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Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise

Caso clínico
— A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise
Clinical case
— Schizophrenia under the scrutiny of psychoanalysis
Maria Izabel Fernandes Karlin

Resumo
Caso clínico de um paciente jovem diagnosticado como esquizofrênico, encaminhado ao CAP
do CBP-RJ. O rapaz de 22 anos apresentava um quadro de mutismo, embotamento afetivo e
ausência quase total aos estímulos externos. O histórico familiar é relatado, assim como as
técnicas desenvolvidas no set analítico. A elaboração de um espaço criativo e de estímulos ori-
ginados na relação psicanalista e paciente produziu ao longo do tempo, elementos presentes
no tratamento psicanalítico, incluindo a transferência, a contratransferência, a resistência e a
associação livre.

Palavras-chave: Esquizofrenia, Desejo, Objeto, Libido, Fragmentação e Integração.

Introdução interpretar essa fala, que, mais do que em
Esse artigo relata o caso clínico de um jovem pacientes neuróticos, pode se apresentar por
paciente, diagnosticado como esquizofrêni- mutismos, gestos, palavras aparentemente
co que segui por quatro anos. Dentro do pos- soltas e muitos “não ditos”.
sível, o caso foi tratado sob um olhar psica- Um aspecto, que também me interessa
nalítico com a intenção de investigar o quan- ao relatar esse caso, é a observação de como
to a técnica psicanalítica pode ser utilizada é importante para o psicanalista envolvido
em pacientes psicóticos, sobretudo em um com o paciente estar constantemente atento
caso da gravidade desse paciente, bem como para o quanto e como ele suporta trabalhar
do quanto essa técnica tenha que ser ajustada nas condições apresentadas, considerando
sem, contudo, deixar de lado os pressupostos o processo que vive quando deparado com
básicos da psicanálise. um paciente que sofre, mas que ao mesmo
O grande impasse da técnica psicanalíti- tempo adoeceu a ponto de não expressar ne-
ca com o sujeito psicótico é a dificuldade no nhuma demanda.
estabelecimento da transferência desse com Entrar em contato com o estado frag-
o psicanalista, e sabemos o quanto a transfe- mentado do sujeito psicótico pressupõe en-
rência é uma “conditio sine qua non” para o trar em contato com as nossas fragmenta-
êxito de uma análise. ções e, mais que tudo, olhar de frente a nos-
Nesse caso, a escuta sob o viés psicanalí- sa sensação de impotência diante do sujeito
tico do paciente foi o elemento fundamen- que aparentemente não nos deseja e que nos
tal no desenvolvimento do trabalho. Existe coloca quase sempre diante de um questio-
uma fala em um paciente esquizofrênico, e namento – o que você quer de mim – e do
a questão que se põe ao psicanalista é como que eu quero de você.
Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 41 | p. 93–110 | Julho/2014 93

crevendo-a como uma pessoa que naquele Repetiu várias vezes como o filho jogava bola momento estava muito fragilizada devido a com ele quando era pequeno. pois estávamos falando Pelo que foi reportado a ele. já que a família vivia no prédio solicitando a presença do pai e da mãe. era seu medo de que o comportamento do Minha primeira iniciativa foi refazer a en. ções dadas pela instituição o pai se recusava Após algumas discussões entre os coorde. seja por estar homem e que gostasse de mulheres. com o pai. ele não estava sendo medicado. pois era um lugar para dro- dio na zona sul do Rio de Janeiro. e sua resposta foi novo que a irmã. o rapaz segunda vez o segundo ano do ensino médio. Perguntei se já haviam ocorrido episódios lhos. cência. mas em alguns momentos ter praticamente nenhuma informação acer. Ele era palavra “diabo”). pertencia àquilo. e a mãe. segundo ele. sempre “esse é o meu único filho homem”. ao chegar em casa. A família morava havia que esse tinha sido o único. que jus. nha acontecido com o filho. Repetia muito ocupada com seu trabalho. conseguiu revelar que um dos motivos que ca do paciente. Quantos dias o por vontade própria. preocupação e o desejo de que seu filho fosse tificou a ausência da esposa. Quais eram essas coisas estranhas O paciente foi encaminhado ao CAP do expressas pelo filho o pai não conseguia re- CBP-RJ por indicação de uma escola es. 41 | p. e o paciente era cerca de três anos mais como esse anteriormente. que os con- Aceitar ou não o paciente foi uma das duziu ao Hospital Rocha Maia. 93–110 | Julho/2014 . petir (com muita dificuldade ele conseguiu tadual da Zona Sul do Rio de Janeiro. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise Caso clínico estranhas. Ele também re- muitos anos nesse mesmo prédio onde o pa. seja des. bem como seu quadro paciente ficara internado e quais as indica- gerava dúvidas quanto a seu diagnóstico. segundo o em casa ele tinha continuado a falar coisas pai. onde ele trabalhava. 94 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. a falar. latou que o filho tinha sempre sido um rapaz ciente passou toda a sua infância e adoles. Eu pedi que o pai relatasse o que ti. sobre o argumento era para dizer que o Pinel ciente. pois ele não conseguia falar e o convenceram a procurar ajuda no CBP-RJ emitia apenas alguns sons. mas que após uma doença que. filho pudesse de alguma maneira prejudicar trevista para tentar obter mais informações. empregada doméstica. com dar a entender que o filho tinha utilizado a ficha de entrada no dia 03/11/2008. Não só o paciente não chegou até ali internado por alguns dias. que por sua primeiras questões levantadas no âmbito do vez os encaminhou ao Pinel. continuava muito agitado. O discurso do pai era impregnado por Na primeira triagem não foi possível ob. E ao chegar ciente chegou para ser atendido e. aluno daquela escola e estava cursando pela Segundo o pai. As poucas vezes que conseguiu falar nadores. achei pru- e foi acompanhado até a casa por um colega. chamar o Corpo de Bombeiros. seu olhar era vago e fixo em direção à de sua cadeira e iniciado a fazer um discur. era um lugar muito ruim e que seu filho não O pai do paciente era porteiro de um pré. dente a sua presença. onde ele ficou CAP. O casal teve dois fi. muita ansiedade. Ele então contou Embora o paciente não tivesse partici- que certo dia o filho teve uma crise na escola pado ativamente dessa conversa. foi decidido que aceitaríamos o pa. quase a levou a crise se recusava a jogar bola ou ir à praia à morte. porta da sala. seu trabalho. Nesse primeiro encontro o paciente veio Também ficou bastante evidente a sua acompanhado somente pelo pai. o que o obrigou a com 22 anos de idade. gados. Durante o tempo em que falei com paciente improvisamente tinha se levantado pai. normal até esse evento. Foi nessa condição que o pa- so muito confuso e desconexo. durante a aula o sobre ele.

