Morfologia do Português


Felício Wessling Margotti

Período

Florianópolis - 2008

Kelly Cristine Suzuki Responsável: Thiago Rocha Oliveira Adaptação do Projeto Gráfico: Laura Martins Rodrigues. Gustavo Freire Design Instrucional Responsável: Isabella Benfica Barbosa Designer Instrucional: Verônica Ribas Cúrcio . Thiago Rocha Oliveira Revisão: Laura Martins Rodrigues Diagramação: Laura Martins Rodrigues. Gabriela Dal Toé Fortuna. Bruno Nucci. Heberle Chefe do Departamento: Zilma Gesser Nunes Coordenadoras de Curso: Roberta Pires de Oliveira e Zilma Gesser Nunes Coordenador de Tutoria: Josias Ricardo Hack Coordenação Pedagógica: LANTEC/CED Coordenação de Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem: Hiperlab/CCE Comissão Editorial Tânia Regina Oliveira Ramos Izete Lehmkuhl Coelho Mary Elizabeth Cerutti Rizzati Equipe Coordenação Pedagógica Licenciaturas a Distância EaD/CED/UFSC Núcleo de Desenvolvimento de Materiais Produção Gráfica e Hipermídia Design Gráfico e Editorial: Ana Clara Miranda Gern. Rafael Queiroz. Lissa Capeleto Revisão gramatical: Christiane Souza. Marcela Danusa Goerll Figuras: Felipe Oliveira Gall.Governo Federal Presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva Ministro de Educação: Fernando Haddad Secretário de Ensino a Distância: Carlos Eduardo Bielschowky Coordenador Nacional da Universidade Aberta do Brasil: Celso Costa Universidade Federal de Santa Catarina Reitor: Alvaro Toubes Prata Vice-Reitor: Carlos Alberto Justo da Silva Secretário de Educação a Distância: Cícero Barbosa Pró-Reitora de Ensino de Graduação: Yara Maria Rauh Muller Departamento de Educação a Distância: Araci Hack Catapan Pró-Reitora de Pesquisa e Extensão: Débora Peres Menezes Pró-Reitor de Pós-Graduação: José Roberto O’Shea Pró-Reitor de Desenvolvimento Humano e Social: Luiz Henrique Vieira da Silva Pró-Reitor de Infra-Estrutura: João Batista Furtuoso Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Cláudio José Amante Centro de Ciências da Educação: Carlos Alberto Marques Curso de Licenciatura Letras-Português na Modalidade a Distância Diretora Unidade de Ensino: Viviane M.

Copyright © 2008. Universidade Federal de Santa Catarina/LLV/CCE/UFSC Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida. da Coordena- ção Acadêmica do Curso de Licenciatura em Letras-Português na Modalidade a Distância. Título. por qualquer meio eletrônico. I. Morfologia.90-5 Catalogação na fonte elaborada na DECTI da Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina. 3. Composição. por fotocópia e outros. Felício Wessling Morfologia do português / Felício Wessling Margotti. 2. sem a prévia autorização. por escrito. : 28cm ISBN 978-85-61482-06-0 1. — Florianópo- lis : LLV/CCE/UFSC. transmitida e gravada. CDU 806. Flexão. 156p. Ficha Catalográfica M329m Margotti . . 2008.

......................................................83 4.4 Verbos Irregulares ou Desvios do Padrão Geral.......................................................16 1..................................................95 4...................................................................................................................83 4..................3 Análise Mórfica – Princípios Básicos e Auxiliares...........................................................................98 ..........................................................................................................................................14 1.......... ....................11 1....................................................................................................................65 3.........1 Estrutura Verbal................................3 A Lógica dos Temas Verbais.............................61 3......... ....................3 Formas Livres.....23 2........................................63 3..........2 Palavra e Vocábulo...33 2................5 Flexão de Número........................51 Unidade B...............................................................59 3  Flexão Nominal...............................23 2..............4 Mudança Morfofonêmica.........................2 Classificação dos Morfemas..................................... 7 Unidade A................................................................................6 Estrutura Pronominal.........................................................................................61 3....................4 Flexão de Gênero.2 Padrão Geral de Flexão Verbal.................. Função.......................................5 Sincronia e Diacronia....................................................................77 4  Flexão Verbal..............................11 1.... Significado e Classe..........................................Sumário Apresentação........................1 Morfema......................................................73 3..................................................................................62 3................................. 9 1  Delimitação do Objeto de Estudo......................2 Estrutura Mórfica dos Nomes.........................................................................................3 Flexão e Grau........4 Forma.............45 2...........50 2.........................................................................................87 4........... Morfe e Alomorfe...1 Morfemas Flexionais (desinências)...............................................17 2  Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos.... Formas Presas e Formas Dependentes......................................1 O que é Morfologia......................................

...............................................1 Os Processos de Formação de Vocábulos........2 Revisando Conceitos............140 6......139 6....................1 A Classificação das Palavras de Acordo com a NGB..........142 Glossário.........................................................109 5..................................................2 Tipos de Derivação........................128 6  Classificação dos Vocábulos Formais.......................................................... 139 6..............3 A proposta de Mattoso Câmara Jr.......................Unidade C.....................................................107 5............. 155 ......................................................................................................................................................................................................... 107 5.......121 5..............................4 Outros Processos de Formação de Vocábulos....................................................... 149 Referências Bibliográficas................................................................................................3 Composição..................................... 105 5  Formação dos Vocábulos...

De antemão alertamos que a adoção de um modelo descritivo. mas. dogmático e inquestionável. um guia de estudos da mor- fologia do português. . temos a convicção de que outros modelos também apresentam restrições e não dão conta de todos os fatos. isto é. Formação de palavras (Cap. não está isenta de problemas. também. Conceitos básicos e princípios teóricos (Cap. Fle- xão nominal (Cap. Flexão verbal (Cap. mas. em linguagem acessível e complementados com outras referências e exercícios. num primeiro momento. sobretudo. identificando diferentes tipos de morfemas e sua distribui- ção. instrumentalizar (– Olha um neologismo aí!) o aluno a descrever a língua. a reflexão e o reforço de outros textos possibilitarão novos conhecimentos sobre a gramática da língua portuguesa. ancorada em exemplos diversos. mas. objetiva-se desenvolver uma reflexão crítica sobre a classifi- cação tradicional dos vocábulos. a leitura atenta das explicações. no final do curso. focalizando as palavras e suas estruturas. distinguindo os processos de flexão. o aluno esteja capacitado a utilizar os princípios de análise morfológica para descrever estruturas de palavras da língua portuguesa. V). I). IV). II). III). fizemos um esforço para que os tópicos fossem apresentados e ordenados de forma didática. A nossa expectativa é que. aluno de graduação em Letras. a saber: Delimitação do objeto de estudo (Cap. com in- formações sobre os mecanismos de flexão e sobre os processos de formação de palavras. Não se trata de ofe- recer um conhecimento pronto e acabado. de outro lado. composição e derivação. no que diz respeito à morfologia. VI). não temos a pretensão de esgotar todas as questões que fazem parte do programa da disciplina. cuja perspec- tiva é a análise sincrônica. certamente. depois. Espera-se. A idéia é. que seja capaz de reconhecer diferentes critérios utilizados na classi- ficação de palavras. tivemos a intenção de oferecer a você. Por fim.Apresentação Q uando elaboramos este texto. fazer o caminho da descrição dos vocábulos. Nesse sentido. Classificação dos vocábulos formais (Cap. Para que esse propósito fosse alcançado. Organizamos o material impresso em seis capítulos. familiarizar o aluno com o instrumental teórico adotado e com os conceitos para. as formas. seguindo de perto a orientação de Mattoso Câmara Jr. e as contribuições de José Lemos Monteiro.

e Morfologia Portuguesa. Para o melhor acompanhamento da disciplina. abrindo espaço para questionamentos e reflexões. de José Lemos Monteiro (esses livros devem estar disponíveis nas bibliotecas dos pólos). Em caso de dúvidas e necessidade de esclarecimentos adicionais. ou incompleta. faz-se necessário sempre confrontar os modelos aqui propostos com os modelos propostos pelas gramáticas escolares (também de- vem existir alguns exemplares nos pólos). Nós e os tutores da disciplina faremos o possível para atendê-lo da melhor forma possível. de Joaquim Mattoso Câmara Jr.Sobre cada um dos capítulos acima relacionados. pois em muitos aspectos os fatos podem ser descritos e explicados de forma conflitante.. Além disso. sugerimos que a leitura deste material impresso seja sempre subsidiada por consultas aos livros Estrutura da Língua Portuguesa. As ativi- dades obrigatórias serão previstas no plano de ensino da disciplina e as respec- tivas orientações serão fornecidas no Ambiente Virtual. entre em contato. Felício Wessling Margotti . foram previstas atividades com vistas a fixar os conhecimentos e a alcançar os objetivos da disciplina.

Unidade A Estruturas Morfológicas .

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Trata-se do nível morfológico. tomada como sinônimo de estrutura. encontram-se os elementos [morf(o)] e [logia]. até as unidades menores. 2002. morfologia é a parte da gramática que descreve a forma das palavras. va- mos adiantar que toda estrutura contém elementos relacionados. isto é. que. as palavras. Ao final do livro você encontra um glossário dos vras. morphé = ‘forma’ e logía = ‘estudo’. p. O mesmo ocorre com as palavras. saber de que se ocupa a morfologia implica saber o que se entende por forma. Também é parte desse mesmo nível de análise o estudo das unidades de sentido que compõem as pala. produzem um significado. Inicialmente.1 O que é Morfologia Entre os diferentes níveis de análise lingüística. Como se depreende das definições acima. como a botânica e a geologia. representadas concretamente pelas entradas le- xicais nos dicionários. que vão desde as unidades mais amplas do discurso. Essas unidades de sentido são com- binadas de um certo modo para exercer determinadas funções na estru- tura formal da qual fazem parte. Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo 01 1 Delimitação do Objeto de Estudo Para iniciar nosso estudo. 1). 1. as palavras são formadas por unidades menores que. p. como os sons e as sílabas. Nessa perspectiva. com- binadas. termos de morfologia uti- O termo morfologia foi inicialmente empregado nas ciências da na. Ou ainda: “morfologia é o estudo da estrutura interna das palavras” (Jensen. Segundo Nida (1970. como as frases e as partes que a com- põem. lizados nesse livro-texto! tureza. Na constituição do termo morfo- logia. 11). 11 . apud Monteiro. Em estudos lingüísticos. a morfologia pode ser definida como “o estudo dos morfemas e seus arranjos na formação das palavras”. do gr. Também vamos refle- tir sobre a relação que a morfologia tem com outras unidades da gramática. vamos delimitar as tarefas da morfologia e quais as unidades da língua que pretendemos descrever. há um nível intermediário que visa a estudar as unidades da língua que apresentam certa autonomia formal. cujas partes são os morfemas.

A morfologia. função e sentido são elementos solidários e interdependentes. Veja-se. Nos casos em que não há oposição de gênero. “face”. O gênero feminino às vezes é marcado pela desinência [-a]. por exemplo. que ocorre na posição final. nada existe para indicar que os mesmos pertencem ao gênero feminino. as unidades têm uma distribuição fixa: a unidade básica do sentido + vogal temática + desinência modo-temporal + de- sinência número-pessoal. No entanto. 12 . como: alternância de um segmento por outro. Temos exemplos de processos morfológicos por acréscimo em (1) e de alternância em (2). que as unidades que marcam o número (singular e plural) ocorrem sempre na posição final das pa- lavras. exercem funções no enunciado em que são empregadas.Unidade A . no entanto. aborda predominantemente os processos nos quais se acrescenta um segmento a outro(s) já existente(s) para mo- dificar o sentido. ausência (morfema zero). reduplicação. Em “casa”. pela alternância de vogais. 1) legal < i + legal < i + legal + idade plano > plano + s diretor < diretor + a estudar < estudar + re + mos 2) pude ≠ pôde avô ≠ avó fiz ≠ fez Os processos morfológicos são realizados de acordo com certas re- gras gramaticais. as formas femininas não são marcadas. isto é. cuja existência em separado só é possível no plano abstrato. Isso significa dizer que forma.Estruturas Morfológicas combinadas com outras palavras. portanto. subtração. Atenção: A oposição de gênero “avô”/“avó”. Nos verbos. os processos morfológicos podem ser de outros tipos. ou imediatamente antes do [-s]. é feita através de um traço supra-segmental. quando a palavra estiver no plural. entre outros vocábulos. “flor”.

todavia. ǿǿ A frase é formada por quantas palavras? ǿǿ Quais as palavras da frase que podem ser segmentadas em uni- dades de sentido menores? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de plural? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de gênero? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de tempo? ǿǿ Em que palavras há elementos marcadores de pessoa? ǿǿ Há palavras que não aceitam acréscimo de elementos e. equipamentos comunitários. por isso. ou no sintagma. isto é. a combinação com outros termos na frase. De outra parte. É possível que várias coisas ditas até aqui pareçam estranhas a você. analise a frase citada em (3) e reflita sobre os tópicos relacionados a seguir. É natural. ou de difícil compreensão. são classificadas como invariáveis? 13 . Por enquanto. também critérios sintáticos e semânticos. como. em que o vocábulo intransigir tem a função de substantivo. cabe também à morfolo- gia – apesar de não haver consenso sobre isso entre os especialistas – a classificação das palavras. Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo 01 Além dos processos que dizem respeito à formação de palavras e à flexão. depen- dendo da função e do sentido em que é empregada. uma vez que estamos apenas ini- ciando a reflexão sobre os temas de interesse dessa disciplina. A questão é que na classificação de palavras devem ser considerados. o que conta é a relação sintagmática. Isso porque nem sempre é possível classificar uma palavra examinando exclusivamente sua forma. lazer. levando em consideração o que já foi dito. convém lembrar que qualquer forma pode ser um substantivo. Nesse caso. que essas questões serão retomadas oportunamente com mais profundidade e detalhamento. por exemplo. educação. 3) Nós convocamos o encontro de amanhã para debater os temas re- lacionados às áreas de transporte. Lembra- mos. infra-estrutura. temas que abordaremos adiante. A forma canto pode ser um substantivo ou um verbo. além dos critérios formais de competência da morfologia. esporte e segurança nos municí- pios de Santa Catarina. “Não gosto do in- transigir”.

b) Segunda-feira é dia de maria-vai-com-as-outras. o espaço em branco entre as palavras é válido para identificar a maior parte delas. No entanto. não é tão simples caracterizar o que é uma palavra. d) Trouxe-o à força. a representação das palavras se faz pelo critério formal. conforme o contexto e o significado que a elas se atribui. quantas palavras existem? 4) a) Ouvia. o critério gráfico. 59). ouvíamos e ouviam são formas do verbo ouvir. o centro de interesse da morfologia é a palavra. na qual é possível distinguir vocábulos formais e vo- cábulos fonológicos. Se na escrita. ou a mais de um. 5) a) detergente / deter gente b) armarinho / ar marinho c) barganhar / bar ganhar d) contribuir / com tribo ir e) danoninho / dá no ninho f) habilidade / hábil idade 14 . deixando-se. parece ób- vio que. sozinha ou associada a outras. para os estudiosos da língua. o mesmo não se presta para identificar palavras na fala. ou ortográfico. Em enunciados como os de (4). ao contrário do que parece à primeira vista. Vejamos por quê. Deste modo. que. Mas. um espaço em branco. 2003. Vejamos alguns exemplos em (5).2 Palavra e Vocábulo Como vimos. em “Vi três crianças hoje”. pode constituir um enun- ciado” (PETTER. Na escrita. parece mais ou menos claro que “a palavra é identificada como uma unidade formal da linguagem. p. ao passo que em “Comprei livros interessantes” é uma seqüência formada por três palavras. entre elas.Unidade A . há quatro palavras. às vezes. ouvias. gera indecisão quanto à delimitação de palavras. Mas o que se entende por palavra? Para os usuários da língua.Estruturas Morfológicas 1. Certas seqüências de sons podem ser associadas a um só vocábulo formal. c) O Vice-Governador de Santa Catarina é sul-rio-grandense.

então. 1972) 6) a) paz sólida [pazólida] b) as asas azuis [azazazuis] c) bonde andando [bondeandando] d) as rosas amarelas [azrozazamarelas] Até aqui. fonologica- mente. Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo 01 Em um dos jornais de Santa Catarina. 12). Com base nessa distinção. o termo palavra costuma ser reservado somente para vocábulos que apresentam significação lexical. mas também e. vocábulos e palavras será mantida. Apesar das diferenças ci- nificado. principalmente. O vocábulo fonológico não só se distingue do vocábulo formal em razão da diferença de significado. ‘abertura’ que se faz necessário. cujo significado – que é meramente gramatical – só é possível perceber na relação com outros vocábulos. Há. a distinção entre 7) A janela de vidro. ao escrever uma nota sobre o cantor sambista Zeca Pagodinho. neste livro-texto. vocábulos. tadas no quadro-destaque seguinte.. certo colunista. São apenas instrumentos grama- ticais. Mas. pode ser interpretada com Zé Capadinho. registrou a forma Zeca Padinho que. ao contrário. como em (6). ou extralingüística. Nesses casos. sugerimos ler ção entre vocábulos na corrente da fala. Analisemos. entre outros. p. empregamos indistintamente palavra ou vocábulo para de- signar um conjunto ordenado de sons (fonemas) que expressam um sig. ocorre um deslocamento do acento tônico. O princípio adotado é o seguinte: “Toda palavra é vocábulo. Para obter maiores infor- do à ausência de pausa ou de marca fonológica que indique a delimita. 2002. tais como as preposições e conjunções. somente nos casos em Nesse caso. Língua Portuguesa (CAMA- RA JR. De de casas e vidro é o material de que é feita a ‘janela’. não se sabe se pro- positalmente ou não. a e de parecem vazios de significado. por exemplo. Ambos os termos modo geral. portanto. que perde. empregare- mos um termo pelo outro. mações sobre vocábulo fonológico. assim. embora tenham uma função na combi- nação apresentada em (7). em o capítulo VII – A acentua- geral. devi. as seqüências de sons expressadas em (7). constata-se que janela significa. estão associados e ambos expressam idéias. sua ção e o vocábulo fonológi- co – do livro A Estrutura da capacidade de distinguir e delimitar palavras. 15 . mas nem todo vocábulo é palavra” (MONTEIRO. que não são palavras.

controladas. nesse caso. diz-se que é forma presa. [s]. Como [s].de replantar.. expressam idéias. Esse “sentido”. [e]. p. [ez] e [a]) ǿǿ des-leal (2 formas livres = leal e desleal e 1 forma presa = [des]) ǿǿ des-lea-i-s (2 formas livres = leais e desleais e 4 formas presas = [des]. (como re.Estruturas Morfológicas 1. [lea]. Resumindo: Em juízes. Formas Presas e Formas Dependentes A identificação dos chamados vocábulos formais e a conseqüente diferenciação entre palavras e vocábulos leva à distinção estabelecida por Bloomfield entre formas livres e formas presas. a idéia de plural. Em contrapartida. Por isso. pú- ver. recriar etc. Resposta: “replantar”. CÂMA- RA JR. são consideradas palavras. especialmen- quê?” Resposta: “flores”). “Replantar o As formas livres aparecem sozinhas no discurso. [cert]. re. Considerando então o que foi dito sobre o vocábulo juízes e a seg- mentação das unidades de sentido dos demais vocábulos. isto é.3 Formas Livres. distinguem-se duas formas livres (juiz e juízes) e três formas presas [juize]. [ad]. ao passo que juiz é forma livre. 69-70)).Unidade A . não funciona sozinho. isoladamente como co- municação suficiente (ex. [con- trol]. vamos examinar os vocábulos formais em (8). São vocábulos formais que podem ser Formas presas: Só fun- cionam ligadas a outras pronunciados isoladamente e. blicas. as formas presas só têm valor (ou funcionam) quando combinadas com outras formas livres ou presas. Exemplos: juízes. descontrolada e descontroladas e 5 formas presas = [des].: 8) Juízes convocam servidoras públicas. [i] e [s]) ǿǿ des-control-ad-a-s (4 formas livres = controlada. [a] e [s]) 16 . convocam. só é atualizado na relação que a forma [s] tem com a forma [juíze]. O mesmo pode-se dizer sobre as formas [juíze] e [e]. o [s] é uma unidade formal que indica plural. 1979. mesmo assim. Formas Livres: Quando Para melhor compreender a diferença entre formas livres e formas constituem uma seqüên- cia que pode funcionar presas. servidoras. te como respostas a perguntas. Em juíze-s. (cf. “Que vão fazer?”. quantas for- mas livres e quantas formas presas existem em (8)? Outros exemplos: ǿǿ in-cert-ez-a (2 formas livres = incerteza e certeza e 4 formas presas = [in].

para (preposição) etc. II deste livro. por si só. um enunciado. 17) define a forma como “um ou mais fone- mas providos de significação”. são formas livres. que sob o aspecto semântico exprime a idéia de adição. o. a conjunção e é uma forma constituída por apenas um fonema. si. uma vez que ela é o centro das atenções da morfologia (literal- mente o estudo das formas. Servem de exemplo: em. 1. cujo segundo elemento acrescenta a noção de plural.1 Forma Macambira (1982. Observe a frase (9). mas sem status de palavras). mas não são palavras.4 Forma. pára (verbo) etc. Resumindo: os vocábulos formais podem ser formas livres (são vocá- bulos com status de palavras) ou formas dependentes (são vocábulos. representados por formas livres ou formas presas. quer (verbo). o adjetivo só é também uma forma constituída por um só morfe- ma. São. os vocábulos no (em + o). são formas dependentes. ao passo que sós contém duas formas – só e s –. quer (conjunção). preposições. que denota a idéia de solidão. vocábulos formais. 1. com. de. isto é. Para Mattoso Câmara Jr. 17 . cem. arma. algumas conjunções e pronomes oblíquos átonos) que não podem constituir. são sempre formadas por um único morfema (veja. Já vocábulos tônicos. certos vocábulos formais que não têm significa- do próprio. vocábulos átonos (artigos. vamos tentar entender um pouco melhor o conceito de forma. no caso. Nesse caso. por outro lado. Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo 01 Há. 9) No caderno com arame há três folhas de papel em branco. das formas lingüísticas). como já. o conceito de mor- fema). p. em não expressam idéias externas à língua. Função. As formas dependentes não se segmen- tam em outras unidades de sentido. Significado e Classe A seguir. (1972). caboclo. no Cap. se. portanto. ao passo que as formas livres são constituídas de um ou mais morfemas.4. te.

É preciso fazê-lo de acordo com cer- tos princípios. uma seqüência adequada. como vimos. um feixe de relações (articulação) que dá ao objeto casa sua realidade. pois. A noção de forma remete para a noção de estrutura das palavras. para não dizer impossível. as seqüências “s + a + bel”. Os artigos. a forma é um elemento lingüístico do qual se abstrai a fun- ção e o sentido. Também não são possíveis. como observa Saussure (1975 [1916]). por sua vez. Talvez seja mais fácil de entender o que é uma es- trutura lingüística através de um exemplo não lingüístico. com função e sentido na estrutura de que fazem parte. o segmento [alun] refere-se a um tipo de indivíduo que se coloca na condição de aprendiz em circunstâncias específicas. A gramática do português prevê que as desinências de número ocorram após as desinências de gênero (quando houver).Unidade A . pregos e outros materiais não são uma casa. “c” não constitui uma sílaba do português. no entanto. difícil é separá- las”. “livros + os” ou “os + alunas”. nem a idéia do som”. um feixe de relações internas (articulação) que dá aos elementos sua função e sentido. as substâncias lingüísticas passam a ser formas. “b”. tanto externo à língua (morfemas lexicais). cimento. devem ocorrer obrigatoriamente antes dos substantivos. “na língua não se pode isolar o som da idéia. mas. quanto interno (morfemas gramaticais). isto é. isto é. Para a gramá- tica da língua portuguesa. O mesmo se pode dizer em relação a elementos da língua. embora seja possível intercalar outros elementos entre o artigo e o substantivo (os [bons] livros). pois os fonemas não se articulam de acordo com padrões possíveis da língua. tem como foco de interesse a articula- ção das formas que se reportam ao significado. a seqüência “a”. A morfologia. BAC é. ao passo que os 18 . Do mesmo modo. certas regras gramaticais. conforme o mesmo Saussure. Só serão se a essas substâncias for atribuída uma estrutura. tábuas. Em “alun- a-s”. Por outro lado. Vejamos: tijolos.Estruturas Morfológicas A rigor. não é possível se- parar o sentido. Quando a combinação é feita de acordo com a gramática da língua. Isso significa que não basta agrupar aleatoriamente as substâncias da língua para que tenhamos uma estrutura. o artigo tende a concordar em gênero e número com o substantivo (a[s] aluna[s]). por exemplo. “as formas e as funções são solidárias e. e que essas ocorram após os morfemas lexicais (bel + a + s). Exem- plo: bac-té-ria.

só pode ser definida pela análise. não das coi- sas que existem independentemente da língua. [re] indica o tem- 19 . no Capí- tulo III. Devemos adiantar que a noção de gênero não se confunde com sexo. Em geral. o fonema contrai uma função em relação a outro fonema. Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo 01 segmentos [a] e [s]. Isto quer dizer que não há função fora do contexto frasal. Essa relação. função distinta do [re] femas derivacionais ou flexionais: [a] indica a primeira conjugação do colocado após a vogal temática [a]. 10) a) tom-a-re-mos b) professor-a-s c) in-feliz-mente Observe que em “re-tom- Os constituintes mórficos (morfemas) de tomaremos são 4: [tom] a-re-mos”. examinemos os exemplos dados em (10). Trataremos melhor disso oportunamente. após [alun]. verbo em oposição às segunda e terceira conjugações. ou seja. então. embora também se preste. objeto direto (do verbo).4. em sen- tido mais largo. uma sílaba contrai uma função em relação a outra sílaba. o [re] colocado no início do verbo tem representa o morfema básico ou raiz que se combina com outros mor. No entanto. é a relação que se estabelece entre dois elementos que se articulam. para fazer tal distinção. adjunto adnominal (de um nome) etc. não há função fora da estrutura. função é uma relação sintática em que um termo da ora- ção está subordinado a outro termo da oração. um vocábulo contrai uma função em relação a outro vocábulo etc. pois as noções de gênero (masculino e feminino) e as de número (singular e plural) fazem parte da gramática. um morfema contrai uma função em relação a outro morfema. 1. Para melhor entendermos a função dos componentes no nível mor- fológico da língua portuguesa. Função. no entanto.2 Função Função é o papel exercido por um dos componentes lingüísticos no conjunto em que há interdependência: sujeito (do verbo). eventualmente. não representam nenhum significado externo à língua.

como em belo. a diferença entre de (prep. ou para criação de novas formas . tais como prono- 20 . no caso dos vocábulos professoras e infelizmente. Veja-se: pedra. Lexical é o sentido básico que se repete em todos os membros de um paradigma. Sendo assim. entre outros. O português é rico em construções formais. belos. na função. que se concretiza na forma [bel] e cujo sentido pode ser mo- dificado pelos prefixos e sufixos. beldade. usa-se o crité- rio sintático para fazer a classificação dos vocábulos. Por exemplo. pedrada. no sentido que expressam. embelezar. deve- se buscar na relação das formas lingüísticas entre si. pedras.o que se chama flexão. [mos] indica a pessoa gramatical e o número.4 Classe As classes de palavras são constituídas com base nas formas que assumem. 1. pedrinhas. eventualmente. belamente. A classificação das palavras deve basear-se primariamente na for- ma. existem outras subcategorias. como o singular e o plural. isto é. a indicação da classe. beleza. Gramatical é o sentido que distingue os diversos membros de um paradigma. nas funções que exercem e. Toda- via. pedregulho.) e dê (verbo) só é possível verificar na relação sintática. o masculino e o feminino. Neste caso. as pessoas e os tempos verbais.Unidade A . embelezo.3 Sentido Dissemos antes que as formas se reportam ao sentido. quando é pronome. embelezas. Os verbos são os que apresentam maior riqueza.4. A forma ele pode ser pronome ou substantivo conforme a relação com outras formas. quanto interno (morfemas grama- ticais). belas. tanto ex- terno à língua (morfemas lexicais).Estruturas Morfológicas po e o modo do verbo (futuro do presente do indicativo) em oposição a outros tempos verbais. embelezamento.o que se chama derivação.4. embeleza. pedreira etc. bela. Quando as indicações formais não forem suficientes. nas oposições formais ou mórficas que a palavra pode assu- mir para certas categorias gramaticais . qual é a função dos constituintes (morfemas)? 1. pedrinha. isto é.

ainda. 12) Este canto me agrada muito. Delimitação do Objeto de Estudo Capítulo 01 me pessoal do caso reto ou pronome pessoal do caso oblíquo. do pronome. Essas di- ferentes funções são dadas pela posição que a forma ocupa no sintagma ou pela relação com outros termos. (pronome oblíquo tônico) Encontrei ele por acaso. a classifica- ção dos vocábulos pode. cabe também à morfologia a classificação das palavras. a classe da palavra canto só é possível pelo sentido. (pronome oblíquo átono) Como se observa. (pro- nome reto) Mande a ele algumas fotos nossas. Ele parece imitar as vozes do sertão. Além do critério morfológico e do critério sintático. Ele serve para destacar os móveis da sala. ǿǿ Além dos processos que dizem respeito à formação de pala- vras e à flexão. é possível estabele- cer os empregos do substantivo. No primeiro caso. 21 . Resumo do Capítulo ǿǿ Morfologia é a parte da gramática que descreve a forma das palavras. pode ser oblíquo tônico ou oblíquo átono. o critério sintático também é útil para determinar quais os empregos de cada classe gramatical. E se for pronome oblíquo. do verbo. Este canto me agrada muito. valer-se do critério semântico. do adjetivo etc. alternativo. isto é. do sentido. Em (12). Assim. ǿǿ A morfologia aborda predominantemente os processos nos quais se acrescenta um segmento a outro(s) já existente(s) – ou se substitui um elemento por outro – para modificar o sentido. no segundo. outros apresentam vários constituintes. o morfema é aditivo. Veja os diferentes empregos em (11): 11) A letra ele se parece com uma língua. (substantivo) Ele disse que as orelhas servem para ouvir vaias e aplausos. ǿǿ Os vocábulos divergem quanto à estrutura e quanto ao significa- do: alguns se constituem de um só elemento.

