Introdução à teonomia

Desprezada pelos seminários e subestimada pelas mais capacitadas mentes teológicas
brasilinas, a teonomia torna-se, todavia, o bode expiatório favorito dos seus algozes. Os
antinomianos, fundamentados apenas por seu sentimentalismo pueril, acusam os defensores
da lei pelos mais variados títulos difamatórios que evoluem desde ‘totalitários’ e ‘ideólogos’
até ‘radicais’ e ‘extremistas’. Não encontramos, é claro, nenhuma crítica substancial a
nenhuma afirmação do Rushdoony. Não encontramos refutações sérias a nenhuma das
doutrinas consideradas basilares da ordem social cristã na visão reconstrucionista.
Encontramos apenas os gritos vazios e os gemidos atrozes de desaprovação infantil como o
encontramos em crianças famintas frente a legumes no almoço.

O que chamamos de teonomia pode ser definido de forma simples como: a lei de Deus, do
antigo e novo testamento, deve ser o nosso único padrão de medida moral. Apenas isso.
Simples, não?! Mas o que assusta os nossos adversários é a pressuposição implícita em nossa
proposição, de que não existe uma diferença substancial entre a ética do antigo e do novo
testamento, mas, mesmo em meio as duas alianças gerais e as diversas alianças particulares,
subsiste um mesmo padrão de moralidade universalmente válido, tanto para o povo da aliança
quanto para os pagãos. Além disso, e é isso o que mais deixa os nossos detratores de cabelo
em pé, existe um outro, mas também importante, pressuposto abraçada pelos teonomistas, o
de que as leis chamadas de civis da comunidade do antigo pacto também fazem parte do
cânone ético já citado.

Pronto, depois de expor doutrinas tão horrendas, o leitor já se sente à vontade para me olhar
ceticamente e, imbuído com um sentimento de pura pedância adolescente, rejeitar-me como
louco e herético. Mas permita dizer que não estou só nessa empreitada. A confissão de La
rochelle, escrita em 1559, na França, tendo trinta e cinco de seus artigos escritos por João
Calvino, Theodore Beza e Viret Pierre, e o restante escrito por uma equipe de delegados
moderados por François de Morel, assinalava o seguinte sobre o ofício dos magistrados:

“Com esse fim, Deus pôs a espada na mão dos magistrados para reprimir os pecados
cometidos não somente contra a segunda tábua dos mandamentos de Deus, mas também
contra a primeira. ”

Interessante, não?! Talvez isso não possua tanta força retórica para o evangélico
brasiliano, que abraça, de forma dogmática e confessional, o credo da irrelevância das
confissões. Mas a simples assertiva de que homens tão importantes do passado discordavam
de nossos pressupostos modernistas, deveria nos fazer desconfiar de nossos dogmas e fazer
tremer nossas certezas. Contudo, não somos papistas! Não baseamos nossas crenças apenas
no falível tribunal da tradição, mas redimimos nossas certezas pelo infalível tribunal da
revelação. Aplicamos, é claro, o clássico princípio do Scriptura Scripturae interpres. E isso é o
que faremos agora.

Nossa defesa está baseada em alguns versículos, um raciocínio lógico e uma pergunta. Os
versículos são esses:

será chamado o menor no reino do céu. desobedecer a um desses mandamentos. até que tudo se cumpra. e assim ensinar aos homens. Daí é que surge a nossa pergunta: em que parte do novo testamento as leis civis e morais foram revogadas? . aquele. que todas as leis devem ser consideradas como normativas. mas cumprir. “ Mateus 5: 17-19 Deste versículo nós concluímos. “ Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. porém. de modo nenhum passará uma só letra ou um só traço da Lei. que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino do céu. como um princípio geral. Daquele versículo e deste raciocínio nós podemos fundar uma nova conclusão: todas as leis do antigo testamento devem ser consideradas como normativas. não vim abolir. decidir revogar alguma lei. O raciocínio é esse: se Deus constitui uma lei. por menor que seja. exceto quando Deus. de forma clara e inequívoca. Quem. apenas ele tem autoridade para revoga-la. Pois em verdade vos digo: Antes que o céu e a terra passem. portanto.