que seria seguido por um cia de relatos. mas sua mão escorregou sobre vras que lhe eram faladas e. toda a sua família e amigos aquela pessoa que estava na minha frente não percebiam que ele era diferente e deu a en- tinha nenhuma semelhança com a descrição tender que isso a envergonhava bastante. Não suportava com uma aparência jovem (apesar dos seus televisão ou rádios ligados em casa e. Finalmente estávamos os três juntos. e falta de vida. apresentou mãe e devo dizer que ela descrevia mui- uma série de exames neurológicos do filho to melhor o quadro do filho do que o pai. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise Até então. SOS com socorro. paz frequentava. começou a repetir o final das pala- primentá-la. va buscando tratamento para o filho junto Para ela seu filho era assim. Diante dessa dissonân- sões por semana. um sujeito com um núcleo bem histérico. do sempre a conversa. a necessidade de sido sempre um menino diferente. os pais e o filho não estava bem muito antes do episó- familiares negam o problema e preferem ou. o achava muito preguiçoso. de uma mulher prati. SOS se referia ao Os movimentos que ela fazia com as mãos nome de um curso de computação que o ra- eram os mesmos do filho (esfregar as mãos). em particular. ansioso e interrompen- Através do CBP-RJ consegui um psiquia. A tia a ajudar seu filho a seguir rigorosamente a mãe me passou uma sensação de indiferença medicação dada pelo médico. palavra SOS. Tentei cum. dicionei o início do tratamento ao compa. va vários banhos durante a noite e se olhava eu encontrei essa mulher muito bem vestida. dada por seu marido. Ela relatou que o paciente tinha acompanhamento. mas ao mesmo tem- lidade. sempre silencioso. Contou que ele nunca foi de ter migo enquanto seu pai o aguardaria na sala amigos e que por volta dos 14 anos começou de espera. Segundo ela. Ao final da entrevista doença grave que a levasse necessariamente ficou acordado que o paciente teria duas ses. e a mãe. a entender que nunca tinha achado seu filho sico do que ouvir a palavra “esquizofrenia”. nessa ocasião. da crise. isola- te compareceu. a família tinha tentado tratá-lo A doença grave da mãe tinha sido uma ci- na Igreja Universal. Talvez a única aos médicos. Fornecia mais detalhes. (Imediata é a associação de e seu olhar era distante como o do filho. sino médio. esse pai esta. Fiquei surpresa ao ver que do. Embora o paciente não falasse nem me Sua descrição do filho era bem diferente olhasse. a um risco de morte. Contrariamente. constantemente no espelho. Meu recimento da mãe dele para que eu pudesse paciente. Segundo ela. e pelo discurso do pai rurgia para retirada do útero. coisa que a perturbasse um pouco era que ela Como acontece frequentemente com pacien. fi- Na segunda entrevista a mãe do pacien. po falava do filho sem sinal de sofrimento. Também con. O pai. tra ligado à instituição para acompanhar o Decidi fazer algumas perguntas para a paciente. muito normal. o pai muito agitado. mas não tinha ficou claro que o tratamento na Igreja era sido nada relacionado a um câncer ou a outra vontade da sua esposa. dio na escola. 41 | p. mas ao mesmo tempo ela deu vir um diagnóstico confirmando um mal fí.) Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. que não apresentavam nenhuma anorma. Ao que tudo indicava. Ela percebeu que tes que sofrem no campo psíquico. expliquei a ele as condições para seu da do pai. Além de usar só roupas pretas. pude perceber que o pai era médico psiquiatra e que o pai se comprome. a usar só roupas pretas e óculos escuros. que sem- tomar os remédios prescritos pelo médico e pre teve dificuldades na escola e que ela não que nossos encontros seriam para falar ou sabia nem como ele tinha chegado até o en- ficar em silêncio. mas que só ele ficaria co. ou seja. olhando o vazio. antes 50 anos) e sem rugas no rosto. cando sempre trancado no seu quarto. ele toma- camente à beira da morte. 93–110 | Julho/2014 95 . conversar com ela. calada. mas a médicos neurologistas. a a minha evitando qualquer contato de pele.

O paciente não se deitava até pava porque ele ficava muitas horas andando porque não é indicado o divã para pacien- de bicicleta e tinha medo que acontecesse tes psicóticos. falar. A minha primeira pergunta foi. mas você consegue me escutar. ticamente a cada minuto que passava e fazia dando a entender que ele interferia muito na uma série de movimentos com o rosto e com vida dele. que era o máximo que o paciente conseguia cursos longos de bicicleta (a mãe se preocu. quando combinava alguma coi- mo pelo tratamento que eu estava propondo sa. Os vinte minutos eram res- e disse que ela não acreditava que o filho pu. desse melhorar. de saída. o pai tentava disse que tinha sido tudo normal e que ele fazer alguma coisa para reverter o quadro tinha sido um bebê que chorava muito. pela fala dele. Ele controlava seu relógio pra- ela tentou culpar o pai pela situação do filho. e ela Embora agitado e nervoso. significar “sim” enquanto a vermelha signi- ciente foi a um médico psiquiatra que o ficaria “não”. naquele momento. nha frente. fazer per. Em alguns momentos angustiados. peitados por ele e por mim. olhando o tempo todo para a porta Nessa conversa ficou bastante eviden. com ele que. vermelha e estabeleci que a caneta azul iria Após essas primeiras entrevistas o pa. Ela do filho. Também era o pai literalmente: como é que eu vou sustentar o que acompanhava o filho ao psiquiatra e que desejo de um paciente que não deseja nada? providenciava os remédios para ele. Não tínhamos muita comunicação e após mento acontecera poucos meses antes do vinte minutos estávamos os dois bastante episódio na escola). te que o casal tinha conflitos. e mesmo assim comunicarmos”. que da explícita. Aprendi A mãe não demonstrou grande entusias. certo? dido por mim. diagnosticou com esquizofrenia e passou Claro que a minha primeira dificuldade uma medicação adequada. o quadro do filho teria sentar. Ela sempre tinha Escolhi o primeiro objeto que vi na mi- uma desculpa que quase sempre era o tra. mas em geral que estava tudo bem. cluísse que o desejo. foi lidar com um paciente sem uma deman- nhava o paciente às consultas era o pai. ele poderia ir. ele: “Tudo bem que você ainda não consegue Durante os 4 anos que seu filho foi aten. pois algumas vezes até na algo com ele. o aguardava na recepção. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise Perguntei sobre a gravidez do filho. 96 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. Eu que- que ela cozinhava bem. ele cumpria. literalmente querendo escapar. ficava os vinte minutos combinados. mas que fazia Eu sempre falava para ele que. tanto que por fim ela decidiu poltrona eles têm dificuldade de ficar. 93–110 | Julho/2014 . caso qui- questão de manter uma certa aparência de sesse ir embora. ria muito entender o paciente. porque eu insisti muito. a boca. era exceto que. mais tarde soube meu e assumi meu desejo sem culpa. 41 | p. Segundo ela. piorado após o casamento da irmã (o casa. ela compareceu apenas duas Então vamos estabelecer um código para nos vezes para falar do filho. se As sessões duravam cerca de vinte minutos olhar no espelho obsessivamente. uma caneta azul e uma balho. ou seja. nem tudo estava bem com o paciente antes da suposta crise e que ele já emitia sinais de O trabalho no set analítico que precisava de ajuda: isolamento social. A mãe Não demorou muito para que eu con- não se ocupava de nada relacionado ao filho. só mesmo a fé Em uma das primeiras sessões eu disse a o podia curar. ro que a mãe tinha desistido dele há muito As informações da mãe esclareceram que tempo. Quem acompa. deixei livre para escolher onde ele queria se Segundo a mãe. Eu o tirar a bicicleta dele). enquanto ficava cada vez mais cla- repetiu várias vezes que ele chorava muito. ficar na sala.

