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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

CENTRO DE ESTUDOS GERAIS

INSTITUTO DE LETRAS

MESTRADO EM LETRAS

ENCAPSULAMENTOS SEMÂNTICOS EM PERSPECTIVA
DISCURSIVO-FUNCIONAL

MONCLAR GUIMARÃES LOPES

NITERÓI

2010
0

MONCLAR GUIMARÃES LOPES

ENCAPSULAMENTOS SEMÂNTICOS EM PERSPECTIVA
DISCURSIVO-FUNCIONAL

Dissertação apresentada ao curso de Pós-
graduação em Letras da Universidade Federal
Fluminense, como requisito final para a obtenção
do Grau de Mestre. Área de Concentração:
Estudos da Linguagem. Subárea: Língua
Portuguesa. Linha de Pesquisa: Interfaces –
Discurso/Sintaxe/Fonologia Experimental.

Orientadora: Profa Dra Vanda Maria Cardozo de Menezes

Co-orientador: Prof. Dr. Sebastião Carlos Leite Gonçalves

Niterói

2010

1

Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá

L864 Lopes, Monclar Guimarães.
Encapsulamentos semânticos em perspectiva discursivo-funcional /
Monclar Guimarães Lopes. – 2010.
219 f. ; il.
Orientador: Vanda Maria Cardozo de Menezes.

Co-orientador: Sebastião Carlos Leite Gonçalves.

Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense,
Instituto de Letras, 2010.
Bibliografia: f. 118-126.

2

MONCLAR GUIMARÃES LOPES

ENCAPSULAMENTOS SEMÂNTICOS EM PERSPECTIVA
DISCURSIVO-FUNCIONAL

Dissertação apresentada ao curso de Pós-
graduação em Letras da Universidade Federal
Fluminense, como requisito final para a obtenção
do Grau de Mestre. Área de Concentração:
Estudos da Linguagem.

Aprovada em 21 de junho de 2010.

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________________________
Profa. Vanda Maria Cardozo de Menezes – UFF
Orientadora

_______________________________________________________
Prof. Sebastião Carlos Leite Gonçalves – UNESP
Co-orientador

_______________________________________________________
Profa. Maria Maura Cesário – UFRJ

_______________________________________________________
Profa. Mariângela Rios de Oliveira – UFF

_______________________________________________________
Profa. Nilza Barrozo Dias – UFRJ

Niterói

2010
3

.Os desejos humanos são infindáveis. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. não se satisfaz e a sua sede apenas aumenta.. São como a sede de um homem que bebe água salgada.. Texto Budista [.. [.] Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.] Fernando Pessoa 4 .

Aos mestres que encontrei pelo caminho.AGRADECIMENTOS Aos meus pais. pelo apoio incondicional e compreensão de minha ausência. sobretudo à Vanda e ao Sebastião Carlos. À Nelma da secretaria de Pós-graduação. À minha esposa. que sempre me incentivaram em minha educação. 5 . pela amizade e por acreditarem em mim. Às minhas irmãs. pela eterna boa vontade e competência. sem os quais esse trabalho não teria saído.

........ 73 Quadro 7 – Encapsuladores do Nível Representacional ...................................................................... 91 6 ........................................ 43 Quadro 4 – O modelo descendente de Representação Gramatical proposto pela GDF . LISTA DE QUADROS Quadro 1 – O triângulo de Odgen e Richards ................................................... 19 Quadro 2 – Percepção e referente ..................................................................................................... 22 Quadro 3 – Função e configuração dos rótulos propostos por Francis .................................................... 56 Quadro 6 – Categorias do Nível Representacional ........................................... 52 Quadro 5 – Categorias do Nível Interpessoal ..

....................5..6... 11 INTRODUÇÃO ........................3.................................. Nomes de processos mentais ......................... 37 2...... OS ESTUDOS DA REFERÊNCIA ....5.......................... 17 1.......................2...... 24 1.....1....................... SUMÁRIO RESUMO ............................... Nomes de atividades linguageiras .................. 12 CAPÍTULO I: A REFERÊNCIA E SEUS POSTULADOS TEÓRICOS .......1. 18 1................................................ 39 2.................. RÓTULOS METALINGUÍSTICOS ..... 46 3........... ROTULAÇÃO E NOMINALIZAÇÃO . 26 1........................ PROPRIEDADES BÁSICAS DA GDF.... 50 7 ...................2... A progressão referencial ................................................ 34 2.............................................................................3.. Nomes de texto .............................................................................1... A POSIÇÃO DOS RÓTULOS NO TEXTO .. INTRODUÇÃO .......................... 27 CAPÍTULO II: O ENCAPSULAMENTO ANAFÓRICO .....5..........4.....................................3................ INTRODUÇÃO ........1..................................................3................................................ 17 1......... 38 2....................................................................................................... 21 1.....2.1............. 31 2... 31 2............... A instabilidade e os processos de estabilização ..............................3......4..... Categorização e recategorização .................. 37 2................ RÓTULOS DE CONTEÚDO ............... A PERSPECTIVA SOCIOCOGNITIVA INTERACIONISTA .......................................... 40 CAPÍTULO III: A GRAMÁTICA DISCURSIVO-FUNCIONAL (GDF) ........................5... 36 2..2............................................ 39 2..................................... CONFIGURAÇÃO DOS RÓTULOS ....................3........ 10 ABSTRACT .......................... 34 2...........5................3.. A PERSPECTIVA LÓGICO-SEMÂNTICA ..................................2. Nomes ilocucionários ..................... 46 3..............

......2.2......................2..... 91 8 ...... O Nível Interpessoal (ou pragmático)..2... Ato Discursivo .....2........1........ Modo .......1........................ 81 3... O Nível Representacional (ou semântico) ...........1..... 85 4......3............. 54 3.......... 68 3....... Indivíduos .........1.................. 86 4... 83 3......... Quantidade ..............................3.....3....... 89 5....................3.... 64 3... Tempo ....2................................................ 85 4...2..3........2.2...............3..............3.........5......... 56 3...........4...... 87 4........4...2.............2. Estudo dos rótulos metalinguísticos propostos por Francis e do Nível Representacional da GDF............. 80 3..2..... 89 5......1..........3....... 73 3............ OS QUATRO NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO LINGUÍSTICA ...... Lugar ......... Ilocução ...................3..................2..................... 79 3........................................ Episódio ........ Subatos .......1..... ENCAPSULADORES SEMÂNTICOS BÁSICOS .... 86 4..................... 77 3.................3.............. 71 3.....2.3................................. Estado-de-Coisas ................................................ Propriedades ................................................1....2...........87 CAPÍTULO V: A ANÁLISE DOS DADOS .............................1..1...........2......... 75 3.................1...................1........... As categorias semânticas secundárias .....................3........ Conteúdo Comunicado ............................... 67 3.............3.................2............3..............3.....1...............3.........1................................ CARACTERIZAÇÃO DO CORPUS ..........1.................................... Conteúdo Proposicional . Elaboração de metodologia de análise. Levantamento de dados no corpus .....2......5..............................3.. 80 3..3............... INTRODUÇÃO ...4...2......2............ 82 3.........3. Razão ........5........... PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE .....2.. 82 3..... Língua Reflexiva ......3............1.1............... 73 3.............2.......2........6..........2...1........... 52 3..3.................2................ 76 3..3..............1...............................3. 69 3.... Participantes ....2...3..2........... As categorias ontológicas básicas ........2.........3.......3............. 3.................................... Move .................1..............2...... 83 CAPÍTULO IV: PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ...........3............. 60 3......

..... 106 5.................... 102 5............ 115 REFERÊNCIAS.....................3.....2 O papel do contexto ............3...........5..2.... 107 5......................... 110 5..............................................4.......1.............3............................ Encapsuladores de Estado-de-coisas .....3....... Encapsuladores de Conteúdo Proposicional .............................. 99 5............3.............5...................... Encapsuladores de Modo ..............2............ 108 5........... Encapsuladores de Quantidade ...................5.................2..................... 110 5..1............. 96 5..112 5................. 127 9 ......5... Nem todo encapsulamento advém de categoria instável...................... 110 5....3.4...................... CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA ..............6............................................... 104 5.................. 113 CONSIDERAÇÕES FINAIS .5.............. 92 5.......... Abordagem mais ampla dos encapsulamentos semânticos....... 5....... 118 ANEXOS ..........5. A análise de encapsulamentos de núcleo gramatical ... A configuração dos encapsulamentos depende do discurso.......5.. 101 5........... 108 5............ O papel atributivo dos encapsulamentos ......... ENCAPSULADORES SEMÂNTICOS SECUNDÁRIOS . ENCAPSULADORES METALINGUÍSTICOS ...2..2.......... Encapsuladores atribuidores de Propriedades ..................................................6....2.......................... Encapsuladores de Episódio ................ Encapsuladores de Razão ................................... 103 5..........3...............4..............................5... Perspectivas futuras ............1. 94 5...............................

patrocinamos uma redefinição do próprio conceito de encapsulamento. Os dados coletados para a elaboração da análise foram extraídos de oitenta e oito textos do gênero Crítica de Cinema e TV. Paralelamente. não deu tratamento a todas as categorias semânticas possíveis de uma unidade linguística. do jornal A Folha de São Paulo online. PALAVRAS-CHAVE: Encapsulamento. uma vez que este pode tanto apresentar dependência contextual quanto ser representado por elemento gramaticalizado. Referenciação. RESUMO Este trabalho propõe a ampliação categorial dos encapsulamentos semânticos propostos por Francis (1994. no período de agosto de 2008 a janeiro deste ano. Defendemos que a autora. 2003) por intermédio das categorias semânticas do Nível Representacional da Gramática Discursivo-Funcional. Gramática Discursivo- Funcional 10 . em seus estudos.

in her studies. KEY WORDS: Encapsulation. 11 . we support a redefinition of the concept of encapsulation. We believe that Francis. 2008 to January. 2010. In addition to this. 2003) through the semantic categories of the Representational Level established by the Functional Discourse Grammar. in the period of August. since it can be dependent on context or be represented by grammaticalized terms. ABSTRACT This work proposes the categorial widening of the semantic anaphoric encapsulations proposed by Francis (1994. did not approach all the possible semantic categories of a language unit. Our corpora were extracted from eighty-eight TV and Movie Reviews from Folha de São Paulo online. Functional Discourse Grammar. Referenciation.

o mundo pode levar-nos a adotar certas crenças.Original: The world does not speak. Cf. RORTY. Desde que fomos programados com uma linguagem. uma vez que se trata de uma teoria pouco difundida no Brasil: a Gramática Discursivo-Funcional. utilizam-se como corpus oitenta e oito textos do gênero Crítica de Cinema e TV. Mas não poderia fornecer uma linguagem para que nós falássemos. do período de Agosto de 2008 a Janeiro deste ano. a organização deste trabalho exige uma abordagem mais detalhada e extensa do referencial teórico. INTRODUÇÃO O mundo não fala. de processo mental. Contingency. apenas nós falamos. que. por recurso às categorias semânticas do Nível Representacional da Gramática Discursivo- Funcional3. The world can. de atividades linguageiras e de textos –. 2003). Cambrigde: Cambridge University Press. 1 Richard Rorty Esta dissertação visa à discussão teórica dos estudos da referência – incluindo-a em uma perspectiva mais recente de análise lingüística. But it cannot propose a language for us to speak. cause us to hold beliefs. Only we do. Only other human beings can do that. 3 A Gramática Discursivo-Funcional representa uma versão atualizada da Gramática Funcional Padrão de Dik (1997). 2 Uma vez que se trata de uma perspectiva recente. compõem oito categorias 1 . Richard. todos extraídos do jornal Folha de São Paulo. 12 . Apenas outros seres humanos podem fazê-lo. Defende-se a tese de que os encapsulamentos semânticos extrapolam as categorias previstas por Francis. Para tanto. 1989. Irony and Solidarity. once we have programmed ourselves with a language. a discursivo- funcional2 – e à ampliação categorial dos encapsulamentos semânticos  de metafunção ideacional e textual  propostos por Francis (1994. em vez de quatro – nomes ilocucionários. elaborada por Hengeveld e Mackenzie (2008).

– encapsuladores de Conteúdo Proposicional. 2) A configuração dos encapsulamentos é gradiente. 94). de Modo. Além dessas questões. que já havia dedicado todo um capítulo ao estudo da anáfora em The Theory of Functional Grammar Part 2: Complex and Derived Constructions. compartilhada pelos interlocutores – atende tanto ao cotexto quanto ao contexto. uma vez que sua definição de encapsulamento – sumarização de uma informação precedente. conforme será visto na análise dos dados. se axiológicos ou não-axiológicos. no corpus. embora mais estáveis. e não binária Os estudos atuais dos encapsulamentos acerca de sua configuração. Paralelamente. também se defende a tese de que o encapsulamento vai além do sintagma nominal ou do cotexto propriamente dito – ao contrário do que defende Conte (2003. p. Hengeveld e Mackenzie (2008) apenas apontam a potencialidade do estudo anafórico. representam formas encapsuladoras. a pesquisa visa a investigar mais dois pontos: 1) O estudo das categorias estáveis dos encapsulamentos Embora a perspectiva sociocognitiva interacionista reconheça as práticas de sedimentação das categorias em protótipos e estereótipos. de Propriedade. mas ainda não o desenvolvem. É importante ressaltar que essa atualização da teoria 13 . de Estado-de-coisas. de Razão. sugerem que sua configuração se dá de forma binária: ou é avaliativo ou não. Segundo os autores da GDF. Na versão atual. Dessa forma. formas encapsuladoras cuja configuração não é claramente delimitável. fortemente. far-se-á uso da concepção de Koch (2003. No entanto. esta pesquisa inclui algumas categorias lexicais e gramaticais que. a idéia da análise de um fenômeno textual através de um modelo gramatical partiu do próprio Dik. de Episódio. Por essa razão. no entanto. uma vez que se encontram. sustenta-se a idéia de gradiência. o encapsulamento pode tanto ser representado por elementos gramaticais quanto pode não encontrar âncora delimitável no cotexto. de Quantidade e Metalinguísticos. os estudos que conferem instabilidade ao objeto-de-discurso (referente) têm estado. sob uma dimensão discursivo-funcional. mais presentes. p. pois. 177) –.

distanciando-se. B: . representa toda uma mudança de perspectiva da Gramática Funcional Padrão.Eu comi ‘lamb chops’ noite passada. não foi uma confirmação do trabalho de Dik. o que se fez. Hengeveld e Mackenzie (2008) dividem sua teoria em quatro instâncias hierárquicas  o Nível Interpessoal (ou pragmático). a unidade mínima de análise não é a oração.Não fale comigo assim! 2) Anáforas do Nível Representacional (semântico): A:.É assim que vocês dizem ‘chuletas de cordeiro’ em inglês? 4) Anáforas do Nível Fonológico: A: .Eu comi /t∫u’letasdekor’dero/ noite passada? 4 Para definição de Ato Discursivo.1.2. Portanto.3. o Nível Morfológico e o Fonológico  e prevê o estudo da anáfora em todas elas. como se vê a seguir: 1) Anáforas do Nível Interpessoal (pragmático): A: . inclusive. mas o Ato Discursivo4.gramatical. aqui. consulte o tópico 3. no terceiro capítulo. os paradigmas mudaram. uma nova nomeação. o Nível Representacional (ou semântico). Como. 14 . deve partir do componente conceitual. de sua versão original. que implicou. Munidos da concepção de que um modelo de análise gramatical deve ser descendente. mas a interpretação de um tipo de anáfora mediante as potencialidades das categorias semânticas previstas pela GDF.Saia daqui! B: . 3) Anáforas do Nível Morfossintático: A:. e muito. para a Gramática Discursivo-Funcional (doravante GDF). isto é.Há muitos semáforos nesta cidade! B: Eu não notei isso.

B: - Isso não deveria ser /∫u’letasdekor’dero/?
De acordo com os autores (op. cit), em (1B), o elemento anafórico assim faz
remissão à estratégia comunicativa escolhida por (1A), razão pela qual pertence ao
nível pragmático; em (2B), isso faz remissão à situação extralinguística descrita por
2A, por isso pertence ao nível semântico. Já as referências (3B) e (4B) são
diferentes por serem de natureza metalinguística, isto é, são mensagens sobre o
código (JACKOBSON 1971 apud HENGEVELD e MACKENZIE, 2008, p. 05).

Dessa forma, sob a égide da GDF, pode-se conceber em que extensão a
referência sofre motivações de cunho pragmático, semântico ou gramatical, o que
vem a favorecer um novo estudo tipológico da referenciação. Vale ressaltar que a
Linguística Textual não trabalha com esses níveis linguísticos, que permitem a
análise de anáforas tanto no território do léxico, quanto no da gramática.

Não obstante, pela extensão e natureza da pesquisa suscitada pela hipótese
apresentada, delimitou-se a pesquisa aos encapsulamentos semânticos,
compreendendo-os a partir dos conteúdos que encapsulam, e não a partir dos níveis
em que se manifestam. Dessa forma, analisam-se quais encapsuladores fazem
remissão a um segmento disponível de discurso, isto é, que já foi designado. Por
isso, na pesquisa realizada, há também a investigação de elementos que, embora
se manifestem no Nível Morfossintático, encapsulam uma designação prévia. Tal
recorte epistemológico, o da análise a partir do conteúdo encapsulado, mostrou-se
necessário, uma vez que se partiu dos estudos já propostos por Francis (1993,
2004), cuja análise dos rótulos já partia desse princípio.

No que tange à literatura vigente, vários autores têm-se debruçado sobre o
fenômeno da referenciação5 feito por meio de encapsulamentos. Alguns sob uma
perspectiva sistêmico-funcional (FRANCIS, 1993, 2004), outros sob uma perspectiva
textual (CONTE, 2003), outros sob uma perspectiva discursivo-argumentativa
(MOIRAND, 1975), outros, ainda, sob uma perspectiva sociocognitiva (MONDADA e
DUBOUIS, 2003; APOTHÉLOZ e REICHLER-BÉGUELIN, 2003).

5
Por referenciação, entendemos o complexo processo de construção de objetos-de-discurso
(referentes) na interação dos sujeitos envolvidos. Para tal perspectiva, não se deve considerar a
referência em si mesma, mas o processo intersubjetivo no qual os sujeitos (sócio-cognitivos)
elaboram versões públicas do mundo.
15

Embora tais linhas de estudo da referenciação sejam variadas, esta
dissertação aproxima-se da perspectiva de Francis (1994, 2003), uma vez que a
GDF também tem como base as metafunções linguísticas elaboradas pela
Linguística Sistêmico-Funcional. Contudo, trata-se, na verdade, de uma perspectiva
discursivo-funcional da referência, visto a dimensão discursivo-pragmática em que a
GDF se insere.

Não obstante, tal perspectiva não se afasta de uma concepção sociocognitiva
da linguagem. As duas teorias compreendem a importância da práxis e
compartilham a idéia de que é através dela que se constrói o discurso. Portanto, a
perspectiva sociocognitiva da referência e a discursivo-funcional são linhas
complementares. A diferença tênue entre as duas é que a primeira se preocupa com
o processo em si, isto é, em como se dá a construção dos objetos-de-discurso, e a
segunda, em como tais processos discursivos se manifestam na cadeia linguística.

Quanto à organização do trabalho, esta dissertação é composta de cinco
capítulos, além da introdução e das considerações finais. Iniciou-se através de uma
revisão de literatura, em que se apresentam duas linhas do estudo da referência  a
lógico-semântica e a sociocognitiva interacionista (capítulo I)  e um estudo
pormenorizado do encapsulamento na literatura vigente (capítulo II). A partir daí,
tratamos da fundamentação teórica, na qual apresentamos as propriedades gerais
da GDF e discutimos sua potencialidade para um estudo dos encapsulamentos
(capítulo III). Por fim, tratamos da metodologia de análise (capítulo IV) e da
investigação do corpus levantado (capítulo V).

Acredita-se que a relevância de tal trabalho se encontra na interface de duas
linhas, que, muito embora possuam visão de língua semelhante e sejam
complementares6, percorrem caminhos diferentes na maioria dos estudos. De um
modo geral, o que se pretende, aqui, é fazer algo semelhante a proposta de Neves
(2006): aliar gramática e texto.
6
De acordo com Dik (1978 apud Neves, 1999), para o Funcionalismo, a língua é concebida como
instrumento de interação social entre seres humanos, usado com o objetivo principal de estabelecer
relações comunicativas entre os usuários; Segundo Koch (2003), para a Linguística Textual, a língua
é como um lugar de interação, no qual os sujeitos são vistos como atores/construtores sociais e no
qual o texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação e os interlocutores, como sujeitos
ativos que – dialogicamente – nele se constroem e são construídos.

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CAPÍTULO I

A REFERÊNCIA E SEUS POSTULADOS TEÓRICOS

Este capítulo tem como objetivo apresentar revisão de literatura sobre os estudos
da referência. Para tanto, ele se subdivide em quatro partes. Na primeira seção,
introduzem-se as duas correntes que tratam do estudo da referência; na segunda e
terceira seções, explicita-se cada uma das perspectivas apresentadas; na quarta, faz-se
uma breve avaliação do capítulo.

1.1. OS ESTUDOS DA REFERÊNCIA

A relação entre signo e coisa, isto é, entre linguagem e mundo, é uma
investigação antiga nas ciências linguísticas. Desde os estóicos, questões acerca da
natureza e do lugar do acontecimento semântico têm recorrência nos estudos da
linguagem: como e quando eclode a significação? Em que momento da cognição
irrompe o significado? Qual é o mecanismo da semiose, enfim? (cf. BLIKSTEIN,
1985, p. 23).

Tais questionamentos levaram estudiosos a inúmeras pesquisas e a algumas
reformulações teóricas sobre a relação linguagem-mundo e, mais especificamente,
sobre a relação entre signos linguísticos (significante e significado) e o referente (a
coisa extralinguística). Pode-se afirmar que os pesquisadores e os teóricos da área
se dividem basicamente em duas tendências dominantes: uma de tradição lógico-
semântica e outra, mais recente, de perspectiva sociocognitiva interacionista.

17

1.2. A PERSPECTIVA LÓGICO-SEMÂNTICA DA REFERÊNCIA

Até o século XIX, grande parte dos estudos linguísticos apontaram para uma
relação biunívoca entre língua e realidade, com o pressuposto de que a língua servia
como representação do pensamento (cf. KOCH, 2003, p. 13), concepção que nos
levou à ideia de que o sujeito era um ser psicológico, individual, dono de suas
vontades e ações (op. cit.), uma vez que a linguagem era tomada como mera
transcrição da realidade objetiva. Tal ponto de vista, segundo Araújo (2004, p.22)
está presente desde Agostinho (354-430) até Locke – 1632.

Agostinho restringe a linguagem à referência, sem o que o significado é vazio, pois a
linguagem deve transmitir pensamento, e pensamento é sobre algo;[...]. Para a
concepção agostiniana de linguagem, mas também para o senso comum e para o poeta,
conhecer a essência, a realidade “mesma”, é algo mais precioso do que a palavra
(palavras não passam de palavras, sons: “palavras soltas ao vento”, diz-se “words,
nothing but words”...).
Para Locke, as palavras são usadas para falar da realidade das coisas e não do fruto
da imaginação da pessoa. Com uso frequente firma-se, fixa-se a relação entre sons e
idéias a ponto de quando alguém ouve tal som, vir-lhe a idéia como se fosse a própria
coisa que impressiona os sentidos.

A partir do séc. XIX, no entanto, tais pontos de vista começam a ser refutados
pelo estruturalismo de Saussure (1971, p. 79), que afirma que a língua não deve ser
reduzida a uma nomenclatura, numa simples relação entre nome e coisa. Para tal
teórico, o signo linguístico é psíquico, tem relação com um conceito e uma imagem
acústica, ambos de natureza mental. Logo, abandona-se a referência, na defesa de
que uma ciência linguística deveria basear-se em suas relações internas, e não em
componentes extralinguísticos.

Tal insuficiência da relação entre signos e coisas veio sendo insistentemente
assinalada na linguística, até que os estudos semânticos de Odgen e Richards
(1956 apud BLIKSTEIN, 1985, p. 23) lançaram mão da figura do referente, isto é, da
coisa extralinguística, que distinguiam nitidamente de referência, ou significado

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na medida em que.dando um passo a mais que Saussure.. símbolo (signo ou significante). referência ou pensamento (significado) e referente (coisa ou objeto extralinguístico) passavam a figurar numa relação triádica. que só havia estabelecido uma relação dicotômica no estudo do signo (significante x significado) -. 24) Não obstante. devido ao fenômeno da transparência linguística. para os dois estudiosos (op.52). cit). somente entre símbolo e referência. afirmando que não havia nenhuma relação direta e pertinente entre símbolo e referente. e o “domínio do arbitrário” é relegado para fora da compreensão do signo linguístico. em consonância com os estudos de Saussure.] Já o linguista trabalha com a relação entre significante e significado. esquematizada no triângulo abaixo: Referência ou Pensamento (significado) Símbolo Referente (significante) (coisa ou objeto extralinguístico) Quadro 1 – O triângulo de Odgen e Richards (BLIKSTEIN. Como consequência de tal posicionamento. ele é essa realidade. o falante considera haver entre o signo e a realidade uma adequação total: o signo recobre e dirige a realidade. as relações dicotômicas entre significante e significado. Essa tendência é observada por Benveniste (1991.. muito embora Odgen e Richards tenham lançado mão do que concebem como referente (a coisa extralinguística) . aparentemente. Ficavam assim superadas. os estudos da significação só se ativeram ao lado esquerdo do triângulo. p. p. ou melhor. [. Objeto e nome se confundem. vendo o eixo símbolo e referência como um código social homogêneo.linguístico. 1985. não o incluíram nos estudos linguísticos. 19 .

Lancaster Pa. p. p.. o problema da relação entre signo e realidade depende da concepção de significado e referência.. só haveria referência se dada proposição pudesse ser verificada no mundo (hipótese veritativa). a mania logicista é um dos lugares-comuns que – com arrogância não justificada pelas dimensões de suas idéias. já que ela não é localizável no mundo. Mais especificamente. Além disso. As obras originais datam de 1921. trata-se de uma postura logicista da linguagem. 1892 e 1903. é um signo e não um objeto (Ibidem. Se significado for o conceito aderido a um significante. p. ainda mais extravagantes. Odgen e I. há apenas a representação. propositadamente. 1933. de A. relegaram- no à forma lógica da proposição em afirmações assertóricas. 20 . K. e não uma referência. como defendia Saussure. Para Coseriu (1969. mas da relação entre conceito e imagem acústica. Para tais estudiosos. 41): (01) O atual rei da França é calvo Segundo Russel. filósofos como Wittgenstein(1994).237). fora da linguística. A. então a relação acima fica. Korzybsky. a referência era analisada em parâmetros de verdade. Frege (1977) e Russel(1978)7. Em outras palavras. Isto para não falar das idéias. Tal crença segundo a qual haveria um referente a ser identificado na realidade “mesma” era pressuposto de todos os estudos lógico-semânticos. Designa-se. respectivamente. e de sua escola antiaristotélica de neo-semanticistas. e entre confusões de toda índole – proclamam C. para a 7 As datas apontadas acima representam a referência da tradução da obra. evidentemente. Em um mesmo sentido. como podemos notar no famoso exemplo de Russel (1978. para quem a maioria dos males do mundo se deveria ao uso impróprio das palavras. Até então relegada ao âmbito da filosofia da linguagem. ao verem que o signo não se limitava ao estabelecimento de uma relação direta com a coisa nomeada.. para Araújo (2004). Benveniste comenta que a significação não decorre da referência. Richards. como a França não tem rei. 45). sobre o trecho citado. Science and Meaning. remete-se com o signo a uma situação intencionada ou experimentada e nesta operação o que se transmite.

quer dizer. é preciso sair dos limites exclusivamente estruturais da língua (Ibidem.autora.3. p. 45) afirma que (. percebe-se que. em determinado momento da ciência. 46). por consequência. é a percepção/cognição que transforma o “real” em referente (GREIMAS. mas. 21 . não é algo meramente extralinguístico. 47). p. como veremos a seguir. A PERSPECTIVA SOCIOCOGNITIVA INTERACIONISTA DA REFERÊNCIA Uma das grandes contribuições da perspectiva sociocognitiva interacionista é a compreensão de que a percepção é o lugar não-linguístico em que se situa a apreensão da significação. por sua vez.) a Linguística acaba por confessar a necessidade de incluir a percepção/cognição no aparelho teórico da semântica. Blikstein (1985. 1.sim. o patamar estrutural. 1985.. ou seja.. suscitou a segunda tendência – de perspectiva sociocognitiva interacionista –. Por conseguinte. a linguística reivindicou a incorporação do referente8 em suas pesquisas (isto é. o que. p. construído pelo intermédio da práxis. 8 A incorporação do referente a que nos referimos. aquele dos signos e suas combinações. A pragmática vem a ser o horizonte teórico. depende do discurso e não da frase gramatical ou de uma proposição. 1973 apud BLIKSTEIN. no entanto. pois é evidente que a significação linguística é tributária do referente e que. A esse respeito. não relegando-o somente à filosofia da linguagem). como contraponto à primeira – de tradição lógico semântica. é constituído pela dimensão perceptivo-cognitiva.

). mas. fora criado em um sótão sem nenhum contato humano até os dezoito anos. o que exemplifica a função da percepção (enquanto sistema de crenças. fabrica o “real”. No filme em questão. mas exatamente o contrário. Benveniste. 49) Tal mudança paradigmática. p. perspectiva que. ideologias e hábitos) na interpretação do mundo. sem dúvida. o protagonista. Inclusive. Blikstein (1985) defende que a percepção depende de uma construção e de uma prática social. permitiu-nos perceber que a língua não recorta a realidade propriamente. 1985. reitera o novo posicionamento: o da fabricação do real.. Baseado na conhecida obra de cunho verídico de W. não é o objeto que precede o ponto de vista (percepção para Greimas). p. ideologias e hábitos. enquanto sistema de crenças. Chomsky etc. O Enigma de Kaspar Hauser. Após ser inserido no convívio em sociedade. sobretudo. Herzog. por exemplo. a permanência do déficit cognitivo de Kaspar Hauser seria um índice de que os elementos que modelam a percepção do mundo e as configurações conceituais podem ser capturados não só na linguagem. mas. Kaspar Hauser. na dimensão da práxis. Coseriu. sim. embora já tivesse adquirido linguagem. Inclusive. Kaspar Hauser decodifica a significação do mundo sempre de forma “aberrante”. pois é a percepção. Referência PERCEPÇÃO Realidade Símbolo Referente Quadro 2 – Percepção e referente (BLIKSTEIN. que constrói. de acordo com o autor (Ibid. É a tese 22 . segundo Saussure (1971). apresenta uma realidade “fabricada” no discurso. reificada não somente por Greimas como também por vários outros (cf. 55).

Essa visão de construção do real torna-se fonte de estudo para um grupo de autores franco-suíços. Logo.82). Blikstein (Ibid.. ao possibilitar a “estabilização” do mundo. impedindo o indivíduo de ver a realidade de um modo ainda não-programado pelos corredores de estereotipação. como também a importância da práxis social para entender o objeto extralinguístico.. investiga-se não como a informação é transmitida ou como os estados do mundo são representados de modo adequado. Chanêt. Charolles. afirma que a nossa cognição estaria sujeita. refutando uma visão objetivista do mundo. Tal reformulação paradigmática. referenciação. nasceu de uma reflexão de Mondada e Dubois (2003).) É seguindo tal história que se chega à referência. Portanto. 85) afirma que a referência depende não só do que pensamos. Mondada e D. da história de como o nome adquiriu um referente (. em sentido lato. o processo implicado no ato de referir) é uma atividade discursiva. segundo a expressão de R. que. Esse termo. Reichler-Béguelin.. Berrendonner. Num mesmo sentido. entre os quais se podem destacar Apothéloz. p. p. de que o sistema perceptual. Todos eles concordam que a referenciação (isto é. mas de outras pessoas da comunidade. a ponto de considerarmos “real” e “natural” todo um universo de referentes e realidades fabricadas. não só incluiu o referente na análise linguística. a tendência sociocognitiva interacionista. portanto. ao colocar em ação processos de estereotipação. como Sísifo. da relação entre objeto e referência para o processo de referir. mas busca-se saber como as 23 . 2004. Kleiber. Kripke (1991 apud ARAÚJO. A língua “amarra” a percepção/cognição. estaríamos condenados a conhecer ou a reconhecer. as estruturas mentais e a própria linguagem são tributários da práxis. Desse modo. Daí a função “fascista” da linguagem. é o que nos faz compreender melhor o que subjaz à práxis. a um processo ininterrupto de estereotipação. passam a questionar os processos de discretização da realidade. Barthes. Apoiado na mesma idéia. Dubois. ou seja. sempre a mesma realidade: nossas retinas “fatigadas” estariam condenadas a ver sempre a mesma “pedra-no-meio- do-caminho” de Carlos Drummond de Andrade. acreditam que ela é pautada na práxis social.

. nem dados.3. as categorias e os objetos de discurso pelos quais os sujeitos compreendem o mundo não são nem preexistentes. 20). individual para um sujeito psicossocial. implica uma alteração na concepção de sujeito. p. não como produtos da realidade. transformando-se a partir dos contextos. 24 . mas se elaboram no curso de suas atividades. por sua vez. Essa mudança de foco. cognitivo. embora se (re)produza o social na medida em que se encontram engajados na produção discursiva (KOCH. segue parte do resumo do artigo de Mondada e Dubois que ratifica a concepção acima (2003. A instabilidade e os processos de estabilização Uma vez que o objeto de discurso tem sempre como aporte a percepção dos participantes. Saímos de um sujeito psicológico. já que a interpretação e a significação do mundo estão sempre em um continuum ad infinitum. a transformação do referente em objeto de discurso resultou na aceitação de certa instabilidade do signo.[. 9 De acordo com esta segunda visão. através de práticas discursivas e cognitivas social e culturalmente situadas. p. 2005). p. o que. pois eles são construídos na atividade cognitiva e interativa dos sujeitos falantes. mas fundamentalmente culturais. leva os autores a defender que haja sempre uma intencionalidade subjacente ao processo de inclusão de um referente em determinada categoria.14). 9 Para Apothéloz e Reichler-Béguelin (apud Koch.1.atividades humanas. cognitivas e linguísticas estruturam e dão um sentido ao mundo (MONDADA e DUBOIS. os referentes são denominados objetos de discurso. racional.17): A idéia segundo a qual a língua é um sistema de etiquetas que se ajustam mais ou menos bem às coisas tem atravessado a história do pensamento ocidental.] 1. Essa constatação nos leva a observar a constante mudança das categorias utilizadas para descrever o mundo.. 2003. de caráter ativo na produção do social e da interação. como consequência. Opomos uma outra concepção segundo a qual os sujeitos constroem. versões públicas do mundo. 2003. ou seja. No intuito de sedimentar os conceitos deste tópico. tanto sincrônica quanto diacronicamente.

Inclusive. em determinado grau. Sacks (apud MONDADA e DUBOIS. pois. no intuito de assegurar a coerência comunicativa. Mondada e Dubois (2003. ao estarem inseridos nos discursos sócio- históricos e em procedimentos culturalmente ancorados. categorizando qualquer um como sendo um “homem velho”. à prototipicidade e à estereotipação. tendo em conta o fato de algumas destas categorias poderem ter eventualmente consequências importantes para a integridade da pessoa. não se pode defender que essa instabilidade seja generalizada. ou de um “judeu”. isto é. o da instabilidade do referente. etc. ao trazer-se a seguinte reflexão para as categorias:Se não existissem as categorias e se não as dominássemos. em vez de um “banqueiro”. p. a prototipicidade e a estereotipação são processos com certo grau de dinamicidade. mas de escrever em detalhes os procedimentos (linguísticos e sócio-cognitivos) pelos quais os atores sociais se referem uns aos outros – por exemplo. 25). a comunicação verbal seria quase impossível 10. gostar-se-ia de parafrasear Bakhtin (1992. se tivéssemos de construir todas elas ad hoc nos nossos enunciados. os elementos tendem a se incluir em certos grupos e não em outros. a construção verbal seria quase impossível. se tivéssemos de criá-las pela primeira vez no processo de fala. 25 . No entanto. 42) postulam que 10 A citação original de Bakhtin (1992. Isso nos faz crer que as categorias não sejam fixas. 23) afirma que a questão não é mais a de avaliar a adequação de um rótulo “correto”. mas “evolutivas”. Não se está dizendo que haja fronteiras para a atividade de referenciar. p. p. p. mas que. com base nessa asserção. elas são recursos que asseguram uma plasticidade linguística e cognitiva e uma garantia de adequação contextual e adaptativa (MONDADA e DUBOIS. se tivéssemos de construir cada um de nossos enunciados. que visam incluir os referentes em determinadas categorias e não em outras. p. 2003. Baseado no mesmo ponto de vista. 2003. no intuito de assegurar a coerência comunicativa. os objetos de discurso se ajustam. se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo da fala. Logo. Em um mesmo sentido. 283) é a seguinte: se não existissem os gêneros do discurso e se não os dominássemos.quando defende a necessidade dos gêneros do discurso para a atividade comunicativa -.. 283) .

inclusive. Portanto. uma vez que o estudo não privilegia a relação entre as palavras e as coisas. Tal protótipo compartilhado evolui para uma representação coletiva chamada geralmente de estereótipo. isto é.35) que a intencionalidade está subjacente à referenciação. que Mondada e Dubois (2003) propuseram a mudança de terminologia: de referência para referenciação. Categorização e recategorização A categorização é a colocação do referente em determinada categoria cognitivamente estabelecida (NEVES. Dessa forma. Os objetos de discurso não se confundem com a realidade extralinguística. mantida e alterada pela forma como. 2001 apud KOCH.2. Ou seja: a realidade é construída. e ele se torna. é preciso asseverar que se analisou não só a ativação de um referente (sua categorização). social e cultural. p. atentando-se para o processo de atribuir significado e não para o significado em si. sociocognitivamente. imbricada a idéia de processo. Em suma. 100). p. p. concorda-se com Koch (2005. interagimos com ela: interpretamos e construímos nossos mundos por meio da interação com o entorno físico. já que se tratou não só de um processo. em função de um querer-dizer.3. enquanto a recategorização é a reconfiguração de um objeto de discurso citado previamente. mas a relação intersubjetiva e social no seio da qual as versões do mundo são publicamente elaboradas. estabilizado no seio de um grupo de sujeitos. mas também do outro. 26 . Foi por esse motivo. a ação de colocar o objeto de discurso em uma nova categoria. avaliadas em termos de adequação às finalidades práticas e às ações em curso dos enunciadores (MONDADA. 2006. lato senso. como também sua manutenção e transformação no discurso(retomada e recategorização). de fato. 1. 2005. nesta última. um objeto socialmente distribuído.34). quando a autora diz que as formas de referenciação são escolhas do sujeito em interação com outros sujeitos. mas (re)constroem-na no próprio processo de interação. o protótipo torna possível seu compartilhamento entre muitos indivíduos através da comunicação linguística. o que se investigou foi a progressão de um objeto de discurso.

deslocando-se a atenção para um outro referente textual e desativando-se. de tal forma que o referente fica saliente no modelo. ativação – pelo qual um referente textual até então não mencionado é introduzido. Embora o modelo de ativação. táxis e bares de nova york. a referenciação pode ser relacionada à concepção de memória discursiva das seguintes formas (2003. 83): 1. assim. nem sempre a inserção de um referente garante a sua manutenção. 3. a progressão referencial se dá pela manutenção do referente na memória discursiva. Veja o exemplo: (02) a fórmula é quase idêntica: mulheres independentes e glamourosas (entenda-se endinheiradas e fúteis) compartilham seus problemas mais íntimos (amorosos e sexuais). No entanto. em meio aos prédios. vale ressaltar que a primeira valorizava a anáfora na correferencialidade. p. Em síntese. reativação – um nódulo já introduzido é novamente ativado na memória de curto termo. por meio de uma forma referencial. Embora fora de foco. reativação e de-ativação dos referentes na perspectiva lógico-semântica se dê da mesma forma que na sociocognitiva interacionista. 1.3. Seu estatuto no modelo textual é de inferível. mas. este continua a ter um endereço cognitivo (locação) no modelo textual. Portanto. passando a preencher um nódulo (“endereço” cognitivo. mas à localização da cadeia referencial de um tópico discursivo. isto é. A progressão referencial Segundo Koch (2003). quando há retomada de referentes previamente citados no texto. elas estão mais perto dos 40 do que dos 30 anos e têm carreiras mais consolidadas. de-ativação – ativação de um novo nódulo. de modo que o referente textual permanece saliente (o nódulo continua em foco). podendo a qualquer momento ser novamente ativado. a primeira não se atinha à atividade intersubjetiva dos falantes.“Versão "envelhecida" de "Sex" é mais do mesmo” Folha de São Paulo – 11/01/09 27 . Crítica 03 .3. agora. 2. ao processamento cognitivo. locação) na rede conceptual do modelo de mundo textual: a expressão linguística que o “representa” permanece em foco na memória de curto termo. o referente que estava em foco anteriormente.

Na retomada de mulheres pela anáfora elas. há. no entanto. sim. p. Entende-se por anáfora indireta (AI). sugerido pelo enquadre mental de um referente no processamento textual. que essa conceituação de anáfora indireta (AI) é bastante recente. tem-se identidade referencial. dentre as quais se podem destacar as anáforas indiretas e os encapsulamentos. Segundo Marchuschi (2005. 18h. 54). p. o que constitui um processo de referenciação implícita. correferência.]O cinema sofre de uma perversão toda sua: o grande tema. os estudos da referenciação (perspectiva sociocognitiva interacionista) permitiram-nos não somente observar a atividade intersubjetiva subjacente às anáforas correferenciais como também investigar anáforas de outro estatuto. Trata-se de uma estratégia endofórica de “ativação” de referentes novos e não de uma “reativação” de referentes já conhecidos. indefinidas e pronomes interpretados referencialmente sem que lhes corresponda um antecedente (ou subsequente) explícito no texto. a remissão sem retomada de objetos de discurso. mas. a remissão à cinema através do referente um filme. [. que a “Monalisa” de Leonardo seria melhor se representasse uma santa. Por um outro lado. 28/09/08 No exemplo.. 53): a anáfora indireta (AI) é geralmente constituída por expressões nominais definidas.. 58). 2005. há um universo referencial emergente (MARCHUSCHI. pois se sabe que o referente é o mesmo. como “A Luz É Para Todos” (TCM.] Crítica 08  Programação destaca roteiro de Kazan Folha de São Paulo. torna-se significativo só por isso e até ganha o Oscar.. É importante ressaltar. que fazem remissão a referentes sem retomá-los. não há retomada de referentes.. 28 . p. Ninguém nunca disse. Mas quando UM FILME fala de racismo. em 1948. pois. Veja o exemplo: (03) [.livre). por exemplo. conforme defende Marchuschi (2005. Nesse caso.

interpretarem-na. codificá-los e decodificá-los. Através dela. a versão sub. a que se refere Neves (2006). o termo anáfora. se reportam a outras expressões. designados a semiotizar a realidade. originalmente. os olhares do herói são transformados em taras sexuais e suas agressões verbais são absurdos xingamentos nacionalistas. na acepção técnica. e não a retoma. SUBVERSÃO NO SENTIDO LITERAL. torná-la acessível e 11 Por predicação. anáfora anda longe da noção original e o termo é usado para designar expressões que. Afinal. percebe-se que a expressão subversão no sentido literal faz remissão a toda predicação anterior. 11/01/09 No segmento acima. na retórica clássica. afastou-se de Saussure no que tange ao problema da referência. compreendemos o processo básico de constituição do enunciado. que considerava apenas os aspectos intrínsecos da língua. A mudança de perspectiva no estudo da referência. que vem de baixo e atinge a bunda dos donos das verdades institucionalizadas. 29 . Crítica 45  DVDs retomam Allen Pastelão Folha de São Paulo. entende-se a remissão a predicações11 previamente citadas no texto. mas. conteúdos ou contextos textuais (retomando-os ou não). da lógico-semântica para a sociocognitiva interacionista. uma vez que a predicação não possui o estatuto de referente.] Um país inexistente precisa de uma receita de salada de ovos para ser reconhecido. Já por encapsulamento.. sim. como pode-se ver no exemplo a seguir: (04) [. indicava a repetição de uma expressão ou de um sintagma no início de uma frase. enunciados. faz-se mais do que combinar signos. Os sujeitos não foram programados para falar pelo fato de terem aprendido regras fixas e sistemáticas. transformando-as em objetos de discurso.. no texto. categorizando-a como subversão. contribuindo assim para a continuidade tópica e referencial. Hoje. é fruto da virada pragmática na linguística.

30 . Logo. o que importa é saber como as palavras podem significar ou representar os mundos discursivos de que se fala. discursiva e pragmaticamente. apoiar a idéia de uma perspectiva de cunho pragmático é entender que o problema da referência transpõe a questão da nomeação e da identificação de um referente no mundo. é motivado psicológica.significativa através do uso linguístico – que. De fato. e não como elas podem apontar a realidade “mesma”. por sua vez.

o sintagma nominal anafórico representa a transformação de parte de uma predicação. uma vez que não há retomada de objetos de discurso precedentes. 2. Na sétima seção. INTRODUÇÃO Neste capítulo. apresenta-se uma avaliação das questões gerais do texto.. 177) o compreende como um recurso coesivo pelo qual um sintagma nominal funciona como uma paráfrase resumitiva de uma porção precedente do texto..] Eu irei razpar(sic) a cabeça na maquina zero se for campeão!!! fiz ESSA PROMESSA no jogo contra o Palmeiras e quinta rasparei a cabeça se Deus quiser!!! Relato de Beto Gitirana Em http://www. explicitando-se as categorias elaboradas pela autora. Da segunda à sexta seção.meusport. como se pode verificar no exemplo abaixo: (05) [. Também conhecido como sumarização. Na primeira seção.1. aborda-se a perspectiva de Francis (1994. CAPÍTULO II O ENCAPSULAMENTO ANAFÓRICO Este capítulo tem como objetivo apresentar revisão de literatura sobre o fenômeno em análise e subdivide-se em sete partes. considerado como recurso de referenciação. uma predicação inteira ou segmentos de texto em referentes. Construído com um nome geral como núcleo lexical. no âmbito dos estudos sociocognitivistas interacionistas. Conte (2003.php?t=64994 – acessado em 04/04/08 31 . p. 2003) para o estudo dos encapsulamentos. retoma-se e aprofunda-se o conceito de encapsulamento. com uma clara preferência pela determinação através de demonstrativos.com/forum/showthread. dar-se-á ênfase ao estudo do encapsulamento anafórico.

já que o ato de fala é promissivo12.3. Como a progressão textual não ocorre linearmente.. mesmo que exponha suas verdades mais íntimas e profundas.. como os exemplos a seguir. ESSA IDÉIA. processos. proposições e atos de enunciação (LYONS.1. não se encontra um referente lexicalizado que propicie a retomada por essa promessa. Tal fato. percebe-se a existência de uma expressão anafórica. contribui para a argumentação favorável à perspectiva da referenciação. percebe-se o encapsulamento como um importante recurso de progressão referencial ao transformar em referentes entidades de segunda e terceira ordens como estados de coisa. o encapsulamento essa promessa não apenas encapsula o período que o antecede. 07/12/08 12 Para explicação de ato de fala promissivo. fatos. No sintagma essa promessa. até mesmo pela função dêitica do demonstrativo essa. em toda a sequência do primeiro parágrafo. esboçada em obras anteriores de Eduardo Coutinho. todo indivíduo se transforma em um ator. como também a atitude do locutor. Inclusive. 1977). o que nos leva à conclusão de que a âncora para tal anáfora não se encontra em um lexema. mas em uma predicação ou segmento de texto (como é o caso em que o exemplo se situa. “Jogo de Cena”. situações. o encapsulamento pode representar tanto uma sumarização anafórica quanto catafórica. em que essa idéia faz remissão ao primeiro período e situação antecede a predicação sublinhada: (06) [. ver tópico 3. no terceiro capítulo. eventos. ou seja. No entanto. como “Santo Forte” e “Edifício Master”. essa promessa representa um encapsulamento de toda a proposição raspar a cabeça na máquina zero se for campeão. que faz remissão ao primeiro período). ao fazer remissão a sequências prévias do texto. ganha uma evidência incontornável em seu documentário mais recente. [. Logo.] Crítica 41  “Coutinho deixa o espectador sem chão” Folha de São Paulo.] Diante de uma câmera. ao preceder o “dizer”. o da não-localização de um rótulo lexical para um referente na cadeia discursiva. que chega agora ao DVD. 32 . pode ter função retrospectiva. Dessa forma.3.. mas no fazer discursivo do texto. já que mostra ao ouvinte que ele deverá procurar a base dessa categorização não na realidade extralinguística.. ou prospectiva.

tal como se pode observar no exemplo abaixo.. 2003) apresenta as categorias retrospectivos... subtipo nomeado rotulação por Francis (1994. como um pesadelo recorrente: amigos burgueses chegam para jantar na casa de um casal e descobrem que os anfitriões os esperavam apenas para a noite seguinte. além de levar em consideração a carga avaliativa que elas podem conter. Neves (2006) e Conte (2003) apontam para uma clara tendência pela representação do fenômeno através de sintagma nominal de núcleo substantivo. uma vez que permite a categorização através de nomes axiológicos. axiológicos e 33 .. (07) [.] Um país inexistente precisa de uma receita de salada de ovos para ser reconhecido. 2003) propõe uma divisão para as rotulações de acordo com a posição e a função que elas assumem nos textos. Todas elas concordam que a rotulação seja um encapsulamento de grande valor para a progressão argumentativa do texto. Crítica 45  DVDs retomam Allen Pastelão Folha de São Paulo. SUBVERSÃO NO SENTIDO LITERAL. que revelam as intenções persuasivas do falante. que vem de baixo e atinge a bunda dos donos das verdades institucionalizadas.. Francis (1994. em que o substantivo subversão representa uma avaliação do segmento de texto destacado: (08) [. Com base nesse postulado. autoras como Koch (2005). 31/08/08 Na análise dos encapsulamentos. 11/01/09 À guisa de uma classificação do fenômeno. a autora (1994.] A primeira sequência dá a senha da situação que se repetirá com variações. 2003).] Crítica 02 – O discreto charme da burguesia Folha de São Paulo. prospectivos e retrospectivos/prospectivos (em relação à posição). a versão sub. indicador de conteúdo e indicador de estrutura (em relação à função)..[. os olhares do herói são transformados em taras sexuais e suas agressões verbais são absurdos xingamentos nacionalistas.

portanto. p. ou seja. 2003) postula. não se trata de uma repetição ou de uma recategorização (por meio de sinônimo. só ocorrerá se houver uma compatibilidade semântica com tal sintagma. Pode-se mesmo arguir que uma indistinção referencial deste tipo pode ser usada estrategicamente pelo escritor para efeitos criativos ou persuasivos. como vê-se no exemplo a seguir: 34 .2. a função de avançar perspectivas sobre a continuidade do texto. ROTULAÇÃO E NOMINALIZAÇÃO Embora a rotulação seja um tipo de encapsulamento. ela ainda pode apresentar-se de uma forma diferente: ancorada em um sintagma verbal previamente citado no texto.3. Além disso.não-axiológicos (em relação à carga avaliativa). uma vez que o antecedente não está claramente delimitado no texto. Já o rótulo retrospectivo será assim considerado desde que não se refira a um elemento textual específico anteriormente expresso. ter-se-á uma nominalização. 201): A extensão precisa do discurso a ser seccionada pode não importar: é a mudança do discurso assinalada pelo rótulo e seu ambiente imediato que é de crucial importância para o desenvolvimento do discurso. Nesse caso. derivado morfologicamente do verbo da proposição do conteúdo informacional. 2. 2. nomes de atividades linguageiras. talvez dando escopo para diferentes interpretações. devendo ser reconstruído (ou mesmo construído) pelo leitor/ouvinte. Tal nome só será assim considerado se a sua presença se justificar pela sumarização do dizer. e não em uma predicação ou porção maior de texto. nomes de processo mental e nomes de texto. A inteligibilidade desse tipo de rótulo. conforme Francis (1994. ou ofuscando as linhas de argumentos artificiosos ou espúrios. Segundo Francis (2003. A POSIÇÃO DOS RÓTULOS NO TEXTO O rótulo prospectivo tem a função de antecipar ao leitor/ouvinte o que se seguirá no texto. isto é. uma vez que o encapsulador será um lexema-núcleo resultante de uma transformação verbo-nominal. por exemplo) de um elemento precedente. nomeia a função indicador de estrutura como rótulos metalinguísticos e a desdobra em subconjuntos. a saber: nomes ilocucionários. ou seja.

no processo de construção de sentido(s). É importante ressaltar que o termo ‘nominalização’ se refere tanto ao processo quanto à expressão nominalizadora. Apothéloz (1995) estabelece uma distinção entre o fenômeno linguístico e o nome que designa o fenômeno. Para a autora (op.. a liberdade tanto podia ser essa.] No passado. há uma “memorização” do sentido do cotexto linguístico em que está o verbo. SONHO segundo o qual as máquinas nos libertariam e trabalhariam por nós. Para a autora.. uma vez que estabelece a coesão entre os enunciados de um mesmo parágrafo e entre os parágrafos de um mesmo texto. [. a que está em crise financeira)..] Crítica 22  Em “Bourne”. enquanto as expressões “informação-suporte” e “substantivo-predicativo” designam o objeto da nominalização..) [bem como] nos induz a considerar a dimensão atributiva da expressão referencial: o elemento anafórico é simultaneamente um elemento de referência e de predicação. como afirma Schwarz (2000)... por exemplo. 197) ressalta que o “substantivo-predicativo” é uma noção semântica e não morfológica e que o predicativo é relevante na medida em que indica dois aspectos que envolvem as nominalizações: a referencialidade e a predicação. sonho foi transformado em objeto de discurso com base no referente construído pelo sintagma verbal foi sonhada. o termo nominalização diz respeito à operação discursiva de natureza anafórica ou catafórica. está implícita a noção de tema-rema que é atribuída ao tópico discursivo. p. cit. acumulando a função temática e remática ou. liberal. parece. operando uma tematização-remática. Nessa última.) “predicativo” pode ser relacionado à “proposição” a que foi dado um estatuto referencial (.. Estado suprime liberdade Folha de São Paulo.65). Como afirma Freire de Carvalho (2005. que conhecemos hoje (que. p. 05/10/08 Nesse exemplo.): (. a qual permitirá ao 35 . pode-se afirmar que. como a que foi sonhada pela humanidade a partir do desenvolvimento da indústria.. Zamponi (2002. A nominalização possui um papel organizador do discurso. (09) [. entretanto.

receptor-leitor, por meio de uma “recuperação” de sentido pelo derivado substancial do
verbo dado, estabelecer significações por uma aproximação semântico-formal das duas
proposições.

