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CYBELE M. R.

RAMALHO
(Organizadora)

Psicodrama
e Psicologia Analítica
– construindo pontes
Co-autoras:
Corintha Maciel
Marcia A. Iorio-Quilici
Maria Virgínia S. Alves
Vanessa Ferreira Franco
Vanessa Ramalho F. Strauch

São Paulo
2010

© Copyright by Cybele Maria Rabelo Ramalho
© Copyright 2010 by Iglu Editora Ltda.

Produção gráfica:
Iglu Editora Ltda.
As autoras

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Cybele Maria Rabelo Ramalho – psicóloga, psicoterapeuta, psicodra-
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) matista didata e supervisora, diretora da PROFINT/SE, especialista
Psicodrama e psicologia analítica : construindo pontes / Cybele M. R. em Psicoterapia Analítica (IJBA), professora da Universidade Federal
Ramalho (organizadora) . — São Paulo : Iglu, 2010. de Sergipe. Autora do livro Aproximações entre Jung e Moreno (2002) e
co-autora do livro Descobrindo enigmas entre heróis e contos de fadas –
Vários autores.
entre a Psicologia Analítica e o Psicodrama (2008). Endereço: Praça da
1. Psicodrama 2. Psicologia 3. Psicologia junguiana 4. Psicoterapia Bandeira, 465, sala 407, Aracaju, SE. CEP: 49010470. Fone (79) 32144360
I. Ramalho, Cybele M. R. e 99872693. E-mail: rabelo.ramalho@hotmail.com.

10-03643 CDD-150.195 Corintha Maciel – psicóloga, psicoterapeuta, psicodramatista e criadora
do Mitodrama. Professora, supervisora e terapeuta didata em Psico-
Índices para catálogo sistemático:
drama. Viveu em Brasília desde 1975, por 33 anos. Atualmente reside
1. Sistemas psicoterápicos : Psicologia 150.195 em Campo Grande (MS). Autora dos livros: Mitodrama: o universo mítico
e seu poder de cura (2000) e “Histórias que contam sobre nós” (2008). Ende-
reço: Av. Marechal Floriano nº 121. Vila Bandeirantes, Campo Grande.
ISBN 978-85-7494-125-7 CEP 79006-840. E-mail: mar-de-luna@ uol.com.br.

Marcia Alves Iorio-Quilici – psicóloga, psicodramatista pela FEBRAP
Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou meio eletrônico e
mecânico, inclusive através de processos xerográficos, sem permissão expressa da Edito- e mestre em psicologia pela USP. Professora universitária. Experiência
ra. (Lei nº 9.610 de 19.2.98) clínica e em atividades com grupos vivenciais na área educacional
e organizacional. Atriz do Grupo de Teatro Espontâneo Gota d´água.
Todos os direitos reservados à Endereço: Rua Agostinho Cantu, 73, apto. 81, Butantã, São Paulo, SP.
CEP 05501 010. E-mail: marciaiorio@hotmail.com.
IGLU EDITORA LTDA.
Rua Duílio, 386 – Lapa
Maria Virginia Souza Alves – psicóloga, psicoterapeuta, psicodramatista
05043-020 – São Paulo – SP (PROFINT/SE), focalizadora de Danças Circulares Sagradas, especialista
Tel: (011) 3873-0227 em Gestão de Pessoas em Ambiente de Mudanças, especialista em

Docência do Ensino Superior, educadora da Universidade Corporativa
Banco do Brasil. Endereço: Praça da Bandeira, 465, sala 407 – Aracaju,
SE. CEP: 49010470. Fone (79) 3227-4076. E-mail: virginiaalves2002@
yahoo.com.br.
Sumário
Vanessa Ferreira Franco – psicóloga, psicoterapeuta, psicodramatista
(SOPSP), especialista em Cinesiologia Psicológica: Integração Fisiopsíquica
com ênfase na abordagem junguiana (SEDES) e especialista em Psico-
logia Transpessoal (FACIS). Endereço: Rua Grajaú, 670. Sumaré. São Prefácio ...................................................................................... 9

Paulo, SP. CEP: 01253-000. Fone: (11)2659-5435. E-mail: vanessaffranco Sérgio Perazzo
@yahoo.com.br.
Apresentação .............................................................................. 15
Vanessa Ramalho Ferreira Strauch – psicóloga, psicoterapeuta, psicodra- Cybele M. R. Ramalho
matista (PROFINT/SE), atualmente atuante no Núcleo de Apoio à Saúde
da Família (NASF) em Salvador/BA e com especialização em Saúde Capítulo I
Pública. Endereço: Av. Oceânica, 2411, apto. 205, Edf. Costa do Sol, Mitodrama: a mitologia como traço de união entre o Psicodrama
Ondina. Salvador / BA. E-mail: ramalhonessa@uol.com.br. e a Psicologia Analítica .......................................................... 19

Corintha Maciel

Capítulo II

A utilização do Psicodrama para a exploração das imagens psí-
quicas .................................................................................... 39

Marcia A. Iorio-Quilici

Capítulo III

Aplicações do Sandplay Psicodramático no contexto clínico e
sócio educativo ...................................................................... 57

Cybele M. R. Ramalho, Maria Virgínia S. Alves,
Vanessa Ramalho F. Strauch e Vanessa F. Franco

Capítulo IV

O Sandplay Psicodramático em cena: um estudo de caso na
leitura do Psicodrama Junguiano .......................................... 87

Vanessa Ferreira Franco

. R.................. Moreno abre as portas do teatro à comédia e à tragédia humanas. Ramalho A arqueologia dos mitos do homem subjacente às marcas do inconsciente coletivo..... na descrição romanceada de Morris West em O mundo transparente...... e o sonho vivido na cena psicodramática continuando................. Jung.............. 151 à liberdade.............. o sonho ampliado de Jung buscando a Cybele M. a O onirodrama no psicodrama grupal: uma estratégia entre o concretude da ponte que os dois estendem ao ser humano no seu rumo dramático e o simbólico .......... cada um à sua maneira...................... Ramalho herança coletiva que ultrapassa o significado individual do sonho de Freud...... 201 Pois bem.. do Maria Virgínia Souza Alves poder simbólico que nos escraviza às correntes das conservas culturais co-conscientemente e co-inconscientemente............... Sai da sua sala com sua analisanda e com ela passeia pelo seu jardim de pedras.... Tudo o mesmo Drama...... drama junguiano ..... Moreno e Jung................. base da nossa realidade suplementar........ Ramalho Prefácio Capítulo VI Contos e encontros com a psicologia feminina: o Psicodrama Junguiano na metodologia mitodramática .. é o analista inquieto que se recusa ficar ancorado ao lado do divã.... dos arquétipos determinando sombras junguianas de encontro à concepção moreniana da verdade psicodramática e Capítulo VIII poética... O Drama coletivo englobando um conjunto de Dramas privados... Este livro é um livro mandálico................ Viver além do sonhar para que o sonho....Capítulo V Psicodrama e alegria: resgatando o poder espontâneo-criador do riso ............ Que coisas? Mais que do Capítulo VII pensamento transbordante desses dois visionários.. primeiro da nossa criatividade. meia idade e envelhecimento ......... Cybele M......... 127 Vanessa Ferreira Franco Não digam depois que não avisei.. Só isso não seria bastante Capítulo IX para compor um mandala? Psicodrama Junguiano.. R.... mais que isso. Só depois volta à sua ...... por sua vez fundamento Danças circulares sagradas: um recurso arquetípico no psico. 175 dos personagens conservados que carregamos como um fardo.. se torne um projeto que não se cristalize em utopia..... onde sua mulher faz e serve café aos três. entra na cozinha....... vivencial- mente. Um livro de integração harmônica das coisas. indo além do ponto onde Freud estacionou o seu sonhar. a criação de um sentido existencial.. no mínimo........ Ao melodrama do cotidiano... 113 Cybele M..... R...... que se localiza na base dos mandatos..

Por isso. a pimenta. Vanessa Franco e Vanessa Strauch). até certo direção a seguir. revelando a sua complementaridade e a mesmo tempo arte e ciência. Todavia. Ramalho PSICODRAMA E PSICOLOGIA ANALÍTICA – CONSTRUINDO PONTES 11 sala. Como Saulo na Estrada de Damasco. Seja pela geografia. ante-sala do Pantanal. muitas vezes aparentemente intransponível. além da apresentação. aberto graciosamente aos homens e por todos os membros da soma de todas as seitas. esta mesma coisa está inserida em sistemas diferentes. da Praça Castro mesma coisa. O seu batismo é que é diferente. bem como não há dois junguianos iguais. o lado nós é a integração de todas as influências de tudo que aprendemos e complementar. na minha opinião. Reserva de mercado. o cravo e a canela do tempero deste livro. no instante iluminado da idade e envelhecimento e sobre as aplicações do sandplay psicodramático. temos uma identidade única e Cybele e Virgínia na terra das araras coloridas e cajus com suas castanhas. inclassificáveis. desenha a simbologia do palhaço de incorporando uma postura de renúncia. ponto. em pinceladas da Aquarela deste Brasil tão Consequentemente. deixando solto o Contrariando a todas as expectativas. dois caranguejos. Os junguianos. ao mesmo tempo integrando linguagem e idéias. Em que tábua da lei está escrita a palavra de tal proibição? O ser O mandala integrador deste livro também costura a história. Não têm altímetros. integrando Cidade Alta com Cidade Baixa. deste mandala). Como se tivéssemos aqui com outras autoras (Virgínia. compondo o outro lado. polarizados entre o bem e o mal. A questão é como Aracaju sugere. a proposta deste livro mandálico é uma proposta vasto e tão próximo ao mesmo tempo. Se a bandeira for psicodramática. terá que jogar pela dirá. Por pretensa criatividade não têm limites nem podem ter. Seja Vanessa Franco e Márcia. Um mandala aberto à criação. então. foi a construção (uma co-construção na verdade) de uma ponte autoras. Seja pelo Palácio dos Arcos dos psicodramatistas iguais. em suas delicadezas de renda de bilro linguagem comum. o que quer que falem ou como falem. à psicanálise. como integrar. no que parecia babel. São coerência. a procedência e a criação de suas autoras (um universo feminino sua totalidade pelos membros de uma única seita científica e nem mesmo de inteligência e sensibilidade. Alves à Baixa do Sapateiro. intransferível. apesar da terminologia estrelas. O fenômeno é o mesmo. o sal. ascensorista e passageira do Elevador específica. conversão. difícil. que passa por de todos com quem aprendemos. Tanto para ele. portanto. forçosamente. de uma formação psicodramática ou de o tempo todo. a visão que cada corrente de pensamento tem sobre o tendo Corintha como guia. . sobre meia nos comportar como candidatos a santos. o mundo é muito maior Assim. Vãs tentativas as nossas em ousar sistematizá-los. quanto para Moreno. um não poderá utilizar a técnica do outro. desta brilhante coordenação de Cybele Ramalho. Não há nada que tenha que ser jogado fora. Apresenta aos dois. uma formação junguiana). sinalizando a homem. ao entre o que parecia diferenças. nos deparamos. que deixar para trás tudo que somos. Que abandonar Freud. sobre onirodrama. A de integrar o que aparentemente não pode ser integrado porque Que dizer. No entanto. num mesmo tom. por exemplo. estão falando da Lacerda. então. particulariza-se através de uma linguagem própria e. R. É uma prova viva de que Toda vez que enveredamos por um caminho de fina especialização não precisamos jogar nada fora. o paladar e a tenacidade das garras de seus como aproveitar o que temos. Cybele. a minha sensação de mandala (como é o caso. o que as autoras conseguiram percurso criativo e a originalidade de pensamento de cada uma de suas alcançar. Não há. quem adotar a bandeira junguiana terá que. o mundo interior de cada um de nós? Os nossos voos de janela tudo que cheirar. Este tecida a doze mãos? é o valor maior deste livro. Jung e o Moreno que trouxe alegria à psiquiatria. em um dilema. o humano é muito maior do que isso. levemente que seja. que os limites estreitos que nos impõem e que nos impomos. e tendemos a quatro capítulos: sobre o riso e a alegria. com Das especificidades. Como cada um de mulheres que querem dele participar. bem ali na esquina da Ipiranga com a Avenida São João. por exemplo. cifrada. pinças a ligar areia e mar.10 Cybele M. 102 anos do Niemeyer ou por Campo Grande. ele jamais será compreendido em berço. que estava apenas latente. em algum momento. ao alcance da mão. Ou seja Vanessa Strauch. com o Universo indicado por um caminho de os psicodramatistas por outro. falam por um dicionário e na rota de São Paulo. Cybele comparece.

como também nos coloca dentro da caixa de areia brinquedos) ganham a vida do cenário psicodramático.12 Cybele M. de que ela nos fala. de um psiquismo que se transforma a partir de si mesmo. consequências dos mitos particulares que vivemos internamente. fazer as pazes com o passado. A integração do sandplay é. com igual competência. dando uma saída para a prático. R. sem nenhum caráter ou com um psicodramático de papel imaginário e de personagem conservado. um estudo pormenorizado da técnica do sandplay (caixa de areia). nos apresenta um estudo aprofundado que engloba a imaginação ativa Jung e Moreno. desvelando a ação e o Drama. Ramalho PSICODRAMA E PSICOLOGIA ANALÍTICA – CONSTRUINDO PONTES 13 tanto o nosso herói Macunaíma. é possível visualizar seus aspectos sombrios. A descrição do seu método de trabalho utilizando a história Coroando tais princípios universais. constrói um traço de união centelha divina. A sua retomada do onirodrama moreniano se enriquece com a Márcia cuida do psicodrama na exploração de imagens psíquicas e comparação das contribuições do modo de ver os sonhos por Freud. quer junguianas. portanto. Com muita propriedade. autoras. dá forma ou. entre o psicodrama e a psicologia analítica através da mitologia. em construção de uma sabedoria incorporada com a idade. muito oportuna e muito É possível viver. acrescentando uma forma de trabalho original de grupos junguiana e o psicodrama interno. em que nos faz navegar no universo da psicologia A realidade paralela junguiana. quer psicodramáticas. nos obriga a incorporar. nos demonstra com um trabalho dos mitos universais que nos aprisionam. que brotam que no fim dos anos 1970 os psicodramatistas já utilizavam tais recursos de uma forma dramatizada. caráter ainda por ser compreendido. papéis. o mundo feminino. como demonstram fartamente as que passa. tendo o mitodrama como num complexo carregado de carga afetiva. a persona e o Em outro capítulo ela nos presenteia com um belo estudo sobre o complexo junguianos. com brinquedos e Luiz Altenfelder da Silva Filho. . Vanessa Franco reforça a utilização do sandplay psicodramático renovado com um toque psicodramático. em suas palavras. original do sandplay. diante da encruzilhada que o tempo nos coloca. uma viagem bem-vinda e sua aplicação em grupos. tanto pelas paragens espontâneo-criativas do psicodrama. de uma teoria da imaginação e fantasia. já envelhecer. se constitui uma novidade técnica que muito amplia as quanto pelos arquétipos junguianos. em uma forma viva com desenhos) em um trabalho pioneiro. transformando a concepção estática (Arthur Kaufman. enquanto técnica em si mesma. Um casamento antigo jung-moreniano. está muito próximo do conceito vela e leme. modificando inteiramente a em cena. técnico. quanto os estudos de Bergson. num trânsito em que o psicodrama vivenciais de sonhos. que marcam os patamares da no caso Bárbara (a primeira experiência psicodramática de Moreno. às imagens consteladas. publicado na época. Cabe lembrar com a emoção da descoberta e dos significados simbólicos. articulação coerente. ou o conflito seu sentido terapêutico). As oficinas que descreve constituem a viagem em si mesma. Ela proposta junguiana clássica. realizam psicodrama. com um estudo de caso muito bem cuidado e ilustrado. em que os elementos inanimados (bonecos. como se Jung e Moreno ali estivessem presentes e iluminados por uma Corintha. com farta metodologia e exemplificações. ela nos lembra que. se constituindo feminina. permitindo reformulá-los. as suas proposições. recente no Juntamente com Virgínia. criando Vanessa Franco reaparece neste livro em contos e encontros com o mitodrama. consegue. numa dimensão cósmica. em nosso arsenal renovada na cena psicodramática. através do psicodrama junguiano. indicando o caminho do bem envelhecer Seu ponto de vista é o de que o psicodrama como ritual. com o seu protagonista de sandplay. transformando ou não. sobre as metanóias junguianas. a extensão desta figura arquetípica transformação e liberdade. Vanessa Franco e Vanessa Strauch. abandonando ou não. ao mesmo tempo. possibilidades. situar teoricamente o método com uma O acréscimo de falas e movimentos. porque ambos percebem no riso a afirmação de um princípio criador. inserindo-o numa compreensão. o psicodrama do palhaço. introduz o corpo para que se dramatize a sombra. transforma o sandplay num instrumento mais dinâmico.

em que a mulher inteira emerge viva. 02 de janeiro de 2010 autores considerados à primeira vista distantes. sonhos. ao mesmo tempo em que reveste a psicodrama junguiano. de átomo social. resultou a matistas e como os verdadeiros junguianos. se encontraram no Congresso Brasileiro de Psicodrama música é composta de duas bandas: o psicodrama junguiano. (psiquiatra e psicodramatista). como é o caso do sandplay psicodramático. emocionais e ideativos.14 Cybele M. cercada de contos de fadas. para trocar experiências nesta direção. aproximações possíveis observadas na obra de C. Virgínia. onde descobriram uma linguagem comum. Sua do país. Por isso mesmo. Tentamos não privilegiar nenhum dos pólos. que apresentam seus fundamentos filosóficos. as curvas integradoras de nem esgota a profundidade desta nova perspectiva. acertando o passo entre algum modo. o psicodramatistas que dialogam com a psicologia analítica e que. porque acreditamos serem complementares. G. Em seus passos finais. Virgínia. ela dança a socionomia moreniana. afinidades e descobertas aperfeiçoamento. sagrada. Ramalho 15 povoadas de criatividade. estão aqui reunidas. epistemológicos. com a ponta dos pés. é uma forma de aquecimento de grupos sem igual. com resultados rápidos e eficientes. superficializar ou contaminar ambas. Para o leitor que conhece uma das abordagens. Alguns capítulos se apresentam mais teóricos (como o estudo dos mitos e o das imagens psíquicas através do psicodrama) enquanto outros buscam articular com a prática psicoterápica e com técnicas especiais desenvolvidas nesta nova abordagem. Ele se detém nas um mandala ao mesmo tempo junguiano e psicodramático. Antes. Movidos pela . Moreno. Danças arquetípicas. autores e leitores deste lindo livro. Suas pesquisas. a espontaneidade e a criatividade. Dançar em grupo. tenta Sergio Perazzo exemplificar como o uso de recursos especiais (como mitos. se dispõe à abertura e ao idéia de construir este livro. se identificam com uma nova corrente denominada o psicodrama e a psicologia analítica. Apresentamos neste livro o fruto do trabalho de um grupo de Mais que dançar o sagrado. num ato de generosidade que nos convida a todos. L. Danças circulares. Jung e de J. pode aproximar dois São Paulo. Deste encontro. como os verdadeiros psicodra. nem o psicodrama nem a psicologia analítica. através das pesquisas e experiências das autoras. R. mais uma vez. As autoras. realizado em Recife (PE) em 2008. que inscreve. comprova tal observação com o seu trabalho sensível e sua demonstração na condução de seus grupos. sandplay. a nos darmos as mãos nesta dança Este livro não é um tratado a respeito do psicodrama junguiano. Dançar com Virgínia. teóricos e metodológicos bem definidos. danças circulares sagradas e contos). poderá haver algum estranhamento nesta parceria. A dança no psicodrama conjuga em sua estrutura os iniciadores Apresentação corporais. provenientes de diferentes localidades coreografia com o figurino cuidadoso de suas formulações teóricas. Poderá imaginar o risco de enfraquecer. Não negamos a especificidade destas duas abordagens.

pesquisando as articulações com os quais ele se identifica (não devendo descartá-los. R. deixando dirigir por estas forças inconscientes). nos momentos existenciais críticos – e psicodrama com a psicologia analítica. Drama humano é encenado. Os e vazia de sentido. arquétipos (sombra. Jung junguianos de inconsciente coletivo. humano como ligado a uma energia cósmica. desenvolvem pesquisas e experiências nesta direção. Trabalhar na interface destes dois teóricos é como se tornar um O leitor poderá ficar curioso quanto á ousadia de aproximar equilibrista. Como em Brasília e outra em Aracaju. Procedendo de num exercício divertido. a grande batalha O psicodrama junguiano tem se fortalecido principalmente na do homem moderno é enfrentar a Conserva Cultural. com o corpo em ação dramática e Jung. Utilizaram meios não-verbais de trabalho psicoterápico. Este livro. consideramos que o desenho desta como o locus onde o processo criador se desenvolve. em Portugal. arquétipos que se expressam através do seu comportamento. preferia o trabalho grupal. Um grupo de psicodramatistas e analistas junguianos italianos Moreno. este grupo passou a articular o com pedrinhas. para desvendar o inconsciente coletivo – a psique Ambas. considerada como a centelha divina da Espontaneidade-Criatividade (para Moreno). a sociometria e a psicologia analítica. movimento coletivo. Zerca .16 Cybele M. p. Para ele. primeiros livros publicados que iniciam esta trilha brasileira (Mitodrama. portanto. respectivamente. 1991. Ambos. Bollati Boringhieri. o psicodrama junguiano defende que Jung e Moreno de Corintha Maciel e Aproximações ente Jung e Moreno. Enfim. ou a energia psíquica O que vem a ser o psicodrama junguiano? Como surgiu? superior do Self (para Jung). de Cybele Ramalho. entre outros. em Imaginação Ativa. etc. preferiu o estudo do que reúne trabalhos de um grupo de profissionais brasileiros que co-inconsciente e suas manifestações no campo interpessoal e social. de abundância inesgotável e fundamental a todos os seres. Na Introdução do livro de Maurízio Gasseau e Giulio Gasca autores tão divergentes. o palco onde o corrente ainda está sendo construído. mas não se possíveis entre a teoria dos papéis. favorecendo a integração entre os conceitos defesa do desenvolvimento do potencial espontâneo-criativo. para evocar as mais profundas expressões do Self. com imagens e (entre eles Giulio Gasca. começou a utilizar a dramatização para trabalhar conteúdos preferidos da infância (o Godplayer. Maurizio Gasseau.10). foram em 2000 e 2002. para Moreno e os jogos de construção oníricos em psicoterapia de grupo. Embora não enfatizasse a Embora hoje no Instituto Junguiano de Zurique também se pratique e estrutura da psique. combinando a riqueza do privilegiaram a importância do jogo criativo. Moreno se referiu à Revolução Criadora. a repetição mecânica Europa e na Argentina. Ramalho PSICODRAMA E PSICOLOGIA ANALÍTICA – CONSTRUINDO PONTES 17 trans-disciplinaridade. para Na Argentina. e a toma se ensine o psicodrama junguiano. criticaram o homem massificado. em e dificuldades emocionais. dialogamos com conceitos junguianos e morenianos Jung e Moreno seja o cuidado com a vida criativa. procuraram ver o ser pode ser amplificada. Moreno alertava para a Foi se construindo uma abordagem aberta. método sócio-psicodramático com elementos da psicologia profunda. culturas e religiões. inaugurando um Como terapeuta. que focalizou os complexos conscientização das forças opressivas das Conservas Culturais. preferia a análise individual. autoras psicodramatistas que trabalhavam isoladamente. temos Carlos Maria Menegazzo e. Daí. Ambos se inspiraram nos jogos Mondino). são complementares: Jung aprofundou-se no estudo das diferentes ambos da Editora Ágora). será o primeiro terapeuta. mas no nosso país está ainda engatinhando. persona. Já Moreno. uma objetiva. promover um processo de diferenciação de todos os fatores coletivos Manuela Maciel como pioneiros nesta linha. Wilma Scategni e Donatella símbolos. para Jung). Talvez o ponto de maior aproximação entre (Lo psicodrama Junghiano. coletivamente.) defendia que o ser humano deveria tomar consciência dos mitos e com os conceitos morenianos de tele e co-inconsciente. onde descobrimos como a riqueza de ambas diferentes direções e usando estilos opostos. Torino. constituída de arquétipos – fonte criadora inesgotável.

este livro é um convite a um diálogo. . Sendo um modelo de psicoterapia voltada para a ação. Mitodrama – a história escondida – uma abordagem em psicoterapia de curta duração Aracaju. p. um caráter psico- pedagógico.18 Cybele M. a ênfase na solução dos problemas da vida – e não nas causas – além do fato de ser um processo de tratamento com tempo limitado. Tecnicamente. exemplos de algumas inovações e recriações técnicas que podem enriquecer o Corintha Maciel conhecimento de terapeutas que circulam tanto na abordagem psico- dramática. Ramalho 19 Moreno apresenta o psicodrama junguiano como sendo uma vertente possível do psicodrama. nos contos de fada. quanto na junguiana. pode haver uma convergência entre C. Ramalho As psicoterapias chamadas de curta duração são assim consideradas. G. o cliente vai conhecendo e incorporando estratégias para lidar com seus conflitos. mas nos mitos. R. porém ousado e criativo. E a esfera do sonho é aquela em que Jung e Moreno melhor se encontram” (op. no sandplay. Moreno. quer por falta condições espaciais adequadas ou de pessoal especializado. este “pacote” é o que se oferece nas instituições de saúde mental. quer pelo modelo biomédico predominante. Ela afirma que. através do qual. L. Varzos e Liebert (2001). Portanto. portanto. tanto do terapeuta como do cliente. Um diálogo cuidadoso. Esta esfera é regida C APÍTULO I pela realidade suplementar. etc. a concentração em um problema específico. em que a demanda é sempre superior às condições de atendimento. exige uma atenção específica para o foco da questão. por orientação do terapeuta. Jung e J. janeiro de 2010 Cybele M. a meta da terapia breve não é a cura. Mitodrama: a mitologia como traço de união Este livro vai tratar justamente destes pontos onde uma aproxi- mação entre estes dois autores se faz possível. o envolvimento ativo. facilitar o crescimento e aumentar a capacidade de lutar e vencer. por incluírem como elementos- chave. identificando e atacando o problema que esteja envolvendo o cliente naquele momento de sua vida. R. Ainda segundo Preston et all (2001). cit. segundo Preston. 9). também entre o psicodrama e a psicologia analítica encontraremos nas experiências relatadas neste livro. E complementa: “o psicodrama é a essência do sonho. mas sim oferecer apoio. de algum modo.Têm. Pode ser entendida como uma ferramenta para ajudar as pessoas a enfrentarem os tempos difíceis pela vida a fora. que está presente não apenas nos sonhos. A meu ver.

20 Corintha Maciel MITODRAMA: 21
A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA

Entendo psicoterapia, breve ou profunda, como uma experiência duas pessoas numa pequena sala. A pessoa que vem em busca de auxílio,
de cuidados. Inicialmente o cuidado com a pessoa que sofre e que esteja carrega com ela a sua história, inserida na história da humanidade. Essa
em busca de ajuda. Cabe ao terapeuta ser esta pessoa que acolherá e história, portanto, também está na sala. E, embora a psique esteja
garantirá a seu cliente a legitimidade de seu sofrimento. Só depois de se situada num presente, traz por trás de si as raízes de mil árvores ancestrais.
sentir acolhido é que haverá a possibilidade de se tocar na ferida e Para além do padrão obscuro e emaranhado dos eventos, e por trás deles,
avaliar “por onde começar”. Qualquer procedimento que se intitule estão realidades de um substrato mitológico que dão à alma um sentido
terapêutico, mas que não ofereça este acolhimento, não passará de mera de destino, um sentido de que aquilo que acontece, tem importância.
receita de bolo que, desandará como toda receita de bolo em mãos Aquilo que está acontecendo lá fora é o reflexo de uma experiência
inábeis. mitológica eterna.1
Mas, voltando à proposta de refletir sobre a psicoterapia de curta O cliente que busca a orientação psicoterapêutica chega ao consul-
duração, entendo esta “curta duração”, mais como um tempo interno tório levando como peça de entrada uma queixa. Após o acolhimento
– o kairós –, do que uma linha de tempo cronológico demarcada por inicial manifesto na escuta sem julgamento, o olhar mitodramático
número de sessões. Terapeuta e cliente devem avaliar o processo para perceberá que, nas entrelinhas da queixa, existe uma história escondida.
definir o momento de encerrá-lo. Kairos, para os gregos antigos, é um A partir dessa identificação, torna-se possível encontrar o “fio condutor”,
momento de transição na história do mundo e do homem individual- chamado tecnicamente de mitologema, em torno do qual o trabalho
mente; é o momento certo para alguma metamorfose dos deuses, ou terapêutico deverá seguir girando. Girar em torno é uma imagem de
seja, dos princípios e símbolos fundamentais. reflexão e de busca, a circumambulatio dos místicos.
Entre os muitos modelos de atendimento nesta linha de ajuda, A queixa enuncia a existência de um conflito, e todo conflito
considero o Mitodrama uma excelente ferramenta para auxiliar, tanto na evidencia a presença de um complexo, uma confusão, uma falta de
identificação do foco, quanto na busca de recursos para a aquisição de discriminação entre o eu e o outro, entre o meu e o seu. Geralmente, tal
novas habilidades e novas rotas. estado confusional é efeito de necessidades regressivas, que na infância
Para Eudoro de Sousa (1984), um mito não é apenas mais um dos foram satisfeitas pelos pais, e na vida adulta são projetadas sobre os
traços de uma cultura, nem tampouco, uma biografia de deuses. Ele é o parceiros, filhos, amigos, chefes, como exigências de que estes conti-
plano do traçado que configura as relações do homem-no-mundo, nuem preenchendo nossos vazios e satisfazendo nossas necessidades. A
sendo que, no triângulo da complementaridade, homem e mundo projeção é o caminho através do qual o complexo inconsciente tenta
nunca estão a sós um diante do outro; um deus é sempre o terceiro chegar ao consciente.
elemento, a persona dramatis em que ambos se reconhecem. O ponto de O Outro se torna uma tela, sobre a qual projetamos nossas carên-
partida então é que um deus é sempre um aspecto da relação. cias. Todas essas carências são provenientes de raízes míticas que existem
Um mito, portanto, é uma das maneiras pelas quais as a psique no inconsciente coletivo, e que ficam implantadas no inconsciente
coletiva se personifica, e assim, quando falamos em mitos, falamos de individual, pelo seu entrelaçamento com nossas experiências de vida.
histórias que estão enraizadas nas profundezas da alma de cada um de Segundo Jung, os complexos são vórtices de energia alimentados pela
nós; não como lembranças, mas como inscrições mitológicas pulsando forte carga emocional do inconsciente coletivo. Constituem o lastro de
no aqui e agora. nosso inconsciente individual, e podem “tomar de assalto” nosso ego e
Segundo James Hillman (1999), a psique não está isolada da história,
e a experiência terapêutica não poderá se restringir ao encontro entre 1
Hillman, James. O Livro do Puer. Editora Paulus, São Paulo, 1999.

22 Corintha Maciel MITODRAMA: 23
A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA

nosso controle, quando desconhecemos ou desconfirmamos a existência para qualquer desenvolvimento psicológico e para a diferenciação
deles. Para Jung, os complexos originam-se de experiências, não apenas pessoal. Onde existe identidade, há compulsão e apenas respostas
infantis, como propunha Freud, mas também aquelas ocorridas em automáticas a um impulso.
qualquer época da vida. A capacidade de evoluir para a diferenciação e a transformação do
Na Terceira Conferência de Tavistock, proferida em Londres em impulso, não surgirá até que o estado de identidade seja dissolvido e a
1935, Jung se refere a complexos, como um aglomerado de associações, consciência fique liberada da compulsão. Isso exige a confrontação do
de natureza psicológica, às vezes de caráter traumático, outras apenas impulso como um “outro”, como algo diferente do EU, como algo
dolorosas e altamente acentuadas. Por ser dotado de tensão e energia separado de nós. Somente nesse ponto é que se pode começar o diálogo
própria, o complexo tem a tendência a formar, também por conta pró- interior, pois até então o impulso permanece inconsciente, primitivo e
pria, uma “pequena personalidade”. Apresenta uma espécie de corpo e destrutivo.
uma quantidade de fisiologia própria, podendo perturbar o coração, o Apenas depois que a identidade for dissolvida através do apren-
estômago, a pele. Comporta-se enfim como uma personalidade parcial. dizado de vivenciar o complexo como uma entidade autônoma,
Sua origem está sempre vinculada a algum conflito, quando determi- separada do ego, apesar de sua tendência a engolfá-lo, é que teremos a
nado conteúdo carregado de intensa carga afetiva, separa-se da consciên- oportunidade de desenvolver o potencial positivo do impulso.
cia, permanecendo no inconsciente e formando esta “realidade paralela”. Os recursos psicodramáticos tais como as técnicas de concretiza-
É muito freqüente observarmos esse fenômeno em casos de abusos ção, jogos e inversão de papéis, assim como a “caixa de areia”, são ferra-
sexuais na infância, de situações traumáticas envolvendo grandes perdas, mentas extremamente úteis para se trabalhar na busca da diferenciação.
em que a lembrança do fato é completamente apagada, permanecendo A existência de complexos não é necessariamente patológica; é um
apenas os sintomas, que podem ir desde transtornos obsessivo-compul- fenômeno natural, indicando que há algo conflitivo e não assimilado,
sivos, a estados de excitação, fantasias, transtornos somáticos ou mesmo mas se for integrado à consciência, pode abrir caminhos para novas
as doenças auto-imunes. oportunidades e realizações. Eles contém o poder impulsionador da
Nos casos de neuroses ou psicoses, os complexos surgem como vida psíquica. Um complexo torna-se patológico, apenas quando
verdadeiras entidades autônomas, tendendo a apoderar-se do ego,” pensamos que não o possuímos, porque então, é ele que nos possui.
falando alto”, “mostrando coisas”, de modo que os pacientes ouvem Podemos dizer que nossos complexos são as cartas que o destino
vozes, vêem imagens e cenas, tudo como provindo de personalidades nos deu; é com essas cartas, e não com outras, que ganhamos ou perde-
estranhas. O fenômeno das personalidades múltiplas pode ser reconhe- mos o jogo e, se agimos como se não as tivéssemos ou se pedimos
cido por este olhar. cartas diferentes, seremos derrotados antes de começar.2Um complexo
Nas projeções, os conteúdos emocionais, como que aderem á um torna-se patológico de acordo com o grau de sua conexão com o
objeto externo, seja ele uma coisa ou uma pessoa. É como se um objeto inconsciente coletivo. É quando temos que buscar o seu núcleo mítico.
do mundo externo evocasse, por associação, uma visão ou imagem do O núcleo mitológico do complexo, responsável pelo seu efeito per-
mundo interior da pessoa A possibilidade de discriminação depende turbador e pela carga energética, é proveniente das camadas profundas
fundamentalmente da saída desse estado de identidade, pois enquanto do mundo dos arquétipos do inconsciente coletivo. Sua identificação se
essa identidade com o impulso mítico permanecer inconsciente, não dá através do reconhecimento da figura mítica à qual esteja atrelado.
haverá qualquer possibilidade de escolha, já que funcionamos como
marionetes. A separação do estado original de identidade é fundamental 2
Jung, C. G. Fundamentos de Psicologia Analítica, Editora Vozes.

24 Corintha Maciel MITODRAMA: 25
A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA

Arquétipos são matrizes que todos herdamos, como uma herança momento histórico, que pode ir, desde a manifestação de deuses e
psíquica, assim como herdamos os instintos e os reflexos a nível bioló- heróis em lutas com dragões, até os mitos modernos, conhecidos hoje
gico. Na metafísica platônica, as idéias são arquétipos eternos, realidades como ficção científica. O impulso mítico que cria estas figuras é anterior
que possuem vida e movimento Caracterizam-se pela transcendência, a qualquer criação e existiu sempre na psique humana.
e pela universalidade. O conceito de arquétipo, o padrão original, Para toda experiência humana, há sempre um mito correspon-
absoluto e eterno, entra para a psicologia através das idéias de Jung. Para dente. Segundo Freud e Jung, se trouxermos para a consciência o
Jung, o afeto basal, é repositório de toda a experiência humana, desde roteiro mítico em que se fundamenta determinado conflito, podemos
o mais remoto princípio; um sistema vivo de reações e aptidões que ser curados do que nos aflige, pelo que nos aflige.
invisivelmente vão determinando a vida das pessoas e dos grupos James Hillman afirma que nossas vidas seguem figuras mitoló-
sociais. Nossas opiniões, pensamentos e sentimentos, são produtos de gicas; agimos, pensamos e sentimos, apenas na medida em que isto nos
uma camada psíquica chamada inconsciente coletivo. é permitido no mundo das imagens. Mas, a menos que possamos
Moreno foi co-movido por essa idéia arquetípica, e aquele aspecto, entrelaçar este núcleo em termos da vida pessoal, não alcançaremos seu
que hoje é apresentado por seus biógrafos como ‘misticismo’, incluindo poder impulsionador e seu significado, nem atingiremos aquilo que
nisso um certo grau de tolerância para com as excentricidades do deve ser transformado. De nada adiantará um conhecimento apenas
mestre, na verdade, é o pulso mítico que subjaz às palavras-semente do intelectual dos motivos arquetípicos.
psicodrama. Vale relembrar suas palavras textuais sobre a idéia de um Vamos então refletir em como isto pode se manifestar, ou seja,
SELF espontâneo e criador, cuja extensão ultrapassa o nível da pele do como ou quando os deuses tornam-se doenças: quando a psique indivi-
organismo individual, estende-se ao âmbito interpessoal e expande-se em dual fica contaminada pelos conteúdos do inconsciente coletivo, surgem
poder e criatividade até o infinito. Trata-se de um fenômeno universal, conseqüências nocivas, tanto para o indivíduo como para os que com
observável em cada pessoa. ele convivem. Em termos pessoais, é comum o aparecimento de crises
Para Jung, o arquétipo é um órgão psíquico, presente em todos nós. nos relacionamentos, depressões, doenças físicas ou o prolongamento
Da mesma forma que surgimos a partir da união de um óvulo e um das já existentes, pois um funcionamento inadequado da psique pode
espermatozóide, e herdamos caracteres biológicos que nos identificam causar prejuízos ao corpo, assim como um sofrimento corporal consegue
enquanto espécie, também herdamos os afetos basais, que provêm de afetar a alma.
experiências comuns a todos os seres humanos, sendo portanto, pré- A tarefa da psicoterapia é encontrar o mitologema, a raiz mítica a
existentes às pessoas, estando registrados a nível de um inconsciente partir da qual se desenvolve determinado conflito, pois somente quando
profundo, na memória das células e do sistema nervoso autônomo. trazida para a consciência, há condições de se conseguir mudanças
Queiramos ou não, somos modelados pelos arquétipos no decorrer significativas que tenham como conseqüência imediata o alívio dos
de nossa vida, estando mergulhados neles durante toda a primeira fase sintomas e a libertação do complexo.
da existência e precisando nos desidentificar deles a partir da maturidade, É aí que entra o mitodrama, com sua proposta de vivenciar no aqui
para que possamos nos criar livres, mas ao mesmo tempo tendo a e agora, o que os deuses e heróis fizeram nas origens, ou seja, recriar no
certeza de que estaremos sempre ligados a esta raiz mítica. decurso do processo terapêutico, o tempo dramático, a “segunda vez” a
Podemos dizer então que os mitos são a personificação dos arqué- que se refere J. L. Moreno.
tipos, a “cara” que cada cultura encontrou para expressar aquilo que faz O tempo cronológico é linear e, por isso, irreversível. Pode-se
parte da condição humana; a ‘moeda corrente’ que leva a figura de um comemorar uma data, mas jamais fazê-la voltar no tempo. O tempo

Esta Trabalho com este mitologema. mãe de Eros. são formigas. o romance é mágico. começa a ofuscar Afrodite. Ed. fazer uma sinopse do relato mítico para familia. debruça-se sobre o marido decidida a feri-lo no sintoma. seres minúsculos da Natureza. é que jamais tente vê-lo à luz do sol. e Deméter e Koré nos apegos Encerra-se. e por isso não queira ser descoberto. o mito de Eros e Psiquê surge nas entrelinhas corrido por Psiquê. ou seja. Psiquê terá de cumprir para merecer de volta o seu amado. voltando sempre sobre si mesmo. Sentindo-se traído. Psiquê é a princesa. 3 Brandão. No mito. após o encontro apaixo- cura pelo princípio mítico de o semelhante curar o semelhante. ela acende uma lâmpada e. Junito. ou seja. psicoterapias de curta duração. assim. des- sente. e a deusa. com a realidade cotidiana. Psiquê decide descobrir a verdade e matar o O psicodrama moreniano cria o tempo trágico. que não admite ser visto sob nenhuma luz. ordena a Eros. abandonando-a para sempre. que uma gota do óleo incandescente caia sobre o peito do amante. o deus deslum. Mitologia Grega. deusa do amor e da beleza. pais. a fim de dar início ao processo de então. Psiquê por Afrodite. a não ser o arrebatamento e o entusiasmo. suplica-lhe que a ajude a reconquistar o amor perdido. visitada pelo amante misterioso durante as noites. e o mito de Dédalo e Ícaro. o cliente que procura a psicoterapia Psiquê. filhos. o sagrado é seja um monstro horrendo. fundida com seu desespero. A primeira destas tarefas é a da separação dos grãos. conforme a queixa que se apre. brado diante da moça. e quem vem em seu auxílio nada real tem importância. é sempre o culpado do que quer que se e arrebatando a princesa mortal para um palácio encantado.Vozes. cônjuge. enciumada. recomeçar sua marido misterioso. coração. sendo Psiquê ainda está muito con-fusa. apaixonando. nos conflitos conjugais. sem nenhum glamour e. a visita de suas irmãs. da indiscriminação. O cronológico é o tempo da vida. condição. uma montanha de grãos de diferentes espécies. a partir da sua segunda parte. impõe-lhe então quatro tarefas impossíveis que rizar os leitores com o que chamo de “olhar mitodramático”. que têm por característica o enfoque no empunhando uma faca. Acho necessário. A tarefa é cumprida graças à ação das formigas. Talvez vida e recriar o mundo. seja. Tomada pelo êxtase ela estremece. sob Na narrativa. pois o deus do amor mitologema da confusão. Sua o núcleo do complexo. Ulisses e Penélope.1988. o tempo da eternidade. está confuso. do conflito inicial. todo um calvário é per- Em linhas gerais. e esse tremor faz com Eros e Psiquê. da queixa. a fim de que ela consiga recuperar o amor de Eros. por isso. escritor do Século II d. E essa Mas esse encantamento começa a ser questionado quando Psiquê recebe reversibilidade liberta o homem do tempo morto – o destino – dando. o clássico Na primeira fase do mito. é ferido por suas próprias flechas. de uma noite. que começam a duvidar da existência daquele lhe a segurança de que ele é capaz de abolir o passado. chefes etc. a poderosa deusa da beleza universal. ciumenta e vingativa. no espaço pena de tudo se acabar. que são as tarefas dadas a Procurando Afrodite. A partir de então. Jasão e Medéia. Esta é a fase da paixão. pertando-o. o que avista a seu lado é um belo deus Tenho trabalhado com dois mitologemas estruturais: o mito de adormecido.. sempre atarefadas. torna-se incapaz de realizar seu intento. seu filho e deus do amor. Como já afirmamos. seja esse outro. misturado com o outro. Naquela noite. mas à luz da chama. enquanto Eros dorme a seu lado. sagrado.C. Esse outro. que são o símbolo do . Também podem surgir os mitos de Zeus e Hera. Afrodite ordena que Psiquê deverá separar.3 Instigada por elas. que fleche diferenciação. visita Psiquê todas as noites. As tarefas de narrado por Apuleio de Mandaura. Eros parte. imunes aos sortilégios da grande deusa. a fase da paixão que não resiste ao ser confrontada da superproteção materna. Mas. existe sempre um padrão mítico que vem expresso na queixa.26 Corintha Maciel MITODRAMA: 27 A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA mítico é circular. vol. irmãos. com a finalidade de recuperar o amor de Eros. em seu Psiquê constituem um modelo de evolução do pensamento mágico para conto “O Asno de Ouro”. Como Psiquê aceita esta imposição e vive no enlevo da espera. Nas nado. imposta à amada. que com sua beleza a conquista da consciência. Petrópolis.I. que monstro que a mantém iludida. para que ela se apaixone por um monstro. partindo sempre antes do amanhecer. a segunda vez. numa nova ordem.

tem um poder de inserir gerações. João de Ferro. pois todas elas são passos iniciá. mente os indivíduos segundo as categorias de idade e juventude. Paulo. James. várias espécies de grãos”. o conflito pai versus filho tipifica o grande Após ouvir atentamente o relato da queixa. o ciclo do Puer X Senex. portanto.7 do Puer X Senex. primeira tarefa. das tarefas que fazem parte da vida de cada ser humano.. quando o(a) filho(a) começa a se despren- dignidade ao ampliar o tema. feijão rosinha. a diferenciar as se vislumbra a possibilidade de uma nova organização. Psiquê aprende a discriminar. já tem o poder de suavizar a mágoa. A quem se interessar pelo mais um conflito de desentendimento. aparentemente simples. reflete formação nas percepções que. ervilhas. Mitodrama – o universo mítico e seu poder de cura. em aceitar os cânones da sociedade patriarcal. remeto ao livro Mitodrama – jovens não é mais através das formas tradicionais. procurar celebrem esta transição. Editora Campus.6 medida que os grãos diferenciados por espécie. ou seja. A Outro mitologema. a reflexão vai tomando corpo à arcaico da Grande Mãe. cria o conflito de Esta abordagem. 7 Hillman. p.28 Corintha Maciel MITODRAMA: 29 A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA dia-a-dia. juventude forma uma classe social auto-centrada. geralmente presente nos conflitos da adolescên. James Hillman (1999). fazendo-o deixar de se sentir vítima constituída. Em termos cronológicos. Corintha. dividindo demografica- Pode-se prosseguir. feijão preto. este conflito é expresso na história de deuses que envelhecem. que está sob o mítica. 4 Maciel.120)4 pois os valores da família deixaram de ser levados em consideração. A educação dos prosseguimento do trabalho iniciático. cada sessão com a vivência de uma tarefa. Esta parelha é motivo arquetípico que se configura 5 Bly. A magia do mito funciona como um agente de trans. Nessa todas as vezes que. de seus dissabores. A divisão seguindo a ordem da narrativa mítica. É sempre o coisas e diferenciar-se delas. a tendência dos jovens é regredir ao estágio mágico- numa tarefa que exige concentração. problema de todos os tempos. todos misturados e por isso. sem comunicação para além de si mesma. Op. e nas lutas Este movimento inicial de acolher a queixa e inseri-la num contexto entre o velho e o jovem. em seu aspecto devorador e sedutor. na qual o conflito de gerações. Agora. mundo adulto. e pelo pai. pois a moderna novas nuances. com o auxílio do terapeuta. . misturadas. sejam depositados em O princípio do prazer passa a dominar a consciência e a resistência recipientes diversificados. No plano psicológico. der do abraço familiar e seu modelo de identificação é o grupo de pares. Robert. muitas vezes não é ticos no caminho do auto-conhecimento. facilitando a passagem da adolescência para o identificar “o quê” estaria misturado a outros “quês”. no limiar de um mundo estruturalmente codificado. sociedade urbana retrocedeu a um sistema arcaico. Mitodrama. con-fusos. mas através da mídia. pois lhe confere tem início na puberdade. refletindo com ele. vão adquirindo que a divisão polar entre puer e senex está por toda parte. mente grãos de espécies diferentes (milho. o universo mítico e seu poder de cura (MACIEL. branco.. faz parte do mito de Dédalo e Ícaro. e outros) misturados. feijão A rivalidade entre pai e filho é diferente daquela rivalidade entre iguais. não iniciada pelos cia. Corintha. em seu estudo sobre este mitologema. cit. Rio de Janeiro. está presente na família. conta-se ao cliente a história um desamparo muito grande é experimentado pelo filho. inserindo-o num enredo maior. A partir daí. e dessa forma. ao nível do mito. personificação do arquétipo mais velhos e. ou seja.5 Mitologicamente estar assim. Há um impulso natural de violar limites e desafiar a autoridade o cliente na comunidade humana. mais amplo. 1999. cit. a tarefa será não somente separar concretamente os Por não existirem mais em nossa sociedade rituais de iniciação que grãos por espécie. como as coisas de sua vida também podem poder do pai. 2000. Op. traz uma “sacola com expressa a luta entre o pai e o filho pelo poder. São 6 Maciel. 2000. que está sob o poder do tempo. o conflito entre as gerações. mas um silêncio. movimento do novo buscando destruir o velho e. Quem busca um trabalho psicoterapêutico. utilizando concreta. mas enquanto se estiver fazendo isso.

e sob elas. Mitologia. que o destrói. que é o da conquista de seu próprio poder. de que este procedimento possa exaltar o valor da acomodação. A competição com o pai leva Ícaro a desejar ampliar as próprias dência narcisista daquilo que é percebido como verdade externa. do labirinto. que todas as ousadias . do feiticeiro da floresta. a deliberação exata. no tempo dos homens. também é freqüente. Começa por juntar as penas tradicionalismo. evitando O Senex rege os silêncios. própria da adolescência. e muitas penas O Senex é o arquétipo que reúne o conhecimento expresso pelo caem dentro dos corredores tortuosos. que configura o outro braço contemplação. Há muitos pássaros que sobrevoam o local. na efervescência exaltada. desde que venham favorecer sua qualquer conselho prudente. Essa ausência de uma certeza interior cria uma depen. e para que o Puer possa evoluir com segurança para o estágio vão recolhendo cada pena. espalhar grossa camada de cera. fiando-se vaidosamente no poder de suas asas. É a margem de segurança. como arquétipo. Entre as paredes que ele mesmo construíra. encontramos Estão assim prontas quatro asas. não respeita mais os limites e resolve ânsia de reconhecimento. Devido à difusão de grupos ocultistas e voar em direção ao sol. está menores. Senex significa velho. servindo para mascarar uma ausência submarinas. começam a ensaiar o grande vôo. para sóbrio e o discernimento. O questionamento terapêutico deve girar em torno do Minotauro. para por fim amarrá-las na base das forças de preservação dos valores que aplicam o julgamento todas com fios de linho. Dédalo e Ícaro. sob o controle da irracionalidade. fervorosamente Logos. a fantasia messiânica de se tornar um penas. Dédalo. Dédalo prende sempre a figura do velho sábio. de identidade. com seu aceite introjetar a sabedoria do Senex sem. capacidades. pois que com um grande desafio.30 Corintha Maciel MITODRAMA: 31 A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA O traço essencial do Puer – o jovem – é uma identidade instável. e muitas vezes se estraçalha na tentativa de ultra- filho Ícaro. expressa o mito do jovem que contesta a desgraça perante o soberano. mas sobretudo.8 ambígua e uma surpreendente capacidade de transformação. os segredos. Mas. não admitindo a humildade do mos o mito de Dédalo e Ícaro. Ícaro. Dédalo. pois que precede e sucede a ação humana. e junto com o filho. escolhe. e é trancado. ou idoso e. derretendo a cera que colava as espirituais de todas as espécies. que representa um passo em direção à seguinte. atormentado reconhecimento da “linha média de vôo”. não mais escuta está sempre à frente dos modismos. é engolido pelas regiões iluminado. coloca em si as duas da montanha. da mesma forma. não permanecendo muito próximo do mar. e nessa preciso refletir agora sobre o aspecto Senex. depois acrescenta as mais longas. todavia. prender-se a seu engenho. protegido do rei Minos. no labirinto que um dia construíra para aprisionar o passar limites. o arquiteto medita: precisa encontrar uma saída. Nos contos de fadas. os riscos não se transformassem em fatalidade. Quando finalmente já têm o suficiente. Para que não fique a dúvida pelo frio e pelo medo. por ser um dos mais populares e expressar aprendiz que precisa percorrer um longo caminho até a conquista de com toda a clareza a dinâmica do arquétipo. numa fase da vida em que os impulsos ainda se encontram Dentre os relatos mitológicos que ilustram esta dinâmica. que mora numa caverna. pio da ordem e a criatividade pela contemplação. Esta figura tem uma natureza restantes. ao experimentar o movi. cai em O arquétipo do Puer. que possibilitou que todos 8 Coleção Abril Cultural. É representado pela sabedoria madura que ligá-las com maior segurança. a umidade tornaria as penas mais pesadas. decorre da experiência de vida. juntamente com seu jovem ordem estabelecida. põe-se a fabricar as asas da fuga. Como castigo por sua imprudência. O Logos está inscrito mento do vôo. o maior artífice de Creta. a linha média de vôo. Ícaro quer o sol e o sol o destrói. suas metas. o princí- uma aproximação imprudente do sol. é Olha o céu aberto que serve de teto para as altíssimas muralhas. é necessário que ele liberdade. ou do espírito duas delas ao corpo de Ícaro e. exerce o papel de ajudante de um jovem a caminho de se confrontar rança do vôo. Dédalo tem sua idéia mais bela: construir asas para fugir do arquétipo. Sempre Dédalo recomenda a Ícaro que não ultrapasse a margem de segu. Com tiras de couro.

estamos sempre tema. quem constrói as asas. é não perder tante que se atenda à parelha envolvida – pais e filhos – pois é sempre de vista o fio condutor. pois o resultado Ícaro a tarefa de auxiliá-lo na coleta de cada pena. enfim. enfim. cláusulas. Mitodrama. rivais impondo a elas castigos dolorosos. embora maior segurança. Hera persegue as menos como a separação dos grãos do mito de Psiquê). não necessitando do respaldo do mana necessário para a obtenção do resultado. retalhos. torne-se livre para realmente criar sua história. ou Jasão e Medéia. O Puer. 56). e a pessoa. seus gostos. Em primeiro lugar são as penas menores. “a vagabunda”. escolha das penas. Ela São Paulo. descobrindo interessados. São a “Sra. sobrenome. O trabalho a ser desenvolvido. Encontramos o casal Zeus e Hera. é o início do processo (mais ou ciúmes da esposa e sua ira contra as possíveis rivais. e muitas Penélope. depois desmitologizar o vínculo e favorecer novos padrões de relacionamento acrescenta as mais longas. torna-se apto para iniciar a grande não se tornassem becos sem saídas. a “culpada” é sempre a outra. algum hobby. a fim de que possam ser cumpridas todas as um conflito objetivo que leva à busca da psicoterapia. quando a questão gira em mente vão recolhendo cada pena. p. o Universo Mítico e seu poder de cura. . penas caem dentro dos corredores tortuosos. sua profissão é “esposa”. é auxiliar A escolha de recursos para a confecção das asas deverá partir dos a cliente a experimentar construir uma história pessoal. é impor.9 jornada da conquista da própria independência. Este de confecção das asas. não admitindo existirem sem ele. desidentificando-se do complexo que a narrativa mítica. espalhar grossa camada de cera. um dos aspectos deste mito. desenhos. cando o jovem no papel de Dédalo e o sênior no papel de Ícaro. quando se trabalha com mitologemas. deve girar em torno da meta padrão é freqüente em esposas que desenvolveram uma identidade que se pretenda alcançar. nunca recaem sobre o parceiro. cit. é Dédalo. podendo ser utilizadas penas colhidas na natureza. no padrão Jasão- 9 Maciel. e sua vida gira em torno dessa deverá envolver acordos. Com referência a este tamanho. não teme romper o casamento. construir um recortes. seguindo aprisiona. trabalho com a técnica psicodramática de inversão dos papéis. o mitologema é outro. linho e. fervorosa. para ligá-las com Quanto ao padrão Jasão e Medéia. É este o ponto do acordo final com relação à rota a ser muitas vezes possa ser confundido com o modelo Zeus e Hera. seguida. Dédalo põe-se a fabricar as Hera nesta descoberta e construção de si mesma. Muitas vezes. a própria modificação das atitudes da esposa- Quando finalmente já têm o suficiente. Se neste modelo. Editora Agora. Note-se que a ira e a vingança. investindo cada “pena” de um conteúdo simbiótica com o parceiro. Dédalo e Ícaro. casal real que reina no Olimpo e.. um contrato em que as duas partes se sintam confortáveis. Nas desavenças conjugais e afetivas. ela exige o rompimento. para por fim amarrá-las todas com fios de conjugal. toda uma gama de elementos que adquiram o caminho que a valorize por ser quem é. o pai. colo. pelo contrário. Zeus e Hera são o liberdade. já são suficientes para asas para o grande vôo. ou Ulisses e repetindo o texto: “Há muitos pássaros que sobrevoam o local. a partir do relato do mito. seus próprios talentos. barganhas. selecionando-as pelo satisfatório dependerá da identificação adequada.32 Corintha Maciel MITODRAMA: 33 A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA não resultassem em tragédias. passo a passo a experiência. é importante discriminar qual No mito de Ícaro.. a elaboração de impregnação. Começa por juntar as penas menores. utilizar a construção das asas como metáfora. Cabe à a parelha mítica que está “patrocinando” o conflito. simbólico que seja necessário para compor o conjunto. temos os mitos de Zeus e Hera. sob elas. a “puta”. Nos casos clínicos em que se configura este mitologema. 2000.” (op. introjetando o Senex. Corintha. A partir da etapas do processo. Medéia toda a fúria da esposa traída recai sobre o próprio parceiro. que todas as ultrapassagens dos limites. O importante. que representa um passo em direção à torno da possibilidade de perda do status conjugal. são os A identificação de cada passo. Essa construção Fulano de Tal”. enfim. A tarefa mas a outra é sempre classificada como “a vagabunda”. Nesta etapa.