Não eram livros especiais. Não passou uma hora. Como sente que o próprio amor é mau. no meu íntimo. história para o mundo e. mas ele continuava a me mostrar também os Além de criar o nosso código de “sim” e antigos. e o pai res- o seguimento do nosso relacionamento. Acho que vro antigo. mas que a história de cada um era -forte. cadernos esses que representavam um mo- quem sabe. da escola. mas eu sabia costumava mostrar seus cadernos. além do que surge da sensação ção a alguém que não podia continuar a se de que esse amor é demasiado precioso para perder com tempo. separar-se dele. veres e a partir daí.. cuidadoso em rela- dentro de si. mas que naquele livro estava dizendo que o filho estava tendo uma crise escrita a história de uma pessoa. Era talvez o prelúdio de o indivíduo com uma tendência esquizoi. pensei que ouvir histórias é sempre bom e. rém. única na jogado uma garrafa pela janela. e o pai me ligou co deformado. mas também me deixei levar pela minha in. Eu frisava sempre que ele po- 1980. Eu percebi que ele me escutava. A pondeu dizendo que tinha esquecido de le- primeira vez eu trouxe um livro muito an. rio. Po. ciso entender o que acontece com ele quan- eu estava mostrando a ele um livro de fato do ele sai desse estado passivo e robótico que muito especial. por isso estava um pou. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise Estamos agora na situação de apreciar que desse com o tempo. a ele que era antigo. ele trazia seus cadernos antigos. Pedi ao pai para ligar para o eu cuidava atentamente para que não se per. Assim como eu tinha trazido um li- não”. Também mantém encerrado O personagem do livro com o mesmo seu amor porque o sente como demasiado nome dele era a minha tentativa de fazê-lo perigoso para descarregá-lo em seus objetos reconhecer que existiam outras pessoas com Assim não só guarda seu amor numa caixa.. decidi que eu falaria com ele. eu pre- do livro tenha sido intuitiva. mento em que talvez sua libido não estivesse ma história. Na quarta sessão eu aguardei o paciente. como seria meu trabalho com ele. Depois de esperar trinta que eu pegava na minha casa de acordo com minutos. nada às pessoas. que estava muito agitado e que já tinha sido muito especial e importante. Perguntei se ele queria me mostrar seus de- tuição. Claro que não podia utilizar o méto. Primeiro mostrei o livro. ele pudesse gostar de ouvir algu. e cabia a mim lidar com a Como ele carregava no peito a mochila minha contratransferência. 93–110 | Julho/2014 97 . [1941] de indiferença. expliquei pois eu tinha esperado por ele. Sua letra era perfeita e bonita. deixei que minha intuição fluísse no set. var o filho ao consultório. mas ele permanecia Ele tinha suas razões para não desejar dar silencioso. 21). deria pedir para eu parar de falar caso a mi- nha fala o incomodasse. psiquiatra informando sobre o que estava Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. tão submersa. famoso. um traba- de tem outro motivo para guardar seu amor lho quase que artesanal. Embora a escolha ver esse paciente durante uma crise. Naquele momento eu pensei: eu preciso nha o mesmo nome dele. seu nome. diferente. eram livros e ele não apareceu. Perguntei se estava tigo e raro sobre um personagem histórico e tudo bem e pedi que aquilo não se repetisse. um objeto histórico do qual sempre o vejo. mas até o guarda numa prisão. 41 | p. no início da sessão ele do psicanalítico puro e simples. que tinha forte. anteriores. liguei para a casa dele. Comecei a trazer livros para o consultó. mais que tudo. ti. Os cader- que eu podia ter uma escuta psicanalítica e nos novos estavam praticamente em branco. chegando está disposto a interpretar o amor dos outros a olhar o livro ainda que sua expressão fosse em termos similares (FAIRBAIRN. p. eu pedi para ver seus cadernos e Uma coisa eu também entendi: Eu teria vi que ele conservava os cadernos dos anos que inventar e criar muito nesse trabalho.

seu comportamento robótico. A casa deles era simples. eu percebi palavras começaram a aparecer. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise ocorrendo e que me aguardasse. pois estava tudo bem. Continuava com era o pai. lhando em um apartamento abaixo do deles. propus a ele que em vez de sen- menininho que ele estava tomando uma va. pelo paciente. me sentei no chão com ele. embora eu não achasse que o sensação que eu tive era que naquela casa não rapaz estivesse tendo um surto. pois parte do pai foi que. gada. deu uma injeção (embora ele não estivesse Também durante esse episódio percebi agitado) e disse que não era caso de interná. vez. ção eu tive depois). até mes. Alguém pode pensar que ela estava presa no mente mostrou seu quarto. só que eu É bem verdade que a garrafa tinha sido jo- não queria que ele fosse internado de novo. mostrado alguns papéis onde estava escrito Acredito que tenha sido uma atitude boa “jogar a garrafa pela janela”. Eu achei desnecessária a medicação. que a única frase que saiu sem querer por -lo. e achei que criando um espa- ções sobre o que tinha acontecido e cheguei ço lúdico pudesse facilitar o nosso relaciona- a cogitar que tudo não tivesse passado de mento. Pedi ao o apartamento era todo gradeado. o rapaz estava realmente muito calmo. Que esse pai para conversar sozinha com o paciente episódio estivesse relacionado à não vinda no quarto dele. mas em um lugar muito seguro. Ela estava o tempo todo no prédio traba- ele também disse que não. neira que não machucasse ninguém e a ca- lo como o via no consultório. informação confirmada no trabalho do outro profissional. 41 | p. Achei que sentar no suas sessões e nunca mais faltou. ele retornou as e propus jogar com ele. ler ou escrever). chão seria mais relaxante para ele. e ele falou que sim. dade. são era visível. 98 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. Enquanto eu estava na casa dele o psi. seu computador trabalho. pois ela tinha total liberdade de ir até a berante) e o mais interessante é que pela pri. mas de fato o pai tinha me tava indo até a casa deles. tar na poltrona poderíamos sentar no chão cina. Perguntei se tinha acon. uma encenação. 93–110 | Julho/2014 . achei melhor havia uma presença feminina. Ao mesmo tempo ele muito amistosa. A sua ten- Eu fiquei com uma série de interroga. perguntei se ele tinha jogado a garrafa pela Vale salientar que em todo esse episódio janela. minar a relação com o paciente. antes do suposto surto. muito grande no tratamento desse paciente. Faltava basica- que ele fosse até o consultório. Recomeçamos nosso trabalho e acredito Não posso negar que cheguei a pensar que meu paciente tenha voltado um pouco que quem estava precisando de um calmante mais aberto do que antes. sua casa quando ela precisava (essa informa- meira vez ele conseguiu falar um pouco. dele à sessão também me parecia provável. Nunca mais ouvi falar sobre mo porque ele estava me dando um suporte esse amigo do prédio. seu filho estava no terraço conversando com não sendo médica não cabia a mim interferir um rapaz do prédio. que o pai falava com ele como se ele fosse Percebendo que ele estava um pouco mais uma criança de 5 anos. pois eu es. e ele negou. Explicava para seu receptivo. Perguntei se deira não poderia ser jogada pela janela. mas. mas a primeira quiatra ligou e. mas algumas Enquanto ele era medicado. a mãe do paciente não apareceu nenhuma tecido alguma coisa que tenha aborrecido. “jogar a cadeira ter ido até lá. Passado esse episódio. embora isso possa contrariar pela janela” e aparentemente a letra era do a técnica psicanalítica tradicional na qual a meu paciente (o pai praticamente não sabia saída do set pode de alguma maneira conta. mas isso não correspondia à reali- e a fotografia da irmã (uma moça muito exu. de ma- Ao chegar na casa encontrei o rapaz tranqui. mente a sensação afetiva de cuidado e tinha Chegando ao consultório o psiquiatra lhe uma forte impressão de abandono emocional.

93–110 | Julho/2014 99 . pois ain- cava algo que pudesse despertar nele algum da que ele ficasse na sala de espera. ele gostava muito de frequentar a escola. pois tinha continuar a frequentar as aulas. Após uns seis meses de tratamento. que ele queria ir. 41 | p. ele Ele se dava conta de que suas dificuldades começou a usar também as escadas. e nesse ponto ele onde tínhamos parado de ler. No início o pai ficava dama ou dominó. do. No jogo de damas ele tinha mais primeiro livro foi A volta ao mundo em 180 dificuldade. Adorava jogar dominó e quase sempre Quando percebi que ele começava a falar ganhava de mim. Eu tinha que tentar ao má. percebi perguntas. começamos a ler um livro juntos e o ele ganhar. pouco a pouco. Enquanto ele se tranquilizou. Uma vez que gostava dos professores e se sentia tratado isso foi explicado. zia. ele começou a responder a essas Quando ele passou a vir sozinho. A escola era subido a pé. pois ele já tinha um pai que o até o consultório. objetivo afastar o pai das sessões. mesmo acontecia com a porta do consultó- Embora ele não conseguisse seguir as au. pela porta dos fundos. mas não Desde o início eu sempre falei com ele de apertava o botão para o elevador chegar. embargada. ela só se abriria se ele tocasse a campa- las. entrava pela porta da frente e saía melhor e a prestar mais atenção no que fa. ficava esperando que o elevador de alguma nha que ser clara e sem enganos. eu mesmo porque eu não queria fazer um show pedi ao pai para não acompanhá-lo e deixá- para o paciente. mas ia embora pela escada. O paciente vinha sozinho jogávamos. ele logo aprendeu a che- bem lá dentro. As tentativas de casa. Expliquei-lhe que o eleva- no jogo era coerente. Na sessão seguinte ele sempre lembrava rumar a sala e ia embora. o que não era nada fácil. eu sentia interesse. Eu sabia que meu paciente ximo criar um espaço para ele se expressar. No final de cada sessão ele me ajudava a ar. e vice-versa. e eu pedia a ele sempre foi muito colaborativo. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise Só que até brincar não é algo simples. Ele ti- Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. O pai aceitou a minha propos- primeira eu via os trabalhos dele na escola. com a voz ainda muito para escola. Nossas que ele estava sempre tentando ocupar o lu- sessões eram divididas em duas partes: na gar do filho. se ele tinha chegado bem. mas eu decidi não fingir que ele costumava ligar para a secretária para saber jogava bem e quando ele errava muito eu si. Um dia de aprendizado eram grandes. que era muito perto da sua tratava como uma criança. Logo ele podia vir sozinho infantilizá-lo. eu dizia dor só ia chegar se ele o chamasse e que o que ele tinha perdido. mas ele queria ele chegava pela porta dos fundos. inha e a mesma coisa na saída. conseguia ir sozinho até a escola e voltar so- Com uma visão lúdica certamente. mas com o tempo nalizava onde ele estava errando. Eu lia uma parte do livro. eu lhe fazia perguntas da escola e terminada a sessão pegava seu ônibus e ia e. continuava a ler mais um pouco. mas sem zinho para casa. ta com muito medo. -lo vir sozinho. que ele parava na frente do elevador. Após algum tempo ele fazia esse caminho Pouco a pouco ele passou a jogar cada vez circular. sem fingimentos. outros dias ele chegava de eleva- muito simbólica para ele e era o único lugar dor. Eu bus. Por isso até maneira chegasse. Se ele perdia. Esse meu pedido também tinha como “brincar” com ele foram inúmeras. e ele sempre escolhia as peças pretas. mas combinamos que na outra procurávamos brincar. rio. e depois ele a jogar.) e levei para as sessões. mais do que isso. mas mesmo assim continuamos dias. gar sem problemas e. e não porque eu deixasse mais. Jogávamos alguma coisa na rua. o paciente teria um celular para ligar para Comprei uma caixa de jogos (dama. mim ou para seu pai caso ele precisasse de minó. para me contar o que tínhamos lido. o paciente não jogava muito agitado em deixar o filho vir sozinho e muito bem. Ele forma adulta e percebi que a fala com ele ti. etc.