Petrópolis: Vozes. José Rebouças. formas dependentes são vocábulos formais que não podem. pois este costuma ser reservado somente para vocábulos que apresentam significação lexical. p. São Paulo: Pioneira. ou podem servir de resposta a uma pergunta. ǿǿ Forma. função e sentido são elementos lingüísticos solidários e interdependentes. 1979. o estudo e a descrição dos vocábulos. for- mas presas são partes dos vocábulos formais (morfemas) que só funcionam quando associadas a outras partes (outros mor- femas). 62-68.Unidade A . Petrópolis: Vozes. In: MACAMBIRA.. J. A Estrutura da língua portuguesa. p.. apesar de a morfologia centrar a atenção na forma. ǿǿ Formas livres são aquelas que podem existir sozinhas num enunciado. In: CÂMARA JR. não poderão ser feitos plenamente sem considerar os aspectos semânticos e os sintáticos. A estrutura morfo-sintática do português. assim como a classificação dos mesmos. 69-76. Mattoso. constituírem um enunciado. por si sós. Sendo assim. O Vocábulo Formal e a Análise Mórfica.Estruturas Morfológicas ǿǿ O vocábulo morfológico nem sempre coincide com o vocábulo fonológico. 15-28. 1979. O termo vocábulo tem sentido mais amplo do que o termo palavra. In: CÂMARA JR. J. A Estrutura da língua portuguesa. ELEMENTOS LINGÜÍSTICOS SOLIDÁRIOS E INTERDEPENDENTES FORMA: morfema flexão derivação composição FUNÇÃO: combinação subordinação SENTIDO: lexical gramatical Leia mais! A Acentuação e o Vocábulo Fonológico. 1982. Princípios Básicos. p. Mattoso. 22 . cuja separação só é possível no nível abs- trato.

23 . a morfologia estuda a for- ma ou a estrutura interna dos vocábulos.1 Morfema. nada signifi- cam. /i/. as combina- ções [mar]. representam noções distintas. com paciência e um pouco de esforço. Isso pode parecer um pouco cansativo. Morfe e Alomorfe Na descrição mórfica dos vocábulos. 2. /a/. De acordo com o que vimos até aqui. algumas definições de morfema citadas por Monteiro (2002. Diferentemente disso. mas diferem destes por apresentarem significado. formados por um ou mais fonemas. aos poucos você ficará familiarizado com eles e aprenderá a utilizá-los de modo eficiente na análise mórfica. São elas: a) Os morfemas são os elementos mínimos das emissões lingüís- ticas que contêm um significado individual (Hockett). Mas. quando pronunciados isoladamente. Como se pode perceber facilmente. Apresentamos. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 2 Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Neste capítulo. apresentaremos alguns princípios teóricos e metodológicos que darão sustentação ao modelo de descrição e análise dos vo- cábulos formais adotado neste manual. Os morfemas são. /r/. Além disso. [mais] constituem unidades mínimas de significado. morfe e alomorfe. os quais. vamos entrar em contato com um conjunto de conceitos comuns à morfologia. 13-14). pois são diversos conceitos novos. alguns dos quais talvez você nunca tenha ouvido falar. Conhecer esses conceitos e saber lidar com eles é condição necessária para alcançar os objetivos da disciplina. os fonemas. [ar]. A estrutura é constituída de unidades formais menores associadas e dotadas de significado que se denominam morfemas. /s/ etc. em princípio. a seguir. apesar da íntima relação de sentido. p. Exemplos: /m/. é útil distinguir os conceitos de morfema.

isto é.Unidade A . morfema é uma unidade abstrata de sentido. nascessem. nasçam etc. apresenta um morfe- ma básico ou nuclear que se realiza concretamente nos alomorfes [cab]. entre as formas aparentadas. por sua vez. [coub]. então. o morfema básico se realiza nos alomor- fes [vid] e [vit]. na prática. nasceram. [diss]. tem uma relação direta ou indireta com a significação (Dokulil). como em nascem. a) Alomorfia na raiz lei / legal → [le] ~ [leg] 24 . a alomorfia não é um fenômeno exclusivo do morfema básico. ocorre alomorfia. nasceriam. ou raiz. identidade de sentido. por exemplo. veremos que predomi- nam as formas que terminam em [m]. portanto. Conclui-se. [dig] e [di]. Mas. [caib]. digo e direi.Estruturas Morfológicas b) Um morfema é a unidade mínima no sistema de expressão que pode ser correlacionada diretamente com alguma parte do sis- tema do conteúdo (Gleason). que o morfema da terceira pessoa do plural desse verbo – isso vale também para a maioria dos verbos em português – é realizado concretamente através dos morfes [m] e [ão]. Todavia. por exemplo. no entanto. as diversas realizações de um único morfe- ma. Alomorfes são. representada por uma ou mais formas. nascerem. O verbo caber. Nesse caso. Em vida e vital. disse. nos quais se per- cebe facilmente a identidade semântica. d) Morfema é a menor parte indivisível da palavra que. ou seja. Apresentamos a seguir alguns tipos de alomorfia. temos a forma nascerão. Se considerarmos as formas verbais de terceira pessoa do plural do verbo nascer. quando há mais de um morfe para o mesmo morfema. um morfema pode apresentar variações formais. parece evidente que há em todas um mesmo morfema que se realiza nas formas [diz]. c) Os morfemas são as menores unidades significativas que po- dem constituir vocábulos ou partes de vocábulos (Nida). A realização concreta de um morfema se denomina morfe e. Assim. Rigorosamente. ou vários morfes. se observarmos os vocábulos dizer. a alomorfia ocorre na flexão. no futuro do pre- sente do indicativo.

f) Alomorfes na desinência verbal estudávamos / estudáveis → [va] ~ [ve] cantarás / cantaremos→ [ra] ~ [re] escreves / escreveste → [s] ~ [ste] 25 . Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 carvão / carbonífero → [carvã] ~ [carbon] cabelo / capilar → [cabel] ~ [capil] noite / noturno → [noit] ~ [not] ouro / áureo → [our] ~ [aur] b) Alomorfia no prefixo ilegal / infeliz → [i] ~ [in] aposto / adjunto → [a] ~ [ad] subaquático / soterrar → [sub] ~ [so] c) Alomorfia no sufixo durável / durabilidade → [vel] ~ [bil] cabrito / amorzito → [ito] ~ [zito] facílimo / elegantérrimo → [imo] ~ [érrimo] livrinho / pauzinho → [inho] ~ [zinho] d) Alomorfia na vogal temática corremos / corrido → [e] ~ [i] peão / peões → [o] ~ [e] menino / menina → [o] ~ [Ø] mar / mares → [Ø] ~ [e] e) Alomorfia na desinência nominal de gênero menino / avô → [Ø] ~ [ô] menina / avó → [a] ~ [ó] Obs.: No par avô ≠ avó. os traços distintivos [ô] e [ó] podem ser considerados alomorfes das desinências [Ø] (mascu- lino) e [a] feminino.

animarás. vi- nhataria. vinicultor. quase sempre é possível distinguir entre o morfe mais produtivo. ela é marcada pelo morfe [s]: cor- res. então. 26 . vinagre. vendeste. a adoção do conceito de alomorfia sim- plifica bastante a descrição mórfica. Por outro lado. Conclui-se. Na lista dos cognatos de vinho. Alguns autores consideram que apenas os morfes menos produti- vos. considerado um desvio da norma. na perspectiva diacrônica. verifica-se que a forma anterior mudou para [vin-].Estruturas Morfológicas falo / estou → [o] ~ [ou] ledes / cortais → [des] ~ [is] Como você pode perceber. ou seja. no entanto. p. vinháceo. fugiste. animaste. vinhoto. Às vezes. como tal. 32). a for- ma que se considera mais produtiva pode ser a mais nova. no entanto. alomorfes. no entanto. que [vinh] e [vin] são variações mórficas de um mesmo morfema. são considerados alomor- fes. resolvendo grande parte dos pro- blemas encontrados na segmentação dos vocábulos em suas unidades mínimas significativas. que representa a norma. e. vinhaça.Unidade A . classificados como desvios da norma. Como exemplo. digitares. “em determinados am- bientes. nos quais a raiz é [vinh]. Como já foi dito. vinífero. en- contraremos os vocábulos vinhateiro. isto é. 2002. pode ser interpretada como desvio de uma norma anterior. pode apresentar dificuldades de apli- cação. caracterizando-se. digitaste. pois nem sempre é possível saber de pronto qual é a forma mais produtiva. a segunda pessoa do singular é marcada pela desinência [ste]. No pretérito perfeito do indicativo. Nos casos de alomorfia. mais freqüente. vinhaço. Essa posição. do morfe menos produtivo. fugisses. todo morfema apresenta uma forma e um significado. Na maioria dos tempos verbais. pois. vestias. tomemos a desinência de segunda pessoa do singular dos ver- bos. como um desvio da norma. Mas em vinícola. vendes etc. como é o caso de [vinh] e [vin]. ocorrem variações na forma sem que o morfema deixe de ser o mesmo” (Monteiro. como em correste. vestiste. conservando o mesmo significado.

pátria? Você deve ter notado que os exemplos fornecidos até aqui indi- cam que o morfema sempre se realiza através de uma forma con- creta. Será válido dizer. Vamos ver como isso é possível? 2. No paradigma flexional dos verbos ser e ir existem raízes dos verbos. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 Na prática. Será que é válido dizer que os morfes [s]. no entanto.1. principalmente quando as formas não se parecem aparentadas ou semelhantes fonologicamente. símbolo [Ø]. padastro. padre. heterônimas. mas isso nem sempre acontece. patrão. que o primeiro componente de datilografia é alomorfe do primeiro componente de dedo? E o que dizer da raiz de pai. Não existir Formalmente representa- um morfe não significa que não exista morfema. Em princípio. não há razão que impeça um morfema de ter alomorfes amplamente divergentes. a aplicação do conceito de alomorfia nem sempre é tran- qüilo. temos que considerar aquelas em que o morfema se realiza por meio da ausência de morfe. diz-se que o morfema é zero. paterno. Vejamos alguns exemplos. O ideal seria que houves- se um único morfe para cada morfema. distinguir formas heterônimas de formas desvios do padrão geral sinônimas. Além das situações em que existem mais de um morfe para um único morfema – processos de alomorfia –. era. pátrio. Veremos isso mais adian- te. [er] e [fo] são alomorfes de um mesmo morfema? Parece que sim. quando tratarmos dos É preciso. Em se tratando de raízes sinônimas. desde que se considere que as formas divergentes listadas sejam componentes do mesmo paradigma verbal. por exemplo. que denominamos de morfe? Pois bem. 27 . às vezes o morfema se realiza mesmo sem a existência de um morfe.1 Morfema Zero Já vimos que o morfema é uma entidade abstrata que se concretiza. Quando a ausência se o morfema zero com o do morfe corresponde a um significado. Tomemos as formas verbais sou. foste do paradigma flexional do verbo ser. na estrutura de uma palavra. o caso é mais delicado. que podem ser consideradas formas alomórficas. através do morfe.

caneta + Ø ≠ caneta + s gramado + Ø ≠ gramado + s greve + Ø ≠ greve + s garagem + Ø ≠ garagen + s c) Nas formas verbais são freqüentes as oposições entre formas não marcadas e formas marcadas. e o singular pela ausência signifi- cativa de um morfe. Vejamos. por exemplo. alguns verbos derivados de flor. o sufixo pode ser interpretado como zero. pelo morfema zero. português + Ø ≠ português + a professor + Ø ≠ professor + a guri + Ø ≠ guri + a juiz + Ø ≠ juíz + a espanhol + Ø ≠ espanhol + a b) O plural é marcado pelo [s].Unidade A . o morfema zero. ou seja.Estruturas Morfológicas a) A oposição de gênero se faz através de formas marcadas para o feminino pela desinência [a] e de formas não marcadas para o masculino. flor + esc + e + r flor + ej + a + r flor + isc + a + r flor + e + a + r 28 . (nós) estud + a + re + mos (ele) estud + a + rá + Ø (tu) estud + a + Ø + s (ele) estud + a + Ø + Ø d) Também nas formas derivadas. ou seja. O que caracteriza o masculino é a ausência de qualquer marca.

les. A evolução deu-se da seguinte forma: ĭllu > elo > lo > o. sejam elas flexionadas. Veja outros exemplos: chuva → chov + Ø + er data → dat + Ø + ar marca → marc + Ø + ar capim → capin + Ø + ar e) Embora a raiz seja considerada o morfema básico (nuclear) que dá sustentação a todas as demais formas da mesma famí- lia. diferentemente de florescer. floriscar e flo- rear. ĭlla. le. derivadas ou compostas. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 flor + Ø + i + r flor + Ø + a + r Observe-se que. a alternativa estru- turalmente adequada é considerar que o morfema derivacional é zero. el. ĭllas. los. também é possível afirmar que há vocábulos em que a raiz é representada por um morfema zero. ĭlla > ela > la > a. os verbos florir e florar não contêm um morfe derivacional. Em outras línguas neolatinas. las etc. Nesse caso. Em português. Ø+o+Ø+Ø=o Ø + o + Ø + s = os Ø+Ø+a+Ø=a Ø + Ø + a + s = as Convém lembrar que historicamente o artigo definido em portu- guês é resultado de mudanças sofridas pelos pronomes latino ĭllu. ĭllas > elas > las > as. ĭllos > elos > los > os. a raiz se manteve em formas como: il. florejar. ĭllos. mas claramente são formas derivadas de flor. o artigo definido e o pro- nome oblíquo átono [o] servem de exemplo. 29 .

canta(ria). a desinência [ste]. como: cantasse(Ø). Em razão disso. canta(r)mos etc. não há um morfe que represente o tempo e o modo. É o caso das desinên- cias modo-temporais.Estruturas Morfológicas 2. No artigo. Por isso. que simultaneamente contêm as noções de tempo e modo. como: canta(va).Unidade A . Em artista. Como podemos observar. no caso da desinên- cia número-pessoal [mos]. o [a] final acumularia as funções de vogal temática e desinência? 30 . Na forma verbal olhaste. da vogal temática e da desinência número- pessoal. teríamos que admitir. pode-se atribuir ao segmento [ste] a função de representar cumulativamente as noções de pessoa e número e de tempo e modo (o mesmo vale para o segmento [stes] da segunda pessoa do plural). a segmentação possível é a seguinte: olh + a + Ø + ste. Utilizando esse conceito. Em vista disso. a desinência [sse] indica que o verbo está no tempo imperfeito do modo subjunti- vo. que em famoso a vo- gal final [o] acumula as funções de vogal temática e desinência de gê- nero. que representa a pessoa e o número. opondo-se. vogal temática e desinência de gênero seriam representadas pelo mesmo fonema. cantasse(m). Por outro lado. opõe-se a outros tempos verbais. temos os morfes representativos da raiz (ou radical primário).1. Nas formas verbais do português há morfes que representam a fusão de dois morfemas. O mesmo aconteceria em relação à vogal [e] na palavra face. por exemplo. espera-se que a um morfe corresponda um signifi- cado. Ainda em cantá+sse+mos. esses morfes são denominados cumulativos. razão por que esse morfema é zero.2 Morfes Cumulativos Em princípio. Observe que. Concretamente. a outras formas do singular ou mesmo do plural. Em cantá+sse+mos. não é possível dizer que o [s] indica plural e [mo] indica primeira pessoa. Considerar a possível existência de morfes zeros na estrutura dos vocábulos evita o uso ampliado do conceito de cumulação. canta(ra). portanto. No entanto. nem sempre é isso que acontece. cantasse(is). só ocorre nes- se tempo verbal. que simultaneamente con- têm as noções de número e pessoa. a desinência [mos] indica primeira pessoa plural. cantasse(s). e das desinências número-pessoais. diríamos que raiz.

a terceira pessoa do plural é em geral formada pelo acréscimo de [m] também à direita. Vocábulos novos podem ser formados pelo acréscimo de prefixos ou de sufixos. o morfema se realiza predominantemente pelo acréscimo de um segmento fônico. por meio de um morfe aditivo. o plural dos nomes é formado pela adjunção de um [s] à direita. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 2. Assim.1. conforme se verifica nos exemplos listados a seguir. isto é. Mas também há casos em que a oposição morfológica se faz pela permuta de dois fones.3 Morfes Alternantes Em português. consonantal ou supra-segmental (acentuais ou prosódicos). a) alternância vocálica firo ≠ feres sinto ≠ sentes tudo ≠ todo bebo ≠ bebes famoso ≠ famosa porco ≠ porca b) alternância consonantal digo ≠ dizes ouço ≠ ouves 31 . como se pode verificar nos seguintes exemplos: avô ≠ avó pus ≠ pôs fiz ≠ fez pude ≠ pôde tive ≠ teve fui ≠ foi Os morfes alternantes podem ser de natureza vocálica.

Estruturas Morfológicas peço ≠ pedes trago ≠ trazes c) alternância acentual (suprasegmental) retífica ≠ retifica exército ≠ exercito 2. O mesmo ocorre em algumas formas verbais como: ouço ≠ ouves. Sem essa al- ternância. famoso ≠ famosa.) e a segunda pessoa do singular nos verbos ((tu) escreves.1. os morfes alternantes são redundantes ou submorfêmicos. submorfêmico.). casa. pois reforçam uma oposição marcada por morfes aditivos. Os exem- plos citados em (13) fazem parte desta regra. nas quais a oposição entre a primeira e a segunda pessoas do singular se faz prioritariamente pelo acréscimo dos morfes [o] ≠ [s]. trago ≠ trazes. entre outros.5 Morfes Homônimos É comum um mesmo segmento representar diferentes morfe- mas. vogal temática [-a] e desinência de segunda pessoa do singular [-s]. desinência de gênero feminino [-a] e desinência de plural [-s]. teríamos: *ouvo ≠ ouves. Já em (as) am-a-s. A alternância na raiz constitui um morfe redundante e.). no entanto. andamos. cachorros. a oposição de gênero se faz pela adição da desi- nência [a]. esperta. A alternância na raiz reforça a oposição.4 Morfes Redundantes Quando a alternância é o único traço de oposição entre duas for- mas. Por exemplo. pode indicar o plural nos nomes (alicates. por exemplo. porco ≠ porca. 2. diz-se que se trata de um mecanismo de flexão interna. Em (tu) am-a-s. enviarias. temos: raiz [am-]. belos etc. planta. Em geral. mala etc. O [s]. anda. temos: raiz [am-].) ou a vogal temática de nomes e de verbos (andar. A vogal [a]. pode indicar o gênero feminino (moça. por sua vez. por isso. vadia etc. em poço ≠ poços. Também em sogro ≠ sogra. já marcada pelo verdadeiro morfema contrastivo [s]. 32 . vês.Unidade A . escutasses etc. *trazo ≠ trazes. gaiteiros. a alternância de /ô/ fechado para /ó/ aberto apenas reforça a oposição entre singular e plural.1. professora.

portanto. É por isso. ou pulo de pulir. por exemplo. Pelo exposto. ou remo de remir. ou seja. os termos des- tacados são fonicamente iguais. mas diferença quanto ao sentido. (o) canto (da sala) e (eu) canto (verbo cantar). são homônimos. 2. tam- bém denominado morfema básico ou nuclear. fazendo-se necessário recorrer ao plano sintático para esclarecer a ambigüidade.2 Classificação dos Morfemas Em princípio. Novamente. convém distinguir os casos de homonímia gramati- cal (morfes fonologicamente iguais) da homonímia lexical (vocábulos fonologicamente iguais). que existe homonímia sempre que houver coincidência de formas. vamos ler tudo outra vez com bastante atenção. é hora de você se inteirar das diversas classes de morfemas e das respectivas regras de orde- namento. Cumprida essa etapa. Levando em conta as explicações sobre homonímia. correlacionando os conceitos com os exemplos dados e com outros existentes na língua. morfe e alomor- fe? Também está clara a diferença entre diferentes tipos de morfes? Se não. Havendo homonímia lexical. que não existe cão correspondente ao singular de cãs. mas corres- pondem a significados diferentes. ou falo do verbo falir. todo vocábulo contém um morfema primitivo. ao qual podem se agregar 33 . identificando outros exemplos existentes no português. Em (o) canto (musical). Quando o contexto é incapaz de desfazer a ambigüidade. “sadio” ou verbo “ser” (terceira pessoa do plural). A forma são pode significar “santo”. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 Conclui-se. a tendência da língua é eliminar uma das formas. convém ler com bastante atenção. quais são os morfes homônimos nos exemplos a seguir? ǿǿ (o) canto ≠ (eu) canto ǿǿ terrestre ≠ terrível ǿǿ vivemos ≠ amemos ǿǿ vivamos ≠ amamos Será que você entendeu a diferença entre morfema. a oposição das formas deixa de ser feita com base no plano morfológico.

Unidade A - Estruturas Morfológicas

outros morfemas. Apresentamos a seguir uma classificação dos morfe-
mas que leva em conta a ordem de ocorrência, a função e o sentido.

2.2.1 Raiz

Raiz (R) é o “elemento irredutível comum a todos os vocábulos da
mesma família” (Saussure, 1975, p. 216). Equivale a semantema de Ven-
dryes, ou lexema de André Martinet. Trata-se do morfema sobre o qual
repousa a significação lexical básica. Também é conhecido por radical
primário, ou forma primitiva. Em cortin-a-s, por exemplo, existem
três morfemas: raiz, vogal temática, desinência de número.

Para melhor entender o conceito de raiz, analisemos os seguintes
conjuntos:
1) terra, terreno, terrestre, aterrar, aterrissagem, aterramento
2) mar, maré, marinho, marinha, marujo, marinheiro, maresia,
submarino, marola, marítimo, marisco

Em (1), o elemento comum é terr-, razão por que todos os vocá-
bulos são aparentados, formando um conjunto de cognatos. Já em (2), o
elemento comum é mar. Como se vê, não há nenhuma relação de for-
ma e de significado entre os conjuntos (1) e (2), pois ambos se opõem:
[terr-] ≠ [mar].

Por outro lado, a coincidência de forma não significa coincidência
de significado. Vejamos o conjunto a seguir:

3) terror, terrível, aterrorizar... terrífico

Em (3), o morfema básico (raiz) também é [terr-], mas não é o
mesmo morfema do conjunto (1), pois não há entre os dois qualquer
vínculo de significação.

Analisemos, todavia, os seguintes conjuntos:
4) amor, amar, amável, amoroso, amizade, desamor, amigo... amante

5) inimigo, inimizade... inimizar

Nos conjuntos (4) e (5), há divergências quanto à forma, mas equi-
valência de significado, de tal modo que [am-] e [im-] são alomorfes de
um mesmo morfema.

34

Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02
Conclui-se, portanto, que o significado é essencial no conceito de
raiz, pois a alteração na forma não cria nova raiz. Isso não quer dizer,
todavia, que é desnecessário o vínculo formal para a caracterização
da mesma raiz. A associação semântica existente entre, por exem-
plo, casa, moradia, apartamento, alojamento, cabana, vivenda,
chalé, entre outros, formando uma série de sinônimos, não é uma
série de cognatos, pois inexiste entre esses vocábulos qualquer rela-
ção mórfica (Monteiro, 2002, p, 44).

Para fixar a noção de raiz como “elemento irredutível e comum a todos
os vocábulos de uma mesma família”, destacamos os seguintes pontos:

ǿǿ A raiz é a parte de onde origina-se a primeira operação mor-
fológica.

ǿǿ A raiz é, em geral, uma forma presa, portadora de significação
nuclear.

ǿǿ A raiz apresenta forma e significado, podendo agregar elemen-
tos diversos para a flexão e formação de cognatos.

ǿǿ A raiz é irredutível, mas a forma pode sofrer variações em ou-
tros vocábulos (processo de alomorfia).

Considerando o exposto acima, a identificação da raiz de camiso-
linhas se faz através das seguintes segmentações:

a) camisolinha – s

b) camisolinh – a – s

c) camisol – inh – a – s

d) camis – ol – inh – a – s

2.2.2 Radical

O radical (Rd) de uma palavra inclui a raiz e os elementos afixais que
entram na formação dos vocábulos. Assim, a série mar, marinho, mari-
nheiro, marinheiresco apresenta, respectivamente, os seguintes radicais:

35

Unidade A - Estruturas Morfológicas

ǿǿ [mar] → radical de primeiro grau (= raiz)

ǿǿ [marinh] → radical de segundo grau

ǿǿ [marinheir] → radical de terceiro grau

ǿǿ [marinheiresc] → radical de quarto grau

Na perspectiva sincrônica, a raiz (R) coincide com o radical (Rd)
primário.

Na descrição lingüística, é necessário desprezar especulações de ordem
etimológica ou histórica, pois consideramos, de acordo com Saussure
(1975), que todas as partes devem ser consideradas em sua solidarie-
dade sincrônica. A descrição dos elementos mórficos deve-se pautar
na gramática internalizada dos falantes de uma língua, não em infor-
mações de ordem externa. Voltaremos a tratar disso mais adiante.

Tratando-se, no entanto, de palavra derivada, o radical é diferente
da raiz. Infere-se daí a possibilidade de uma palavra ter vários radicais,
como é demonstrado através do seguinte exemplo:

a) nacion- (radical de primeiro grau ou raiz)

b) nacional (radical de segundo grau)

c) nacionaliz- (radical de terceiro grau)

d) desnacionaliza- (radical de quarto grau)

e) desnacionalizaçã- (radical de quinto grau)

Convém salientar que o verdadeiro radical de uma palavra é sem-
pre o de grau mais elevado, que inclui todos os demais. “Essa orientação,
além de simplificar o estudo descritivo da estrutura dos vocábulos, traz
a vantagem de estabelecer uma espécie de oposição binária raiz x radical
na formação vocabular, aclarando a delicada questão dos constituintes
imediatos” (Monteiro, 2002, p. 46). Apesar de nos vocábulos primitivos
haver coincidência entre ambos, o que deve ficar claro é que raiz e radi-
cal são conceitos bem distintos.

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Os temas nominais predominantes em português são os seguintes: a) Temas em /a/: conversa. descobrir. são atemáticos. verão. amanhã. caráter. Às vezes. falar. os verbais. depois de transformar-se em /i/. as for- mas no singular devem ser interpretadas teoricamente como *cônsule. geada. alma. Às vezes. Nesses casos. mestre.2. Exemplo: *ani- male > animales > animaes > animais. raiz e radical se confundem. uma ressalva a fazer em relação aos que terminam com as consoantes /l/. café. Há casos em que a vogal temá- tica. ser analisado como tendo apenas dois morfes: [fuzi]s]. Em razão disso. vocábulos como bambu. /s/. podem apresentar vogais temáticas tônicas. maracu- já. Em português. sofre crase com a vogal do radical. alicate. mares e rapazes. Pelo exposto. ingleses. inglês. terminados em vogal tônica ou consoante. anoitecer. *mare e *rapaze. Os temas verbais também distribuem os verbos em três grupos: a) Temas em /a/: emoldurar. mar e rapaz. Em geral. cipó. são atemáticos os nomes que têm na posição final uma vogal tônica ou uma consoante. a vogal temática [e] transforma-se em [i] no plural em razão de processos morfofonêmicos. a vogal temática apa- rece no plural: cônsules. passear. lençol. que se denomina vogal temática. como em: *fuzile > fuziles > fuzies > fuziis > fuzis. o radical (primário ou derivado) vem acompanhado de uma vogal átona. 37 . c) Temas em /e/: alface. cartaz. b) Temas em /e/: ceder. repolho. /r/ e /z/. os que não contêm vogal temática são atemáti- cos. b) Temas em /o/: certo. agressor. garrafa. os temas se classificam em nominais e verbais. convés. cavalo. Os temas nominais sempre terminam em vogal átona. esculpir. esconder. campestre. portanto. tais como cônsul. Esse conjunto formado por radical e vogal temática constitui o tema. Os vocábulos com vogal temática são temáticos. afoito. Há. abacaxi. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 2. O vocábulo fuzis deve. nos vocábulos primitivos.3 Vogal Temática e Tema Vimos que. *inglese. c) Temas em /i/: corrigir. feliz. no entan- to. no entanto.

� O radical é formado pela raiz e morfemas derivacionais (prefi- xos e sufixos).Estruturas Morfológicas É oportuno ressaltar que nos processos de flexão. � Entre os elementos que formam o radical. se houver. Exemplos: a) alegremente b) mãezinha c) ervateiro d) legalidade (de *legale) O mesmo princípio se aplica aos nomes derivados de verbos. derivação e compo- sição. sofre elisão ou crase. em contato com elementos mórficos iniciados por vogal. passando a ocupar uma posição pré-sufixal. 38 . � A vogal temática ocorre em posição final ou pré-desinencial. Exemplos: a) louvar → louvável b) punir → punível c) perdoar → imperdoável Resumindo as informações sobre radical e temática. a vogal de ligação é pré-sufixal. Exemplos: a) casa + ebre = casaebre → casebre b) pedra + ada = pedraada → pedrada c) menino + a = meninoa → menina d) forte + íssimo = forteíssimo → fortíssimo e) *finale + íssimo = finaleíssimo → finalíssimo Quando a vogal temática se mantiver após o acréscimo de sufixos de- rivacionais. deixa de ser vogal temática e passa a funcionar como vogal de ligação (ou infixo). José Lemos Monteiro (2002. às vezes aparecem morfes vazios.Unidade A . 51-52) lista as seguintes noções básicas: � O tema é a parte da palavra que se opõe à flexão. a vogal temática. p. � O tema desprovido da vogal temática é o radical.

Veja outros exemplos a seguir: a) norma + al → normal b) normal + izar → normalizar c) normalizar + ação → normalização d) normal + mente → normalmente e) a + normal → anormal f) normal + idade → normalidade g) a + normalidade → anormalidade A) Prefixos Os prefixos. in-capaz. 39 .4 Morfema Derivacional São considerados morfemas derivacionais os afixos. de modo que uma palavra derivada se forma pelo acréscimo de um prefixo. de capaz. modificando o significado do vocábulo primitivo. que. Exemplos: [in] + capaz. de mole. através dos quais é possível criar (derivar) vocábulos novos. de cerveja é possível formar cervej-ada. ao contrário. farr-ista.2. morfemas derivacionais que ocupam posição anterior à raiz. e o que resta é. por sua vez. a uma forma livre já existente. A palavra vergonhosa-mente deriva de vergonh-oso. in-fiel. ou de um sufixo.. deriva de vergonha. uma forma livre. apresentam as seguintes características: a) Destacam-se facilmente da forma primitiva. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 2. cervej-eiro etc. de farra. Normalmente a derivação se faz pela adição individual de prefixos e sufixos. Os morfemas derivacionais e os categóricos são sempre formas pre- sas que se combinam com o semantema. Os prefixos são morfes aditivos que precedem a raiz e. em geral. [dês] + confian- ça. incapac-idade. os sufixos são morfes aditi- vos que sucedem a raiz. Assim. de fiel. cervej-aria. Dito de outra forma: são morfes agregados a uma base que constitui a entidade léxica. de incapaz. mol-ejo. [in] + [dis] + posto.

