O “imperialismo total” na análise de Florestan Fernandes.

Luiz Alexandre B. Pinto Jr1

1. INTRODUÇÃO

A formulação de Florestan Fernandes sobre o surgimento do capitalismo no
Brasil representa, ainda nos dias atuais, a nosso ver, uma das principais guinadas dadas
pela teoria social rumo à compreensão da realidade brasileira como um processo
histórico em desenvolvimento. Sua teorização desenvolveu uma “imagem” própria de
como o Brasil se insere no processo de consolidação do capitalismo a nível mundial,
tematizando, contudo, também as principais conexões e causalidades que
possibilitaram o desenvolvimento de tal “padrão de civilização” no interior do conflito
nacional, na dinâmica de classes, especificamente2.

Isso não se deu por acaso. Florestan inicia sua carreira universitária na cátedra de
Sociologia I da USP reunindo atrás de si uma série de estudos que não se dedicavam
tanto ao debate do desenvolvimento do capitalismo como se dedicavam às discussões
de teorias sociológicas e às análises antropológicas3. Contudo o tempo histórico
demandava de uma Sociologia que pretendia cada vez mais se afirmar como científica,
respostas para as questões colocadas no embate público. É pensando justamente
nesse debate que se iniciam as principais contribuições de Florestan e de seu grupo de
assistentes à discussão do desenvolvimentismo4. Através de um diálogo fértil e crítico
com as principais teorias e vertentes do estudo da situação do capitalismo brasileiro,
analisado das mais variadas formas por teóricos do ISEB, da CEPAL, do PCB, da Teoria
da Dependência, dentre outros, nosso autor elabora uma interpretação própria e
original sobre uma forma de capitalismo que se desenvolve na periferia do sistema, o
capitalismo dependente.
1
Aluno de mestrado do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais UNESP/Marília.
2
A ideia da formulação de uma “imagem” do Brasil na obra de alguns autores seminais no pensamento
social brasileiro foi desenvolvida por Carlos Nelson Coutinho em um artigo onde justamente comenta a
produção teórica de Florestan Fernandes. Cf. Marxismo e “imagem do Brasil” em Florestan Fernandes.
In: Cultura e Sociedade. Expressão Popular, São Paulo. 2011. P. 221-240.
3
Clássicos, nesse sentido, são seu doutoramento e sua tese de livre docência, ambos versando sobre a
sociedade indígena dos Tupinambá.
4
Castelo, no ensaio citado, faz um apanhado histórico do debate desenvolvimentista onde Florestan se
insere e, segundo o autor, vem a superar mais tarde. Cf. Rodrigo Castelo, Subdesenvolvimento,
Capitalismo dependente e revolução: Florestan Fernandes e a crítica da economia política
desenvolvimentista. s/d.

portanto. O que varia é a forma como tal dominação se estabelece. É nesse ponto que entra a temática do imperialismo: como uma forma particular de expansão do capital a partir de um determinado período do seu desenvolvimento. objeto de análise desse artigo. é interpretada nos termos de uma dominação externa. Tal determinação. Faremos isso tendo em vista que a estruturação dessas formas diferenciadas de desenvolvimento do capitalismo dependente. para Florestan. em sua teoria social. pela relação entre as diferentes fases de acumulação do capitalismo e os países “periféricos” ou “subdesenvolvidos”. que se coloca em um contexto de justificação de mudanças estruturais ocorridas na dominação externa das principais potências capitalistas hegemônicas sobre os países periféricos. são também determinadas pela expansão e reprodução do capitalismo a nível mundial. a análise sociológica do capitalismo próprio aos países periféricos deve ser feita através da identificação de como se desenvolve ali o padrão de civilização que se forma e se expande a partir dos países capitalistas hegemônicos. procurando determinar em que medida eles conseguem tendencialmente . e. A particularidade desse desenvolvimento deve ser encontrada na própria especificidade do regime de classes que se desenvolve no interior desses países. mais especificamente. e. presente na história do Brasil desde o período colonial até os dias atuais. No seio das discussões de Florestan sobre o capitalismo dependente é que estão suas principais contribuições sobre a temática do imperialismo. demonstrando as diferentes formas assumidas pelo capitalismo brasileiro no interior desse processo. política e social do capitalismo a nível mundial. 2. Procuraremos analisar como. no período posterior a 2ª Guerra Mundial. aparece o debate sobre a questão do imperialismo. em linhas gerais. dentro de diferentes fases conjunturais de articulação econômica. Na ótica adotada pelo nosso autor. o uso da noção de imperialismo total. A INTERVENÇÃO EXTERNA NA FORMAÇÃO DO CAPITALISMO DEPENDENTE NO BRASIL. Para concretizar esse objetivo será necessário que apresentemos como Florestan concebe a formação e o desenvolvimento do capitalismo no Brasil.