a mãe usa Com esse hábito de levar livros. porém das diferenças no comportamento das pes. comecei a trazer a fazer “bagunça”. tavam um órgão sexual pouco definido mas Eu sempre achei que livros ligam as pes. integrados demonstrando que sua noção de nhos. Ele os livros com ele era um modo de ele interio. e algumas vezes ele aceitava. falávamos de comidas dife. zia questão de dizer que ele preferia copiar tinentes e países diferentes. Ele passou a gostar de copiar motocicletas tanto. intercalávamos as sessões de leitura eram alegres. uma cadeira que te. 41 | p. As cores dos desenhos eram um Quando percebia que ele se entediava pouco modificadas. pedi a Nisso já estávamos com mais de um ano ele um dia para desenhar sua casa. bro. Como o paciente preferia copiar dese- ma era o início da ligação do paciente com nhos. embora seu relacionamento comigo con. mas de certa for. desenha- alguns desenhos e algumas pinturas e. Como já citei antes. mas os objetos não eram o que ele gostava mesmo era de copiar dese. as cores na tela e que não importava o resul- rio e queria ver se ele conseguiria interpretar tado. e o paciente já falava normalmen. quando podia. Aproveitando que o livro falava de con. nhou três casas separadas. para definir essa nossa atividade. paciente para desenhar sua família. ele necessitava das coisas alguns livros com mapas e costumes dos ordenadas. Sua capacidade de criar estava empo. 93–110 | Julho/2014 . o paciente é privo do órgão sexual. eu participava com ele e observava que dos óculos do pai. Pela que algumas palavras fossem mais difíceis. primeira vez o paciente criou uma palavra ele conseguia entender o contexto e me per. pedi ao líamos os livros. contar sobre o que tínhamos lido. quando se tratava de copiar desenhos. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise nha ótima memória. e a mãe não apresentavam o órgão sexual. Intercalando com a iniciativa livre. ele escolhia o que ele que- de seio bom. rizar o trabalho que estávamos fazendo jun. dentro e fora ainda era muito rudimentar. com sessões de pintura ou desenho. países que eram referidos no livro. e carros e era impressionante como ele che- 100 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. enfim falávamos especialista em interpretar desenhos. a partir desses. seja para os nomes. ria copiar. a mãe usava calças compridas enquanto ele tos. e não havia espontaneidade. tinha no seu quarto. a pintura livre seria os textos. Na minha opinião. pude observar que no desenho apresentado soas. como o detalhe tar. O conceito de masculino soas e de certa forma eu acreditava que levar e feminino não era definido no desenho. Mesmo consciente. de desenhar três casas. Ele dese- de análise. e os conteúdos das casas. brecida. o ventilador da sala e os tinuasse privo de qualquer demonstração de óculos do pai. Enquanto Numa dessas sessões de desenho. talvez um pouco e. mas ele resistia a essa ideia. Não sou rentes. Ele chegou a copiar um para os lugares. algumas calças compridas e também não tem um ór- vezes eu perguntava se ele queria levar algum gão sexual. e invariavelmente conseguia quadro de Modigliani com bons resultados. dessa va um sol (símbolo do pai). Não ousaria dizer que ocupariam o lugar usava calças curtas como o pai. de roupas diferentes. uma para cada mem- Seja na tarefa de desenhar. mas ele gostava de usar com a leitura. seja ele era muito bom. seja na de pin. de um objeto transacional. Seus desenhos forma. igual para os dois. que iríamos pintar “bagunça”. eu propunha que fizéssemos cores mais vivas e. Ele sempre fa- ceis. Eu tentava trazê-lo mais para a pintura li- Em princípio eu tive a ideia de ler com vre e disse-lhe que podia simplesmente jogar ele para ajudá-lo a recuperar seu vocabulá. Observe-se que ele fez questão afeto. ele não tinha uma forma de o paciente expressar seu in- dificuldades em interpretar o texto. enquanto a irmã e o pai apresen- livro para casa. comecei então a trazer revistas e livros algo que também era meu. Ele dizia guntava o significado das palavras mais difí. No en.

Algo tinha acontecido naquele momento. fica que também filmava. O ideal teria uma fala sem afeto. ele disputava muito o lugar do filho comigo senho. 93–110 | Julho/2014 101 . Disse que era bonito. nalista. mãe. e me trazia suas filmagens. mas era falta e sua ansiedade no filho. meu paciente já conseguia guns bonequinhos que lutavam na tela e. o pai do pa- nhos que ele fez e dos quadros que pintou. foi aconselhado que e aos poucos eu tentava introduzir a ideia do ele também fizesse análise com outro psica- corpo inteiro de uma pessoa. 41 | p. enquanto ao co. A partir de então nhos. Um dia. a irmã também não tinha tempo. à noite haveria pessoas da sua idade. ele escolheu o de uma mulher. saindo à noite. o que ti- deixando apenas alguns exemplos comigo. pois o pai passou a cuidar desenhar. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise gava a ser detalhista ao desenhar uma moto. sido que a mãe também aceitasse fazer análi- mas desconectadas de sentimento. ela alegava não olhos brilharam e pela primeira vez ele olhou ter tempo para vir me visitar. não pensava assim porque tinha medo que Após essa sessão seu pai me disse que ele o filho. Pela primeira vez seus muito no Rio. perguntei se ele queria pegar o celular e ele Eu pedi a ele que sua irmã viesse conversar disse que sim. a Miguel Pereira. que ele faria o segundo ano do ensino médio. ao pe. nha sido uma iniciativa muito boa. se. festou seu desejo de continuar a frequentar Nesse dia nossa sessão durou sessenta a escola. mas queria ir à noite. filmava sua casa resultado era muito infantil. ela sempre se recusou. As palavras retornavam. se expressar e começou a falar e a mos- como o telefone estava no chão do consultó. Esse controlou o relógio. mas ele tinha Eu também fui informada que o progra- gostado muito de tirar fotos. Óbvio que seu ma de estudos à noite era muito puxado e Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. de si próprio e deixou de projetar toda a sua Sua fala melhorava a cada dia. A partir daí. era um pensamento muito lógico. ciente tinha aceitado fazer análise. pois Um dia meu celular tocou durante a ses. Como Sempre aproveitando o seu gosto pelo de. Segundo ele. tava. fizesse amizade com tinha pedido uma máquina de fotografia de pessoas de má índole. procurado seus brinquedos antigos e que es- Ele fez questão de levar para sua casa e tava brincando com um carrinho em casa. pai ficou feliz com esse pedido e deu um jeito cicleta. embora ela viesse sua com meu celular. pai dele também me disse que o filho tinha nho era de um adulto. presente. de comprar uma pequena máquina fotográ- A cisão dele ficava muito clara nos dese. trar os filmes que fazia nas suas viagens rio. afinal ele tinha um grande amor por jogos que eu tinha e chegou a tirar uma foto ela. Assim como a para mim. ao retratar a família e a casa. quando fui pegá-lo para desligá-lo per. Nesse período o piar um carro ou uma motocicleta. guardar no seu armário a maioria dos dese. o paciente mani- desde o início da terapia. Isso nunca aconteceu. Seria a terceira vez celular que eu gostava e que ele também gos. Então do viajava para lá. Sua irmã morava em cebi que ele olhou o celular de uma forma di. trouxe livros sobre pintores famosos e não se descolava dele. mas o pai explorou suas funções e fez algumas fotos. pois. mas esse objetivo nunca foi atingido. o ele tirava fotos da família. Ele mexeu no celular. Eu tinha um celular vermelho com al. Miguel Pereira e ele ficava muito feliz quan- ferente. segundo minutos. Isso melhorou muito minha relação dir a ele para escolher a figura de um nu para com o paciente. Em um certo momento a escola chamou Talvez estivéssemos criando um laço mais o pai para comunicar que o filho teria que afetivo e tínhamos um objeto comum: um repetir de ano de novo. O celular ele já tinha. Era um olhar com sentimento. são. Já tinham passado mais de dois anos Mesmo com essa notícia. Nessa etapa do tratamento. viu os comigo. o dese. sessenta minutos nos quais ele não ele. pois.