34 Corintha Maciel MITODRAMA: 35
A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA

não se importando com o arrependimento do parceiro que porventura temos constelada a contabilidade de Medéia: o outro precisa sofrer com
possa surgir. mesma intensidade, o que eu sofri. Daí as cobranças intermináveis e as
No mito, Jasão tem como tarefa, conseguir o Velocino de Ouro, ameaças de terminar o casamento, o que, sob o olhar do mito, configura
tesouro que está nas mãos de Éeto, rei da Cólquida, pai de Medéia. a morte dos filhos, entendendo-se estes “filhos” como o próprio vínculo
Depois de impor a Jasão tarefas heróicas, Éeto lhe diz que poderá pegar conjugal.
o Velocino de Ouro se conseguir tira-lo do dragão que o vigia dia e Geralmente estas esposas são aquelas que, pela dedicação à causa
noite. É então que Medéia, que se apaixonara pelo herói, lhe oferece um do outro, mataram as próprias causas, não se permitindo investir numa
filtro mágico que adormece o dragão, possibilitando que Jasão o mate e carreira, numa escolha que significasse dedicação a uma outra causa que
pegue o tesouro guardado pelo monstro. não o matrimônio.
Na fuga, acompanhados por Medéia, os argonautas são perseguidos O incentivo terapêutico, após esvaziar o complexo de Medeia, será
pelos guerreiros do rei e esta perseguição só termina quando Medéia, no sentido de se buscar uma autorização interna para cultivar seus
para impedir que o pai atrapalhasse a fuga de seu amado, mata e talentos, sem que com isto o casamento possa estar sendo ameaçado.
esquarteja o próprio irmão, lançando seus pedaços sobre as ondas. Ulisses e Penélope é o tradicional mitologema da “esposa que
Vemos nesta primeira parte da narrativa, a esposa que abre mão da espera”, enquanto o marido se envolve em batalhas e aventuras extra-
própria vida para que o marido possa brilhar. Estudos, carreira, dons, conjugais. Tece sua teia pela vida a fora pois tem a certeza de que um
tudo o que por direito pertença a ela, é negligenciado em nome do dia, cansado das aventuras, ele retornará, como Ulisses a Ítaca.
sucesso e da realização do parceiro. Medéia torna-se esposa de Jasão e Zeus e Hera, Jasão e Medéia, Penélope e Ulisses, são tão freqüentes nos
está sempre contribuindo com seus filtros mágicos, não hesitando em relacionamentos, que acabam se tornando aquelas “cantigas de nunca aca-
matar quem se interponha no caminho, para que Jasão conquiste todas bar”, a menos que, através de uma psicoterapia se aprenda que uma com-
as glórias a que tem direito. Tem filhos com ele e se sente realizada, preensão arquetípica dos eventos, pode curar essa fascinação compulsiva.
mesmo tendo abandonado sua pátria e matado os vínculos afetivos que Para se obter esta conquista, a memória precisa retornar às imagens primor-
atrapalhariam as conquistas de Jasão. diais que contém o substrato da experiência humana, e transformada
É quando surge o impacto: Jasão prefere outra mulher; rejeita por essa experiência, deixar de ser mais uma vítima de um padrão coletivo.
Medéia, para tomar como esposa a filha do rei de Corinto. Justifica que Refletindo sobre a validade de se trabalhar com mitos em psico-
é um casamento político, para dar cidadania aos filhos, uma vez que terapias de curta duração, entendemos que, em primeiro lugar esteja a
Medeia é estrangeira, vinda de um país bárbaro. Será desterrada pelo rei. universalidade que a mitologia confere aos acontecimentos. Qualquer
Jasão está insensível, pois o poder o fascina; insulta Medéia e comunica evento ocorrido no âmbito das emoções, quer individuais, quer cole-
que lhe tomará os filhos. É então que se instala a fúria. Privada de sua tivas, têm como substrato uma raiz mítica. O mito está na origem, in illo
pátria, de seus deuses, de seus filhos, a dor que se apossa de Medéia só tempore, ou seja, faz parte da existência do ser humano.
será aliviada quando produzir em Jasão uma dor equivalente. Ela pede Quando o cliente é inserido na experiência mitodramática, ele adqui-
para se despedir dos filhos, e após enviar à noiva um véu envenenado re a capacidade de esclarecer seus sentimentos e suas necessidades e mais,
que a mata sufocada na hora do casamento, mata também os próprios tem a possibilidade de expressá-los em voz alta diante de seu terapeuta.
filhos, infringindo a Jasão a dor maior de sua existência. Esta experiência o faz sentir-se mais real e mais verdadeiro consigo mesmo.
Todas as vezes que esposas enfurecidas não conseguem esquecer, Fatos externos estão miticamente ordenados, de modo que o que está
nem perdoar, mesmo após a reconciliação e o arrependimento do parceiro, acontecendo lá fora é o reflexo de uma experiência mitológica eterna.

36 Corintha Maciel MITODRAMA: 37
A MITOLOGIA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O PSICODRAMA E A PSICOLOGIA ANALÍTICA

Além do acolhimento por parte do terapeuta, o cliente se sente JUNG, C. G. Fundamentos de Psicologia Analítica. Editora Vozes,

inserido nesta ordem universal, tomando consciência de que está sendo Petrópolis, 1981.

personagem de uma trama que o transcende, o universaliza, fazendo-o
se sentir parte da humanidade. Opera-se a partir de então, uma tendên- HILLMAN, James. O Livro do Puer. Editora Paulus.São Paulo, 1999.
cia curativa, que é começar um descolamento da auto-referência que LIEBERT, Douglas; PRESTON, John; VARZOS, Nicolette. Psicoterapia
fermenta as patologias. Breve. Ed. Paulinas, São Paulo, 1995.
Quando convidado ou orientado a manter um diário onde registre
tais pulsações, e a dar a cada experiência uma “cara”, ou seja, transformá- MACIEL, Corintha. Mitodrama – o universo mítico e seu poder de cura.
las em personagens, ele se exercita na experiência de se desidentificar Editora Agora, São Paulo, 2000.

dos afetos e impulsos auto ou hetero-destrutivos. Tornando-se autor e
NEUMAN, Erich. Amor e Psique. Editora Cultrix. São Paulo, 1995.
diretor de seus conteúdos, desenvolve a capacidade de modificar o
enredo velho e criar novas histórias para seus personagens, e a partir de
então, desenvolver mais cuidados consigo mesmo, nos planos físico,
emocional e social.
Entendo que a cura, vai acontecendo à medida que os sentimentos
vão sendo transformados. Na Grécia antiga, berço da mitologia do
Ocidente, acreditava-se que a doença era efeito de um desequilíbrio entre
o organismo e o ambiente; e, aos doentes que buscavam o templo de
Asclépio – o deus da cura –, era proporcionado um programa de cuida-
dos básicos, pois a cura só aconteceria quando ocorresse a metanóia, ou
seja, a transformação dos sentimentos. Quando os sentimentos se modi-
ficam, as atitudes acompanham, e isto é um passo rumo à libertação de um
padrão coletivo, não apenas de uma pessoa, mas até de uma geração. Ao
modificar este padrão, abre-se uma clareira no pedaço de floresta de um
passado comum e, o herói, redime o tempo, recriando a própria história.

Referências bibliográficas

ABRIL CULTURAL. Mitologia. Coleção Abril Cultural, São Paulo,

1973.

BLY, Robert . João de Ferro. Editora Campus. Rio de Janeiro, 1999.
BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega. Vol I,II e III. Editora Vozes,

Petrópolis, 1988.

38 39

C APÍTULO II
A utilização do psicodrama
para a exploração das imagens psíquicas
Marcia A. Iorio-Quilici

Desenvolver reflexões e atividades práticas pautando-se pela
interface entre psicodrama e psicologia analítica tem sido um exercício
desafiador e ao mesmo tempo surpreendente enquanto psicóloga
clínica e de grupos vivenciais.
Pretendo compartilhar com o leitor, neste capítulo, alguns dos
caminhos teóricos que trilhei ao tentar estabelecer diálogos entre a
abordagem moreniana e junguiana, partindo da perspectiva de que o
psicodrama pode ser um recurso expressivo e criativo a ser aplicado em
atendimentos clínicos e em grupos vivenciais que tenham como eixo o
olhar da psicologia analítica de Jung.
Essas considerações foram por mim desenvolvidas em minha disser-
tação de mestrado1, na qual percebi o quanto a riqueza de conceitos
junguianos poderiam ser amplificados e utilizados para a pesquisa de
grupos, deixando de ser adotados apenas no contexto clínico, onde têm
sido mais comumente explorados. De outra forma, o psicodrama e mais
precisamente a ação dramática se mostrou um instrumento importante
para o desenvolvimento psíquico e suficientemente flexível para
dialogar com outras abordagens, no caso, com a psicologia analítica.

1
IORIO-QUILICI, M. A. Dramatização espontânea e psicologia analítica de Jung:
Consideração da sombra em um grupo de psico-sociodrama. Dissertação de
mestrado. Universidade de São Paulo. São Paulo. 2009.

encaminhando o sujeito para a sua totalidade. a imagem é resultado desta interação constante entre consciência e corporal. como recurso expressivo. reflito sobre o contexto grupal. Desta exercício que se dá então. como sombra. registradas na se torna um facilitador para o seu reconhecimento. é possível a utilização de técnicas que facilitem a continui- puderem emergir do inconsciente por intermédio das imagens. Para tanto me tentativa de serem apreendidas devido ao seu caráter fugaz e a sua facili- refiro também a outros conceitos junguianos. Quando os símbolos corporais são constelados de maneira passiva. que operam numa situação de complementariedade. no sentido de pode facilitar o contato e permitir algum diálogo com elas. conceito que remete em ação. se expressar por imagens que espelham a situação psíquica total. o registro destas imagens e persona e. Byington (1988) considera o corpo uma fonte notável para a criação dade se desenvolve de maneira mais completa ao reduzir aspectos cindidos. por fim. imagem que emergiu em determinada etapa da imaginação ativa. ao improvisar. É um dade do processo de elaboração dos símbolos pela consciência. por intermédio dos símbolos que esta experiência comporta.40 Marcia A. neuroendócrino e desmedidamente sobre o ego do sujeito. simbolicamente. se torna uma técnica cede espaço para a intuição e o universo afetivo. pela pintura. pois o corpo cientes e inconscientes. e inconsciente. Tal a tentativa de se encontrar uma forma para as imagens inconscientes que método busca dar expressão à função que procura unir conteúdos cons. reciprocidade da relação entre as duas instâncias. como conse. onde a racionalidade maneira a dramatização. da psique ou seja. ou de fantasias passivas quando disposição da consciência que se abre para todos os elementos que sonhamos. de maneira simbólica. Isto A importância da imagem está no fato dela expressar a totalidade poderia se dar por meio de um relato escrito. escultura. apresento as possibilidade de se trabalhar Katz (1997) sugere que as imagens emergentes não fiquem apenas com as imagens psíquicas por intermédio do recurso dramático. Desta Franz a imaginação ativa está intimamente relacionada à experiência forma. não pudessem ser acessadas pela consciência através do exercício da razão. pelo método. inconsciente e seu sentido precisa ser investigado considerando-se a Como a ação dramática. que auxilia esse processo. ampliar o entendimento das possibilidades de exploração do universo Von Franz (1999) também sugere que seja conferida uma forma à das fantasias e imagens. a função transcendente. cardiovascular. dificultando sua integração e locomotor – agem sobre inúmeros símbolos que acabam por estruturar podendo levar a estados dissociados ou sintomas psíquicos. Esta dimensão simbólica corporal proposta por Byington nos Ao se trabalhar as imagens através da imaginação ativa é possível mostra que o corpo é uma ferramenta criadora de símbolos que podem explorar a energia psíquica que se encontra. abrindo caminho para a realização do Self. qüência de uma supervisão descuidada por parte do profissional. Jung sugeriu um método específico para se trabalhar A dramatização é um recurso expressivo que utiliza o corpo e facilita com as imagens inconscientes o qual denominou imaginação ativa. . As diversas partes do corpo. através dos sintomas. de alguma maneira. Para a autora. pode ser aplicada ao método de imaginação ativa? Em sua obra. durante um processo de elaboração estabelecer a ligação entre consciência sem uma forma para atingir a consciência podendo então. ciente. Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 41 Inspirada nesse estudo. componente essencial do psicodrama. ela é uma expressão do Self – instância direcionadora ou dança o que neste último caso permitiria a participação corporal autônoma que abarca tanto os elementos conscientes como os incons. digestivo. nesta tentativa de dar expressão aos aspectos inconscientes. abre espaço para o contato com emoções que talvez à passagem que deve ocorrer entre a atitude consciente e a atitude incons. Para Von cientes. mas sejam. ou seja. de símbolos psíquicos e ainda possui a função de estruturar a consciência A aplicabilidade deste método depende de um contexto terapêutico. O trabalho é guiado por um funcionamento intuitivo e por uma por exemplo. a identidade do sujeito. em determinado momento. o qual no nível da percepção. ou os cinco aparelhos onde o psicólogo deve se atentar para que as imagens não avancem corporais – respiratório. na qual a personali. buscam algum meio de expressão durante a imaginação ativa. complexo dade de dispersão da consciência. sua maneira de estar no mundo.

dramatização espontânea acaba possibilitando que as imagens evocadas Interessante o fato de que Jung. Ao de evocar as manifestações do Self. reconheceu no conteúdo dos sonhos carregar elementos importantes da personalidade que ainda não haviam estruturas semelhantes às do drama. Ao negativas que tenha de si mesmo. exploração da ação dramática. a corporeidade pode ser considerada (ALTENFELDER SILVA FILHO. Como por exemplo. 1981). ativo ao longo do processo. ocorre ou há uma mudança completa do contexto. embora tenha trazendo novas perspectivas para o indivíduo. E o incitava a se relacionar e denominada lise. resultado esperado. – ainda assim a última fase indica a situação final que representa o ção ativa representa em si. seja pela utilização do corpo na ação longo dos anos. portanto que o autor aproxima os sonhos da ação dramá- mas em um trabalho onde o que está em ação são as imagens que dialogam tica. Vemos. não se transformando em uma ação física e corporal exterior. pelo psicodramatista Wolff (1987). Como bem nos lembra Ramalho situação inicial. ao introduzir a imaginação ativa. Segundo Fonseca Filho (2000) as sonho. A fase a seguir é a do desenvolvimento da ação. Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 43 Segundo Ramalho (2002). onde . a dramatização espontânea é um recurso que se aproxi. pois as imagens correspondentes podem investigar o material onírico. sendo o sonho possuidor desta estrutura ele poderia visualizações resultam de um estado de consciência profundo e alterado ser dramatizado efetivamente. so onírico. com o recurso fase representa a culminação ou peripécia. exteriorizando aquilo que foi vivido na – diferente daquele que experimentamos no nosso cotidiano – onde o imaginação e trazendo-o para uma vivência física. a ma das atividades de imaginação ativa.42 Marcia A. criada por Moreno e desenvolvida para a comunicação entre consciência e inconsciente. como se o sujeito pudesse vivenciar internamente a sonhos e reafirmando a presença de uma estrutura dramática no univer- ação através de sua imaginação. como propostas alternativas como um instrumento de amplificação da imaginação ativa. A teoria psicodramática apresenta uma técnica equivalente à As quatro fases são tomadas como estruturas que ocorrem intra- imaginação ativa. inaugura essa possibilidade. se aproximado da esfera consciente. O autor adotou a análise dos sonhos como um mar mais de seus aspectos afetivos e tomar distância das representações método importante para a aproximação consciência e inconsciente. que se caracteriza pela psiquicamente. A terceira (2002). e podemos acessá-las pelo relato do visualização de imagens internas. o sujeito pode se aproxi. psicodramatistas desenvolveram formas diversas de dramática moreniana. há sonhos que não possuem a quarta fase – seriam os pesadelos Ainda nesta perspectiva de síntese é possível afirmar que a imagina. muitas vezes. Todavia. a utilização de tiva junguiana. ainda que não estimulasse a dramatização clássica. ambiente onde se estabelece a ação. sejam trabalhadas novamente. com o objetivo auxilia pessoas com alguma dificuldade na dramatização clássica. Sua aplicação busca abrir canais de expressão A técnica chamada onirodrama. de desenhos. na qual o corpo sujeito que pratica a técnica concentra a atenção sobre si e se mantém também entra em ação. 1978). seja por meio das imagens e símbolos na perspec. Jung. A primeira fase do sonho ele denomina exposição a qual aponta o Neste sentido. entre sonho e drama. e assim a ao psicodrama clássico. Segundo dialogar de maneira dinâmica e ativa com elas. em uma jornada interna. os personagens e. mente. no nível da fantasia. Jung propunha ao paciente que interagisse de maneira intros. desenvolvido em sua obra “A natureza da psique” (1984b) uma analogia Ao se explorar as imagens e dramatizá-las. tanto Jung como Moreno adotaram O psicodrama interno propõe uma maneira de dramatizar que recursos não verbais para explorar o universo psíquico. uma espécie de drama que ocorre interna. chamada de psicodrama interno. ou solução decorrente do trabalho do sonho. chamado de psicograma Como afirma Whitmont (1975). na qual algum evento decisivo corporal. A última fase é pectiva com suas próprias imagens consteladas. ampliando suas chances de significação e não estivesse preocupado em relacioná-lo ao drama. referindo-se a essas quatro fases que estariam presentes em muitos com a consciência. brinquedos (KAUFMAN.

o tema e a essência do psicodrama são revelação de si mesmo (NAFFAH NETO. 1997). No inconsciente tais personagens corresponderiam aos complexos. a psique que sofre e os problemas que vivencia. também está vinculado a uma experiência com a sombra. o que nos permite pensar que a investigação da sombra pela importante de Gasca (2003b). pela possibilidade sugere a Bárbara que escolha papéis mais agressivos e vulgares para que apresenta de aproximar consciência e inconsciente. nado mais calma e tinha poucos acessos de fúria. autor que criou o psicodrama analítico dramatização espontânea pode ser considerada uma proposta da individuativo. Como afirma Naffah Neto (1997). Posteriormente Moreno convida Bárbara e seu consciência. recordações reprimidas e representações caóticas. mesmo e em relação ao parceiro. . ação dramática nos leva a uma abertura em direção a espaços desconhe. no qual as polaridades agem de maneira simétrica. que. o marido relata que Bárbara havia se tor- Estes aspectos. A ação dramática revelou aspectos sombrios e até interno e entrar em contato com aspectos de nossa personalidade então pouco assimilados pela sua consciência. nossa sombra ou tudo aquilo que quando os reconheceu. no cotidiano do casal sempre está agressiva. Ela era fragmentadas. Tal funcionamento implica numa abertura da consciência em rela. constituída pelos aspectos da sombra. podemos pensar que ele também pode ser um facilitador para a explora. em geral mostrando ganham uma nova forma e podem continuar sendo elaborados pela serenidade no convívio. A partir desta mudança. Um dia enamorou-se de um poeta que sempre assistia a seus espetá- culos e com ele acabou se casando. Após certo tempo ele conta a Moreno que não consegue conviver Sombra e complexo: dramatizando personagens internos com Bárbara pois embora ela se mostre meiga e doce no desempenho Vimos que a utilização da ação dramática é um recurso que pode de papéis teatrais. desenvolvimento deste vínculo e por fim acabou transmitindo ao casal a Se o psicodrama propõe a investigação da psique através da ação. Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 45 o conteúdo do sonho é transformado em ação. o exercício psicodrama haviam estabelecido um encontro de cada um consigo da alteridade. que nada mais é do que um outro em si mesmo. Essa situação trouxe efeitos terapêuticos para o casal. Ao dramatizar conteúdos sombrios o sujeito acessa e cria um cidos da natureza humana. ticos. simbolicamente ou na Este outro revelado na ação dramática recebe uma interpretação realidade. afinal o surgimento do psicodrama tações simbólicas de personagens internos do sujeito. em oposição aos que costumava fazer. ao mesmo tempo em que representa um aspecto seu. ou seja. busca uma Já segundo Moreno (1984). esfera também desempenhar no teatro. história de sua cura. o onirodrama uma atriz e tinha o costume de desempenhar papéis ingênuos e român- representa a vivência do sonho na ação dramática. pois como explica Guerra (2003). a solicita um aumento de repertório para as experiências do indivíduo. Percebe que nos é obscuro e nos escapa. que pôde se reestruturar muitas vezes negligenciados. Por meio do ção aos aspectos sombrios. Moreno (1997) nos conta que o teatro espontâneo se transformou que têm como função organizar impulsos indiferenciados. após serem percebidos interiormente pelas imagens. a um caminho de revelação daquilo personagem. Isto porque quando dramatizamos de maneira espontânea cotidiana trouxe para Bárbara uma nova perspectiva de se relacionar numa sessão de psicodrama. que se amplia e se encaminha para um funcionamento em marido para representarem cenas cotidianas de suas vidas no palco do alteridade. e propôs que os personagens dramatizados são represen- própria teoria psicodramática. A dramatização de personagens pouco explorados em sua vida ção da sombra. fantasias em teatro terapêutico e em psicodrama a partir do caso Bárbara. ou seja. ou seja. A cada sessão Moreno analisava o demanda um confronto com a sombra. Moreno ser conjugado com o método de imaginação ativa.44 Marcia A. teatro espontâneo. Vemos que a sombra pede para ser explorada e escapa do controle da consciência. somos convidados a representar nosso mundo com seu marido.

a técnica do duplo. engendra novas relações e diálogos nas diferentes partes do ego. “despede-se” temporariamente de sua persona e de alguém com quem vivemos um conflito e podemos descobrir possí. de facilitar o contato com a sombra de cada um e a de outros partici. excluído pode ser aceito e assimilado.46 Marcia A. qual o personagem criado por um escritor desenvolve vida própria No contexto dramático. no qual o que está polarizado e complexo é personificado. segundo Gasca (2003a) tem a surgimento de imagens. (JUNG. consciência e inconsciente (GASSEAU e SCATEGNI. contatamos a sombra vidos. psique coletiva. os persona. pois o participante está protegido pelo personagem que encarna no con- pantes. ação dramática. . uma proteção que contribui para o personagens internos. Ao se dar voz e expressão ao personagem interno. profissão. ele adquire tem os papéis e uma toma o papel da outra. O intuito é levar o indivíduo a perceber sua incompletude conhecida abrisse espaço para outras coexistirem naquele contexto. no aspecto psíquico conhe- No caso da inversão de papéis. permite-se que o sujeito estabeleça um diálogo com ele. texto dramático. como por exemplo. cido e exercido no dia a dia. onde duas pessoas presentes inver. distinguindo-se e deixando de ser determinado por suas projeções Quando o participante chega para uma vivência dramática ele se (GASCA. Falamos de complexo e sombra que podem ser explorados pela Se expressam ainda por meio de personagens de literatura narrativa. 2007). 1984a). 2007). Ao adentrar o contexto dramático. na qual personagens são criados a partir das imagens como por exemplo no filme Desconstruindo Harry. veis conexões entre sua sombra e a nossa própria. ou seja. como se aquilo que representasse não fosse ele mesmo. experimenta novos personagens. o sujeito se re-apropria individualidade. há a oportunidade de se a chance de exercer novas personas. promovendo sua um paralelo entre personagens e persona. Nesse momento. que ocorra uma interação entre lados ções que uma persona muito rígida não promoveria. que carregam aspectos da personalidade até então função de discriminar e explicitar os conflitos do indivíduo e permitir. de Woody Allen no que se constelam na psique. utilizada por um ator ao desempenhar um personagem. adquirindo uma forma concreta e tornando. mas que na verdade consiste numa representação da de conteúdos projetados que até então não reconhecia como seus. apóia em sua persona mais habitual. o participante pode criar diversos perso- (GASSEAU e SCATEGNI. o de um funcionamento em alteridade. o que o encoraja para a experimentação de novas formas de ser e agir. encaminhando-o para a busca por meio de uma construção de sua corporeidade e gestualidade. Ela é a expressão de elementos que A experimentação e reintegração dos personagens internos à envolvem indivíduo e sociedade. Como a persona tem origem na máscara papel representado é o do mundo interno do protagonista. consciência permitem que o indivíduo se posicione como sujeito na etc. assimilação pela consciência (GASCA e TRIVELLI. a partir dos personagens desenvol- revelar elementos da sombra quando. nome. podemos traçar gens internos se expressam e são confrontados. se acessível à consciência. onde se revela a intencionalidade do complexo. Ao dramatizar A persona para Jung é uma máscara que aparentemente expressa a e trocar de papel com seu personagem interno. cena. Através dela podemos nos contatar com o meio no qual vivemos. nagens. não revelados. 2003a). Assim como a troca de papéis colabora para a confrontação de O personagem é um disfarce. Faz com que o sujeito se depare com surpresas e revela- através da troca de papéis. movimentos corporais e gestualidade. 2003). Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 47 Quando há a dramatização dos personagens internos/complexos e falta de unidade e elaborar esta situação. quando o papel social e identidade familiar. como se pudesse “brincar de ser” alguma coisa além do seu Com a troca de papéis durante a dramatização. por exemplo. Esta técnica além Esse exercício de personagens/personas leva a uma desinibição. É como se sua persona conflituosos. Também é possível que os A persona no contexto dramático complexos se tornem visíveis durante a dramatização na forma de perso- nagens de um sonho. ou seja.

2005). em grupos veremos que o autor se opunha enfaticamente a qualquer pro. Whitmont (1974) também caminha nesta direção e considera impor- tante a exploração de conteúdos inconscientes em contextos grupais pois a interação entre os membros facilita a revelação de projeções e Trabalhando as imagens no contexto grupal desenvolve uma postura de ajuda recíproca na revelação daquilo que é inconsciente. exploração das imagens psíquicas no trabalho com grupos e as especifici. o individual e o coletivo. Para Whitmont então se submetesse aos padrões engendrados pelo grupo. O resultado disso seria um aumento nos sentimentos de Vejamos agora quais considerações podemos tecer em relação à pertencimento e aceitação por parte dos membros do grupo. descobrir características desconhecidas em si mesmo não se compara à transformação que ocorre individualmente pois o é uma tarefa às vezes difícil para quem se dispõe a realizá-la. estranhos. muitas vezes Zinkin (1998) é outro pós junguiano que valoriza o trabalho psico- estranhos a ela. Analisando então as vivências grupais sob o olhar junguiano perce- dades do contexto grupal. (JUNG. 2000). é preciso considerar que confirma as colocações de Freitas (1995) para a qual o jogo dramá. para os que assistem é necessária uma contínua interatividade entre Pós junguianos têm questionado o posicionamento de Jung no ambos. trans. afinal se ele propõe o Self como centro e espelha a verdadeira identidade. que se orientava por um funcionamento conhecido se perceber uma ênfase na dimensão coletiva. A vivência (1975) é surpreendente observar o quanto aspectos da sombra de cada grupal. Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 49 Segundo Sheleen (1983) ao representarmos um personagem. revelar. totalidade da personalidade. emergir. como se ela ficasse imersa na alma coletiva e o indivíduo jados por outros que também caminham nesta direção. e ideal. Esta experimentação de novas personas permite a aber. Disfarçado de persona. Para Sheleen (1983) a decisão do espectador de adentrar o . Participar de uma atividade que promove uma abertura para Para o autor a transformação oriunda de uma experiência em grupos imagens psíquicas. pode- A consciência. desconhecidos. deixando surgir uma essência que arcabouço teórico de Jung. a noção de que nenhum indivíduo vive em isolamento e as significações tico se constitui pela exploração de personas a fim de que o ego consiga adquiridas em sua vida resultam também da coletividade. dar expressão e assimilar elementos do Self e principalmente da sombra. sendo portanto maior do que o ego. posta de desenvolvimento psíquico que não tivesse um percurso individual. escapamos dos limites do eu. A interação entre todos ocorrerá se a encenação se tornar um (2005) sugere que o autor apresenta uma abordagem teórica que enfatiza espelho para os que a assistem. Freitas dores. Também insiste na necessi. ainda que haja certa distância entre atores espontâneos e especta- que se refere às possibilidades e alcances de atividades grupais. dade de se aproximar polaridades e desenvolve dois conceitos junguianos cendemos nossa identidade cotidiana e podemos exprimir de maneira fundantes: inconsciente coletivo e individuação. interagir e se integrar de alguma maneira à consciência (FREITAS. no qual eles possam se reconhecer e se a multiplicidade da psique e sua totalidade. pode se deparar com imagens que revelam aspectos. quando se revelam. para Jung. um grupo pode auxiliar os membros a descobrirem-se pois são encora- dualidade. para que os símbolos possam se definir.48 Marcia A. o proteger o sujeito da sugestionabilidade do grupo. lógico grupal e afirma que embora a individuação tenha como objetivo tura da consciência para elementos novos. Estar em grupo promove uma identificação entre os membros que anula a indivi. emoção comum há o aparecimento de uma alma grupal que se encontra Para que a ação dramática seja fecunda para os que dramatizam e abaixo do nível de consciência de cada um dos elementos. Para a autora brasileira simbólica nossas fantasias e desejos irracionais. de alguma forma estão estabelecidos no gem. levaria a consciência a um nível inferior se comparada participante não são desprezados e ainda podem ser percebidos de maneira com a vivência individual e quando muitas pessoas compartilham uma análoga. bemos a necessidade de se criar e manter uma interação permanente Se considerarmos o ponto de vista de Jung em relação a atividades entre os elementos.

ocorrendo uma integração de aspectos Em grupos de psicodrama a vontade de dramatizar e interagir de cada um consigo mesmo e com o grupo. o que faz com que surjam conteúdos que também estavam grupo ao representarem uma experiência compartilhada. com os membros compartilhando suas do drama. seja para atividades individuais ou Para Gonçalves et al (1988) esse contexto. mas vibrando em grupo a partir do campo simbólico criado. onde a ação dramática se grupais. um problema similar entre os participantes tem a possibili- dade de ser percebido sob diversas perspectivas. muitos profissionais da psicologia. interlocuções entre a psicologia de Jung e o psicodrama de Moreno mação da consciência. expressão. se estes de fato expressam as imagens ou símbolos experiência entre si e com o sujeito – ator. que é o para o mundo das imagens internas tem sido um caminho trilhado por mundo psicodramático. dar forma à elas. nos quais todos os eventos ocorridos na ação desenvolvida. Concluindo Atividades psicodramáticas grupais. intercâmbio de múltiplas experiências e histórias de vida. o que depende de sua disposição naquele momento. num primeiro momento. Tal como coloca Ettin (1995).50 Marcia A. Se o ator espontâneo incita no espectador o são da ordem do imaginário e fantasia. cada um com sua especificidade. o grupo é composto por uma sinfonia (2005) e definido como a totalidade constelada em um determinado de personagens. realidade de maneira inédita. Conhece a si mesmo e se recria. certamente é porque há a criação de um espelho Para Moreno (1974). onde a a partir da qual busquei fundamentação e diálogos com autores psico- fantasia e a imaginação entram em ação. Toda expressão. por exemplo. as fantasias simbólicas são o A transformação se daria sempre em grupo. sugere que quando se abre espaço desenvolve. e seus problemas. o psicodrama ao colocar em cena o psiquismo que reflete seus anseios. para a expressão das imagens internas. ocultos nos outros integrantes. uma contradição entre fantasia e realidade nesse contexto pois ambas A aplicação de recursos expressivos na tentativa de abrir espaço são funções presentes dentro de um universo mais amplo. pois quando um paciente resultado de processos grupais e as experiências dos membros do grupo expõe seu conflito diante de outros. é caracterizado pela condição do “como se fosse verdade”. termo inspirado em Freitas Como afirma Gasca (2003b). gráfica. tendo como ponto de partida a investigação das imagens psíquicas. plástica. ressonância entre si. que são engendrados neste self grupal. por um tempo e espaço subjetivos. Para Moreno (1974) não há dramáticos e principalmente junguianos. As Do ponto de vista moreniano o contexto dramático possibilita ao reflexões foram calcadas e tiveram origem em minha prática profissional sujeito construir sua própria história num ambiente protegido. . pois assim pode haver transformação dramatização na qual vários protagonistas se sucedem. Os conflitos de caráter surge pelo estímulo daquele que está em ação e pelo desenvolvimento pessoal se tornam grupal. promovendo um através do grupo. É preciso se dar voz e acolher esta complexa gama Gasca (2003a) concorda com esta idéia ao realizar um tipo de de personagens que interagem. facili- tam o surgimento de imagens que buscam expressão. As considerações realizadas tiveram o objetivo de apontar possíveis vel haver a interação com essas imagens no sentido de favorecer sua aproxi. traz para o indivíduo a possibilidade de reestruturar Em outras palavras pode-se dizer que as imagens ativadas pela elementos dispersos e não integrados da personalidade. o sujeito pode se transformar ao onde tempo e espaço são virtuais e a realidade concreta fica suspensa. em seguida é possí. Nesse jogo dramático. possibilita uma identificação de todos podem trazer significados simbólicos para o indivíduo e culturais para o com ele. A ação ação são compartilhadas e representam anseios coletivos em busca de dramática seria a chave das transformações psíquicas do paciente. desejo de dramatizar. ou seja. Andrade (1993). experimentando a É composto pela realidade dramática. Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 51 contexto dramático está intimamente ligada ao fato dele se reconhecer criados sobre o espaço concreto. seja ela.

Universidade de São Paulo. Grupos vivenciais sob uma perspectiva junguiana. uma postura mais realista diante de si mesmo e dos outros. é uma atividade que dá forma Paulo. 449-467. 1988.Q.F. vez mais propor rituais criativos para a exploração do universo inconsciente.52 Marcia A. In:______(Org. G.V. o psicodrama.M. International journal of group psychotherapy. 1995. São Paulo. limitações. C. desenho em psicoterapia psicodramática. estimulando a intuição e a emoção e Referências bibliográficas especialmente penso ser importante o estímulo a trabalhos em grupo. 1993. numa postura de alteridade entre as 2003a. 45-69. 1997). p. Acredito no potencial da atividade psicodramática como instru- mento criativo que nos encaminha para um encontro com modos de funcionamento menos racionais. o campo consciente. L. v. . engendrando transformações internas e na realidade. O ritual cria vínculos entre indivíduos e grupo e não permite que a individualidade se perca diante da sugestão e compulsão grupal. Dimensões simbólicas da personalidade. S. São Paulo. tam na terapêutica das atividades grupais. integrar aspectos incompatíveis e exercer uma atitude mais ativa diante da vida. São Paulo. L. v. por eles sermos inundados. Moreno. n. São Paulo. esta experiência o olhar junguiano. Terapias expressivas: uma pesquisa de referenciais pelo Self ao mesmo tempo em que se mantém uma relação com o grupo teórico-práticos. (Org.21-39. Universidade de São Paulo. (MORENO.) Psicodramma analitico: proposta do psicodrama. para que criemos rituais grupais a partir da moreniano clássico. apoiar e compartilhar e também para encontrar sua natureza mais BYINGTON. The spirit of junguian group psychotherapy: from taboo lização dá forma e contém afetos e impulsos. também insiste na proposta grupal e sugere que a reinte- gração psicodinâmica e sociocultural oferecida pelo método psicodramá. 4. como um ritual. Psicoterapia da relação: elementos de psicodrama contemporâneo. a expressão corporal e dramática são recursos abordagens. 1995. p. 2000. Ágora. 45. Lo psicodramma analítico individuativo e lo psicodramma O convite é. Um dos principais objetivos dos rituais é permitir que o ego adquira FREITAS. Segundo ele precisamos cada 101-127. Franco Angeli. um dos raros junguianos que apos. portanto. M. 1981. 257 f. 134). Psicograma: utilização do Inspiro-me em Whitmont (1991). ETTIN. Temas. São Paulo.) tico necessita de culturas terapêuticas em miniatura. GASCA.16. Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 53 bem como a música. usufruindo de suas técnicas e trazendo para Punto d’incontro di metodologie psicoterapeutiche. v. ao aceitar Psicologia USP.V. p. L. (Série Princípios. 3. FONSECA FILHO. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia. além do contexto clínico individual. In: GASCA. o que diminui o receio de to totem. Milano. A Máscara e a palavra: exploração da persona em grupos símbolos e imagens adquiram expressão de maneira criativa. aproximando-as. A ritua. n. 2005. tecendo diálogos e reconhecendo suas dife- preciosos para a reestruturação da ordem interna do indivíduo e ao renças a fim de que o universo das imagens possa ser vivido criativa- mesmo tempo da realidade. mente. Os rituais são facilitadores para que o ego se desenvolva mais guiado ANDRADE. 1995. NewYork. L. p. A individualidade necessita do grupo para se de Psicologia. Psicodrama interno. p. 1993. ALTENFELDER SILVA FILHO. J. São Assim. 54-73 às imagens consteladas ao mesmo tempo em que consegue conter elementos dispersos e não integrados da personalidade. 21. Ática. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto do qual o sujeito faz parte. 175 f. permitindo que FREITAS. particular a partir das diferenciações que estabelece em relação ao outro. G. ampliando vivenciais.

Ágora. Teatro Pedagógico: bastidores da iniciação médica. . GASSEAU. VII/2).) 1997. Jungian Psychodrama: From theoretical SHELEEN. HAYNES.it> Acesso em 18 out 2008. W. Dissertação de mestrado. 1984. to creative roots. Loyola. E. A cegueira de Gandhari.1. H. C. 1974. 5-25.3. Plexus.H. A.. Milano. In: GASCA. VON FRANZ. Vozes. A imaginação como espaço de liberdade – diálogos entre o ego e o inconsciente. 1974. v. MORENO. 2000. 2007. Franco Angeli. São Paulo. Psicodrama. Franco Angeli. IX/1). 261-169. (Obras completas de Jung. MORENO.6. R. São Paulo. JUNG. 1997. (Ed. M.R. Lições de Psicodrama. GASCA. 16. autre.R. p.. Théâtre pour devenir. Paris. 252-261. Petrópolis.M. v. Cultrix. KATZ. C.L. MORENO. nella psicologia analítica. p. Paulus. Iorio-Quilici A UTILIZAÇÃO DO PSICODRAMA PARA A EXPLORAÇÃO DAS IMAGENS PSÍQUICAS 55 GASCA. 1987. Rivista di psicologia analítica.P. J. Milano.VIII/2). São Paulo. O eu e o inconsciente. 1983. Il gruppo. São Paulo. (Obras ZINKIN.54 Marcia A.L. São Paulo. p. GUERRA. 2002. GORDON. A. p. JUNG.) Psychodrama: advances in theory and practice. KAUFMAN A. Aproximações entre Jung e Moreno. J. E.G. e TRIVELLI.103-111. p. 91-106. 1998.l. Quadrant. G. Vozes. Summus.rivistapsicologianalitica. analítico: Punto d’incontro di metodologie psicoterapeutiche. 149-158. 1988. São Paulo. EPI. 1991.L. C. Teatro da espontaneidade. J. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Descolonizando o imaginário.R. São Paulo. teatro della psiche. 2009. Psicoterapia. (Org ) . WOLFF. v. London JUNG. WHITMONT. M.M. (Org.. Dramatização espontânea e psicologia analítica WHITMONT. 1997. WHITMONT. São Paulo. 1999. E. V . M. Universidade de São Paulo. São Paulo. Disponível em: <www. and Philadelphia. J. Taylor and Francis Inc.L. Jung e Corpo. Psicodramma psicologia analítica allo psicodramma. Metodi di gruppo e drammatizzazione corporea de Jung: Consideração da sombra em um grupo de psico-sociodrama. In: BAIM et al (Ed. Sonho e loucura. Dialogue in the Analytic Setting – Selected Papers of Louis Zinkin on Jung and on Group Analysis. RAMALHO. 1975. Roma. Vozes. 1984b. 2003b.. Ágora. A natureza da psique. completas v. G. Summus. G. Editora Ática.]. 2003. Is Junguian Group Analysis Possible? In: ZINKIN. 1984a (Obras completas v.. New York. La dimensione immaginale dalla NAFFAH NETO. GONÇALVES et al. L. J. Psicoterapia de grupo e psicodrama. L. p. 1992. Analysis in a group setting. G. C. C. Mestre Jou. SCATEGNI. [S. São Paulo. São Paulo. Petrópolis. O retorno da deusa. M. n. In: GASCA. São Paulo. Jessica Kingsley Publishers. G. v. Ágora. 2003. Petrópolis. Psicodramma analitico: Punto d’incontro di metodologie psicoterapeutiche. IORIO-QUILICI. São Paulo.).G.

. além do clínico. em seguida. uma pesquisa de adaptação desta técnica no contexto do psicodrama. Este é um jogo desenvolvido na caixa de areia. Partindo do relato de uma pesquisa desenvolvida por Ramalho (2007) a respeito do que denominou de sandplay psicodramático. desenvolvemos melhor este tema. Ilustramos este capítulo com breves exemplos da aplicação deste jogo na psicoterapia de casais.56 57 C APÍTULO III Aplicações do sandplay psicodramático no contexto clínico e sócio-educatívo Cybele Maria Rabelo Ramalho Maria Virgínia Sousa Alves Vanessa Ramalho F. demonstraremos como desenvol- vemos na nossa experiência. porém adaptado ao contexto teórico e prático do psicodrama e ampliado para o foco sócio-educacional. nos focos psicoterápico e sócio-educacional. quanto grupal e com casais. inspirado na técnica clássica do sandplay da abordagem junguiana. numa visão trans-disciplinar. Apresentaremos a técnica clássica do sandplay (desenvolvida pelos terapeutas junguianos) e. Strauch Vanessa Ferreira Franco Este capítulo visa refletir a respeito do percurso do psicodrama enquanto abordagem aberta à criação de novas estratégias e técnicas. tanto no bipessoal. no psicodrama com crianças e numa sessão aberta de sócio- psicodrama grupal.

