ABUSIVIDADE DE JUROS DE EMPRÉSTIMO

SENTENÇA

Vistos etc.

Dispensado relatório, nos termos do art. 38 da Lei nº 9.099/95.

DECIDO.

No mérito, a queixa versa sobre a existência de dívida referente a contrato de empréstimo realizado
com o réu, pleiteando a parte autora, em síntese, a cobrança do valor real da dívida, aplicando-se
tão-somente os juros legalmente previstos.

Face aos documentos acostados aos autos, resta demonstrado e comprovado o excessivo taxamento
da cobrança de multa e juros extravagantes que ferem o CDC.

Depreende-se, assim, dos autos, que a dívida da parte autora foi exacerbada com a cobrança de
juros indevidos lançados ao bel prazer da parte ré, que, valendo-se de um contrato de adesão impôs
taxas e encargos excessivamente onerosos, com base em cláusulas leoninas, não claramente
informadas ao consumidor, com todas as suas especificações.

Ora, é evidente a capitalização de juros, fixação de taxas de juros acima dos patamares legais,
obtenção de lucro abusivo e utilização de indexadores que não representam a verdadeira perda do
poder aquisitivo da moeda, visto que, além de corrigir, remuneram o dinheiro, sem que isso seja
informado ao consumidor:

Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de crédito ou concessão de
financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá, entre outros requisitos, informá-lo prévia e
adequadamente sobre:

II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;

Tal procedimento configura-se apropriação indébita, havendo violação do contrato firmado com a
parte autora. Diante da suficiência dos elementos dos autos para análise da questão, faz jus a parte
autora à devolução dos valores pagos a maior, de modo que não há dúvida de que a empresa
acionada transgrediu aos preceitos de proteção ao consumidor.
A continuar a incidência dos encargos, em pouco tempo teria surgido a falência civil
do reclamante, com gravíssima repercussão pessoal, familiar e social.
Vê-se, desta forma, que não há dúvida que a exacerbação dos juros evidenciam que a parte autora
teve a sua dívida excessivamente onerada, gerando desequilíbrio na relação contratual, colocando a
contratante à inteira mercê da demandada, de modo que é evidente que em tais casos, os agentes
econômicos são tão agressivos no mercado que, sob a ótica do micro sistema jurídico criado para

192. principalmente porque não se admite que o mercado seja considerado. há a necessidade da intervenção do Estado-Juiz para assegurar igualdade das partes. Ainda.proteger a parte hipossuficiente nas relações de consumo. abusivas ou que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada. que prevê juros de 1% ao mês. ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade. fato este que provavelmente provocará avalanche que sepultará o devedor. as Turmas Recursais assim já se manifestaram: ?. variação do preço de maneira unilateral. por oportuno.. O índice utilizado pela instituição financeira está fora da realidade jurídica do ordenamento pátrio. de juros. 52. em seu art.. critério este que produz inúmeras polêmicas... . autoriza a declaração de nulidade de qualquer disposição contratual que não assegure justo equilíbrio entre direitos e obrigações das partes ou permita ao fornecedor. o Código de Defesa do Consumidor permite a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou a sua revisão em razão de fato superveniente que as tornem excessivamente onerosas. da Constituição Federal de 1988. com redação dada pela lei 9298/96. § 1º do CDC. Desta forma. que a multa moratória deve ser fixada em até 2% do valor da prestação em atraso. em que pese a acionada alegar que a autora tinha pleno conhecimento do saldo devedor. § 3º. multiplicando-a. sobretudo no que tange aos PACTOS DE ADESÃO . pois afronta o citado artigo da Constituição Federal. IV. Ademais. ? JECIT-TAM-00791/02 ? JUÍZA HELOÍSA PINTO DE FREITAS GRADDI. direta ou indiretamente. A norma do CDC estabelece que não podem vigorar disposições contratuais ? ainda que convencionadas entre as partes. em especial depois da revogação do art. conforme reza a norma do Código do Consumidor. 406 do Novo Código Civil estabelece que. multa e outros encargos contratuais. estando justificada a decretação de nulidade das respectivas cláusulas. regra geral. isto não significa que a demandada possa efetuar a cobrança excessiva. ao menos no plano jurídico. a tendência do Poder Judiciário sempre foi a de re-equilibrar o contrato. Certo é que a equidade.como na contratação empréstimos ou dívidas de cartões de crédito ou cheque especial que estabeleçam obrigações consideradas iníquas. 51. o Art. Registre-se.?. 161 do CTN. venha o credor a onerar a dívida em tal patamar. A aplicação dos seus percentuais contratuais é ilegítima. os juros serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos a Fazenda Nacional (taxa CELIC). Não é plausível que em economia estável. com aplicação dos juros de mercado. A solução é aplicar a regra geral do § 1º do art. lato sensu. consoante determina o Art. configurando-se exagerada a vantagem que se mostre excessivamente onerosa para o consumidor. como um ente sem força dinâmica para movimentar-se economicamente. como ocorre no plano real. Sobre o tema. exigida nesse diploma legal. Nesta linha de entendimento.

vedada pelo CDC. Sem custas e honorários advocatícios. 405 do CC/02). Assim. sobretudo ao conteúdo da lei maior. em favor da parte Autora. multa moratória de 2% e correção monetária pelo INPC. os pedidos formulados na peça exordial. e julgo. .1995. de forma simples. devendo computar os pagamentos efetuados durante a vigência do referido contrato e após a propositura da ação. antes da propositura da ação.099. ressalvando que a correção monetária. aplicando-lhe juros de 1% ao mês. procedente. configura desvantagem excessivamente onerosa ao consumidor. cuja revisão somente se opera a partir da pretensão deduzida pela parte Autora neste feito. deverão ser restituídos a parte requerente.00 (. por sentença. REGISTRE-SE. para declarar revistas as cláusulas contratuais que estipulam os índices de juros capitalizados. uma vez que se trata de relação consumerista.). bem como as demais legislações vigentes. sob pena de multa diária no valor de R$ 50. acaso apurado valores remanescentes. art. INTIMEM-SE. PUBLIQUE-SE.Ressalte-se. já que entendia estar amparada nos termos do contrato firmado. a parte Autora efetuava o pagamento regularmente. acaso existente. com fundamento no quanto exposto. para hipótese de valores em favor da parte Autora. 2002. para o cumprimento da obrigação de fazer. aplicando-se o quanto determinado na presente sentença. devendo ser levado em consideração o consumidor hipossuficiente. EXPURGANDO a capitalização mensal de juros relativa ao contrato sub judice. (Lei nº 9. sem qualquer manifestação de onerosidade. 402 do Novo Código Civil. 55). INTIMEM-SE. em verdade estaríamos chancelando um verdadeiro enriquecimento sem causa. REGISTRE-SE.. deverá ser aplicada a partir desta decisão. Fixo.. e os juros de mora a partir da citação (art. Efetivamente. acaso não apresentada a respectiva planilha. pois entendo que. o prazo de dez dias. que a cobrança de juros em percentual superior a 12% ao ano. em parte. PUBLIQUE-SE. multas e encargos acima do patamar legal.09. a dívida da parte autora não pode ser alterada em patamares tão altos e ao prevalecer o entendimento da acionada. 26. condenando a parte Requerida a apresentar PLANILHA DE RE- CÁLCULO com o saldo devedor nominal da parte Autora. nos termos do Art.

Salvador. que julgo PROCEDENTE EM PARTE o pedido. 24 de maio de 2013 Carlos Raul Brandão Tavares Juiz Leigo Fica convalidada a proposta de sentença acima. .