2.4. RÓTULOS DE CONTEÚDO

Os rótulos de conteúdo se relacionam à metafunção discursiva interpessoal
de Halliday (1985)13.

Essa função volta-se para os interlocutores e trata-se de um importante
recurso da linguagem, que é o de estabelecer e o de manter relações sociais; é por
meio dela que os sujeitos interagem marcando a posição discursiva assumida na
enunciação, como ocorre no exemplo abaixo, em que o encapsulamento essa
revolta, ao encapsular o segmento anterior “vive como se fosse de favor” e o
segmento à frente “essa impossibilidade de existir num mundo que tem a sua cor
como um defeito de fábrica”, marca a posição enunciativa do falante enquanto um
ser consciente da causa do negro.

(10) Comentando a interpretação de Lana Turner em "Imitação da Vida" (TCM, 22h;
classificação indicativa não informada), Douglas Sirk diz que ela tem uma réplica muito
boa. É ao ser informada da morte de Annie, a negra a quem estivera ligada no essencial
de sua vida. Na réplica, Lana diz: "Não".
Sirk disserta sobre as qualidades de Lana com poucas palavras: "Ela era nula". Não
é propriamente um elogio à atriz de seu filme de maior sucesso. Mas ele completa
dizendo que não era necessário ser uma boa atriz para fazer esse papel.
Ali, o essencial são as atrizes negras: Juanita Moore e a bela Susan Kohner -no
filme, mãe e filha-, não por acaso indicadas ambas para o Oscar. Porque este é um filme
sobre negros, sobre ser negro num momento anterior à conquista da igualdade de
direitos.

13
Por metafunção interpessoal, entende-se o nível que abrange todos os usos da língua para
expressar relações sociais e pessoais, incluindo todas as formas de intervenção do falante na
situação discursiva e no ato de fala.

36

Por isso, se no filme a mãe vive como se fosse de favor, sua filha, Sarah Jane, já
expressa ESSA REVOLTA, essa impossibilidade de existir num mundo que tem sua cor
como um defeito de fábrica (na trama, as duas mulheres criam um negócio em
sociedade; as respectivas filhas crescem e conhecem destinos opostos).[...]

Crítica 10  “Racismo é tema de aparente melodrama”
Folha de São Paulo, 14/09/08

2.5. RÓTULOS METALINGUÍSTICOS

Os rótulos metalinguísticos se relacionam às metafunções textual e ideacional
de Halliday (1985): textual, porque diz respeito à criação de textos adequados às
necessidades comunicacionais, isto é, à criação de textos pertinentes aos contextos
de uso e elaborados levando em conta o aspecto organizacional ou, em outras
palavras, ao estabelecimento das relações coesivas na organização textual;
Ideacional, porque diz respeito à interpretação e expressão de nossa experiência
acerca dos processos do mundo exterior e dos processos mentais e abstratos de
todos os tipos.

Ao se dobrar sobre o enunciado, o foco do discurso pode estar no conteúdo,
anterior ou posterior, presente no cotexto (encapsulador de conteúdo); ou pode,
também, reportar-se às ações que se realizam através da linguagem, os atos de
linguagem. Segundo Francis (2003, p. 202), os rótulos metalinguísticos distribuem-
se nos seguintes grupos: “ilocucionários”; de “atividades linguageiras”; de “processo
mental”; de “textos”.

A seguir, descrevem-se tais tipos de rótulos ou nomes em conformidade com
Francis (1994, 2003), por meio de exemplos extraídos de corpora variados:

2.5.1. Nomes ilocucionários

São os que nomeiam uma ação e dizem respeito à força com que aquilo que
se diz é dito. São exemplos de nomes ilocucionários: ordem, promessa, conselho,
acusação, aviso, reivindicação, asserção, resposta, revelação, declaração,
sugestão, advertência, crítica, proposta, afirmação, etc. Tais rótulos são, portanto,
nominalizações de ações verbais.

37

(11) Por isto te ordeno: institui aí na Terra o meu Reino, anuncia ao mundo que ESTA
ORDEM veio de mim. Eu sou o Deus de Abraão [...]
http://www.inricristo.org.br

2.5.2. Nomes de atividades linguageiras

Para Francis (1994, 2003), os rótulos que nomeiam as atividades linguageiras
referem-se aos resultados de atividades mentais que se concretizam na linguagem,
ou seja, dependem dela para existir. São atividades como: descrição, distinção,
referência, julgamento, diagnóstico, narração, explicação, relato, esclarecimento,
comparação, comentário, controvérsia, debate, exemplo, ilustração, definição, etc.
Apesar de semelhantes aos nomes ilocucionários, não possuem uma âncora textual,
um processo, sintagma verbal ou adjetival que esteja sendo categorizado ad hoc no
discurso.

(12) O despiste é uma parte essencial da arte de Abbas Kiarostami e é a essência
mesmo de "O Gosto da Cereja" (Futura, 22h; classificação indicativa não informada). O
filme nos mostra a trajetória de Badii, homem de meia-idade disposto a se suicidar, que
busca alguém para se ocupar de seu corpo após a morte.
Badii viaja por uma região desértica, com seu carro vai encontrando as pessoas
a quem dá carona, e a cada uma com quem conversa expõe seu plano. Encontra
resistências, é óbvio, mas, mais do que tudo, escuta conselhos sobre a vida, seu caráter
sagrado etc. Escutamos os argumentos de ambos os lados, mas sempre mantemos a
convicção de que o essencial escapa. Ou seja, nunca nos é dito por que esse homem
deseja se suicidar. Correu, na época do lançamento do filme, que esse homem seria
homossexual, o que configuraria um duplo crime diante da lei islâmica (o primeiro sendo
o suicídio).
A EXPLICAÇÃO está longe de ser convincente, ao menos à luz do que se vê no
filme: Badii surge apenas como um sujeito com um carro em busca de alguém que
preste um serviço. Não é do feitio de Kiarostami agitar questões polêmicas, e não
porque fuja delas. É que seu cinema funciona como um espelho. Ele nos dá exatamente
o que dele recebemos. Como num espelho, o que vemos é o que expomos. O que
retiramos da imagem é o que lhe damos.

Crítica 27  ”Essência escapa em ‘O Gosto da Cereja’”
Folha de São Paulo, 16/11/08

38

2.5.3. Nomes de processos mentais

Os rótulos relativos a processos mentais referem-se aos atos que se realizam
com a mente: estados e processos cognitivos e seus resultados. Por exemplo:
análise, suposição, atitude, opinião, conceito, convicção, avaliação, constatação,
atribuição, idéia, noção, etc. Muitas formas desta natureza podem expressar
aspectos do estado cognitivo alcançado a partir do seu processamento, como:
crença e opinião, por exemplo, ao passo que outras podem tanto se referir ao
processo como ao resultado, como ocorre com o núcleo constatação.

(13) A consciência do corpo é um dado expressivo no cinema de Paul Verhoeven.
Consciência que vem da própria situação na qual estão os personagens, geralmente
esmagados pelo sistema. É UMA CONSTATAÇÃO, então, que ultrapassa o físico para
chegar a algo além: o próprio mundo. É assim com o corpo biomecânico do policial que
é utilizado por uma megacorporação em "Robocop".

Crítica 07 Verhoeven retrata faroeste amoral
Folha de São Paulo, 03/08/08

2.5.4. Nomes de texto

São formas que operam uma designação metalinguística propriamente dita,
isto é, rotulam extensões do discurso precedente, definindo seus limites precisos.
Referem-se à estrutura textual-formal do discurso. Não há interpretação envolvida,
apenas encapsulam extensões precedentes ou subsequentes. É o caso de frase,
pergunta, sentença, palavra, termo, parágrafo, etc.

(14) Comentando a interpretação de Lana Turner em "Imitação da Vida" (TCM, 22h;
classificação indicativa não informada), Douglas Sirk diz que ela tem uma réplica muito
boa. É ao ser informada da morte de Annie, a negra a quem estivera ligada no essencial
de sua vida. Na réplica, Lana diz: "Não". Sirk disserta sobre as qualidades de Lana COM
POUCAS PALAVRAS: "Ela era nula". Não é propriamente um elogio à atriz de seu filme
de maior sucesso. Mas ele completa dizendo que não era necessário ser uma boa atriz
para fazer esse papel.[...]
Crítica 10  “Racismo é tema de aparente melodrama”
Folha de São Paulo, 14/09/08

39

pois vê nesses processos a confluência. Farnes (1973 apud FRANCIS 2003. Kiarostami criou uma escola. os rótulos podem determinar o posicionamento enunciativo de um projeto de “dizer”. os que representarem. 2004. Mas. por não-axiológico. respectivamente: (15) Se tomarmos "A Maçã" (Futura. É um filme entre garotas (e a infância virou quase marca registrada do cinema iraniano) e envolve um elemento mínimo. os nomes que apontarem uma avaliação do locutor.6. Há em Samira um espírito de denúncia que por vezes podemos encontrar nos filmes de seu pai. No entanto.. por valor axiológico. seu discurso.. englobando-se todas as metafunções discursivas propostas por Halliday (1985). sempre com temas mínimos. não têm nada com os filmes de Abbas Kiarostami. a um só tempo. do linguístico e do social. não recomendado a menores de 12 anos). por exemplo. com certeza. sem avaliação. No caso. Dessa forma. 26/10/08 40 . do cognitivo. enunciativa e pragmaticamente. raramente algum deles desenvolveu ESSA QUALIDADE DE ESPELHO DA OBRA DE ABBAS: ele só mostra aquilo que nós mesmos projetamos na tela. o japonês? E o Japão o que tem em comum com o Irã? Cinema. 202) considera a divisão em “indicadores de estrutura” e “indicadores de conteúdo” contraproducente. trata-se de duas gêmeas que vivem presas em suas casas desde o nascimento (têm agora 11 anos). Mohsen. 2. de Samira Makhmalbaf. Entendem-se. Tais configurações. sugere a designação de rótulos metadiscursivos em vez de metalinguísticos. CONFIGURAÇÃO DOS RÓTULOS De configuração axiológica e não-axiológica. quase inexistentes. Embora haja a subdivisão dos rótulos de conteúdo e dos metalinguísticos. para Francis (1993. Assim. são encontradas nos exemplos a seguir.[. 22h. p. enquanto. uma vez que esses tentam controlar. uma série de seguidores para os quais chegou até a escrever roteiros. o autor defende que os rótulos correspondem à perspectiva enunciativa dos sujeitos. de alguma forma.] Crítica 15  “Obra se Abbas é única no cinema iraniano” Folha de São Paulo. que se recusam a denunciar o que quer que seja. Será ele o grande prosseguidor de Ozu. axiológico e não-axiológico. vamos encontrar algumas características de outros filmes. à parte os limites até físicos da ação. um segmento prévio no texto.

2004) possui valor não- axiológico. Não obstante. uma vez que representam uma atitude do falante com relação ao conteúdo enunciado. a priori. a resposta marota de Joaquim Pedro de Andrade a ESSA CONVOCAÇÃO. mas sinônima.. 41 . para a perspectiva de Francis (1993. é uma reflexão ousada e dolorosa sobre as ações e hesitações dos intelectuais em tempos de transformação política. Zavam (2007) discorda de Conte (2003) sobre a existência. o rótulo essa convocação é uma nominalização14 do sintagma verbal conclamara e. e não entidades preexistentes. O autor da crítica categorizou tal atitude positivamente através do sintagma supracitado.] Crítica 13  “Cineasta revisita Inconfidência com ironia” Folha de São Paulo. uma vez que são objetos de discurso. Baseado nos chamados "autos da devassa" e lançando mão fartamente dos poemas dos próprios inconfidentes. Jarbas Passarinho. Conte (2003. 07/09/08 Em (13).. Quanto ao valor argumentativo do fenômeno. Por outro lado. por um lado. p. no momento mais duro do regime militar.[. "Os Inconfidentes" é. conclamara os cineastas brasileiros a fazer filmes sobre temas históricos. de nomes avaliativos. isto é. o então ministro da Educação. o rótulo essa qualidade de espelho da obra de Abbas refere-se ao segmento do texto que trata da imparcialidade do produtor de cinema ao retratar objetivamente as situações de seus roteiros. (16) Em 1972 o Brasil. trata-se de um rótulo de configuração axiológica. Pouco antes. Defende que os nomes adquirem valor axiológico no contexto em que estão sendo empregados. comemorava de maneira ufanista o Sesquicentenário da Independência. independentes da referência que se faça a eles. o filme retrata com ironia e distanciamento brechtianos o cipoal de intrigas e traições que resultou na revolução abortada e no enforcamento de Tiradentes (interpretado por José Wilker). uma vez que o fenômeno não é representado por palavra da mesma família. Sob essa 14 O exemplo em questão trata-se de uma nominalização não-prototípica. 177) afirma que as rotulações são um poderoso meio de manipulação do leitor quando tem como núcleo de seu sintagma um nome axiológico (avaliativo). por isso. Em (15). são (re)construídos pelos sujeitos no curso de suas interações verbais. sem impregná-las de avaliações ou pontos de vista.

Francis (1994. que aos sujeitos daquele evento toca (re)elaborar. 2003) defende que a rotulação não só sumariza o conteúdo do que foi literalmente dito. o contexto e o gênero discursivo adequado para a obtenção dos propósitos comunicativos do falante. mas também o modo. Além disso. mas fabricada e alimentada pelo próprio discurso num contínuo processo de construção e reconstrução coletiva da própria realidade. 2001). pontos de vista. mas também de contribuir na construção de sentidos na medida em que assinalam direcionamentos argumentativos. Por essa razão. recorre aos argumentos de John Austin (1965 apud KERBRAT- ORECCHIONI. para quem todo dizer é um fazer. isto é. Em síntese. a forma de dizer. tais formas possuem uma dimensão simultaneamente construtiva e intersubjetiva. a escolha por um determinado rótulo leva em conta o papel dos interlocutores. Zavam (Ibidem. a realidade que se erige no evento comunicativo não é dada. No que tange à questão argumentativa subjacente às rotulações. de acordo com Koch (2002). É como se a construção do referente ou a remissão a ele se resumisse ao emprego de expressões linguísticas. Em um mesmo sentido. todo ato de linguagem constitui determinado ato de fala. p. essas expressões referenciais precisam ser vistas sob sua multifuncionalidade. tais formas não têm apenas a função de referir. 2003) parecem revelar uma visão quase que exclusivamente linguística sobre a referenciação.perspectiva. de expressões que já viriam com seu significado antecipadamente dados. Para tanto. merecendo destaque especial a estreita relação entre referenciação e argumentação. 135) aponta que os posicionamentos adotados por Conte (2003) e Francis (1994. a categorização das funções dos rótulos para Francis se afigura do seguinte modo: 42 . dando continuidade ao texto. Grosso modo. embora não seja essa a intenção dos pesquisadores citados.

Todavia. em seus estudos. optou pelo tratamento particular da rotulação. Posição Retrospectivos Prospectivos Retrospectivos/Prospectivos Função Conteúdo Metalinguístico Ilocucionários Atividades Processo Nomes de texto linguageiras Mental Configuração Avaliativa Não-avaliativa Quadro 3 – Função e configuração dos rótulos segundo Francis (1994. cujo núcleo é sempre substantivo. 2003). Francis (1994. esta pesquisa resolveu ampliar os estudos da autora em três pontos: 1) na proposta de classificação de encapsulamentos de núcleos demonstrativos. como o processo de encapsulamento é mais amplo e nem sempre é representado por sintagma de núcleo substantivo. 2) no estudo mais 43 . 2003) Embora tenha dado um tratamento escalar aos encapsulamentos.

De início.] Regada a violência e a temas polêmicos. mais à frente. nem que seja apenas em termos de sua nomeação. Crítica 06  Com Glenn Close. 3) na consideração da importância de alguns termos de natureza gramatical na análise do fenômeno. isso é um termo de metafunção textual que não se encaixa na categoria metalinguística pré-determinada por Francis. Ou seja. uma vez que as classificações “de conteúdo” e “metalinguística” já englobam todas as metafunções discursivas da língua (interpessoal.. ideacional e textual). 2003).aprofundado dos encapsulamentos metalinguísticos. Como um encapsulador de núcleo demonstrativo. tentou-se observar de que modo esse fenômeno se encaixaria nas duas categorias já elaboradas por Francis (1994. mudar-se-ia o nome metalinguístico e criar-se-ia uma subcategoria? Essa é uma das questões que esta pesquisa responde. Tal constatação nos faz repensar a categoria para a inclusão desse tipo de encapsulamento. recorreu-se à GDF. caberia. série vê lado podre da vida Folha de São Paulo. "Shield" tem pouco ou nada a ver com a maioria das séries atuais. sim. explorando uma possível existência de outros subconjuntos. Ao nosso ver. 2003) quanto outras restritas à 44 . cujas classificações do Nível Representacional (de função ideacional e textual) englobam tanto as questões metalinguísticas suscitadas por Francis (1994. pertenceria à categoria metalinguísticos? Sob o ponto de vista da teoria de trabalho. (17) [. Portanto. a GDF. em relação à classificação dos encapsulamentos de núcleos demonstrativos. como no exemplo a seguir. Não obstante.. durante a nossa análise. mas faz isso percorrendo algumas das vielas mais escuras e fétidas da alma humana. Ela quer entreter. para encaixar os encapsulamentos de núcleo demonstrativo nessa categoria. em decorrência da ampliação de nosso escopo. deparamo-nos com um problema de natureza epistemológica. a elaboração de uma subcategoria. 10/08/08 Para tanto. no mínimo. tratar-se-ão todos os fenômenos sob o termo encapsulamento. uma vez que não se focalizará apenas o processo de rotulação.

[. Em seu estado atual de ciência. perspectiva até então pouco considerada. em que o operador assim. 03/08/08 45 . o estudo aprofundado da GDF levou-nos à consciência de que o processo de encapsulamento é uma atividade complexa em que tanto fatores de ordem lexical quanto gramatical estão em jogo.. Portanto. Consciência que vem da própria situação na qual estão os personagens. chamou-se a atenção para a análise de alguns elementos de natureza gramatical. fez-se uso para a ampliação das categorias semânticas. embora um termo de natureza gramatical. Por fim. É uma constatação. geralmente esmagados pelo sistema. É assim com o corpo biomecânico do policial que é utilizado por uma megacorporação em "Robocop". que ultrapassa o físico para chegar a algo além: o próprio mundo. Pode-se conferir tal fato no exemplo abaixo.] Crítica 07  Verhoeven retrata faroeste amoral Folha de São Paulo. a referenciação focaliza apenas as questões de natureza lexical. encapsula um segmento anterior. (18) A consciência do corpo é um dado expressivo no cinema de Paul Verhoeven..designação – dessas últimas. então. no que tange ao terceiro ponto de nossa pesquisa.

apresentam-se o referencial teórico que sustenta a análise desta pesquisa e as justificativas para o trabalho com esse modelo funcionalista de linguagem para a análise dos encapsulamentos.uva. por sua vez. 2008). no segundo semestre de 2008. o livro 15 Para ter acesso a tais artigos. a intenção do falante. CAPÍTULO III A GRAMÁTICA DISCURSIVO-FUNCIONAL Neste capítulo. Depois de algumas versões da GDF. Começou a ser esboçada em 1997 por Kees Hengeveld em um texto intitulado Cohesion in Functional Grammar. o capítulo divide-se em quatro partes. isto é. a quarta. INTRODUÇÃO A Gramática Discursivo-Funcional (GDF) constitui uma nova abordagem funcionalista para a análise linguística.1. e faz sua análise até o componente de saída. 3. dedicado ao discurso e às propriedades pragmáticas e psicológicas que um modelo de base discursiva deve apresentar. publicadas em diferentes revistas e livros15. Para tanto. a articulação. a terceira explicita as categorias da GDF que servirão como aporte para nossa pesquisa.hum. em: http://home. no qual Hengeveld propõe um modelo discursivo com base nas idéias apresentadas no último capítulo de Dik (1997). ela parte da cadeia mais alta da hierarquia linguística. consulte o site do professor Hengeveld. Elaborada por Hengeveld e Mackenzie (2006. traz as justificativas para o estudo dos encapsulamentos sob a égide da GDF. tal teoria se diferencia por conceber uma organização Top-down da gramática. As duas primeiras seções introduzem brevemente o assunto. Hengeveld e Mackenzie lançaram.nl/oz/hengeveldp/ 46 .

Trata-se de uma perspectiva teórica que se aproxima da concepção de linguagem adotada por Traugott (1982) e Traugott e König (1991). Espanha. um modelo de gramática funcionalista que tenta analisar a influência do discurso nas configurações sintáticas da gramática da língua. muitas expressões linguísticas menores que a sentença individual. como forma de se tornar um modelo de gramática funcional mais abrangente. Com relação às outras regiões. Há. país em que está situada a sede de estudos: a Universiteit van Amsterdam. como frases 47 . a GDF ainda é pouco difundida no Brasil. a GDF concentra-se na Europa: Portugal. Em relação a sua origem. Aproxima-se. A partir daí. Os trabalhos acerca dessa linha têm se concentrado na Unesp de São José do Rio Preto.Functional Discourse-Grammar. onde os professores Hengeveld e Mackenzie já ministraram workshops e orientaram pesquisas. segundo Hengeveld (2004). em primeiro lugar. suscita preocupações no próprio Dik. que consideram o discurso como um componente da gramática. gramaticais e cognitivas. em segundo lugar. muitos fenômenos linguísticos que podem ser explicados somente em termos de unidades maiores que a sentença individual. Uma vez que se trata de um modelo funcional relativamente novo no meio científico. funcionam como enunciados completos e independentes dentro do discurso. Contudo. cuja última versão assume uma nova unidade de análise. França. informações contextuais. assim. que enxerga as limitações de seu modelo gramatical orientado para a oração como unidade básica de análise. de forma produtiva. Inglaterra. sobretudo. que passa a ser a unidade básica de análise da GDF. formula-se uma nova teoria que busca analisar as expressões linguísticas com base em um contexto discursivo mais amplo. Dinamarca e. A typologically-based theory of language structure. apesar da GDF ser estruturalmente orientada para o discurso. é importante ressaltar que. procurando aliar. há diversas razões por que a Gramática Funcional deve expandir-se da sentença para o discurso. Essa nova categoria. Holanda. que traz uma versão completa e atualizada da GDF. mas. sim. ela não é uma gramática do discurso. que. o Ato Discursivo. Com efeito. a GDF é uma reformulação do que se vinha chamando de Gramática Funcional Padrão. a gramática ao discurso e ao processamento cognitivo. Há. todavia.

a GDF inicia-se com a formulação da intenção do falante. assevera-se que os níveis elaborados pelos professores Hengeveld e Mackenzie (2006. expandir gradualmente a estrutura subjacente da oração. para. 10): a) Conhecimento prévio: conhecimento que falante e ouvinte possuem antes de um evento comunicativo. seguem os tipos de conhecimentos sob o escopo da GDF – adotados a partir da elaboração de Dik (1997. finalizando com a realização da expressão linguística. na GDF. exclamações e vocativos. 2008) vão muito além da mera estrutura gramatical e não fogem a uma perspectiva textual. Enquanto a Gramática Funcional de Dik inicia-se com a seleção de itens lexicais. o discurso passa a ser. o nome Gramática Discursivo- Funcional se justifica pela ênfase no Ato Discursivo. em seguida. Para termos a comprovação de tal dado. uma vez que também compreendem elementos de ordem pragmática e semântica. como afirmado acima. o “suporte” das unidades linguísticas de níveis mais baixos. o da previsão da análise transfrástica (textual) e não só a da cláusula (morfossintática). No que tange à nossa pesquisa. p. b) Conhecimento imediato: conhecimento derivado da situação discursiva em que ocorre o evento. p. Desse modo. Assumindo o Ato Discursivo como unidade de análise. que pode ser situacional (conhecimento derivado 48 . que pode ser linguístico (conhecimento da língua) ou não-linguístico (conhecimento do mundo e de outros mundos possíveis). o que quer dizer que ela não se restringe a orações completas. A typologically-based theory of language structure ao tratarem da possibilidade do estudo da anáfora em sua teoria. 02). a GDF pode ser definida mais concisamente como uma teoria que procura entender como as unidades linguísticas são estruturadas em termos do mundo que elas descrevem e das intenções comunicativas com que elas são produzidas. como eles mesmos já observaram em Functional Discourse-Grammar.elípticas. Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008. pode parecer equivocada a opção por uma teoria cujo título recebe o nome gramática. No entanto.

• Conhecimento textual: a) Referencial: conhecimento sobre entidades. na forma descrita no texto. nos quais as entidades estão envolvidas. 49 . entidades discursivas ou tópicos. nos quais as entidades estiveram. c) Pragmático: conhecimento das regras e princípios que administram o uso correto de expressões linguísticas na interação verbal. não-linguístico e textual podem ser divididos. a saber: • Conhecimento linguístico: a) Lexical: conhecimento dos predicados lexicais da língua. b) Episódico: conhecimento sobre estados-de-coisas (ações. c) Geral: conhecimento sobre regras gerais e princípios. posições. os conhecimentos linguístico. como pessoas. estados). processos. na forma mencionada no texto. na forma mencionada do texto. Ainda. • Conhecimento não-linguístico: a) Referencial: conhecimento sobre entidades. e das regras e princípios pelos quais essas estruturas subjacentes podem ser expressas na língua. estão ou estarão envolvidas. coisas e lugares. e suas inter-relações. b) Episódico: conhecimento sobre estados-de-coisas. b) Gramatical: conhecimento das regras e princípios que definem as estruturas gramaticais da língua. do que pode ser percebido e inferido da situação comunicativa) ou textual (conhecimento oriundo da informação transmitida durante o evento comunicativo). suas propriedades semânticas e morfossintáticas. c) Geral: conhecimento sobre regras gerais e princípios que governam o mundo e outros mundos possíveis.

que. (iv) Ordenar esses níveis da categoria mais alta à mais baixa (top-down fashion). e não da cláusula. por sua vez. PROPRIEDADES BÁSICAS DA GDF São propriedades básicas da Gramática Discursivo-Funcional: (i) Constituir o componente gramatical de um amplo modelo da interação verbal do usuário de língua natural. contextuais e de formulação linguística. o que nos leva a considerá-la uma gramática do discurso. um morfossintático (ou estrutural) e um fonológico (ou articulatório). Essa análise sugere. é composto por componentes conceituais. 50 . na GDF. um representacional (ou semântico). analisando os níveis mais baixos na hierarquia. (ii) Considerar os Atos Discursivos como unidades básicas de análise. (iii) Dividir a organização linguística em quatro níveis: um interpessoal (ou pragmático). em sequência. É importante ressaltar que a nossa pesquisa terá um caráter ensaísta no âmbito da GDF. o novo modelo proposto por Hengeveld e Mackenzie (2008) é descrito como um processo top-down (descendente). só propuseram sua potencialidade. Dessa forma. que parte da intenção do falante (do componente conceitual) para a expressão das formas linguísticas. quais caminhos demonstram abertura para uma investigação dos encapsulamentos.2. começando com a representação das intenções linguísticas do falante e. uma vez que os próprios autores não desenvolveram metodologia com foco no estudo das referências. que o falante primeiro decide qual vai ser seu propósito comunicativo (sua intenção) para depois selecionar e codificar essa informação gramaticalmente. segundo os autores. grosso modo. 3. O que se fez aqui foi investigar.

motivada pelo postulado de que a eficiência de um modelo de gramática é tanto maior quanto mais se aproximar do processamento cognitivo16. 3) O falante codifica a informação em termos gramaticais e fonológicos e. conforme Hengeveld e Mackenzie (2005). 1989 apud HENGEVELD E MACKENZIE. 51 . que se inicia com as intenções do falante e termina com a articulação/realização da expressão linguística real (componente de expressão). estudos psicolinguísticos (LEVELT. 2) O falante seleciona a informação mais adequada para atingir seu objetivo. mas. 2008) demonstram claramente que a produção linguística é um processo descendente. sim. as etapas da produção da fala são: 1) O falante decide qual vai ser seu propósito comunicativo (informações pragmáticas e contextuais). de descrição gramatical. Isso porque. Segundo Levelt (1989 apud MODESTO 2006. 4) O falante realiza o processo de articulação. p. a GDF não se trata de um modelo de processamento. por fim. Essas características nos levam ao seguinte esquema: 16 Embora os autores questionem acerca da eficiência do modelo. segundo eles. 07). Essa mudança é. que procura apenas refletir o processamento.

não se tratou dos dois últimos níveis da organização linguística neste trabalho. OS QUATRO NÍVEIS DA ORGANIZAÇÃO LINGUÍSTICA De um modo geral. para as teorias funcionalistas. Nesse sentido.O modelo descendente 3. À nossa pesquisa interessam apenas os dois primeiros.3. Antes de tratar-se especificamente dos dois primeiros níveis. uma vez que o fenômeno analisado faz remissão ou ao nível pragmático ou ao semântico. a organização linguística da GDF se dá através de quatro níveis. é importante chamar a atenção para o fato de que. a língua é um instrumento de comunicação. Portanto. a saber: o Interpessoal (ou pragmático). suas 52 . o Representacional (ou semântico). e não um objeto autônomo. o Morfossintático e o Fonológico. Componente Conceitual Componente Gramatical Formulação Componente Contextual Codificação Componente de Saída Quadro 4 .

estruturas são submetidas às pressões provenientes do uso. não se pode compreender um fato linguístico sem se levar em conta o sistema ao qual pertence. dentre eles: a força de situação de comunicação. processamento mental. o planejamento. A análise de uma língua requer que se considerem as diversas funções linguísticas e seus modos de realização. Neves (2000. Em um mesmo sentido. Halliday (1985. 53 . p. interação social e cultura. Sendo assim. Desse modo. as imagens que o falante forma do interlocutor. interior. mudança e variação. Halliday (1985) diz que o sistema linguístico está intrinsecamente ligado ao contexto e provê todos os elementos necessários para que a língua possa ser utilizada em situações concretas de uso por falantes reais. 141) formulou um esquema. entre outros. à interpretação e expressão de nossa experiência acerca dos processos do mundo exterior e dos processos mentais e abstratos de todos os tipos. em que as funções básicas da comunicação se dividem em: a) Ideacional – em que linguagem tem como finalidade a manifestação de conteúdos que estejam ligados à experiência que o falante possui do mundo concreto. já que a gramática não pode ser entendida sem parâmetros como cognição e comunicação. que exerce grande influência sobre a estrutura linguística. pesam diversos fatores. Com base em uma troca intricada entre os participantes no processo de interação verbal. aquisição e evolução. 19) postula que a língua (e a gramática) não pode ser descrita como um sistema autônomo. nesse processo. real ou de seu universo subjetivo. p. Assim. mas é também a partir dos fatores externos que o falante deverá proceder para determinar suas escolhas. o funcionalismo analisa a estrutura gramatical tendo como base a situação comunicativa do ato de fala. Diz respeito ao conteúdo do que é dito. Cada indivíduo faz parte de um grupo social e usa a língua em situações variadas para atingir diferentes objetivos. seus participantes e seu contexto discursivo.

b) Interpessoal – abrange todos os usos da língua para expressar relações sociais e pessoais. desaprovar. pronomes e formas de tratamento deferenciais e informais. Os lexemas introduzidos nesse nível incluem nomes próprios. incluindo todas as formas de intervenção do falante na situação discursiva e no ato de fala. diferenciações sociais (p. O Nível Interpessoal (ou pragmático) O Nível Interpessoal (NI). lexemas e operadores primários. o indivíduo falante ou escritor é capaz de criar textos e o ouvinte ou leitor consegue distinguir um texto de um conjunto aleatório de frases. Nesse nível. Tais conceitos serão fundamentais para o entendimento dos dois primeiros níveis da GDF. a seguir. equilibrando o ato de fala em representação (ideacional). em síntese). Nesta função. 3. pois. reflete seu papel na interação entre os participantes. Esta. já que sempre o ato comunicativo necessita da elaboração de discursos. Esta função é que habilita o falante a criar um texto.3. etc. Os esquemas conteriam os recursos gramaticais que estão disponíveis em cada língua para se fazerem as distinções que dizem respeito à interação verbal. Permite que o falante participe da situação comunicativa para aprovar. ex.). cada qual com um propósito comunicativo em mente. ele pode ser meramente elaborado para estabelecer e manter relações sociais. etc. marcadores 54 . A função textual é. ex.). Foco e Contraste. dúvida. por sua vez. esse propósito pode ser bastante explícito (como em uma entrevista de emprego). Para Halliday (1985). como o nome sugere. opinião. um instrumento das outras duas. Esse é o nível que lida com os aspectos formais de uma unidade linguística. funções pragmáticas (Tópico. Em outros. c) Textual – em que a linguagem estabelece vínculos com ela mesma e está ligada às características da situação em que é usada. troca (interpessoal) e mensagem (textual). essas três funções se combinam e se atualizam simultaneamente nas cláusulas. expressar crença. O NI implica a ideia de que cada falante emprega uma estratégia de modo mais ou menos consciente para atingir seus objetivos comunicativos. tais como ilocuções básicas. estruturando assim o contexto conversacional. equivale ao que Halliday (1985) nomeou de função interpessoal da língua.1. Em alguns casos. locuções que modificam o ato ilocutivo (p. três tipos de primitivos operam: esquemas.

em termos de ilocução. Se.discursivos. o mesmo enunciado. de análise da estrutura linguística. 55 . Na verdade. não é uma teoria do discurso. a forma como os interlocutores moldam suas mensagens com base nas expectativas atuais do estado mental do destinatário. A GDF. numa dada situação. entende-se a forma como os componentes discursivos são ordenados para que o falante atinja seus objetivos comunicativos e também as propriedades formais dos enunciados que influenciam o destinatário a aceitar os propósitos comunicativos de seu interlocutor. Por função retórica. por exemplo. aqui. não pode ser feita sem se levar em conta aspectos pragmáticos e retóricos. é esse componente que contém as intenções comunicativas do falante e as estratégias que ele deseja usar para obtê-las. o ouvinte B está próximo à janela de sua sala de estar e escuta do falante A o enunciado “Está frio aqui dentro!”. O objetivo de tratar tais funções é o de explicitar que as decisões comunicativas do falante não são tomadas a partir da gramática. o NI não tem como parâmetro o esgotamento de todos os aspectos discursivos envolvidos nesse processo. etc. No entanto. Tais exemplos mostram que a análise linguística. sim. por trás de tais enunciados. se A e B estivessem em um local em que tanto A quanto B não tivessem liberdade de executar o ato de fechar a janela. sim. provavelmente. de um componente conceitual. de identificabilidade ou de genericidade). Há. mas. Os operadores primários são elementos passíveis de instigar processos nos Níveis Morfossintático e Fonológico (p. Não obstante. Por função pragmática. porque a opção entre “Está frio aqui dentro” e “Feche a janela” não é neutra. Os aspectos discursivos tratados pela GDF são aqueles que dão conta das funções retóricas e pragmáticas da língua. Diz-se também retóricos. ex. é muito provável que A interprete tal enunciado como “Feche a janela” e não apenas como um comentário. mas. seria interpretado como um comentário. entende-se. operadores de reportatividade. mas somente daqueles que são relevantes para a manifestação linguística. princípios de polidez e papéis sociais que precisam ser evidenciados na análise linguística. apesar de ter como escopo o discurso.

tais símbolos não servirão a nossa pesquisa.. em Subato de atribuição > Subato de referência..] (R1): ∑ (R1))Ф Subato de Referência ] (C1): ∑ (C1))Ф Conteúdo Comunicado ] (M1): ∑ (M1))Ф Move 17 Quadro 5 – Categorias do Nível Interpessoal 3. a seguir: Move > Ato Discursivo > Conteúdo Comunicado. um convite.. Os símbolos utilizados servem para a taxionomia das unidades do Nível Interpessoal. formam o núcleo (simples ou complexo).1. um alerta. um interrogatório. o Move (M). uma ameaça. 1995 apud Hengeveld e Mackenzie.3.. O Move De acordo com Hengeveld e Mackenzie (2008).. 56 . O Ato Discursivo se subdivide em Ilocução e Participantes – únicos em relação não- hierárquica. por exemplo. o Falante e o Ouvinte (S. que contém ao menos dois Participantes (P). No entanto. o NI contém as descrições de todas as propriedades das unidades linguísticas que refletem a interação verbal e a influenciam - hierarquicamente. uma informação.1.] (T1): ∑ (T1))Ф Subato de Atribuição (∏ R1 [.. Em termos interpessoais. A)18 e o Conteúdo 17 O quadro nos serve apenas de ilustração. 2008) e é o veículo utilizado na expressão de intenções comunicativas do falante como. Cada Ato Discursivo (A) se organiza com base num esquema Ilocucionário (ILL). (P1): ∑ (P1))Ф Falante (∏ P2: . juntos. por sua vez. (P1): ∑ (P2))Ф Ouvinte (∏ C1: [ Conteúdo Comunicado (∏ T1 [. ele pode ser definido como a unidade mínima de discurso (Kroon. o nível mais alto na hierarquia.. Desse modo.. 18 S do inglês speaker (falante) e A de addressee (destinatário). descreve o segmento inteiro de discurso que é considerado relevante no processo de interação. O Conteúdo Comunicado se subdivide. Elas podem ser representadas como na figura abaixo: (∏ M1: [ Move (∏ A1: [ Ato Discursivo (∏ F1: ILL (F1): ∑ (F1))Ф Ilocução básica (∏ P1: . Pode ser constituído de um ou mais Atos Discursivos temporalmente ordenados que. etc.

50) No entanto. pois. de modo muito geral.Comunicado (C) com seus argumentos. como no exemplo (19). em um mesmo turno. Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008. p. É uma categoria mais evidente na conversação. Há Moves de iniciação e de reação. embora o Move geralmente se encontre no início de parágrafos em sequências expositivas. O Conteúdo Comunicado contém um número variável de Subatos de Atribuição (A) e de Referência (R). a identificação do Move em outras sequências textuais não se dá com tal facilidade. (M2)Reação Why do you ask? Hengeveld e Mackenzie (2008. ou seja. Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008). (M2)Reação Why do you ask? (M3)Iniciação A: I’m doing my homework. pelo fato de contar com a informação prosódica como unidade delimitadora das ações do falante (além dos elementos linguísticos que demarcam tal unidade). (M4)Reação Hengeveld e Mackenzie (2008. aos quais as funções pragmáticas são atribuídas. pode haver dois Moves. p. essa correspondência não é fixa. como em: (19) A: What is the capital of Latvia? (M1)Iniciação B: Riga. já que as reorientações discursivas perlocucionariamente motivadas nem sempre são previsíveis nesses casos. 50) Os Moves constituídos por apenas um Ato Discursivo são mais fáceis de identificar. 51). o Move(M) se define pelo fato de “requisitar” uma resposta ou ser ele mesmo uma resposta. cada Move corresponderia ao turno de fala. Em contrapartida. A despeito dos parágrafos terem como função a introdução de novos tópicos ou focalização de diferentes aspectos do 57 . isso não é um fator determinante. argumentativas e narrativas. p. uma reação ao pedido. Nesse tipo de interação. veja: (20) A: What is the capital of Latvia? (M1)Iniciação B: Riga.

após o desaparecimento de seu filho durante a ditadura militar. do Zé do Caixão? Posso estar 19 Para uma maior compreensão da categoria Ato Discursivo. 23/11/08 No exemplo acima.Por isso mesmo. também fantásticas. com “Zuzu Angel”. vai chocar tanto quanto as diabruras. Será que essa cabeça.. Zuzu aparece aqui como personagem isolado em seu heroísmo. Por isso mesmo.] No entanto. já que apresenta o movimento perlocucionário de conclusão/fechamento do texto. os dois Moves acima sejam constituídos de apenas um Ato Discursivo (isto é. Há também os de núcleo complexo (mais de um Ato Discursivo). achar parágrafos que tanto desenvolvem um argumento quanto concluem a tese de um texto. E vai executar um longo trajeto com a cabeça dentro de um saco. 58 .3. A história passa um tanto ao largo. têm-se dois Moves em parágrafo único. por exemplo.. isso não é uma regra.2. Não é raro. M1 e M2. isolado em seu heroísmo – (A1))] (M1)) ((M2: [A1: . Crítica 25  Rezende faz valer a individualidade Folha de São Paulo. como o exemplo que segue: (22) [. tanto ao largo – (A1))] (M2)) Embora.No entanto... não é difícil encontrar textos inteligíveis e adequados à norma padrão que tragam mais de um Move em parágrafo único. sendo que o último Move representa uma reação ao primeiro. Pois alguém a trará -está feito o aviso.. devida ao fantástico Sam Peckinpah. consulte o tópico seguinte.tópico em curso.. temos um caso que por razões diversas (a mais evidente é a censura) ficou na sombra: o da estilista que. ambos constituídos por um Ato Discursivo19 de força ilocucionária DECLARATIVA. o filme. 11h45. 3. não recomendado para menores de 12 anos)..] Pois mais vale que pessoas tão sensíveis passem longe de "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia" (TC Cult. torna-se uma intrépida mãe coragem e mobiliza céus e terras em busca de respostas. o filme vale pela individualidade.. Os dois Moves estão destacados abaixo: (M1: [A1: . de núcleo simples). com "Zuzu Angel". Veja o exemplo: (21) [.1.

sem saber em que nível estamos..] 59 . É como se o drama existisse sobretudo para ganhar o Oscar. até a cena de assassinato (sim. Abaixo. de Alfredo Garcia – ] (A1)) (A2: [(F2: DECL (F2)) – E vai executar.. identificados pela força ilocucionária que carregam: admonitiva.. destacam-se ambas categorias: (M1: [ (A1: [(F1: ADMON (F1)) – Pois mais vale. acontece um no filme). o fim dos tempos – ] (A4)) ] (M1)) A categoria Move (assim como as outras categorias dos Níveis Interpessoal e Representacional) pode ser marcada com a presença de operadores e modificadores. Segue um exemplo de operador que orienta uma concessão e outro de modificador que marca o início de uma síntese: (23) [. sua ex- mulher -o público do teatro. "Fatalidade" deixa a impressão de que sua maior vocação é para uma magnífica "comédia do recasamento". e nós também. APESAR desses momentos serem intensos. se no da vida ou no da representação.. compreendem-se os elementos gramaticais que especificam o papel do Move no discurso em andamento.. Por operadores. representava a invasão da Terra por alienígenas era. de um saco – ] (A2)) (A3: [(F3: INTER (F3)) – Será que essa. errado. como. ao mesmo tempo. Apresenta quatro Atos Discursivos. mas esse tipo de reação visa objetos específicos. em 1938. [.. o fim dos tempos. Brita (Signe Hasso). dessas que Garson Kanin escreveu com maestria (às vezes na companhia de Gordon) e que Cukor dirigiu com a sensibilidade que se conhece. que orientam a argumentação de um Move. declarativa.... 31/08/08 O parágrafo acima representa o Move de reação da crítica em destaque. interrogativa e declarativa. mas não único: a cena final de "Otelo". de fato. os elementos lexicais com a mesma função. em que Tony estrangula não só Desdêmona. graças ao prestígio que a comédia não costuma ter. concluindo-a. Crítica 01  A censura parece vitimar só o imaginário Folha de São Paulo. o fato é que.. Zé do Caixão? – ] (A3)) (A4: [(F4: DECL (F4)) – Posso estar. enquanto por modificadores. Lembra a das pessoas em transe histérico para quem o programa de rádio no qual Orson Welles.]Exemplo mais evidente. ficamos em suspense...

bligoo. mais por dinheiro pessoas matam e por dinheiro pessoas morrem. hoje é essencial. Enquanto para a gramática tradicional a unidade básica de análise é a oração. tantos avanços teconologicos principalmente no campo da comunicação ( Até ontem a internet era uma novidade. mas é realmente as vezes revoltante vermos que milhoes são gastos pro homem ir a Lua enquanto milhares de pessoas morrem desse maldito cancer.acessado em 05/01/10 3.3. 60). 23/11/08 (24) Temos sempre os dois lados do avanço tecnologico. Mas me questiono diariamente que como com tantas descobertas sendo realizadas todos os dias. a unidade é o Ato Discursivo. as 60 . 2008. o petróleo ou por dinheiro e a cura das doenças não são divulgadas por causa do dinheiro. como que doenças graves não tem sua cura ou remedios ? Porque não usarmos em prol de cura de doenças todo o avanço do mundo atual ? Sei que isso sai completamente de nosso tema. os Atos Discursivos são as menores unidades identificáveis do comportamento comunicativo. que se conecta à categoria Move através de relações de equipolência e dependência (nesta última.2. para a Gramática Discursivo-Funcional. desa aids. necessariamente. indispensável. infelizmente é assim. O Ato Discursivo Segundo Kroon (apud HENGEVELD e MACKENZIE.1.html . o que é mais importante salvar vidas ou o avanço tecnologico ? Por Marcelle Ximenes em 07/06/2009 às 11:10 PM RESUMINDO a história. Quando há uma guerra ela geralmente acontece por causa que alguém quer ter o poder. Crítica 26  Filme de Cukor aproxima a vida e o palco Folha de São Paulo. nao imagino minha vida sem ). Por Adilson Silva Santos em 19/06/2009 às 11:50 AM Fórum de opinião em http://turmae2009. por que os laboratórios dependem dos coquitéis que são vendidos para obterem seu lucro e eles não querem abrir mão desse lucro. a comunicação visando à obtenção de um objetivo comunicativo. Em contraste com a categoria Move. Fica o questionamento.com/content/view/531283/RFID-Uma- introdu-o-ao-tema. eles não encaminham. p.

para que o falante atinja sua intenção comunicativa não é necessário que haja uma estrutura oracional. 60). já que pertencem ao Componente Contextual. Hengeveld e Mackenzie (2008. 53) 61 . apresentam-se mais fluidas. menos previsíveis. o que as torna passíveis de discordância durante a análise. Contudo. conferir Hengeveld e Mackenzie (2008. Concessão. resolvemos não exemplificá-los. observam. o Move e o Ato Discursivo. Todavia. Em muitos casos. não estabelecem. Para explicitação. p. 60). p. 20 Uma vez que as funções retóricas dos Atos Discursivos não foram utilizadas na análise de dados de nossa pesquisa. mecanismos para sua identificação. como no exemplo a seguir. manifestados entre predicações (seja em relação de equipolência.relações entre os atos – funções retóricas – são de Motivação. assim como não há equivalente formal da categoria Move. delimitar esses segmentos discursivos não é tarefa simples. também não há correspondência formal entre o Ato Discursivo e qualquer outra unidade linguística. Inclusive. seja de dependência) no Nível Fonológico. embora definam a categoria Ato Discursivo. de forma pontual. mas somente um sintagma nominal ou adverbial. Orientação e Correção)20. dois elementos importantes para sua delimitação: 1) segmentos de mesma força ilocucionária tendem a formar um único Ato Discursivo. É importante enfatizar que. na categoria. os autores (2008. As duas categorias mais altas na hierarquia do Nível Interpessoal. ex. p. 61) Estabelecer o Ato Discursivo como a unidade mínima do comportamento discursivo de análise permite-nos estudar sob um prisma discursivo-funcional tanto elementos menores que a oração  como no exemplo acima  quanto elementos extra-oracionais que eram vistos à margem da gramática (p. p. 2) Contornos Entonacionais distintos. na atual versão da GDF. por exemplo. já que não há correspondência direta entre o Ato Discursivo e qualquer outra unidade linguística (Ibidem. em que o SN expresso em B funciona como Ato Discursivo e Move: (25) A: Who does John want to shave? B: Himself. os marcadores discursivos).

53) No exemplo.. No entanto. 62 . constituído de apenas um Ato Discursivo (A). inspiraram a minissérie da Globo.marcam Atos Discursivos diferentes. Assim era Maysa (1936-1977). And Rangers lost. É importante ressaltar que o ponto que separa os dois períodos não é simplesmente descartável sob um ponto de vista discursivo. (Tn)) (R1: Maysa (R1))] (C1)) (C2: [ (T1: nossa diva. cuja história pessoal e. p.. Não é o Nível Fonológico que influencia o Interpessoal. Dizer Celtic won. Veja a esquematização do Move: (M1: [ (A1: [ (F1: DECL (F1)) (C1: [ (T1: intensa. Helgeveld e Mackenzie (2008. mas. naturalmente. mas antes de tudo uma grande cantora. cotovelo (T1)) (R1: Maysa (R1))] (C2)) (C3: [ (T1: inspiraram (T1)) (R1: história pessoal e música (R1)) (R2: minissérie da Globo (R2))] (C3)) ] (A1)) ] (M1)) Abaixo. o Move de iniciação de A provoca o Move de reação de B. este que tem repercussões naquele. cujo turno de fala consiste de dois Atos Discursivos. [. processo nomeado alinhamento pelos autores (cf. em que um nível mais baixo influencia um nível mais alto.] Crítica 46  “Maysa é a nossa versão de Amy Winehouse” Folha de São Paulo.. Para elucidação do primeiro elemento. mesmo quando constituídos por mesma força ilocucionária21. 11/01/09 Acima. tem-se um Move (M) de descrição. cuja unidade é mantida pela identidade na força ilocucionária (de valor DECLarativo) entre as predicações... sua música. sim. um exemplo de motivação fonológica. não é isso que ocorre no segundo caso. autodestrutiva.. 2008. 316).. há momentos em que a relação entre os níveis ocorre de maneira não-hierárquica. And Rangers lost ou Celtic won and Rangers lost não é a mesma coisa. irreverente. contraditória. nossa eterna diva da fossa e da dor de cotovelo. No primeiro 21 Para a teoria. marcados pelo contorno entonacional. p. (27) A: What happened yesterday in the Scottish Premier League? B: Celtic won. segue o exemplo abaixo: (26) Intensa..

por isso opta por um período mais curto. isso não ocorre. Monica Rawling (Glenn Close). Os modificadores (de caráter lexical) permitem ao falante comentar ou enfatizar o próprio Ato Discursivo. o Ato Discursivo pode conter modificadores e operadores.] Além disso.. uma mulher honesta que chega disposta a desferir um duro golpe nas gangues da área.. as missões arriscadas que comandava foram substituídas por uma investigação longa e burocrática. os Atos Discursivos podem ser de três tipos: 1) Expressivos: em que o falante expressa seus sentimentos. Veja o exemplo abaixo em que o contorno entonacional dado ao verbo denuncia ironia: 63 . como também a própria unidade linguística – no caso. é determinante para a localização de um ou mais Atos Discursivos. subentende-se que o falante deseja enfatizar a informação do segundo predicado. de entonação mais marcada. 2) Interativos: em que o Ato Discursivo interpela o ouvinte (p. o que nos mostra que certos padrões prosódicos modificam não só a orientação discursiva. Eu prometo que estarei em casa / eu estarei em sua casa amanhã). ex. Droga!). (p. Crítica 06  Com Glenn Close.caso. Além disso. série vê lado podre da vida Folha de São Paulo. (p. ex. ex. ênfase ou mitigação acerca do Ato Discursivo. Veja: (28) [. Parabéns!) 3) Contentor: em que o Ato Discursivo envolve o Conteúdo Comunicado e uma ilocução – lexical ou abstrata. assim como a categoria Move. Já no segundo. 10/08/08 Já os operadores (de caráter gramatical) podem marcar ironia. Quanto à configuração. Esse quadro muda quando a delegacia ganha uma nova capitã.

de acordo com o eixo relativo ao grau de intensidade na apresentação do objetivo. de acordo com sua definição. Searle (1972 apud KERBRAT-ORECCHIONI. etc. A Ilocução A Ilocução captura as propriedades formais e lexicais de Atos Discursivos em situações convencionalizadas. também não há relação direta entre uma intenção comunicativa específica e uma ilocução. 3.1. 2001). assim como não há correspondência entre as unidades linguísticas e as duas categorias mais altas do Nível Interpessoal. que estão a serviço de intenções comunicativas como: “chamar a atenção”.3. 2. Os promissivos: são atos cujo objetivo é obrigar o locutor (aqui. Os expressivos: (como “agradecer”. “se desculpar”. 4. neste caso. igualmente. 64 . Os diretivos: o objetivo ilocutório dos diretivos consiste “no fato de eles constituírem tentativas por parte do locutor de mandar o auditor fazer alguma coisa”. “advertir”. ou ato ilocucionário. p. 31) os classifica em cinco tipos. de uma adequação das palavras ao mundo. pode-se compreender todo enunciado linguístico em que o falante visa a produzir certo efeito e a implicar certa modificação da situação interlocutiva. a saber: 1. “parabenizar”. “insistir”). “requerer”. “deplorar”) possuem. No entanto. ao contrário. “exigir”. “ardentes” (“ordenar”.3. Os assertivos: têm o objetivo de “comprometer a responsabilidade do locutor (em diferentes níveis) sobre a existência de um estado-de-coisas. o objetivo de “expressar o estado psicológico especificado na condição de sinceridade diante de um estado de coisas especificado pelo conteúdo proposicional”. don’t you think? Hengeveld e Mackenzie (2008. em graus variados) a adotar uma conduta futura. “asseverar”.) ou. sobre a verdade da proposição expressa”. (29) This IS fun. 2001. Por Ilocução. 65) 3. p. tentativas que podem ser “muito modestas” (“convidar a”. “sugerir” etc. segundo Austin e Searle (1972 apud KERBRAT-ORECCHIONI. “ordenar”. “questionar”. Trata-se.