Servem de exemplo: objeto. e) Em geral. que muitos vocábulos formados historicamente por prefixação devem hoje ser consideradas como primitivos. d) Comumente se agregam a verbos e a adjetivos. essas formas corres- pondem a construções braquiológicas. como gê- nero. nos quais a derivação se faz pelo acréscimo simultâneo de prefixo e sufixo. saciável → [in] + saciável. pois o que sobra não faz sentido. Os vocábulos parassintéticos. eclipse. oferecer. sujeito. número. [o]. 40 . pôr → [com] + por. [sub] e [de]. ou sem prefixo. Exemplos: contra.Estruturas Morfológicas Convém observar. extra. subterfúgio.Unidade A . no entanto. construções nas quais os prefixos adquirem autonomia morfológica. a adição do prefixo [in] representará exata- mente o sentido oposto. derivar. isto é. c) Não se prestam para indicar categorias gramaticais. o nome continua sendo nome etc. O verbo continua sendo verbo. os elementos [ob]. Participar do pan (panamericano). são exceção a esse prin- cípio. Às vezes. Exemplos: Pagamentos extras (extraordinários). Nesses vocábulos. f) Certos prefixos são empregados também como formas livres. uma vez que os falantes deixaram de perceber a relação de sentido com a forma primitiva. tempo. não mudam a classe gramatical dos vocábulos. sobre. Cursar o pré (pré-vesti- bular). nesses casos o novo sentido é dado pelo sufixo e não pelo prefixo. conforto → [des] + conforto. [su]. [e]. não há como separar. Exemplos: leitura → [re] + leitura. [bis]. respectivamente. modo e pessoa. Todavia. Na palavra correto. b) Quase sempre alteram substancialmente o significado da raiz. biscoito.

O sufixo [mente] modifica adjetivos em advérbios: sábio → sabiamente. Em condutor. [izar] transforma nomes (substantivos e adje- tivos) em verbos: real → realizar. por exemplo. energia → energizar. *sovacudo etc. sapat(o) + [aria]. horizontalizar.. quase sempre o que sobra é uma forma presa: dent + [uço]. significat + [iva]. descapitalizar. *dedudo. criou os seguintes neologismos: 41 . principalmente devido à existência da forma precedente conduto. che- ga-se à conclusão que o sufixo é de fato [or]. difícil → dificilmente. b) Após destacar o sufixo. *joelhudo. ded + [al] etc. sapat(o) + [ada]. mas é estranho em *sobrancelhudo. orelhudo. à primeira vista o sufixo poderá ser [tor]. d) Não alteram fundamentalmente a significação da raiz: sapat(o) + [eiro]. isto é. sapat(o) + [ão]. exceto os casos de derivação imprópria nos quais o morfema aditivo perde seu ca- ráter de sufixo: O imperialismo e outros ismos. *braçudo. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 B) Sufixos Em contraposição. f) São assistemáticos. no poema “Caso Pluvioso”. bocudo. am- bientalizar. peitudo. Assim. canal → canalizar. e) Muitos sufixos se prestam para mudar a classe ou a função da palavra. Foi com base neste princípio que Carlos Drummond de Andrade. não se aplicam a todas as formas primitivas. cabe- çudo. O sufixo [udo] serve para formar barrigudo. c) Nunca são empregados como formas livres. como é o caso dos verbos em [iz(ar)]: otimizar. g) Formam uma classe aberta que se presta à criação diária de neo- logismos. cabeludo etc. Mas. os sufixos apresentam as seguintes características: a) Nem sempre se destacam com facilidade. bol + [eto]. sapat(o) + [inho]. criminalizar etc. após realizar uma série de oposições entre formas aparentadas.

o que se tem é ridicularizar. [tempor] deve se considerado alomorfe de [temp(o)]. ǿǿ “chuvadeira maria”. deve-se recorrer ao princípio da alomor- fia. justificando a seguinte segmentação: [con] + [tempor] + [iz] + [a] + [r]. Mas o mesmo princípio não se apli- ca a fortaleza. ǿǿ “tal chuvência”. ǿǿ “atro chuvido”. empreendedor (quem empreende muito). h) Não são obrigatórios. ǿǿ “as fontes de maria mais chuvavam”. Do mesmo modo. porque inexiste a forma terminada em [al]. em cusparada só é possível identificar o sufixo derivacional [arad] como alomorfe de [ad]. Convém sempre considerar o conteúdo semântico do sufixo para uma adequada segmentação. com dois sufixos derivacionais. fofoqueiro (que faz fofocas) etc. No entanto. Por isso. é preciso ter certa cautela para não in- correr em decisões arbitrárias. como vimos. Assim. ǿǿ Se em luarada temos [lu] + [ar] + [ad] + a. Na segmentação dos sufixos. do qual se deriva o substantivo realeza. sendo [alez] alomorfe de [ez]. pois os sentidos que representam podem ser expressos através de outros meios de natureza sintática: solenemente (de modo muito solene). a segmentação de realeza será [re] + [al] + [ez] + [a].Unidade A . em contemporizar não é possível interpretar /or/ como sufixo. são formados com o sufixo [iz(ar)] acrescido ao adjetivo. Por isso. pluvimedonha”. Em vista disso. O jeito é considerar a forma [ariz(ar)] um alomorfe de [iz(ar)]. Quando surgem dificuldades de interpretação. ridículo daria ridiculizar. ǿǿ Certos verbos. ǿǿ “chuvil. Vejamos alguns exemplos: ǿǿ Do substantivo rei forma-se o adjetivo real.Estruturas Morfológicas ǿǿ “chuvíssima criatura”. a segmentação de fortaleza será [fort] + [alez] + [a]. 42 .

Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 Em geral. Os que for- mam novas palavras são denominados derivacionais (SD) ou lexicais (SL). número. Os que apenas permitem que os vocábulos variem em gênero e número (quando nomes) ou em modo. p. podemos dizer que os sufixos flexionais indi- cam as seguintes categorias gramaticais dos vocábulos: ǿǿ velh + [a] – categoria de gênero ǿǿ carta + [s] – categoria de número ǿǿ vi + [mos] – categoria de número e pessoa ǿǿ fize + [sse] – categoria de modo e tempo 43 . que incluem todos os sufixos flexionais (SF) ou desinências (D). que afirma: quanto à função gramatical. De nossa parte.5 Morfema Categórico Os morfemas categóricos. são desinências verbais. mas servem para traduzir noções grama- ticais de gênero. o termo sufixo é empregado para designar morfemas derivacionais. tempo e modo. nú- mero e pessoa (quando verbos) são chamados flexionais (SF) ou desinências (D). pessoa. Já em vende-re-mos o segmento [re] é desinência verbal de futuro do presente do indicativo e [mos] é desinência verbal de primeira pessoa do plural. Quando representam categorias de gênero ou de número. então. não derivam novos vocábulos.2. isto é. mas há autores que incluem entre os sufixos os mor- femas flexionais. Em peru-a-s. expressam as categorias gramaticais. Entres esses autores. preferimos considerá-los em separado. tempo. 2. Em resumo. o [a] é a desinência nominal de gênero feminino e o [s] e a desinência nominal de plural. 57). conforme sirvam ao mecanismo da derivação ou da flexão. há dois tipos de sufixo. cita-se Monteiro (2002. morfemas que se prestam para a formação de novos vocábulos. são desinências nominais. considerando que os morfemas derivacionais e os morfemas flexionais têm características e funções distintas. Como tal. quando representam categorias de tempo e modo ou de número e pessoa.

em contraste com os sufixos derivacionais. pois não há alternativas para marcar certa categoria gramatical. � Sujeitam-se ao vínculo da concordância: substantivo feminino plural impõe aos determinantes (artigos. isto é. adjetivos. tempo. 2.2. vi e venci. noviça + [s]) em geral representa o plural. Exemplos: Viajei de carro.7 Morfema Classificatório ou Vogal Temática Fazem parte deste grupo os morfemas que nada parecem acrescentar ao significado. sujeito da oração na primeira pessoa do plural im- põe concordância do verbo na primeira pessoa do plural. vocábulos sem autonomia mórfica. � São sistemáticos.Unidade A .2. numerais adjetivos) a concordância no feminino e no plural. pois. � Formam um grupo reduzido e fechado. como já vimos. Vim. Tais morfemas são representados por segmentos formais 44 . � São obrigatórios. O morfe [s] em po- sição final de nomes (moleque + [s]. têm as seguintes características: � Não criam vocábulos novos.6 Morfema Relacional Os morfemas relacionais caracterizam-se como formas dependen- tes. conjunções e pronomes relativos. � São morfes arbitrários cujo sentido só se revela no ambiente morfossintático no qual eles aparecem. ao passo que em final de verbos (tu fala + [s]. não constituem por si só um enunciado.Estruturas Morfológicas De modo geral. pronomes adjetivos. A classe dos morfemas relacionais é formada pelas preposições. 2. aplicam-se a todos os vocábulos de uma determinada classe (por exemplo: todos os nomes são marcados quanto ao gênero e ao número e todos os verbos são marcados quanto ao modo. os sufixos flexionais ou desinenciais. número e pessoa). tu finge + [s]) representa a segunda pessoa do singular. As regras que transcrevi estão obsoletas. isto é.

que é um conjunto de unidades lingüísticas que se excluem umas às outras por sistemas de oposição. e os três últimos.1 Comutação A comutação consiste numa operação contrastiva por meio de per- muta de elementos para a qual são necessárias: a) a segmentação do vocá- bulo em subconjuntos e b) a pertinência paradigmática entre os subcon- juntos que vão ser permutados. A função do morfema classificatório é situar o vocábulo num pa- radigma. a troca do significante implica a troca de significado. por isso. como em cant-a-r. Convém. No exemplo a seguir a comutação é feita no nível fonológico. vend-e-r. em qualquer nível (fonológico. no entanto. 2. os três primeiros exemplos pertencem à classe dos nomes. São as vogais temáticas nominais. à classe dos verbos. Ou: paradigma é um conjunto de unidades ausentes que poderiam substituir aquela que está presente na cadeia sintagmática. fac-e e as vogais temáticas verbais. con- siderar que o fato de não traduzirem nenhuma idéia ou noção extralin- güística não significa necessariamente não ter nenhum valor semântico. Assim. são também designados de morfes vazios. Comutação é troca de um elemento no plano da expressão de que resulta uma alteração no plano do conteúdo.3 Análise Mórfica – Princípios Básicos e Auxiliares 2. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 aos quais não corresponde. mesmo que esse valor seja meramente gramatical. /lar/ (lar) /mar/ (mar) /mal/ (mal) /mel/ (mel) /fel/ (fel) Na comutação. aparentemente. ment-i-r.3. como em garot-o. morfológico ou sin- tático). canet-a. 45 . Servem apenas para distribuir os vocábulos em classes ou categorias. nenhum significado e.

analise a comutação no nível morfológico representa- da em (6).Unidade A . Como tal. imprescindível na análise mórfica. a) desinências número-pessoais cantava + Ø cantava + s cantava + Ø cantáva + mos cantave + is cantava + m b) desinências modo-temporais tu canta + Ø + s tu canta + va + s tu canta + rá + s tu canta + ria + s tu canta + ra + s tu canta + sse + s tu canta + re + s c) raiz ou semantema de verbos cant + ar estu + ar cas + ar alarm + ar copi + ar san + ar cant + ar govern + ar Fazer análise mórfica é examinar e segmentar os vocábulos em par- tes providas de significação.Estruturas Morfológicas Para melhor entender a técnica da comutação. não se confunde com a análise 46 .

Como vimos. “A comutação se baseia no princípio de que tudo no sistema lingüístico é oposição e consiste na substituição.) As formas mínimas encontradas foram: a) Raiz – [nov] b) Radical – [novíssim] c) Vogal temática – [o] d) Tema – [novíssimo] e) Sufixo derivacional – [íssimo] 47 . Essa técnica impede que as segmentações dos vocábulos sejam fei- tas de modo arbitrário.) e) nov + íssimo ≠ bon + íssimo. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 dos fonemas e das sílabas. ou dos termos das orações. embora certas informações fonético-fonológicas. sintáticas e mesmo se- mânticas possam ser úteis para a análise da estrutura mórfica. pelo confronto. bel + íssimo (nov ≠ bom ≠ bel etc. 38). 2002. Trata-se de realizar a permuta de uma parte do vocábulo por outra e verificar se essa permuta produz alterações na significação. Para demonstrar ainda melhor como funciona a técnica da comu- tação. no nível sintático. a principal técnica de análise mórfica é a comutação. p. de uma forma por outra” (Monteiro. examinaremos o adjetivo novíssimo e o verbo olharemos: novíssimo a) novíssimo + Ø ≠ novíssimo + s (Ø ≠ s) b) novíssimo + Ø ≠ novíssimo + a (Ø ≠ a) c) novíssim + o ≠ novíssim + a + mente (o ≠ a) d) nov + íssimo ≠ nov + inho ≠ nov +iço ≠ nov + idade (íssimo ≠ inho ≠ iço ≠ idade etc.

Estruturas Morfológicas f) Desinência de gênero – [Ø] g) Desinência de número – [Ø] olharemos a) olhare + mos ≠ olhare + i (mos ≠ i) b) olha + re + mos ≠ olha + ria + mos (re ≠ ria) c) olh + a + re + mos ≠ olh + Ø + e + mos ( a ≠ Ø) d) olh + a + re + mos ≠ corr + e + re + mos ( a ≠ e) e) olh + a + re + mos ≠ estud + a + re + mos ( olh ≠ estud) As formas mínimas encontradas foram: a) Raiz – [olh] b) Radical – [olh] c) Vogal temática – [a] d) Tema – [olha] e) Desinência modo-temporal – [re] f) Desinência número-pessoal – [mos] 2.3. do adjetivo útil forma-se o verbo utilizar.Unidade A . devemos considerar que a ordem dos consti- tuintes não é meramente linear. Incorreto é considerar que o substantivo reutiliza- 48 . e do verbo reutilizar deriva-se o subs- tantivo reutilização. vamos examinar a formação da palavra reutilização. a) [útil] + [iz(ar)] → utilizar b) [utilizar] + [ação] → utilização c) [re] + [utilizar] → reutilizar d) [reutilizar] + [ação] → reutilização Pela ordem. Para entender o que isso significa. mas hierárquica. derivando- se daí o substantivo utilização.2 Princípios da Hierarquia Na análise mórfica.

3. Em o povo → os povos. a concordância nominal “obriga” a repetição do [s]: “o + [s] seu + [s] belo + [s] olho + [s] verde + [s]”. ha- vendo combinação com determinantes (artigos. somente se acrescenta a bases adjetivais e não a bases verbais. da concordância: eu fal + [o]. Da mesma forma. pela concordância [Ø] = [Ø] e [s] = [s] e pela alternância das vogais [ô] ~[ó]. visto que não existe o advérbio *variavelmente. a) suportar + ável → suportável b) in + suportável → insuportável O prefixo [in]. Como já vimos. Em o sogro → a sogra. adjetivos).3 Redundância Redundância é um conceito bastante difundido na semântica. a presença do pronome reto – que identifica a pessoa e o número – não exclui a necessidade da flexão e. a oposição de número é marcada pelo sufixo desinencial [s]. Nos verbos. com valor negativo. 2. a pluralização do substantivo é realizada prioritariamente pelo acréscimo da desinência [s]. por outro lado. Assim. nós fala + mos etc. haveria quebra de hierarquia se a derivação fosse feita na seguinte ordem: suportar → *insuportar → insu- portável. Vejamos outro exemplo. Em certos casos. sen- do também conhecido por pleonasmo. conseqüentemente. a oposição de gênero é marcada pelo sufixo desinencial [Ø] ~ [a]. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 ção fosse derivado de utilização uma vez que o prefixo [re] em geral se acrescenta a bases verbais. a palavra invariavelmente é constituída de invariável + mente e não de in + variavelmente. a redundância gramatical é representada por três marcas distintas: o morfe flexional. pronomes adjetivos. “subir para cima” etc. 49 . a concordância e a alternância vocá- lica. a redundância gramatical representada pela presença de um morfe segmental ou supra-segmental que repete o mes- mo traço gramatical. mas. pela concordância [Ø] = [Ø] e [a] = [a] e pela alternância das vogais [ô] ~[ó]. Há. o que significa repetição do sig- nificado: “ver com os próprios olhos”.

de “passe-” para “passei-”. sendo tônica a vogal temática “-a-” Nas formas em que o acento tônico se an- tecipa para o radical.40-41): O radical do verbo “passear” é “passe-”. d) ave + cultor → avIcultor (alteração da vogal temática “e” em “i”). transformando-a em “e”). 50 . então. uma alteração morfológi- ca de origem fonológica. crase. infeliz. Essas mudanças podem acontecer por supressão de fonemas. O acréscimo do fonema “-i” alterou o morfema. transformando-a em “e”). de acordo com o ambiente fonético: incapaz. b) escut. acrés- cimo. formas ditas rizotônicas. p. São mudanças no sistema fonêmico do vocábulo.Unidade A . O prefixo in-. É. f) in + legal → Ilegal (supressão da nasal “n”). transformação. vamos ler a explicação fornecida por Zanotto (1986.+ -i → andEi (vogal “i” assimila vogal temática “a”. uma mudança morfofonêmica. e) viv + i + i → vivI (crase da vogal temática “i” e da desinência verbal “i”). desfazendo o hiato (“passeo”) através da ditongação (“passEIo”).+ -a. com repercussão no sistema mórfico. átono. pode variar em –i. São exemplos de mudanças morfofonêmicas: a) sa.4 Mudança Morfofonêmica Chama-se mudança morfofonêmica a alomorfia condicionada fo- nologicamente.+ -va. c) and.+ -a. havendo o acréscimo do fonema “-i”.+ -o → saIo (acréscimo do fonema /i/ ao radical com forma- ção do ditongo sai-). Para melhor entender isso. por exemplo. o radical passa a ser “passei-”. mas imutá- vel (antes de consoante nasal). ilegal (antes da consoante “l”) e irrelevan- te (antes da consoante “r”).Estruturas Morfológicas 2.+ -is → escutaVEis (vogal “i” assimila vogal “a” da desinência verbal.

Dito de outra maneira. para os usuários da língua. 1975 [1916]. composição e derivação. Nesse sentido. No estudo da língua. Trata-se da perspectiva diacrônica. i) garot + o + a → garota (supressão da vogal temática “o”). Nossa disciplina tem como objetivo “utilizar os princípios de aná- lise morfológica para descrever a estrutura de vocábulos da língua por- tuguesa. mas também para a descrição de outros níveis lingüísticos. precisamos esclarecer um as- pecto relevante. é possível a evolução de um estágio a outro. pois. distinguindo os processos de flexão. h) quintal + s → quintaIs (supressão da consoante “l” do radical e acréscimo de “i”. 51 . Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 g) do + e → dóI (alteração da vogal temática “e” em “i” e conse- qüente formação do ditongo). 96). “sincronia e diacronia designarão respectivamente um estado de língua e uma fase de evolução” (Saussure. Entender os processos morfofonêmicos é importante. além de identificar e utilizar aspectos da teoria lexical relacionados à classificação de vocábulos”. p. pois a maio- ria dos alomorfes deve a sua origem a esses processos. 2. o estudo de um estado de língua. k) animal + inho → animalZinho (acréscimo de “z” ao sufixo di- minutivo “inho”). a sucessão desses fatos no tempo não existe.5 Sincronia e Diacronia Antes de encerrarmos este capítulo. não só para a descrição morfológica. Por outro lado. com vistas a identificar e descrever as mudanças ao longo de um período de tempo. j) pé + al → peDal (acréscimo da consoante “d” ao radical). representa a perspectiva sincrônica. sem especulações de ordem histórica ou evolutiva. O que deve guiar o estudo do atual estado da língua portuguesa é a percepção que os falantes têm dos fatos. interessam os fatos lingüís- ticos como eles se apresentam no momento atual. num determinado momento de sua evolução. com formação do ditongo).

Vamos ilustrar esse princípio metodológico com alguns exemplos fornecidos por José Lemos Monteiro (2002. no entanto. Por outro lado. mas o mesmo não se pode dizer de bilhete. sem necessidade de recorrer ao latim. então.Estruturas Morfológicas Fica claro. se a identificação dos morfemas for fei- ta com base no latim. Na verdade. em lembrete há consciência do sufixo [ete]. A segmentação dos elementos mórficos deve-se pautar pela consciência do significado. mas para outros fins. o lingüista que quei- ra descrever um estado de língua “deve fazer tabula rasa de tudo quanto produziu e ignorar a diacronia” (1975 [1916]. teremos oportunidade de fazer isso em situações diversas ao longo de nosso texto. p. Isso é sincronia. é fácil reconhecer a raiz [livr] e o sufixo [eir(o)]. alguns desses vocábulos: a) companheiro – como não há consciência de que deriva de pão (aquele que come do mesmo pão). Na palavra livreiro. b) marquês – em português. como em muitos outros. Aliás. o correto é considerar que a raiz é [companh]. Há muitos vocábulos. que na descrição da estrutura dos vocábulos do português é desnecessário conhecer o latim ou quaisquer outras línguas que tenham influenciado a formação da língua portuguesa. veremos que a atual raiz [com] foi outrora um prefixo. Do mesmo modo. em que não se percebe mais a existência do sufixo. distintos dos de nossa disciplina. c) comer – se adotarmos critérios diacrônicos. então. Segundo Saussure. o morfe- ma também se descaracteriza. uma vez que proveio de co- medere. cuja segmentação não é tão simples e a adoção de critérios dia- crônicos ao invés de critérios sincrônicos muda totalmente os resultados. O mesmo não se pode dizer de marquês. pois. 67-75). o resultado não será diferente. feita uma constatação de ordem sincrô- nica.Unidade A . ocorre o sufixo [es]. nada impede que a convicção a respeito do fato seja reforçada por informações de ordem diacrônica. 97). Com isso. não estamos afirmando que os conhecimentos relativos ao latim e tudo aquilo que diz respeito à formação da língua portuguesa são inúteis. cujos elementos constitutivos eram [com[ed]e]re]]. sendo com um prefixo. Vejamos. A 52 . p. perdida essa consciência. francês e outros vocábulos. in- dicador de profissão. Nesse caso. são altamente relevantes.

triênio. já não existe mais a consciência dos elementos constitutivos originais. fidalgo. em certo perí. Sincronica- mente. Mas. a) biênio. almoxarife. quem diria que em solene há um morfema cor- 53 . essas formas derivam de rio (ri- vus) e de são (sannativu). Por essa razão. dois anos. filho + de + algo. embora modificada na forma. al + moxarife. qüinqüênio e decênio – Em to- dos esses vocábulos. em anuênio é impossível recuperar a consciência do significado original em [ênio]. cula. há um emprego redundante (ano + ano). p. [ag] + [ulh] + [a]. e) relógio. Como se observa. futebol. Todavia. o mesmo não se pode dizer sobre aqueles. nocaute. Geraldo – esses vocábu- los eram compostos. Do mesmo modo. Se nestes vocábulos ainda há a percepção dos sufixos diminutivos. como coquetel. no entanto. isto é. o conhecimento histórico. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 raiz [ed] desapareceu completamente na evolução para o portu- guês. se- gundo quem “muitas vezes odo da evolução do latim ao português. encontra-se o semantema a raiz de ano. Casos assim muitas vezes representam empréstimos lexicais de línguas es- trangeiras. originalmente. em anuênio. homúnculo. sendo incorretas segmentações como [ov] + [elh] + [a]. a existência de inúmeras construções redundantes ou paradoxais. partícula etc. Esse exemplo foi citado por d) ovelha. gotícula. em + boa + hora. a atual raiz do verbo comer é o que antes foi prefixo. cujos significados originais se perderam totalmente. apicula e acu. (1972. devendo os mesmos serem considerados vocábulos simples. agulha – esses vocábulos eram. embora. gerr (guerra) + hard (forte). abelha. for- mados por uma única raiz. [ab] +[elh] + [a]. como se [ênio] fosse sufixo. ovicula. f) rival. também. três anos. Câmara Jr. em razão da queda da consoante sonora intervocálica e da crase das vogais. sadio – originalmente. 14). respectivamente. quatro anos. quadriênio. com sufixo diminutivo igual ao que ainda se constata em aplicado à análise sincrôni- ca. quem sabe disso? A perda da consciência do significado pode explicar. significando. Só o estudioso de gramática histó- rica e de etimologia sabe que tais vocábulos foram formados respectivamente por: hora + lógio. cinco anos e dez anos. também raiz de sanar. a torna absurda”.

Unidade A - Estruturas Morfológicas

respondente a ano. Etimologicamente, solene se refere ao que
acontece uma só vez no ano.

b) biquíni – a partir da falsa percepção de que biquíni signifi-
ca duas peças de um certo vestuário, formou-se monoquíni.
Ocorre que biquíni é metonímia do nome de um atol. Do mes-
mo modo, bermudas é metonímia de um topônimo.

c) preferir – as restrições normativas ao emprego dos advérbios
mais ou antes subordinados a esse verbo respaldam-se na for-
mação latina do verbo, no qual ocorre o prefixo [pre]. No latim,
de ferre formou-se praeferre. Em português, no entanto, não
se interpreta o verbo preferir como derivado de ferir, pois este
não existe com o significado que convém ao caso.

d) caligrafia – Etimologicamente, significa bela letra. Mas o empre-
go de expressões como caligrafia bonita e caligrafia horrível evi-
denciam a perda o significado primitivo. Do mesmo modo, an-
tídoto quer dizer contraveneno. Por que, então, alguém diz algo
como “precisa de um antídoto contra picadas de mosquitos”?

e) me, te, se, nos, vos – em certas formas latinas, a preposição
cum (com) aparecia posposta: mecum, tecum, secum etc. Daí
mego (migo), tego (tigo), seco (sigo). Posteriormente, o desa-
parecimento dessa percepção (posposição da conjunção com,
originalmente cum), fez repeti-la no início: com + migo = co-
migo, com + tigo = contigo etc.

Conclui-se, desse modo, que uma descrição coerente dos morfemas
não pode pautar-se em dados histórico-etimológicos. Convém lembrar,
no entanto, que uma descrição exclusivamente sincrônica é difícil de
levar às últimas conseqüências, uma vez que a consciência dos falantes
nem sempre apresenta a precisão desejável. Por exemplo, se perguntar-
mos a alguns falantes de português de onde deriva a palavra mesada,
não faltará que diga derivar de mesa, quando na realidade deriva de
mês. Igualmente, há falantes que relacionam pequinês a pequeno, quan-
do, de fato, diz respeito a uma raça de cães originária de Pequim. Se em
boiada é fácil destacar o sufixo [ada], o mesmo não se pode dizer de
manada. Se bananeira deriva de banana, mangueira de manga, abaca-
teiro de abacate, pode-se dizer que macaxeira deriva de [macax]?

54

Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02
Considerando, então, que a aplicação do princípio da “consciência
coletiva” nem sempre é adequado, como proceder? A alternativa é apli-
car a comutação, mas essa alternativa também é, às vezes, questionável.

Os verbos receber, perceber e conceber correspondem a oposições
na base da permuta dos elementos [re], [per] e [com], mas isso só faz
sentido para o estudioso. Qual o significado dos elementos prefixais?
Além disso, resta a dúvida em relação a ceber, que não existe na língua
como forma livre.

Situação semelhante ocorre com os vocábulos excluir e incluir, de
um lado, e explodir e implodir, de outro. Há, no entanto, uma diferença
em relação aos primeiros. Nestes, fica clara a oposição entre os prefixos
[ex] e [in], mesmo que cluir e plodir não sejam formas livres.

Do mesmo modo, se em pedreiro, jornaleiro, sapateiro é possível
separar o sufixo [eiro], o mesmo pode ser feito em carpinteiro, mesmo
inexistindo a forma primitiva.

Segundo Monteiro (2002, p. 72), na segmentação dos elementos
mórficos, devem ser consideradas as seguintes situações:

a) Os morfes são elementos facilmente destacáveis quando
se opõem formalmente e têm significados transparentes,
como em: peixaria, livraria ou peixinho, livrinho.

b) Quando é possível estabelecer oposições mórficas, mas
falta a base semântica, como em preferir, referir, proferir,
convém não destacar os morfemas, pois os elementos que
sobram não têm livre curso na língua. Neste caso, os prefi-
xos históricos são incorporados à raiz.

c) Quando não há uma palavra primitiva, mas os cognatos são
facilmente reconhecidos com base em oposições mórficas,
deve-se destacar o semantema. Em emergir e imergir, a raiz
(radical primário) [merg] é facilmente identificada, sem que
haja concretamente uma palavra primitiva.

55

Unidade A - Estruturas Morfológicas

Em resumo, pode-se concluir que certos problemas de análise mor-
fológica decorrem do modo como se vê a realidade lingüística. Se a gra-
mática for rigidamente mecanicista, excluindo qualquer interferência do
significado, será suficiente fazer operações contrastivas para fazer seg-
mentações mórficas estruturalmente válidas. Todavia, se levar em conta
a relação intrínseca e solidária entre forma e significado, os problemas
de identificação de morfemas devem-se pautar na consciência coletiva.
Como essa segunda alternativa pode levar a mero impressionismo, tal-
vez o melhor a fazer é adotar uma posição intermediária, conciliando,
sempre que possível, a sincronia e a diacronia.

Resumo do Capítulo
ǿǿ Morfema é uma unidade abstrata de sentido, representada por
uma ou mais formas.

ǿǿ A realização concreta de um morfema se denomina morfe e,
quando há mais de um morfe para o mesmo morfema, ocorre
alomorfia.

ǿǿ Alomorfes são, portanto, as diversas realizações de um único
morfema, ou vários morfes correlacionados quanto à forma e
com o mesmo significado.

ǿǿ Quando a ausência do morfe corresponde a um significado,
tem-se morfema zero.

ǿǿ Morfes cumulativos são unidades formais que representam si-
multaneamente dois morfemas. Em português, são cumulativas
as chamadas desinências verbais modo-temporais (Exemplos:
viaja-sse-mos, resolve-re-mos) e número-pessoais (Exemplos:
viaja-sse-mos, viaja-sse-m).

ǿǿ Nos casos em que a oposição morfológica se faz pela permuta
de dois fones, os morfes são alternantes, como em: avô ≠ avó.
Em geral, os morfes alternantes são redundantes ou submorfê-
micos, pois reforçam uma oposição morfológica formada por
morfe aditivo, como em: porco (ô) ≠ porca (ó); famoso (ô) ≠
famosos (ó).