alcançar os fatores funcionais. p. Cap I. que não conta com a clássica crise do mundo feudal e com a ascensão do Terceiro Estado. Florestan afirma: “A diferença entre uma abordagem e outra abordagem poderia ser enfatizada da seguinte maneira: em um caso. Mudanças Sociais no Brasil.6 A articulação que se dá. 35 . Avançando nesse pressuposto Florestan chega à conclusão de que o regime de classe que se desenvolve em conexão com o capitalismo dependente possui uma dominação burguesa com dois polos. Aí está para Florestan um dos nódulos imprescindíveis para se compreender o desenvolvimento do regime de classes nos países dependentes. no outro. Trata-se. ao contrário. o sujeito-investigador estuda sociologicamente variantes do protótipo hegemônico da sociedade de classes. representado pelas classes dominantes que se beneficiam da extrema concentração da riqueza. porém o primeiro ‘faz a história’. Nas Américas. ao longo do tempo. e um desenvolvimento posterior marcado pela constante “intervenção dinâmica” da influência externa. O regime de classes ‘transborda’ de um para outro. Global. outro “externo. Contudo. p. direta e continuamente na conquista ou preservação de fronteiras externas”. justamente de identificar como o regime de classes nasce e se desenvolve com uma dinâmica própria. graças às estruturas de poder criadas no plano internacional pelo capitalismo. não se trata apenas de comparar modelos análogos aos modelos físico-químicos das ciências naturais. 32 6 Ibidem.”5 É importante ressaltar isso para saber em que medida a influência externa assume um caráter seminal na análise das dinâmicas internas. o sujeito-investigador estuda sociologicamente variantes do protótipo heteronômico (ou dependente) da sociedade de classes. o capitalismo possui uma origem colonial. São Paulo. Situando as diferenças no estudo das sociedades de classes hegemônicas e das sociedades de classes “heteronômicas”. representado pelos setores das nações capitalistas hegemônicas que intervêm organizada. enquanto o segundo ‘a sofre’ (é claro. estruturais e dinâmicos próprio do capitalismo em suas manifestações mais avançadas. Um “interno. do prestígio social e do poder”. 2008. mantidas as condições de preservação e crescimento do capitalismo). entre as classes dominantes 5 Cf.