• Imprecativa (IMPR): o falante indica ao ouvinte seu desejo que a situação negativa evocada pelo Conteúdo Comunicado ocorra. 71) as ampliam para doze categorias. cujas descrições seguem: • Declarativa (DECL): o falante informa o ouvinte do Conteúdo Proposicional evocado. • Exortativo (HORT): o falante encoraja o ouvinte ou a si mesmo a fazer uma ação evocada no Conteúdo Comunicado. Em contrapartida. • Admonitiva (ADMON): o falante adverte o ouvinte a realizar a situação evocada pelo Conteúdo Comunicado. • Comissiva (COMM): o falante promete a si mesmo a realizar uma situação futura evocada pelo Conteúdo Comunicado. dizem respeito a todos os performativos. Os declarativos: quando provocamos mudanças no mundo através de nossas enunciações. • Imperativa (IMPER): o falante delega ao ouvinte a responsabilidade de fazer uma ação evocada. p. 2001) classifica as ilocuções em cinco tipos. Em sentido estrito. 65 . 5. • Suplicativa (SUPPL): o falante pede permissão ao ouvinte para realizar a situação evocada pelo Conteúdo Comunicado. • Não-exortativo (DISHORT): o falante desencoraja o ouvinte ou a si mesmo a fazer uma ação evocada no Conteúdo Comunicado. • Proibitiva (PROH): o falante proíbe o ouvinte de fazer uma ação evocada. • Interrogativa (INTER): o falante requisita ao ouvinte responder ao Conteúdo Proposicional evocado. Hengeveld e Mackenzie (2008. enquanto Searle (1972 apud KERBRAT-ORECCHIONI. • Optativa (OPT): o falante indica ao ouvinte seu desejo que a situação positiva evocada pelo Conteúdo Comunicado ocorra.

de fato. vai chocar tanto quanto as diabruras. marcam ênfase e mitigação.. p. de Alfredo Garcia – ] (A1)) (A2: [(F2: DECL (F2)) – E vai executar. Hengelved. E vai executar um longo trajeto com a cabeça dentro de um saco. 31/08/08 (M1: [ (A1: [(F1: ADMON (F1)) – Pois mais vale. 76) apontam que uma ilocução também pode ser ocupada por interjeições e expressões correlatas (que servem para dar vazão às reações do falante em relação aos elementos presentes na situação discursiva) e vocativos (que. A seguir.. um exemplo que evidencia algumas dessas ilocuções – observe a nomenclatura destacada em caixa alta na esquematização do Move. Mackenzie (Ibidem. Será que essa cabeça. sinceramente).] Pois mais vale que pessoas tão sensíveis passem longe de "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia" (TC Cult.. de um saco – ] (A2)) (A3: [(F3: MIR (F3)) – Será que essa. o fim dos tempos – ] (A4)) ] (M1)) Além das funções citadas. ex. do Zé do Caixão? Posso estar errado.. Zé do Caixão? – ] (A3)) (A4: [(F4: DECL (F4)) – Posso estar.. francamente. o fim dos tempos. os últimos. • Mirativa (MIR): o falante expressa sua surpresa sobre o Conteúdo Comunicado evocado. devida ao fantástico Sam Peckinpah.... Pois alguém a trará -está feito o aviso. que marcam as ilocuções: (30) [. Crítica 01  A censura parece vitimar só o imaginário Folha de São Paulo. Veja um exemplo de cada. 11h45. respectivamente: 66 . quando no início de um segmento discursivo. Em relação aos modificadores e operadores de tal categoria. em 1938.. Lembra a das pessoas em transe histérico para quem o programa de rádio no qual Orson Welles. representava a invasão da Terra por alienígenas era. mas esse tipo de reação visa objetos específicos. também fantásticas.. servem para chamar a atenção do ouvinte). não recomendado para menores de 12 anos). os primeiros representam modalizações de atitude do falante (p.

haverá apenas a função falante (P1) representada. p. embora ambos não estejam marcados no texto. 53) Além disso. quando o Ato Discursivo tiver configuração expressiva. (34) A: What happened yesterday in the Scottish Premier League? B: Celtic won. p. Helgeveld e Mackenzie (2008. ninguém dá a mínima. Hengeveld e Mackenzie (2008. mas. And Rangers lost. há situações em que eles estão implícitos.pedia.1. os quais carregam a função Agente e Receptor.ws/wiki/Ningu%C3%A9m_se_importa – acessado em 05/01/10 (32) Quero isso AGORA!!! Exemplo construído 3. 85) No entanto. Os Participantes Os dois participantes do Nível Interpessoal são Falante (P1) e Ouvinte (P2).3. Exemplo: 67 . respectivamente. Veja o exemplo abaixo. (31) Scarlett O'Hara queria ir para algum lugar. francamente.4. Veja o exemplo em que os dois participantes estão marcados: (33) I request you to complete this form. em que a fala de A se dirige a B. Fonte: Desciclopédia Em http://desciclo.

com. (35) Ai! Exemplo Construído Quanto aos modificadores e operadores da categoria “participantes”. O falante.1. você aí . No que tange ao componente representacional. ele corresponde ao componente representacional de Searle (1969) e evidencia as escolhas do falante na evocação do mundo externo sobre o qual ele deseja falar. O Conteúdo Comunicado Enquanto a Ilocução indica o uso conversacional convencionalizado de um Ato Discursivo.Banda Ruth’s Disponível em: http://www. mas algo que. o Conteúdo Comunicado contém a totalidade do que o falante deseja evocar durante a interação. etc. selecionará um ouvinte específico. Em termos acionais. é esse tipo de proposição (de ato 68 .) de um dos participantes. Searle entende que esse elemento. (36) Ei. de que lado você está? Música Ei. mais precisamente.br/bandas-ruths/ei-voce-ai Já os operadores serão representados por elementos que marquem número (singular/plural) e status (gênero. os primeiros são representados quando há uma especificação restrita do núcleo. enunciado em certas circunstâncias. o componente representacional designa não um mero fragmento de ato de fala. 3.3. Em outras palavras.letras. representará uma faceta de si mesmo ou do ouvinte. ainda. uma proposição corresponde a um enunciado em que já está marcado o componente ilocucionário. pode ser considerado o cumprimento de um ato de fala. nesse caso. Em resumo. você aí. Contudo. que pode ser comum a atos de fala diferenciados entre si – com relação ao componente ilocucionário –. uma asserção. Veja o exemplo. no sentido tradicionalmente atribuído ao termo proposição.5. vem a ser uma proposição. especificamente aquele que caracteriza a intenção de realizar o ato de fala de afirmar um fato como verdadeiro (asserção). ou.

p. (A) Maria. apud KERBRAT-ORECCHIONI. aí. p. No segundo. sinceramente. já os operadores podem trazer tanto idéia de ênfase quanto de reportatividade23. em que um sufixo marca a reportatividade: Cai-ronqui reocoocainyantanque (sufixo – equivale a declaradamente) Declaradamente. não há Conteúdo Comunicado. 3. evidência sensorial. Os modificadores de Conteúdo Comunicado são aqueles que enfatizam a asserção (p. ele virou. o contraste sinaliza o desejo do falante de externalizar diferenças particulares entre dois ou mais conteúdos comunicados ou entre um conteúdo comunicado e outra informação contextual disponível. os operadores de reportatividade não parecem estar presentes em todas as línguas. inferência) não haverá Conteúdo Comunicado. ex. aí. 22 Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008.1. isto é. Já a sobreposição sinaliza o desejo do falante de externalizar semelhanças particulares entre os mesmos elementos. 104) recorreram à língua indígena peruana Shibipo para exemplificação do fenômeno. Logo. Ou seja. o falante enuncia uma asserção. em Atos Discursivos em que esteja marcada atitude proposicional ou termos de sua fonte ou origem (conhecimento comum partilhado. Os autores (2008. um Ato Discursivo de ilocução imperativa. um Ato Discursivo de ilocução declarativa. 2001) que a referência deve ser analisada como acional. tópico x comentário. vem aqui! Exemplo construído No primeiro caso. enquanto ele estava indo (no barco). O Conteúdo Comunicado comporta as funções pragmáticas figura x fundo. Veja um exemplo: (37) (A) Maria vem aqui.discursivo de ilocução declarativa) que corresponde ao Conteúdo Comunicado. realmente. 69 . há uma ordem.6. 96). há Conteúdo Comunicado. felizmente.). 23 Enquanto os operadores de ênfase podem ser representados fonologicamente como visto em algumas categorias prévias.3. contraste x sobreposição22. Portanto. Os Subatos É uma crença fundamental da teoria do ato de fala (SEARLE.

não nos estenderemos neste tópico. gato. da mesma forma que a referência. situacional e imediata) trazida pela comunicação em seu processo de interação. Para os autores. Subato de Referência e Subato de Atribuição. conforme. ex. o falante está evocando somente uma propriedade meteorológica sem evocar nenhum tipo de referente. que planeja a melhor forma de influenciar/persuadir seu destinatário. chover não está sendo atribuído a. As duas categorias possuem modificadores e operadores. o falante não precisa atribuir necessariamente uma propriedade a um referente. Por esse motivo. Segundo os autores (Ibidem. ex. temos modificadores de função atitudinal (p. ou porque representam entidades concretas e tangíveis ou porque já representam em si um encapsulamento.). certamente. “está chovendo”. p. 2008. têm-se modificadores de função atitudinal (pobre. tais categorias compõem o Conteúdo Comunicado. por sua vez. mas acrescenta o termo atribuição (ou adscrição) à cena. ocorre quando o falante tenta evocar um referente. 70 .) e reportativo (p. maravilhosamente. p. os autores consideram tanto referência quanto atribuição elementos de análise do Nível Interpessoal (NI). ao proferir. A informação pragmática consiste de toda informação (de longo termo. enfática (p. completamente). bem. etc. entre outras. 109).) e operadores de 24 Embora os encapsuladores representem um Subato de Referência. é determinada pelo falante. mas simplesmente descrito. Nesse caso. Em relação ao Subato de Atribuição. 107). proferindo coisas do tipo: homem. a escolha do material lexical. respectivamente.uma vez que o ato de referir deve ser considerado uma ação pragmática e cooperativa no processo de interação verbal entre falante e ouvinte (DIK 1978 apud HENGEVELD e MACKENZIE. Dessa forma. tipo) e enfática (p. e a quantidade dele oferecida. segundo. casa. realmente. Nomeados.) e operadores de função aproximativa (p. as entidades que já possuem o estatuto de referentes não podem ser encapsulados. árvore. ex. O Subato de Referência. O Subato de Atribuição representa a tentativa do falante de evocar uma propriedade. Já em se tratando do Subato de Referência24. A GDF apóia essa visão. pequeno. ex. por exemplo. ex.

que se refere aos atos de fala que.3. refere-se à designação e não à evocação (que ocorre no nível interpessoal). as funções semânticas (Ator. ex. 3. ainda existe uma outra de quarta ordem. Lugar etc). vi com meus próprios olhos). real ou de seu universo subjetivo. dado que as unidades no Nível Representacional são caracterizadas pelo fato de que elas designam. são avaliados em termos de condições de felicidade. com a manifestação de conteúdos que estejam ligados à experiência que o falante possui do mundo concreto. ex. Ele cuida apenas da semântica de uma unidade linguística e. É aqui que se inclui a maioria dos lexemas. lexemas e operadores primários. O Nível Representacional (ou semântico) Enquanto o Nível Interpessoal espelha a função interpessoal da língua (Halliday. Recipiente. 71 . Os operadores primários desse nível abrangem a evidencialidade. plural e outras). lida com três primitivos: esquemas. 25 Além dessas categorias semânticas. localizados no tempo e no espaço. essa categoria não está destacada aqui. Os esquemas indicam que recursos gramaticais estão disponíveis em cada língua para o estabelecimento de distinções semânticas. 1985). como ela se refere ao Conteúdo Comunicado do Nível Interpessoal. assim como o Nível Interpessoal. interior.identificabilidade (p. Paciente. Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008). a polaridade etc. obviamente). ex. dual. ou melhor. o Nível Representacional (NR) trabalha com a função ideacional. O NR lida com os aspectos formais de uma unidade linguística ao refletir seu papel no estabelecimento de uma relação com o mundo real ou imaginário que ela descreve e.2. Eles podem ser localizados no espaço e podem ser avaliados em termos existenciais. o tempo absoluto e relativo. semânticas. inclusive os advérbios que modificam o conteúdo proposicional (p. por essa razão. O homem x Um homem) e ênfase (p. as oposições de número (singular. as várias categorias de designação (animado/inanimado). por exemplo. a saber: a) entidades de primeira ordem: indivíduos. No entanto. as diferenças entre as unidades desse nível podem ser estabelecidas em termos de quatro categorias ontológicas básicas25.

uma propriedade de entidades de primeira ordem. Para exemplificá-las. 2008) e somente a última foi elaborada por Hengeveld & Mackenzie (2008). a unidade episódio. apesar de não estar prevista na categoria ontológica básica. de segunda ordem e “inegável”. mas que podem ser avaliadas em termos de verdade. d) entidades de ordem zero26: propriedades. 72 . Hengeveld e Mackenzie (2008) recorrem aos exemplos: “verde”. b) entidades de segunda ordem: estados-de-coisas. A relação hierárquica das unidades do NR são: conteúdo proposicional (p) > episódio (ep) > estado-de-coisas (e) > propriedade (f). Tais propriedades semânticas mediante as quais o Nível Representacional opera estão hierarquicamente organizadas abaixo: 26 É importante ressaltar que as três primeiras categorias foram tomadas de Lyons (1977 apud HENGEVELD E MACKENZIE. “recente”. que não podem ser localizadas nem no espaço nem no tempo. Não obstante as categorias semânticas orientem a GDF a propor as unidades do NR. de terceira ordem. São construções mentais. Podem ser localizados no espaço e no tempo e podem ser avaliados em relação a sua realidade. Não podem ser caracterizadas por parâmetros de espaço e tempo e não têm existência independente. c) entidades de terceira ordem: conteúdos proposicionais. que não apresenta relação hierárquica com propriedades (f) É importante ressaltar que. Além dessas quatro. elas não as definem por completo. que é um encadeamento de estado-de- coisas. há a unidade indivíduo (x). faz parte da constituição básica da cadeia hierárquica da GDF. Só podem ser avaliadas em termos de sua aplicabilidade a outros tipos de entidade ou à situação a qual descreve.

3. Os símbolos utilizados servem para a taxionomia das unidades do Nível Representacional.2. como nos casos de clivagem. mas somente na mente daqueles que os acolhem. muitas vezes. respectivamente (2008. Elas se subdividem em cinco. O Conteúdo Proposicional Conteúdos Proposicionais são constructos mentais que não existem no espaço e no tempo. modo.. razão e quantidade. Representam a 27 O quadro nos serve apenas de ilustração. As categorias ontológicas básicas 3. (42) O ritmo com o qual examinei os alunos foi de três a cada hora.1. tais símbolos não servirão a nossa pesquisa. (∏ p1: Conteúdo proposicional (∏ ep1: Episódio (∏ e1: Estado de coisas [(∏ f1: [ Propriedade (∏ f1:  (f1): [σ (f1)Ф]) Propriedade lexical (∏ x1:  (x1): [σ (x1)Ф])Ф Indivíduo . Seguem os exemplos extraídos dos autores com a explicitação de tais categorias.1. 73 . (40) O modo como eu abordei o leão foi com grande precaução. Hengeveld e Mackenzie (2008) 3. (39) O horário em que encontrei Sheila foi às 3h. Hengeveld e Mackenzie (2008) investigaram outras.3. que. tempo.2. a saber: lugar. secundárias. representam argumentos nodais do texto. (41) A razão pela qual eu me casei com ela foi porque ela me faria feliz. p. 135): (38) O lugar em que encontrei Sheila foi no parque.1. No entanto. ] (f1): [σ (f1)Ф]) Propriedade (e1)Ф]: [σ (e1)Ф]) Estado de coisas (ep1): [[σ (ep1)Ф]) Episódio (p1): [σ (p1)Ф]) Conteúdo proposicional 27 Quadro 6 – Categorias do Nível Representacional Além dessas categorias básicas..

Muitas vezes. a presença de Conteúdo Comunicado e Conteúdo Proposicional. inferência). Enquanto em A se presencia uma proposição assertiva. como ocorre na condicional hipotética abaixo: (44) If he came. O Conteúdo Proposicional está sempre ligado ou à atitude proposicional ou à sua fonte de origem (como afirmado previamente) e pode ser atribuído a outras pessoas além do falante. noutras. tem-se. descrença) ou em termos de sua fonte ou origem (conhecimento comum partilhado. Como são de natureza proposicional. baseada em recursos gramaticais. Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008. 144). 154) 74 . Já o Conteúdo Comunicado é sempre atribuído ao falante e está ligado à enunciação. (B) Joana crê que sua mãe virá para o almoço. quando são pedaços de conhecimento ou uma crença acerca do mundo real. com o Ato Discursivo. ela é inferencial. Exemplo construído Acima. quando são desejos ou expectativas com relação a um mundo imaginário. de forma não-marcada. I would leave. evidência sensorial. podem ser factuais. pertencente ao Nível Interpessoal. ela sempre apresenta um valor modal. ou seja. dúvida.camada mais alta do NR e correlacionam-se. Segundo Hengeveld e Mackenzie (2008. ou não-factuais. é importante saber diferenciá-los do Conteúdo Comunicado. presencia-se uma predicação de dúvida. p. por atitude proposicional entende-se o grau de comprometimento do falante acerca daquilo que diz. no Nível Interpessoal. p. isto é. essa atitude encontra-se lexicalizada no texto (como no exemplo acima). 151). são caracterizados pelo fato de serem qualificados em termos de suas atitudes proposicionais (certeza. entre A e B. p. respectivamente. em B. (43) (A) A mãe de Joana virá para o almoço. Além disso. Hengeveld e Mackenzie (2008. não apresenta avaliação do falante acerca daquilo que se enuncia.

] Crítica 27  Essência escapa em “O Gosto da Cereja” Folha de São Paulo. todos os Estados-de-coisas se referem ao mesmo indivíduo. mas. de forma não-marcada. a categoria Episódio também está presente: 75 . O Episódio O Episódio é composto por um ou mais Estados-de-coisas numa sequência coerente. escuta conselhos sobre a vida. em geral constituindo uma série de eventos apresentados em ordem cronológica. lugar e participantes. etc.. como se pode ver no gênero textual receita. lugar e participantes. e a cada uma com quem conversa expõe seu plano.1. Os modificadores do Conteúdo Proposicional são marcados por expressões que modalizam o grau de comprometimento do falante acerca da proposição (p. nesses gêneros. mais do que tudo.] Badii viaja por uma região desértica. as do NR possuem modificadores e operadores. é importante ressaltar que existem textos de tipo narrativo que não possuem uma sequência narrativa prototípica. é óbvio. Veja um exemplo: (45) [. que não envolve nenhuma mudança de cena. Encontra resistências. em que o modal If expressa hipótese). Dessa forma. 3. [. ex. com a categoria Move do Nível Interpessoal quando composto por tipo narrativo. Entretanto. com seu carro ai encontrando as pessoas a quem dá carona. onde consta unidade ou continuação de tempo.3. para Hengeveld & Mackenzie (2008. certamente. evidendemente) e os operadores são marcados por funções gramaticais que tenham o mesmo efeito (veja o exemplo acima.. p.. seu caráter sagrado. Correlaciona-se.2.. e marcam desenvolvimento cronológico. onde as sequências injuntivas presentes nos passos a serem seguidos possuem unidade ou continuação de tempo.2. 160) Episódio é sinônimo de “partes coerentes de um discurso narrativo”. Assim como as categorias do NI. provavelmente. 16/11/08 Acima. Inclusive. Badii.

pelo uso continuado das mesmas desinências verbais de tempo e de modo e de número e pessoa. (47) [. Estado suprime liberdade. não sendo necessário que a localização no tempo e no espaço ocorra com base em um tempo/lugar absoluto. Na TV.. Sem parar de bater. p. 171). Folha de São Paulo. podem conter descrições de indivíduos e outras propriedades. 3. amanhã. são os operadores que garantem a unidade da categoria e sua mudança implica o início de um novo Episódio. o que permite distinguir Episódio e Estado-de-coisas é o fato de a categoria Episódio admitir.3. Bata as claras em neve.] A liberdade já foi um conceito sagrado. 05/10/08 76 .] Peneire a farinha de trigo.] Bolo trufado de brigadeiro branco e preto http://tudogostoso.3. etc.. hoje. por exemplo. etc). em que o modificador temporal alguns segundos depois restringe-se apenas ao predicado matriz.uol.2.. Reserve. junte as gemas peneiradas. (46) [. São caracterizados por uma ou mais propriedades. junte aos poucos o açúcar. hoje.[. modificadores de tempo absoluto (como ontem. e a categoria Estado-de-coisas admitir modificadores de tempo relativo (como depois do almoço. amanhã. que.] Crítica 22  Em “Bourne”.. Veja o exemplo a seguir. junte aos poucos a mistura reservada [.1. Com a batedeira desligada. Depois da Guerra Fria é que as coisas mudaram. ontem. por sua vez. de forma não-marcada ao Conteúdo Comunicado. no Nível Interpessoal..) e os operadores. Inclusive... Estados-de-coisas (ou eventos) Estados-de-coisas são entidades que podem ser localizadas no tempo relativo e podem ser avaliadas em termos de sua realidade. o chocolate em pó e o fermento.. ou de escolher certa marca de cerveja. pode-se ver um comercial exaltando a liberdade.).com. mesmo para a publicidade. ex. em duas horas. De acordo com Hengeveld e Mackenzie (2008. ALGUNS SEGUNDOS DEPOIS descobrimos que a liberdade consiste em escolher uma operadora de telefone.html Os Modificadores de Episódio são representados por marcadores de tempo absoluto (p.br/receita/80060-bolo-trufado-de-brigadeiro-branco-e- preto. Correlacionam-se.

Subdividem-se em dois tipos: Propriedades Configuracionais e Propriedades Lexicais (ou apenas propriedades). at three they will have entered (Relative tense) Together. Veja os exemplos (idem. As Propriedades As Propriedades são entidades de ordem zero. (Event perception) He is not a king (Polarity) I used to come (quantification) 3.4. we will go over there (Event-oriented modality) Sheila saw Peter had left. a realidade. o lugar e a frequência de ocorrência.2. modalidade orientada para o evento. percepção de evento. p. tempo relativo. prevendo questões de valência. Correlacionam-se. ibidem).3. 177. (Reality) Sheila fell ill because of the heavy rainfall (Cause) Sheila stayed home so that she could watch television (Purpose) Já os operadores são os termos gramaticais que marcam o lugar. o cenário físico e cognitivo do estado-de-coisas. Os modificadores dos estados-de-coisas são as expressões lexicais que marcam o tempo relativo. (48) Sheila works in London (Location) Sheila went out before dinner (Relative time) Sheila goes to London Frequently (Frequency) Sheila is actually a guy. de forma não- marcada. função semântica e 77 . Veja os exemplos transcritos abaixo (HENGEVELD & MACKENZIE. 2008. 175. Só podem ser avaliadas em termos de sua aplicabilidade a outros tipos de entidade ou situação a qual descreve. 173. no Nível Interpessoal.1. As primeiras representam o inventário dos esquemas de predicação relevantes para uma língua. que não podem ser caracterizadas por parâmetros de espaço e tempo e não têm existência independente. 179 e 180) (49) Jan is away fishing (Location) Tomorrow. 172. com o Subato de Atribuição. polaridade e quantificação.

Hengeveld e Mackenzie (2008. highly é uma propriedade de entidade de ordem zero e intelligent. uma vez que elas não colaboram para a análise de nossos dados. tem-se um modificador e um operador.] Zuzu aparece aqui como personagem ISOLADO em seu heroísmo [. etc28. 21/12/08 Nos exemplos acima.] Crítica 38  “Wall-E” se destaca entre lançamentos de animação Folha de São Paulo.grau de definitude dos argumentos.. Por sua vez. polpudo. (51) He stares continuously.. 78 . personagem é uma propriedade de primeira ordem (designa o indivíduo Zuzu) modificada por outra propriedade (isolado). 214) Os modificadores e operadores das Propriedades funcionam como Propriedades de Propriedades. digamos. de terceira ordem. Abaixo. respectivamente. Hengeveld e Mackenzie (2008.. As últimas referem-se a partes do discurso.. 28 Neste trabalho. embora esse “excesso de gostosura” pareça um empecilho bem.. p. o GORDINHO urso Po quer ser um grande mestre do Kung Fu. podendo modificar entidades de todas as ordens. She strongly believes that. isto é. [.. de primeira ordem. continuosly marca entidade de segunda e strongly. como se vê abaixo: (50) A highly intelligent man. Nos exemplos abaixo. 23/11/08 (53) [. não trataremos das Propriedades Configuracionais.215) Acima.] Crítica 25  Rezende faz valer a individualidade Folha de São Paulo...] mais familiar. designam entidades de ordem zero (como no exemplo acima – highly intelligent). (52) [.

No exemplo a seguir. Ø Faz solitariamente seu trabalho de compactar lixo. tem-se o Subato de Referência O robô Wall-E sendo retomado várias vezes por anáforas lexicais e por elipse. elas sobrevivem a tudo. existem por si sós e podem ser localizados no espaço. Eles se diferem do Subato de Referência por não evocarem referentes.[.. uma propriedade do indivíduo urso. Ø junta de caixinhas a parte de robôs como ele. expressões dêiticas). Além disso. essa simpática máquina leva uma vida tranquila até que Ø se apaixona pela evolução: uma versão feminina de robô com design arrojado aparece no seu mundo e o domina completamente. Afinal.1. A nostalgia que permeava toda a sua existência dá lugar à onipresença de Eva. sejam eles explícitos ou não. Wall-E enxerga beleza onde só há lixo.5. (54) O mundo acabou. Enquanto isso. no Nível Interpessoal (NI). reclusa no espaço.gordo.3. Correlacionam-se. embora fora de sintonia. Com cara de suja. Os Indivíduos Indivíduos designam entidades de primeira ordem. com o Subato de Referência. Tudo em nome do amor.] Crítica 38 – “Wall-E” se destaca entre lançamentos de animação Folha de São Paulo. Em cada uma dessas retomadas.. mas. e há toneladas de sucata por toda parte. 21/12/08 79 . 3.2. ela tem uma missão: encontrar registro de vida na Terra para que a humanidade. tem-se um Indivíduo marcado. designarem-nos através de processos de retomada e remissão (anáforas. possui um operador formado por sufixo diminutivo que lhe atribui intensidade. Afinal. O robô Wall-E passeia pela Terra vivendo em meio às baratas. concretas e tangíveis. possa retornar ao planeta. catáforas. sim. de forma não-marcada.

acima de tudo. As categorias secundárias 3. Em contrapartida. com um mesmo nome. ex. um adverbial.2.1. que são entidades concretas e tangíveis.. ocupa um sintagma nominal e home.. meninada. 248) pedem que se considere o exemplo “casa”: para um potencial comprador. que estreou em fevereiro NOS EUA.. em inglês. ex. deve-se supor que a conceituação dos indivíduos (como cobertor. antevéspera. Para os autores (ibidem). eles eram muitos). [.2. a casa será conceituada. essa distinção se encontra refletida nas funções que essas palavras ocupam.] Logo no início da primeira temporada. ex. como um Indivíduo.2.2. Hengeveld e Mackenzie (2008. 3. Os modificadores de Indivíduos podem expressar qualificação (p. Os exemplos seguem na mesma ordem: homenzarrão. ele era rico). Veja o exemplo abaixo. No Componente Conceitual. um local para viver. House. rocha ou Martin Luther King) difere da conceituação de locais (como Norte. as línguas também reconhecem a classe Lugar. o homem na lua) ou tempo (p. os artistas de hoje). Para exemplificação. localidade (p. Inclusive. 24/08/08 80 . Lugar Ao lado dos Indivíduos. p.3. na maior parte das vezes. quantificação (p. uma mercadoria a ser vendida.. respectivamente: (55) [. para um agente imobiliário. ex. muito embora tais nomes possam representar ora uma categoria ora outra. Atlanta ou Georgia). em que. Os operadores refletem os mesmos aspectos. uma inimiga de Wendy arrisca sua carreira espalhando na mídia suas falahs como mãe.] Crítica 03 – Versão “envelhecida” de “Sex” é mais do mesmo Folha de São Paulo. existe um nome para cada caso: home e house. respectivamente.3. portaria. grifa-se um Lugar e um Indivíduo. a casa pode ser concebida como um Lugar.

Os modificadores de Tempo funcionam assim como os de lugar: ou afetam apenas o núcleo (p. Independentemente da escala temporal que se utiliza.2. ela me cumprimentou na hora em que cheguei). Termine agora!). o modificador afeta apenas o núcleo (p. quando ela virá?) ou advérbios que representem estado-de-coisas de valor temporal (p. ex. No primeiro.2. ex. Gostei quando me disse aquilo). ex. assim. advérbios interrogativos (p. que pode ser representada por proformas (p. 04/01/09 A modificação de unidades semânticas com a designação de lugar é possível em dois pontos. ex. ex. visibilidade e características proeminentes do ambiente físico (p.] Temos. ex. um monstro criado em laboratório por militares norte-americanos (os EUA colonizaram culturalmente o país há tempos) e um abilolado que é mais irmão que pai de sua filha é que terá de salvar alguns tantos. ex. enquanto há aquelas que se referem a um calendário socialmente estabelecido (Páscoa. eu vi isso lá). estrada principal).. outras estabelecem posições relativas na escala de tempo (antes de sexta). ex.. (56) [.. Tempo As línguas especializaram expressões para a designação das categorias de tempo. dêiticos (p. ele afeta toda a unidade semântica (p. ex. Esta terça) ou quantificação (p. 3. ex. 81 . próximo ano). Algumas estão ligadas à interpretação contextual do momento da fala (hoje.3. “O Hospedeiro” é falso trash Folha de São Paulo. Os operadores da categoria abrangem questões como graus de distância. aqueles velhos tempos). ex. No segundo. perigosamente perto dos espectadores). noite passada) ou afetam toda a unidade semântica (p.] Crítica 42 – Rigoroso. Natal).2. Os operadores podem ter função de localização (p. [. o tempo é sempre uma construção espacial imaginária.. a todo momento).

também nos permitem tratar do “modo”. Sarah Jane. essa impossibilidade de existir num mundo que tem sua cor como um defeito de fábrica (na trama.. muito cuidadosamente) ou toda a unidade semântica (p. POR ISSO. Por essa razão. Modo Designa o modo pelo qual um estado-de-coisas é desenvolvido. as respectivas filhas crescem e conhecem destinos opostos).[.4. 3. Os operadores de Modo são de localização (p.2. o público reagiu de várias maneiras diferentes).] Assim como certos preconceitos se escondem METICULOSAMENTE.] Ali. Razão Funcionam à mesma maneira que a categoria de Modo. 3.. a categoria pode ser considerada um tipo especial de Conteúdo Proposicional. a GDF reconhece a variável Modo para os casos em que as línguas apresentam expressões para sua designação. desse modo) e de quantificação (p. as duas mulheres criam um negócio em sociedade. mas designando a Razão de um Estado-de-coisas. dos maiores.2.3.. abriu com um novo método). Porque este é um filme sobre negros.2. não por acaso indicadas ambas para o Oscar.3. após este filme. escondido sob a pele do melodrama por este cineasta tão independente que. Folha de São Paulo. se no filme a mãe vive como se fosse de favor. ex. Assim sendo. sobre ser negro num momento anterior à conquista da igualdade de direitos.] 82 . (58)[..3. uma vez que ela representa os pensamentos que levam um falante a agir de determinada forma. Em outras palavras. Crítica 10 – Racismo é tema de aparente melodrama. fez as malas e voltou para a Alemanha. ex. sua filha. (57) [.. “Imitação” é um grande filme. 14/09/08 Os modificadores de Modo ou afetam apenas o núcleo (p. ex.. assim como as línguas nos permitem falar sobre o “onde” e o “quando”. quando o vento batia só a seu favor em Hollywood. o essencial são as atrizes negras: Juanita Moore e a bela Susan Kohner  no filme. mãe e filha .2. já expressa essa revolta. ex.

ex. não se trata necessariamente de um evento narrado. Ele saiu porque. ao longo do filme. aquela quantia ali) e de quantificação (três litros de leite). quando se fala sobre algo.3. ex. uma generosa dose de molho) e possuir operadores de localização (p. as palavras “quantidade” e “número” são núcleos típicos da designação quantitativa.3. Também se pode falar sobre o evento discursivo em si e seus produtos..5. Entretanto. Língua Reflexiva Até agora.. 3. Crítica 10 – Racismo é tema de aparente melodrama Folha de São Paulo. (59) [. Tudo começa na Cinemateca Francesa e segue para a revolta da Cinemateca (que grande QUANTIDADE de cinéfilos considera o início de maio de 68). Há três razões). concebe-se como seus modificadores os termos que indicam atitude proposicional (p.2. a história parece se esvair. 14/09/08 Uma vez que a Razão possui uma natureza proposicional. ex. Quantidade As línguas permitem uma designação para as quantidades. 30/11/08 A categoria Quantidade pode ser modificada lexicalmente da mesma forma que as outras categorias semânticas (p. aparentemente. 3. ex. Inclusive. Já os operadores são de natureza quantitativa (p. Folha de São Paulo... O termo Quantidade é projetado para abranger tanto fenômenos contáveis quanto incontáveis.2.3.2. tratou-se de todas as categorias semânticas que pertencem ao Nível Representacional (NR). 83 .[.] No entanto. esvaziada. sua mãe está doente).] Crítica 23 – Bertolucci converte história em cinema.

e a cada uma com quem conversa expõe seu plano. seu caráter sagrado etc. O filme nos mostra a trajetória de Badii. que busca alguém para se ocupar de seu corpo após a morte. Abaixo. na época do lançamento do filme. Correu. como as outras categorias do Nível Representacional. mas. Encontra resistências. isto é. que trata da mensagem sobre o código. em que o sintagma a explicação apresenta função metalinguística: (60) O despiste é uma parte essencial da arte de Abbas Kiarostami e é a essência mesmo de "O Gosto da Cereja" (Futura. homem de meia-idade disposto a se suicidar. Badii viaja por uma região desértica. que esse homem seria homossexual. 22h. ao menos à luz do que se vê no filme: Badii surge apenas como um sujeito com um carro em busca de alguém que preste um serviço. é óbvio. A EXPLICAÇÃO está longe de ser convincente. escuta conselhos sobre a vida. Ou seja. 16/11/08 84 . mais do que tudo. p 275) destaca-a das outras do Nível Representacional por ser a única categoria de função textual (Halliday. o que configuraria um duplo crime diante da lei islâmica (o primeiro sendo o suicídio). surge a categoria Língua Reflexiva. Hengeveld e Mackenzie (2008. nunca nos é dito por que esse homem deseja se suicidar. de função metalinguística. Como num espelho. É que seu cinema funciona como um espelho. O que retiramos da imagem é o que lhe damos. 1985). e não porque fuja delas. mas sempre mantemos a convicção de que o essencial escapa. o que vemos é o que expomos. Não é do feitio de Kiarostami agitar questões polêmicas. classificação indicativa não informada). Ele nos dá exatamente o que dele recebemos. Escutamos os argumentos de ambos os lados. Crítica/”Essência escapa em ‘O Gosto da Cereja’” Folha de São Paulo. marca-se um exemplo da categoria. com seu carro vai encontrando as pessoas a quem dá carona. e não Ideacional. Dessa perspectiva.

4. a crítica se caracteriza por pertencer à esfera jornalística e por ter uma função de comentário sobre determinado tema. Para tanto. caracteriza-se o corpus da pesquisa e apresentam-se os procedimentos de análise por meio da interface GDF e referenciação. com o propósito de informar o leitor sob uma perspectiva não só descritiva. o crítico não pode apresentar uma avaliação puramente 85 . Na primeira seção. Segundo Horkheimer (2003). jornalista ou profissional especializado na área. geralmente na esfera artística ou cultural. Portanto. faz-se uma explanação sobre o gênero textual analisado. na segunda. e não para sua caracterização. narrativas e argumentativas se mesclam. que entra em contato com o produto a ser criticado e redige matérias ou artigos apresentando uma valoração do objeto analisado. a investigação fez uso de tal gênero do discurso apenas para a análise dos encapsulamentos. a fonte de pesquisa dos encapsulamentos levantados.1. apresentam-se as possibilidades de categorização dos encapsulamentos mediante os paradigmas da GDF. a crítica é feita pelo crítico. CARACTERIZAÇÃO DO CORPUS O corpus utilizado neste trabalho constitui-se de oitenta e oito críticas de cinema e televisão. todas extraídas da Folha de São Paulo online. mas também avaliativa. Quanto aos aspectos gerais do gênero discursivo. Pode-se dizer que tal gênero foi escolhido pelo fato de representar textos em que sequências descritivas. o que favorece estratégias mais variadas de remissão. referentes ao período de agosto de 2008 a janeiro de 2010. Em geral. CAPÍTULO IV PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Neste capítulo. o capítulo está dividido em duas partes.

desenhos animados ou filmes sobre os quais discursam.2. 2003). são bem variadas. de Hengeveld e Mackenzie (2008) confirmarem a possibilidade do estudo da anáfora nos diferentes níveis da GDF. em nosso corpus. No entanto. nossa pesquisa atendeu ao seguinte esquema: 4. PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE No intuito de propor um tratamento da referenciação sob a perspectiva da GDF. séries. 2003) e do Nível Representacional da GDF As nossas hipóteses sobre uma possível interface entre referenciação e GDF advieram de dois fatos: primeiro. na maioria das vezes. a de Nível Ideacional e Textual. de estarem ancoradas na mesma perspectiva linguística  a Linguística Sistêmico-Funcional de Halliday (1985). pautadas na interação entre o conteúdo e realidade social em que estamos inseridos e definem-se pelo objetivo de recomendar. mas também deve apresentar descrição de aspectos objetivos que dêem sustentação a seus argumentos. 1994. a metafunção interpessoal 86 . Para Francis (1994. segundo. Quanto à extensão. ou não. tal expectativa não se confirmou plenamente. Estudo dos rótulos metalinguísticos propostos por Francis (1994. No que tange especificamente às críticas de cinema e TV. 4. Já para a nossa perspectiva.2. embora existam encapsuladores que façam remissão a elementos de Nível Interpessoal e outros.1. Há.subjetiva. Para a teoria em estudo. os rótulos podem apresentar tanto metafunção interpessoal (rótulos de conteúdo) quanto ideacional e textual (rótulos metalinguísticos). percebe-se que as mesmas metafunções discursivas eram levadas em consideração  a ideacional e a textual . o que nos fez pensar em uma provável correspondência. defende-se que não há encapsulamentos interpessoais. os programas. Dessa forma. 2003) quanto das categorias constituintes do Nível Representacional (Hengeveld e Mackenzie. críticas de extensão de dois parágrafos (meia página) e outras que chegam a duas páginas. através de um estudo teórico aprofundado tanto dos rótulos metalinguísticos (Francis. elas são. 2008).

são entidades concretas e tangíveis. a designação. Portanto. Elaboração de metodologia de análise dos encapsuladores do Nível Representacional Para a elaboração de nossa metodologia. em três das cinco categorias secundárias (modo. razão e quantidade) e na categoria língua reflexiva (de metafunção textual). por esse motivo. Episódio. mas. não podem ser encapsulados. 08 de Modo. sim. juntos dos Estados-de-coisas expressos no segmento de texto a que fazem remissão e. 06 de Razão. 4. lugar e tempo) foram os seguintes: a) Os indivíduos já possuem o estatuto de referentes. 36 de Episódios. 20 de Estado-de-coisas. tendo como objetivo principal a descrição interpretativa das ocorrências encontradas.3. pertencem à categoria Episódio. Levantamento de dados no corpus O segundo passo de nossa pesquisa foi levantar todos os encapsulamentos no corpus. uma vez que os encapsulamentos representam a remissão a segmentos já evocados. sendo 13 de Conteúdos Proposicionais. Tal elaboração teve como aporte as propriedades previstas em cada uma dessas categorias e sua análise foi de cunho qualitativo. catalogaram-se 104 encapsulamentos. Os motivos que nos levaram à não-consideração de três dessas onze categorias (indivíduo. Tal procedimento teve como objetivo nos fazer ver quais desses fenômenos capturavam o NR e quais categorias semânticas permitiam a manifestação de encapsulamentos. 87 .(NI) envolve a evocação de referentes. eles apenas designam ou apontam segmentos prévios do texto. 12 Atribuidores de Propriedades.2. Ao todo. portanto. como se verá na análise dos dados. baseamo-nos: em quatro das cinco categorias primárias do Nível Representacional (Conteúdo Proposicional. 4.2. b) lugar e tempo relativos não são encapsulados sozinhos. Defende-se que a maior freqüência de Encapsuladores de Episódios se deve ao fato da remissão ao trecho narrativo nas sequências argumentativas. Estado-de-Coisas e Propriedades).2. 05 de Quantidade e 14 metalinguísticos. enquanto a ideacional e a textual (NR).

pois as ilocuções pertencem ao Nível Interpessoal para a teoria em análise. 88 . a saber: Encapsuladores semânticos básicos. que se subdividem em: 1) De Conteúdos Proposicionais29. 2) De Episódios. 6) Encapsuladores de Razão. 2003) e os de atividades linguageiras e nomes de textos. sob o prisma da GDF. 3) De Estados-de-coisas. Só não há. equivalência quanto aos rótulos ilocucionários. Em linhas gerais. Encapsuladores metalinguísticos 29 Os encapsuladores de Conteúdo Proposicional compreendem os rótulos de processo mental previstos por Francis (1994. 4) De Propriedades. que se subdividem em: 5) Encapsuladores de Modo. aos dois rótulos de mesmo nome previstos pela autora. constatou-se que existem oito categorias semânticas que permitem encapsulamento. Encapsuladores semânticos secundários. em vez de quatro (propostas por Francis). 7) Encapsuladores de Quantidade.

respectivamente. apenas no interior do fenômeno. Na quinta. 2003). Concomitantemente. trata-se dos encapsuladores de categorias semânticas primárias. a opção pelo estudo do fenômeno sob o prisma de uma nova teoria guiou-nos a novas perspectivas e classificações.1. exemplificam-se os encapsuladores semânticos levantados no corpus. têm- se duas ressalvas sobre os estudos da autora em relação a nossa pesquisa: 1) A configuração axiológica e não-axiológica de um rótulo não se dá de maneira localista. secundárias e de língua reflexiva. 5. ratificam-se as análises feitas por Francis (1994. somando à essa categoria os encapsuladores de núcleos não-substantivos e submetendo-a às classes constituintes do Nível Representacional da GDF. CAPÍTULO V A ANÁLISE DOS DADOS Neste capítulo. Apesar da mudança paradigmática. Na sexta. No nosso 89 . Para tanto.das contribuições da pesquisa. da configuração (avaliativa e não-avaliativa) e da função (interpessoal de um lado ou ideacional e textual de outro). isto é. No entanto. terceira e quarta seções. e não só a de processos de rotulação. 2003) acerca da posição dos rótulos (retrospectivos. Na primeira seção. este capítulo está dividido em seis partes. e de maneira binária. faz-se uma breve introdução. abordam-se as contribuições da pesquisa para os estudos da referenciação e sugerem-se perspectivas futuras de análise. retrospectivos/prospectivos). das perspectivas futuras. INTRODUÇÃO Esta pesquisa teve como objetivo a ampliação e análise dos rótulos de metafunção ideacional e textual propostos por Francis (1994. prospectivos. na segunda. O aumento do escopo levou-nos à análise de uma classe geral de encapsulamentos. onde há considerações gerais sobre a análise dos dados.

"Os Inconfidentes" é. os encapsuladores do NR foram classificados do seguinte modo: 90 . atribuíam-se propriedades avaliativas e encontram-se encapsuladores cuja configuração não é claramente definida. por um lado. é uma reflexão ousada e dolorosa sobre as ações e hesitações dos intelectuais em tempos de transformação política. Por outro lado. declaradamente. quanto à função. conclamara os cineastas brasileiros a fazer filmes sobre temas históricos. comemorava de maneira ufanista o Sesquicentenário da Independência. como ocorre abaixo. o então ministro da Educação.. tem um baixo grau de avaliação: (16) Em 1972 o Brasil.gênero em análise. Pouco antes. em nossa perspectiva. embora existam aqueles que fazem remissão a conteúdos do Nível Interpessoal. pois eles pertencem ao Nível Interpessoal da GDF. Baseado nos chamados "autos da devassa" e lançando mão fartamente dos poemas dos próprios inconfidentes. Jarbas Passarinho. Em nossa abordagem. em que. Embora se compreenda a abordagem da autora. teve-se de retirar os nomes ilocucionários da análise.[.] Crítica 13  “Cineasta revisita Inconfidência com ironia” Folha de São Paulo. uma vez que se decidiu analisar apenas os encapsulamentos que fazem remissão a conteúdos do NR. através de predicações. deve-se fazer uma valoração do tópico discursivo. a resposta marota de Joaquim Pedro de Andrade a ESSA CONVOCAÇÃO. 2003) ao considerar os nomes ilocucionários como rótulos metalinguísticos. Tal ponto de vista nos leva a repensar a abordagem de Francis (1994. em que o encapsulador essa convocação. o filme retrata com ironia e distanciamento brechtianos o cipoal de intrigas e traições que resultou na revolução abortada e no enforcamento de Tiradentes (interpretado por José Wilker).. no momento mais duro do regime militar. 07/09/08 2) Os rótulos/encapsulamentos em si são apenas ideacionais ou textuais (semânticos). encontram-se encapsuladores não-axiológicos aos quais.

Neste último caso.3. Encapsuladores semânticos básicos Conteúdos Proposicionais Estado-de-coisas Propriedades Episódios Indivíduos Encapsuladores semânticos secundários Lugar Modo Quantidade Tempo Razão Encapsuladores metalinguísticos Quadro 7 – encapsuladores do Nível Representacional 5. já que pertencem ao Nível Interpessoal. excetuam-se da análise os atos ilocucionários – entidades de quarta ordem –. os conteúdos já possuem estatuto de referentes. segunda e terceira ordens30. página 71. capítulo III. ENCAPSULADORES SEMÂNTICOS BÁSICOS Consideram-se encapsuladores semânticos básicos aqueles que fazem remissão a entidades de zero. uma vez que sempre possuem o estatuto de referentes. do capítulo IV. 30 Como apontado no tópico 4. desde que esses conteúdos sejam representados por predicações ou segmentos maiores de texto. 91 .2. conforme citado na nota 25. e não por sintagmas nominais. Paralelamente. os indivíduos – entidades de primeira ordem – não podem ser encapsulados.2.

p.2. leitura. aqui. inferência) em uma predicação ou segmento maior de texto. a história a contar era muito forte: Bellamy é o sujeito que contrata um grupo de aventureiros para seguir o bando de um rebelde mexicano (Palance) que raptou sua mulher (Cardinale). descoberta.. Existe.[. princípios.1. ponto de vista. de que se trata de uma certeza percebida. raptada?. seja a sua origem (conhecimento comum partilhado. idéia. Mas existe. evidência sensorial. teoria. hipótese. quatro exemplos em que se marcam dois encapsulamentos de cada tipo.. insight. no trecho encapsulado.] Crítica 33  Faroeste aborda liberdade feminina Folha de São Paulo. noção.. Apresentam correspondência com os rótulos de processo mental propostos por Francis (1994. conceito. (62) [. suspeita. dúvida. de fato. filosofia. conhecimento. A DÚVIDA: teria sido ela. dúvida. doutrina. por um lado. opinião. Encapsuladores de Conteúdo Proposicional São aqueles que capturam (ou inferem) seja a própria atitude proposicional expressa (certeza. convicção. Seguem. posição. muito embora o segmento seja assertivo.] De resto. em que o emprego verbal do futuro do pretérito sugere a própria dúvida. de fato. Já em (63). descrença). 2003) e costumam ter como núcleos nomes que são usados para projetar pensamentos e ideias ou o seu resultado (FRANCIS. atitude. o encapsulador retrospectivo uma constatação faz remissão à atitude proposicional do segmento sublinhado e tem o estatuto de inferível. Em (62). noção falsa. modo de pensar. pois não há marcas. sobretudo. interpretação. atribuição. tais como: análise. o encapsulador prospectivo dúvida faz remissão à atitude proposicional expressa pela predicação teria sido ela. 2003. 02/11/08 92 . raptada? Entramos num terreno muito frequentado por Brooks: o da liberdade feminina. fundamento lógico. 5.. pensamento. a perseguição: ela em si é interessante e tensa. 208). crença.

. sua intenção 93 . geralmente esmagados pelo sistema.. É UMA CONSTATAÇÃO.. p... ou "certo é errado". Vale. 03/08/08 Em (64) e (65). em que um famoso jornalista de TV (Sean Connery). os encapsuladores retrospectivos dessas idéias e essa atitude inferem os processos cognitivos expressos nos segmentos a que remetem.] O título original de "O Homem com a Lente Mortal" (HBO. "Wrong Is Right".[. É assim com o corpo biomecânico do policial que é utilizado por uma megacorporação em "Robocop". que as jogariam em Israel. com ligações importantes no Oriente Médio.[. 0h45.. sobre a qual não tem a menor influência. então.. (63) [.] Crítica 36  Brooks fez belo exercício de antecipação Folha de São Paulo. 21/12/08 Francis (2003. Ele tomaria ESSA ATITUDE como represália ao presidente dos EUA. [..] Encenações convivem com entrevistas e material de arquivo. que deseja tirá-lo do poder. Consciência que vem da própria situação na qual estão os personagens. (64) [..] Crítica 12  Série lança armadilhas no próprio caminho Folha de São Paulo. que ultrapassa o físico para chegar a algo além: o próprio mundo. necessariamente. primeiro. do ponto de vista do enredo. se vê a horas tantas aprisionado numa teia arquiperigosa.. Há um pouco de humor forçado..]A consciência do corpo é um dado expressivo no cinema de Paul Verhoeven.. 14/09/08 (65) [. mais apropriadamente. A saber: um poderoso local dispõe-se a repassar armas atômicas a terroristas.] Crítica 07  Verhoeven retrata faroeste amoral Folha de São Paulo. não recomendado a menores de 12 anos) é. como se a todo momento fosse necessário recorrer a coisas "espertas" e a mais infeliz DESSAS IDÉIAS talvez seja um trio de supostos telespectadores sedentários e imbecilizados. 205) enfatiza que a seleção de um nome particular como rótulo para a proposição de alguém não reflete.

