o ego não é fonte. e explicá-los construtivamente pelas várias formas de arranjo de seus elementos” (p. 1. A explicação da ordem da vida mental deve admitir o papel das condições cerebrais. 2. 2. itálicos do autor). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! samente opostas ao que são” (p. § 1.

Esses condicionan­ tes devem ser buscados no ambiente externo e no funcionamento cerebral. Ambas as versões de psicologia desconsideram o funcionamento cerebral. A psicologia é o estudo da vida mental na sua relação com o mundo externo INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . mas dependem de certas condições (o contato com o mundo e o funcionam en­ to cerebral). C: Ou a psicologia desconsidera completamente a condicionalidade da vida mental (espiritualismo). desconsidera a condicionali- dade da vida mental. TT2: Teoria associacionista: a vida mental é produto do contato com o mun­ do externo. recai em explicações absolutas (apriorísticas). C: Apresenta dificuldades em explicar a ordem da vida mental (apenas postula que a ordem da experiência é copiada da ordem do mundo). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! C: Não é capaz de explicar como os fenômenos mentais afetam uns aos outros nem como condições corporais interferem nos fenômenos mentais. Implicações dessas explicações para a definição do escopo da psicologia TT1: A psicologia seria o estudo da mente em si mesma (espiritualismo) ou da mente em relação como mundo externo (associacionismo). TA2: A psicologia deve considerar o cérebro (cerebralismo) como um dos condicionantes da vida mental. TA l: A psicologia precisa reconhecer e estudar os condicionantes da vida mental (algo que precede e que sucede os fatos mentais). não consegue explicar por que condições corporais interferem na experiência (por exemplo. quando febre ou fadiga interferem na capacidade cognitiva ou mnemónica). que é duplicado na forma de ideias e combinado por princípios de associação. ou considera apenas uma das condições da vida mental (mundo externo). T A l: As faculdades não existem de m aneira absoluta (independente).

Terceira etapa: elaboraçao de esquemas Sobre a explicação da vida mental e o escopo da psicologia Q uarta etapa: síntese interpretativa Como explicitado no próprio título. Para tanto. a vida mental opera escolhendo meios para atingir fins futuros (critério de “mentalidade”). nesse texto. ou seja. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! e o funcionamento cerebral. ele inicia apresentando duas formas tradicionais de explicação da vida mental. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . James discute o escopo da psicologia. Nessa relação. o alcance e os limites dessa ciência.

cujos representantes são Herbart. da dimensão de investigação conceituai proposta e do volume de material produzido. Des­ se modo. ambas as propostas falham por não admitir um dos principais condicionantes da vida mental: o funcionamento cerebral. a proposta é que a psicologia seja definida como o estudo das relações entre vida mental. Essa doutrina entende a vida mental como um conjunto de faculdades absolutas de uma alma. o que James considera o critério de “mentalidade” (o indicativo da presença de vida mental). monografia. dando elementos para tornar a resposta confiável. A vida mental ope­ raria escolhendo meios para atingir fins futuros. James Mill. tese). 4. será necessário articular todo o material produzido na forma de um texto final. disserta­ ção. investigação de um conceito em vários textos de um mesmo autor. A segunda forma de explicação tradi­ cional é o associacionismo. funcionamento cerebral e o mundo externo. Nesse sentido.3. objetivo (construir uma interpretação de textos psicológicos). De acordo com James. foram indicados seu objeto (o texto psicológico). O objetivo desse texto final é responder à pergunta de pesquisa. organizada por princípios associativos. de compromissos filosóficos. 3. cada texto anali­ sado de acordo com o PICT dará origem a uma síntese interpretativa. exame de dois ou mais INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . cuja organização (em capítulos ou como um único ensaio) dependerá do nível da pesquisa (iniciação científica. cujos representantes são a escolástica e o senso comum. e do contexto histórico). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! A prim eira delas é o espiritualismo. John Stuart Mill e Bain. esco­ po (estudo de um conceito em um único texto de um autor. Hume. níveis de análise (análise do uso de um conceito. da rede conceituai. Sistematização dos resultados 4 Considerando que uma pesquisa conceituai geralmente envolve um conjunto de textos (de um mesmo autor ou de diferentes autores). Considerações finais Este capítulo procurou mostrar que o trabalho conceituai pode ser consi­ derado uma modalidade genuína de pesquisa. Essa doutrina considera a vida mental uma cópia do mundo externo. Para tanto.

Trad. A.. La formación dei concepto de reflejo en los siglos XVII y XVIII ( f Rovita. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 4(1). con­ tribuem para que a investigação conceituai continue não sendo reconhecida como um tipo legítimo de pesquisa acadêmica. Abib. J. D. Nesse sentido. (1975). M. tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação. À semelhança de pesquisas científico-acadêmicas de outra natureza. (Trabalho original publi­ cado em 1955. Referências Abib. afirmando aquilo que já se sabe. Psico­ logia: Teoria e Pesquisa. (2005). as dire­ trizes metodológicas de uma pesquisa conceituai não devem ser considera­ das um conjunto fixo e rígido de passos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! conceitos em vários textos de um mesmo autor. a franca inexistência de tais procedimentos). Foram também apresentadas algumas diretrizes metodológicas. Canguilhem. cotejar um ou mais concei­ tos em textos de diferentes autores) e pressupostos filosóficos (vinculados à noção de interpretação). T. Barcelona: Avance. 53-60. a mediocridade de algumas análises conceituais. 21( 1). trabalhos conceituais que se resumem a repetições. J. (2004). Além de uma explicitação metodológica. Portanto. N. uma pesquisa conceituai precisa produzir conhecimento novo. 219-229. Prólogo à história da psicologia. mais especificamente. 93-134. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva.). com palavras diferentes. não seriam propriamente pesquisas. Publicações de B. Epistemologia. Trata-se. somada à falta de transparência em relação aos procedimentos metodológi­ cos (ou. F. M.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . de explicitar a maneira como os resultados da pesquisa foram alcançados. em alguns casos. (1996). respondendo a uma pergunta de pesquisa. Skinner: de 1930 a 2004. transdisciplinaridade e método. A. G. A. Micheletto. Andery.. Í2{3). um procedimento de interpretação de textos (PICT). que pode ser útil na elaboração e execução de um projeto de pesquisa conceituai. tão somente. & Sério. D.

. Trads.) Estêvão. & N.). de L. U. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Carrara. (2002). (1978..J. & N. A. C. Gon­ çalves. 1-7).) Ferrater Mora. de Souza. 15(2). H. (1952).). Retorno à querela do trieb: por uma tradução freudia­ na. N Campanário. E. (Trabalho original publicado em 1992. Holland. J. 5(1). M. Cadernos de Filosofia Alemã. Fractal: Revista de Psicologia.) Eco. Honda. 129-173. Spring). (2010). 79-106. & Isakower. U. Trad. O conceito freudiano de pulsão (Trieb) e algumas de suas implicações epistemológicas. 1-17). U.The principles o f psychology (pp. I. R. As especulações metapsicológicas de Freud. Freud. Gesammelte werke: chronologisch geordnet (Vols. M. (2012). Gon­ çalves. (Trabalho original publicado em 1994. 19. Didática. São Paulo: Loyola. 303-308. Stahel. Sobral. London: Imago Pu­ blishing Co. Bagno. J. Kris. 53) . 25. M. Eco. Chicago: Encyclopaedia Britannica. L. Natureza Humana. 25(2). Fuígêncio.. Bagno. (M S. (2003). K.. Interpretação e superinterpretação (M. Dicionário de filosofia: tomo IV (Q-Z). 163-174.). (Eds.). Como se faz uma tese (G.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (1955). Great books o f the western world (Vol.). (M. (1992). São Paulo: Loyola. (2001). S. São Paulo: Martins Fontes. 195-212.) Freitas.). Trads. (2001).) (2a ed. U. G. Ltd. N Campanário. A. B. A. Hutchins (Ed. W. (Trabalho original publicado em 1994.) (23a ed. Hoffer. Trad. Ferrater M ora. Sobral. W. James. Piaget e a consciência moral: um kantismo evolu­ tivo? Psicologia: Reflexão e Crítica. L. Behaviorism: part of the problem or part of the solution? Journal o f Applied Behavior Analysis. C. (Trabalho original publicado em 1890. Acesso a Skinner pela sua própria obra: publicações de 1930 a 1990. (2005). U ( \). The escope of psychology. O. Dicionário de filosofia: tomo II (E-J). E. (Trabalho original publicado em 1977. (2011). In R. São Paulo: Perspectiva. 405-422. Bibring.

C. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Kõche. 811-858). (2006). 59-65. (2012). F. E. Machado. Porto Alegre: Artmed. (2003). M. concepts. (1988). Machado. McDermott (Ed. C. Psicologia em Estudo.). IL: The University of Chicago Press. 16.). Annotated bibliography of the writings of William James.. J. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. P. (1993). O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde (12a ed. In J. Contextualistic mechanism or mechanistic contextua- lism? The straw machine as tar baby. J. N. M. (2006).. Micheletto. C. M. 453-472. M. The writings o f William fames (pp. 28. & Silva. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Contextualism: the world view of behavior analysis. 17(2). Toward a richer view of the scientific me­ thod: the role of conceptual analysis. Facts. de S. Chicago. Petrópolis. E. (2007). 1-40. atuali­ zada). Lourenço. São Paulo: Hucitec. J. Tese de doutorado. 671-681. Mariconda. São Paulo: Atlas. O controle da natureza e a origem da dicotomia entre fato e valor.. 46. J. RJ: Vozes. Fundamentos de metodologia científica (20a ed. & Marconi. A. R. Minayo. Morris. (2010). O. A. Uma questão de consequências: a elaboração da proposta me­ todológica de Skinner. Behavior and Philosophy. 289-323. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo. & Silva.). F. American Psychologist. and theo­ ries: the shape of psychology’s epistemic triangle.. Lakatos. Y. Fundamentos de metodologia cien­ tífica (5a ed. A. J. 179 181. 4(3). journal o f Experimental Child Psychology. Scientiae Studia. (2002). 62(7). (2000). The Behavior Analyst. (1977). McDermott. K. de. Trabalho conceituai em psicologia: pesquisa ou perfu­ maria? [Editorial]. Laurenti. La Taille. Marr.

Inc.) Ryle.). 123-145.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (1984). J. 105-132).. São Paulo: Herder. P. Realismo e antirrealismo na interpretação da metap- sicologia freudiana. S. e ampl). Trad. New York: Appleton-Cen- tury-Crofts. A. B. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts. M. Brattleboro.. The concept o f mind. Ricoeur.9(2). Queiroz Editor. Trad. 9-27). (Trabalho original publicado em 1969. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Patto. Operant behavior. New York: Barnes & Noble. (1949). T. São Paulo: Cortez. Natureza Humana. Skinner. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. Azzi.) Severino. On conceptual analysis as the primary qualitative approach to statistics education research in psychology. F. Co­ rona. VT: Copley Publishing Group. (Trabalho original publicado em 1968. F. pp. Falcon. (2009). Skinner. B. Tecnologia do ensino (R. Psicologia e ideologia: uma introdução crítica à psico­ logia escolar. (1957). São Paulo: Cortez. (2003). In Del texto a la acción: ensayos de hermenêutica II (P. Trad. Petocz. A. 169-195). Skinner. F. . rev..) Ricoeur. Simanke. In El conflicto de las interpre- taciones: ensayos de hermenêutica (A. Skinner. Um discurso sobre as ciências. A. México: Fondo de Cultura Económica. The technology o f teaching. B. (1968). Metodologia do trabalho científico (21a ed. P. G. (2004). Existência y hermenêutica. Santos. B. (1972). (Tra­ balho original publicado em 1987. G. H. El modelo del texto: la acción significativa considerada como un texto. (1969). In Contingencies o f reinforcement: a theoretical analysis (pp. B. (2000). (2010). (Trabalho original publicado em 1986. S. F. pp. (2002). R. 11(2). & Newbery. 97-152. São Paulo: T. Statistics Education Research Journal..

(2013). C. rev.).). & Neno. B. Belo Horizonte: Argumentum. O comportamento verbal (M. Ciência e cultura na história (pp. Os pensadores (pp. 17-24. C.. L. (Trabalho original publicado em 1957. São Paulo: Abril Cultural. 9(1). Investigações filosóficas (J. da P.). Volpato. e ampl. Condé (Ed. Carvalho Neto. In V. In M.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (Traba­ lho original publicado em 1953.). Villalobos. (1975). Estudos de Psico­ logia. 81-111). J. Vitorino. Recepção e hermenêutica do texto técnico-científico: o caso dos scamilli inpares vitruvianos. A psicologia como campo de conhecimento e como profissão de ajuda. E. L. S. (2006). Z.). São Paulo: Cultrix. F. Bruni.) Tourinho. Trad. Ciência: da fdosofia à publicação (6a ed. Wittgenstein. L.. (1978). Trad. Civita (Ed. (2004). B. São Paulo: Cultura Acadêmica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Skinner. G. M. 11-226).

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .

com alguma razão. que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança” {p. mas sim porque na “psi­ cologia existem métodos experimentais e confusão conceituai” {Wittgenstein. pois. aparentem ente. pois a diferença pode ser insignificante. Sísifo foi condenado pelos deuses ‘‘a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha. 161). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 232). em últim a análise. de onde a pedra caia de novo em consequência de seu peso” (Catnus. Se assim for. Esse cenário evoca um comentário de Wittgenstein sobre a psicologia. humilhado. contudo. p. sem esperança21. a 21 Por tantas razões. por seu amor à vida e ódio à morte. O filó­ sofo escreve na conclusão de suas Investigações Filosóficas que não é por ser uma ciência jovem que a psicologia é confusa e árida. Camus comenta que os deuses “tinham pensado. Camus assinala ainda que a tarefa de Sísifo (além de ser absurda) é trágica. 166). Convém observar. o mortal que despreza os deuses. que está implícito nessa pergunta que esses conceitos são diferentes. o destino de todo esclarecim ento conceituai seja o de term inar em tal confusão. tola e sem valor. por suas paixões. Sísifo é o “cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim’’ (p. a tarefa de sondar diferenças entre esses dois conceitos seria como a de Sísifo: absurda. por seu desprezo aos deuses. mais cedo ou mais tarde. mas também revoltado: Sísifo. pode abandonar sua tarefa absurda e trágica. do ponto de vista de Wittgenstein. p. trágica e. Mas cabe lembrar que Sísifo “está sempre em marcha” (p. pois podem os sus­ peitar que predom ine a confusão conceituai e que. ela faz sentido. de um a indagação extravagante. afinal. 1942. apesar disso. 1953/1988. 166). não é suficiente m ostrar que há diferença? Mas. a partir do momento em que ele se torna consciente de seu destino. 161). o que não é de todo óbvio. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Fontes de confusão conceituai na psicologia José Antônio Damásio Abib Faz diferença a distinção entre confusão conceituai e esclarecim ento con­ ceituai? Trata-se. Aparentemente.

se não há ou se nunca houve confusão conceituai na física. da análise conceituai. a tensão sub specie aeternitatis entre o esclarecimento e a docta ignorantia. no horizonte aguarda-nos a confusão conceituai. por essa razão. não é uma questão que nos interessa aqui. a psicologia não teria unidade e. mesmo quando se tornar uma disciplina provecta. teria métodos experimentais e confusão conceituai. e será esse o seu fado. desse modo. gradualmente. 22 Quando os filósofos querem atormentar os psicólogos eles frequentemente citam esse comen­ tário de Wittgenstein. pôr às claras as bases de uma confusão mais complexa. perguntando. um destino ao qual ela estaria condenada mesmo quando vier a ser uma ciência m adura22. com o da física em seus prim órdios” (p. O que justificaria a análise conceituai na psicologia se Wittgenstein (1953/1988) tiver razão? Qual seria o sentido de tal análise se tudo termina em confusão conceituai? Uma análise dessa natureza não se justificaria visto que ela estaria condenada por princípio. 1975/2007. desde os seus primórdios. Desde os seus primórdios. ao passo que. a observação de Wittgenstein presume a unidade da ciência. por exem­ plo. não só da multiplicação de métodos experimentais. A tarefa da análise conceituai na psicologia seria a tarefa de Sísifo: absurda. uma relação que. na fisiologia. A primeira vista. Kuhn. está implícita em seu comentário. pois diz que o estado da psico­ logia “não é comparável. na biologia (Feyerabend. como também da confusão conceituai. aparentem ente. 232). Podemos discordar de Wittgenstein (1953/1988) com o argumento de que a análise conceituai pode contribuir para dirimir confusão conceituai no âm­ bito das tradições de pesquisa de uma disciplina. e bem-vindo. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . o leitmotiv. por exemplo. o professor Bento Prado |r. Seja porque podemos colocá-la em dúvi­ da de antemão. Todo esclarecimento conceituai é pro­ visório. por essa razão. e ressaltar. Se Wittgenstein (1953/1988) tem ou não razão no que se refere à relação entre a falta de unidade de uma disciplina e a confusão conceituai. bem como em outras disciplinas. como parece ser o caso da psicologia. a física seria unitária e. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! confusão conceituai seria inerente à psicologia. jamais perdia uma oportunidade. enfim. bem como para. por exemplo. trágica e sem esperança. Em seu tom bem-humorado. não podemos nos acomodar. cuja unidade esteja sem­ pre ou quase sempre sob suspeita. estaria a salvo. na química.

Entretanto. Allen. Provavelmente. 1981). Friman. Kerwin. e por decorrência. 1. Leahey. Leahey. Uma opacidade dessa natureza ocorreu no alvorecer da psicologia moderna quan­ do Titchener declarou que sua psicologia representava uma continuidade da psicologia de W undt (Danziger. pois o que observamos por toda a parte é a “vigência dos derrotados” (Abib. Um cenário que se agrava. por exemplo. a crença de que os derrotados por tais revoluções te­ nham sido realmente derrotados. ensino e divulgação da psicologia de W undt nos termos da psicologia de Titchener. a se INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Uma fonte inicial de confusão conceituai na psicologia consiste na leitura de uma tradição psicológica em termos de outra tradição psicológica. & Larzelere. Tradições e versões # A psicologia moderna surgiu dividida conforme duas concepções diferen­ tes de ciência psicológica: os projetos de Wundt (1912/1973) e de James (1892/2009). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! 1962/2011). 1992). 1993. 1996. novas tendências na disciplina. 1979. 1979. não só o caráter revolucionário dessas tradições tem sido colocado sob suspeita. E mais recentemente. Essa cisão original proliferou-se em várias tradições de pesqui­ sa apresentando-se cada qual como revolução psicológica com o intuito de conquistar a tão almejada unidade da disciplina. o que tem sido amplamente criticado pelos especialistas na obra do autor alemão (Danziger. O que equivale a dizer que não conhece­ mos o projeto da psicologia científica que rompeu com a psicologia metafí­ sica e que inaugurou a psicologia moderna. 1979). Seja porque a psicologia não tem realmente unidade e o que nos interessa é precisamente sondar algumas confusões conceituais relacio­ nadas com essa pluralidade. Leahey. a psicologia evolucionária e o nível crescente de especialização profissional. levaram Goodwin (2005) a concluir que a psicologia não é uma ciência unificada e que talvez seja melhor acatar a sugestão de Koch (1993) e substituir a ideia de ‘a psicologia1 por ‘estudos psicológicos’. Compreender a psicologia de Titchener como sendo continuidade da psicologia de W undt foi tão signi­ ficativo que Blumenthal (1979) refere-se a W undt como o pai fundador da psicologia que nunca conhecemos. como tam­ bém. a principal consequência dessa obscuridade conceituai tenha sido a recepção.

entrada-saída. o ‘intencional’ de Tolman. Skinner afirma que “nenhuma consideração do intercâmbio entre o orga­ nismo e o ambiente será completa até que inclua a ação do ambiente sobre o organismo após uma resposta ter sido feita” (p. Button. 1999. o comportamentalismo filosófico e. 1999. o ‘teleológico’ de Rachlin. o ‘biológico’ de Timberlake. 2004. apenas o projeto de psicologia científica de W undt pode ser chamado de revolucionário. 5). bem como há versões de comportamentalismo filosófico e versões de comportamentalismo psicológico (Churchland. Wittgenstein. 1997. e o ‘contextualismo funcional’ de Gifford e Hayes. 1953/1988). o de Quine. Coulter. o ‘radical’ de Skinner. 316). Os comportamentalismos filosóficos são: o ‘lógico’ de Hempel. Essa versão de comportamentalismo é fre­ quentemente identificada com a versão da psicologia estímulo-resposta. Ryle e Wittgenstein. É o que acontece. 1949/1980. Zuriff. No entanto. embora seja controverso chamar as filosofias de Ryle e de Wittgenstein de compor­ tamentalismo (Bloor. não só para afastar o comportamentalismo radical 23 As versões filosóficas não passam necessariamente por uma reflexão sobre o comporta­ mento assentada na ciência do comportamento. Uma segunda fonte de confusão conceituai na psicologia consiste na leitura de uma versão de tradição psicológica em termos de outra versão dessa mes­ ma tradição. Há. Tomemos como exemplo do segundo tipo de confusão conceituai o caso do comportamentalismo radical. & Sharrock. Esse comentário de Skinner é determinante. com o comportamentalismo. por um lado. Ryle. o ‘empírico’ de Bijou. por outro. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! levar em conta que. O ’Donohue e Kitchener (1999) afirmam que há quatro versões de compor­ tamentalismo filosófico e dez psicológicas23 e observam que sua classifica­ ção não é exaustiva. 1985). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Hull. Os comportamentalismos psicológi­ cos são: os de Watson. revolução em psicologia é um mito” (p. o compor­ tamentalismo psicológico. por exemplo. Em suas palavras: “Salvo no que se refere à fundação da psicologia por W undt. input-output. Carnap. Kantor. Lee. enquanto que essa passagem é obrigatória nas versões psicológicas. O ’Donohue & Kitchener. segundo Leahey (1992). Skinner (1969) critica qualquer versão de comportamentalismo que utilize os conceitos de estímulo-resposta. o ‘teórico’ de Staddon. Feigl e Bergman.

Mac­ Corquodale (1970) conclui que não é possível aceitar a crítica de Chomsky porque ele não entende a linguagem de Skinner. Argumenta-se. como estímulo. Aceitar a tese da continuidade entre a psicologia de Titchener e a de W undt significa atribuir a W undt uma tradição filosófica na qual ele não comungava. 428). 2 . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! do comportamentalismo estímulo-resposta. Skinner criti­ cou essa versão de comportamentalismo psicológico. da causalidade e do sujeito. a psicologia deve se dedicar à investigação dos eventos públicos e ignorar os eventos privados. como pode ser verificado. dos métodos de pesquisa. pois já em 1945. O comportamentalismo radical é identificado também com o comportamen­ talismo metodológico. Skinner (1945/1999) critica a definição operacional de termos psicológicos sob o ponto de vista do comportamentalismo metodológico. Skinner observa que o comportamentalismo metodológico “nunca foi um bom comportamentalis- mo” (p. bem como uma concepção de ciência. e mais tarde em 1974. desse ponto de vista. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . reforçamento. resposta. e caso se pretenda ser um a ciência. pois “não compreende as diferenças entre o comportamenta­ lismo de Skinner e os de Watson e Hull” (p. do fenômeno básico da psicologia. por exemplo.0 olho epistêmico Uma terceira fonte de confusão conceituai consiste na leitura de uma tra­ dição psicológica em termos de uma tradição filosófica estranha àquela tradição. algo que teria sido feito por Skinner. probabilidade momentânea de uma resposta. no texto de filósofos tão renomados como Churchland (2004). 841). controle de estímulos. MacCorquodale (1970) refere-se ainda aos enganos de Chomsky com respeito a conceitos de Skin­ ner. como será argumentado mais adiante. probabi lidade total de resposta. mas também para m ostrar que Watson (1930) não radicalizou o conceito de comportamento. que existem dois mundos: o dos eventos públicos e o dos eventos privados. MacCorquodale (1969) diz que a crítica de Chomsky ao livro Verbal Behavior de Skinner ficou mais conhecida do que o próprio livro. mas que Chomsky se equivocou. Trata-se de confusão con­ ceituai de longa data.

que também foi abraçado por Titchener). Decorre dessa concepção que os conceitos relacionados com as ciências da cultura são irredutíveis aos concei­ tos relacionados com as ciências da natureza.. de outro lado. Há. Mas a recíproca não seria verdadeira: a sociologia não explicaria a psicologia. 1980. 84). De acordo com a filosofia do idealismo alemão. As diferenças entre essas duas tradições filosóficas são tão significativas que Blumenthal (1980) refere-se a duas culturas filosóficas e. Danziger (1979) faz uma análise de algumas repercussões sobre as psicologias de W undt e Titchener advindas dessas duas tradições filosóficas. Humboldt. Há. a ciência é dual. 1980.. consequentemente. deveria ser visto como um associacionista e positivista britânico” (p. . a um choque de culturas que repercute na esfera psicológica dando origem a duas tradições psicológicas distintas. a redução de uma ciência menos básica a uma ciência mais básica: a ciência cujas leis seriam mais abs­ tratas e gerais. Há. 1981). e assim por diante. incluindo os trabalhos de Spinoza. A psicologia de Titchener é solidária com o empirismo inglês. as ciências da natureza (Natunvissenschaften). Mendelsohn. essa à física. a explicação de uma ciência menos básica por uma ciência mais básica. “Titchener. Leahey. a ciência é unitária. Uma breve análise das tradições filosóficas que foram professadas por W undt e Titchener pode contribuir para esclarecer algumas dessas confusões. as ciências da cultura (Geistewissenschaften) e. caracterizou seu ‘ponto de vista geral’ conforme ‘o da psicologia inglesa tradicional’” (p. essa a sociologia. E segundo Leahey (1981). de um lado. Danziger. Wolff. As diferenças entre essas concepções de ciência repercutem nos conceitos de objeto e causalidade na psicologia. A psicologia de W undt é solidária com o idealismo ale­ mão. “T itchener. Fichte e Schopenhauer” (p. A física explicaria a biolo­ gia. Hegel. 125). essa a psicologia. Uma delas refere-se à concepção de ciência psicológica. essa à biologia. De acordo com W undt (1897/1922). 1975. de um lado. De acordo com Danziger (1980). 273). De acordo com a filosofia do empirismo inglês (e do positivismo de Ernst Mach. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! radicalmente distinta da que foi professada pelo fundador da psicologia científica (Blumenthal. Kant. que seria a ciência mais básica. De acordo com Blumenthal (1980): “Wundt viu sua psicologia como o representante moderno da tradição leibnitziana. A sociologia seria reduzida à psicologia. Schelling. Tetens. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . de outro. .