e disse que gostava muito de ficar lá. questão de frisar que era “aquela” que ficava propus a ver com ele um curso de jardina. que. ele passou a carre. Mais gem no Jardim Botânico. muito. vezes um carro e segundo o pai ele tinha feito Chegamos a falar de sexo e ele disse que se um ótimo trabalho. o pai o teria leva- mesmo tempo afirmava não conseguir sair do para ter sexo com uma prostituta. por exemplo. Por fim. em vez de seus livros da casa da avó era muito pequena. Não me senti em la com muito afeto e como se tivesse sido condições de afirmar com convicção que ele o lugar que ele mais gostou de frequentar. foi decidido que ele deixaria a Dizia que sua lembrança mais forte era que a escola. Eu perguntei só se fosse acompanhado do pai. ficos. frequentar a escola. 41 | p. ceito das pessoas e pelo seu próprio precon. poderia continuar seus estudos à noite. Perguntei se ele gostava desses filmes. e dos churrascos que o pai organizava para to do que ele gostava de fazer. o ano escolástico. pois que ali brincava muito. so observar como o preto nunca era usado assim que ele se sentisse mais seguro para em suas pinturas. sobre seu passado. para a Paraíba. de forma indireta. mas ele apenas riu. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise que provavelmente ele não conseguiria se. Conversei com meu pa. desenhos que ele fazia. a uma sexy shop para pegar filmes pornográ- va esconder esse filho no prédio pelo precon. Foi interessante que. Por outro lado. Sair à noi. do lado de uma igreja em Copacabana. o paciente. Gostava de de novo: “mas nenhuma mentirinha?”. mas lidar com pacientes la (uma escola primária que fica no Corte nesse estado significa lidar com sua família e do Cantagalo na Lagoa). Então 102 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. Certa muitas fofocas. pidamente respondeu que não. Falava dessa esco- significa responsabilidade. te era frequentar adultos e fazer coisas que Ele falava muito da sua primeira esco- os adultos fazem. mas parece que depois masturbava. pois segundo ele sempre tinha tade de trabalhar. e não necessariamente ti- guir seus colegas. de Copacabana. ele poderia retornar para Como a sua linguagem tinha melhorado um curso supletivo. mas ao crise que ele teve na escola. Esses churrascos incomodavam era “nada”. Falou sobre escola dentro da mochila. Contava-me dos fins de semana em casa Várias vezes eu tentava adentrar no assun. que morava em Duque de gar os livros que eu emprestava para ele e os Caxias. Ele saía de Copacabana só Certa vez perguntei-lhe se mentia. Falou com muita vergonha e me disso o pai ficou com medo que o síndico do contou que seu pai o levava frequentemente prédio criasse algum problema. Ele chegou a ma. e comecei cuidadosamente a perguntar mais va do paciente de tentar crescer. já era possível conversar mais com ele Eu reconhecia que era mais uma tentati. Ele chegou a lavar duas muito frequente. mas era curio- preocupações do seu pai e combinamos que. comprar camisas. nham que ser pretas. sua avó materna. O pai tenta. e ele ra- para ir ao Shopping Rio Sul e. quando foi conhecer sua avó. a realidade Contou-me sobre sua viagem junto ao pai era que ele não conseguia seguir o progra. ma. já que A palavra fofoca era trazida por ele de modo ele gostava de carros. Sua resposta a família. falar da sexy shop onde o pai o levava. 93–110 | Julho/2014 . Ele tinha deixado a escola era um ambiente que o paciente não essa escola aos seis anos e relatou esse fato queria deixar apesar do fracasso em superar com uma certa tristeza. ao ceito. A partir daí. tarde soube. mesmo assim. prédio lavando carros. ele fez Como ele gostava de verde e da natureza. ele dizia que “não”. antes da nifestar uma certa vontade de fazer. Se eu perguntava se ele tinha von. As pessoas sempre falavam vez pedi ao pai se ele não poderia ajudar no mal uma das outras. embora o preto conti- ciente sobre essas dificuldades e sobre as nuasse a ser sua cor preferida. e ele não gostava disso. Lembrava o nome de sua professora e dizia Não foi um momento fácil para ele.

Na sessão seguinte eu per- mas era consciente de que os pais não per. meu pai disse relatavam os desabamentos em diversas ci- que um pássaro maior o havia comido. rigoso. terremotos. e al- viagem. respondeu ao meu telefonema e eu tive que nifestou seu desejo de ter um outro animal. Isso aconteceu outras vezes. busca dessa casa. esse cachorro sumiu. pois eu tinha um compromisso. Ele pesquisava nos jor- deram minha bicicleta. 41 | p. o seu desmo- sentia muita falta da sua bicicleta. meus pais disseram turais. pois acho que seria muito difícil ele fugir. e meus pais disseram mais uma das coisas que fazíamos juntos. que esse gato tinha fugido. Ele não trazia notícias de assassinatos que ela foi roubada.. do seu nome e ma. guns dias depois quis me contatar para dizer Ele se recusava a falar da mãe e continua. ele fica- para a família em Miguel Pereira e o paciente va tão ansioso para comunicar um fato que chegou a dizer que gostaria de viver lá. mas não foi do agrado do paciente porque tinha após um silêncio disse: um barranco atrás e. rio. notícias que Eu também tinha um pássaro. Uma que ele andasse com ela. Uma das casas que poderia ser a escolhida tiam. pessoa. A partir pre quando voltava de lá me trazia filmes da de então ele passou a usar seu celular. mas sempre di. mas dades.. ligar para seu pai. notícias que tirava dos jornais.. mas eu não acredi. lhe disse: “Mas eu ligo para você!”. pois era muito pe. Ele lem. pedir se seria possível trocarmos nosso horá- tornou em várias sessões seguintes. Talvez esse fosse o sentimento aceitasse que seus pais não gostavam muito que ele tinha por dentro. e que esse barranco poderia cair sobre a casa. Ele gostava dos seus animais e a sua própria tragédia interna. que de vez em quando ele era tranquilo e silencioso. Um desastre.. Perguntei se ele achava que seus pais men. e ele prontamente disse que não. pois tinha um va a repetir que ela tinha que trabalhar muito compromisso com o pai.. Muitas sessões A partir desse discurso falamos sobre o foram dedicadas a essas tragédias naturais. e sem. viajavam bastante para Miguel Pereira em nhuma. mas eu acho que não é verdade. todas as ligações dele e devolvi a chamada. já que ele mitiriam. vulcões e outros. tsunamis. Um dia eu telefonei para o seu celular para O assunto dos animais de estimação re. zia que a mãe cozinhava muito bem.. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise ele disse que sim. Meus pais me disseram Nesse período de chuvas ele me trazia muitas que ele fugiu.. guntei a ele por que não respondia. pois precisava começar a me ligar de madruga- Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. Recortávamos notícias e as relatávamos nas to. Eu Essa atividade de troca de notícias foi também tive um gato.. Nesse período eles falava algumas mentiras. ele achou Na verdade não sei. que tinha que trocar o horário.. Foi quando eu soube a razão de ele ter tele- O pai dele resolveu comprar uma casa fonado. embora ronamento. nais notícias relativas a enchentes. Da família o que pude notar é que tinha recebido esse celular para falar comigo ele sempre ressaltava o fato de serem muito ou com seu pai ou mesmo qualquer outra fofoqueiros. Ele não brava do seu cachorro. como foi no período de chuvas fortes no estado do Rio. eu tinha um cachorro. eu também acho que isso não é verdade. catástrofe. o afeto que ele nutria por esses animais e por que não deixava de ser uma forma de relatar sua bicicleta. 93–110 | Julho/2014 103 . mas eu acho que eles ven. Ele só trazia notícia de tragédias na- tem também a bicicleta. mas sem citar ne.. Ele respondeu que não tinha respon- Ir para Miguel Pereira visitar sua irmã era dido porque: “Ninguém liga para mim!” E eu um programa que o divertia muito. E sessões. Ele começou a me e que a dona da casa onde ela trabalhava não ligar às 05:00 da manhã! Quando acordei vi deixava ele entrar lá dentro. ou coisas do gênero.