[. categorizando-o como atitude. Brita (Signe Hasso). sem saber em que nível estamos. inclusive. onde há unidade ou continuação de tempo. análise. 04/01/09 94 . a uma sequência coerente de texto. muito embora ele não seja o enunciador de tal segmento.] Crítica 26  Filme de Cukor aproxima a vida e o palco Folha de São Paulo. por exemplo.2. NESSE CLIMA UM TANTO TRESLOUCADO. Embora ESSES MOMENTOS sejam intensos. e utiliza todos os recursos para honrá-lo (o monstro do título... acontece um no filme). aquele seriado japonês que a TV brasileira exibia nos anos 70.. até a cena de assassinato (sim. ao mesmo tempo. a do cinema de gênero. um monstro criado em laboratório por militares norte-americanos (os EUA colonizam culturalmente o país há tempos) e um abilolado que é mais irmão que pai de sua filha e que terá de salvar alguns tantos.. 5.. dessas que Garson Kanin escreveu com maestria (às vezes na companhia de Gordon) e que Cukor dirigiu com a sensibilidade que se conhece. 23/11/08 (67) [. em que Tony estrangula não só Desdêmona. lugar e participantes. assim. O falante poderia remeter-se a um trecho de relato. é um CGI confeccionado por uma empresa norte-americana). até o desfecho que emula as batalhas de "Ultraseven". Bong faz de seu filme algo extremamente político. como. o fato é que. ficamos em suspense.]E daí? Rigorosíssimo. (66) [. Que o cinema faça filmes "vagabundos" como esse.original. o coreano Joon-ho Bong mantém a tradição do seu país. mas não único: a cena final de "Otelo". Mesmo fazendo bonito na indústria. "Fatalidade" deixa a impressão de que sua maior vocação é para uma magnífica "comédia do recasamento".]Exemplo mais evidente.. há espaço também para o terror. e nós também. hipótese. Crítica 42  Rigoroso. Temos. isto é. sua ex- mulher  o público do teatro.2. Encapsuladores de Episódio São aqueles que fazem remissão a um Episódio. "O Hospedeiro" é falso trash Folha de São Paulo. se no da vida ou no da representação.

capturam os estados-de- coisas.] Crítica 73  Argentina narra fantasia de casal gay Folha de São Paulo. aventura. o lugar e os participantes expressos no episódico. quando Lala encontra um dos segredos de sua amada.]Era. história.. em Nova Jersey. foi complicado deixar a sala de edição. No entanto.. O ápice deu-se no final da quarta temporada. Acredita-se que tal recurso de remissão seja favorável ao próprio gênero discursivo em análise. os episódios continuaram a exibir. narração. tais como: acontecimento. ocorrido. além dos nomes. relato. passou a evoluir como uma novela.. uma vez que um enredo ou parte de enredo torna-se produto a ser avaliado. enamorada da doméstica paraguaia La Guayi. ENTÃO. numa cena subaquática realizada com efeitos especiais. momento. os exemplos (66) e (67) encapsulam os episódios expressos pelos segmentos destacados. na temporada anterior. como se vê a seguir: (68) [. narrativa. no começo. encenação. episódio. o oncologista Wilson (Robert Sean Leonard).] 95 . previsível que o formato logo cansaria. A série.] Em "O Menino Peixe". 01/11/09 (69) [. sobretudo nos parágrafos que marcam a transição narração-argumentação. [. Copiando um pouco o modelo de "Six Feet Under" (Alan Ball). É AQUI que surge o momento fantástico. ela faz a garota de classe média alta Lala. incidente... um caso desesperador que logo iria parar num dos leitos do Princeton Plainsboro Hospital. Existem nomes típicos que costumam representar núcleos de encapsuladores de episódio. trazendo mais continuidade entre capítulos e com os dramas individuais ganhando consistência. encontram-se elementos de núcleos adverbiais que. transformando-os em tópico discursivo. Tais tipos de encapsuladores são muito frequentes em nosso corpus. que trabalha em sua casa em Buenos Aires. E. o tempo. quando House não consegue salvar da morte a namorada do melhor amigo. na mistura de gêneros. conto. Acima. embora representados por advérbios de lugar ou de tempo. Elas têm planos de morar juntas perto de um lago no Paraguai.[.. Só que o enigma clínico passou a causar um impacto mais significativo nos relacionamentos entre os personagens. mas um assassinato as separa e põe Lala numa viagem de descoberta ao país vizinho. enredo.. uma nova aposta foi feita. porém. A diretora admite que. cena..

Encapsuladores de Estados-de-Coisas São aqueles que fazem remissão a um Estado-de-coisas previamente citado no texto. 5. respectivamente. no grupo dos encapsulamentos semânticos secundários. no que tem de particular ou de geral.2. isto é.[. construído no discurso . No início de nossa pesquisa. tinha-se a hipótese de que esses elementos representariam encapsuladores de lugar e tempo relativos. Contudo. em que a predicação “ser amada” transforma-se em tópico discursivo. 96 . temos então um mero "filme de doença"... isto é. Por relativos.] "Longe Dela" cativa pela sensibilidade Folha de São Paulo. as categorias Tempo e Lugar. Foi em função dessa constatação que se deixou de incluir.] Como não ganhou. quer-se dizer que a referência corresponde a um lugar abstrato ou a um tempo psicológico  isto é. 12/10/08 Uma vez que os Estados-de-coisas estão diretamente relacionados aos processos. Ela compensa o horror da situação. ESSA ÚLTIMA CIRCUNSTÂNCIA é essencial: "Longe Dela" precisa ser uma "love story" para ser engolida pelo espectador. no caso o mal de Alzheimer.3. aqui e então encapsulam as sequências narrativas destacadas. a saber: a perda progressiva de memória. destaca-se o encapsulador essa última circunstância. ama e é amada. eventos. O roteiro cerca todas as circunstâncias que tornem a situação explícita. casada há muitos anos. Abaixo. Fiona não é uma mulher especialmente idosa (de modo que não devemos estabelecer uma relação obrigatória entre idade e doença). É culta. aos elementos responsáveis por codificar ações. (70) [. não seja uma nominalização de verbo. em cuja remissão estaria sempre envolvido um ou mais Estados-de-coisas. 28/09/08 Em (68) e (69).. desde que o mesmo já não possua o estatuto de referente.. percebeu-se que o recorte feito por tais categorias remetia a todo o episódio. Crítica 09  "House" luta para não virar "one-man-show" Folha de São Paulo.

Marília Pêra-.. viveu o quê. Se Coutinho já encarava seus entrevistados como "personagens".[. No entanto. a resposta marota de Joaquim Pedro de Andrade a ESSA CONVOCAÇÃO.estabelecer relações. chegamos a especular que a nominalização seria um encapsulador de Propriedades. p. conclamara os cineastas brasileiros a fazer filmes sobre temas históricos. o então ministro da Educação. quase anônimas. 07/12/08 31 Durante a análise.. 23 foram selecionadas e filmadas em junho de 2006 no teatro Glauce Rocha. eles serão. encapsulados por uma nominalização31. no Rio.. embora a nominalização tenha como base o verbo de um predicado.] Em 1972 o Brasil. [.. que tem como base a forma verbal misturando: (71) [.54). Fernanda Torres. quais são inventadas.. foi categorizada como um encapsulador desta categoria.. Algumas dessas atrizes são muito famosas -Andréa Beltrão.] Crítica 41  Coutinho deixa o espectador sem chão Folha de São Paulo. "Os Inconfidentes" é. misturando depoimentos de mulheres "comuns" com falas de atrizes que reproduzem as mesmas histórias narradas por aquelas..] O ponto de partida do filme foi um anúncio de jornal. tal como ocorre nos exemplos a seguir em que essa convocação representa uma nominalização que remete ao segmento que tem como base a forma verbal conclamara e desse ardiloso embaralhamento. muito embora nem sempre esse processo seja feito por uma palavra cognata. comemorava de maneira ufanista o Sesquicentenário da Independência. outras são desconhecidas do público. construir o dizer e o existir (HALLIDAY 1985 apud CUNHA e SOUZA. 97 . muitas vezes. O efeito DESSE ARDILOSO EMBARALHAMENTO é deixar o espectador sem chão. remete-se a todo o Estado-de-coisas. 07/09/08 (72) [. num estúdio. Pouco antes. no momento mais duro do regime militar. em "Jogo de Cena" ele dá mais uma volta no parafuso. em que o cineasta convidava mulheres a falar. afinal. Oitenta e três se apresentaram. por um lado. 2007. Por isso. Jarbas Passarinho. e sobre quem. sobre suas vidas.] Crítica 13  Cineasta revisita Inconfidência com ironia Folha de São Paulo. em dúvida sobre quais histórias são verdadeiras.

Essa naturalidade para o "diferente" já estava no primeiro longa da diretora argentina Lucía Puenzo. aparecem em pequenas cenas ou nem ISSO. Nas categorias semânticas secundárias. "Curb Your Enthusiasm" (HBO) inseriu em sua trama o que seriam os bastidores do elenco original de "Seinfeld" se reunindo para fazer mais um episódio da série. Acredita-se que tal aspecto se deve ao fato de que alguns Estados-de-coisas representem.inventado nos anos 50 e que dura até hoje. nos quatro episódios exibidos até agora. foram bastante frequentes os casos em que houve remissão a Estado-de-coisas por encapsulamento por demonstrativo. o foco comunicativo e. como defende Levinson (1991 apud NEVES 2006. o menor de seus problemas é serem namoradas e de classes sociais distintas. Razão e Quantidade possam ser pronomes demonstrativos. "XXY". Não obstante. com três câmeras e riso da plateia.] Crítica 68  Elenco de "Seinfeld" está de volta (mas não muito) Folha de São Paulo. no final das contas. como veremos a seguir. Abaixo. aventura e fantasia. Sendo Larry David o autor e ator de "Curb". transformando o Estado-de-coisas em tópico. que foi de 1990 a 1998 e marcou um dos últimos momentos de criatividade de um formato -a sitcom. 93).. zero a pronome. sobre os conflitos de jovem hermafrodita. eles se encontram sempre em uma locução prepositiva ou conjuntiva. embora os núcleos das categorias Modo. destaque da Mostra de São Paulo do ano passado e premiado em festivais mundo afora (como em Cannes). e pronome a sintagma nominal pleno (grifo meu).. este recorre ao pronome demonstrativo32 apenas. Inclusive. na maioria das vezes. por serem a informação mais saliente na memória do falante. Por exemplo.. É o que a tribo de espectadores vem descobrindo a cada semana. em nosso corpus. "O Menino Peixe" conta a saga de duas jovens que se envolvem em roubos e assassinatos.. em que isso encapsula Estados-de-coisas: (73) [. o falante preferirá. p. numa série de eventos tão burlescos que. de função endofórica.] Desde então. seguem dois exemplos. sempre que possível. 98 . os quatro atores de "Seinfeld" só aparecem em um -nos outros. são só mencionados. 32 Uma observação importante: em todo nosso corpus. apenas a categoria Estado-de-coisas foi encapsulada por sintagmas exclusivamente demonstrativos.[. a reunião não será de verdade. 18/11/09 (74) Mistura de romance.

tanto faz. Pensáva-se que. mas um Estado- de-coisas ou. "Bananas". alguns exemplos de nosso corpus nos fizeram constatar que tal categoria não faz remissão direta ao Estado-de-coisas ou ao Episódio.4. na verdade. Está nos dizendo que só acreditamos no que aceitamos acreditar.. à Folha. de 1971. todo um Episódio.. por telefone. mas lhe atribui uma propriedade. o solitário Fielding Mellish (Woody Allen) vai parar na típica republiqueta latino-americana de San Marcos.. como eu gostaria de assistir ao lado do ilustre chefe de nosso país para acompanhar seus sábios comentários futebolísticos sobre presidentes que têm seu poder mensurado pelo que pesam em estrume!) É só um devaneio. "A todo momento eu dizia para as duas atrizes [de "O Menino Peixe'] que ISSO não era importante. em que o encapsulador essa queda não aponta um segmento específico do texto. como o sonho do judeu crucificado disputando uma vaga de estacionamento e o comercial do cigarro Novo Testamento. Encapsulamentos Atribuidores de Propriedades Tais encapsuladores mostram-se bem diferentes das categorias até aqui apresentadas.] Crítica 73  Argentina narra fantasia de casal gay Folha de São Paulo. suspeitava-se da não-existência desses encapsuladores. completam as personagens e nos situam na época por meio da provocação. é ainda mais farsesco. A princípio. a sequência à qual o encapsulamento se remete não é claramente delimitável. Após se apaixonar por Nancy (Lousie Lasser). Zomba dele com uma barba mais falsa que promessa de campanha eleitoral. Elas deviam viver o romance de maneira bem natural e não fazer disso a questão do filme".. que insere filmetes paralelos -que poderiam ser campeões no YouTube-. como os tantos de Allen.2. Muitas vezes. Não estão ali à toa. 32. 99 . inclusive. Woody Allen é anárquico. podia ser a história de um homem e uma mulher. Na verdade.] Um pouco depois. (75) [. diz Puenzo. De sequestrado pelos rebeldes acaba se tornando presidente. até mesmo. tratar-se-ia de um encapsulador de Estado-de-coisas ou de Episódio. 01/11/09 5. não se compromete com nenhum tipo de poder. como se pode confirmar no exemplo abaixo. (Ah. Não obstante. eles não encapsulam uma propriedade.[.

A (Orgs). Aproximam-se do que Gary-Prieur e Noailly (2003) entitularam demonstrativos insólitos33. e não apenas através de recursos endofóricos. Johnny é maduro o suficiente para entender um suposto mau humor de Deus e ainda jovem o bastante para odiar isso. segue outro exemplo desse tipo de encapsulamento. Ele sairá pela cidade numa odisseia de encontros fortuitos que. Nessa fase paleolítica. pais e mães superprotetores não escapam de seu olhar oblíquo. Acredita-se que encapsuladores como esse tenham. sobretudo. Marie-Nöelle. que vai além de sua figura caricata de baixinho desajeitado com óculos de aros grossos. como apontam os estudos de Conte (2003) e Francis (1994. Divãs de analistas. na noite londrina de Leigh Johnny é o motor de tensões constantes. 2003. que sempre questiona os sistemas e as crenças.[. de Martin Scorsese. M. 2003). (76) Aos 27. Chega na casa da ex- namorada. B. In: CAVALCANTE. É um chato com alguma razão que explica sua má aparência como tentativa de mesclar-se aos ambientes. Comediantes têm ESSA QUEDA por inverter o olhar. Michèle... RODRIGUES. e não somente cotextual. Por esse motivo. defende-se que tais encapsulamentos só podem ser compreendidos através de uma análise discursiva mais ampla. tem a verve de um poeta marginal afiado. O charme pós-punk de Johnny leva o trio a um colapso imediato. que divide o espaço com a sempre aérea Sophie (Katrin Cartlidge. ainda soa notável e original. B. podendo representar a postura anárquica de Allen. Abaixo. Se na noite nova-iorquina de Scorsese o personagem é passivo. mesmo lembrando "Depois de Horas" (1986). com noivos neuróticos e pessoas curiosas para saber tudo sobre sexo. uma categoria em que o destinatário não consegue identificar ou inferir o “referente”.Nos seus piores momentos. Demonstrativos Insólitos.] Crítica 45  DVDs retomam Allen pastelão Folha de São Paulo. 33 cf. NOAILLY. a referência essa queda é apenas inferível. CIULLA. Allen já aponta seu estilo. Referenciação. N. Louise (Lesley Sharp). em que o segmento encapsulado por essa dureza é inferível. 11/01/09 No exemplo acima. que morreu precocemente em 2002). GARY-PRIEUR. São Paulo: Contexto. Casais em diálogos frenéticos apontam o que virá depois. 100 . uma certa dependência contextual.

] Mistura de romance.. ESSA DUREZA tem na fala uma verdade britânica notável. no final das contas.. "O Menino Peixe" conta a saga de duas jovens que se envolvem em roubos e assassinatos.2. 27/09/09 No entanto.3.. numa série de eventos tão burlescos que. embora haja remissão a um Estado-de-coisas ou a um Episódio. e não a predicação ou segmento de texto. de Ken Loach. Razão ou Quantidade expressa em predicações ou segmentos de textos34. em que o encapsulador essa naturalidade para o “diferente” faz remissão a um segmento de texto apenas inferível: (77)[. 2) aqueles cujos núcleos atribuem a idéia de Modo. pois se remete sem encapsular o segmento. Como se afirmou anteriormente. 01/11/09 5..[. o menor de seus problemas é serem namoradas e de classes sociais distintas. [. Tratar-se-á desses dois tipos nas seções a seguir.2. tal processo não ocorre de forma direta. 101 . aventura e fantasia.. Pode-se observar tal característica no exemplo abaixo. ENCAPSULADORES SEMÂNTICOS SECUNDÁRIOS Há dois grupos de encapsuladores semânticos secundários: 1) aqueles que encapsulam Modo.. filme de Mike Leigh explora uma Londres sombria Folha de São Paulo. Razão ou Quantidade às predicações ou segmentos de texto que encapsulam.] Crítica 65  Em clima de ressaca. as categorias de lugar e tempo não são encapsuladoras.. 34 Como afirmado no tópico 5. a categoria que se transforma em tópico é a propriedade. aspecto também percebido em "Kes" (1969). outro momento importante do cinema britânico lançado há pouco pela mesma distribuidora Lume Filmes.] Argentina narra fantasia de casal gay Folha de São Paulo. ESSA NATURALIDADE PARA O "DIFERENTE" já estava no primeiro longa da diretora argentina. o estatuto de tal encapsulador atribuidor de propriedade nem sempre é de inferível. Nesse caso.

3.htm . deixando-se. bota de couro. 5. 2) aqueles que. Encapsuladores de Modo Podem ser de dois tipos: 1) aqueles que fazem remissão a uma circunstância de modo expressa no texto. Seguem os exemplos: (78) [..com.. fica fácil perceber que a massa está relacionada à energia e. DESSE MODO. o conceito mais importante da Teoria da Relatividade é a famosa afirmação 2 da "equivalência entre massa e energia". O que o difere de um encapsulador de Estado-de-coisas é o fato de ser representado por um nome ou advérbio que indica a função de modo. devido a relatividade.000 km/s (aproximadamente)..[. Mas não da atriz carioca de 43 anos. mais e mais massa (ou seu equivalente em energia) será necessário para aumentar a velocidade do objeto. embora não haja circunstâncias de modo nos conteúdos a que se remetem.] VELOCIDADE DE DOBRA http://inpu. a circunstância em evidência. encapsulam um ou mais Estados-de-Coisas e atribuem-lhe ad hoc tal circunstância. expressa através da equação E=mc .] Malu Mader ataca como matadora Folha de São Paulo. a massa de um corpo aumenta quanto mais rapidamente este se mover.] Um dos conceitos básicos desta teoria é que nenhum objeto físico deste universo pode viajar a uma velocidade maior que a velocidade da luz ou seja. coloca uma calcinha preta. sai do chuveiro. coldre nas costas e dá um beijo no bebê.. logicamente. a energia a massa. de "A Justiceira". [. assim. Essa fascinante fórmula nos diz que. sem dúvida. Mas.uol. ASSIM dá início a mais um dia. quanto mais um objeto se aproxima da velocidade da luz. encapsulando não apenas o modo. 07/06/09 102 . nenhum objeto pode viajar a uma velocidade maior que 300..br/veldobra.acessado em 15/01/10 (79) Malu Mader toma banho.1. como também o Estado-de-coisas. e sim de sua personagem Diana Maciek. Ambas são equivalentes! Assim..sites. Como o aumento da massa acarreta um aumento da energia. crescendo geometricamente de tal modo que no limite da velocidade da luz tende ao infinito. o corpo ganha energia cinética (a energia de movimento) que é diretamente proporcional a massa do corpo e ao quadrado de sua velocidade. que tem lançamento neste mês em DVD.

2. Beniamino Deidda.] Site JusBrasil . (80) [. Antonio Biancardi..com. Nesse caso.[. Italiana Morreu de Sede http://www. A autorização da Justiça coincide com a opinião do procurador-geral da Corte de Apelação de Trieste. Já em (79). a italiana em coma há 17 anos e que a família ajudou a morrer nesta segunda-feira (9) depois da suspensão da alimentação e hidratação.jusbrasil. não há circunstância de modo expressa no trecho a que assim se refere.acessado em 15/01/10 (81) [. em que há explícita uma circunstância de modo.. podem basear-se em âncoras textuais ou não.Justiça autoriza enterro de Eluana. 09/04/09 35 Na GDF. elucidamos tal circunstância na nomeação 103 ..] Crítica 48 – "Gata em Teto de Zinco Quente" é próximo filme de coleção Folha de São Paulo.] Existe UMA.. a categoria Razão compreende circunstâncias de causa. isto é. 5. RAZÃO para o lançamento de "Uma Vida sem Regras" no Brasil: Robert Pattinson estar no papel principal.] O Procurador de Udine.. Ela morreu de sede após 17 anos.. Por esse motivo. no momento em que a designação é feita. autorizou nesta quarta-feira o enterro de Eluana Englaro.[..br/noticias/775172/justica-autoriza-enterro-de-eluana-italiana- morreu-de-sede . Encapsuladores de Razão (ou Causa)35 Ocorrem da mesma forma que os encapsuladores de Modo. Em (78). que afirmou nesta quarta-feira que a causa da morte da jovem é compatível com o protocolo médico. infere-se que tal circunstância depende mais do discurso.. desse modo encapsula “mover mais rapidamente”. 38.3. e apenas uma.

ex. o que nos levou a construí-lo. Em todo nosso corpus. frequência). Encapsuladores de Quantidade Quantidade é uma categoria que se associa não apenas a sintagmas verbais. como também a indivíduos. (82) Você sabe que eu viajo várias vezes ao ano e ainda não se acostumou com tal frequência? Exemplo construído. no corpus. 104 . não houve ocorrências do primeiro caso de encapsulamento – embora se defenda a sua possibilidade –. quantidade.3. uma razão encapsula o segmento destacada como motivo para lançamento de um filme no Brasil. Por conseguinte. Encontraram-se. pelo menos. dois elementos gramaticais cujos núcleos faziam remissão a predicações anteriores e representavam a idéia de quantidade.3. a cuja função possa ser atribuída idéia de quantidade. Já em (81). a causa faz remissão à locução adverbial de sede e ao Estado-de- coisas expresso. 5. tal frequência faz remissão à predicação eu viajo várias vezes ao ano. Acima. isto é. número. daí a sua classificação. morrer de sede. Em (80). 2) houver elementos gramaticais que façam remissão a um ou mais estados-de-coisas. só haverá encapsulamentos de quantidade se: 1) houver expressão adverbial no predicado que possa ser encapsulada por nome que expresse essa idéia (p. referentes. isto é. uma vez que o encapsulamento exige. o que nos levou ao segundo caso de encapsulador supracitado. uma predicação a que se faça remissão. elencando a frequência enquanto núcleo encapsulador.

em Modo.]O mistério.2. "Nem a vigorosa direção de Richard Brooks nem o provocativo texto de Tennessee Williams apagam o que 'Gata em Teto de Zinco Quente' tem de mais memorável: o duelo entre Elizabeth Taylor e Paul Newman". (83) [. [.. os dois enfrentam diálogos densos e cortantes do filme com impressionante maturidade.]Quando o filme foi lançado. inclusive. percebemos que circunstâncias de tempo e lugar estão previstas em Episódio (como abordamos no tópico 5. em setembro de 1958.. Apesar de jovens. meio. ao explorarem-se outros advérbios. 09/04/09 (84) [. de causa. Músicas adicionais "inéditas" de Carmine Coppola. Não obstante. no livro que acompanha o DVD. afirma o crítico da Folha Cássio Starling Carlos. se realmente havia encapsuladores de quantidade. de modo. questionou-se a sua existência. assim como na música. biografias do diretor. e Taylor. O livro traz.] Crítica 67  Obra mítica de Coppola é melhor na versão "curta" Folha de São Paulo. essa é a mais fluida. a temerária remarcação de luz "plastificou" a fotografia de Vittorio Storaro.. pai do diretor. muitas vezes os pequenos ruídos da versão "vinil" reproduzem uma obra mais real. De todas as categorias do NR. do dramaturgo Tennessee Williams e um texto sobre a censura imposta à peça e ao roteiro. a inquietação. ainda e além disso encapsulam os respectivos segmentos prévios de texto e atribuem-lhes a idéia de quantidade (além do que foi citado). No cinema. AINDA. em Razão. também deveria haver para outras circunstâncias.. entre outras informações e curiosidades. não faziam falta no original.2). de intensidade e tempo (equivalente à frequência). pensando que. Richard Brooks. A princípio. a loucura da guerra e a aventura lisérgica foram substituídos pela contemplação enfadonha. ALÉM DISSO.. instrumento. em 105 . Crítica 48  "Gata em Teto de Zinco Quente" é próximo filme de coleção Folha de São Paulo.. Newman tinha 33 anos. 11/10/09 Em (83) e (84). 26. mais difícil de definir e de menor frequência.

parágrafo. 2) nomes que se referem à estrutura textual formal do discurso. Portanto. Crítica 27  Essência escapa em "O Gosto da Cereja" Folha de São Paulo. passagem. como muito bem afirmaram Hengeveld e Mackenzie (2008. A EXPLICAÇÃO está longe de ser convincente. referência. confirmou-se que todas as categorias semânticas de uma unidade linguística estão presentes. Não é do feitio de Kiarostami agitar questões polêmicas. analisamos também advérbios menos frequentes. excerto. São representados por duas categorias: 1) nomes que se referem a alguns tipos de atividade linguageira ou aos seus resultados. Portanto. etc. como aponta Jakobson (1971 apud HENGEVELD e MACKENZIE. Caracterizam. 275). ao menos à luz do que se vê no filme: Badii surge apenas como um sujeito com um carro em busca de alguém que preste um serviço. que esse homem seria homossexual. companhia. Uma vez que a função é metalinguística. 2008. eles representavam ou outras categorias da GDF. exposição. na época do lançamento do filme. No entanto. esses pertencem à metafunção textual da língua e servem para falar do evento comunicativo em si. como de concessão. mas sempre mantemos a convicção de que o essencial escapa. mensagem. como citação.. 5. descrição. nunca nos é dito por que esse homem deseja se suicidar. explicação. finalidade. conformidade. 16/11/08 36 Nessa investigação. p. página. pergunta. 106 . É que seu cinema funciona como um espelho. 128). o que configuraria um duplo crime diante da lei islâmica (o primeiro sendo o suicídio). ou operadores e modificadores de uma categoria. a mensagem sobre o próprio código.. p.4. em vez da classificação Encapsulador de Língua Reflexiva. Correu.. e não porque fuja delas. Ou seja.]Escutamos os argumentos de ambos os lados. ENCAPSULADORES METALINGUÍSTICOS Ao contrário das outras categorias semânticas. utilizar-se-á Encapsulador Metalinguístico. Ele nos dá exatamente o que dele recebemos. definição. etc. de afirmação. (85) [.Quantidade. optou-se por manter a nomeação e classificação de Francis. como debate. negação e dúvida em Conteúdo Proposicional36.

. diretor. explicação..] Crítica 44  Filme mostra 'julgamento' de Nixon Folha de São Paulo.] Crítica 76  Filme-mosaico com dramas cotidianos é ponto alto na obra de Robert Altman Folha de São Paulo. CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA Considera-se que a interpretação dos encapsulamentos semânticos através do NR apresenta quatro contribuições substanciais para os estudos da referenciação: 107 .[. a entrevista que serviu como "julgamento" para Nixon levanta OUTRO QUESTIONAMENTO nos EUA: estaria levando o ex- presidente à segunda instância." Extraído do conto "Uma Coisinha Boa". O autor. num cruzamento. Na elogiada versão cinematográfica. O TRECHO acima ilustra o estilo seco de observação do cotidiano que caracterizava o norte-americano Raymond Carver (1939-1988). roteiro. (86) [. o aniversariante pisou em falso no meio-fio.]UMA FRASE entrou para o folclore americano: "Se o presidente faz. assina também o roteiro do longa. com seus bastidores..5. 04/01/09 Nos exemplos acima. 15/11/09 5. então não é ilegal". e foi imediatamente atropelado por um carro.]"Na segunda de manhã.. (87) [. A encenação do pingue-pongue entre Nixon e Frost. o garoto aniversariante estava indo para a escola com outro garoto. Peter Morgan ("A Rainha"). Abaixo. em conflito entre a inteligência brilhante e a tendência autodestrutiva?[. uma frase e outro questionamento nomeiam atividades linguageiras ao fazer remissão aos trechos destacados. Um saco de batata frita passava de uma mão para a outra e o aniversariante tentava descobrir o que seu amigo ia lhe dar de presente naquela tarde. Distraído.. ator dramático para Frank Langella (que vive Nixon) e trilha.. que emplacou cinco indicações ao Globo de Ouro: filme.. com possível redenção por mostrar seu lado mais humano.. já havia feito sucesso no teatro. trecho nomeia uma parte formal do discurso.

no que tange a questões de uso da língua. os quais não se caracterizam apenas por uma estrutura linguística. nomes de processo mental. assume qualidades que ultrapassam a língua e o discurso. a construção do texto. nomes de atividades linguísticas e nomes de texto. neste trabalho. o estudo aprofundado das categorias semânticas possíveis de uma unidade linguística permitiu-nos uma análise mais ampla.5. acarretou uma substantiva modificação das categorias previstas pela autora. envolvendo processos sociocognitivos como memória discursiva. a saber: nomes ilocucionários.5.1. o seu objeto de pesquisa se restringiu à classificação dos encapsuladores cotextuais. isto é. sócio-históricas. mas também por um funcionamento sócio-discursivo. Desse modo. a proposta de Francis (1994.2. a despeito das autoras comungarem dos pressupostos teóricos sociocognitivistas interacionistas. o que equivale dizer que a preocupação na observação do fenômeno atende mais a aspectos de estruturação e de organização cotextual. por sua vez. 2003) para a categorização dos rótulos semânticos restringia-se a quatro categorias. 2003) acerca do encapsulamento representem importantes contribuições para a pesquisa linguística. seus estudos repousam numa análise que se prende a critérios de ordem lexical e sintática. daqueles que tivessem uma clara dependência da superfície textual. analogias e ação reflexiva dos sujeitos. 2003) e Conte (1994. 5. propor uma ampliação do estudo do fenômeno com base na Gramática Discursivo-Funcional. O papel do contexto Embora os estudos de Francis (1994. Tem-se como pressuposto que a linguagem é um trabalho que envolve atividades humanas. que se organizam por meio de textos. inferências. Portanto. 5. Abordagem mais ampla dos encapsulamentos semânticos Conforme explanação do segundo capítulo. que. Assim. de. No entanto. o que caracteriza uma visão simplificada para os processos de significação. sugerindo que a âncora de um encapsulamento não se encontraria apenas em uma predicação ou 108 . gostar-se-ia. tanto em termos de produção quanto de intelecção.

Após se apaixonar por Nancy (Lousie Lasser).. Comediantes têm essa queda por inverter o olhar. mas no contexto discursivo- pragmático. Não estão ali à toa. Está nos dizendo que só acreditamos no que aceitamos acreditar. em toda a sequência do primeiro parágrafo. em que o contexto discursivo pragmático tem preponderância sobre o cotexto. NESSA FASE PALEOLÍTICA. completam as personagens e nos situam na época por meio da provocação. o que nos leva à conclusão de que a âncora para tal anáfora não se encontra em uma predicação ou segmento de texto. é ainda mais farsesco. que insere filmetes paralelos  que poderiam ser campeões no YouTube. (Ah. 109 . o solitário Fielding Mellish (Allen) vai parar na típica republiqueta latino-americana de San Marcos. de 1971.[. 11/01/09 No sintagma nessa fase paleolítica. não encontramos um referente lexicalizado que propicie a remissão através de nessa fase paleolítica. não há remissão ao cotexto. Woody Allen é anárquico. como também no contexto discursivo-pragmático. como o sonho do judeu crucificado disputando uma vaga de estacionamento e o comercial do cigarro Novo Testamento. Allen já aponta seu estilo. como percebemos no exemplo a seguir: (88) Um pouco depois. Casais em diálogos frenéticos apontam o que virá depois. que vai além de sua figura caricata de baixinho desajeitado com óculos de aros grossos.. como eu gostaria de assistir ao lado do ilustre chefe de nosso país para acompanhar seus sábios comentários futebolísticos sobre presidentes que têm seu poder mensurado pelo que pesam em estrume!) É só um devaneio. apesar de percebemos a existência de uma expressão anafórica. como os tantos de Allen. Trata-se de um emprego insólito como apontam Gary-Prieur e Noailly (2003). Divãs de analistas.] Críticam 45 – “Bananas” Folha de São Paulo. Zomba dele com uma barba mais falsa que promessa de campanha eleitoral.segmento de texto. Logo. com noivos neuróticos e pessoas curiosas para saber tudo sobre sexo. "Bananas". De sequestrado pelos rebeldes acaba se tornando presidente. até mesmo pela natureza do demonstrativo essa. pais e mães superprotetores não escapam de seu olhar oblíquo. não se compromete com nenhum tipo de poder.

além de ele representar o tema de um novo tópico discursivo.197). acumulando a função temática e remática ou. de que a anáfora encapsuladora é a sumarização de uma informação precedente. Inclusive. em que.5. ao mesmo tempo em que encapsulam. 94). 17). O papel atributivo dos encapsulamentos Segundo Zamponi (2002). No entanto. o conceito de encapsulamento é o que segue: um recurso coesivo pelo qual um sintagma nominal funciona como uma paráfrase resumitiva de uma porção precedente de texto.3. Análise de encapsulamentos de núcleo gramatical As literaturas vigentes consideram que o encapsulamento é sempre realizado por um sintagma nominal. 5. ao atribuir uma nova propriedade ao segmento encapsulado. ele pode ter função remática. Crê-se 110 .4. p. a nossa pesquisa comprovou que o encapsulamento não se restringe ao sintagma nominal. p. Como se pôde observar nas categorias semânticas secundárias. claramente. Nem todo encapsulamento advém de uma categoria instável Embora a perspectiva sociocognitiva interacionista reconheça as práticas de sedimentação das categorias em protótipos e estereótipos. isto é. operando uma tematização-remática (Ibid. por exemplo. razão ou quantidade.5.. mais presentes. para Conte (2003. p. os estudos que conferem instabilidade ao objeto-de-discurso têm estado. pode-se considerar a dimensão atributiva de um rótulo. propõe-se que não somente termos avaliativos implicam atribuição. existem expressões que. uma propriedade era atribuída ao segmento encapsulado. Todavia.5. adotamos a concepção de Koch (2002. Tais apontamentos foram feitos no trabalho de Zamponi (2002) ao considerar os rótulos de configuração axiológica. uma vez que é perfeitamente aplicável às categorias lexicais e gramaticais. compartilhada pelos interlocutores.5. uma vez que existem palavras gramaticais que desempenham tal função. atribuem uma propriedade de modo. 5. Por esse motivo. 5. Tal elemento anafórico é simultaneamente um elemento de referência e de predicação. fortemente. como afirma Schawrz (2000).

pois apenas a focalização de um dos aspectos pode levar-nos a um posicionamento passível de falhas. Não obstante. encontra-se. através de um nome. república soviética invadida pelos alemães. faz remissão a um segmento de texto previamente expresso. p. Com relação aos encapsulamentos. 203) defende a existência de nomes com essa potencial função. a existência de nomes encapsuladores que nem sempre apresentam âncoras cotextuais. como o evento que leva crianças e adolescentes a procurar armas e outros objetos de uso militar escondidos nas areias brancas de uma aldeia na Bielo- Rússia (ou Belarus). isto é. início não faz remissão direta a um segmento do texto. muito embora se descreva uma das situações iniciais do filme. (89) As únicas imagens documentais de "Vá e Veja" (1985) só aparecem em seus minutos finais. destacado acima.] Crítica 31 – "Vá e Veja" leva poesia a cenário de guerra Folha de São Paulo. Quase.que esse seja um movimento natural dos estudos sobre referência. Inclusive. Sob a nossa ótica. Apesar de o efeito ser notável. que. a categoria Episódio pode sobrepor-se aos 111 . na categoria episódio. Francis (2003.[. 09/11/08 O nome início. defende-se que se faz imprescindível um tratamento pontual das categorias mais sedimentadas do discurso. precisa opor-se a uma corrente que vise apenas à estabilidade. em seu atual estágio. definições que apontam para o fenômeno apenas em seu caráter instável. encontramos. no exemplo em questão. Em se tratando de nomes encapsuladores.. é um caso exemplar de encapsulador de episódio.. por exemplo. visto seu alto grau de estabilidade. início representará sempre um encapsulador. porque a primeira meia hora do filme trata a Segunda Guerra Mundial de longe. Independente da situação discursiva. uma vez que marca unidade ou continuação de tempo. lugar e participantes de uma sequência coerente de Estados-de-coisas. em que o falante. a autora os analisa mediante a remissão que fazem a predicações anteriores. como o exemplo a seguir. na literatura vigente. em 1943. No entanto. submetendo-os sempre ao cotexto. No entanto. esse clássico do filme de guerra não precisaria recorrer a isso para aumentar a catarse anti-nazista que o orienta quase desde o início.

mas no decorrer da atividade discursiva. misturando depoimentos de mulheres "comuns" com falas de atrizes que reproduzem as mesmas histórias narradas por aquelas. um significante número de encapsuladores não-avaliativos. Embora não se discorde da autora. A avaliação de determinado encapsulamento não é dada apenas na categorização. em dúvida sobre quais histórias são verdadeiras. A escolha de um encapsulador não-avaliativo não indica que o falante terá uma posição mais neutra em seu discurso. em "Jogo de Cena" ele dá mais uma volta no parafuso. hierarquicamente acima do Morfossintático. Fernanda Torres. A configuração dos encapsulamentos não depende da sintaxe. No entanto. acredita-se que a ênfase dada ao nome avaliativo pode levar-nos a subentender que encapsulamentos não-avaliativos não propiciariam uma progressão avaliativa do objeto-de-discurso. 112 . que só tinham como objetivo transformar um segmento em tópico discursivo. uma vez que a “avaliação” é uma estratégia que não se dá apenas na categorização como também na predicação e nos processos de retomada e remissão de referentes. afinal. Algumas dessas atrizes são muito famosas -Andréa Beltrão. uma vez que pertence ao NR. viveu o quê. Isso nos evidenciou que a opção por um encapsulador avaliativo ou não- avaliativo em tais sequências não interfere substancialmente no fazer discursivo do texto. Mais uma vez. 5. Veja o exemplo: (90) Se Coutinho já encarava seus entrevistados como "personagens".5. Esse ponto nos faz refletir acerca do posicionamento de Conte (2003. outras são desconhecidas do público. 177) ao afirmar que o encapsulamento anafórico de caráter avaliativo é um poderoso meio de manipulação do leitor. argumenta-se que um posicionamento sintaticista e localista traria uma visão reducionista do processo de referenciação. encontramos. quais são inventadas. p. O efeito DESSE ARDILOSO EMBARALHAMENTO é deixar o espectador sem chão. mas do discurso A princípio. Marília Pêra-. especulamos que a maior parte dos encapsulamentos presentes nas sequências argumentativas de nosso corpus apresentaria configuração avaliativa. quase anônimas. e sobre quem.critérios de ordem sintática.6.

o fator pragmático tem sido imprescindível. quais são inventadas. poder-se-ia ainda contar com a atribuição. No entanto. especialmente quando se quiser compreender a capacidade de referir-se a algo. Veja: (91) O efeito DESSE EMBARALHAMENTO é ardiloso. percebe-se o alto valor argumentativo de seu adjunto. 2004). num determinado contexto  como sendo também uma capacidade de entender-se a respeito de algo com alguém. e como isso produz efeitos sobre a práxis.6. afinal. não se tratou nem das categorias pragmáticas dos encapsulamentos nem de uma análise mais argumentativa e retórica do processo de referenciação. aqui. Tal observação nos leva a defender que a análise da carga axiológica ou não-axiológica de um dado objeto-de-discurso deve ser feita não apenas sob aspectos sintáticos mas também discursivos. Se ele fosse retirado do trecho. viveu o quê. que. ardiloso. com o aspecto linguístico. é um modo de vida. Crítica 41 – Coutinho deixa o espectador sem chão Folha de São Paulo. isto é. abordada sob o ângulo discursivo-pragmático. em dúvida sobre quais histórias são verdadeiras. Trata-se da referenciação. 07/12/08 Acima. 5. muito embora o núcleo embaralhamento já atribua valor axiológico ao encapsulamento. Desse modo. esta pesquisa ateve-se ao reconhecimento das categorias semânticas envolvidas nos processos de encapsulamento. deixa o espectador sem chão. com um determinado propósito . se apenas se mudasse a ordem. PERSPECTIVAS FUTURAS Nas atuais discussões sobre a relação entre linguagem e realidade. já que linguagem é ação. mas apenas da 113 . isso implicaria uma tênue mudança argumentativa. A despeito de tal concepção discursivo-pragmática da língua. e sobre quem. muito embora ela já não fizesse parte do sintagma. como abordava Wittgenstein (1953 apud ARAÚJO. permite uma análise mais completa e produtiva da própria linguagem.

Tratam-se de teorias complementares. na categoria episódio – veja exemplos (68) e (69). o que parece comprovar a unidirecionalidade e elucidar os aspectos cognitivos que nos levariam a tal princípio lingüístico. percebemos a presença de palavras gramaticais que fazem remissão a tempo. Também se defende que uma futura análise dos encapsulamentos de caráter mais gramatical possa representar uma boa interseção entre referenciação e gramaticalização. páginas 94 e 95 –. se no Nível Interpessoal ou Representacional. uma vez que se apontam categorias gramaticais que funcionam como proformas de sequenciação textual. 37 Como abordamos na Introdução desta pesquisa. Defende-se que um futuro estudo de tais aspectos seja um bom caminho a ser percorrido. tal qual o encapsulamento prototípico. 114 . muito embora isso não descarte a dimensão sociocognitiva.taxionomia do NR37. mas que selecionam segmentos disponíveis do discurso. espaço e texto concomitantemente. O mesmo poderia ser especulado no que tange aos encapsulamentos secundários. Pensa-se que tanto entender em que dimensão se encontra um encapsulamento. trata-se de uma abordagem discursivo-funcional. uma vez que. quanto aferir de que forma os operadores e modificadores das categorias previstas pela GDF colaboram na referenciação pode ser um grande auxílio na compreensão do processo de argumentação dos textos.

n vezes. o professor não se satisfaz com os textos e os roteiros de interpretação dos livros didáticos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A escola ensina os alunos a ler e a escrever orações e períodos e exige que interpretem e redijam textos. seleciona algum texto e faz uma bela interpretação em classe.. transformar-se em bons leitores. FIORIN. Algumas pessoas poderiam dizer que essa afirmação não é verdadeira. [. duas. Não basta recomendar que o aluno leia atentamente o texto muitas vezes. Elementos de Análise do Discurso. corrige os erros localizados no nível da frase. Quem escreve ou lê com eficiência conhece esses procedimentos de maneira mais ou menos “intuitiva”. 115 . Se o aluno lhe pergunta como enxergar numa produção discursiva as coisas geniais que ele nela percebeu. São Paulo: Contexto. para descobrir os sentidos do texto. [. Mas como é uma aula de redação? O professor põe um tema na lousa. pede que os alunos escrevam sobre ele. Explicitá-los contribui para que um maior número de pessoas possa. é necessário lê-lo uma. mas algo que se cultiva e se desenvolve. costuma apresentar duas respostas: para analisar um texto.] 38 José Luiz Fiorin 38 Cf.] A finalidade da apresentação de elementos discursivos é tornar explícitos mecanismos implícitos de estruturação e de interpretação de textos. A sensibilidade não é um dom inato. porque hoje todos os professores dão aulas de redação e de interpretação de textos. 2004.. é preciso ter sensibilidade. Muitas vezes. A aula de interpretação de texto consiste em responder a um questionário com perguntas que não representam nenhum desafio intelectual ao aluno e que não contribuem para o entendimento global do texto.. José Luiz.. de maneira mais rápida e eficaz. é preciso mostrar o que é que se deve observar nele. três. As duas respostas estão eivadas de ingenuidade.

há termos gramaticais que. 94). valor de verdade e referência a estado-de-coisa cedem lugar a comportamento. confirma-se o consenso de que o encapsulamento seja importante na condução e progressão de um texto. Sentido. Acredita-se que tal mudança paradigmática nos confirme a não-existência de invólucros pré-destinados a certas funções discursivas. em determinadas circunstâncias. Há toda uma mudança de perspectiva filosófica na passagem do modelo lógico-semântico para os de cunho pragmático – como a perspectiva sociocognitivo interacionista e discursivo-funcional de linguagem. 2002. Neste estudo. Para tanto. uma vez que ela prevê todos os aspectos semânticos de uma unidade linguística. funcionam como anáforas encapsuladoras. pois. assim como há encapsulamento cujo segmento a que se faz remissão não se encontra delimitado no texto. A pesquisa ratifica a conceituação de encapsulamento como sumarização de uma informação precedente. transformar em tópicos discursivos predicações ou segmentos do discurso. ao hipostatizar. lexicalizados. por parte do 116 . tomou-se como base o Nível Representacional da Gramática Discursivo-Funcional. e não referentes já disponíveis. Afinal. pertencentes à esfera jornalística e publicados na Folha de São Paulo online. Crê-se que o reconhecimento. a questão não é localizar os objetos do mundo ou verificar a existência de entidades abstratas. Quanto à função discursiva. situação de emprego. significa impor limites aos processos cognitivos. é negar a preponderância da práxis sobre o uso linguístico. Conforme visto no quinto capítulo. na medida em que traça uma orientação argumentativa para o texto. realizou-se uma análise qualitativa da categorização dos encapsulamentos semânticos – de metafunção ideacional e textual – a partir do exame de textos de crítica de cinema e TV. mas entende que o fenômeno não se restringe ao sintagma nominal e nem sempre apresenta âncoras cotextuais explícitas. usuário. compartilhada pelos interlocutores (KOCH. pôr a função em serviço da forma. como muito bem defendem Mondada e Dubois (2003). propósito de fala. mas entender como os sujeitos constroem versões públicas do mundo. p. do contrário. como se pensava anteriormente.

 possa ser uma ferramenta relevante à análise dos pontos de vista defendidos no texto. Na verdade. com a linguagem. individualizados em si. de posse dessa concepção da linguagem.ouvinte/leitor. por trás deste. se uma propriedade etc. como dúvida. Pode-se. de qual segmento do discurso é encapsulado  se uma atitude proposicional. um significar que demanda a leitura do contexto. pelo produtor do texto. intrínsecas. refletiu-se. Com um encapsulamento. sobretudo. pois. como defende a pragmática. muito embora o segmento em si não tenha essa conotação. atitude. crença. constatar que um discurso de outrem é encapsulado. de maneira mais rápida e eficaz. com propriedades essenciais. faz-se muito mais do que nomear. por exemplo. 117 . não apenas se nomeia um segmento discursivo. Por fim. acerca dos leitores em formação de nossa sociedade e ratificamos a fala de Fiorin: tornar explícitos mecanismos implícitos de estruturação e de interpretação de textos contribui para que um maior número de pessoas possa. independentemente de uma conceptualização cultural. por exemplo. Cabe lembrar que. semiótica. transformar-se em bons leitores. há a intenção de identificar algo a alguém. um querer dizer. não há objetos discriminados. se um episódio. linguística. dos propósitos da fala naquela determinada circunstância.

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filme traz diretor espanhol em sua melhor forma JOSÉ GERALDO COUTO 127 . ANEXOS (01) A censura parece vitimar só o imaginário INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Uma pessoa reclama por ter tido de assistir. do Zé do Caixão? Posso estar errado. não recomendado para menores de 12 anos). Eram cenas chocantes. E vai executar um longo trajeto com a cabeça dentro de um saco. diz. num filme. de fato. Um assassinato nas mesmas circunstâncias. 11h45. Pois mais vale que pessoas tão sensíveis passem longe de "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia" (TC Cult. o vídeo da cena em que um homem. parece vitimar apenas o imaginário. num programa jornalístico matinal. talvez porque seja real. Não me lembro de ninguém reclamando por ter visto essa cena. dá um tiro na cabeça de um ex- empregado. Será que essa cabeça. Folha de São Paulo. A censura. vai chocar tanto quanto as diabruras. também fantásticas. sem prévio aviso. o fim dos tempos. assim como a sensibilidade da pessoa do trailer. a menos de um metro de distância. mas esse tipo de reação visa objetos específicos. Pois alguém a trará - está feito o aviso. pelas costas. devida ao fantástico Sam Peckinpah. Poucos dias antes podia-se ver. Não recordo de nenhuma reação escandalizada da censura do Ministério da Justiça. a um trailer do mais recente filme de Zé do Caixão. Um assassinato "real" pode ser visto. em 1938. é proibido a menores de 18 anos porque é chocante. representava a invasão da Terra por alienígenas era. Vencedor do Oscar em 1973. Lembra a das pessoas em transe histérico para quem o programa de rádio no qual Orson Welles. 31/08/08 (02) Buñuel mergulha na fantasia para ironizar donos do poder.

O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA Distribuidora: Lume Quanto: R$ 44. Traficante de cocaína em conluio com seus amigos burgueses e com o establishment local. Buñuel ri deles. desenrola-se o velório do proprietário. rodado na França em 1972. não conta propriamente uma história. um humor sereno. com a roupa certa. Daí até o final. um homem (Julien Bertheau) passa de bispo a jardineiro numa simples troca de roupa. de nós e de si próprio. onde. Sonhos dentro de sonhos. COLUNISTA DA FOLHA "O Discreto Charme da Burguesia". em média Classificação indicativa: não recomendado para menores de 14 anos Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. serão inúmeras as refeições frustradas. anedotas e lendas enxertadas. Um não vive sem o outro. Dali partem todos. Ver essa obra. A primeira sequência dá a senha da situação que se repetirá com variações. o diretor. pelos motivos mais diversos: batida policial. ataque terrorista. descobrem que. já setentão. incluindo a dona da casa. Numa cena memorável. para um restaurante nas redondezas. embaixador da republiqueta sul-americana de Miranda. mas esboça uma série de tramas que se desfazem. Estive com ele um par de vezes e constatei que é um homem simpático e distinto". um ataque implacável aos donos do poder político. 31/08/08 128 . O hábito desfaz o monge. manobras militares. Acosta diz: "Chamá-lo de carniceiro é um exagero. Acosta é o elo entre a Europa supostamente civilizada e o Terceiro Mundo miserável. quando estão prestes a fazer seus pedidos. destila uma ironia sutil. Em lugar da fúria anárquica dos primeiros filmes. O roteiro sagaz. Questionado sobre a presença de um antigo chefe de campo de concentração nazista em seu país. material e moral.90. como um pesadelo recorrente: amigos burgueses chegam para jantar na casa de um casal e descobrem que os anfitriões os esperavam apenas para a noite seguinte. pistas falsas. Buñuel é impiedoso com o teatro de máscaras das elites. é Luis Buñuel em sua melhor forma: na linguagem fluida e livre dos sonhos. o vinho adequado e as fórmulas de conveniência na ponta da língua. em parceria com Jean-Claude Carrière. num canto do salão. elipses bruscas. Oscar de filme estrangeiro em 73. São todos simpáticos e distintos nesse grupo de discretos monstros. corrupto e atrasado. é pisar o terreno movediço da fantasia e do desejo. A figura-chave do grupo de grã-finos é Rafael Acosta (Fernando Rey).

durou só sete episódios. a série retoma o que no século passado foi novidade. uma inimiga de Wendy arrisca sua carreira espalhando na mídia suas falhas como mãe. É essa a principal falha de "Lipstick Jungle". que estréia amanhã na Fox. volta às telas com "Lipstick Jungle" (na tradução literal. agora. e perde espaço pela insistência da produção em fazer de Brooke Shields o foco prioritário. como Carrie fazia. se parece com a Miranda de "Sex". A fórmula é quase idêntica: mulheres independentes e glamourosas (entenda-se endinheiradas e fúteis) compartilham seus problemas mais íntimos (amorosos e sexuais). envelheceram e repaginaram Carrie. 49. Sem surpreender. dará um toque "Samantha" à série. elas estão mais perto dos 40 do que dos 30 anos e têm carreiras mais consolidadas. A nova Miranda A personagem de Shields. Nico (Kim Raver). entra uma executiva de cinema. Big?) e até a viagem dos sonhos a Paris. Mas Victory não narra os episódios. justamente quem menos atraía o público. se há dez anos o jeito "libertário" de Samantha surpreendia. À história: no lugar de Carrie. precisa conciliar as necessidades da família e o sucesso profissional. A loira fatal. entra em cena a terceira melhor amiga.(03) Versão "envelhecida" de "Sex" é mais do mesmo CRISTINA FIBE DA REPORTAGEM LOCAL Cortaram a Charlotte. workaholic. casada. Sai a advogada (Miranda). Mas. a paixão pelo milionário com medo de compromisso (um novo Mr. também "inspirada" em "Sex" e protagonizada por Lucy Liu. Aqui estão os altos e baixos profissionais. Dez anos depois da estréia da série "Sex and the City" (que acabou em 2004). É que sua vida tem menos graça -mãe. hoje ele soa um tanto envelhecido. Wendy. Samantha e Miranda. Victory consegue repetir uma série de feitos que a protagonista escritora de "Sex and the City" demorou seis temporadas para alcançar. há o fato de ter sido bem recebida nos EUA. porém não com a mesma ousadia da ninfomaníaca de "Sex and the City". É ela quem protagoniza as cenas picantes dos primeiros episódios. E. "selva de batom"). Já nos primeiros episódios. táxis e bares de Nova York. o bloqueio criativo. Logo no início da primeira temporada. que estreou em fevereiro nos EUA. Para salvá-la. a escritora Candace Bushnell. agora quem sofre a dor de ser solteira-em- busca-do-príncipe é a estilista Victory Ford (a talentosa Lindsay Price). garantindo uma segunda temporada -"Cashmere Mafia". em meio aos prédios. 129 . A favor da série. trazendo para "Lipstick" outro elemento cada vez mais corrente nas séries americanas: os bastidores de Hollywood.

um labirinto em que não existe memória possível. da Galeria Metrópole. mas com amigos. que mudou inteiramente. como de ofício. do Paribar. O reencontro com a antiga amada é. a constatação do desencontro. ele não se reconhece em sua cidade. Essa já foi "a praça da Biblioteca". sobre uma brecha na qual o tempo se perde. valia. do trânsito e da barulheira noturna. não recomendado para menores de 14 anos). onde as experiências se perdem como se fossem produto da imaginação. usar qualquer argumento. são fundamentais. a bucólica Vila Madalena. onde viveu por 20 anos. 24/08/08 (04) Em "Príncipe". 10/08/08 (05) Série retrata apetite por autodestruição CÁSSIO STARLING CARLOS 130 . Folha de São Paulo. José Gaspar que um amigo (Otávio Augusto) recita trechos de "A Divina Comédia" em altos brados. ele viverá alguns reencontros. 18h30. a cidade cresce erroneamente INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA É incrível a solidão de Gustavo em "O Príncipe" (Canal Brasil. passado o tempo. virou o bairro dos bares. E seu bairro. como se a cidade ao se construir executasse um percurso errático. Agora é um buraco ocupado por moradores de rua. não apenas com a cidade. Voltando da Europa.LIPSTICK JUNGLE Quando: estréia amanhã. As mudanças de São Paulo induzem à solidão. Agora. É na praça D. Em São Paulo. Para combater esse filme cheio de virtudes. talvez ele possa ser visto sem a paixão destrutiva que tanto se usa para policiar nossos bons filmes. no entanto. Esses 20 anos de distância mostram onde o filme se constrói: sobre um hiato. quando estava em cartaz. às 22h Onde: na Fox Classificação indicativa: não recomendada para menores de 16 anos Avaliação: regular Folha de São Paulo. Os lugares.