. 1975. consequentemente. são. tais como a atenção voliti- vo-seletiva24. o que lhe confere o caráter de ser uma inferência. Procede dessa concepção sobre o objeto que a explicação na psicologia é diferente da explicação nas ciências naturais. quando reduziram a causalidade psíquica à causali­ dade física: reduziram o indivíduo psíquico ao indivíduo físico. 1897/1922). 1979). 24 A atenção volitivo-seletiva é o fenômeno psicológico paradigmático para Wundt e que levou o autor alemão a chamar sua psicologia de psicologia volítiva (Blumenthal. 2005. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . a percepção. dependentes de um sujeito. o modo de explicação nas ciências da natu­ reza. “nas ciências natu­ rais. os atributos da experiência são derivados de objetos e energias exter­ nas. o objeto de estudo da psicologia é a experiência imediata de processos psicológicos. pois tal redução eliminaria o sujeito da experiência. Com efeito. uma construção conceituai (Danziger. Esses processos são experienciados por um sujeito. mas no caso da psicologia. o que os levou a repudiar o conceito de indivíduo psíquico. Desse modo. . p. 1081). 1979). 1979. eliminaram o indivíduo psíquico (Danziger. . o próprio objeto de estudo da psicologia.. o psicólogo da Escola de W ürzburg. para Külpe e Tit­ chener. E a existência dessa relação que confere à experiência o seu caráter imediato. O conceito de causalidade psíquica não pode ser reduzido ao conceito de causalidade física. a sensação foi estabelecida como o objeto de estudo da psicologia: o fenômeno fisiológico capaz de explicar os fenômenos psicológicos (Abib. o que não pode ser aceito pelo positivismo machiano. centrado como é na observação. Trata-se da diferença entre a causalidade psíquica. de um Eu. descrição e ela­ boração de relações funcionais. Danziger. o pensamento. e a causalidade física. se houver abstração do sujeito. Achavam que esse conceito envolvia referência a uma agência central res­ ponsável pelos processos da experiência imediata. Külpe e Titchener abraçaram o posi­ tivismo de Mach. W undt. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Danziger (1979) e Blumenthal (1975). 1975). tanto é assim que. portanto. a memória. o modo de explicação na psicologia. a experiência que temos é de sensações. os atributos da experiência são derivados dos processos do sujeito da experiência” (Blumenthal. a experiência torna-se me­ diada por uma abstração. De acordo com Danziger. foi precisamente isso o que fizeram Titchener e Külpe. não temos nenhuma experiência imediata de uma agência central. e. Porém.

que pode ser feito sem uma palavra de fisiologia. sem ver que ela está em contradi­ ção com as distinções iniciais . como também que o estudo em termos da relação entre o indivíduo e o ambiente. 1942/1977). Merleau-Ponty (1942/1977) combate a antinomia clássica do psíquico e do fisiológico e afirma que “em Watson a negação da consciência como ‘realidade interior’ se faz segundo a antinomia clássica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 248). Segundo Merleau-Ponty (1942/1977). Qualquer que seja o estofo do qual o mundo é feito. E de qual filosofia indigente se trata? Merleau-Ponty com a palavra: Em reação contra as trevas da intimidade psicológica. Mas Skinner (1969) manifestou-se explicitamente contra o materialismo25 e a explicação do com- 25 Nas palavras de Skinner (1969): “É muito simples parafrasear a alternativa componamentalista dizendo que na verdade existe apenas um mundo e que esse é o mundo da matéria. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Uma quarta fonte de confusão conceituai consiste na leitura de uma versão psicológica em termos de uma tradição filosófica estranha àquela versão. É o que acontece quando se lê a psicologia de Skinner em termos da psicologia de Watson. mas reduziu os reflexos comportamentais a reflexos fisiológicos. em favor da fisiologia. sem ver que isto consiste em recolocar o comportamento no sistema nervoso. ele contém organismos” (p. Se a psicologia de Skinner for lida em termos da psicologia de Watson. então ela também estaria comprometida com o materialismo. 3). 1930) com o materialismo que o com­ portam ento não só perde sua neutralidade com relação à antinomia clássica do psíquico e do fisiológico. solidarizando-se com a filosofia do materialismo (Merleau-Ponty. o comportamen- talismo não procura recursos. perde sua autonomia (Merleau-Ponty.ele se declara materialista. em proveito da fisiologia. Watson (1913. pois a palavra matéria perdeu sua utilidade. a maior parte do tempo. senão em uma explicação fisiológica ou mesmo física. 3) Sucede da aliança de Watson (1913. 1930) foi um crítico mordaz do mentalismo. e o com portam ento é reduzido a uma soma de reflexos e de reflexos condicionados” (pp. o comportamentaíismo de Watson comprometeu-se com uma “filosofia indigente” (p. (p. 2-3). 1942/1977).

Skinner ainda tentava fechar as portas a explicações fisiológicas do comportamento. p. 1997. a crítica ao mentalismo data de duas décadas antes do aparecimento do Manifesto Comportamentalista de Watson (Dan- ziger. Skinner faz o trabalho que Watson (1913. aproximadamen­ te. Mas como as consequências são produzidas pelo comportamento. 1989. Leahey. Pois. 122) É notável que Skinner tenha ressaltado a palavra fisiológicas. o compor­ tamento é explicado pelas consequências que ele produz: o comportamento é modificado e fortalecido ou enfraquecido pelas consequências que produz. Aparentemente Skinner (1989) está dizendo que a elaboração de uma con­ cepção radical do comportamento enfrenta dois inimigos: o mentalismo e o materialismo. 1930) não fez. e não o tenha feito com relação à palavra mentais. 1992). Já as explicações fisiológicas eram aceitas como explicação científica do comportamento. mentais ou fisiológicas”. Já no final de sua vida. 3). na psicologia de Skinner. O comportamentalis­ mo radical visa chegar à raiz do comportamento e para isso precisa fechar as portas tanto ao mentalismo quanto ao materialismo. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! portam ento em termos fisiológicos. elas teimavam (e teimam) em continuar abertas. Ele estava fechando as portas ao materialismo. Por que essa diferença de ênfase? Tal­ vez porque já não fosse mais necessário criticar as explicações mentalistas do comportamento. um século depois do advento da crítica ao mentalismo na psicologia. Com efeito. mas quando me perguntam o que entendo por isso eu sempre digo “a filosofia de uma ciência do comportamento tratada como um assunto por si mesmo à parte de explicações internas. Afinal. o que Merleau-Ponty (1942/1977) chamou de sadio e profundo na intuição do comportamento. em última INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (Skinner. mas também a ação do organismo sobre o ambiente. Pois é quando se faz isso que o comportamento participa de sua própria explicação. como é possível constatar no mate­ rialismo de Watson. Escreve o seguinte em um texto em que tenta explicar o que significa comportamentalismo radical: Eu não acredito que cunhei o termo comportamentalismo radical. bem como incluir não só a ação do ambiente sobre o organismo. “a visão do homem como debate e ‘explicação’ perpétua com um mundo físico e com um mundo social” (p.

Argumenta que esse tipo de definição é da alçada da ciência. Ringen. que contribui para esclarecer a observação de Merleau-Ponty de que o homem é “debate e ‘explicação’ perpétua com um mundo físico e com um mundo social” {p. e não a psicologia estímulo-resposta de Watson. se. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! análise. Day Jr. portanto. Uma quinta fonte de confusão conceituai consiste na leitura de uma versão psicológica em termos de uma tradição filosófica aparentemente análoga àquela versão. não chegou à raiz do comportamento. Na verdade. ele critica a definição dos termos operacionais sob o ponto de vista do comportamentalismo lógico. A fundação do compor- tamentalismo teria ainda de esperar por uma concepção de comportamento que alcançasse a raiz do comportamento. de definir termos psicológicos com base em “‘uma regra para o uso de um term o’ (Feigl)” (p. por ser mais limitada do que toda uma tradição. 1986). com as analogias que foram feitas entre o comportamentalismo radical e o comportamentalismo lógico. os críticos têm rejeitado enfaticamente a forte aliança que fre­ quentemente é atribuída a esses dois comportamentalismos (Abib. 1999. 426). é o comportamento que está na raiz de sua própria modificação. fortalecimento ou enfraquecimento. apesar de as relações entre Skinner e essa filosofia não serem desprezíveis. & Moore. o que foi feito por Skinner: o fun­ dador do comportamentalismo. ou que ele seja o fundador do comportamentalismo. o que equivale a dizer que ele participa de sua própria explicação. e não da lógica. Skinner já havia criticado o comportamentalismo lógico no seu clássico texto de 1945. não seria oportuno perguntar se elas não seriam evitadas caso a análise conceituai se realizasse nos limites de versões específicas? Quer dizer. não chegou ao estu­ do do comportamento como um assunto por si mesmo. 1982. 3). não seria uma versão psicológica mais unitária e menos propensa a opacidades conceituais? INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Não se trata. Foi isso o que aconteceu. E a psicologia consequencialista de Skinner. não se pode dizer que o seu Manifesto Comportamentalisía inaugurou o comporta me ntalis mo. por exemplo. A sc levar em conta que Watson (1913. Apresentadas algumas fontes de confusão conceituai na psicologia. Com efeito. Mas. 1930) não radicalizou a noção de comportamento. 1995. Smith.

1980). segundo Chaui (1994) e De Carvalho (1979). Creel. 1982. a charlatanismo. Zuriff. 1974).d. um grau de conhecimento supe­ rior à sensação e à memória. Zuriff. Laurenti. que se refere ao conhecimento dos universais./1979). eficiente. com o pragmatismo filosófico (Abib. A observação constitui a base empírica da ciência 26 Segundo Aristóteles (s. Lo­ pes. 1980. a explicação pelas causas envolve as causas material. Smith. principalmente no contexto médico. A base empírica Será que a psicologia pode se realizar de um modo que afaste opacidades conceituais? Ou será que a confusão conceituai é seu traço ineludível? Exis­ te ao menos uma possibilidade de escapar dessa tormenta: o projeto da psi­ cologia m oderna de se transform ar em uma ciência empírica. 1979. Mas o que quer dizer o termo empírico? Segundo Williams (1983). & Abib. Kvale. 1985. a esperança de evitar obscuridade conceituai limitando-se a análise a versões frequentemente é frustrada pela proliferação de filosofias que circulam nessas versões. Já o termo experiência. a curandeirismo e o ceticismo com relação a expli­ cações teóricas. Mahoney. o comportamentalismo radical de Skinner já foi relacionado com o materialismo (Bunge. não só à arte (a técnica). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 27 Williams (1983) observa que o termo empirismo foi usado nessa acepção pejorativa desde o século XVII. Williams (1983) afirma ainda que empírico refere-se à crença na observa­ ção. Por exemplo. 115)27. 2001. E prossegue dizendo que empírico foi usado no sentido cético. 1980. até adquirir uma conotação pejorativa que se estendeu a “outras atividades para indicar ignorância ou im postura” (p. 2002.d. 3. Moxley. refere-se ao conhecimento dos singulares. 1980) e com o pensamento m oderno e pós-moderno (Abib. Moxley. 2012. 1985. que./1979). inferior. que se refere ao conhecimento pelas causas26. 1986. empírico vem de empeiria. Laurenti. formal e final. com o positivismo (Abib. ao domínio dos conceitos. 1999. significa experiência. porém. Flanagan lr. 1999). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Infelizmente. 2012.. mas também à ciência (a teoria). de acordo com Aristóteles (s.

complexas. ou observações indiretas. Por exemplo. que pode ser relativamente simples. Nas palavras de Kaplan (1964): Termos observacionais são aqueles cuja aplicação apoia-se em obser­ vações relativamente simples e diretas. . (pp. A observação pode ser direta ou indireta. fundamentando. inferências. A observação da experiência do mundo se torna o fundamento do conhecimento. designados por observáveis indiretos. os conceitos empíricos. logo. 54-55) Essa concepção de ciência empírica é filosófica e é conhecida como empiris­ mo epistêmico28 e teve grande influência na epistemologia desde os tempos de Locke até Kant (Kaplan. Os conceitos empíricos refe­ rem-se à observação direta da experiência e os conceitos teóricos referem- se à observação indireta da experiência. a experiência é do mundo. entre o que é direta­ mente observado e o que o termo significa. menos o ceticismo dirigido a explicações teóricas. com a ignorância e a impostura (é o que se espera). De acordo com Chalmers (1978) e Hanson (1975). . como no caso da observação indireta. Cabe lembrar. como no caso da observação direta. afastando des­ de logo a convivência com curandeiros e charlatães. E é problemática. 1964). usualmente causais. hipóteses (Kaplan. bem como da 28 Quando se fala em ciência empírica pensa-se quase automaticamente no empirismo epistêmico. 1964). Observáveis indiretos são termos cuja aplicação demanda observações relativamente mais sutis. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! m oderna. De acordo com Kaplan (1964). ou relativamente complexa. . em que inferências. designados por termos empíricos. a observação direta é mediada pela experiência. a observação da experiência é observação da experiência do mundo. concer­ nem a conexões presumidas. formando dessa maneira a imagem do objeto. e é da observação da experiência do mundo que pro­ vém o conhecimento do mundo. que Wundt distinguiu a psicologia moderna da psicologia tradicional dizen­ do que a psicologia moderna é empírica e que a psicologia tradicional é metafísica: a primeira é científica e a segunda é filosófica. . e os conceitos teóricos. Seria interessante examinar qual é o sentido de empírico em uma psicologia orientada pela cultura filosófica do idealismo alemão. todavia. respectivamente. a observação visual de objetos de­ pende de os nervos óticos transmitirem os raios de luz desde a retina até o córtex cerebral. termos observacio­ nais e termos descritivos.

O que é dado unicamente pela situação física é a imagem sobre a retina de um observador.excitação fotoquímica ou devida a contacto. mas um observador não tem contato perceptivo direto com essa imagem. cuja paternidade se deve à filosofia induti- vista da ciência. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! experiência passada. da interpretação e da cultura. (pp. pelas imagens sobre a retina. uma maneira de evitar as dificuldades associadas com a concepção inocente da observação. legitimando. portanto. Os fisiologistas nem sempre distinguiram experiências e estados físicos. nada garante que na observação objetiva dois observadores estejam vendo o mesmo objeto. As pro­ posições de observação públicas consistem em afirmações singulares das quais são derivadas por indução afirmações universais. a noção de que se está observando realmente os objetos. a noção de observação objetiva. 129) Assim sendo. a única coisa com a qual um observador tem contato direto e imediato são com suas experiên­ cias. em sua versão ingênua. fornecendo uma base aparentemente segura para a inferência indutiva de INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (p. ele­ vando a probabilidade de que dois ou mais observadores vejam o mesmo objeto. Essa guinada na con cepção da observação foi proposta por filósofos indutivistas da ciência que defenderam uma versão mais sofisticada da observação e que criticaram a fragilidade da ciência assentada na noção de experiência subjetiva. O fato de que as proposições singulares possam ser verificadas ou testadas publicamente. assim. 24-25) Ou nas palavras de Hanson (1975): Observar é fazer uma experiência. da aprendizagem. Essas experiências não são dadas como únicas e imutáveis. consiste em conceber a observação em termos de proposições de observação públicas. das expectativas. Nas palavras de Chalmers (1978): Na medida em que se trata da percepção. mas variam com as expectativas e conhecimento do observador. lima reação visual. e não as experiências subjetivas. São as pessoas que veem e não seus olhos. ou com a crença na existência da observação pura. olfativa ou táctil é apenas um estado físico . As experiências visuais não são determinadas. De acordo com Chalmers (1978).

que se refere ao problema da indução (a indução não pode ser justificada nem empírica nem logicamente). e não há fatos neutros que permitam avaliar as reivindicações rivais” (p. Zuriff (1985) faz ainda uma observação interessante sobre os psicólogos com- portamentalistas. mesmo no caso aparentemente simples da detecção de sinal” (p. ou visão de mundo. por exemplo. Kuhn. que se refere às proposi­ ções de observação (as proposições de observação são feitas na linguagem de alguma teoria. não escapou a duas críticas. Passando-lhe a palavra: “A maioria dos comportamentalistas 29 Os filósofos pós-empiristas da ciência estão de acordo quando criticam o empirismo epistêmico e a filosofia indutivista da ciência. Zuriff comenta que a percepção de uma estimulação depende de “variáveis perceptuais tais com a situação. . . Zuriff conclui que a pureza observacional é uma esperança falsa. na concepção de ciência como paradigma dc Kuhn e no anarquismo metodológico dc Feyerabend. expectativa e mem ória” (p. 35). Zuriff (1985) afir­ ma que observar é um comportamento e que. “uma teoria compreensiva. E como toda observação é theory-laden. 35). Zuriff prossegue comentando que essas considerações sobre a observação se aplicam também a relatos observacionais e. portanto. como se verifica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! proposições universais. E. é carregada de teoria. Em sua reconstrução conceituai do comportamentalismo. 35). envolvem teoria. por essa razão. pois o comportamento de observar pode ser relativamente simples ou relativamente complexo. redige: “não há fatos independentes de teo­ ria pelos quais a teoria possa ser testada” (p. 1975/2007. no racionalismo crítico de Popper. 1962/2011. quando se trata de decidir entre duas teorias rivais não há “meio racional” para se tomar tal decisão porque “cada uma determina observações que sejam compatíveis somente consigo mesma. Trata-se de duas crí­ ticas que foram dirigidas à epistemología empirista e à filosofia indutivista da ciência por filósofos pós-empiristas da ciência (Feyerabend. a observa­ ção pode ser mais bem estudada na linguagem dos dados comportamentais (behavioral data language) do que na linguagem observacional (observational language). 35). mas não pode ser absolutamente puro: nem totalmente físico nem totalmente fisiológico. não pode ser derrubada por observações que não a confirmem” (p. pressupõem teoria). Popper. no rastro dos filó­ sofos pós-empiristas da ciência. Uma mais antiga. e outra mais recente. 1934/1971)29. Um fenômeno que tem sido “demonstrado experimentalmente. mas discordam com respeito à concepção de ciência. 35). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .

235). haja vista que “todo fato contém pressuposições teóricas” (Kolakowsky. o processo tem que se deter em algum enunciado bási­ co que decidamos aceitar: se não chegarmos a alguma decisão a esse respeito. 43). (p. o enunciado que não pode ser justi­ ficado psicologicamente com base na experiência perceptiva. Da perspectiva do convencionalismo. Mas. Popper (1934/1971) escreve: “Eu defendo que as teorias científicas nunca são compíetamente justificáveis ou verificá­ veis” (p. portanto. Psicologia como ciência empírica é solidária com a concepção de ciência defendida pelo empirismo epistêmico e pelo indutivismo. desse modo. Dessa perspectiva. 1934/1971). o exame não chegará a parte alguma. nas proposições observacionais. o enunciado de um fato singular. é impossível refutar ou verificar hipóteses. E nesse mesmo sentido. a crítica ao empirismo epistêmico encontra-se não só na filosofia convencionalista da ciência. a tese de Popper atinge o enunciado básico. Skinner (1974) disse que “seria absurdo para o comportamentalista sustentar que ele está de qualquer modo isento de sua análise” (p. aparentemente. como também no racionalismo críti­ co de Popper (Kolakowsky. portanto. 154). 234). Mas. e tenta. do que realmente acontece” (como citado em Skinner. p. evitar confusão conceituai.. ‘empoleirado no epiciclo de Mercúrio5” (p. ele não pensa em si mesmo como um animal. 1974. Aqui está o que Popper (1934/1971) diz sobre o enunciado básico: Sempre que uma teoria seja submetida a exame e seja corroborada ou falsificada. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! ignoram a tese [de que não há pureza observacional] e continuam a compilar dados que eles consideram objetivo e empírico” (p. 1966/1976. 1966/1976. na experiência. todo esse program a está fadado ao fracasso porque não há fatos neutros. e não aceitarmos. pois ao responder a este comen­ tário de Russell. um enunciado básico. essa observação de Zuriff não alcança Skinner. 99) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Embora mais atenuada. . Já relativamente antiga. . Popper. mas como um registrador infalível. que não pode. na observa­ ção.. “quando o comportamentalista observa as ações dos animais. ser justificado com base no empirismo epistêmico. aparentemente. 234). E por quê? Por­ que “ele não pode sair do fluxo causal e observar o comportamento de algum ponto de observação. busca sua unidade conceituai na base empírica. qualquer que seja. 36). nem observações independentes de teorias. nem meios racionais para decidir entre teorias rivais. p.

os seus fundamentos. . a teoria científica vem antes e a metaciência vem depois (Blanché. 12-13) A metaciência envolve dois discursos. . por sua vez como objeto e in­ terrogando-se a um nível superior sobre os seus princípios. 101). . que é uma reflexão sobre a ciência. tomando-a. Há que esperar. Dessa perspectiva. E há o discurso filo­ sófico: um discurso de segunda ordem que versa sobre o discurso científico. . as suas estruturas. podem ser vistas como metaciên­ cia obras de cientistas. as suas condições de validade . Há o discurso científico: um discurso de primeira ordem que versa sobre o objeto da ciência. a análise conceituai pode ser entendida como análise pós-empirista ou metacientifica. Popper (1934/1971) sentencia: “Os enunciados básicos são acei­ tos como resultado de um a decisão ou acordo. . tais como A ciência e a hipótese. a fonte persistente de confusão conceituai a envidar os esforços da análise conceituai no intuito de evitar ou dirimir tal opacidade. de Henri Poincaré. a constituição de uma teoria científica para que possa ser realizada. Os limites da ciência. . 4 . é incluída . haja vista que principia pelo exame da teoria científica e desenvolve-se desvelando seus compromissos filosófi­ cos. portanto. Ele afirma que ela não pode ser “praticada senão por cientistas especializados” (p. Volta novamente à baila o tema da pluralidade conceituai. de Peter Medawar e A estrutura das revoluções cientí­ INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Isso Blanché (1976) traz à tona quando escreve que “a epistemologia. Nas palavras de Blanché: Recordemos que se dá hoje o nome de metaciência a um estudo que vem depois da ciência . Em outras palavras. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Preciso. 1976). (pp. A objetividade da base empírica é uma ilusão que foi propagada por duas filosofias indigentes da ciência: o empirismo epistêmico e a filosofia induti- vista da ciência. 13). e desse ponto de vista são convenções” (p. Blanché (1976) vai então mais longe e faz uma declaração radical sobre a metaciência. na metaciência” (p.0 cientista e o filósofo Do ponto de vista deste texto. 13).

Obras de filosofia da ciência não seriam obras de metaciência. Collingwood (1981) escreve: “Um cientista que nunca tenha filosofado so­ bre a sua ciência. filosofar sobre ela sem se tornar um louco” (p. estamos diante de uma falsa questão. de Paul Feyerabend e A epistemologia. Entretanto. um imitador. a base empírica espelha uma determinada filosofia da expe­ riência. Passando a palavra a Ferrater Mora: “A rigor. um funcionário da ciência. A lógica da investigação científica. não pode. nunca poderá passar de um cientista secundário. 2193). e o discurso filosófico baseado em domínio inadequado do discurso científico é vazio30. de Ernest Nagel. psicologias como ciências empíricas. 5. Essa tensão entre a metaciência e a filosofia da ciência não se refere à natureza de suas tarefas. meditar sobre ela. por 30 Em sentido similar. de Karl Popper. na verdade. Contra o método. aparen­ temente não há diferenças fundamentais entre metaciência e filosofia da ciência” (p. mas. tais como A estrutura da ciência. No caso do empiris­ mo epistêmico. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! ficas. Será o cien­ tista ou o filósofo quem estará capacitado a discorrer filosoficamente sobre o discurso da ciência? Aqueles que acreditarem que essa função cabe ao cientista tenderão a ver a análise conceituai vinculada com a metaciência. eviden- temente. Considerações finais A base empírica espelha um a filosofia da experiência. 9). de Thomas Kuhn. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Um homem que nunca tenha gozado um certo tipo de experiência. obviamente. de Gaston Bachelard. conclui­ remos que essa tensão não é legítima e que. A questão essencial não é se a obra é de metaciência ou de filosofia da ciência. pois o dis­ curso científico baseado em domínio inadequado do discurso filosófico é cego. e um filósofo que nunca tenha trabalhado em ciência natural não pode. Mas se aceitarmos o que escreve o filósofo Ferrater Mora (1981). isto sim. o cerne da filosofia da ciência consiste no exame filosófico da ciência. Mas não podem ser vistas como metaciência obras de filósofos da ciência. se o cientista e o filósofo dominam competentemente os discursos de prim eira e de segunda ordem. Nas psicologias modernas. mas à atribuição de competência para realizá-la. já aqueles que acreditarem que essa função cabe ao filósofo tenderão a ver a análise conceituai vinculada com a filosofia da ciência.

In Prado Jr. A. (1982). Da perspectiva deste ensaio. A. D. A base agora é comportamental e não mais empírica. Salvo melhor juízo. No século XX. Cadernos de História e Filosofia da Ciência. Universidade de São Paulo. se a análise conceituai fizer o seu serviço. Isso significa dizer que análise conceituai começa pelo exame da teoria psicológica e desenvolve-se com o exame da filosofia da ex­ periência ou da filosofia do comportamento que fundamenta tanto a teoria psicológica quanto a base empírica ou a base comportamental. as psicologias de W undt (1897/1922) e James (1890/1950). (Ed. Quando Wittgenstein (1953/1988) declarou que na psicologia há métodos experimentais e confusão conceituai. naturalismo e positivismo. J. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . essa é a tese de Zuriff (1985) quando pro­ põe a substituição da linguagem observacional pela linguagem dos dados comportamentais. William James e outros clássicos. Abib. no m atter”.. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! exemplo. J. Aparentemente. Abib. análise conceituai é análise pós-empirista de teorias psicológicas. 107-143. Skinner. as bases empíricas espelham distintas filosofias da experiência. de ciência da experiência. D. B. 92-109). (1996). Filosofia e comportamento (pp. D. (1985). mutatis mutandh. foi o que Popper (1934/1971) também fez ao substituir a base empírica pelos enunciados básicos. Referências Abib. São Paulo: Brasiliense. Podemos responder ao seu comentário dizendo que na psico­ logia há. métodos experimentais. mas não necessariamente confusão conceituai. A. materialista metafísico? “Never mind. Skinner. o que ele deu a entender foi que a pro­ liferação de tais métodos e confusões resulta da pluralidade do pensamento psicológico. De resto. Revoluções psicológicas: um retorno a Wilhelm Wundt. São Paulo. a psicologia passa a ser concebida como ciência do comportamento. J. poderíamos dizer que Zuriff está su­ gerindo que a base empírica seja substituída por uma base comportamental. sim.). 6(1). Tese de Doutorado.