56

Os morfemas classificam-se em: ǿǿ Raiz (R). por exemplo. são também conhecidos como afixos: se ocorrem antes da raiz. se- mantema ou lexema. é tônica. que é a vogal sem valor semântico posicionada logo após o radical. pois servem para distribuir os vocábulos em certos grupos. secun- dário. que são as preposições. ǿǿ Morfemas categóricos. ǿǿ Radical (Rd). como é o caso das conjugações verbais. se ocorrem depois. Em (eu) cant-o. Trata-se do morfema sobre o qual repousa a significação lexical básica. que é o conjunto formado por radical e vogal temática. As vogais temáticas são consideradas morfemas clas- sificatórios. que é a troca de um elemento no plano da expressão com vistas à alteração no plano do conteúdo. Conceitos Básicos de Morfologia e Princípios Teóricos Capítulo 02 ǿǿ A coincidência de formas (morfe homônimo) não significa que o morfema é o mesmo. ǿǿ Vogal temática. são prefixos. o morfe é o mesmo. que inclui a raiz e os elementos afixais que entram na formação dos vocábulos. p. forma primitiva. Para segmentar adequadamente os vocábulos em morfemas. ǿǿ Morfemas relacionais. são sufixos. 57 . 1975. Nos nomes. que são os morfemas indicadores de gê- nero e número nos nomes e os indicadores de modo e tempo e número e pessoa nos verbos. é átona. (o) cant-o (da ave) e (o) cant-o (da sala). deve- se usar técnicas de comutação. as conjunções e os pronomes relativos. O radical pode ser primário. Recebem este nome porque ser- vem para expressar as categorias gramaticais. ǿǿ Morfemas derivacionais. 216). Também é conhecido por radical primário. nos verbos infinitivos. terciário etc. que é o “elemento irredutível comum a todos os vocá- bulos da mesma família” (SAUSSURE. ǿǿ Tema. mas cada um deles representa uma morfema distinto.

Todavia. p. Se a alomorfia é condicionada pelo contexto fonológico. Intro- dução à morfologia. 1979. a não ser em casos excepcionais. o acréscimo de dois ou mais morfemas derivacionais não acontece simultaneamente. Petrópolis: Vozes. p. lembramos que o modelo descritivo que adotamos privile- gia o estado atual da língua portuguesa. J. In: CÂMARA JR. Mattoso. com repercussão no sistema mórfico.. 58 . Trata-se de uma mudança no sistema fonético- fonológico do vocábulo. 69-76. In: ROSA. Maria Carlota. Existe uma ordem a ser seguida. Leia mais! A Conceituação Clássica do Morfema. A estrutura da língua portuguesa. tal mu- dança é morfofonêmica. 2000.Estruturas Morfológicas Na segmentação dos morfemas e na análise mórfica. 43-66. deve-se levar em conta que existe uma ordem hierárquica. Por fim. isso não significa que em casos de necessi- dade não se possa valer de argumentos histórico-etimológicos. em detrimento das explicações de ordem histórica. isto é. O Vocábulo Formal e a Análise Mórfica. São Paulo: Contexto.Unidade A .

Unidade B Flexão Nominal e Verbal .

.

artigos e numerais) e. obrigatória. adjetivos. As desinências verbais classificam-se em: desinências modo-tem- porais (tempo e modo do verbo) e desinências número-pessoais (nú- mero e pessoa da forma verbal). os nomes (substantivos.1 Morfemas Flexionais (desinências) Já tivemos oportunidade de falar a respeito dos morfemas flexio- nais. Vamos demonstrar. Observe o seguinte esquema sinótico: 61 . os verbos. também. a hierarquia e o ordenamento. Vamos agora focalizar uma característica específica dos nomes e pronomes. As desinências nominais classificam-se em: desinências de gênero (masculino e feminino) e desinências de número (singular e plural). 3. as respectivas funções. pronomes. que é a flexão de gênero (masculino e feminino) e de número (singular e plural). Flexão Nominal Capítulo 03 3 Flexão Nominal No capítulo II da Unidade A. ou simplesmente desinências. tempo e pessoa. que grau não é flexão. de outro. Entre as classes de vocábulos que se submetem aos processos de flexão – por isso. considerados vocábulos variáveis – citam-se: de um lado. entre outros aspectos relevantes na descrição e análise mórfica. Como tal. podem ser listados exaustivamente. e se prestam para representar noções grama- ticais de gênero. número. estudamos os diferentes tipos de morfemas. Esses morfemas constituem uma classe fechada. modo.

-s 3. ou um artigo. -s 5. terceiro terc. -fin. -o. -iz. florezinhas flor. nos quais os falantes têm a liberdade de utilizar prefixos ou sufixos. que se desdobra em flexão de gênero e flexão de número. -ad. a flexão impõe normas de concordância. -et. -s 7. -iz. no entanto. trataremos em particular da flexão dos nomes. de tal modo que os vocábulos subordinados a um substantivo. -atual. anzol anzol 2. ou um pronome adjetivo no feminino plural. pode ser ampliado por meio de morfemas derivacionais (prefixos e sufixos) e morfemas flexionais (desinências de gênero e de número). -al. ele el. -o 6. -e.2 Estrutura Mórfica dos Nomes O nome às vezes é formado por um único morfema: o radical pri- mário ou raiz. por exemplo. -ad. -s 9. -zinh. -ad. atualizada atual. Além disso.Unidade B . devem com ele concordar em gênero e número. o verbo deverá obrigatoriamente flexionar-se na terceira pessoa do plural. folhetins folh.Flexão Nominal e Verbal No nível sintático. que se desdobra em flexão de modo e tempo e de pessoa e número. 3. Ao contrário do que ocorre nos processos de formação de novos vocábulos. afinadíssimos a. Esse radical. -e 4. elas el. -a. e da flexão dos ver- bos. -íssim. no sistema flexional da língua há imposições gramaticais. -zinh. -a 8. -o 62 . -eir. finalzinho fim. -a. Neste capítulo. -in. observemos a estrutura mórfica dos nomes abaixo: NOME SD RAIZ VL SD SD VT DG DN 1. Levando isso em consideração. podem ocorrer vogais temáticas e vogais de ligação. Combinado com um substantivo feminino plural só cabe um adjetivo. sem opção de inovação ou criação. Se o sujeito da oração estiver na terceira pessoa do plural. -s 10. desatualizados des. -o.

a rigor. que se submetem aos graus compa- rativo e superlativo. Assim. quando realizados Esse documento encontra- através de sufixos. pois os de 28-01-1959. 3. publicado pela Editora Nova Fronteira. o fazer. Trata-se. além de flexionarem-se em gênero e número. com base em como: os sins. se disponível nas páginas iniciais do Novo Dicionário vacionais (carrão. uma vez que pronomes. do Ministé- rio da Educação e Cultura. como tal. Do mesmo modo. de acordo com o sentido e a função que exercem na estrutura sintagmática (ou frasal). o que é próprio dos substantivos e adjetivos (verdadeiros no- mes). os contras. sintáticos. euzinha etc. ora são adjetivos. um quezinho. os nãos. a desinência [a]. tam- Instituída Portaria n◦ 36. Também devemos observar que nem todo nome possui as subca- tegorias de gênero e número. Flexão Nominal Capítulo 03 Em princípio. caracterizam-se como processos tuguesa. os prós. te da classificação dos vocábulos. sintáti- agorinha. bolinha) e. isto é.3 Flexão e Grau A Nomenclatura Gramatical Brasileira afirma que os nomes (subs- tantivos e adjetivos). o fazem através de processos morfológicos deriva- cionais ou a expedientes de natureza sintática. Exemplos: ǿǿ Espertinho (diminutivo) ǿǿ Espertalhão (aumentativo) ǿǿ Tão esperto quanto (comparação de igualdade) 63 . quando realizados por Aurélio da Língua Por- meio de adjetivos grande e pequeno. devemos considerar que qualquer palavra pode substantivar-se e. Igualmente os adjetivos. carrinho. caracterizam-se como processos morfológicos deri. cos e semânticos. Por outro lado. podemos dizer que os nomes caracterizam-se mor- ficamente pela possibilidade de apresentar desinências de gênero e de número. Estruturalmente. de um equívoco. bém se flexionam em grau. uma mãozinha. bolão. se existir uma forma mascu- lina correspondente. submeter-se Trataremos oportunamen- aos processos flexionais e mesmo derivacionais específicos dos nomes. não há desinência de plural [s] se não houver a forma correspondente no singular. graus aumentativos e diminutivos dos substantivos. critérios mórficos. artigos e numerais ora são substantivos. só existe flexão se uma categoria se opuser a outras. uma palavra só pode apresentar a marca de feminino. um ai.

o grau não se submete ao caráter obrigatório e sistemá- tico próprio do mecanismo flexional. d) Emprego de prefixos [super].: “Meu com- putador é hiper-rápido. Para finalizar essa questão.” (= queridíssimo). p. Do mesmo modo. lindo. p. Por outro lado. b) Uso de formas aumentativas: “Que rapaz bonitão!” (bonitíssi- mo). devemos considerar que a formação do grau não se submete a qualquer vínculo de concordância entre adjetivos e subs- tantivos. o substantivo moço não apresenta qualquer marcação de grau. Em resumo. e não estabelece paradigmas exaustivos e de termos exclusivos entre si” (CÂ- MARA JR. convém lembrar que os gramáticos que falam em flexão de grau encontram problemas em classificar os advérbios 64 . f) Expressões idiomáticas: “Ela é linda de morrer!” (= lindíssi- ma). 81). 1979. como afirma Montei- ro (2002. e) Breves comparações: “Grosso como porca de patrola.Flexão Nominal e Verbal ǿǿ Mais esperto do que (comparação de superioridade) ǿǿ Menos esperto do que (comparação de inferioridade) ǿǿ Espertíssimo (superlativo) Como se vê. podemos dizer boneca lindíssima ou bonequinha linda. c) Uso de formas diminutivas: “Ele é o queridinho da mamãe. porque não é um mecanismo obrigatório e coerente.” (= rapidíssimo). 83).” (= muito grosso). lindo!” (= lindíssi- mo).Unidade B . [ultra] etc. não existe obrigatoriedade de dizer bonequinha lindíssima. [hiper]. Em moço educadíssimo. “a expressão do grau não é um processo flexional em português. existem diversas outras possibilidades de formação do grau superlativo.. entre as quais: a) Repetição do adjetivo: “Foi lindo. Além disso. ou seja.

o/a cal. certos substantivos muda- ram de gênero. caneta. nas mesmas condições. Em vista disso. Flexão Nominal Capítulo 03 como palavra variável ou invariável. o/a diabe- te. o/a sentinela etc. Ora. cabelo. no português atual. Isso quer dizer que ser masculino ou feminino é. relógio. Também há substantivos que. a exemplo do adjetivo. ao contrário. Os neutros latinos passaram ao português ora como masculinos. em latim. água são femininos. era feminino. o/a cólera. oscilando entre uma e outra alternativa conforme a região. quando se considera que o grau não é flexão. o/a dinamite. sem haver flexão: o/a analista. maré. computador. Assim é que lápis. o/a personagem. o/a champanhe (champanha). a oposição de 65 . uma imposição gramatical que não interfere no significado. o/a grama. Nesses casos. Outros substantivos são indiferentes quanto ao gênero. Trata-se de uma noção gramatical que se atribui a todos os substantivos. ao longo do tempo. que são ou masculinos ou femininos. para a maioria dos nomes. o nível de escolaridade etc. o grupo social. há dois gêneros (masculino e feminino) e fazendo certa confusão entre gênero e sexo. Quem decide o uso são os falantes. pois. pois o uso é indiferente às preocupações dogmá- ticas. Pouco importa a imposição normativa.1 O que Significa Gênero Para começar. em latim. limitando-se a afirmar que. tal problema deixa de existir. em português. é preciso fazer alguns esclarecimentos prévios. têm gênero vaci- lante: o/a soja.4 Flexão de Gênero Tradicionalmente. ou melhor. ora como femininos. assoalho são masculinos mesmo não tendo sexo. o/a ioga etc. podem ser usados como masculinos ou femininos. e o advérbio continua sendo invariável. o/a chaminé. gênero significa bem mais do que sexo. como é o caso de carvalho que. cebola. e. independentemente de se referirem a se- res sexuados ou não. e de cor e honra que. Tanto isso é verdade que.4. as gramáticas abordam com certa superficiali- dade a questão de gênero. 3. têm os graus comparativo e superlativo. eram masculinos. viola. 3.

o fato de certos substantivos femininos muda- rem para o gênero masculino quando empregados no grau aumentativo: casarão. 66 . representa carga semântica.Unidade B . muda o significado. como: lobo ≠ loba. Existe um grupo de substantivos para os quais o gênero. Nesses casos. o braço a braça o cabeça a cabeça o capital a capital o porto a porta o chinelo a chinela o bolso a bolsa o ovo a ova o lotação a lotação o lenho a lenha o rádio a rádio o sapato a sapata o espinho a espinha o cinto a cinta o barco a barca As alterações de significado provocadas pela alteração de gênero vão além do interesse mórfico-descritivo. salão.Flexão Nominal e Verbal gênero se manifesta através da concordância. que designam tanto os seres do sexo masculino. Acrescente-se. potrancão. não ocorrendo nem a flexão. entre outros. facão. indicado pela concordância. ainda. quanto os do sexo feminino. a cobra etc. em geral. o masculino tem uma aplicação mais genérica. prestando-se. Isso ocorre. mas ainda sem se referir ao sexo. os substantivos de gênero único. ainda. o jacaré. gato ≠ gato etc. cobrão etc. Há. cachorro ≠ cachorra. e o feminino tem uma aplicação mais específica. pois se referem a seres do reino animal. nem a concordância: a onça. pois. há os substantivos que apresentam oposição de gênero com base em motivações de ordem sexual. para apro- fundamentos de caráter semântico. inclusive. Por fim. com nomes que se referem a seres do sexo feminino: mulherão.

para muitos substantivos.. (o. Isso quer dizer que mulher não é o feminino de homem. Já se disse que todos os nomes têm gênero. a) diplomata. (a) perua etc. boi ≠ vaca. 1979. cumprindo apenas o preceito gramatical obrigatório. A determinação de gênero se faz. na maioria dos casos. (o) peru. a) personagem. (o) livro. e somente para os nomes substantivos do terceiro grupo. (o) cônjuge. (o. finalmente. Com base na descrição de gênero que acabamos de apresentar. (o) jacaré etc. pronome adjetivo. a) artista. os nomes. cavalo ≠ égua. CÂMARA JR. a desinência e a concordância tornam-se redundantes na função de explicitar o gênero. numeral ou principalmente artigo). 92): 1) nomes substantivos de gênero único: (a) flor. Secundariamente. Quando os indivíduos de sexos diferentes são representados por heterônimos. com adição da desinência [a] para o feminino. se distribuem em três grupos (cf. pela con- cordância que se impõe aos determinantes (adjetivo. 2) nomes substantivos de dois gêneros sem flexão: (o. diferentemente do que sugere a NGB e as gramáticas escolares. o gênero repercute na significação. (a) mão. de for- ma variada e imprevisível. p. e. (o) doutor. com homem ≠ mulher. a) mártir. (o. o gênero não tem qualquer valor semântico. (o) carro. porém nem todos se flexionam em gênero. em certos substantivos perti- nentes aos seres sexuados. 67 . Nesses casos. a) apren- diz etc. (a) menina. para outros substantivos. não ocorre flexão. o gênero apresenta relação com o sexo. (a) cobra. Flexão Nominal Capítulo 03 Somente nesses casos devemos falar em flexão de gênero. a determinação do gênero se faz pela flexão. mas tão somente um substantivo que tem a propriedade privativa de se referir às pessoas do sexo feminino. (o) avião. (a) doutora. Em resumo: gênero é classificação gramatical obrigatória para todos os substantivos. (o. (a) lua. 3) nomes substantivos de dois gêneros com flexão: (o) menino.

nem são derivados uns dos outros. A heteronímia consiste em expressar o gênero-sexo através de vo- cábulos distintos. Na verdade. os outros incluem-se entre os do grupo 1. Exemplos: ǿǿ cônsul – consulesa ǿǿ galo – galinha ǿǿ profeta – profetisa ǿǿ herói – heroína ǿǿ czar – czarina 68 . há certas oposições de gênero-sexo em que. além da desinência de feminino. com a ressalva de que os sobrecomuns referem-se a homens e mulhe- res. e os epicenos a animais. Além da concordância e da flexão.Flexão Nominal e Verbal Dito isso. não são casos de flexão. Por outro lado. ocorre um sufixo derivacional. cabe esclarecer que a classificação da NGB em i) comuns de dois gêneros. Os primeiros pertencem ao grupo 2 anteriormente exposto. Exemplos: ǿǿ pai –mãe ǿǿ homem – mulher ǿǿ genro – nora ǿǿ cão – cadela ǿǿ carneiro – ovelha ǿǿ zangão – abelha Como você pode ver. esses heterônimos não são aparentados mor- fologicamente. pela derivação sufixal e pela alomorfia no radical. isto é. ii) sobrecomuns e iii) epicenos pouco contribui para o as- sunto. o gênero dos nomes pode ser determinado pela heteronímia. não têm o mesmo semantema.Unidade B .

Flexão Nominal Capítulo 03
A alomorfia no radical também pode reforçar a oposição de gê-
nero-sexo.

Exemplos:

ǿǿ europeu – européia

ǿǿ teu – tua

ǿǿ judeu – judia

ǿǿ plebeu – plebéia

ǿǿ ilhéu – ilhoa

ǿǿ leão – leoa

3.4.2 A Descrição do Gênero
Na descrição do gênero, as formas masculinas são consideradas
não marcadas, como acontece também com a maior parte dos nomes
femininos. Somente os nomes aos quais se adiciona a desinência [a]
para o feminino, estabelecendo uma oposição privativa com a forma
correspondente masculina, são marcados quanto ao gênero. Por exem-
plo: pata em oposição a pato, viúva em oposição a viúvo etc.

“Há dois tipos de oposição na estrutura da língua: a privativa (ou
contraditória) e a eqüipolente (ou polar). Oposição privativa é
aquela em que a marca se opõe à ausência de marca numa forma
correspondente. Em bonito ≠ bonitos há oposição privativa por-
que o [s] marca o plural em oposição ao vazio [Ø] no singular. A opo-
sição eqüipolente é a que ocorre entre formas que apresentam mar-
cas distintas, sem que nenhuma delas esteja ausente. Em viverei ≠
viveremos, o [mos] se opõe a [i] eqüipolentemente, umas vez que
ambas as desinências estão presentes.” (MONTEIRO, 2002, p. 80)

Lembre-se de que as vogais átonas finais, com exceção da desinên-
cia [a] indicadora do gênero feminino, são vogais temáticas, conforme
se viu no tópico referente a esse assunto.

69

Unidade B - Flexão Nominal e Verbal

O esquema básico na descrição da estrutura flexional de gênero
é, portanto, o acréscimo da DG (desinência de gênero). Se ocorrerem
outras alterações formais, além da adição da desinência de feminino,
são mudanças morfofonêmicas secundárias, em geral condicionadas fo-
nologicamente. Há casos, no entanto, nos quais a oposição de gênero
não se faz por flexão, mas através da heteronímia, o que se constitui em
oposição eqüipolente, como explicamos alhures.

Para melhor explicitar as diferentes situações, apresentamos, com
base em Zanotto (1986), dez esquemas descritivos. São eles:

Esquema 1:

ǿǿ R + DG (radical, mais desinência de gênero).

Refere-se aos nomes atemáticos. Exemplos: autor ≠ autor-a,
juiz ≠ juíz-a, peru ≠ peru-a, chinês ≠ chines-a, espanhol ≠
espanhol-a etc.

Esquema 2:

ǿǿ R – VT + DG (radical, menos vogal temática, mais desinência
de gênero).

Refere-se aos nomes temáticos. Neste caso, havendo acréscimo
da desinência [a], a vogal temática é suprimida. Exemplos: gato
≠ gat-a, nosso ≠ noss-a, aluno ≠ alun-a, mestre ≠ mestr-a, oi-
tavo ≠ oitav-a, justo ≠ just-a etc.

Esquema 3:

ǿǿ R – VT + DG + alternância vocálica (radical, menos vogal te-
mática, mais desinência de gênero, mais alternância vocálica).

A alternância ocorre entre vogais fechadas e abertas. Trata-se
de flexão interna submorfêmica. Exemplos: sogro ≠ sogr-a,
novo ≠ nov-a, famoso ≠ famos-a, este ≠ esta, ele ≠ el-a, horto
≠ hort-a, porco ≠ porc-a etc.

Em avô ≠ avó, a alternância é morfêmica, pois é o único traço
distintivo entre as duas formas.

70

Flexão Nominal Capítulo 03
Equema 4:

ǿǿ R – VT + alternância /ê/ → /é/ + ditongação /é/ → /éy/ + DG
(radical, menos vogal temática, mais troca da vogal do radical
/ê/ pela vogal /é/, mais acréscimo da vogal /i/ no radical, mais
desinência de gênero feminino).

Além da alternância vocálica submorfêmica, ocorre um alar-
gamento (formação do ditongo /éi/). Exemplos: ateu ≠ atéi-a
(ateu → ateu-a → ate-a → atéia), plebeu ≠ plebéi-a, europeu ≠
européi-a, pigmeu ≠ pigméi-a etc.

Esquema 5:

ǿǿ R – VT + alomorfia na raiz + DG (radical, menos vogal temá-
tica, mais alomorfia na raiz, mais desinência de gênero femi-
nino).

A alomorfia na raiz ou em outros morfemas do radical funciona
como um traço redundante na distinção entre gênero masculi-
no e feminino. Exemplos: judeu ≠ judi-a, ilhéu ≠ ilho-a, san-
deu ≠ sandi-a, teu ≠ tu-a, frade ≠ freir-a, meu ≠ minh-a etc.

Esquema 6:

ǿǿ R – VT + SD + DG (radical, menos vogal temática, mais sufixo
derivacional, mais desinência de gênero).

Trata-se de nomes temáticos em cujas formas femininas corres-
pondentes, além da desinência de gênero, se adiciona um sufi-
xo derivacional. Exemplos: galo ≠ galinh-a, poeta ≠ poetis-a,
duque ≠ duques-a, herói ≠ heroín-a, diácono ≠ diaconis-a,
príncipe ≠ princes-a etc.

A rigor, sincronicamente, o valor semântico de tais sufixos de-
rivacionais se esvaziou completamente, razão por que julgamos
ser mais apropriado não segmentá-los, tratando-os como alo-
morfes. Dessa forma, [rainh], [abadess] e [profetis] seriam,
respectivamente, alomorfes de [re], [abad] e [profet].

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ór- fão ≠ órfã. Ocorre com nomes terminados em /ão/ quando este correspon- de a um sufixo aumentativo. Exemplos: cônsul ≠ consules-a. chorão ≠ choron-a. leitão ≠ leito-a etc.Unidade B . soltei- rão ≠ solteiron-a. Exemplos: anão ≠ anã (anão → anão-a → anã-a ≠ anã). menos vogal temática. irmão ≠ irmã. ermitão ≠ ermitã etc. Exemplos: valentão ≠ valenton-a (valentão → *valenton → valentona). mais de- sinência de gênero.Flexão Nominal e Verbal Esquema 7: ǿǿ R + SD + DG (radical. mais desinência de gênero). Trata-se de nomes atemáticos. mais desinên- cia de gênero). Exem- plos: leão ≠ leo-a (leão → *leon → leona → leõa → leoa). mais sufixo derivacional. mau ≠ má. Além desses casos de subtração. czar ≠ czarin-a. Esquema 10: ǿǿ R – VT + alternância da vogal nasal /ã/ → /õ + DG (radical. prior ≠ priores-a etc. sabichão ≠ sabichon-a etc. Esquema 8: ǿǿ R – VT + DG + crase (radical. Esquema 9: ǿǿ R – VT + alternância da vogal nasal /ã/ → /õ/ + desnasalização da vogal /õ/ + DG (radical. mais alter- nância da vogal nasal /ã/ em /õ/. 72 . menos vogal temática. Ocorre com alguns nomes terminados pelo ditongo /ão/. mais desnasalização da vogal /õ/. mais crase). embora não se enquadrem no mesmo esquema. mais desinência de gênero). mais alternância da vogal nasal /ã/ em /õ/. citam-se réu ≠ ré. menos vogal temática. Trata-se da subtração do morfema flexional de gênero em vir- tude de um condicionamento fonético-fonológico.

a féria → as férias etc. Como inexistem na língua formas correspondentes no feminino para homem. que o morfema de plural [s] acumula a função de morfema derivativo. os afazeres. mais troca de um sufixo derivacional por outro). Flexão Nominal Capítulo 03 Esquema 11: ǿǿ R – SD + SD (radical. sem oposição de sentido. cavalo. Cabe ainda observar que certos substantivos masculinos não têm. imper(a)-dor ≠ imper(a)-triz. 3. as alvíssa- ras. nora e égua) que possa suprir essa lacuna. mulher. as trevas. certas situa- ções na língua nas quais a realidade não é tão cristalina quanto parece à primeira vista. no entanto. em termos morfológicos. Vejamos: 3. a) Certos substantivos no plural não significam mais de uma unidade da referida espécie. Trata-se de um processo supletivo (ou heteronímico). o bem → os bens. Exemplos: os óculos. Exemplos: at-or ≠ at-riz. as bodas etc. 73 . correspondentes femininos. Exemplos: a honra → as honras. Há. embora se pres- tem para designar seres sexuados.5. nesses casos. as calças. genro. Isso quer dizer que o plural é me- ramente gramatical. embaix(a)-dor ≠ embaix(a)-triz etc. os anais. usamos ou- tra palavra (respectivamente. b) Outros substantivos mudam de significado quando se flexio- nam no plural.5 Flexão de Número O número é uma noção gramatical que distingue um elemento (singular) e mais de um elemento (plural).1 O Significado do Número Além da oposição simples entre singular (um só elemento) e plural (mais de um elemento). devemos distinguir outros casos. se- gundo o qual uma forma supre a inexistência da outra. Pode-se afirmar.

Essa simplicidade descritiva do número só é quebrada por dois fa- tores. Em os lápis pretos. quanto ao significado do número. pronomes adjetivos e numerais (e mesmo no verbo). à concordância no plural. não constitui um morfema. artigos e numerais) é determinada pela oposição. os substantivos coletivos. que. // [que se A flexão de número nos nomes variáveis (substantivos. induzindo. Nesse caso. mas só porque isso é marcado pelos determinantes. artigos. nos determinantes os e pretos ocorre morfema de plural [s]. embora morfologica- mente no singular. é marcado por recursos sintáticos. bem como o /s/ final do adjetivo simples. O morfema [s] de plural tem diferentes realizações 3. pode-se afirmar que lápis está no plural.2 A Determinação do Número fonéticas.Unidade B . Exemplos: o lápis → os lápis o pires → os pires o cais → os cais o ônibus → os ônibus o xis → os xis o tórax → os tórax o ourives → os ourives O /s/ final desses substantivos. ainda. e não pelo/s/ final de lápis. na qual a ch] em aula[s] críticas. em que os determinantes se pluralizam. entre as quais: /s/ em aula[s]. expressam idéia de mais de um elemento. O plural. que nos adjeti- vos. 74 . adjetivos. nesses casos. ou silepse de número. às vezes. presença do morfema de plural [s] se opõe à ausência de morfema [Ø] no singular. exceto se oxítonos. a saber: a) ocorrência de morfema de plural [Ø] em nomes terminados em /s/.Flexão Nominal e Verbal c) Há. Resta observar. que se caracteri- za como concordância ideológica. /z/ em aula[s] alegres. pronuncia como se fosse pronomes.5. o nú- mero resulta da obrigação gramatical de o determinante concordar com o determinado: os adjuntos adnominais concordam com o substantivo e o verbo concorda com o sujeito.

Esquema 3: ǿǿ R + VT + DN (radical. /r/ e /z/. Exemplos: mal → males.5. dente-s. mais desinência de número. Refere-se aos nomes temáticos. a seguir. para vocábulos temáticos: sapo-s. para vocábulos atemáticos: guri-s. mais desinência de número). algoz → algozes etc. como em: limão → limões. sobre descrição do número. vez → vezes etc. alomorfia da raiz 75 . aquela-s. nosso-s. indireta-s etc. oitava-s. menos vogal temática. a pluralização do adjetivo simples é indicada pela pluralização do substantivo. barril → barris. mais desinência de número). café-s. mais vogal temática. mais desi- nência de gênero. havendo acréscimo da desinência [a]. esta-s. mês → meses. b) O segundo complicador da descrição mórfica de número é a ocorrência de mudanças morfofonêmicas simultâneas à plura- lização. Exemplos: ga- rota-s. mar → mares. Esquema 4: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + alomorfia da vogal temática (tema. ostra-s etc. 3.3 A Descrição do Número Esquema 1: ǿǿ R (T) + DN (radical. Neste caso.3. a vogal temática é suprimida. peru-s. b) Após o tema. a) Após o radical. Flexão Nominal Capítulo 03 Em problemas simples. gambá-s etc. mais desinência de número). Esquema 2: ǿǿ R – VT + DG + DN (radical. /s/. Ocorre com os nomes terminados pelas consoantes /l/. Essas mudanças são melhor descritas no tópico 5.

mais mudança da vogal temática /e/ para /i/): *animale → animales → animaes → animais. mais alomor- fia da vogal temática. farol → faróis. sendo /i/ uma vogal tô- nica. azul (*azule). mais desinência de núme- ro. Exemplos: útil → úteis. Esquema 6: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + crase (tema. mais alomorfia da raiz representada pela alteração da vogal /i/ em /e/. fóssil → fésseis. Ocorre com os nomes terminados em /il/. Esquema 5: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + alomorfia da raiz + alomorfia da vogal temática (tema.Unidade B . mais alomorfia da vogal temática /e/ para /i/): *faci- le → faciles → fácies → facees → fáceis. anzol (*anzole). mais crase): *barrile → barriles → barries → barriis → barris. /el/. anel (*anele). alomorfia da raiz representada pela supressão do fonema /l/. /ol/ e /ul/. Esquema 7: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da raiz + alomorfia da vogal temática (tema. Ocorre com os nomes terminados em /al/.Flexão Nominal e Verbal representada pela supressão do fonema /l/. final → finais. anel → anéis. Exemplos: capital → capitai-s. tais como: bananal (*bananale). ágil → ágeis. anzol → anzóis. mais alo- morfia da raiz representada pela supressão do /l/. contábil → contábeis.) 76 . paul → pauis etc. Exemplos: funil → funis. sendo /i/ uma vo- gal átona. hostil → hostis etc. mais alomorfia da vogal temática /o/ para /e/. mais desinência de número. mais alomorfia da raiz representada pela troca de /ã/ por /õ/. coronel → coronéis. azul → azuis. estudantil → estudantis. Ocorre com nomes terminados em /il/. que têm um tema teórico em *lê. provável → prováveis etc.