1ª TEMPORADA Distribuidora: Paramount Direção: Tom Kapinos Quanto: R$ 49. sob o signo da devassidão que se retrata a vida de um quarentão nesta série criada por Tom Kapinos (oriundo da cândida "Dawson's Creek"). Muito mais explícita é a trajetória rock'n'roll de Hank em seu apetite por (auto)destruição. É também uma releitura de Jay Gatsby em sua paixão nunca satisfeita por Daisy no romance icônico de F. o que se ouve na trilha são os Stones alertando que "você nem sempre pode ter aquilo que quer". Ao longo dos 12 episódios serão inúmeras as outras referências (Dylan. em média Avaliação: bom Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos Folha de São Paulo. Guns N" Roses. exibida nos EUA pelo Showtime. É impossível também não encontrar nele ecos dos auto- retratos de Charles Bukowski em seu encanto pela degradação. Lou Reed. que se traduziria como "californização". um escritor de Nova York que parte para Hollywood em busca de melhores oportunidades (leia-se. Duchovny faz Hank Moody. É. o atraente mercado de roteiristas). Scott Fitzgerald sobre os frenéticos anos do jazz. pois. resulta da fusão do nome do Estado norte-americano com a palavra "fornicação". uma aparição de Henry Rollins) ao espírito decadente que consuma o rock. mas lá só encontra melhores condições para "apodrecer sob o sol da Califórnia". Hank é uma versão contemporânea do Dante que parte para a temporada no inferno em busca de sua Beatriz na "Divina Comédia".90. principal concorrente da HBO no campo dos seriados adultos. Dele vêm os sons. 17/08/08 131 . cujos 12 episódios que compõem a primeira temporada acabam de sair em DVD. a cor e a dor que tornam tão digno de comoção este herói sem nenhum caráter. Referências Movido a álcool. Radiohead. Delírios Já na cena de abertura do piloto o escritor delira sobre um altar diante de uma imagem de Cristo quando uma freira se aproxima dele e lhe oferece candidamente um boquete. A produção. cigarros e sexo desenfreado. CALIFORNICATION . marcou a volta de David Duchovny (o agente Fox Mulder de "Arquivo X") à linha de frente da TV. Naquele momento antológico. Mas as referências eruditas não passam de trampolim de onde Kapinos arranca elementos para pintar o mal-estar de seu personagem (e o olhar deste sobre nossa época). Sex Pistols. "Californication". CRÍTICO DA FOLHA Um bom título já é meio caminho andado para o sucesso de uma produção.

o ex-capitão e agora vereador David Aceveda (Benito Martinez) e o detetive Dutch (Jay Karnes). Na segunda e terceira temporadas. Dois dos homens que integravam uma espécie de tropa de elite que ele liderava foram transferidos para outras delegacias. se vale de uma dinâmica parecida e. Não é só o caráter de Mackey que apresenta sinais de deterioração. Esse quadro muda quando a delegacia ganha uma nova capitã. faz com que ele volte a recorrer aos métodos do passado. Mackey parecia mais interessado em enriquecer à custa do submundo do que em acabar com ele. em 2005. era a noção de que o ser humano não tem salvação. O envolvimento de um amigo com um criminoso. "Shield" tem pouco ou nada a ver com a maioria das séries atuais. mas Chiklis não fica atrás. mas faz isso percorrendo algumas das vielas mais escuras e fétidas da alma humana. os personagens iam sendo tragados por suas personalidades atormentadas. de "Quarteto Fantástico"). dão sinais de estarem perto de perder o controle sobre seus demônios interiores. foi saudada diversas vezes por jornalistas americanos como a nova "Soprano". um policial que só cumpre a lei quando ela está a seu favor. "The Shield". Mackey compra a briga de Monica e esboça ter reencontrado o gosto pela profissão de policial. uma mulher honesta que chega disposta a desferir um duro golpe nas gangues da área. Monica Rawling (Glenn Close). sim. as missões arriscadas que comandava foram substituídas por uma investigação longa e burocrática. Ela começa meses depois do final da temporada anterior. Tendo como pano de fundo uma delegacia responsável por uma das regiões mais violentas de Los Angeles. No início do seriado. Além disso. 132 . que não transmite mais a série). a série é centrada em Vic Mackey (Michael Chiklis. Close brilha. Dois outros personagens importantes da série. ele começou a perceber que sua ambição poderia destruir não só o seu futuro como o de sua família. com o personagem de Chiklis tentando recomeçar sua vida. A escalação de Glenn Close para o papel de Monica deixou fãs de Chiklis em estado de alerta: eles temiam que a atriz de "Ligações Perigosas" acabasse tirando os holofotes de cima do ator. porém. "Família Soprano". em função disso. deixando-o isolado. série vê lado podre da vida BRUNO PORTO COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Um dos pilares do maior seriado de todos os tempos. A quarta temporada é um desdobramento dessa pausa para reflexão. Um temor que acabou não se confirmando: contida.(06) Com Glenn Close. porém. À medida que as temporadas avançavam. pelo canal AXN. Regada a violência e a temas polêmicos. Ela quer entreter. cuja quarta temporada acaba de ser lançada aqui em DVD (foi exibida nos EUA. e no Brasil.

senão obsceno. dorsos e púbis à luz da visão? Seria hipócrita. todas são pistoleiras. tudo a fim de vencer na vida como uma grande dançarina. oferecendo o que tem de melhor aos poderosos. escondê-los. o sexo. 0h20. geralmente esmagados pelo sistema. É assim com o corpo biomecânico do policial que é utilizado por uma megacorporação em "Robocop". que inclusive torna confusos o humano e o produto. Não só ela. 10/08/08 (07) Verhoeven retrata faroeste amoral PAULO SANTOS LIMA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA A consciência do corpo é um dado expressivo no cinema de Paul Verhoeven. 03/08/08 (08) Programação destaca obra de Kazan INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA 133 . Sobretudo quando são corpos de dançarinas como Nomi Malone (Elizabeth Berkeley). Seria estúpido que Verhoeven utilizasse imagens "puritanas" para criticar esse ideário utilitarista que "plastifica" até mesmo a mais orgânica das experiências vivas. Consciência que vem da própria situação na qual estão os personagens. cidade que simboliza a riqueza material: o dinheiro. que tem plena consciência sobre seu físico ser um item de consumo. Assim. passando a perna nas amigas concorrentes. por que deixar de ir ao ponto e mostrar os seios. É como se estivéssemos num faroeste amoral. Não é diferente em "Showgirls" (TC Action. Ela chega com tudo. Folha de São Paulo. que ultrapassa o físico para chegar a algo além: o próprio mundo. uma peça de carne a se degustar. É uma constatação. então.THE SHIELD Distribuidora: Sony Quanto: R$ 79. não recomendado para menores de 18 anos).90 (4 DVDs) Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. Estamos no universo dos grandes shows de cassino em Las Vegas.

torna-se significativo só por isso e até ganha o Oscar. que deu a James Dean o prêmio de melhor ator. porém. por sinal. por meio da controversa e bem-humorada figura do dr. inventou um assunto e ganhou um Oscar bem merecido. os episódios continuaram a 134 . fez sua obra-prima com a história de um amor de juventude (escrita por William Inge). em 1948. classificação não informada). House -uma espécie de Jack Bauer ("24 Horas") do mundo hospitalar. uma nova aposta foi feita. apontando para uma necessária virada dramatúrgica. mas que não se traduz na cura. E. Para completar o dia dedicado a Kazan. até o fim do ano-. pois estaremos diante de qualquer coisa que não "Vidas Amargas". Kazan estava em plena maldição do macarthismo. de modo que. como "A Luz É Para Todos" (TCM. No segundo. por exemplo. 28/09/08 (09) "House" luta para não virar "one-man-show" SYLVIA COLOMBO DA REPORTAGEM LOCAL A quinta temporada de "House" acaba de estrear nos Estados Unidos -e chega ao Brasil. mas porque sua equipe funcionava bem nos momentos de tensão em que se discutiam os quebra-cabeças. 20h. que se preparava para maiores vôos. 18h. previsível que o formato logo cansaria. que quebra todos os protocolos da área. Era. como o jovem que se sente impotente diante da figura paterna. nem que seja para ver o Silvio Santos. porque Elia Kazan ainda era um diretor de recursos bem limitados. Historinha. se não houver duas amplas tarjas negras acima e abaixo da imagem (numa TV tradicional). mas sempre traz a solução correta ao final. classificação não informada) e "Clamor do Sexo" (23h50. o melhor é mudar de canal. quase. exaspera o senso comum. Folha de São Paulo. 1954. ex-parceiro do célebre Stephen Fry. Ninguém nunca disse. Mas. House tem uma sacada inusitada e salva os coitados. Os pacientes chegam às suas mãos prestes a morrer de doenças misteriosas que ele e seu time têm de resolver por meio de decisões rápidas e de alto risco. classificação não informada). mas grande filme. No primeiro caso. O filme foi rodado em cinemascope. O cinema sofre de uma perversão toda sua: o grande tema. quando um filme fala de racismo. Essa fórmula funcionou bem nas primeiras temporadas. pelo Universal Channel. que a "Monalisa" de Leonardo seria melhor se representasse uma santa. Quando todos apontam para um diagnóstico que parece ser o certo. Um desses vôos é "Vidas Amargas" (TCM. Não só por conta do fantástico humorista que é o britânico Hugh Laurie. Copiando um pouco o modelo de "Six Feet Under" (Alan Ball). na temporada anterior. o canal propõe "Sindicato de Ladrões" (22h. de 1955. Oscar injusto (para filme e direção). O show começou bem em 2004 com uma original abordagem do mundo médico. mas deu a volta por cima. livre).

Mas ele completa dizendo que não era necessário ser uma boa atriz para fazer esse papel. Por isso. Avaliação: bom Folha de São Paulo. o genial médico não fica mais "humano". apesar de estar sofrendo. Não é propriamente um elogio à atriz de seu filme de maior sucesso. para reconquistar a amizade perdida. O ápice deu-se no final da quarta temporada. Porque este é um filme sobre negros. Douglas Sirk diz que ela tem uma réplica muito boa. Só que o enigma clínico passou a causar um impacto mais significativo nos relacionamentos entre os personagens. no começo. a série corre o risco de reduzir-se a um "one-man-show". É ao ser informada da morte de Annie. Sarah Jane. O sumiço de Wilson -que funcionava como o Watson de Sherlock Holmes. A série. não por acaso indicadas ambas para o Oscar. Na réplica. as duas mulheres criam um negócio em sociedade. trazendo mais continuidade entre capítulos e com os dramas individuais ganhando consistência. classificação indicativa não informada).fará com que os roteiristas sejam obrigados a dar mais vigor aos personagens que sobraram em torno do misantropo House -e que a essa altura já não são muitos. um caso desesperador que logo iria parar num dos leitos do Princeton Plainsboro Hospital. mas precisa de boas tramas e interlocutores combativos para que "House" siga sendo o excelente espetáculo que conseguiu transportar o suspense hitchcockiano para a mesa de cirurgias. sobre ser negro num momento anterior à conquista da igualdade de direitos. 135 . as respectivas filhas crescem e conhecem destinos opostos). em Nova Jersey.exibir. Laurie é um grande ator e humorista. Segue tratando mal os enfermos e não se importando com a ética que deveria reger a relação médico-paciente. Quando a atual temporada começa. já expressa essa revolta. Porém. 28/09/08 (10) Racismo é tema de aparente melodrama INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Comentando a interpretação de Lana Turner em "Imitação da Vida" (TCM. House está fazendo de tudo e até contrata um investigador particular. mãe e filha-. o essencial são as atrizes negras: Juanita Moore e a bela Susan Kohner -no filme. quando House não consegue salvar da morte a namorada do melhor amigo. sua filha. Sirk disserta sobre as qualidades de Lana com poucas palavras: "Ela era nula". a negra a quem estivera ligada no essencial de sua vida. se no filme a mãe vive como se fosse de favor. essa impossibilidade de existir num mundo que tem sua cor como um defeito de fábrica (na trama. passou a evoluir como uma novela. Lana diz: "Não". o oncologista Wilson (Robert Sean Leonard). então. Ali. De outro modo. 22h.

5 milhões. o Piloto Sumiu" ultrapassou a mais delirante das estimativas e arrecadou o equivalente a mais de 20 vezes o quanto custou. os Zucker e Abrahams conceberam sua paródia em esquema de filme B. APERTEM OS CINTOS. quando o vento batia só a seu favor em Hollywood. O alvo dos irmãos Jerry e David Zucker. "Top Gang". feita dois anos depois por outro time. "Apertem os Cintos. eram as produções do tipo "Aeroporto". A idéia central do trio foi pirar sobre a cultura acumulada por qualquer estudante de cinema ou consumidor compulsivo de filmes e deslocar o sentido de cenas e situações de reconhecimento imediato.Superconfidencial". Com um orçamento ridículo (para os padrões americanos) de US$ 3. em uma votação feita em 2000. atuais reis da comédia. com a cauda de avião percorrendo nuvens em referência à barbatana do monstrão de "Tubarão". numa galáxia muito. Depois. O lançamento em DVD do filme de 1980. Folha de São Paulo. acompanhado da inevitável continuação. dois anos depois o filme foi quase inteiramente copiado. "Imitação" é um grande filme. Com o sucesso obtido. efeitos especiais precários e muita gozação sobre a seriedade alheia. com apenas um upgrade do veículo principal (do avião para o ônibus espacial). escondido sob a pele do melodrama por este cineasta tão independente que. fez as malas e voltou para a Alemanha. uma franquia dos chamados "disaster-movies". "Apertem os Cintos. muito distante. a sucessão de "roubos" não poupa clássicos como "Casablanca". um trio de roteiristas ousou ver em desastres aéreos uma fonte de piadas. é oportunidade para verificar se o humor daqueles tempos ainda é capaz de fazer alguém rir. antes dos ataques do 11 de Setembro e dos acidentes com os ônibus espaciais. Assim como certos preconceitos se escondem meticulosamente. "A Um Passo da Eternidade" e "Os Embalos de Sábado à Noite". Mesmo tendo sido escolhida pelo American Film Institute. É o que se vê logo de cara. com elenco anônimo. 14/09/08 (11) Tempo dilui humor de "Apertem os Cintos.. O PILOTO SUMIU 1 & 2 Direção: Jim Abrahams. "Tá Todo Mundo Louco" ou esgotando sua repetição na série "Corra que a Polícia Vem Aí". o Piloto Sumiu" não sobreviveu ao tempo. após este filme. típica dos anos 70. produzindo um curto-circuito de risadas. Enquanto esses espetáculos-catástrofes eram superproduções (para os padrões da época). mas com efeito de piada recontada. Sua graça de pastelão acabou diluída no humor ácido dos irmãos Farrelly. como a décima comédia mais engraçada de todos os tempos. dos maiores. ao lado de Jim Abrahams.." CÁSSIO STARLING CARLOS CRÍTICO DA FOLHA Há muito tempo. David e Jerry Zucker 136 . de Ben Stiller e pela trupe de Judd Apatow. Já os Zucker mais Abrahams garantiram o bem-estar na velhice reproduzindo a bem-sucedida fórmula de paródias em "Top Secret .

algumas impropriedades são cometidas. 14/09/08 (12) Série lança armadilhas no próprio caminho INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Escrever sobre o que representa a literatura. compor uma canção sobre o processo de composição e recepção da música: é nesse território metalinguístico que se aventura "No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais". Feito esse desconto. Não seria melhor pedir. Entrevistados sem muito o que falar ("tipo assim". como se sugere. O primeiro episódio se defronta com a dificuldade natural de apresentar a série e resumir o que virá. Na simplificação característica da TV. o tom escolhido lança armadilhas pelo caminho. não é uma invenção do cinema iraniano. como se a todo momento fosse necessário recorrer a coisas "espertas" -e a mais infeliz dessas idéias talvez seja um trio de supostos telespectadores sedentários e imbecilizados. no espírito do programa. combinando imagens de diferentes texturas. interpretada por Renata Gaspar). por exemplo. Encenações convivem com entrevistas e material de arquivo. capturadas em vários suportes. seres audiovisuais?) são ouvidos. 14/09/08 (13) Cineasta revisita Inconfidência com ironia COLUNISTA DA FOLHA 137 . Há um pouco de humor forçado.Lançamento: Paramount Quanto: R$ 29. O plano- sequência. e apreciá-lo não é uma exclusividade do espectador oriental.90 Classificação indicativa: livre Avaliação: regular Folha de São Paulo. que entregassem um vídeo com as respostas? (SÉRGIO RIZZO) Avaliação: regular Folha de São Paulo. Optou-se por uma conversa com o telespectador (por meio de um narrador e uma apresentadora fictícia.

Jarbas Passarinho. pulsação e verdade a esses revolucionários de gabinete é. no papel de Claudio Manuel da Costa. "Os Inconfidentes" é. a figura de Tiradentes é um corpo estranho e até incômodo. a par da ambientação nas cidades históricas e montanhas de Minas Gerais. comemorava de maneira ufanista o Sesquicentenário da Independência. e uma entrevista esclarecedora do crítico Jean-Claude Bernardet. 07/09/08 138 . (JOSÉ GERALDO COUTO) DVD: OS INCONFIDENTES Distribuidora: Videofilmes Quanto: R$ 49. uma espécie de porra-louca que parece ser o único a acreditar de fato na insurreição. a extraordinária competência de um punhado de atores: Fernando Torres. a câmera acompanha o balé dos conspiradores nas idas e vindas de seus conchavos. O anacronismo invade a tela como uma agressão.90 Classificação indicativa: não recomendado para menores de 12 anos Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. "Macunaíma" (1969). configurando uma sutil e complexa coreografia moral. "Os Inconfidentes" é marcado pelo rigor da "mise-en-scène" e por um humor crispado. de Joaquim Pedro. conclamara os cineastas brasileiros a fazer filmes sobre temas históricos. por um lado. A postura dos personagens é quase hierática. É como se eles falassem conscientemente para a posteridade. é uma reflexão ousada e dolorosa sobre as ações e hesitações dos intelectuais em tempos de transformação política. Luís Linhares (Tomás Antônio Gonzaga). a dependência externa. Pouco antes. Nesse ambiente de modesta aristocracia. Com movimentos longos e lentos. a ironia se manifesta em alusões sutis ao momento político em que o filme foi feito (o papel dos militares. até explodir no final. no momento mais duro do regime militar. Paulo César Pereio (Alvarenga Peixoto). Nelson Dantas (Padre Toledo). Baseado nos chamados "autos da devassa" e lançando mão fartamente dos poemas dos próprios inconfidentes. a resposta marota de Joaquim Pedro de Andrade a essa convocação. Mantida sob rédea curta. Por outro lado. Em 1972 o Brasil. O que dá vida. em que os escravos negros aparecem quase como parte da mobília das casas. em que se exibe um cinejornal chapa-branca sobre as comemorações da Inconfidência. a dicção é de tribuna. a situação dos presos políticos). O DVD tem extras preciosos: o curta-metragem restaurado "O Aleijadinho" (1978). o então ministro da Educação. com texto e roteiro de Lucio Costa. o filme retrata com ironia e distanciamento brechtianos o cipoal de intrigas e traições que resultou na revolução abortada e no enforcamento de Tiradentes (interpretado por José Wilker). Balé da conspiração Em contraste com a exuberância tropicalista do longa-metragem anterior do cineasta. morto na última quinta-feira.

139 . do japonês. do francês.". um mergulho de Alice no mundo dos horrores. ao contrário. Resulta daí uma série de situações bizarras e banais. Spolidoro já mostrou ter talento. tudo se passava em um apartamento. O fato de a câmera avançar sempre em frente e as portas abertas nunca se fecharem traz uma qualidade vagamente onírica. com a câmera abandonando sem cerimônia um personagem para seguir outro. AINDA ORANGOTANGOS Produção: Brasil. O tour de force faz lembrar um filme feito há 60 anos por Hitchcock. neste. a rigor. 2007 Direção: Gustavo Spolidoro Com: Karina Kazuê. ou seja. acompanha personagens diversos ao longo de um dia na vida de Porto Alegre.. há outras que diferenciam profundamente os filmes. e a ação convergia para um crime. Se existem certas características comuns. longa de estréia de Gustavo Spolidoro. tão absurdo quanto falar do cinema argentino.(14) Plano único faz inventário da estupidez JOSÉ GERALDO COUTO COLUNISTA DA FOLHA "Ainda Orangotangos". E mesmo que isso não apareça com clareza num primeiro momento. do brasileiro. precisa ter algo a dizer. "Festim Diabólico" -só que. Artur José Pinto Quando: em cartaz nos cines Frei Caneca e HSBC Belas Artes Classificação indicativa: não recomendado para menores de 14 anos Avaliação: bom Folha de São Paulo. Lindon Shimizu. a narrativa se esgarça em episódios independentes. numa tomada contínua. pois limitar- se a exibir um compêndio da estupidez humana ainda é muito pouco.. 07/09/08 (15) Obra de Abbas é única no cinema iraniano INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Falar de "cinema iraniano" é. Em "Ainda. aos poucos se mostra com facilidade. Agora. O fato notável é que faz isso num longo e único plano-sequência.

um com as imagens. que o resultado seja uma das mais complexas radiografias em filme do poder da imagem nas sociedades contemporâneas. portanto. O que assistimos é como foi a revolução ao vivo. a Romênia explodiu. entre 21 e 25 de dezembro. Há em Samira um espírito de denúncia que por vezes podemos encontrar nos filmes de seu pai. não têm nada com os filmes de Abbas Kiarostami. da ininterrupta cobertura televisiva. Nada que surpreenda. Mohsen. uma série de seguidores para os quais chegou até a escrever roteiros. Na esteira de mais um massacre perpetrado por Ceauscescu. 26/10/08 (16) Levante romeno tem registro definitivo AMIR LABAKI ARTICULISTA DA FOLHA O ano de 1989 é o 1968 de minha geração. Para sua realização aliaram-se dois ensaístas. raramente algum deles desenvolveu essa qualidade de espelho da obra de Abbas: ele só mostra aquilo que nós mesmos projetamos na tela. como por amadores. "Videogramas de uma Revolução" é o documentário definitivo sobre o fim do "socialismo" romeno. o alemão Harun Farocki. 22h. derrubou o Muro de Berlim e liquidou o império soviético. outro dos estudos de comunicação. sempre com temas mínimos. No entanto. Kiarostami criou uma escola. trata-se de duas gêmeas que vivem presas em suas casas desde o nascimento (têm agora 11 anos). com certeza. No caso. de inúmeros cinegrafistas independentes. Cobri para esta Folha o braço húngaro da revolução democrática que rasgou a "cortina de ferro". Será ele o grande prosseguidor de Ozu. Se tomarmos "A Maçã" (Futura. Folha de São Paulo. de Samira Makhmalbaf. É um filme entre garotas (e a infância virou quase marca registrada do cinema iraniano) e envolve um elemento mínimo. vamos encontrar algumas características de outros filmes. não recomendado a menores de 12 anos). à parte os limites até físicos da ação. Mas. Extras como prefácio Farocki e Ujica radicalizam a máxima de Mathew Brady. Vão além: editam e ordenam as imagens 140 . quase inexistentes. por exemplo. o romeno Andrei Ujica. Farocki e Ujica articulam registros audiovisuais do levante de Bucareste feitos tanto por profissionais. Sua página mais violenta aconteceu na Romênia de Nicolau Ceauscescu. o japonês? E o Japão o que tem em comum com o Irã? Cinema. Mais que isso: subvertem de autoritário para libertário o panóptico global da multiplicação de câmeras. o fotógrafo maior da Guerra Civil dos EUA (1861-1865): "a câmera é o olho da história". que se recusam a denunciar o que quer que seja.

Aqui. 26/10/08 (17) Majidi filma com fé as provações de Deus SÉRGIO RIZZO CRÍTICO DA FOLHA Primeiro cineasta iraniano indicado ao Oscar de filme estrangeiro com "Filhos do Paraíso" (1997). de José Padilha. e "Santiago". VIDEOGRAMAS DE UMA REVOLUÇÃO Direção: Harun Farocki e Andrei Ujica Distribuidora: Videofilmes Quanto: R$ 50 (em média) Classificação: não informada Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. a interferência divina é oblíqua. terrivelmente pressionada pela dificuldade em ganhar dinheiro.mas também as comentam. no dia de Natal. de João Moreira Salles. de Maciej J. e "Um Dia na República Popular da Polônia". como informam os créditos de "A Canção dos Pardais". Drygas. no entanto. Há algo de belo em que o texto que revelou Ujica. que Majidi abria com o mesmo letreiro. se chamasse "O Ultimato das Imagens". devotado também à criação de avestruzes da fazenda onde trabalha. agora um táxi. pelas ruas apinhadas de Teerã. Ceaucescu se impôs à custa de sangue e à custa de sangue foi deposto. Majid Majidi trabalha "em nome de Deus". beberam nestas águas. A execução dele e de sua esposa Elena. Em "A Cor do Paraíso" (1999). "Ônibus 174". 141 . dois extras complementam impecavelmente o lançamento. Reza Najie volta a interpretar um disciplinador pai de família (papel que fez em "Filhos do Paraíso"). muito antes do filme. Em seus estilos distintos. e ameaça transformá-lo em outra pessoa. combinado a um efeito de iluminação. Como sempre na Coleção Videofilmes. Aquela cena está para as imagens em movimento como as fotos do cadáver de Che Guevara para a fotografia. À semelhança dos motoboys paulistanos. Prêmio de melhor ator no Festival de Berlim deste ano. como para provar que o pesadelo de fato acabara. foi vista por todos na TV. apresentam o universo do chamado "socialismo realmente existente" antes da retumbante queda do tirano. dirigido por Ben Lewis para a BBC. sugeria a Sua presença. ele encontra a alternativa de rodar com sua velha motocicleta. São "O Rei do Comunismo Pompa e Esplendor de Nicolau Ceausescu". respectivamente o filme reportagem e o documentário de arquivo cumprem a mesma função: como prefácios. O desemprego bate à sua porta. Deus era mencionado diversas vezes e um movimento de câmera.

A CANÇÃO DOS PARDAIS Quando: hoje. pareceu no mínimo extravagância ou. em meio a uma fauna de homossexuais e travestis que praticam sexo anônimo pelos corredores. às 19h. voltou a ser foco de atenções com a emergência de um grupo de realizadores autorais. IG Cine. no máximo. "Serbis" é o sexto longa de uma carreira produtiva que começou em 2005 com "O Massagista" (exibido na 29ª Mostra. 26/10/08 (18) Obra de Brillante Mendoza privilegia cinema sensorial CÁSSIO STARLING CARLOS CRÍTICO DA FOLHA Quando exibido em competição em Cannes em maio. uma de suas filhas quebra o aparelho de audição. Sem moralismo Mendoza não é novato. Ao lado de Lav Diaz. a exibição do filme de Brillante Mendoza justifica-se. "Serbis" reafirma a inclinação de Mendoza por um cinema sensorial. Como em "Adeus Dragon Inn" e "O Sabor 142 . O cotidiano de uma família que vive no interior de um decadente cinema que exibe filmes pornográficos. que teve um farol internacional nos anos 70 e 80 por meio do nome de Lino Brocka. por um lado. cujo longuíssimo "Melancholia" também foi selecionado com acuidade para esta 32ª Mostra. e o filho sonha obsessivamente com uma criação de peixes. mas a fé com que Majidi filma envolve também seus personagens. As provações parecem afastar o protagonista do caminho do bem (ou de Deus). o tipo de filme que teria sido mais correto programar para uma das paralelas do que no time dos candidatos a maiorais. às 21h. pela vocação informativa do festival paulistano. sem o qual não consegue estudar. "Serbis" foi considerado por parte dos jornalistas mera provocação. no qual corpos. sons e espaços ganham primazia frente à psicologia ou à clareza do relato. após vencer o Festival de Locarno). Pois a cinematografia filipina. na Faap Classificação: não indicado a menores de 14 anos Avaliação: regular Folha de São Paulo. mau gosto. Como desgraça pouca é bobagem. amanhã.

brandido em vão. o primeiro filme do diretor. O certo é que este domingo está cheio de filmes atraentes. Ou suja. de nossos vultos literários. atrasado. o filme do filipino explora signos como a sexualidade em lugares públicos e a presença recorrente de fluxos (corpóreos e materiais). se se preferir. corrupção. o Filme" (TC Pipoca. Sinal de que. Mais do que isso. que parece o de um árido documentário. de Jorge Furtado. Quanto a "Saneamento Básico. SERBIS Quando: hoje. no Cinesesc Classificação: não indicado a menores de 18 anos Avaliação: bom Folha de São Paulo. a câmera escapa do confinamento e ganha a rua. Ao contrário de Tsai. não deu certo em grande parte devido ao nome infeliz. entra na cota habitual de filmes de Nelson Pereira dos Santos simplesmente incompreendidos. Mas há dois filmes brasileiros bem subestimados e interessantes. quarta. convém lembrar de "Rio 40 Graus". "Brasília 18%" (Canal Brasil. na Cinemateca (sala BNDES). às 17h40. Uma mão lava a outra. Na verdade. 20h. 22h. Um deles. A certa altura. 26/10/08 (19) Domingo reúne filmes subestimados INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Talvez seja por milagre. mas não existe o dinheiro. quando o povo de uma cidadezinha tenta conseguir verba para tratamento de esgoto. mas tremendamente esperançoso em relação ao futuro. 12 anos). 16 anos). a vida é melhor num bordel do que numa prisão. do malaio Tsai Ming-liang. revelando num letreiro o nome do cinema: Família. A Brasília de Nelson não dá espaço à esperança nem ao futuro: é tão fossilizada quanto o nome. então. Existe para a produção de vídeo. cuja obsessão pela incomunicabilidade se expressa na forma de bloqueios interpessoais e espaços inundados. Por exemplo. "Meu Tio da América" (Futura. no entanto. "Serbis" prefere dar um sinal positivo ao que mostra: crianças passeiam de carrinhos e os frequentadores em busca de sexo convivem abertamente com os moradores do espaço. às 13h30. na visão de Mendoza. não recomendado para menores de 12 anos). Ali. 18h30. estamos diante de uma comédia em que a burocracia e o cinema se encontram. Há ali secura. havia uma capital (o Rio) de um país modesto. alucinações -coisas típicas de Brasília.da Melancia". 143 . um Alain Resnais que há muito saiu do circuito. talvez não. A encenação convida a despojar o olhar do moralismo e a enxergar ali algo que simboliza circulação e conexão.

Suas ousadias formais e seu desprezo pelo "realismo" televisivo iam na contramão da tendência domesticada que então se impunha mesmo entre os remanescentes do cinema novo. representam Oswald. Só os filmes de Julio Bressane. realizado também por Joaquim Pedro em 1967. Documento inestimável de uma época de efervescência criadora e coragem artística. de figurações do falo. Não por acaso. foi recebido com certa má vontade à época em que foi lançado. e o tom da encenação é farsesco. O trânsito. yin e yang. Antinaturalismo O tema da antropofagia. No filme. podem dialogar com ele. Mais do que isso. empenhados na busca de um suposto diálogo com o grande público. um homem (Flávio Galvão) e uma mulher (Ítala Nandi). 19/10/08 (20) Joaquim Pedro de Andrade reinventa Oswald COLUNISTA DA FOLHA "O Homem do Pau-Brasil" (1981). Folha de São Paulo. pelo menos até desembocar na utopia final oswaldiana do matriarcado. desde o título. Visto hoje. Todo o elenco é brilhante. Cacá Diegues etc. Nelson Pereira dos Santos. Nos fornidos extras do DVD. de algum modo. porém. o destaque é o documentário "Cinema Novo". mostrando. missionários jesuítas. antinaturalista. trata-se de uma tentativa de discutir o legado modernista em sua vertente mais radical e experimental. último filme de Joaquim Pedro de Andrade (1932-88). trazendo artistas. Mas o que é "O Homem do Pau-Brasil"? Em poucas palavras. no calor da hora. cientistas. o filme era dedicado a Glauber Rocha. e o destaque fica para Dina Sfat interpretando uma Tarsila do Amaral que oscila entre a extrema finesse e a mais deliciosa grossura. quando nos habituamos a um cineminha rasteiro e medroso. A reconstituição de época é estilizada. a recriação ficcional de episódios da vida e da obra de Oswald de Andrade. agora lançado em DVD. do "quem come quem" (nos vários sentidos do verbo). perpassa todo o filme. que morrera naquele mesmo ano e que também se recusara a sucumbir ao comodismo geral. (JOSÉ GERALDO COUTO) 144 . ou antes. signo de potência criadora. "O Homem do Pau- Brasil" parece um objeto absurdo. Dois atores. Boa parte da narrativa é ambientada em um navio que viaja da Europa para o Brasil. repleto. o masculino e o feminino. o entrechoque entre a cultura européia e a energia brasileira é a própria matéria do filme. esse experimentalismo começa na escalação do elenco. como a indicar dois aspectos da sua personalidade. os filmes realizados então por Glauber.

Folha de São Paulo. no caso o mal de Alzheimer. ao mesmo tempo. Ela compensa o horror da situação. Fiona não é uma mulher especialmente idosa (de modo que não devemos estabelecer uma relação obrigatória entre idade e doença). também notável). O roteiro cerca todas as circunstâncias que tornem a situação explícita. Como não ganhou. É culta. temos então um mero "filme de doença". a saber: a perda progressiva de memória. sempre o mal será visto antes da obra. 1h05. a repercussão desse filme de Sarah Polley seria outra. Por outro. ama e é amada. não recomendado para menores de 12 anos). 19/10/08 (21) "Longe Dela" cativa pela sensibilidade INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Se Julie Christie tivesse ganho o Oscar por "Longe Dela" (HBO.O HOMEM DO PAU-BRASIL Direção: Joaquim Pedro de Andrade Distribuição: VideoFilmes Quanto: R$ 49. Sarah Polley trabalha com inteligência: usa o caso de amor para.90 (em média) Classificação indicativa: livre Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. num estado de perfeita solidão. o que aliás seria bem merecido. E não se admitirá que este é um filme estimável não só por sua grande atriz mas também porque foi feito com muita sensibilidade. coloca Grant (Gordon Pinsent. por um lado. não?). casada há muitos anos. no que tem de particular ou de geral. Cabe a ele amar uma pessoa incapaz sequer de reconhecê-lo. o marido. 12/10/08 (22) Em "Bourne". Estado suprime liberdade INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA 145 . O terrível num filme desses é que. É a mesma com quem viveu e. não é. Essa última circunstância é essencial: "Longe Dela" precisa ser uma "love story" para ser engolida pelo espectador. tornar palatável esse mal horrível (esquecer de si mesmo equivale a morrer em vida. por melhor que se faça.

a estonteante. Mas havia. que conhecemos hoje (que. de transgressões. que se fecha com "Ultimato Bourne" (TC Premium. não indicado a menores de 16 anos). No passado. consegue se virar buscando um viés capaz de interessar o espectador. é difícil pedir mais. Bourne busca neste episódio identificar onde está o começo de toda sua desgraça. esvaziada. a liberdade tanto podia ser essa. Tudo começa na Cinemateca Francesa e segue para a revolta da Cinemateca (que grande quantidade de cinéfilos considera o início do Maio de 68). envolvendo os três personagens do filme -como bons cinéfilos de 68. são pessoas que tomaram um aparelho estatal (o de espionagem) e ameaçam privar os outros da liberdade (ou da vida) caso se oponham a eles. mesmo para a publicidade. "O Último Imperador" recuperava a história recente da China. Mabuse". em parte. na Alemanha de 1932. essa questão. unidos. o agente Bourne é o sujeito que. a que está em crise financeira). Na TV. em "O Testamento do Dr. 05/10/08 (23) Bertolucci converte história em cinema INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA A história é um personagem constante nos filmes de Bernardo Bertolucci: "O Conformista" nos remetia à Itália fascista. Paris. de experiências. 1968 e a cinefilia. Lá estão. A trilogia Bourne. parece. ainda. Mas. de 2003. de amores. para começar. Mas o que é "o seu país"? Eis o que ninguém mais sabe direito. Que "Os Sonhadores" (TC Cult. alguns segundos depois descobrimos que a liberdade consiste em escolher uma operadora de telefone. não evita o painel grandioso. "1900" passava em revista certo século 20. 1931). ou de escolher certa marca de cerveja. como a sonhada pela humanidade a partir do desenvolvimento da indústria. a história parece se esvair. ao longo do filme. 18h10. 22h. É o momento em que o desejo de poder se mostra maior que tudo. se não for o caso. No entanto. 146 . Fritz Lang mostrou como isso funcionava. a revelação de Eva Green. Dos encontros aí acontecidos surge uma história de apartamento. renuncia não só à liberdade como à identidade em favor do seu país. A liberdade já foi um conceito sagrado. Depois da Guerra Fria é que as coisas mudaram. não recomendado para menores de 14 anos). liberal. sonho segundo o qual as máquinas nos libertariam e trabalhariam por nós (é o ponto de René Clair em "A Nós a Liberdade". Claro. interessa. pode-se ver um comercial exaltando a liberdade. Para quem gosta de cinema. Afinal. recoloca. interessa. O viés de Bertolucci parece depender da produção: se tem meios à disposição. Folha de São Paulo.

A ressurreição de Smart. com 30 episódios cada. já saíram em DVD as duas primeiras temporadas da série original. Steve Carell ("O Virgem de 40 Anos") substitui Don Adams (1923-2005) como Smart.O. a palavra "franquia" ainda não era usada para personagens e séries de cinema ou televisão.L.R.O.O. 147 . a Agente 99 (Anne Hathaway.).T.T.O. da mesma forma que sua parceira de aventuras.O. no papel que era de Barbara Feldon). Folha de São Paulo. Tem-se a impressão de que aí se revela o sentido dos filmes de um esteta como Bertolucci.N. A protagonizada por James Bond. "Agente 86: Bruce e Lloyd Fora de Controle". seus rivais soviéticos da K.T. uma das mais bem- sucedidas da história. Até que. como demonstra o lançamento em DVD de "Agente 86". acompanhada de outro longa. contudo.S. . em 1965. nova versão do seriado para o cinema. volta em dose dupla SÉRGIO RIZZO CRÍTICO DA FOLHA Quando o intrépido agente Maxwell Smart trombou pela primeira vez com as portas automáticas da sede do C. em determinado momento. ainda estava no quarto longa-metragem e talvez nem mesmo seus produtores imaginassem que chegasse ao século 21. nos tempos da guerra fria..O.R.N. encontrou em 2008 cenário bem diferente. Como a ação transcorre em paralelo à de "Agente 86". o mundo de Maio de 68. O longa apresenta também uma dupla de personagens secundários.E. Se bater saudade de Don Adams. 30/11/08 (24) C.. Smart é mencionado diversas vezes e a Agente 99 faz uma participação especial.A. De Novo?" (1989) e a temporada única da segunda versão para TV (1995).R..L. Em "Agente 86: Bruce e Lloyd Fora de Controle". eles se tornam protagonistas de aventura em torno de um manto de invisibilidade que vai parar nas mãos do ditador do fictício Maraguai (entre o Paraguai e o Uruguai. agente de uma central de inteligência (por assim dizer) dos EUA que enfrentava. o telefilme "Agente 86.O. Smart passa por um banho de loja de alta tecnologia nessa adaptação moderninha que também o torna menos tolo do que no original de TV.L.alheios ao mundo. No primeiro. Criado por Mel Brooks e Buck Henry. os jovens cientistas Bruce (Masi Oka) e Lloyd (Nate Torrence). fica mais independente e durona.N. que desenvolvem as traquitanas usadas pelos agentes do C. de "O Diabo Veste Prada". Agora.E. personagens bem-sucedidos são tratados pelos estúdios como marcas a explorar de todas as formas possíveis. o mundo. a história existe para virar cinema.E. mas prevalece o humor juvenil nessa versão dirigida em especial a adolescentes. portanto um mundo cinematográfico. Nele. vem ao seu encontro.paródias da CIA e da KGB que incorporavam também ironias ao estilo britânico de espionagem personificado por Bond.

que não aparece ali como produtor de conhecimento. às vezes até demais. essencialmente. Com uma ou duas exceções. com "Zuzu Angel". O mundo que Rezende propõe. não recomendado para menores de 14 anos). A estrutura e a mise-en-scène optam pelo tradicional. o filme vale pela individualidade.AGENTE 86 Distribuidora: Warner (R$ 45) Avaliação: regular AGENTE 86: BRUCE E LLOYD . é simples: há os bons. como "Zuzu Angel" (Canal Brasil. mas. torna-se uma intrépida mãe coragem e mobiliza céus e terras em busca de respostas. não fazem uma idéia muito boa do cinema. após o desaparecimento de seu filho durante a ditadura militar. como divulgador de verdades produzidas fora dali. Tudo para facilitar o público. os certos e errados. e. 23/11/08 (26) Filme de Cukor aproxima a vida e o palco 148 . Folha de São Paulo. 18h30. temos um caso que por razões diversas (a mais evidente é a censura) ficou na sombra: o da estilista que. Por isso mesmo.FORA DE CONTROLE Distribuidora: Warner (só locação) Classificação: não indicado a menores de 12 anos (ambos os filmes) Avaliação: ruim Folha de São Paulo. atrair público? No entanto. Zuzu aparece aqui como personagem isolado em seu heroísmo. mas nunca que lhes falta coerência. A história passa um tanto ao largo. 30/11/08 (25) Rezende faz valer a individualidade INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Pode-se dizer o que melhor se achar dos filmes de Sérgio Rezende. A questão é: por que os filmes de outros países não precisam dessas simplificações para existir e. inclusive. falemos francamente. são filmes que biografam personagens históricos ("Lamarca") ou ficcionalizam fatos históricos ("Guerra de Canudos") na perspectiva de falar a um público amplo. São filmes de estrutura tradicional. maus. de modo geral.

Exemplo mais evidente. A ponto de. ou. é exatamente quando "Fatalidade" mostra sua face de trama policial que o aspecto filme de bastidores se manifesta plenamente: o palco e a vida se comunicam de maneira mais intensa. e a teatralidade se mostra pelo aspecto mais rico. Brita (Signe Hasso). sua ex-mulher -o público do teatro. o agente de imprensa. no entanto. Tony (Colman) é um famoso ator teatral que sofre intensamente a cada novo papel dramático. Foi compensador. graças ao prestígio que a comédia não costuma ter. ao mesmo tempo. até a cena de assassinato (sim. Ou seja. mas não único: a cena final de "Otelo". integrá-lo à sua personalidade. responder é um problema. Ruth Gordon e Garson Kanin foram indicados para o Oscar de melhor roteiro por este filme que pode ser visto como uma homenagem à arte do ator. acontece um no filme). ficamos em suspense. um tanto esquemáticas. o fato é que. enquanto Cukor ganhava o prêmio por melhor direção. se se prefere. "Fatalidade" deixa a impressão de que sua maior vocação é para uma magnífica "comédia do recasamento". Depois que o crime acontece. se no da vida ou no da representação. Chegar ao personagem. Por outro. em "Fatalidade" é a um ator. é inevitável que se desenvolva um paralelismo que tende ao esquemático entre a peça e o filme. Não é difícil depreender que as coisas tornam-se ainda mais dramáticas quando ele vai fazer o Otelo de Shakespeare. No mais. mais dramáticas. vivê-lo inteiramente durante duas horas é um exercício doloroso. já que Colman ficou com o Oscar de melhor ator em 1948. Talvez aí esteja o paradoxo do filme.50 (em média) Classificação indicativa: não informada Avaliação: bom 149 . o filme adquire gravidade e coloca em oposição Tony. Como Otelo termina por matar Desdêmona. e nós também. dessas que Garson Kanin escreveu com maestria (às vezes na companhia de Gordon) e que Cukor dirigiu com a sensibilidade que se conhece. o ator. É como se o drama existisse sobretudo para ganhar o Oscar. o gênio e o medíocre. que George Cukor dedicou o melhor dos seus esforços. e Bill (Edmond O'Brien). Por um lado. sem saber em que nível estamos. INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Famoso pela habilidade em dirigir atrizes. E Cukor cria cenas fantásticas a partir desse pressuposto. quando alguém lhe pergunta quem é. Embora Gordon e Kanin evitem deter-se no ciúme de Otelo. Ronald Colman. em que Tony estrangula não só Desdêmona. sabemos que há mulheres correndo perigo -em cena ou fora dela. como. FATALIDADE Direção: George Cukor Distribuição: Lume Filmes Quanto: R$ 37. Embora esses momentos sejam intensos.

como um livro. O termo é técnico e. Folha de São Paulo. Escutamos os argumentos de ambos os lados. ao menos à luz do que se vê no filme: Badii surge apenas como um sujeito com um carro em busca de alguém que preste um serviço. é óbvio. ou seja. Ele nos dá exatamente o que dele recebemos. seu caráter sagrado etc. uma novela ou uma história em quadrinhos. mas sempre mantemos a convicção de que o essencial escapa. Correu. classificação indicativa não informada). Folha de São Paulo. jargão. portanto. Encontra resistências. com seu carro vai encontrando as pessoas a quem dá carona. 22h. escuta conselhos sobre a vida. inadequado. Como num espelho. Sokúrov encena a história russa CÁSSIO STARLING CARLOS CRÍTICO DA FOLHA O espectador leigo de cinema fica a ver navios quando críticos e teóricos se lançam a elogiar um filme elencando as virtudes com base no uso de tantos planos-sequências. 23/11/08 (27) Essência escapa em "O Gosto da Cereja" INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA O despiste é uma parte essencial da arte de Abbas Kiarostami e é a essência mesmo de "O Gosto da Cereja" (Futura. para ser usado em textos jornalísticos. A explicação está longe de ser convincente. segundo regras. portanto. nunca nos é dito por que esse homem deseja se suicidar. o que configuraria um duplo crime diante da lei islâmica (o primeiro sendo o suicídio). que busca alguém para se ocupar de seu corpo após a morte. e a cada uma com quem conversa expõe seu plano. Badii viaja por uma região desértica. e não porque fuja delas. mais do que tudo. Não é do feitio de Kiarostami agitar questões polêmicas. O filme nos mostra a trajetória de Badii. filme realizado numa única tomada de 97 minutos. O que retiramos da imagem é o que lhe damos. homem de meia-idade disposto a se suicidar. Ou seja. é feito de centenas de pontos 150 . mas. num único plano-sequência. que esse homem seria homossexual. Um filme. o que vemos é o que expomos. 16/11/08 (28) Sem cortes. sem explicar do que se trata e para que serve? Sejamos didáticos. É que seu cinema funciona como um espelho. Mas como explicitar as qualidades de "Arca Russa". na época do lançamento do filme.

de quebra. tudo se transforma. perspectivas sobre ações. sem cortes. com a sucessão delas.de vista. Ora. ARCA RUSSA Direção: Aleksandr Sokúrov Distribuidora: Versátil Home Vídeo Quanto: R$ 37. "W. Nessas operações. que ocupa um majestoso palácio imperial em São Petersburgo. não há manipulação daquilo que se vê. o filme que vemos. o projeto do diretor russo Aleksandr Sokúrov em "Arca Russa" foi levar ao limite as tentativas anteriores de realizar um filme inteiro sem cortes. com ironia e sarcasmo. em média Classificação: não indicado a menores de 14 anos Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. Traz um aspecto inegavelmente corajoso e que talvez só se justifique dentro deste dado tão forte da cultura americana: 151 . reencontra-se por meio de um fluxo no qual nada se perde. primeiro por meio da encenação nas filmagens. Recria pedaços da vida de George W. ao contrário de seguir o culto do fetichismo realista. continua. No processo seguinte. se reproduz. 16/11/08 (29) Oliver Stone faz seu melhor filme desde "Wall Street" PEDRO BUTCHER CRÍTICO DA FOLHA Como se sabe. a montagem. o ainda presidente dos Estados Unidos. depois colocando certa ordem que nos dá impressão de realidade. trata-se portanto de reinventar a realidade. Desse modo. de Oliver Stone. Bush. personagens e objetos. mantém-se a unidade de espaço e de tempo. segundo críticos e teóricos importantes. interpretando-a. dando-nos a ver a história como um processo contínuo que avança "sem cortes". Ou. A longa tomada foi feita nos extensos salões e corredores do Museu Hermitage. acreditava-se. é um filme polêmico. proporcionando ao espectador acompanhar uma ação em sua integridade e. Como proeza técnica.". num modo. o plano-sequência que constitui "Arca Russa" transmite outras significações que não o do culto da veracidade. em sua verdade. Trata-se de usar a fluidez (trazida pelo movimento contínuo da imagem) como meio de encenar a história do país. mais importante. Contra esta "realidade". de se aproximar ao máximo da realidade (supostamente mais "real" do que aquela outra). Mas. o editor se encarrega de colocar ordem e ritmo nesses pedaços. tecnicamente impossível antes do advento da câmera digital. Ao contrário. passado e presente se interpenetram na imagem. a ambição de Sokúrov e equipe não se esgota no virtuosismo. Sem cortes. construindo sequências e. alguns cineastas começaram a rodar cenas em planos longos. A cada um desses recortes de filmagem se dá o nome de "plano".