). R. (1979).. R. (1984). 53-60. Trad. Blumenthal. D. (Eds. 71-84). (1979).). São Paulo: Abril Cultural. D. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Button. Cocco. P. L.) Blanché. A. 329-360). Psicolo­ gia: Teoria e Pesquisa. 8. Handbook o f behaviorism (pp. C. Bloor. (1975). & Sharrock. SP: ESETec. D. R. D. A. Couto. J.). J. (1999). Trad. 15(3). (2001). Ferreira.. W. (2005). Lisboa: Editorial Presença. São Paulo: Martins Fontes. Kit­ chener (Eds. (1997). Oliveira. A. San Diego. d.). Coulter. Abib. G. 547-550. In H. In W. (Trabalho original publicado em s.. W. A epistemologia (F. 1081-1088. Madi. B. A. The founding father we never knew. American Psychologist. W ittgenstein’s behaviorism. Santo André. Rieber (Ed. J. L. Behaviorismo radical e discurso pós-moderno. M. Behaviorismo radical como pragmatismo na episte- mologia. Goudinho & M. (1980). Trad. O ’Donohue & R. 30. Sobre comportamento e cognição (Vol. 9-35). Contempo­ rary Psychology. 158-161). Cidade do México: Trillas.). Prólogo à história da psicologia. São Paulo: Unesp. Scoz. L.). Computadores. Queiroz. B. Bunge. 117-135). pp. Blumenthal. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Abib. G. (Trabalho original publicado em 1971. (1976). L. (1999). (1979).). Wilhelm W undt and early American psychology: a clash of cultures. M. Abib. 237-247. mentes e conduta (R. New York: Plenum Press.). La conciencia (pp. Metafísica (V. Aristóteles. J. Guilhardi. A. Blumenthal. C. L. In Os pensadores (pp. La bancarrota del dualismo psiconeural. Trads. J. P. In R. A reappraisal of Wilhelm W undt. A. 21(1). CA: Aca­ demic Press. & M. P. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Lee. Fernán- dez-Guardiola (Ed. J.) Bachelard. A epistemologia (N. In A. Wilhelm Wundt and the making o f a scientific psychology (pp. 24(7).

W. (Trabalho original publicado em 1975. São Paulo: Brasiliense. New York: Plenum Press. F.). 3). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Camus. 31-53. BER: The Open University Press. (1942). Cescato. Wilhelm Wundt and the making o f a scientific psychology (pp.). Modern perspectives on B. Churchland. 9-35). R. Creel. (Trabalho original publicado em s. (1997). T. (1979). Trad. 73-87). Danziger. 75- 84). Collingwood. In J. Lis­ boa: Editorial Presença. Chaui. M. K. Le mythe de Sisyphe: essai sur Vabsurde. Trad. Morris (Eds. A. Madrid: Alianza Editorial. P. J. C. Behaviorism. De Carvalho. 15.). Danziger. Journal o f the His­ tory o f the Behavioral Sciences. Naming the mind. d. In Os pensadores (pp. Westport: Greenwood Press. £(1). 205-230. (2007). (1994). O n certain relations between contempo­ rary philosophy and radical behaviorism. A. Nota 6 sobre Metafísica de Aristóteles (V.).) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . London: SAGE Publications. K. W. Feyerabend. Todd & E. P. The positivist repudiation of W undt. São Paulo: Abril Cultural. R. Matéria e consciência: uma introdução contempo­ rânea à filosofia da mente (M. Paris: Gallimard. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aris­ tóteles. Trad. (1981).). In R.. Radical epiphenomenalism? B. What is this thing called science? Maidenhead. Skinner and contemporary behaviorism (pp. K. Chalmers. (1978). São Paulo: Unesp. Ciência e filosofia (F.. (1995). G.) Ferrater Mora. (1981). Rieber (Ed. Danziger. K. Trad. (1980). Contra o método (C. Skinner's account of pri­ vate events.). & Moore. A. Mortari. São Paulo: Unesp. J. M. Day Jr. Montenegro. W undt and the two traditions in psychology. Cocco. F. J. (1980). F. Diccionario de filosofia (v. (1979). (2004).

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Flanagan Jr. N. Paris: Editions Denoêl/Gonthier. (1950). W. São Paulo: Cultrix. São Paulo: Perspectiva. Skinners’s radical behaviorism and behavior theraphy . 48(6). In S.). V. Boeira & N.). Morgenbesser (Ed. J.) Kvale. Trad. (Trabalho original publicado em 1892. (Trabalho original publicado em 1962. K. 5(1). 1-13. L. Filosofia da ciência (pp. São Paulo: Cultrix. 658-664. The conduct o f inquiry. 309-315. C. Essays in radical empiricism. 902-904. S.. “Psychology” or “the psychological studies”? American Psychologist. 48(8). La philosophic positiviste (C. A.. American Psychologist. Apelo para que a psicologia seja uma “ciência natural” (R. Rosas. Kuhn.. & Larzelere.An outline for a marxist critique. (1976). W. Trad. 239-253. Trads. História da psicologia moderna (M. Goodwin. Skinnerian metaphysics and the problem of opera- tionism. NY: Do­ ver.). Scientiae Studia. 127- 138). P. Kerwin. J. James. A estrutura das revoluções científicas (B.. U (3). (2011). (2009). (1985). O. Hanson. W. D. 7(2). R. Trad. Behaviorism. (1980). New York. da Mota.). T. (1964).) James. (1976).). Friman. Boei- ra. Hegenberg & O.). R. (1993). Cambridge: Harvard Univer­ sity Press. (Trabalho original publicado em 1890) James.) Kaplan. (2005). Brendel. Observação e interpretação (L. 1.). Revista Mexicana de Andlisis de la conducta. C. Kinouchi. (1975). The principles o f psychology (2 vols. R. methodology for behavioral scien­ ce. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . M. Trads. (Trabalho original publicado em 1912. (1993). S. Koch. S. San Francisco: Chandler Publishing Company. Allen. Changes in modern psychology: a citation analysis of the kuhnian displacement thesis. Kolakowsky.

The mistaken mirror: on W undt’s and Titchener’s psychologies. (1981). The mythical revolutions of American psychology. J. Skinner’s verbal behavior: a retrospec­ tive appreciation. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Laurenti. 83-99. 831-841. Merleau-Ponty. La structure du comportment. B. K. 1-13). 12(5). O ’Donohue. H. M acCorquodale. New York: H arcourt. A. D. (1999). R.) Moxley. J. Leahey. 201-214.. C. (2002). R. Lopes. 25(2). American Psychologist. E. (1977). 17(2). homem e ética. W. Nagel. Brace & World. The structure o f science. (1969). T. (2012). Moxley. (Trabalho original publicado em 1942. A. Cognition and behavior modification. Paris: Presses Uni- versitaires de France. 27. O lugar da análise do comportamento no debate cientí­ fico contemporâneo. 28(3). E. Mahoney. H. C. MacCorquodale. On Chomsky’s review of Skinner’s verbal beha­ vior. Journal o f the History o f the Behavioral Sciences. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (1974). T. SP: ESETec. Santo André. Conversas pragmatistas sobre comportamentalismo radical: mundo. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 308-318. R. MA: Publishing Company. 13( 1). M.. M. (1999).. (1961). Journal o f the Experimental Analysis o f Behavior. CA: Academic Press. F. Cambridge. San Diego.). introduction: the behaviorisms. Some more similarities between Peirce and Skinner. pp. & Abib. (1992). Journal o f the Experimental Analysis o f Behavior. The two Skinners. K. The Behavior Analyst. (2012). 273-282. O ’Donohue & R. Behavior and Philosophy. In W. Leahey. 47(2). Laurenti. 97-125. {1970). & Kitchener. Kitchener (Eds. 367-376. A. modern and postmodern. Handbook o f behaviorism (pp. C.

Skinner: cumulative record (pp. D.) Skinner.). The operational analysis of psychological terms. CA: Academic Press. (1999). Trad. Palo Alto. (1913). J. Trad. (Trabalho original publicado em 1953. About behaviorism.) Popper. O ’Donohue & R. A ciência e a hipótese (M. B. Skinner. (Trabalho original publicado em 1949. (1984). F. B. (1980). Catania (Eds. B. L. In W. San Diego. Oxford: Basil Blackwell. G. B.). Ohio: Merrill Publishing Company. (1971).). G. Massachusetts: Copley Publishing Group. Middlesex: Penguin Books. J. The concept o f mind.). (1974). Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Ryle. H. Anscombe. Handbook o f behaviorism (pp. Watson. F. Behaviorism. F.). B. 416-439).) Smith. Kitchener (Eds. (Trabalho original publicado em 1934. Skinner. (1988). 20. Skinner. Psychology as the behaviorist views it. Radical behaviorism: B. Keywords. Madrid: Tecnos. Watson. Laties & A. B. Behaviorism and logical positivism: a reassessment o f the alliance. (1989). La lógica de la investigación científica (V. New York: Appleton-Century-Crofts. A. F. CA: Stanford University Press. de Zavala. Chicago: The University of Chicago Press. In V. 159-178). L. M. Contingencies o f reinforcement. Kneipp. (1983).) Ringen. Psychological Review. C. Recent issues in the analysis o f behavior. (Trabalho original publicado em s. Skinner’s philosophy. (1999). 158-177. (Trabalho original pu­ blicado em 1945.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Wittgenstein. R. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Poincaré. (1930). Trad. New York: Oxford University Press. J. Williams. K. S. E. F. B. (1986). Knopf. Philosophical investigations (G. New York: Alfred A. F. d. (1969).

E. (1985). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! W undt. G. W. Psychological Bulle­ tin. (Trabalho original publicado em 1897. (1922). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Zuriff. Trad. Alemanha: Alfred Kroner Verlag. An introduction to psychology (R. (1980). G.) W undt.) Zuriff. (Trabalho original publicado em 1912. 337-350. Leipzig. Behaviorism: a conceptual reconstruction. Pintner. 87(2). (1973).). W. Lon­ don: George Allen & Company. E. Grundriss der psychologie. New York: Columbia University Press. Radical behaviorist epistemology.

servindo como um primeiro guia para os interessados na área. vou argumentar que a integração entre a história da psicologia e a filosofia da psicologia é uma das formas pos­ síveis de se pensar a relação entre pesquisa teórica e investigação histórica. Nos dois capítulos a seguir. Ambas as estratégias. é fundamental demons­ trar como isso poderia ser alcançado. Para tanto. Neste capítulo. divididas em dois capítulos. vou responder positivamente à questão acima for­ mulada e mostrar como isso pode vir a ser realizado.que deverá ser aprofundada em trabalhos posteriores -. utilizando exemplos concretos da li­ teratura especializada. Em caso de um a resposta positiva. No próxi­ mo capítulo. vou apresentar algumas diretrizes metodológicas para a elabora­ ção e realização de projetos particulares. O ponto de partida para a compreensão da proposta aqui apresentada é o conjunto de problemas e limitações da tendência metodológica dom inante INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Nesse sentido. foram exploradas algumas possibilidades de se fa­ zer pesquisa teórica em psicologia. têm o objetivo comum de fornecer uma fundamentação metodológica preliminar para esse tipo de investigação . vou adotar duas estratégias diferentes. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! A integração entre a história da psicologia e a filosofia da psicologia como programa de pesquisa teórica Saulo de Freitas Araujo Nos capítulos anteriores. vou explicitar o que eu entendo por essa integração e propô-la como um programa permanente de pesquisa teórica em psicologia. A questão que ora se coloca é se a inves­ tigação histórica pode contribuir de alguma forma para o enriquecimento da pesquisa teórica.

1966) e a promover a institucionalização e a profissionaliza­ ção da história da psicologia como campo especializado. 1980. todo esse movimento é normalmente chamado de "historiografia crítica da psicologia” (Woodward. vou concluir defendendo uma dessas possibilidades. Woodward. Como consequên­ cia. Posteriormente. “virada social” na historiografia da INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . m ostrando em seguida suas fragili­ dades e a necessidade de abordagens complementares. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! em história da psicologia. 1979. os prim eiros trabalhos historiográficos em psicologia representavam uma tradição baseada em relatos biográficos ou análise de ideias. 1980. Young.g.. vou apresentar em seguida o contexto geral de tais debates. Samelson.g. surgiu uma nova geração de historiadores da psicologia e uma série de novas publicações com os resultados de suas pesquisas (e. 1982). críticos do modelo tradicio­ nal começaram a sugerir a necessidade de uma abordagem mais crítica para a história da psicologia (e. Watson. 1950). 1974. que formou toda uma geração de psicólogos historiadores na tradição norte-americana (Boring. 1987). a fim de familiari­ zar o leitor com a natureza dos argumentos apresentados. A partir da segunda metade da década de 1960. 1980. vou analisar as implicações de tais debates para o caso específico da psico­ logia.. perguntando sobre as possibilidades de integração entre história da psicologia e filosofia da psicologia. Como tendência geral. vou iniciar minha exposição analisando o desenvolvimento recente do campo. 1. Brozek & Pon- gratz. 1975. Por isso. A history o f experimental psychology. Um dos exem­ plos mais m arcantes desta historiografia é a obra m onumental de Edwin Boring (1886-1968). Woodward & Ash. Por fim.A emergência da nova historiada psicologia Acom panhando a tendência geral da historiografia da ciência na época. Buss. que desde a década de 1960 vêm ocupando parte da agenda de historiadores e filósofos da ciência. Como a proposta aqui apresentada é derivada dos debates sobre as possíveis relações entre a história da ciência e a filosofia da ciência.

g.g. Roger Smith (1992). Smith. & Baydala.. Ash & Woodward. 1997). Buss. & van Hoorn. 1979. 2013). A nova história utiliza fontes primárias e documentos de arquivos ao invés de se basear em fontes secundárias. 2004. Kurt Danziger (1990. (p. entre outros. ao invés de buscar antecedentes de ideias atuais ou dc escrever a história retrospectiva­ mente. ainda que essa concor­ dância geral venha acompanhada de uma grande variedade de orientações teóricas particulares. 2014).. Teo. o que pode levar à transmissão de mitos e anedotas de uma geração de autores de manuais à outra. Finalmente. eles não necessariamente estão falando da mesma coisa (e. mesmo quando eles afirmam que estão fazendo uma análise sociológica da psicologia.31 31 O fato de que a maioria dos novos historiadores da psicologia compartilham o objetivo de privilegiar as dimensões políticas. Segundo Furomoto (1989).g.. 18) Um outro aspecto central dessa nova historiografia é uma ênfase nos aspec­ tos políticos. contextuai ao invés de uma simples história das ideias. 1996. 1989). Mitcheí Ash (1998) e Martin Kusch (1999). 1987) ou simplesmente “nova história da psicologia” (Furo- moto. Jansz & Drunen. Brock. 2010. 1990. Kusch. 1988. mas tem igualmente transformado o próprio modo de conceber e escrever os manuais da área. 1979. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . metodológicos e metafísicos. Nikolas Rose (1985. sociais e institucionais da ciência em suas análises históricas da psicologia não deve nos fazer ignorar as significativas diferenças metodológicas e conceituais que existem entre eles (e. a nova his­ tória tenta se manter dentro do pensamento de um período para ver as questões tais como elas apareceram na época. 2001. Danziger. A nova história tende a ser critica ao invés de cerimonial. Walsh. 2005. E isso tem acontecido não apenas no nível de trabalhos monográficos individuais. 2003. 1998. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! psicologia (Ash. que começam a apresentar uma nova estrutura (e. Por exemplo. a partir do conteúdo presente do campo. Graumann & Gcrgcn. Louw. 1998). 2013.Ash (1983). sociais e institucionais da psicologia em detrimento de seus elementos lógicos. Furomoto. indo além do estudo dos ‘grandes homens’. ver . 1987. 2002. Pickren & Rutherford. Smith. têm publicado trabalhos pioneiros sobre o impacto de fatores culturais. Rose. e mais inclusiva. 1999). sociais e políticos sobre a teoria e a prática da psicologia em seu desenvolvimento histórico51. Bcnetka. Para uma investigação detalhada do início de tal diversificação na historiografia da psicolo­ gia nos Estados Unidos. fones & Elcock.

e nem mesmo entendida por filósofos profissionais da mesma maneira que os novos historiadores frequentemente assum em . profissional x amadora. as dicotomias criadas pelos novos historiadores para separar a nova da velha história (crítica x ingênua. Em re­ lação ao uso das fontes. 18) No que diz respeito ao primeiro ponto. não está tão claro assim que todos os chamados velhos historiadores faziam uso preponderante de fontes se­ cundárias.. Entre os problemas apontados por Lovett em relação às conclusões apressadas da nova história. 2006. muitos desses estudos deixam muito a desejar em termos metodológicos. . três são especialmente importantes para a presente discussão: a) novos historiadores têm se comprometido prematuramente com visões normativas sobre questões historiográficas. d) as diretrizes normativas defendidas pelos novos historiadores podem ser impossíveis de seguir de forma consistente. . eu gostaria de acrescentar às observações de Lo­ vett o fato de que muitos trabalhos pertencentes à nova história continuam a negligenciar fontes prim árias importantes. p. tais como a influência do discurso psicológico na sociedade e os usos políticos e ideológicos dos testes mentais. Apesar de todos os seus méritos. por exemplo. contudo. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! 2. Essas generalizações apressadas em relação à historiografia da psicologia podem levar a uma compreensão equivocada de questões intrínsecas à pes­ quisa histórica em psicologia. Limites e problemas da nova história Essas novas abordagens para a história da psicologia têm trazido à luz as­ pectos im portantes da teoria e da prática psicológica. 2014a). onde não há qual­ quer consenso: b) a pesquisa da nova história se baseia frequentemen­ te em uma visão particular de ciência que não é largamente aceita por filósofos contemporâneos da ciência.) são exageradas. como eu demonstrei alhures (Araújo. (Lovett. o recente debate entre Daniel Robin- son e Kurt Danziger ilustra bem a falta de consenso entre os historiadores INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . uso de fontes prim árias x fontes secundárias etc. Além disso. Como bem mos­ trou Lovett (2006).

com o objetivo de capturar a dimensão social da pesquisa psicológica. o trabalho de Danziger é muito importante. 33). Tendo passado mais de uma década reavaliando a psicologia de W undt. continuidade x desconti- nuidade). “o que está faltando é o reconhecimento da natureza socialmente construída do conhecimento psicológico” (Danziger. Sua conclusão é de que “a nova história não é tão diferente assim da velha..g. em Constructing the subject (1990). incluindo o laboratório INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 2016). Lovett não explorou um terceiro tipo de problema que ele iden­ tificou na nova história. suas análises não deixam de apresentar problemas. 2013b) defende a continuidade conceituai entre vários aspectos do pensamento de Aristóteles e a psicologia moderna. Lovett identificou em trabalhos da nova história uma aceitação pouco crítica de pressupostos teóricos (e. enquanto Danziger (2013) recusa a existência de uma psicologia aristotélica no sentido moderno do termo.. Infelizmente. Robinson (2013a. p.. Este problema coloca. Danziger propõe o conceito de prática in- vestigativa como substituto do conceito de metodologia. novas formas de presentismo cerimonial).g. Ao mesmo tempo. a saber. Danziger fez contribuições significativas para os estudos wundtianos (Araújo. ele constitui a razão principal que justifica minha proposta de uma abordagem alternativa para a história futu­ ra da psicologia. 26). No que concerne ao segundo ponto. na historiografia da psicologia. 1990. a filo­ sofia da ciência de Thomas Kuhn) e a existência de erros similares àqueles normalmente atribuídos à velha história (e. 2006. e que algumas vezes “é difícil distinguir entre um juízo cuidadoso e um preconceito bem elaborado” (Lovett. p. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! da psicologia sobre questões fundamentais (e. ele argumenta que. o mais sério desafio metodológico para os novos historiadores. 2). 2006. a consistência de suas diretrizes normativas. Contudo. como os seus praticantes argumentam” (Lovett. Vou tomar aqui como exemplo o projeto psicológico de Wundt. Nesse tema.g. Na ten­ tativa de preencher esta lacuna. A questão da consistência pode ser mais bem visualizada quando aplicada a um caso concreto. a meu ver. Em especial. Por exemplo. A complexidade dos problemas envolvidos e a dificuldade de oferecer respostas rápidas e fáceis deveriam servir de precaução para o historiador da psicologia. p.

No máxi­ mo. Todavia. 2009). Danziger restringe a análise da introspecção antes de Wundt a Locke e Kant. a organização social de seus experimentos psicológicos. 18). os objetivos e interesses epistêmicos que guiam esta prática dependem do contexto social dentro do qual os investigadores trabalham” (Danziger. além de não ser coerente com seus próprios princípios em pontos cruciais. Entretanto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . são de fato fatores sociais” (Kusch. 1999. Além disso.3 Para mencionar apenas um problema. com base na sociologia do conhecimento científico. “corpos de conhecimento psicológico são instituições sociais” (Kusch. 1). E mesmo quando introduz aquilo que chama de “um terceiro elemento na prática investígativa de W undt” (Danziger. desta forma. argumentos e razões. De acordo com a tese geral do livro. sem falar nas questões filosóficas a ela subjacentes. teorias. 1990. quando se trata do conceito m etodológico cen­ tral de W undt . Como consequência de seu sociologismo54. 3. a abordagem social de Danziger pode ilustrar alguns aspectos da prática experimental de W undt. 177). que o laboratório de W undt tinha uma estrutura social não explica nem a sua psicologia expe­ rimental como um todo nem sua teoria psicológica em relação aos dados experimentais.a introspecção e sua relação com o método experimental Danziger não segue os preceitos de sua abordagem socíoconstrutivista e muda o foco de sua análise para uma seletiva história conceituai da intros­ pecção. isto é. 1999. Em outras palavras. 4). p. que é tão problemática quanto algumas das velhas histórias con­ ceituais sobre o tem a55. no sentido de que o indivíduo investigador age dentro dc um quadro de referência determinado pelos potenciais consumidores dos produtos de sua pesquisa e pelas tradições de prática aceitável que prevalecem na área. “uma prática investigativa é em grande medida uma prática social. deixando de lado aspectos essenciais dos debates do século XVIII sobre o tema. ver Hatfield (2005) e Sturm (2006/2012. Para maiores detalhes sobre este tópico. Kusch deve­ ria então m ostrar que a teoria psicológica de W undt também é uma institui-32*4 32 De acordo com Danziger. 34 Nas palavras dc Kusch: “Sociologismo é a afirmação de que os assim chamados fatores ‘racio­ nais'. Danziger não consegue mostrar a determinação social dos objetivos e dos interesses epistêmicos de W undt. 1990. p. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! de W undt52. Um segundo exemplo é o estudo de Martin Kusch (1999): Psychological Knowledge: A Social History and Philosophy. tais como os papéis intercambiáveis entre experi­ mentador e sujeito experimental. a meta mais elevada de sua abordagem socioconstrutivista. Esse livro oferece uma inter­ pretação da controvérsia sobre a psicologia do pensamento na Alemanha. frustrando. p. ela carece de uma investigação cuidadosa dos fundamentos filosóficos da psicologia de Wundt. p.

uma escola científica.que contém longas seções sobre W undt e seus críticos (Benetka. pp. uma comunidade de especialistas. 61-148). dependendo do que seja a unidade de análise em questão. ignorando a enorme heterogeneidade entre os próprios membros daquela escola. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! ção social33. 36 Mülbergcr (2001). pp. Por exemplo. sem falar no seu program a filosófico subjacente. por exemplo. as análises de Kusch estão longe de ser convincen­ tes. Contudo. 1999. mesmo se ele conseguisse demons­ trar isso. Benetka deixa claro que sua abordagem metodológica para a história da psicologia é baseada na análise sociológica do conhecimento científico. 37 Como explica Benetka. Em outras palavras. Além disso. Kusch ignora o fato de que a teoria não foi coletivamente aceita ou. p. as características centrais da elaboração teórica de W undt não são afetadas pela análise sociológica de Kusch. “um coletivo de pensamento científico não c nada além de uma comuni­ dade de cientistas que compartilham pontos de vista semelhantes: um grupo de pesquisa em labo­ ratório. p. proposta por Ludwig Fleck (1896-1961). Kusch não consegue m ostrar como a teoria psicológica de Wundt. 172). de que nenhum coletivo teve uma crença au­ tor referencial sobre a teoria. Entretanto. O último exemplo que vou explorar aqui é o livro de Gerhard Benetka - Denkstile der Psychologie . mas se revelam inadequadas para lidar com o projeto psicológico de W undt3536. Fleck chama de estilo de pensamento as suposições que são comuns a um grupo e que subjazem ao seu trabalho” (Benetka. e como isso levaria a uma interpreta- 35 Para Kusch. afirma que a análise de Kusch sobre a Escola de Würzburg enquanto uma instituição social é altamente problemática. “para que algo seja uma instituição social. Desde o começo. em suas análises históricas concretas. no sentido de que Kusch a trata como uma unidade. especialmente no que diz respeito às noções de Denkstil (estilo de pensamento) e Denkkollektiv (coletivo de pensam ento)37. 22). Benetka não mostra como exatamente a abordagem de Fleck se aplicaria à história da psicologia alemã em geral ou ao projeto de W undt em particular. 1999. suas categorias de análise são problemáticas não apenas quando aplicadas à própria Escola de W ürzburg. Embora ele esteja correto em afirmar que o argumento de W undt em favor da separação entre a psicologia experimental e a Völkerpsychologie foi aceito pela maioria de seus estudantes em Leipzig (Kusch. 2002. 176-177). 2002. poderia ser uma instituição social. que é o foco central do livro. o caráter social da teoria psicológica de W undt (ou de partes dela) não é suficiente para explicar aspectos cruciais dela. para usar seu próprio critério. tais como a rejeição do inconsciente ou os princípios da causalidade psíquica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . c suficiente que algum coletivo tenha uma crença auto-referencial sobre este algo” (Kusch.