”9 A crise desse tipo de dominação externa é inerente a desagregação do antigo sistema colonial. Assim uma combinação de estamentos e castas produziu uma autêntica sociedade colonial. 8 A colonização se baseia naquilo que Florestan chama de “antigo sistema colonial”. e esses. adaptados aos trabalhos forçados dos nativos ou à escravidão (de nativos. 10-32 8 Ibidem. jurídica e politicamente. Para ele. como a independência. nações latino-americanas são produtos “da expansão da civilização ocidental” através de um tipo de colonialismo moderno que teve início com a “conquista” espanhola e portuguesa e que “adquiriu uma forma mais complexa após a emancipação nacional daqueles países”. A Coroa permitia aos colonizadores a exploração econômica da terra. a crise do sistema colonial se acelera com a vinda da família real para o Brasil. e delas com as classes dominantes externas. por sua vez deviam obediência e submissão à coroa. No Brasil especificamente. pp. 13 . A significação dada por Florestan para a 7 Cf. Zahar.internamente. Segundo esse sistema a dominação colonial por conta da metrópole tinha um duplo fundamento: “legal e político”. 1973. na qual apenas os colonizadores eram capazes de participar das estruturas existentes de poder e de transmitir posição social através da linhagem ‘europeia’. em 1822. 13 9 Ibidem. Rio de Janeiro. Sociologicamente. Desde o fim do século XVIII até o início do século XIX. afirma Florestan: “Isso foi conseguido pela transplantação dos padrões ibéricos de estrutura social. e se concretiza. em 1808. configurando diferentes formas de dominação externa. países europeus “conquistaram o controle dos negócios de exportação e de importação na América Latina” interessadas na conquista do mercado interno desses países. como é o caso da Inglaterra. é que vai variar ao longo da história brasileira e dos países latino-americanos. No ensaio Padrões de dominação externa na América Latina (1970)7 é onde Florestan melhor sintetiza sua concepção sobre essas diferentes fases da dominação externa. Capitalismo dependente e Classes sociais na América Latina. africanos ou mestiços). p. p.

incentivando a diferenciação dos papéis econômicos internos e reestruturando a econômica brasileira de forma a iniciar a formação de um mercado capitalista moderno. à qual corresponde uma forma de dominação externa: o neocolonialismo A diferenciação contínua e acelerada desse mercado sob o neocolonialismo é barrada. Cit. 12 Op. tal como de outros autores. 1981. São Paulo. 22-23 11 Op. sem alterar a estrutura econômica colonial baseada na grande plantação. por outro ela se dá. no trabalho escravo e na exportação. Para o nosso autor: “os laços coloniais apenas mudaram de caráter e sofreram uma transferência: deixaram de ser jurídico-políticos. 1981. 22 . p.independência. é a primeira fase do desenvolvimento do capitalismo no Brasil. condicionar a forma de dominação que se processa a nível mundial. pp. ela rompe o estatuto colonial e permite que o Brasil se insira no comércio mundial sem a mediação de Portugal. Primeiro na medida em que essa condição não possibilitaria. tendo em vista o controle dos mercados latino- americanos que produziam poucos produtos manufaturados. Globo. como sabemos.10 Por que se por um lado. Às burguesias dos países hegemônicos interessava a manutenção dessa estrutura colonial por dois motivos principais. A Revolução Burguesa no Brasil. segundo Florestan. 73-88. inicia uma “política comerciou que proporcionou o rápido impulso à emergência dos mercados capitalistas modernos nos centros urbanos das ex-colônias”. segundo as palavras do próprio autor é “ambígua”. internamente. O significado ambíguo dessa inflexão política também pode ser encontrado em Sociedade de classes e subdesenvolvimento.12 Isso contudo se dá ao mesmo tempo em que a mudança desses laços possibilita a internalização do fluxo de renda proveniente da exportação. principalmente a Inglaterra. 10 A significação da emancipação nacional para a formação do capitalismo no Brasil é tema central na obra de Florestan. a formação de concorrência interna para os seus bens manufaturados. portanto.11 A permanência da estrutura econômica colonial vai. para se secularizarem e se tornarem puramente econômicos”. Países europeus. p. Cit. Sobre isso Cf. na medida em que aumentava (ainda que apenas uma pequena parcela) seu lucro. a curto prazo. já em um período de expansão comercial intensa. Zahar. que interessava tanto às classes exportadoras. 15. antes retido na metrópole. pela própria predominância da estrutura econômica colonial. 2005. p. Rio de Janeiro. A formação desse mercado.