Para além desse aspecto "passatempo" do filme. por mais 152 . o melhor filme de Stone antes deste "W. curiosamente.". Produção: EUA." é um bom estudo de personagem. parceiro de Stone no enredo de "Wall Street" -não por acaso. Richard Dreyfuss como Dick Cheney e Scott Glenn como Donald Rumsfeld. Nesse aspecto. vivo e ainda no poder. Que outro país produziria a biografia de um presidente da República. desta vez. principalmente aqueles que interpretam figuras marcantes do governo Bush: Thandie Newton como Condoleezza Rice. de forma bem mais discreta. neste caso. W. Makhmalbaf acerta em "Gabbeh" INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Está certo e não está falar do "cinema francês". profundamente relacionadas. traz a assinatura de Stanley Weiser. escondem-se algumas idéias interessantes. Stone foi menos ambicioso do que em "Nixon". um filme divertido de ver. relacionadas a questões familiares. magistralmente defendido por James Cromwell. ou "brasileiro". O roteiro de "W. E está certo porque. Ellen Burstyn. Está errado porque cada cinematografia produz filmes muito diferentes entre si. no mínimo. talvez na mesma medida da "grandiosidade" de seu personagem central. Em "W. Por trás da estrutura simples. um pouco como costumam fazer os programas de humor -ainda que. São duas crônicas políticas precisas. 16/11/08 (30) Irregular. mesmo se desmoralizado e enfraquecido? "W. ou "americano". o personagem mais fascinante é Bush pai. "W. feitas em cima do laço. de certa forma. muito bem interpretado por Josh Brolin (do vencedor do Oscar "Onde os Fracos Não Têm Vez"). O roteiro alterna cenas da juventude de Bush e momentos cruciais de sua atuação na presidência. Boa parte da graça está em identificar os atores caracterizados e observar suas cuidadosas composições.a defesa da liberdade de expressão. Jeffrey Right como Colin Powell.". Personagens que frequentaram os noticiários nos últimos anos surgem aqui em versão ficcional. 2008 Direção: Oliver Stone Com: Josh Brolin.". um pouco como Oliver Stone já havia feito em "Nixon" -só que." é. e. de forma bem menos excessiva. James Cromwell e Richard Dreyfuss Quando: sem previsão de estréia no Brasil Avaliação: ótimo Folha de São Paulo.

primeiro acompanhado por uma jovem (Olga Mironova) e depois sozinho. em 1943. porque a primeira meia hora do filme trata a Segunda Guerra Mundial de longe. Se outras vezes vemos Makhmalbaf oscilar entre o autoritário e o meramente comercial ("A Caminho de Kandahar"). encontra um rifle e resolve abandonar a mãe e as irmãs pequenas para se juntar a guerrilheiros. em "Gabbeh" é possível encontrar momentos de verdadeira poesia. Apesar de o efeito ser notável. não será aceito pelo comandante da milícia. belezas. tragédias. Assim como a tatuagem pode ser um relato. Menos conhecido é aquilo sobre o que discorre o filme: a sofisticada estamparia de um gabbeh é a narrativa de uma história. filmes de um país sempre guardarão algo de comum: uma luz. ele se inspira parcialmente em episódios de 153 . Último dos cinco longas dirigidos pelo russo Elem Klimov (1933-2003). Isso lhes confere uma personalidade que transcende. informa o próprio "Vá e Veja" (ou "venha e veja". 22h. o que é bem conhecido. como o evento que leva crianças e adolescentes a procurar armas e outros objetos de uso militar escondidos nas areias brancas de uma aldeia na Bielo-Rússia (ou Belarus). Fliora (Aleksei Kravchenko). esse clássico do filme de guerra não precisaria recorrer a isso para aumentar a catarse anti-nazista que o orienta quase desde o início. "Gabbeh" (Futura. 09/11/08 (31) "Vá e Veja" leva poesia a cenário de guerra SÉRGIO RIZZO CRÍTICO DA FOLHA As únicas imagens documentais de "Vá e Veja" (1985) só aparecem em seus minutos finais. aliás.diferentes que sejam. Um deles. Gabbeh é um tipo de tapete persa. Por exemplo: os filmes de Abbas Kiarostami pouco têm em comum com os de Mohsen Makhmalbaf. como um filme hollywoodiano tenderia a caracterizá-la. é a história de um amor que se conta. as figuras do gabbeh são como que o resumo de uma existência. em larga medida. república soviética invadida pelos alemães. no título em inglês). Fliora carrega a dor profunda e a indignação de ser um sobrevivente em cenário de apocalipse: 628 aldeias bielo-russas foram queimadas com seus habitantes pelos nazistas. Sua jornada não é propriamente a de um herói. com seus espantos. os desígnios de cada artista. em linhas gerais. Folha de São Paulo. mas experimentará. uma paisagem. Aqui. Quase. Este último. não recomendado a menores de 12 anos) é um dos seus mais belos trabalhos a terem chegado até nós. Mas será bem injusto colocar todas as obras num mesmo saco nacional. que teve atuação política expressiva (sobretudo como secretário da associação de cineastas do país) nos tempos de URSS. as agruras do conflito. Inexperiente. um modo de ser das pessoas etc. se pauta por uma irregularidade avassaladora.

o recordista do mercado brasileiro em toda a história. que tenha obtido o prêmio de melhor filme no Festival de Moscou. mas combina poesia ao realismo para acompanhar o efeito da guerra sobre os sentidos de Fliora (com destaque para a audição) e seu processo traumático de amadurecimento. Tudo amarrado pelo paralelo maníaco entre "vida real" (a ficção do filme) e "Tristão e Isolda" (a peça encenada de início). "Estes são tempos difíceis". e outra "impura". A ridicularização das novelas mostra-se apenas um pretexto para melhor demonstrar que as relações ali são mais complexas -e até criativas. 09/11/08 (32) Ruim e ideológico. de fato. Ou seja. mas que não fala a ninguém. o filme discute. Não causa surpresa. diz um personagem. em Moscou. ou finge discutir. 154 . possibilitou que Klimov trabalhasse aqui em escala de superprodução. e reflete-se no estilo de interpretação quase insuportável.3 milhões). A forte estrutura estatal do cinema soviético. porém frequente nos nossos palcos. Klimov não procura maquiá-los. e explora o território das relações entre representação e verdade. A denúncia de atrocidades cometidas contra bielo-russos e a abordagem épica transformaram também "Vá e Veja" em um grande sucesso de bilheteria na URSS. sob o guarda-chuva do Mosfilm. em média Classificação: não indicado a menores de 12 anos Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. e do Belarusfilm. em Minsk. que reunia 39 estúdios espalhados pelas repúblicas. as relações entre uma arte "pura". percebemos que Guel Arraes não vê na TV algo daninho. Aos poucos. com cerca de 29 milhões de espectadores ("Titanic". portanto. que fala a muitos. Stalingrado).guerra vividos por ele e sua família em Volgogrado (na época. VÁ E VEJA Direção: Elem Klimov Distribuidora: Lume Quanto: R$ 37. porém. jovem atriz aceita trocar o anonimato do teatro pelas novelas). longa consagra estética da TV INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Há um bom princípio. em "Romance": observar a contaminação do teatro pela TV no Brasil (na trama. teve 16. em que à idéia geral de que teatro consiste de gritos e gesticulação excessiva juntou-se a autocomplacência criada pelo êxito na TV. A questão existe.

muito maior do que a habitual para o gênero. não se via nada tão carregado de ideologia. Robert Ryan. no entanto. classificação indicativa não informada) foi a primeira a fazer barulho. sobretudo. Mas existe. 09/11/08 (33) Faroeste aborda liberdade feminina INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Se não foi a primeira incursão de Claudia Cardinale ao Velho Oeste. Lee Marvin. raptada? Entramos num terreno muito frequentado por Brooks: o da liberdade feminina. "Os Profissionais" (TCM. os circunlóquios. o dia não é de Claudia. Mas o autor de "À Procura de Mr. no da encenação caminha para uma espécie de ressurreição do estilo Vera Cruz. a história a contar era muito forte: Bellamy é o sujeito que contrata um grupo de aventureiros para seguir o bando de um rebelde mexicano (Palance) que raptou sua mulher (Cardinale). Ela vinha cercada de um grupo de atores de primeiro time: Burt Lancaster. e sim de Burt Lancaster. Existe. De resto. Desde os tempos do CPC (Centro Popular de Cultura). Ralph Bellamy. Se no nível das idéias o filme avança para o macete puro e simples. Se no roteiro boas idéias se alternam com falatório inútil. de fato. Jack Palance etc. a desgastada aproximação de clássico e moderno (saudade de "Carnaval Atlântida". O Oeste não deixa de ser um estranho lugar para abordá-la. por um lado. Burle) levam à consagração da estética de TV no teatro (ver cena final) e à vitória do bom senso sobre a paixão. ROMANCE Direção: Guel Arraes Quando: estréia na próxima sexta-feira Classificação: não indicado a menores de 12 anos Avaliação: ruim Folha de São Paulo. porque lá as mulheres têm um lugar secundário. Goodbar" não deixaria de achar um jeito de encaixá-la em lugar de relevo: coisas assim são as que se espera de um cineasta liberal por excelência. de J. A direção era de Richard Brooks e a produção. de quem se festejam os 95 155 . ou de algo tão antiquado quanto. No TCM. no setor interpretação os vícios da TV atacam o elenco em peso (exceção: Wagner Moura).C. a perseguição: ela em si é interessante e tensa. a dúvida: teria sido ela. quando têm. 20h. As voltas.

Quase duas décadas depois. o conto "Tema do Traidor e do Herói". ele quer apenas levar uma "vida normal". que já havia feito "Um Homem. 02/11/08 (34) Drama ressalta riqueza estética de Bertolucci SÉRGIO RIZZO CRÍTICO DA FOLHA O escritor Alberto Moravia (1907-1990) já era uma personalidade na imprensa. que o uso significativo de cores. cuja mulher (Dominique Sanda. seus dilemas morais e seu processo de tomada de consciência. seu quarto longa para cinema demonstra a riqueza estética que o caracterizaria desde então. Na Itália dos anos 30. sobretudo no desfecho. de Robert Siodmak. classificação indicativa não informada). classificação indicativa não informada) e "Os Assassinos" (22h. o que acentua o aspecto um tanto onírico da trajetória do protagonista Marcello Clerici (o ator francês Jean-Louis Trintignant. então com menos de 30 anos. Enquanto o livro de Moravia usa um "herói contemporâneo" para expressar um sentimento antifascista com a ferida ainda aberta. para matá-lo. Folha de São Paulo. o casamento com uma jovem de classe média baixa (Stefania Sandrelli) e a militância como agente fascista lhe parecem essenciais para construir a sua conformação social. portanto. A lua-de-mel em Paris traz sua primeira missão. graças também ao início de parcerias duradouras com o fotógrafo Vittorio Storaro e o desenhista de produção Ferdinando Scarfiotti. uma Mulher" e "Z"). do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). aproximar-se de seu ex- professor antifascista. As idas e vindas no tempo exploram sua fragilidade. o prestígio consolidado do autor não impediu que o cineasta Bernardo Bertolucci. Servidor público que se considera diferente dos outros devido a um episódio de infância. que já havia fornecido matéria-prima para "Partner" (1968). Natural. lançada no mesmo ano de "O Conformista" e também baseada em leitura muito particular de obra literária.anos de nascimento e que comparece em "Baixeza" (16h30. adaptasse o romance com liberdade em relação ao original. A adaptação do romance de Moravia substitui a narrativa linear original por uma estrutura em forma de flashback. "A Estratégia da Aranha". Storaro (Oscar por "Apocalypse Now". "Reds" e "O Último Imperador") já havia trabalhado com Bertolucci em uma produção para a TV. 156 . o filme de Bertolucci se beneficia da distância no tempo para uma reflexão mais conectada com a idéia de ação política no final dos anos 60. quando publicou "O Conformista". que Bertolucci considere "O Conformista" (1970) seu atestado de maturidade como diretor: além de se apropriar de material alheio para lhe dar sentido próprio. sombras e espaços traduz em forma de cinema. na literatura e no cinema italianos em 1951. que faz também duas pontas) o atrai.

o filho do maior industrial da cidade apaixona-se por uma operária. classificação indicativa não informada). Sobre o mesmo assunto. porém. 28/12/08 (35) Dramas com luta de classes são destaques PAULO SANTOS LIMA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Em "Metrópolis" (TC Cult. sobretudo aquela que há na ocupação e sangria de um espaço e de suas coisas e seres. com seu gado e petróleo sendo explorados pelo homem. George Stevens foi mais agudo em 1955. como foi a do Texas. 18h35. resultando no sacrifício de uma das partes. Neste belo filme.O CONFORMISTA Direção: Bernardo Bertolucci Distribuidora: Lume Quanto: R$ 37. o que torna ainda mais ingênuo (e absurdo) o plano mostrando o aperto de mão entre patrão e empregado. Jett Rink (James Dean) trabalha numa fazenda texana sob grande ressentimento e rebeldia. O caminho será o da violência. com seu "Assim Caminha a Humanidade" (TCM. Stevens fala dos EUA. em média Classificação: não indicado a menores de 14 anos Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. 28/12/08 (36) Brooks fez belo exercício de antecipação INÁCIO ARAUJO 157 . ama a mulher do chefe que ele odeia. Fritz Lang. Para piorar. mas também do ser humano em geral. E a questão central do filme é a luta de classes. e o abismo que o separa de seus patrões aumentará colossalmente. em que a conciliação entre classes é uma impossibilidade. evidentemente. 15h40. não indicado a menores de 12 anos). Até ele encontrar petróleo e enriquecer espetacularmente. A fúria perdura. neste que não é dos seus melhores filmes. comenta a Alemanha de 1926. mas ainda assim é um belo exercício de espaços e arquiteturas. o que o faz conhecer a triste realidade dos subterrâneos onde mora o proletariado que abastece a elite que vive na superfície. Folha de São Paulo.

mas também por documentar um certo mundo operário que parece não existir 158 . optaram por fazer de seu filme um instrumento. entre tantas versões do mundo que mais o aproxima de nós. Brooks contraria. sobre a qual não tem a menor influência. Paga um preço: o fracasso imediato.CRÍTICO DA FOLHA O título original de "O Homem com a Lente Mortal" (HBO. "Wrong Is Right". 30 anos depois. Documentário impressiona pelas imagens de trabalhadores e discursos JOSÉ GERALDO COUTO COLUNISTA DA FOLHA Roberto Gervitz ("Feliz Ano Velho". que as jogariam em Israel. em 1978. Mas faz um filme memorável. com ligações importantes no Oriente Médio. Visto hoje. o filme foi colhido no olho do furacão do primeiro grande movimento grevista paulistano desde o golpe militar de 1964. Regras cada vez mais explícitas. A saber: um poderoso local dispõe-se a repassar armas atômicas a terroristas. Os jovens Toledo e Gervitz. Na esteira das greves metalúrgicas do ABC. nem divisível de imediato em certo/errado. não recomendado a menores de 12 anos) é. do ponto de vista do enredo. com sua proverbial honestidade. temos aí um belo exercício de antecipação (o filme é de 1982). 21/12/08 (37) Filme registra movimento grevista de 1978 em pleno olho do furacão. primeiro. dando voz aos operários e seus líderes. se vê a horas tantas aprisionado numa teia arquiperigosa. É o fato do repórter se ver perdido entre tantas visões da realidade. de não fingir que o mundo é facilmente compreensível. Mas o aspecto mais interessante deste filme de Richard Brooks é sua distância em relação à produção média. dominado havia 14 anos pelo "pelego" Joaquim dos Santos Andrade (o Joaquinzão). sua ousadia de saber se perder junto com seu herói. Do ponto de vista da ficção. as fábricas de São Paulo começaram a parar por reajustes salariais. melhores condições de trabalho e liberdade sindical. cujo principal líder era um certo Lula. "Jogo Subterrâneo") e Sérgio Toledo ("Vera") tinham pouco mais de 20 anos e eram universitários de classe média quando fizeram o documentário "Braços Cruzados Máquinas Paradas". Ele não se detém na semelhança com aspectos da política internacional no século 21. em que um famoso jornalista de TV (Sean Connery). Folha de São Paulo. Vale. Ele tomaria essa atitude como represália ao presidente dos EUA. ou "certo é errado". as regras do sucesso cinematográfico. 0h45. "Braços Cruzados" ainda impressiona por seu frescor e vitalidade. que deseja tirá- lo do poder. excitados com o movimento. mais apropriadamente. Inicialmente concebido para registrar a eleição para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

e não apenas como vítimas ou espectadores. o destaque são os depoimentos de cinco líderes das greves de 78. A câmera de Aloysio Raulino capta com extrema sensibilidade o balé de rostos e corpos que pela primeira vez se viam como atores da história. Para além da política. nas moradias precárias. eles dão uma demonstração de lucidez. Ao se rever na tela e contextualizar o movimento. A fala dos não-militantes são quase sempre mais interessantes do que a dos sindicalistas. onde "se bobear os operários trabalham de terno". BRAÇOS CRUZADOS MÁQUINAS PARADAS Lançamento: VideoFilmes Quanto: R$ 45. Uma operária diz. é algo que hoje soa distante e datado. nas eleições fraudadas. as fábricas hoje "parecem laboratórios". o das grandes massas de trabalhadores braçais operando máquinas semi-manuais. Como os cineastas estavam envolvidos de corpo e alma na luta da oposição para reconquistar o sindicato. Um deles diz a certa altura a palavra "amor" para definir o que os une. um dos líderes do movimento de 78. anuladas pela Justiça e depois revalidadas pelo governo militar.mais. em média Classificação: livre Avaliação: ótimo Folha de São Paulo. Como diz. nos extras do DVD. Filme de amor O que fica de mais precioso são as imagens dos trabalhadores nas fábricas. três décadas depois. indignada. Gervitz e Toledo fizeram isso mesmo: um filme de amor. nos ônibus e trens. além de entrevistas de Gervitz e Raulino. Vale mais roubar ou mendigar do que acordar às três da madrugada para trabalhar na Philco e ganhar uma porcaria". Embora haja tensão no processo. grande parte do filme se concentra na campanha eleitoral. 21/12/08 (38) "Wall-E" se destaca entre lançamentos de animação Disney também sai com duas edições comemorativas com extras e restaurações LÚCIA VALENTIM RODRIGUES DA REPORTAGEM LOCAL 159 . na porta de uma fábrica: "Não é à toa que tem cada vez mais ladrão e gente pedindo esmola. Nos extras. coerência e alegria que chega a comover.

Wall-E enxerga beleza onde só há lixo. Acompanhado de uma coruja rabugenta. É ingênuo de um jeito que sentimos saudade. Vai ser justo se levar um Oscar. Mais familiar. digamos. Na mesma linha de "Ratatouille". polpudo. que rouba a cena frente aos outros animais. O mundo acabou. com isso. ela tem uma missão: encontrar registro de vida na Terra para que a humanidade. ser tonto. não há como não torcer pelo urso. embora ainda embale muitos sonhos das meninas. "A Espada Era a Lei". reconta a história do rei Arthur como um garoto de 12 anos numa Inglaterra sem rei nem lei. conforme nos contam os extras de "Kung Fu Panda". com uma trama bem datada. Já a concorrente Disney tem duas edições comemorativas: "A Bela Adormecida" faz 50 anos. de encontros e desencontros. Mas fica estranho realmente em pleno 2008 uma princesa ficar esperando um príncipe chegar para levá-la do marasmo de sua vida. Enquanto isso. ele vai ser tutoreado pelo mago Merlin até cumprir sua missão de herói. eles vão ganhar um filme próprio. junta de caixinhas a partes de robôs como ele. Com cara de suja. lembra muito a simplicidade dos filmes de Charles Chaplin e acerta em cheio ao nos estender a mão para exaltar a relação entre os seres -ainda que não humanos. embora esse "excesso de gostosura" pareça um empecilho bem. Pançudos com orgulho Aproveitando a avidez das crianças por presentes. outros cinco lançamentos chegam ao DVD (veja quadro ao lado). 160 . o gordinho urso Po quer ser um mestre do kung fu. Com um belo humor. possa retornar ao planeta. reclusa no espaço. em que ele tem de aprender o que significa o Natal para cumprir seu papel de paizão dos trigêmeos. essa simpática máquina leva uma vida tranquila até que se apaixona pela evolução: uma versão feminina de robô com design arrojado aparece no seu mundo e o domina completamente. o politicamente incorreto Shrek ganha nova franquia com uma fábula singela. "Os Cinco Furiosos" sai em breve em DVD. Mas. A nostalgia que permeava toda a sua existência dá lugar à onipresença de Eva. Também fora de peso. Ou mais. Não é preciso um discurso político para nos convencer. É uma história de amor clássica. de 1963. Com o mínimo de falas. Tudo em nome do amor. aqui a mensagem é de enfrentar os desafios para alcançar seu sonho. embora fora de sintonia. bem longe do humor que o ogro verde já produziu. embalada por uma mensagem ecológica. É um subproduto. elas sobrevivem a tudo. O robô Wall-E passeia pela Terra vivendo em meio às baratas -afinal. Somos todos errados na poluição do mundo e na nossa vida sedentária -e sabemos disso. mas sem panfletarismo nem apontar o dedo para ninguém. sem. Faz solitariamente seu trabalho de compactar lixo. tudo bem. e há toneladas de sucata por toda parte. Afinal. em que um rato queria cozinhar. perdas e ganhos.

21/12/08 (39) Sofia Coppola revela talento em drama sobre a juventude Em sua estréia na direção. entender as razões pelas quais o livro de Eugenides fascinou a diretora. Folha de São Paulo. você nunca foi uma garota de 13 anos". quando estreou na direção com "As Virgens Suicidas". A estrutura escolhida por Sofia garante a magia. Na verdade. Prevalece o inexplicável. ou feminista.". abalando a confiança entre eles. hoje. mas as histórias continuam divertidas.. carregada de um sentimento de não-pertencimento. perseguidos e seguidos à risca nessas produções. Perdeu um pouco de fôlego essa idéia de fazer um mosaico de aventuras. O foco são sete planos "infalíveis" de Cebolinha para apanhar o coelhinho Sansão. A questão não é entender as razões do que o título do filme entrega -a repressão dos pais não explica o ato das cinco irmãs. Foi ao entrar em contato com o livro homônimo de Jeffrey Eugenides que Sofia encontrou a maneira de se reinventar como artista. escrita como se fosse um romance clássico. Eles 161 . os excelentes "Encontros e Desencontros" (03) e "Maria Antonieta" (06). como explica o making of do DVD. Mônica lança a terceira versão de seu "Cine Gibi". quem apanha é ele e o Cascão. filha de Francis Ford aborda irmãs nos anos 70 BRUNO YUTAKA SAITO DA REPORTAGEM LOCAL Em 1999.eram apenas moleques apaixonados pelo quinteto. no que ela responde: "Obviamente. que tem lançamento em DVD. ela adota visão cúmplice sobre a alienação. Sofia começava ali a definir seus temas essenciais. É fácil. Com "Virgens. Uma das idéias que resumem o filme está na fala de Cecilia. O filme marcou a ruptura entre Walt Disney e o roteirista Bill Peet. como um olhar mais rasteiro poderia sugerir. após a consagração com seus filmes seguintes. algo que extrapola as definições de sexos. Ela tinha à mão uma trama contemporânea. doutor. já que o foco é a adolescência. A história vem narrada por homens que na época -o longa se passa nos anos 70. Walt deixou de lado o cinema e se arrependeu do resultado.. a irmã mais nova. Dois anos depois. "Você não tem idade para saber o quanto a vida fica difícil". afastaria Peet de "Mogli" e nunca mais trabalhariam juntos. Na época mais preocupado com a criação dos parques. diz o médico. Mas os lançamentos não são só estrangeiros. Mais do que um cinema de "mulherzinha". tais sensações vêm em estado bruto. porque são sete vezes em que suas maluquices dão bem errado. Sofia Coppola ainda era lembrada apenas como a adolescente nariguda que tivera uma atuação constrangedora em "O Poderoso Chefão 3" (90). após tentativa de suicídio.

relembram garotas que permanecerão para sempre em suas memórias. ou seja. ou "Dália Negra" (mesmo canal. Sofia parece evocar astros que morreram jovens. O que esses personagens têm em comum é que frequentam o café onde trabalha Cécile De France. É o que se chama de um produto digno. de Billy Wilder. 14/12/08 (40) Francesa faz filme sem grandes pretensões INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA Em "Um Lugar na Platéia" (TC Premium. não indicado a menores de 14 anos). perfeitas. Existe também um velho "self-made man" disposto a se desfazer de sua preciosa coleção de arte. um filho professor universitário que não se entende com o pai. não indicado a menores de 12 anos). Não se trata disso. 162 . É como se os produtores. não arriscar. acaba transitando entre as mais sólidas neuroses artísticas com alegre desenvoltura.com. para vasculhar o voyeurismo e o fetichismo. mas acredita que esse sucesso vai afastá-la de bons papéis. de beleza mórbida. nem a vista do espectador. 0h05.2001video. como James Dean ou Marilyn Monroe. certamente. Não. não indicado a menores de 12 anos) existe um pianista cansado do estrelato e dos infinitos compromissos de sua agenda. mas que não ofenda nem a inteligência. AS VIRGENS SUICIDAS Direção: Sofia Coppola Distribuidora: Paramount (à venda exclusivamente nas lojas da rede 2001. site: www. necessário a esse filme que só melhora com o tempo. de Brian de Palma. ou Jessica. belas e intocadas. Isso tornou-se muito menos frequente do que seria desejável. que. Para completar. 22h. Há um monte de filmes nessa categoria hoje. pressionados pelos altos custos e pelo medo decorrente.br. a trilha do duo francês Air garante o clima onírico. 12h30. uma atriz que faz sucesso com um novelão de TV. Mas se trata de criar uma matinê que se possa ver sem maiores compromissos. os brilhantes "Crepúsculo dos Deuses" (TC Cult. por sua simpatia. só soubessem arriscar no certo. Ninguém dirá que Danièle Thompson realizou um grande filme. por R$ 19.90) Classificação: não indicado para menores de 16 anos Avaliação: bom Folha de São Paulo.

afinal. O efeito desse ardiloso embaralhamento é deixar o espectador sem chão. e sobre quem. por estranho que pareça. "Jogo de Cena". De certo modo. Mas há também uma carga de vivência humana quase insuportável. "Jogo de Cena" pode ser visto. e a sensação se reforça com a já tradicional "faixa comentada". como um estudo sobre as lágrimas e seu modo de produção o que dificilmente impedirá o espectador de verter algumas ao longo da sessão. Na organização desses múltiplos discursos sobre dramas pessoais em que quase sempre sobressai a relação com os filhos ou. uma que conta a história de outra. mesmo que exponha suas verdades mais íntimas e profundas. 07/12/08 163 . Os extras do DVD. misturando depoimentos de mulheres "comuns" com falas de atrizes que reproduzem as mesmas histórias narradas por aquelas. ao exibir as entrevistas prévias das selecionadas com a assistente do diretor. em que Coutinho fala sobre seu filme com o cineasta João Moreira Salles e o crítico Carlos Alberto Mattos. outras são desconhecidas do público. num estúdio. revelar esses depoimentos de bastidores é um pouco como desmontar o brinquedo para descobrir como funciona. Oitenta e três se apresentaram. em vez de diminuir seu impacto emocional. que por sua vez narra uma terceira história. ganha uma evidência incontornável em seu documentário mais recente. esboçada em obras anteriores de Eduardo Coutinho. 23 foram selecionadas e filmadas em junho de 2006 no teatro Glauce Rocha. que já não sabemos mais a quem pertence. da condição feminina e da própria noção de verdade. no Rio. entre as depoentes. se quisermos. Fernanda Torres. quais são inventadas. Essa idéia. como "Santo Forte" e "Edifício Master". 07/12/08 (41) Coutinho deixa o espectador sem chão JOSÉ GERALDO COUTO COLUNISTA DA FOLHA Diante de uma câmera. Folha de São Paulo. viveu o quê. Algumas dessas atrizes são muito famosas -Andréa Beltrão. em dúvida sobre quais histórias são verdadeiras. todo indivíduo se transforma em um ator. Marília Pêra-. Se Coutinho já encarava seus entrevistados como "personagens". com os pais há todo um questionamento do estatuto da representação. Folha de São Paulo. Cristiana Grumbach. acaba por intensificá-lo. essa revelação dos mecanismos ilusionistas do filme. O ponto de partida do filme foi um anúncio de jornal. revelam que o jogo foi além: há. Mas. em "Jogo de Cena" ele dá mais uma volta no parafuso. mais raramente. sobre suas vidas. em que o cineasta convidava mulheres a falar. que chega agora ao DVD. quase anônimas.

Os críticos da "Cahiers du Cinéma". achava os filmes de Claude Autant-Lara um primor de requinte. pela direção inovadora na novela "Pantanal" e pelo filme "Olga". "O Hospedeiro" é falso trash PAULO SANTOS LIMA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA O trash é uma valoração meio complicada ao cinema. Que o cinema faça filmes "vagabundos" como esse.Quando Fala o Coração". não indicado a menores de 12 anos) talvez pareça meio "filme de moleque" para alguns. assim. lúcidos. dirigida por seu filho. arte que transita entre estéticas irregulares sem necessariamente trair o bom enquadramento. todo "chique". aquele seriado japonês que a TV brasileira exibia nos anos 70. é conhecido. entre outros trabalhos. Folha de São Paulo. 53. a do cinema de gênero. até o desfecho que emula as batalhas de "Ultraseven". ou mesmo trash (sim. um monstro criado em laboratório por militares norte-americanos (os EUA colonizam culturalmente o país há tempos) e um abilolado que é mais irmão que pai de sua filha e que terá de salvar alguns tantos. Pois "O Hospedeiro" (TC Action. 04/01/09 (43) Em nome da mãe "Maysa . 164 . Nesse clima um tanto tresloucado. inclusive. Temos. nos anos 50. e utiliza todos os recursos para honrá-lo (o monstro do título. E daí? Rigorosíssimo. é um CGI confeccionado por uma empresa norte-americana). Jayme Monjardim. minissérie sobre a vida turbulenta da cantora de "Meu Mundo Caiu". A partir de amanhã. estrÉia amanhã na Globo LAURA MATTOS DA REPORTAGEM LOCAL Jayme Monjardim. será o filho da cantora Maysa. era um lixo. o coreano Joon-ho Bong mantém a tradição do seu país. Mesmo fazendo bonito na indústria. a boa imagem. há espaço também para o terror. por exemplo. 22h. o termo hoje é utilizado como coringa na manga).(42) Rigoroso. Bong faz de seu filme algo extremamente político. esclareceram que esse cinema clássico. Um certo público médio francês.

O que tinha que chorar já foi. FILHO X DIRETOR Consegui separar o filho do diretor. 165 . durante dez anos. As grandes estrelas são complicadas. Aí não me responsabilizo pelo que vou fazer. mas imagina passar dez anos em um colégio interno sozinho. Na minha vida inteira me virei sozinho. não sou mais diretor. já sofri tanto por ser um menino sozinho. Fora dos palcos. polêmicas. Os dez anos foram tão violentos que essa cena não é mais violenta para mim. em um acidente de carro na ponte Rio-Niterói. Morreu aos 40. quando assistir na TV. Algo tem de especial. não poderia ter feito esse trabalho. CENAS FORTES A minissérie é um resumo muito sutil do que aconteceu. talvez o mais importante na minha vida. Maysa se depara com o filho pequeno doente e diz que não irá beijá-lo para não correr o risco de se resfriar e prejudicar sua voz. celebrizada pela interpretação de "Meu Mundo Caiu". Sem isso.cenas tão dramáticas de seu passado. ABANDONO Nunca fiz análise. O projeto é tão elevado. Imagina ficar sozinho em um colégio interno. o bilionário André Matarazzo. estrela da música brasileira de carreira internacional. E3). porque até agora estou congelado. tenta resumir o sofrimento e a sensação de abandono: em uma rara visita ao internato. não são normais. quando o pai morreu. Manoel Carlos (leia entrevista à pág. Uma cena criada pelo autor da minissérie. paixões polêmicas. ele leva ao ar na emissora o grande projeto de sua vida: uma minissérie de nove capítulos sobre a turbulenta vida de sua mãe (1936-1977). sem sair nem para as férias. Vivi cenas muito difíceis. abuso de álcool. o "jogaram" em um colégio interno na Espanha por quase dez anos. entre outros grandes sucessos do samba-canção e da bossa nova. Não tenho defeitos de fabricação por causa disso. que diz nunca ter feito análise. que parece outra encarnação. sua vida foi marcada por atitudes controversas. [A cena em que Maysa é encontrada em uma banheira cheia de sangue após cortar os pulsos] Não vi. mas vi muitas outras. contou à Folha que se manteve "congelado" ao rever -e dirigir. Mas isso não é um problema para mim. e foi deixado na casa de avós. para contar uma linda história de amor. Já imaginou gravar essa cena [em que Maysa não beija Monjardim no internato] e começar a chorar? Me dediquei a esse projeto. Aquilo foi um beijo. Todos os filhos de artistas passam por problemas não tão diferentes dos que eu passei. Acabam fazendo besteiras e vivendo loucuras. Monjardim. Mas.Diretor da Globo. ter um distanciamento suficiente para não sofrer ou me emocionar. Aos seis. Monjardim tinha apenas dois anos quando Maysa se separou de seu pai. sendo criado por uma empregada. intensas. de moderadores de apetite e tentativas de suicídio. e sim o filho.

Ela morreu endividadíssima. à medida em que cresci. ganho muito bem para fazer o que gosto. fui entendendo que Maysa agia assim por milhões de motivos. Por que reclamar do meu passado? Trabalhei anos para acabar com os meus monstrinhos. tadinha. E vivi os dois últimos anos da vida dela muito bem. não uma lavação de roupa. uma mulher linda. ferrada. pô. O país estava esquecendo um patrimônio nacional. Não tenho por que ficar me lamentando. Entendia por que ela bebia. Consegui admirá-la. três anos antes. Tinha raiva. como minha mãe me largou em um colégio? Mas. uma recuperação de nossa memória e uma homenagem à música brasileira. Tenho três filhos lindos. ACERTO DE CONTAS? [Sobre cena em que André Matarazzo cobra de Maysa atenção ao filho: "Um dia ele vai crescer e há de julgar a boa mãe que você foi ou deixou de ser"] É lógico que já a julguei mal pra caramba. Folha de São Paulo. é uma purificação. como grandes amigos. Mas foram 30 anos de análise em dois anos que estou nesse projeto da minissérie. era revoltado. 04/01/09 (44) Filme mostra 'julgamento' de Nixon "Frost/Nixon" recria entrevista em que o ex-presidente americano reconhece ter "decepcionado o povo americano' Conversa com apresentador de programas populares de TV rendeu ao republicano volumoso cachê. Eu me sinto à vontade. por que a vida dela era difícil. que incluiu 10% dos lucros de publicidade DANIEL BERGAMASCO DA REPORTAGEM LOCAL Em "Frost/Nixon". HOMENAGEM Acho que ela ia achar [a minissérie] uma graça. ficar impressionada de andar no Projac e ver um carrinho com o nome dela. uma das pessoas que ajudam a preparar o apresentador de TV David Frost para a entrevista com Richard Nixon -a primeira concedida após sua renúncia. A minissérie é para cima.diz 166 . Não falava português direito e até hoje não sei escrever em português. Eu sou tão realizado.

com seus bastidores. perdido? Não sei. roteiro.7 mi). foi reeleito e renunciou em 1974. "A atual administração está fazendo um grande trabalho de reabilitar Richard Nixon. para Howard. Pessoas diferentes terão reações diferentes." Cachê Frost (vivido no filme pelo ator por Michael Sheen). com toda sua humanidade. solitário. com aquele grande entusiasmo sobre a monarquia. Bush. Na elogiada versão cinematográfica. como "decepcionei o povo americano".que a sabatina precisa ser contundente a ponto de se tornar "o julgamento" que o presidente dos EUA nunca tivera pelas acusações do escândalo Watergate. não há na obra nenhuma revisão sobre a figura histórica do republicano. em mesa redonda em Nova York. o que justifica o choque quando Frost consegue extrair de Nixon frases que ele não parecia ter planejado dizer. Ficamos constrangidos. ator dramático para Frank Langella (que vive Nixon) e trilha. que viu indagações semelhantes no longa sobre a rainha Elizabeth 2ª. O filme especula sobre as motivações do ex-presidente para desabafar. que estreia no Brasil em 20/2. Agora. Uma frase entrou para o folclore americano: "Se o presidente faz. Mas o filme não redime ninguém". pagou pela exclusividade da entrevista. que está sendo substituído como o presidente mais odiado de todos os tempos. O filme mostra que. tem mais força na revisão dessa imagem. O efeito George W. com possível redenção por mostrar seu lado mais humano. levando um Nixon (1913-1994) exaltado a confirmar a espionagem no comitê do Partido Democrata com escutas ilegais. A encenação do pingue-pongue entre Nixon e Frost. Era um cachê generoso para enfrentar um entrevistador que se supunha fraco e fútil. que emplacou cinco indicações ao Globo de Ouro: filme. 167 . em conflito entre a inteligência brilhante e a tendência autodestrutiva? E isso quando um presidente envolvido em crise econômica e guerra impopular está deixando a Casa Branca? O roteirista titubeia. diretor. ele é apenas o número dois no ranking [risos]. diz Morgan. O autor. diz ele. grifes e fama como apresentador de programas populares de TV. notório jet-setter inglês rodeado de mulheres. que entrou no Salão Oval da Casa Branca em 1969. em novembro. assina também o roteiro do longa. "Se me preocupo que o público tenha compaixão por um homem autodestrutivo. Mas não acho que isso acontecerá da mesma maneira. no cálculo do diretor. Peter Morgan ("A Rainha"). a entrevista célebre de 1977 acabou desempenhando esse papel simbólico. o legado de Nixon ainda é criminoso". mais 10% dos lucros de publicidade. Como mostra o filme de Ron Howard (o mesmo diretor de"Mente Brilhante"). disse. Garantiu a Nixon US$ 600 mil (US$ 3 mi nos valores de hoje. não haverá congestionamento de pessoas se filiando ao Partido Republicano. "Eu nunca esperava que pessoas saíssem de "A Rainha" tocadas por ela. ou R$ 6. mas. já havia feito sucesso no teatro. a entrevista que serviu como "julgamento" para Nixon levanta outro questionamento nos EUA: estaria levando o ex-presidente à segunda instância. então não é ilegal". com a Folha e mais cinco jornais. para ser honesto.

Na principal delas. quando em final de mandato. que rodearam a entrevista. dramaturgicamente seria responsável. Mas. E se o mesmo acontecesse com sua obra cinematográfica? Se Allen partisse de "Vicky Cristina Barcelona" (2008) e terminasse em "O que Há. Nixon telefona bêbado para Frost e o desafia a ser mais mordaz. Peter Morgan se deu a liberdade de inventar algumas cenas." Folha de São Paulo. Nixon era um visionário formidável. na véspera do último dia de gravações. telefonava embriagado para pessoas e depois se esquecia de que o fizera. pode parecer um horror. que vai além da figura do baixinho desajeitado HUGO POSSOLO ESPECIAL PARA A FOLHA Woody Allen. mas destruído por suas emoções conturbadas. Iniciaríamos velhos e. Tigresa?" (1966)? Para quem não gosta de um humor mais grotesco. Não há relatos de que isso tenha acontecido. nossa morte ser consumada por um orgasmo. mas o roteirista se baseou nos testemunhos de que Nixon. ganhando saúde. 168 . costumava lembrar a famosa parábola de que a vida deveria ser ao contrário. algo que passa por um entendimento mais completo. chegaríamos à juventude para. sob efeito da mistura com moderadores de humor. Não parecia confortável sob a própria pele". em especial membros das equipes de assessores de Nixon e Frost. Apesar de ter entrevistado seis dezenas de pessoas entre a criação da peça e do filme. vale muito a pena. 04/01/09 (45) DVDs retomam Allen pastelão Comédias do início da carreira mostram diretor anárquico. mesmo que isso não tenha acontecido. Os herdeiros concederam entrevistas na fase de pesquisa e autorizaram o uso de uma canção composta pelo ex- presidente ao piano. "Era algo que ele faria. Nixon compositor A família de Nixon demonstrou-se interessada pelo projeto do filme. enfim. Pensei que. 73. "A simpatia por um personagem não muda sua imagem histórica. diz Morgan. para quem sabe que uma cena de pastelão pode nos dizer muito mais do que supõe nossa vã mediocridade.

Allen já aponta seu estilo. Sempre admirei Woody Allen por nunca ter ido à premiação do Oscar. "Dança dos Famosos" e outras formas pouco honestas de divertir os outros. É a necessária coragem da arte. Está nos dizendo que só acreditamos no que aceitamos acreditar. com noivos neuróticos e pessoas curiosas para saber tudo sobre sexo. primeiro roteiro e direção de Woody Allen. Poderia até ser ao contrário. que vai além de sua figura caricata de baixinho desajeitado com óculos de aros grossos. Aos acomodados: que se iludam com "Big Brothers". 169 . o solitário Fielding Mellish (Allen) vai parar na típica republiqueta latino-americana de San Marcos. (Ah. Escolhe um filme de espionagem japonês já risível em si para subverter a trama. De sequestrado pelos rebeldes acaba se tornando presidente. parte do que poderia ser uma brincadeira adolescente: dublar um filme com bobagens. como eu gostaria de assistir ao lado do ilustre chefe de nosso país para acompanhar seus sábios comentários futebolísticos sobre presidentes que têm seu poder mensurado pelo que pesam em estrume!) É só um devaneio. Topou ir à cerimônia do Oscar no ano seguinte ao 11 de Setembro. Um país inexistente precisa de uma receita de salada de ovos para ser reconhecido. como o sonho do judeu crucificado disputando uma vaga de estacionamento e o comercial do cigarro Novo Testamento. em que a palavra vence a imagem. Casais em diálogos frenéticos apontam o que virá depois. que vem de baixo e atinge a bunda dos donos das verdades institucionalizadas. Woody Allen é anárquico. A comédia "O que Há. Comediantes têm essa queda por inverter o olhar. Não foi para não ceder ao esquema corruptível e vaidoso. Subversão no sentido literal. E também o admirei muito por ter ido. é necessário dar outra visão. Tigresa?". como os tantos de Allen. os olhares do herói são transformados em taras sexuais e suas agressões verbais são absurdos xingamentos nacionalistas. "Bananas". ter ido a todas e faltado na última. numa potente metáfora sobre a indústria cinematográfica. Para ser expressivo. Não estão ali à toa. Republiqueta de bananas Um pouco depois. Após se apaixonar por Nancy (Lousie Lasser). Divãs de analistas. Na época. a versão sub. completam as personagens e nos situam na época por meio da provocação. mas. depois. o já ousado comediante transforma o jogo. pais e mães superprotetores não escapam de seu olhar oblíquo. que insere filmetes paralelos -que poderiam ser campeões no YouTube-. como a do cego dirigindo um filme. de 1971. Zomba dele com uma barba mais falsa que promessa de campanha eleitoral. Quem se arriscou a criticar Hollywood logo na primeira direção? Joga água fervendo na visão americana da Guerra Fria. foi para fazer um gesto de afeto com Nova York. é ainda mais farsesco. não se compromete com nenhum tipo de poder. Nessa fase paleolítica. mas não se é Woody Allen impunemente.

inspiraram a minissérie da Globo. 46. dispara o autor da clássica "Lobo Bobo".HUGO POSSOLO. antes de lançar seu charme sobre a cantora. autor da série. Ironicamente. naturalmente. "Pela bossa nova. A série revelou também a talentosa atriz gaúcha Larissa Maciel. filho da cantora. incluindo os esperados números musicais. enquadrado pela tela de um aparelho de TV. dramaturgo e diretor do grupo de teatro Parlapatões e do Circo Roda Brasil Folha de São Paulo. que personifica a cantora de maneira bem convincente. cuja história pessoal e. além da bela fotografia de Affonso Beato. contraditória. as passagens mais pesadas e melodramáticas da história com outras mais descontraídas. é palhaço. por uma narrativa não-cronológica possa incomodar os espectadores acostumados ao formato mais convencional de grande parte das novelas e minisséries da emissora. o milionário André Matarazzo. autodestrutiva. mas antes de tudo uma grande cantora. irreverente. Ainda que falte um pouco de intensidade em sua interpretação. Especialmente saborosa é a cena em que Maysa interpreta o samba-canção "Ouça" (de sua autoria). justamente nas cenas em que dubla Maysa cantando. Mas esse recurso permite equilibrar. no melhor estilo cafajeste. eu namoraria até o Trio Iraquitã". como a impulsiva Maysa. "Maysa -Quando Fala o Coração" mostrou em seus primeiros capítulos um eficiente elenco. outra cena exibida na última quarta nos remeteu a um fenômeno cultural bem característico dos dias de hoje: a indústria que se alimenta da vida pessoal dos artistas e 170 . nossa eterna diva da fossa e da dor de cotovelo. Dirigida por Jayme Monjardim. por meio de flashbacks. esmero na produção dos cenários e figurinos. sua música. um de seus maiores sucessos. Com o rosto em primeiro plano. E que outra cantora teria. a cantora mandou um irônico recado para o ex-marido. 11/01/09 (46) Maysa é a nossa versão de Amy Winehouse CARLOS CALADO COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Intensa. Assim era Maysa (1936-1977). que insistiam em falar alto durante uma de suas apresentações? Cafajeste Já as aparições do jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli (bem interpretado pelo ator Mateus Solano) garantiram os momentos mais leves e divertidos. num padrão raro na TV brasileira. Talvez a opção de Manoel Carlos. seus grandes e expressivos olhos verdes são capazes de hipnotizar o espectador. a coragem de tirar o sapato e atirá-lo sobre espectadores desrespeitosos.

às 23h05. que respondeu pelo maior sucesso do cinema brasileiro. MAYSA . se conhecesse o trágico final de Maysa. de Anselmo Duarte. "o eixo dominante caminhou do teatro de revista para a chanchada ou para filmes como 'Absolutamente Certo' [1957]. e qui. A prevalência da comédia no gosto popular chama a atenção também do crítico e professor da USP Ismail Xavier. "Faz falta o gênero 'comédia picaresca'.479 milhões) e de renda (R$ 46.celebridades. 11/01/09 (47) Êxito de "Se Eu Fosse Você 2" questiona cinema brasileiro A liderança de público (5. 'Dona Flor e Seus Dois Maridos' (1976) [público de cerca de 11 milhões] e para o qual temos vocação e talento". a cantora inglesa Amy Winehouse. "Não temos no cinema uma forte tradição do melodrama. diz Gustavo Dahl. que já dialogava com a TV". Quem sabe. que parece ser tão intensa e autodestrutiva quanto a diva brasileira da fossa. atual gerente do Centro Técnico do Audiovisual.QUANDO FALA O CORAÇÃO Quando: ter. o Brasil raramente detém mais do que 10% do total do público. Embora com lançamentos crescentes. às 23h50. afirma Xavier. Cinema e TV 171 .. Flagrada por um paparazzo ao se despir para um banho de cachoeira com um grupo de amigos. ex-presidente da Agência Nacional do Cinema. diz ele. na Rede Globo Classificação: não indicada a menores de 12 anos Avaliação: bom Folha de São Paulo. ao contrário de Hollywood e dos cinemas argentino e mexicano". tivesse um insight sobre o que a próxima noite de excessos pode lhe reservar. Maysa viu sua intimidade exposta na capa de um tabloide bem semelhante aos atuais. No cinema brasileiro. sex..2 milhões) do longa "Se Eu Fosse Você 2" nas bilheterias brasileiras neste ano revela mais do que a capacidade do país de produzir um filme-fenômeno. O êxito extraordinário do título de Daniel Filho expõe também o que falta à indústria nacional de cinema.

Será muito ruim que se converta em modelo para alguma coisa". só 16 ultrapassaram 100 mil espectadores. "Se Nada Mais Der Certo"). diz. no entanto. diz: "Parece-me um filme que deve existir. "3/4 do investimento em produção cinematográfica via leis de renúncia fiscal é direcionado para o cinema autoral. deixando a indústria de entretenimento brasileiro por conta da TV". "Daniel Filho fazia TV como se fosse cinema e faz cinema como se fosse TV. refletida na disputa por recursos de produção. várias comédias populares com uma estética menos elaborada fracassaram enormemente. reunidos com o uso das leis de incentivo à cultura via renúncia fiscal. Só que comédia é artesanato. Quanto ao longa de Daniel Filho. Para Araujo. E Daniel Filho tem o faro do público. esse "é um problema que se deveria começar a levar a sério". Antes dele. é um "fato isolado" no contexto da produção nacional. A aproximação de "Se Eu Fosse Você 2". "Não pode existir um cinema nacional consolidado sem uma cumplicidade com o público. estrelado por Glória Pires e Tony Ramos. vê no êxito de "Se Eu Fosse Você 2" um sinal de vigor da produção de cinema no Brasil. embora seja necessário garantir sempre a manifestação daqueles que desejam mudar o gosto do público. afirma. mas dificilmente alcançam o público. que "não há como não celebrar". cujos filmes são consagrados em festivais. artesanato é disciplina." O cineasta Cacá Diegues. "Fato isolado" Para o diretor José Eduardo Belmonte ("Meu Mundo em Perigo". SILVANA ARANTES Folha de São Paulo. sabe como conquistá-lo". crítico da Folha acha "doentio que um filme faça 5 milhões de espectadores e a maioria dos demais filmes faça 5. Tem intimidade com a comicidade brasileira.000. Segundo o ex-presidente da Ancine. Já Inácio Araujo. entre 91 longas nacionais lançados. um dos mais importantes dramaturgos americanos. 15/03/09 (48) "Gata em Teto de Zinco Quente" é próximo filme de coleção Além de ter imortalizado o texto de Tennessee Williams. o oposto do geralmente entendido como cinema autoral". com o universo da TV é citada também por Dahl. 10 mil ou coisa parecida". o sucesso de "Se Eu Fosse Você 2". que assinala a oposição entre o "cinema comercial" e o "cinema de autor". um filme divertido. a versão cinematográfica de "Gata em Teto de Zinco Quente" --quarto 172 . "Nosso cinema comercial vinha mal das pernas. "Se Eu Fosse Você 2" custou R$ 6 milhões. Em 2008.

aos 19. do famoso método de Lee Strasberg. Antes de "Gata em Teto. Newman tinha 33 anos. Foi aluno do Actor's Studio --discípulo. por meio de um anúncio pago em uma revista. em 1958.. Liz Taylor começou direto no cinema. entre outras informações e curiosidades. Quando o filme foi lançado. biografias do diretor. redimiu-se com papéis elogiados em "Marcado pela Sarjeta" (1956). pelo qual levou o prêmio de melhor interpretação masculina no Festival de Cannes.e estreou na Broadway em 1953. enfim.. Newman e Taylor promovem um embate que. diante da indiferença de Brick ao desejo de Maggie. pelo qual ganhou sua primeira indicação ao Oscar. do dramaturgo Tennessee Williams e um texto sobre a censura imposta à peça e ao roteiro. e "O Mercador de Almas". e. os dois enfrentam diálogos densos e cortantes do filme com impressionante maturidade. e Taylor. Maggie (Taylor). no livro que acompanha o DVD. inquieta como uma gata. Aos 10 anos. Juntos na tela. traz duas estrelas de primeira grandeza no esplendor de sua juventude. assim como Marlon Brando e Montgomery Clift-. Richard Brooks. Mas detestou tanto o trabalho neste filme que se desculpou publicamente. E "Gata em Teto. A partir da segunda metade do filme. na primeira montagem de "Picnic". aos 28 anos. esse embate se estende aos outros integrantes da família. nas bancas a partir do próximo domingo-.promoveu o único encontro nas telas de Paul Newman e Elizabeth Taylor. de atriz coadjuvante. ainda criança. Apesar de jovens. O livro traz.volume da Coleção Folha Clássicos do Cinema.. como explica o texto de Starling Carlos. de Martin Ritt. será apresentado de um modo essencialmente físico. portanto. se movimenta sem parar pelo cenário (boa parte do filme se passa no quarto do casal). de William Inge. "Nem a vigorosa direção de Richard Brooks nem o provocativo texto de Tennessee Williams apagam o que 'Gata em Teto de Zinco Quente' tem de mais memorável: o duelo entre Elizabeth Taylor e Paul Newman". Brick (Newman). Os olhos azuis e o jeito de galã logo fizeram com que fosse cortejado por Hollywood. inédito na TV aberta 173 . que explode em crise. de George Stevens. tem grande dificuldade para se mover. Os enquadramentos e angulações do diretor Richard Brooks realçam essa característica do texto. ao contrário. Folha de São Paulo. Cada uma das cenas entre os dois lembra um duelo carregado de tensão sexual. contracenou com a famosa cachorra Lassie em "A Força do Coração". 26. com "O Cálice Sagrado". Paul Newman vinha de uma sólida formação teatral.". em setembro de 1958. afirma o crítico da Folha Cássio Starling Carlos. ainda. 09/04/09 (49) Globo exibe hoje "Se Eu Fosse Você". onde estreou um ano depois.". fez par com Montgomery Clift em "Um Lugar ao Sol". fez ainda "Ivanhoé". entorpecido pelo álcool e com uma perna engessada devido a um acidente. Logo depois. de Robert Wise. em 1957.. "Assim Caminha a Humanidade" e "A Árvore da Vida".

Folha de São Paulo. Se um se livrar do problema do outro. Daniel Filho falou que o segredo do filme estava na escolha do casal. A edição desta segunda-feira da "Tela Quente" vai exibir o filme "Se Eu Fosse Você". estrelado por Tony Ramos e Glória Pires e dirigido por Daniel Filho. 174 . A comédia conjugal é o gênero que melhor funciona para Daniel Filho". ultrapassando a marca de R$ 49 milhões. autor da ideia. de quebra. Em reportagem publicada pela Folha Online. A liderança nesse quesito ainda pertece a "Titanic" (1997). As duas questões já estavam amplamente presentes no romance de Patricia Highsmith que deu origem ao roteiro. Alfred Hitchcock mais do que justifica sua fama de "mestre do suspense". um dos grandes sucessos do cinema nacional da chamada retomada. o desenvolvimento da trama "não é nada tão inédito. que designa o reaquecimento da produção desde o fim da Embrafilme. jogador de tênis. mas tudo correto. nada tão profundo. tem problemas com a ex-mulher. pois a situação em si já tinha graça. A comédia "Se Eu Fosse Você 2" atraiu mais de 5. que lhe recusa o divórcio. Guy Haynes. ano que marca a retomada do cinema nacional. crítico da Folha. próximo volume da Coleção Folha Clássicos do Cinema --disponível nas bancas no domingo--. Apesar da crítica não ter sido muito favorável ao filme --considerando-o uma "comediazinha arroz com feijão" com o objetivo de "faturar"--. atraindo um público de 3. conta a história de um casal em crise que troca de corpos misteriosamente. Essa marca coloca o filme de 2006 na quarta posição da lista dos filmes brasileiros mais vistos desde 1995. Bruno Anthony. O longa. odeia o pai.6 milhões de pessoas. no começo dos anos 90. O blockbuster nacional também atingiu a vice-liderança no ranking de arrecadação nas bilheterias.3 milhões de espectadores para as salas de cinema. de Alfred Hitchcock Em "Pacto Sinistro". "Eu precisava de atores que pudessem ser comediantes e econômicos. Ele se faz valer de seu reconhecido domínio da linguagem cinematográfica para eletrizar o espectador e. Uma passada de mão a mais poderia estragar a cena". A trama é simples: um homem sinistro aborda um total desconhecido e lhe apresenta o plano de um crime perfeito. Antes. pois serão assassinatos sem motivos aparentes. Segundo Inácio Araújo. 13/04/09 (50) Coleção Folha traz "Pacto Sinistro". "Se Eu Fosse Você" foi um grande sucesso de bilheteria. não devem ser descobertos. o posto era de "2 Filhos de Francisco". Sequência de sucesso A continuação desse sucesso do cinema brasileiro bateu o recorde de público da retomada. abordar dois de seus assuntos favoritos: o duplo e a transferência de culpa.

ainda que de maneira inconsciente. Protagonistas destacados Apesar da direção precisa de Hitchcock. O livro que acompanha o DVD traz fotos do filme e ainda um texto que descreve a produção de "Pacto Sinistro". ocorre o diálogo que deslancha a história: "Está armada a trama em vários aspectos. Folha de São Paulo. exceto o fato de que estamos em uma estação ferroviária e ambos caminham na direção de um trem". Hitchcock apresenta a questão do duplo de forma direta. pois queria "um homem mais forte". É o medo profundo do típico herói hitchcockiano: ser acusado de um crime que jamais cometeu. Bruno arma para incriminar Guy. como Bruno. ele deseja a morte da frívola esposa. É verdade que Hitchcock declarou a François Truffaut que gostaria mesmo de ter William Holden no papel de Guy. interpreta reações ambíguas de Guy como um sinal para levar sua ideia macabra adiante. além de comentários dos críticos Roger Ebert. um sapato claro. são muito diferentes entre si. como mostra o texto do crítico Inácio Araujo que integra este volume da coleção: "Vemos pernas se movendo em direções opostas. desde a compra dos direitos do livro até a data de seu lançamento. nada funcionaria tão bem se não fossem os atores principais. dá conta do recado e está perfeitamente convincente. nos torna potencialmente assassinos. mas sabemos que. Bruno. Tudo parece colocá-los em oposição. Assim racionava Hitchcock. Robert Walker. mas Farley Granger. mente doentia. Há também biografias de Alfred Hitchcock. André Bazin. mas especialmente em um. mas com um ponto em comum: são sedutores e charmosos à sua maneira. teve um fim trágico: morreu no ano seguinte ao lançamento do filme. Patricia Highsmith e do elenco principal. e Robert Walker. leia trecho 175 . com sua decupagem cuidadosa. Um sapato escuro. Bruno é capaz de remeter Guy ao mais fundo de seus sentimentos. diz Ugo Georgetti. O tenista recusa o pacto. Já nos planos de abertura. que já havia trabalhado com o cineasta em "Festim Diabólico". Assim também raciocinava o charmoso Bruno". Quando este se recusa a realizar sua parte do plano. como Guy. Claude Chabrol e Eric Rohmer. Durante a viagem. E o simples fato de desejar. no fundo. uma morte. o vilão Bruno. Farley Granger. vítima de uma reação alérgica provocada por um calmante. 16/04/09 (51) "América" de Sergio Leone evoca São Paulo dos anos 40.

Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia". É o último filme de Leone. é capaz de rever nesse filme suas próprias primeiras experiências e a atmosfera precisa em que elas se deram. Leia abaixo trecho do livro que traz o relato completo de Giorgetti sobre "Era Uma vez na América" e saiba mais sobre o livro. o Brás. as narinas elas também invadidas pelo cheiro particular vindo dos porões das casas. em algum dos grandes bairros de imigração de São Paulo. entre os anos 40 e 50. entre os anos 40 e 50. "Quem foi criado. Para Giorgetti." Sergio Leone. Aquela confusão nas ruas feita pelo movimento de automóveis. Cada um dos autores aponta e comenta dez filmes que levariam para uma ilha deserta. aquela gentarada estranha enchendo as calçadas. como um de seus prediletos. carretas e mesmo cavalos. Quem foi criado. nos informa o que o motivou a realizar esse filme complexo: a infância. A fascinação era imensa. como a Mooca. entre outros. a história dos garotos judaicos que crescem juntos nas ruas de Nova York reacende as memórias de quem cresceu em bairros paulistanos como a Mooca. o Brás. O relato do cineasta brasileiro sobre "Era Uma vez na América" está no livro "Ilha Deserta - Filmes" (Publifolha). imediatamente desfigurados e simplificados pela nossa tradicional falta de cerimônia e esculhambação. que morreu há 20 anos e ficou conhecido por reinventar o faroeste nos anos 60 com o "spaghetti-western". aponta o filme "Era Uma vez na América" (1984). buzinas e pregões. E é de uma certa infância que o filme trata de maneira soberba. Essas corruptelas hilariantes de seus nomes provavelmente acompanham alguns daqueles garotos até hoje. com suas próprias palavras. diretor de "Sábado" (1994) e "Boleiros" (1998). * SERGIO LEONE Era uma Vez na América "Todo o material referente à infância contido em The Hoods não cessava de me atrair. os ouvidos sendo invadidos por expressões em múltiplas línguas e múltiplos sotaques. a Bela Vista. Não podia deixar de me convencer de que a base do romance de Grey me inspirava muito. Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. O cineasta brasileiro Ugo Giorgetti. diz o cineasta. bondes. é capaz de rever nesse filme suas próprias primeiras experiências e a atmosfera precisa em que elas se deram". a Bela Vista e sobretudo o Bom Retiro e Santana. A publicação traz textos de Giorgetti e outros seis apaixonados por cinema. o Bom Retiro e Santana. 176 . E principalmente os amigos. do cineasta italiano Sergio Leone (1929- 1989). do interior dos pequenos negócios e das iguarias que iam de focaccie a burrecas. em algum dos grandes bairros de imigração de São Paulo. garotos às vezes com nomes estranhos e quase impronunciáveis. alguns envergando pesados sobretudos europeus sob o nosso calor.

cuja complexidade dá novos rumos ao gênero. no ensaio que acompanha o DVD neste volume da coleção. acima de tudo. Inácio Araújo e outros Editora: Publifolha Páginas: 224 Quanto: R$ 29. Amir Labaki. mas. basicamente). consistindo da empreitada de homens brancos tentando aproveitar economicamente o território ocupado pelos índios". respeita as características do gênero. Henry Miller.na época de seu lançamento. "Ilha Deserta . apoiados pela fotografia belíssima de Tonino Delli Colli. "Rastros de Ódio" é hoje considerado um dos melhores "westerns" já feitos e a obra-prima do diretor John Ford (1894-1973). Era uma Vez na América (Once Upon a Time in America. que compõe o 11º volume da Coleção Folha Clássicos do Cinema. "Rastros de Ódio" é uma odisseia de cores fortes. através do qual Leone acompanha cinco garotos que crescem e vagam incessantemente por um dos bairros de imigração como os que eu descrevi acima. Esse retrato fiel e poético da imigração só foi conseguido por meio das atuações estupendas dos atores . Ethan é movido pelo ressentimento e pelo desejo de vingança. seu espírito vagará pela eternidade. que durante sete anos procura sua sobrinha Debbie (Natalie Wood. é capaz de alargar seus limites. Em uma das cenas mais fortes do filme. Os "westerns" de John Ford ajudaram a forjar o mito da América: "Uma epopeia localizada no tempo (século 19. 177 . ser livre. O filme. impecável quando trabalha para grandes cineastas.Filmes" Autores: Ugo Agnaldo Farias. drama e movimento. O fato de que depois eles se tornam delinquentes perigosos é absolutamente irrelevante. raptada por índios. Significa acidente e incidente. Bernardo Carvalho. 1984) é isso: sonho. 22/05/09 (52) "Rastros de Ódio" é o próximo volume da Coleção Folha Praticamente ignorado pela crítica --e pelo Oscar-. segundo a própria crença indígena. em uma de suas melhores atuações no cinema). disponível a partir de domingo. em um de seus primeiros papéis no cinema). Significa. escreve o crítico da Folha Inácio Araujo.00 Folha de São Paulo. escreveu: "Nascer nas ruas significa vagar por toda a sua vida. e pela maravilhosa trilha sonora de Ennio Morricone. sonho" (Primavera Negra). O sonho das ruas. ele atira no rosto de um índio recém-enterrado e justifica sua atitude: sem os olhos.quer dizer: dos meninos -. ao mesmo tempo. só que em Nova York. O filme narra a saga de Ethan (John Wayne. fotógrafo habitual de Leone e Pasolini. num livro cuja atmosfera lembra muito o filme de Leone.

conto minha histórias da forma mais simples. O romance de Hemingway se passa em Cuba. por exemplo. aceita a proposta de integrantes da resistência e aluga seu barco para levar um de seus líderes. quando se viu com dificuldades financeiras. um filme como "Os Imperdoáveis". levou o estúdio encomendar um novo roteiro a William Faulkner. que transferiu a trama para a colônia francesa da Martinica. ainda sob a presidência de Fulgêncio Batista.. Hawks então convenceu a Warner a comprar os direitos de adaptação. cujo protagonista traz muitos dos traços do personagem de Ethan. 28/05/09 (53) DVD de Coleção Folha exibe clássico de Hawks Os créditos de "Uma Aventura na Martinica". Howard Hawks na direção. Autor de quase 50 filmes dos mais diversos gêneros. impressionam: Humphrey Bogart e Lauren Bacall à frente do elenco. Folha de São Paulo. colocando a câmera à altura do olhar de um homem". Hawks deixou como marca um estilo direto.. Hemingway riu da proposta e a recusou. Como em "Casablanca". uma jovem sem dinheiro para voltar para casa. mas a possibilidade de surgirem problemas diplomáticos com Cuba. O primeiro roteiro. era bastante fiel ao livro. a trama se passa em uma colônia francesa sob o regime do governo de Vichy (aliado dos nazistas). no texto que faz parte deste volume. voltou à ideia. porém. como qualquer um as veria. onde o autor viveu boa parte de sua vida. com grande sucesso. é o triunfo deste princípio.". Harry é um expatriado americano que trabalha acompanhando turistas ricos em seu barco. O personagem de Bogart em "Uma Aventura. atração da Coleção Folha Clássicos do Cinema do domingo que vem. com Bogart à frente de um romance com um pano de fundo histórico. roteiro de William Faulkner e Jules Furthman a partir de um livro de Ernest Hemingway (originalmente chamado "To Have and Have Not"). Quer se manter à margem da situação política até que conhece Marie "Slim" (Lauren Bacall). "Nunca emprego artifícios. segundo o crítico da Folha Inácio Araujo. 178 . Para conseguir ajudá-la. entre eles os clássicos "Scarface" (1932) e "Onde Começa o Inferno" (1959). o faroeste crepuscular que Clint Eastwood realizou em 1992. no Caribe. assinado por Jules Furthman. Sem "Rastros de Ódio". mas. Essa mudança fez com que o filme fosse constantemente comparado a "Casablanca". disse certa vez. Num primeiro momento. e conta a história de um americano contrabandista de rum que vive entre Havana e Key West. guarda diferenças importantes. não seria possível imaginar. "Uma Aventura na Martinica". que a própria Warner havia produzido dois anos antes.

em 2005. Isabeli Fontana. que se trata da coisa mais fácil do mundo. e é fácil concordar. que atua desde 2001 como diretor de produtos audiovisuais da SPFW. Adriana Lima e Carol Ribeiro. ainda em negociação). O filme levou quatro anos para ser concluído. durante a SPFW (São Paulo Fashion Week). Ele precisou correr atrás delas. Cenas ficcionais foram acrescidas às verdadeiras. contava a história de uma modelo estreante. numa festa para mil convidados no shopping Iguatemi. não havia a pretensão de transformar o material num longa-metragem. "interpretada" pela atriz Alice Braga. um roteiro (por Renata Terra) que. em perguntar-se qual a estatura de um homem. Nova York e Londres. da ascensão ao panteão fashion e dos seus planos para o futuro.Um Conto de Fadas Brasileiro" é a primeira tentativa de registrar em imagens uma parte fascinante dessa história: a das garotas que saíram dos grotões do país para se Dirigido pelo carioca Richard Luiz. O lançamento do documentário acontece no próximo dia 15. o filme traz depoimentos das principais tops brasileiras. Folha de São Paulo. que organiza a SPFW. com sua equipe de duas pessoas. após deixarem essa profissão que dura o mesmo tempo que a juventude. Isto é: o que faz de um homem um homem?". que não basta colocar a câmera à altura do homem para chegar a bons filmes. em paralelo às declarações das tops consagradas. Milão. e mais raros ainda foram os filmes. Produzido pela Protótipo Filmes e pela Luminosidade. É evidente. tudo conduzido pela voz de uma narradora. e suas agruras para conseguir um lugar ao sol. "Ele dizia. A agenda agitada das tops também atrasou o longa. chega ao DVD. afirma o diretor. Na época. até agora foram poucos os livros que buscaram abordá-las. Os primeiros depoimentos e imagens foram feitos durante a produção de um calendário com 25 modelos. então. "Mas vi que poderia ser algo maior do que uma série de entrevistas. Raquel Zimmermann. Foi feito. 31/05/09 (54) Filme mostra vida de modelos brasileiras A moda brasileira já possui um bom número de histórias para serem contadas. Uma cópia em película será feita para exibição internacional. Elas falam do início da carreira. 179 . "Top Models" custou cerca de R$ 800 mil. Em dezembro. "Gastamos muito tempo para obter a liberação de imagens de desfiles e publicidades de grandes grifes estrangeiras". Rio. Porto Alegre e mais outra. pelas principais cidades da moda --Paris. Luana. Poderia ter um ponto de ficção misturado com depoimentos reais". No entanto. Seu segredo consistiu. justifica Luiz. O novo documentário "Top Models . em grande medida. Salvador. o filme será exibido em versão digital em cinco capitais brasileiras (São Paulo. porém. como Gisele Bundchen. No final de julho. destaca o crítico.

Os depoimentos das modelos são a melhor coisa do filme. que tem lançamento neste mês em DVD. um pouco de sorte. um marco na época em que estreou. coloca uma calcinha preta. também dirigida por Daniel Filho. Uma organização sigilosa --cujo lema é livrar o país de todo tipo de criminosos-. 180 . Cinco anos depois. "Foi um papel carbono dos seriados americanos muito divertido de fazer". sempre com tiros. não acha emprego. por ter gostado do resultado de "A Vida como Ela É". e sim de sua personagem Diana Maciek. mas não deve nada com relação aos efeitos especiais. Mas não da atriz carioca de 43 anos. perseguições e culpas. gangue de motoqueiros e serial killer de gays. de "A Justiceira". claro. Assim dá início a mais um dia. ainda mais dependente de heroína. Ela é uma agente da Polícia Federal. tremi na base. Mas considero legal ter feito por ter inaugurado o seriado de ação no Brasil. perseverança e. casada. parecem inocentes. Malu conta que aceitou fazer a série "sem nem querer saber o que era". coldre nas costas e dá um beijo no bebê. O seriado ficou datado no que diz respeito ao roteiro e às questões morais.recruta a moça para enfrentar ladrões de material radioativo. bota de couro. Depois de topar 'A Justiceira'. quando vi que teria de pular de helicóptero. ALCINO LEITE NETO VIVIAN WHITEMAN Folha de São Paulo.drogado ao extremo. "Adaptar Nelson Rodrigues era um biscoito fino para as massas. 07/06/09 (55) Malu Mader ataca como matadora Malu Mader toma banho." Daniel Filho foi para os EUA finalizar os episódios e aprender como montar aquela estrutura no estilo de programas como "A Dama de Ouro". vende o filho para comprar drogas e morre de overdose. em 1997. Ela acaba deixando a PF ao atirar no próprio parceiro de trabalho numa ótima sequência de ação em um treme-treme do centro de São Paulo. que. hoje. Elas falam com simplicidade e franqueza sobre suas carreiras. e o marido. sai do chuveiro. conta ele nos extras. revelando como seus "contos de fadas" foram construídos com trabalho. mortes. mãe recente e enfrentando as dificuldades de um marido músico e --ela vai descobrir um tempo depois-.

O filme conta a história de jovens da periferia em um projeto social de música. A segunda fase da série. Depois. sobre o qual não dá muitos detalhes. às 22h. fez em 2007 a Eva de "Eterna Magia". mas tenho coragem. com mais um assassinato brutal e humanos sendo sequestrados e torturados por vampiros. Acho que isso afastou outros convites". Os extras do DVD. Foi a certinha Maria Clara.90 Classificação: não indicado a menores de 16 anos LÚCIA VALENTIM RODRIGUES Folha de São Paulo. Na semana passada. R$ 49. Na TV. Outro motivo para deixá-la longe da telinha é um novo filme. além de depoimentos sobre conceitos musicais. Via 'As Panteras'. mas não acho que tenha nada de uma Pantera na Diana. porque. Ela trabalhou até os cinco meses de gestação --"com Antonio pulando lá dentro". que fez com Mini Kerti e foi sua estreia na direção. trazem alguns personagens cortados do filme. "Deve demorar um pouco. A empolgação com a carreira de diretora ("onde tudo é novo") tem reduzido o espaço para novos papéis: "Eu falava desse projeto para todo mundo. como aliás tudo aqui no Brasil." "A Justiceira . que estreia na HBO no dia 19. é de 2003 o último sucesso de Malu. Ela é muito mais sofrida. além da barriga da gravidez. desta vez de ficção. eu passei a comer muito e fui engordando [risos]. ela finalizou o material adicional de "Contratempo". "Nunca tinha assistido a Kate Mahonney. há uma nova onda de crimes. sexo e. Quero mostrar o seriado para meu filho mais novo para ele ver o estrago que fez. que sai em setembro." A série teve de ser encurtada de 32 episódios para 12 em razão da segunda gravidez de Malu. tem ainda mais mortes. Já no primeiro episódio. 181 . Louisiana. Malu diz não ter se inspirado em ninguém. bastante sangue." Atrás das câmeras O lançamento do antigo seriado acontece simultaneamente a um projeto no outro extremo. "Era bem complicado correr com uma barriga daquele tamanho. mas a novela das seis não foi bem no Ibope. Escrever é uma empreitada para macho.DVD" Distribuidora: Som Livre. é claro. de "Celebridade". 07/06/09 (56) Segunda temporada de "True Blood" estreia dia 19 na TV paga Nem todo o sangue derramado na primeira temporada de "True Blood" foi suficiente para saciar o apetite por violência na pequena Bon Temps. E a câmera teve de ir fechando mais no rosto.

questão que se apresente. Criado por Alan Ball a partir dos livros de Charlaine Harris. Agora. R$ 120 Classificação: 18 anos LETICIA DE CASTRO Folha de São Paulo. os conflitos entre vampiros e humanos estão mais acirrados. A convivência turbulenta entre humanos e mortos-vivos é sintetizada no romance entre a protagonista Sookie Stackhouse (Anna Paquin). sejamos francos. no caso. entra para uma seita antivampiros que tem como objetivo impedir as criaturas de conquistar os mesmos direitos dos cidadãos comuns. A discussão sobre os direitos civis dos mortos-vivos --uma metáfora sobre a delicada questão da tolerância na sociedade americana. o programa mostra vampiros "saindo do caixão" e tentando se integrar à sociedade após a descoberta de sangue sintético. mais recentemente. o sueco "Let the Right One In". e o vampiro galã Bill Compton (Stephen Moyer). enredo de mistérios e um discreto subtexto político. A questão proposta é: a substituição de um método impessoal pela aproximação caso a caso pode salvar um jovem desencaminhado? Não é.ganha destaque. ainda que seja. personagens centenários da cultura pop. 11/07/09 (57) Tom impessoal enfraquece drama "real" Os "fatos reais" podem ser uma armadilha fatal. TRUE BLOOD . Segundo o "New York Times". a estreia da segunda temporada teve 3.1ª TEMPORADA Distribuidora: Warner. Com forte apelo sexual. Como a propaganda não coincide com a vida real. Como se não bastassem os vampiros. Roberto Carlos aos 13 anos já é considerado um caso irrecuperável. uma garçonete com poderes telepáticos. para quem não existe alguém irrecuperável nessa idade. o casal terá de lidar com a chegada de uma nova vampira. um menino que a mãe. "True Blood" é responsável por colocar os vampiros. A galeria de seres e acontecimentos sobrenaturais também ganha novos personagens. espécie de bruxa que chega bancando a boa samaritana. Jason Stackhouse (Ryan Kwanten). E a história. perigosos e sexies. o irmão inconsequente de Sookie. os transmorfos e os exorcismos vistos na primeira fase --que sai agora em DVD--. é um dos sucessos da TV americana. Ao lado de filmes como o blockbuster adolescente "Crepúsculo" e. eles ainda renderão muitos frutos para Hollywood. uma nova personagem ganha espaço: a misteriosa Maryann Forrester (Michele Forbes). é de Roberto Carlos Ramos. entrega à Febem mineira para ser criado pelo Estado. Nesta segunda temporada. Eles são a base de "O Contador de Histórias". pois. Isso até que entra em cena a pedagoga Margherit (Maria de Medeiros). Gélidos. por falta de condições e acreditando na propaganda da TV.4 milhões de espectadores e foi o programa mais visto na HBO desde o final de "Família Soprano". a adolescente Jessica Hamby. na moda mais uma vez. que fica sob a responsabilidade de Bill. o filme nos lança 182 .

A impessoalidade da empreitada já se nota pelo número de roteiristas (quatro) -compreende-se que a Febem seja vista ora como um inferno. com sua mistura de ícone romântico. E nisso a forma não desmente o fundo. quando não inexistentes. Ela é amorfa como. de atendimento mais próximo das crianças e adolescentes envolvidos). mais ou menos. tanto que foi fechada e substituída por um sistema de pequenas unidades (portanto. o nome de Vincent van Gogh tornou-se um lugar-comum. Quando se trata de biografar artistas então. 2009 Quando: estreia na sexta-feira Classificação: não informada Avaliação: ruim INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo. a questão inexiste. ora como um promissor purgatório. onde o menino foi deixado. Quanto à mise-en-scène. O suicídio que encerrou sua trajetória curta e fulgurante pôs fim com chave de ouro a uma história feita sob medida para o cinema e sua queda pelo melodrama. o que sobra de real falta de verdade ao filme de Luiz Villaça. haja o que houver. A Febem. Não. 02/08/09 (58) Pialat evita melodrama e cria elos entre pintura e cinema em "Van Gogh" A eterna relação de fascínio entre o cinema e a pintura flutua desde a inspiração até o vampirismo daquele frente a esta. Se a ideia de Margherit (isto é. era uma instituição monstruosa. as conservadoras jamais acreditarão. reconhecimento tardio e mito rebelde. Dos "heróis irresistíveis" da arte. do filme) é demonstrar que as pessoas não são más por natureza. Desse ponto de vista. mas agem em grande medida em vista do ambiente social que frequentam. ela consegue perder o momento mais promissor da trama: quando o jovem e ameaçador Cabelinho invade a casa de Margherit. O CONTADOR DE HISTÓRIAS Direção: Luiz Villaça Produção: Brasil. além de uma direção de atores precária (Maria de Medeiros está bem entre atores mal conduzidos). Em outras palavras. os filmes parecem antes de tudo querer projetar ideais raros. Por um instante parece que teremos uma sequência hitchcockiana. teoricamente. 183 . também aí estamos chovendo no molhado: as mentalidades liberais acreditam nisso há um século.num beco sem saída. todo o conjunto.

90 Classificação: 16 anos Avaliação: ótimo CÁSSIO STARLING CARLOS Folha de São Paulo. além de um curta feito pelo próprio Pialat nos anos 60. Sem ilusionismos Com o álibi de filme sobre artista. em vez de se perder em confissões. no modo como Van Gogh é um homem sem qualidades). passa a ser aquele que oferece uma experiência sublime. VAN GOGH Lançamento: Versátil Quanto: R$ 44. o mito já havia recebido revisões assinadas por grandes como Resnais. É na concepção de quadro. No entanto. mas sem sentido. demonstra o diretor a partir de seu modelo. Pialat recupera explicitamente em "Van Gogh" sua própria experiência como pintor. espaço delimitado por quatro linhas que se abrem ou se fecham que tanto pintor como cineasta impõem uma visão (no sentido de ponto de vista) ao espectador. aqui. Minnelli e Altman. da obra de Van Gogh realizada por Kurosawa em "Sonhos". Inadequação. mesmo quando retrata um tema ou uma vivência identificada como banal (exemplar. que nos arranca do torpor. Conhecido mais por seu temperamento irascível do que pelo rigor e pela forma antiespetacular de seu trabalho. Pialat executa um dos mais profundos trabalhos pictóricos já feitos no cinema. 09/08/09 (59) Oliver Stone filma biografia lisérgica de Jim Morrison 184 . o "Van Gogh" de Pialat será tão idiossincrático quanto o ultraromântico de Minnelli e o despojado de Altman. nos acordos de luz e cor que muitas vezes nos levam a perder nosso olhar no ilusionismo da beleza. sem permitir confundir pintura com empetecamento da imagem ou com a reprodução impressionante. O diretor francês nos faz ver que entre cinema e pintura a similitude não se esgota na superfície da tela. então. Pialat aborda o artista enquanto mito pela contramão. Logo.Quando chegou às mãos do diretor francês Maurice Pialat em 1991. incompreensão e insubordinação às regras não constituem valores em si. dando a entender que o raciocínio aplica-se sem mudanças a seu trajeto de autor. prática que exerceu antes de se converter em cineasta. O artista. Os outros não passam de captadores de imagens.

fez o mito em torno dele aumentar exponencialmente. pelo fato de arrebanhar muitos espectadores que já são fãs da banda ou do gênero retratado. o ator Frank Whaley (que interpreta o guitarrista Robby Krieger) tira um sarro das extravagâncias de Val Kilmer. documentários e boas entrevistas com os atores e a equipe. aos 27 anos (em Paris. "People Are Strange". E é radicalmente autoral também. apenas como "Jim Morrison". a despeito de hits como "Light My Fire". sua grande força estava no carisma do cantor e poeta Jim Morrison. Stone apresenta sua visão do mito Jim Morrison e consegue agradar até os fãs do "rei lagarto". Oliver Stone conseguiu o raro feito de unir o útil ao agradável. até que. Oliver Stone. reclama de Meg Ryan (no papel de Pamela Courson) ter escondido o seio com a mão numa cena de sexo com Val Kilmer (Morrison): "Ela não entendeu nada dos anos 60 e estragou minha cena". THE DOORS Direção: Oliver Stone Lançamento: Sony Pictures (R$ 39. por exemplo. deu neste filme. 20 anos depois. É um trabalho árduo esse de fazer um filme de rock. Se o diretor já começa ganhando. abusando de cenas de viagens lisérgicas. "Touch Me". em circunstâncias pouco esclarecidas). "Hello. bêbadas ou simplesmente alucinadas. 16/08/09 (60) Longa propõe experiência física da guerra 185 . por outro lado esse mesmos fãs são cricris o suficiente para exigir que cada detalhe da vida do astro seja reproduzido sem maiores liberdades. Em outro momento. de 1991. durante as filmagens do longa. revelando que o astro não aceitava ser chamado pelo próprio nome. O que mais chama a atenção nas entrevistas é que elas não se limitam a louvar o filme e o diretor. O filme é informativo. de Los Angeles no fim dos anos 60. Com "The Doors". O fato de ele ter morrido em julho de 1971. E. tanto em relação à banda como em relação ao clima dos Estados Unidos e. que incluem 14 cenas deletadas.90. classificação: 18 anos) Avaliação: ótimo IVAN FINOTTI Folha de São Paulo. DVD duplo. chegamos a este DVD duplo com um disco só de bons extras. quase mais 20 anos depois. "Roadhouse Blues" e "Riders on the Storm". I Love You". O The Doors lançou seis álbuns de estúdio entre 1967 e 1971 e. mais especificamente.

os integrantes do grupo Delta vivem sob o risco contínuo de explosões. o que o filme propõe é uma experiência física da guerra. quando poderão retornar aos Estados Unidos e rever suas famílias. sobretudo. Além desse triunfo no âmbito do realismo. quando o filme mostra a indecisão de um soldado de folga diante de uma prateleira de cereais num mercado. sigla para as bombas improvisadas que rotineiramente destroçam reuniões de iraquianos e. sai diretamente em DVD no Brasil. norte-americana. a câmera aflita de Bigelow reconstitui uma percepção dessa experiência que o registro jornalístico-documental nunca alcança e que os games. não passou aqui em salas. em sua dimensão de projeção virtual. Câmera aflita Grudada em três soldados. Enquanto aguardam ansiosos a chegada da folga. mas acabou recebendo um tratamento cinematográfico com peso equivalente ao do trauma provocado por ela na sociedade norte- americana. porque basta a inserção de uma pausa nesse universo concentrado. seu fiapo de história resume-se a acompanhar um grupo especialista em localizar e desativar IEDs. de vez em quando. porque carrega a cada passo militar o peso intervencionista. libelo pacifista ou manifesto politizado. o filme nos leva a experimentar um conflito marcado menos por combates abertos. invasivo e de pouca receptividade da presença norte-americana. Enquanto a Guerra do Vietnã demorou. Para isso. De um lado. a concentração quase somente em cenas de ação faz de "Guerra ao Terror" um filme cuja ressonância política vai além da obtida pelos documentários que nos mostraram seus horrores. GUERRA AO TERROR Direção: Kathryn Bigelow 186 . "Guerra ao Terror". Em vez de drama humanista. despacham soldados americanos mais rápido para casa. dirigido pela sempre interessante Kathryn Bigelow. Mas. enquanto o modo de captar e reproduzir suas imagens serviram para o cineasta Brian De Palma questionar a veracidade do que acreditamos só de ver no magistral "Redacted". Agora. ataques de franco-atiradores e formas ainda mais cruéis inventadas pela resistência iraquiana. A vivência dos soldados foi reconstituída com crueza nas séries de TV "Over There" e "Generation Kill". o impacto do envolvimento do país na atual Guerra do Iraque vem sendo recuperado pela ficção audiovisual com intensidade e quase em tempo real. já ultrapassaram. Infelizmente. frontais e espetaculares e mais pela recorrência de subterfúgios característicos de guerrilha. depois de receber prêmios no Festival de Veneza em 2008 e a boa acolhida geral da imprensa. pois só mesmo a exibição em tela de cinema deve ser mais impactante que a visão do filme em TV. para sentirmos uma violência cujo impacto não se mede em explosões. Ao se inserir no grupo.

A estranha recepção que lhe dão os Stanford (rica família do melhor amigo do rapaz). o DVD chega praticamente sem nenhum extra. exceto a angústia de David. em grande parte. Se não aspira à realidade. "A Sombra da Forca" propõe-se. digo.Lançamento: Imagem Filmes (R$ 35. que nunca se sabe se está defendendo ou atacando o seu constituinte. vindo do Canadá. Há momentos em que tudo parece nos escapar. Não dá para acreditar em nada. que chega em Londres. pois Losey dá-se ao luxo de trabalhar uma intriga que não fecha. como um pesadelo e é lá que vive e faz sentido. como fiapos de memória que cabe ao espectador. recolher. até percebermos que nada aqui aspira à realidade. A busca desesperada do pai por evidências para livrar o filho da pena capital. Assim. 24 horas antes da execução do filho.90 Avaliação: bom 187 . A SOMBRA DA FORCA Diretor: Joseph Losey Lançamento: Lume Quanto: R$ 49. esse estranho filme nos propõe uma espécie de "whodunit" (quem é o culpado?). 16/08/09 (61) Thriller de Joseph Losey desafia o espectador ao usar clima de pesadelo Não dá para acreditar em nada de "A Sombra da Forca". O advogado ambíguo. em média) Classificação: 14 anos Avaliação: ótimo CÁSSIO STARLING CARLOS Folha de São Paulo. pois sabemos que o verdadeiro culpado está entre as pessoas em cena. A interpretação dos atores é crispada (e por vezes se tem a impressão de que Joseph Losey escolheu os piores ou menos adequados atores da Inglaterra). Mesmo a luz de Freddie Francis está mais próxima de um filme de terror do que de um thriller policial. não esgota todos os dados que lança mas deixa-os um tanto soltos. As peripécias policiais baseiam-se menos em provas e achados espetaculares do que no poder de convicção dos diversos envolvidos. mas não é bem isso. Um pai alcoólatra. o escritor David Graham (Michael Redgrave). E só assim pode ser compreendido. Propõe uma espécie de mergulho na psicologia dos personagens. então. de quem também as coisas escapam à medida em que se aproxima o momento da execução. Mas também não é bem isso. É uma pena: apesar da boa qualidade das imagens. Nos fazer participar intensamente desse pesadelo em que David Graham joga toda sua vida não é o menor dos méritos de "A Sombra da Forca".

feito em 1981 e interditado pela censura até 1987. Dois dos primeiros longas de ficção do diretor polonês chegam ao DVD e atestam o seu rápido amadurecimento como autor de cinema. Já estão presentes ali algumas marcas do futuro criador do "Decálogo": o foco em personagens em situações de impasse. 23/08/09 (62) Filmes são Kieslowski em formação "Cinemaníaco" e "Acaso". mas sobretudo no uso das cores (o violeta. estão entre os primeiros longas de ficção realizados pelo polonês. o amarelo) na composição de um espaço dramático profundo e pulsante. o uso criterioso da câmera na mão. o transcendesse esteticamente. INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo. é a chegada esbaforida do protagonista à plataforma de uma estação. e os papéis assumidos por Witek não estão assim tão distantes um do outro. Não é só no enredo engenhoso que se forja a densidade desse drama sobre os dilemas da ética. o pendor para as paisagens desoladas. cheio de desvãos onde os seres podem se encontrar ou se perder. seu cinema estivesse colado ao real e. Não há aqui o esquematismo que se esperaria do mesmo tema nas mãos de um Ettore Scola. um incômodo documentarista da vida cotidiana de sua cidade. O "expressionismo cromático" do "Decálogo" e da "Trilogia das Cores" tem talvez aqui a sua bela gênese. "Cinemaníaco" (1979) oscila entre a sátira política e o melodrama pessoal ao narrar a história de um funcionário de empresa estatal (Jerzy Stuhr) que compra uma câmera de 8mm para filmar o nascimento do filho e acaba se tornando. do amor e da fé (política. Krzysztof Kieslowski (1941-96) começou fazendo documentários. Nas outras duas. O "nó de tempo". Witek (Boguslaw Linda). lançados agora em DVD. o cineasta oficial da firma e. ele alcança o trem para Varsóvia e se torna um agente do partido oficial do regime comunista. depois. 188 . Os tempos alternativos não são compartimentos estanques. primeiro. Esse aprendizado deu-lhe a segurança necessária para que. que o estilo de Kieslowski começa de fato a florescer. Trata-se da narrativa complexa de três caminhos alternativos para a vida de um estudante de medicina. ao encarar a ficção. Witek perde o trem e embarca em vidas diferentes: ativista dissidente ou médico apolítico. a encruzilhada de destinos possíveis. religiosa). Mas é em "Acaso". ao mesmo tempo. Numa das alternativas.

Ali. Por suas características rebeldes e transgressoras. porém.ACASO/ CINEMANÍACO Diretor: Krzysztof Kieslowski Lançamento: VideoFilmes Quanto: R$ 46 (cada um. esquecido. em média) Avaliação: ótimo/ bom JOSÉ GERALDO COUTO Folha de São Paulo. Foi a única obra dirigido pelo californiano Fred Haines. assim com seu eu interior. de 1974. Sente-se aprisionado pelas convenções morais. esnobado. cultuado e. de "Born to Be Wild"). É. após sete anos de produção tempestuosa. está aprisionado dentro da casca humana. que só admite a entrada de "loucos e raros". dirigido e escrito pelo americano Fred Haines. provavelmente. Haller conhece Hermine e Pablo. 06/09/09 (63) Como no livro original. Nobel de literatura em 1946. que o conduzirão numa balada de sexo sem amarras e drogas sem culpa. seu principal e mais controverso romance. "O Lobo da Estepe" traz o grande ator sueco Max von Sydow no papel de Harry Haller. lançado em DVD. Basicamente é esse o caminho tortuoso do filme "O Lobo da Estepe". Hesse havia publicado "O Lobo da Estepe" em 1927. um lobo selvagem. depara-se com uma casa noturna onírica chamada Teatro Mágico. Resolve. o romance foi redescoberto pela contracultura nos anos 60 (chegou a dar o nome à banda de rock norte-americana Steppenwolf. finalmente. Trata-se de uma adaptação livre (e como poderia ser diferente?) do romance de mesmo nome do germano-suíço Herman Hesse (1877-1962). A história trata de Harry Haller. Em suas andanças pela cidade. direto ao inconsciente. um homem com 47 anos que não consegue se adaptar à vida na sociedade. O filme Lançado em 1974. suicidar-se no dia em que completar 50 anos. pois o preço do ingresso é a sua mente. 189 . assim. filme "Lobo da Estepe" é para raros Obra de 1974 virou cult ao levar para o cinema o romance de Herman Hesse Renegado.

Querendo escapar das garras dos estúdios. Fishman queria "o primeiro filme jungiano". de fundo de quintal. um financiador assumiu o controle da obra. o que ajuda em muitos momentos. É preciso. Usam-se muitos efeitos especiais de vídeo. o que acarretou em um ataque cardíaco para Fishman. Morreu sozinho e triste. ao mesmo tempo em que é underground. outro momento usa animação de fotos. com Haines na cadeira de diretor. surreal. cidade suíça onde "O Lobo da Estepe" havia sido escrito e. Terminadas as filmagens. As filmagens Antes do diretor. assim como o Teatro Mágico original. caseira. como o lobo da estepe planejara. apareceu por lá e foi testado para o papel de Harry Haller. onde foi descoberto o LSD. O primeiro diretor convidado foi Michelangelo Antonioni. imagens se congelam durante a ação. curiosamente. A MGM sondou atores como Marlon Brando e James Coburn e escritores como Fred Haines. Sydow. Dominique Sanda e Pierre Clement ("A Bela da Tarde". céus verdes e árvores cor de laranja. dar algum desconto ao diretor e à década à qual o filme pertence. Sumiços e aparições de surpresa. Parte das cenas são gravadas em videoteipe. mergulhado na psicanálise. finalmente. cujo roteiro para "Ulisses". o obcecado produtor passava horas filmando o escritor Fred Haines lendo sua versão do roteiro embaixo de uma lâmpada de 150 watts. havia sido indicado ao Oscar em 1968. O LOBO DA ESTEPE 190 . Até Timothy Leary. é para raros. Dois anos depois. O filme. muitas acompanhados por ruídos ridículos fazem lembrar episódios televisivos de "Os Trapalhões". Apesar de trazer uma narração em off do protagonista. ainda lutando para ter controle sobre a obra. Mas essas cenas se tornam um tanto simplórias quando vistas hoje. portanto. no qual mais tarde é aplicado outro fundo. que pensou em Walter Matthau e Jack Lemmon para o papel principal. Foram feitas 80 cópias com cores erradas (o olho azul de Dominique Sana ficou marrom) e o filme foi um fracasso. de James Joyce. como o de cromaqui -no qual o ator contracena num fundo azul. Apaixonado pelo livro e por Carl Jung (de quem Hesse era discípulo). antes de declarar a obra infilmável. Após sete anos de tentativas. Tudo contribui para dar uma cara lisérgica. Lá. "O Lobo da Estepe" foi arquitetado pelo produtor Melvin Fishman no final dos anos 60. Fishman teve outra parada cardíaca. nos símbolos e nas imagens de sonhos como expressão do inconsciente. de 1967) começaram a filmar. estranha. O que há é uma explosão de ideias e técnicas: uma parte da história se passa em desenhos. efeitos especiais pululam por todo canto. o guru das drogas. Fishman carregou uma equipe de produção até a Basiléia. claustrofóbica. não há uma linearidade fácil.

contrastando com o último. o mal-estar é forte. no caso. antes. o tom de "Naked" lembra o de uma ressaca. Ou. 12 anos). programado para hoje para ser o encerramento e ponto alto da série dedicada a Hitchcock. E. por hoje. "Naked" sai agora em DVD sem nunca ter sido distribuído nas salas. O 191 . 20/09/09 (65) Em clima de ressaca. 13/09/09 (64) "A Vila" é momento alto na carreira de Shyamalan Passa. Mas o tempo se infiltra nesse paraíso artificial e o corrompe. 12 anos) é um momento alto. de Mike Leigh. Premiado no Festival de Cannes com direção e ator (David Thewlis) dois anos antes da Palma de Ouro para Leigh por "Segredos e Mentiras" (1996). Aos poucos. em média). e para falar em termos de cinema: cenografia e figurinos. 22h. finalmente veja a luz do dia no Brasil meses após o lançamento nos cinemas de "Simplesmente Feliz" (2008). sua obra mais risonha. Mas é esse pouco amado M.Direção: Fred Haines Lançamento: Platina Filmes (R$ 20. a delicadeza do olhar e do traço foram se impondo em sua obra. ao menos de quem já conhece "Psicose" de cor. Ali uma comunidade recusa o mundo tal como se apresenta e pretende reconstruí-lo curado dos males -e do pior de todos: o tempo. da qual "A Vila" (TNT. é claro. um tanto de atenção. mas a sensação de estar vivo também. filme de Mike Leigh explora uma Londres sombria Chama a atenção que "Naked" (1993). INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo. Night Shyamalan que merece. porque esse mundo está montado sobre a mentira. É a crônica mais sombria de Leigh. O indiano. o purifica. como ocorre em ressacas. "Psicose" (TC Cult. 18 anos Avaliação: bom IVAN FINOTTI Folha de São Paulo. 19h40. Não é injusto. com efeito. misturava algo oriental a um suspense bem ocidental em "O Sexto Sentido".

O trio Johnny. que morreu precocemente em 2002). Johnny é maduro o suficiente para entender um suposto mau humor de Deus e ainda jovem o bastante para odiar isso. assumem visões de mundo e de classes sociais em sonoridades peculiares da paisagem britânica. O eixo da trama é Johnny (David Thewlis). mesmo lembrando "Depois de Horas" (1986). em média Classificação: 18 anos Avaliação: ótimo KLEBER MENDONÇA FILHO Folha de São Paulo. um pouco como a própria Londres. Ele sairá pela cidade numa odisseia de encontros fortuitos que. na noite londrina de Leigh Johnny é o motor de tensões constantes. Essa dureza tem na fala uma verdade britânica notável. aspecto também percebido em "Kes" (1969). o casal de escoceses na rua e o outro personagem masculino em cena. que divide o espaço com a sempre aérea Sophie (Katrin Cartlidge. Se na noite nova-iorquina de Scorsese o personagem é passivo. NAKED Distribuição: Lume Filmes Quanto: R$ 39. com espasmos de sobriedade tocante. o skinhead Trevor de "Made in Britain" (1984). Como Loach. O charme pós-punk de Johnny leva o trio a um colapso imediato. ainda soa notável e original. Louise e Sophie. Jeremy (Greg Cruttwell). tem a verve de um poeta marginal afiado. Charme pós-punk Aos 27. Mike Leigh destaca o som do falar na Grã-Bretanha com ouvidos abertos. de Ken Loach. Nos seus piores momentos. ou Francie Brady. 27/09/09 (66) Drama de Douglas Sirk chega aos 50 anos com frescor intacto 192 . o proto-punk mirim de "Nó na Garganta" (1997). É um chato com alguma razão que explica sua má aparência como tentativa de mesclar-se aos ambientes. de Martin Scorsese. Ele faz parte de uma galeria peculiar de ingleses. São agentes do caos com sensibilidades insuspeitas. Louise (Lesley Sharp). outro momento importante do cinema britânico lançado há pouco pela mesma distribuidora Lume Filmes. Chega na casa da ex-namorada. como o Alex de "Laranja Mecânica" (1971).filme segue algo de bêbado e nublado.90.

Alienação Ao lado disso. Lora é uma atriz. Susie. embora renuncie com desenvoltura à arte em troca de um bom emprego. O que é verdadeiro no filme com que Douglas Sirk encerrou a carreira (em estúdios). Steve. Ao contrário da primeira versão do filme (1934). Em dado momento. A branca Lora e a negra Annie cuidam de suas filhas. Importa o seguinte: quanto mais Lora progride em sua carreira. Ela o faz com um tipo de inocência característico dos brancos que. ela tem de renunciar ao amor de Steve. logo faz a exigência clássica do machismo mais machista: que a mulher abandone a carreira e se deixe cuidar por ele. mas mais parece um cáften. ela pedirá a Sarah Jane que execute tarefas de criada. Ela é consciente apenas de sua inferioridade (e adaptada a ela). compatível com sua natureza servil. Sarah Jane é negra. Ainda não existem os direitos civis. A única que sabe quem é. É bem verdade que Steve. ela tenta cobrir a filha de mimos. mas não terá mais a companhia da mãe. Impossível saber até que ponto isso é hipocrisia. por tratarem os negros em pé de igualdade. Ora. Ela deve ser a única pessoa não deslocada nessa história. a negra que é negra. Não porque seja consciente. Annie. Susie e Sarah Jane. Quer dar a ela tudo o que não teve. Ela se comporta como se não houvesse discriminação racial. embora só apareça em fotos publicitárias. como que lhes exigem uma retribuição. A filha sabe em que mundo vive e da necessidade de escapar disso. num primeiro momento namorado todo cheio de dedicação. Obsessão que torna sua presença insuportável para Sarah Jane. que não passa por deslocamentos. que não vive as mentiras e a corrosão dos desejos é Annie. em que a negra se tornava o sustentáculo da casa graças às suas fantásticas panquecas. a empregada dedicada e servil. o que não significa que não seja. embora saiba que ela não é criada. Neste filme que chega aos 50 anos em plena juventude. aqui Douglas Sirk sabiamente a mantém sempre numa posição subalterna. oferecendo suas atrizes a produtores de teatro e cinema. como princesinhas. Para desenvolver sua carreira. como todos os demais. No mais. 193 . então? Annie. Existe uma brancura ostensiva em Lora. existe Annie e sua obsessão pela verdade. Steve é um fotógrafo. Susie irá para os melhores colégios. A única maneira é se passar por branca. mais a cor branca se mostra predominante nas paredes e na decoração de sua casa. talvez. embora seja branca. o sr. narra-se em princípio a história de duas mães. alienada. o que é possível para ela.Último trabalho do diretor em grande estúdio gira em torno de jogo de aparências Nada parece verdadeiro em "Imitação da Vida". Todos pensam que são algo que não são: Lora. desde que negue sua origem e seja um travesti do branco a que ela tanto aspira para não ser desprezada. Loomis é um agente. ocorre que sua carreira de atriz de repente deslancha. Na medida do possível. Sarah Jane. Então.

Para lembrar: a novela "Coração das Trevas". que sai num DVD sem extras. o sentido quixotesco e romântico da aventura também fizeram a beleza da obra. de certa forma. 11/10/09 (67) Obra mítica de Coppola é melhor na versão "curta" Nem sempre o "director's cut". Um dos maiores exemplos é "Apocalypse Now". que foi amaldiçoada nos EUA antes de ser apresentada (ainda 194 . que impunha desafios para a adaptação ao padrão vigente por sua estrutura narrativa. que corroía os valores da sociedade americana. Mas esse sentido de urgência. alienados. afastando o espectador de uma obra original e pulsante. Coppola. Coube a John Milius a tarefa de verter a história do empreendimento colonial em xeque para a convulsionada Guerra do Vietnã. a remontagem feita pelo próprio cineasta de seus filmes. às idiossincrasias geniais e megalomaníacas de Coppola. Essa obra mítica. de 1979. o fato de ser centrada não favorece a empregada. Apenas significa que interiorizou com sucesso a condição de escrava. IMITAÇÃO DA VIDA Distribuição: Classicline Quanto: R$ 34. esse título que Francis Ford Coppola havia "renovado" como "Apocalypse Now Redux" em 2001. Se todos os outros são. mas com formato correto e boas cores. uma metáfora para o fracasso da civilização europeia. Por isso. foi resgatado por outro "enfant terrible" do cinema. de Joseph Conrad.80 (12 anos) Avaliação: ótimo INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo. transformada em barbárie na África primeva. uma série catastrófica de eventos marcou definitivamente o filme. já era um título perseguido nos EUA desde os anos 30. que tentava nos anos 70 reconstruir a Hollywood dos grandes estúdios -mas em versão "autoral". melhora o produto original. passando por um ataque cardíaco do ator principal (Martin Sheen) no meio das filmagens e orçamentos estourados de forma espetacular. Seria o primeiro projeto revolucionário de Orson Welles em Hollywood -até ser cancelado e virar um ícone. De um tufão que destruiu o set nas Filipinas. As filmagens foram um desastre. é uma ótima notícia que seja relançado em sua versão original. filme emblemático e brilhante que fechou a psicodélica década de 70 nos EUA. as imperfeições. O tempo torna cada vez mais evidente a dimensão desta obra-prima.

Desde então. assim como na música. Sendo Larry David o autor e ator de "Curb".incompleta) de forma triunfal em Cannes. 11/10/09 (68) Elenco de "Seinfeld" está de volta (mas não muito) Nos EUA. nos quatro episódios exibidos até agora. atores apareceram em apenas um. os quatro atores de "Seinfeld" só aparecem em um -nos outros. na trama. pai do diretor. 195 . Músicas adicionais "inéditas" de Carmine Coppola. APOCALYPSE NOW Distribuidora: Universal Quanto: R$ 19.90 (16 anos) Avaliação: ótimo MARCOS STRECKER Folha de São Paulo. O mistério. É todo esse patrimônio que foi colocado a perder na versão "remasterizada". onde ganhou a Palma de Ouro. com três câmeras e riso da plateia. muitas vezes os pequenos ruídos da versão "vinil" reproduzem uma obra mais real. inventado nos anos 50 e que dura até hoje. No cinema. eles interpretam a si mesmos e pensam em fazer reunião Desde o dia 20 de setembro. Por exemplo. a temerária remarcação de luz "plastificou" a fotografia de Vittorio Storaro. a reunião não será de verdade. Além disso. a tribo formada pelos órfãos de "Seinfeld" nos EUA se reúne nos domingos à noite para assistir ao que mais perto se vai chegar de uma reunião daquela que é considerada por críticos a melhor série cômica já exibida pela TV americana. não faziam falta no original. "Curb Your Enthusiasm" (HBO) inseriu em sua trama o que seriam os bastidores do elenco original de "Seinfeld" se reunindo para fazer mais um episódio da série. É o que a tribo de espectadores vem descobrindo a cada semana. são só mencionados. aparecem em pequenas cenas ou nem isso. a inquietação. Os 49 minutos adicionais incluíram digressões supérfluas e trouxeram justificativas desnecessárias para personagens que emergiam como figuras bíblicas e mitológicas em meio à névoa. a loucura da guerra e a aventura lisérgica foram substituídos pela contemplação enfadonha. que foi de 1990 a 1998 e marcou um dos últimos momentos de criatividade de um formato -a sitcom. série "Curb Your Enthusiasm" inclui trupe do programa extinto em 1998 Nos 4 episódios exibidos.

ele é o que manteve uma carreira mais coerentemente fértil. atoleimado que está com os cartazes de mulheres nuas do restaurante a que David o levou. E cabe a David vender a volta à NBC. SÉRGIO DÁVILA Folha de São Paulo. Richards não presta atenção. Coautor de "Seinfeld". cuja torcida ainda o venera como um 196 . ele mente a cada um que os outros já aceitaram.. Alexander acha bom uma volta para redimir o péssimo último capítulo da série -uma crítica verdadeira que se faz ao encerramento do programa. especialmente inseguro com mulheres. O episódio em que tudo acontece foi o terceiro. baseado em peça de sua autoria. e acaba dizendo sim. produto de fantasia. No plot armado por ele para fazer "a reunião que não é reunião". É nesse momento em que os fãs estamos pendurados. e nada de "Seinfeld". passa a trocar ideias sobre seus diversos problemas com outro Eric. ele briga com o executivo da emissora e corre o risco de ficar sem reunião -e sem mulher. de "Casablanca" (1942). Nos convites individuais. Desde então. mais um foi ao ar. que disputou a mostra competitiva do Festival de Cannes deste ano. Confuso? É para ser assim. Situação parecida alimenta "À Procura de Eric". carteiro de Manchester. disse David. o ex-jogador francês Cantona (interpretado pelo próprio). entrou na sétima temporada com sucesso. Desde o fim da série. Eleito pela revista inglesa "Four Four Two" como o maior jogador estrangeiro a atuar no país. Assim. Michael Richards e Jason Alexander interpretam a si mesmos interpretando a si mesmos enquanto falam com Larry David sobre a volta para mais um episódio - tudo dentro de "Curb". No meio do caminho. Julia Louis-Dreyfus. em que interpreta a si mesmo em situações plausíveis mas exageradas para efeitos cômicos. David é o John Lennon para o Paul McCartney de Jerry Seinfeld. Seu "Curb". Eric (Steve Evets). Seinfeld. que recebe conselhos do seu ídolo Humphrey Bogart. Seinfeld desconfia dos verdadeiros motivos do amigo que ele conhece muito bem. Hoje é dia de "Curb" nos EUA. Para sua surpresa.. Cheryl (Cheryl Hines). E a série vai caminhando para o final. exibido em 3 de outubro. Cantona fez história nos anos 90 pelo Manchester United. Woody Allen é um crítico de cinema. cria um motivo torpe para chamar os ex-colegas a atuar com ele: quer dar um papel secundário à ex-mulher. caracterizado em presença sobrenatural. domingo passado. e assim reconquistá-la. Seinfeld e o elenco aceitam. como o durão Rick. 18/11/09 (69) Comédia dramática faz de Cantona um guru Em "Sonhos de um Sedutor" (1972).

semideus. Temperamento belicoso e arrogância nada disfarçada também o transformaram em alvo
do ódio de torcedores rivais.
Foi o que lhe custou uma vaga na seleção francesa que obteve o título mundial em 1998: o
técnico Aimé Jacquet preferiu abrir mão dele (depois de longa suspensão por envolver-se em briga
na arquibancada) e de outro ídolo francês que também atuava na Inglaterra, David Ginola, a correr o
risco de desestabilizar o jovem elenco.
É outro Cantona, mais sereno e sábio pelo efeito do tempo, que aconselha seu fã em "À
Procura de Eric".
Estamos em cenário semelhante ao das outras crônicas sobre a classe trabalhadora britânica
realizadas pelo diretor Ken Loach e pelo roteirista Paul Laverty, como "Meu Nome É Joe" (1998).
O solitário carteiro Eric, no fundo em busca de si mesmo, não superou a separação da primeira
mulher (Stephanie Bishop) e tem problemas com os filhos adolescentes da segunda, que o deixou.
Seu processo depressivo é acompanhado não só por um sobrenatural Cantona mas também por
amigos de trabalho e torcida, que exercerão papel importante nessa comédia dramática em que
predomina o valor da solidariedade.