6 Estrutura Pronominal esquema 1. Quanto à estrutura morfológica. Às vezes. acréscimo de desinência e síncope (supressão) da consoante /l/ intervocálica: qual – * quale → quales → quaes → quais. podendo ser descritos de acordo com os mesmos esquemas.).) e em número (você → vocês. Sendo assim. Exem- plos: fogão → fogões. meu → minha. do mesmo modo que nos nomes. cão → cães. mais desinência de número. ladrão → ladrões. teu → tua. Flexão Nominal Capítulo 03 Ocorre com a maioria dos nomes terminados em “ao”. Esquema 8: ǿǿ T (R + VT) + DN + alomorfia da vogal temática (tema. aquele → aquela etc. seu → sua. algum → alguma. feijão → feijões etc. representadas da seguinte maneira: a) Na formação do feminino: ǿǿ elisão da vogal temática e alternância vocálica redundante: ele + a = elea → ela (/ê/ ~ /é/). leitão → leitões. minha → minhas. 77 . nomes e pronomes são muito se- melhantes.) Ocorre com alguns nomes terminados em “ão”. capitão → capitães etc. além da desinência que marca o gê- nero ou o número. sapa- tão → sapatões. este → estes. ǿǿ acréscimo de vogal temática. nosso → nossa. pronomes flexionam-se em gênero (ele → ela. podem ocorrer alomorfias na raiz. nosso → nos- sos. Exemplos: pão → pães. ǿǿ alomorfia na raiz: teu → tua. alemão → alemães. b) Na formação do plural: ǿǿ simples acréscimo da desinência: ele → eles. Os nomes em “ão” que não se incluem nos esquemas 7 e 8 descrevem-se de acordo com os nomes do 3. qual → quais etc. mais alomorfia da vogal temática /o/ para /e/.

alguém.6. as de complemento verbal e de adjunto adnominal). Nesses casos. Primeiramente. a oposição pode se realizar mediante processos supletivos: PRONOMES Retos Oblíquos átonos Oblíquos tônicos eu me mim. ou seja. 94). que. como. precisamos explicitar em que eles se diferenciam. os pronomes não se sub- metem aos processos derivacionais. ela(s) 78 .Unidade B . ela(s) se. (con)sigo. diferentemente dos nomes. a(s). la(s). no(s). quem. primário. 3. aos pronomes não se pode adicionar prefixos e sufixos. tu ≠ vós. ele(s). Dito de outra forma. lhe(s). em outros. observamos que. a saber: a) gênero neutro A oposição às formas do masculino e feminino se faz mediante flexão interna. de acordo com Monteiro (2002. (con)tigo nós nos nós. lo(s). a indicação de plural se faz por meio de formas supletivas: eu ≠ nós.). (con)vosco ele(s). por exemplo.Flexão Nominal e Verbal Também cabe observar que certos pronomes não apresentam flexão (outrem. p. os pronomes podem ser retos (quando exercem a função de sujeito ou predicativo) ou oblíquos (quando exercem outras funções. os pronomes podem ser distribuídos em três categorias inexistentes para os nomes. se.1 Categorias Pronominais Se em tudo o que se disse até aqui nada diferem os pronomes dos nomes. representada pela alternância vocálica: Neutro Masculino Feminino isto este(s) esta(s) isso esse(s) essa(s) aquilo aquele(s) aquela(s) tudo todo(s) toda(s) b) caso Segundo a função que exercem na frase. o(s). na(s) si. ninguém etc. Além disso. (com)igo tu te ti. me ≠ nos etc. (con)vosco vós vos vós. os pronomes são sem- pre constituídos de um morfema básico.

por isso. mas a concordância de pronomes oblíquos e de verbos se faz com formas da terceira pessoa. tu se explica. quem é tu. nós se explicamos. Essas mudanças trazem reflexos nos paradigmas dos pronomes oblíquos e na flexão dos verbos. em certos registros. quando na função de pronome. torna-se eu quando toma a palavra. Assim. são pro- nomes de segunda pessoa. mas a concordância também se faz na terceira pessoa. têm uma natureza ou função indicativa” (MONTEIRO. pois indica a pessoa que fala. Você e vocês. As opo- sições entre as diferentes pessoas se efetivam mediante radicais distintos. 2002. o paradigma dos pronomes pessoais está passando por um processo de mudança relevante. o referente do pronome eu muda conforme a situação de interação. p. especialmente na fala. porque está na posição de escuta. são chama- dos dêiticos. entre outros aspec- tos.6. O eu é a pessoa que fala. Flexão Nominal Capítulo 03 No português atual. vocês se expli- cam. indicando a pessoa com quem se fala. 96) e. caracterizado. inclusive na considerada culta.2 Significado Dêitico Além dessas três características típicas dos pronomes. As alterações no sistema pronominal de sujeito coocorrem com alterações no sistema flexional do verbo e no emprego de pronomes relativos e possessivos. Por exemplo. têm-se realizações como: eu me explico. c) pessoa As pessoas gramaticais são três: o falante (primeira pessoa). E. que está com o turno de fala. Em resumo. “Os pronomes. por sua vez. por exemplo. o pronome nós alterna-se com a forma a gen- te. 3. devemos considerar que os pronomes e os nomes se diferenciam quanto à nature- za semântica. 79 . eles se explicam. pela alternância de tu e você no singular e substituição de vós por vocês. ao contrário dos nomes. Além disso. a gente se explica. nós nos explicamos. a gente. corresponde à primeira pessoa. tu te explicas. o ouvinte (segunda pessoa) e o assunto (terceira pessoa). nós se explica. você se explica.

3 Pronomes Substantivos e Pronomes Adjetivos Por fim. isso. este(s) e esta(s) indicam coisas que estão próximas do falante. resta observar que os pronomes. funcionam como substantivos ou adjetivos. Ele foi omisso. coisas que estão próximas do ouvinte. aquilo. coisas sobre as quais se está falando. diferentemen- te dos nomes.Flexão Nominal e Verbal Os pronomes demonstrativos têm o seguinte uso básico: isto. ǿǿ Em Grão-Pará. ǿǿ Escuta isso: mil reais não são dez. Vejamos como se processa essa cor- respondência: 80 . Exemplos de indicação catafórica: ǿǿ Esta é minha última proposta: quinhentos e cinqüenta reais por mês. Aqui há lindas praias. 3. ǿǿ Li um livro que nunca foi citado na aula de Literatura Brasi- leira I. os pronomes têm formas substantivas e adjetivas que possibilitam esquemas opositivos. Além do significado dêitico.6. que não distinguem as duas funções com base na es- trutura mórfica. lá etc. ǿǿ Moro em Florianópolis. ǿǿ Já estou morando na casa nova. os pronomes têm a função de retomar (indicar) algo que já foi dito (anáfora). assim como os nomes. sucedeu algo muito estranho: violaram um tú- mulo e cortaram a cabeça do cadáver. Levei dois anos para cons- truí-la. como aqui. É por isso que esses advér- bios são classificados como advérbios pronominais. num determinado contexto. O mesmo vale para certos advérbios. esse(s) e essa(s). O aqui.Unidade B . Exemplos de indicação anafórica: ǿǿ O governador sequer mencionou a questão. usado pelo falante. indica um lugar ao qual o ouvinte se refere como aí. aí. No entanto. ou ainda vai ser dito (catáfora). aquele(s) e aquelas(s).

ǿǿ Além da significação dêitica (indicar no tempo e no espaço). ao contrário dos nomes. ela(s) dele nós nosso vós vosso isto este isso esse aquilo aquele alguém algum ninguém nenhum outrem outro quem qual tudo todo Resumo do Capítulo ǿǿ A flexão dos pronomes se realiza do mesmo modo que a flexão dos nomes. 81 . pessoa e gênero neutro. ǿǿ Os pronomes. os pro- nomes apenas indicam a situação espacial (são sinais). ǿǿ Os pronomes possibilitam esquemas opositivos entre formas substantivas (pronomes substantivos) e formas adjetivas (pro- nomes adjetivos). não se submetem aos processos derivacionais. os pronomes podem se referir ao que já foi dito (anáfora) e ao que vai ser dito (catáfora). Flexão Nominal Capítulo 03 Pronomes Substantivos Adjetivos eu meu tu teu ele(s). ǿǿ Os nomes representam as coisas e idéias (são símbolos). ǿǿ Nos pronomes. há três categorias inexistentes nos nomes: caso.

com/jolemos.Unidade B . Acesso em 29/05/2008. Disponível em: <http:// www. p. 87-96. Pessoa e Número. 1979. 82 . In: CÂMARA Jr.Flexão Nominal e Verbal Leia mais! O Nome e suas Flexões.geocities. Estrutura da lín- gua portuguesa. de José Lemos Monteiro.geo/>. Joaquim M. Petrópolis/RJ: Vozes.

são também regulares. pois as oposições entre tempos e modos referem-se a. referem-se a três pessoas no singular e três pessoas no plural. que os verbos irregulares seguem paradigmas que. Apesar dessa complexidade. que os morfemas estejam sempre presentes. tempo. cuidaremos dos verbos que desviam do padrão geral. a rigor. pelo menos. Verbos também se flexionam. Isso não quer dizer. de certo modo. treze tempos verbais. Não incluímos os tempos do imperativo afirmativo e do imperati- vo negativo porque. Veremos. distribuídos nos modos indicativo e subjuntivo e for- mas nominais. não são tempos verbais.1 Estrutura Verbal Os verbos formam uma classe rica em possibilidades flexionais. então. Neste caso. do ponto de vista morfológico. isto é. Vejamos alguns exemplos: 83 . a estrutura básica dos verbos é relati- vamente simples. as desinências servem para indicar o modo. mais desinência número-pessoal). sempre nessa ordem. depois. e. no sentido de que existe um número menor de verbos que se flexionam dessa maneira. Como tal. apresentaremos um método de análise que visa a facilitar a flexão e a análise estrutural desses verbos. veremos estruturas verbais que pertencem aos para- digmas mais gerais e padronizados. as estruturas morfológicas do imperativo em nada se diferenciam das formas originais. mas verbos de situação. número e pessoa. Para isso. entre categorias de número e pessoa. mais desinência modo-temporal. Vamos ver como isso acontece? Primeiramente. cujas formas são empresta- das pelo presente do subjuntivo e presente do indicativo. resumindo-se a: R + VT1 + DMT1 + DNP (radical. mais vogal temática. 4. no entanto. embora menos produtivos. não são apenas os nomes e pronomes que se submetem a processos de flexão. os verbos ditos regulares. Flexão Verbal Capítulo 04 4 Flexão Verbal Na língua portuguesa.

por exemplo. -a. não se pode dividir o segmento [ria] em [ri] e [a]. Igualmente. -i. A primeira pessoa do plural exibe sempre a desinência [mos] (DNP). 84 . Como já vimos no Capítulo II.. -a. desde que se aplique adequadamente a técnica da comuta- ção. as desinências verbais são cumu- lativas: as desinências modo-temporais expressam. “já que se torna im- possível usar um tempo verbal. O correto é afirmar que o morfe [mos] é indivisível e tem a função de marcar a pessoa (primeira) e o número (plural). A depreensão dos morfemas de uma estrutura verbal é relativa- mente fácil. -sse Ø levemos lev. podemos. as categorias de modo e tempo. escond-e-r etc. por exemplo. ouv-i-r. de modo indis- sociável. b) segunda conjugação: corr-e-r. -mos escrever escrev. -va. Ø -m servisse serv. amarel-a-r etc. Após separar o tema (radical e vogal temática) e a desi- nência número-pessoal. Ø -e. c) terceira conjugação: corrig-i-r.Unidade B . 102).. a vogal temática é geralmente tônica – ao contrário dos nomes. isto é. compará-la com a forma de infinitivo e com a primeira pessoa do plural do tempo em que se encontra o verbo. -mos Nos verbos. em paradigmas flexionais distintos. -e -r Ø trocam troc.Flexão Nominal e Verbal Tema Desinências Verbo R VT DMT DNP falávamos fal. Ao analisar uma forma verbal. O infinitivo sem o [r] apresenta radical e vogal temática. a saber: a) primeira conjugação: salt-a-r. o que sobra é a desinência modo-temporal. nos quais é átona – e tem a função de distribuir os verbos em conjugações. Em es- tud-a-ría-mos. faz-e-r. p. 2002. ao passo que as desinências número-pessoais expressam as categorias de número e pessoa. alud-i-r etc. danç-a-r. é impossível interpretar que em [mos] o segmento [s] indica plural e o segmento [mo] indica primeira pessoa do plural. abstraindo o modo como se expressa a ação” (MONTEIRO.

pode ser ampliado por meio de prefixos e de sufixos. lava[r]mos. lava[ría] mos. ǿǿ O infinitivo impessoal é: lav-a-r. sendo [lav] radical. re- presenta. redescobrir. exceto os tempos de infinitivo impessoal. cada um dos tempos verbais tem uma desinência modo-temporal. louváve[is] ou louvava[Ø]. ǿǿ A primeira pessoa do plural é: lav-á-va-mos. particípio e gerúndio. que é formado pelo radical e pela vogal temática. O tema. no lugar da DNP [m]. [va] desinência modo-temporal e [m] desinência número-pessoal. lavá[sse]mos. lava[Ø]mos. A desinência número-pessoal (DNP). examinar a forma verbal lavavam. correspondem ao morfema zero. então. por isso. Os tempos verbais são os seguintes: a) Modo indicativo ǿǿ presente ǿǿ pretérito perfeito ǿǿ pretérito mais-que-perfeito ǿǿ pretérito imperfeito ǿǿ futuro do presente ǿǿ futuro do pretérito 85 . florescer. realizada por meio de um morfema concreto ou de um morfema zero. como já vimos. segunda ou terceira) e o número (singular ou plural). representar o tempo e o modo em que o verbo está. [a] vogal temática. Flexão Verbal Capítulo 04 Vamos. a pessoa (primeira. por sua vez. cumulativamente. A desinência modo-temporal (DMT). legalizar etc. lavá[ra]mos. cumulativamente. Se compararmos essas duas formas com lavavam. entre outras DMT. podemos ter louvava[s]. todos os tempos e modos apresentam desinências modo-temporais e desinências número-pessoais. presta-se para. além de [mos]. Às vezes as desinências estão ausentes e. Exemplos: descobrir. no lugar de [va] podemos ter lava[re]mos. fica fácil concluir que a segmentação é lav-a-va-m. nos quais não existem desi- nências número-pessoais. Por outro lado. Neste sentido. Quanto à flexão.

além de modo-temporais.Unidade B . 1985. mas é durativo. p. Saliente-se que o aspecto do verbo pode ser também indica- do por meio de perífrases verbais. também aspectivas. No caso do pretérito perfeito. pode-se dizer. ǿǿ aspecto conclusivo ou cessativo: acabou de beber. O aspecto é a maneira de ser da ação. ǿǿ aspecto continuativo: continua a beber. Exemplos: ǿǿ aspecto incoativo ou inceptivo: começou a beber. correspondem a di- ferentes aspectos. ǿǿ aspecto interativo ou freqüentativo: costuma tirar boas notas. pois se refere àquilo que começou e encerrou num certo momento do passado. ou seja: “uma categoria gramatical que manifesta o ponto de vista do qual o locutor considera a ação expressa pelo verbo” (BUREAU. então. ǿǿ aspecto resultativo ou consecutivo: conseguiu realizar. o pretérito imperfeito se refere a algo que começou no passado.Flexão Nominal e Verbal b) Modo subjuntivo ǿǿ presente ǿǿ pretérito imperfeito ǿǿ futuro c) Formas nominais ǿǿ infinitivo impessoal ǿǿ infinitivo pessoal ǿǿ particípio ǿǿ gerúndio Os tempos verbais. 86 . além da idéia de tempo. CIN- TRA. apud CUNHA. ǿǿ aspecto perfectivo ou obrigatório: tenho de sair. ǿǿ aspecto durativo. 370). Nesse sentido. cursivo ou progressivo: vou estar realizando. por exemplo. que as DMT1 seriam. o aspec- to é conclusivo. Diferentemente.

ǿǿ Trata-se. as alterações que se fazem na flexão dos verbos em virtude do emprego de você(s) e a gente são perfeitamente segmentadas. nas três conjugações. ǿǿ As DNP são as mesmas para cada pessoa. apresentaremos algumas observações importantes. Todas as formas são arrizotônicas. nas três conjugações. Flexão Verbal Capítulo 04 4. de processo de alomorfia. sendo as três primeiras do singular e as três últimas do plural. seguindo os mesmos padrões aqui ex- postos. Evidentemente. a DMT1 é realizada por meio de três morfes: [re]. vamos examinar a segmentação das formas verbais ditas regulares em todos os tempos verbais.2 Padrão Geral de Flexão Verbal A seguir. logo após. A) Futuro do Presente do Indicativo P1 re i re i re i P2 rá s rá s rá s P3 rá Ø rá Ø rá Ø P4 fal a re mos vend e re mos part i re mos P5 re is re is re is P6 rã o rã o rã o Observações: ǿǿ No futuro do presente. pois. pois o acento tônico está fora do radical. caracterizando-se como formas marcadas ou não. Faremos uma segmentação com base na primeira pessoa do plural e. Também aqui valem as observações que fizemos no capítulo anterior sobre o paradigma dos pronomes retos. As pessoas grama- ticais serão numeradas de P1 a P6. que são pronomes pessoais na função de sujeito. O padrão geral caracteriza-se pela ausência de modificações na raiz e regularida- de no uso de desinências modo-temporais e número-pessoais. [rá] e [rã]. 87 .

Isso tudo.Unidade B . o que corresponde à estrutura verbal de terceira pessoa. Somente em certos textos escritos ainda encontramos estruturas com o pronome vós. mas. o mor- fema número-pessoal é zero. o pronome vós é arcaico. Mas se no lugar do pronome nós usarmos a gente. há um descompasso entre a descrição oferecida pela gramática normativa e o uso efetivo da língua. ǿǿ As DNP são as mesmas do futuro do presente. B) Futuro do Pretérito do Indicativo P1 ria Ø ria Ø ria Ø P2 ria s ria s ria s P3 ria Ø ria Ø ria Ø P4 fal a ría mos vend e ría mos part i ría mos P5 ríe is ríe is ríe is P6 ria m ria m ria m Observações: ǿǿ O quadro de DMT1 é praticamente uniforme. No caso da se- gunda pessoa do plural. tendo sido subs- tituído integralmente pela forma vocês. ou seja. em (tu) fala-s. cuja desinência é [mos]. 88 .Flexão Nominal e Verbal Sendo assim. que passa a ser zero. havendo apenas a alomorfia [ría] ~ [ríe] em razão do contexto fonético. O mesmo critério se aplica à forma associada ao pronome nós. Sendo assim. como em (nós) fala-mos. como se observa. não existe marca desinencial. o verbo perde a marca desinencial [mos]. em (você) fala. pois tal flexão não é mais parte da gramática internalizada desses falantes nativos de português. exceto em P1 e P6. a P2 é marcada pela desinência [s]. tem muitas implicações sobre o ensino de português. evidente- mente. pois. ǿǿ Ocorre neutralização entre P1 e P3. ensinar às crianças flexão de verbo na segunda pessoa do plural é o mesmo que ensinar uma regra de uma língua estrangeira.

ǿǿ No caso da desinência [m]. a 89 . sem entrar na discussão sobre a existência de um dígrafo formado por /ã/ ou de eventual vocalização. 111-112). consideramos que tal grafema re- presenta as diferentes realizações fonéticas do segmento. p. verifica-se neutralização entre primeira e terceira pessoas do singular. ao contrário de [re] e [ra] no futuro do presente. 46-47) e Monteiro (2002. sugerimos consultar Mattoso Câmara Jr. ǿǿ Também nesse tempo verbal. que são tônicos. p. com verbos de segunda e terceira conjugação. D) Pretérito Imperfeito do Indicativo P1 a va Ø i a Ø i a Ø P2 a va s i a s i a s P3 a va Ø i a Ø i a Ø P4 fal á va mos vend í a mos part í a mos P5 a ve is í e is í e is P6 a va m i a m i a m Observações: ǿǿ Com verbos de primeira conjugação. a DMT1 é [va] com alo- morfia [ve]. Para maiores esclarecimen- tos. Flexão Verbal Capítulo 04 C) Pretérito Mais-que-perfeito P1 ra Ø ra Ø ra Ø P2 ra s ra s ra s P3 ra Ø ra Ø ra Ø P4 fal á ra mos vend ê ra mos part í ra mos P5 re is re is re is P6 ra m ra m ra m Observações: ǿǿ Os morfes [ra] e [re] no pretérito mais-que-perfeito são áto- nos. (1979.

essa desinência está presente mesmo em verbos irregulares. a DMT1 é [ia] com alomorfe [ie]. ér + Ø + a + mos. punh + Ø + a + mos etc. a supres- são da vogal temática. há neutralização com as formas do presente do subjuntivo não procede. E) Presente do Indicativo P1 Ø Ø o Ø Ø o Ø Ø o P2 a Ø s e Ø s e Ø s P3 a Ø Ø e Ø Ø e Ø Ø P4 fal a Ø mos vend e Ø mos part i Ø mos P5 a Ø is e Ø is i Ø (i)s P6 a Ø m e Ø m e Ø m Observações: ǿǿ A DMT1 é zero em todas as pessoas e conjugações. s[ou]. (1979. 109) ensina que. ǿǿ Exceto nas P4 e P5 (formas arrizotônicas). na segunda e terceira conjugações. em- prega-se a DNP [o]. todavia. a vogal temática [i] é alomorfe da vogal temática [e] do infinitivo vend-e-r. trag[o] etc. Na P1. ao contrário do que ocorre na maioria dos tempos verbais. venç[o]. em assim se procedendo.Unidade B . ǿǿ Também na P1 verifica-se. v[ou]. Como veremos adiante. como ponh[o].. a vogal temática sofre alo- morfia. p. 90 . considerar tão so- mente [a] ~ [e]. pois é assim que se realiza mesmo nos verbos em que a vogal temática é suprimida: vinh + Ø + a + mos. pois neste tempo verbal a vogal temática não se realiza. Mattoso Câmara Jr. ǿǿ Nos verbos de segunda conjugação. podendo sofrer alomorfia em [ou]: est[ou]. d[ou]. O argumento de que. Convém. em todas as conjugações. as vogais temáticas da segunda e terceira conjugações se neutralizam. Em vend-í-a-mos. nos quais é [Ø].Flexão Nominal e Verbal DMT1 é [a] com alomorfia [e].

dizemos ≠ dissemos. em verbos irregu- lares fortes. exceto em P6. Flexão Verbal Capítulo 04 ǿǿ Na P4 da terceira conjugação. parti + i → parti. a DNP [i] é zero em virtude de ela ter sofrido crase com a VT: vendi + i → vendi. deduz-se que essas DNP exclu- sivas acumulam também a função de diferenciar o passado do presente. ǿǿ Nas formas monossilábicas de segunda e terceira conjugações (exceto verbo ser). os radicais são diferentes (cf. [stes] na P5 e [u] na P3.). que são exclusivas deste tempo verbal. pomos ≠ pusemos etc. a VT1 da segunda conjugação modifica-se em [i] na P1. Considerando que a DMT1 é zero. sabemos ≠ soubemos. a DNP reduz-se a [s] devido à crase com a vogal anterior tônica: parti(i)s > partis. mas. 91 . ǿǿ A VT1 da primeira conjugação modifica-se em [e] na P1 e em [o] na P3. ǿǿ As formas da P6 neutralizam-se com as formas do pretérito mais-que-perfeito. somos ≠ fomos. trazemos ≠ trouxemos. F) Pretérito Perfeito do Indicativo P1 e Ø i i Ø Ø i Ø Ø P2 a Ø ste e Ø ste i Ø ste P3 o Ø u e Ø u i Ø u P4 fal a Ø mos vend e Ø mos part i Ø mos P5 a Ø stes e Ø stes i Ø stes P6 a ra m e ra m i ra m Observações: ǿǿ Entre as DNP. registram-se [ste] na P2. pondes etc. a DNP da P5 sofre alomorfia em [des]: ve- des. ǿǿ Na P1 da segunda e da terceira conjugações. vindes. ǿǿ As formas da P4 neutralizam-se com as formas do presente do indicativo nos verbos ditos regulares. inclusive nos verbos irregulares. credes.

ǿǿ As DNP são as mesmas para todos os verbos. ǿǿ As DMT1 são [e] para primeira conjugação e [a] para a segun- da e terceira conjugações. havendo neutrali- zação entre P1 e P3. ǿǿ As DNP são iguais em todas as conjugações.Unidade B . 92 .Flexão Nominal e Verbal G) Presente do Subjuntivo P1 Ø e Ø Ø a Ø Ø a Ø P2 Ø e s Ø a s Ø a s P3 Ø e Ø Ø a Ø Ø a Ø P4 fal Ø e mos vend Ø a mos part Ø a mos P5 Ø e is Ø a is Ø a is P6 Ø e m Ø a m Ø a m Observações: ǿǿ A VT1 é zero em todas as conjugações. H) Pretérito Imperfeito do Subjuntivo P1 a sse Ø e sse Ø i sse Ø P2 a sse s e sse s i sse s P3 a sse Ø e sse Ø i sse Ø P4 fal á sse mos vend ê sse mos part í sse mos P5 á sse is ê sse is í sse is P6 a sse m e sse m i sse m Observações: ǿǿ A VT1 se mantém em todas as pessoas. ǿǿ A DMT1 não sofre alomorfia.

entendida como alomorfe de [is]. Por exemplo: c) Se tu fizeres o serviço cedo. Por exemplo: a) Se tu acabares o serviço cedo. poderás ir embora (futuro do subjuntivo). Em vista disso. A distinção. mas por critérios sintáticos e semânticos. d) Para fazeres o serviço cedo. exceto com o verbo ser. é própria do futuro do subjuntivo e do infinitivo flexionado. Flexão Verbal Capítulo 04 I) Futuro do Subjuntivo P1 a r Ø e r Ø i r Ø P2 a re s e re s i re s P3 a r Ø e r Ø i r Ø P4 fal a r mos vend e r mos part i r mos P5 a r des e r des i r des P6 a re m e re m i re m Observações: ǿǿ As DMT1 e as DNP do futuro do subjuntivo são iguais às do infinitivo flexionado (ver a seguir). não se faz pela estrutura mór- fica. nos verbos regulares costuma haver neutralização entre as formas verbais. poderás ir embora (futuro do subjuntivo). mas tam- bém ocorre no presente do indicativo com verbos monossilá- bicos. Essa neutralização desaparece nos chamados verbos irregulares fortes. ǿǿ A DNP [des] da P5. b) Para acabares cedo. é preciso esforço (infinitivo flexionado). 93 . conseqüentemente. é preciso esforço (infinitivo fle- xionado).

[re] seria alomorfe de [r]. uma vez que a segmentação [r + em] é difícil de sustentar. [do] = particípio. na P6. Se a segmentação fosse [r + es]. [ndo] = gerúndio. tem-se somente um. no particípio. ǿǿ Tal como na maioria dos tempos verbais.Flexão Nominal e Verbal J) Infinitivo Pessoal (flexionado) P1 a r Ø e r Ø i r Ø P2 a re s e re s i re s P3 a r Ø e r Ø i r Ø P4 fal a r mos vend e r mos part i r mos P5 a r des e r des i r des P6 a re m e re m i re m Observações: ǿǿ Para entender por que os morfes de P2 no infinitivo flexionado e no futuro do subjuntivo são segmentados em [re + s]. seria pre- ciso considerar o [es] alomorfe de [s] e. em virtude de a vogal te- mática de segunda conjugação ter sofrido alomorfia em [i]. 94 . L) Formas Nominais infinitivo pessoal particípio gerúndio Rd VT DMT Rd VT DMT Rd VT DMT cant a r cant a do cant a ndo vend e r vend i do vend e ndo part i r part i do part i ndo Observações: ǿǿ As formas nominais dos verbos são marcadas por DMT: [r] = infinitivo.Unidade B . existe neutralização entre P1 e P3. invoca-se o critério da simplificação. ǿǿ Existe neutralização da vogal temática dos verbos de segunda e terceira conjugações. Em síntese: em vez de dois alomorfes. O [i] de vendido é alomorfe do [e] de vender.

Vamos. não existe DMT1 na segmenta- ção. a amada. (substantivo) = [am- ad-o]. mas flexão. sendo nome. identificar os temas verbais e os tempos formados com base em cada um desses temas. convém considerarmos que os verbos apresentam mais de um tema. Esses temas básicos. (verbo) = [am-a-do]. Observe que a segmentação mórfica de amado nas fun- ções de substantivo e adjetivo é diferente da segmentação do mesmo vocábulo na função de verbo. submete-se à flexão de gênero e número: o amado. 4.3 A Lógica dos Temas Verbais Para melhor compreender o sistema flexional dos verbos. as amadas. então. Por outro lado. amado é uma forma derivada de amar. Exemplos: a) A menina tem amado muito seu pai. quando é verbo. O amado não deu notícias. conforme demonstraremos adiante. inclu- sive dos irregulares. Tema 1 Forma do verbo no infinitivo impessoal (não flexionado). Flexão Verbal Capítulo 04 ǿǿ Às vezes a forma de particípio funciona como nome (substan- tivo ou adjetivo). O pai mais amado do mundo é você (adjetivo) = [am- ad-o]. não há derivação. Nesses casos. Quando é nome. Exemplos: verbo no infinitivo impessoal tema correspondente cantar [cant-a] esconder [escond-e] sentir [sent-i] medir [med-i] haver [hav-e] ouvir [ouv-i] caber [cab-e] dar [d-a] passear [passe-a] 95 . formados pelo radical (que inclui prefixos e sufixos derivacionais) + vogal temática (que pode ser Ø). menos a desi- nência modo-temporal [r]. os amados. re- petem-se num conjunto de tempos verbais. formando subsistemas coerentes e lógicos.