A Revolução Burguesa no Brasil. p. 2008. 17 15 Florestan atribui ao excedente do café. Globo. onde: “o controle financeiro das emergentes economias satélites tornou-se tão complexo e profundo que o esquema exportação –importação foi refundido para incluir a ‘integração’ do comércio interno. p. mais dinâmico. . diz Florestan. e a sua transferência para o setor novo da economia. que já polarizava um 13 Op. São Paulo. é que se consolida no Brasil a segunda fase do desenvolvimento capitalista: o capitalismo competitivo. p. Sobre isso Cf. As transformações pelas quais passou o capitalismo na segunda metade do século XIX provocaram “novas formas de articulação das economias periféricas da América Latina. negociáveis à distância.14 Para Florestan. na direção das economias capitalistas centrais. papel análogo ao da revolução agrária na Europa.15 É importante ressaltar. que nem mesmo o desenvolvimento de um mercado capitalista mais avançado. A crise do neocolonialismo e o aparecimento de um terceiro tipo de dominação externa está diretamente ligada. Cit. 16 14 Op.” A partir das últimas quatro décadas do século XIX a influência externa impacta internamente “através da incorporação maciça e direta de algumas fases dos processos básicos de crescimento econômico e de desenvolvimento sociocultural”. na medida em que asseguravam o papel subordinado dos países latino- americanos na divisão internacional do trabalho como produtores de bens primários.13 É o processo através do qual a dominação externa se torna uma dominação imperialista. com a internalização de estruturas econômicas de dominação. nesse período. moderno. Cumpre a função de uma acumulação originária para maior aceleração do desenvolvimento capitalista. na lógica do desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Essa fase só se concretiza por uma articulação específica entre os incrementos no excedente econômico possibilitados pela exportação de café. a ‘intensificação’ das operações bancárias etc. 268. sob condições seguras e ultralucrativas”. as economias dependentes foram transformadas em mercadoria. Em síntese. a ‘proteção’ dos interesses rurais ou da modernização da produção rural. portanto. a ‘introdução’ das indústrias de bens de consumo. a uma “reorganização da economia mundial. provocada pela Revolução industrial na Europa”. Cit.Segundo.

. de produção e de marketing. já que se beneficiavam dele.. em uma clara conjuntura de disputa pela hegemonia mundial. p. que corresponde à terceira fase do desenvolvimento capitalista no Brasil: o capitalismo monopolista. aos incentivos diretos do mercado interno. Para Florestan. consolidando-se no período posterior à Ditadura Militar. tal organização se concebe tendo em vista atender às condições de infraestrutura e de ordenamentos jurídico-políticos necessários à expansão dos negócios dos países imperialistas no Brasil. que possui 16 Op. Ao longo quatro fases da dominação externa apresentadas pro Florestan se forma no país um capitalismo de tipo particular. por associação com sócio locais. A quarta e última fase de dominação externa é o “novo imperialismo” ou o “imperialismo total”. a existência do trabalho livre.Cit. concorrência./. o avanço imperialista. 18-19.” Ou seja. propaganda de massa.. por corrupção. Surge no Brasil no final da década de 1950 e na década de 1960. pressão ou outros meios – ocupadas anteriormente pelas empresas nativas e por seus policy-makers”16 Portanto o capitalismo monopolista tem como consequência uma forma de dominação imperialista que “organiza a dominação externa a partir de dentro e em todos os níveis da ordem social”. Do ponto de vista do Brasil. . de imediato. para Florestan. Elas representam o capitalismo corporativo ou monopolista. e se apoderam das posições de liderança – através de mecanismos financeiros. o capitalismo dependente. concorrendo para a sua manutenção. etc. Assim. consegue estabelecer qualquer tipo de rompimento com os setores arcaicos da economia brasileira. é importante sublinhar que se “desencadeia uma reorganização da infraestrutura da nossa economia que transcende. Trouxeram à região um novo estilo de organização.setor urbano-comercial considerável. condicionava essas transformações no sentido de criar economias capitalistas dependentes na América Latina. controle interno das economias dependentes pelos interesses externos. com novos padrões de planejamento. tal fase de dominação surge “Em conjunção com a expansão das grandes empresas corporativas nos países latino-americanos /.