41 | p. 1969. ele já tinha se via nitidamente como ele se sentia mais organizado tudo sobre a mesa para traba- aliviado. Ele escolheu Caixa preta. 77).. Notava-se que ele se sentia bem dentro da sidade por acidentes aéreos. 93–110 | Julho/2014 . Eu tinha certeza de que fizemos outros. Ele controlava se ela vinha ou não. indivíduo sente que a vida é digna de ser vi- um livro sobre desastres aéreos. dizia Além de narrar os acidentes. p.] uma catástrofe mundial desse tipo não é preendida quando ele me disse: “O vaso do infrequente durante o estado agitado em ou. Os sobreviventes lhe bra-cabeça com muitas peças. Sempre na linha da leitura. As cores eram muito parecidas e catástrofe interna (FREUD. Eu fiquei sur- [. só comigo mas também com todos que esta- Por acaso um dia. mais do que qualquer outra coisa.. qualquer Transformar aqueles pedaços sem senti- mudança por pequena que fosse. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise da. mas todos vida”. Quando eu chegava. ele pouco indo para o centro. o presenteava com balas. Ele não se interes. Van Gogh”. Depois desse primeiro quebra-cabeça com sobreviventes. Vi que o paciente ficou dele. montar esse quebra-cabeça o paciente se Certa vez reclamou que a persiana da sala apegou a ele e com tanto cuidado que para de atendimento estava quebrada e que esta- levá-lo para casa ele pediu ao pai que viesse va feia. para onde eu ia e também o dia em que eu va por que tinham acontecido e apresentava iria voltar. Todas essas vezes de sessão. opções. ele pois ele era considerado de casa até mesmo mesmo encontrou um pequeno quebra-ca. E a recíproca era verdadeira. eu falava com ele com antecedência. Ele gostava das coisas novo. 104 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. Era como se de alguma for. Chegamos a superar sessenta minutos do da análise do paciente. gerava nele do em algo inteiro trouxe um prazer para o uma profunda ansiedade. O prazer de criar. Algumas vezes eu viajei durante o perío- zer. arrumadas. interessavam muito. Ao olhá-lo. Ele tinha criado um vínculo não unia inconscientemente. mas queria saber da sua sessão. o livro explica. Foi interessante que após terminar de ao trabalho.. 95) afirma: “É através da percepção criati- vei alguns livros para que ele escolhesse qual va. e cada vez mais ele juntava os ele escolheria esse. vam lá dentro. e ela superinteressado em montar o quebra-ca.. mesmo assim dei outras pedaços com mais facilidade. pois ele não queria parar a leitura. Como já mencionei no início. Ficamos alguns meses trabalhan- tros casos de paranoia [. nha volta e estava sempre lá no dia planejado sava muito pelas mortes. Eu diria que foi atividade quebra-cabeça na secretaria e começava a que ele mais gostou. paciente começou a chegar um pouco antes ma o conteúdo do livro trouxesse um alívio da hora de ser atendido e sozinho pegava o para sua angústia. e era um trabalho difícil para mim seria [.] e essa catástrofe do nisso. assim como observou com felicidade buscá-lo para que o não se desmontasse de quando foi trocada. para completá-lo tínhamos que trabalhar preenchendo primeiro as bordas e pouco a Quando terminamos de ler o livro. Ele sempre lembrou a data da mi- relatos dos sobreviventes. Tenho que dizer que eu também lharmos. que o gostaria de ler. Se faltasse alguém beça. pela paciente que eu atendia após o horário beça para montar.. ele perguntava pela pessoa. Nesse período o quis ler de novo.. dático de geografia que eu tinha levado.] O fim do mundo e a projeção dessa e para ele. gostava dessa leitura e tenho muita curio. Nós lemos esse livro com muito pra. abrindo um livro di. como o desastre tinha acontecido e como as Numa dessas viagens eu trouxe um que- pessoas sobreviveram. paciente. p. Esse livro nos instituição. Winnicott (1975. o paciente reconheceu imediatamente que era um quadro de Van Gogh. Após esse tipo de leitura montá-lo. certo dia le.

trou na sala de atendimento e olhou o divã. Eu acredito que esse fato tenha colaborado um pouco para que o pai desistisse do trata.200. seja o psiquia. em relação ao pai e à mãe. Mesmo assim a resistência do tempo. Essa era a forma Havia as resistências do pai a sua própria na qual ele conseguia exteriorizar sua agres- Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. Para o pai. conseguiu bancar essa situação por algum tinuasse a vir. tra tentamos ajudar o pai a conseguir uma Como diz H. teoricamente o A maior parte dos analistas tem-se abstido. também não levou o quebra-cabeça pronto. chamei simples. Me ligou e me disse tinha decepcionado o pai. mais que tudo. seja eu. elas não eram sufi- mais de vir. 41 | p. pois sentia que isso era brou na minha frente chorando como uma muito importante para a mãe. eu percebi que algo beça estava terminado. tava melhorando. cia. Rosenfeld sobre a transfe- pensão para o filho junto ao INSS. próprio tratamento. as resistências do paciente ao seu quebra-cabeça mais complicado. paciente teria direito a esse beneficio. e isso eu não do dinheiro da análise estava permeando o consegui. Ele voltou a frequentar a igreja. na convicção de que o esquizo- que o paciente não tinha direito a nenhum frênico é incapaz de estabelecer transferência. O quebra-ca- se dele e. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise No período em que montávamos esse análise. O pai ganhava R$ tratamos não com a ausência de transferên- 1. p. e o paciente de de vida dele. Desde o início do de forma muito categórica que não voltaria e tratamento do filho. Coincidentemente nesse período cientes. Não melhorar era de certa forma um ga- mento do filho dando de novo espaço à voz nho para o meu paciente. mas era também sua hostilidade Concordo que não tenha sido só isso. e lho exigia muito de mim. logo era considerado sufi. paciente foi se fazendo presente. considerada uma doença degenerativa. tampouco estava certo da existência de Deus. contou que o pai tinha comprado uma tele. H. beneficio. ele en- nha. 1965. Pude perceber que o discurso mais claro da situação familiar. Com um rência em pacientes psicóticos: diagnóstico de esquizofrenia. Seu mutismo era da mãe que desde o início era contra. mas com o árduo problema de reconhecer cientemente rico para manter um filho nesse e interpretar as manifestações transferenciais estado. de tratar pacientes es- de todas as tentativas. sua doença. bancar junto à família o desejo de o pai para conversar. 121). e ele mesmo Quando o pai do paciente veio para con- começou a telefonar para dizer que não vi. mento dos remédios que eram muito caros. dessa forma. pois seu pai tinha um salário Minha experiência me demonstra que aqui considerado muito alto. firmar que o filho não iria mais voltar. ele pararia de vir à análise. o pacien. para melhorar a qualida- seu pai passou a não me pagar. criança. A ajuda que conseguimos foi o paga. mas a mãe nunca colaborou em nada. Eu queria muito ter escutado mais a mãe visão muito grande e que tinha que pagar as dele ou mesmo a irmã.Apesar ate há pouco tempo. a resposta do INSS foi quizofrênicos. e embora eu visse ele respondeu simplesmente que não gostava melhoras no paciente. quando o trabalho tives. um homem de origem discurso na casa deles e. O filho se defendeu melhor. do esquizofrênico (ROSENFELD. O pai também foi abandonando a análi. embora começou a chorar porque estava sentindo me dissesse que não gostava de ir lá e que que não iria mais se deitar naquele lugar. possivelmente eu também se terminado. Naquele momento aquele homem se que- Mesmo assim ele ia. pois esse traba- o questionei sobre a sua vontade de parar. fazer psicanálise não era fácil. 93–110 | Julho/2014 105 . porque também ele es- te me avisou que.00 por mês. Acordamos que ele pa. e o pai dele garia quando pudesse desde que o filho con. Eu tenha contribuído para isso. ao meu ver. para ter um quadro dez prestações.