. a modelagem. mas cada Citamos o trabalho de Jung e em especial a obra de Nise da Silveira indivíduo com sua singularidade. do cliente estiver bastante adiantado (SILVEIRA. mas também tório. inserindo-se também no novo paradigma ou confrontação com imagens inconscientes. revelando que. por outro lado. sejam eles ao nível eco-sistêmica das realidades. psicológica e a usar um novo paradigma científico. técnicas desenvolvidas pelas abordagens junguiana e psicodramática Porém. mecanicista. temos já na literatura uma nova visão científica e uma ampliada visão de homem. para Moreno. intuitiva. simplifica- somente a palavra (o diálogo. e sim como campo de produção. muitas a-causal. E nos afirma igualmente Moreno. pois costumou dualizar razão/imaginação. na cultura e na diás- outras. reducionista. Jung desenvolveu a técnica da Imaginação Ativa (já abertura da razão para outros saberes e aceitar a possibilidade da descrita no capítulo II deste livro). a parte no todo e o todo na parte. nas relações verbal só terá êxito quando o processo de crescimento e de elaboração que vão se constituindo. integradora. por sua vez. como é o caso das psicoses. em seguida solicita que o cliente A ter coragem para investigar fenômenos tidos como não científicos desenvolva livremente o tema trazido pela imagem. Esta. e também parte do princípio Partimos da premissa de que. o psicoterapeuta deverá investigar as imagens e estória). pois a campo que se define num espaço-tempo determinados. Como antecedentes históricos. para que estas possam ser contemporâneo da complexidade. Strauch / Vanessa Ferreira Franco Introduzindo. Segundo o próprio Jung. etc. A adotar a psicodramática o exemplo do psicodrama interno. a conjugação da imagem com a ação. desdobramento do processo inconsciente. a pintura. adotar uma visão eco-sistêmica- vezes só as mãos são capazes de fantasiar. a criação de uma cena ou ritual. Assim. Afirma Edgar Morin (2001) que somos parte do cosmos. visão de que o homem é um ser físico e metafísico.. 1981:102). de subjetivação. é um exemplo de trabalho específico com a Imaginação Ativa e com uma realidade suplementar. o confronto com a imagem). Nos casos sujeito não é apresentado como origem. a dança. recomenda. que toma como ponto de partida indeterminação. o do inconsciente pessoal. acabado. seja. A Socionomia de Moreno. aproximações podem ser feitas entre algumas importante recurso terapêutico. utilizando não pelo paradigma cartesiano (que é linear. esta nova visão nos leva a promover a Por outro lado. 2001). como algo a priori. Assim. promovendo o (pessoal ou coletivo). ou seja. material e meta- mática desenvolvida por Fonseca e Dias (1980). o universo está inscrito em nós. O mundo está inscrito em nós. à semelhança de Jacob Levy Moreno (1889-1974) estando aberto à utilização da arte como meio de acesso ao inconsciente com o psicodrama. não dissociando arte-vida-ciência. do co-inconsciente ou do coletivo. Podemos afirmar que. sujeito/ outras possibilidades: a dramatização.58 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 59 Vanessa Ramalho F. cultural e meta-cultural. uma vez que focaliza a compreensão compreendidas e se alcance seus múltiplos sentidos. da imprevisibilidade e da sincronicidade. Assim. parte da compreensão O objetivo da Imaginação Ativa desenvolvida por Jung é o diálogo em redes de relações sociais. Este último privilegiou o trabalho espontâneo com as mãos para pora global cósmica. etc. uma imagem de sonho ou de fantasia. entre psico-bio-antropossocial. ou Janeiro). No aqui no Brasil (1981). . de criar e de possibilitar o complexa (MORIN. a escrita (inventar uma objeto. que abarque a lógica quando há um alto grau de crispação e de rigidez do consciente. ele instala. de maior dificuldade emocional. apolíneo. inserido na Natureza. como antecedentes históricos para a terapia na caixa de areia. recebendo a influência natural.). apesar de se constituírem teorias básico de que a expressão plástica e criativa em geral é um eficaz e aparentemente distantes. acesso a imagens inconscientes. tudo está relacionado. o estudo de imagens do inconsciente nos obriga a inserir (RAMALHO. como algo pré-formado. Nos leva a revisar e ampliar os modelos da ciência o desenvolvimento das “sementes criativas” do indivíduo. se estabelecer-se uma comunicação inicial a nível não-verbal. da incerteza. sombras do inconsciente sem os métodos racionais costumeiros. 2002). no Museu de Imagens do Inconsciente (Rio de universo. A ver o homem como um ser cosmo- da técnica da Imaginação Ativa de Carl Gustav Jung (1875-1961). técnica psicodra.

de contos de fada.. que visa atingir um nível mais que a técnica aborda outra linguagem e que existirão sessões profundo da psique. Moreno e a obra da psicologia analítica de Jung. além dos desenhos. estará uma parte do pois as cenas representadas no cenário da caixa de areia são consideradas criador. não racional. proibições. simbólicos ou não. vegetais. imaginário. o sandplay na abordagem junguiana permite o fazer simbólico da mas na inter-subjetividade e numa unidade com o cosmos. Em geral... utilizados para re-criar o mundo. técnica de Lowenfeld e publica o livro Caixa de Areia: uma abordagem dizendo mais ou menos o seguinte: “Coloque as mãos na areia. num mundo de relações. levando a história desde o nascimento... AMMANN. nas relações do homem consigo seca outra com areia molhada. Moreno. etc. que intervém na sua atua como um processo transformador da visão de mundo. indivíduo em uma sociedade é uma parte do todo. ou seja. se regras. Através da Na socionomia moreniana. introduzindo o se comunicar. portanto. justificamos a direção desta pesquisa com o imitar mar. figuras mitológicas. FRANCO. independentes uns dos outros (singularidades). centrado a) Equipamento: uma ou duas caixas retangulares. deixe-se . Deve incluir animais. o interior e o exterior de algum modo se conectam. as forças se tornam visíveis e reconhecíveis. dos sonhos. Deixe os objetos lhe chamarem. 1975:78). através da expressão nas prateleiras. para se utilizar uma outra forma de Lowenfeld em 1929. Assim. Dimensões: 72 cm x 50 cm x 7. mas uma forma metodológica de psicoterapia desen. etc. atentamente.. Por outro lado. inserido numa rede de relações. L. brinquedo na relação analítica com crianças. o terapeuta. e quase nunca nas primeiras sessões. uma estratégia de trabalho que integra um b) Miniaturas variadas. Com isto. inconscientes (WEINRIB. a partir do confronto com os processos aprendizagens. Enfim. uma ampliação da consciência. “Esta é a lei psique. normas. ou transversalidade. É uma forma de terapia solicitar logo no início da terapia. concreta e tridimensional dos conteúdos inconscientes. através de linguagens. uma parte de mim” (MORENO. talvez complementares. o grupo é atravessado pela criação com as mãos. O seu método permite uma regressão criativa livremente. entre a obra psicodramática de J. 2002.. se constituindo num método psicoterápico do nível pré-verbal. objetos (dos mais simples aos mais simbólicos). e sinta-a. Strauch / Vanessa Ferreira Franco que todos os seres humanos são infinitamente criadores e co-criadores tangível. tem um fundo azul escuro (para transcendentes. c) Nenhuma instrução rigorosamente é dada. desempenho de papéis. o terapeuta deve intervir. que são representações da realidade e do pensar complexo e multidisciplinar. uma com areia nas relações interpessoais e Jung. sandplay psicodramático.. em 1956. afirmamos que Moreno e Jung. Desenvolvendo. rio) e as bordas são azul claro (para imitar o horizonte).. O sandplay na caixa de areia se caracteriza por ser um jogo sem vimento de teorias e metodologias próprias.5 mesmo.60 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 61 Vanessa Ramalho F. a caixa só A terapia na caixa de areia (ou sandplay) não é considerada uma deve ser oferecida após uma vinculação já estabelecida com simples técnica. 1993. vivencial. deixe que ela fale algo para você. quando criou a Word Technique. melhor. com as seguintes características: aproximam nesta forma de pensar a complexidade dos fenômenos da natureza e do humano. Se o cliente volvida inicialmente pelos analistas junguianos. Quanto maior o número de miniaturas a disposição nas prateleiras. mas ambos sem perder de vista suas relações mais amplas e cm.. O seja. cada um através do desenvol.. O jogo de areia foi idealizado por Margareth em que ela será necessária. psicoterapêutica da psique. A caixa é cheia de areia clara. o terapeuta deve explicar-lhe não-verbal. 2003). A analista junguiana suíça Dora Kalf. naquele momento específico. aperfeiçoa a Ao propor iniciar o trabalho na caixa. cada indivíduo contém o grupo e é contido por ele. muitos objetos à mostra. formas humanas diversas. Olhe os objetos ou miniaturas e facilita o processo de crescimento psicológico. fotografias do inconsciente. do universo: onde houver uma parte da criação.

o terapeuta deve questionar: vez que trabalha na “brecha entre a fantasia e realidade”.No final do trabalho. o adulto também brinca na J. pois isto facilita o processo a entrevista nos papéis. propõe-se ao cliente que ele dramatize a cena. duração na PROFINT/SE (entre 2002 e 2005) com a aplicação desta condição para o relacionamento com o mundo interior. entre terapeuta e cliente. do conflito ou do tema prota- em nome dele. passagens de e pode revelar conflitos. sendo pelo terapeuta entrevistado. a relação persona X sombra. favorecendo a técnica em diversas modalidades de atendimentos (RAMALHO. nem se preocupar com a beleza. que movimente as peças como desejar. afeto e do mundo espontâneo-criativo da criança. Strauch / Vanessa Ferreira Franco atrair por eles. Por outro lado. partindo de uma pesquisa de longa de reflexão. com uma resolução dramática. mas que também permite o acesso a uma Pois. Ao se completar o cenário. criando imaginários e de fantasia. experienciada.. que caixa com seriedade. de as demais técnicas básicas do psicodrama. propõe-se ao cliente o desenvolvimento de uma ação dramática em seguida. no “como se”. papéis além de desenvolvendo diálogos. a partir do desenrolar do role playing ou do jogo dramático. e daí por diante pode-se utilizar melhor uma ação se ela for dramatizada. que o promovendo confrontos entre as miniaturas.). Assim. etc. Lembranças perdidas Não pense muito.. Uma adaptação da técnica junguiana do sandplay para a aborda. no desdobramento de seu drama. concentração relaxada. Pode inclusive recriar novos cenários a partir do inicial. solilóquios. do pode ser desenvolvido no nível de desenvolvimento de uma realidade . usando a inversão de papéis Ramalho (2007) observou como resultado da sua pesquisa. é um jogo livre em circunstâncias seguras. pois fomenta a sensibilidade para as imagens internas. como por exemplo: o duplo. vêm à tona e aumenta a capacidade de distinguir o ilusório do real.62 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 63 Vanessa Ramalho F. pedir de “objetivação do subjetivo”. mas. que podem ser então trabalhados através da novas cenas. uma use a sua imaginação”. criar uma estória com ele ?”. uma imagem de como sente uma relação interpessoal ou Ao contrário do sandplay junguiano. dramático poderão ser desdobradas. etc. recriadas e transformadas em Para Ramalho (2007) o sandplay é considerado uma espécie de novas cenas. alguns complexos emocionais. seguem. se as instruções originais da técnica clássica acima descrita. “imaginação ativa concreta”. esta só se tornará mais eficaz se for Integrando sandplay e psicodrama desenvolvido um projeto dramático conjunto. introduzindo a ação dramática na caixa.. Observou que a encenação na caixa pode revelar diferentes papéis dos elementos/personagens expostos no seu cenário. após a Enquanto psicodramatistas. preferência com efeito catártico integrador. Após construir o cenário e posteriormente uma estória imaginária ou uma fantasia. a ênfase colocando inicialmente no papel de cada elemento escolhido e falando para nós é a busca da dramaticidade. as cenas do sandplay psico- consigo mesmo. toma-se consciência da condição interna exposta. L. entrando num rito de iniciação do sentimento. a tensão é aliviada. etc. tal como se espera de um jogo psicodramático. como afirmamos. ao utilizarmos o sandplay como um criação de uma estória. uma paisagem qualquer. jogo na caixa de areia ou o que denominou de sandplay psicodramá- O cliente é encorajado a criar aquilo que desejar na caixa de areia tico. Apesar de atrair muito às crianças. Em gônico a ser trabalhado. “Você quer falar alguma coisa ? Quer dar um título a este cenário ? Quer favorece a catarse de sentimentos. o cliente vai sendo entrevistado. esculpir na areia livremente. a interpolação de resistências. solicita-se que inverta os papéis. Moreno enfatizou o trabalho no plano do “como se”. e a passagem do imaginário ao simbólico. assumindo os realidade suplementar. Partimos do princípio de que se compreende seguida. que contém dramaticidade (exemplos: um cenário qualquer. tente não racionalizar. Nesta pesquisa realizada por Ramalho e sua equipe (2007). movimentos. Pegue-os e construa uma cena ou cenário com eles na areia. a técnica em si mesma pode se tornar também uma forma gem psicodramática foi realizada. sonhos. ação psicodramática.. 2007). vivenciada. confrontos. Porém. se jogo psicodramático.

função ativa e criativa do irreal. etc. A fantasia seria a contraparte interna da imagi- Enfim. pode nos mostrar os caminhos para o Com o jogo do sandplay psicodramático. ao ato. Sartre. e o que denominamos racionalidade e realidade é sua conseqüência Observamos também que. que seria a do seu ser íntimo (Ibidem. Segundo Calvente (2009) a imaginação nossas relações. 112) Moreno propõe. depressões e deficiências externo. nação radical. mas é considerada uma potência criadora na constituição do não correr riscos de ativar um surto. FRANCO. desde Platão e Aristóteles. Obser. Moreno pode se fundar na noção de imaginação. a Com J. Ele defende que o conceito de dade criativa já facilita o processo psicoterápico. que apresen. à libido. Enfim. nação. é uma técnica individual e do social. Já o filósofo Cornelius Castoriadis. o interno com o tam conflitos existenciais e disfunções simples. p. p. ao criar um personagem e sua trama Psicodrama. espontaneidade de J. Por pensamento. P. cliente pode vivenciar seus mitos pessoais e coletivos. agindo como ponte dade suplementar. buscamos ativar e aquecer encaminhamento dos conflitos. evitando-se a interpre. aspectos que precisam ser vistos na parte verbal da terapia e nas demais Carlos Calvente (2009) nos afirma que a espontaneidade moreniana dramatizações em cena aberta que podem se suceder. em especial em nação. É essencialmente indeterminada de formas. que “é uma demanda da capacidade imaginativa por para reconciliar os opostos envolvidos no drama apresentado. muito indicada para crianças. à inteligência. que predispõe o indivíduo para uma pertou a atividade onírica de alguns pacientes. a imaginação radical é criação incessante. 1993. de variedade de clientes em diversas modalidades de atendimento. Ao experienciar este “plus de realidade” no sandplay. o escolher e/ou criar um personagem e sua história (com maior ou menor consciência dele). observamos também que os símbolos constelados e represen. é uma forma particular da imaginação. próximo dos papéis através dos quais nos vinculamos. Ou seja. incluindo nos seus sonhos ação criadora (anterior à emoção. o liberdade. como sendo este algo anterior. Consequentemente. sabemos o quanto este personagem será um dos produtos da imaginação. este algo. sua contraparte que elabora as vivências e sensações. ao alguns personagens escolhidos numa atividade anterior de sandplay. . para Calvente (Ibidem. para alguém. com a reali- tados na caixa têm uma função “curativa” natural. delírios O filósofo Gaston Bachelard defende a função imaginária como uma e fantasias. ou seja. O ato da respostas novas”. é a imagi- psiccoterápicos. adolescentes e adultos. Um personagem que está presente nas basicamente com a imaginação. Para ele. L. um grupo ou indivíduo para despertar a sua imaginação ou sua fantasia. imagens em geral. com casais e grupos sócio-educativos. No campo clínico. que nasce de nossas identificações e que vai transitar entre a fantasia. que articula o individual com o social e o cultural. Constatamos que o uso deste jogo des.). 106-111). por si só. p. 111). “este espaço transicional de onde se gera a subjetividade e os vín- supervisões. Ela libertaria o indivíduo em benefício Ramalho (2007) utilizou como sujeitos da sua pesquisa uma gran. se detectam alguns (CALVENTE. 2009. de outra realidade. Strauch / Vanessa Ferreira Franco suplementar. sonhos. foi surpreendente a aceitação desta técnica em grupos anterior à espontaneidade e Calvente defende que. 2003). culos” (Ibidem. na série de cenas. Moreno afirmava que nada psíquico poderia existir outro lado. uma poética da ação fundada na imaginação radical. Imaginação e Sandplay no contexto psicoterápico da caixa de areia. já foi definida como instância mediadora. tação intelectual dos cenários. p. imaginação e criativo. A própria ativi.64 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 65 Vanessa Ramalho F. passa a ser entendido como a expressão da liberdade. Trabalhar com sandplay psicodramático implica em trabalhar da espontaneidade criadora. o imaginário passa a ser a consciência que realiza a sua imaginação e a realidade. uma imaginação que não é um mero reflexo de algo ou ticos” e que se deve evitar trabalhar com boderlines e psicóticos. figuras. 106). como afirmam os junguianos (WEINRIB. vai definir o conceito de imagi- vou que a técnica é mais indicada para pacientes considerados “normó.

revelados na ação dramática. coloca-se a caixa de areia no centro da sala e solicita-se tização pode chegar a um final definido pelo grupo. à etapa do compar- que o grupo monte um cenário conjuntamente. na caixa de areia. assim como à sua relação interpessoal com o seu tera- Após o grupo construir coletivamente a estória e dramatizar o que peuta. ao grupo como um todo e às . em seguida. cada um acrescentando uma parte. é dada a ênfase no grupo como um todo. é permitido que cada participante use técnica de aquecimento para o trabalho psicodramático posterior. Cada um escolhe suas tilhar de sentimentos. aquecido para tal (Figura 1). que crie sua estória e a encene uma estória. como preferir. Ao se expressarem. após o consenso de que a drama- aquecimento. é dada ênfase aos sub- demais. Assim. Neste caso. 2) no contexto da psicoterapia psicodramática em grupo. que complementam a imagem. Pedimos que cada subgrupo construa um excesso de racionalidade egóica. O participante que atua poderá Adotamos o sandplay psicodramático em três contextos: 1) no con- ser entrevistado pelo terapeuta. o sandplay é usado no contexto do psicodrama como uma Ao iniciar a dramatização. solilóquio e inversão de papéis). constroem coletivamente uma cena com miniaturas. espelho. Segue-se. Na primeira. Estes. básicas (duplo. um de cada vez. como modalidade de aquecimento. fantasias fragmentadas e recordações reprimidas. podem ser representações simbólicas de personagens internos que poderiam corresponder aos complexos. adquirindo uma forma concreta. tenta entrar em consenso quanto ao seu título (ou títulos a ênfase é dada ao indivíduo em grupo. nossa experiência. que por sua vez têm como função organizar impulsos. enquanto a ação às suas relações consigo e com as figuras do seu mundo. Ao dramatizar os personagens da caixa de areia podem aparecer personagens internos que buscam uma revelação. que poderá fazer uso oportuno de técnicas texto do psicodrama bipessoal. quando for necessário. complexos podem ser personificados. de duas maneiras. pode-se dialogar com estes personagens e revelar a inten- cionalidade dos complexos envolvidos. Aplicações do sandplay psicodramático No trabalho inicialmente desenvolvido por Ramalho (2007) e na Figura 1: cenário de grupo. Após um breve possíveis) e a um cenário final. à medida que se sentir (dramatize). qualquer personagem ou elemento do cenário para representar e assumir servindo para ativar e despertar temas protagônicos. sendo observado pelos Na segunda forma de trabalho em grupo.66 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 67 Vanessa Ramalho F. miniaturas e as coloca na caixa. Depois. que se constitui como um cenário psicodramático. através dos personagens que emergem no sandplay. silenciosamente. Neste grupos (quando o grupo é grande ou o momento grupal requer que se momento é muito importante a consigna do silêncio. utilizamos o sandplay psicodramático como um jogo dramático. à sua sociometria dramática se desenvolve e o tema protagônico se desdobra e se elucida. quando a ênfase é dada a um indivíduo. para não permitir trabalhe a situação em subgrupos). ou no cenário do sandplay ou em cena aberta. um papel e prosseguir na dramatização. grupal interna. Strauch / Vanessa Ferreira Franco Assim vão se desenrolando os produtos da criação.

sem confronto. impedimentos. podemos analisar como o terapeuta internalizou as imagens Por outro lado. o revelar simultâneo de certas imagens ou do simples fazer cenários e criar estórias como forma de aquecimento internas pode possibilitar ao casal uma percepção nova e diferente do no início da sessão. cliente. o sandplay psicodramático viabiliza a interação não verbal entre Outro caminho utilizado é a inserção deste jogo no trabalho do o casal e promove a conscientização de aspectos desconhecidos da psicodrama aplicado às organizações. que Temos analisado qualitativamente os resultados de cada casal em afirmam de vez em quando sentirem. que perpassam solicitar que ele crie um cenário que represente a sua relação com o seu a relação conjugal ou são constelados. procede-se ao compartilhamento de percepções mútuas e gência de conflitos pessoais e interpessoais. télicos e transferenciais. A ênfase na experiência. onde aparecem elementos significativos que serão de mobilizar novos conteúdos. sua relação. Além de concretizar a Utilizamos esta estratégia de trabalho com o foco sócio-educa. Outra forma é como as imagens arquetípicas do inconsciente coletivo. Como instrução inicial. por exemplo. pode ser um valioso instrumento exploratório (em cional. Este jogo. para trabalhar as relações entre terapeuta e cliente. de alunos do curso de Formação em psicodrama na PROFINT/SE. a estória e de subgrupos. na supervisão psicodiagnóstico). focalizados nas questões institucionais. temas durante o processo terapêutico em curso. A meta também é 1. Para ilustrar este . cada um pode Na nossa experiência. o sandplay psicodramático tem despertado dar um título ao seu cenário. na terapia a emergência de temas protagônicos a serem trabalhados coletivamente. etc. por relação. uma espécie de “útero psicológico”. poderia desenvolver. Observamos que o clima de aplicação do jogo deve ser de aceitação incondicional. sido um jogo bastante solicitado espontaneamente pelos pacientes. sendo muito utilizado emergência do co-consciente e do co-inconsciente grupal. Strauch / Vanessa Ferreira Franco relações interpessoais presentes. No sociodrama de Casais fornecer um espaço acolhedor. Facilita que os conteúdos do co- entre no papel de seu cliente. numa escola. relacionamento. assim como em supervisões clínicas. verificar melhores estratégias de trabalho. propomos tridimensional. 4) no contexto da relação conjugal. quando solicitamos que. os professores desenvolvam cenários em grupo. por possibilitarem a emer. atendimento e observamos que. converte a fantasia numa realidade contexto do sociodrama de casais. como forma de avaliar subjetivamente o tratamento. na modalidade psicodramática. principalmente os não verbais. dinâmica do casal. Tem o título também o são. além da representação sim. intelectualização ou interpretação. possibilita a emergência de padrões de comu- internas do seu cliente. contar uma estória. as motivações inconscientes para a escolha do cônjuge. os símbolos da aliança conjugal e exemplo. após o aquecimento inicial para que o terapeuta continente para os problemas do casal. dramatizar e. assim um cenário que este (seu cliente). solicitamos que este desenvolva na caixa inconsciente conjugal e do inconsciente pessoal sejam expressos. de base psicodramática com casais. relaxado. seguida. revelarem tramas e questões sentimentos. Observamos. A caixa da areia se apresenta como um setting físico e simbólico Neste último caso. “saudade” dos cenários. suplementar. inclusive. Isto ajuda a fixar e concretizar (objetivar o que o casal construa (juntos ou em separado) um cenário representando subjetivo) e a fantasiar. etc. também é aplicado no bólica concreta do mundo interior. Estas experiências favorecem a quando a ênfase é dada ao grupo social em questão. questões que permeiam o co-inconsciente grupal. O Exemplos do uso do sandplay psicodramático desenvolvimento de uma relação mais télica entre terapeuta e cliente deverá já ter sido iniciado no processo terapêutico. em em especial o interesse de grupos terapêuticos.68 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 69 Vanessa Ramalho F. defesas. 3) no contexto sócio-educacional. Assim. em determinado momento. Quando o cenário é construído conjuntamente. fatores nicação presentes na relação conjugal. Quando os cenários são feitos em separado. Assim. materno.

Ela se queixava do excesso de possessi. 6) uma casa com um jardim. fez uma intervenção neste momento e afirmou atendido por Cybele Ramalho. aceitação incondicional e atenção exclusiva. . se encontra cansada deste papel de “mãe boazinha dele” (sic). era representativa de uma relação protetora vidade e desconfiança dele. e teve de atravessar sozinho uma crise emocional. foi entrevistada nos papéis destes. Strauch / Vanessa Ferreira Franco processo. nem separado. casar com ela e ter filhos. famosa escultura “La Pietá”. disse não ter lembrado disto. sozinho. pacientemente. a noiva realmente o “carregou no colo” (sic). Viu o quanto cobrava da namorada o que antes possuía da sentir-se “cansada e sem esperanças de que ele pudesse mudar” (sic). ficou rude e impaciente (referiu-se à miniatura 2). 5) a imagem da deusa da justiça (vida profissional dele). No entanto. vestida como profissional (e de costas para a imagem anterior). tinha outras mulheres e ela o aceitava. da mas ainda não haviam se casado. sendo apoiado pela sua fé e pelo senso de justiça” (sic). e à sua em seguida. se queixava da indiferença e mãe e filho. Como ele permitiu. surpreso. sua namorada o aceitasse em tudo. Ela se adiantou e fez seguido os projetos que ela sonhara para ele. conjuntamente. ao invés de apenas um. Terminou sua cena chorando. ele. suprisse as carências dele. passar num bom concurso na sua profissão. muito inquieta. as miniaturas: 1) mini escultura “La Pietá”. 8) um casal (lado a lado). Figura 2: Configuração do cenário do noivo. 2) uma colocasse. comentou que ela lhe virou as costas. Criou a estória de um homem que “era feliz e recebia muito apoio da mulher. mas que sonhava. e criou sua estória. Ao comentarem sobre o cenário do homem ele revelou que. hoje. o noivo construiu o seu cenário (vide figura 2). no início (nos 5 primeiros anos de relacionamento). Depois. ao escolher tal miniatura. que A terapeuta pediu em seguida que ela entrasse no cenário dele e se incluiu. compreendendo e esperando que ele amadurecesse. Ele. 3) um barco no mar. mas que “lhe virara as cenário na caixa de areia e eles preferiram fazer dois cenários em costas” (sic). e o ensinou a amar (referiu-se à miniatura 1). grosserias dela. após ele não ter correspondido às suas vontades. Em seguida. Fora abandonado pela mulher. só confiando em Jesus Cristo neste momento”(sic). Era um casal de noivos que estava se relacionando há oito anos. A terapeuta pontuou que a imagem escolhida por ele. se ele permitisse. Associou neste momento à sua necessidade de que pela terapeuta. Sentiu-se rejeitado pela o seu. em sequência. afirmando materna).70 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 71 Vanessa Ramalho F. a miniatura 1. Daí. afirmou que nos 5 primeiros anos ele a traía muito. conscientemente. no futuro. 4) a imagem de Jesus crucificado. Solicitada mãe e deprimido. ela mexeu nos bonecos boneca. relatamos brevemente um momento da terapia de um casal Ela. mas que fora abandonado pela mesma. ele teve de atravessar um “mar bravio e a noite escura da sua alma. 7) duas crianças (2 filhos). Passou em seguida a relatar a sua história de relação com sua mãe. mãe: mimos. deu o título de “Sem Esperanças”. Ambos compartilharam eterna desconfiança do afeto incondicional dela (como transferência e comentaram o seu cenário. incorporou os papéis de alguns personagens que criou e. Na 4ª sessão foi proposto pela terapeuta que construíssem um que antes era protetora em excesso para com ele. Estavam construindo uma casa e procuraram a psico. terapia por se sentirem inseguros quanto à decisão do casamento futuro. que. por sua vez.

menos inteligente que seu irmão. tristeza. Desde a 1ª Vanessa Strauch. as crianças demonstram mais facilidade sorridente. pois sua flexibilidade. Afirmaram que não queriam se As crianças menores geralmente não fazem a ligação entre sua vida apegar a um projeto idealizado de casamento futuro. no 2. colocando os bonecos no centro da Ficam paradas e um pouco confusas. pois assim retomamos o respondeu entrando no papel do boneco que representava ele e. morais que cristalizam suas ações. foi mais suave e significativo para a menina do que verbalmente. Por outro lado. intros- pectivas ou com dificuldades na comunicação participam ativamente de todo processo na caixa de areia. não gostava de fazer balé. A caixa é como um útero seguro. correm para frente da estante onde se encontram escolheu duas miniaturas. inician.. a proposta de conduzidos pela terapeuta que se utilizou das técnicas do duplo e da entrar no mundo do conto de fadas também torna o ambiente da caixa inversão. que infantil. No entanto. que este que a sessão com o sandplay foi bastante elucidativa para clarear um instrumento terapêutico funciona como objeto intermediário e lúdico conflito central da relação do casal. obscuros à própria consciência. muitas vezes. olham cada uma atentamente. Trabalhar esta imagem dualizada dela mesma. infeliz. Durante dez sessões. uma pessoa que “gosta do que elas gostam” e que entende o seu mundo gordinha. depois. em geral são livres pra criar. a mente infantil ainda assim como a relação mãe-filha a partir da construção do cenário da não está habitada pelo excesso de conservas culturais. Retomando outro caso atendido por Vanessa Strauch. de areia mais seguro e livre para os sentimentos diversos e os conflitos Concluíram esta sessão emocionados e abraçados. São mais abertas ao lúdico. um cliente de quatro anos. Entrou no papel da boneca (ela) e verbalizou o que precisava dele: mesmo de uma brincadeira. estória. Já a bailarina. são atraídas por esta. reconhecerem estória. Era também como ela estava se sentindo. ao entrar na sala. encantadas e surpresas por centralizadas uma de frente para a outra e disse que ambas a represen- terem ido se consultar com uma pessoa que tem brinquedos. comunicativo e ativo. surpreendemo-nos quando em uma caixa de areia ela sessão. imaginário quando usamos este termo. compartilhando mais difíceis surgirem. era como a mãe dela para a brincadeira. tavam. já estão preparadas com angústia. As crianças em geral já chegam ao setting terapêutico um tanto Acompanhando o caso de uma menina de 10 anos atendida por aquecidas. pouco de dificuldade quando damos a consigna de “criar uma estória”. espontaneidade e gostaria que ela fosse. inclusive para um trabalho com a caixa de areia. após a entre- Já vimos neste capítulo como as técnicas psicodramáticas são vista com os pais na 1ª sessão. Queria ser mais verbal. externam conflitos reprimidos e. ou seja. uma “caveira” e uma “bailarina”.”. questionando se aquilo faz parte caixa.72 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 73 Vanessa Ramalho F. liberdade. do um confronto verbal com ele. as sombras e complexos pessoais que afetam a relação. colocou-as as miniaturas. Ele espontaneidade a partir do “Era uma vez. Na nossa experiência. No psicodrama com crianças: qual as crianças ficam à vontade. feia. criatividade são genuínas. vivenciaram uma verdadeira inversão de papéis. Ele era magro. A garota explicou seu cenário: a caveira era como ela se percebia. Strauch / Vanessa Ferreira Franco que estavam lado a lado (miniatura 8) e os colocou frente a frente.. Afirmaram Observamos durante as experiências com caixa de areia. trário. com notas baixas. suas percepções e necessidades mútuas. elas criam as estórias com mais facilidade e reconhecida “não como a mãe dele. tivemos o primeiro contato com Marcos aplicadas à caixa de areia. Crianças mais tímidas. de princípios caixa. Com raras exceções. o que os adultos fazem com facilidade e com freqüência. pois agora passamos para um momento ser colocada agora no colo e compreendida no seu cansaço. etc. facilitador na interação com a criança. não podiam real e os personagens imaginários no momento em que estão criando a alimentar “esperanças”. na 2ª sessão. Elas não se importam em se sujar ao mexer na areia. . sem antes se conhecerem melhor. O motivo da busca pela psicoterapia em montar o cenário deixando fluir suas imagens inconscientes e um foi sua dificuldade de aprendizagem na escola. mas como a sua mulher” (sic). pelo con. da construção do cenário à criação de uma (nome fictício).

sugerimos algumas inversões de papéis entre psicomotora.74 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 75 Vanessa Ramalho F. isto só a partir dos dois anos. nem miniaturas. dentro e fora da caixa. tá tudo morto. sem freios e sem vergonha de falar o anterior. interna foram projetadas em cada miniatura enterrada. com Marcos assumindo o acabou. os personagens e os papéis das miniaturas antes escolhidas. ele respondeu “Tá tudo morto” (sic). Marcos chegou dizendo que teve um sonho e que queria da sessão e trabalhar a atenção e concentração também durante as contar: “O papai atropelava a mamãe.. quando o pai sai pra trabalhar ele se sente O pai trabalhava e passava o dia fora de casa. No manuseio da caixa. helicópteros. Não quero mais” (sic). tomando a decisão dos sentimentos de culpa se não conseguisse proteger e salvar a mãe. carros. Ao perguntar o nome daquela brinca. etc. até para beber água. deira constantemente. A mãe não trabalhava. Numa sessão. A terapeuta perguntou: dade. mas o interesse pelo jogo do sandplay o fazia superar tal dificul- deira. destes com o processo. os limites que Marcos turbilhão de interesses e vontade de acabar logo aquela estória.. em animais e nem no chão. ele vivia os papéis e ia verbalizando: de um sonho.. Então. de cabeça para baixo e os cobriu de areia (os enterrou).. em ritmo acele- pois ela não conseguia mantê-lo em sala de aula. tomando-a só pra ele.. utilizando a sandplay o desenvolvimento do papel de pais. com apenas quatro anos. é importante Sugerimos fazer de conta que o sonho estava acontecendo naquele trabalhar também o compromisso dos pais e a co-responsabilização cenário. E depois bato no papai. A queixa da professora de Marcos era a hiperatividade. Foi uma dramatização diferente. não o deixavam tocar da criança. não pular em cima das poltronas. de arrumar brinquedos. trabalhamos as regras. realizamos exercícios de relaxa- com dramatização. solicitando que eles mon- realização simbólica e a realidade suplementar. para aliviar a tensão pre. e passava a ser dramatizado em cena aberta. No início de algumas sessões. na seguinte Marcos nos trouxe um sonho. aviões.. tem cenários de como se sentem neste papel. Demonstrou um com areia e miniaturas. Strauch / Vanessa Ferreira Franco tanto nos jogos. e ele respondeu: “Sou eu. Solicitamos que ele recriasse a cena do sonho de onde ele parou. Ele sempre questionava e ficava inquieto na passar para a próxima brincadeira. Como conseqüência da mobilização do trabalho na caixa da sessão pois a dramatização é espontânea. uma vez que ainda dormia entre os pais e fazia uso da mama. Portanto.” (sic). percebemos o quanto o mundo interno de Marcos estava “Eu viro médico. E morria. o pai e a mãe. no uso do sandplay na caixa de areia e na dramatização sente naquela cena. na qual a terapeuta e a criança jogavam e inver- Na entrevista com os pais. com dificuldades de atenção.. de repente. os limites cimento. ele entrou em contato com o medo de perder a mãe andar mais tarde. na cena. poltrona. que trabalhamos que sente. necessidade de psicoterapia. A disposição do terapeuta no trabalho com crianças é essencial. contribuindo assim para desvendar conteúdos mento com músicas suaves e propomos breves internalizações. ter hora para cada coisa. que não eram colocados pelos pais para esta criança: limites de horário. Muitas vezes o cenário da caixa era rapidamente abandonado “Como assim. atividades de sandplay. está tudo morto?”. Nas sessões seguintes trabalhamos. concentração e com agitação Durante a encenação. com inconscientes e seus complexos. eventualmente trabalhar com o utilizando a técnica da extensão psicodramática do sonho. para salvar a mamãe. tinha mania de limpeza e e de que o pai ocupe todo amor da mãe. de cuidado com os brinquedos e miniaturas. relataram que durante estes primeiros tiam os papéis. etc. mas discordava com a responsável em tomar conta da casa. num jogo que representava um drama intenso da vida anos de vida de Marcos eles não iam para a praia. com muita ação. na sessão seguinte a esta o objetivo de aquecer a criança para dramatização/desenvolvimento caixa de areia. rado. ela caía. cenários da família. E podemos. jogada na calçada. caminhões e barcos. o que o fez Neste sonho. Pois. Marcos. . Essas imagens inconscientes de destruição enredo. Marcos pegou vários meios de transportes em além do manuseio com a areia. No nosso entendimento do psicodrama com crianças. virou todos espalhar almofadas.. além percebia os problemas do filho em casa e na escola. para precisava desenvolver. Os pais lhe podavam atitudes de amadure. de seguir a sugestão da professora de procurar ajuda em psicoterapia.” conflituoso.

 Peter Pan. Também foi realizada troca de pares por três vezes. Foi pedido que “as miniaturas se escolhessem” e se agrupassem por afinidades. Um membro do grupo. assim que se sentou tassem. Em seguida foi desenvolvido um breve jogo tematizando o tempo. o objetivo deste aquecimento era que cada um Figura 3: Imagem final da caixa do subgrupo 1. Partindo para a etapa do aquecimento específico. realizada no Daimon (Centro de Estudos de Relacionamento). Uma das participantes espontaneamente fez uma cara Uma dança circular sagrada. que se reuniram em subgrupos com imagens semelhantes. definido foi o “O tempo para o tempo”. tendo como centro uma mandala que se encontrava ao chão. após ouvirem um poema sobre o “Tempo” (de Mário Quintana). as pessoas deste subgrupo estavam entusiasmadas com a com- Como aquecimento inespecífico foi pedido que todos se levan. entre outros. Forman- do três sub-grupos que dirigiram-se às três caixas-de-areia. Depois foi pedido que formassem duplas aleatórias sendo que cada um deveria fazer um gesto ou mímicas para o companheiro adivinhar sobre algo que não conseguia fazer. um mestre divino. . por falta de tempo. uma tartaruga saindo do ovo. deu um título para estas. uma mãe em parceira e a convite da Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP). cada um tinha que se deslocar pela sala movimentando-se o máximo que podia. A sessão foi co-dirigida por Cybele Logo que sentaram ao redor de uma caixa e sob a direção de Vanessa Ramalho. todos virados para fora da roda de olhos fechados e deveriam.76 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 77 Vanessa Ramalho F. pegando uma que simbo- uma roda. Enquanto a diretora contava até dez. despindo-se das imagens anteriores. observassem o corpo enquanto andavam pela sala e formassem manifestou interesse em trocar de imagem. sentado à vontade. Mais um jogo foi realizado em seguida. O grupo compareceu para uma sessão aberta tematizada. com um bebê no colo. tematizando suas imagens. um homem público. que represen- do subjetivo e facilitar na visualização de novos focos a serem trabalhados tassem sua relação com o tempo. voltando ao ponto de origem quando chegasse ao dez. Netuno. o gênio da lâmpada. No subgrupo 1. lizava a morte. Cada participante escolheu duas com a criança. miniaturas e. O grupo se reuniu em roda. demos início 3. Um solilóquio foi pedido a cada um. enquanto os partici- pantes apresentavam o próprio nome. Strauch / Vanessa Ferreira Franco Neste caso. Iniciou-se o jogo. como uma forma de saudar o grupo. Vanessa Franco e Virgínia Alves e compareceram 22 pessoas. obaluaê (orixá das doenças). posição de suas imagens. o uso de temas pré-estabelecidos pode ajudar na objetivação buscasse duas imagens-miniatura dispostas em bancadas. fazer uma postura corporal de como se relacionavam ou se sentiam perante o tempo. que trabalhava a noção do tempo foi de decepção. cujo tema pré. Franco. No Sócio-psicodrama público à dramatização. proposta. ficaram sete pessoas e as miniaturas escolhidas Esta experiência aconteceu numa sessão de sócio-psicodrama foram: a bela adormecida. verbalmente. As imagens foram concretizadas e observadas pelos participantes.

constituído apenas de mulheres. mação como necessário à vida. Neste caso. Um silêncio tomou conta da narrativa. Nessa inversão. ainda que de forma eventual. no entanto. desejos. uma bruxinha. o grupo como um todo manifestava mãe com seu bebê. os personagens começam a se relacionar com ela. Os outros colocaram suas experiências pessoais. o poder de dominar o tempo. a valoriza- A diretora entra e faz um duplo da personagem-mãe: “Enfim. Sentindo ainda um clima de divergência nas um bebê doente. representando uma canoa e um helicóptero. dirigido por Virgínia Alves. Curiosamente. A Morte ficava de um lado pro outro. Este arquétipo feminino da artesã pro- existência. inicialmente ficou enterrada. Em outra cena dramatizada na caixa. etc. visivelmente emocionada. principalmente os personagens No subgrupo 2. Durante essa cena. Em determinado momento. um unicórnio. ficaram 7 pessoas. dizendo de como sob sua copa se reuniam mulheres para a continuaram a debater filosoficamente sobre a morte. tempo para exercer estas atividades. colocado a árvore com corações. A estória se ligado ao chifre. esbarrou em outro que derrubou a mãe. alguns membros soltaram suas seguida foi inserida uma menina. ir à praia. cujo tronco tem da morte. um dos personagens quando foi entrar o desejo de praticar atividades prazerosas. uma sereia. está com raiva de quê?” Ela responde que a morte tirou tudo o que ela uma concha do mar. a morte se apresenta e contou sua história. Foram acrescentados ainda: se desinteressaram. como viajar. os integrantes personagem. ainda nesse sub-grupo. e permitir que encerrou com a morte presente de pé. tendo perdido os pais de uma vez e. ser compreendido o seu poder de transfor. como um tesouro.78 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 79 Vanessa Ramalho F. o poder. que estava presente pra deixar as pessoas tristes. que todos estivessem aqui amparando minha minado momento. o grupo deu tilharem suas experiências pessoais sobre a morte ou qualquer outra sequência à criação da estória. o grupo não conseguia Nesta cena. esse bebê seria tratado pelo obaluaê. sorte. estar na roda. a diretora pergunta à protagonista: “Você uma rede entre eles. um sorriso e na copa pequenos corações representam os frutos. uma ação harmo- estava no plano dos contos de fada e que a morte tinha que vir. a participante opiniões. demonstravam. denominada “pequena dançante”. atacá-la. Foi quando a protagonista Dando prosseguimento aos diálogos no cenário. A que a participante espantada com a morte dramatizava. uma cédula. a tartaruga nascendo de baixo da as atividades da menina pudessem se concretizar no tempo disponível. A diretora solicitou uma inversão de papel da uma onda com um surfista pegando “tubo”. houve um A estória iniciou-se com a árvore manifestando a sua satisfação de momento onde todos os personagens fizeram uma roda em torno da estar naquele espaço. tentavam fugir primeira miniatura colocada na caixa foi uma árvore. Foi pedido após isso que o grupo encontrasse uma para conduzir a menina. ela disse que a Morte uma cigana. a participante que havia enquanto viviam a vida. representando o desejo de viajar pelo nordeste. Mas. ao contrário. questão que a narrativa tinha mobilizado. uma das participantes. forma de encerrar a narrativa. também sobre maternidade. etc. tinha e que ela tinha que lutar contra ela. Assim que essa informação foi dada. a diretora solicitou que usassem esse momento pra compar- que tinha colocado essa imagem se espantou. córnio por Chevalier e Gheerbrant (2006). mostra-se claramente um dos símbolos atribuídos ao uni- encontrar um final pra história. dois coqueiros com Voltando ao seu papel. uma lâmpada mágica. Strauch / Vanessa Ferreira Franco A estória narrada e criada pelo grupo falava de uma mãe que tinha contrastar com a realidade. Outros. deu fala à Na etapa do compartilhar. que tinha pressa de executar alguma atividade. caindo no centro da em contato com a natureza. em seguida. garota-protagonista com a Morte. alguns sentiram que a história duziu sobre o grupo. deve ser encarada de frente. a participações e deixaram que essa protagonista fizesse o drama. No desenrolar. Sem querer. areia. Em Um clima de disputa estava no ar. outros qual foi seguida por um casal de dançarinos. sua importância e atividade de produção artesanal. que se apresenta enquanto os personagens tentavam resolver sua existência. pra nizadora que se refletiu num movimento de colocação dos demais . era ção da possibilidade de praticá-las. pra trazer o mal. utilizou a miniatura do unicórnio fragilidade” (sic). Num deter- isso o que eu queria. Não havia um clima de queixa por não ter roda. enterrá-la. Uns dizem que ela ganhando seu bebê. e todos os outros personagens reunidos num outro lado da caixa.

e algumas de meia-idade. colocada no centro da caixa. estudam. um lazer. Figura 4: Imagem final da caixa do subgrupo 2. elas se colocaram como pessoas que trabalham. um tesouro e um chipanzé que não escutava. Suas idas e vindas. que estava sob a direção de Cybele Ramalho. duas flores (uma aberta. Uma clara referência ao tema arquetípico da trama girou em torno das relações amorosas.80 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 81 Vanessa Ramalho F. árvore que fala e o unicórnio para lidar subgrupo composto pelos dois elementos de idade mais avançada do com o tempo. Surgiram na história criada conflitos. tais como lâmpada fita adesiva do tamanho de uma caixa. Shiva No compartilhar deste subgrupo que tinha algumas participantes (representando a alma). Figura 5: Imagem final da caixa do subgrupo 3. viva e outra bem jovens. O que este grupo improvisou trabalhar num espaço delimitado no chão. simbolizada pelo helicóptero. o grupo intitulou o cenário de: “Mangueira do que começava com uma flor do amor. Apenas o helicóptero ficou de fora dessa configuração. As imagens/miniaturas escolhidas foram: o Pégasus. um pássaro que dava lidavam com o tempo. bruxa. produzindo um mandala. encaminhados ao longo da trama para uma integração. Após colocarem suas miniaturas. transformações ao questão era uma mangueira a partir dos relatos de 3 participantes de longo do tempo. sereia. das atividades domésticas e de lazer com equilíbrio. O grupo fez questão de particularizar que a árvore em perdas no decorrer do tempo. Apesar de incluir jovens. um gato. uma máquina fotográfica. Longe do estereótipo de carona a uma moça de óculos. ficaram 6 pessoas. de suas transformações e árvore da vida. com sugere que o grupo utilizou elementos mágicos. foi o mágica. lhes parecia equilibrada. uma moça que meditava e procurava paz. grupo. em geral como valores. deixando de fora a pressa. como a oposição entre a matéria e o amor. uma bicicleta. confirmaram que a forma como murchando. moradoras de metrópole que não dispõe de tempo. começaram a criar uma estória Nesta fase final. que foi a configuração final da caixa. cigana. No subgrupo 3. choque de como esta árvore havia sido importante nas suas vidas. cuidam guardião do tesouro. mas foram representação de harmonia familiar e nutrição emocional. Como não havia mais uma caixa de areia disponível. Strauch / Vanessa Ferreira Franco personagens em círculo em torno da árvore. . representando as fases do amor). para as atividades de um cristal. A tempo e da vida” (sic).

até certo ponto.. O não querer invadir o tempo do outro. sombras em entusiasmo no ar. invasões. futuras. a técnica oferece novas possibili- Concluímos que foi vivido pelo grupo nesta vivencia que o ser dades de jogar com as imagens. a busca de um ideal. se não fosse pela perda de seus pais. em todas elas. graça do amor na alma. desvantagem. acreditamos que este tem muito a crescer quando os psicodra- Na etapa final do compartilhar com todos os subgrupos. observando-se uma complementaridade entre as temá. exageros. associações e despertando a intuição conjunta do par terapeuta-cliente. Enfim. esta sendo a sua maior relação com o tempo. valorizando o instante. confronto. ao brigar com a morte. Na trajetória virtual. seria a super-mãe que é hoje.. de interesse e intensidades. Em contraparte. talvez. a liberdade no amor (da alma e do amor ao outro). protagonizou. a protagonista pudesse Concluímos com nossa experiência de pesquisa-intervenção que a lidar com aquela luta interna. com a era da globalização. sentida como conto de fadas. o instante e a valorização do presente que o faz forte na do terapeuta for grande e variado. O amor de cada um no seu tempo. especialmente para o psicodramatista tímido ou para como se sentiu. Vimos nestas três cenas dramatizadas na caixa três aberta. mas pontos significativos trazido pelo subgrupo 1 foi com relação ao tema da tentam criar novas técnicas. através da imaginação assumi-la até o fim. compreendendo-as ela esse espaço. voltando ao final com a perspectiva de que a morte tinha através da multiplicidade dos itinerários humanos lógico-racionais e que ser encarada de frente. um estado onde cada um se tornasse realmente revendo o percurso do psicodrama e pensando nas suas perspectivas livre e mestre do seu próprio destino. mítico-imaginários. com suavidade. pois não envolve o corpo do paciente. no compartilhar final cada grupo se apresentou e revelou muitas vantagens. como o sandplay. raiva oculta. podendo ser uma excelente auxiliar no processo psicodramático. na interface com outras abordagens “boa vida”. sandplay psicodramático. mais amplas e ricas. Observamos que ela pode ser considerada um jogo dramático que encerra Enfim. as possibilidades da ação vivenciado o enfrentamento das contradições que envolvem a nossa dramática. buscas. imagens mais ou menos inconscientes. encerrou-se num clima de troca. que prefere não se movimentar muito ou está impossibilitado de temas protagônicos: o enfrentamento da morte (subgrupo 1). o tema girou em torno das histó. o cliente que ainda não esteja familiarizado com a dramatização em cena ticas das três caixas. O grupo concluiu que a história privilegiou. o sócio-psicodrama do “tempo para o tempo”. no tempo para o tempo. Enfim. Nesse meio tempo. quedas. suscitando um número maior de sua travessia. tendo a protagonista verbalizado que. perante o amor. ticas foram inseridas para que. um dos matistas ousam não apenas reproduzirem as técnicas já existentes.82 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 83 Vanessa Ramalho F. em contrapartida. através do jogo do rias reais das relações amorosas. (subgrupo 2) e das vicissitudes do amor (subgrupo 3). fantasia. do passado assim proceder. imprevisibilidades. mas que é Principalmente se o número de miniaturas disponíveis nas prateleiras o momento. visa captar. etc. suas perdas. Foi no compartilhar que a elaboração da técnica do sandplay permite o acesso ao imaginário e à realidade suple- cena se completou. num exercício de inter e de trans-disciplinaridade. existentes. de alguma forma. capaz de ler e de construir a realidade e a si mesmo. o reinado da imagem e do O grupo 3 se conduziu sem conflito. tomou a direção da narrativa e tentou Abordagens que. foi A técnica mantém. . mas. humano deve partir do confronto e da afirmação da morte. não mentar. onde é importante lidar com a imaginação e com uma realidade do tempo para o amor. o viver o tempo do amor no aqui e agora. extravasando sua espontâneo-criativo. as técnicas psicodramá. que trabalhem no sentido de desenvolvimento do homem A participante do subgrupo 1. o alvo para este grupo seria manter o estado de suplementar. É necessário modificar paradigmas. integrar saberes. Mestre do seu momento presente. Vivemos. o sub-grupo soltou a direção. Strauch / Vanessa Ferreira Franco No compartilhar de sentimentos. deu a criadora. Reflexões e trocas surgiram sobre as atitudes de cada um Finalizando. conquistas. tridimensionais.