possibilitando a expansão desta última em termos de exportação de produtos manufaturados e de capitais. para Florestan.como características intrínsecas. Da mesma forma. enquanto a burguesia interna se contenta com a manutenção de uma estrutura econômica atrasada. que atende somente aos seus interesses particularistas e egoístas em prejuízo da maioria da população. no Brasil. no que se refere ao desenvolvimento do capitalismo. econômica e até mesmo enquanto classe dominante. Sociedade de Classes e subdesenvolvimento. p. Pp. 371 e 384. Essa situação cria uma articulação específica entre os interesses econômicos. para Florestan. frágil em termos de robustez infraestrutural . sociais e políticos das classes dominantes internas e externas que impossibilita um desenvolvimento. na obra do nosso autor. de um capitalismo de desenvolvimento autônomo. negando-lhe as mínimas possibilidades de conquistar direitos civis. que somente possui em comum entre si a necessidade de manutenção do 17 O conceito de “integração nacional” em Florestan possui. No plano interno e politicamente. 1981. politicamente. de que a burguesia interna tivesse capacidade de exercer uma dominação burguesa em termos puramente econômicos. nervo central de desenvolvimento das possibilidades civilizatórias do capitalismo em um determinado país. a associação dependente com o capital imperialista externo e a manutenção de formas econômicas arcaicas. criando. nos países de capitalismo dependente se dá pela associação também subalterna que a burguesia interna. mas também a incorporação de uma grande massa da população ao regime de classes propriamente dito. essa situação se justifica por uma “diferenciação vertical e integração horizontal” dos diversos estratos da burguesia brasileira. Zahar. 2008. trava com as burguesias imperialistas. políticos e econômicos. Sobre isso Cf. 17 A impossibilidade de integração nacional. Nesse sentido é que surge a problemática da integração social. consequentemente. Nesse sentido a possibilidade de integração nacional proporcionaria não apenas a formação de uma indústria nacional autônoma e a extinção dos traços arcaicos e coloniais de nossa estrutura econômica. A Revolução Burguesa no Brasil. Contudo. . superando o subdesenvolvimento. tal conceito é nutrido por conotações sociológicas que procuram transbordar a questão puramente econômica e ressaltar as consequências sociais e políticas de tal integração. Globo. a integração nacional criaria a possibilidade. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. uma certa semelhança com a conotação presente na obra de economistas desenvolvimentistas da tradição cepalina. privilégios e status. não necessitando mais de aparelhar o Estado de maneira abusiva para conseguir controlar as aspirações da população. a possibilidade de classificação social no interior da ordem competitiva. Nesse sentido seria possível se formar no Brasil uma democracia burguesa que não fosse uma democracia restrita. para essas pessoas e grupos sociais. em termos de riquezas. nos moldes daquela efetuada nos países hegemônicos. que exclui o povo de todos os processos políticos. predominantemente agrária. Trata-se nesse sentido da integração do mercado interno de forma a conseguir desenvolver um processo de acumulação capitalista autônomo. 33-35. presentes em todas as fases de desenvolvimento abordadas aqui.