ǿǿ Particípio (T1 + do): cant-a-do ǿǿ Gerúndio (T1 + ndo): cant-a-ndo Tema 2 Forma do verbo na segunda pessoa do singular (P2) do pretérito perfei- to do indicativo. ser- ve de base para a flexão de verbos regulares e irregulares dos seguintes tempos: ǿǿ Pretérito mais-que-perfeito do indicativo (T2 + ra (re)): cant- a-ra. cant-a-rá-s etc. acrescido das respectivas DMT1 e DNP já vistas.Flexão Nominal e Verbal Em geral.Unidade B . canta-ra-s etc. menos a desinência número pessoal [ste]. conforme o verbo seja de primeira. segunda ou terceira conju- gação. ǿǿ Infinitivo flexionado (T1 + r (re)): cant-a-r-Ø. ǿǿ Futuro do presente do indicativo (T1 + re. ǿǿ Futuro do pretérito do indicativo (T1 + ria (rie)): cant-a-ria-Ø. rá ou rã): cant-a-re-i. cant-a-re-s etc. cant-a-va-s etc. Esse tema serve de base para a flexão dos seguintes tempos: ǿǿ Pretérito imperfeito do indicativo (T1 + va (ve) ou a (e)): cant- a-va-Ø. 96 . o Tema 1 tem a estrutura formada pelo radical e vogal temática. Exemplos: Verbo na P2 do pretérito Tema correspondente perfeito do indicativo Canta-ste [cant-a] escondeste [escond-e] sentiste [sent-i] disseste [diss-e] houveste [houv-e] ouviste [ouv-i] coubeste [coub-e] deste [d-e] passeaste [passe-a] O Tema 2. cant-a-ria-s etc.

isto é. mas do presente do subjuntivo. por que o verbo vir faz o futuro do subjuntivo (eu) vier. por exemplo. caib-a-s etc. Assim. sejam regulares ou irregulares. caib-a. como em [disse ≠ dize]. [coube ≠ cabe]. com a seguinte ressalva: nos verbos regulares e nos irre- gulares fracos. 97 .. Podemos observar. cant- a-sse-s etc. ǿǿ Pretérito imperfeito do subjuntivo (T2 + sse): cant-a-sse. O T2 de vir é vie(ste). se repete nas for. menos a desinência número pessoal [o]. senti-r/senti-ste. Tema 3 Forma do verbo na primeira pessoa do singular (P1) do presente do indicativo. isto é. enquanto o verbo ver faz (eu) vir. essa alo- morfia no tema se mantém nos tempos derivados. ao passo que o T2 de ver é vi(ste). ouvi-r/ouvi-ste e passea-r/passea-ste. das respectivas a análise das estruturas DMT1 e DNP. Tema 1 e Tema 2 são iguais. [houve ≠ have]. ocorre neutralização entre T1 e T2. vamos compreender. temos: verbais não se altera. acrescida. Flexão Verbal Capítulo 04 ǿǿ Futuro do subjuntivo (T2 + r (re)): cant-a-r. Esse princípio se aplica a todos os verbos. Usando esse princí- pio. que sendo o tema diferente do T1. Fututro do subjuntivo (T3 + e ou a): cant-e. em que a vogal temática costuma ser zero. tário sobre imperativo no início deste capítulo). cant-e-s etc. então. [de ≠ da]. obviamente. esconde-r/ esconde-ste. Exemplos: Verbo na P1 do presente Tema correspondente do indicativo canto [cant] escondo [escond] sinto [sint] digo [dig] hajo [haj] ouço [ouç] caibo [caib] Como as formas do im- dou [d] perativo são empresta- das do presente do sub- passeio [passei] juntivo e do presente do indicativo (ver comen- O T3. naqueles em que a irregularidade existe apenas no T3 – que veremos a seguir –. que se mantém no futuro do subjuntivo. Exemplos: canta-r/canta-ste. cant-a-re-s etc.

a DNP [ou] é alomorfe de [o]. 2) caber ǿǿ T1 = cabe-r ǿǿ T2 = coube-ste (daí coubera. dizer. de forma esquemática.) Há neutralização entre a primeira e a terceira pessoa do singu- lar do pretérito perfeito: (eu) coube / (ele) coube. trazer. a saber: ǿǿ T1 = tema de infinitivo (verbo. a seguir. saber. couber. menos desinência número-pessoal [o]) Apresentaremos. menos a desinência modo-tem- poral [r]) ǿǿ T2 = tema do pretérito perfeito (segunda pessoa do singular.Flexão Nominal e Verbal 4.4 Verbos Irregulares ou Desvios do Padrão Geral Já vimos que a flexão dos verbos retoma certos temas. p. No presente. uma síntese dos principais desvios do padrão geral na flexão dos verbos. 98 . 1) estar e dar ǿǿ T1 = esta-r / da-r ǿǿ T2 = estive-ste / de-ste ǿǿ T3 = est-ou / d-ou No pretérito perfeito. Isso acontece também com haver.) ǿǿ T3 = caib-o (daí caiba etc.Unidade B . coubesse etc. querer. com vo- gal temática (é) em vez de (ê): estiv-e-ste / d-e-ste. seguindo de perto e de forma resumida o texto de Monteiro (2002. o tema é da segunda conjugação. 121-134). menos desinência número-pessoal [ste]) ǿǿ T3 = tema do presente do indicativo (primeira pessoa do sin- gular.

Na terceira pessoa do plural do presente do indicativo. *leer → le + φ + r A vogal temática fundiu-se com o [e] do radical. A vogal temática reaparece em: crêem. esvair. exceto do verbo ser. As desinências de cri e li são vazias. *creer → cre + φ + r ǿǿ T1 = [lee] .ou em vez de -o (d-ou). tal como em vendi. retrair. No particípio e na primeira pessoa do singular do pretérito per- feito. ten-des etc. tornando-se zero.a. ocorre alomorfe . estar (est-ou). vin-des. extrair. Em (vós) cre-des. 4) crer e ler ǿǿ T1 = [cree] . os radicais [cre] e [le] reduzem-se a [cr] e [l]. pois o [i] temá- tico é alomorfe de [e]. Cf.o / lei . Flexão Verbal Capítulo 04 3) cair A vogal temática se mantém na primeira pessoa do indicativo e presente do subjuntivo: T3 = cai-o (daí cai-a etc.cf. O mesmo ocorre em lei . Assim devem ser entendidos outros verbos monossilábi- cos: ser. subtrair. ǿǿ T3 = crei . 99 .. atrair. ser (s-ou). contrair. distrair. fenômeno próprio dos verbos monossilábicos. vêem. a DNP é -o e a VT1 é nasal: d-ã-o. sair. já que o [i] (DNP) se funde com o [i] temático: cr + i + φ + i = cr + i + φ + φ 5) dar ǿǿ T1 = [da] ǿǿ T2 = [de] (de-ste) No presente do indicativo. lêem. le-des. Também é assim com trair. pon-des.a: o radical sofre ditongação. [des] é alomorfe de [is].o / crei . ir (v-ou). ver.cf. ter.).

[faze]. fiz / fez. acompanhando os verbos da segunda e terceira conjugações. 9) ir ǿǿ T1 = [i] 100 . No pretérito perfeito. além do radical estej-. [fize]. Convém considerar que não há DNP e o (e) é VT.presente do subjuntivo) No presente do indicativo. Nos tempos futuros. incendiar. [trouxe] ǿǿ T3 = [dig]. por analogia.Flexão Nominal e Verbal 6) dizer. passeio / passeie. mudam o (i) em (ei) nas formas rizotônicas: ansiar. odiar e remediar. [faç]. faz. Cinco verbos em -iar. No presente do subjuntivo. Em casos semelhantes. mediar. tra-φ-re-i / tra-φ-ria. registra os mesmos fatos do verbo dar. apresenta alter- nância vocálica [i] ≠ [ê]. não há VT: pus / pôs. trazer ǿǿ T1 = [dize]. 8) verbos em -ear As formas rizotônicas do presente do indicativo e presente do subjuntivo sofrem ditongação: nomeio / nomeie. apresen- ta DMT1 -a.Unidade B . 7) estar ǿǿ T1 = [esta] ǿǿ T2 = [estive] (estive-ste) ǿǿ T3 = [estej] (estej-a . fazer. (eu) estive / (ele) esteve. [traze] ǿǿ T2 = [disse]. traz. [trag] A vogal temática desaparece na terceira pessoa do singular do presente do indicativo: (ele) diz. fa-φ-re-i / fa-φ-ria. os radicais se reduzem (são alomorfes) e a VT1 é zero: di-φ-re-i / di-φ-ria.

ocorre alternância vocálica [u] ~ [ô] entre primeira e terceiras pessoas do singular. Flexão Verbal Capítulo 04 ǿǿ T2 = [fo] ǿǿ T3 = [v] ~ [va] Presente do Indicativo Presente do Subjuntivo R VT DMP DNP R VT DMP DNP v φ φ ou v φ á φ va i φ s v φ á s va i φ φ v φ á φ va φ φ mos v φ a mos i φ φ des v φ a des vã φ φ o v φ ã o 10) poder ǿǿ T1 = [pode] ǿǿ T2 = [pude] ǿǿ T3 = [poss] No pretérito perfeito. *poer→pôr ǿǿ T2 = [puse] ǿǿ T3 = [ponh] Presente do Indicativo R VT DMT DNP ponha φ φ o põ e φ s põ e φ po φ φ mos pon φ φ des põ e φ m 101 . 11) pôr ǿǿ T1 = [po] Cf.

Flexão Nominal e Verbal No imperfeito do indicativo. Note-se. 12) querer ǿǿ T1 = quere ǿǿ T2 = quise No presente do subjuntivo. a primeira e a terceira pessoa do singular se opõem por alternância vocálica: [u] ~ [ô] (pus ~ pôs). saib-φ-a-φ. 14) ser ǿǿ T1 = [se] — Vogal temática é zero. no entanto. No pretérito perfeito. a vogal temática é zero. pois fundiu-se com o (e) do radical: *seer → ser ǿǿ T2 = [fo] ǿǿ T3 = [e] Presente do Indicativo R VT DMT DNP s φ φ ou é φ φ s é φ φ φ so φ φ mos so φ φ is sã φ φ o 102 .Unidade B . Esse fenômeno também ocorre com venh-φ-φ-o / vinh-φ-a-φ.: punh-φ-a-φ. o radical é alargado com a ditongação do e → ei: quer(o) → queir(a). requeir(o). de requerer. 13) saber ǿǿ T1 = [sabe] ǿǿ T2 = [soube] ǿǿ T3 = [sei] — No presente do subjuntivo. há alternância para [punh]. Ex. Na terceira pessoa do singular do presente do indica- tivo. tenh-φ-φ-o / tinh-φ-a-φ.

cf.cf. o radical [te] reduz-se a [t]: t+i+do Presente do Indicativo R VT DMT DNP tenh φ φ o ten φ φ s tem φ φ φ te φ φ mos ten φ φ des tê φ φ m 16) vir ǿǿ T1 = [vi] cf.φ .a . *teer ǿǿ T2 = [tive] . vi+i+r ǿǿ T2 = [tive] cf.φ 15) ter ǿǿ T1 = [te] . tiveste ǿǿ T3 = [tenh] . Flexão Verbal Capítulo 04 Presente do Subjuntivo R VT DMT DNP sej φ a φ No pretérito imperfeito: er . venh+o Presente do Indicativo Presente do Subjuntivo Pretérito Perfeito R VT DMT DNP R VT DMT DNP R VT DMT DNP venh φ φ o venh φ a φ vim φ φ φ ven φ φ s vi e φ ste vem φ φ φ vei φ φ o vi φ φ mos vi e φ mos vin φ φ des vi e φ stes vê φ φ m vi e ra m 103 .cf. tive+ste ǿǿ T3 = [venh] cf. tenh+φ+φ+o No particípio.

104 . sente. somem Idem consumir Leia mais! Estrutura Verbal. Mecanismo da Flexão Verbal e Desvios do Padrão Geral. In: MON- TEIRO. Normélio. In: ZANOTTO. resolvem c) [i] ~ [é] : repito / repita ~ repetes. 73-89. Morfologia portuguesa. repetem d) [i] ~ [e] : sinto / sinta ~ sentes. elege. estendendo-se para os tempos derivados dessa pessoa. sentem e) [u] ~ [ó] : cubro / cubra ~ cobres. José Lemos. 17) outras alomorfias Há verbos que se desviam do padrão geral porque sofrem alo- morfia na primeira pessoa do singular do presente do indicati- vo. elegem b) [ô] ~ [ó] : resolvo / resolva ~ resolves. Campinas/SP: Pontes. mas sem valor redundante com as desinências: a) [ê] ~ [é] : elejo / eleja ~ eleges. repete.Unidade B . a) {val-} ~ {valh-} b) {med-} ~ {meç-} c) {ped-} ~ {peç-} d) {perd-} ~ {perc-} e) {ouv-} ~ {ouç-} Há casos de alternância vocálica. cobre.Flexão Nominal e Verbal Nos futuros do indicativo. p. 2002. a vogal temática se funde com o (i) do radical: vi+re+i / vi+ria+φ. some. 1986. resolve. Estrutura mórfica da lín- gua portuguesa. Caxias do Sul: EDUCS. cobrem f) [u] ~ [õ] : sumo / suma ~ somes.

Unidade C O Léxico .

.

novos vocábulos são incorporados A título de curiosidade ao léxico da língua. a que se no Diário do Amazonas. em para entender a politicolín- gua. dos tipos e das classes de morfemas e da flexão nominal e verbal. por fim. trataremos da composição. resultado da interação com outras culturas e do ensaio Neologismo: línguas – inclusive o acesso a novas tecnologias e conhecimentos – e. à proibição de uso de es- trangeirismos.uma Existem também na língua muitos vocábulos criados ao longo do piada de português. Quais são Alfomega. ou as possibilidades de formação de no- vos vocábulos têm trilhas mais ou menos previsíveis a serem seguidas? O acervo lexical da língua portuguesa é constituído em sua maio- ria por vocábulos herdados do latim. sugerimos a leitura do texto Taqui pra ti . apresentaremos outros processos de formação de palavras que. apesar de serem bastante produtivos em português. a título de curiosi- dade. 5. são. Exemplos: ǿǿ panela + aço → panelaço ǿǿ re + ter → reter ǿǿ fácil + mente → facilmente 107 . Esses processos de formação de vocábulos são basi. estudaremos a derivação em suas diversas modalidades. dos princípios da análise mórfica. enfocaremos a formação de vocábulos. essas possibilidades? Vale tudo.1 Os Processos de Formação de Vocábulos Cotidianamente. tem-se derivação. de tempo por meio de processos internos. Isso ocorre no ritmo das mudanças pelas quais passa sobre criação de palavras novas. Neste capítulo. como sabemos. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 5 Formação dos Vocábulos Nos capítulos anteriores. aos quais se acrescentaram outros Sobre empréstimos emprestados de idiomas diversos. José Ribamar Bessa Freire. e. lexicais. resultado da criativa e inovadora combinação de formas. às vezes ao de Toledo e a canção sabor de modismos e preferências idiossincráticas dos falantes. em parte. Primeiramente. tratamos dos conceitos básicos da morfologia. em seguida. sugerimos a leitura a sociedade e é. em geral. acrescentam afixos (prefixos e sufixos). de Roberto Pompeu parte. que ironiza o projeto de mas derivacionais. omitidos pelas gramáticas escolares. lei de Aldo Rebelo visando camente dois: derivação e composição. combinando radicais e morfe. publicado Se o vocábulo for formado por um único radical primário.

quando se combinam dois ou mais radicais. por sua vez. Em “Do lado do oriente o horizon- te se cartãopostalizava clássico” (Andrade. que deriva de portinha. mas de porti- nhola. temos composição. que é derivado de respeitar.). Há uma cadeia derivacional.I. 40). ao contrá- rio. as ca. que. de. A análise de vocábulos formados pela adição de dois ou mais morfe- mas derivacionais requer a aplicação da chamada lei dos constituintes imediatos (C. Em se tratando de derivação. 1988. Há. Assim. apud Carone. 108 . p. porta + [inha] + [ola] + [zinha] Seguindo o mesmo princípio. parte do princípio de que as estruturas são combinações binárias. desrespeitosamente é derivado de desrespeitoso. vocábulo derivado de legal. o processo se realiza mediante a adição de um afixo a um radical que pode ou não conter outros afixos. como se demonstra a seguir. podem combinar-se à vontade. que é derivado de respei- to. de dois derivados de carta e posta. A lei dos C. a adição não é simultânea.I. que por sua vez é derivado de lei. que é derivado de respeitoso. M. pois. racterísticas dos prefixos e dos sufixos. o verbo é derivado por sufixação (cart[ão]post[al][iz]ava) sobre um substantivo composto (cartão-postal). que deriva de porta. uma ordem hierárquica. legalização é formado de legalizar. portanto.Unidade C . com raras exceções. no Capítulo II.O Léxico Por outro lado. Exemplos: ǿǿ dedo-duro ǿǿ pau-de-arara ǿǿ beija-flor ǿǿ auriverde Derivação e composição não se excluem mutuamente. A diferença entre prefixos e sufixos não é meramente distribucio- nal. portinholazinha não é derivado de porta. formou-se Sugerimos que você releia. Igualmente.

o sufixo [al] transforma o substantivo forma no adjetivo formal. direção. não podemos excluir in- dividualmente o prefixo ou o sufixo. Conclui-se que a base. Em a + pedr(a) + ej(ar). o sufixo [çã(o)]. Se o vocábulo fosse reformalização. ele seria derivado de reformalizar e não de formalização. o sufixo [iz(ar)] forma verbos a partir de bases adjetivais: formal (adj. é um substantivo (forma) que se transforma em adjetivo (formal). nesse caso. Apesar de os C. Nos verbos parassinté- ticos (ver adiante “derivação parassintética”).I contínuos serem mais freqüentes na língua. tam- bém existem C. foi agregado ao ver- bo formalizar. que exprime ação ou resultado da ação. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 Em formalização. derivado de pedra. Por último. civil + izar → civilizar. que se transforma em verbo (formalizar). descontínuos. Por sua vez. Não existem as formas *pedrejar e *apedra.) + izar → formalizar (cf. o prefixo exprime a idéia de movimento. ágil + izar → agilizar etc.2 Tipos de Derivação O processo derivacional apresenta-se em várias modalidades. em reforço da noção freqüentativa do sufixo.). que se transforma novamente em substantivo (formalização). só pode agregar-se a formas verbais.I. dada uma forma primitiva. O vocábulo primitivo tem seu volu- 109 . real + izar → realizar. uma vez que o sentido do sufixo é reforçado pelo prefixo. teremos as seguintes possibilidades de produzir derivados: a) acrescentando prefixo(s): certo → in + certo = incerto b) acrescentando sufixo(s): certo → cert + ez(a) = certeza c) acrescentando prefixo(s) e sufixo(s): in + certo = incerto + eza = incerteza d) mudando o tema: estudar → estudo e) mudando a classe gramatical: dizer → o dizer Quando ocorre acréscimo de sufixos. com supressão da desinência modo-temporal de infinitivo [r]. as gramáticas costumam usar a expressão derivação progressiva. 5. ou contíguos. pois na língua portu- guesa os prefixos em geral são adicionados a verbos e a adjetivos. No caso. A ri- gor.

do qual se derivam os vocábulos supe- rar. que o vocábulo avos. ao longo do tempo. contra- riedade. Como veremos adiante. formas livres. em que a depreensão dos morfemas derivacionais não é mais possível.Unidade C . se há perda de material fônico. cinco doze avos (5/12) etc. extrazinho). Como tal. Veja-se. contra. portanto. processo distinto da abreviatura. O mesmo se pode afirmar em relação ao acréscimo de mais de um prefixo. radical terciário (radical secundário + sufixo) etc. 110 .1 Derivação Prefixal Há gramáticos e lingüistas que consideram a prefixação um pro- cesso de composição. no segun- do capítulo deste livro. radical secundário (forma primitiva + sufixo). pensamento. Examinaremos. temos casos de derivação texto. usa-se a expressão derivação regressiva. por exemplo. utili- zado nas frações ordinais – um dezesseis avos (1/16).. Veja o item 2. portanto. como. desprendido de oito. resultando. Lembremos que vocábulos outrora derivados. assumiram a condição de raiz. A transformação de formas presas em formas livres também é ates- tada entre os sufixos. contrário. sem perder de vista a sincronia. primária. contrariado. Ao con- trário. Isso se deve ao fato de que certos prefixos torna- ram-se. de ser uma forma livre distinta de mente (substantivo que reporta a intelecto. todos esses tipos de derivação. secundária etc. o sufixo mente.O Léxico me aumentado. Ao contrá- rio. corresponde à forma latina mente (= espírito). na distinção entre radical primário ou raiz (forma primitiva). ou abreviação. Quando se emprega mais de um sufixo. admitindo inclusive a flexão e a derivação (contra → contras. contrariar. o uso de super para designar supermercado é um caso de braquissemia. entendimento) para ser uma forma presa. a seguir.2. extra → extras. 5. Deixou. com sen- tido diverso do original. extra. e o sufixo particulariza o significado da base. superação. alma. que se junta aos adjetivos para formar advérbios.2. contrariamente. O mesmo se pode dizer de super. por exemplo. de- vem ser considerados formas simples e primitivas. – é também o sufixo de oitavo. com perda de elementos no fim do vocábulo.

assume atri- buições gramaticais. p. Outros que não são nem preposições. 2004. certos constituintes que já se empregam como preposições ou como advérbios produzem vocábulos compostos (sobreviver. Exemplos: ǿǿ sal + [ado] → salgado (derivação primária) ǿǿ salgado + [íssimo] → salgadíssimo (derivação secundária) ǿǿ nome + [al] → nominal (derivação primária) ǿǿ nominal + [izar] → nominalizar (derivação secundária) ǿǿ nominalizar + [ação] → nominalização (derivação terciária) 111 . Neste sentido. p. duvidar etc.). c) Disseram na televisão que o povo deseja um terceiro manda- to para Lula. uma forma livre. e não morfemas derivacionais. antigos prefixos devem ser considerados raízes. registra-se o emprego desse vocábulo para outros fins. nem advérbios. como negar algo. etc..2 Derivação Sufixal A derivação sufixal. por exemplo. 5. É o que ocorre. No extremo sul do Brasil. como vimos alhures. maldizer. contragosto. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 Quando uma palavra autônoma. consiste em acrescentar um sufixo a uma base. ou dito de outra forma: um item lexical ou construção sintática assume funções referentes à organização interna do dis- curso (Martelotta et al. – Capaz! Quem pode dizer tamanha besteira? Os fatos acima apontados não impedem que a prefixação seja con- siderada processo de derivação. fazem parte do mecanismo da derivação. 18). menosprezar. aumentando o volume fonético e particularizan- do o sentido. de que deriva o substantivo capacidade. 1996. tal como preconiza a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). 12).2. com o adjetivo capaz. Evidentemente. isto é. Exemplos: a) E os cachorros não passam fome? – Capaz! Deixei um vizinho cuidando deles. Neves. b) Tu és gremista? – Capaz! Odeio esse time. quando se tornam formas livres. diz-se que houve gramaticalização (Cf. contraproducente.

Para que essa hipótese explicativa fique mais clara. Vê-se logo que se trata de um derivado de fuzil. senão pelo mor- fema zero? Outros exemplos de derivação por morfema zero: ǿǿ capim → capim + Ø + ar ǿǿ espuma → espum(a) + Ø + ar ǿǿ confim → confin + Ø + ar ǿǿ cisco → cisc(o) + Ø + ar Também nesses exemplos é clara a relação semântica entres a forma à esquerda e a forma à direita. mas os dois últimos não.O Léxico A) Derivação por Sufixo Zero Assim como existem formas flexionadas marcadas por morfema zero. por exemplo. que entre a forma primitiva fuzil e a forma derivada fuzilar existe um sufixo [Ø]. vamos examinar alguns verbos derivados de flor. sendo uma derivada da outra. pois a terminação -ar é formada pela vogal temática verbal [a] e pela desinência modo-temporal de infinitivo [r]. mas sem um sufixo derivacional concre- to. Observemos. Observemos: ǿǿ flor + ej + ar → florejar ǿǿ flor + esc + er → florescer ǿǿ flor + isc + ar → floriscar ǿǿ flor + Ø + ar → florar ǿǿ flor + Ø + ir → florir Os três primeiros verbos derivados de flor têm sufixo concreto. o vocábulo fuzilar. uma vez que existem formas derivadas sem a presença de morfema aditivo. do mesmo modo é possível estendê-lo ao mecanismo derivacional. sem que exis- ta um morfema derivacional a ser destacado na estrutura secundária.Unidade C . que caracteriza o processo derivativo: fuzil + Ø + a + r. Como explicar a derivação então. 112 . Deduz-se. então.

v. já tinha definido os deverbais como “nomes de ação. v. por exemplo. quanto formas derivadas de verbos (nomes deverbais. 1992. mas. A essa altura. e o verbo palavra primitiva. isto é. o alimento. requerem explicação por meio da hipótese de morfema zero. pois na língua certos substantivos abstratos transformam-se em concretos: o almoço. apesar de não existir um sufixo derivacional concreto. g. todavia. Antes disso. p. Ao contrário. azeitar e escudar são deriva- dos de âncora. derivadas de estruturas com sufixo concreto na derivação primária. nota 4). isto é. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 O princípio do morfema derivacional zero se aplica eventualmente na derivação de formas terciárias. saltar → salto). o salto (do sapato). É o caso.g. de uno. verificar-se-á o con- trário”. dança. Assim. Mattoso Câmara Jr. 133. a conta etc. Lembramos. ou é o contrário que se verifica? Segundo Mário Barreto (1982 apud Kehdi. razão por que é conveniente adotar-se o critério do morfema zero. O morfema zero serve tanto para explicar formar derivadas de no- mes (verbos denominais. ataque e amparo são vocábulos derivados. de dançar. p. cuja derivação de um só pode ser explicada mediante morfema zero. você deve ter percebido que resta um problema a re- solver: ora o verbo é derivado do nome. Como saber o que é primitivo e o que é derivado? Será que luta origina-se de lutar. Em ambos os casos. 113 . fica claro que uma forma é derivada da outra. será palavra derivada. respectivamente. anel → anelar). 23). “se o subs- tantivo denota ação. Monteiro. substantivos abstratos que correspondem a verbos cognatos” (cf. azeite e escudo. que esse critério nem sempre resolve a ques- tão. atacar e amparar. Observemos: ǿǿ forma → form(a) + ato ǿǿ formato → format(o) + Ø + ar No léxico existem outras formas associadas que. 2002. se o nome denota algum objeto ou substância. ora é o nome que é derivado do verbo. de modo seme- lhante. ancorar.

Unidade C . por brevidade de expressão: extra por extraordinário ou extrafino”. a forma derivada apresenta perda fonética na comparação com a forma primitiva. outra em [o].O Léxico B) Derivação Regressiva e Abreviação Às vezes. como vimos. Exemplos: ǿǿ cortar → cort + Ø + e ǿǿ pescar → pesc + Ø + a ǿǿ tratar → trat + Ø + o ǿǿ estudar → estud + Ø + o ǿǿ abater → abat + Ø + e ǿǿ golpear → golp + Ø + e ǿǿ rodear → rodei + Ø + o ǿǿ rezar → rez + Ø + a ǿǿ tosar → tos + Ø + a Há deverbais regressivos com duas formas paralelas: uma com tema em [a]. 114 . “a abreviação consiste no emprego de uma parte da palavra pelo todo. a forma derivada apresenta um volu- me fonético menor do que a forma primitiva. justificando o enquadra- mento como derivação regressiva. convém distinguir os dois processos. 185). mas ainda na linguagem cuida- da. Fenômeno semelhante à derivação regressiva é a abreviação ou redu- ção (não confundir com abreviatura). Exemplos: ǿǿ ameaçar → ameaç + Ø + a / ameaç + Ø + o ǿǿ trocar → troc + Ø + a / troc + Ø + o ǿǿ gritar → grit + Ø + a / grit + Ø + o Em todos os exemplos acima. Segundo Evanildo Bechara (1987. Apesar de alguns autores incluírem a abreviação na derivação re- gressiva. na derivação de nomes deverbais por sufixo zero. p. É comum não só no falar coloquial.

na derivação regressiva ocorre mu- dança de classe gramatical: verbos passam a substantivos. ǿǿ extraordinário (adj. como vimos. ela também pode ocorrer no meio (síncope) ou no começo da palavra (aférese). ou tô por estou.) → sarampo (subst. Os alu- nos costumam chamar o professor de fessô.) Além disso.) ǿǿ sarampão (subst. ou simplesmente ce.) ǿǿ fotografia (subst. a forma derivada permanece na mes- ma classe gramatical. são freqüentes os vocábulos reduzidos. 115 . Exemplos: ǿǿ supermercado → super ǿǿ cinematógrafo → cinema ǿǿ cinema → cine ǿǿ Florianópolis → Floripa ǿǿ telefone → fone ǿǿ poliomielite → pólio ǿǿ quilograma → quilo ǿǿ motocicleta → moto ǿǿ automóvel → auto ǿǿ vice-presidente → vice ǿǿ pneumático → pneu ǿǿ panamericano → pan ǿǿ Belo horizonte → Belo ǿǿ Bilhão → bi Na linguagem oral.) → foto (subst. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 De modo geral. na abreviação. você se transforma em ocê. embora haja redução do vocábulo. ou apenas de sô. Apesar de a supressão de elementos terminais (apócope) ser pre- dominante. ou tamo(s) por estamos etc.) → extra (adj. em substituição a obrigado diz-se brigado. as formas abreviadas não mantêm um padrão homo- gêneo.

Unidade C . além de um sufixo real ou suposto (ver derivação por morfema zero).3 Derivação Parassintética A derivação parassintética consiste na adjunção simultânea de pre- fixo e sufixo a um radical. p. seja viável estabelecer comutações apoiada no testemunho dos falantes ou na analogia com outras derivações. cujo valor semântico é meramente aspectual. estabelece-se uma diferença de sentido entre elas. emprega-se cinema. ǿǿ O cine Guadalajara fechou as portas. Para ele. mesmo não existindo a base como forma livre. na verdade. em geral. de tal modo que a supressão de um ou de ou- tro resulta em uma forma inexistente na língua. Tomemos com exemplo a forma envelhecer. derivada de velho por meio do prefixo [en] e do sufixo [ec(er)]. é. por exemplo. José Lemos Monteiro (2202.2. Às vezes. ao contrário do que afirmam algumas gramá- ticas. 19). 5. na omissão deste. nesse caso. 116 . ǿǿ Vai ao cinema (e não *Vai ao cine). A parassíntese é. um processo de formação de verbos nos quais ocorrem. não tem formação pa- rassintética. Ou como afirma Kehdi (1992. o vocábulo desalmado. uma vez que na formação dos nomes a adjunção de prefixos e sufixos nunca é simultânea. com base no princípio da sincronia. os prefixos [a] e [en]. aparentemente for- mado por parassíntese. O fato de o prefixo ter valor semântico seria o bastante para descaracterizar a parassíntese. O emprego das duas formas é pautado por um critério distribu- cional. Por exemplo. p. tampouco *envelho. cine só é empregado precedendo o nome do cinema. um derivado prefixal. “o exame do subsistema pode também revelar que um determinado vocábulo. Não existe *velhecer. Por outro lado. é possível admitir a existência da prefixação nos casos em que. 135) considera que a parassíntese é um processo que se aplica exclusivamente aos verbos. argu- menta que.O Léxico Ainda uma observação: a forma abreviada pode coexistir com a forma da qual deriva. São vocábulos nos quais prefixo e sufixo apresentam solidariedade formal e semântica.