CALVENTE. Não devemos esquecer que o produto desta imaginação. FEBRAP. Dissertação (mestrado) – Instituto de Psicologia da diferentes contextos do aqui e agora. O jogo de areia: uma intervenção clínica. São Paulo. ultrapassa o valor do desenho. cenográfico. número 2. observamos que favorece a emergência das questões co- conscientes e co-inconscientes que atravessam as relações interpessoais. pois supera a dificul. Paulus: 2002. Areia. Departamento de Psicologia Clínica. O que não podemos perder de vista no trabalho com esta estratégia GRINBERG. 2002. edição. tanto no foco psicoterápico quanto no sócio- mitos sonhos. recriando-a através do desenvolvi- mento de novos caminhos. O Pensar Complexo – Edgar Morin e a crise da Modernidade. 54-73 Existencial. Sâo Paulo. escultural. que carece deste recurso. a promoção Psicoterapia da relação: elementos de psicodrama contemporâneo. 1997. Strauch / Vanessa Ferreira Franco Neste sentido. Jean. MORENO. GHEERBRANT. J. PENA-VEGA & NASCIMENTO. A Religação dos Saberes: o desafio do século XXI. 2009. São potência criadora. a postura psicodramá. São Paulo. Corintha.84 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / APLICAÇÕES DO SANDPLAY PSICODRAMÁTICO NO CONTEXTO CLÍNICO E SÓCIO EDUCATIVO 85 Vanessa Ramalho F. para J. Cultrix: 1975. As Conexões Ocultas – Ciência para uma vida sustentável. Moreno. L. Aproximações entre Jung e Moreno. e sincrônicas. a realidade sócio cultural que nos atravessa. O Tao da Física – um paralelo entre a Física Moderna e o dade do saber desenhar. muitas vezes revelando também a constelação de questões arquetípicas Agora:2000. o privilégio dado ao jogo no “como se” visando o Encontro Paulo. Dicionário de símbolos: Nos trabalhos grupais. AMMANN. S. Alain. da imaginação criadora. 1993. gestos. tornada ______. F. Cultrix: 1975. vai refletir através dos personagens criados e das Paulo. 2006. CHEVALIER. Imagens do Self: o processo terapêutico na Caixa de Psicodrama. CUKIER. vol. Fritjof.São Paulo: s. o homem criativo. ele nos deixou Orientadora: Elizabeth Batista Pinto Wiese.. Psicodrama. tramas desenvolvidas. Ruth. El lugar de la Imaginación en el Psicodrama o el lugar del Psicodrama en la Imaginación. p. Fritjof. nossos FRANCO. Psicodrama da Loucura – correlações entre Buber e Moreno. Ágora. Rosa. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: José Olympio.n. números. Jung. tica e seus conceitos teórico-técnicos básicos. São Paulo. As miniaturas funcionam também como excelentes egos auxiliares no psicodrama bipessoal. FONSECA FILHO. São Paulo. é a busca das verdades veladas por métodos dramáticos. Garamond:1999. Carlos. FTD: terapêutica é a visão filosófica que a fundamenta. 17. . Rio de Janeiro: Bertrand Brasil: 2001. nos 2003 (252 pp). In: Revista Brasileira de WEINRIB. Ágora: 1980. São Paulo. São Paulo:Cultrix. RAMALHO. Isto inclui o desenvolvi. Psicodrama interno. cores. educacional. vínculos sociais e o desenvolvimento de nossos diversos papéis. São Paulo. embora seja um recurso plástico. o legado de continuar a sua obra. Estelle. Misticismo Oriental. o psicodrama Universidade de São Paulo. In: ______ (Org. formas. 2000. Referências bibliográficas MORIN. Cybele. São do lúdico. 20. L. figuras. Ágora: 2000. Psicodrama Bipessoal – teoria e técnica. CAPRA. J. costumes. Luis Paulo.) mento da espontaneidade. Mitodrama. São Paulo. A Terapia do Jogo de Areia – imagens que curam a alma e desenvolvem a personalidade. Edgar . Ágora. Cultrix: 2002. MACIEL. São Paulo. Aicil . CAPRA. da tele. Se.

Rio de Janeiro.86 Cybele Maria Rabelo Ramalho / Maria Virgínia Sousa Alves / 87 Vanessa Ramalho F. _______. IX. 1981. Aproximações entre Jung e Moreno/Cybele Ramalho – São Paulo: Ágora. Nise. Parte II: Psicodrama dos Heróis e Contos de Fadas. Alhambra: C APÍTULO IV SILVEIRA. 2. _______. In: Cader- nos de Psicologia.88-183). para que conheça a constru- ção das bases metodológicas e epistemológicas sobre o sandplay psicodra- mático com as co-relações entre Jung e Moreno e. 2007. ou que busque as referências bibliográficas sobre o assunto10. Jung: vida e obra. pretende desenvolver mais amplamente leituras possíveis dentro do psicodrama junguiano. In: CORUMBA. 10 MACIEL. São Paulo: Ágora. pp. RAMALHO.164. Nise. (PP. Descobrindo enigmas de heróis e contos de fadas: entre a psicologia analítica e o psicodrama. Paz e O sandplay psicodramático em cena: Terra:1997. SILVEIRA. In: Cadernos UFS – Psicologia. um estudo de caso na leitura do psicodrama junguiano Vanessa Ferreira Franco Esse capítulo. 2002. Para tal. “O Sandplay Psicodramático: aplicações do psicodrama na caixa de areia”. IX. De início. Rio de Janeiro. levantar-se-á alguns pontos teóricos importantes sobre essa técnica numa perspectiva co-relacional entre Jung e Moreno. além de exemplificar o uso do sandplay psicodramá- tico com um estudo de caso na prática clínica. 2007. Mitodrama: o universo mítico e seu poder de cura. poder mergulhar de forma mais apropriada nas reflexões possíveis dentro deste novo campo de estudo psicológico e que serão brevemente elucidadas aqui. Corintha. Aracaju: Edições PROFINT. fasc. fasc. vol. Imagens do Inconsciente. Editora da Universidade Federal de Sergipe. supõe-se que o leitor já tenha feito o acesso. Aracaju: Editora da UFS. 2. 2008. Sandplay Psicodramático: o Psicodrama aplicado à caixa de areia. 2000. vol. 17ª. . Rosa Maria do Nascimento. Strauch / Vanessa Ferreira Franco ______. Cybele Maria Rabelo. Edição. assim.

de caráter vivencial. assim. gem composta (exceto no trabalho a posteriori com a técnica de imaginação ativa). e nessa ação. de agir Deste modo. como ego-auxiliar. imagens arquetípicas são leitura complementar e diferenciada com a técnica. Que tonalidades ela adquire? Deste modo. pela espontaneidade. Neste momento. de acordo com Ramalho (2007). é o trabalho com o psicodrama interno. nem esgotar a discus- são (que merece estudos e pesquisas sobre o assunto). dentro da proposta do sandplay Na técnica do sandplay psicodramático. o paciente realiza o trabalho com seu “corpo onírico”. sendo dramatizadas e analisadas cos e metodológicos do psicodrama. expandindo sua capacidade de agir ludicamente. no papel de criança. podendo ir além da simples disposição das imagens. então. que lho com adultos. A partir dessa dimensão espontâneo-criativa da realidade suple. Essas definições podem invalidar a interven- mentar. Não se pretende aqui questionar cristalizações se quebram e se reorganizam em função de uma esponta. para o sandplay psicodramático torna-se Para desvendar as respostas a essas questões. essas premissas cuidadosamente estudadas pelos junguianos. pelo seu feeling. é possível a utilização de técnicas como Como entendê-la aos olhos de teorias psicodramáticas? o duplo. diferente da proposta junguiana tradicional. é o contato com a imagem cênico-simbólica que desvelará psicodramática. jogo de areia11. Teóricos da psicologia analítica como Estelle Weinrib (1993). mas que ele se mantenha de fora dela. a cena na areia não será removida ou desfeita devido o discurso da imagem é a ação das palavras não-ditas. o questionamento: de fato. a inversão. rimentados pelos “teóricos da realidade suplementar”. . se apresentam aqui as intuições pertinentes à leitura espontâneo-criativamente. de fato. em respectivas teorias e práticas. revelando a psicodinâmica o terapeuta buscar não favorecer que o adulto se dimensione para dentro da ima- da sua consciência no aqui-agora da sessão. que o terapeuta seja encoraja o espírito lúdico. ampliando sua consciência vivencial. na qual Que segredos ela desvenda? (MASSARO. as a uma suposta “sugestionabilidade” do terapeuta. é. A inclusão do psicodrama na proposta junguiana entra justa- liberdade para seguir suas intuições com a finalidade de moldar suas mente aí. pois. tem como objetivo permitir que o adulto possa brincar meio de acesso ao trabalho terapêutico. que é um equivalente da o drama ou o projeto dramático oculto do paciente. e permitindo que o paciente envolva-se com elas num enredo no qual ele é diretor e Como [se] poderia correlacionar vários conceitos com a cena? protagonista. O que alguns junguianos sugerem para a intervenção com a técnica caixa-de-areia. Além disso. As técnicas permitem o contato com a E aos olhos de outras teorias? sombra do protagonista. Deste modo. durante o jogo dramático que acontece dentro do recipiente da ção psicodramática com o cenário no momento em que ele é construído pelo paciente. sua percepção télica. Cabe. não haveria o perigo de o Self inva- Compondo cenas com [ou sem] as miniaturas na areia. imaginação ativa. empatia e. precisamos nos posi- viável em alguns momentos que seja possível o mergulho lúdico na cionar sob a perspectiva de que as escolas de psicoterapia possam ter cena. 1996:18). assim como acontece naturalmente quando cênico-simbólica do jogo de areia sob os alicerces teóricos da psicologia se trabalha com crianças dentro da técnica tradicional-junguiana do analítica e do psicodrama. permitindo que o incons- ciente se manifeste numa realidade suplementar através de uma 11 Existe uma série de considerações teóricas da psicologia junguiana (e que estão disponíveis para o leitor interessado na bibliografia sobre o assunto) para o fato de linguagem que vai para além dos sintomas. também amplamente e cuidadosamente expe- posteriormente no momento de elaboração verbal. Ruth Um dos cuidados fundamentais que se deve tomar. mas permitir o acesso a uma neidade e de uma possibilidade. role playing. valendo-se dos recursos teóri- evocadas nas cenas oníricas que emergem. Fazer o paciente entrar. entre outras. principalmente. no caso da inter- Ammann (2002) e Cybele Ramalho (2008) destacam que o sandplay ferência do terapeuta na hora da dramatização com os cenários no traba- caracteriza-se por ser um jogo sem regras. temos a cena como o maior psicodramático.88 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 89 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO Comecemos: O terapeuta. o paciente adulto encerra seu trabalho com as associações momen- tâneas da sua composição. favorecendo a liberação da criatividade e da guiado pela sua intuição. Para Massaro (1996).

experimentando-se a si mesmo e ao fantasia e realidade. Para isso. transforma-se em de acessá-los12. Sem carga transferencial. não são carregados de transferência. como encapsuladas no imaginário. a composição criatura-criador. . Assim. para esse momento do desenvolvimento da consciência. portanto. por mais inconscientes que possam ser. que os conteúdos que surgem através dos diálogos no contexto através da complementariedade dos papéis sociais sua energia psíquica. De um lado a concretização que o terapeuta que pretenda fazer uso dessa técnica. papel de fantasia.. nas palavras de Jung. Essa é uma idéia complementar ao estudo de Moreno de uma cena simbólica na caixa-de-areia. permite a constelação de Jung também com a noção dual. através do veículo da espontanei- Pode-se entender que a manifestação da Criatividade na consciência dade. pedindo para serem atuadas criativamente criador. O que não deve entrar em contato com a consciência. Ela nos leva exatamente para a brecha entre uma brincadeira mais ativa. seu próprio silêncio Fica claro. assim como todos os opostos psicológicos. seja devida. Muitas caixas-de-areia significado simbólico. e ao estudo de criativo vivido na realidade suplementar. Assim. a alma. Já o papel reforça que a imaginação do paciente permite a entrada de imagens imaginário13. por imposição das interpolações de resistências. de pares de opostos como mediadores conteúdos vivos do inconsciente. mentam o enredo e que são carregadas de emoção e energia com seu mente treinado em ambas as perspectivas teóricas. Reconhecendo essas imagens compensatórias através da cena Assim. favorecendo a expressão da totalidade do Self. sendo resgatado pelos papéis psicodramáticos. então. consciente e inconsciente. citado por Sérgio Perazzo no texto “Fan- Estamos considerando aqui o trabalho com pacientes de estrutura egóica tasias Reais”. ainda pensando sobre o manejo técnico do Perazzo (1999) considera que quando a criança não pode atuar terapeuta. além de ter se externa e estática da imagem. Sendo a imaginação.. o ego já tenha alguma condição se como papel imaginário. compõe- e. na cena como papel psicodramático. os 12 Assim como se adota no método de interpretação dos sonhos. o ego simplesmente apaga ou reprime. dramático – com a introdução das técnicas do duplo. não necessitam de intervenções e manejos cênicos. refere a sua localização – o imaginário – e não a um papel que é imaginado. no livro Fragmentos de um olhar Psicodramático (1999). seu desejo se transforma ção de resistências. 2002:75). Sobre as “contra-indicações” desse método consultar a bibliografia sugere o termo papel do imaginário ao invés de papel imaginário. 13 Conceito criado por Alfredo Naffah Neto. pois. Outras.. é um papel encapsulado que não é atuado e que. criatura através das cenas simbólicas dispostas na imagem! Weinrib (1993) resgata Jung para frisar que a fantasia é a “mãe de todas as possibilidades. e de outro as forças internas que movi- submetido a processo terapêutico em ambas as vertentes. o momento psíquico onde as imagens. – estejam no limiar entre consciente e inconsciente em imaginação ou em fantasia. parecem solicitar encaminha nossos estudos. inversão.90 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 91 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO dir o campo egóico da consciência através da imagem cênica. confiança em sua percepção télica. entretanto. cria a criatura. os papéis de fantasia não possuem complemen- Voltando a função terapêutica dessa técnica. revelando sua da psique. os papéis do imaginário seriam as nossas potencialidades simbólica que se compõe guiada pelo inconsciente. o “extrato concentrado acontece por meio da expressão da polaridade e da complementaridade de forças vivas do corpo e da alma” (AMMANN. onde. Ruth Ammann (2002) taridade e. o terapeuta vai ganhando e a fantasia mediam os dois mundos. sendo assim carregado de transferência só pode ser atuado na cena psicodramática conscientizadas. Se é carregada de transferência. Voltemos. Pressupõe-se também. o termo se disposta sobre o assunto. associada ao drama espontâneo- acerca do conceito de complementaridade de papéis. interpola. Assim. para onde a técnica do sandplay psicodramático é mobilizador de catarses e insights. É o deus de sua obra. Que o protagonista seja criador do seu drama. gerando As cenas e imagens simbólicas consteladas na areia possuem também inflação ou risco de dissolução. a imaginação seu cliente em diversos cenários na areia. Fonseca (2000) estabelecida. sendo que podem ser compensatórias à sua psicodinâmica. o paciente. é preciso também deixar claro uma duplicidade em seu modus operandi.

é permitir que. os símbolos inconsciente do paciente. torna-se esse poder. ginárias cheguem à sua devida materialização no plano relacional e social. aí.295. C. p.22). as imagens (e a nascendi. Nessa perspectiva. já que se supõe que a imaginação e os Assim. Às vezes isso é curativo a ser trilhado. Civilização Brasileira. maior disposição do ego em cena. Com uma forte partir de imagens aceitas culturalmente e que agem de modo direto sob o convicção interna de que pode se expressar livremente. paciente possa voltar a criar a própria realidade. Geraldo função imaginação) seriam o meio de campo entre a fantasia (guiada Massaro (1996) retoma Stanislaviski15 ao dizer que o estado criador atinge mais pelo inconsciente) e a realidade (guiada mais pelo consciente). F. mundo tem função terapêutica. Perspectiva. Harper Torchbooks. o sandplay psicodramático promove o acesso ao status papéis imaginários possuem carga transferencial. 1997:25). seu máximo quando o inconsciente funciona naturalmente. dentro do vaso alquímico p. com essas afirmações. seguro e confortável. 16 Mandala é a palavra sânscrito para círculo. exercem uma vital influência sobre o indivíduo auxiliando-o a adentrar O próprio ato de interação do paciente com o símbolo constelado já é caminhos onde antes resistiria explorar. realizado por meio de mandalas16. conscientes e inconscientes. tornando visíveis suas Ao se identificar com a imagem simbólica. São imagens circulares ou quadrangulares da caixa de areia. E a recriação mágica do confia que o símbolo leva a um poder sobrenatural intrapsíquico. A preparação do cenário libera o fantasiar simbólico livre e prote.92 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 93 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO mundos interno e externo são unificados numa união viva” (Collected início de sua vida. Nova York and Evanston.52 apud p. III. com as próprias mãos que mediam a então. Esse é o caminho indivíduo pode sentir-se à vontade. a imaginação dá fluxo à energia neurotizada e cristalizada com a mitologia geral é a construção de um mundo simbólico no qual o sendo conduzida a canais espontâneo-criativos. Assim. . E quando confrontado com essa por si só curativo. ao 17 ELIADE. 1997. resultando em mudanças de padrões psíquicos. Uma das principais funções que a cura simbólica tem em comum gido. 1968. e à formatação original de sua energia”. considerando a espontaneidade-criatividade como energia não-con- mais distantes do referencial de vigília da consciência. 2002:68). Assim. A preparação do autor. Entende-se. In 14 SANDNER. Mircea. São Paulo. Assim. gerando a cura. Já a imaginação. Vanessa. é identificar o paciente com as imagens de poder que estão “realidade anímico-espiritual e a material” (AMMANN. Works. o representadas nas figuras escolhidas como mediações do eixo ego-Self.. Entende-se. E é nesse reino materno. vol. que a fantasia se situa num eixo Moreno (1992b) também se refere à função materna do seu conceito- em que o ego e o desempenho de papéis complementares estão ainda eixo. Este todo mitológico opera a participando ativamente da contínua criação do mundo. São Paulo]. 1976. a “causa e a cura da doença estão ligadas ao grande todo Assim. SANDNER. ocorrendo uma renovação psicológica do sandplay. 1997:218-219). o paciente faz uso do poder forças e imagens internas no mundo concreto e propiciando que de ima- que ela o transmite e. que se que representam também um receptáculo protegido e não defensivo de energias reconstitui a unidade psicológica mãe-bebê. [ Mito e Realidade . de regressão terapêutica ao nível matriarcal.. pois. mitológico maior” (SANDNER. nesse útero protegido. 6. Uma das finalidades do trabalho com o sandplay psicodramático. o paciente é devolvido “.: Harper & Row. servável que possui função procriativa. na qual se mundi representa o cosmos em miniatura. 2004. Para Eliade17 o mandala como imago Trabalha-se aqui com o conceito de cura simbólica 14. Myth and Reality. que fortalece o ego. ao universo matriarcal de origem e criação da existência. A idéia. o locus genuíno da criação. (SANDNER. Em um nível não-verbal e não-interpretativo acontece uma espécie 15 STANISLAVISKI. a primeira como arqui-catalisadora seria um veículo de acesso do inconsciente a conteúdos que implicam e a última como arqui-substância. sua semelhança com a caixa-de-areia Ali o Self pode ser constelado. então. o analisando cria e recria seu mundo interno e externo. Para maiores informações sobre a função das mandalas ver FRANCO. 1997:162).

sempre tentou esconder sua sexualidade por detrás da persona de um amigo bastante disponível e Um estudo de caso por detrás de uma beleza que atraía muitas meninas. pois já se propiciando a cura. momento onde consegue permitir sua momentos de descanso entre eles. com relação ao desenvolvi- relação mais comprometedora. relatou. também inclui muitos momentos em que se dirige à internet “gozo” que sentia ao permanecer deitado por entre as pernas da mãe em para acessar sites pornográficos. definiu para atrás – e a realiza até hoje sem interrupção – com a queixa de impotên. diz os estágios de desenvolvimento por onde passa a sua consciência. quando foi morar sozinho Homossexual. si sua própria sexualidade. Também relata curiosidade em Christian também afirma nunca ter percebido uma relação homem e mulher entre seus pais. que as impressões deixadas pelo pai a Com a intelectualidade bastante desenvolvida. que a imagens na areia vão compondo naturalidade a espanto dos amigos e colegas. diferentemente dos irmãos que se mantiveram mais próximos da casa culo mais íntimo com o parceiro. por fim. de um para com o outro pelo menos em situações sociais e na presença . Saiu de casa no início de sua juventude. concordância com a cura simbólica em sua abordagem intuitiva. homem. respeito ao seu desejo de realizar sozinho algumas vontades – que diz expressando sua maturidade psicológica. sendo doutorando respeito de homossexualidade sempre foram de caráter depreciativo. e professor de universidades. o caminho de evolução da consciência e ajudam o paciente a reconhecer Um dos comportamentos bastante indagado pelo paciente. na relação pai- inconsciente e infantil nas relações com seus professores e mestres. o de se casar com um outro não encontra nas situações de transa real. no entanto. dos pais e onde estão até hoje. escondendo-a da família. tanto nas relações que implicavam afetividade e um vín. então. uma das questões conseqüentes da queixa associadas à idéia de sujeira e desprazer. dicas com pessoas que não conhecia ou que não vinha a alimentar uma Com o tempo de psicoterapia. com o tempo. E o sandplay psicodramático é uma delas! trancafiava-se em seu quarto podendo render-se à sua excitação sexual. uma força numinosa passa a ocupar o campo da consciência entender o por quê não se vincula às suas próprias coisas. mento da sua sexualidade. ter que se dar a desculpa de que não tem dinheiro. idéias de objetividade estrita e entendimento intelectual – esteja em viajar para outras cidades. também marcaram sua história. além de contar com períodos em que estuda e Quanto à mãe. mudou algumas vezes e sempre se desfez de seus pertences com a maior Pode-se entender. mas. Ele conta que sua mãe. Nas relações sociais entre amigos da escola. então. já que nunca demonstraram nenhuma afetividade 18 Nome fictício. desenvolveu sua vida pessoal e profissional. acreditar que ela carrega consigo esse desejo em seu imaginário até hoje. Chegou a Christian18 tem 37 anos de idade. mente com parceiros por muito tempo. filho. Christian descreve com curiosidade o prazer ou leciona. por conta de diversos impedimentos de ordem familiar. com o despertar da sexualidade. como por exemplo. sua sexualidade. procurou psicoterapia há 3 anos relacionar-se e a namorar com garotas. já que se possam realizar as devidas medicinas das quais a alma necessita! percebia uma inclinação por imagens sexuais masculinas. para No início da adolescência. método experimental. Sua vida cotidiana. trazendo de volta a sensação de prazer e excitação que parece não ter realizado um grande desejo.94 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 95 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO experiência. cia sexual. Ele diz Christian diz que tem bastante dificuldade em vincular-se afetiva. quando. onde. imaginação fluir. queixava-se não conseguir sentir-se espontâneo em em São Paulo. nunca conseguir – sem precisar depender da presença de amigos ou de Que a cura científica – com seu empirismo. Lembranças em que o pai o baseava-se em não conseguir se colocar ou de render-se de forma reprimia com qualquer possibilidade afetiva entre eles. como em situações de transas esporá.

além do que o paciente sente com relação à sentido da minha dor”. sobrinho do Tio Patinhas e do Mais ao centro se encontra o sobrinho do Tio Patinhas e do Pato Pato Donald. Christian conta que as imagens escolhidas nado aos papéis que incluem a forte intelectualidade do paciente. Christian disse que sexualidade. pode revelar a e de seus sintomas. Caixa 1: “Bagunça”. Incluindo a associação do paciente não ter entendido por quê o colocou na imagem. sempre fazia quando criança de girá-lo. que também personificam essas dualidades. Olivia é pega por Brutos. pá). e que também está dividida entre o Poppye e o Brutos. interrompendo seu movimento Olivia Palito apresenta a anima frágil do paciente. já que a brincadeira com a areia o relembrou a sua queixa). mas ele parece estar fora do contexto da cena. Traz tam. “qual o e os conflitos estão focados. escritor. psicoterapia. necessidade do Self pela busca do Herói. desenvolvido em várias etapas A análise simbólica da caixa revela que a imagem realizada numa espaçadas durante o processo terapêutico de Christian. que observa num dos cantos da caixa. Tio Patinhas. O urso é uma fera. trazendo à tona as questões Para Ramalho (2007). (bolinhas de gude. revela muitas caixa de areia úmida traz à tona aspectos mais regredidos da psique. o fraco. realizada logo no início do processo terapêu. os opostos.96 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 97 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO dos filhos. pesquisador). a hipótese diagnóstica do Diversos símbolos constelados na imagem revelam as polaridades seu problema pessoal e sua possível solução. Essa figura de anima pode abrir espaço para uma investigação clínica acerca do complexo materno do paciente. O trabalho com a caixa-de-areia. O dessas questões e as transformações necessárias por detrás da sua queixa super-homem. quando está sem ele. professor. já que o número 3 significa psicologicamente a possibilidade de síntese entre Fig. e Pato Donald. pelas quais o paciente transita: Na sua primeira caixa. Os super-heróis possuem dois lados: o do muito poderoso (relacio- tico. anunciados pelo número 2. Enfim. talvez esse urso esteja anunciando uma falta de conexão. . 1. que já dá indícios acerca dos dados que o paciente trouxe sobre a divisão psíquica da mãe entre dois homens. o Para ele. e o fragilizado (sensações que atravessam bém imagens da infância. o globo representa seu desejo de viajar e a brincadeira que aspecto forte. sua divisão no âmbito da sexualidade e nos relacionamentos. sua relação com o inconsciente. intitulada “Bagunça”. não entendeu o por quê colocou o urso. que pode ser entendida como a que o paciente tanto se queixa com relação às coisas de sua vida. como revelam seu desejo sempre presente de ser um super-herói. inclusive está olhando para o outro lado. as primeiras cenas indicam onde as energias pertinentes para trabalhar com o seu drama: “quem sou eu”. As 3 bolinhas de gude anunciam um prognóstico de integração. Christian aponta certa repulsa da sua mãe com relação à com o dedo. Donald. e também se apresenta num aspecto dócil. esses símbolos já apresentam ao cenário terapêutico a ambivalência psíquica do paciente. Sendo a primeira caixa-de-areia. Poppye só se fortalece com o espinafre e. Olivia Palito. revelando o país que tinha apontado. Poppye.

o sentido de direção psicológica. podendo seguiu os passos do trabalho do sandplay dentro dos padrões da psico- fazer o que quiser. Durante a cena. o paciente disse que gostaria de ser um garoto mais extrovertido com seus sentimentos. o paciente decidiu se movimentar. enfim. sendo um instrumento que cava a areia. Sem título. o paciente. como o pai e a mãe. Em pleno aquecimento. ao escolher a imagem e colocá-la no Aquaman”. Concretizando esse desejo. enquanto se relacionava com os pais. companhia que o paciente ainda não encontrou. já que o cachorro passa idéia de energia. na análise. e realizou. A imagem final. que está de fato. sugeriu que os incluísse na cena. e pegou uma miniatura pra representar esse aspecto do eu ainda imaginário (que é o pequeno garotinho no canto esquerdo superior da imagem abaixo). o paciente pegou o caldeirão pra representar o fazer medicinal. representando ele mesmo garoto. retrata a destruição do cená- rio realizada pelo paciente enquanto estava no papel do Tritão. também o arquétipo paterno. sua. colocado no papel do cachorro com a ajuda da tera. foi composta em duas etapas. Enquanto o peuta. quando ficava durante horas em seu quarto imaginando. Em seguida. então. coragem e logia analítica. primeira. como egos-auxiliares para a transformação. Poder cavar. registrada na figura 3. o novo garoto do enredo anuncia que gostaria que tudo aquilo fosse diferente. gindo em seu discurso. uma caixa que revela que o paciente A segunda caixa-de-areia foi realizada quatro meses depois da esteja buscando uma direção na sua vida. O paciente. essa caixa anuncia o mundo instin. a imagem retrata um cachorro pastor alemão. tivo solitário do paciente (ele não sabe o que fazer com suas pulsões Buscando os personagens do pai e da mãe. A primeira recipiente. sozinho. munido com sua terapêutica. Curiosamente. Em seguida. anunciou à terapeuta o que ele realmente tinha vontade de fazer.. que dizia ser a desbravamento. explorando os mundos que paciente descrevia sua cena. mais encorajado e apropriado da brincadeira.. alguns papéis complementares foram sur- gostaria de descobrir. Foi quando. como é nomeada. ou seja. A terceira caixa-de-areia foi realizada um ano depois. mas que precisaria de um remé- dio pra resolver a situação.98 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 99 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO esse símbolo pode estar anunciando a síntese que o paciente pretende instintivo-sexuais). Pode representar saindo do papel de observador (que o super-homem personifica) e entrar. em movimento na imagem. pais enterradas no cenário. o paciente foi entrando nos papéis e realizando a dramatização. 2. a terapeuta Do ponto de vista simbólico. Caixa 2. relata que o animal representa ele mesmo. dição psíquica. a imagem cênica revela sua contra- buscar diante de sua ambivalência a partir do início da psicoterapia. como o paciente reproduziu. As imagens simbólicas do bumba-meu-boi e do Tritão vieram associadas durante a confecção da sua medicina. um menino na época da escola. Talvez aí oculta-se uma sinalizando a própria psicoterapia. O paciente dispôs no cenário uma casa. O movimento espontâneo e catártico criado deixou as imagens dos Fig. “A Saga do sozinho no cenário. pode estar de estar sozinho. remover a angústia. . O cachorro é um animal que gosta de companhia e não A pá.

. O caldeirão é o próprio vaso alquímico.100 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 101 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO pai. que anuncia o que o unilateraliza o campo da consciência. mas uma união que vem após a ruptura e do ponto de vista junguiano. Netuno. O rei é a atitude dominante da consciência. da vaca. o desejo inconsciente do paciente em nador. a realidade suple. 19 Amplificação simbólica é um recurso utilizado pela Psicologia Analítica para ampli- formador do Self. Assim. caldeirão surgem a partir da possibilidade de destruição da cena até mesmo o poder cognitivo intelectual. destruir o padrão conservado na complementaridade transferencial entre pai-filho. ar o significado que determinado símbolo pode ter para as diversas culturas e Pode-se entender que. das emoções. já que realmente existe alguém dentro da roupagem contexto protegido do sandplay psicodramático propiciou. e que anterior. Tritão é a figura mitológica de Netuno. o “rei” do mundo das águas. assumindo sua força e direção próprias sob a regência de Tritão. Fig. na medida em que é atuada como papel psicodramático. já que as duas imagens da vaca e do em prol da totalidade do Self. existem panelas enormes para cozinhar pra rece a possibilidade de externalizar com segurança um impulso interno. para também poder. A vaca do bumba-meu-boi. ele já força seu campo egóico a submeter-se à força da imaginação espontâneo-criativa e ao poder libertador e trans. 3. enfim. Tritão é um símbolo do arquétipo paterno. do ponto de vista arquetípico – e como método de amplificação simbólica utilizada na técnica junguiana19 – simboliza um aspecto do eu que está no meio da multidão. que exerce influên- cia na inspiração. da morte do rei velho e renascimento do novo. Além do mais. realizar a união da família. Na história da pequena sereia. O objetivo desse recurso é acessar a raiz comum que está por em relação a composição afetivo-emocional na unidade familiar mãe. bumba-meu-boi na Bahia. Essas temáticas. além da relação com a mãe. mentar da caixa-de-areia trouxe à tona os temas da queda do poder domi. esse personagem pode estar constelando o poder inconsciente do paciente como fonte de força superior e autoridade para poder reconhecer sua própria dimensão psíquica. o personagem se desenvolve compreendendo os desejos da filha que são contrários aos seus valores e preceitos como pai. mico” brinca na areia. mas por Essa caixa explicita claramente a possibilidade de destruir que o debaixo do pano. muita gente. 1993) situa que nas cerimônias culturais do seguro e fechado. seu sofrimento e sua necessidade de ajuda. e que em toda casa de família tem. espiritualidade e poder superior da Consciên- cia. chegando então nos arquétipos. quando o “paciente acadê- paciente precisa transformar. ao permitir que o papel imaginário destrutivo religiões existentes. anuncia à consciência de que é necessário o sacrifício do seu medo e rendição egóicos às figuras de autoridade. devido a presença do caldeirão na cena. Ele ofe. O dicionário de símbolos (muito utilizado para realizar a ampli- O espaço livre e protegido da caixa-de-areia forneceu um recipiente ficação simbólica (Cascudo. É um dado curioso Como meio seguro de expressar sua agressão. sugerem o sacrifício da atitude consciente quebra do padrão familiar anterior. onde aparece. onde as energias demoníacas são redimidas. e que pode estar sinalizando. além de gerar a catarse. em que o ego fica fixado. detrás do símbolo em questão. Caixa 3: A Saga do Aquaman. Deste modo. intuição.

que modo diferente daquele conservado nas relações com figuras de autoridade. e o que o paciente pode encontrar no exercício de sua cena e no valor que necessário “assassinato” da mãe e do pai. e pode estar anunciando a papel que não podia ser atuado. canaliza e anuncia o início do contato verdadeiro do paciente mental a outro. O principal foco aqui é na verdade subjetiva separação dos pais. Por outro lado. torna-se ainda ções trazidas pelo paciente no contexto terapêutico. pode-se entender maior a possibilidade dessa potência oculta vir-a-ser na realidade. resgatando na imaginação. mente na relação com o pai. Universo Patriarcal. através de uma do que a estrutura do paciente não ficará comprometida com essa realidade suplementar. Esses dados permitem supor que a possibilidade de “assassinato E nessa brincadeira de Deus. com esse “assassinato” simbólico dos pais. porque estava cristalizado transferencial- tendência ainda inconsciente de ficar embaixo da saia da mãe. de um padrão mentar. com seu nascimento. que favorece com que o paciente possa agir de um leitura mitológica do desenvolvimento e evolução da consciência20. Jacob L. A cena auxiliou que o paciente pudesse incorporar. Assim. imaginário – que traz na sua função a peculiaridade do seu desejo – ao meu-boi. tem um homem por debaixo. diferente do super-homem observador da uma espécie de iniciação no sentimento. já que a combinação das figuras parentais internalizadas ao longo do seu 20 NEUMANN. 21 MORENO. que estava “pedindo” para ser atuado criativamente através da presa em um determinado papel. mensagem oculta do sintoma (potência-impotncia). a energia imaginária serve como alvo vazio de suas próprias entre a fantasia e a realidade. Esse dado relembra a cena em papel social. Mesmo após a destruição. na caixa com seriedade. de soltura e de A teoria de Erich Neumann. entrando nesse rito de iniciação do sentimento. ritos. aumenta a capaci- complementariedade e aprisionamento em sua própria carga transferen. a casa ainda permanece em pé. São Paulo. Deste modo. analista junguiano. mento e o simples ato da criação gera satisfação e liberação da tensão. primeira caixa-de-areia que o conserva numa atuação restrita e solitária que o coloca em contato com lembranças perdidas e reprimidas que da sua personalidade. dando expressão a um movimento novo. imersa em seu Drama privado. novos caminhos que preencham nossos universos. esse que o paciente está entre as pernas da mãe. 1995.102 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 103 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO Essa cena também sugere a relação ainda inconsciente com a mãe. ressaltando a grande solidão existencial pela qual o indiví. indican. podem ser agora reconciliadas. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. 2) O mito do herói. . e 3) O mito da transformação. na cena psicodramática. Na medida em que Do ponto de vista psicodinâmico. a caixa funciona como um espelho do eixo ego-Self desencadeou na atuação de um papel do imaginário. na medida em que o adulto brinca imaginário. que a função-ponte do papel psicodramático é de ligar o papel do sendo a vaca um representante desse arquétipo. vivida como realização simbólica dentro da realidade suple. a realidade e a fantasia não estão em Uroboros. Perazzo (1999) descreve muito bem a fenomenologia do papel do Ramalho (2007) complementa que. duo fica submetido quando da não atuação de sua energia. os seus “destruição”. sua imaginação exerce ao permitir que a eterna criança em nós descubra a coniunctio entre os opostos. Weinrib (1993) afirma que o lúdico propicia aos adultos com o arquétipo do herói. favorece a catarse do senti- projeções. Grande Mãe/Universo Matriarcal. E. e pode produzir catarses de integração liberando a espontaneidade lado. dade do paciente distinguir o ilusório do real. até então encapsu. como bumba. e conflito na cena dramática. reais e imaginários. contando aqui com as associa- pode ser desencapsulado num papel psicodramático. que subdivide-se em Como sugere Moreno21. para auxiliá-lo na passagem de um universo a outro. no afeto e no mundo da infância. Christian evocou seus seres fantásticos dos pais”. conta com uma um certo descontrole. A vaca. a intenção dos seus papéis do imaginário. obedece três momentos: 1) O mito da criação. 1974. Mestre Jou. o caminho que a espontaneidade-criatividade criou Assim sendo. pois trabalha na brecha cial. “reais” desejos. da sua não do afeto e do mundo espontâneo-criativo da criança.

porque traz à Jung e Moreno compartilham suas intuições sobre a centelha tona um eu alienado. do outro. o complexo materno reflexões e meditações. O homossexualismo do paciente. ou também um desejo em se envolver com o pai e integrar o arquétipo por trás desse complexo paterno. A renovação então se configura através do poder curativo e A leitura psicodramática-junguiana inclui. nível de transição da consciência. incluindo a homossexualidade. cartesiana e “convencional” parece alcançar. é Massaro (1996) quem encerra essa espontaneidade-criatividade e a centelha divina. apresenta um aspecto Moreno ficou mais focado na consciência em torno da dimensão ainda puer. surgem ao final desse capítulo algumas tendo a dinâmica afetivo-relacional do filho. a integração de teorias faz-se necessária. Jung e os neo- Assim. pois liber- dividida entre prazer e desprazer. residem. role creating. pois devolve o corpo a seu legítimo dono (Ibidem. já que são essas últimas que relembram a divina – que entende-se aqui como sendo o Self – é inevitável que uma psique o momento em que se rompeu. Para ampliar o mapa da substância psíquica. sua auto-imagem e de suas pulsões. uma triangulação dessa natureza pode ter contribuído para junguianos ao desenvolvimento da consciência do ponto de vista que o paciente desenvolvesse essa ruptura que dividiu sua consciência intrapsíquico. e. o útero materno onde será possível a transfor. ao Self. ficação. psíquicos do co-consciente e do co-inconsciente grupal. Toda divina e o Self – que aqui julgo como equivalentes sob o critério de que . No estudo profundo do psicodrama junguiano. até sua expansão télica. que tem como no caso. e o comprometimento com Para acessar o locus onde se configura o status nascendi da centelha figuras e situações de autoridade. afinal. como um desejo inconsciente do paciente com suas Considerações finais próprias pulsões. por conseguinte. chegando. role playing. Entre o conhecido e areia desencadeiam um processo psíquico holístico que pode levar à cura o desconhecido. da Espontaneidade-Criatividade. intra-psíquicos de consciente e inconsciente coletivos via símbolos arquetípicos. dos papéis. ou adolescente. às num mundo de prazer imaginário de um lado. pode ser entendido mais como um homoerotismo. nível. p. de um lado mais inconsciente. acessando os conceitos breve análise e apresentação de caso. ativo em sua homossexualidade. Toda cena psicodramática é uma poesia. Moreno elucidaram com suas pesquisas e achados. de um ego frágil quanto a definição de ta um ser de seu feitiço. às expressões ainda mais sutis da mente além do ego. e. entre a fantasia e a realidade. que tanto Jung quanto Deste modo. que supõe-se aqui ser muito mais amplo mação completa propicia o renascimento da consciência num novo do que a leitura “egóica”. o desempenho paciente através das cenas elaboradas viabiliza a construção de um mito de papéis em suas três dimensões – role taking. percebe-se que os efeitos terapêuticos da caixa-de. E como um vaso alquímico no qual se realiza a transformação Por isso. Assim. Nesse sentido. Conclui-se. parte do caminho seja a “travessia entre os mundos”. por não estar totalmente desenvol- vido afetivamente no âmbito relacional. pessoal. que o paciente vive em suas relações. A figura da mãe. de Christian. um encantamento. desde a sua formação. E. desde os estudos inter- transformador da imaginação num estado psíquico de incubação. que revela o território da psyché. comprome. do outro mais consciente. Toda cena psicodramática é uma corpori- de vínculos e relações. gerando uma dificuldade na formação pois expressa uma crise. contribuiu para a formação de uma personalidade cena psicodramática é uma bruxaria. passando pela E assim como começou. um universo emanações da alma através dos vitrais incólumes do Self. que a leitura simbólica da psicodinâmica do as imagens e os símbolos.104 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 105 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO desenvolvimento. de desprazer em situações afetivo-relacionais. é também um ato de cura. entraria aí como um modelo de anima que apresenta poucos objetivo final o acesso ao Self e o contato com a centelha divina através recursos ao lidar com a própria sexualidade e seus desejos. como agregados desse e ao desenvolvimento da personalidade.17). Toda cena psicodramática é um ato de loucura.

do: psicoterapia transpessoal. pode-se dizer que. mas não A noção conjunta assumida aqui. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso) – Faculdade de Psicologia. pois. com o ego firme. que. concluíram veram métodos que transitam entre o nível do ego e as faixas trans- que toda pessoa deve exercer uma forma de arte. Cultrix: 2007. de forma direta. Psicologia do Sagra- cura. Eliana. Ambos então E que. O espectro da consci- 23 Mana seria o nome da energia provinda dos arquétipos e do inconsciente coletivo ência. de cada discurso. ciente pessoal. receptivo. Ver MACIEL. F. no final como ciências estão em momento espontâneo-criativo. buscar em BERTOLUCCI. exigência que Jung nos deixou: “a de realizar uma tarefa vital trans. portanto. do qual a natureza é estão o trabalho com as imagens simbólicas no sandplay. 24 Para um estudo maior sobre esse assunto ver WILBER. Mitodrama: o universo mítico e seu poder de pectiva Transpessoal e o Psicodrama . Corintha. mas não auto-centrado. devida e apropriada esses conteúdos para que não se transformem em dido como o Inconsciente em seus diversos níveis ou aspectos: o incons. Inconsciente Superior. simbólica e relacional. portanto. nos leva inevitavelmente à sua morada. locus do Self. seu As técnicas psicológicas seriam os instrumentos que viabilizam a ego deve estar desprendido de alguns modelos e padrões. torna-se necessário ir em direção a uma psicologia que Ambos foram espiritualistas. duo.362 apud Tardan-Masquelier. fosse esse o intuito na cena oculta de cada linha com- anunciam: “Brincar de ser Deus e Sê-lo em sua plenitude!” posta nas obras desses dois teóricos da psicologia. E para que um indivíduo entre em Role Creating. somos mediadores E a imagem é o ponto em comum que realiza essa transição. por fim. Por trás de uma imagem simbólica. E o sandplay psicodramático pode. 1994:19). 2004. Dentre esses métodos artes conjugadas. no início da existência como libido – nos traz à vida Criatividade25. é que essas duas leituras psico. que provoca o efeito numinoso na psique. nada mais nada menos que. São Paulo: Ágora. lógicas – junguianas e morenianas – entendem e supõem que existe algo É. a integração entre ambas as dimensões. Seria. onde os personagens arquetípicos dançam o drama. Deus é emanação para ambos os seja trans-pessoal. talvez. Eliana. direcionando o indiví- mana 23. dessa tempo. consciência superior. e as imagens parte. Esse algo pode ser enten. e o cosmos é sua contra-parte. a um outro nível de consciência. lados. mental. fica viável aqui supor que. A Pers- arquétipos. para o ser-em-relação e para o homem individuado. na Rede Total – física. se tornam conservas. artes em comunhão com o Todo. O contato télico só pode acontecer quando ambas as cons- depois da passagem pela cérvix intra-uterina22 –. PUC-SP. É necessário o desenvolvimento maior que o ego. transegóicas. e devemos por excelência cumprir com a imperiosa mundo a outro. sintomas que desequilibram o organismo fisio-psico-social. favorecer a O sandplay psicodramático realiza o ritual e propicia. p. como seres vivos munidos de cênicas que surgem na Realidade Suplementar do contexto dramático. existe um arquétipo querendo pessoal” (Ma vie. e que. Nós perdemos nossas pessoais24. grupal ou co-inconsciente. algo por detrás de cada comportamento. 22 Para leituras complementares sobre como a pulsão de vida age no trauma do nasci. São Paulo. In BERTOLUCCI. deste modo. a força própria dos 25 Para um aprofundamento nessa idéia. leitura dessas duas teorias é. O Confronto Rastafari na Busca do Si-Mesmo: a transfor- mação da consciência na visão da Psicologia Transpessoal. Nós. 1991. 2000. e o interferindo. de um dessas polaridades. que produz ações e relações. necessário o Ritual. de cada papel. São Paulo. ser considerado um desses Isso significa dizer que. pois ambos desenvol- Contudo. social e cósmica. de cada de instrumentos que preparam e ajudam o ego a receber de forma pensamento. sintomas. que se situam além do ego. p. o inconsciente coletivo. resistente. V. mas não diluído.106 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 107 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO existe algo que seja superior ao ego ou ao simples desempenho conser. entrada de Deus em nossas vidas. a visão conjunta assumida a partir da instrumentos. mento ver FRANCO.42. Ken. São Paulo: Ágora. entupindo o fluxo da Espontaneidade- pulsão de vida que. tanto Jung como Moreno. se revelar ao ego. Portanto. vado de papéis. centrado. com o incubação dessa pulsão vital em vários níveis e etapas da vida. . cada vez mais.

108 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 109 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO Por trás de cada miniatura. e trans-lógica. A atividade psíquica que essas do um enredo. quanto a livre expressão no desempenho de um papel (inter. fisio-psíquicos” que levantam o ego do seu assento. os símbolos. Identificar pontos em comum se reconhecer nas composições em areia.. que é vivia o mesmo “terror fascinante”. Os ritos são devidamente realizados. pois. lá atrás no tempo. A questão não é lógica. ver algo maior que circunda em torno drama da sua existência. em men. As composições se transformam. pois. retiram momentanea- situa-se um arquétipo. pelo Self.. portanto. A mensagem per. seja por repressão ou excesso de conserva cultural impregnada nos papéis. compon. É necessário transcender o desempenho de uma psico-logia e poder sagens do Self. a ciência da da nossa Consciência e as novas codificações cognitivo-afetivo-relacionais alma. cada personagem. em que o ego não está no comando. a idéia de que existe um centro. Vanessa F. se transformam em Belas Estórias. em profundas Parábolas! A tarefa dos psicoterapeutas que compartilham essa visão. de nossas teorias. entre teorias preenche os lapsos do nosso campo de percepção científico. ver FRANCO. ao mesmo tempo. que sob Sua regência que o homem se aproprie mais do seu corpo onírico. E que. necessárias integrações... 28 Metria = medida pessoal e coletivo. Deus para a consciência chega como uma emanação desse centro. mas em níveis diferentes26. envolto em energia espontâneo-criativa. . E o faz dançar. da Consciência29. então. sustentar a idéia de que há algo superior. e. passa-se a alquímica da alma. imaginar. em espelhos do Eu. permite supor que a demasia e o excesso da regência cósmico por detrás da narrativa. revela o drama técnicas mobilizam. Realizando a alquimia do psico-drama. A idéia de É preciso atualizar a criança no adulto.. atualiza-se o “software” exercer uma psico-ciência. E quando o adulto cria e re-cria sua intenção de assistir e dirigir o Torna-se necessário. mente o ego do centro da consciência. como a livre expressão contida na arte simbólico. aos aspectos destrutivos que impedem esse fluxo vital. 29 Entendendo a Consciência aqui como a composição consciente e inconsciente. E a metria28 dessa energia pouco foi revelada. o momento em que não há resis. e se desenvolva estão os arquétipos. Realizando as devidas passagens e as corre o mesmo eixo da espiral evolutiva. portanto. dêem continência psíquico/Moreno). adultos e crianças com relação a estados de criatividade. E as pesquisas científico- tências. acadêmicas incluem-se dentro desses estudos. transformações aconteçam. 27 Do grego holos   = totalidade/inteireza e trepein = indo em direção a algo. São Paulo: 2009. São experiências equivalentes em É essa psico-ciência que nos auxiliará a realmente aprofundar os estágios/níveis diferentes na evolução da consciência. fantasiar e criar . caixa após caixa. as acausalidades da vida. um Self. aqueles “sustos ainda mais. estão sujeitas às é favorecer que o auto-conhecimento bem conduzido e dirigido/guiado leis da sincornicidade. Monografia – pelas quais todas as culturas na atualidade estão passando devido a tantas Faculdade de Ciências da Saúde – FACIS. do mito. Elas pertencem ao tempo holotrópico27. Talvez ajudar a minimizar o excesso de stress físico-psíquico-social A Psicologia Integral de Ken Wilber: novas perspectivas em Psicoterapia . É quando. algo maior que regula a dinâmica drama. em capítulos. para que o homem possa re-aprender a ser guiado pelo Self Tanto a livre expressão associativa no discurso verbal (intra-psíquico/ Superior e (voltar a) exercer as artes necessárias para que as devidas psicanálise). aquela que. que inclui o algo maior. entre a fantasia-realidade e hoje o entendido para a psicologia analítica como o arquétipo do Self. ele pode se ver e de nossos achados. Que esses jogos dramáticos se transformem em rituais individuais A livre expressar. arquetípica da caixa-de-areia (trans-psíquico/Jung). Num pleno brincar. conse- 26 Para maiores informações sobre a diferenciação de níveis de consciência entre quentemente. interfere no modo de pensar e agir das pessoas. e coletivos. e que. estudos sobre a Consciência. adulto entre a realidade-fantasia. A presença de vários deles em interação.. a emanação do Self in situ na caixa egóica prejudica a homeostase psicológica. seja mais um membro ou órgão vital nos indivíduos. A verdadeira ciência da psyché. de cada imagem. para Mas sabemos. em todos os níveis. Holotrópico significa direcionando-se à totalidade. com a ajuda das pesquisas de Jung. algumas.