e. O que nos interessa nessa relação. de forma a manter o status quo e impedir à ascensão das classes populares. Toda essa situação cria uma dinâmica interna da luta de classes na qual a burguesia não pode mais assumir frente às outras classes o papel clássico de classe emancipadora. onde a manutenção de setores arcaicos e extracapitalistas condiciona a impossibilidade de um desenvolvimento autônomo do capitalismo e a inserção subordinada do Brasil nas relações internacionais. 3. tal como limita a constituição de um capital financeiro capaz de impulsionar a acumulação capitalista interna de forma autônoma. por conta de sua fragilidade econômica. quanto das burguesias internas entre si (setores moderno e setores atrasados). p. A ESPECIFICIDADE DO IMPERIALISMO TOTAL. 18 A apropriação dual do excedente econômico é o fenômeno observado por Florestan através do qual. Ela deve suportar-se somente às custas de um capitalismo selvagem. impossibilita a constituição de um parque industrial produtor de bens de produção. que superexplora a classe trabalhadora19. como a democracia e os valores republicanos. Cit. se situa nesse vínculo externo específico que se estabelece a partir da constituição do capitalismo monopolista no Brasil. fica impedida de defender posições políticas liberais típicas da burguesia revolucionária europeia clássica. os interesses do progresso e do desenvolvimento. contudo. . Sobre a “apropriação dual. Tal condição. Ela é dual pois se baseia em um pacto de partilhamento do excedente econômico dos países subdesenvolvidos tanto das burguesias internas com as externas. através do trabalho livre. Ambos. 2005.. 341 19 A superexploração da força de trabalho aqui não possui o mesmo significado atribuído a tal conceito por Ruy Mauro Marini. de maneira prática. que traz em conjunto com os seus interesses. Para Florestan a superexploração da força de trabalho está relacionada à não possibilidade de classificação social da maioria da população na “ordem social competitiva”. Após analisarmos como Florestan concebe as diversas formas de dominação externa cabe a nós nos debruçar sobre o imperialismo total de maneira mais pormenorizada. para avaliar como Florestan utiliza tal esse conceito.” Cf: Op.. se beneficiando da sua dominação de classe interna e do padrão de mudança social engendrado por essa dominação: pautado na “apropriação dual do excedente econômico”18. tanto interna quanto externamente.status quo. Isso se dá justamente por conta da frágil estrutura econômica que aqui se desenvolve. a burguesia interna brasileira se associa à burguesia imperialista para manter a condição estrutural atrasada do capitalismo nacional. entretanto. no plano econômico.

através da fusão do capital bancário com o capital industrial. criando o capital financeiro. com as contribuições de autores como Kautsky. O Imperialismo: fase superior do capitalismo. a partir do início do século XX. no Fundo Florestan Fernandes. p. onde cada volume se encontra todo grifado e manuseado pelo nosso autor. o que acaba por impulsionar o desenvolvimento do capitalismo nesses países. Rosa Luxemburgo. ganha novo fôlego com as formulações marxistas da Segunda Internacional. São Paulo. as possibilidades de acumulação dentro dos mercados internos europeus estavam sendo limitadas na conjuntura considerada. Bukharin etc. 84. onde estão localizados os grandes cartéis monopolistas efetuem uma partilha do mundo. A influência da teoria do imperialismo de Lenin no modo como Florestan concebe esse conceito é evidente. entram nessa partilha como países independentes do ponto de vista político formal. 22-23 22 Ibidem. Em sua biblioteca pessoal. possível de ser acessada na biblioteca central da Ufscar. 21 Cf.. Uruguai. Os países da América Latina como Brasil. A necessidade exportação de capitais e de consolidação de áreas de influência faz com que os países imperialistas. Imperialismo: fase superior do capitalismo. ou concorrencial. com o livreto de Lenin. V. do final do século XIX e início do século XX. e.I. Sabemos que o imperialismo é um conceito já antigo na historiografia. hoje. Lenin. mas sim através da exportação de capitais para o financiamento de empreendimentos nos países atrasados. como ocorria com a intervenção inglesa na América Latina. Seu uso “moderno”. Argentina. . mas que “se encontram envolvidos nas malhas da dependência financeira e diplomática”22 20 Sabemos que Florestan era uma ávido leitor de Lenin. p. Isso condiciona a expansão do capitalismo não mais em termos de exportação de mercadorias. estão seu exemplares pessoais das Obras Completas de Lenin em francês. contudo. por meio da qual os bancos viram grandes monopolistas imprescindíveis à ao desenvolvimento da produção. Centauro. nas colônias ou semicolônias.20 Para Lenin. 2008. 21 Ainda para o autor russo. principalmente. é a partir do final do século XIX que a tendência de concentração inerente ao capitalismo vai fazer com que a formação de grandes monopólios inicie o solapamento do capitalismo competitivo.