o que aponta novamente para a necessidade de uma abordagem diferente para o projeto de Wundt. Schopenhauer etc. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! ção nova e significativa. Nesse sentido. tais como poder causal. elas deixam muitas questões sem resposta. não conseguem capturar o sig­ nificado teórico de muitos projetos psicológicos. Ademais. seu sentido não pode ser completamente capturado por análi­ ses sociológicas ou socioconstrutivista. 1994. Ao final. Ao invés disso. 1994. como o de W undt. Tudo indica. além de sua vagueza e de seus usos problemáticos18. ele mostra que práticas sâo frequentemente compreendidas como objetos reais com propriedades misteriosas. como a de Danziger. assim como suas vagas indicações sobre as raízes intelectuais de W undt (Kant. o conceito é escorregadio e tem proprieda­ des misteriosas. Para ele. que é sobretudo parte de um sistema filosófico e está enraizado profundamente em sua motivação filosófica pessoal. a abordagem de Benetka. 2002. inicial mente um entusiasta da teoria social contemporânea. Ainda que tais análises possam abrir novos horizontes de compreensão do desenvolvimento histórico da psicolo­ gia. como: “Nos últimos quinze anos do século XIX. Não há sequer uma tentativa de demons­ trar como as categorias ‘estilo de pensam ento5 e ‘coletivo de pensam ento’ podem explicar o projeto psicológico de W undt ou como elas iluminam no­ vos aspectos de seu pensamento em comparação com as velhas histórias da psicologia. repetindo sua crítica tradi­ cional à interpretação de Boring. p. categorias como ‘práticas sociais5. submeteu o conceito de práticas a uma crítica rigorosa. ele pergunta: Kse uma cultura é um objeto causal. 149). quando vai apresentar as ideias psicológicas de W undt. Fichte. se revela inadequada para lidar com a profunda estrutura conceituai da psicologia de Wundt. 11). que as histórias sociais da psicologia não dão conta de abordar adequadamente algumas questões teóricas e conceituais subjacen­ tes a certos projetos psicológicos. o que se encontram são afirmações gerais ou muito vagas. p. como ela age e que tipo de objeto ela é?” (Turner. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 6). então. isto é. ‘práticas discursivas' e afins. ‘práticas culturais'. Eu não estou afirmando que a dimen-38 38 Stephen Turner (1994). p. Eu defendo a tese de que questões filosóficas e conceituais não podem ser reduzidas a questões sociais.). Por exemplo. Ao invés disso. que demandam uma análise filosófica mui­ to mais cuidadosa do que tem sido oferecida até aqui. um novo estilo de pensamento começou a se estabelecer contra a psicologia de W undt” (Benetka. Tais problemas levaram-no “a concluir que o conceito de práticas é profundamente falho” (Turner. Benetka acaba se baseando em Danziger.

posterior mente retomado por Imre Lakatos (1922-1974) . porque a literatura secun­ dária tem ignorado tantos aspectos do projeto de W undt e tantas fontes prim árias relevantes para a compreensão de seu desenvolvimento intelec­ tual. em um artigo recente. A aposta central é que alguns problemas meta-científicos só poderiam ser resolvidos por meio de uma intensa colaboração entre ambas as áreas. Uma das justificativas básicas para tal inte­ gração deriva do famoso veredito do filósofo Norwood Hanson (1924-1967) . muitos autores têm defendido a necessidade de uma integração entre a História da Ciência e a Filosofia da Ciência. por exemplo. 2002). apresenta uma lista de dez problemas que ilustrariam tal necessidade de colaboração (Galison. alguns esforços coletivos têm sido feitos para promover o debate e oferecer possibilidades de aproximação e integração (Arabatzis & Schickore. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! são política. social ou institucional não é importante para o entendimento do desenvolvimento histórico da psicologia. Laudan. Nem tudo é tão simples. A pretendida integração tem se mostrado historicamente difícil. 2002. Relações f entre a história da ciência e a filosofia da ciência Nas últimas décadas. 2012. e ainda hoje ela é precária. p. 1962. Burian. . .segundo o qual “a história da ciência sem a filosofia da ciência é cega. a filosofia da ciência sem a história da ciência é vazia” (Hanson. 2008). 2012b. antes de apontarmos as INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 2000. culminando na proposta de uma nova disciplina ou um novo campo de estudos: History and Philosophy o f Science (HPS). antes. a meu ver. Pinnick & Gale. 2010a. Mauskopf & Schmaltz. 3. 2012a). Meu argumento é. Mauskopf & Schmaltz. . 580). Por isso. Steinle & Burian. que essas dimensões não são suficientes para explicar aspectos essenciais de teorias e conceitos psicológicos. especialmente no que diz respeito à relação entre sua filosofia e sua psicologia. Além disso. 2012. Isso explica. sendo muito mais comum a ignorância mútua e a falta de comunicação entre ambas as áreas do que a aproximação e a colaboração desejadas por alguns (Arabatzis & Schickore. Isso também justifica a busca de uma abordagem diferente para a história da psicologia. Domsky & Dickson. porém. Peter Galison. 1996.

mudou para sempre nossa avaliação da importân­ cia filosófica da história da ciência” (Friedman. baseado sobretudo na história da física. levando muitos filósofos a considerar seriamente o papel dos ele­ mentos históricos na construção do conhecimento científico. a história da ciência era escrita sobretudo por cientistas e filósofos. ele propôs um modelo dinâ­ mico. Assim. na Universidade de Indiana. poderia produzir uma transformação decisiva na imagem que temos atualmente da ciência” (Kuhn. Embora não tenha sido o primeiro a enfatizar a dimensão histórica da ativi­ dade científica39. O surgimento dos prim eiros departam entos e program as de história da ciência levaram a uma profissionalização crescente da disciplina. Contrapondo-se à con­ cepção neopositivista de ciência. p. Em que pese. ao invés de entender a ciência como uma estrutura formal e abstrata. p. 1). que foi a publicação de A estrutura das revoluções científicas. Segundo ele. 1958. em detrimento de seus aspectos lógicos. É im portante lem brar que até a prim eira metade do século XX. 1993. 1970. Como afirmou o filósofo da ciência Michel Friedman. A partir da década de 1960. segundo o qual todo conheci­ mento científico se desenvolveria por meio de revoluções. é importante compreendermos pri­ meiramente as origens do debate contemporâneo e as razões que dificultam ou impedem a aproximação entre ambas as áreas. que colocava em questão a sua relação com a filosofia da ciência. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! possibilidades concretas de integração. como a funda­ ção. 1961). 39 Por exempío. de Thomas Kuhn. foi principalmente Kuhn quem colocou a história da ciên­ cia na agenda de boa parte da filosofia da ciência da segunda metade do século XX. Hanson. Norwood Hanson e Stephen Toulmin (1922-2009) foram alguns teóricos da ciência que enfatizaram. de Thomas Kuhn. hã um fator ainda mais significativo. 1935/1980. antes de Kuhn. sur­ giram iniciativas oficiais de integração entre as duas áreas. a influência do aspecto institucional no surgimento do debate. Ludwik Fleck (1896-1961). "a história. 37). Kuhn enfatizou a dimensão histórica e social do conhecimento cientifico. a importância da dimensão histó­ rica na construção do conhecimento científico (Fleck. representada pelos membros do Círculo de Viena. do prim eiro D epartam ento de HPS nos Estados Unidos. se considerada como algo mais do que um depósito de anedotas ou crono­ logias. Toulmin. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . “A estrutura das revoluções científicas (1962). porém.

“está claro. Em parte. 1976. McMullin. 1982. Nas décadas seguintes. na es­ perança de fornecer uma resposta às críticas de Giere. na medida em que a relevância de uma disciplina para a outra ainda não tinha sido demonstrada. O filósofo. 1977. Radder. Do mesmo modo. 1977. nas quais os autores pro­ curavam. O artigo de Giere motivou uma série de réplicas. p. assim. Para ele. 1993. por exemplo. p. 37). De acordo com ele. Por exemplo. 1995). 1989. essa tendência de aceitar a relação se fortaleceu na filosofia da ciência (Laudan. 5). penso eu. . que uma atenção cuidadosa e sensível para a história da ciên­ cia deve estar absolutamente no centro de qualquer consideração filosófica séria sobre a ciência” (Friedman. apesar de sua utilidade institucional. por outro lado. . Burian. ambas as disciplinas diferem sobretudo em seus objetivos: “O produto final da maior parte da pesquisa histórica é uma narrativa. 1973. Krüger. Ronald Giere cunhou a expressão a marriage o f convenience (um casamento de conveniência) para descrever a união entre ambas as disciplinas (Giere. porém. cada um à sua maneira. Mais recentemente. Domsky e Dickson (2010b) publicaram um ‘manifesto' em defesa da HPS. mostrar a relevância da história da ciência para a filosofia da ciência e. após algumas iniciativas formais para pro­ mover a integração entre história e filosofia da ciência . p. 1982). visa principalmente a generalizações explícitas de abrangência universal” (Kuhn. para além de qualquer dú­ vida. p.g. 108). afirmou que a integração da história e da filosofia da ciência seria “um casamento de conveniência” (Krüger. uma estória. De acordo com Michael Friedman. sobre particulares do passado.muitos autores começaram a expressar seu ceticismo. a união carecia de uma boa justificativa teórico-conceitual. “o proble­ ma geral é m ostrar que conclusões filosóficas podem ser apoiadas por fatos históricos e como exatamente isso acontece” (Giere. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Curiosamente. por exemplo. é uma descrição do que ocorreu. 292).. ]a no início da década de 1970. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 1973. Nesse contexto. 1997. Lorenz Krüger. defender a tese de que a relação entre ambas era mais do que um casamento de conveniência (e. p. 283). em relação à filosofia da ciência.como o Congresso de Minnesota em 1969 e a fundação do periódico Studies in History and Philosophy o f Science em 1970 . o próprio Kuhn se posicionou contra a integração da história e da filosofia da ciência em um único campo ou disciplina. Yaneva.

O problema. Isso inclui congressos. assim como artigos. assim se espera. Por isso.segundo a qual a ciência só pode funcionar dentro de um quadro geral de pressupostos não questionados. Hasok Chang (1999). não há clareza sobre como a integração deveria ser feita. os resultados destas investigações complementam e enriquecem a ciência especializada atual” (Chang. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Arabatzis e Schickore argumentam que as novas maneiras de fazer HPS significam “mais do que um novo casamento de conveniência” (Arabatzis & Schickore. mesmo entre os filósofos da ciência. defende a HPS como uma disciplina integrada. 2012). Segundo ele. p. livros e volumes editados. 404). Em primeiro lugar. que pa­ recem ter optado por um distanciamento voluntário das questões filosóficas do conhecimento científico. 40 Para ficar só na última década. sem falar naqueles que continuam defendendo o distanciamento e o isolamento. 1999. sem cair na armadilha da generalização apressada (Chang. 2012. . 415). no entanto. números especiais de periódicos especia­ lizados tanto em história da ciência (Isis) quanto em filosofia da ciência (Erkenntnis). que levam à eliminação de ques­ tões que poderiam contradizê-los ou desestabilizá-los Chang vê a HPS como uma forma de contrabalançar essa situação. respondê-las. houve uma verdadeira explosão de propostas de aproximação entre história e filosofia da ciência. após ter apresentado em linhas gerais as raízes históricas do debate atual e das dificuldades de integração. Em segundo lugar. além de. ele propõe que isso deva ser feito por meio de investigações de episódios históricos concretos. eu penso que seria oportuno apresen­ tar agora algumas alternativas a favor de um a maior interação40. Com base na ideia kuhniana de ciência normal . p. Ainda não foi elaborado um modelo geral para a integração. . ver Arabatzis e Schickore (2012) e Mauskopf e Schmaltz (2012a. por exemplo. está longe de ser resolvido. Mais recentemente. “a função complementar da HPS é recuperar e recriar tais questões. a possibilidade de interação e colaboração entre ambas as disciplinas ainda é uma questão em aberto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . cuja função seria complementar o conhecimento científico pro­ duzido pelos cientistas especialistas. Para uma rápida lista de referências. essa mesma tendência não se repetiu entre os historiadores da ciência. que só pode ser resolvida em casos específi­ cos. 2012b). Por isso.

em um artigo recente. Nesse caso. mais sua narrativa histórica sairá beneficiada. Toman­ do como base a obra de Michael Friedman. filosóficos e teológicos. para que possamos ‘ver além’ do que cada uma delas pode oferecer sozinha” (Domsky & Dickson. por meio do aprofundamento histórico e filosófico da questão. Essa amplificação de nossa compreensão produziria. 2010b. . como o elétron . 14) Theodore Arabatzis também tem defendido a interação entre a história e a filosofia da ciência. Assim. . 2006b). p. Por exemplo. ainda que possa ser inicialmente útil analisar a visão de Newton sobre o espaço em seus aspectos científicos. que pode ser ilustrada com o caso de Newton: . que propõe um novo método para revigorar o casamento entre história e filosofia da ciência. como ilustra bem o episódio do éter na ciência física. Assim. segundo eles. ao utilizar a categoria ‘descoberta científica’ (X descobriu Y). Em seus trabalhos iniciais. 11). conclui Arabatzis: INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (Domsky & Dickson. Além disso. 2010b. ‘física’ em outro. Arabatzis m ostra como o estudo das assim chamadas ‘entidades ocultas’ (hidden entities) * entidades inacessíveis à observação imediata. uma unidade entre ambas as disciplinas. pois Newton não se via fazendo filosofia em um momento. o qual eles chamam de abordagem sintética. e ainda teologia em um terceiro. é possível m ostrar como alguns cientistas desenvolveram no passado uma forte convicção sobre a realidade de seus objetos de estudo. 2006a. p. ainda que posteriorm ente essa realida­ de tenha sido abandonada. ele procurou m ostrar como a filosofia da ciência pode enriquecer a investigação histórica da ciência. os autores afirmam que “seu objetivo é tornar a filosofia relevante para a história e a história relevante para a filosofia. quanto mais consciente ele estiver das complexidades de tais questões. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Um outro exemplo é o caso de Mary Domsky e Michael Dickson (2010a). em última instância esses aspectos devem ser entendidos como uma unidade. ao analisar os fundamentos filosóficos das escolhas e categorias historio- gráficas em questão (Arabatzis.oferece um bom exemplo de como pode se dar a integração entre história e filosofia da ciência. o historiador estaria inevitavelmente entrando em questões filosóficas como o realismo cientí­ fico. assim como tam­ pouco se via fazendo ‘de uma só vez’ essas três coisas ‘separadas’.

devemos concluir que não há uma maneira única de relacionar a história e a filosofia da ciência. p. ‘valores epistêmicos’. p. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . a dinâmica das teorias científicas ou o processo de mudança conceituai” (Arabatzis. p. busca compreen­ der a vida científica em termos de conceitos metacientíficos filoso­ ficamente articulados. um único modo de alcançá-la. . assim. Ela tem alguns paralelos com a epoché de Husserl. 2016. ex. refi­ nar e modificar as ferramentas filosóficas que eles usam.. ele fornece uma orientação geral para o historiador da ciência filosoficamente inclinado. (Arabatzis. Arabatzís propõe uma história filosófica da ciência. ‘modelos’. também não pode haver um único modo de relacionar a história e a filosofia da INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Ao utilizarem ativamente a literatura filosófica sobre a modelagem cientí­ fica. Implicações para a psicologia A partir da seção anterior. 2012. A história filosófica da ciência. Consequentemente. uma tendência da HPS que “explora episódios históricos particulares levando em consideração. Isto significa que há diferentes ma­ neiras de compreender a integração e que não há. tais como ‘descoberta’. Eu a chamarei de ‘atitude de suspensão ontológica’. 2016). pelo menos até o mo­ mento. 197) Uma breve análise dessas novas propostas de HPS já é suficiente para mos­ trar que subjacente à identidade de seus objetivos gerais (integração) há uma diversidade muito grande de abordagens. ex. ‘a relação entre teoria e experimento’ etc. (Arabatzís. p. como eu a concebo. 134) Além disso.. historiadores da ciência filosoficamente inclinados podem lançar nova luz sobre episódios científicos familiares e. 4. Seguindo essa ideia. a atitude que estou recomendando efetua uma separação entre a imersão em uma visão de mundo (e em um conjunto de práticas) e a crença nas entidades ocultas associadas a esta última. uma atitude de abstenção de ques­ tões ontológicas. . É ainda muito cedo para dizer se tais abordagens podem ser integradas em uma só ou se qualquer uma delas pode se tornar dominante no futuro. ‘objetos’. isto é.

2014. uma história 41 Isso não quer dizer que essa relação não tenha sido abordada anteriormente. como eu a entendo. Entretanto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . histórias da psicologia filosoficamente inclinadas não são algo novo (e. Green. 1980. Uma vez que esta relação tem se desenvolvido historicamente de muitas maneiras distintas. Gundlach. Teo. ela leva a uma história filosófica da psicologia. 2007. Feest. 1911. assim como suas implicações para a historiografia da psicologia. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! psicologia. 2005/2012... como é que investigações de episódios históricos particulares podem ser relevantes para discussões contemporâneas em psi­ cologia? Ambas as questões deveriam ser vistas como um reflexo das duas tendências gerais em HPS: uma história filosófica da ciência e uma filosofia histórica da ciência (Arabatzis. Sturm. Smith. é uma explicitação e uma discussão mais sis­ temática dos pressupostos teóricos e metodológicos subjacentes a esses estudos. Osbeck & Held. Sturm & Müiber- ger. Pelo eontrário. 1993. Ao invés de enfatizar as dimensões políti­ ca e social da psicologia. Aqui eu tratarei apenas da primeira questão. sendo a mais importante de todas a relação geral entre psicologia e filosofia41. Aplicada ao caso da psicologia. Em outras palavras. assumindo que os debates sobre a HPS podem ser frutíferos para a história e a filosofia da psicologia. Daí a necessidade dc uma nova abordagem a scr articulada no futuro. 2009. Dessoir. Alem disso.de acordo com cada contexto de inves­ tigação . 1992. duas questões centrais surgem imediatamente. nos trabalhos recentes em história e filosofia da psicologia. e de ver o seu desenvolvimento por intermédio das lentes de teorias sociais e de categorias como ‘práticas sociais’. Klenim. a ideia é tornar tais suposições explícitas e abertas à investigação e avaliação. debates sobre as implicações da História e Filosofia da Ciência (HPS) para a história da psicologia são praticamente inexistentes.g. não faltam estudos que abordam de um modo ou de outro a relação entre fiiosofia e psicologia a partir de uma perspectiva histórica {e. O que está ausente. Assim. Mais especificamente. o objetivo central em uma história filosófica da psicologia é revelar como o desenvolvimento histórico e a elaboração de projetos psi­ cológicos estão intimamente relacionados a suposições filosóficas que nem sempre são explicitadas. Heideiberger. Leary. contudo. 2012. 1986. Robinson. 1995. Ash & Sturm. Woodward & Ash. no prelo). 1990.que ajudarão a organizar e dar coerência tanto aos procedimen­ tos de pesquisa quanto à narrativa histórica oferecida pelo historiador. 2013). 2009. como é que análises filosóficas de projetos psicológicos aumentam a acurácia e a riqueza do conhecimento histórico em psicologia? Segundo. Koch & Leary. 1982. Hatfield. é uma história da psicologia guiada por ques­ tões filosóficas específicas. 1996. 1982). 1902.g. 1993. Uma história filosófica da psicologia. Primeiro. a questão global pode gerar questões subsidiárias específicas .

Para ilustrar minha tese. incluindo a possibilidade de inte­ ração entre eles. ela não é mo- nocêntrica. a menos que se queira defender a tese de que a pesquisa histórica deva ser guiada por compromissos metafísicos específi­ cos.. Assim. Terceiro. natural kinds. um historiador da psicologia não precisa defender. usando para isto argumentos válidos e evidências oriundas de fontes primárias. sem a necessidade de aceitar ou rejeitar essas mesmas posições. uma vez que está aberta aos mais diversos projetos psicológicos em todo o mundo.). uma história filosófica da psicologia não precisa se comprome­ ter com doutrinas ou princípios metafísicos. desde que haja questões filosóficas a serem consideradas. Ela pode ser metafisicamente neutra em relação a questões especificamente psicológicas. pois pode ser feita por historiadores de diferentes contextos culturais com distintas perspectivas. Primeiro. na medida em que desenvolve suas hipóteses e interpretações contrastando-as com as suas concorrentes. Em segundo lugar. desde que tenham treinamento filosófico adequado. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! filosófica da psicologia foca na coerência e racionalidade dos projetos psico­ lógicos dentro de seu próprio contexto histórico. 1994. Nesse sentido. nenhu­ ma teoria sobre a natureza última dos fenômenos psicológicos (e. o que não é o meu caso. uma história filosófica da psicologia preenche três importantes critérios propostos pelos historiadores. Além disso. é suficiente que o historiador da psico­ logia seja capaz de m ostrar como atores históricos aceitaram e justificaram doutrinas e princípios metafísicos que tinham implicações diretas para seus projetos psicológicos. enquanto historiador. p. ela não é paroquial. mas sim policêntrica. Por exemplo. não para celebrar ou validar qualquer projeto psicológico em particular. ela não é nem ingênua nem dogmática. mas sim crítica. 475) parece ser equivocada. Finalmente. mas sim internacional. social kinds etc. a demanda de que uma história crítica da psicolo­ gia “dependa de uma mudança nos compromissos metafísicos tradicionais compartilhados pelos psicólogos e seus historiadores” (Danziger.g. vou dar quatro exemplos de como se pode olhar efetivamente o passado da psicologia com olhos filosóficos. mas sim para mostrar seus problemas e suas potencialidades. Tais debates filosóficos são muito complexos para serem resolvidos de antemão. e de como tal olhar pode enriquecer nosso entendimento histórico do passado. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .

mas apenas uma tese metodológica. mas não nega que houve contato pessoal entre eles. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! O livro The natural and the normative> de Gary Hatfield. desde o princípio. um alvo mais geral. que é “a relação entre filosofia e psicologia como abordagens complementares (ou concor­ rentes) para investigar a mente” (Hatfield. Tendo como pano de fundo a relação entre filosofia e psicologia na primeira metade do século XX nos Estados Unidos. há uma separação radical entre abordagens filo­ sóficas e psicológicas da mente. como era o caso dos positivistas lógicos. vii). que afirma sua dependência do positivismo lógico. Usando como estudo de caso as defesas do operacionismo feitas por Stanley Stevens (1906-1973) e Edward Tolman (1886-1959). a saber. a interação é vista como frutífera e válida. como a das abordagens concorrentes da percepção espacial no passado. 2005/2012). Hatfield busca nas teorias da percepção espacial duas atitudes contrastantes em relação à investigação e explicação da mente que percebe: naturalismo e normativismo. o livro de Hatfield mostra de uma maneira muito clara e elegante como a questão geral subjacente a uma história filosófica da psicologia pode ser investigada por in­ termédio de questões mais específicas. Feest reconstrói seus argumentos à luz de suas práticas meto­ dológicas concretas. como Kant defendia. cientistas como Helmholtz defendiam a aplicação de métodos da ciência natural à mente. Kant afirmava que algumas questões perceptivas não podem ser resolvidas por meio de recursos das ciências da natureza. Por sua vez. Feest rejeita a interpreta­ ção tradicional do operacionismo na psicologia. se os primeiros defenso­ res do operacionismo na psicologia estavam comprometidos com as teses centrais do positivismo lógico. Em outras palavras. De um lado. No primeiro caso. fornece um exem­ plo convincente de uma história filosófica da psicologia. 1990. No segundo caso. Nas suas próprias palavras: INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . mas Hatfield também fixa. Desta forma. Seu objetivo espe­ cífico é investigar teorias da percepção espacial de Kant a Helmholtz. Como resultado. essas duas atitudes revelam uma oposição intelectual mais profunda entre dois modos de ver a relação entre filosofia e psicologia. ela consegue m ostrar que a aceitação do operacionismo tanto por Stevens quanto por Tolman não requeriam uma tese epistemológica ou semântica. De outro. ela levanta uma questão bem específica. Em resumo. p. Um segundo exemplo é a análise de Uljana Feest sobre o operacionismo na psicologia (Feest.

ele próprio aceita certas afirmações quantitativas sobre a mente e che­ ga até mesmo a dar passos importantes em direção a uma explicação de sua possibilidade. 2005/2012. Esta concepção de psicolo­ gia não poderia explicar a possibilidade de investigações quantitativas sobre a mente. que ela chama de "leitura metodológica” (Feest. que incluíam otimistas e pessimistas. lançando assim nova luz sobre a nossa compreensão histórica da complexa relação entre filosofia e psicologia nos Estados Unidos. p. em grande medida. como um substituto da abordagem positivista tradicional. isto não é correto. uma análise original da posição de Kant contra a possibilidade de se aplicar a matemática à psicologia. p. p.. Thomas Sturm oferece. Creio que essas referências foram. 288). Feest propõe uma nova interpretação do operacionismo na psicologia. 2006/2012. estavam pro­ fundamente enraizados em pressupostos filosóficos (e. 94) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Ele não afirma que o mental enquanto tal não possui uma estrutura quantitativa. ou que não há um método para mensurar a mente. Enquanto Kant critica esta concepção de psicologia. a assim chamada “tese da impossibilidade” (Sturm. ele propõe uma nova interpretação da posição de Kant: Embora possa se pensar que sua alegação de impossibilidade o co­ loca do lado dos pessimistas sobre a psicometria. Retornando à tradição alemã. isso não significa negar que tanto Stevens quanto Tolman de fato encontraram os representantes do positivismo lógico e que isso teve um impacto sobre como eles formularam seus ope­ racionismos. (Sturm. sobre a natureza da mente). Ele mostra também que tais debates. (Feest. Nesse contexto. visando reforçar suas ideias ao apelar para uma filosofia da ciência dominante.g. 281) Como conclusão. De fato. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Embora meus esboços históricos devessem mostrar (entre outras coi­ sas) que esses operacionismos já estavam sendo contemplados antes que os cientistas em questão encontrassem os representantes do po­ sitivismo lógico. Ao contrário. em seu artigo ls there a problem with mathematical psychology in the eighteenth century?. 2006/2012). retóricas. Sturm mostra que os debates sobre a mensuração de estados mentais já existiam antes das reflexões de Kant sobre a natureza da psicologia. 2005/2012. sua afirmação é dirigida contra os pressupostos de uma concepção de psicologia então prevalente.