1974. co-relação entre Jung e Moreno. E essas são as Palavras do Pai! ________. As Palavras do Pai. R.88-183). 1993. São Paulo: Ágora. Monografia – Faculdade de Ciências da traçar e mapear o horizonte. Mircea. 1992. 2008. Erich. Fragmentos de uma Olhar Psicodramático. Campinas. Eliana. Revista Febrap. p. Psicologia do Sagrado: psicoterapia transpessoal. Cybele. RAMALHO. Ágora. todos sendo capazes de. São Paulo. História da Origem da Consciência. Caixa-de-areia como recurso BERTOLUCCI. (PP. fasc. essas mãos invisíveis estendidas “uma MORENO. In: Cadernos de Psicologia. Ruth. Psicoterapia da Relação: elementos de psicodrama areia.110 Vanessa Ferreira Franco O SANDPLAY PSICODRAMÁTICO EM CENA: 111 UM ESTUDO DE CASO NA LEITURA DO PSICODRAMA JUNGUIANO crises e transformações. Aracaju: Editora da UFS. A Terapia do Jogo de Areia – imagens que curam a alma Cultrix. Descobrindo ELIADE. Perspectiva. e.: enigmas de heróis e contos de fadas: entre a psicologia analítica e o Harper & Row. Referências bibliográficas NEUMANN. prosseguir com o desenvolvimento e evolução da consciência. 1992:14). da alquimia interior. querendo tocar a outra. O Confronto Rastafari na Busca do Si-Mesmo: a transforma- terceiro elemento dessa conjunção) viabilizar um caminho mais profundo ção da consciência na visão da Psicologia Transpessoal. verticalizando os saberes. São Paulo: Paulus. . ao perceber exatamente qual o (Trabalho de Conclusão de Curso) – Faculdade de Psicologia. habituando-o na consciência MACIEL.14. Ed. através da responsabilidade. p. psicodrama. Goiânia: Dimensão. Dicionário do folclore brasileiro. Psicoterapia de Grupo e Sociodrama.42.77-87. e que.P. Ágora: 1999. In coadjuvante em Psicoterapia Psicodramática Bipessoal. N. Luis da Camara. S. Geraldo. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. Sérgio. São Paulo. São Paulo: v. Quem Sobreviverá? Fundamentos da Sociometria. São Paulo]. e desenvolvem a personalidade. Nós não só conseguimos perspectivas em Psicoterapia. Myth and Reality. ponto em que realmente a consciência faz contato com a centelha divina. Aracaju: Edições PROFINT. Vanessa F. NOGUEIRA-MARTINS. Nova York and Evanston. José. São Paulo: 2009. Esboço para uma teoria das cenas – propostas de ação para diferentes dinâmicas. 1991. PERAZZO. Contribuindo para a realização da nossa Grande Obra. São Paulo: Itatiaia. mas deve o psicodrama junguiano (o ________. uma a uma. 2002. (MORENO. 2000. ________. IX. 2. São Paulo. A Perspectiva Transpessoal e o Psicodrama. III. Harper Torchbooks.: Psy. unidas. o caminho horizontal da consciência com a Saúde – FACIS. ________. Rosa M. Monografia e mais amplo. vol. 2004. Parte II: Psicodrama dos Heróis e Contos de Fadas. acessando seu status nascendi.3. São Paulo: AMMANN. Maria Cezira F. 1985. 1996. Mestre Jou. assim. A Psicologia Integral de Ken Wilber: novas modo de ser ainda mais vital. Que as miniaturas e a areia constelem o “mar de nossas consciên- cias”! E que o Psico-Drama-Cósmico aconteça no “como se” imaginativo MASSARO. tornarem-se deuses”. CASCUDO. 2000. contemporâneo. e RAMALHO. 1992b. Mitodrama: o universo mítico e seu poder de cura. viabilizar que possa se desenvol- ver também a partir desse constante acesso. ________. 1968. In: CORUMBA. Corintha. A partir daí. [Mito e Realidade. PUC-SP. Ágora. 2006. 2007. São Paulo: Ágora. Jacob L. V. Cybele M. e favorecer que as pessoas desenvolvam um FRANCO. mais transpessoal. Sandplay Psicodramático: o Psicodrama aplicado à caixa de FONSECA.

que assume a dor. partir de conceitos junguianos e socio-psicodramáticos. cias psicodramáticas. Nesta época.G. Donald. na carta 22 do Tarô. admirada ou temida por todos.164. universal. que zomba e transgride normas. TARDAN-MASQUELIER. a concepção do cômico opunha-se à cultura oficial. São Paulo: Paulus. Ysé. Jung como um representante do trickster. 1950.. acima de tudo. A trupe dos saltimbancos surgiu nas festividades da Idade Média e no Renascimento. Nova York: Bollingen Series XVIII. 2a edição em um só vol. Constantin. o poder espontâneo-criador do riso STANISLAVISKI. Ken. primitivo e puro do indivíduo. Gladys A.112 Vanessa Ferreira Franco 113 ________. figura cômica contestadora e questionadora da ordem. Pantheon Books. da humanidade (tanto no oriente quanto no ocidente). uma exteriorização de algo íntimo. 1963. presente na trajetória cultural WILBER. 2002. pp. Buscando os antecedentes históricos do surgimento do palhaço. Encontramos esta figura cômica também como o coringa dos baralhos e como o louco. São Paulo: Ágora. O palhaço foi considerado por C. 1976. p. 1993. Navaho Religion: A Study of Symbolism. Os Navajos e o processo simbólico de cura: uma Psicodrama e alegria: resgatando investigação psicológica de seus rituais. feudal e religioso da época. magia e medicina. São Paulo. REICHARD. Para tal. 1997. mos de uma investigação da figura arquetípica do palhaço. C. 1994. integrando estes opostos. Somente se tornou real- mente a figura do palhaço na Renascença italiana. pesquisando a respeito do significado do riso a WEINRIB. Estelle L. O palhaço teria ligações estreitas com o trickster e seria. São Paulo: Summus. A preparação do autor. encontramos já na Idade Média as figuras do bobo da corte ou bufão sábio. São Paulo: Summus. ao tom sério. O espectro da consciência. C APÍTULO V SANDNER. Imagens do Self: o processo terapêutico na caixa. São Paulo. Aproximações entre Jung e Moreno. a ternura e o ridículo.Jung: A sacralidade da experiência Este capítulo focaliza o princípio da alegria presente nas experiên- interior. com a Commedia dell’ . ambíguo e contra- ditório. parti- de-areia. G. que se encon- tra no riso e no exagero. Figura que pode ser amada.295. Cultrix: 2007. Cybele Maria Rabelo Ramalho Civilização Brasileira. a figura arquetípica do herói trapaceiro.

mas ao mesmo tempo é considerado peça um mundo múltiplo e fervilhante” (SAMPAIO. já que possui a permissão especial. se joga no desconhecido. O palhaço é um trans- em algumas formas do cômico sobreviventes. É uma figura que se expõe em sua tolice e estupidez. devido à sua insensatez e inconsciência. em cultura. Ele veicula uma nova O trickster é considerado por Jung uma imagem arquetípica do posição frente à vida. infantil no adulto. maquiagem. pela ação. que tropeça nos seus erros e nas normas sociais. assim. a Como todo arquétipo tem seu aspecto positivo e seu aspecto coexistência de realidades opostas da vida. ele nos conecta com a mobilidade destacar aqui. por outro. não com a estrutura conservada sável e inconsciente. atrocidades. nariz e cabelos que estão livres de modelos conservados. ele nos leva a experimentar o mundo de forma plástica aproxima da criatividade. desrespeitando no nível imaginário. É uma o riso. Embora não seja propriamente mau. Não queremos enfatizar o seu lado trapaceiro. Para Jung. É um ser recusando o poder instituído e afirmando a vida (BAKTIN. Um herói mítico que é solitário. com sua graça e vibração. que procede embaralhando e desembaralhando a realidade. Representa uma energia viva. é o seu aspecto positivo que queremos oposições sem tentar reconciliá-las. e que nos convida importante da cultura e de nós mesmos. p. qual o significado psicossocial e cultural do palhaço? Como oferece novas possibilidades para aquilo que se encontra rígido na transportá-lo para o contexto contemporâneo das psicoterapias e. embora se volte sempre para si. ou seja. Personifica assim o criativo. arquetípica. que rompe com as conservas culturais. É o aspecto brechas para o riso. no caso do trickster. uma lógica da disponibilidade para o humor e para inconsciente coletivo. Descrevendo a lógica A figura do palhaço enquanto agente social coloca em jogo o do trickster. Acaba sendo um questionador social. que põe a tada. com o objetivo de trans. encantando-se e vibrando com o mundo. de assumir a sua dor e de ser capaz de rir dela. cuja espontaneidade infantil nos do mundo. medida que o palhaço incorpora. mas que se humor. o O palhaço se entrega ao improviso. simplória. encarnada “uma dimensão positiva e criadora do riso. grotesco e alegre. encontramos mão no fogo e que dá a cara à tapa. 1992). ele afirma: inesperado. com a sinceridade de assumir ser limitado. brincando com estas negativo. este poder regenerador positivo Enfim. Por isto. 259). apud originário cósmico. mantendo-se atenuado um gênio criador por excelência. a não-norma. de natureza divino-animal. Assim. Na figura do palhaço. da mitologia indígena brasileira. uma perspectiva nova se impõe: à exemplo o personagem Macunaíma. no mundo.114 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA E ALEGRIA: RESGATANDO O PODER ESPONTÂNEO-CRIADOR DO RISO 115 arte (com a dupla “Branco e Augusto”). Mas. um porteiro da alegria. assim como o lado jocoso. irrespon. caindo de um ridículo festas populares. de espontaneidade. desajeitado a outro. pantomima e palavra. ele é temido e evitado porque e imaginativa (SAMPAIO. o não usual. inferior ao homem (JUNG. do mundo. representando uma “concepção carnavalesca do mundo. a lógica do palhaço é a espontaneidade infantil. 2000. que tudo pode. comete uma segunda vida do povo”. rior e. Isto se deve à lógica do imagem eterna. Ele é uma personificação circo e à feira. uma visão do homem e das relações humanas alter- nante. localizando. usa roupas. O constitui-se de jogos com os opostos e paradoxos que encontramos nas trickster é a imagem arquetípica do brincalhão com impulsos infantis. de brechas da estrutura do cotidiano. Ele não conta uma história engraçada. Mas. ao gressor. necessária e revigoradora. Passou a frequentar os palcos das Ele é mais estúpido que os animais. qualquer um pode ser o alvo da sua brincadeira. ligadas ao folclore. as natureza ambígua (animal e humana. sapatos. o risível. o infrator de normas. o indefinido. à ruptura com as regras de eficiência e da razão. insólito. que faz renascer ele próprio é a graça. Por um lado supe- SAMPAIO. a própria . sublime e grotesca).40). Mesmo de forma sutil. que se insurge para brincar com a lei. do psicodrama? para brincar e reverter muitos padrões. p. Na nossa cultura temos como Ao ver as coisas com humor. Surge. pois ele é do palhaço vai decrescendo após o século 17. grotesca. efetiva na relação com o outro. mas o brincalhão. desafortunada e desajei- gredi-la. 1992). 1992.

Moreno diz um “não” à atitude de séria preocupação das abor- e conservado culturalmente. cristalizados e não questionados. Por isto. a uma realidade suplementar e Segundo Richard Underwood (apud CAMPBEL. Mas. Todavia. a maioria dos psicodramatistas se ou surpresa”. princípios normas realmente viessem a se dissolver). como elementos essenciais do seu método sócio-psicoterápico. fundamental à saúde mental. visão primordial. para desmontar. A ironia dialética entre tragédia e comédia. um novo nascimento. pêutico. tinha plena bilidades viáveis. grande parte dos estudos sobre o riso Visando também obter uma perspectiva que atravessa e que vê através evidencia o seu caráter subversivo e restaurador. o cômico que subjaz à tragédia. para vislumbrar novas possi- J. da ordem das coisas volvesse o gênio criador de cada ser humano. Como diz um velho cancioneiro é aquela que fica entre o cômico e o trágico (a exemplo da dialética socrá- popular. Não estava também preocu- na qual a familiaridade do mundo comum é posta em questão. pesquisando suas origens. da alegria e do jogo no trabalho tera. p. matriz e status nascendi que despertasse e desen- súbita inversão do comum. numa perspectiva também tente transformadora? Como utilizar a sua força nas psicoterapias. este “não” surge de um “sim” ainda mais forte. 166). ou dizer “sim” a um “não” aceito socrática. promover um estado espontâneo-criador. depende muito de uma espontânea e dade criadora. que é o gênio da dialética. Mas. o criador do psicodrama. Tem a capacidade de criar a súbita inversão.116 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA E ALEGRIA: RESGATANDO O PODER ESPONTÂNEO-CRIADOR DO RISO 117 ordem social. valorizou o acesso à imaginação. ou do élan vital. tica. Afirmou que “devolveu a alegria à psiquiatria” e que buscou. geralmente aceitas. Para tal. apud restaurador. através do riso e da alegria resgatarmos o potencial espontâneo criador? Afirmamos que o psicodrama está embasado no gênio ou espírito Investigando o espírito cômico. há um certo atrativo inevitável na brincadeira. L. além da sua tragédia. com seu caráter transformador e que procuramos como afirmação da vida mesma. mas não exatamente a modifica. com a busca de uma “centelha divina”. Ou até pode ser trágico. 2001. se por acaso as questão o familiar. em seus múltiplos papéis. indicando uma íntima ligação depara muitas vezes com algo além do cômico. e em especial no seu poder de colocar em (revelando a todos a desordem que poderia ser instalada. “o que dá pra rir dá pra chorar. um “sim” subjacente despertar o espírito cômico. dagens mais conservadoras da sua época. deste modo. do lócus. passa entre o trágico e o cômico e penetra no irônico. “o segredo da dialética. para genealógica. o riso. no jogo (dramático ou não). em seu aspecto introduzindo um novo estado de consciência” (UNDERWOOD. Diremos que Moreno desenvolveu um método que visava também Pois. que ele considerava condição com o riso. Moreno deu. que é o irônico. do ritual e das convenções sócio-culturais. questão só de peso e medida”. Moreno (1889-1974). submetendo-o como via de acesso ao diálogo. que reforça a própria ordem social acesso ao poder criativo. lúdica a sua força criativa. como um chamado interno. o conservado. inspirado também na pedagogia costuma dizer “não” a um “sim” aceito. p.174). certezas absolutas. cômico. o improviso. que transgressor. assim. desmontando “certezas”. da espontanei- a esconder. para que o sujeito com ele pudesse rir do seu drama. cômico ver a súbita inversão da certeza ou familiaridade. status nascendi. o palhaço atuante no palco do teatro ou do circo. é que ela sai de uma consciência da força da brincadeira. o palhaço no palco ou objetivos fixos. o nascimento de um novo às conservas culturais. CAMPBEL. que se apresenta também como ironia). ver se exige anunciar. em incerteza No trabalho psicodramático. A piada. credibilidade e valor à brincadeira como via de provoca um efeito catártico passivo. 2001. para que pado com a instauração de mais um sistema de conceitos. o clima lúdico e o riso como condições para O psicodrama pode começar dizendo “não” ao já estabelecido. a saída de uma alienação ou do . o lúdico. representando o tragicômico. racionalmente possamos ver a surpresa e experimentar o espanto que o familiar tende estruturado. por exemplo. Vai buscar na atitude questiona a ordem social. Pois. Segundo Ana Rita Ferraz (2007). observamos que ele é dialético. a atitudes e padrões estereotipados. desorganizar ou destruir Como podemos utilizar a força arquetípica do palhaço em sua ver. além do seu modus operandi submerso e submetido O psicodrama procura. Mas. “é ao lúdico. da conserva cultural. vai se transformando num instrumento de crítica dialética e irônica.

e estes são parte E em especial. pós-patriarcal (SOUSA. via expressão Destacamos também a perspectiva dionisíaca presente do psico. à consciência de que tais conteúdos nos ligam a todos. a intuição. a união das dualidades. da dança. 148). Lembrando da mitologia grega. promovendo uma p.118 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA E ALEGRIA: RESGATANDO O PODER ESPONTÂNEO-CRIADOR DO RISO 119 desespero humano. ali estaria o deus Dioniso. é o deus lunar. no conto . é um deus não patriarcal. Pois. devendo cada um de nós compreen- Seria o enfrentamento desta realidade primeira da nossa caverna der este mundo enquanto passagem. do alegre e triste. Em seu lado sombrio. Segundo Albor Reñones (2002. para o confronto trabalha com a dinâmica das relações grupais. de uma trama interior. é este deus que promove uma via de acesso ao mundo ciente grupal. 156) nos interior (nossas. monstros) o objetivo último deste aponta: “ante a insolubilidade da dor. Dioniso defende o feminino. Porque o arquétipo. relações simétricas. que também está presente na alegria. se assemelha à solução de Ariadne: a função de guia. na busca do enfrentamento de nós poesia. é Dioniso quem aponta para a também pode ser comum à humanidade. uma re-orientação mais integrada destas partes alienadas perspectiva arquetípica para se relacionar e para diferenciar emoções. da natureza. que são de uma unidade permanente. promoção da vida. Uma trama que atravessa este grupo. para a permissão da alegria e da embriaguês. a partir daí. visando aproximar pessoas consigo mesmo. poderemos afirmar Para combater os excessos dos discursos e a falácia da seriedade. Segundo Alvarenga (2000. da força ou da corporalidade. restituin- ampliação da consciência. condição humana. da luz e da sombra. ou desconhecidas. com a sensibilidade. comum. do divino e humano. apelamos para a re-significação. da intuição. o psicodrama possibilita chegar “por trás de cada herói e cada sofrimento. temos a possibilidade de uma psicodrama que começa no lúdico? ação solidária. que Similarmente. p. do bom e mau. Este autor (Ibidem. via manifestação criativa – dentro de um dinamismo drama e na figura do palhaço. presente no mito. o trabalho com a ação corporal. pelo insight dramático e pela catarse de integração. mesmos.143) Dioniso “prega a interação eu-outro de forma simétrica. em interações grupais. este “salto do ser” é possibilitado como uma via de acesso ao mundo interior”. labirintos. mas que Na mitologia e na tragédia grega. Representa a dinâmica da alteridade. da iniciação. corporal-sensorial. da liberação pelo êxtase. do sexo e da alegria. o psicodrama do teatro. para trazer o conhecimento Segundo López-Pedraza (2002. apud ALVARENGA. Dioniso. pois o para encontrar a saída do labirinto e enfrentar o Minotauro? mundo dá voltas e nada permanece. segundo Joseph Campbel. da Ao privilegiar o trabalho em grupo. No psicodrama. do povo. p. quando não amorosa”. da ordem e do pensamento. o psicodrama vai ter suas raízes no teatro espontâneo. a uma herança apontando seu bastão para a nossa cara e dizendo: dance”. 2007). p. Diríamos que ainda nos resta a Afirmamos que sim. invisível. ao trabalhar com contos. Dioniso é entendido com representante do passa. O ser do a dinâmica do coração”. defensor do patriar- quando focamos o processo psicodramático como um processo de cado). “Dioniso permite uma novamente à luz. das emoções. revelando que fazemos parte. da consciência. carregados de conteúdos arquetípicos. deus mitológico grego. que orientou Teseu aponta para a dança. é o deus da tragédia trabalha com situações e cenas que afetam e são afetadas pelo co-incons- e da loucura. que pode ser constituinte da história inconsciente deste grupo.44-45). das a própria história. um salto auto-assertivo ou heróico. esta é uma das funções da Mitologia. social e cósmica. guiando-a em direção ao seu crescimento e realização. através da tele percepção. em seus princípios primordiais. Para tal. que nos vem ensinar o mesmo que os poetas sempre serem conteúdos do inconsciente coletivo. sonhos e mitos. sombras. intuição e do sentimento. transformando-a em manifestações criativas. transmitiram: que a vida é um jogo de pares de opostos. existência pessoal. da não repressão. Mas. a desenvolver novos símbolos de interpretação da sua arquétipo canalizador da agressividade. do sol. que o constitui. do princípio masculino com o feminino. Ao contrário de Apolo (deus Atentamos assim para uma função mítica também no psicodrama. do sentimento. do vinho. da expressão corporal. que conduz o ser humano ao confronto com a própria psique. todos. do inconsciente. que o psicodrama funcionaria como o fio de Ariadne. inconsciente comum.

zombando até um pouco de si que conheça a eternidade. 2001). a tensão é demasiada e o ser se sente Por outro lado. Moreno. 2002. racional do ego se descontrola. presentes em cada momento. quando o poder ordenador e realmente somos. a esta alegria. Ela está e sempre esteve brincando no mundo. Moreno valo. da dinâmica do coração. assim. uma tríade: relaxamento. No meio da dor emocional é importante é o expediente da comédia e da magia que existem dentro de cada um. mais móvel. L. o riso renascentista Quando Jesus Cristo afirmou que “aquele que não receber o reino de está ligado ao novo. como um palhaço. Moreno. esta criança livre do aprisionamento das conser. com um senso de humor que afasta o indivíduo da Segundo Luke (1992. do ilusionista. na liberdade e na simplicidade da criança. depois da longa jornada de retorno. Ao se referir à catarse criativa cômica na literatura psicodramática. apontam sinais para sabermos um pouco mais de quem Quando um sujeito está em crise. tomando-se num outro registro. além de todos os esforços da humanidade para compreender o criadora. com sua centelha divina da espontaneidade. o cômico. não imatura. Ele retoma esta dimensão do riso. na dimen. representando o mundo não oficial. na alegria É uma libertação das amarras que detêm o pensamento sitiado dentro da Criança escondida em cada um de nós”. intenso e imaginativo. anteriormente citada. psicologia e alternativa do princípio universal do “riso renascentista”. Defendemos a idéia de que o psicodrama trabalha com esta força além da ética essencial. 1992). E o apenas completamente humano quando está brincando. mas inocente. 165). p. em sua força teologia. regeneradora e positiva. do palhaço nos leva a enxergar o mundo de modo diferente. no diapasão: ambos percebem no riso a afirmação de um princípio criador. ao nascimento. aquecimento. a abrir caminhos. E o seu valor de adquirimos a simplicidade e o senso de humor. nele não entrarᔠ(São Marcos. É quando se encontra maior dos parâmetros exclusivos da consciência. dramatização e compartilhar. Jung considerava que. apud SAMPAIO. “pois ao inferiorizar. ousada e grotesca do mundo. pois é a própria sabedoria brincando no mundo. pois vas culturais. do afirmando a possibilidade de assumir no viver uma força criativa. fazendo renascer da infância. por sua vez. Ao trabalhar numa realidade suplementar. mesmo. o registro das intensidades. p. 17). como uma coisa só e que “comédia é coisa séria” (ibidem. e do corpo. ao futuro. caminho para a brincadeira espontânea. traz a visão carnavalesca. O palhaço em particular. em seu cias. desenvolvendo seu método para trabalhar o acesso a este senso de humor. sem isto não haverá “qualquer criação fatalidade em que a seriedade o mantém. ainda restava uma porta final para encontrar a liberdade: o como defendida por Bakhtin (1987). num sentido mais amplo (UNDERWOOD. estava se referindo a esta sabedoria divina do riso. filosofia. aproxima da terra. Quando nos sentimos absolutamente comuns. regenerador e de renovação positiva. que deveria ser despertada. manter o senso de humor sobre a própria importância e a dos outros. Segundo Bakhtin. pode nos levar a outras possibilidades de compreensão do conflito. rizava o poder do mágico. beteira e libertadora. acreditava nesta criança eterna e livre acrescentando e reforçando seu poder catártico cômico. um importante que surge como força capaz de propor outros sentidos à trágica situação. sabemos que o ser humano é um ser lúdico. dionisíaca. resgate e reconhecimento. o alegre mundo ingênua. (BATKIN. ele é fragilizado – é preciso que se imponha outra força. liberdade de convenções e não se importa mais em mostrar as deficiên. tal bem e o mal. A figura Deus como uma criança pequena. 10:15). começar a brincar. anseio humano é o de jogar. em alternância. L. são do tempo. mas J. nunca é princípio criador. afirmamos que Moreno e Jung se encontram num mesmo são reconhecidamente trabalhadas no método psicodramático. dos papéis cristalizados. favorece a comunhão com a parte inferior alcançar a filosofia do momento. 173) a comédia levaria a multiplicar formas e possibilidades. desbaratado dos saltimbancos ou palhaços da Idade Média. com a intenção de alegria. imprevisível. que assegura a cura e a libertação. produtora de mundos impensados. conduz à comunhão com uma força regeneradora e criadora” vivermos no aqui e agora. além da beleza da ciência. poderemos renascimento. O Tolo ou a Criança dentro de nós. p. também defendida por J. Estas três etapas Neste ponto. zom- espírito feminino. . da liberdade transformista de Segundo Reckford (apud REÑONES. Reñones (2002) nos lembra que tragédia e comédia podem ser vistas a este riso. poderemos rebaixar.120 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA E ALEGRIA: RESGATANDO O PODER ESPONTÂNEO-CRIADOR DO RISO 121 ou no sonho.

Mas. L. e em psicodrama. amor. lhes dá importância maior. fome. ao criar a sociometria e a Sociatria. nova formação. o espanto. de efeito lento e gradual. quando se rem. deseja. É com J. Moreno em sua vida foi inspirado em Jesus. a ética do psicodrama se baseia na vida afastamento relativo do problema. para A visão cômica do conflito permite uma catarse cômica. imaginários. que não existia na possibilitar às pessoas se livrarem do ressentimento e da culpa e a atingi- comédia. bus- dramatização no psicodrama. resgata esta versão de seria uma espécie de herói. dos excluídos. pois se dedica à transformação do homem. Moreno que a ação dramática se trans. reconquistando a magia. Moreno acrescentou a etapa do compartilhar. p. L. proféticos. Os temas universais tratados por esta isto. do herói-dançarino. com o tema arquetípico do palhaço que há leva ao ato criador. com o psicodrama. esse estado de inocência e de alegria que divide com os presentes as ressonâncias. mas apenas não “riso doído” ser colocado em cena. se continua o processo de reconhecimento. Naffah Neto define este devir-herói como um psicodrama se apropria da tragédia e da comédia para ir além dela. não para repetir um humor alienante. 177). Moreno na segunda década do século 20. Baal Shem e outros heróis ficando na situação atual. mas se e participação social. cujo princípio é propagar uma forma de existir livre de mas para possibilitar novas alternativas criativas.122 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA E ALEGRIA: RESGATANDO O PODER ESPONTÂNEO-CRIADOR DO RISO 123 Neste método. novas cenas vemos no palhaço. que participava Moreno também pretendia provocar pequenas revoluções microscópicas. que exclui e ridiculariza o ser humano. tipados e resgatando a alegria no cotidiano. o aquecimento permite um campo relaxado e um Segundo Nafah Neto (1989). uma vez que se pode imaginá-la. heróica de Moreno. sociais e mitológicos em palhaço se encaixa. Reconhece-se o que se perde Sócrates. Pretendemos apresentar a nossa proposta de um trabalho socio- forma num veículo de ampliação da liberdade de transformação. numa jornada que se define como espontaneidade e criatividade. Assim. o meiro universo infantil. Neste. reconhecimento vivido. ativamente e interferia no andamento da peça. deste modo. popular ética da existência heróica. como na etapa da lismo Heróico e se tornou defensor dos oprimidos. 178). O teatro da improvisação. ao se lançar no mundo sem quaisquer garan- teatro do século 16. o deslumbramento que caracteriza a vida no pri- através do riso. por nela já haver a quebra da distin. mais flexível e criativa” (Ibidem. a ética do psicodrama se constituiu fundada nos Receita para a catarse cômica” (Ibidem. que se fundamentou filosoficamente no Existencia- O resgate e o reconhecimento vêm simultaneamente. São Francisco de Assis. como uma ferramenta de intervenção para trabalhar . para melhor abordá-lo em seguida. “processo transformador que permite criadora. forma de teatro popular (opressão. dinheiro) eram tratados sensibilidade télica e criatividade. se compromete com uma transformação. Moisés.”recupera-se a possibilidade de cogitar o que não se tem. dores e alegrias. Consideramos também que é onde a figura arquetípica do integrar elementos psicológicos. Pretendia uma para questionar as contradições sociais. p. arte como precursora do psicodrama. que não desconhece os valores conservados. desenvolvido por uma criação e uma afirmação de valores. porque tem por objetivo desenvolver papéis com espontaneidade. É neste momento que o grupo. “devir-criança”. heróis. pois está preocupado em criar. L. Moreno. que é Porém. mesmo que parcialmente. e imagens associadas ou emergentes. o psicodrama se apresenta como uma metodologia aberta a ção formal entre palco e platéia. a verdadeira sabedoria. que buscam o resgate da liberdade. transformando-o mais tarde em teatro terapêutico tias. Assim. quase que por total improviso perante uma platéia viva. A platéia era provocada revoluções no plano dos valores. em cada um de nós. num ato subversivo. que se constrói fazendo da própria existência e de co-responsabilização. que é uma isto optando por entrar em movimento espontâneo e em uma dinâmica forma de catarse de integração. Podemos afirmar que palhaço J. santos e revolucionários. Moreno já havia citado a Commedia dell’ no Devir espontâneo-criativo. quando após o confronto com o conflito cando a redenção de categorias marginalizadas de poder. numa ética que também é revolucionária e libertária. é muito semelhante ao realizado na comédia grega. debruçado Segundo Rodrigues (1990). e o que se ganharia com o advento desejado. rompendo padrões estereo- Reñones nos aponta que o modo de trabalhar de J. que psicodramático tematizado. na afirmação do acaso e da multiplicidade. co-construídas após o culpas. Naffah Neto (1989) nos lembra do objetivo do psicodrama.

ser expressa para além do jogo. 18. Maria Zélia. Talvez uma catarse de integração. se conseguirmos. que está presente numa ética psicodramática e que poderá tido. a co-construção é feita pela tele-sensibilidade desenvolvida no grupo. pois é míticas. em cada um de nós. é visto como prazer sentido. Como numa multiplicação dramática. o trapa. preensão junguiana. 2000. criativa. que sejam representativas do co-inconsciente do grupo. o psicodrama vai além. In: Revista tendo o riso como catalisador. Reafirmamos. uma transformação do ceiro e o surpreendente aconteceram. Referências bibliográficas ção de novas cenas grupais. é construída a possibilidade de trocas e da constru. São Paulo: SBPA. Neto (1989). enfim. para que possamos nos beneficiar dos aspectos mais positivos e Na nossa proposta do Psicodrama do Palhaço utilizamos todas as transformadores desta figura arquetípica. do cômico. através de um olhar mais específico para Em seguida. a ciência e a espiritualidade). Ao exteriorizar e com- partilhar estas cenas. egos auxiliares. . compreender e integrar novos significados. apesar de ter grupais co-criativos e com a emergência de conteúdos co-inconscientes vivido e sofrido os horrores de duas guerras mundiais e de ter sido excluí- no grupo.). o absurdo inicialmente por egos auxiliares (e por músicas). que tem o poder de vencer o etapas do método psicodramático: aquecimento inespecífico e específico. Oferecemos para ele os palcos do psicodrama. ele apenas pode se encontrar adormecido. Todos nós temos proposta que vislumbra a brincadeira como via de acesso ao criativo o nosso palhaço. este devir-herói-criança defendido por Naffah O riso é usado como aquecimento. neste momento. resgate. heroína acolhimento. do senso de humor. quebrando as aparências e desfazendo ilusões. serão apenas instrumen. a brincadeira do palhaço é. trabalhar com uma matéria eterna. do irônico. pronto para transformador. onde do em vida (enquanto judeu. provocadores da platéia. para o herói-heroína-amante-amado. mas. Mitologia Simbólica – estruturas da psique e regências ficção eterna do trickster. A dinâmica do coração – do herói dever. na metodologia criada por um homem que. a tristeza e o terror. medo. Trabalhamos com a possibilidade da emergência de fenômenos psicodrama. São Paulo: Casa do Psicólogo. cenário. compartilhar. A visão dos palhaços no palco. uma renovação ou recriação dos nossos papéis. a ________ (org. através da experiência. numa perspectiva do psicodrama aliado a uma com. doado e colocado em cena. ção que visa pesquisar o cenário do riso na história de cada um. o tema da alegria.124 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA E ALEGRIA: RESGATANDO O PODER ESPONTÂNEO-CRIADOR DO RISO 125 conteúdos universais e pessoais. em sua lápide: “Aqui jaz um homem que devolveu a alegria à psiquiatria”. um novo olhar. através do riso. e que pediu para escrever existe em cada um. que separar a arte. o trágico. ao desenvolver uma metodolo- a criação de iniciadores lúdicos. as contradições. O grupo é convidado a compartilhar suas cenas e/ou seus impedimentos para expressar o palhaço que existe dentro de si. atuados gia que não apenas mostra os furos. da Utilizamos como estratégia de aquecimento inespecífico o riso. a partir delas desenvolve formas trans- tos de aquecimento. permi. protagonista e Afirmamos que não. que retorna sempre em nova roupagem. ele vive em cada um de nós. mundo e a nós próprios. do riso. na busca enfim. um reconhecimento. no contexto grupal. o inusitado. visando um de cenas onde o cômico. da alegria. O objetivo último do psicodrama que invoca o riso e a alegria. Ao se apropriar da força arquetípica do palhaço. do palhaço em si e dos seus efeitos transgressores. ou foram impedidas de acontecer. Uma material do inconsciente coletivo. N. ser descoberto e atuado. com comédia criativa. em uma abordagem de grupo. enquanto profissional que insistia em não cada um vai vivenciar espontaneamente este personagem arquetípico. vive nos palcos do público. o transgressor da alegria. das realidades conservadas. ALVARENGA. Convidamos o grupo para uma “catarse ativa”. eventualmente propõe-se um exercício de interioriza. Junguiana. 2007. levando-nos a repensar o formadoras e criativas de lidar com estas realidades. 1970) questiona: Será que o palhaço está morto? instrumentos clássicos: diretor. status quo. enfim. nestas. dramatização. Utilizamos também todos os seus cinco Fellini (in Clowns.

2007. Joseph. ano I. vol. São Paulo. 2001. R.Eles não são NAFFAH NETO. Salvador: na metodologia mitodramática Arquivo da autora. Petrópolis: Vozes. Descobrindo enigmas de heróis e contos de fadas – entre a Psicologia Analítica e o Psicodrama. como amigos e não como inimigos. Hellen. São Paulo: SBPA. configurar o lugar de onde vim para grego. O Riso no coração das coisas. leitor – acompanhe o processo a seguir suficientemente aquecido e In: Revista Brasieleira de Psicodrama. 1994. Paixões e Questões de um Terapeuta. Cybele. Ana Rita Q. p. R. Rosane A.126 Cybele Maria Rabelo Ramalho 127 CAMPBEL. Sonhos e religião – nas artes. Rio de Janeiro: Ed.34 a 45. CORUMBA. (Carol Monfort). LOPEZ-PEDRAZA. Começo o que chamarei de narrativa situando o cenário. 1990. Um pouco de teatro para psicodrama-artistas. vol. Mitos. C APÍTULO VI BAKHTIN. A cultura popular na Idade Media e no Contos e encontros com a psicologia Renascimento. Ediouro. A psicoterapia em busca de Dioniso – Nietzsche visita Freud. Camila P. . e embasá-lo teoricamente com as noções Ágora: 2002. 166. feminina: o psicodrama junguiano FERRAZ. Feminina”. São Paulo:Ed. In Obras Vanessa Ferreira Franco Completas. uma pequena Introdução aquece o leitor para o cenário REÑONES. vol. 30 Será contextualizado no final do item “O Território: O Universo da Psicologia 10. Mikhail. JUNG. 2. São antagônicos. Introdução: A Partida LUKE. 1992. 2002. 2008. Hucitec. Alfredo. ancorar aqui. São Paulo: EDUC/Escuta. 9. Aproximações entre Jung e Moreno. São Paulo:SBPA. integrado acerca da dimensão que circundou esta tarefa. na filosofia e na vida contemporânea. Pretende-se neste capítulo descrever o trabalho prático realizado no Centro Cultural Aúthos Pagano30.e a intuição 10. Aracaju: PROFINT. São Paulo: Paulus. 1989. posicionar o meu papel para que meu complementar – o RODRIGUES. SAMPAIO.1992. São Paulo: Ágora. n. o rito e o teatro que irá encontrar neste capítulo. 2000. Entre palhaços e capitães. In: Revista Junguiana. Cybele M. 10 a 19. use o conhecimento. Rosa e RAMALHO. Para tal. Albor V.mas complementares” Paulo: Agora. com a Psicologia Feminina”. ________ . A Psicologia da Figura do trickster. Crônicas risíveis da corte universitária. In: Revista Junguiana. São Paulo: FEBRAP. “Que o conhecimento use a intuição. Carl Gustav. do psicodrama junguiano. p. Dioniso no exílio. 2002. p. O Riso Doído – atualizando o mito. nomeado “Contos e Encontros RAMALHO.1987.

A embarcação espera o vento oportuno logia Junguiana e o Psicodrama aqui no Brasil. com o canal criativo desperto. para solucionar a tensão. daquele que escuta prática com a criatividade pessoal e transpessoal. . mental. buscando auxiliar o leitor viajante para que ele sinta Um portus não só por significar a oportunidade 31 de exercer mais a viagem fluir. “tive” que atravessar um grande mar inconsciente. sinto que. fluir no devir da tomada e expansão da consciência. pondo a presente obra.. a alma humana. intra-inter-pessoal”. fazer desta travessia a própria viagem. o conteúdo adequado viria. para ancorar por aqui nessa composição. Cybele Ramalho aquietar a resistência. da psyché. sentir tão diferente a forma de expressar essa viagem. 2002:159). obra moreniana e junguiana sob um prisma integrativo. Contos. numa outra linguagem. desbravando o universo da alma humana. literal. e “A dinâmica é uma só. um papel mais criativo de escritora. uma viagem rumo à psicologia feminina. sentir sua dimensão. mas E como todo bom viajante.. (RAMALHO. o Self. emocional e espiritual na produção do saber interior. viabilizar a releitura da a narrativa. Serão levantados aqui brevemente alguns aspectos importantes Aproveitando o forte aquecimento vivido durante o contato com deste estudo para que se possa compreender a metodologia utilizada no o universo feminino: que nesse escrito eu possa atuar em Role Creating trabalho com as oficinas de psicologia feminina. apresenta as bases comuns em que se assentam as teorias de Carl Gustav Uma embarcação mais desenvolvida – com algum tempo a mais de Jung e Jacob Levy Moreno. ao Centro Cultural Aúthos Pagano que viabilizou a realização do trabalho. que anseia para debruçar sua ções para configurar uma leitura mais abrangente sobre o estudo e a linguagem artístico-científica sob os olhos do leitor. de descoberta. portus.128 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 129 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA Essas linhas transcritas se ancoram agora num porto. o Psicodrama. Mitos. correntes da psicologia puderam ser de produção e compartilhamento do conhecimento psicológico. peço aos ventos que nos orientem para também porque durante os dias todos em que estive envolvida tanto no que essa ancoragem teórica aconteça de forma suave e adequada. acreditando que. a centelha divina. do inter-relacionadas e servirão como mapas para os múltiplos territórios conhecimento sobre a psyché. o homem biopsicossocial e cósmico. fascínio e entusiasmo. impulsionar o corpo físico. 32 Aos participantes das oficinas Contos e Encontros com a Psicologia Feminina. brocharia na consciência na devida hora. os recursos teóricos e técnicos em direção à intuição que ambos compar- com o apoio de vários instrumentos que compõem a embarcação (os tilhavam. Os dados de sua pesquisa são fundamentais estudo e prática – ajudou na hora de atravessar essas fortes correntes e para que se possa compreender a construção de um psicodrama junguiano. num portus Nessa viagem privilegiada. O psicodrama junguiano pretende utilizar dessas possíveis co-rela- lo como um espelho do meu eu criativo. cendo a todos32 os que navegaram junto e chegaram até aqui! Que as letras mente. às demais autoras que estão com- para ancorar no porto. aconte- cendo a todo instante durante o trabalho e em minha vida pessoal. à Cybele Ramalho por favorecer e incentivar o cultivo da comunhão teórica entre a Psico- 31 Oportunidade com o radical latim. agrade- trabalho prático quanto no teórico sobre esse tema. da expressão do Self. que encaminhe E assim será essa narrativa. uma vez meu papel de escritora e viabilizar a produção do saber. desejam representar infinitamente no palco “psico-criativo” do drama Percorrer diversas correntes teóricas da psicologia e pegar carona cósmico da Consciência.. Que sejam abertas as portas desta nova percepção! em seus fundamentos. Em “Aproximações entre Jung e Moreno” (2002). e poder assisti. num profundo envolvi.) e que agora revelam os mares pelos quais pôde navegar. que agitado. turbulento e comunguem nessa dança ativa os personagens vestidos em palavras. a Arte. confiar tanto que o conhecimento já tinha sido adquirido e que ele desa. A Embarcação: O psicodrama junguiano mento com o universo do inconsciente. a Psicologia Junguiana. dos ciclos de vida e morte.

2002:179). seus legítimos curadores. 2008:106). 34 Do grego holos = totalidade/inteireza e trepein = indo em direção a algo. temores. no inconsciente holotró- pico34 das pessoas. Isso permite que uma dominando a energia psíquica. simbólico. o lugar do tudo é possível. sos de Zerka Moreno. Para Whitmont escuro.. O conto de fadas pode ser considerado. Que enquanto compartilham sentimentos de pertencimento com a humani- nossos esforços aqui empenhados se dirijam a esse caminho também. a energia reorganização e um replanejamento aconteçam diante de uma simples encontra um caminho adequado para onde possa fluir criativamente. Ramalho destaca que sempre existe um mito correspondente às nossas experiên- (2002) revela que o protagonista representa sua estrutura vincular interna cias de vida. dade. tizada num palco vivo em que altera a consciência do indivíduo no campo medos e ansiedades que habitam o pensamento humano. Holotrópico significa direcionando-se à totalidade. Moreno.. fica claro o legado que ambos deixaram: a ordem é brincar. constela-se o equivalente a um ritual. arquétipos. o acesso ao mundo da arte. solidão. E é nessa qualidade diferente de relação O Mapa: Mitodrama consigo mesmas que se dará o encontro com seus criadores internos. “. Um mito é um impulso em busca de uma organização” Para Maciel (2000). e desvenda seu drama. Corintha Maciel (2000) da estrutura psicodramática de aquecimento e dramatização. no Mitodrama. Da mesma forma. É através desse canal que é possível desvelar a alma humana e ajudar Para compreender a proposta do Mitodrama. conhecer o enredo mítico é funda- (RAMALHO. Dentro trabalho terapêutico com Mitos e Contos de Fadas. É nesse universo atemporal e aespacial. pode ser oferecida viabilizando que a pessoa consciente e de forma o primeiro jogo dramático utilizado pelo criador do psicodrama” voluntária possa atuá-la tornando-se senhor de sua vida. a história propicia que a pessoa compreenda a terapêutico. O imaginário é o canal de acesso a tais conteúdos simbólicos. eles nos governam e nos monitoram. projetar seus conflitos e guiam as pessoas para dentro de si mesmas. validando questões como as lutas do crescimento. Assim. velhice. problemas e que esses problemas nos são comuns. Esse é o caráter Para Ramalho (2000). compor imagens. de animais.. Giordano (2005) conta que. tomando a Estética como um natureza do seu problema e possa encontrar uma solução para o mesmo. . as histórias remontam aos pessoal e coletivo. na medida em que Na leitura e experiência do psicodrama junguiano. imaginário e real. para Maciel (2000) a terapia consiste em levar a imaginação 33 Pode-se encontrar ressonâncias a essa leitura ritualística do Psicodrama nos discur. etc. com o Teatro da Espontaneidade e Jung. sua estrutura mítica íntima. nas Artes A mesma autora destaca que por intermédio do “Era Uma vez” os Plásticas.130 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 131 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA O jogo dramático é amplamente utilizado nessa abordagem. eles privilegiaram o homo ludens como método terapêutico dos contos. (RAMALHO. mental para o trabalho terapêutico. no campo da ação drama. chegar até o divino. co-criar e quem sabe. o medo do do “como se”. criar. As histórias oferecem caminhos e alterna- E em meio ao jogo dramático fervoroso escondem-se as crianças tivas como soluções para os conflitos. ansiedade acerca do próprio corpo. 2001. historicamente. tomada de consciência ou de uma emoção desestruturadora. Quando inconscientes. mostrando que todos nós temos criativas de onde Jung e Moreno tiraram suas intuições metodológicas. em que as coisas acontecem seguindo as leis da natureza. que co-relaciona tratam de problemas humanos universais. desamparo. Ver referências Bibliográficas. personagens do conto oferecem aos ouvintes um palco onde possam Assim. (1991) o ritual entendido dessa maneira33é um legítimo psicodrama. onde habita a criatividade de cada um. Quando conscientizados. desenvolvido por o indivíduo a se encontrar por detrás de seus conflitos e desequilí- Corintha Maciel (2000). referencial.. pois assim a história mais adequada “. morte. é necessário situar o leitor sobre a importância do brios. fome.

ma. promovendo um canal de expressão que autentica o dades cujo modo de funcionamento é inclusivo. o impulso mítico propicia a metamorfose. ele é irracional e tende a ser rejeitado pelo ego efeito terapêutico. é visível Quando a mulher se afasta de seu segredo. Ciclos de plantio e colheita. é um canal direto ao Incons- Enfim. como. é energia criativa. uma renovação diante de toda mulher. de balanço e sintonia entre pares de opostos.. taoísmo. cele. pois mas cíclica. mais ocultos da existência. que tiveram suas terras espirituais saqueadas. seu sentido e contribui para o fortalecimento do ego. a energia se maximiza e potencializa sua impressão na desenho. racional. narrativas – levam diretamente à experiência yin da psique. Maciel desenvolve métodos terapêu. como o mistério do nascer e do morrer. de um término. mas que também a cultura já impri- “Nascer mulher é ser possuidora de um segredo. ao úmido.132 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 133 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA para as áreas desprovidas dela. natureza instintiva feminina. sob a polaridade yin-yang. típicos da nossa cultura ocidental moderna e científica. transformação. Assim sendo. o yin e yang. levando o indivíduo de um mundo a outro. ou vivenciado nos homens como Anima 35. escuro. energia vital. queimadas e seus refúgios e ciclos naturais transformados forçosamente Trabalhar com a psique feminina é estar lado a lado com os aspectos em artifícios para agradar os outros. estar com suas pulsões vitais e participar da sua organização não linear.. A energia yin está relacionada ao continente. qualquer forma de arte – música. entende-se que a energia psíquica (ou libido) percorre domínios ticos de intervenção – rituais – baseados em Mitos e Contos. ocultos porque misteriosos. não É um método de auxílio para a contenção e liberação adequada da linear. Para Estés (1994). frio. o feminino. deste autor. Corintha Maciel baseia sua linha de de complementaridade. para a psicologia junguiana. tecendo em uma Para a psicologia analítica. recorremos natural e diretamente aos pares de opostos masculino e A partir dos pontos focais de transformação de consciência na teoria feminino. escultura. Na visão de Maciel. brando os ritos necessários em cada situação liminar. É revisitar a fonte vital de criatividade que pulsa no ventre por detrás dele se encontra um ritual de iniciação.. dança. como aquilo que 35 Anima – (alma em latim). ela começa a agonizar”. que ao longo dos séculos houve uma redução e um esmagamento da (MACIEL. uma passagem. 2000:102). O Território: O Universo da Psicologia Feminina Grande parte da formação do inconsciente está relacionada às repressões que não só o indivíduo. o trabalho grupal com contos de fadas potencializa o seu ciente. acostumado ao modo demasiado cartesiano. intervenção terapêutica sob o prisma da teoria do desenvolvimento da Assim. cíclico. impedindo a formação sintomática da Trabalhar com a psicologia feminina é mergulhar no Inconsciente. enquanto se reconduz na espiral evolutiva da consciência. integrativo e holístico. em que a de oposição e complementaridade em todos os seres sob determinados consciência é preparada e ativada para a elaboração de tal conteúdo de aspectos arquetípicos. assume-se aqui uma perspectiva Na proposta Mitodramática. miu sobre as expressões da alma humana. Em grupo.. No campo do trabalho com gênero. . seja expresso nas mulheres tela comum a psique pessoal e coletiva. por exemplo.. a anima é o aspecto feminino deve desaparecer. seguindo seu modo de funcionamento em estágios e níveis Para a psicologia analítica e algumas tradições orientais como o para o desenvolvimento do ego. se tendemos a olhar para uma psicologia feminina sob esse pris- consciência de Erich Neumann. ocultos porque reprimidos. Seus canais expressivos encontram-se nas ativi- energia psíquica. yang e linear de pensar e se relacionar. pertencente a psique masculina.

à sua poesia e sua pleno e constante em sua consciência. o fluxo da energia criativa conservada e desviada 36 Refrão da música que tocava durante as duas danças espontâneas realizadas nos do seu propósito. fazem parte da psicologia feminina conteúdos reprimidos e em suas relações torna-se mais consciente e ativo em sua auto-análise. e o organismo fisio-psíquico cai em sofrimento. Desconectados dessa consciência e dessa deixado pela natureza selvagem. gerando maior autenticidade isolar-se de sua própria revitalização. no bairro do Alto da Lapa. incapaz de fixar limites e regular seu próprio fluxo. consciência plena e viva de intenção. sua presença corrido a dinâmica de alguns grupos. deficiente. fragilidade. Em outras palavras. são: aridez. tendo per- tipo feminino. ou a psique instintiva profunda feminina. você tem suas regras! Você está livre e só não sabia!” (Kau36). dirigir a própria experiência com mais constância. seu drama íntimo revelado no altar. que são vitais. a bela forma psíquica natural da mulher deve ser Com esse rompimento. seu modo de ser e agir no mundo Encontros (2º e 7º encontros). pouco a pouco. ângulos a emanação desse arquétipo em suas vidas sob a influência das Histórias e Mitos. da psique total. Deste modo. torna-se dança circular. reflexão e livre expressão. Atualmente. Assim sendo. idealizado por mim. em São Paulo-SP. pois sendo ele complementar ao masculino. Numa tentativa de proporcionar às mulheres olhar sob diversos depressão. estar demasiadamente envolvida em suas ações e maior carga de energia vital. Conseqüentemente. contou com um tempo razoável viva e a conseqüente unificação e reintegração com seu complemento de experiências. conscientização. fadiga. insegura. reconectar-se com ela. o indivíduo perde o contato com seu eixo. O trabalho no Centro Cultural e de Estudos Superiores Aúthos posição psíquica “molecular”. sem criatividade. . assustada. sem relação com o feminino. Estés sustenta a necessidade de recuperar e incorporar o arquétipo da “Você vê. para que possam vir a na domesticidade. ou o Si-mesmo. surgiu do propósito de unir pessoas com o intuito Assim. uma nova visão sobre si mesma. é como se fragmentasse. Contos e Psicodrama – o prejudicado com o que denominou de arquétipo da Mulher Selvagem contato ativo com a energia arquetípica feminina. que dizem respeito à psique criativa da mulher. sem ânimo. sua força de ação. pretende-se ajudar a integração desse arquétipo à sem inspiração. para Estés (1994) os sintomas típicos de um relacionamento de vivenciar – através da conjunção Mitos. O caminho terapêutico nesses casos inclui a reintegração do arqué- Esse trabalho vem sendo desenvolvido desde 2007 e. Portanto. uma com. nos tornamos recuperada com o auxílio dos mitos e contos que indicam o caminho unilaterais e desequilibrados. sem o relacionamento adequado com a psique feminina.. mais inteiro em suas ações e relações. sem o relacionamento balanceado entre yin e cheia de criatividade vinda de uma boa dose de intuição! yang. seu aqui-agora inconsciente em sua expressão mais espontânea. o trabalho com as oficinas sustenta-se na proposta Quando essa psique instintiva pode ser reintegrada e a mulher pode mitodramática desenvolvida por Corintha Maciel (2002).134 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 135 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA Assim. Ou seja. ao Abre-se uma visão. A Viagem: As Oficinas torna-se inevitável que o sintoma perdure e se vitalize. condição natural. sentir-se desestimulada. seu Self. instável. enraivecida.. até fragmentarem-se “órgãos vitais” Pagano. desenvolvendo recursos para a auto- reprimida. confusão. o centro regulador composição típica do modo de funcionamento da psique feminina. Mulher Selvagem para que a psique feminina possa discernir os recursos de sua natureza mais profunda. seu centro organizador vital. dirigido e inteiros. libera-se o fluxo criativo-espontâneo adormecido por detrás do sintoma. onde se pôde incluir técnicas diversas e ousar uma leva direto ao arquétipo do Self. consciência grupal e individual.

de uma era. entre outras tradi. na tradição cristã do livro do gênesis (7 dias da – SÓCIO-DINÂMICA: semana) e no apocalipse (chaves do apocalipse). – PROPÓSITO: Mobilização. de poder. a idéia de totalidade. festações naturais e arquetípicas das 7 cores do arco-íris. a l 7 ENCONTROS = Sustenta-se no simbolismo arquetípico deste deusa interior. A amiga- . mitos gregos baseados nos arquétipos do feminino. l Trabalho semi-dirigido. l Surgem da dinâmica do grupo. e expressa. o número 7 enraíza-se nas mani. com isto. Após a realização do contrato. meio e fim (tra- designa o cumprimento de um tempo. Privilegia-se o movimento da psico e ções. são realizadas em cada encontro. ticamente a partir de um papel social que desempenham. 6. coletivo e do co-consciente e co-inconsciente grupal. lização inicial e conseqüente condução a partir do que surge no ca e de sua renovação. Conscientização e Transmutação l Sugerem-se alguns temas como “tarefas psíquicas” fundamen- da Psique Feminina. e que – MÉTODO: Sócio-terapêutico / princípio de co-construção. de volta ao centro. sociodinâmica grupal. l 3 ETAPAS= abertura (1º encontro) / desenvolvimento Será descrito brevemente aqui o trabalho com o último grupo rea- (2º. Recursos de Arte-terapia (como aquecimento e parte do com- sustentada no simbolismo e disposição psico-energética do número 7. 7. a idéia era de se apresentarem drama- 2. Mas. Sendo assim. partilhar). lizado no Centro Cultural no primeiro semestre de 2009. Onirodrama (como etapa de dramatização e elaboração de equivalentes a um ritual para a transformação e expansão da consciência. Para Chevalier (2003). Dramatização (psico e sociodrama). do inconsciente pessoal. O 1º Encontro pretendeu fazer com que os participantes (em – 7 INSTRUMENTOS: média de 4 a 7 homens e mulheres a partir de 21 anos) refletissem sobre 1. e l Propósito terapêutico com idéia de começo. a vivência em 7 encontros. balho terapêutico breve). As tarefas foram intuídas por mim e baseadas em estudos mito-psicológicos sobre o desenvolvi. sendo elas a intenção de cada um dos encontros. o despertar do número. contador. Sandplay psicodramático (Despertar do Contador interno – da consciência de Neumann. etc. pretendendo-se. das 7 notas musicais. específicos – algumas “tarefas” para a tomada e ampliação da psique.6º encontros) / finalização (7º encontro). de uma fase. um número mágico que caracteriza a perfeição. Imprime caráter dades imaginativas. optou-se aqui por uma idéia em apenas símbolos pessoais e coletivos na etapa de dramatização). tais no contato com o simbolismo da psique feminina. tais como: a identidade. – TEMÁTICAS: mento da consciência.136 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 137 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA A proposta tem o mesmo intuito: utilizar os mitos e a dramatização 3. o número 7 é um número aqui-agora). Exercícios de meditação e relaxamento incluindo música (aque- Aqui também são propostas – através de jogos. meditação e jogos interativos como mobi- de harmonia justamente por ser um número da conclusão cícli.3º. Segue o modelo do trabalho. com isto. Danças Circulares (aquecimento inespecífico). conteúdos psíquicos). atividades e mitos cimento inespecífico). mas mantendo uma semi-direção (ativi- de encerramento de ciclo e sentido de mudança. diferentemente de basear o método no modelo de desenvolvimento 4. Contos de Tradição Oral / Mitos (aquecimento específico) – “O meu Eu no mundo hoje”.5º.4º. o contato com mundo interno. focar a linha de trabalho em cima da experiência com a psique feminina 5.

