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Liberdade, igualdade e conhecimento

Já vinha suspeitando que uma das minhas linhas de interesses nas ciências sociais era a
Sociologia do Conhecimento (só não tinha certeza de que era esse especificamente o nome).
Procurando pela internet, li um artigo do Charles Tilly chamado “O acesso desigual ao
conhecimento científico”. Acho que essa frase que li me inspirou a escrever esse texto:

“Se considerarmos o acesso ao conhecimento científico benéfico uma forma de liberdade,
então a reserva desse conhecimento limita a liberdade no mundo.”

Nesse artigo, ele salienta que a produção e a distribuição dos conhecimentos científicos
gerados, em maior escala, pelos países mais ricos do mundo, são novas formas de exercer
poder (e claro, gerar lucro) sobre aqueles que não detêm tal conhecimento, exacerbando a
condição de dependência dos países mais pobres. Até aqui, estou 100% de acordo com
Tilly. Porém, a “tese da perversidade”, citada pelo autor a seguir,

“Qualquer ação destinada a aprimorar algum aspecto da ordem política, social ou
econômica só serve para exacerbar a situação que se busca remediar. A tese da futilidade
sustenta que as tentativas de transformação social são inúteis, não conseguirão reduzir os
problemas. Finalmente, a tese do risco argumenta que o custo da mudança ou reforma
proposta é alto demais, uma vez que compromete alguma preciosa conquista anterior”
(Hirschman, 1991, p. 7).

traz à discussão a limitação da produção intelectual com a generalização do acesso ao
conhecimento técnico-científico (e informacional). Durante anos empresas usaram tal
discurso para dificultar a liberalização de patentes tocantes à saúde, por exemplo, e,
atualmente, alguns artistas ousam dizer que o avanço da tecnologia dificultou novas
produções e ascensões de novos artistas, e inclusive, as próprias obras produzidas por esses
que sempre estiveram presentes no mercado.

Nesta parte, tenho que discordar do autor. A produção de cunho intelectual como novas
tecnologias nunca foram desincentivadas pela ampliação de seu acesso: muito pelo
contrário, elas projetaram (aos que têm acesso) novas formas de pensar o mundo, uma
forma alternativa de sentir a vida a partir do momento em que houve contato com o
diferente, com o desconhecido, de tal jeito que a produção foi largamente ampliada e
largamente inspirada. O contato com o diferente gera novos produtos, todos, claro, de
acordo com a aplicação na sociedade em que é produzida – uma aplicação/interpretação
contextualizada. Logo, não há argumento forte o suficiente para dizer que tais produções
perdem seu cunho nacional e identitário com sua população ou que são retrógrados, ou até
mesmo que não promovem maior igualdade na sociedade. Ela é, naturalmente, a adequação
das novas formas de interpretação do mundo que a sociedade demonstra que são necessárias
mas não as aplica, e que são inevitáveis (democraticamente falando) em seu caminho rumo
à novas formas de igualdade social.

Por isso, tenho que defender a liberalização de patentes e direitos autorais para todos
aqueles que não têm o devido acesso à informação, à cultura e ao conhecimento. Não temos
noção do novos produtos que podem gerar tais acessos justamente por esses serem
restringidos a poucos setores da sociedade (e geralmente, nem é própria da nossa
sociedade). Insistem em perpetuar um ponto de vista que está parado no tempo, atado às
correntes da busca incontestável pelo lucro, mesmo que isso signifique a exclusão de grande
parte da sociedade que não tem o acesso – infelizmente, na nossa sociedade,
predominantemente o dinheiro – aos meios pelos quais o Estado deveria prover as
melhorias necessárias na condição de vida dos indivíduos.