eu argumentei que a Critica da razão pura. 1862. Assim. 2016). 2012. 2006/2012. Mais especificamente. 2014b. psicologia e filosofia estão em íntima relação na obra de W undt. De fato. 1863. foi a principal fonte INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . como eu indiquei na segunda seção deste capítulo. eu propus uma reavaliação de sua obra.. no qual a psicologia desempenha um papel fundamental. Por exemplo. não pode ser explicado sem se levar em consideração os intensos estudos e reflexões filosóficos de Wundt durante aquele período (Araújo.g. o abandono do inconsciente como um conceito útil para explicar os processos mentais . ba­ seada na íntima relação entre a formação de seus pressupostos filosóficos e o desenvolvimento de seu projeto de psicologia científica (e. Daí a necessidade de uma abordagem filosófica para a história da psicologia. Araújo. um a vez que W undt foi professor de filosofia e viveu em um a época em que a separação entre filosofia e psicologia raram ente existia. 2010. que se desenvolveu paralelam ente àquela? Para responder a essa questão. De acordo com minha hipótese central. que o levaram a conceber um amplo programa de reforma de toda a filoso­ fia alemã. seja no plano institucional ou intelectual. 2016). a saber. os li­ mites das abordagens sociais da história da psicologia tornaram -se claros para mim. de Kant.que ocorreu de forma gradual entre 1863 e 1874 (Wundt. 2010. como uma interpretação histórica de sua obra psicológica poderia deixar de lado ou desprezar a im portância de seu projeto filosófico. eu quero situar meu próprio trabalho sobre W undt no con­ texto de um a história filosófica da psicologia. 2012. cuja com­ preensão demanda uma profunda investigação filosófica que vai além do uso de rótulos filosóficos (e. Sturm argumenta que a tese tradicional.g. é falsa e que “a simples demarcação entre os séculos dezoito e dezenove já não é mais clara” (Sturm. eu mostrei que um dos aspectos mais importantes da psicolo­ gia wundtiana. 1874) -. Finalmente. 125).) e da identificação de similaridades superficiais de ideias.. a evolução de seu projeto psicológico é guiada e justificada por suas reflexões filosóficas. empirismo. racionalismo etc. Eu tive a nítida im pressão de que alguma coisa estava faltando nos estudos contem­ porâneos de W undt. p. Ao analisar sua obra. de acordo com a qual a psicologia tornou-se uma ciência quantitativa apenas no século XIX. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Em sua conclusão.

ao desconsiderar esta relação entre filosofia e psico­ logia em W undt. Em especial. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Por isso. Desse modo. ao aprofundar o nível conceituai de análise e oferecer interpretações originais e convincentes. Referências Arabatzis. IL: The University of Chicago Press. eles revelam como um a história filosófica da psicologia pode enriquecer nossa com­ preensão histórica do desenvolvimento de teorias e projetos psicológi­ cos. Representing electrons. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! de inspiração para a mudança de W undt. porém complementar. Ao contrário. mas frutífera. que representa o primeiro passo em direção a uma abordagem mais elaborada e potencialmente mais integradora para a história da psicolo­ gia. para que essa integra­ ção possa se dar em larga escala. no entanto. 5. ficou claro porque a literatura secundária. A biographical approach to theoretical entities. Chicago. Além disso. permanecem abertas a futuros debates e contribuições. a ideia de uma história filosófica da psicologia. para o futuro. T. eles preenchem três critérios: são críticos. Contudo. É importante ter em mente que uma história filosófica da psicologia não pode resolver todos os problemas levantados pela história da psicologia. Ademais. As questões fundamentais envolvidas. da forma como eu a defendo aqui. ela é limitada pelos tipos de questão que o historiador é capaz de levantar e pelos recursos metodológicos disponíveis em cada caso. policêntricos e internacionais. prom issora e desejável. ainda não tinha sido capaz de explicar esta ruptura funda­ mental em seu projeto psicológico. deveria ser entendida apenas como uma di­ retriz geral. eu a proponho aqui como um caminho alternativo. Considerações finais Os exemplos apresentados anteriorm ente dem onstram que a integração entre a história da psicologia e a filosofia da psicologia é não apenas possível. são necessárias discussões m etodológi­ cas mais sistemáticas. (2006a).

Graham. The emergence and development of Bekhterev’s psychoreflexology in relation to W undt’s experimental psychology. S. (1983). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Arabatzis. F. 189-210. F. Renn (Eds. Schickore & F. T. T. K. 215-30). (2016). Gavroglu. Arabatzis.). Dordrecht. J.). Arabatzis. History o f Psychology. New York: Springer. In J. (2014a). S. Steinle (Eds. (2014b). & J. (2010). Ash. 50(2). Why did W undt abandon his early theory of the un­ conscious? Towards a new interpretation of W undt’s psychological project. M. & Schickore. Joas. C. T. (2016). F. In A. Shifting paradigms: Thomas Kuhn and the history o f science (pp. O projeto de uma psicologia científica em Wilhelm Wundt: uma nova interpretação. Schmaltz (Eds. Hidden entities and experimental practice: renewing the dialogue between history and philosophy of science. The structure of scientific revolutions and HPS in historical perspective. (2012). Holanda: Springer. Blum. History o f Psychology. F. 17(1). Araujo. Mauskopf & T. Dordrecht. The self-presentation of a discipline: history of psychology in the United States between pedagogy and scholarship. MG: UFJF. (2006b). (2012). Revisiting discovery and justification: historical and philosophical perspectives on the context distinction (pp. 50-59. Integrating history and philosophy o f science: problems and prospects (pp. In L. Juiz de Fora. T5(l). Perspectives on Science. W. Introduction: ways of integrating his­ tory and philosophy of science. W undt and the philosophical foundations o f psychology: a reappraisal.. S. 125-139). 33-49. Araujo. Journal o f the History o f the Behavioral Sciences. (2012). Bringing new archival sources to W undt scholarship: the case of W undt’s assistantship with Helmholtz. Holanda: Springer. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Berlin: Edition Open Acess. On the inextricability of the context of discovery and the context of justification. S. F. Araujo. 191-201). T. 20(4). Araujo.). In S. Arabatzis. Araujo. S. 395-408.

Denkstile der psychologic. (1980). Holanda: Reidel. (Eds. Psychology’s territories. Ash. 413-425. R.. 8. Science and Education. Functions and uses o f disciplinary histories (pp. Mahwah.). 10. Louw. H. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (Eds. Ash. 398-407. Toronto: Hogrefe. R. (2012). Integrating history and philosophy o f science: pro­ blems and prospects (pp. M. Comments on the precarious relation between history of science and philosophy of science. Psychology in twentieth-century thought and society (pp. (2002). Philosophy o f Science. Burian. (1999). More than a marriage of convenience: on the inextrica- bility of history and philosophy of science. NJ: Lawrence Erlbaum. Historiography o f modern psycho­ logy. & W. Boring. Rediscovering the his­ tory o f psychology. 1-11). Schmaltz (Eds. New York: Appleton-Century-Crofts. (1977). & van Hoorn. & Sturm. In S. (1987).). Ash. M. Holanda: Springer. A.). & Pongratz. 44. Burian.}.) (2007). (2005).. Ash. Dordrecht. T. (1979). Psychology in social context. Gestalt psychology in German culture. Beyond case-studies: history as philosophy. 109-124). (1950). J. M. Brock. 143-189).). New York: Kluwer. & P. Maus- kopf & T. Cambridge.). (Eds. H. 1-42. A. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Lepenies. In M. 2nd ed.. (1998). B rozek. Buss.. (2002). Wien: WUW. Weingart (Eds. Chang. A history o f experimental psychology. Dordrecht. W.). W. Woodward (Eds. L. (Ed. 1890-1967. History and philosophy of science as a continuation of science by other means. f. MA: Cambridge University Press. New York: Irvington Publishers. MA: Cam­ bridge University Press. M. Cambridge. Chang. Benetka. Perspectives on Science. Introduction. G.

Danziger.) Friedman. fuiz de Fora. 1-20). (1980). World changes: Thomas Kuhn and the natu­ re o f science (pp. Dickson (Eds. Araujo (Ed. Discourse on a new method. New York: Irvington Publishers.. Buss (Ed. U. (Trabalho original publica­ do em 1935. História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâneas (pp.. sobre o que deveria ser o debate. (2013). In S. 259-296). K. Feest. L. In M. Frankfurt am Main. 23(6).). 36-54). MG: UFJF. Berlin: Duncker. Chicago. Theory & Psychology. Cambridge.) Fleck. K. How psychology found its language. Reinvigorating the marriage o f history and philosophy o f science. In P. Reinvigorating the marriage o f history and philosophy o f science (pp. MA: Cambridge University Press. (1994). Geschichte der neueren Psychologie. Alemanha: Suhrkamp. & Dickson. (Eds. Domsky.). Discourse on a new method. & Dickson.). M. Domsky. MA: The MIT Press.). 27-45). K. M. Dessoir. (1979). M.). M. 467-484. In A. The social origins of modern psychology. Psychology and its history. Naming the mind. Remarks on the history of science and the history of philosophy. Cambridge. Entstehung und entwicklung einer wissenschaftlichen tatsa- che. (2012). (1993). (1997). Danziger. Does the history of psychology have a future? Theory & Psychology. Danziger. Horwich (Ed. Psychology in social context (pp. IL: O pen Court. (2010b). (1990). O operacionismo na psicologia: sobre o que é o debate. IL: Open Court. K. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . London: Sage. (1902). 829-839. Danziger. Constructing the subject. Introduction. M. 2nded. F. (2010a). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Danziger. K. (Trabalho original publicado em 2005. Chicago. Domsky & M. 4(4). M.

G. Bronstein & K.) (1996). Scientific evidence: philosophical theories and application (pp. 574-586. C. Achinstein (Ed. 9-34). The G. Berlim: Springer. P. 99. N. Cambridge. Washington.: American Psychological Association. G. Furomoto. In P.). Teaching gender and multicultural awareness: resources for the psychology classroom (pp. Stanley Hall lecture series (Vol. In. Hanson. pp. The irrelevance of history of science to philosophy of science. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Furomoto. Washington. Cohen (Ed. F. Gundlach. L. 113-124). Green. P. Hatfield.C. 259- 286). (Eds. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. C. In I. Graumann. The new history of psychology. Beyond great men and great ideas: history of psycho­ logy in sociocultural context. Historical dimensions o f psychological discourse. MA: Cambridge University Press. 59. (1973). Entstehung und gegenstand der psychophysik. L. 111-124. & Gergen.C. Galison. Where did the word “cognitive” come from anyway? Canadian Psychology. The natural and the normative. (2005). (1962). (1990). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . MA: The MIT Press. /sis. (1993). 9. (2008). Cambridge. S.. 24. Ten problems in history and philosophy of science. Patterns o f discovery. D.: Ame­ rican Psychological Association. 282-297.). History and philosophy of science: intimate relationship or marriage of convenience? British Journal for the Philosophy o f Science. D. (1996).). Giere. N. K. Hatfield. (2003). Introspective evidence in psychology. H. (1958). MA: Cambridge Uni­ versity Press. Journal o f Philosophy. 31-39. Cambridge. Hanson. R. Quina (Eds. (1989). 37(1).

London: Routledge.: American Psychological Association. A social history o f psychology. (2001). IL: The University of Chicago Press. H. Klemm. 47- 59). & van Drunen. C.C. Perception and cognition.. Los. Procee­ dings o f the VI. Podewski (Eds. Die innere seite der natur. Kusch.). Malden. (1911). T. Oxford: Clarendon Press. Olby et al. Essays in the philosophy o f psychology.). Thoughts on HPS: 20 years later. 3-20). L. 108-112). (1996). 2nd ed. IL: The University of Chicago Press. (Eds. (Eds. In R.). MA: Blackwell. L. International Congress for logic. D. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . G. Pfeiffer. T. Kruger. Jansz. & Leary. Psychological knowledge: a social history and philosophy. The relations between the history and the philosophy of science. (1992). In L. (1977). (Eds. (1999). J. Laudan. Kuhn.. methodology and philosophy o f science. Washington. Alemanha: Klostermann. (2009). Koch. M.. Chicago. Laudan. (1982).-P. (1970). L. In The essential tension (pp. 9-13. Leipzig. Alemanha: Teubner. 20. P. & Elcock. Jones. (2004). D. London: Routledge. History and philosophy of science: a marriage for the sake of reason. Frankfurt am Main. Companion to the history o f modern science (pp. J. & K. Geschichte der psychologie. J. (1993). Heidelberger. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Hatfield.). O. Chicago. M. J. Kuhn. London: Routledge. S. D. A century o f psychology as science. Cohen. Studies in History and Philosophy o f Science. The history of science and the philosophy of science. (1989). Amsterdam: North-Holland. History and theories o f psychology: a critical perspective. The structure o f scientific revolutions. Hannover 1979 (pp.

McMullin. (1982). Pickren. Pinnick. G. Mauskopf. D. Dordrecht. 3rd ed. Introduction. Philosophy and history of science: beyond the kuhnian paradigm. L. 299-317.). 585-601. (2014). New York: Columbia University Press. Robinson. Integrating history and philosophy o f science: problems and prospects (pp. & Schmaltz. The new history of psychology: a review and critique. S. German idealism and the development of psychology in the 19th century. H. C. 31. & Schmaltz. 109-125. Cambridge. New York: Springer.. Rational intuition: philosophical roots.). 18. T.. 9.. D. 1-10). Mauskopf. (1976). (Eds.a marriage of con­ venience? Boston Studies in the Philosophy o f Science. (2012b). Mauskopf & T. In S. NJ: Wiley. History and philosophy of science . integrating history and philoso­ phy o f science: problems and prospects. 17-37. (1995). scientific investigations. Hoboken. Studies in History and Philosophy o f Science. WI: The University of Wisconsin Press. 633-655. Journal for General Philosophy o f Science. 28(4). (Eds. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Leary. B.. Lovett. History o f psychology. Schmaltz (Eds. MA: Cambridge University Press. (1997). 19(2). A history o f modem psychology in context. 32. Book reviews: an analysis of the W urzburg School from a sociological point of view. B. W. Robinson. (2012a). Philosophy of science and history of scien­ ce: a troubling interaction. An intellectual history o f psychology. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . & Gale. & Held. E. (2000). A. (1980). Radder. ESHHS Newsletter. (2006). Miilberger. & Rutherford. T.. S.). Toward a science o f human nature. Madison. 9-1L Osbeck. (2001). A. D. Journal o f the History o f Philosophy. Holanda: Springer. (2010).

Juiz de Fora. Rose. Steinle. História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâneas (pp. & Burian. Robinson. power. 4(2). Smith. R. N. Psychology. (1986). Sturm. D. (1974). D. 217-232. 23(6). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Robinson. 819-828. R. N. (1998). Há algum problema com a psicologia matemática no século dezoito? Um novo olhar sobre o velho argumento de Kant. A history o f psychology. Stanford. Historiography of psychology: a note on ignorance. London. London: Reaktion Books. R. 87- 132). (1985). Kant und die Wissenschaften vom Menschen.) INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . A word more. F. CA: Stanford University Press. T. 391-397. Theory & Psychology. (2013). Routledge and Kegan Paul. personhood. Between mind and nature. MA: Cambridge University Press. R. Inventing ourselves: psychology. Rose. Berkeley. (2013a). 23(6). MG: UFJF. Sturm. 852-854. politics and society in England 1869-1939. Cam­ bridge. F. 10(4). The psychological complex. 1. (1992). Introduction: history of science and philoso­ phy of science. Paderborn. (1988). CA: University of California Press. (2013b). T. In Is there a pro­ blem with mathematical psychology in the eighteenth century? In S. Theory & Psychology. (2012). History and meaning in the sciences o f mind and brain. Smith. Journal for the Theory o f Social Behavior. F.. Inhibition. L. Alemanha: Mentis. (Trabalho original publicado em 2006. Histoi^. Araujo (Ed. (2002). Behaviorism and logical positivism: a reassessment o f the alliance. Smith.). Does the history of psychology have a subject? History o f Human Sciences. Perspectives on Science. Smith. (2009). Samelson. origin myths and ideology: ‘Discovery’ of so­ cial psychology. 147-177.

Beiträge zur theorie der sinneswahrnehmung. Toronto: Hogrefe.). W. (1961). W. and political linkages in twentieth-century psychology. 295-309). 5-14. Pongratz (Eds.).). Cambridge. R. & Ash. Psycho­ logy in twentieth-century thought and society (pp. The problematic science: psycholo­ gy in the nineteenth-century thought. W undt. P. Alemanha: C. Woodward (Eds. (2012). Woodward. Teo. A. 29- 67). MA: Cambridge University Press. The social theory o f practices. (2014). Historiography o f modern psychology (pp. United King­ dom: Polity Press. The problematic science: psychology in nineteenth-century thought. 11. Psychology. 23(6). Professionalization. (1982). (1862).). Woodward. (1980). (1994). T. (Eds. S. S. A.. Walsh. & Mülberger. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . W. Cambridge. MA: Cambridge University Press. Ash & W. Cambridge. Winter. Turner.. F. W. 425-521. New York: H arper & Row. Studies in History and Philosophy o f Biological and Biomedical Sciences. A critical history and philosophy o f psychology. M. W undt.und thierseele (2 Vols. (1863). In ]. rationality. The history of psychology as a specialty: A personal view of its first fifteen years. (2013). Vorlesungen über die menschen. & Ash. New York: Praeger. New York: Praeger. 840-851. (Eds. W. Watson. & Baydala. Theory & Psychology.). Leipzig. Toulmin. Teo. G.. (Eds. (1987). Woodward. R. (1975). Agnotology in the dialectics of the history and philosophy of psychology. In M.).. (1982). R. A science in crisis? A century of reflections and debates. Woodward. Leipzig und Heidelberg. Brozek & L. Toward a critical historiography of psychology. T. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Sturm. W. T. M. 43. Journal o f the History o f the Behavioral Sciences. Foresight and Understanding: an enquiry into the aims o f science. Alemanha: Voß.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Yaneva. W. (1874). R. D. History o f Science. Journal for General Philosophy o f Science. (1966). 143-152. History and philosophy of science rapprochement: Sha­ red methodological framework. 26. 5. (1995). Grundzüge der physiologischen psychologie. Scholarship in the behavioural sciences. Young. 1-51. Leipzig. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! W undt. Alemanha: Engelmann.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .

biográfica. meu objetivo é apresentar algumas dire­ trizes metodológicas para a elaboração e realização de projetos de pesquisa nessa área. tendo em vista principalmente o pesquisador iniciante ou com pouca experiência. qualitativa etc. em linhas gerais. a qual eu chamei de história filosó­ fica da psicologia. Neste capítulo. Desse modo. para que o leitor possa vislumbrar as possibilidades concretas de se transformar uma ideia em uma investigação real. Por isso. ainda que contenham elementos comuns a qualquer atividade de pesquisa. cada tópico será ilustrado com um ou mais exemplos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! A investigação histórica de teorias e conceitos psicológicos: breves considerações metodológicas Saulo de Freitas Araujo No capítulo anterior. dada a varieda­ de de perspectivas metodológicas distintas para a história da ciência (social. mas também do meu alcance.). que essas diretrizes metodológicas não pretendem de forma alguma exaurir as possibilidades de investigação históri­ ca de teorias e conceitos psicológicos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . contudo. são pensadas essencialmente em função daquilo que chamei an­ teriormente de uma história filosófica da psicologia. de investigar teorias e conceitos psicológicos. algo que está muito além não só dos meus objetivos neste capítulo. os fundamentos teóri­ cos de uma nova estratégia metodológica para o estudo do desenvolvimento histórico do conhecimento psicológico. que é um modo. quantitativa. eu apresentei. cultural. cada uma delas exigiria um tratamento específico com diretrizes próprias. Muito pelo contrário. É importante deixar claro. o leitor deve ter em mente que as considerações metodológicas aqui apresentadas. entre outros.

Aqui. a questão que o pesquisador coloca para si mes­ mo é a seguinte: “o que exatamente eu estou interessado em pesquisar?”. Naturalmente. a regra que diz: “siga seus próprios interesses. No presente contexto. aquilo que o motiva!”. De todos os fatores motivacionais. em geral. Em outras palavras. Quando se vive em uma sociedade totalitária. por ser considerada uma ciência peque­ no-burguesa. um tema que não o fascine. incluindo aí seus problemas filosóficos. Não há regra ou diretriz para a escolha de um objeto de pesquisa. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! 1. a sua investigação vai ganhando contornos cada vez mais precisos. Não é possível iniciar qualquer investigação sem que se tenha uma resposta ao menos preliminar a essa questão. ainda que parcial. à medida que ele vai se fami­ liarizando com o tema escolhido. o que. Escolha do tema O ponto de partida de toda investigação é a definição. o biólogo Trofim Lysenco (1898-1976). Igualmente prejudicial ao planejamento de pesquisa é a interferência política direta. atrasando o programa de pesquisa genética naquele país por décadas (deJong-Lambert. a não ser que ele faça parte de um grupo de pesquisa em que o objeto já esteja dado de antemão . tornaram a genética mendeliana ilegal na União Soviética. a não ser. de seu objeto. no início de todo o processo. ele dificilmente ultrapassará o nível INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . No entanto. Esse passo inicial depende inteiramente da motivação e das prefe­ rências pessoais do pesquisador. é claro. o mais importante é o desejo sincero e profundo de conhecer alguma coisa: a motivação intelectual genuína. 2012). aquilo que o pesquisador pretende entender ou conhecer de maneira mais aprofundada. ela implica a escolha de uma teoria ou um conceito psicológico a ser investigado. Por exemplo. na qual os interesses individuais são comple­ tamente aniquilados em função de supostos interesses da sociedade defini­ dos pela classe governante. ou seja. Josef Stalin (1878-1953) e seu cientista de maior confiança. as possibilidades de pesquisa já estão limitadas a priori. produz consequências trágicas para a ciência da sociedade em questão. se o pesquisador escolhe um tema que lhe traga pouca ou nenhuma satisfação intelectual. que não o leve a nenhuma reflexão sobre a realidade.seja pelo coorde­ nador do grupo ou por seu supervisor imediato. é preciso haver uma primeira delimitação.

além de contribuir para a esterilização da ciência. isso já é suficiente para mostrar a dimensão parcialmente sub­ jetiva da pesquisa histórica: a presença de elementos arbitrários na decisão preliminar do pesquisador. Em níveis mais avançados de pesquisa teórica. iniciar uma busca exploratória sobre o material que já foi publicado sobre o tema escolhido. O tema deve dar lugar a um problema específico de pesquisa. disso­ ciação. esquema) devido à sua insatisfação com aquilo que aprendeu durante sua graduação. é necessário. Nesse sentido.g. seja explorando o mesmo tema (e. atenção. como segundo passo. como veremos adiante.. a psicanálise). E igualmente comum que um aluno de pós-graduação busque um aprofundamento de um conceito psicológico (e. Uma pesquisa genuína.g. teoria da dissonância cognitiva. teoria do condicionamento operante) porque ela aborda tópicos que guardam alguma relação com sua experiência particular..g. que significa um recorte bem preciso e delimitado a partir do amplo espectro de possibilidades dadas pelo tema. Seja como for. Por isso. pressupõe a curiosidade intelectual do pesquisador. Em geral. Busca exploratória A escolha preliminar de um tema ou objeto geral ainda não é suficiente para constituir um projeto de pesquisa. o seu envolvimento com um tema. É muito co­ mum que um estudante de graduação comece a se interessar por uma teoria psicológica (e... a investigação histórica contribui para a formação intelectual do pesquisador. a consciência) em distintas tradições teóricas.g. ainda que no nível da iniciação científica. é muito importante que ele esteja cons­ ciente de sua escolha e dos motivos que o levaram ao seu objeto. seja aprofundando o de­ senvolvimento teórico-conceitual de uma mesma tradição (e. são as próprias pessoas envolvidas de algum modo com a psicolo­ gia que se interessam pela história de seus conceitos e teorias. a escolha do objeto pertence em geral a uma linha de pesquisa que o próprio pesquisador constrói ao longo de sua trajetória intelectual. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! da pesquisa mecânica e burocrática. 2. pois isso pode afetar a interpretação geral de seus resultados. Para que se chegue a este ponto. um mal que atualmente assola as uni­ versidades e os centros de pesquisa em todo o mundo.

e da Routledge encyclopedia o f philosophy (Craig. 1995). como os manuais introdutórios. Os melhores dicionários e enciclopédias estão em inglês e em alemão. Ferrater Mora. é necessário ter em mente também as obras gerais de refe­ rência cm filosofia. Mais recentemente. 1967). não existem boas obras de referência em português. Lalande. obra única em seu gênero até aqui. já revista e ampliada em segunda edição (Borchert. Infelizmente. pelo menos no caso da psicologia. 2005). que incluem enci­ clopédias. o que facilita muito a vida do pesquisador contem porâneo. algumas dessas obras de referên­ cia estão disponíveis online gratuitam ente. Vale ressaltar aqui que muitas fontes secundárias utilizadas no próprio en­ sino de história da psicologia. 2012). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! A melhor m aneira de começar a busca exploratória é visitar uma boa biblioteca e procurar pelas obras gerais de referência. uma obra monumental em 15 volumes e um total de 17. existem os manuais específicos de cada tradição teórica. como o Handbook o f behaviorism ( 0 ’Donohue & Kitchener. a psicologia. 1999) e a The M IT encyclopedia o f the cognitive Sciences (Wilson & Keil. 1976-1981). 1998). No entanto. a Editora Springer publicou a Encyclopedia o f the history o f psychological theories (Rieber. fahrhunderts (Strube. exceto a tradução de alguns dicionários clássicos (e. Além da clássica Encyclopedia o f philosophy (Edwards. dicionários e manuais gerais da área específica. Por exemplo. ígualmente importante para a compreensão do desenvolvimento histórico das teorias psicológicas é a enciclopédia Die Psychologie des 20. Igualmente in- INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . nesse caso. a American Psychological As- sociation lançou a Encyclopedia o f psychology em oito volumes (Kazdin. 2010). 2001. 2000).g.. Como estamos aqui interessados nos aspectos filosóficos de teorias e concei­ tos psicológicos. não existem boas obras ge­ rais de referência em português. Assim como acontece com a psicologia. Além disso. existem excelentes enciclopédias de filosofia que devem ser consultadas no início de cada investigação específica. não se deve igno­ rar a Stanford encyclopedia o f philosophy (Zalta. 1999). que está disponível gratuitamente na internet e recebe constantes atualizações.000 páginas. apresentam inúmeros problemas historiográficos que podem servir como ponto de par­ tida para uma boa pesquisa em história de teorias e conceitos psicológicos. Com o advento da internet.

cuja solução eleva o co­ nhecimento de uma teoria ou de um conceito psicológico a um novo patamar. A tentativa de compreender o desenvolvimento de uma teoria ou um concei­ to psicológico. 3. ou seja. ao final dessa busca exploratória. É o primeiro critério que o pesquisador usa para julgar a relevância do material disponível sobre seu tema. E o que se chama de “pesquisa de ponta”. o próximo passo é a definição do problema es­ pecífico de pesquisa. a pesquisa começa aqui. No nosso contexto. seja de forma parcial ou em sua totalidade. Um problema de pesquisa é a questão que vai guiar as decisões. Isso acontece porque INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Por isso. constitui um dos problemas de pesquisa mais tradicionais nessa área. de­ pendendo do tempo que o pesquisador dispõe para ela. uma questão ainda não respondida ou que necessita de maior aprofundamento. sobretudo no que diz respeito às origens e ao desenvolvimento histórico de conceitos filosóficos e psicológicos. No caso de uma pesquisa mais avançada e de um pesquisador mais experiente. espera-se que ele seja capaz de identificar uma lacuna. Definição do problema Após a busca exploratória. & Gabriel. Gründer. Para ele. Nos níveis mais altos de pesquisa. análises e ações do pesquisador durante todas as fases da investiga­ ção. 1971-2007). que já tem familiaridade suficiente com o tema ou está aprofundando uma investigação anterior. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! dispensável é o monumental Historisches Wörterbuch der Philosophie (Ritter. Só então ele estará em condições de formular um problema específico de pesquisa. O objetivo fundamental dessa consulta às obras gerais de referência é fami­ liarizar o pesquisador com os principais autores e trabalhos desenvolvidos dentro do tema escolhido. trata-se de uma questão inovadora. contribuindo para o desenvolvimento da área particular em questão. permitindo que ele faça um mapeamento das ten­ dências e questões discutidas dentro de seu tema. se ele é pertinente ou não. espera-se que o problema formulado seja ao mesmo tempo relevante e original. que pode durar de poucas semanas a alguns meses. os dois primeiros passos não se aplicam. ou simplesmente uma má com­ preensão de algum aspecto relacionado ao tema.

