Exercícios de escrita na inspiração de Graciliano Ramos

Ex. 2 Monólogo

Já era noite e cá estava eu na casa dos Teixeira. Era uma casa bonita, bem decorada, tinha uns
toques portugueses: azulejos, cerâmicas e afins. Na cozinha, Mariana cuidava da comida.
Gestos comedidos, sorriso acanhado, olhos temerosos ante as companhias masculinas à mesa.
Sua timidez era encantadora, capaz de afetar até o maior dos trapistas. Na sala, Otaviano Lima,
Alfonso Arinos e o Oliveira Teixeira riam à beça, pilheriando safadezas. Preferi me afastar. Não
queria que Mariana achasse que eu estava participando da devassidão deles. Preferia ficar de
longe, observando a forma como ela lavava a goma fazendo a tapioca.

As filhas dos Teixeira estavam sentadas no sofá. Um jeito bicudo que dava dó. Iam dançar com
os amigos, mas a tia não lhes permitiu. Dizia que dançar era uma coisa de gente mundana e
sem Deus. As meninas retornaram pudicas ao sofá, acabrunhadas pela doidice da tia. Era uma
gente sisuda, tacanha, cheia de não-me-toques. Os movimentos indecisos, o sorriso
abscondido, olhos escuros que nos escondia a alma. Essa era o fado que eu carregava com esse
povo. Mas a mariana era diferente. O jeito dela transbordava uma candura que se derramava
sobre cada ser vivente desse mundo.