Assim: ǿǿ a + doc + ic + a + r ǿǿ a + doç + Ø + a + r 117 . a seguir. constata-se a existência do prefixo [a] e do sufixo [ic(ar)]. Situação distinta é aquela em que a adjunção de prefixos e sufixos não é simultânea. pois de cobrir derivou-se descobrir e deste derivou-se descobrimento. De infelizmente. Em adocicar. ambos derivados do ad- jetivo doce. indesejável. citados por Monteiro (2002. * impen- sar). Relacionamos. A ordem derivacional prefixal ou sufixal em geral obedece a certos princípios hierárquicos. mostra-nos que esses adjetivos são todos prefixais”. que é de- rivado de flor. 139). variando o sufixo: ǿǿ mole → a + mol + ent + a + r ǿǿ pedra → a + pedr + ej + a + r ǿǿ tarde → en + tard + ec + e + r ǿǿ morte → a + mort + iz + a + r ǿǿ formoso → a + formos + e + a + r ǿǿ redondo → a + rredond + Ø + a + r Também na derivação parassintética é útil a pressuposição do mor- fema derivacional zero. *indesejar. em que o prefixo se atrela ao adjetivo. no entanto. p. No entanto. Em adoçar.I. conforme já explicamos. o sufixo é zero. Tomemos como exemplo os verbos adoçar e adocicar. e não ao verbo (*inquebrar. tem-se florescer. explicáveis com base na análise dos Constituintes Imediatos (C. A inexistência de *quebrantável e * in-quebrantar tem conduzido alguns a con- siderar inquebrantável como parassintético. outros parassintéticos. por exemplo.). pode-se subtrair o sufixo e temos infe- liz. Antes de se ter reflorescer. o adjetivo inquebrantável. ou podem-se subtrair prefixo e sufixo e tem-se feliz. pode-se subtrair o prefixo e temos felizmente. Em descobrimento não se pode falar em derivação parassintética. a ocor- rência de inquebrável. impensável. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 Tome-se.

citam-se: ǿǿ pronto → a + pront + Ø + a + r ǿǿ largo → a + alarg + Ø + a + r ǿǿ terra → a + terr + Ø + a + r ǿǿ jardim → a + jardin + Ø + a + r ǿǿ grupo → a + grup + Ø + a + r ǿǿ vermelho → a + vermelh + Ø + a + r ǿǿ fino → a + fin+ Ø + a + r ǿǿ quente → re + quent + Ø + a + r ǿǿ fresco → re + fresc + Ø + a + r ǿǿ bainha → em + bainh + Ø + a + r ǿǿ azul → a + azul + Ø + a + r ǿǿ amarelo → a + amarel + Ø + a + r Nos dois últimos exemplos. admite-se que houve crase do /a/ do ra- dical com o prefixo [a]. Não raro o morfema zero aparece depois de outro sufixo. Observa-se. a fim de evitar dúvidas quanto à interpretação de certos fatos.Unidade C . O mesmo se aplica a inúmeros outros verbos parassinté- ticos.O Léxico Esse critério permite explicar de modo coerente que adoçar é deri- vado de doce. no entanto. que há outros derivados de adjetivos que indicam cor sem parassíntese: branquear. o morfema zero deve ser subtendido no radical do vocábu- lo parassintético mesmo quando ele passa a formar um novo derivado. devendo- se aplicar a lei dos constituintes imediatos para a correta análise. formam-se. verdejar etc. Nesses casos a parassíntese ocorre numa base já formada por derivação sufixal. entre os quais. por exemplo: ǿǿ grup(o) → a + grup + Ø + a + r → a + grup + Ø + a + ment + o ǿǿ cas(a) → cas + al → a + cas + al + Ø + a + r → a + cas + al + Ø + a + ment + o 118 . Nessa direção. ǿǿ mato → matuto → amatutar ǿǿ casa → casal → acasalar Rigorosamente.

o prefixo de um parassintético é assemântico. ou seja.) e gramaticalização (todos foram atendidos. d) Na formação dos parassintéticos. tem-se a formação de vocábulos por mudança de clas- se gramatical. convocação.). são adjuntados simulta- neamente à base. se não houvesse o se. (guerra)-relâmpago. c) Retirando-se o prefixo de um parassintético. 29-30) lista as seguintes possibilidades: a) de substantivo próprio a comum: quixote. sejam considerados parassintéticos. (o) brilhante.. Os casos mais freqüentes são de substantivação (o contra. d) de substantivo a adjetivo: (motorista) burro. sem que se processe qualquer alteração mórfica. navio pirata. Bravo!. Ao contrário. consegui um dez. e) de substantivo/adjetivo/verbo a interjeição: Silêncio!.. é discutível afirmar que reverdejar.. subterrâneo. Por isso. este a é um artigo. (o) ouvinte. sobre condicionar. maca- dame.). não restará uma forma livre em uso na língua. os vocábulos parassintéticos apresentam as seguintes características: a) Prefixo e sufixo. champanha. b) de substantivo comum a próprio: Figueira. anda rápido etc. salvo meu pai). tu és o máximo. 119 . b) Em geral. Machado. disse um ai e mais nada etc. Fontes. Viva!. mas também há adjetivação (comício relâmpago. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 Em síntese. o não. Valter Kehdi (1992. requentar. c) de adjetivo a substantivo: (o) circular. predominam os prefixos [a] e [em]. o viajar. Isolando-se o [a] de amanhecer. p. 5. entre outros. adverbialização (ter celular custa caro. isolando o [re] de recondicio- nar. resta *manhecer. é vazio de significação. pombo-correio etc. mesmo que seja zero.4 Derivação Imprópria Além da formação de vocábulos pelo acréscimo ou subtração de afi- xos a um radical.2.

Ou seja. desinência de gênero [Ø]. Sendo substantivo. h) de adjetivo a advérbio: (falar) alto.. diz mais respeito a aspectos de estrutu- ra sintática do que a mecanismos derivacionais. (o) falar. k) de vocábulos invariáveis a substantivos: (o) sim. as noções essenciais sobre a derivação são as seguintes: 120 . (o) porquê. sal- vo. sete teria os seguintes constituintes: raiz [set]. sufi- xo derivacional zero [Ø]. quer. seja. O princípio é de que a palavra convertida a outra classe gramatical passa a ser analisada morficamente de modo distinto da primitiva. desinência de número [Ø]. vogal temática [e]. p. como a pluralização (os sins. os vocábulos admitem ser precedidos de artigo. sete (numeral) constitui radical atemático. Nesses casos. Trata-se de um mecanismo especial que. ora. vista. 146) sugere que os vocábulos substantivados sejam analisados morficamente de modo diverso da palavra primitiva. é no eixo sintagmático extravocabular que se marca a função substantiva. Sendo assim.. hi- póstase (Charles Bally) ou mesmo translação (Tesnière). (o) não. g) de verbo e advérbio a conjunção: quer. os haveres etc.). Monteiro (2002. os processos básicos de deriva- ção. Na substantivação. (teu) andar. (custar) caro. Ocorrendo a substantivação. Neste capítulo.O Léxico f) de verbo a substantivo: estudar (é necessário).. seja. exceto. quan- do substantivo. por exemplo.Unidade C .. a rigor. ora. j) de particípio passado a substantivo e adjetivo: resoluto. mas há quem o denomine conversão (Bechara). examinamos. é bipartível em R + VT: [set] + [e]... i) de particípio (presente/passado) a preposição: mediante. que assume o papel de translativo. também se torna eficaz a alternativa de se considerar a hipótese do morfema zero. Em resumo. ferida. mas. até aqui. A NGB e a maioria dos gramáticos denominam este processo de derivação imprópria. o vocábulo se submete a procedimentos típicos do nome.

. mas de formas secundárias. quebra-nozes. girassol. formado pela combinação de todas as partes. ou pela combinação de bases não-autôno- mas. nos quais se registra um único semantema (raiz. neste capítulo. a adverbialização e a gramaticalização. 5. a regressiva e a imprópria. a adjetivação. ou entre uma base autônoma e outra não-autônoma e vice-versa. 121 . pé-de-galinha etc. Estas. ǿǿ A derivação regressiva e a imprópria devem ser estruturalmen- te interpretadas como processos de derivação por sufixo zero. além do nú- cleo. a su- fixação. o que significa alterar o tema. Vamos ver como se configura essa questão? Composição é um processo de formação de vocábulos novos pela combinação de vocábulos já existentes: porco-espinho. ǿǿ Pelo princípio dos constituintes imediatos. ocor- rem dois os mais semantemas (duas ou mais raízes). ǿǿ Os casos mais comuns de derivação imprópria são: a substanti- vação. a parassíntese. Um aspecto relevante na composição é que os elementos primitivos perdem a significação própria em favor de um novo conceito. as diversas possibilidades de formar vocábulos novos por intermédio de prefixos e sufixos. A seguir. ǿǿ As modalidades principais de derivação são: a prefixação. ǿǿ Os morfes derivacionais acrescentam ao núcleo um significado acessório ou transferem a palavra de uma classe ou função gra- matical para outra. Um substantivo como criado-mudo designa um móvel que não é criado e é mudo tanto quanto uma mesa. apresentam morfes capazes de produzir novos vocábulos. nos processos de composição. um vocábulo com mais de um sufixo ou prefixo não deriva diretamente do nú- cleo. Uma delas é a composição. Ao contrário dos processos de derivação. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 ǿǿ As formas primitivas se opõem às derivadas. ou mesmo alte- rando a classe gramatical. vere- mos que há outras possibilidades de formar vocábulos novos.3 Composição Vimos até aqui. radical primário).

pé-de- moleque. fim de semana). sobre sintagmas fixos. Surge daí uma dificuldade: como distinguir certos vocábulos compostos de simples locuções? Consideremos. Há. 2) A idade média das pessoas aqui é 35 anos.O Léxico uma cadeira.Unidade C . um sofá ou um guarda-roupa. não aceita a inversão. São quatro as propriedades morfossintáticas dos compostos: Primeira Propriedade A ordem dos termos é rígida e entre eles não se pode introduzir ne- nhum outro elemento. veremos o que diz Kehdi (1992). a exemplo dos sintagmas fixos. nada tem a ver com pé ou com moleque. em que nos basearemos para afirmar que em (1) Idade Média é composto e em (2) idade média é locução? Para auxiliar na caracterização dos compostos. 5.3.1 Traços Lingüísticos dos Compostos Os compostos são. O substantivo ganha-pão. vamos nos ater aos aspectos morfossintáticos. Como se observa. Abstraindo a indicação gráfica do uso das maiúsculas. e vice-versa. guarda-chuva é um objeto que se presta a nos proteger da chuva. Graficamente. todavia. elementos este- reotipados que apresentam unidade semântica e morfossintática. vocábulos compostos que mantêm certa relação semântica com o significado dos vocábulos primitivos que entram na sua formação e outros que não apresentam nenhuma relação significativa. hifenizados (mãe-d’água) ou soltos (Idade Média. Por exemplo. vocá- bulos compostos comutam-se com vocábulos simples. e qualquer adjetivo só poderá ser usado à esquerda ou à direita: ǿǿ bom ganha-pão 122 . ao contrário. Visto que sobre os aspectos semânticos dos compostos já falamos. na obra Teoria da Linguagem. com base em estudo de Herculano de Carvalho. por exemplo. os componentes dos compostos podem estar ligados (pernalta). as frases abaixo: 1) Na Idade Média surgiu a lenda do Santo Graal.

no entanto. no entanto. Nesse caso. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 ǿǿ ganha-pão bom ǿǿ *ganha-bom-pão (inaceitável) É essa propriedade que esclarece o caráter de compostos para sin- tagmas como estrada de ferro e bicho grilo. a única substituição possível é o composto por outro composto ou outra palavra simples: mão-de-vaca. O mesmo não acontece em unha-de-fome. fone por telefone. que existem compostos que man- têm a mesma significação. É preciso considerar. conheci um de-vaca. é possível substituir gasolina por álcool. avarento etc. capital por cidade capital. 123 . não só aceita a inversão. conheci um vaca. como também possibilita a inter- calação. isoladamente. garota esperta e inteligente. Essa possibilidade também existe para certos compostos eruditos. Do mesmo modo. como carro à gasolina. não se admite a supressão de uma das partes: conheci um mão. auto por automóvel. considerar que em certos compostos nos quais um elemento é determinante e outro é determinado. o determinante pode assumir o lugar do todo: circular por ônibus circular. Num sintagma livre. inteligente garota. como foto por fotografia. ser substituí- dos ou suprimidos. ǿǿ estrada de ferro nova ǿǿ nova estrada de ferro ǿǿ *estrada nova de ferro ǿǿ bicho grilo inconveniente ǿǿ inconveniente bicho grilo ǿǿ *bicho inconveniente grilo Por outro lado. Segunda Propriedade Os elementos dos compostos não podem. Convém. mesmo com a inversão dos componentes: planalto = altiplano. um sintagma livre como garota inteligente. franco-italiano = ítalo-francês.

3. peixe-boi. 5) substantivo + adjetivo (ou vice-versa): amor-perfeito. 124 . ǿǿ O [Brasil] se mantém neutro sobre o conflito.O Léxico Terceira Propriedade Os compostos podem apresentar construções sintática anômalas. vaivém (vai e vem). está ligado ao outro substantivo “porco” sem auxílio de preposição (porco de espinho). que tem função restritiva em relação ao primeiro. ǿǿ [Toquinho] lembra [samba]. Essa propriedade assegura que o vocábulo composto seja substi- tuído. ǿǿ O [tucano] está feliz. ǿǿ O [joão-de-barro] está feliz. aguar- dente.Unidade C . como se demonstra a seguir: 3) substantivo + substantivo: tamanduá-bandeira.2 Estrutura do Compostos A estrutura dos compostos é bastante variada. ǿǿ [João Gilberto] lembra [Bossa Nova]. arroz-de-festa. Tam- bém não existe conector em azul-marinho (azul e marinho). ǿǿ Gosto de [maçã]. o segundo elemento “espinho”. pai de família. belas-artes. Em porco-espinho. no mesmo contexto. Quarta Propriedade O composto funciona sintaticamente como se fosse uma só palavra. por um vocábulo simples: ǿǿ Gosto de [manga-rosa]. 4) substantivo + preposição + substantivo: pé-de-vento. papel-moeda. por exemplo. ǿǿ A [Arábia Saudita] se mantém neutra sobre o conflito. alto-forno. 5.

não-machadiana. surdo-mudo. o mama-na-égua. guarda-roupa. 10) verbo + verbo (ou verbo + conjunção + verbo): corre-corre. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 6) adjetivo + adjetivo: luso-brasileiro. 12) verbo + advérbio: pisa-mansinho. ou + verbo. beija-flor. a flexão de número desses vocábulos segue os mesmos princípios da concordân. substantivo não concorda com substantivo. relação sintagmática. 5. três-marias. 13) Grupos de vocábulos e construções oracionais: Deus-nos-acu- da. Isso significa que os ele- cia nominal oracional. malmequer. Trataremos dessas regras gerais. Vamos tratar disso agora. Nosso Senhor. que pode ser de coordenação Há duas normas fundamentais de concordância nominal: ou de subordinação. destacamos as princi- pais regras de flexão de número dos compostos: 125 .3. Essa ca- racterística explica muitos casos de flexão de número dos compostos. trigêmeo. ainda que determinante de outro. bem-querer. Todos os exemplos mostram que a estrutura dos compostos é sintática.3 Flexão de Número dos Compostos Se os compostos apresentam uma estrutura sintática. 8) pronome + substantivo: meu-bem. b) um substantivo. 11) advérbio + substantivo (ou + adjetivo. não se fle- xiona para concordar. tragicômico. A partir desses dois princípios interligados. 9) verbo + substantivo: lança-perfume. ganha-pouco. sempre-viva. leva-e-traz. diferentemente do que ocorre com os derivados. Maria-vai-com-as-outras. Vossa Ex- celência. 7) numeral + substantivo: terça-feira. ou seja. vaivém. ou + pro- nome + verbo): benquerença. vangloriar-se. a) apenas o substantivo é regente de concordância. sem entrar no mentos que fazem parte do vocábulo composto detalhamento das exceções e particularidades listadas pelas gramáticas mantêm entre si uma escolares.

Se forem verbos repetidos ou nomes onomatopéicos coordenados. re- comenda-se. excluir o –s no primeiro elemento: (o) treme-treme → (os) treme-tremes. por isso só o último elementos pode flexionar-se (pontapé → pontapés. saca-rolha → saca-rolhas). gato- de-botas → gatos-de-botas). sessão lítero-musical → sessões lítero-musicais). ǿǿ Substantivos / adjetivos coordenados. per- nalta → pernaltas. alto-relevo → altos- relevos. pão-de-ló → pães-de-ló. ǿǿ Verbo determinado por complemento verbal: o complemento pode estar no singular ou no plural (guarda-chuva → guarda- chuvas.O Léxico ǿǿ Substantivo + adjetivo e vice-versa: adjetivo concorda com substantivo (guarda-civil → guardas-civis. pois substantivo não concorda com 126 . ǿǿ Adjetivo formado por adjetivo-adjetivo: flexiona-se apenas o último elemento (acordo luso-brasileiro → acordos luso-bra- sileiros. sem determinância entre si: ambos se flexionam no plural (aluno-mestre → alunos-mes- tres. mula-sem-cabeça → mulas-sem-cabeça. exceto se já é pluralizado na forma- ção da composição (navio-escola → navios-escola. bel-prazer → bel-prazeres.Unidade C . cirurgião-dentistas → cirugiões-dentistas. ǿǿ Verbo determinado por advérbio ou outra palavra invariável: não há flexão nesses casos ((o) bota-fora → (o)s bota-fora. ǿǿ Compostos sem hífen ou com o primeiro elemento apocopado: a falta de hífen impede a inserção de morfemas. surdo-mudo → surdos-mudos). grão-mestre → grão-mestres). ǿǿ Substantivo + (preposição) + substantivo: o substantivo deter- minante não se pluraliza. peso-morto → pesos-mortos). ǿǿ Adjetivo determinado por substantivo ou por outro adjetivo: não há flexão no composto. por questões de eufonia. (o) tico-tico → (os) tico-ticos. (o) cola-tudo → (os) cola-tudo).

esses elementos são formas presas que. De fato. Nova York → no- vaiorquino. Servem de exemplos os vocábulos fidalgo (filho + de + algo → filho + dalgo → fi + dalgo → fidalgo) e embora (em + boa + hora). Rio Grande do Sul → sul-rio-grandense. diz-se que a composição por justaposição ocorre quando os elementos mantêm- se integralmente. inclusive o acento tônico: passatempo. Neste sentido. na aglutinação. convém considerar o vocábulo como primitivo. ao contrário. pernalta. resultam em vo- 127 . 5. com um único acento e há perda fonética no primeiro elemento: boquiaberto. cobra-cega.4 Tipos de Composição A Nomenclatura Gramatical Brasileira e as gramáticas em ge- ral costumam apresentar a aglutinação e a justaposição como aspectos peculiares ou propriedades da composição. isso significa que na justaposição um só vocábulo mórfico corresponde a mais de um vocábulo fonológico. um vocábulo mórfi- co corresponde a um só vocábulo fonológico. tecido azul-marinho → tecidos azul-marinho. na aglutinação os elementos fundem-se num todo fonético. agricultura → agriculturável etc. piso branco-gelo → pisos branco-gelo). técnica e literária. Além disso. gira-mundo. do ponto de vista sincrônico. 2) Compostos também são vocábulos dos quais se derivam outros por meio de prefixos e sufixos: Porto Alegre → portoalegren- se. ao contrário. a distinção entre justaposição e aglutinação é de ordem fonético-fonológica. 3) Na literatura científica. são freqüentes os vo- cábulos formados por elementos greco-latinos. esses fatos não são exclusivos da composição: eles também ocorrem na derivação. combinadas. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 nenhum termo e adjetivo não é regente de concordância. nem adjetivo concorda com adjetivo (casa verde-musgo → casas verde-musgo.3. cabisbaixo. de tal modo que os falantes já não mais reconhecem os elementos que entraram na composição. não morfológica. Em síntese. Em geral. restam três observações finais sobre os compostos: 1) Se o processo de fusão for muito acentuado ou antigo. Dito isso.

panteísmo (todos. Tomemos como exemplo foto. há outros pro- cessos de formação de vocábulos que devem ser levados em conta. oftalmologia (olho). piscicultor (peixe). Trágico. não? Mas etimologicamente explicado.4. governo). foto- montagem (foto + montagem). listados pelas gramáticas. antropófago (que come). megalomania (loucura. 5. de uso especializado.Unidade C . ignição (fogo). Alguns exemplos com raízes gregas: hexacampeão (seis). tudo). centrífugo (que foge).1 Recomposição A recomposição é uma espécie de composição em que se toma uma parte de um vocábulo composto que passa a valer pelo todo e se liga a outra base para formar um novo composto. am- bidestro (ambos). hep- tassílabo (sete). onipotente (todo). A partir dessa base. sabendo que –cida quer dizer “que mata” e uxor quer dizer “esposa”. 128 . oligar- quia (comando.O Léxico cábulos eruditos. ou mesmo o uso de tais morfemas para a formação de neologismos. mais fácil é a compreensão dos vocábulos formados por eles. que passou a ser usado no lugar de fotografia. arborícola (árvore). Sa- bendo o significado desses elementos. Para melhor conhecimento dos vocábulos eruditos. teocracia (deus). sesquicentenário (um e meio). fotonovela (foto + novela). Por exemplo. aurífero (que produz). agrícola (que cultiva). entre outros recompostos. sugere-se o estudo dos radicais – mais propriamente raízes – gregos e latinos. matri- cida (que mata). formam-se fotocópia (foto + cópia).4 Outros Processos de Formação de Vocábulos Além dos processos de derivação e de composição. 5. toponímia (lugar). bígamo (que casa). tendência). Eis alguns exemplos com raízes latinas: crucifixo (cruz). Va- mos ver alguns deles. bem como dos prefixos e sufixos gregos e latinos. com base em Monteiro (2002) e Alves (2007). então uxoricida é “o assassino de sua mulher”.

autopista. Vejamos outro exemplo de recomposição: automóvel (auto + mó- vel) pode ser simplesmente auto. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 O mesmo processo se verifica em televisão (tele + visão). telenotícia. autora- ma. TELEBRÁS. e o elemento restante passa a valer semanticamente pelo todo. O pri- meiro elemento tem o sentido de televisão em vocábulos recompostos.2 Braquissemia Braquissemia (ou truncação) é o emprego de parte de um vocábulo pelo vocábulo inteiro. autovia. mediais (síncope). como: telejornal. o substantivo telecomunicações reduz-se a tele em recompostos como teleconferência. De modo análogo. mas tão somente o significado herdado do grego: “a distância”. nem telecomunica- ções. É resultado da subtração. telecurso. iniciais (aférese) ou. 5. etc. pois nesse caso tele não significa televisão. Em telefone. Exemplos: ǿǿ fotografia → foto ǿǿ telefone → fone ǿǿ motocicleta → moto ǿǿ panamericano → pan ǿǿ automóvel → auto ǿǿ quilograma → quilo ǿǿ pentacampeão → penta ǿǿ cinematógrago → cinema ǿǿ pneumático → pneu ǿǿ bilhão → bi ǿǿ extraordinário → extra 129 . Equivale ao que alguns autores classificam como abreviação vocabular. Daí se formam autódromo. telenovela. auto-estrada etc. há composição apenas. todavia. expressão que não deve ser con- fundida com abreviatura. mais raramente.4. A subtração pode ocorrer nos elementos finais (apócope).

pilantropia (pilantra e filantropia). informática (de informa- ção automática). vamo (por vamos).O Léxico ǿǿ poliomielite → pólio ǿǿ sarampão → sarampo ǿǿ inoxidável → inox ǿǿ São Paulo → Sampa ǿǿ Florianópolis → Floripa ǿǿ europeu → euro A braquissemia é bastante comum na linguagem oral. tá (por está). aniversário e sucesso. com vistas a certos apelos e à criação de expres- sões inusitadas em suas páginas de jornais. niver e su como formas reduzidas de coquetel. isto é. Ser- vem de exemplo: ǿǿ ONU → Organização das Nações Unidas ǿǿ RAIS → Relação Anual de Informações Sociais ǿǿ UFSC → Universidade Federal de Santa Catarina ǿǿ EMBRATUR → Empresa Brasileira de Turismo ǿǿ DETRAN → Departament'o Estadual de Trânsito Incluem-se entre os acrossêmicos os vocábulos conhecidos como amálgamas. magistrípula (magistra e discípula). novelha (nova e velha). utilizam criações léxicas com coq. 5. corgo (por córrego).Unidade C . brigado (por obrigado) ocê e cê (por você). democradura (democracia e ditadura). Servem de exemplo: profi ou fessô (por professor).3 Acrossemia Acrossemia (ou acronímia) é um processo de formação de vocá- bulos por meio da combinação de sílabas extraídas de compostos ou expressões. É um recurso bastante utilizado na formação de siglas. gatosa (gata e idosa).4. Os colunistas sociais. por ser mais espontânea que a escrita e mais sujeita aos princípios da economia da linguagem. brasi- guaio (brasileiro e paraguaio). portunhol (português e espanhol). como motel (motorista e hotel). combinações de partes dos vocábulos. bá (por barbaridade) etc. 130 .

a letra não vale pelo fonema que costuma representar. Os vocábulos acrossêmicos são muitas vezes associados a valores conotativos que as expressões originais não transmitem. CONTRAN. 131 . São exemplos: ǿǿ Transistor → (de transfer resistor) ǿǿ Bit → (de binary digit) ǿǿ Laser → (de Light amplification by stimulated emission of radiation) Em Portugal. desenvol- veu-se a forma SIDA a ǿǿ NASA → (de National Aeronautics and Space Administration) partir da tradução da expressão inglesa. Daí ǿǿ VIP → (de very important person) a forma derivada sido- so. Para km. lê-se adjetivo. ao contrário de certas siglas que não constituem vocábulos autônomos. mas como símbolo da palavra que evoca. ǿǿ Radar → (de Radio detecting and ranging) Convém observar que os acronímicos são vocábulos com autono- mia de significante. lê-se quilômetro. que é sinônima de ǿǿ AIDS → (de Acquired Immunological Deficiency Syndrome) aidético. TSE se pronuncia Tribunal Superior Eleitoral. mobralense. não se pronuncia Conselho Nacional de Trânsito. Vejamos os se- guintes exemplos: ǿǿ GARRA → Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos ǿǿ CORPOS → Centro de Orientação e Reprogramação Psicoorgânica Por fim. resta observar que a abreviatura (ou acrografia) não cons- titui processo de formação de vocábulos. pois são lidos e pronunciados como formas simples e não como as expressões que abreviam. e INSS se pronuncia i-ene-esse-esse. se tiver caráter de idiograma. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 Comuns são os acrônimos produzidos em outras línguas e incorpo- rados ao português como se fossem vocábulos simples. por exemplo. por exemplo. Outro aspecto a considerar é que os acronímicos se organizam em padrões silábicos próprios do português. de MOBRAL. Certos vocábulos formados por acrossemia podem receber afixos derivacionais: de USP forma-se uspiano. Na acrografia. Por exemplo. para adj.

ou tautossilabismo. 132 . coaxar. com os onomatopaicos que se referem a vozes de animais: cacarejar. toc-toc. vovó. blá-blá-blá. por exemplo. uma vez que eles não interferem no e com as línguas de imi- grantes. gluglu.4. notadamente o sistema gramatical. Quando ocorre alternância vocálica ou perda de fonemas. com as línguas afri- canas. sabemos que esse vocábulo não re- produz perfeitamente o som dos relógios.4 Fonossemia A fonossemia consiste em combinar fonemas com o intuito de imi- tar ruídos naturais. mesmo assim fazemos uma imediata associação com ele. Dudu. iaiá.4. papai. Quando dizemos tique-taque. sem alteração de fonemas. cri-cri. ao longo das fronteiras sem causar-lhe danos relevantes. vuco-vuco. miau. lufa-lufa. ainda que não corra perfeita identidade. são ou foram relevantes os contatos Já tivemos oportunidade de ver que o léxico da língua não se amplia com as línguas indíge- somente através dos processos de formação de vocábulos. Isso ocorre.5 Empréstimos ou Estrangeirismos No Brasil. titia. com freqüência. cocoricó. piopio. tem-se a duplicação perfeita: reco-reco. por exemplo. trilar etc. Os vocábulos formados por fonossemia podem. reduplicação ou duplicação silá- bica. também denominado de redobro. nhonhô. nana.Unidade C . tetéia etc. com o espanhol mos de outras línguas também são fontes de enriquecimento do léxico. bem-te-vi. miar. rataplan. ioiô. Os emprésti- nas. Quando os elementos são repetidos integralmente. servir de base para formas derivadas. tem-se a duplicação imperfeita: tique-taque. outras línguas. tem-se um processo específico que se chama duplicação. Outros exemplos: ǿǿ au-au. Se as onomatopéias são constituídas com base em elementos repe- tidos. pipiar. redobramento. ou são introduzidos através dos meios de comunicação. teco-teco. Os empréstimos ocorrem devidos aos contatos com alemão e o italiano.O Léxico 5. cuco. mamá etc. zigue-zague. 5. cri-cri. nhenhenhen etc. Vocábulos assim formados são denomina- dos de onomatopéias. papá. mamãe. xexéu.

acessar. modem. escanear. é um dos mais produtivos em português e se aplica a qualquer base nominal: socialismo. Nessa época. o francês tinha grande prestígio internacional. os elementos gregos tele e auto se unem.). futebol (por football). scan- ner. blog. reset. software.. organismo. windows. devido principalmente ao poder econômico dos americanos em relação a outros países. 133 . o inglês é a língua que se impõe. cd-rom etc. chefes. seja por composição. sectarismo. ao comércio e à produção industrial. nocaute (por knock-out). printar. indianismo. evitan- do-se as dificuldades da integração fonológica e morfológica: high tech- nology → alta tecnologia. seja por derivação. enter. Nesse contexto. mouse. Vejamos. internet. por exemplo. No sé- culo XIX e início do século XX. turnê (por tournée). chefatura. E assim também recebem morfes derivacionais: chefia. buro[cracia] (por bureau) etc. a expressão estrangeira é traduzida literalmente. 5. Os empréstimos também se ajustam às regras flexionais: chef → chefe. prevalecem os empréstimos de línguas de prestígio. em linhas ge- rais. download. além de neologismos derivados como resetar. prevalecem os termos associa- dos às ciências e às tecnologias. Às vezes. Atualmente. Ao invés do /i/ arredondado no final da palavra menu (do fr. muitos galicismos foram incorpo- rados ao português. buquê (por bouquet). à grafia e aos paradig- mas flexionais da nossa língua. conectar etc. Tal recurso é denominado de decalque. Certos vocábulos híbridos ditos eruditos apresentam formação si- métrica com outros formados exclusivamente com elementos gregos. chefiar. pronunciamos /u/. por exemplo. respectivamente. numa adaptação do vocábulo à fonética. aos elementos vernaculizados visão e móvel. quantos vocábulos ingleses relacionados à infor- mática são cada vez mais familiares aos brasileiros: chip. de procedên- cia grega.6 Hibridismos Vocábulos híbridos são aqueles formados por elementos de línguas diferentes. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 Nesse caso. chefa. O sufixo [ismo]. A grafia também se ajus- ta à pronúncia e aos grafemas: tape (por teipe). interconectar. O aportuguesamento dos estrangeirismos consiste. Em televisão e au- tomóvel. auto- mobilismo etc. no entanto. megabyte. chefas.4. dos.