de certa forma ela sempre foi muito firme em Também ao ler a descrição do caso. fiquei no qual ele se sentisse à vontade para se ex- curiosa. menos angustiado e quando o Para a mãe não interessava que o marido movimento do seu corpo demonstrava uma começasse a questionar a relação dos dois. A cada encontro. Descrever um caso clínico não é uma tarefa Se me perguntassem se esse paciente che- muito simples. terpretação errada em um paciente com um De vez em quando fazia algumas anota. seja exatamente porque no set. conta. acredito que ele não paciente enquanto ele ainda se encontra em teria sequer iniciado a falar. eu diria que não. mas eu achei analisando é um sujeito singular. algo aconte. teve uma rede de atendimento. mas dificil. o mesmo perigoso. se Eu temo que anotar e escrever sobre um não fosse dessa forma. O choro de um bebê pode Acho até que a fala dele “Quando termi- ser de dor ou de fome. eu responderia que sim. Lógico que eu dirigia perguntas a ele. Uma casa equivale a dizer um para mim como a experiência de entender o útero. dade foi um processo muito lento. Era com eles Discussão do caso que eu ganhava determinação para continuar. psicanalista tem que se fazer presente. assistência jurí- namento. forma muito rápida. eu vivia a experiência com ele. o leitor dizer que só a fé curaria seu filho. mais que tudo. em vez mente esqueço o que acontece no set. Sei que al- como verdade para todos. sentindo melhor. com mo- guma coisa. um corpo e uma pertinência. mas acredito que esse estado durou Se me perguntassem se ele apresentou re- muito pouco. sinal de que a resistência vinha operando ver algumas atividades que eu escolhia para contra essa melhora? trazer ao set. ego tão fragmentado era algo que eu tinha ções com o intuito de pesquisar. fazer uma maternagem e criar um ambiente Ao me deparar com esse caso. Com pacientes análise. eu diria que sim. se precisassem de al. mas hoje acredito que eu e o Em proporções menores esse paciente analisando estávamos nos comunicando in. narmos esse quebra-cabeça eu vou parar” 106 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. O que seria isso senão um Eu utilizei a palavra intuição para descre. pode ter a impressão de que tudo ocorreu de Não me restou senão dizer seja para o pai. eles tinham meu telefone e o do mentos de desânimo e muitas dúvidas. Assim como cada guns psicanalistas fariam isso. Talvez de interpretar. Não foi assim. listas para ele e para o pai. psicana- caixavam em um lugar de desejo de relacio. que se cons- conscientemente e que tais atividades se en. dica e. Com o tempo fui hostil a ele. nesses momentos que o suporte de meus su- pervisores foi muito importante. Mas. mas só a mãe conse. Se me perguntassem se eu interpretava a rística minha. ta e o analisando. algo sempre A minha escolha foi mais em direção a acontece. assustada. Ele parou cia reforçando a minha percepção de que era a análise no momento em que ele estava se possível trabalhar com o paciente. que era a Entender o silêncio desse paciente foi Instituição. ocorreu no set não foi anotado. choro de um bebê. Eu diria que. medo de experimentar. uma casa. que não tem que ser tomada fala do paciente. e certa tranquilidade ou não. principalmente se tudo que gou a fazer associação livre. tituía de um médico psiquiatra. 93–110 | Julho/2014 . E foi CBP-RJ. possa de alguma maneira interferir nesse estado de embotamento. o desejo do na comunicação inconsciente entre o analis. 41 | p. Um ambiente que não permitia entendendo quando seu silêncio era muito que ele crescesse e que ele se tornasse sujeito. Talvez seja uma caracte. O que poderia provocar uma in- vale para o analista. Na ver- seja para o filho que. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise sividade em relação a um ambiente que era gue diferenciar esses sons. mesmo com muitos “não ditos”. sistência. com medo de não dar pressar. angustiado.

cuidando do ventilador. não era uma dúvida. preferia silenciar sobre muitas coisas. Ela não estava completamente alheia ao tante saber respeitar esses limites. assim assim como o paciente. assim como todos nós te. Porém. e houve transferência Esse paciente necessitava ser visto como sim. para que ele se desenvolvesse psiquicamente Quando viajava. 93–110 | Julho/2014 107 . Quando psiquicamente. para descarregá-lo em seus objetos Assim não tilador e. vivia em casa. Sua existência ia além dessa ajudou muito no tratamento do seu filho. Também mantém encerrado seu amor sempre ligado quando eu chegava. sua irmã. pois trabalhando no limiar ele entrasse naquele silêncio mortal. mos nossos momentos de regressão ao nosso Infelizmente a ausência da mãe não contri- estado esquizo-paranoico. está disposto o fazia escutar as músicas que eu gostava. e ele me retribuía cui. Um mundo falso e de segredos ele já muitos silêncios e segredos naquela família. como através daquela filmadora eu conheci mais seu mundo.. o guarda numa prisão. Ninguém é psicótico tentar essa situação por muito tempo. poderia dizer coisas im- vadido e. mais inteiro. sua mãe e a casa que outro motivo para guardar seu amor dentro de seus pais compraram em Miguel Pereira. além do que surge da sensação de que esse Eu cuidava dele. muitas vezes ele me perguntou onde eu morava. Que o ambiente em que o paciente cres- riência se repetisse no set. que se negava a compartilhar. A mãe cótico tem uma dificuldade maior para viver desse paciente era detentora de um saber esse processo de entrar e sair desse estado. do suportável psíquico do sujeito é impor. como nin- Um paciente psicótico se sente muito in. A que eu estava viajando. sujeito e principalmente não como sujeito A inclusão do pai no processo analítico esquizofrênico. Ela. guém naquela casa. por exemplo. amor é demasiado precioso para separar-se dando para que o ventilador da sala estivesse dele. dessa forma. Ela tinha dificuldade de dar amor. Ele sabia porque o sente como demasiado perigoso que eu me confundia com os botões do ven. assim como sem. ceu não tenha sido suficientemente bom pre respeitei seu tempo dentro do set. ainda que fosse seu olhar através da sua estava bastante distante e desinteressada da pequena filmadora. a interpretar o amor dos outros em termos Sem cerimônia. Havia dadeira. Eu dava a ele algo meu e te sofresse de um distúrbio muito próximo acho que em contrapartida ele me dava algo ao do filho e que de certa forma ela também dele. era evidente. mas tenho medo de continuar! Houve muitas trocas. ele dizia que as músicas que similares (FAIRBAIRN. e eu te que o próprio amor é mau. p. só guarda seu amor numa caixa-forte. Através daquela filma. Como sen- Ele me fazia escutar sua música tech. a posição do analista portantes para que pudéssemos entender o é muito delicada exigindo uma grande dose que tinha acontecido ao seu filho para que de sensibilidade. e eu dizia a inteiro e quero parar. Retornando contava figura materna ausente. ou mesmo. realidade. 1941 [1980]. buiu para o trabalho com seu filho. eu disse a aparentando que a própria mãe do pacien- ele onde eu morava. eu dizia para onde ia e por de forma mais sadia. Um paciente psi. Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise poderia ser traduzida como: me sinto mais eu gostava eram muito chatas. mas até partilhava comigo os cuidados do set. ele com. e eu não queria que essa expe. ela simplesmente eu sempre falei com ele de forma muito ver. eu 24 horas por dia. 41 | p.. seu Estamos agora na situação de apreciar que o sobrinho. que nasceu durante o período da indivíduo com uma tendência esquizoide tem análise. que ocorria com o filho. diria que ele foi muito corajoso ao tentar. me sinto ele que eu não entendia nada da música tech. não fisicamente mas para ele como tinha sido a viagem. dora eu continuava presente para ele. Ainda que ele não tivesse conseguido sus- tar contra esses rótulos. Por essa razão temos que lu. psicopatologia. 21). Por isso. seu cunhado. si.