Diz Florestan: “A nova forma de imperialismo não é apenas um produto de fatores econômicos. própria de padrões de acumulação capitalista e concorrência entre grandes monopólios do período posterior à Segunda Guerra Mundial. Nesse último a partilha do 23 Op. não a aceleração da sua revolução burguesa e uma integração nacional. 1973. para o exterior. Cit. na estrutura de renda. pois possuem grande relevância na formulação de Florestan Fernandes sobre a atuação do imperialismo como forma de dominação interna nos países da América Latina. mas sim a otimização das possibilidades de lucros do capital financeiro aplicado aqui.23 O novo imperialismo. 17 24 Op. p. Já é uma fase onde a própria empresa monopolista cria filiais nos mercados dependentes e transfere para lá toda uma necessidade de estrutura de mercado interno diferenciada. No centro do processo está a grande empresa corporativa e. sob o ponto de vista da expansão do capitalismo monopolista. Cit. por uma revolução concomitante na tecnologia e nos padrões burocráticos de administração. se desfazer do setor arcaico da economia e do esquema de importação-exportação. e pelos efeitos múltiplos e cumulativos da concentração financeira do capita na internacionalização do mercado capitalista mundial. a “transferência de excedente econômico” gerado aqui. das funções e do poder financeiro das empresas capitalistas foram produzidas por mudanças nos padrões de consume e de propagando de massa. 1973. ou o imperialismo total abordado por Florestan. de uma radicalização. Essas últimas conexões nos interessam aqui particularmente. p. contudo. isto é. que visa. se trata de fato de uma acentuação. que não existe nos países latino-americanos. A exportação de capitais penetra no país impulsionando formas de organização da economia que transformam um simples “mercado capitalista moderno” em um “capitalismo competitivo” de fato. portanto. 21 . Por isso. sem contudo.”24 Para o nosso autor. É uma aceleração do crescimento econômico desses países. dessas características básicas do imperialismo. o fenômeno do novo imperialismo possui um determinante político que não existia no imperialismo. o capitalismo monopolista. as mudanças da organização.

e da cultura. Contudo. da comunicação de massa e da opinião pública.23 . Após as guerras mundiais sua preponderância no mundo capitalista se torna algo indiscutível. “Enquanto o antigo imperialismo constituía uma manifestação da concorrência nacional entre economias capitalistas avançadas. No que se refere ao elemento interno. “As empresas anteriores.21 26 Ibidem. a incorporação do imperialismo total se deu de maneira positiva pelas burguesias periféricas que saudaram a vinda de empresas monopolistas para os países latino-americanos como uma possibilidade efetiva de alcance de desenvolvimentismo. da educação.”25 Aqui vale a pena mencionar o específico fenômeno da hegemonia dos Estado Unidos como “superpotência” capitalista. foram postas a serviço dessas empresas e dos seus poderosos interesses privados”. propagando-se por todos os níveis da economia. condicionou as nações capitalistas avançadas para “uma defesa agressiva do capitalismo privado”. p. as estruturas econômicas existentes foram adaptadas às dimensões e às funções das empresas corporativas. na medida em que elas se consolidavam acabavam por “revelar a sua natureza”. e das aspirações ideais com relação ao futuro e ao estilo de vida desejável”. p. no interior desse processo. e de um crescimento econômico autônomo. no período posterior à 2ªGM. as bases para o crescimento econômico autônomo e a integração nacional da economia. a existência de uma “economia socialista bem sucedida e expansiva”. foram absorvidas ou destruídas. Contudo. o imperialismo moderno representa uma luta violenta pela sobrevivência e pela supremacia do capitalismo em si mesmo. 26 A transição para o padrão de desenvolvimento econômico monopolista requeria 25 Ibidem. Da mesma forma que sua expansão de influência para os países latino-americanos que se manifesta como “uma rendição total e incondicional.mundo pelas economias capitalistas monopolistas era necessária como fonte de expansão e reprodução do capital a nível mundial. da segurança e da política nacionais. conquistadas tão arduamente. moldadas para um mercado competitivo restrito.