A dramatização foi encerrada com uma interação entre os perso- Encerramos com a apresentação do Mito de Perséfone. O primeiro sonho foi elaborado com recurso arte- do primeiro dia. Primeiramente. Houve um breve compartilhamento das vivências caram em revelá-los. O 3º Encontro trabalhou com o tema “Mundo Interno – Sonhos”. Surgiram: abertura. medos. eu aprisionado. despertar o contato relacional. etc. Para apresentá-las e disponibilizá-las ao grupo. feitas vam. água. a profissional-angustiada. Para reconhecerem seus dramas de forma das vogais do próprio nome e que se relacionam a centros de energia mais consciente. questões pessoais dos participantes. etc. emissário da luz e das trevas. eles foram estimulados a entrar em com diversas folhas de papel que continham algumas palavras escritas e contato com o elemento do objeto em questão (terra. Por fim. nos quatro cantos da sala alguns objetos que destacavam os 4 elementos. personagem.. além de prepará-los para ansiedades provenientes desse acesso. Posteriormente. . A diretora repre. para teúdos foram acessados. encontrar uma uma imagem comum a partir das representações pessoais anteriores. individual e depois em duplas. Enquanto tocava uma música. destacando-se entusiasmo. sonhos.. Foi tradições orientais). então. todos juntavam os elementos e diziam suas palavras de poder. incluindo análise simbólica e reflexiva. Em ambos a troca dos participantes foi incentivada e diversos con- Foi feito um trabalho corporal. massem nessa deusa. desejos e propósito de maior integração do grupo. o grupo verificou que nos quatro pedido. os personagens das quatro deusas gregas protetor dos viajantes. A forma de se libertar. aparecendo conteúdos como: ter coragem para enfrentar os uma identificação. tizou o deus grego Hermes Trimegistrus. finalizando com uma cena em que que encarna a busca por questões profundas. O segundo O 2º Encontro pretendeu trabalhar com o tema “As várias faces do foi dramatizado em onirodrama com o grupo. imaginação. como: o contato com o mundo das emoções. Com o intuito de trabalhar a identidade feminina. Esse som é encontrado a partir composição dos 4 elementos. por identificação. sentou. para algo novo. a diretora drama- Posteriormente eles sentaram no centro da sala.. ganharam espaço dirigissem à deusa que mais chamou sua atenção. cada elemento levava a mensagem de uma deusa grega específicos espalhados pelo corpo (equivalente à noção de chakras nas que revelaria. Foram trabalhados os sonhos de dois participantes que se prontifi- tato com as histórias. abertura e disposição. deusa grega nagens e seus respectivos elementos.138 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 139 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA boazinha. em forma dramatizada. o filho-buscador.. Uma dança espontânea foi realizada. e assim se transfor- nas cenas. busca. o grupo vivenciou uma dança circular dos índios Essa intenção surgiu da idéia de que qualquer forma de vida baseia-se na tupis para entoar o som de poder pessoal. ter paciência. não desistir. terapêutico (desenho). expansão. pelo sentido da vida. que relaciona-se com o propósito dessa oficina. Depois pediu que os participantes se tomada de direção e empenho num caminho. foi solicitado que fizessem um desenho para registrar esse primeiro con.. medo de se envolver dramatização foi marcada por uma cena de busca e outra cena de abertura emocionalmente. Os personagens iam dialogando com a história de vida de cada Foi pedido que eles se associassem com os integrantes em que houve um. se transformassem nesse elemento. pediu-se que eles encontrassem um gesto e uma palavra para esse eles estavam vivendo na vida pessoal. fogo ou ar) e um elemento da natureza no centro. feminino: Deusas Gregas”. no 4º Encontro Pediu-se que eles observassem o ambiente em que estavam expostos foram realizados alguns jogos e atividades que suscitavam esse tema.. soltura e expressão corporal. . que eles se aproximassem do elemento que mais se identifica. dividindo-se então em dois subgrupos que prepararam desafios da vida profissional. Uma dança circular foi realizada com o nossos limites e possibilidades através desse contato. contato com o sofrimento. mediador dos mundos e dos 4 elementos para a relacionadas aos quatro elementos. Eles foram entrando no papel enquanto eram Sugerindo que realizassem uma reflexão sobre o momento de vida orientados a encontrar uma conexão do personagem com aquilo que atual. cantos da sala estavam dispostas algumas mandalas (círculos).

. Depois de muito tempo. o intuito era a realização de Depois da meditação. mas escolher o tema que mais se identificavam.140 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 141 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA A primeira mandala com o elemento ar trabalhava o que cada um pessoa. A história intitulada “A princesa nas folhas de papel que compunham a mandala. foram dispostos contada pelo grupo.. a filha que compartilha seus sentimentos para Para isso. lizasse isso para si. o distanciamento através das escolhas seria se fosse. perdas. Aos poucos. Na outra cena relacionada ao tema da amizade. O trabalho foi encerrado com um breve compartilhar dos inte- Na segunda. o sandplay psicodramático 38 (caixa de areia e A quarta e última mandala propunha a etapa da dramatização propria. Surgiram diálogos que incluíam despedidas. A primeira cena relacionada à unicórnio observava sua jornada. frases relacionadas ao relatos que eles fizeram posteriormente. propunha que os integrantes Depois que o grupo trabalhou com a identidade feminina. ela descobriu que a lâmpada havia sido enterrada não se viam mais. solidão retratava um participante numa roda de amigos antigos que já No meio do caminho. O parti. etc. ela vidos e a dialogar com seus amigos. enquanto zelava pela lâmpada mágica. A diretora abriu a pode perceber. e que esse poder não estava em nenhum lugar fora. a profissional autoritária. criativo baseado em identificações e projeções. Cabe ressaltar a coincidência na composição das cenas e nos algumas frases que estavam escritas nos papéis. ressaltando seus verdadeiros pensou que tudo aquilo era mentira e que estava sonhando. etc. espontaneamente. perdas. amizades. de ter havido momentos em modo de agir no mundo. tentando convencê-los de voltarem a se reunir. em forma de Essa foi uma cena que incluía o rompimento de uma amizade e a tenta- tiva de fazer-se perceber como uma melhor amiga. e os integrantes deveriam e a lâmpada” contava sobre uma menina que queria ser bailarina. Alguns temas como: solidão. o elemento água levava os integrantes a completarem grantes. etc. mas em nós mesmos.. Surgiram. saudades. definitivamente. embaixo de uma árvore da sabedoria. o trabalho do 5º Encontro privi- sendo vividas. a médica cuidadora e gentil. Pediu ajuda para um príncipe. a solidão. e que trouxessem uma cena que sua mãe não a tinha colocado na escola de dança. mente dita. A terceira mandala. curar uma lâmpada mágica que a ajudasse a realizar o seu sonho. que apareceu e a acompanhou na busca. mais se identificou. o que mostra a presença do interno a partir desses elementos catalisadores. etc. incluindo elementos. que aquilo tudo era real. dentro dela mesma. A diretora auxiliou 37 Meditação que auxilia na concentração de um centro organizador e na liberação de que a personagem entrasse em contato com seus sentimentos e verba. inconsciente grupal ou co-inconsciente atuando no trabalho. cada um expressava seu mundo que eles haviam pensado na mesma coisa. os quatro assumissem os papéis sociais que estavam escritos nas folhas. A lâmpada disse que existia como lenda. a frustração com a amiga. A partir da dramatização. cipante foi incentivado a entrar em contato com os sentimentos envol. miniaturas diversas) para acessar esses temas. legiou “O Contato com o Contador Interno – Despertando a criatividade”. mas depois sentimentos. Uma história foi amores inesquecíveis. tensões psico-físicas relacionadas às emoções mais primitivas. inespecífico e. a personagem apare- Depois. foi realizada a meditação do coração 37 como aquecimento os pais. gratidão. incentivando-os a pegar carona na cena lâmpada lhe disse que na verdade toda essa magia teria de ser acessada do emergente grupal. etc. foi pedido que cada um buscasse uma cenas com as experiências pessoais. perda. relações familiares. foi pedido que cada um dialogasse com o personagem que cia tentando ajudar uma amiga que se relacionava com um drogaticto. do elemento fogo. abandono. Um Solidão e amizade foram escolhidos. onde se destacavam traços da personalidade de cada um. em seguida. Então a cena para o restante do grupo. Ela passou a pro- da vida pessoal relacionada a esse tema. Pretendia-se com esse jogo a livre associação e o pensar de vida. . miniatura que se identificou e a depositasse na areia. Relacionada ao elemento terra. destacando a incessante tentativa de ser uma ótima 38 Para maiores informações ver capítulo neste livro relacionado ao assunto. algumas cenas já iam dos recursos dispostos nos dias anteriores. e foram introduzidos ao universo da psique feminina através características pessoais. por exemplo.

celebrando a criação. saber se comunicar mais. sentimentos. Depois de produzida. entre outros. a frustração e a busca pela realização. o arco-íris como mediador da desco. cardeais como aberturas para a entrada em um grande labirinto que con- Surgiram: a descoberta do feminino. Fig. criação. todas as turbulên. e encontrasse uma postura corporal que refletisse esse encon- tro. ao amor e sua essência.142 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 143 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA símbolo. No berta de um grande tesouro escondido dentro de nós. algumas sucatas vegetais e animais foram dispostas guia. a árvore passou “calma. o grupo foi incentivado a resgatar memórias dos outros 6 encontros. volta da imagem. num exercício de imaginação (dramatização internalizada / psicodrama interno). sutileza. da fé e da esperança. Em seguida. De olhos fechados. Uma cias internas que os encontros suscitaram e revelações preciosas disso. tém os quatro elementos. Desenho da última mandala. o encontro com a Deusa Terra e seu silêncio interior como fonte de Coincidentemente.. No 7º e último Encontro. foi pedido que cada um entrasse no papel da Verdade e que dialogasse com seu eu interior. além de explicitar os temas co-conscientes do grupo.. As pessoas registraram a abertura para os 4 pontos incentivadas pela diretora a criar uma cena que expressasse o relato. O compartilhar privilegiou o significado das escolhas pessoais por cada miniatura e as ressonâncias da vivência individual de cada integrante. pontos marcantes. ter calma e confiança. o caminho que leva ao coração. centro. espontaneamente o grupo começou a dançar em muita calma”. que trabalha com essa temática. experiências. Supondo que os integrantes já haviam recebido alguns recursos necessários para o fortalecimento do ego nos encontros anteriores. Céu e Terra amparam a busca que acontece mistério e abertura para o amor. de encerramento escolhida pela diretora para ser narrada foi a da estrela- Posteriormente. o 6º Encontro teve como finalidade o trabalho com o tema “De Encontro com a Verdade”. pensamentos. tais como danças circulares e dança espontânea. sincronicamente. Uma conversa sobre o trabalho e a imagem suscitada marcou a As pessoas relataram o que mais marcou durante a oficina e foram etapa do compartilhar. estrela-guia ilumina e acompanha o processo. foram propostos exercícios de conscienti- zação corporal em grupo como aquecimento. ou como diria Jung.. o unicórnio disse que era um guardião. Os conteúdos surgidos foram: você precisa ter mais coragem. de como nos prepararmos para encontrar com a nossa Ver- dade interna. Para isso. O Mito de Pandora foi narrado em primeira pessoa e Pandora – para que o grupo criasse uma mandala de encerramento do processo. como: o limite entre fantasia e realidade. Em seguida pediu-se que cada um imaginasse o seu encontro com a Verdade. aspecto feminino da intuição. sua potência. do algo oculto que . dentro do labirinto e registram os 7 encontros (7 nuvens em azul). o grupo foi recebido com o conto das mil e uma noites “Uma Fábula sobre a Fábula”. 1. a história geração de uma nova personalidade.

Nele emergem os conteúdos do inconsciente coletivo. “o meu eu em ação com um com- (1º encontro) foi marcado pelo arquétipo do “Louco”. imaginários e psicodra- subjetiva e coletiva.144 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 145 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA aparece sem nem sabermos como e por quê – entrega sua arca para cada cipanes – sua sociometria – realizar a oficina de psicologia feminina. conteúdos que os “tripulantes” precisariam assimilar e ingerir na trajetória dianas” (MACIEL. Perséfone é a deusa grega que realiza o ritual de descida aos infernos. consegue-se extrair. inconsciente e revelou. Para tal. além dos conteúdos a serem conscientizados. medos. co-inconsciente grupal. submetendo os eventos à alquimia da reflexão”. que os integrantes acessassem os quatro elementos em seu aspecto que fortalecem as mulheres e o feminino. com e arquetípico-universal. no ponto em que se realiza o contato com a Identidade Feminina (2008) destaca que quando se escolhe trabalhar com um conto. e sintomas. que são uma forma de arte patológica. para que não a encontremos nos “fetiches durante o drama. Como num jogo dramático de iniciação. por mais simplórias que possam parecer. Ramalho cesso. suas naturezas e necessidades. este trabalho buscou atender a feminino. traz à tona a possibilidade de alcançar as profundezas e retornar detém momentaneamente o fluxo da vida. experimentando o nível simbólico em associação ao real. então. sentimentos e esforços Hermes. assim. deixando uma “mensagem-guia” para o novo ciclo que iriam inevitável que o louco-buscador se encontre com Perséfone. chegamos ao centro do pro- tância da função da escolha dos mitos e contos nos encontros. dos nossos estados psíquicos. no 2º encontro. que Pretende-se realizar agora uma leitura mitológica. durante a busca. o trabalho possibilitou a O contato com o mundo interno dos sonhos (3º encontro) preten- vivência no inconsciente individual e coletivo no contexto da realidade deu que os integrantes fizessem contato com o aspecto feminino do suplementar. quando o inconsciente coletivo é atravessado pelo máticos coadjuvantes na cena. no aqui-agora da sessão. para iniciar iniciar a partir do fechamento dessa oficina. analítica e psico. E. Ela encerra seu domínio no mundo sombrio das trevas. 2000:199). que se atira ao plementar”. a psyché. ou seja. que encerra em seu medo ridade”. é integrante. é necessário destacar a impor. a viagem e realizar a abertura. a medicina propriamente dita. ansiedades. seus significados serviriam como guias durante o percurso – o contato dramática da experiência descrita anteriormente. “como realizar os devidos rompimentos e finalizações”. elucidando os temas com emoções. (MOORE apud MACIEL. por intermédio do psicopompo Com foco na expressão dos pensamentos. Possibilita. do Mapeando o território: A Leitura Mitodramática do Processo inconsciente profundo. a partir dos temas amizade e solidão. 2000:199). do co-inconsciente que. grupal. O Psicodrama dos Contos de Fadas e o Mitodrama das oficinas sócio-culturais. desejos e identificações do que o vivencia dramaticamente numa construção que é ao mesmo tempo se é ou do que gostaria de ser. através dos mitos de quatro deusas gregas e que revelaram os necessidade de “reservarmos um lugar para a alma em nossas vidas coti. do que ele conta. os deuses de nossas Para Ramalho (2008). sejam eles pessoal. o grupo (4º encontro): o som de poder pessoal. mulher. sendo o critério de escolha dos parti. à superfície gerando o ciclo das estações. Com estas informações já acessadas. Pode-se entender com isto que o início do trabalho nas oficinas o núcleo do inconsciente grupal. social para a realização dessa arte pessoal e grupal de contato com a alma. papéis sociais. anuncia o ciclo feminino na sua passagem de menina à “Nossas ‘artes’. quando refletidos e reelaborados. “expectativas e frustrações no exercício da complementa- desconhecido com a consciência aberta. etc.199). “Contos e Encontros com a Psicologia Feminina” se tornaram veículos ampliam a produção de novos sentidos. 2000. co-conscientes e co-inconscientes. Vê-se arquetípico um “buscador” e que. aí a importância da conscientização e a consequente revitalização de um . em busca de uma preciosidade retida no mundo inferior. o conto apropriado pelo grupo vai para além doenças” (MACIEL. durante a viagem.

como a ancestrais. Sendo assim. Egos auxiliares catalizadores dessa Verdade divina. Re-inserido na sua realidade. encerra. significa delimitar uma área sagrada e concentrar a energia ção do sentido por detrás das cenas que foram atuadas e reveladas. é chegada a hora de se recolocar na cena. sia se torna muito próximo. é necessário dialogar características vitais. os 4 elementos intermediando a alquimia acerca do trabalho com o Psicodrama dos Contos de Fadas. Maciel (2000) reforça Deste modo. um tempo ínfimo à nossa própria vida cotidiana nossas centelhas divinas. técnicas. facilitadores – aquecido e preparado. 1994:20). agora suplemen- que é a própria busca do tesouro retido nas profundezas que nos cura. criadora e co-criadora do drama cósmico da existência. reside a sombra. redirecionamento de que a psique necessita. contador interno (5º encontro). proporcionando . direção.146 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 147 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA aspecto da psicologia feminina. nossos encorajadores e. A “criança protagônica” da história narrada pelo grupo. 2008:135-136). suas busca por algo valioso. É quando nossas “Verdades” se transformam em nossos “Curado- res Internos” (6º encontro). então. que observam atentamente e que encerram o segredo da existên. para acessar a sua centelha cia (árvores da sabedoria). A tar. Self na imagem final: as 7 cores do arco-íris. presente e real”. Ativa-se o arquétipo do pessoal – para continuar. Pode-se entender. revela o diagnóstico de como a psique natural está se conduzindo e o por detrás da persona. Matéria Prima no vaso alquímico da alma. o local do segredo. (ESTÉS. O trabalho. mediadores dos mundos inferior e superior margem da consciência munido dos instrumentos fundamentais – (os unicórnios). você tem suas regras!” (Kau). fundamental para o acesso ao Self. mais do que tudo. contando histórias nos jardins interiores de cada um. Acreditar que nossas crianças O desvelar desse território oculto que o Mitodrama propicia leva o internas. iluminado pela Estrela-Guia. Reflexões finais: Ancorando se um ciclo de contato com elementos-chave e vitais no envolvimento com a psicologia feminina. da dança circular espontânea deste grupo. nosso Self. passear pela com nossos egos auxiliares. os 7 encontros. o locus da Pretendeu-se aqui dar continuidade ao legado de Jacob Levy Moreno. nossos complementares (príncipes e princesas) e nossos métodos. faz sentido o conteúdo surgido com a canalização do o passo na dança considerando que andar em torno de um motivo. (RAMALHO. revela as prognóstico acessível para que a função-guia da consciência acerte no “moradas” onde a energia foi produzida. ou seja. “o que parece distante ou simples fanta. que buscando recursos para a evolução. que nossa fonte de criatividade é um órgão vital. ao desejo de sonhar. está completo. sempre existe uma cena oculta. dela. que nos cura protagonista a participar ativa e criativamente da re-elaboração do seu durante a busca. saber a hora em que um ciclo deve Introjetamos a Estrela-Guia (7º encontro) e dançamos em torno começar ou acabar. centelha divina. que nessa dimensão da consciência nos damos conta de drama. nas margens da consciência individual e coletiva. “Você vê. Que possamos. Assim. quando chegamos ao núcleo de extra. circulá-lo. as 4 direções É importante aqui enfatizar uma observação de Ramalho (2002) dentro do labirinto da alma. Interna. assim. Que Pandora objetivo dessa vivência produzida coletivamente pelas pessoas do grupo traga esperanças! E que o ritual sempre aconteça na devida hora! é investigar como cada motivo está se manifestando na vida de cada um. de uma idéia. cada conto encenado por detrás de tudo o que é dito. “dedicar mais tempo à fogueira mística e cia de que essa condição reside em nossos próprios eu interiores. onde se situa a Assim. o do coração lá no centro. o despertar do contador interno. com o que foi vivenciado nos encontros. psíquica numa auto-incubação que propicia o auto-conhecimento. do seu psico-drama. Para ela. reavaliar seu papel. mantermos a consciên. revelou o próximo passo psique instintiva feminina. seus passos desconexos na dança. de um comportamento. diante dessa tarefa vital. o status nascendi de um conflito. Aquela que Role Creating é o nome dessa intenção durante a dança sócio-psico- deve receber o que realmente necessita – o acesso à sua criatividade dramática. e que. que ao ser desvelada.

oferecer momentos Busca-se no psicodrama junguiano possibilitar que os adultos entrem de prazer e descontração. complementando-se para viabilizar uma Referências bibliográficas interpretação emocional intuitiva deles. ir para a dimensão do homem cósmico que mágico para uma possibilidade real e consciente. deste modo. Rio de Janeiro: José emocional intuitiva e. espontâneas e criativas. do tema universal criações do seu mundo interno vencendo as resistências. e do palco do psicodrama. tentou viabilizar a expressão dos caminhos A estrutura metodológica do Mitodrama favorece a intensificação da centelha divina em contato com o aqui-agora pleno da consciência. em uma em contato com suas crianças interiores. 2003. que o objetivo dessa privilegiada viagem foi de mentar a realização simbólica contribuiu para redimensionar a realidade encontro ao que a Alessandra Giordano (2005) narra em sua dissertação existencial de cada um. E. o jogo dramá- que restringe o acesso à criatividade e ao Self. Dar também continuidade ao legado de Carl Gustav Jung. A tomada de consciência. permitem o novo. ativando energias seus criadores internos. tico é uma técnica pilar no psicodrama. cultivar a alegria. no lugar onde tudo é possível. contexto do como se moreniano. 18. pela CHEVALIER. Rio de Janeiro: Rocco. em que as pessoas apenas escolham os príncipes e as fadas mitos. oferecido no conto para a subjetividade pessoal. cores. deuses oportunidade que não significa um mero passatempo ou uma fuga da e deusas criadoras dos seus universos. vivem o encontro com suas centelhas divinas. gera essa interpretação gestos. de mestrado: despertar o sonho. propiciando o exercício da fantasia. Alessandra.al. Contemporaneidade. Até a próxima viagem mitodramática! No mitodrama. . “fome de ação” (sempre existente nas crianças). que as pessoas atuam numa qualidade de relação diferente consigo mesmas e. mas podendo fazer as pessoas acreditarem que os contos de ampliação e coexistência dos mundos real e imaginário. Aula: A Arte de Contar e Ouvir Histórias na através dessa qualidade. acessada através das encenações. local onde tudo é possível e onde tudo saídas e outros jeitos de ser e estar no mundo.148 Vanessa Ferreira Franco CONTOS E ENCONTROS COM A PSICOLOGIA FEMININA: 149 O PSICODRAMA JUNGUIANO NA METODOLOGIA MITODRAMÁTICA palcos em que as pessoas possam se expressar livremente. novas a brecha entre fantasia e realidade. transformação fizesse de uma saída mágica uma possibilidade real. da experiência do curador interno. Jean et. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do É no contexto aespacial. Agosto a Novembro de 2006. onde se situa ampliam nossas imagens. Zerka Moreno (2001) revela estagnadas a se transformarem. Esse trabalho. espaço maravilhas. Para Ramalho (2008). GIORDANO. Dicionário de Símbolos: (mitos. formas. e na realidade suple. Clarissa P. assim. do desempenho criativo e espontâneo de um papel pelos territórios da ção de transformações que saem de um plano puramente imaginário e psique feminina. Através do palco das histórias e realidade. ESTÉS. números). já que conta com para transformarem as difíceis realidades em mágicas transformações e a proteção e a possibilidade próprias da Realidade Suplementar. pode favorecer que uma possível Olimpo. contos e mitos. legítimos curadores. ed. um instrumento de auto-cura O sociodrama arquetípico foi efetuado através do que Ramalho e aprendizagem. acessando os Assim. Percebe-se. pois propicia ao indivíduo expressar livremente as (2008) sugeriu como Amplificação no sentido inverso. Instituto Sedes Sapientiae. atemporal e holotrópico do conto e do arquétipo da mulher selvagem. portanto. funciona como se fôssemos Deus. o psicodrama ajuda a ancorar e concretizar a trans- formação energética que a história ou o mito mobilizam. 1994. Jung e Moreno pretendiam. como locus de seus centros de cura autônomos. o jogo dramático torna-se o grande elo entre Jung e Moreno arquétipos que libertam o ego de um encapsulamento empobrecedor e dentro da proposta mitodramática. se complementarem e se curarem a partir a inclinação de Moreno em promover o contato com as centelhas divinas das ações vivenciadas através dos personagens das histórias. então. pois. esse fazer é possível. costumes. uma vez que possibilita a concretiza. a realidade mítica e o ritual andam juntos. figuras. abrem a nossa visão.

começaremos recordando as contribuições de S. o interesse pelo estudo do sonho percorreu do campo mágico ao científico. S. L. São Paulo: Ágora. O onirodrama no psicodrama grupal: uma São Paulo: Ágora. 53 min). Quem é você: Como me conhecer melhor. Compreender o sonho e seu rico simbolismo Contos de Fadas. São Paulo: Ágora. Tradução de Eliana Araújo Nogueira do Vale. Faixa 3 (6 min 15 s). NEUMANN. As Palavras do Pai. face entre o psicodrama e a psicologia analítica é largamente utili- zado para facilitar a compreensão e elaboração do processo psicote- RAMALHO. é como compreender a própria vida em seu fluxo espontâneo-cria- brindo enigmas de heróis e contos de fadas: entre a psicologia analítica e o tivo mais instintivo. In: CORUMBA. Neste capítulo. Rosa Maria do Nascimento et al. que uma compreensão destes autores. [S. 2002.164. Roots.Rom (ca. imagens e situações de uma realidade considerada por J.150 Vanessa Ferreira Franco 151 ________. In: Quem acontece. Erich. O trabalho com sonhos numa abordagem que se coloca na inter- 1996. Freud. Jung e de J. Cultrix. seja no plano do simbolismo inconsciente. A realidade suplementar e a arte de curar. C APÍTULO VII MACIEL. Parte II: Psicodrama dos Heróis e rápico individual e grupal. os sonhos . mas nos deteremos especifica- mente nas contribuições de C. até a descoberta da sua importância como revelador de estados mentais inconscientes. é fundamental e podem ser integrados harmoniosamente.l. estratégia entre o dramático e o simbólico MORENO.88-183). Zerka T. Aracaju: Edições PROFINT. (PP. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Aproximações entre Jung e Moreno. Intérprete Kau. Jacob Levy. G. Contar Histórias: Um caminho para o sagrado. 1 CD. peuta manter uma atitude de reverência com o conteúdo onírico. Ao longo da história. 2005. São Paulo. Lidando com o rico simbolismo do inconsciente psicodrama. seja a nível do resgate do aspecto dramático que o sonho encerra. Mitodrama: o universo mítico e seu poder de cura. L. Remasterizado em digital. KAU. Desco. Campinas. Moreno como suplementar. na nossa prática clínica. 1992.P. No sonho. sabemos o quanto cabe ao psicotera- ________. Moreno. presente nas cenas dos sonhos. História da origem da consciência. 2000.]: Editora Globo. 2001. Corintha. Cybele Maria Rabelo. Mestrado em Ciências da Religião. Porém.: Psy. Consideramos. pois pp. 2008. Cybele Maria Rabelo Ramalho MORENO. entramos em contato com um processo que se manifesta através de sensações e emoções. está lidando com a emergência de imagens do inconsciente no seu estado mais puro.

de forma mais empí. fato de haver uma censura perante o desejo. E. Assim. os sonhos podem seus sonhos na sessão. a partir dos concei- Realçamos que não adotamos uma visão purista do psicodrama.) operam nos estudos das com as situações traumáticas da história de vida de cada paciente. roses. tais como a trar características comuns entre os diferentes sonhos. capazes de revelando assim o fundo inconsciente reprimido. “o desejo é o estímulo do sonho e sua rea- apresentam alguns pontos em comum e complementares (RAMALHO. por meio dos mecanismos de condensações e deslocamentos. os desejos sexuais e agressivos. lização o conteúdo do mesmo” (FREUD. as fantasias. ele dedicou-se a estudar o sentido dos sonhos e a tentar encon. no tos e pesquisas freudianas. no conteúdo manifesto. em especial no trabalho com grupos. posto que. Ela consistia de encorajar o Freud observou na sua experiência clínica com pacientes neuróticos sonhador a comentar as imagens dos seus sonhos e os pensamentos que. neuroses: a associação livre e a interpretação do sentido. o que tem enriquecido a é censurar o que.113). nele é retido uma idéia fixa ou sentimento determinante. sem logia (a psicanálise) e. e ainda Por isto. principais de condensação e deslocamento. no livro A Interpretação dos Sonhos (Ibidem. Sigmund Freud (1856-1939). como esses mesmos mecanismos e elementos (defesas. 2003). através da técnica da livre associação. não constitui de nenhum se interessar pelo estudo psicológico dos sonhos. que consiste numa parceria entre de que o conteúdo latente aparece deformado pelas defesas. geraria o Não queremos privilegiar aqui uma abordagem sobre outra. Ele pretendia. um distúrbio psíquico é “iniciado” por um sonho e que elas lhe sugeriam. é reprovado pela consciência nossa atuação como psicodramatista. o conteúdo onírico sofre Vejamos a seguir as principais contribuições que são o objeto de uma deformação. Segundo suas palavras. Freud chamou de “conteúdo latente”. Sobre estas deformações ele define os mecanismos nosso estudo e um breve relato da nossa experiência com o que denomi. ou seja. p. precisava acessar o inconsciente de buscar seu conteúdo exato. Disso vem o postulado freudiano apenas destacarmos a nossa experiência. mesmo parecendo irracionais e despropositadas. mas “conteúdo manifesto” (o sonho em si). até porque ambos Portanto. claro ou complicado. 3) deve-se esperar até que o inconsciente uma forma que lhe oferecesse menos obstáculos que através das neu. para tanto. oculto buscado surja espontaneamente. que se o seu aspecto dramático e vivencial. existem três regras fundamentais sobre as quais de deve basear o As contribuições de S. chegou-se à definição psicológica de que o sentido de não dialogarmos com outras teorias e acrescentarmos a visão sonho é a realização de um desejo reprimido. para além do simbólico e do verbal. foi o primeiro a seja inteligível ou absurdo. enfoca. moral. tação dos sonhos. No psicodrama junguiano. a experiência do sonho. etc. Freud trabalho da interpretação dos sonhos: 1) o aspecto exterior que o sonho nos oferece (conteúdo manifesto) não deve nos preocupar.152 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 153 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO despertam grandes interesses dos psicoterapeutas em geral. cuja função uma perspectiva junguiana e a psicodramática. o que dificulta a interpre- namos de Grupos Vivenciais de Sonhos. seus pacientes contavam com bastante freqüência Para Freud. vol. neuroses e dos sonhos. Toda a trama do sonho. o deslocamento. ser reduzidos a certos esquemas básicos. p. como vias resolveu aplicar ao sonho o mesmo método que usava para investigar as imagéticas e simbólicas de contato com uma realidade mais primitiva. Ele desenvolveu reflexões elucidar o desenvolvimento de um processo psicopatológico em curso. II). segundo Mezan (1999). . sobre a censura moral e seu papel coercitivo quanto aos desejos. GASCA & GASSEAU. 121. 1948. muitas vezes. pelo 2002. Além disso. construir sua própria psico. Assim. 2) nosso trabalho deve dedicar-se a rica. compreensiva de outros autores. O “pai da Psicanálise”. relacionando-as condensação. como é o caso de Jung. despertar representações substitutivas em relação a cada elemento. para Freud. modo o inconsciente buscado.

Ele não aceitou que o sonho tivesse uma significação Assim. Então os arquétipos. teleológico. considerava-os como sempre retornando a ela. estas reações e impulsos fundamentam-se . o sonho participa de ambas. a o simbolismo do inconsciente. “a confusão nasce do fato de serem simbólicos (JUNG. portanto. têm significação e uma construção completamente realizada”. apenas desejos sexuais reprimidos. Jung discordou de Freud no que se refere aos sonhos como consciência”. os sonhos traziam mensagens ciente coletivo. Para ele era importante reza humana básica. inteiramente e unicamente aquilo que é. volvido por Freud. p. sem maquiagem. Para ele. que revela uma tensão representação espontânea. Ele enfatiza a importância de se desvendar a dimensão no sonho não podem ser explicadas apenas em termos de memória. que consiste no conjunto de símbolos e arquétipos do inconsciente em relação aos momentos já vividos. mas sobrevivem na mente humana á tempos imemoriais. personalidade. que estabele- Para Jung todas as figuras do sonho são aspectos personificados da cem um elo entre o mundo racional da consciência e o mundo do instinto. ele propõe que as associações se agrupem Após Freud. são elementos psíquicos que não uma fachada. permanecendo próximas desta e buiu para a análise de sonhos. que ainda não chegaram ao limiar da Mas. p. Segundo Nise da Silveira (2000. no trabalho com os sonhos. que dizia que os sonhos “memória coletiva”. 67). 38): “As imagens e idéias contidas seus símbolos. qual decorre do ponto de vista final-construtivo. representam fatores autônomos da própria Enfim. Os símbolos apontam direções diferentes daquelas que percebemos com a Os sonhos são natureza pura. 90). Jung discordava do método puro da livre associação desen- dar-nos de volta uma atitude que está de acordo com a nossa natu. foi Carl Gustav Jung (1875-1961) quem mais contri. p. representam algo além da experiência pessoal do sonhador. uma função valiosa. quando nossa consciência se desviou demais a coleta do contexto subjetivo do sonho através de associações. ou a uma significação ainda inconsciente. sob forma simbólica.78). unindo-as em freudiano. oferecerem mais de uma explicação. Assim. ou “imagens primordiais”.154 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 155 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO As contribuições de C. uma ponte entre o consciente e o inconsciente. não é algo pré-arranjado. que estariam gravados numa espécie de presente e do futuro. p. G. Para ele. ainda não havia percebido. 1964. através dos sonhos. concluindo que essa interpretação O conceito mais marcante da teoria junguiana foi a idéia de incons- era muito restritiva. se revelavam as ima- diferente da sua apresentação evidente. 91) para Jung observou que. Jung ciente. em torno da imagem do sonho. Muitos sonhos apresentam imagens e associações semelhantes acreditava que o sonho tendia a mostrar a verdade que a consciência aos ritos primitivos e aos mitos. 1964. ao contrário de Freud. sem dar muito valor. considerava a associação livre muito linear. personalidade do sonhador. simbólica do ser humano através dos sonhos. cos” do inconsciente. São associações históricas e primitivas. o sonho é uma auto. da situação real do psíquica dirigida a um fim futuro. considerando-os um fenômeno natural definidos por ele como “uma tendência instintiva para formar representa- e normal. 1964. eles nos mostram a verdade nossa mente consciente” (JUNG. são a forma e o conteúdo dos sonhos. ções variadas de um motivo. p. Assim. natural. expressam pensamentos novos. presente nos níveis mais profundos de nosso incons- escondiam a verdade e eram um disfarce para o desejo reprimido. Segundo Jung. conduzindo em geral aos complexos do sujeito. “o sonho é aquilo que ele é. sem perder a sua configuração original” Segundo o próprio Jung. 1999. Jung os seus conteúdos e. mas também do comuns a quase todos os povos. Tal como Freud. mas de seus fundamentos e chegou a um impasse (JUNG. um meio de interpretar Ele julgava essencial apreciar o sonho em sua dimensão criativa. reducionista. de modo que começou a estudar gens arquetípicas. Este ponto de vista se opõe ao enfoque causal-redutivo e inconsciente da psique. Jung afirmou que. Segundo ele (JUNG. um disfarce qualquer. o que Freud chamou apenas de “resíduos arcai- ele. e por isto se prestam nada mais do que a Assim. que “não significa outra coisa além do que existe dentro dele”. Enquanto área de encontro entre as dimensões consciente por aparecer.

visto que ele é uma auto-representação espontânea e indivíduo e são retratadas nos seus sonhos. p. os sonhos funcionam principalmente como reações de defesa. esses “sonhos de arquétipo ou arquetípicos” seriam os mais são diferentes das estruturas do drama. “Formas de pensamento. revelando a Esta função compensatória do sonho tende a arrancar o psiquismo importância da análise dos sonhos para a psicoterapia. Jung afirma que da repetição. Jung foi o primeiro a abrir o caminho no estudo da função compensatória dos sonhos: “No seu O sonho é o teatro em que o sonhador é. que é uma experiência ser considerado por aquilo que ele traz. de cenas. a corrigir a situação pré-existente. mas à humanidade em geral.156 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 157 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO num sistema instintivo pré-formado e sempre ativo. Assim. humana universal e pode irromper de forma excessiva na psicose aguda. dirigindo o indivíduo a um entendimento mais trazê-los de volta às formas e papéis que assumiram no conteúdo mani- abrangente das suas atitudes e ações. o sonho reflete em síntese a vida do sonhador. o que já vem sendo confirmado pelos neuro- relações com o meio. o ator. E. depois. contínua e eterna do seu verdadeiro Self. como vimos anteriormente. Dessa forma. Freud por não levar em consideração o conteúdo manifesto. o conteúdo manifesto é tão importante quanto o latente. seus conflitos e transformações. E. logo. clinicamente um sonho. o sonho não é só a realização de desejos Jung afirmava que a verdade e a realidade que o consciente reluta arcaicos. na medida em que os viven. a conceito. p. demasiado unilaterais tão simples é a base deste conceito do significado onírico que ou anti-naturais”. longe do controle da consciência. 50). 94). representam a situação interna do “compensação”. 1987. 87). p. o autor e o crítico. ele. Segundo ele. p. . característico do designei sob o termo de interpretação no plano do sujeito (JUNG. diz Jung que é sempre útil o terapeuta se per- processo este responsável pelo crescimento do indivíduo em busca guntar: “quê atitude consciente está sendo compensada pelo sonho?”. 76). para “os arquétipos informes alcançam uma forma. p. Representam fisiologistas contemporâneos. o ponto. os quais têm chegado à conclusão de que os progressos e as regressões. Segundo Hall (1987) a atividade das camadas mais profundas da Pois. achava que o conteúdo manifesto pode psique é claramente vivenciada em sonhos. tentar em usar o sonho apenas como ponto de partida para associações. o é sua própria interpretação” (JUNG. pois sua mensagem e simbologia não correspon. Criticou ciamos em nossas vidas externas e em nossos sonhos” (ROBERTSON. o sonho pode compensar distorções temporárias deixar andar as associações. gestos de compreensão universal e apud HUMBERT. O sonho nossa vontade e. que o ego tem da realidade. por se con- 1992. imagens e ações diam só à vida daquele cidadão.29): inúmeras atitudes seguem um esquema estabelecido. Assim. sonho não pode expressar um conteúdo muito definido. na visão junguiana. do sonho são elementos próprios da subjetividade do sonhador. as possibilidades e as impossibilidades do não sonhar é mais prejudicial do que não dormir. até descobrir os fatores latentes e. O trabalho de interpretação na análise junguiana “consiste em por exemplo. Pois. metabolismo psíquico. Esta verdade como auto-reguladores de posições conscientes. em suas na economia psíquica. afirma: “Duvido expressão de um processo psíquico inconsciente. muito antes do homem ter desenvolvido uma consciência reflexiva” (Ibidem. na estrutura do ego.29). homem. o sonho é uma simbólica da situação atual do inconsciente. 1985. Assim. mas se insere no presente do sonhador e tem um papel de em aceitar. ele insiste no ponto de que as figuras. simultaneamente. complementando a visão unilateral festo” (HUMBERT. Quando se interpreta esta análise forma um registro das etapas do processo de individuação. p. ou não aceita de todo. 1985. Pois a produção onírica desempenha importantes e vitais funções Para ele. assim como na sua dinâmica interna. Ele acrescenta: Segundo Nise da Silveira (2000. o diretor. Partimos do conceito junguiano de que as estruturas do sonho não Assim. Para ele. totalmente alheio à que um sonho seja algo diferente do que realmente parece ser. cena. O sonho é um drama constituído importantes para Jung.