Daí a ne­ cessidade de uma investigação histórica daquele conceito ou teoria. ele formula a seguinte questão: quais são as atitudes filosóficas subjacentes às principais teorias da percepção espacial de Kant a Helmholtz? Hatfield quer mostrar que essas teorias revelam duas atitudes opostas sobre a relação entre filosofia e psicologia. No capítulo anterior. Assim. podem-se formular várias questões relevantes: por que o autor X mo­ dificou sua teoria entre o período Y e o período Z? Quantos e quais são os estágios percorridos pela teoria? O que levou o autor X a abandonar o conceito Y? Quais foram as consequências para o futuro de sua teoria? O conceito formulado na fase inicial da obra de um autor é o mesmo que apa­ rece na sua fase final? Mas esse não é o único tipo de problema que se coloca para a investigação histórica de teorias e conceitos psicológicos. vou utilizar esses mesmos trabalhos para ilustrar o que seria um problema de pesquisa bem formulado nessa área. então. Gary Hatfield (1990) elege como tema de pesquisa as teorias da percepção espacial de Kant a Helmholtz. seu problema de pesquisa pode ser reformulado da seguinte maneira: os primeiros defen­ sores do operacionismo na psicologia estavam comprometidos com as teses centrais do positivismo lógico? Trata-se de investigar. Partindo do objetivo geral de compreender a relação entre filosofia e psico­ logia em um certo período histórico. Para con­ duzir sua investigação. eu apre­ sentei alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos recentemente que bus­ cam a integração entre história e filosofia da psicologia. o objeto de pesquisa escolhido é a controvérsia sobre a m ensuração de estados mentais no século XVIII. Nesse caso. seja pela ocultação proposital de informações relevantes. as semelhanças e as diferenças entre as formulações psicológicas e filosóficas do conceito. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! o(s) autor(es) de um conceito ou teoria raramente apresenta(m) uma des­ crição ou explicação de seu desenvolvimento. na maior parte das vezes o relato não é confiável. Uljana Feest (2005/2012) elege o conceito de operacionismo na psicologia como tema de pesquisa. E quando o fazem. No caso de Thomas Sturm (2006/2012). seja pela falibilidade da memória humana. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Tendo igualmente como pano de fundo a relação entre filosofia e psicologia em um período histórico específico.

Aqui a pergunta fundamental é: "quanto tem­ po eu tenho disponível para investigar o tema escolhido?”. 2016). é fundamental que o problema formulado seja compatível com o tempo disponível para a investigação. maturidade do pesquisador e familiaridade com o tema da pesquisa. não pode ser respondido diretamente ou atacado de uma só vez. malconduzidos ou com resultados insatisfatórios e irrelevantes pode ser explicada pela presença de pelo menos um desses fatores. 2010.2016). principalmente no âmbito acadêmico contemporâneo. Por isso. como essa relação não se revelava diretamente como objeto de pesquisa em sua totalidade. Ninguém pode pesquisar indefinida- mente. Após responder àquelas quatro questões. Portan­ to. o problema de pesqui­ sa era determinar a natureza da relação entre a formulação de sua teoria psicológica e o desenvolvimento de seu projeto filosófico. No entanto. fui obrigado a formular questões específicas para cada um dos distintos momentos em que ela se manifestava. em que as pressões para publicar os resultados de pesquisa crescem a cada dia. O tempo restringe qualquer pesquisa. É interessante notar que um problema de pesquisa pode ser formulado em dois níveís distintos. que ilumina todo o processo de investigação. Finalmente. porém complementares: o geral e o específico. por principio. contra toda e qual­ quer proposta de m ensuração dos estados mentais? Nesse caso. deve-se ressaltar que o alcance e o grau de complexidade do pro­ blema formulado dependem essencialmente de três variáveis: tempo disponí­ vel. o que me levou a dividir a in­ vestigação em quatro fases distintas (Araújo. A grande parte dos projetos de pesquisa abandonados. Como guia para sua investigação. pude ao final construir um quadro geral de interpretação do desenvolvimento da psicologia wundtiana em sua relação com seus pres­ supostos filosóficos. é necessário subdividi-lo em questões menores. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! especialmente a posição de Kant. o problema geral. Como ocorre em muitas pesquisas de longo alcance e larga duração. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Em meu trabalho sobre W undt (Araújo. cada uma delas merecendo uma resposta particular. ele levanta a seguinte questão: Kant seria. trata-se de apresentar uma crítica às interpretações tradicionais da posição de Kant em relação à psicologia.

o problema deve ser compatível com a familiaridade que o pesquisador possui com o tema. As hipóteses podem ser construídas (e descartadas) ao longo do caminho. evi­ tando assim as frustrações e outras consequências adversas da incompatibi­ lidade entre o problema formulado e a capacidade de resolvê-lo. circunscrito a uma única questão abordável diretamente. E perfeitamente possível formular um problema de pesquisa sem que se tenha preliminar­ mente qualquer resposta para ele. um projeto de iniciação científica ou mestrado é marcado pelas seguintes ca­ racterísticas: pouco tempo para execução. maior sua capacidade de formu­ lar questões relevantes para a área em questão. Finalmente. A pesquisa histórica. o problema dificilmente poderá ser muito abrangente e complexo. Quanto maior o conheci­ mento que o pesquisador tem de seu tema. A questão que surge aqui é a seguinte: “até onde eu sou capaz de ir na investigação desse tem a?”. à medida que a análise das fontes vai progredindo. uma solução preliminar proposta pelo pesquisador. Nesse sentido. Daí se depreende que o tempo é um fator crucial para o desenvolvimento de pesquisas relevantes e inovadoras para a área. pouca maturidade do pesquisador e pouca familiaridade com o tema. Nesse caso. Mesmo nos casos em que o tempo é curto. devendo se adequar ao tempo disponível. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! A m aturidade do pesquisador também é um fator determ inante no alcance e na complexidade do problema formulado. à sua maturidade e familiaridade com o tema. ao contrário de uma pesquisa experimen- INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . A questão que se coloca aqui é: “qual é o nível de conhecimento que eu tenho do tem a?”. Por exemplo. Q uanto maior a maturidade. O problema de pesquisa pode vir ou não acompanhado de uma hipótese. mas a maturidade e a familiaridade do pesquisador com o tema são grandes. ou seja. o pesquisador deve estar ciente de sua condição no momento da pesquisa para não propor “um passo maior que a perna”. ele estará em ótimas condições de formular um problema de pesquisa ade­ quado ao tempo. o problema formulado deve ser simples. inovadoras e abran­ gentes. a familiaridade com o tema de pesquisa é igualmente importan­ te na determinação da formulação do problema. Por isso. maior a capacidade de formular questões profundas. Se o pesquisador for capaz de responder para si mesmo essas três questões.

pois é sempre possível encontrar novas fontes que. o pesquisador já deve ter tomado contato com autores e discussões fundamentais do tema escolhido. 4. é aberta. diários. p. Uma fonte é “um objeto do passa­ do ou testemunho sobre o passado do qual os historiadores dependem para criar sua própria representação do passado” (Howell & Prevenier. podem levar à formulação de novas hipóteses. isso não é suficien­ te. No nosso caso. 121). Tendo em vista a análise de teorias e conceitos psicológicos. o próximo passo é a identificação das fon­ tes que serão analisadas para solucionã-lo. Mas como selecioná-las? Em primeiro lugar. elas geralmente são constituídas por publicações posteriores de outros autores INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . ao passo que “uma fonte secundária surge em um pe­ ríodo posterior àquele para o qual ela serve de fonte. 1987. o pesquisador deve ter em mente a distinção entre fontes prim árias e secundárias. Uma fonte prim ária é um objeto “da época sobre a qual ele revela informações e. irá provavelmente iniciar sua nova pesquisa sobre aquela teoria com uma hipótese preliminar. por sua vez. geralmente escritas pelo(s) próprio(s) autor (es). Um pesquisador experiente. as fontes primárias oferecem informações de primeira mão. interessa-nos principalmente as fontes escritas. é preciso ir além das publicações encontradas nas obras gerais de referência e construir um catálogo sistemáti­ co de todas as fontes relevantes para sua pesquisa. a formulação prévia de uma hipótese para acompanhar o problema vai depender do nível de conhecimento que o pesquisador possui sobre o tema. 2001. Durante a busca exploratória. seleção e localização das 9 * 9 9 fontes Finda a formulação do problema. 17). p. Contudo. que esteja estudando uma mesma teoria psicológica por muitos anos. manuscritos etc. livros. Em termos de investigação histórica. Identificação. Mas isso não é necessário para uma boa investiga­ ção de teorias e conceitos psicológicos.). Em relação às fontes secundárias. tem uma conexão direta com a realidade histórica”. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! tal. sobre o conceito ou teoria em questão. cader­ nos de anotação. e se dividem em duas classes: publicadas (ar­ tigos. capítulos de livro etc. Em geral.) e não publicadas (cartas. como tal. e se baseia em fontes primárias anteriores” (Kragh.

não se deve descartar de antemão a possibilidade da cor­ respondência de um autor revelar aspectos essenciais de sua trajetória inte­ lectual e da formulação da sua teoria psicológica. é o problema de pesquisa que guia a busca e seleção das fontes. A seleção das fontes vai depender sempre de um julgamento do pesqui­ sador sobre a relevância do m aterial disponível sobre o tema para res­ ponder ao seu problema de pesquisa. Em outras palavras. em ambos os casos. Quando se trata de teorias e autores famosos. artigos. até mesmo das secundárias. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! sobre aquele conceito ou teoria (manuais introdutórios. o importante aqui é a economia de tempo e trabalho que a obra representa para o pesquisador. Tanto W undt quanto William James são ótimos exemplos disso. Uma maneira comum de começar a busca sistemática das fontes é a litera­ tura secundária tradicional sobre o tema. Um bom exemplo é a bibliografia INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . enquanto os livros e artigos contemporâneos de história da psicologia e da biologia que falam dc Darwin são fontes secundárias. Por isso. No entanto. Nesse contexto. os livros. Por exemplo. é importante ressaltar o valor das fontes primárias não pu­ blicadas. 2009). quanto mais claram ente formulado estiver o problem a. mais fácil será o processo de seleção das fontes. O intérprete já fez a identificação e seleção das principais fontes primárias (publicadas ou não) e. ensaios). psicólogo) que já tenha feito um tra­ balho anterior bem abrangente sobre aquele autor ou teoria e que acabou se tornando um clássico na área. sempre há pelo me­ nos um intérprete (historiador. No caso de teorias e conceitos psicológicos. o autor revela na sua correspondência informações que nunca aparecem em suas publicações. em especial a correspondência do(s) autor(es) do conceito ou teo­ ria em questão com seus pares e até mesmo seus familiares. ainda que nos dias atuais esse trabalho possa estar relativamente ultrapassado. Contudo. cadernos de anotação e cartas de Darwin são fontes primárias para a investigação de sua teoria da evolução. Por isso. a carta era um meio importante de diálogo intelectual (Dobson. Até meados do século XX. às vezes. independentemente da atualida­ de e da validade da interpretação. Em muitos casos. as obras de interpretação mais respeitadas pela comunidade científica. filósofo. sua correspondência tem sido largamente ignorada na literatura.

internet. livrarias). ao pesquisador interessado. Em relação à seleção das fontes prim árias publicadas. dada a possibilidade de alteração e distorção do texto original. 1977. sem os tradicionais erros de impressão. por exemplo. Ou seja. é essencial que se trabalhe com as chamadas “edições críticas”.. Essa bibliografia contém uma lista cronológica comentada de todas as publicações de James em vida. quando disponíveis. seja por estar incompleta ou por apresentar informações ultrapassadas. Com isso em mãos.g. bibliotecas. deve-se ter em vista dois critérios. que prejudicam a compreensão dos respectivos textos originais. ele já terá feito a sua primeira seleção e poderá proceder à localização das publicações (e. é fundam ental que as fontes estejam na língua original em que foram publicadas. o pesquisador deve se perguntar: “quais dessas publicações são re­ levantes para o meu problema de pesquisa?”. ela nunca vai ter o mesmo valor que o origi­ nal. ela difícilmente vai ser suficiente para a seleção de todas as fontes relevantes. Voltando ao contato inicial com a literatura secundária. 1920). Cabe. então. Primeiro.seu primeiro intérprete sistemático . O trabalho com fontes traduzidas é sempre proble­ mático. publicada pela H arvard University Press. que vai ser utilizado como padrão para os pesquisadores da área. devem ser buscadas as edições originais de cada uma de suas publicações. Perry. ampliando a sua INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Um dos casos mais recentes de edição crítica em nossa área é a monumental The works o f William James. Uma edição crítica é o resultado de um longo processo de investigação cuidadosa e cri­ teriosa dos m anuscritos originais de um autor. cujo objetivo é estabelecer um texto confiável. esse problema das traduções é particularm ente acentuado. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! anotada de William James. além de edições póstumas.e atualizada até 1977 por John McDermott. complementar o trabalho prévio. publicada inicialmente por Ralph Barton Perry (1876-1957) . No Brasil. Daí a im portância de se aprender a língua do autor que se pretende estudar. Em segundo lugar. Na inexistência de uma edição crítica da obra de um autor. As obras de autores como Freud e Skinner. toda a literatura primária publicada. tipografia e informação das edições originais. Ao responder a essa pergunta. um estudioso contemporâneo do pensamento jame- siano (McDermott. pelo menos no que se refere aos níveis mais altos de pesqui­ sa. têm recebido em nosso país versões muito problemáticas. Por melhor que seja uma tradução.

é preciso selecionar tam bém as fontes secundárias. É fundamental que o pesquisador se certifique da INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Journal o f the History o f Ideas. o pesquisador deve recorrer a outros meios de busca. Isis. como é o caso da correspondência parcial de James (Skrupskelis & Berkeley. Primei­ ro. History o f Science. Studies in the History and Philosophy o f Science. No caso de arquivos privados. não basta identificar sua existência. como JSTOR. Nesse caso. a busca deve ser feita a partir das palavras-chave que caracterizam o tem a e o problem a de pesquisa em questão. Para facilitar a busca. cada área possui seus catálogos e guias com a localização de fundos arquivísticos específicos. Aqui deve-se ter em mente os periódicos mais tradicionais de cada área. Em geral. percebe-se que ele está incompleto. depende-se sempre da boa vontade e do consentimento da família ou do curador responsável. Entretanto. History o f Psychology. Theory & Psychology. Mas como fazer para localizá-las? Tradicional­ mente. Segundo. é preciso localizá-las. No caso da pesquisa histórica de teorias e conceitos psicológicos. elas estão preservadas em biblio­ tecas ou arquivos. é aconselhável re­ correr às bases de dados que agrupam vários desses periódicos. Tomando novamente como exemplo o trabalho de Perry e McDermott. os mais im portantes são: Journal o fth e History o f the Behavioral Science. o advento da internet facilitou muito a busca e a localização das coleções e dos arquivos. 1982). Finalm ente. Após a identificação. que são principalm ente constituídas por livros e artigos sobre o tem a pesquisa­ do. muitos dos quais estão atualm ente disponíveis para busca online. não há informação sobre as fontes primárias não publicadas ou sobre a literatura secundária. PsicINFO e Project Muse. Em relação às fontes primárias não publicadas. History o f Human Sciences. existe um guia só para coleções de manuscritos relacionados à história da psicologia (Sokal & Rafail. Em ambos os casos. 1992). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! busca e atualizando as informações. o último passo é a ve­ rificação do acesso a elas. Já os livros são mais facilmente identi­ ficados nos catálogos de bibliotecas. sejam eles públicos ou privados. desde 1977 muitas fontes primárias inéditas foram publicadas. Por exemplo. seleção e localização das fontes.

Para julgar a questão do acesso. sobretu­ do os artigos. a CAPES disponibiliza para as universidades públicas brasilei­ ras.uk/library/special-collections). se o seu objetivo é questio­ nar uma interpretação tradicional de um conceito ou teoria a partir do uso de fontes primárias não publicadas e nunca antes exploradas. Nos últimos anos. como é o caso da Universidade de Harvard (http://library. a visita física aos arquivos era pratica mente obrigatória. no pior dos cenários. estão hoje disponíveis gratuitamente para download na internet. é fundamental que haja uma compatibilidade entre problema de pesquisa. até recentemente consi­ derados obras raras e de difícil acesso. o acesso gratuito aos periódicos e bases de dados internacionais mais relevantes de cada área. Em relação às fontes secundárias. o pesquisador deve estabelecer uma hierar­ quia entre suas fontes selecionadas. org). ac.bnf. Por exemplo.google.capes.de/index_html) e Google Books (https://books. sua investiga­ ção pode ficar seriamente comprometida ou. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . tornar-se inviável.br). Muitos livros e artigos clássicos publicados em séculos passados.mpg. por meio do Portal de Periódicos CAPES (http://www.periodicos. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! viabilidade de acesso às suas fontes principais. O mesmo tem acontecido com muitas fon­ tes primárias publicadas que já caíram em domínio público. Projetos como Internet Archive (https://archive. ele não deve ter a ilusão de que esgotou todas as fontes relevantes para a sua pesquisa. Gallica (http://gallica. a falta de acesso a ela não prejudica a execução do projeto de pesquisa. Em relação às fontes primárias não publicadas.harvard. Caso contrário. se uma fonte é pouco re­ levante para o problema em questão. sua prioridade é garantir o acesso a essas fontes. o que exigia grande dispêndio financeiro. The Virtual Laboratory (http://vlp.ucl. Por outro lado.com) disponibilizam milhares de obras fundamentais para a pesquisa histórica de teorias e conceitos psicológicos. É sempre possível que ele tenha cometido um erro de julgamento em relação à relevância de uma fonte que ele descartou ou então que uma fonte relevante anteriormente desconhecida seja descoberta. até a primeira déca­ da do século XXI.fr). seleção de fontes e acesso. Por isso. gov. edu/university-archives) e da University College o f London (https://www.mpi- wg-berlin. Mesmo que o pesquisador garanta o acesso a todas as suas fontes selecio­ nadas. muitos arquivos estão disponibilizando suas coleções em formato digital para acesso online gratuito.

O planejamento de uma pesquisa histórica envolve essencialmente três ele­ mentos: tempo. ele deve buscar a divisão do trabalho em etapas concretas. é preciso retom ar aquela questão colocada na terceira seção: “quanto tempo eu tenho para realizar minha pesquisa. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! 5. Atualmente é muito raro que um pesquisador receba finan­ ciamento para desenvolver um mesmo projeto de pesquisa por mais de quatro anos. Ao responder a essas duas questões. ele deve se perguntar: ”cie quantas horas semanais eu disponho para anali­ sar as fontes e quanto tempo aproximadamente eu necessito para trabalhar cada tipo de fonte (primárias publicadas. O trabalho intelectual do pesquisador consiste na tentativa de compatibilizar da melhor forma possível esses três fatores. primárias não publicadas e secun­ dárias)?”. Na investigação de teorias e conceitos psicológicos. Ten­ do sempre em vista seu problema de pesquisa. ele já consegue formar uma primeira ideia do tempo total para a análise das fontes. no sentido de obrigar o pesquisador a finalizar o processo sem que tenha analisado todas as fontes selecionadas e respondido ao seu problema de pesquisa. Em seguida. Planejamento e cronograma O último passo na elaboração de um projeto de pesquisa é o planejamento das etapas a serem percorridas e a fixação de seu respectivo cronograma. 2006» p. Em prim eiro lugar. Esse tempo varia geralmente de um a quatro anos. Após tomar consciência do tempo total que ele tem para realizar a pesquisa. uma solução muito comum adotada pelos pesquisadores é a divisão do trabalho INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . dissertação ou tese?”. ele deverá formular a seguinte pergunta: “qual é o itinerário mais adequado para que eu consiga solucionar o meu problem a?”. problema de pesquisa e quantidade de fontes selecionadas. Planejar uma pesquisa significa “prever os momentos cognoscitivos e téc­ nicos pelos quais o trabalho deverá passar” (Aróstegui. incluindo a elaboração e entrega do relatório. dependendo da natureza da investigação em questão. Um mau planejamento das etapas da pesquisa pode comprometer significativa­ mente a sua realização. 468).

se ela foi mesmo escrita na época e pelo autor em questão. de forma que se torna impossí­ vel o estabelecimento de qualquer diretriz mais específica para o estabeleci­ mento das etapas. o que é fundamental para a elaboração de pes­ quisas mais aprofundadas e abrangentes. Em função das respostas que forneceu às perguntas anteriores. A autenticidade diz respeito à procedência da fonte. Com o passar do tempo. o pesquisador deve dis­ tribuir as etapas ao longo dos meses de cada ano disponível. para que possa se guiar posteriormente. O cronograma final é geralmente apresentado por meio de uma tabela. um livro etc. Quan­ do o projeto é submetido a uma agência de fomento.0 trabalho com as fontes Antes de iniciar a análise e interpretação de suas fontes. Seja como for. Mas isso varia muito de caso a caso. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! ..g. 6 . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! em cortes temporais. O último passo é a montagem do cronograma. que traz de volta para a dis­ cussão o fator tempo. cada uma delas correspondendo a uma década. A pergunta aqui é a seguinte: “quantos meses eu necessito para cumprir cada uma dessas etapas?”. essa divisão do trabalho dependerá tanto do problema de pesquisa quanto da quantidade de fontes a ser analisada. ele já terá uma ideia aproximada de quantos meses necessitará para cada etapa. ele vai aprendendo o seu tempo e rendimento individual de trabalho (e. Uma vez traçado o caminho. o tempo médio que ele gasta para ler um artigo. Na verdade. a descrição clara das etapas e a apresentação do cronograma são pontos essenciais da avaliação. é possível estudá-la em três etapas. o pesquisador deve gastar algum tempo verificando a autenticidade e a confiabilidade das mes­ mas.). Se uma teoria foi formulada ao longo de trinta anos. Aqui. o importante é que o pesquisador deixe claro o que ele fará con­ cretamente ao longo do tempo que ele tem para realizar a pesquisa. Mas é igualmente comum a apresentação do cronograma em termos de uma explicação textual de cada atividade por período de realização. a experiência do pesqui­ sador ajuda muito. A confiabilidade se refere à veraci­ dade da informação contida na fonte. na qual as atividades são descritas e relacionadas aos respectivos meses de tra­ balho.

O pesquisador deve sempre desconfiar dos relatos INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Um dos casos mais claros de fraude em nossa área foi a criação do “mito de Pinei”. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! No caso de suas fontes primárias publicadas. hábito comum até o início do século XX. com data incompleta. Felizmente. é pouco provável que o pesqui­ sador encontre problema em sua investigação de teorias e conceitos psicoló­ gicos dos dois ou três últimos séculos. Em 1823. sem local. A questão da confiabilidade afeta igualmente as fontes publicadas e não pu­ blicadas. Hoje em dia. isso não acontece com um psicólogo do século XIX ou do início do século XX. contudo. Há também a possibilidade de fraude. Por isso. ou seja. a falsificação está comprovada (Weiner. o que pode dificultar o estabelecimento de sua autenticidade. Enquanto até hoje se debate a autenticidade de alguns escritos atribuídos a Aristóteles. Durante muitos anos. Scipion Pinei (1795- 1859). sem que ela represente de fato o que ele estava pensando naquele momento. alguém que deliberadamente invente informações e/ou forje documentos e atribua sua autoria a um autor do passado. 1994). Por exemplo. isso não representa nenhu­ ma dificuldade. esse problema não é frequente na área e não deve preocupar demasia­ damente o pesquisador. A situação muda sensivelmente quando se trata de fontes prim árias não pu­ blicadas. Por exemplo. Várias ra­ zões podem tê-lo levado a tal declaração. publicou um artigo em um periódico francês alegando que seu conteúdo tinha sido extraído dos cadernos de anotação de seu pai. uma carta pode vir sem data. tanto W undt quanto James publicaram várias dessas resenhas. Outro fator importante que afeta a confiabilidade de um relato é a fragilidade da memória humana. o filho mais velho de Philippe Pinei (1745-1826). pois em geral há pouca dúvida sobre a autenticidade de livros e artigos desse período. sem assinatura. Não é por estar publicada em um periódico respeitável que uma declaração pessoal de um autor deva ser tomada ao pé da letra. contu­ do. esse conteúdo foi transmitido e repetido em inúmeros manuais e tratados de medicina e psiquiatria sem que ninguém duvidasse de sua autenticidade. é sempre fundamental fazer uma comparação com outras fontes disponíveis e compreender o con­ texto de sua formulação. mas não há atualmente qualquer dúvida sobre sua autoria. Mesmo no caso das inúmeras resenhas publicadas anonimamente em periódicos e jornais da época.