modernizando outros. Além de ser uma manifestação. da “contravrrevolução preventiva” que ocorria a nível mundial. impulsionando outros.altos índices de concentração demográfica.294 28 Ibidem.27 A inexistência de tais requisitos na periferia foi o que tornou possível uma integração segmentada das corporações. Elas se estabelecem e aos poucos vão dominando o mercado que não possui controles específicos para barrar sua expansão. como forma de conter o avanço das lutas socialistas. Essa expansão específica coloca um elemento novo para a dinâmica interna das classes sociais. em uma crise do poder burguês de dominação.308 . social e política. CONCLUSÃO 27 Op.28 Nesse sentido. na conjuntura brasileira. ao mesmo tempo em que o poder burguês existente é minado pela expansão dos dinamismos do novo imperialismo. também cumpre a função de rearticular a burguesia interna brasileira em torno de um projeto de desenvolvimento capitalista monopolista. de diferenciação e integração em escala nacional e de densidade econômica do mercado interno. 4. É nesse processo que se insere a interpretação de Florestan sobre o papel cumprido pela ditadura militar no amplo circuito mundial de acumulação de capital. na medida em que o aporte financeiro demanda uma segurança econômica. de capital incorporado ou incorporável ao mercado financeiro. iam assumindo controle da exploração de matéria-prima. de renda per capita (na população incorporada ao mercado de trabalho). até monopolizarem completamente determinados setores. no Brasil. do comércio interno e das atividades financeiras. de padrão de vida. sem um controle específico. que aos poucos. 2005 p. a sua existência é condição para a o bom funcionamento do avanço monopolista no país. aproveitando os momentos políticos propícios. da produção industrial para o mercado interno. de modernização tecnológica realizada e em potencial e de estabilidade política e controle efetivo do poder do Estado pela burguesia nativa. Isso possibilita a ascensão de interesses burgueses díspares que desemboca. Pois a penetração do capital externo diversifica a economia criando diversos setores novos. Cit. p.

aumentando assim sua dependência dentro da órbita das economias desenvolvidas. além disso toda uma estratégia de atuação e influência em todas as esferas da vida da assistência dos governos das nações hegemônicas. N. ou seja. assegurando o alinhamento do país com as potências imperialistas ocidentais. através do qual. Em síntese. Para Florestan. Expressão Popular. C. Envolve. Cultura e Sociedade. que Florestan Fernandes elabora a sua análise sobre a ditadura militar. e as diversas formas de controle impostas aos países periféricos estrutura uma nova forma de dominação externa denominada por ele de imperialismo total. que expande dinamismos monopolistas para a suas áreas de influência. 5. imediato. Com isso se aumenta o controle dos governos e das burguesias pró-capitalistas e se reprime a expansão do movimento socialista. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COUTINHO. a atuação das grandes corporações e dos seus governos nas economias dos países periféricos é condicionada a um requisito político de estabilidade interna. A viabilidade do “desenvolvimento por associação” é condicionada à estabilidade política externa. É no interior de tal processualidade histórica. em tempos de guerra fria. São Paulo. expansão imperialista do período pós-guerra faz surgir uma nova situação externa de divisão de áreas de influência já no contexto da guerra fria. mas também a controlarem essas áreas nos mais diversos âmbitos da vida social. Isso condiciona os países capitalistas imperialistas a não somente exportarem sua forma de organização da vida para suas áreas de influência. Para Florestan. a não ameaça de uma expansão do movimento socialista. a emergência de uma superpotência imperialista (EUA) no período posterior à 2ªGM. essa estratégia envolve muito mais do que apenas controle político formal. contudo. 2011 . além da necessária segurança interna para o desenvolvimento do capital monopolista. Como uma rearticulação das alianças burguesas externas e internas de forma a possibilitar a implantação definitiva dos mecanismos do capital monopolista no Brasil. No Brasil a expansão dessa nova forma de dominação externa tem um caráter fortemente político. Se trata de uma nova forma de organização e reprodução do imperialismo a nível global.

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