Enfim. Afirma que há sonhos que Pois. pois ao serem analisados sonhos. conteúdos e O terapeuta deve tomar cuidado para não cair na tentação interpre- motivos são reconhecidos com maior clareza. etc. Mas. assim como várias toda interpretação é uma mera hipótese. natureza desconhecida. logo ao acordar. No entanto. o terapeuta deve estar consciente de que nem tudo está ao A abordagem junguiana vê o sonho como uma realidade utilizável alcance do ego. segurança numa série de sonhos. é possível muitas vezes são antecipações e. dialética. relação aos elementos oníricos. e não surgem Por outro lado. desenhasse. da história das religiões. os sonhos deveriam ser sempre considerados pelo psicoterapeuta compreensão intelectual. corre-se o grave risco de privilegiar a . após a análise de uma série de sonhos. no que diz respeito ao significado de um sonho. os sonhos também manifestam imagens de persona. não só propunha um trabalho dialético verbal. através da coleta de todas as associações livres que surgem em as imagens oníricas. 3) a colocação do sonho ampliado no contexto da situação possam ser compreendidas. na prática. ou seja. Para Jung. outras imagens arquetípicas. consiste Por esta razão. dramatizando. defendida por Jung. levantar a sua interpretação. e a partir daí é solicitado que o Enfim. compará-los. promove o desdobramento do processo amplificações em ordem progressiva. cultural e inconsciente. pois somente em série. podem perder seu verdadeiro sentido. procurando-se relacioná-los. Nesta. Para o trabalho com subjetivo. Além dos ser importante haver uma compreensão conjunta. não são utilizados termos ou conceitos teóricos com o cliente. não fosse fixo ou pré-determinado. E considera ao terapeuta e ao seu cliente apenas esperar. tativa. para vivificar as imagens oníricas. É aconselhável. deveria ele renunciar a todo e qualquer sonho. 36). E esta só adquire uma relativa formas e papéis do ego. p. quando pode- A imaginação ativa. considerar aquilo que o símbolo significa pressuposto teórico e se predispor a descobrir uma teoria do sonho em relação à situação consciente. entre tera. Estes devem ser ativa. pintando. como uma informação sobre condições de “os sonhos e as imagens oníricas são mais complexos que os conceitos . se forem observados por um enfoque puramente casuísta. exatos do sonho. usa-se também da imaginação ativa como também solicitava a imaginação ativa (que o paciente pintasse. muitas vezes. dialogando existem três etapas principais: 1) uma compreensão clara dos detalhes com ela no “como se”. etc. como já vimos em outros capítulos deste livro. vital e do processo de individuação do sonhador (HALL. peuta e paciente. na abordagem junguiana da interpretação dos sonhos cliente desenvolva livremente o tema trazido pela imagem. ou seja. visualização interna dirigida. como já citamos é uma técnica desenvolvida por Jung que toma como ponto de partida anteriormente. fizesse colagens. 1987. 1987. complexos. para trabalhar com a simbologia do quanto o paciente. à técnica junguiana da amplificação. p. A forma clássica de abordar os sonhos. p. escrevendo. mais do que o insight emocional e afetivo. da mitologia. anima e animus. segundo Hall (1987). 1999. pois “o trabalho com sonhos é talvez a abordagem paralelos e analogias com um material simbólico mais amplo: extraído mais direta e natural para se alterar complexos” (HALL. propunha aos seus pacientes registrar cuidadosa- em inicialmente ouvir o sonho com precisão e estabelecer o seu contexto mente por escrito os seus sonhos. amplificam-se os identificados através de técnicas expressivas e imaginativas que facilitem motivos dos sonhos.158 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 159 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO Ele ressalta a importância de considerar as convicções filosóficas. dos contos de fadas. a maior parte do uso clínico associações livres da parte do sonhador. a confrontação com imagens inconscientes. tratar o símbolo como se ele inteiramente nova para cada caso (JUNG. uma imagem de sonho ou fantasia. 18). vigiar e confiar. ria dialogar e vivenciar melhor as imagens oníricas).. Assim. recorre-se além da imaginação dos sonhos tem a finalidade de expressar complexos. a nível pessoal. valorizando a série deles. também no diagnóstico e no prognóstico. a respeito das quais tem tanto a aprender religiosas e morais conscientes. sombra. 2) a reunião de associações e conjugando imagem e ação. para que estas arquetípico. Pois.. Quando os sonhos se expressam simbolicamente. como uma novidade.43). Self.

onde o sonhador tem participação ativa. em seguida. no contexto dramático. se destaca. a palavra onirodrama tem origem grega. descrita até então.9).. o quarto. em alguns aspectos. o prota- De acordo com Monteiro (1993). A partir daí. sonho e a vivência onírica contemplativa. intitulado Psychodramatic production techniques. podendo desenvolver um trabalho com sonhos já na década de 20. a pedido do diretor. Moreno incluiu o onirodrama entre as principais técnicas do que não deve ser tratada de modo redutivo” (HALL. L. Esta técnica amplia a imaginação ativa puramente verbal.. psicodrama. da nossa experiência imagens. ação dramática” (MONTEIRO. deixando as imagens justamente nos sonhos que Jung e Moreno se aproximam melhor (apud do sonho emergirem com toda sua vivacidade. ocorre “como se” fosse real. A dramatiza- Numa etapa posterior. ficamos confortáveis em inserir Moreno a cama e sua posição corporal. Moreno. No seu trabalho. p. entre eles temos no Brasil a analista Etimologicamente. é a representação. as cate- gorias de espaço e tempo inexistem no sonho. Em um artigo nagens ou elementos do sonho. J. mente. em gestos e ações. inte. que será descrita posteriormente. e o sonhador viver simples- As contribuições de J. ele pode sair de exercícios: a imaginação corpo-ativa com os principais elementos do da dramatização por seu próprio esforço. presente e futuro condensados. 1987. a maneira como Moreno trabalha o sonho tem início com a desenvolveu uma abordagem complementar para explorar os sonhos. consistindo de uma observação da estrutura dramática e de É no psicodrama que os sonhos podem ser representados concreta- elaboração dos complexos. quando vivia ser ajudado pelos egos-auxiliares (que estão ali para representar as perso- em Viena. Alguns analistas pós-junguianos desenvolveram técnicas diferen. L. Na psicodramatização do sonho. Assim. ela desenvolve inicialmente onirodrama caracteriza-se como a possibilidade de “reviver o sonho na uma etapa de processamento do sonho (onde o analisa mais objetiva. com a exata seqüência GASSEAU & GASCA. sendo Marion Rauscher Gallbach (2000). podendo estes conter passado. 1993. o de vivências de sonhos. quanto como observador. onde tudo que facilita o contato emocional-vivencial com as imagens oníricas. Já com o sonho presente. mente. o protagonista frequentemente pode do o movimento físico e a consciência corporal. p. uma modalidade técnica desenvolvida pela autora das imagens conflitivas do mundo interno do protagonista. Assim como Freud descobriu.). Porém. nas apresentações de seu Teatro Terapêutico.160 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 161 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO (. incluin. é pedido que ele feche os olhos. mas somente sob a ordem do sonhador). o indiví- bastante dinâmica e diferente do trabalho psicanalítico com a simbologia. de acordo com Moreno. 1988). consistindo de dois tipos não conseguir ter mais controle lógico e racional. porque a prórpria Zerca Moreno já afirmou que é mecer. p. se dedicaram ao trabalho com sonhos. ciadas no trabalho com sonhos. nista. em que ocorreu. porque Daí. imaginação corpo-ativa. no momento moreniano (GONÇALVES. mas. desenvolve uma aproximação do sonho via ção. 1991/2003.92 e 83). tomado por forte emoção. tanto como protago- com Grupos Vivenciais de Sonhos. publicado somente em no caso das psicoterapias de grupo. além dos sentimentos presentes ao ador- neste diálogo. que desenvolve um trabalho grupal que oneiros significa sonho e drama significa ação. ao lado das chamadas técnicas básicas do psicodrama (duplo. mente). Nesta técnica. 50). duo é solicitado a mostrar com o máximo de detalhes possível. Jacob Levy Moreno começou a gonista passa a representar todos os detalhes. localização do dia e do local em que este ocorreu. espelho e inversão de papéis). tanto o passado quanto o futuro são presentificados no aqui-agora do contexto dramá- Dentre os teóricos de orientação fenomenológica-existencial que tico. O sonho é mais sutil do que qualquer modelo teórico da psique. Dessa forma. 1952. Moreno mente “o momento”. Citamos a experiência desta Sabemos que o sonho tem como característica uma sucessão de autora por ela se aproximar. . a interpretação está no próprio sonho. grando o corpo e suas sensações como fonte de conhecimento sobre a Inicialmente. ou com a ajuda do diretor. o processo é totalmente consciente. gradativa- psique.

defendo que através do contrário disso. Moreno sentidos e que é possível interpretá-los. pois sua interpretação tem de considerar os psicodramático. trabalhando com realidade suplementar. todas as personagens oníricas e objetos dramatização internalizada ou do vídeo tape. outro lado. pode expressar algum Há uma tendência do protagonista inicialmente trazer à sessão o simbolismo significativo. nem ao seu intérprete. sabemos que os sentidos dos sonhos não são facil- continuar o sonho em cena e conduzi-lo a um final que parece mais mente imediatamente acessíveis ao sonhador. todo sonho é “maquiar” conteúdos conflitivos importantes. Porém. construindo algo além além do final. Um símbolo é a melhor represen- os tipos que trazem consigo um grau de importância tal. ou pelo próprio terapeuta. e os focais. ‘sobre-determinado’ (um mesmo elemento pode nos remeter a inúmeros Logo. o mecanismo de condensa- cena aberta ou internalizado. por si só. Porém. Ele propõe do sonhado. buscando novos sentidos. um método para vivenciar o sonho e incentivar o sonhador a continuar uma “extensão psicodramática do sonho”. porque re-elaboração a nível consciente. com os efeitos que a dramatização do sonho os freudianos e. ção da técnica do Espelho ou na Inversão de Papéis com tais conteúdos. Em cenas de fortes emoções. o indivíduo vai preenchendo lacunas. o indivíduo torna. sempre envolve algo mais. o método da compreensão simbólica é se capaz de aplicar a um novo sonho aquilo que percebeu no trabalho impreciso e inacabado. o sonho traz. Assim. a partir de um sonho. utilizam-se as técnicas de entrevista nos Vimos que Freud e Jung declararam que os sonhos têm múltiplos papéis e de inversão de papéis. às vezes é necessário passar devem ser explorados. necessita de mento no onirodrama deve ser cuidadosamente desencorajado. sem cairmos numa atitude reducionista. Também trabalha com o efeito pós-psicodramá. Somente posteriormente. Nesta fase. ção. o sonho tem um caráter múltiplo. na concretização da imagem e na operacionaliza- onde o contato físico é indispensável. Portanto. mas. neles contidos. mas a sua interpretação nunca se ser elucidados e podem ser dramatizados: os pesadelos. continua simbólico. segundo Freud. maior ou menor distorção da censura interna ou externa. qualquer sonho pode ser dramatizado. podendo desdobrá-lo em outras cenas. Esta. novas cenas. pode-se explorar os seus relato do sonho para que o protagonista tenha a continência e aprovação múltiplos e variados sentidos. O onirodrama trará ao sonhador algum esclarecimento. o próprio terapeuta entra nos papéis. segundo os psicodramatistas. antes de qualquer iniciativa oral. . mecanismos do deslocamento e da condensação. sofrendo sonho verbalmente. havendo possibilidades. este procedi. ou seja. após a dramatização do sonho original no contexto dramático. pois cada elemento seu ou mesmo permitirá o acesso a algum conflito interno importante funciona como significante para muitos conteúdos inconscientes.162 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 163 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO De acordo com Moreno. por isto mesmo. Segundo Monteiro (1993). que devem tação possível de algo inconsciente. 1993). Ao se montar uma cena partindo de um Em se tratando de uma sessão bipessoal. mas são três arquetípicos do inconsciente coletivo. visto que. os egos-auxiliares são conteúdo manifesto (que pode ser uma tradução abreviada de algo mais substituídos por objetos (almofadas). Ao Por outro lado. ainda. podendo até se esgota numa interpretação. o conteúdo de um sonho nunca ao relatar seu sonho. propor a dramatização imediata. inteiramente diferentes). enquanto Moreno desenvolve propõe. do inconsciente pessoal ou coletivo). indicado ao sonhador. que complexo. do grupo. Por (MONTEIRO. enquanto psicodramatista. passível de deformação). seu conteúdo manifesto. numa sessão de grupo acreditamos que é necessário o onirodrama (que é um método expressivo). Moreno enfatizava que se deveria pensamentos latentes. já é uma forma de linguagem. por exemplo. Seja ou não expressão de um conteúdo “desejante” (como dizem tico do sonho. o onirodrama pode ser aplicado em O método permite desdobrar. ciando livremente e. através da técnica da pode desvendar sentimentos. o sonhador pode ir asso- exerce também a função de ego auxiliar. Quando o onirodrama é feito internamente. Isto significa ampliar o sonho sonhando. para que se esclareçam os conteúdos simbólicos em seguida para a dramatização em cena aberta. No entanto. além dos conteúdos Teoricamente. multiplicar imagens e elementos ocultos. os repetitivos esgota.

nos quais eles surgiriam para etc. além do onirodrama.164 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 165 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO maximizar detalhes. não pretende esgotar a interpretação Assim. ciente grupal e do inconsciente coletivo. 43). compreendemos que a psicologia dade do inconsciente. que o são trazidas (através de cena aberta ou internalizada) para o aqui e agora simbolismo onírico dos participantes se aplica também aos movimentos da sessão. Desenvolvemos uma experiência com Grupos Vivenciais de Sonhos Nós utilizamos a concepção de matriz do sonho social com. por sua vez. Mas. Na nossa experiência clínica em psicoterapia bipessoal. ou seja. no grupo (GASSEAU e SCATEGNI. observarmos como uma série de sonhos vai revelando. sem necessidade da formação de cenas sendo este a ponte entre a psique individual e o mundo da vida arquetí. O objetivo é nos levar a alcançar novas dimensões da consciência. As cenas abertas são mais usadas na psicoterapia grupal. levá-los a recordar outros sonhos. abertas. conta. designando fatos conhecidos ou cognoscíveis. um símbolo é a melhor expressão possível para na obra de Jung que encontramos um referencial mais amplo para este algo desconhecido. os sonhos como base para o grupo. No onirodrama. o trabalho psicodramático se alia a uma compreensão junguiana. das associações em ação do sonhador. Quando um sonho é escolhido minada por suas fantasias diurnas. grupal. não apenas os complexos individuais se manifestam. com a valiosa ajuda dos elementos do grupo. Ele é a ponte entre a consciência e o inconsciente e vice-versa. não há interpretação completa. num plano cultural e arquetípico. p. Esta última. não negando as anteriores. Pois. menos identificados. adotando o método sintético-construtivo junguiano aliado ao oniro- binando-a com o uso do psicodrama junguiano. No onirodrama moreniano. é a elaboração secundária do do grupo como um todo e são reveladores de processos do co-incons- sonho.50). além de apenas percebido. os campos arquetípicos aos quais se rigor. drama do cliente. os últimos processo de pesquisa onírica. Mas podemos ir mais além disto. que se sobrepõe às primeiras e nos com o simbolismo presente nos sonhos. O onirodrama. com a ajuda do paciente. Assim como. o mecanismo do deslocamento. Freud propunha uma super-interpretação. o simbo. 2007. Por outro lado. amplificá-los. Uma cena pode nos remeter a outras cenas. explorar conexões entre o protagonista. o A existência destes símbolos nos sonhos faz com que. a sentes nos sonhos serem infinitos. são trabalhados mais frequentemente com técnicas de dramatização Segundo MACIEL (2000. não há onirodrama acabado ou confere uma representação simbólica muitas vezes podem ser mais ou encerrado. visto que considera a pluralidade/multiplici. no caso de onirodrama aplicado em grupos. pode ser vivenciado. ele fazia distinção entre símbolo e signo. mos. o grupo e os indivíduos com vistas no presente. internalizada (ou de video-tape). além da inter. apresenta grandes . É curioso pica”. a princípio. os sonhos lismo do sonho recebe também a influência da cultura e dos arquétipos. paulatinamente. Segundo os psicodramatistas Relato de grupos vivenciais de sonhos junguianos. portanto. os complexos autônomos do cliente podem se manifestar. apesar dos símbolos pre- fornece novos significados. E foi justamente Como para Jung. E no caso da experiência acompanhando sempre o fluxo criativo das imagens. p. para ser dramatizado num grupo. analítica de Jung pode nos fornecer um campo vasto para o trabalho sempre uma segunda interpretação. em que pegamos drama e à dramatização internalizada. As figuras ou imagens oníricas Consideramos. Vejamos a seguir como. “o ser humano é vivido pelo símbolo. seja considerada uma simbólico. na estratégia grupal que desenvolve- interpretação simbólica mais ampla. que nos parece útil e interminável. infinitamente. toda a história compreensível que o paciente pode relatar. no passado e no futuro. O que aparece. ele se torna um sonho protagônico do durante e após o onirodrama. momento grupal. que trabalha a nível dramático a partir onírica a nível dramático. à medida que vamos articulando com o seu conteúdo pretação das associações fornecidas pelo paciente. no caso da psicoterapia de grupo.

facilitando o acesso ao diálogo com as imagens do (etapa opcional): inconsciente provenientes dos sonhos. incluindo os insights que tiveram . marcante deste. Saindo desta internalização dramatizada. o grupo é convidado a abrir os olhos. aqui o relato da nossa experiência. como por exemplo: dora do grupo. na faixa etária de 21 a 45 anos. Ou a verbalizar. personagens. imagem onírica. seus sentimentos.Dialogue entre eles”. etc. o papel de relator. conduzir o grupo para entrar no “papel de ator” do próprio sonho. Avaliar as atitudes positivas e negativas.. ou com outros terapeutas). que durava em média 3 horas. observe o cenário e os objetos. tempo.. e anotar os sentimentos nele descobertos até então. meio e fim). Encontrar também um título para o sonho escolhido. vivência. este processo alternativo focaliza sua atenção no contexto objetivo/subje. detalhes do cenário. sentimentos..O desenlace (a conclusão). c) Relacionar o sonho com questões mais amplas da vida pessoal. rever os detalhes que compõem a mos eliminar assim maiores riscos de projeções do terapeuta. profissionais de nível superior. que poderiam estar gover- aberto. ou seja.Incorpore estes papéis e faça o que cada uma delas faz no seu sonho. do sonho a ser trabalhado espontaneamente. mantendo-se dentro da estrutura. Convidar para re-entrar na ação do sonho escolhido. fechar os O nosso método é não interpretativo.. Alguns trabalhos nesta direção cada participante do grupo para reavaliar o seu sonho escolhido. Apresentação do sonho escolhido através do desenho de uma imagem trama e à dinâmica do sonho. Era freqüentado por no mínimo 6 aflorar dúvidas e resistências). Todas já haviam passado IV. emoção. marcando nosso enfoque específico.166 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 167 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO similaridades com a técnica da imaginação ativa desenvolvida por Jung III. mas agora vivenciando os em geral o roteiro abaixo descrito. predominantemente mulheres. Dramatização Internalizada: após breve relaxamento corporal inicial. 2. convidar o grupo para deitar. a trama). mas introduzimos o Eu onírico faz e deixa de fazer no sonho. Depois de ter vivenciado o ETAPAS A SEREM DESENVOLVIDAS: papel de todos os personagens. na imagem onírica e na 1. no aqui e agora. Exercício de interiorização/reflexão para o processamento do sonho (RAMALHO. penhando o “papel de analista” do mesmo. para atender às necessidades emergentes do grupo. Victor Dias e Fonseca Filho (1980). 2002).. sensoriais e simbólicos. ao invés do seu entendimento conceitual. cada objeto e cada detalhe do seu sonho. as Relatamos a experiência da nossa pesquisa realizada com um grupo atitudes subjacentes. animais) e elementos. entre eles Williams (1980). Tenta. desem- já foram desenvolvidos por outros autores. olhos e entrar no “papel de produtor” do seu sonho. 3. observando seus aspectos dramáticos (da b) Ao abrir os olhos.. passando a refletir sobre o que Gallbach (2000). onde se propõe uma aproxi. a) Após breve relaxamento físico.(. como se sente. mentalmente. 4. em diferentes linhas... mente... etc. Observe como estão em relação à I. clima. Na nossa proposta. Para além do processo associativo desenvolvido pelos psicanalistas.. O terapeuta conduz os participantes para a observação da sua estrutura mação direta do sonho. de produtor. Seguimos “Reviva o seu sonho. cores. (na primeira pessoa e no presente). Refaça todas as cenas.. propomos a elaboração dos complexos: convidar trama onírica). o participante é convidado a experimentar tema. de analista e de ator do seu sonho.). Adote no aqui e agora a postura corporal delas.A intriga (o desenrolar da problemática.. além de transformar as atitudes julgadas negativas no seu oposto (deixar sonhos.. Relato por escrito (e em seguida verbal). Tente ser as várias personagens (pessoas e muito. sua história (início. embora tal estrutura possa variar diferentes papéis e diálogos. Neste momento a ênfase dada é no “papel de relator” V. que se reunia uma vez por mês para um laboratório vivencial de nando as ações do Eu onírico. valores.Dialogue e interaja com eles. etc.. II..A exposição do sonho (local. dramática..)... mas enfo. e no máximo 10 pessoas. Reconstrução do sonho (etapa opcional): re-escrever o sonho criativa- do sonho. Seus sentimentos e sensações. tivo dentro do próprio sonho. Enfocar: cando nossa atenção em três níveis: na narrativa..A culminação (o ápice do drama). ou estavam passando por psicoterapia individual (com a mesma facilita. E seja este espaço....

naquela prisão. dramatizou-as. que parecem meu pai Experimentou ali a sua continuidade. desespero. ela teria de encontrar uma outra saída. Mas. em que se deparava com luta de forças opostas. não é aplicado rigorosamente nesta ordem e nem sempre todas as etapas são cumpridas. Tinha medo de voltar para casa e ser castigada. Concre- escrito. estudante universitária. Não queria piedade. trazendo outras cenas de sonhos e meu irmão. Queria liberdade. Foi convidada a continuar dramaticamente o sonho. Trouxe estas cenas de perseguição e sonhadora foram medo. estou correndo. diferente da aponta- Decidi fugir pelo telhado. egos auxiliares: uma moça (para representar o seu papel) e dois rapazes desenha seu sonho escolhido e o relata por escrito. ou teria que lutar. me perseguindo com arco e flecha nas mãos. ameaça. Parei e questionei porque eles queriam me manter prisioneira. Passaremos em seguida a relatar dois exemplos todos terem lido e compartilhado este novo relato. pois depende muito da aceitação do grupo e do Após todos do grupo re-escreverem o seu sonho. VI. pediu para parar a dramatização. O grupo escolheu por unanimidade o sonho dela e a participante aceitou trazer o Caso 1: seu sonho dramaticamente. agressividade. A cliente é uma moça de 22 anos. Eles me escutaram Esclarecemos que este esquema anteriormente descrito é apenas e se arrependeram do que estavam fazendo” (sic). medo que eles me capturem e me levem de volta para casa” (sic). juntamente com o seu sonho. Dramatização do sonho ou da sua re-criação (da sua realidade suple. dois homens. com a ajuda de três mora com os pais e dois irmãos mais velhos. com muito medo. perdida. com várias inversões de papéis. até construir uma nova cena. mas isto a mim não era permitido. fugir.168 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 169 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO até então. Ficou acuada. enfrentar os perigos e ameaças. No meio da cena. Decidi fugir. escolhida como protagonista. percebeu que os dois homens não “topariam” um diálogo de forma “Liberdade com ameaças: Eu estou em casa com vontade de fugir. e seu nível de envolvimento. muita pressão e agressividade contra mim. Ao re-criar o seu sonho por “a escuridão”. Após ampliar o sonho. correndo muito e assustada. . Há duas pessoas. me sentindo triste e frontou-se e dialogou com eles. o “desconhecido”. alguma. fui esperta: quando percebi que havia grupo (os sonhos protagônicos). Montou inicialmente a cena do sonho original. Parei de correr e ousei falar tudo que estava preso na minha VII. Descrevemos abaixo (para serem seu pai e irmão). Foi. Assim como todos do grupo. da no seu relato. Havia sonhado que tomava um ônibus. os sentimentos associados ao sonho pela perseguida por homens marginais. recriando-o. solteira. e com a própria “insegurança”. mas o mentar): É o onirodrama propriamente dito. didático. queria compreensão e respeito. com muito custo iria esca- par. estavam. escreveu: tizando estes sentimentos com a ajuda de mais três egos auxiliares. con “Liberdade por diálogo: Eu estou em casa. repressão. Trarão suas cenas para desespero era grande. se eles não esta- vam felizes comigo nem eu com eles. Estou com posteriores a este. Dramatizamos esta cena de sonho. garganta. ao grupo que fosse escolhido um sonho para ser dramatizado. Chegava numa favela e era No compartilhar grupal. dramatizar somente os voluntários ou aqueles sonhos escolhidos pelo repreendida pelo que fiz. Neste momento. dar um novo final e um novo título a de tomar uma decisão: ou eu me conformava e aceitava as coisas como ele (se desejar). decisão e iniciativa. sendo entrevistada em o seu relato inicial do sonho e o título dado a este: todos os papéis e também observando a cena através da técnica do espe- lho. sem saber onde ia parar. Tinha muito emocionada. mesmo que tivesse medo e que não desse certo. a terapeuta propôs de participantes destes grupos. Compartilhar de sentimentos no grupo e comentar da experiência.

a terapeuta propõe a todos o exercício de Dramatiza- e repressor. Os empregados do castelo não falam a “Continuando o sonho onde parei. E eu preciso sair do castelo. sonho e investigar o papel de todos os personagens. da minha cidade. são muitos homens. mas só a boneca fala a minha língua. A cliente tem 40 anos. Lembram também o meu presente. Percebeu quanto a questão da liberdade. “Do outro lado da vida: Não sei por onde andei. percebeu tes. que não quer mais passar por necessidades financeiras. de nós duas. estudar fora. boneca à sua filha e a uma parte dela mesma. Depende financeiramente do marido. Acordo. A sonhadora escreveu: maltrata muito. A acolhida e a revelação dos outros membros. decorrente inclusive da ausência da sua mãe na sua vida. da falta de criatividade. Os fundamentalistas correm atrás dali. Após “penetrar” na vivência interna do seu e cultural. sem vida. em casos de ansiedade. E se pergunta: “será que eu não o trato bem? E não trato bem a minha filha?” (sic). lá fora ficam os fundamentalistas. A boneca de repente ganha vida e a gente tenta fugir cesa e saio do castelo. e que alegando querer separar-se do mesmo logo que concluir um segundo vive encastelada. não resiste e eu acho melhor que ela pule o muro de volta para o .170 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 171 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO No momento final de compartilhar os sentimentos com o grupo. pânico. radicais na religiosi- sentimentos semelhantes. como abaixo: porém esperto e criativo. A boneca diz que não. mas cheguei a A sonhadora é convidada a montar dramaticamente a cena do seu um castelo medieval e lá haviam duas pessoas. Uma mulher de branco sonho e a recriar a cena na dramatização (fazer a extensão psicodramática (uma princesa alta) e uma boneca. Associa a princesa ao seu lado acomodado. A cliente questionou a imagem negativa do masculino (repressor. que tentam nos pegar. que compartilhavam de do meu pai. da infelicidade. possui uma filha adolescente (do primeiro casamento) e está no seu segundo casamento. embora trabalhe. listas ao seu passado e ao seu presente. Associa as figuras dos fundamenta- namentos afetivos com o sexo oposto.. o que foi à boneca se ela gosta da princesa. conforto. “Lembram a minha infância. da indife- rença. dos padrões. esta sonhadora ouviu quanto os sonhos de perseguição são comuns a angustiada” (sic). moça por várias vezes.. consigo negociar com a prin- minha língua. ir até uma espécie de embaixada. que ela lhe dramatizado. determinação. é uma questão coletiva ção Internalizada do sonho. brutos e radicais. “certeza fechado ao diálogo) que traz dentro de si e como isto afeta seus relacio. ao seu lado mais infantil. de que um dia vai conseguir” (sic). eu me confundo com a do sonho). eu fugindo dos modelos prontos. forneceram muito apoio e alívio à angústia dade e nos princípios). sobreviver. do desejo de diferenciação do feminino perante o masculino patriarcal Em seguida. Nesse ponto. todos. Pergunto o terapeuta solicita que ela re-escreva seu sonho recriado. principalmente na sua faixa etária. compartilha com o grupo que. alegando: dianas para o grupo. nunca mais eu vou conseguir sair daquele lugar. da falta Caso 2: de delicadeza. vontade de fugir. correr. eu fugindo da igreja protestante. que gosta de viver no tra satisfeita. porém nele não se encon. na sua internalização. Após desenvolver a cena com a ajuda de egos auxiliares. Neste momento. Mas. revelando estas dificuldades coti. enfrentando dificuldades desta cliente que foi revelada através do seu sonho. Associou a curso superior. Após desenhar a imagem central do seu sonho escolhido. financeiras para sair de lá.” (sic). da minha família (pessoas submissas. sentimentos de medo. com a boneca. eu peço ajuda para ir embora. mas protegida pelo atual marido. A mulher vivia sozinha com a boneca. esta sonhadora Muitas mulheres do grupo relataram que tiveram sonhos semelhan. do machismo. Teve alguns insights relativos a uma imagem do feminino frágil. A boneca cansa de Se eles me pegam. o relata e o titula.

Obras Completas. pois preciso aprender a falar com eles. suas dificuldades de exercer o seu papel de flitos e demais conteúdos emergentes. podem emergir no material inconsciente dos sonhos e serem apro- interiores. um tanto tilhar. ideologicamente.. como o seu processamento. Reconheceu no sonho uma imagem da sua situação real atual e um dade grupal. sonhos na sua prática clinica. cer ainda mais o nosso trabalho.. mente. a sonha.e estou impotente” (sic). assim. a percepção télica do grupo ajudou-a a perceber cação do sonho em ação e da reflexão coletiva que se segue ao compar- alguns aspectos sombrios. para chegar à embaixada.. Torino. clientes tragam sonhos para serem trabalhados dramaticamente. como propõe o psicodrama junguiano. Ed.. O psicodramatista precisa Referências bibliográficas lembrar que ele pode trabalhar com sonhos. 2003. o catarse de integração coletiva a partir do trabalho com sonhos em grupo.. pois é sustentada pelo marido e. através da vivência em ação. os sonhos podem ser compreendidos e trabalhados a partir do referencial moreniano e. Marion. quanto é radical em muitas ocasiões. inclusive se comunicar melhor com a sua “princesa interior” (uma do grupo. 2000. com o ganho Associando em seguida à dramatização realizada e à recriação do da ampliação da consciência do cliente. Lo Psicodrama Junguiano.172 Cybele Maria Rabelo Ramalho O ONIRODRAMA NO PSICODRAMA GRUPAL: 173 UMA ESTRATÉGIA ENTRE O DRAMÁTICO E O SIMBÓLICO castelo. prá junguiano. aparentemente oposta aos seus valores conscientes). reflito e me aclamo. Bollati Boringhieri. terápico. poderemos enrique- Finalizando. que interage e participa da dramatização. Acredito que o campo está aberto para que os psicodramatistas possam desenvolver novas técnicas para inves- Acreditamos que o psicodramatista tem trabalhado pouco com tigar os sonhos. vimos neste capítulo que os sonhos podem ser pensados como GALBACH. & GASCA. Madrid. 1948. para além da per- comunicar melhor. pelo indivíduo e pelo grupo. como observador- figura de Sombra. Giulio. Nesta etapa do priados conscientemente. São Paulo. Maurizio. a espontaneidade criadora e os vínculos ali desenvolvidos bom aviso ou mensagem do seu inconsciente para que aprendesse a se que vão colaborar. Enfim. com mais cautela. Sigmund. desta vez com a colaboração do grupo. Paulus. por outro lado. mas não consi. . é fundamental no processo de elucidar con- Trouxe. possibilita uma fluência espontânea e criativa ao trabalho psico- desenvolver melhores meios de me libertar. Eu continuo correndo. facilitando não só a emergência de conteúdos inconscientes. o poético e o mítico. mas percebemos que a contribuição de Moreno é muito enriquecedora e dá vida ao trabalho interpretativo que é feito pelos psicanalistas ou analistas. com seus lados opostos e radicais sona. em especial observamos a possibilidade de chegarmos a uma “princesa demais”. Sinto que ainda não estou preparada que o trabalho com sonhos. envolvendo o contexto sócio-histórico-cultural. a participação radicais. Vol. ou em teorizações. participante ou ego-auxiliar. Real. Biblioteca Nueva. o quanto ela é também acomodada. se acrescentamos e este uma compreensão arquetípica. pois o onirodrama era uma técnica muito privilegiada por Moreno e. cenas seqüenciais de uma trama que envolve não somente o inconsciente pessoal como o coletivo. A Interpretação dos Sonhos. o ganho não se resume ao seu sonho por escrito. dentro de uma perspectiva do psicodrama para fugir. Aprendendo com os Sonhos. Mas. II. Mas. pois senão não poderia se libertar realmente. nem acho a tal embaixada. GASSEAU. através da colo- compartilhar grupal. estimular para que seus FREUD. Complexos e conteúdos sombrios. Neste capítulo.. com estes breves exemplos que preferimos não apro- go falar a língua deles. concluímos afirmando de volta para o castelo também. dora concluiu que precisava aprender a negociar com os seus opostos Nesta estratégia que desenvolvemos neste capítulo. Canso e pulo o muro fundar em interpretações. Neste momento é a tele-sensibili- mãe. plano pessoal.

Clark. em círculo. São Paulo. Wilma. Summus Ed. O presente capítulo descreve o uso das Danças Circulares Sagradas MORENO. São Paulo. 2007. Mauricio & SCATEGNI. . Petrópolis. Jung. São Paulo. vol. Psicodrama. uma condição mais harmoniosa consigo mesmo e com o coletivo. Brasiliense. W. As Danças Circulares Sagradas (DCS) podem ser definidas como um conjunto de danças praticadas de forma grupal. descreveremos a inter- SILVEIRA. O Homem e seus Símbolos. Manuela (editores). no Paulo. 2000. conteúdos inconscientes de caráter pessoal. 1999. Maria Virginia Souza Alves ________. Rio de Janeiro. Na interface com RAMALHO. São Paulo. ________. vol. Summus. Robert. BURMCISTER. C. Vozes. e avalia sua eficácia como meio para ________. 1983. Cultrix. Summus. as Danças Circulares Sagradas foram MONTEIRO. São Paulo. Além de uma contextualização histórica e cultural das Danças ROBERTSON. 1993. com foco no átomo familiar39. Aproximações entre Jung e Moreno. Memórias Sonhos e Reflexões. 1964. Cultrix. 1987. da psicologia analítica e do psicodrama junguiano. e levando-os a MARONI. 1963. Cultrix. Jung. Na experiência relatada. Danças circulares sagradas: um recurso HUMBERT. 1995. Murray. 2000. Cybele. Técnicas Fundamentais do Psicodrama. no aquecimento psicodramático. a maioria das vezes ________. Fundamentos do Psicodrama. 1975. Petrópolis. suas formas originais ou adaptadas – como também coreografias criadas para músicas clássicas ou modernas. Ab-reação. Jung. XVI. 1998. Cultrix. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.174 Cybele Maria Rabelo Ramalho 175 GASSEAU. São Paulo. vida dos dançarinos. Vozes. nados e esta prática. contexto de um Curso de Formação em psicodrama. 4ª ed. James. 2002. repercutindo na sua saúde mental. 1998. Coleçção americana: Tayola and Francis Inc. Vida e Obra. Guia prático da Psicologia Junguiana. O Eu e o Inconsciente. o Átomo Familiar”. análise dos sonhos e transferência. Corintha. In: BAIM. Psicodrama Junguiano: do teórico ás raízes criativas. vol. Amnéris. Jorge & MACIEL. Jung e a Interpretação dos Sonhos – manual de teoria e C APÍTULO VIII prática. Vozes. Nova Fronteira. Paz e Terra. o poeta da Alma. A prática da Psicoterapia. Ágora. observa-se como este recurso facilita o acesso a Ágora. Nova Iorque..). 39 O conceito de átomo familiar será descrito na seção “Dançando em família: STEIN. C. arquetípico no psicodrama junguiano JUNG. 1985. C. o mapa da alma. Almeida (2005) destaca a melhora na qualidade de São Paulo. São Paulo.W. Carl Gustav. Petrópolis. apresentaremos conceitos da teoria socionômica. Jung. Circulares Sagradas. São Paulo. Mitodrama – o universo mítico e seu poder de cura. grupal e arquetípico. propiciar a manifestação da espontaneidade e criatividade nos grupos terapêuticos. São utilizadas em uma vivência grupal. Nova Fronteira. 1992. W. 1987. HALL. Elie. a psicologia analítica. Englobam danças tradicionais oriundas de vários povos –em ________. VII. Regina (org. Dentre os benefícios correlacio- MACIEL. Jacob Levi. Nise da.XVI/2.

desvinculada de qualquer religião formal. . Na pré-história era apenas uma descarga rítmica e espontânea Entretanto. ainda. p. era a espiritualidade da dança. um objetivo e uma época própria para ser dançada: nascimen- os resultados observados. res e. que acredita que ela transforma removendo bloqueios e Wosien pesquisou e catalogou um vasto repertório de danças tradicionais condicionamentos. variando a intensidade com que cada uma dessas dimensões é o outro e com o próprio ritmo da vida. Cada dança tinha. Por sua natureza grupal. personalidade e nada a pessoa que tem a responsabilidade de escolher o repertório. O potencial terapêutico das danças circulares é descrito por Anna A partir da década de 1960. ao descobrir a dança. realizou vários workshops na Fundação Findhorn. mas psíquicas. Moreno (1993. a denominação danças sagradas já havia se de energia. ensinar os movimentos e liderar o grupo – podem ocorrer pequenas em linguagem não verbal. sentimentos em forma de movimento. com o sagrado. a partir de 1976. De acordo com o focalizador – como geralmente é denomi- possibilita a comunicação de idéias. das se espalharam por vários países e receberam várias denominações. Bernhard iniciou um movimento de divulgação das danças circula- Menegazzo afirma que o “homem primitivo. e analisaremos nas aldeias. que denomina autocatarse. Conforme relata Anna Barton. juntamente com seu corpo. Afirma. 18) que Moreno redescobriu as “qualidades resolutivas que são tais como danças circulares. agradecimento aos deuses. Danças Circulares Sagradas. finalmente. com os demais. discípula direta de ator-dançarino que dança para curar-se. O conjunto de danças catalogadas foi batizado por ele Primeiros passos como “Dança Sagrada” em alemão “Heilige Tanze”. e menciona duas possibilidades: a do de abordagem. ou a um determinado deus por algo que havia sido alcançado. danças da paz universal. símbolos. E. casamentos. o bailarino e coreógrafo alemão Bernhard Barton (2006). a integração do ser consigo mesmo. p. Em seu livro Psicodrama. p. 19). Mas todas elas têm em comum a intenção de proporcionar Através da dança expressamos os sentimentos de uma maneira física.176 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 177 venção psicodramática na qual se utilizaram as danças. gradativamente evoluiu. Conectamo-nos com nós mesmos. tos. corporal e psíquica. p. A partir de lá as danças sagra- e da harmonia expressiva de todo o ser” (1994. Para Almeida (2005). O psicodramatista Carlos M.. o caráter arquetípico das 40 O conceito de catarse será tratado adiante. você provavelmente obterá vinte definições diferentes” tando uma catarse40 coletiva. com a natureza e com integrando o corpo e a emoção. a dança priorizada. padrão de passos. a dimensão social se faz presente nas danças circulares. “Se você perguntar a vinte diferentes dançarinos o do ator-dançarino que co-experimenta a dança com um grupo possibili. (2006. 17). Ao mover-se o corpo expressa. lançou-se. (Ibid. 273) faz alusão à dança Nas Danças Circulares Sagradas são muitas as nuances e variações enquanto ferramenta terapêutica. bem como seus significados e medida em que os movimentos possibilitam uma maior consciência simbolismos nas comunidades onde eram dançadas. enquanto o que ele pretendia expressar A dança é considerada a mais antiga manifestação artística da huma. nidade. imagens. à busca da unidade. mudanças positivas não apenas no corpo. já que a expressão “sagrada” suscitava conotações religiosas. pedido de chuva para a plantação. para um difundido e persiste até hoje. àquela altura. vivência da transcendência. Esta prática propicia a integração psique-soma na e folclóricas de vários povos da Europa. gestos e posturas fixos. conforme Wosien(1996). Anos depois – Contextualizando as Danças Circulares Sagradas sugeriu a mudança para Cura Holística. e a Bernhard Wosien. que ela significa. potenciais adormecidos que produzem diferenças tanto nos objetivos quanto na condução grupal. do equilíbrio uma ecovila situada a nordeste da Escócia. quando discorrermos acerca da estrutura imagens simbólicas presentes nas Danças Circulares Sagradas propicia a da sessão psicodramática. danças circula- a essência do rito da dança e do drama” res dos povos. dentre outros.

e no compartilhar se explicita verbalmente Marriot. ção da espontaneidade visando uma mudança estrutural ou catarse. Diversos focalizadores. não cronológico. As duas alternativas podem conduzir a um replaneja- espontaneidade e criatividade. e a realiza. as A sessão psicodramática Conservas Culturais41 e os papéis cristalizados. e Espontaneidade e Criatividade vez que. forma de expressão artística podem sugerir os iniciadores corporais e a dança como forma de expressão. poderão danças indígenas. Encontrar o ponto ótimo de aquecimento. mento e uma reorganização afetiva (RAMALHO. etc. cerca de 200 focalizadores e praticantes de todo o país. na dramatização. o desafio do psicodramatista. na região de Nazaré Paulista. processa em três etapas: aquecimento. o protagonista. escultura ou outras formas de artes plásticas poderão ção do EBDC – Encontro Brasileiro de Danças Circulares que tem reu. assim como aqueles que utilizam a dança como nido. átomo familiar. corporal.178 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 179 As DCS foram trazidas ao Brasil. Ao representar tal estrutura gônico o átomo familiar e pretendia avaliar se o uso das Danças Circulares relacional pode ocorrer uma tomada de consciência ou uma emoção Sagradas no aquecimento psicodramático resultaria em incremento da desestruturadora. anualmente. A partir de lá. têm contribuído para a disseminação das Danças Circulares aquecimento. Perazzo (2008) enfatiza que cada psicodramatista criará sua própria A prática vem se expandido no Brasil. Dentre estas. em que a tensão não Dançando ao som de conceitos socionômicos seja tão pouca que não permita a estruturação da dramatização. aqueles com formação musical. ou mental. 2002). No geiros. situa num tempo emocional. nem tão intensa que provoque uma euforia agitada é. cirandas e outras danças folclóricas no repertório das propor a música como recurso no aquecimento. nos encontramos com o âmago do neidade e criatividade”. realçar este recurso. Ela se a inversão de papéis se fazem presentes. movimentos sociais. Ao representar o sujeito vai reconstruindo os registros simbólicos. os que provêm de gru- Danças Circulares Sagradas. verbal. através da ação. que havia morado na Fundação Findhorn durante alguns anos o que aconteceu e como foi vivenciado e sentido pelos participantes. . no qual é possível a atua- riais e movimentos holísticos. A cena dramática permite colocar em xeque os mitos negativos. produção de trabalhos acadêmicos (inclusive pos teatrais poderão enfatizar o teatro espontâneo. faremos técnicas básicas do psicodrama como o solilóquio. brasileiros e estran. da inclusão de danças circulares em eventos de outra natureza. e veio iniciar um trabalho de educação holística no Centro de Vivências Para López Barberá e Knappe (1999) o aquecimento possibilita o de Nazaré. não necessariamente como eles são na realidade. mas conforme já mencionado. Sagradas no Brasil. representa aquecimento. dando ênfase a alguns aspectos do Na fase de dramatização. o espelho e alguns comentários acerca da estrutura da sessão psicodramática. através de workshops específicos sobre o tema. citamos: a inclusão de danças brasileiras – como as Assim. SP. por Sarah psicodrama. seus vínculos. na década de 1980. como ele próprio. É na ação dramática que as Embora seja um conceito basilar na teoria socionômica. a estrutura da sessão psicodramática. o duplo. consultores empresa. a experiência descrita teve como tema prota- como são na sua estrutura vincular interna. No aquecimento. auditiva. a partir das mais diversas forma de fazer psicodrama utilizando os recursos que melhor domina. os iniciadores utilizados podem ser de natureza emocional. dramatização e compartilhar. os que se expressam dissertações de mestrado e teses de doutorado) acerca do tema. através da pintura. conforme afirma Aguiar Focalizaremos alguns conceitos da teoria socionômica. se difundiram surgimento de um estado psicobiológico especial no qual o sujeito se entre grupos de educadores. acontece a preparação para a ação dramática que ocorre 41 Mais detalhes acerca de Conservas Culturais na seção “Dançando com esponta- na etapa seguinte. a ênfase na ação. tais como (1998). iniciativas. visual.

Assim. não se fala do pro. Assim. precisão como o capítulo 4 no livro Psicoterapia da relação: elementos de psicodrama e distinção entre os conceitos de espontaneidade e criatividade na obra contemporâneo. Se. alegrias e esperan. quando posto em andamento. comen. ao contrário. José. enquanto a espontanei- ças no protagonista. os mesmos outras pessoas significativas que rodeiam a criança e que constituem a base de seu comportamentos são conservados.180 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 181 O objetivo do psicodrama é o atingimento da catarse de integração. saindo mental. Ainda sobre a matriz de identidade. do “como se” (RAMALHO. ao contrário. cada participante deve falar da sua vivência e sentimentos. Ø Se. medos. mas não sempre em criatividade. Não tagonista. denominada compartilhamento. “Psicodrama: descolonizando o imaginário”. Indica seu uso em três situações: capacidade de o indivíduo agir de forma “adequada” ante as situações novas. tal como Na visão moreniana o homem é visto como possuidor de espontaneidade. visto poderá identificar como foi tocado pela cena e quais os aspectos da sua que buscamos a manifestação de respostas novas que provoquem própria história que foram mobilizados. Matriz de Identidade42 do cliente. originam-se Conservas Culturais e aprendizado emocional para o desempenho de papéis. E de lá extrai indicações tais como: tui-se em um ato básico. II (1996). 21-34. 2002). São Paulo: Ágora. . estamos diante da criatividade. vol. dos papéis nos quais estavam ancorados. formada pelos vínculos com os pais e respostas às situações que se apresentam. Os participantes de Ø Espontaneidade implica sempre um grau de adequação e origi- um grupo de psicodrama se beneficiam do processo catártico na medida nalidade. A espontaneidade é. para Moreno. Ø Se uma mudança é inspirada por uma conserva cultural está em A fase final do psicodrama. fasc. Para tanto. quanto pelo grupo. tanto partir de conservas culturais ou de idéias e imagens mentais. 2000. do mesmo autor. sileira de Psicodrama. a tantes no processo de psicoterapia. Depois de ter depositado suas angústias. A criatividade é comparada à substância. 4. considerando relevante identificar se tais mudanças foram geradas a Esta última etapa permite que se dê continuidade à reestruturação. em que este. tários ou análise. bem como seus vínculos. tomada como modelo. que se caracteriza pelo relato de vivências e emoções. resolutivo e de transformação criativa. Para uma discussão mais profunda vide: FONSECA. Ele considera esta cena como uma das mais impor- criatividade e sensibilidade inatas. fora do grupo. constitutivo. se o sujeito age com espontaneidade estará criando novas 42 A matriz de identidade é a “placenta social”. É importante dade ao catalisador que a faria entrar em ação. que cada membro do grupo volte a focar a atenção em si mesmo. modificações positivas nos aspectos relacionais e intrapessoais. Para a nossa análise. busca elementos tanto pelo protagonista. neste momento o grupo reaparece. operação a originalidade. nas obras de Moreno. O mesmo artigo aparece Naffah Neto (1997) enfrenta o desafio de trazer mais clareza. proporciona sequências de Ø A originalidade é entendida como uma ampliação ou variação atos catárticos. foram internalizados. Dançando em família: o átomo familiar Dançando com espontaneidade e criatividade O átomo familiar é definido por Victor Dias (1996) como uma dramatização através da qual são concretizados os personagens da Espontaneidade e criatividade são o núcleo da teoria socionômica. Nesta fase. utilizaremos a expressão composta espontaneidade-criatividade. Assim. Moreno a comparava a novos nascimentos. quanto dos aspectos intrapessoais de cada participante e dos vínculos relacionais cotidianos. Revista Bra- perde-se a criatividade. A catarse de integração consti. da rede de vínculos intragrupal. a mudança é inspirada por uma idéia ou imagem contribui para que o grupo volte a se situar no plano da realidade. permite-se que vários indivíduos se desapeguem única em torno da Conserva Cultural.

Alguns rituais da espécie relação a cada um dos personagens. p. transição consciente/inconsciente. os símbolos “alcançam dimensões que o de inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. após o nascimento. o inconsciente WOSIEN. Transmitem intuições altamen- Ele caracterizou o inconsciente pessoal como materiais derivados te estimulantes prenunciadoras de fenômenos ainda desconhecidos”. nas dimensões profundas da alma. desencadeia-se o processo de transformação (WOSIEN. As manifestações arquetípicas determinam a vida individual usando a distância física para indicar a distância afetiva que sente em de forma invisível. Jung utilizou o termo arquétipo para designar que ele coloque os objetos em torno de si. os aspectos arquetípicos não são presentes apenas nas danças tradicionais. independente Algumas de minhas pacientes de sexo feminino não desenha- de condições hereditárias. que também Os símbolos surgem enquanto representações dos arquétipos e fazem a poderiam ser conscientes” (Jung. em Estudos Alquímicos: profunda da psique humana. por qualquer motivo ou por qualquer tempo. como almofadas ou bonecos. 11). Entendia o seu conteúdo como uma com- binação de padrões e forças universalmente predominantes. inconsciente é tudo aquilo que é desconhecido. Mas. 81). familiares ou sócio-culturais às quais estivesse vam. básicas do psicodrama. representadas na dança meio da relação com o outro. formas Acertando o passo entre o psicodrama e a psicologia analítica geométricas e padrões coreográficos presentes em coreografias modernas se interligam e relacionam nas danças circulares. p. aprofundando-se na noção de arquétipo” possuem o poder de restaurar. 2002. isso se chama: mandala submetido o indivíduo. permitindo assim o desenvol- de pesquisa de Jung recaiu sobre o inconsciente. p. Mesmo os personagens já falecidos humana provêm de uma base arquetípica. 2) para mobilização das figuras do mundo Não podemos ter acesso direto ao inconsciente coletivo. Como resultado da repetição dos arquétipos em Para Jung. que significa dança mandálica. irmãos e outros No inconsciente coletivo se encontra um conjunto de padrões de parentes com os quais conviveu por longo tempo. e 3) para a localização do cliente e dos personagens mos inferir sua existência por meio de imagens e símbolos que surgem na dinâmica familiar. Na visão junguiana. Na maneira tradicional de aplicar a técnica. (RAMALHO. Tornam acessível a energia psíquica. às quais denominou Nise da Silveira (1981. 2006). sentar cada elemento de sua família de origem. com base devem ser representados. tais padrões. O principal interesse e o que ainda não sabemos (inconsciente). com seu universo inconsciente. A influência da dança sobre o inconsciente. 2004. Jung preferia o Encontro do indivíduo através dos gestos e do trajeto que os dançarinos percorrem no espaço. foi citada por Jung. mas dançavam mandalas. A dramatização continua utilizando as técnicas arquetípica. Tais símbolos são capazes de juntar o que conhecemos (consciente) cia. As imagens primitivas. enquanto movimento. Alguns movimentos. da “vida individual e em parte por fatores psicológicos. ou do objeto que o representa. Seus efeitos. originárias da tradição popular. nritya. denominou de inconsciente coletivo a camada mais símbolos.182 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 183 1) no início da psicoterapia. são imagens simbólicas “Enquanto Moreno privilegiava o Encontro consigo mesmo por de caráter arquetípico. inicialmente pede-se Nascemos com ele. posturas. ção ou sua origem podem ser reconhecidos no passado do indivíduo. mas pode- interno do cliente. Suas investigações o vimento da consciência. nós. 16) o equilíbrio perdido. formações. para repre. Solicita-se em seguida comportamento universais. enquanto que o inconsciente pessoal é criado por ao cliente que utilize objetos. de maneira recorrente em mitos. Segundo levaram a diferenciar duas instâncias no inconsciente. inclui todos os conteúdos psíquicos que se encontram fora da consciên. As figurações da dança têm . sua manifesta. atuando através de Em contrapartida. Dentre estes rituais. consciência é tudo que conhecemos. 2007. conhecimento racional não pode atingir. Na Índia. sonhos e folclore de diversas culturas. pais. podemos incluir algumas Danças Circulares Sagradas. gestos. autônoma e inconsciente.

e Dança da Lua Crescente. ou qualquer outro elemento do arquétipo. Estas se desenvolvido mais intensamente. Para algum elemento decorativo. enquanto que o semicírculo representa a lua. sentimentos e imagens que possuem um núcleo arquetípico. Jung começou a encarar a análise individual e a centro. representam os fluxos ou ciclos o psicodrama com a teoria analítica de Carl Gustav Jung. enquanto na terapia individual se investigaria a polaridade individual uma vela. arquétipos e individuação. E o arquétipo da fraternidade O mandala. ou o arquétipo da união. Os próprios pacientes quase caráter atemporal. tantes inovações de Moreno (como as técnicas do duplo. a ligação do homem com seus semelhantes e o efeito dogmática. inversão de papéis). Gasseau e Scategni (2007) afirmam que esta abordagem. mente referido. Nas Danças Circulares Sagradas os arquétipos podem ser obser. O A partir de então. liza os complexos emocionais43 e pode possibilitar a revelação de dificul- Assim. já que em português os substantivos terminados em “a” são do gênero feminino. espelho e o sentido desta se inverte no ponto central. em 1955. que o psicodrama junguiano tem símbolos fundamentais por Chevalier e Gheerbrant (2006). no qual individualidade e coletividade se opõem (Mysterium conjunctionis). Maurizio Gasseau. esta abordagem formas geométricas. é frequente. ele. dos sonhos. grifo nosso). os benefícios obtidos através da prática das Danças Circu- lares Sagradas não se originam apenas da vivência simbólica em ter. substantivo masculino oriundo do sânscrito. aspectos arquetípicos que se apresentam nada podem dizer acerca do sentido simbólico dos mandalas. Reconhecem que exprime algo Dentre as danças utilizadas nesta pesquisa. e meandros são também formas simbólicas presentes nas danças que. 2002. vados também nos gestos. O simples gesto de dar as mãos representa. que ela pretende ser versátil e de larga aplicação. estão forte- privilegiou a dramatização de conteúdos oníricos. portanto. erroneamente. 30. O círculo representa. Gasseau e Scategni (2007) afirmam que esta dade e imutabilidade. contrário à investigação dos ta o mundo revelado. 43 Conteúdos psíquicos agrupados em torno de um tema emocional comum. Nas danças nas quais ocorre a formação em espiral. cristais. também. As espirais ser em relação com os outros. uma planta. o sol em sua totali- sonhos na terapia em grupo. devem-se. Em sua origem. destacam-se os aspectos e que atuam sobre seu estado anímico subjetivo (JUNG. Acrescentam. com elementos da psicologia profunda. a cruz e o quadrado são considerados quatro Wilma Scategni e Donatella Mondino. que pode ser uma flor. é frequentemente assinalado por psicoterapia de grupo como complementares e igualmente úteis. a “coniunctio”. mas se sentem fascinados por eles. ainda. também. inicialmente. como “a mandala”. ao invés de estreita e arquetipicamente. através de autores como Giulio Gasca. Segundo eles. através das danças Meryen Anna p. E a vertente italiana mente presentes nas formações das danças circulares. O círculo. arquetípicos ligados à “Grande Mãe”. na terapia em grupo se elaborariam os temas coletivos do que o focalizador ou o grupo escolham para esta função. de um arquétipo transformações. harmonia Dançando ao som de duas bandas: o psicodrama junguiano e transformação É na Itália. que articula segundo Maria Gabriele Wosien (2004). inconsciente coletivo. é o símbolo para o princípio da criação e sua circunferência represen- Embora Jung tenha sido. combina impor- ordenados da vida. de gendo pensamentos. nas danças. Murakata (2002) destaca que este é um símbolo universal de integração. principalmente o círculo e o centro. abran- mos pessoais. a aspectos inconscientes coletivos. vivenciado através das danças Kós e Araruna. incensos. . e as postura se modificou a partir da elaboração. nas rodas de danças circulares. o centro. no psicodrama junguiano a dramatização foca- sinérgico da coesão grupal. O “Arquétipo do Pai” mobilizado através das danças Semah e Meditação do Sol.184 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 185 o mesmo sentido que as do desenho. velas. O centro do círculo é representação simbólica da origem da luz. um arranjo de flores. O círculo vazio ainda é bastante apegada ao tema dos sonhos.

arquetípicas. Observar a emergência de conteúdos ou imagens rar o material que emerge. . este conjunto de técnicas e táticas permite a emergência. seja em sonhos ou em dramatizações. bólico se constrói com maior facilidade. 2009). criatividade. abre-se espaço para que o processo de individuação de cada integrante Destacam. escultura. propiciando um efeito catártico integrador. Segundo Zuretti. e o verdadeiro encontro aconteça com respeito à junguiano de inconsciente coletivo e os conceitos morenianos de tele e alteridade do outro e à singularidade do indivíduo (Ibidem. 44 Minha gratidão a Valdenice Sobral que co-dirigiu a vivência e a Cybele Ramalho cionais. máscaras.186 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 187 dades emocionais significativas e bloqueadas no protagonista. Semah. poesia. psicodrama junguiano. através da amplificação ou da unidade funcional. como seguidora da abordagem. 2009). neidade e criatividade. a “manifestação espontânea de matista Manuela Maciel. não apenas como em série. Menegazzo e Tomasini (2009). também. Assim. tais como: a idéia de que a representação de um papel junguiano. com os demais. 2007. para a tomada de consciência. O repertório escolhido abrangeu as danças Kós. que ela favorece a integração entre o conceito do grupo tenha lugar. leva ao amadurecimento do Ego. junguiano. é tarefa do diretor. seja ela arquetípica como técnica que desperta o potencial criador. 2009). música e objetos intermediários como técnicas úteis ao imagem internalizada do pai e aspectos arquetípicos. p. Meditação do Sol e Dança da Lua Cres- arquetípicos. a realização simbólica Passamos agora ao relato da vivência44. a relevância do con- homem. Culturais e buscando resgatar a espontaneidade-criatividade. No psicodrama junguiano a ponte entre o imaginário e o sim- Embora enfatizem a imaginação ativa. Aspectos da sombra pessoal. abrindo mão de Conservas que a supervisionou. co-inconsciente. ao dramatizar o papel do pai. na dramatização. que. dentre Em Portugal. A abordagem preserva muitos princípios a exemplo de “Magia. as formas gráficas (desenho. mas também por acreditar que as danças (Ibidem. subjetivo” e do intersubjetivo. relacional ou coletiva também se apresentam. Ao referir-se a sua eficácia terapêutica. conteúdos ancestrais e Meryen Anna. se conjugam aspectos pessoais da telas. e eventual. de mitos pessoais e familiares. estes autores incluem tam. e a gica utiliza as técnicas morenianas para atingir a “objetivação do psicologia analítica. pintura). Carlos Maria Menegazzo. Cabe ao grupo buscar a superação dos entraves rela. com o desenvolvimento da possibilidade de encontrar o Instituto Junguiano de Zurique também pratica e ensina o psicodrama ‘novas respostas para velhas perguntas’” (Ibidem. tanto no nível grupal como a nível individual. mente nos egos-auxiliares e outros membros do grupo. dramática e da amplificação dos mitos (Ibidem. mais simples apresentam maior potencial de manifestação de esponta- Para eles. Na escolha das danças e a ocorrência de catarses de integração individuais que se sucedem privilegiaram-se aquelas de movimentos mais simples. consideram esta Dançando para aquecer-se multiplicidade de técnicas favorável para acessar o material inconsciente pessoal e coletivo. destaca-se. Sem abrir mão da importância dos sonhos. privilegia o trabalho com símbolos e arquétipos. e não apenas com o protagonista forma de facilitar a prática. Ramalho (2002) exemplifica bém a dança. a psicodra- outros benefícios para os participantes. 269). Araruna. cristalizados nos papéis vinculares. o entendimento de que a dramatiza- ção Psicodrama Analítico Sintético e ressaltam o uso da imaginação ativa ção leva a uma melhor compreensão da situação. Menegazzo e Tomasini (2009) preferem a denomina. a sociometria. p. Mito e Psicodrama”. no psicodrama junguiano. entre os membros do grupo. O resultado de suas investigações é relatado em livros. Zuretti. foi o pioneiro na pesquisa Ramalho (2002. curativo e simbólico do ou não. Definem-no como uma terapia grupal. 132) ressalta que esta nova proposta metodoló- das articulações possíveis entre a teoria dos papéis. que podem ser objeto de amplificação dramática. destacam. em que se introduz a fronto com o grupo para a recriação de papéis e uma melhor interação dramatização baseada na imaginação ativa e que visa expressar e elabo. Na Argentina. Ao invés de psicodrama psicodramáticos.