Decímetro (do lat. Para outras informações sobre hipocorísticos. gerimos consulta ao texto Eugênio → Ênio etc. ǿǿ Maria → Mariazinha. João → Joãozito. afetividade resul- tam em hipocorísticos. ǿǿ Sufixação: Manuel → Maneco. Maria → Marinete.com/jolemos. Às vezes. 5.7 Hipocorísticos O estudo dos nomes (prenomes e sobrenomes) de pessoas denomi- na-se antroponímia. Exemplos: ǿǿ Antônio → Tonho. Franquito. Os processos de formação dos hipocorísticos são: ǿǿ Braquissemia: Fernando → Nando. Chicão. Marieta. Danilo → Nilo. Anacleto → Cleto. sultam de alterações morfofonêmicas do nome ou prenome são apelidos. Gilberto → Gil. Cisco etc. por exemplo. decem). visione) de telescópio (do gr. Epitácio → Pita. Tonico. 134 . auto- móvel (do lat. distingue-se de decâmetro (do gr.ge- ocities. Eduardo → Edu. Osvaldo → Valdo. ǿǿ Francisco → Chico. Nhonhô. Totônio etc.geo/. ǿǿ Acrossemia: João Carlos → Joca. Eduardo → Dudu. acessado em 28/02/2008. su. Mari- cotinha. Caludino. Rosita. Marizita etc. scópeo ‘ver’).Unidade C . Totonho. mobile) de autômato (do gr. Nico. Marieta. Os processos de alteração morfofonêmica desses nomes na linguagem familiar para traduzir carinho. Maria Isabel → Mabel. mão ‘agir’). no sentido vulgar. hipocorísticos se transformam em prenomes: Marino. Chiquinho. Marica. Cocota.4. Por fim. Mariquinha. ǿǿ Duplicação: Augusto → Gugu. Maricota. “Regras de produtividade dos hipocorísticos”. deka). Zinha. lembramos que nomes afetivos ou depreciativos que não re- nível em: http://www. dispo.O Léxico embora a significação não seja exatamente a mesma. Francisqui- nho. Marcelino. Maroca. Tinoco. termo geral de que os hipocorísticos são uma espécie. televisão (do lat. Chiquito. Cristina → Cricri. Carlos Eduardo → Cadu.

com grafia alterada): ǿǿ Elefante (extrato de tomate) ǿǿ Hollywood (cigarro) ǿǿ Perdigão (frigorífico. mas com certas peculiaridades. Muitos desses neologismos são es- tranhos aos dispositivos gerais das normas ortográficas e aos padrões silábicos do português. ocorrem os mesmos processos de formação dos nomes comuns. Derivação prefixal: ǿǿ [re] repetição → Recolor ǿǿ [a] ~ [na] privação. composição. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 5. Na formação dos oniônimos. braquissemia e acrossemia. A crescente industrialização e a diversificação das ativida- des comerciais exigem cada vez mais a criação de neologismos para designar novos produtos e marcas. ausência → Agripan.4. aumentativo de perdiz) ǿǿ Camelô (confecções) ǿǿ Q boa (água sanitária) ǿǿ Kibon (sorvete) 135 .8 Oniônimos Oniônimos são nomes próprios referentes a marcas industriais e comerciais. Vamos examinar alguns exemplos de derivação. Estomanol ǿǿ [ox] → Neutrox ǿǿ [ax] → Primax ǿǿ [on] → Diabeton ǿǿ [ite] → Marmorite Derivação imprópria (às vezes. Anfertil Derivação sufixal: ǿǿ [al] → Melhoral ǿǿ [ol] → Fosfosol.

Chevrolet. Yashica. Hewlett Packard. Citröen. 136 . de esbelto) ǿǿ Liubrium (tranqüilizante. de aequilibrium) Acrossemia: ǿǿ Fiat → (de Fabbrica Italiana di Automobili Torino) ǿǿ Nescau → (de Nestlé + cacau) ǿǿ Neston → (de Nestlé + tônico) ǿǿ Brastemp → (de Brasil + temperatura) ǿǿ Cica → Companhia Industrial de Conservas Alimentícias ǿǿ Petrobrás → Petróleo do Brasil Lembramos que muitos oniônimos são estrangeirismos que man- têm a grafia original: Phillips. de fantasia) ǿǿ Esbelt (remédio para emagrecimento.Unidade C .O Léxico Composição (às vezes com elementos greco-latinos): ǿǿ Vinovita ǿǿ Capilotônico ǿǿ Madrevita ǿǿ Sal de Frutas Eno ǿǿ Doce Menor ǿǿ Conhaque de Alcatrão de São João da Barra ǿǿ Cachaça Amansa Corno ǿǿ Sonho de Valsa Braquissemia: ǿǿ Fanta (refrigerante.

In: http://www. São Paulo: Áti- ca.geocities.com/jolemos. 137 . 36-45. Formação dos Vocábulos Capítulo 05 Leia mais! Formação de Palavras. de José Lemos Monteiro. In: CARONE. Regras de produtividade dos hipocorísticos.geo/. 1988. acessado em 28/02/2008. Flávia de Barros. p.

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A NGB. as classes de palavras (também conhecidas como partes do discurso ou categorias lexicais) podem ser definidas com base em critérios morfoló- gicos (propriedades formais). vimos que as classes de palavras são constituídas com base nas formas que assumem. nas funções que exer- cem e. ou mais especificamente a estrutura. distribui os vocábulos em dez classes. os processos de flexão e a formação das palavras. A partir da classificação da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). com base na tradição gramatical greco-latina. a saber: Substantivo Adjetivo Advérbio Verbo Preposição Variáveis Invariáveis Pronome Conjunção Numeral Interjeição Artigo Todavia. 6. Vamos tratar disso nesse capítulo. funcionais e semânticos que devem orientar a classificação dos vocábulos. a tarefa de classificar os vocábulos. mas de um ponto de vista crítico. Dito de outro modo. Cabe-lhe. Monteiro (2002.1 A Classificação das Palavras de Acordo com a NGB Logo no primeiro capítulo. p. de acordo as gramáticas. no sentido que expressam. 225-226) lista as seguintes: 139 . eventualmente. Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo 06 6 Classificação dos Vocábulos Formais Já vimos que a morfologia é a parte da gramática que descreve a forma das palavras. a classificação da NGB tem recebido críticas devido a al- gumas incoerências. discutiremos critérios formais. ainda. sintáticos (função na sentença) e semân- ticos (significado).

retrucou-lhe Joãozinho. a exemplo de eis. também.Unidade C . O problema. 6. esclareceu-lhe 140 . doença. além do fato de que qualquer vocábu- lo pode ser substantivado (o aqui-e-agora. b) Cria uma classe para um único morfema (o artigo) e deixou pecialmente os chamados marcadores discursivos. somente. o substantivo está sendo definido pelo critério semântico. o b. de palavras denotativas.2 Revisando Conceitos A mistura de conceitos e critérios heterogêneos tem levado a defi- nições questionáveis. podem ser também substantivos e adjetivos.O Léxico a) Usa a expressão classificação das palavras. quando apropria- damente deveria usar classificação dos vocábulos. uma questão de ordem filosó- fica. o viver etc. A propósito. quando a rigor são frases de situação: Socorro! Valha-me Deus! d) Mistura critérios heterogêneos. f) Interpreta o grau como flexão. como se fossem distintos dos subs- tantivos e adjetivos. como sabemos. ‘É um ser negativo’. nesse caso. choro. ‘O nada é um ser’. Por outro lado. o sim. Vamos ver algumas delas: ǿǿ Substantivo é a palavra que designa os seres em geral. Assim. Os vocábulos em processo de gramaticalização. há nomes que não se referem a seres (fé. p. disse o mestre de português. ‘É antes um não-ser’. emoção. sentimento. inclassificáveis inúmeros vocábulos e expressões sob o rótulo incluem-se nessa categoria. inclusive etc. es. reproduzo um parágrafo de Macambira (1982. Como se vê. 35): “O Joãozinho perguntou se nada era substantivo. o que teria sido suficiente para enquadrar os advérbios entre as palavras variáveis. como os artigos e os conectivos (preposições e conjunções). opostos a pronomes que. idéia etc. e) Cria a classe dos numerais. e teve como res- posta que sim.). estabeleceu duas classes distintas para substantivos e adjetivos. c) Considera as interjeições como palavras. uma vez que inclui as formas dependentes. é identificar o ser.).

] de certa maneira. baixo. Conclui- se disso que a classificação dos vocábulos é tarefa bastante complexa e 141 . ele tem natureza eminentemente sintática. Além disso. alguns autores mencionam outras noções. p. A esta altura seria necessário evocar o espírito de um grande filósofo para resolver um problema de. nem sempre as circunstâncias se traduzem por meio de advérbios. certos vocábulos que po- dem ser tanto substantivos quanto adjetivos: É melhor amar o bonito (subst. As gramáticas normativas. No estru- turalismo.) discurso. moreno. alto. Aqui valorizamos o belo (subst. português!” ǿǿ O adjetivo é a palavra que expressa qualidade. alegre. Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo 06 o professor. O problema aqui é saber o que significa circunstância. triste. privilegiam o critério semântico na classificação das palavras.). mesmo utilizando todos os critérios. estados ou fenômenos descritos pelo verbo. ǿǿ Advérbio é a palavra que indica uma circunstância. magro... com a diferença de que os advérbios especificam ações.) ≠ Que belo (adj. Há. prevalecem as propriedades sintáticas. o advérbio é algo análogo ao adjetivo.. gordo. “[. privilegiam-se os critérios morfológico e funcional. 1999. ao qual se vincula. no sentido de permitir a expressão ilimitada de conceitos sem a exigência de uma sobrecarga de memória com rótulos particulares” (Basílio. ao passo que na teoria gerativa. por outro lado. heim! Apesar de o significado dos adjetivos ser importante na estrutura lingüística. 80). O conceito ‘qualidade’ é discutível quando aplicado a certos adje- tivos. feliz. Dado um substantivo.. como esta- do. condição etc. pequeno.). estrangeiro. De cer- to modo. não um sapato feio (adj. muitos podem ser os rótulos a ele atribuídos: grande.) do que amar o feio ≠ Quero um casaco bonito (adj. o adjetivo tem a mesma razão de ser dos afi- xos. por exem- plo. Por isso. Um adjetivo sem- pre pressupõe a existência de um substantivo. inteligente etc. defeito. como homem.

então. visões estáticas. 6. sintáticos possíveis em português? e semânticos na classifi- cação dos vocábulos. Os nomes (substantivos e adjetivos) fixam o campo re- 142 . Os verbos atualizam repre- sentações dinâmicas. Talvez seja por isso que os semantemas não se caracterizem como verbais ou nominais. Os nomes são identificados pelas desinên- cias de gênero e número e os verbos pelas desinências modo-temporais e número-pessoais. Ape- nas a flexão indica a dinamicidade dos verbos (temporalidade) ou a esta- ticidade para os nomes (ausência de variação no tempo e no espaço). o substantivo. nomes e verbos seriam aspectos de uma só essência. os pronomes indicam (têm significado dêitico ou anafórico). Em termos semânticos. Tanto é assim que as gramáticas costumam falar em flexão nominal e forma nominal. Os nomes são símbolos. No fundo. Se o vocábulo apresenta forma. Em aceitando-a. Câmara Jr. sintático e semântico entram em conflito em qualquer classificação. os nomes. a palavra que substitui o nome. também o modelo de Mattoso Câmara Com base em critérios morfológicos. As classes perten- cambira (1982) seguem cem ao domínio da morfologia. os pro- nomes. ao domínio da sintaxe. estaremos facilitando o paralelo com o termo pronome. os critérios mórfico. Monteiro (2002) e Ma. A mais evidente parece ser a que divide os vocábulos em variáveis e invariáveis. A terminologia nome é preferível a qualquer outra.. sinais. Fica claro que a oposição entre nome e pronome é mais semântica do que mórfica. nomes e verbos também dizem respeito a realidades distintas expressas pela linguagem. o adjetivo e o advérbio seriam funções. É com base nas desinências que qualquer falante de português de mediana instrução dirá que anfibiólicas é nome e que motejaremos é verbo.Unidade C .O Léxico não é do âmbito restrito da morfologia. (1979) dis- tingue classes e funções. o pronome e o verbo seriam classes. adotando critérios morfológicos. as funções. Enquanto os nomes representam. quais são. no entanto. Entre os variáveis. mesmo sem saber o significado de ambos. Veja o Capítulo 1 função e sentido. verificam-se dois paradigmas distintos: o dos nomes e o dos verbos.3 A proposta de Mattoso Câmara Jr. Com base nos critérios morfo-semânticos. as oposições Jr. O nome.

estará. sendo assim. o primeiro (panos) representa um objeto. Morficamente. fixam o campo mostrativo da linguagem e valem sempre como sinais. é pronome. não se caracterizam pelos proces- sos flexionais. É um verbo. de um advérbio pronominal. representa uma ima- gem mental. pois. o segundo simboliza a temperatura a ele atribuída. será um pronome se apenas situar uma representação no espaço e no tempo. tão somente um sinal. tem a função de advérbio. Trata-se. aquela e cadei- ra não se diferenciam. ao con- trário dos pronomes. As gramáticas costumam relacionar esse vocábulo exclusivamente como advérbio. ou se preferirmos. sem variações temporais. uma vez que as categorias de pessoa. Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo 06 presentativo da linguagem. isto é. na relação entre os termos. Pelo paradigma flexional. ao con- trário. A classe é identificada com base em critérios mórficos e semânticos. de caso e de gênero neutro. não correspondendo a nenhuma imagem mental. Cadeira. ao contrário. Os pronomes. se expressar a representação dinâmica ou processual da realidade. É. Em resumo: uma palavra será um nome se a representação for estática. Cabe. as diferenças entre nomes e pronomes são mínimas. Cadeira é nome e aquela é pronome. 143 . a possibilidade da expressão de grau. pois ambos se submetem às mesmas regras de flexão de gênero e número. Como se pode ver. todavia uma ressalva: existe para os nomes. Isso acontece porque não distinguem classe e função. Mas.). aquela apenas indica que cadeira está afastada do falante. como tal. constituem símbolos. o único vocábulo que marca o tempo é estava (está. Cons- tatamos também que aqui traduz uma indicação de espaço e. Se ao sintag- ma antepusermos o vocábulo estes. No sintagma panos quentes. ou seja. pois de um pronome adverbial. com base em critérios sintáticos. aqui determina o verbo e. A função. de acordo com a relação de interdependência que os termos estabelecem entre si. simboliza um objeto. próprias de certos pronomes. estaria etc. servindo apenas para situar (indicar) o objeto nas coordenadas de espaço e de tempo em relação ao falante. perceberemos que estes nada sim- boliza. Examinemos o enunciado a seguir: Aquela cadeira estava aqui. no entanto. será um verbo se sofrer variações temporais.

No sintagma ver- bal. por exemplo) até o mais complexo (sentença). um mesmo nome poderá assumir cada uma dessas três funções. o verbo é determinado. em Plantei flores e Plantei-as. Exemplo disso ve- mos a seguir. regente) se subordina ao verbo (determinado. As relações sintagmáticas podem ser representadas por palavras sim- ples. (substantivo) ǿǿ O automóvel mais rápido do mundo custa uma fortuna. res- pectivamente. (ad- jetivo) ǿǿ Saiu tão rápido que mal consegui vê-lo. regido). como sabemos. (advérbio) Observemos que o adjetivo (determinante. mas ao sintagma nominal sujeito.Unidade C . em que os termos referentes a bandeira são todos adjetivos: amarela (adjetivo simples) verde-amarela (adjetivo composto) Bandeira do Brasil (locução adjetiva) que me encanta (oração adjetiva) Dito isso. o verbo estavam deter- mina o sintagma aquelas três cadeiras de madeira. o nome (ou o pronome) determina o verbo. Da mesma forma. Dependendo do contexto. pelo nome flores e pelo pronome as.O Léxico Dito isso. regido). desde o mais simples (artigo e substantivo. Em Plantei duas mudas de samambaia. É esse relaciona- mento entre os termos que constitui o sintagma. palavras compostas. regente) se subordina ao substantivo (determinado. Cabe esclarecer que o verbo não determina (não se subordina) ao nome ou a um pronome em si. por locuções e por orações. Exemplo: ǿǿ O rápido sairá em três minutos. Em Aquelas três cadeiras de madeira estavam aqui. a do adjetivo e a do advérbio. constituem classes autônomas de acordo com a NGB? 144 . como ficam os numerais e os artigos que. conclui-se que são três as funções básicas: a do substanti- vo. a que se associa como complemento verbal (objeto direto ou objeto indireto) ou como adjun- to adverbial. o verbo plantei é determinado pelo sintagma nominal duas mudas de samambaia. enquanto o advérbio (determinante.

dúzia. Monteiro (2002. A divisão dos numerais em cardinais (um. Em Dois é bom e três é demais. as) têm origem fracionários sejam substantivos.) diz respeito muito mais ao significado do que às características mórficas e sintáti- cas. o “a” deixaria de ser pronome demonstrativo se o substantivo subjacente fosse explicitado. multiplicativos (dobro.. Comentários análogos podem ser feitos a respeito do artigo inde- finido. b) O artigo é considerado pronome demonstrativo pelas gramá- ticas quando antecede a preposição de ou o relativo que. Exemplo: “A (artigo) constância é a (artigo) virtude do homem e a (artigo) paciência a (pronome demonstrativo) do cristão. o amigo é muito mais do que um amigo. pronome ou artigo. Com base nas gramáticas. Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo 06 Quanto aos numerais. os nomes que traduzem idéias de números são substantivos. segundo.). Sen- do assim.. são substantivos ou numerais. não nas formas pronominais haveria discussão a respeito de se saber se milhão. definido. Vejamos: A (artigo) constância é a (artigo) virtude do homem e a (artigo) paciência a virtude (artigo) do cristão. Assim. terceiro. illas. as. a. são adjetivos. Contudo.” (Almeida Garret).. aspectos de ordem diacrônica. illa.).. três. por exemplo. a. na perspectiva semântica.) e fracionários (meio. o que diferencia artigo e pronome demonstrativo é a presença e a ausência do substantivo. após analisar quos átonos o. A mesma origem têm os pronomes pessoais oblí- A respeito do artigo. dezena. um terço. Parece claro que. triplo. exercem as funções de substantivo e de adjetivo. Se não fossem tais incoerências. um equivale a um 145 . indefinido. ordinais (primeiro. O referido lingüista arrola os seguintes argumentos favoráveis à in- terpretação sincrônica do artigo como pronome: a) O artigo apresenta uma função dêitica que é percebida pelos falantes no ato de fala. enquanto os O artigo o e suas flexões (os. 223) sustenta.. não é difícil concluir que pertencem à classe dos nomes e. Já em Só tenho dois reais e três centavos. dois quartos. quín- tuplo. O primeiro é conhecido. illos. um pode ser numeral. o segundo é um qualquer. embora os ordinais sejam essencialmente adjetivos.. os.. que são pronomes. entre latinas illu (illu → illo → ilo → lo → o). dois. p.. outros quantitativos. como tal.

sem que um seja determinante do outro. Em resumo. o elemento de ligação será uma conjunção coordenativa. Podemos observar que em João e Maria não existe qualquer relação de dependência sintática. o conectivo liga duas orações coordenadas. falso ou verdadeiro. o conectivo se presta tão somente para agrupar um termo com outro. A frase Um ho- mem é capaz de amar pode ser substituída por Qualquer homem é capaz de amar.O Léxico indefinido. Visto que promovem a conexão entre dois outros termos. Com isso. apresentam um significado dêitico. haven- do uma seqüência ligada por conectivo. sendo substituível por algum. jogar com vontade etc. são de fato pronomes. ganha-se em coerência descritiva e evita-se ter uma clas- se para dois vocábulos. De modo semelhante. cuja função essencial é estabelecer relações entre palavras. qualquer etc. cozido. certas formas dependentes. embo- ra a previsão de tempo fosse outra etc. ainda. sem que haja concordância nominal ou verbal. A relação de subordinação entre orações é feita por conjunções subordinativas: Quero que venhas logo. são sempre adjetivos (subordinam-se a um substantivo). Ou seja. Esse é o papel das pre- posições e das conjunções. A relação de subordinação entre vocábulos e locuções é feita por preposições: óculos de grau. quanto à perspectiva sintática. são de fato conectivos. Veja no Capítulo 1 Restam.Unidade C . Se a conexão faz com que um termo seja determinante de outro. quanto à perspec- tiva semântica. A carga foi descarregada assim que chegou ao destino. dizemos que o conectivo é coordenativo: tu e eu. mas sem sabor etc. Se. comportam-se como os nomes (flexionam-se em gênero e número). ao contrário. em Leia este livro e faça o resumo. dizemos que o conectivo é subordinativo. sem prejuízo ou distorção do sentido. estabelecendo entre eles uma re- lação de coordenação. confia no ami- go. Ou seja. sem que haja dependência sintática. Faz muito calor. não há razão de considerar os artigos uma classe por- que vistos sob a perspectiva mórfica. 146 . O conectivo “e” está ligando vocábulos da mesma classe e função. escrever a lápis. formada por vocábulos ou por orações.

29-122. ǿǿ Substantivos. ǿǿ Há duas classes fundamentais. Estrutura da língua portuguesa. p. 1979. 147 . enquanto os verbos traduzem representações dinâmicas. sendo assim. Petrópolis/RJ: Vozes. São Paulo: Pioneira. São. José Rebouças. Monteiro (2202. Classificação dos Vocábulos Formais Capítulo 06 Sobre a classificação de vocábulos. 1982. funções que os nomes e pronomes exercem em contextos frasais. Também podem relacionar ele- mentos da mesma função (conjunções coordenativas). ǿǿ Os artigos são pronomes. na verdade. ǿǿ Os conectivos subordinam palavras (preposições) ou orações (conjunções subordinativas). adjetivos e advérbios não são classes gramaticais. A Classificação dos Vocábulos Formais. é impossível explicar as classes de palavras. 77-80. Joaquim M. A estru- tura morfo-sintática do português. os no- mes correspondem a uma visão estática da realidade. MACAMBIRA. que se opõem pelos paradigmas flexionais. p. ǿǿ Os numerais fazem parte da classe dos nomes e. p. ǿǿ Os pronomes distinguem-se dos nomes porque aqueles expres- sam um significado dêitico ou anafórico. podem ser substantivos ou adjetivos. Leia mais! A Classificação dos Vocábulos. a dos nomes e a dos verbos. sempre em função adjetiva. Semanticamente. In: CÂMARA Jr. 235) faz o seguinte resumo das idéias: ǿǿ Sob o enfoque estritamente morfológico.

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nas funções que exercem e. no sentido que expressam. É um recurso bastante utilizado na formação de siglas. de tal modo que a su- pressão de um ou de outro resulta em uma forma inexistente na língua. Classe: distribuição dos vocábulos em grupos com base nas formas que assumem. Equivale ao que alguns autores classificam como abreviação vocabular. Derivação imprópria: formação de palavras por mudança de classe gra- matical.Glossário Acrossemia: processo de formação de vocábulos por meio da combi- nação de sílabas extraídas de compostos ou expressões. Quando há mais de um morfe para o mesmo morfema. Composição: processo de formação de palavras pela combinação de dois ou mais radicais. Alomorfia: ocorrência de morfes diferentes para realizar o mesmo mor- fema. eventualmente. expressão que não deve ser confundida com abreviatura. Derivação parassintética: processo de formação de palavras pela adjun- ção simultânea de prefixo e sufixo a um radical. sem que se processe qualquer alteração mórfica. Comutação: operação contrastiva de elementos segmentados no plano da expressão de que resulta uma alteração no plano do conteúdo. Alomorfe: variação na realização do morfe. ocorre alomorfia. Composição por justaposição: processo de composição sem alterações fonéticas nos constituintes. 149 . Braquissemia: emprego de parte de um vocábulo pelo vocábulo inteiro. Composição por aglutinação: processo de composição no qual ocorre alteração fonética no(s) constituinte(s). Derivação: processo de formação de palavras pelo acréscimo de prefixos (derivação prefixal) ou de sufixos (derivação sufixal).

Desinência verbal: morfe aditivo em posição final que representa. o modo e o tempo (desinência modo-temporal) e o número e a pessoa gramatical (desinência número-pessoal). É vocábulo classificado como palavra. Fonossemia: formação de palavras pela combinação de fonemas com o in- tuito de imitar ruídos naturais. porque tem significado por si só. nos verbos. As preposições. mas não é palavra. Estrutura lingüística: feixe de relações internas (articulação) que dá aos elementos lingüísticos (as formas) sua função e sentido. Diacronia: estudo da língua na perspectiva da evolução de um estágio a outro. Derivação regressiva e abreviação: processo de derivação de palavra no qual ocorre perda fonética na comparação com a forma primitiva. Desinência nominal: morfe aditivo em posição final que representa. os artigos e alguns pronomes pertencem a essa categoria. ou o plural em oposição ao morfema zero do singular. Não expressa idéia externa à língua. com vistas a identificar e descrever as mudanças ao longo de um período de tempo. Forma: define-se como um ou mais fonemas providos de significação. Derivação por sufixo zero: processo de derivação de palavras sem a pre- sença de morfema aditivo. as conjunções. Empréstimo ou estrangeirismo: vocábulo emprestado de outras línguas e incorporado ao léxico. nos nomes. pois não tem significado próprio. Forma é um elemento lingüístico do qual se abstrai a função e o sentido. 150 . Pode ser usado como resposta a uma pergunta. o gênero feminino em oposição ao morfema zero do masculino. Flexão: acréscimo de morfes em posição final para realizar oposições gramaticais entre os nomes e pronomes (flexão nominal) e entre os ver- bos (flexão verbal). Forma livre: constitui uma seqüência que pode funcionar isoladamen- te como comunicação suficiente. Forma dependente: vocábulo formal. ainda que não ocorra perfeita identidade.

Forma presa: forma que só tem função quando combinada (ligada) com
outra(s) forma(s). É o caso, por exemplo, dos prefixos, dos sufixos e das
desinências.

Função: é o papel que as formas lingüísticas assumem na relação que se
estabelece entre elas, ou seja, na estrutura lingüística.

Gênero: noção gramatical que se atribui a todos os substantivos. Não
se confunde com sexo, embora também se preste para opor seres asse-
xuados.

Gramaticalização: processo de mudança lingüística no qual um vocábu-
lo autônomo, ou seja, uma forma livre, assume atribuições gramaticais.

Hibridismo: Vocábulo formado por elementos de línguas diferentes,
seja por composição, seja por derivação.

Hipocorístico: alteração morfofonêmica de antropônimos (nomes de
pessoas) na linguagem familiar para traduzir carinho, afetividade.

Morfe: realização concreta de um morfema. Pode ser um simples fonema,
uma sílaba, ou uma combinação de fonemas e sílabas. Uma unidade for-
mal será um morfe sempre que tiver um sentido lexical ou gramatical.

Morfe alternante: segmento do vocábulo que representa a oposição
morfológica em relação a outro morfe.

Morfe homônimo: morfe que representa diferentes morfemas.

Morfe redundante: o morfe será redundante (ou submorfêmico) sempre
que reforçar uma oposição marcada por morfe aditivo.

Morfema: unidade mínima da estrutura do vocábulo dotada de sentido.
Os morfemas são as menores unidades significativas que podem cons-
tituir vocábulos ou partes de vocábulos. É uma entidade abstrata que se
concretiza, na estrutura de uma palavra, através do morfe.

Morfema categórico: sufixo flexional (SF) ou desinencial (SD), que ex-
pressa categorias gramaticais.

Morfema classificatório: morfema representado pelas vogais temáticas.

151

Morfema cumulativo: morfe que representa a fusão de dois morfemas.
Em português, os morfes cumulativos são representados, principalmen-
te, pelas desinências modo-temporais e desinências número-pessoais.

Morfema derivacional: afixos (prefixos e sufixos), através dos quais é
possível criar (derivar) vocábulos novos.

Morfema relacional: vocábulo dependente, isto é, vocábulo sem auto-
nomia mórfica, que não constitui por si só um enunciado, tais como
preposições, conjunções e pronomes relativos.

Morfema zero: morfema que se realiza por meio da ausência de morfe.

Morfologia: parte da gramática que descreve a forma das palavras. Es-
tudo da estrutura interna das palavras. Estudo dos morfemas e seus
arranjos na formação das palavras. Aborda os processos nos quais se
acrescenta, se substitui, se subtrai, se duplica um segmento a outro(s) já
existente(s) para modificar o sentido.

Mudança morfofonêmica: alomorfia condicionada fonologicamente,
isto é, mudança no sistema fonêmico do vocábulo com repercussão no
sistema mórfico.

Número: noção gramatical que distingue um elemento (singular) de
mais de um elemento (plural).

Oniônimo: nome próprio referente a marcas industriais e comerciais.

Palavra: unidade formal da linguagem que, sozinha ou associada a ou-
tras, pode constituir um enunciado. Alguns autores reservam o termo
palavra somente para vocábulos que apresentam significação lexical, ou
extralingüística.

Prefixos: morfemas derivacionais que ocupam posição anterior à raiz,
modificando o significado do vocábulo primitivo.

Radical: parte do vocábulo formada pela raiz e pelos afixos derivacio-
nais. Se o radical não tiver morfema derivacional (prefixo ou sufixo),
será radical primário; caso contrário, se houver um morfema derivacio-
nal, será radical secundário; se tiver dois morfemas derivacionais, será
radical terciário, e assim sucessivamente.

152

Raiz: elemento irredutível comum a todos os vocábulos da mesma famí-
lia . É o morfema sobre o qual repousa a significação lexical básica. Equi-
vale a semantema, ou lexema, ou radical primário, ou forma primitiva.

Recomposição: espécie de composição em que se toma uma parte de
um vocábulo composto que passa a valer pelo todo e se liga a outra base
para formar um novo composto.

Sentido: o sentido pode ser externo à língua (sentido lexical) ou interno
(sentido gramatical).

Significado dêitico: atribuição própria dos pronomes e de certos advér-
bios pronominais de indicar sujeitos e objetos na interação discursiva.

Sincronia: estudo de um estado de língua, num determinado momento
de sua evolução.

Sufixo: morfe aditivo que sucede a raiz. Pode ser derivacional ou cate-
górico.

Tema: conjunto formado pelo radical do vocábulo mais a vogal temáti-
ca. Nesse caso, o vocábulo será temático. Se o vocábulo não tiver vogal
temática — radicais terminados por consoante ou vogal tônica —, en-
tão o vocábulo será atemático.

Vocábulo: tem sentido mais amplo do que palavra, pois além das formas
que têm significação lexical ou extralingüística (formas livres), inclui as
formas com significação gramatical (formas dependentes) e o conceito
de vocábulo fonológico.

Vocábulo fonológico: inclui os vocábulos formais em geral e a combina-
ção de vocábulos formais, sempre que ocorrer perda de marca fonológi-
ca que indique a delimitação entre vocábulos na corrente da fala.

Vocábulo invariável: aquele que não se submete aos processos de flexão.

Vocábulo variável: aquele que se submete aos processos de flexão nomi-
nal e verbal.

Vogal temática: vogal que ocorre depois do radical e antes das desinên-
cias. Essa vogal é sempre átona nos nomes e tônica nos verbos, quando
no infinitivo.

153

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