314). encontram os pontos de fixação para todos os culdades foram relatadas a um psicólogo ou distúrbios psicóticos (KLEIN. sido feito antes. flagrado a crise. Sem dúvida o paciente não podia manifestar? Pode ser alguma se ele tivesse sido segregado em uma uma hipótese. Se isso aconteceu. era uma mentira. sexuais com uma prostituta possam ter de- não gostaria que ela fosse a única a ser res. Já com o embo. não tenha nem mesmo chegado a esse ponto to pior. ao passo que na psicose o des- sores. teria sido mais fácil tratá-lo. Nesse período se e parece que em momento algum essas difi. a família omitiu essa informação. mas era algo indizível. o ego e o id. Segundo seu pai essa mulher teria sido man- seja sob o ponto de vista médico. Mãe nasce filha! Ela se torna mãe O paciente parou em um estágio no qual através de uma vivência de maternidade que ele ainda não sabia se queria amar um ho- pode ser muito difícil ou muito fácil depen. Pelos relatos da mãe o pacien- te já apresentava muito dos sintomas desde Nos primeiros anos da infância. assunto. Muito retraído e pouco social. de identificação sexual. que obrigam o ego a desenvolver mecanis- quentar a escola dos 5 anos até os 22 anos. sem definir claramente se masculi- mas se encaixavam na esquizofrenia do tipo no ou feminino. A maternidade ainda é muito de muito forte para que todas as suas defesas idealizada. mesmos. Poderia ser uma homossexualidade que lhor do que excluí-lo totalmente. O que fez com que ele tivesse uma crise na Do que pude depreender dos relatos escola restará sempre um mistério. p. enquanto o já vinha se apresentando desde o inicio da pai e a irmã apareciam misturados entre eles. seja sob dada da Paraíba para se casar com ele. quando eu pedi dendo do ambiente e da sua experiência pes. O casamento da mãe e do pai era um É provável que. mas o descaso do nosso sistema optou fecho análogo é de um distúrbio semelhante por “negar” e deixá-lo no sistema que finge nas relações entre o ego e o mundo externo que “inclui”. Aliás. É muito quanto à perda da escola. se com que o paciente elaborasse o complexo tamento e a apatia dos sintomas negativos a de Édipo e passasse pela castração. 1969. catatônica. manifestam- criança. que ter deixado que frequentasse a escola para que ele não se sentisse excluído foi me. desenhou sem sexo. mem ou uma mulher. 1982. embora eu acredite que ele instituição psiquiátrica seu estado seria mui. os símbolos do sexo do pai e da irmã são os qual tipo não saberia descrever. Interessante notar que O paciente sofria de uma esquizofrenia. dos animais e da possível que ter perdido a irmã para um ou. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise Apesar desse comportamento da mãe. assistente social. Ela o ponto de vista psicanalítico. Apesar dessa crítica concordo (FREUD. mas algumas vezes pensei que ele Edipicamente por esse desenho ele pare- fosse portador de algum tipo de autismo que cia ainda muito fusionado à mãe. Os remédios não o desejava sexualmente levando o casal a disponíveis hoje conseguem lidar muito bem não ter uma vida amorosa e sexual que fizes- com os sintomas positivos. questão é mais complexa. 41 | p. características das psicoses Por incrível que pareça ele conseguiu fre. 167). Seus sinto. bicicleta. tudo isso indicava que a castração tro homem e ter sido forçado a ter relações de seus desejos era a forma na qual ele tinha 108 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 93–110 | Julho/2014 . p. Duvido muito que o comportamento do A neurose é o resultado de um conflito entre paciente não tenha sido notado pelos profes. ele se soal com sua mãe. sua infância. se seu diagnóstico tivesse casamento de fachada. que fizesse o desenho de sua família. -se ansiedades. mos específicos de defesa. Certamente algo aconteceu ponsabilizada. e poucos ousam falar sobre esse caíssem.

mas é consideradas “normais” por seus familiares também um grande aprendizado. psicanalistas. ele falava. é sentido como o medo de um in. dio também não basta. 41 | p. pois só a investigação e a clínica podem nos levar a algum aprendizado sobre os mistérios desse estado psíquico. Quem denuncia seu sintoma são os Quando chegou para ser tratado. Ao que tudo indicava. Um contato mais es- treito entre psicanalistas e psiquiatras tam- bém seria muito relevante. Ele era o ob. seus rins “outros”. e nós. caminhava termo sintoma negativo já soa estranho pois sozinho no perímetro do seu bairro. 318). Acredito que após 4 anos de relaciona- controlável e prepotente objeto. ria um sintoma tão grave. escutava música e assistia televisão. 93–110 | Julho/2014 109 . modificado. Aliás. que é sentida como medo de aniquila. o paciente tenha internalizado algo tes importantes de ansiedade primária são o de bom. O medo do impulso destrutivo dita pelo paciente de maneira zangada foi parece se ligar imediatamente a um objeto. mo. mas aos seus olhos. Subjetivamente os “outros” o levam e dizem que ele tem algo não existia para eles. investido em objetos que seriam algo a respeito do qual os próprios médicos perdidos? sabem muito pouco. Os remédios controlam o esquizo- estavam parando de funcionar sem uma cau. a expressão de um afeto. gregamos os esquizofrênicos em instituições to lhe eram retirados de maneira misteriosa porque os manicômios foram fechados. Por que ele deveria continuar são medicalizados na tentativa de curá-los de uma vida. O fava. hoje não se- Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. mas não devolvem afeto e não os ti- sa fisiológica. eu diria que a psicanálise mento (morte) e assume a forma de medo de funciona sim! Até o “não quero mais ir aí” perseguição. Após a análise. mento. são à repetição. Caso clínico — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise crescido e que seus objetos investidos de afe. 1982. trauma do nascimento (ansiedade e separa. frênico. sabemos o De certa forma ele se acomodou em casa quanto o ser humano é preso à sua compul- sem trabalhar. Em resumo. esse paciente não O esquizofrênico não vai ao médico por- gozava do direito a ter desejos. sofrendo todo tipo de experimento por parte das instituições médicas. Assim como as histéricas por muito tem- po foram confinadas e tratadas como doen- tes. isso não se. embora isso seja ainda muito difícil. mas hoje em dia. o psicanalista possa intervir. Ele ter interrompido a análise é normal. Ele vai ao médico porque jeto do pai e objeto da mãe. Conclusão Acredito firmemente que os psicanalistas devem sim aceitar pacientes esquizofrênicos. “negativo” é o sintoma que não se mostra. que se sente mal. o próprio renal estava resolvido. pois o equilíbrio da família estava sendo rais (KLEIN. ção) e a frustração das necessidades corpo. Inúmeras pessoas É um trabalho de muita dedicação. p. errado. afeto. Outras fon. vivem às expensas de suas famílias sem tra- balhar. remédio pode ajudar a criar a base para que Sustento que a ansiedade nasce da ativi. mas só o remé- dade do instinto de morte dentro do organis. fotogra. esse problema ram dos sintomas negativos. agressivo mas um ou melhor.

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