Por exemplo. principalmente no que se refere ao trabalho em arquivos (Bacellar. é fundamental que ele faça um registro de cada fonte consultada e monte seu próprio arquivo de trabalho. Word for Windows). a ideia geral pode ser resumida da seguinte forma: trata-se de um confronto constante entre as informações extraídas das fontes. a sua pergunta geral e/ou as suas perguntas específicas como guia para a análise dos documentos. no primeiro contato com a correspondência de um autor. 2006. cadernos de notas ou documentos eletrônicos (e. Para que o trabalho com as fontes seja frutífero e economize tempo do pes­ quisador. ao final. incluindo sua localização (número de página ou folha). Isso pode ser feito em fichas avulsas. Langlois & Seignobos. Castro. o pesquisador não pre­ cisa retornar à fonte original cada vez que precisar consultar aquela informa­ ção. não é possível abordar dentro dessas breves considerações me­ todológicas a questão da interpretação das fontes.g. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .. o(s) proble- ma(s) de pesquisa e a(s) hipótese(s). Mas o prin­ cipal é que o pesquisador tenha todo o tempo em mente o seu problema de pesquisa. Assim. é muito fácil o pesquisador se per­ der nas minúcias contidas nas cartas e esquecer do motivo que o levou até elas. Fischer. Nesse momento. Goertz. 1898/2009). No entanto. A análise das fontes históricas requer muita habilidade. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! autobiográficos tardios de um autor. Infelizmente. ele certamente vai se perder ou desviar do seu caminho. mas não saberá o que fazer com elas. cotejando-os com outras fontes dispo­ níveis sobre os eventos em questão. Assim. 2014). 2001. pude perceber que seu relato sobre o período que trabalhou como assistente de Helmholtz não corresponde às fontes prim árias disponí­ veis (Araújo. Bloch. a pergunta fundamental é: “o que essa fonte me diz sobre o meu problema?”. Caso o pesquisador perca de vista seu(s) problema(s) de pesquisa e comece a seguir todas as informações contidas nas fontes selecionadas. 2009. O importante é que em cada um dos registros o pesquisador anote a referência completa da fonte e as informações relevantes que ele retirou dela. o que representa uma grande economia de tempo. 2008). Ter o problema em mente é muito importante quando se vai acessar um arquivo peia primeira vez. 2007. ele terá uma montanha de informações. 1970. Por exemplo. em relação à autobiogra­ fia de Wundt. Dobson & Ziemann. devido à quantidade e à complexidade dos fatores envolvidos (cf.

O pesquisador pode optar por listar. encontramos os elementos Y e Z da teoria K”. por meio de argumentos. o conceito Q tinha três formulações diferentes”. a citação direta fortalece a interpretação do pesquisador. Afirmações deste tipo mostram que o pesquisador está apenas constatando aquilo que ele encontrou. Embora a apresentação e discussão dos resultados apareçam frequentemen­ te juntas na literatura. Isso não é suficiente. o pesquisador precisa de argumentos para defender sua interpretação. Para alcançar um bom resultado. ele deve fazer uso das próprias fontes primárias (citações diretas). É necessário explicitar o sentido desses resultados à luz tanto do problema de pesquisa quanto da hipóte­ se. o que seus resultados significam. é igualmente fundamental o confronto com as interpreta­ ções contidas na literatura secundária. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! 7. o pesquisador deve mostrar. "eles revelam algo novo sobre o conceito ou teoria em questão?”. Apresentação e discussão dos resultados O último passo da pesquisa é a apresentação e a discussão dos resultados. A apresentação dos resultados pode ser feita de forma meramente descriti­ va. Em suma. Por exemplo. Nesse contexto. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . ele pode fazer afirmações do tipo: “no período X. seus principais achados. Aqui. É preciso integrar os resultados encontrados em um quadro coerente de interpretação. mostrando que seus argumentos estão amparados em passagens originais. sem buscar ainda uma articulação entre eles ou uma explicitação de seu sentido. E nesse momento que ele deve utilizar toda a sua habilidade analítica para enxergar os problemas apresentados por interpretações anteriores e mostrar porque a sua interpretação oferece uma compreensão mais profunda ou lança nova luz sobre o problema em questão. vou aqui separá-las para fins didáticos. porém. O pesquisador deve se perguntar: “os resultados encontrados são compatíveis com a literatura secundária?”. E sempre bòm que o pesquisador iniciante compreenda a diferença lógica que existe entre descrever e explicar/argumentar. Nesse caso. para cada etapa de sua pesquisa. “no estágio P.

). Seja como for. MG: UFJF. deve-se deixar claro qual é a contribuição do trabalho para a literatura. o relatório final pode ser substituído pela entrega e defesa da dissertação ou tese. Ao final. não há pesquisa perfeita. se for o caso: que a falta de acesso a um a fonte X pode ter prejudicado ou limitado seus resultados. o pesquisador será obrigado a entregar um relatório final para avaliação. De qualquer modo. No caso de pesquisas realizadas no âmbito de programas de pós-graduação. sempre que possível. seja na forma de um formu­ lário online seja na forma de uma dissertação ou tese. Por exemplo. Juiz de Fora. é im portante também. É parte fundam ental da discussão de uma pesquisa que o pesquisador esteja consciente dos limites do seu próprio trabalho. a entrega do relatório final. (2010). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Mas o pesquisador não deve discutir os limites e problemas apenas das interpretações alheias. etc. F. incluindo aí a prestação de contas da verba utilizada ao longo da pesquisa.0 relatório final Se a pesquisa está sendo conduzida de maneira oficial. não é possível aqui elaborar nenhuma diretriz geral sobre o preenchimento e a entrega de relatórios. agência de fomento etc. 8 . que suas fontes revelaram novos aspectos sobre o tema investigado que não puderam ser abordados. Por isso. marca oficialmente o fim do projeto de pesquisa em questão. como as condições e as exigências variam muito de local para local. Há sempre algo a ser aperfeiçoado ou acres­ centado. é im portante ele reconhecer. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . S. Referências Araújo. que um a resposta mais adequada ao seu pro­ blema de pesquisa exige outra forma de análise das fontes. com cadastro em algum órgão (pró-reitoria. O projeto de uma psicologia científica em Wilhelm Wundt: Vma nova interpretação. No entanto. que o pes­ quisador diga se seus resultados apontam para a necessidade de alguma pesquisa futura.

Pinsky (Ed. ). (2001). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Araujo. sobre o que deveria ser o debate. (2014). (2016).and twentieth-century history. Uso e mau uso dos arquivos. Holanda: Springer. New York: MacMillan. (Ed. C. Dordrecht. S. The interpretation o f texts from nineteenth. (1998). London: Routledge. Feest. New York: MacMillan.and twentieth- -century history (pp.). Encyclopedia o f philosophy (8 vols. Rio de Janeiro: Zahar. In M.) (2009). F.).). Reading primary sources. B. Craig. M.) (1967). (2012). Dobson. Araujo (Ed. 57-73).). B. Bauru. A pesquisa histórica: teoria e método. C. M. (Ed. (2012). Encyclopedia o f philosophy (10 vols. Aróstegui. 2nd ed.). P. (2008). Dobson. 50-59. (2006).). Edwards. (2006). Bacellar. Bringing new archival sources to Wundt scholarship: the case of W undt’s assistantship with Helmholtz. (Eds. São Paulo: Contexto. F. An in­ troduction to the Lysenko affair. História e fdosofia INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . D. London: Routledge. SP: Edusc. Araujo. F. & Ziemann.. In S. Routledge encyclopedia o f philosophy (10 vols. (2005). W undt and the philosophical foundations o f psychology: a reappraisal. (Ed.). Rio de Janeiro: Zahar. 2a ed. The cold-war politics o f genetic research. Ziemann (Eds. M.). (2009). Pesquisando em arquivos. Bloch. 77(1). Dobson & B. S. Letters. History o f Psychology. Reading primary sources. E. The interpretation o f texts from nineteenth. deJong-Lambert. New York: Springer. Lon­ don: Routledge. Borchert. Apologia da história. U. Castro. In C. O operacionismo na psicologia: sobre o que é o debate. Fon­ tes históricas. W.

G.). B. H. Annotated bibliography of the writings of William James. (2001). Historian’s fallacies. Annotated bibliography o f the writings o f William fames. (2007).. McDermott (Ed. Encyclopedia o f psychology (8 vols. (2001). J. San Diego. São Paulo: Mar­ tins Fontes.. D. MG: UFJF. C. (2009). The natural and the normative.. (1970). (Ed. Lalande. São Paulo: Loyola. (2010). The writings o f William fames (pp.). 3rd ed.) McDermott. An introduction to historical methods.C. Las Vegas. J. NV: IAP. Geschichte: Ein Grundkurs.) Ferrater Mora. (1999). Alemanha: Rowohlt. (Ed.).). Washington. MA: The MIT Press. J. (2000). Cambridge: Cambridge University Press. H. (1920). New York: Harper.: American Psychological Association. In. (Ed.). Howell. An introduction to the historiography o f science.-J. New York: Longmann. & Kitchener. Green and Co. Goertz. IL: The University of Chicago Press. Introduction to the study o f history. Perry. (1987). D. Kragh. Fischer. R. A. 811-858). NY: Cornell University Press. C. (1990).). Handbook o f behaviorism. Hatfield. A. M. W. (Trabalho original publicado em 1898. & Seignobos. Ithaca. Chicago. CA: Academic Press. & Prevenier. Juiz de Fora. Kazdin. Langlois. Cambridge. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! da psicologia: perspectivas contemporâneas (pp. (1977). Toward a logic o f historical thought. From reliable sources. Dicionário de filosofia (4 vols. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. W. 259-296). R. (Trabalho original publicado em 2005. O ’Donohue. Reinbek.

Zurique. Recupera­ do em 14 de abril. Strube.). G. NY: Kraus International Publications.. VA: University of Virginia Press.htm l. Wilson. (1976-1981).). G. Cambridge. (Ed. R. Discovering the history o f psychiatry (pp. Encyclopedia o f the history o f psychological theories (2 vols. Suíça: Kindler. & Berkeley. L. In M.). I. (2012).stanford. Há algum problem a com a psicologia matemática no sé­ culo XVIII? Um novo olhar sobre o velho argumento de Kant. Die Psychologie des 20. The M IT encyclopedia o f the cognitive sciences. Ritter. 87-132).. (1992). F.). (1971-2007). Sturm. E. In Is there a problem with mathematical psychology in the eighteenth century? In S. (Eds. Zalta. Micale & R. M. de http://plato. Juiz de Fora. (1994). Sokal. M. 2016. D.). (Trabalho original publicado em 2006. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (Ed. “Le geste de Pinel’*: the history of a psychiatric myth. Porter (Eds. K. & Keil. Millwood. & Rafail.. Araujo (Ed. P. (Ed.).edu/index.). T.). R. Historisches Wör­ terbuch der Philosophie (13 vols. (2012). F. New York: Springer.). (1982). Basel. História e filosofia da psicologia: perspectivas contemporâ­ neas (pp. MA: The MIT Press. MG: UFfF. (1999). 232- 247).) Weiner. E.. A guide to manuscript collections in the history o f psychology and related areas. (1995). & Gabriel. Jahrhunderts (15 vols.). Skrupskelis. Gründer. The correspondence o f William fames (12 vols. The Stanford encyclopedia o f philosophy. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Rieber. Charlottesville. (Eds.). New York: Oxford University Press. Suíça: Schwabe.

15). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Biografia científica e pesquisa teórica da historiografia da psicologia Robson Nascimento da Cruz42 O reconhecimento do valor cultural do gênero biográfico tornou-se notável a partir do final da década de 1970. a biografia ad­ quiriu status quase unânime de fenômeno legítimo de pesquisa entre vários campos do conhecimento. Uma prova do impacto cultural do gênero biográfico está nas transforma­ ções do uso do termo biografia nas últimas décadas. 2014). o significado do substantivo biografia não mais se restringe a esse uso tradicional. ultrapassando o mercado editorial voltado para 42 Bolsista de pós-doutorado Fapesp {processo 15/00514-0). momento no qual a biografia se desta­ cou como o mais popular dos gêneros literários.g. a partir da década de 1980. Nesse cenário.. p. Weale. como documentários e filmes ficcionais. Mesmo que cada época e contexto social apresente uma definição de biografia orientada por dife­ rentes crenças epistemológicas e morais. por muito tempo foi consenso que a biografia se referia à narrativa escrita da história de uma vida humana.g. Além disso. Percepção mantida ao longo das últimas três décadas com alegações de que viveríamos na era (Bowker. Vide sua presença em títulos de produções audiovisuais. Schwarcz & Starling. Contudo. 2015) ou mesmo de um órgão humano (e. 1982). o gênero biográfico começa a ser percebido como a “mais satisfatória e estabelecida realização de nossa presente era” (Gittings. na atualidade. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . e sua inclusão como parte de títulos de livros que narram a história de um país (e. 1978.. pela primeira vez. 1993) ou idade da biografia (Kusek.

Para tanto. Em seguida. Ao mesmo tempo. foi alvo constante de críticas acadêmicas. 2009). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! o grande público. 1. Uma breve história do gênero biográfico: o apagamento de uma história sempre presente A história do gênero biográfico é talvez a história mais paradoxal de todos os gêneros literários. em quadros históricos específicos. a biografia sempre teve grande apelo e alcance popular. entre sujeito e sociedade (Mills. como o gêne­ ro biográfico tem se inserido em uma disciplina específica. A principal razão disso foi a crescente consciência de que a biografia desempenharia papel especial no tratamento de um dos maiores problemas teóricos e metodológicos enfrentados pelas ciências humanas e sociais: a compreensão das relações entre história individual e história so­ cial. Por essas e outras razões. Por um lado. uma vez que dela se poderiam abstrair os diferentes modos de repre­ sentar as relações entre sujeitos e contextos sociais. Por outro. passando por suas especificidades na historiografia da história e na historiografia da história da ciência. Nesse cenário. a historiografia da psicologia. já que essa possibilidade tem sido pouco explorada na literatura da área. Entre essas críticas destaca-se a vinculação do gênero biográfico a noções forte- INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . tendo seu valor intelectual rejeitado até muito recentemente (Dosse. com destaque para seu lugar atual na historiografia da psicologia. nas últimas quatro décadas o gênero biográfico penetrou as mais diferentes áreas do saber. de maneira introdutória. 2009). pretende também avaliar como a biografia pode­ ria ser incorporada à pesquisa teórica em psicologia. a biografia assume o duplo papel de fonte e objeto de pes­ quisa. será discutida a inserção do gênero biográfico na pesquisa teórica da história da psicologia por meio de um exemplo no qual a biografia científica foi incorporada a uma análise teórica do projeto científico skinneriano. será apresentada uma breve introdução à história do gênero biográfico. O objetivo deste capítulo é apresentar.

não possui nenhum grande departamento dedicado ao seu estudo em uma única universidade. Para ela. manteve como parte de seu projeto ser reconhecida como uma ciência positivista. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! mente rechaçadas pelo que se convencionou chamar de pensamento pós-mo- derno.algo que o pensamento moderno considerou indesejável e inconciliável. entre fato e ficção. em um dos maiores paradoxos da civilização ocidental. Loriga (2011) indica suas limitações. os estudos sobre as mulheres. muitas vezes. 4) Ao comentar a dificuldade em situar a biografia como parte de um único campo do conhecimento e sua perene rejeição acadêmico-intelectual. estaria comprome­ tido com a consagração da figura dos grandes homens. De um ponto de vista sociológico. Para Nigel (2007). em suas diversas vertentes. enquanto nas universi­ dades abundam departamentos dedicados à investigação e ao ensino de disciplinas tão diversas como o jornalismo. o hip-hop. produ­ zindo aquilo que Bourdieu (1996) denominou “ilusão biográfica”. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . alienante do relato biográfico. o assunto da biografia . Para Shorltand e Yeo (1996). para citar alguns.que liga todos cies . Dosse (2009) também avalia que o gênero biográfico foi ignorado porque explicita­ va o vínculo entre questões de fato e questões de valor. en­ tre história e mito . como a ideia de progresso e a história dos grandes homens (Loriga. c um dos pilares da prática democrática ocidental. 2011). a crítica mais recorrente à biografia refere- -se à ideia de que tal gênero. essa herança histórica da biografia tornou sua presença quase nula na universidade. Embora reconheça o valor dessa crítica para o desvelamento do papel. até meados do século XX. criando um paradoxo surpreendente: Hoje. essas características também esclarecem por que o gênero biográfico tradicionalmente ocupou mais es­ paço nos departamentos de Literatura do que nos de História. salvo no Havaí! (p. os esportes e os estudos afro-americanos. No entanto. e com o decorrente papel desse tipo de narrativa na manutenção de estruturas sociais dominan­ tes. Essas estruturas estariam amparadas em uma visão histórica linear e excessivamente comemorativa de determinados sujeitos e eventos. a bio­ grafia é a área mais amplamente praticada e muitas vezes mais con­ troversa da produção audiovisual e da publicação. uma vez que esta última disciplina.

Muitos biógrafos ainda estão. o desprezo pela biografia na história da ciência aparece no escasso esforço para interpretar os diver­ sos papéis desempenhados pela biografia científica. Loriga (2011) sugere que a crítica à biografia heroica ainda permanece vá­ lida. Na mesma perspectiva. mesmo sendo responsáveis por incluírem em seus escopos teóricos e metodológicos aspectos microssociais. Sõ- derqvist (2007) sugere que não haveria gênero na história da ciência mais odiado do que o gênero biográfico. Contudo. ainda que o gênero me- tacientífico seja. Foi nesse sentido que alegaram que a "biografia científica nem sempre registrou esse mar de mudanças. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Porém. o cenário biográfico atual é um terreno cada vez mais difícil de ser definido em termos de simples reprodução da imagem histórica da figura dos grandes homens. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! autores como Bourdieu incorreram no erro de estabelecer um passado mo­ nolítico do gênero. o que impressiona sobre a história da biografia científica é que ela teria ficado imune às substanciais transformações filosóficas e históricas ocorridas na historiografia da ciência da segunda metade do século XX. como ladrões. apagando assim inúmeros esforços biográficos de narrar a vida de figuras à margem da sociedade europeia dos séculos XVIII e XIX. oferecendo narrativas obsole­ tas de heroísmo. Biografia científica e história da ciência: uma relação paradoxal Em uma das poucas coletâneas sobre a história da biografia científica. Prova significativa da insensibilidade ao gênero biográfico seria notável no trabalho de nomes como Thomas Kuhn e Bruno Latour. por assim dizer. para Loriga (2011) é justamente a impressionante heterogenei­ dade contemporânea do gênero biográfico que o tornou fenômeno cultural impossível de não ser percebido e debatido. 2. na praia. poetas e outras personagens excluídas. abnegação e devoção ao dever” (p. Para o autor. para Shortland e Yeo (1996). intoca­ dos pelas evoluções filosóficas e históricas. em termos quantitativos. o mais presente na história da ciência moderna. que. ao invés de isso ser visto como uma fraqueza do gênero. 2). A diversidade de formas de narrar a vida ganhou dimensões impossíveis de serem totalmente mapeadas e classificadas apenas em uma perspectiva.

em que suas descobertas científicas são exaltadas justamente por violar as regras canônicas da ciência. O texto de Brush (1974). por situar a história de vida de grandes nomes da ciência e suas produções intelectuais como parte de contextos históricos. deixaram de situar a biografia como fenômeno legítimo de investigação histórica da ciência. informações de ordem biográfica passam a ser compreendidas INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Tais biografias caracterizam-se. sobretudo. o paradoxo anunciado por Brush (1974) permanece até o presente e representa o baixo impacto dos debates críticos na história da ciência sobre os usos tradicionais da biografia científica. Esse paradoxo mostra que a literatura pedagógica da ciência recorre a bio­ grafias dos grandes homens (mulheres somente recentemente começaram a fazer parte da história da ciência como protagonistas) de modo a expor como a vida deles seria composta por uma série de episódios extraordiná­ rios. há nítidos esforços de escrever biografias científicas influenciadas pela história cultural e pelas mudanças na historiografia da ciência. Contudo. hoje um clássico dos estudos biográficos da ciência. Com isso. Naquilo que tem sido designado como produção especializada de biografias científicas. expõe um germe desse empenho analítico desenvolvido nas duas últimas décadas. Brush foi o primeiro a notar o que tem sido considerado um dos maiores paradoxos da função do gênero biográfico na formação científica. escritas principalmente por historia­ dores de formação. com o valor disciplinar da biografia científica. há transformações consideráveis nos modos de narrar a vida na ciência. Assim. influenciaram suas produções intelectuais. alinhado com as mudanças filosóficas e históricas da historiografia da ciência. Embora apenas na década de 1990 tenha se tornado evidente um conjunto de reflexões críticas sobre a biografia científica. a partir da década de 1980. Para Greene (2007). no mínimo. essa mesma literatura apregoa para os jovens cientistas que a boa e aceitável prática científica resultaria exclusi­ vamente do seguimento rígido de regras. os usos da biografia na formação científica não esgotam todo o ce­ nário biográfico da ciência. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! micro-históricos e psicossociais da ciência. políticos. alguns esforços tímidos e dispersos de avaliação do papel da biografia científica são identificados a partir da década de 1970. sociais e econômicos que. Contudo. prin­ cipalmente. Ainda que preocupado.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! como capazes de favorecer o entendimento de como os cientistas vivem am­ bições acadêmicas . Uma hipótese para o desprezo pelo gênero biográfico na historiografia da psicologia é que ela ocupa um lugar semelhante àquele que a história da psi­ cologia tem ocupado entre praticantes dessa ciência: uma perfumaria históri­ ca (Lopes. Igualmente. Piaget. historiadores da psicologia . a biografia não adquiriu lugar de destaque.relegam a biografia ao papel de uma história aces- INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 2011). ocorridas a partir da década de 1980. a biografia provê a inserção dos leitores em embates existentes em toda a ciência. History o f Psychology e Journal ofthe History o f the Behavioral Sciences. o que raramente aparece em outras fontes. A biografia na historiografia da psicologia: uma história a ser construída Em consonância com as transformações nas narrativas biográficas da ciên­ cia. e suas produções intelectuais começaram a ser contextualizadas como parte de quadros sociais diversificados. 3. 2005). a informalidade. entre outros. Por exemplo. o status social e o apoio financeiro e acadêmico que eles experimentam ou não durante suas carreiras. Na realidade. Todavia. a produção biográfica na psico­ logia passou por mudanças no mesmo período. comentários sobre biografias na área continuaram a ser tratados de modo genérico. nos dois principais periódicos da área. A principal delas foi que a narrativa de vida de nomes como Freud. o recurso ao gênero biográfico na história da ciência indica como se dá a construção de lideranças científicas. no máximo por meio de resenhas. Popkin. 2006. a aceitação social da ciência e as disputas internas na comunidade científica.especialmente quando são praticantes da área . mas muitas vezes apagados em prol de uma linguagem formal im­ peditiva da exposição do papel desses fatores ou apenas preocupada em manter a imagem de heroísmo de determinadas figuras históricas (Jo Nye. Assim. Assim. isso não significou que o gênero biográfico tenha se tornado automaticamente matéria de análise crítica na historiografia da psicologia.o que é identificado em processos como a sociabilida­ de. Skinner. também em acordo com o cená­ rio mais amplo da historiografia da ciência.