À PROCURA DE ERIC

Quando: hoje, às 15h50, no CineBombril; e em outros dois dias e horários de exibição
Classificação: livre
Avaliação: bom

SÉRGIO RIZZO
Folha de São Paulo, 25/10/09

(70) Anárquica, série dos anos 50 ajudou a formatar humor na TV

Caixa reúne primeira temporada de "I Love Lucy", produção que liderou audiência

Muitos dos pais de fãs de "Seinfeld", "Friends", "Will & Grace" e "Two and a Half Men" ainda
não haviam nascido quando o modelo de seriado cômico era formatado por um casal que reinou
durante a década de 50 como o mais popular da TV norte-americana.
De 1951 a 1957, Lucille Ball (1911-1989) e Desi Arnaz (1917-1986) produziram e estrelaram 181
episódios de "I Love Lucy", que obteve o primeiro lugar de audiência em quatro de suas seis
temporadas (nas outras duas, ficou em segundo e em terceiro lugares).
Os alicerces desse fenômeno, que se mantém ainda hoje como um dos mais bem-sucedidos na

197

história da TV nos EUA, se espalham pelos 35 episódios da primeira temporada recém-lançada em
DVD em caixa de sete discos que traz ainda o episódio-piloto, perdido durante décadas e só exibido,
como relíquia, em abril de 1990.
Nele, um narrador conduz o espectador até um pequeno apartamento no sétimo andar de um
prédio de Nova York próximo à região dos teatros e das casas noturnas, onde despertam -em camas
separadas- Ricky e Lucy Ricardo. Cantor, ele se prepara para uma importante apresentação; ela quer
acompanhá-lo, contra a vontade dele.
O argumento para um seriado que falasse de modo bem-humorado sobre o cotidiano de um
casal veio do programa de rádio "My Favorite Husband", criado em 1948 e estrelado por Ball, que
interpretava a mulher de um banqueiro. Quando a rede CBS se interessou em adaptá-lo para a TV
com a própria atriz, Arnaz entrou no pacote.
Os dois se conheceram nas filmagens de "Garotas em Penca" (1940) e se casaram em
seguida. Ao fundar, em 1950, a produtora Desilu, tentavam justamente viabilizar trabalhos conjuntos.
A negociação com a CBS possibilitou que assumissem a produção do seriado, os direitos sobre os
personagens e a autonomia criativa.
Levado ao ar em outubro de 1951, o primeiro episódio, "As Garotas Querem Ir a uma Boate",
já estabeleceu parâmetros duradouros, como um apartamento de classe média para os Ricardo, mais
cenográfico do que o ambiente do piloto, e a presença de um casal de vizinhos, Ethel (Vivian Vance)
e Fred Mertz (William Frawley).
No segundo episódio, "Seja Companheira", as variações em torno da situação-base -marido
que parece desinteressado da mulher- incluem brincadeiras com as origens cubanas de Ricky (e do
próprio Arnaz) e uma referência ao Brasil, em homenagem a Carmen Miranda (1909-1955), com Ball
dublando "Mamãe Eu Quero".
Semana após semana, cada nova meia hora foi consolidando características técnicas -como
a gravação com quatro câmeras diante de uma plateia, o primeiro seriado a fazer isso- e
dramatúrgicas, com destaque para os diálogos ágeis.
Duelos verbais, frases de duplo sentido e humor às vezes anárquico, mas sempre para
consumo familiar, lembram que esse gênero televisivo tem como avós Ricky e Lucy Ricardo.

I LOVE LUCY - 1ª TEMPORADA

Distribuição: Paramount
Quanto: R$ 129,90 (em média)
Avaliação: bom

SÉRGIO RIZZO
Folha de São Paulo, 25/10/09

198

(71) Mostra ressalta importância que escultor dava à fotografia

Entre destaques está painel com 71 fotos que reproduz montagem de 1900

O escultor francês Auguste Rodin (1840-1917) já foi tema de duas exposições antológicas na
Pinacoteca do Estado. A primeira, em 1995, reuniu 200 mil pessoas e representou a consagração do
espaço como o museu mais dinâmico da cidade. Já em 2001 foi a vez de "A Porta do Inferno", que
consumiu 20 anos de trabalho de Rodin, levar novas hordas de visitantes ao local.
Assim, em menos de 15 anos, "Rodin: do Ateliê ao Museu", em cartaz no Masp (Museu de Arte de
São Paulo), traz novamente obras do escultor. Redundante? Não. A mostra apresenta um tema
relevante não só em seu processo como também para a própria arte moderna: a importância da
fotografia.
A exposição, organizada em parceria com o Museu Rodin, em Paris, reúne 22 esculturas e
194 imagens que refletem a relação de fato intensa entre o artista e seus fotógrafos. Rodin começou
a registrar suas obras e seu ateliê em 1880, quando esse procedimento tornava-se mais maduro,
após 40 anos de experimentação.
Em seus arquivos, foram encontradas nada menos do que 25 mil fotografias, sendo que
7.000 delas foram encomendas do próprio Rodin. Por tudo isso, pode-se perceber como mesmo os
fotógrafos se interessavam em registrar as esculturas de Rodin, um objeto mais simples de trabalhar,
quando eram necessários alguns minutos para conseguir registrar uma imagem com foco.
Desde 1896, o artista exibia suas esculturas junto de fotografias, o que comprova a importância que
Rodin dava a estas últimas. No Masp, um dos exemplos mais significativos disso é o painel com 71
fotos de Eugène Druet expostas da mesma maneira como o artista e seu fotógrafo o fizeram em
1900, em sua exposição na place d'Alma. Composto por imagens ora repetidas, ora realizadas por
ângulos distintos, esse painel é um testemunho de que Rodin não via a fotografia somente como um
registro mas como algo mais complexo.
Nos tempos modernos, que se firmavam na virada do século 19 para o 20, quando Rodin
realizou tal exposição, a aceleração dos processos de reprodução e circulação era fundamental, e a
fotografia, um de seus meios mais eficazes.
Rodin era tão consciente do papel crescente desse processo e do eventual prejuízo que ele
poderia causar, que tinha contratos de exclusividade com os fotógrafos com quem trabalhava,
controlando seu modo de fazer. No contrato assinado com Ernest Bulloz, um dos presentes na
mostra, ele manteve para si "a direção artística da reprodução de suas obras no que tange à
iluminação e à forma de exposição".
O percurso da mostra, então, apresenta os vários fotógrafos de diversas nacionalidades que
trabalharam com Rodin num sistema de real parceria, como Eugène Druet, seu favorito, Bulloz, que o
sucedeu, e os experimentais ingleses Stephen Haweis e Henry Coles, que gostavam de registrar as
esculturas no momento do pôr do sol.

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RODIN: DO ATELIÊ AO MUSEU
Quando: de terça a domingo, das 11h às 18h; quintas, das 11h às 20h; até o dia 13/ 12
Onde: Masp (av. Paulista, 1.578, tel. 0/xx/11/3251-5644)
Quanto: R$ 15
Avaliação: ótimo

FABIO CYPRIANO
Folha de São Paulo, 01/11/09

(72) Amos Gitai perde vigor do passado

Em duas novas produções, diretor retoma questões e história israelita com olhar conservador

Os "travellings" laterais continuam elegantes. Mas é possível perguntar se o cinema de Amos
Gitai não terá chegado a um ponto de saturação em que a precisão de alguns anos atrás dá lugar,
cada vez mais, à retórica?
Pois assim parecem as coisas em "A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas",
adaptação teatral do texto histórico de Flavius Josephus sobre a tomada da Galileia pelos romanos
no ano 70 a.C. Relato de enorme beleza sobre o momento crucial em que os judeus perdem sua
autonomia, que o próprio Gitai encenou no Festival de Avignon (França).
Transposta para o cinema, a mise-en-scène teatral parece um tanto grandiloquente e as grandes
estruturas de ferro montadas para a ocasião enfatizam o caráter épico do momento bem menos do
que o esforço da própria direção.
Em "A Guerra dos Filhos..." encontram-se os mesmos ecos do passado sobre o presente que
surgem em "Carmel": a trágica história israelita rebate sobre cada gesto, torna-o uma interrogação
angustiante. Aqui, Gitai procede a uma espécie de colagem em que se encontram desde a invasão
romana (representada de outra maneira que não a da peça) até os dias atuais.
Lá estão os pais de Amos (pioneiros do Estado de Israel), seu filho preparado para a guerra, o próprio
Amos orientando um ator que fará seu papel (de soldado, na guerra de 1973, quando estava num
helicóptero acidentado), fotos de família e de infância, a mãe em filmes familiares etc.
"Carmel" aproxima a história pessoal da coletiva e faz o retrato de um Amos Gitai mais sensibilizado
pela infausta história dos judeus desde a perda da autonomia, no século 1º a.C., do que
habitualmente. Mais angustiado, digamos logo (o que ocorre também na filmagem da peça teatral).
Existe lugar, claro, para os rumos de Israel. Seus pais mesmo vêm de uma experiência de esquerda,
laica, bem contraditória com opções políticas mais recentes.
No entanto, parece se notar menos espaço para diálogo com os árabes, ambição de várias
obras passadas do diretor israelense (mas não de "Um Dia Você Compreenderá", exibido na Mostra
de 2008). É uma conversa mais íntima desta vez: Amos, sua família, seu passado, seu país, seu
povo. A extensão pode ser grande, mas a natureza do diálogo é a mesma.

200

no final das contas. às 17h50. Se olharmos para seus filmes de uma ou duas décadas atrás. 25. por telefone. Voltando ao início: não é o assunto. 201 . destaque da Mostra de São Paulo do ano passado e premiado em festivais mundo afora (como em Cannes). às 20h20. de Lucía Puenzo ("XXY")." Puenzo volta a trabalhar com Inés Efron. é preciso sair de si mesmo com força. 32. sobre os conflitos de jovem hermafrodita. os "travellings". Não gosto de escandalizar. Às vezes. diz Puenzo. o olhar que parece se tornar um pouco acostumado demais ao problema que. às 15h50. e dia 5. A GUERRA DOS FILHOS DA LUZ CONTRA OS FILHOS DAS TREVAS Quando: hoje. nem mesmo as posições políticas o que tende a indicar uma inflexão conservadora no trabalho do diretor: são os procedimentos. Essa naturalidade para o "diferente" já estava no primeiro longa da diretora argentina Lucía Puenzo. tanto faz. escolheu como seu. quando a gente não mostra Alex [protagonista] sem roupa. conta saga de garotas entre Buenos Aires e vila do Paraguai Mistura de romance. numa série de eventos tão burlescos que. aventura e fantasia. no Unibanco Arteplex CARMEL Quando: hoje. nem a natureza do diálogo. o menor de seus problemas é serem namoradas e de classes sociais distintas. no Unibanco Arteplex Classificação: 14 anos (ambos) Avaliação: bom (ambos) INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo. à Folha. 01/11/09 (73) Argentina narra fantasia de casal gay "O Menino Peixe". Elas deviam viver o romance de maneira bem natural e não fazer disso a questão do filme". atriz de "XXY" e estrela em ascensão na Argentina. "Foi como em "XXY". não encontramos nos de hoje o mesmo vigor. "A todo momento eu dizia para as duas atrizes [de "O Menino Peixe'] que isso não era importante. em suma. que era o que todo mundo queria ver. com razão. "O Menino Peixe" conta a saga de duas jovens que se envolvem em roubos e assassinatos. "XXY". podia ser a história de um homem e uma mulher.

quando tomamos decisões que vão nos definir para sempre. na mistura de gêneros. foi complicado deixar a sala de edição. numa cena subaquática realizada com efeitos especiais. O filme navega por tons diferentes. sobre os filhos de um argentino que leva um banco à falência e foge de casa. Elas têm planos de morar juntas perto de um lago no Paraguai. 202 . "É uma idade muito poderosa. que trabalha em sua casa em Buenos Aires. mas acho que isso acabou virando parte de sua identidade. É aqui que surge o momento fantástico. A diretora admite que. sai no final do ano. nem adultos". lhe dá autoconfiança. FERNANDA EZABELLA Folha de São Paulo. a primeira mulher de Benito Mussolini (Filippo Timi). a obra se passará numa cidade deserta na Patagônia. Em resumo. Literatura "O Menino Peixe" é baseado em seu livro de estreia. desde então. ela já rodou outros dez. Em "O Menino Peixe". 01/11/09 (74) Bellocchio faz um estudo sobre o poder O sexo e a política sempre foram os vetores do cinema de Marco Bellocchio. Enquanto escreve roteiros para outros diretores e finaliza seu novo livro. lhe dá um filho. "A Fúria da Lagosta". não somos mais crianças. "O mais difícil [de fazer o filme] foi achar uma identidade. mas um assassinato as separa e põe Lala numa viagem de descoberta ao país vizinho. um ritmo para a história. Puenzo se prepara para rodar seu terceiro longa em 2010. todos falam de jovens. já publicou outros três livros. ela faz a garota de classe média alta Lala. diz Puenzo. quando Lala encontra um dos segredos de sua amada. nesse encontro de gêneros. ela lhe dá dinheiro para criar um jornal. Em comum. Puenzo tinha então 23 anos e. Esteio afetivo e material do jovem militante socialista." A fotografia intercala cores frias da casa sombria de Lala de Buenos Aires com cores quentes da vila paraguaia de Ypoá. "Vencer" é uma nova e complexa conjugação desse binômio. O quinto. incluindo longas com Lucrecia Martel ("La Mujer sin Cabeza") e Daniel Burman ("Ninho Vazio").Após o filme de Puenzo. lançado no Brasil neste ano pela Gryphus. trata-se da história de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno). Ainda sem título. embora nubladas. enamorada da doméstica paraguaia La Guayi.

Os dois têm material rico para uma questão essencial para o cinema. de potência criadora e de força de castração. O Duce deixa de ser um homem de carne e osso e se torna uma imagem nas telas de cinema. do indivíduo) passa a imperar a repressão. Mussolini renega Ida. ao romper com o socialismo para fundar o fascismo e arrebatar o poder. a antiga amante enfrenta os mil braços do regime para ser reconhecida como mãe do filho do Duce. A montagem é vibrante. À medida que o fascismo se institucionaliza e Mussolini canaliza seu impulso erótico para a guerra. O filme vira um melodrama. sinóptica. no HSBC Belas Artes 2 Classificação: 14 anos Avaliação: ótimo JOSÉ GERALDO COUTO Folha de São Paulo. às 19h10. filmado há quase 30 anos por João Batista de Andrade. nas fotos de jornal. 203 . política e erotismo se fundem em pura energia transformadora. ao recente "Estômago" (2006). Não é difícil sentir algo de retrocesso no jeito de olhar. Heraldo (José Dumont. há uma apologia da máquina e da velocidade. dirigido por Marcos Jorge. No filme de Andrade. 01/11/09 (75) Filme sobre preconceito no Brasil continua atual Rodado no final dos anos 70 por João Batista de Andrade. casa-se com outra e institui uma família "oficial". longa-metragem traz a melhor atuação de José Dumont Uma sessão dupla provocadora juntaria "O Homem que Virou Suco". Essa duplicidade aflora na forma narrativa: na primeira parte do filme. nos bustos.Mas. Unidos pelo elemento "personagem nordestino". a linguagem visual é gráfica. VENCER Quando: hoje. Esse poeta popular paraibano é dotado de um afiado senso crítico que testa São Paulo tanto quanto São Paulo o testa. Bellocchio se serve dessa história real para fazer um estudo do poder em seu duplo aspecto. tratada como louca. ambos os filmes oferecem leituras distintas sobre as relações de classe e de cultura no Brasil. da família. às 22h. no âmbito interno (do país. no seu melhor momento). Ambos lidam com "paraíbas" num ambiente de Sudeste hostil. no Unibanco Arteplex 2 e quarta-feira (4/11). Proscrita. a representação. recorrendo a letreiros e efeitos visuais que remetem ao nascente futurismo. há uma energia política que fortalece o personagem.

204 . de Luiz Sergio Person. chefe de multinacional. De qualquer forma. As imagens cruas são cheias de uma revolta peculiar à esquerda da época. podem ser facilmente associados à premiação de "O Homem. um dos inúmeros reconhecimentos que o filme teve. ela forneceu valiosa matéria-prima para outro notável cronista dos EUA em "Short Cuts . Um saco de batata frita passava de uma mão para a outra e o aniversariante tentava descobrir o que seu amigo ia lhe dar de presente naquela tarde. além da força mítica de São Paulo em relação ao brasileiro. Filmado na São Paulo do final dos anos 70. em 1980. num cruzamento. "O Homem que Virou Suco" talvez passaria melhor com "São Paulo S/A" (1965)." no Festival de Moscou. são filmes de eras distintas. Literatura sobre o fio perigoso das coisas.Cenas da Vida" (1993).. Distraído. parte dos esforços de contratação para a construção do metrô de São Paulo. mas a tentativa de o ambiente dobrar o indivíduo. as linhas gerais do choque entre mundo pobre e mundo rico dentro do Brasil continuam atuais. Floreios dogmáticos como a representação raivosa de um personagem americano. e foi imediatamente atropelado por um carro. Em "Estômago". Obviamente. o trecho acima ilustra o estilo seco de observação do cotidiano que caracterizava o norte-americano Raymond Carver (1939-1988).. Detratores poderão acusar um envelhecimento do material.90 (16 anos) Avaliação: ótimo KLEBER MENDONÇA FILHO Folha de São Paulo. suspeita-se de que o ponto de vista é o de um patrão pouco razoável para com o seu personagem serviçal. hoje. outro registro da cidade como estado de espírito. mas o valor histórico contextualizado talvez caia melhor. o garoto aniversariante estava indo para a escola com outro garoto. O HOMEM QUE VIROU SUCO Distribuidora: Original Quanto: R$ 31. É um filme dentro do filme que discute não só o preconceito." Extraído do conto "Uma Coisinha Boa". 08/11/09 (76) Filme-mosaico com dramas cotidianos é ponto alto na obra de Robert Altman "Na segunda de manhã. João Batista de Andrade prova o quanto estava afiado numa sequência essencial em que o poeta trabalhador assiste a um "audiovisual" de tom empresarial-fascista. sempre à espreita dos protagonistas. o aniversariante pisou em falso no meio- fio. Sua dignidade vem com uma raiva espontânea que manda às favas hierarquias estabelecidas de classe e de poder.

Como em "Magnólia" (1999. Que belo festival. 1994). as canções funcionam como comentários aos dramas vividos pelos personagens e se integram à ação de tal forma que o mosaico respeita o andamento da música. publicada no Brasil com o mesmo título (mas que. faz mudanças importantes e cria ao menos duas figuras cruciais. de Paul Thomas Anderson). todos apenas sobre coisas que acontecem ao personagens e fazem com que sua vida mude de rumo". como se o filme "erguesse os telhados" de casas. 15/11/09 (77) Assassino de série vira pai e encontra mentor 205 . o filme ganha música. Por meio delas -uma cantora (Annie Ross) e sua filha. "Short Cuts" dividiu o Leão de Ouro em Veneza com "A Liberdade É Azul".CENAS DA VIDA Distribuidora: Lume Quanto: R$ 39. na imagem do próprio Altman. mas acabou fazendo escola e deu origem a diversas "homenagens" e imitações. pois seus contos são todos ocorrências. cuja estrutura foi inspirada em "Short Cuts". uma violoncelista (Lori Singer)-. Inserido na obra de Altman em momento de alta no seu prestígio internacional. do polonês Krzysztof Kieslowski. significa "atalhos")."Vejo toda a obra de Carver como se fosse apenas uma história. usada não apenas para pontuar dramaticamente as cenas. SHORT CUTS . entre uma fábula ácida sobre Hollywood ("O Jogador". Duas dezenas de trajetórias são costuradas nos subúrbios de Los Angeles. nem mesmo na filmografia do próprio cineasta. para bisbilhotar o que ocorre. Cruzamentos Altman e o roteirista Frank Barhydt trabalharam sobre nove contos e um poema de Carver.90 (16 anos) Avaliação: ótimo SÉRGIO RIZZO Folha de São Paulo. explica Robert Altman (1925-2006) na introdução à coletânea. 1992) e um comentário irônico sobre o mundo da moda ("Prêt-à-Porter". em exemplar trabalho de garimpagem que cruza personagens e situações. em tradução literal. Não era um procedimento original.

faz com que ele capote o carro no caminho para casa logo no episódio de estreia da movimentada quarta temporada. Ele é um analista de provas para a polícia de Miami. não antes de matar um oponente que arrancava pedaços de pele das vítimas. Tempo para si mesmo. sente algo realmente. "Ele vai ter uma conexão com o matador.Na 4ª temporada de "Dexter". LÚCIA VALENTIM RODRIGUES Folha de São Paulo. onde sua irmã é detetive. 22/11/09 206 . Tenta ser mais humano. que conseguiu escapar com um histórico de mortes tão grande. os pontos de seu código de conduta e uma violência mais explícita. mas as coisas se complicam. Só que matar não parece ser uma delas. "É questão de tempo até que algo balance as coisas. Dexter se conecta com o filho. "Quem assistiu desde a primeira temporada nunca imaginaria Dexter casado e com filhos". É ele que inaugura as matanças ao incorporar um assassino que refaz crimes de 30 anos atrás. Ainda assim. É para ele que revela o grande segredo: "Papai é um serial killer". Nessa nova fase. entra na missão de pegar o Assassino da Trindade como seu novo troféu. ele tem certeza de que vai ficar bem." Além disso. aliado ao cotidiano do trabalho e às horas extras de seu segredo criminoso. Como a criança não chora. protagonista enfrenta vilão que mata há 30 anos Agora um homem de família. mas não se desvencilha da herança sociopata". em entrevista por telefone de Los Angeles. Dexter oficializou o casamento com Rita (Julie Benz) no final do terceiro ano do seriado. o que significa tempo para matar. diz. "É desafiador interpretá-lo com emoções. afirma Hall. "Esse conflito de interesses vai determinar quanto mais ele consegue segurar seu segredo". Hall. Dexter precisa de tempo. pedindo para que compre remédio para seu bebê. que vai ter de abrir mão de algumas coisas para assumir as responsabilidades de ser um chefe de família. No começo. define o ator. a princípio. O assassino de serial killers da série "Dexter" enfrenta a complexa agenda da vida de casado e pai. atualmente em exibição nos EUA e que entra no ar no canal pago FX no ano que vem. ele reverencia esse cara. vira um justiceiro e esconde seus rastros para que nem ela descubra quem ele é. Vai ser delicioso esse embate. Dexter. Agora. ele falsificava tudo. Sangue é o que move Dexter. O sono interrompido todas as noites pelo choro. durante o dia. há um tipo de desconexão que permite que ele continue matando." A nova temporada tem Dexter quebrando. com a chegada de John Lithgow (da comédia "Third Rock from the Sun"). À noite. Enquanto conversa com sua nova vítima. Vivido pelo ator Michael C. aos poucos. o cerco parece se fechar em torno dele. porque ele nunca se sentiu tão fascinado com alguém. é interrompido por um telefonema da mulher. De alguma forma.

(78) Protagonistas tentaram evitar relação para não confundir público de série

A vida imita a arte. Ou não.
Michael C. Hall e Jennifer Carpenter são irmãos na série. Na trama, ele foi adotado pelo pai
dela, que criou o código para aplacar a sede de matar de Dexter "com quem merece".
Na vida real, eles se casaram numa cerimônia particular durante o intervalo para começar as
gravações desta temporada.
"A gente tentou não se envolver, até para não confundir o público. E também qual era a
chance de a gente se casar, né? Mas, no final das contas, você acaba escolhendo viver sua vida.
Agora, me sinto mais completa e mais responsável", diz Jennifer Carpenter.
Já para ele, "a confiança é muito importante no set". "Nisso nossa relação ajudou. Não é sempre que
temos cenas juntos, então não é como se estivéssemos lado a lado num cubículo. Trabalhamos
juntos, mas não estamos grudados."
Segundo a atriz, eles também tentam não falar de trabalho em casa. "Só eu posso defender
minha personagem. Após tudo o que ela já passou, como ter um namorado que queria matá-la, ou
outro que foi assassinado a tiros e mais um torturado... Ninguém sabe mais do que eu por que Debra
não vive numa camisa de força. Não ligo para a opinião dos outros."
É ela que dá a definição mais interessante para Dexter. "Ele tem um quê de um herói dos
quadrinhos. Mas, por outro lado, é como uma bebida forte. Você sabe que tem um gosto amargo.
Mas tem dias que você quer algo que morda sua boca."
Lado feminino da vida de casal diante das telas, Julie Benz, que interpreta Rita, defende a
ingenuidade de sua personagem, que, mesmo dividindo a mesma cama, continua sem desconfiar do
"hobby" dele. "Ela está num sonho. Tem um marido, uma linda casa, um bebê. Vai perceber
pequenas mentiras, mas nunca imagina que ele possa ser um serial killer. Não dá para viver com
alguém se você identificar essa escuridão nela", explica.
Gostar de Dexter faz o telespectador entrar num dilema. Você torce para que ele se safe, mas
o que ele faz no tempo livre é assassinar pessoas.
"A chave é que ele só pega pessoas terríveis. Se ele matasse inocentes, não iam gostar dele.
E ele age como uma criança. O jeito que percebe o mundo e como interage com outros não é
calculista. Ele tenta realmente ser normal", diz Hall.

Folha de São Paulo, 22/11/09

(79) Drama de Sidney Lumet questiona TV

"Eu estava na CBS com Ed Murrow em 1951", diz o veterano jornalista Howard Beale a seu
chefe, em referência a um personagem célebre na imprensa dos EUA por enfrentar na TV o então

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senador Joseph McCarthy -episódio recriado por "Boa Noite e Boa Sorte" (2005), de George Clooney.
Beale quer dizer, com a lembrança, que participou da adolescência do telejornalismo americano e
também de sua entrada na vida adulta. Mas, nos anos 70, isso representava, para muita gente, que
ele era um dinossauro incapaz de se adaptar aos novos tempos em que jornalismo e entretenimento
começavam a se confundir.
Com a progressiva perda de audiência do telejornal que apresenta, Beale é demitido.
No primeiro dia de aviso prévio, abre o programa anunciando, ao vivo para todo o país, que vai
estourar os miolos na frente das câmeras dali a uma semana.
"Rede de Intrigas" (1976) acompanha a tormenta que move sua emissora a partir desse aviso
tresloucado.
Interpretado com exuberância por Peter Finch (1912-1977), que ganhou um Oscar póstumo
pelo papel, Beale é um personagem fictício que trabalha em uma também fictícia rede de TV dos
EUA, mas o drama insólito protagonizado por ele aponta para um jogo de forças muito concreto que
apenas se esboçava nos anos 70 e que, desde então, só vem se aprofundando.
A contundência e o caráter premonitório do filme se devem sobretudo àquele que os créditos
apresentam como seu autor, o lendário roteirista Paddy Chayefsky (1923-1981), que recebeu pelo
trabalho seu terceiro Oscar -os anteriores foram por "Marty" (1955) e "Hospital" (1971).
Veterano profissional de televisão, Chayefsky ambienta nos corredores da UBS -calcada nas "co-
irmãs" CBS, NBC e ABC- uma demolidora peça de acusação da transformação da vida
contemporânea em espetáculo, da banalização do jornalismo e do triunfo do cinismo sobre a
integridade moral, na TV e em outros quadrantes.
Além do pobre Beale, a trama -dirigida por Sidney Lumet ("Um Dia de Cão"), outro veterano
da TV tem como protagonistas o diretor de jornalismo da rede (William Holden) e uma inescrupulosa
executiva em ascensão (Faye Dunaway).
No vigoroso panorama do cinema americano dos anos 70, "Rede..." era apenas mais um
exemplo de como fazer filmes adultos a partir de temas sociais agudos. Em seu diagnóstico da TV,
talvez ainda não tenha sido superado.

REDE DE INTRIGAS

Distribuidora: Fox
Quanto: R$ 29,90 (14 anos)
Avaliação: ótimo

SÉRGIO RIZZO
Folha de São Paulo, 22/11/09

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(80) Sofrimento de jovem modelo turbina trama

Personagem bela e má que sofre acidente e fica tetraplégica remete a moralismos

"Eu não aguento mais, preciso sair daqui!" No leito da UTI, uma menina estonteantemente
linda grita por socorro. Ela não consegue se mexer do pescoço para baixo. Depois de um acidente,
ficou tetraplégica. E, no meio da noite, acorda desesperada, clamando por um amigo. Enquanto isso,
em nossas casas, em geral em boas condições de saúde, não conseguimos desgrudar os olhos da
TV.
A cena é tensa, e a atriz Alinne Moraes, que interpreta a modelo Luciana em "Viver a Vida",
de Manoel Carlos, comove. O acidente de Luciana foi, até agora, um dos pontos altos da novela, e
sua internação, idem. Mas por que assistimos fascinados à cena da garota jovem e bonita paralisada
e sofrendo?
Também vimos, com os olhos vidrados, a cena da família da jovem recebendo a notícia
desesperadora de que a menina "com a vida pela frente" havia ficado tetraplégica.
Tudo parece ficar mais pesado em "Viver a Vida" porque a personagem em questão é uma menina de
20 e poucos anos. Linda. Mimada. Será que o espectador se sente vingado porque a riquinha
supermal acostumada teve o que mereceu? Será que o que uma garota bonita e rica merece é sofrer
um acidente de carro? Será que é por isso que ouvimos (e temos algum prazer) hipnotizados a
menina gritando de desespero?
Na internet, já existe até enquete: "Você acha que Luciana mereceu ficar tetraplégica?".
Como se alguém merecesse tragédia desse tipo.
Claro. Espera-se que Luciana se recupere. E também que ela mude, vire uma pessoa melhor,
de bom coração. Só a dor salva? É preciso literalmente quase morrer para mudar? A modelo Luciana
faz pensar em muitos moralismos. A má sofre. Ser bonita e mimada mata.
O acidente da modelo (a profissão do momento, com que toda jovem telespectadora sonha) é o
assunto central da trama por enquanto, espécie de ápice. Antes de a novela estrear, já se comentava
que "uma menina ia ficar tetraplégica". Veríamos com fascinação o sofrimento, a recuperação lenta e
uma família desesperada.
Mas devemos gostar mesmo de ver moças (por que será que em geral são as mulheres
bonitas que agonizam em novelas?) no hospital. Afinal, já acompanhamos uma menina grávida
morrer após ser atropelada, em "Páginas da Vida". E todos os detalhes de outra jovem bonita com
leucemia (quem se esquece da cena em que Carolina Dieckmann raspou a cabeça?) em "Laços de
Família", ambas de Manoel Carlos.
Moça bonita em hospital dá ibope. E, ao desligar a TV, talvez a gente pense: "Não sou tão
bonita nem tão rica. Mas pelo menos não estou morrendo no hospital". Ou, se não sou bonita,
ninguém também pode ser.
NINA LEMOS
Folha de São Paulo, 29/11/09

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(81) Em edições oficiais, filmes de Truffaut evidenciam pulsação dos sentimentos

"Todo mundo quer amor, seja o físico, seja o sentimental." A fórmula, dita a certa altura pelo
protagonista de "O Homem que Amava as Mulheres", ilustra cada um dos títulos da filmografia de
François Truffaut (1932-1984). Representar sob múltiplos ângulos a validade universal dessa máxima
garantiu a seus filmes manterem intactos a beleza e o frescor.
Três deles, que tiveram recepção pouco acalorada em seus lançamentos, retornam ao
mercado em edições oficiais, ou seja, com o selo da qualidade da Versátil, e não nas versões
mambembes que a Silver Screen comercializa. "A Noiva Estava de Preto" (1968), "A Sereia do
Mississipi" (1969) e "O Homem que Amava as Mulheres" (1977) refletem, a seu modo, temas morais
e preocupações estéticas distintos. Vistos juntos, eles projetam a interpretação sempre irônica, mas
nunca cínica ou desencantada, de Truffaut sobre a pulsação vital dos sentimentos.
O primeiro do lote traz Jeanne Moreau, em seu único reencontro com o diretor após o mítico "Jules e
Jim - Uma Mulher para Dois" (1962). Em "A Noiva Estava de Preto", a atriz encarna Julie, uma viúva
cujo casamento terminou ainda nos degraus da igreja e que, por isso, toma por missão vingar-se dos
responsáveis pelo fim abrupto de sua promessa de felicidade.
"Noir" desde o título, essa farsa reaproxima o diretor do universo criminal que ele já
frequentara no magnífico "Atirem no Pianista" (1960). Mais que exercício de gênero, contudo, trata-
se, como define o próprio Truffaut, "de um filme de amor sem nenhuma cena de amor" e no qual cada
assassinato é encenado como obra de arte, num exercício de admiração ao gênio de Hitchcock.
Amor e morte(s) também servem de motor para "A Sereia do Mississipi", outra deliciosa farsa em que
Truffaut nos diverte invertendo as imagens àquela altura consolidadas de Jean-Paul Belmondo e
Catherine Deneuve, ele num registro antiviril e refém do romantismo, ela, avessa à doçura
sentimental, como predadora.
Do lado de lá da morte, Bertrand, o incansável sedutor de "O Homem que Amava as
Mulheres", entrega suas memórias como uma sucessão de conquistas. Por meio da dedicação de
seu personagem a todas as mulheres do mundo, alguém capaz de morrer de tanto amar, Truffaut
eleva sua crença romântica a uma altura que ele só ultrapassaria adiante no majestoso "A Mulher do
Lado".

A NOIVA ESTAVA DE PRETO, A SEREIA DO MISSISSIPI, O HOMEM QUE AMAVA AS
MULHERES

Distribuidora: Versátil
Quanto: cerca de R$ 100 (caixa) ou R$ 45 (cada um)
Classificação: livre
Avaliação: ótimo
CÁSSIO STARLING CARLOS
Folha de São Paulo, 29/11/09

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aparentemente. levou Kieslowski a refugiar-se "no básico": os dez mandamentos. aos títulos mais decisivos da carreira como ficcionista (numa série de filmes em que pouca gente levava fé). com pouco menos de uma hora cada um). alguns episódios poderiam ter rendido mais. chega-se facilmente ao igualitarismo como ideologia: os conjuntos habitacionais. lembra que a série foi concebida num momento particular. Passemos pela avaliação. É aqui que se manifesta um encontro quase perfeito entre uma circunstância (a agonia do comunismo). uma convicção (a crença no cinema como registro capaz de captar uma realidade fugaz. está longe de ser suficientemente explorada. e os colegas do cineasta achavam necessário tocar em questões urgentes. Zanussi salvo engano. Foi uma estranha e fértil intuição que. refere-se ao 211 . filme biográfico sobre Krzysztof Kieslowski que vem como um dos extras de "Decálogo". as insatisfações etc. "Não Cometerás Adultério" (a versão desta caixa é a dos filmes para a TV.(82) Série sobre os 10 mandamentos é a obra-prima de Kieslowski Caixa reúne produção que diretor fez para TV polonesa no final dos anos 80 "A inda Vivo". traçam o limite da vida. Ou não. quando "Ainda Vivo" trata da passagem de Kieslowski pela escola de cinema de Lodz. nessa Polônia insatisfeita -que não parece fazer parte nem da Europa ocidental nem do bloco comunista-. faz pensar que. Da igualdade como ideal. em que o comunismo agonizava. de fato. em que a tensão entre acreditar em Deus ou na ciência se apresenta com vigor. Era um momento de desespero. Esta. como os sindicatos. dos dez filmes. também. e é um outro cineasta. apressada. Porque os filmes vão justamente ao particular. padronização. Ora. se tivesse mais tempo de filmagem. como "Não Matarás" e "Não Amarás" -no filme. Mas tinha necessidade de fazer tudo rápido. cada um dedicado a um mandamento. Os episódios têm um cenário quase fixo: um conjunto habitacional que. como se quisesse não ver o mundo exterior à sua volta. O primeiro. hoje. em sua repetição insistente. dos anos de estudante de cinema ao trabalho como documentarista. também é muito forte. Uma espécie de "desenergia" em que as diferenças são anuladas. Foi justamente ao abstrair as lutas políticas que Kieslowski conseguiu resumir sua trajetória. Ali há calma. que chega aqui. "Amarás a Deus sobre Todas as Coisas". Sem símbolos. Poderia levar anos o projeto de dez filmes. contenção. são inspirados pelo espírito documental de Kieslowski. os filmes de "Decálogo" soam como um amplo documento da queda do comunismo na Polônia e em toda a Europa oriental. oculta por circunstâncias políticas várias (do nazismo ao comunismo). destacam-se claramente os que se transformaram em longas e acabaram por consagrar o cineasta internacionalmente. A contrapartida é: teria perdido o momento -e isso seria irreparável. que lembra o ritmo febril em que Kieslowski trabalhava. Em dado momento. Em alguns momentos. Como no passado. que vem dos primeiros trabalhos) e a fé cristã. na monotonia. representa o limite do sonho comunista.

em Londres.com crônica social sobre usos e costumes ingleses do pós-guerra. com amigos também distintos. habituados a suas visitas. combinando ingredientes do policial -especialmente do "filme de assalto".90 (cada disco) a 149. A tese é demonstrada. triste. em que. sobre amigos que planejam assalto perfeito. A trama funciona melhor em compactos 87 minutos e em sua paisagem original. traz extratos de uma entrevista coletiva do autor e o curta " O Escritório" (1966): é um começo. Eis uma coisa sobre o que a Polônia ainda deve explicações: o arraigado. diz ele. foi refilmada pelos irmãos Coen em 2004 Criminosos não devem ter compaixão por ninguém. de que se encontram bons fragmentos em "Ainda Vivo". DECÁLOGO Distribuidora: Versátil Quanto: de R$ 44. A edição de "Decálogo".ano de 1968. Viúva solitária que cuida dos papagaios deixados pelo marido como se fossem seus filhos. Wilberforce (Katie Johnson) mora em um sobrado antigo. que atravessa séculos e regimes políticos. ela resolve alugar os cômodos superiores. 06/12/09 (83) "Quinteto da Morte" faz rir com costumes ingleses do pós-guerra Comédia de 1955. Não se deixe impressionar pela fragilidade da refilmagem -que. para piorar. também é mais longa. ao menos na visão de uma 212 . a escola acaba porque os professores judeus são expulsos. cuja trama foi transportada para os EUA pelos irmãos Coen em "Matadores de Velhinha" (04). Todos na região a conhecem. indecoroso antissemitismo. a sra. à parte provar ser a obra-prima de Kieslowski. muito menos por velhinhas de aspecto frágil e ingênuo. mas uma amostra ainda insuficiente da produção do "jovem Kieslowski". na melhor tradição do humor negro britânico. por "Quinteto da Morte" (55). inclusive os policiais do distrito mais próximo. O primeiro interessado a encanta: um sujeito respeitável que se apresenta como professor (Alec Guinness) e que diz receber regularmente quatro amigos com os quais forma um quinteto amador de música erudita. Não parece haver inquilino melhor. Para complementar a pensão.90 (caixa com quatro discos) Classificação: 16 anos Avaliação: ótimo INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo.

no fim. Com o tempo. como também sem a mínima graça -que não lembra em nada o vampiro romântico de "Crepúsculo". As únicas pessoas que o suportam são dois amigos. embora inicialmente pareça um solo de Guinness (o Obi-Wan Kenobi de "Star Wars"). Mas. As jovens admiradoras de Pattinson terão seu deslumbramento colocado à prova por "Uma Vida sem Regras". o personagem de Pattinson. que recebeu indicação ao Oscar pelo trabalho. e não de seus matadores. 213 . O ator interpreta um sujeito não apenas sem qualquer glamour. que fez em seguida devastadora representação da imprensa em "A Embriaguez do Sucesso" (57). "Adivinhe Quem Vem para Jantar"). os demais intérpretes da quadrilha (entre eles. um que tem medo de lugares abertos. é um "loser". ou talvez apenas na palidez. O negócio do tal quinteto. Músico frustrado.doce senhora inglesa. Dirigido de maneira discreta e eficiente por Alexander Mackendrick. outro que só pensa em se dar bem com as mulheres. QUINTETO DA MORTE Distribuidora: Universal Quanto: R$ 30 (classificação: 12 anos) Avaliação: ótimo SÉRGIO RIZZO Folha de São Paulo. e apenas uma. "Quinteto da Morte" traz um show de atores. Pouco antes de estrelar o primeiro filme da série "Crepúsculo" (2008). ele é abandonado pela namorada e precisa voltar para a casa dos pais. gerando situações insólitas e diálogos mordazes. um perdedor clássico. razão para o lançamento de "Uma Vida sem Regras" no Brasil: a presença de Robert Pattinson no papel principal. o ator participou dessa produção inglesa quase amadora -retirada agora do escaninho do esquecimento para aproveitar o novo fenômeno de popularidade. o filme é mesmo da velhinha impagável feita por Johnson. que o tratam como um estorvo em suas vidas. é um plano perfeito de assalto que envolve a participação da velhinha como cúmplice. 13/12/09 (84) Vampiro de "Crepúsculo" protagoniza filme inexpressivo Ator Robert Pattinson vive músico rejeitado pela namorada em comédia dramática Existe uma. Claro que as coisas não saem conforme o planejamento. Peter Sellers em início de carreira) ganham sua oportunidade de se destacar. no entanto. muito bem costurados pelo roteiro de William Rose ("Deu a Louca no Mundo". Art.

De qualquer forma. de que o salvam a sabedoria. as perseguições aos judeus. O resultado. nunca consegue evitar. em seu primeiro longa. sem dúvida. O psicólogo passa a acompanhá-lo dia e noite. os atentados aos índios. sabe-se. cena após cena. Para dar uma guinada em sua vida. Sobre a atuação de Pattinson. o filme tem o humor duro. que emprestasse algum charme a um personagem quase catatônico. Frei Caneca Unibanco Arteplex 8 e circuito Classificação: livre Avaliação: ruim RICARDO CALIL Folha de São Paulo. embora ele se saia razoavelmente cantando. o charme e Roma. será alvo da Inquisição. Um filme sobre a justiça. na esperteza rápida e fácil de sua trama sobre personagens alienados e famílias disfuncionais. Ao mesmo tempo. Por essas e outras. ele gasta suas últimas economias contratando os serviços do dr. 2008 Com: Robert Pattinson. que circulam diversas ao longo do filme. "Uma Vida sem Regras" emula as comédias dramáticas do cinema independente americano. seria injusto exigir que ele salvasse um filme tão inexpressivo. O título "Uma Vida sem Interesse" talvez fosse mais apropriado para o filme - assim como um lançamento direto para o DVD. UMA VIDA SEM REGRAS Direção: Oliver Irving Produção: Reino Unido. com apatia que beira o insuportável. sobretudo. Rebecca Pidgeon e Jeremy Hardy Onde: Espaço Unibanco Pompeia 8. árido dos britânicos. É um filme sobre a palavra. é contra a escravidão dos negros. mas a situação de Art só piora. 20/12/09 (85) Filme de Manoel de Oliveira sobre padre Antônio Vieira segue tom político O padre Antônio Vieira foi um grande pensador da língua portuguesa. já que Vieira não apenas sabe se manifestar sobre a necessidade de servir à pátria e aturar suas ingratidões. Levi Ellington. não há nada no filme que sugira que ele iria se tornar um fenômeno pouquíssimo tempo depois. e sobre Portugal e sua pequenez em face da grandeza que projetava Vieira. como. 214 . E um grande pensador político. é um desencontro -que a direção burocrática de Oliver Irving. sobre as línguas. autor do livro de autoajuda "Não É Sua Culpa". como "Retratos de Família" (2005) e "A Lula e a Baleia" (2005). poderia acrescentar Manoel de Oliveira ao projetar seu "Palavra e Utopia".

Mas assim como existe aqui uma política dos sotaques (um falar português menos acentuado em Luís Miguel Cintra. do que o homem cuja palavra usa para o combate. É o que acontece com "Ano Um" e "O Segurança Fora de Controle". o Vieira da idade madura. como se fosse preciso sair de Portugal para apreender o mundo. os oligarcas que tinham de ouvir seus sermões de cara amarrada. de palavra inspirada. o hábito de viver sem trabalhar etc. um falar brasileiro com certa distância em Lima Duarte -o primeiro. purifica. pois o Brasil pertencia ao reino. ninguém esqueça. A imagem espreita a palavra todo o tempo. e não só isso: é um dos grandes. Estamos. Oliveira de certa forma faz aqui um filme de homenagem ao Brasil. Pois. Tinha um pé em cada borda do mundo: Portugal e Brasil. Pois é com palavras que se faz política. Oliveira é um cineasta. de um lado para outro do Atlântico. E a de Vieira dói. Oliveira até hoje é mais reconhecido fora de Portugal do que dentro. a independência. À Inquisição. Assim como o padre orador do século 17. Vieira foi um homem de duas terras. o da velhice). portanto. Confronta-a a si mesma. Ela opõe à palavra do poder o poder da palavra em liberdade. Onde havia. homem e caráter exemplar. 20/12/09 (86) Jack Black e Seth Rogen atuam em comédias opostas Atores protagonizam filmes de resultados distintos. diante de Oliveira. E várias vezes Oliveira nos mostra esse movimento das águas. que visa o filme. cineasta político. Desde o título. quando condenava a prática da escravatura. o segundo. sem passar por cinema Com a maioria das salas de cinema do Brasil reservada a blockbusters e produções nacionais. em qual Vieira pensa? É menos o homem de talento incomum. existe também uma das imagens. resta a várias comédias indies pular uma etapa e cair direto no formato DVD. Como a música de que fala Vieira. De que Vieira fala Oliveira. Não será absurdo pensar em um Oliveira/Vieira (um Olivieira?). que chegam ao país no formato DVD. Esse é o Vieira que apaixona e inspira Oliveira. PALAVRA E UTOPIA Distribuidora: Versátil Quanto: R$ 40 (em média) Classificação: livre Avaliação: ótimo INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo. Que eram uma. já. Ao qual este grande cineasta político não homenageia: o que faz é sugerir Vieira como intelectual. Brasil e Portugal. 215 . "Palavra e Utopia" é um filme da palavra. A sacraliza. Mas também pode servir de moldura para que melhor se escute a palavra. onde havia os índios e os negros. O oceano era seu domínio.

além de chefiar o caso. entre outros objetivos. aqui ele interpreta o histriônico e paranoico Ronnie Barnhard. que. No shopping Outra estrela do diretor Appatow. "Ano Um" é ambientada na pré-história e traz o espalhafatoso Jack Black ("Escola de Rock". Desastrados. "O Segurança Fora de Controle" não está entre as melhores comédias do ano -não está nem entre as melhores comédias de Seth Rogen-. Ele tenta capturar um maluco que invade o estacionamento do local pelado para se exibir para as mulheres. São duas fitas de humor escrachado. "Superbad") como dois caçadores mais preocupados em perseguir mulheres e o sono do que animais. eles são expulsos da aldeia e partem em viagem pelo mundo. Michael Cera Lançamento: Sony Quanto: R$ 40. ANO UM Direção: Harold Ramis Com: Jack Black. que costuma ser fatal às comédias: não tem graça. mas arranca boas risadas graças a um roteiro certinho. E Michael Cera. Barnhard pretende capturar o maluco para. Barnhard é. Na jornada. A investigação é passada para o detetive Harrison (Ray Liotta). aqui se mostra perdido. mata Abel e leva a dupla a mais percalços. Seth Rogen consegue equilibrar com competência os lados autoritário e ingênuo de seu personagem. que faz a ronda em um shopping do meio-oeste norte-americano. cria situações espetaculares.bem diferentes. a atuações convincentes e às boas piadas que aparecem aqui e ali. em média Avaliação: ruim Classificação: 10 anos 216 . "Ano Um" tem um pequeno problema. conquista a loira Brandi. ainda. conhecem Caim e Abel. uma vendedora de loja que não está nem aí para ele. é claro. Dirigida por Harold Ramis (do inigualável "Feitiço do Tempo"). "Nacho Libre") e o indie tímido Michael Cera ("Juno". O diretor Jody Hill. Se Rogen acostumou-se a dar vida a personagens meio estúpidos que adoram maconha. e se apoiam quase exclusivamente nas caretas e trejeitos de Jack Black. como a cena em que uma repórter de TV entrevista o personagem de Rogen e deixa de mencionar que ele é chefe de segurança do shopping. bobas. também roteirista do filme. Suas piadas são insípidas. Seth Rogen está mais do que confortável no papel de um segurança de shopping em "O Segurança Fora de Controle". mas com estética -e resultados. apaixonado pela loiríssima Brandi (Anna Faris). Mas a polícia local tem outros planos. que ganhou fama com o humor indie de Judd Appatow. Caim. impor autoridade e ganhar permissão para andar armado.

Já "Nelson Cavaquinho" parece carregar toda a paixão do realizador.O SEGURANÇA FORA DE CONTROLE Direção: Jody Hill Com: Seth Rogen. A parte de extras compõe-se. O primeiro é praticamente um trabalho didático sobre esse tipo de samba. devidamente restaurado. em média Avaliação: bom Classificação: não informada THIAGO NEY Folha de São Paulo. Existe. mas tenho a impressão de que algumas características interessam muito mais ao cinema novo do que a Nelson Rodrigues. não faria vergonha frente aos melhores. difíceis de esquecer. mulher que busca na morte uma espécie de compensação às frustrações da existência. o filme. A fotografia de José Medeiros tende a um cinza que rebate a atmosfera abafada que respiram os personagens. 27/12/09 (87) "A Falecida" destaca vida do subúrbio carioca Seria um pouco covarde comparar este "A Falecida" com a média dos DVDs editados no Brasil. O restauro restitui a força colossal da fotografia de Mário Carneiro. Subúrbio observado sem complacência. O disco se faz acompanhar por um pequeno livro com impressões de críticos brasileiros e estrangeiros sobre o filme. Não é mau. A soma deles é exaustiva. mas existe a mística da arte popular que essa geração cultivou. Existe. que normalmente trabalha 217 . O grande compositor ganha um retrato em que o íntimo e o musical se encontram de maneira harmoniosa. "A Falecida". O que é biográfico remete à vida das populações pobres do Rio de Janeiro. A bela direção de atores torna presenças como a de Ivan Cândido. Um pouco chato. a história de Zulmira. às quais devemos alguns dos melhores momentos de nossa cultura. por fim. com o auxílio da Petrobrás. destaca bem a vida do subúrbio carioca. Em grande parte. como se fosse o caso de pôr em relevo as cotidianas infelicidades a que a pobreza sujeita. fica mesmo com Fernanda Montenegro. E mais dois curtas de Leon Hirszman: "Partido Alto" e "Nelson Cavaquinho". Ray Liotta Lançamento: Warner Quanto: R$ 40. de depoimentos. O destaque principal. no entanto. A interpretação do cineasta se antepõe à obra do dramaturgo. Paulinho da Viola e Eduardo Coutinho nos digam quem era Hirszman -mas seus filmes falam muito bem por ele. para começar. o objetivo é que Fernanda Montenegro. no essencial. Nas mãos de Hirszman. É tanto que o santo desconfia: a Videofilmes. Aliás. o marido.

mas é mais crível que ele soubesse o quanto estava acima de tudo. que Elia Kazan não tenha sido o grande responsável pelo primor de "Viva Zapata!" (TC Cult. 03/01/10 (88) Marlon Brando é marcante no irregular "Cartada Final" O que levaria Marlon Brando. por exemplo.90 Classificação: 12 anos Avaliação: ótimo INÁCIO ARAUJO Folha de São Paulo. o maior ator do cinema. 17h25. a aceitar papéis esdrúxulos. 16h05. 14 anos). conhecendo o gosto de Brando em levar seu corpo e imagem ao limite. Brando aparece intacto. ou seja. Por outro lado.muito bem. PAULO SANTOS LIMA Folha de São Paulo. mesmo com Marlon no papel de Emiliano Zapata. A FALECIDA Distribuidora: Videofilmes Quanto: R$ 54. em filmes idem? A falta de grana? Ou um autoflagelo diante da ladeira abaixo que foi sua vida pessoal nos seus últimos anos? Talvez seja isso. aqui até se excede um pouco ao produzir essa edição "black tie" deste belo filme do diretor de "Eles Não Usam Black-tie". fosse o único astro da história a contrariar a lógica natural que delega ao tino do diretor o resultado de um filme. É difícil duvidar. no irregular e esquecível longa "A Cartada Final" (TC Action. 12 anos). marcante e lindo em sua velhice e tonelagem. 10/01/10 218 .