Exemplo ain­ INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 1989). Nesse cenário. a biografia é considerada um instrumento responsável por mascarar estruturas ideológicas dominantes na produção do conheci­ mento psicológico que. envolvidos na própria produção do conhecimento psicológico (Vaughn-Blunt. & Johnson. o gênero biográfico tornou-se alvo de ataques de uma his­ toriografia crítica da psicologia. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! só ria. além de a psicologia ser possivelmente a área do conhecimento que mais recorre à história dos gran­ des homens como parte de suas estratégias disciplinares (Kuhn. como um resultado de diversas interações sociais. uma vez que a história da psicologia é fortemente afeita ao uso do gênero biográfico na formação científica. na qual o es­ forço individual e racional sempre supera os percalços da vida. Freud é retratado por uma estrutura literária típica da história dos grandes homens. envolvidos no processo de construção do saber psicológico. Isso soa paradoxal. porque representava aquilo que se criticava naquele momento. quase todas as biografias de grandes nomes da psicologia. Um exemplo marcante seria a biografia de Freud escrita por Ernest Jones (1974). Vale dizer que um a hipótese ainda a ser verificada sobre o gênero biográfico na psicologia é se a produção de biografias heroicas estaria relacionada com uma formação de psicólogos e psicólogas historiadores da psicologia majo- ritariamente alinhada teórica e metodologicamente com perspectivas menta- listas e individualistas. foram escritas por historiadores profissionais e não por psicólogos-historiadores. Rutherford. perm aneceria na escrita biográfica a tentação de reproduzir categorias de análises incompatíveis com perspectivas contextuais. a partir da década de 1980. Assim. legitima preconceitos e apaga o valor de sujeitos oriundos de grupos minoritários. mesmo em produções biográficas de personagens da história da psicologia que contribuíram para a crítica da biografia heroica. Para Bali (2012). Nesse trabalho. sem relevância concreta para interpretação da história da psicologia. Na condição de principal representante de uma história da consagração e do progresso. que se iniciou entre as décadas de 1960 e 1970. Baker. Isso dificultaria ou inviabilizaria considerar a história de vida de homens e mulheres. entre outras coisas. 2009). este cenário de crítica ao gênero biográfico e a demanda por uma história da psicologia historicista fizeram com que a biografia fosse compreendida como um gênero a ser evitado. Não por acaso.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Para além das suas peculiaridades. essas novas biografias têm em comum o tratam ento da vida e da obra de persona­ gens consagrados na história da psicologia como parte de quadros sociais di­ versificados. Nesse caso. a saber.do psicólogo latino-americano Martín- -Baró (Portillo. Williams. De modo a expor a possibilidade de aproximação entre pesquisa biográfica e pesquisa teórico-conceitual da história da psicologia. o finalismo e o heroísmo. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! da mais emblemático é observado no relato de Portillo (2012) sobre a vida do psicólogo social Martín-Baró. 1989). mesmo refletindo uma narrativa tradicional. há exemplos atuais de pesquisas biográficas sobre personagens tradicionalmente ausentes na historiografia tradicional da psicologia. 2006). representa o esforço de fazer emergir na história da psicologia uma figura da história da psicologia latina. Por último. Piaget (Ratcliff. 2011). Lacan (Roudinesco. entendendo-se que as realizações científicas desses indivíduos não se explicam apenas com referência à construção lógica e interna dos seus sistemas psicológicos. apesar de todas as transformações recentes. e a biografia . ainda há um aspecto pouco explorado. 1994). & Majzler. 2010) e Skinner (Bjork. é preciso dizer que. 2012). 2014). 1989). no contexto da universidade estadunidense (White. marcadamente reconhecido por suas críticas ao individualismo que predominava nas teorias psicológicas estadunidenses e europeias.. sua função para a pesquisa teórica da história da psicologia. foi construída por meio de uma estrutura narrativa na qual preva­ lece a consagração excessiva. a seguir será apresentado um exemplo no qual a compreensão do desenvolvimento teórico e metodológico dos primórdios do sistema explicativo de Skinner foi ampliada com o recur­ so a fontes biográficas e autobiográficas. Pavlov (Todes. Watson (Buckley. Alguns exemplos são a análise biográfica da ex­ periência de enfrentamento da estrutura política e institucional da universi­ dade canadense pela primeira geração de psicólogas do Canadá (Gul et al. 2013). como an­ tes exposto.ainda em construção . o que chama atenção é que a biografia desse psicólogo. Amostras de um novo cenário de produção biográfica da psicologia são en­ contradas em biografias de nomes como Freud (Gay. seja no uso dessa fonte para a investigação histórica em psicologia. Além desses. seja na escrita biográfica da ciência. a produção de autobiografias de psicólogas e psicólogos negros.

segundo Monk (2001). 2013). a literatura tem mostrado possibilidades concretas de compatibilização entre biografia e pesquisa teórica por meio da construção de conexões históricas entre as singularidades da vida de determinados personagens e o desenvolvi­ mento de seus conceitos e teorias. que elementos biográficos não seriam mero pano de fundo. a narrativa biográfica seria oposta à narrativa teórica. Essa visão da biografia como uma espécie de pano de fundo necessário da pesquisa teórica da ciência não é a única na historiografia da ciência. Para ele. Contu­ do. tem ocupado lugar secundário por meio de alusões genéricas e lacônicas a determinados episódios de sua vida. ao avaliar o papel da biografia filosófica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 1987). uma vez que a primeira seria eminentemente des­ critiva. visto que para compreendermos um pensamento não precisaríamos compreender a vida de seu propositor. No entanto. nos estudos que apregoam que o desconhecimento desse cientista acerca da psicologia e suas relações pessoais. passíveis de serem desprezados.. enquanto a segunda explicativa. Contudo. Em outro trabalho (Cruz. Coleman. Os usos da biografia na pesquisa teórica da psicologia Monk (2001). contudo. argumentamos. a perspectiva de Monk (2001) serve de modelo inicial para pensarmos a inclusão da biografia na pesquisa teórica em psicologia. O objetivo aqui é in­ dicar como a biografia pode ser mais do que mera história secundária. Ademais. Exemplos da biografia nas análises teóricas e conceituais da obra de Skinner encontram- -se. pesquisa biográfica e pesquisa teórica seriam incompatí­ veis.g. mas que essas questões poderiam ser facilmente descartadas como partes de uma história que não precisaria compor aquelas análises (e. A biografia de Skinner sempre foi utilizada nas análises teóricas e conceituais da obra desse psicólogo. auxi­ liando efetivamente na elucidação de como elementos conceituais e teóricos de um sistema científico seriam compreendidos como resultados também de condições abstraídas de narrativas biográficas da ciência. acadêmicas e institu­ cionais explicariam parte das especificidades de sua proposta de ciência. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! 4. a princípio. especialmente. elucida o valor do gênero biográfico para a pesquisa teórica da história da psicologia.

sua vinculação ao Departamento de Fisiologia Geral e a William Crozier .surgiram também em função de condições que não se depreendem apenas da análise teórica e conceituai de sua ciência. limitado porque esses pesquisa­ dores dedicaram-se especialmente às investigações anatômicas. Magnus e Pavlov.posteriormente identificadas como partes essenciais da origem do principal conceito de sua ciência (o condicionamento operante) e de seu método de pesquisa (o delineamento experimental de sujeito único) . que davam explicações por meio de mediações físico-químicas de episódios típicos exis­ tentes na correlação estímulo-resposta de um reflexo. Skin­ ner delineia a história do conceito de reflexo desde o século XVII.aspectos identificados apenas em fontes biográ­ ficas e autobiográficas . A descrição das formulações teóricas e empíricas na tese de doutorado de Skinner . mas mostrariam determinantes da própria possibilidade de elaborações teóricas e conceituas singulares dessa ciência. Defendemos que narrativas biográficas e autobiográficas de Skinner não só explicitam o momento e o contexto de emergência dos primórdios da sua ciência. Por essa razão. o conceito de reflexo. uma resposta.suge­ re como o aparente desconhecimento e a negligência de Skinner em relação ao conhecimento psicológico. Skin­ ner (1931) não desprezou o avanço desse conceito nas pesquisas de fisio- logistas do final do século XIX e início do século XX. foi tradicionalmente ana­ lisado com base em fatos incapazes de fundamentá-lo cientificamente. todavia. inconsciente e inato. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! da história teórica e conceituai do projeto científico de Skinner. no artigo The Concept o f Reflex in the Description o f Behavior. Nela. Logo. com o pressuposto de que tal conceito estava fundamentado na demonstração ob­ servacional da repetida correlação entre a apresentação de um estímulo e um movimento discreto do organismo. mantinha uma de­ finição imprecisa do fenômeno devido a pressuposições teológicas e metafí­ sicas que o definiam como involuntário. como Sherrington. embora apresentasse progressos. Para ele. em maior ou menor medida. embora houvesse uma limitação inerente ao conceito de reflexo. A primeira parte da tese de doutorado de Skinner foi publicada em 1931. Tal avanço seria. o significado operacional do reflexo. havia investiga­ ções limitadas para interpretar aquilo que Skinner avaliou como positivo na INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . Mas.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

noção de reflexo: a possibilidade de descrição de sua natureza relacional e
sua aplicação à descrição do comportamento total de organismos intactos
(Sério, 1990; Skinner, 1931).

A insuficiência do conceito fisiológico de reflexo não fez com que Skinner o
descartasse. Pelo contrário, ele viu nesse conceito a possibilidade de trans­
posição para uma ciência do comportamento, pois a correlação estímulo-res­
posta, na sua perspectiva, independia de qualquer investigação fisiológica. A
descoberta e a definição dessa correlação no comportamento de organismos
intactos tornavam desnecessárias as pesquisas anatômicas, e colocava, pela
primeira vez, uma ciência do comportamento no mesmo patam ar da fisio­
logia. Mais do que isso, Skinner ambiciosamente supôs que os avanços de
uma ciência do comportamento dos organismos intactos levariam a fisiolo­
gia a ser dependente de uma ciência descritiva do comportamento e não o
contrário, como era presumido até aquele momento (Coleman, 1985; Sério,
1990; Skinner, 1931).

Skinner, então, desenvolveu uma variante do conceito de reflexo, trans­
pondo esse conceito para o centro de sua proposta de um a ciência que
tinha como propósito estudar o comportam ento voluntário de organismos
intactos. O utra singularidade do uso que Skinner fez do conceito de refle­
xo em sua proposta inicial de uma nova ciência do com portam ento é no­
tada na diferenciação estabelecida, também na prim eira parte de sua tese
de doutorado, entre leis “prim árias” ou “estáticas” e leis “secundárias” ou
“dinâm icas” do reflexo (Skinner, 1931, pp. 451-454). Essa diferenciação o
afastou tanto da fisiologia praticada em H arvard quanto da psicologia ex­
perim ental propagada por aquela instituição e desenvolvida em boa parte
dos Estados Unidos.

As leis “prim árias” ou “estáticas” representam quantitativamente a sujeição
de atributos da resposta reflexa, como latência e duração, a determinadas
propriedades do estímulo eliciador, por exemplo, a intensidade e a quan­
tidade de estimulação, respectivamente. Tais leis, indeléveis em uma visão
fisiológica do reflexo, foram percebidas por Skinner (1931) como prova da
natureza reflexa do comportamento. Porém, para ele, as relações estáticas
do reflexo seriam também subordinadas a outras variáveis que não o estímu-

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

lo eliciador. Essas “terceiras variáveis” seriam definidas pelo estado de um
organismo, quando submetido a alguma droga, por exemplo, pelo número
de eliciações de respostas, entre outras condições.

As leis “secundárias” ou dinâmicas do reflexo, por sua vez, representam
quantitativamente que a relação estática é necessariamente subordinada, em
nível operacional, a uma terceira variável específica: o número de reforços
responsáveis por determinar mudanças na força do reflexo, medidas pela
taxa de respostas de pressão à barra, no comportamento de organismos
intactos. Com essa definição, Skinner violava definitivamente o conceito tra­
dicional de reflexo, uma vez que destituía o valor dado ao estímulo eliciador
como principal variável de controle do comportamento, em favor do proces­
so resposta-estímulo reforçador e das mudanças na força do reflexo (Sério,
1990). Assim, embora Skinner tenha especificado a história do conceito de
reflexo como a evolução de técnicas capazes de descobrir um número cada
vez maior de comportamentos por meio da identificação de estímulos elicia-
dores, sua extensão do conceito foi determinada pela busca de leis dinâmi­
cas abstraídas das mudanças na força do reflexo, medidas, por sua vez, pela
taxa de respostas. Em suma, seu foco de análise, nesse caso, foi a resposta e
não o estímulo eliciador.

A violação da noção tradicional de reflexo torna-se ainda mais perceptível
quando observado que, em correspondência com o uso do conceito, o mé­
todo desenvolvido por Skinner, igualmente, infringiu regras canônicas das
pesquisas fisiológicas e psicológicas que investigavam o comportamento re­
flexo. Por exemplo, Coleman (1987) mostra que, diferentemente de algumas
de suas fontes de inspiração (como Watson, Pavlov, Sherrington e Magnus),
Skinner desenvolveu uma pesquisa com ênfase quantitativa, naquele mo­
mento voltada para a medição da taxa de respostas individuais. Essa ênfase
quantitativa das primeiras pesquisas skinnerianas poderia ser explicada pela
influência de Crozier e não dos autores que ajudaram Skinner com a defi­
nição inicial de reflexo. Porém, seu conhecimento acerca de métodos quan­
titativos era incipiente e, por mais que Crozier o tenha levado a procurar a
ordem quantitativa no comportamento dito “livre”, não é clara a semelhan­
ça entre a abordagem de Crozier e a abordagem inicial de Skinner. Como
sugere Coleman (1987), a afinidade entre os dois pesquisadores se deu, no

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

melhor dos casos, no apreço que tinham por uma espécie de quantificação
de menor significância matemática.

Em suas primeiras pesquisas no Departamento de Fisiologia, Skinner che­
gou a efetuar análises quantitativas com o uso de logaritmos. O motivo dis­
so foi seu contato com procedimentos quantitativos modelares da literatura
fisiológica, da qual se aproximou ao frequentar disciplinas desse Departa­
mento e conhecer as investigações de Crozier e seus alunos (Coleman, 1987;
Skinner, 1979). Entretanto, a adoção desse tipo de método quantitativo nas
pesquisas de Skinner foi parcial e temporária, pois ele não estava preocupa­
do com valores específicos, mas com a possibilidade de confirmação da re­
gularidade quantitativa do comportamento (Coleman, 1987; Skinner, 1956,
1979, 1984).

Como exposto anterior mente, no âmbito operacional, a descrição da regu­
laridade comportamental procurada por Skinner deu-se por meio da análise
do que ele designou, na parte experimental de sua tese, como as mudanças
na força do reflexo, medidas em uma pesquisa sobre a taxa de resposta de
ingestão de alimentos. Ele lembrou, no entanto, que o problema de usar essa
medida era que ela não compunha a lista de medidas de pesquisadores como
Sherrington e Magnus. Ademais, o método de pesquisa de Skinner - o deli­
neamento experimental de sujeito único - apresenta-se como incompatível
com aquilo que começa a se consagrar como indispensável na pesquisa em
psicologia experimental estadunidense a partir do início da década de 1930:
o uso de grupos de controle com grande número de sujeitos experimentais,
de teste de hipóteses e a análise dos dados por meio de estatística inferencial
(Rucei & Tweney, 1980).

O relativo desconhecimento e desprezo de Skinner pela psicologia da época
e sua vinculação ao Departam ento de Fisiologia e, em especial, a Crozier
exerceram papel fundamental em sua proposta científica. Nesse caso, in­
formações biográficas e autobiográficas indicam que mesmo inserido em
um D epartam ento de Fisiologia e incentivado a se orientar por interesses
individuais, Skinner manteve-se distante tanto da psicologia quanto da fi­
siologia, sem se considerar obrigado a seguir as regras da psicologia e da
fisiologia experimentais.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões!

Skínner afastou-se gradativamente do tipo de pesquisa realizada no Departamento de Fisiologia e. segurança e satisfação com os resultados de suas pesquisas tornaram-se mais frequentes. vale salientar que Skinner promulgou a defesa do conceito de reflexo como base de uma ciência do comportamento inserida em um De­ partam ento de Fisiologia. Na verdade. essas duas tendências passam. Não por acaso. pois apresenta também. que sua tese de doutorado apresentava vaga conexão com a psicologia praticada naquela instituição e com a psicologia experimental estadunidense como um todo. três décadas mais tarde. era presumível o surgimento de ques­ tionamentos e obstáculos.autêntico representante da tradição fisiológica Skinner (1931) conferiu primazia à ciência do comportamento em relação à ciência fisiológica. a partir de então. seus relatos autobio­ gráficos de sentimento de liberdade. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Os efeitos do desconhecimento de Skinner acerca da psicologia experimen­ tal de sua época e seu isolamento em Harvard foram assumidos por ele (Skinner. Isso pode ser esclarecido pela inexistência de um controle rígido de regras cien­ tíficas e pela liberdade oferecida por Crozier. o predomínio de biografias influenciadas pela história cultural das ciências. o jovem Skinner. a extinção das versões biográficas tradicionais dos grandes homens utili­ zadas principalmente na pedagogia científica e. Considerações finais A história da biografia científica reproduz a lógica mais ampla da história do gênero biográfico. que não havia sido submetido a nenhum processo de disciplinarização na psicologia. a partir da década de 1980. Desse modo. uma crescente diversidade de formas de narrar a vida. 5. contu­ do. apontou que suas inovações científicas eram fruto. 10) quando afirmou. autonomia. além de não saber ao certo o que Skinner pesquisava. de sua negligência acerca da produção científica da psicologia experimental. também não foi obrigado a se­ guir de forma estrita regras científicas da fisiologia. doravante. 1970. concomitantemente a esse afastamento. o qual. além de transgredir a noção de reflexo . em parte. a existir de modo concomitante e INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . incentivava a busca de interesses indi­ viduais. p. Com isso. Além disso. Isso não significou. ainda que fossem incompatíveis com as pesquisas realizadas por ele. visto que. Igualmente.

que forneceria sempre o pano de fundo da história de teorias e conceitos psicológicos. as transfor­ mações do gênero biográfico pouco têm impactado a história utilizada na formação em psicologia. já que a incorporação da biografia ao campo historio- gráfico da psicologia proveria a expansão da consciência histórica de seus praticantes. tornariam impraticável o eterno projeto da psicologia de ser reconhecida como ciência. Uma suposição ainda a ser desenvolvida sobre esse fenômeno é a de que as recorrentes tentativas da psicologia. vale pensar que o medo do gênero biográfico seria no míni­ mo contraprodutivo. em suas mais diversas vertentes. Na verdade. e mesmo a pesquisa histórica da psicologia ainda utiliza pouco os recursos da pesquisa biográfica. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! denotam um problema perene na historiografia da ciência: a distância entre a história da ciência ensinada e a história da ciência pesquisada. Por último. uma hipótese plausível é a de que historiadores da ciência. No caso específico da biografia científica. em se firmar como ciência pura diminuiu o investimento em análises críticas do papel da biografia em sua historiografia. a ideia de desinteresse e a noção de que a prática científica inde­ pende de controle social. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . como sua linguagem informal e seu apontamento de que vida e conhecimento são elementos entrelaçados. Razão para tanto seria que características inerentes ao gênero biográfico. como indicamos no caso dos usos da pesquisa biográfica na pesquisa teórico-conceitual dos primórdios da ciência skinneriana. a historiografia da psicologia. No âmbito de nosso interesse. têm construído uma visão sobre a vida na ciência mais próxim a de como essa funciona em seu cotidiano. Algo diferente da produção biográfica escrita pelos próprios cientistas. Obvia­ mente. ao voltarem sua atenção para o cotidiano da ciência e os fatores que envolvem a relação entre história de vida e contextos diversos de produção de conhecimento. como a consagração indi­ vidual. no qual são m antidos pressupostos morais e epistemológicos enraizados nos prim órdios da ciência m oderna. o desafio atual é horizontalizar a relação entre biografia e campos de investigação como a pesquisa teórica da psicologia. isso não significa a aceitação acrítica da narrativa biográfica como uma realidade inquestionável.

15. Freud: uma vida para nosso tempo. D enzin. B. Amado & M. K. O desafio biográfico: escrever uma vida. R. F. W. (2006). P. Coleman. (1996). Universidade Federal de Minas Gerais. (1987). Genius without the great man: new possibilities for the historian of psychology. Skinner: a life. 9. 183-191). W. 1926-1928: from literature to psycho­ logy. 10. Tese de Doutorado. (1989). Skinner’s early research program. History o f Psychology. R. G. Gay. Dosse. F. In J. Departamento de Psicologia. New York: Guilford Press. Brush. Cruz. (1993. Mechanical man: John Broadus Watson and the begin­ nings o f behaviorism. Bowker. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. The age of biography is upon us. The Behavior Analyst. N. M Ferreira (Eds.). Skinner e a vida científica: Uma história da organiza­ ção social da análise do comportamento. Skinner. São Paulo: Companhia das Letras. (2009). 1164-1172. S. 77-92. Coleman. G. R. 8. Usos e abusos da história oral (pp. N. (2013). P. A ilusão biográfica. F. Bourdieu. F. (2012). S. C. B. (1974). Belo Horizonte. São Paulo: Edusp. S. 1928-1931. Should the history of science be rated x? Science. B. (1989). Times Higher Education Supplement. 8. Buckley. CA: Sage Publications. 72-83. (1985). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 183. Quantitative order in B. (1989). Newbury Park. F. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Referências Ball. 47-65. New York: Sheridan Books. The Behavior Analyst. Interpretative biography. Bjork. January). D. L.

(2009). (2011).. Scientific biography: history of science by another means? Isis. Writing scientific biography. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. L. Monk. Belo Horizonte: Autêntica. 251-66. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.. In J. L. S. al. et.J.. Trad. T. Introduction. The life and work o f Sigmund Freud. R. Trad. Wittgenstein: biography and philosophy (pp. & Kendler. Rodkey. 91-94. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . 97. Canadian Psychology/Psychologie Canadienne. Klagge. PL: Jagiellonian University Press. Bazar. (2014). Scheibe. Washington. C. T. (1974). History o f Psychology.. W. Reconstructing the experiences of first generation women in Canadian psychology. A. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Gittings. Jo Nye. Kendler. 3-15). H. A woman’s struggle in academic psychology (1936-2001). 54. (2007). Jones. 11-24). Korosteliov. (2001). 6. Philosophical biography: the very idea. E.. (2006). C. A tensão essencial (R.). L.C. GB: Cambridge University Press. H. In The age o f authors. 727-759. (Trabalho original publicado em 1977. Gul. Pacheco. Krakow.). New York: Basic Books. (1978). Kuhn. E. C. Lopes.: University of Washington Press. (Ed. the age o f biography (pp. E.. 5. Uma arqueologia do pensamento de Wilhelm Wundt: por que a psicologia cientifica ainda não chegou ao século XIX? Psicologia em Pesquisa. 322-329. R. M. T. (1989). (2013). 94-104. Lisboa: Edições 70. Greene.. Mills. D. S. The nature o f biography. (2011). Capian. P.C.) Kusek. Ball. N.). S. O pequeno x: da biografia à história (F. (2003). M. Cambridge. R. 40. Loriga. Journal o f the History o f Biology.

(1956). History. Porter. An autobiography. J.. Brasil: uma biografia. (1980). Skinner. (2005). Um caso na história do método científico: do refle­ xo ao operante. história de um sistema de pensamento. (2007). Dews (Ed. Popkin. (1996). Psychological Bulletin. Skinner (pp. UK: Cambridge University Press. A. J. São Paulo. F. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Nigel. Jacques Lacan: esboço de uma vida. B. Bonjour monsieur Piaget: images d ’une vie: images o f a life. São Paulo: Companhia das Letras. H. Ratcliff. 77-87. Tese de Doutorado. Paris: Somogy editions d’art. Analysis of variance and the “second discipline” of scientific psychology. Chicago: The Uni­ versity of Chicago Press. M. Portillo. L. (2010). D. (1931). In P. The concept of the reflex in the description of beha­ vior. historians & autobiography.. 97. B. D. A case history in scientific method. Biography: a brief history. 166-184. 1-21). Roudinesco. The American Psychologist. (1994).. Skinner. São Paulo: Com­ panhia das Letras. N. B. M.). Journal o f General Psychology. 314-321. Yeo. 427-458. A. B. T. (1990). 11. 5.. 221-233. (2015). Sério. Rucci. & Starling. (2012). H. F. Skinner. Is the life of the scientist a scientific unit? Isis. 87. E. Skinner. Schwarcz. F. P. Festschrift for B.Century Crofts. 18. J.. Telling lives in science: essays on scientific biography. & Tweney. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. R. F. MA: Harvard Uni­ versity Press. Cambridge. (2006). New York: Appleton. Peace and Conflict: Journal o f Peace Psycho­ logy. Shortland M. M. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . (1970). T. The life of Ignacio Martin-Baro: a narrative account of a personal biographical journey. Cambridge. M.

L. Ivan Pavlov: a Russian life in science. 97. F.growth . (2009). 122. D. T. Isis. J. London: Lewis. (1979). Terrall. Aldershot. Vaughn-Blount. K. A. Rutherford. Journal o f Black Psychology. (2011). A. D. OXF: Ox­ ford University Press.). Oxford. & Majzler. What makes a dis­ tinguished black psychologist? An empirical analysis of eminence. Reading autobiography: a guide for interpre­ ting life narratives. R. White. A biography o f the eye: development . B.. & Watson. D. R. American Journal o f Psychology. New York: University Press. 37(2). (1984).. MN: University of Minnesota Press. M. B.age. demystified: becoming a psychologist-historian. HAM: Ashgate. No genre of history fell under more odium than that of biography: the delicate relations between scientific biography and the histo­ riography of science. 306-313. Biography as cultural history of science. (2014). The shaping o f behaviorist: part two o f an autobiogra­ phy. D. R. Smith. New York: Alfred A. 131-163. (1982). INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . & Johnson. Minneapolis. Soderqvist (Ed. (2007). Todes. Weale. Knopf. (2010).. In T. Skinner. 117-129.. A matter o f consequences. His­ tory’s mysteries. M. Williams. 241-262).. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Skinner. Baker. F. (2006). A. S.. Soderqvist. The history and poetics o f scien­ tific biography (pp.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .

E-mail: j.araujo@ufjf. E-mail: caedlopes@gmail. E-mail: saulo.com José Antônio Damásio Abib Psicólogo. E-mail: laurenticarol@gmail.com. E-mail: robsoncruz78@yahoo.br Robson Nascimento da Cruz Psicólogo.com Carolina Laurenti Psicóloga. doutor em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos e pro­ fessor do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá. doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos e professora do Departam ento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá.br INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! .edu. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Sobre os autores Carlos Eduardo Lopes Psicólogo.com. doutor em Filosofia pela Universidade de Campinas/Universitát Leipzig e professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de fuiz de Fora.abib@terra. doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo e professor apo­ sentado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos.br Saulo de Freitas Araújo Psicólogo. doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais e professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . em junho de 2016. pela gráfica Graphium.INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! Este livro foi composto Lyon e impresso em offset 90 g.

Esta obra traz uma discussão filosófica e metodológica da pesquisa teórica em psicologia. a pesquisa teórica. entendida como a investigação de teorias e conceitos psicológicos. e ainda é. tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação. alvo de inúmeras críticas.hogrefe. o que nos leva a um tipo específico de pesquisa. a saber. no reconhecimento da pesquisa teórica como uma forma legítima de produção de conhecimento psicológico. ISBN 978-85-85439-25-5 Hogrefe Publishing Group Göttingen • Berne . segundo as quais na psicologia existem métodos experimentais e confusão conceituai. a própria confusão conceituai em objeto de estudo. auxiliando. INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! O campo psicológico foi.Vienna ■Oxford Boston ■Paris • Amsterdam • Prague Florence • Copenhagen • StocKholm Helsinki • São Paulo www. então. Além de destacar as potencialidades e especificidades metodológicas desse tipo de investigação. É preciso transformar. o livro fornece material para o ensino de habilidades de pesquisa em psicologia.com INDEX BOOKS GROUPS: Perpetuando impressões! . com isso.