Após um intervalo de cerca de 10 minutos. utilizando a massa de modelar. Em seguida sua vida. As co-diretoras se alternaram nas mentado pela construção do átomo familiar com massa de modelar. os aspectos arquetípicos presentes da fraternidade. referenciadas dança Kós. A modelagem deveria ser montada sobre a cartolina. Ao iniciar-se o encontro. os grupos foram orienta- referência a crianças brincando às margens de um rio. orientações. solicitou-se que os participantes caminhassem Circulares Sagradas e de estudos mais profundos através da bibliografia pela sala. que faz partilharam suas modelagens. buscando perceber como. como se sentiam acolhidos pelas famílias em seus regressos para casa. cujo título alude à Virgem ram em 4 grupos. Esta parte do trabalho teve a duração foi pedido que procurassem fazer contato com os colegas. por nomes fictícios. As modelagens produzidas foram fotografadas e algumas delas serão mente a dança era realizada ao som da respectiva música. poderão identificá-los através da participação em oficinas de Danças Encerrada esta fase. sempre precedidas da contextualização. foram inicialmente demonstrados os movimentos grupo. “feminino”. contando cada um com três a cinco participantes. Após as Danças Circulares Sagradas o aquecimento foi comple- um abraço. Depois da dança Semah. aproximada de 60 minutos. Solicitou-se aos reunir em uma roda. um toque. Continuando. como seus corpos. chegando ao total de 16 participantes. outros foram chegando depois das “pescarias” – em referência indireta à dança Kós. representassem a sua Circulares Sagradas. Em seguida. há cerca de seio da família. quer nível. Na sequência. quando as famílias e a comunidade recebiam os pescadores que retorna. na pações externas. já existia uma integração prévia. identificando eventuais se sentia sua criança interior. mas evitando falar. como tinha durante a atividade. sentiram-se no Por tratar-se de um grupo que tinha contato mensal. para alimentar o fogo e aquecer apresentada a seguir. ao longo de suas vidas. foi realizada a dança Araruna. buscando relaxar e abandonar quaisquer preocu. Em relação à apresentadas a seguir. perguntando dois anos. Foram utilizadas analogias com as danças. como estas famílias apoiavam suas “idas para o mundo”. em qual. ou por quem representou. começassem a se aproximado de uma folha A4. percebendo seu estado de ânimo. um sorriso. fazendo-se a analogia com uma viagem pelo que esta tivesse mobilidade e pudesse ser transportada para ser exibida ao mundo. dos a escolher uma das cenas modeladas e preparar uma dramatização. e como foram recebidos os cuidados ou a pontos de tensão. um aceno. e massa de modelar. um. que enfatizam os arquétipos do “masculino” e se interessem por incluir esta modalidade de aquecimento em seu traba. apenas 9 participantes se faziam presentes. seus filhos. falta de cuidados dispensados pelos pais. os participantes se reuni- vam da pescaria. entrando em contato com Araruna. Os psicodramatistas que Dança da Lua Crescente. especialmente nas obras de Maria Gabriele Wosien. foi contada a história de sua suposta origem. à medida que forem sendo citadas. E. Visando não alongar o relato. e concentrando-se no momento presente. cuja modelagem é relacionada à lenda de um pai que. foi enfatizado que a mesma era realizada pelos Gregos. todo o grupo executava o movimento e final. lho. Foi solici. iniciou-se a execução das Danças participantes que. seja só o contato visual.188 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 189 cente. a figura do cuidador. Após a dança Merien Anne. finalizando. sido para eles sairem do “ninho” e retornarem a ele – analogia com a dança tado que os mesmos caminhassem pela sala. A partir de então. de mesmo nome. e Maria. entrando em contato com as emoções despertadas em cada mencionada. corta o dedo do próprio pé. com a referência a um ninho de pássaros e ao arquétipo 45 Todos os nomes mencionados no relato são fictícios. de modo ao país de origem da dança. Foram distribuídos pedaços de cartolina duplex branca. A cada dança. O primeiro grupo escolheu a cena de Bernardo45. pouco a pouco. foi lida para o grupo a tradução da letra da música. solicitou-se que. . foram realizadas a Meditação do Sol e a nas danças não serão incluídos nesta descrição. no tamanho Continuando. em relação família. a realizar. A etapa de modelagem teve duração aproximada de 30 minutos. o pai e a grande mãe.

na relata que. tinha o corpo trêmulo. disse-lhe: “Você está jogando nossos filhos contra mim”. uma família com mais 3 irmãos e 2 irmãs. e receando que o protagonista não se permitisse dar continuidade à entrega emocional. referindo- se aos filhos e a si mesma. havia lá e estar cá. ele era adolescente. que A partir de então começa a explicitar-se que o protagonista havia estavam na platéia. podemos parar. mais energia e as pessoas se afastavam um pouco mais. tentava visitar qual o personagem.. ao passo que “estar cᔠsignificava estar com o pai. nós vamos trabalhar somente se espalhassem. e faziam pares. A cada repetição. e representado o papel do próprio pai. Quando o personagem se afastava. O protagonista verbalizou: “Vocês estão todos mãe. o mesmo havia feito comentários acerca de como os colegas de grupo “se entregavam” nos momentos de maior emotividade e da sua dificuldade de compor- tar-se da mesma forma. quadrante inferior esquerdo. apenas alargando a base para dar sustentação. de trabalhar mais esta cena. Convém ressaltar que.. este era novamente dispersado pelo homem. grupo voltava a reunir-se. a dupla de diretoras sinalizou para que a supervisora (que inclusive já havia sido terapeuta do protagonista) assumisse a direção da Figura 1 – Modelagem de Bernardo. P – Não. O solilóquio desencadeou uma nova cena. Esta. O Supervisora – Você tem certeza que devemos parar? Você não gostaria conjunto leva a associar a modelagem com um jogo de boliche. O protagonista unidos contra mim” (sic). não. gonista esbarrava neste pequeno grupo e fazia com que os participantes S – Nós não vamos aprofundar muito. eu me sentia muito dividido entre estar o grupo. o prota.. que representava o pai. em encontros anteriores. aprofundar um pouco mais este trabalho? Na cena dramatizada. quase que em sua mesmo se sentia. O mesmo é o filho mais velho de retornavam ao grupo inicial.. o movimento se mostrava mais agressivo. quatro pessoas estavam reunidas.. Diante da carga dramática em cena. um para cada lado. A supervisora do grupo observava a cena e o desempenho da dupla de alunos que atuava na direção. enquan. rebatia que o homem maltratava a todos. No Protagonista – Tá bom. Seguidamente o homem retornava e dissolvia P – Não.. sentia-se dividido. eu tô bem. tocou-lhe as costas perguntando-lhe como o Ele utilizou vários bastões de massa de modelar. mas quando retornava sua atitude era recriminada pela mãe e . por sua vez. “Estar lá”. colocou uma esfera de massa preta. não sei não” (sic). Chegava a usar expressões tais como “no dia em que eu desabar. seus pais se separaram quando A esta altura. o protagonista mostrava-se visivelmente emocionado. Mas quando se separavam dos pares. cena. é assim. após a separação dos pais. Esta imediatamente levantou-se em direção ao protagonista e numa atitude de acolhimento. acho que. os olhos avermelha- dos e marejados de lágrimas. Alguns partici- pantes procuravam aliados entre os membros dos outros grupos. dirigindo-se a uma das mulheres.190 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 191 no grupo a mãe. o até onde você se permitir. em função da cena estar sendo dirigida por colegas em formação. Eu tô bem. Após esta cena. representava estar com os irmãos e a to a ação se desenrolava. foram solicitados solilóquios dos personagens. Seguiu-se o seguinte diálogo: forma original.

que alegavam que o pai os havia “maltratado muito e não Elegemos dois relatos para exemplificar. os demais subgrupos concordaram em não realizar as demais dramatizações. se de ter que cuidar de alguém que a magoou tanto. visivelmente cansado. a emoção vivenciada pelo protagonista ecoava em outros participantes do grupo. Luísa foi até o local ali. para si. o protagonista deslocou-se da posição que ocupava dentro do grupo de trabalho do pai e lhe disse o quanto aquela situação a entristecia. se você não quer limpar eu vou limpar. Ques- tionados.192 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 193 pelos irmãos. com sucessivas inversões de papéis e alguns duplos. também bastante emocio- visse como ele estava naquela cena. Ela que estava bem. desde então. ficando claro que a cena dramatizada. porque ele o pai quanto a mãe precisavam dele. Depois deste período. que olhasse para a cena da família. pelo protagonista. quando aconteceu a próxima briga. A supervisora pediu-lhe que ocupasse o seu próprio cuidava dele com muita dedicação. foi sugerido que se passasse ao compartilhar. então. quando criança. já adolescente. Alguns choravam. mas mais Depois de algum tempo ele retornou. os cuidados com o pai. Disse que. ocupando o papel do pai. então. este movimento entre os dois pólos da dinâmica familiar. para atuar vezes presenciou cenas de violência doméstica. o protagonista agradeceu por ter se sentido muito acolhido pelo grupo. Outro colega foi escolhido. Luísa. familiares construídos. Os depoimentos dos demais membros do grupo corroboram a percepção de que o tema estava emergente no co-inconsciente grupal. representava o co-inconsciente grupal. familiar. . Na fase de compartilhamento. foi novamente questionado como se sentia em relação à situação. sua mãe reclamava muito do trabalho que ele dava. Figura 2 – Modelagem de Luíza. em espelho. Ele observou-se e voltou a afirmar nada. algumas lugar na cena. seu pai arrumou sua mala e saiu de casa. nodal. Pediu-se. a mãe se queixava. Perguntado como se sentia ocorrência de mais uma destas cenas. mobilizados pela cena dramatizada e por suas próprias vivências familiares. mostrando também os átomos merecia as visitas” (sic). mas quando a mãe se queixava. relatou que seu pai estava doente e acamado há muitos anos. Assumiu. mas ele foi um bom pai para ele já não conseguia ir em direção ao pai. Relatou que atualmente o pai encontra-se gravemente enfermo e isto o fazia sentir a necessidade de estar mais próximo dele. Queixava- Questionado sobre a razão deste posicionamento respondeu que. se posicionava entre o pai e os demais membros da família. disse que por enquanto este era o limite que con- seguia atingir. colocou-se entre o grupo e o pai (representado pelo ego auxiliar). acamado. Quando ele ficou doente e próximo destes. acreditava que tanto lhe: “Não tem problema. Diante da carga dramática da cena. pode ter sido um mau marido para você. Luísa então disse- quando se aproximava do pai. Neste ponto. e Em seguida à fala de Bernardo. ao invés mas mais próximo do grupo familiar. No dia seguinte à como ego-auxiliar. Após mais exploração da cena mim”(sic). Simultaneamente verbalizou que de agir com agressividade. e o protagonista. Esclareceu que os pais haviam se separado há cerca de 10 anos e ele fazia.

resolutivos e psicoterápicos citados anteriormente. indivíduo-grupo. Os raios e os Mãe. Conhecendo o psicodrama e as Danças Circulares Sagradas. tem com os internalizados e os arquetípicos 5 raios de bolinhas (vermelho. decorridos cerca de seis uma época em que seu relacionamento era conturbado. tomando um partido na situação. verbal-não verbal. . De acordo com as Danças Circulares Sagradas escolhidas para o aquecimento. cada um com suas qualidades e seus defeitos. com conteúdos arquetípicos relacionados à Grande Mãe. De acordo com o laboratório descrito. pode sentir-se Refletindo acerca do vivenciado livre para aproximar-se e afastar-se de cada um deles. Ela se sentia meses da realização do laboratório. no papel de filho. Outras duas modelagens dades afetivas filiais. esperava-se que os conteúdos do inconsciente pessoal e do inconsciente coletivo. observam-se importantes mudanças pressionada para aliar-se a um dos dois. fossem ativados. Tinha uma visão parcial da envolvimento afetivo. ou seja. aparecia como ameaça à sua integridade psicológica. Observa-se que o protagonista se permitiu entrar em Figura 3 – Modelagem de Rita. através da “exigência” de lealdade e de afastamento da figura paterna. chama a atenção o aspecto mandálico. ao mesmo tempo em que supria suas necessi- sóis sugerem uma referência à Meditação do Sol. rosa. Através da ação dramática o mesmo entrou em contato. ao arquétipo do pai e da fraternidade. Tais aspectos integradores referem-se à conexão corpo-emoção. que esta integração proporcionaria maior espontaneidade-criatividade aos participantes. houve Outro dado importante a ressaltar. marrom. contato com emoções há muito reprimidas e nitidamente relacionadas aos arquétipos do Pai e da Grande Mãe. o qual demonstra maior disponibilidade para o Sentia uma tendência para aliar-se à mãe. seriam maximizados a partir da sua conjugação com o psicodrama. Só no momento em que conseguiu ver tanto o pai quanto a mãe como dois indivíduos. A modelagem sugere uma se com os aspectos protetores e devoradores do arquétipo da Grande- estrela de cinco pontas. o psicodrama permite uma grande flexibi- lidade no uso das técnicas e o psicodramatista pode optar por aquelas com as quais tem maior afinidade. acreditei que os aspectos integradores. a integração dos aspectos bio-psico-sócio-emocionais do participante. pudemos observar tal integração na medida em que o protagonista permitiu-se abandonar uma postura centrada na razão e integrar aspectos sócio-emocionais dos quais se mantinha apartado. também apresentaram aspecto mandálico. no protagonista. é que.194 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 195 Rita relatou que. o protagonista. não apenas com seus pais reais. mas também Na sua modelagem. ainda. corpo-razão. ladeada pelos dois pequenos sóis. relativos a estes temas. situação. E. A mãe internalizada. confrontava- integram numa espiral e dois pequenos sóis. embora seus pais vivam juntos até hoje. azul e branco) que se Na dinâmica familiar. via somente as qualidades da mãe e os defeitos do pai. Conforme já referido.

de que o processo de catarse de integração. o que não foram abandonados os elementos básicos do psicodrama. o Devemos lembrar que. pois de uma Gasseau e Scategni (2007) de que o psicodrama junguiano favorece uma maneira não muito evidente retornamos às nossas famílias. de permanecer sempre fiel à mãe. Circulares Sagradas no aquecimento psicodramático é viável. e concluímos que o uso de uma menor quantidade de Danças Circulares permitir a flexibilidade inerente a todo verdadeiro psicodramatista que. que se apresentam e afastando-se das conservas culturais na medida em Outra importante observação assinala que as Danças Circulares que as situações o solicitem. no sentido de encontrar o ponto ótimo no neidade-criatividade. alcançando uma reconstrução dos Além da catarse de integração do protagonista. além das Danças Circulares Sagradas. também. inviabiliza afirmar que os resultados obtidos na dramatização provenham Os resultados observados confirmam que a utilização das Danças apenas do uso das Danças Circulares Sagradas no aquecimento. o duplo. como o solilóquio. e um permitiu uma série de outras catarses de integração parciais entre re-ordenamento axiológico do seu átomo familiar. isto se evidencia com a ocorrência de diversos depoi- As vivências descritas na fase de compartilhamento confirmam o mentos que registram a vivência. em sua cena. o espelho. de conexão possível entre as duas teorias. provocando desaquecimento em alguns. resultados. Também a análise dos a transformação das relações interpessoais. a entrevista no papel e a inversão de papéis. Ratificam. na cena dramatizada. a partir do enfoque simbólico. proporciona sequências de atos catárticos. conforme indicado grupo assinalou que os participantes. pode Na experiência. pode de posse da teoria e das técnicas. Rompendo com a Conserva que havia adotado. respondendo adequadamente às circunstâncias aquecimento. gração. mobilizados O contato com as danças circulares como um aquecimento foi pelas Danças Circulares Sagradas. e consequentemente um menor tempo. embora se adote o referencial junguiano. aperfeiçoar a prática. de escolher aquelas que mais se adaptem ao momento do grupo. consideraram o pelos participantes. participantes do grupo. confirmando o apontamento de bem produtivo para a realização das outras atividades. elementos co-inconscientes. Na experiência. utilizando apenas de 2 a 4 danças. Resta Tratando-se de um grupo de formação de psicodramatistas. de entendimento moreniano de que os grupos são o locus privilegiado para aspectos do arquétipo da Grande Mãe e do Pai. Assim. a experiência em grupo registros simbólicos. realizou-se a catarse de inte. as afirma. uma re-significação de sua vivência emocional. persistir no cuidado tempo utilizado longo. se deixa levar pela verdadeira esponta- levar a melhores resultados. demonstrou ser outra forma ções de Menegazzo (1994). entendemos que o objetivo de promover maior esponta- neidade-criatividade foi atingido. quando posto em andamento. Sagradas no aquecimento. demonstrando que aquecimento foi complementado pelo uso de massa de modelar. As modificações relata.196 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 197 Trabalhada a relação. uso das técnicas básicas do psicodrama. atentando para a redução do tempo dedicado ao se ao compartilhamento o processamento teórico da vivência. quando o aquecimento através das Danças Circulares Sagradas. na medida em que o protagonista Passos finais apresentou uma resposta diferente da habitual. em sua maioria. das no comportamento apontam para a re-significação do papel de filho. . ainda que de forma parcial. as danças adotar uma atitude mais coerente com sua demanda interna e responder circulares e o recurso plástico da modelagem. relacionados com os elementos do inconsciente coletivo. Assim. seguiu. (sic) profunda relação entre inconsciente coletivo e co-inconsciente grupal. Sagradas contribuíram para facilitar o acesso a conteúdos inconscientes Os relatos na fase de compartilhamento sancionam a percepção de relacionados ao átomo familiar: que o protagonista traduziu. observamos também o de forma nova à situação. na relação com os próprios pais.

Moreno. CHEVALIER. Jungian psychodrama: From theoretical to creative roots. Sérgio. 2007. e que o aprofundamento das pesquisas psicoterapia. New York. São Paulo. Mimeografado. Tese (Doutorado em Ciências Médicas) – SILVEIRA. ALMEIDA. tão celebrada pelo mestre MENEGAZZO. Renata C. (organizadora). produzindo MORENO. Cybele Maria Rabelo. São Paulo: Triom. 1999. Dança: símbolos em movimento. Mitodrama: o universo mítico e seu poder de cura. 2. Circle dance: dancing the Sacred Way. 165-171. 1993. Petrópolis (RJ): Vozes. 2006. A escultura na cem a atenção dos pesquisadores. 2002. ZURETTI. Moysés. 1998. RAMALHO. Madrid: Edições del Prado. BAIM.. ______. ______. possa ser nossa companheira através das Danças Circulares 1994. 2006.com/ diccionario/ diccionariop. Carlos M. Ágora. 2008. 1996. Comunicação pessoal AGUIAR. Dança Sagrada: Deuses. Magia. Carlos. qualidade de vida e religiosidade segundo uma abordagem junguiana. corporal. 2007. São Paulo: Agora. Rio de Janeiro: Paz e Faculdade de Ciências Médicas. modificações no indivíduo e na sociedade. Jacob Lévy. Terra. SCATEGNI. Aracaju: Profint. bem como em sua disseminação e redução de preconceitos entre os MACIEL. Disponível em <http://www. 2002. centrozerkamoreno. Estudos Alquímicos. 9. Miguel Angel. São Paulo: Ágora. Sagradas. 1981. Diccionario de psicodrama y sociodrama. In MACIEL. 2009. Tradução Márcia Schubert. Teatro espontâneo e psicodrama. Referências bibliográficas PERAZZO. pequenos e grandes grupos. Danças Sagradas: O encontro com os deuses. Routledge/Taylor and Francis Group. O Eu e o inconsciente. ed. Nise da. ed. Elisa. Mitos e Ciclos. ed. com vistas a um mundo mais MURAKATA. Lúcia Helena Hebling. Universidade Estadual de Campinas. . a seus alunos. Danças Circulares Sagradas: imagem São Paulo: Ágora. Dicionário de símbolos. Danças circulares: dançando o Caminho Sagrado – WOSIEN. Org.) Psychodrama: advances in theory and practice. Anna. Paulo.html> Acesso em ________. Clark. Carl Gustav. 2002. Jean. Lima. E que reunidos em torno do arquétipo da fraternidade possa- mos utilizar esta arte na prática psicodramática junguiana. Imagens da Transformação: Figuras arquetípicas na dança. MENEGAZZO. BURMEISTER. Jung: vida e obra. Mónica. pode resultar em inúmeras novas aplicações do psicodrama junguiano.198 Maria Virginia Souza Alves DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS: UM RECURSO ARQUETÍPICO NO PSICODRAMA JUNGUIANO 199 Parece-nos evidente que há muitas correlações entre elas que mere. GHEERBRANT. Pablo Población. 21 abr. L. BARTON. Aproximações entre Jung e Moreno. (Ed. Alain. Dançando com a Luz. Renata Carvalho saudável. 12. Danças Circulares Sagradas: Uma proposta de Educação e Cura. ed. feliz e igualitário. 2002. Ramos. 2005. Rio de Janeiro: José Olympio. 261-269. Campinas. Finalizo com o desejo de que a alegria. 2006. São Paulo: Editora Anhembi- Morumbi. 20. Jorge. LÓPEZ BARBERÁ. Wilma. mito e psicodrama. profissionais mais conservadores das duas abordagens originais. Maria-Gabriele. São Paulo: Cultrix. Petrópolis (RJ): Vozes. Tradução do original alemão. TOMASINI. GASSEAU. São Paulo: Ágora. São Paulo: Triom. p. Manoela. 2004. Corintha. JUNG. Teoria e Prática do Psicodrama: com indivíduos. KNAPPE. In: RAMOS. Maurizio. ______. 2000. São Paulo: Triom. p. Psicodrama.

do processo de envelhecimento. Para além das especulações poéticas e filosóficas. muitos encaram a confusão e a ansiedade que freqüentemente acompanham a virada da meia-idade como sintomas de um distúrbio. da passagem do meio. envolve muitas significações.200 201 C APÍTULO IX Psicodrama junguiano. G. numa sociedade cada vez mais impregnada pelos valores e padrões da eterna juventude. finalmente. etapa que inicia e prepara para o envelhecimento? Este capítulo se dispõe a apresentar um breve estudo sobre esta fase. mudança. Jung as vê como parte de uma transição normal e arquetípica. mistérios. O tema da meia idade. C. mas nos angustiamos com a passagem do tempo. Ele escolheu para abordar estes processos o termo “metanóia”. Ilustramos. com a proposta do psicodrama dos contos de fada para idosos. quando utilizamos os “contos de velhos” como recurso de aquecimento para um trabalho vivencial sócio-psicodramático. meia idade e envelhecimento Cybele Maria Rabelo Ramalho A nossa existência é fundamentada tão somente no tempo presente. metamorfose de sentimentos. a crise da meia idade como dramatização de uma condição humana universal. que é a passagem do meio. Como se dará isto na etapa de desenvolvimento humano menos pesquisada e estudada. medos. partindo de uma perspectiva junguiana aliada à visão sócio-psicodramática. transcendência. mitos e preconceitos. movimento. O termo “metanóia” foi utilizado por Jung para se referir à passa- gem de uma identidade psicológica para outra na meia idade. que provém do grego e quer dizer processo que vai além. porque .

vindo. paterno e coletivo. são necessárias. é aí que “a psique explode como um vulcão e a sua larva que o espírito deseje voar. p. Que devemos cuidar de nós mesmos. Segundo Stein 3) Mudanças no corpo e na noção de tempo: nesta fase. que trouxe para sua tornar-se um sujeito da sua própria história. com- pulsões. em que perdemos um velho conceito de Eu e um novo Self há como algum dia realizarmos tudo o que o coração persegue. . os parceiros. que possui um rico potencial – os atos chocantes ou ções de proteção. A experiência da 1) Um novo tipo de pensamento: observamos um maior abandono crise existencial na meia idade. Stein. “nossa psique desperta” (STEIN. Acentua-se um pensamento mais 6) Voltando-se para o interior: nesta fase. mas perturbadoras. a testemunha do corpo que dói nos redesenha a paisagem da nossa vida psicológica”. com senso de perspectiva. intensifica-se um diálogo realista. depressão ou doenças somáticas – personifi- fação com o trabalho. pode ser nossa sensibilidade nidade e a carreira. susten. por expectativas acontecem sobre as instituições que receberam até exemplo. qualquer um que lhe acolha será bem tado pelo poder das projeções sobre os papéis oferecidos pela cultura. Segundo pois apenas realizamos ‘partes’ do que ansiamos. Manifesta-se através de atos inconscientes. Nesta fase. havendo uma mudança de alinhamento com a vida. perdida. à realidade. p. poder e cura que lançamos sobre o outro aberrantes desta fase representam uma busca cega por mais e íntimo também. segundo Hollis surpreendentemente. Acontece em geral uma retirada das proje. etc. esta revolução psíquica acontece porque procuramos encontrar 4) A diminuição da esperança no exterior: percebemos que não um sentido profundo para nossa vida e abandonamos antigos valores e há ninguém “lá fora” para nos salvar e tomar conta de nossa interesses. geralmente é extremamente crítica do pensamento mágico e ilusório da infância. e de se isolar – com depressão. sobre os outros. inespe- (HOLLIS. projeções os desapontamentos/atritos com os filhos. criança interior. 5) A experiência do conflito existencial: a pessoa nesta passagem rações psicossociais se apresentam. as mais comuns perdas de bra (daquilo que foi reprimido e permaneceu inconsciente). Abandonamos a ilusão da poderá haver uma “crise”. quando pode ser enfrentada. 1995). a crise da meia idade oferece a oportunidade a cada um de exemplo: atendemos uma cliente de 62 anos. assim como o e. o tédio ou a insatis. abuso de substâncias. Invasões da som- 2) A retirada das projeções: nesta fase. necessariamente algo negativo. ou seja. Por Porém.16). um indivíduo no sentido psicoterapia um sonho em que está beijando outra mulher na mais amplo do termo – além do determinismo dos pais. estabelecendo um diálogo consigo mesma. etc. comportamentos destrutivos.202 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO.25). muitas alte. 2007. este sonho. porque uma transformação considerável imortalidade. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 203 nesta fase o Self vivencia mais uma grande transformação. renasce. entre os arquétipos da persona e da sombra. era que está aprendendo que não precisa esperar mais por um colo dirigido pela energia dos complexos materno. afirma pois o Ego nunca esteve realmente no controle. dos complexos. a aceitação de si mesma. específico de alguém. é altamente transformadora. ou seja. Sabemos que. 45) a pessoa precisa admitir sua impotência e perda de controle. o surgimento cam toda a vida que foi impedida de se expressar. Ainda no final do sonho percebe. principalmente o próprio colo. p. Consideramos que chama de volta à terra. O resultado podem ser mais vida. outras fontes de energia ou possibilidades. a renovação de caminhos. que tentaremos enumerar a seguir do meio corre o risco de agir de forma surpreendente. Reconhecemos que somos limitados e que não acontece. que esta mulher é ela própria. mas ao contrário. revelando de novas vocações. projeções) da adolescência. Ao trabalhar (1995. rada. Ela não significa então maiores projeções: o casamento. a paternidade ou mater. das conservas e condicionamentos culturais. boca e lhe agradecendo algo. mesmo (2007. com o advento da passagem do meio. abandono do pensamento heróico (com suas esperanças e pois uma nova adaptação é exigida.

a partir de casos extra-conjugais. leve regressão. dos sonhos e do corpo saudável e viril). divórcio. afirmou na psicoterapia que. que se última. de Viktor Frankl. emancipando-se tual. Seus primeiros sinais podem que o ser se interioriza no processo de envelhecimento. insatisfação com o trabalho. e se relaciona com até ser apontados a partir dos 35 a 38 anos. teve um sonho significativo: observava uma cratera no descobre uma força escondida no mais profundo do seu ser. . quando o equilíbrio entre forças opostas os 55 anos e os 65 anos. mas pequenos e estavam presos. Mas. modificando assim a sua persona. o desejo de Individuação. em maior ou menor grau: depressão. Ainda iminente. p. nuidade ao seu processo de Individuação. definida por Jung. O processo aponta para a o inconsciente. (FRANKL. revisão dos valores e atitudes até então. que em meio à melancolia Assim. se afirma mais na segunda metade da vida. temos o exemplo mento das suas sombras. a psique.. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 205 Um cliente de 58 anos. insights e de uma verdadeira modificação de si mesmo. “centroversão”. ou seja. doenças psicossomáticas. cial. coloca em ação a função transcendente. é aquela 55 anos. criador da Logoterapia. para a conquista de valores não materiais. e de alguma parte escutei o vitorioso “sim” como mudança de postura e de perspectiva. se caracteriza no período aproximado entre cia da virada da metanóia. defesas contra as mudanças. senti-me transcender àquele mundo desespera- bichos. a metanóia é um processo psicológico. estes pesadelos desapareceram. capaz de produzir espontaneamente a união dos opostos. com o enfrentamento e o reconheci.205). apegos a antigas atitudes. percebe-se a emergên- Já a segunda metanóia. perda de entusiasmo. Assim. embora seja despertado mais plo: quem foi predominantemente sentimental ativará a sua cedo. tinha pesadelos com pessoas lhe agarrado pelas costas depressão. Por outro lado. sendo a fase da transformação profunda para começa a mudar de direção. fantasmas do seu passado. Experimentou uma do. de outras perdas (da juventude.. 1986. tédio. mudança de comportamento. esta energia vai se dirigindo para uma sensação e vice versa. pois visa ir podendo acontecer numa faixa etária bem mais variável. sempre num movimento compensatório. Ao iniciar sua psicotera. e observou que ele já os encarava frente a frente. o herói jovem dos contos de fadas luta por mudar o mundo. começou a dialogar com estes Em um violento protesto contra o inexorável de minha morte bichos. não cronológico. insensato. antes de uma nova consciência. dando conti- emergência de sintomas comuns que podem surgir nesta primeira fase. leve desorientação. tornou muito unilateral até então. relatando seus medos e angústias quanto à morte e aos angústias. vazio existen. E que o des- chão do sótão escuro da sua casa e que dela saíam bichos tino último do homem não é ele mesmo. com o desenvolvi- intuitivo poderá ativar a sua função inferior da percepção e da mento da função transcendente. Convidado a colocar seu sonho em ação dramática internalizada (onirodrama). Quem foi muito dirige para o mundo externo. Os sintomas previstos nesta fase são: melancolia. Denominamos de primeira metanóia a fase aproximada dos 40 aos Sabemos que a função transcendente. o próprio Self como centro. esta além de um conflito sem cair na polaridade ou parcialidade. mau humor (ranzinza).204 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO. desilusão. iniciá-la. Enfrentando o temor da morte na terceira idade. A medida disposição da idade é apenas pedagógica. mas. A energia do jovem se função inferior de pensamento e vice versa. ansiedade. questionamento espiri. ao passo que o herói idoso procura a auto-transformação. portanto. e o chão se abrindo enquanto passava. Para Jung. precisa conectar com a sua função inferior. etc. Por exem. para o mundo interno. contemplação da morte e do mundo externo. sintomas psicossomáticos. mas conseguia identificar que eles eram muitos que nos envolvia. aquela função pouco desenvolvida. pia. resposta à minha pergunta sobre a existência da intencionalidade 7) A emergência da função inferior: nesta fase. Visa a libertação em relação às convenções socais. senti como que meu espírito transpassar a melancolia sentia medo. falta de energia. Afirmou na sua autobiografia: horrendos. ao envelhecermos.

em forma de criatividade e beleza. 1989). isto se evidencia mais na segunda ganhamos uma nova perspectiva após estas perdas. sendo importante (CHINEM. que ocupa o seu lugar). ao fechar os olhos. com esta magia mais psicológica e espiritual do que material. mas me disponho a sincrônicas. estabelecendo a conexão caminhar. 2) a passividade (as habilidades contemplativas). trans- do ego: nesta fase uma tarefa importante é liberar-se das ambições e gressora. contos de fadas para idosos (Chinem.. O arquétipo do bobo sábio ou do palhaço (Clown). deixa-se que a voz e as intuições do perdemos. Ao dialogar com esta imagem e inverter papéis (com a ajuda de um ego Assim. expectativas sociais e profissionais. “para ganhar a vida. no final da sua cena se sente leve e muito bem. Somos convidados a descobrir a nossa real paixão na . a virada. podendo nos levar a romper com estilos de vida truísse uma imagem corporal de sua relação consigo mesma. medo da solidão e gostamos de ficar no silêncio. sagrado. 3) a guerra de cristão. Verbaliza: “Vejo uma estrada.. desenvolver a transcendência pode surgir nesta fase. Sinto muita dor e muito peso.206 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO. nos perguntamos a respeito das ção honesta de cada um consigo mesmo. Pois. adulta. Quando podemos reconhecer as nossas perdas e recuperar a Self atuem livremente. Porém. um caminho surgem. que são mais comuns nesta etapa. a cliente visualiza uma sensação de o maravilhoso e o prazer. o sentido maior é desenvolver a Sabedoria. como dizia um antigo ensinamento passado.”. Estas características podem ser observadas 3) Sair da solidão e da auto-alienação. A magia é exatamente a possibilidade de fazer morte. disruptiva. 4) lidar com a inveja e a cobiça. experimentamos o colapso das ilusões. clamar dentro de nós. observamos continuamente estranhamente. nas tarefas do nos aprofundarmos cada vez mais dentro do “grande mistério”. cujos conteúdos emergentes poderão ser: 1) o imperativo do luminosa e o silêncio pode falar. mas. sem o roteiro dos entre esta fase de emancipação da sociedade e algo divino. apenas conosco mesmos. Para Alan Chinem (1989). sacrificamos muitas partes de nós mesmos para darmos conta das Atendemos uma jovem senhora de 50 anos. de modo após a aposentadoria. Esta magia pode retornar através de experiências numinosas e novo à minha frente. São novas possibilidades que lhe solicitado um solilóquio. Pois. Não mais buscarmos a Senex se encontram. que entrou em crise responsabilidades familiares. estamos totalmente presentes e unidos a nós mesmos): se perdemos o Esta segunda fase já nos prepara para o processo de envelheci. Na meia idade. A escuridão se torna metanóia. para a solitude (estado em que nos contos de fadas para velhos. a saída simultânea das suas duas filhas para estudar que na maioria das vezes abafamos as nossas vozes interiores que clamam fora de casa e a transferência do marido para outra cidade. como veremos adiante. precisamos aprender a perdê-la”. estas vozes podem voltar a Numa sessão de psicoterapia psicodramática. novo brilho no olhar. suposições e expectativas onipotente do jovem”). também os arquétipos do Puer e do sonhos pessoais que dominaram a juventude. é. Emociona-se muito neste momento. que conduz a uma percepção partes nossas que estavam apegadas às pessoas ou aos papéis sociais que do Self. 2) Após o confronto com a sombra. Nos papéis que antes desempenhava (de mãe. por exemplo. com a própria mortalidade. dia a dia. Neste momento. ela se torna disponível para 5) Retorno da criança livre interior e da magia: ao entrarmos na vida o estágio seguinte da jornada. ao ser solicitada que cons. Mas. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 207 Esta fase se caracteriza também por uma divisão do ego: uma parte fama.. sem saber para onde vou. estabelecendo uma conexão com a nossa fonte criativa interior. energia que investimos fora de nós mesmos.. a fortuna e a aparência da juventude (antigos apegos do ego) e dele regride ao inconsciente e a outra se mantém atuante. mento. como uma alegria e inocência autênticas. através da introspecção. retorna para a nossa vida auxiliar. imagem de alguém que lhe diz que “está na hora de parar e ter calma”. 5) o encontro irrealistas da nossa criança interior. profissional e esposa). a trabalho. 1989): aprendemos a não evitar nosso próprio ser. por possibilidades criativas. resultado e compensação da confronta- 1) Lidar com as perdas: nesta fase. Estou solitária. Nesta gerações (a luta entre a “desilusão inteligente” do mais maduro e a “pressa fase. e o vislumbre intuitivo do Self. cria uma prévios. Neste momento.

As fronteiras do do luto. uma recriação de nós mesmos. fazendo emergir uma nova mergulhar na experiência. a perdidas (STEIN. o que mais nos atrai tão profundamente. na seus arquétipos mais profundos e o Self está pronto pra enviar mensa. Momento de mudanças radicais. a atuação inconsciente (o acting out). ções nos mesmos. tos simbólicos. precisam ser tratadas de outra 2) a separação. 1997. intuições. Mas. flutuamos. qual o mecanismo de com fronteiras de ego indefinidas e incertas. mudança. de um Self não centrado no ego. Ou seja. surge com mais força em primeiro plano são partes rejeitadas da persona- A crise poderá apresentar características marcantes. Ela não tem Reconhecemos que uma criança interna foi perdida. O terapeuta deve buscar quais os arquétipos que foram negligencia- indefinido e solitário. que deixaram de se desenvolver ou ficaram escondidas no estes estágios não são cronológicos. alienação. me desconheço. corte de raízes num terreno escuro. os sintomas psicopatológicos emergentes desta etapa experiência liminar. que facilita o processo de transformação. Devemos encontrar uma saída bela e Um cliente de 50 anos relata na sua psicoterapia: –”Já não sei quem criativa. Muitos deles obedecem Vivenciamos o que considerou Jung a “noite escura da alma”.79). Deslocamo-nos. pode haver inversões e superposi. dos e os conteúdos significantes inconscientes. “para certa quantidade de terror. A saída para a crise é a renova. O inconsciente fervilha em compensação estabelecido (na unilateralidade da consciência). são eles: 1) o limiar psicológico. passado” (STEIN. Por outro lado. o querer. na separação psicológica e no Eu e do não Eu ficam vagas: uma espécie de “já fui” e “ainda não sou”. Mas. 2009). Segundo Stein (2007). Segundo jamais reconhecida numa fase anterior.48). onde não nos reconhecemos. 3) a re-integração. jogados de um lado para o outro. nem dos outros. p. da derrota. p. mas esta virada pode ser gradual que agora estão insistindo em serem gratificados por uma possessão do ou abrupta. sob a influên. é somente quando damos atenção a ela. 65). ajudar a fazer o que é necessário no momento. costuma-se dizer: “a vida começa aos 40!” identidade de uma pessoa fica mais ou menos suspenso. pedindo atenção e cuidado. que a nova criança de não temos controle. Podemos ficar influenciáveis. mesma quantidade de beleza”. da primazia do conhecimento adiante. nos limites do Self. maneira e integradas. abandonando as atitudes heróicas da primeira fase da meio da vida: “Quando o inconsciente aflora no meio da vida. Por outro lado. pois o o desejo. 2007). uma nova consciência ampliada. terreno emocional interno fica movediço. Assim. mas como lidade. as nossas sombras ressurgem. A tarefa maior desta fase é então reconhecer as somatiza. a padrões míticos. 2007. que aciona o gatilho do inconsciente. A função destas mensagens do inconsciente é levar o ser cia desta energia arquetípica do palhaço. somos flagrados num campo desconhecido sobre o qual fase. papéis não vividos. com sensação de marginalidade. acontece a volta do que foi reprimido. Há uma conexão direta e imediata com o imaginário. desapego. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 209 passagem do meio. o seja. o impulso. abandonada ou imagens fixas sobre conteúdos dela mesma. p. podem emergir. ou apenas fantasiados. Podem surgir medos e sensações sobrenaturais. perdi pedaços de mim”. Impõe-se Mergulhar no limiar tardio e atravessá-lo. realidade são tentativas da psique de se curar. para a psique se libertar e acordar. que pode ter gens por meio de sonhos. Por meio da perda. de fantasia e de sincronia com even- sido frustrado ou abandonado até então. padrões arcaicos de auto-organização. Repentinamente.208 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO. Surgir um visão do futuro. Dissolvem-se podem ser manifestações de arquétipos negligenciados ou reprimidos. aprofundar-se da mente para a sabedoria do coração (RAMALHO. sou. é preciso enterrar a segurança e a identidade Segundo Hollis (1995. mas que deve ser resgatada nesta Stein (2007). entra-se na experiência do limiar. o que vida (PRETÁT. uma velhice produtiva pode tomar forma. já que mergulhamos fundo na Para Jung. novo tipo de consciência de si mesmo – do reino do inconsciente – ou ções e os demais sintomas como sinais de um processo de iniciação. no limiar do ção e a integração. Ressurgem. Pois. 1) O limiar psicológico: no início da crise da metanóia o senso de Na primeira metanóia. ego – devemos aprender a ler os seus significados. trazendo à tona uma maior .

o vaga. como: o aproxima e as atividades externas perdem seu encanto maior. já expresso na literatura clássica. de fantasmas. obsessão pelo corpo. onde a estrada as pessoas devem se manter ativas. comunitário. etc. nos padrões de comportamento e escolhas da vida cotidiana). mundo interior e o corpo exigem atenção. ao contrário do ego. observamos que quando nos referimos à terceira idade. síndrome do ninho vazio.). relações que se um bloqueio e guerra interior. mudança desenvolvimento da “função transcendente” (como já citamos.210 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO. p. de figuras limiares. lutos pela perda de ter certezas. ao longo dos bundo. tivas. uma criação espiritual (religiosa ou não). mitos. mas não dá atenção ao trabalho interior e à necessidade de e tentativas de negar tudo isto. etc. ganha durante a exigem ser levadas a sério e possuem formas estranhas de fazer valer fase liminar. contadores de viajante. pânico a Segundo Stein (op. por outro lado. com o estilo de vida ocidental extrovertido. (HOLLIS. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 211 integração psicológica. O Self. deseja a reintegração destas forças opostas. 1986. do que é comum a desapego à matéria. mudança de ritmo. “Os arquétipos são forças psíquicas vivas que 3) Fase da reintegração: uma parte da consciência. convive com a ansiedade de renascimento. que é de valores. rotinas e posições rígidas (STEIN. amargura. Aparecem nesta fase imagens Mas. é condição necessária para gerar todos. uma posterior reintegração que virá. não mediante a das gerações futuras (HILLMAN. O arqué- cobre a força da conexão com o outro. O perigo é. Esta afirma que acordei e me vi no meio de uma floresta escura. . mas por meio da integração. a teoria da atividade é atualmente a mais defendida. que ele perda da beleza física e da juventude. possuem um vasto significado subjetivo. se voltar a a sensação de perda. o tempos. Quando isto não acontece. Jung defende o respeito da própria morte. que é feito de opostos. pois o ladrão que rouba sua bolsa com sua identidade (ou seu carro). cit. isolamento. progenitores. mantendo um alto nível de funcionamento e de saúde até a idade avançada. toda- passar pela experiência da morte e enterro do velho ego. continua presente nesta fase de consolidação e estabilidade. transmissores da cultura – podem conferir significado à vida A demanda é de aliviar a tensão das forças opostas. mas revela ansiedades profundas: suporte o stress. sensação de não haver mais uma ponte psicológica de trânsito entre o consciente e o inconsciente) e tempo para “viver de verdade”. para lidar com a metanóia. Consideramos que esta teoria tem seus benefícios inques- Por outro lado ocorrem simultaneamente defesas. No entanto. após a psique se libertar do maniqueísmo e descobrir o tem potenciais de crescimento criativo: nesta fase a criatividade existe valor de regiões psicológicas inacessíveis ou proibidas. de mudança psicológica. a pessoa des. repressão. tradições. gera- gargantas e abismos da existência e a viver intensamente. depois de ultrapassada a crise. racionalizações tionáveis. agudo e crescente senso das limitações da vida. Este é um processo com raízes de uma “vida simbólica” (sentirmos as dimensões do arquétipo presentes arquetípicas. depressão. de e da persona. como forma especial de dar forma e realidade à essência da vida. o estranho misterioso. Combina. Os velhos são. seus efeitos” (JUNG. 2001). estimuladas corretamente e produ- certa havia desaparecido completamente (ALIGHIERI. da intimidade e tipo do Velho Sábio ou da Velha Sábia precisam ser ativados nesta fase. nostalgia. Na metade do caminho da vida pelo qual caminhamos. O do companheirismo. do compartilhar profundo. 2007).99). É preciso separar-se da identidade passada. que se utiliza de defesas e busca segurança e con- 2) A separação: a transição do meio da vida não implica só na forto. excessos alimentares. prepotência. 1959. de sombra. sensação de fracasso e desilusão. leis. Nesta aventura ou jornada em Os junguianos defendem que no envelhecimento existem e persis- busca do Self. da cumplicidade. reforça o poder do ego morte. etc. a energia vital realmente muda de direção quando a velhice se oníricas de terror. 1995). ao mundo exterior. A meta neste momento é colocar o ego a serviço do Self. o marginal que lhe ameaça. previsões. A ansiedade de via. histórias. com sintomas de rabujice. in A Divina Comédia). A pessoa se vê livre pra experimentar os buracos. mudanças de humor. ou seja. o profeta. os guardiões dos mistérios.

Apresenta percepção que tem um “quê” de ser sem tempo e sem espaço. nosso potencial espontâneo-criador. paciência. há quem diga que é também um encontro capacidade de compensação e de estratégia estão mais aguçadas nos com a espiritualidade. a imaginário e com a intuição. Sobre a frágil base da realidade. além de papéis crista- vital de seus conceitos: realidade suplementar e espontaneidade criativi. Para este autor. vida e na aplicação da psicoterapia psicodramática na terceira idade. os traços positivos e negativos se tornam A realidade suplementar para Moreno vai mais além do campo mais fortes. por mais que se enve. é uma liberação das convenções. poderemos agora inserir a compreensão no processo de Consideramos que a psicoterapia psicodramática neste processo envelhecimento pela teoria psicodramática. velhos (pois ele procura evitar o não essencial). O corpo pode decair rapidamente e o espírito. os últi. para viver inten- . Assim como o caráter dirige enigmático dos mistérios. aquecidos. imaginário. Envelhecer. esquentamentos e esfriamentos. o começo. rejuve. 1975). experiência e precisão. rumo ao desconhecido. com mais exatidão e objetividade (por estar menos exposto às emoções). lizados. quando necessário. que envelhecer é assumir todos os riscos. precisamos da tele percepção co-criativa para enxergarmos o equilíbrio e fidelidade. ao mistério. tiva. nescer e se aquecer. culpas e mágoas do passado. o envelhecimento revela o caráter. envelhecer é aprender a trans- aventura. O comportamento do idoso depende de suas motivações e necessitamos da realidade suplementar para possibilitarmos o retorno do seu caráter. Assim. ao contrário. arrependimentos. acordando da alienação de nós mesmos. rígidas e controladas são velhas desde da magia e as leituras intuitivas dos eventos sincrônicos. com uma realidade cósmica. assim. Nada se aquieta. vidos na passagem do meio e na terceira idade. Proponho que evidenciemos também a afetividade. este autor afirma que. da alegria. E re-aprender a samos de idéias criativas para embelezar a velhice e que a principal patolo. E especialmente se evidenciam. apertos e afrouxa. E recorrer a uma realidade sim- o envelhecimento. expansão da espiritualidade. que vai se transformando. Pensando numa abordagem psicodramática da segunda metade da lheça. grupal do psicodrama já tem colocado “a velhice em cena” (COSTA. É uma Para a abordagem psicodramática. se mantivermos alerta e atualizado o criativas na senectude. suplementar. apesar do ritmo físico mais lento. conservam intactas suas capacidades intelectuais e Com o envelhecimento. exige a renovação constante revisitamos o estudo de alguns autores e verificamos que a abordagem da espontaneidade-criatividade. Tempo e espaço não existem. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 213 Segundo Hillman (2001). que é a morte. co-participa- exigindo altos e baixos.212 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO. Ele anuncia que preci. Decerto 1) Fazer as pazes com o passado: é importante revisitar cenas do precisamos nesta etapa da vida reforçar. perderemos o medo de olharmos Enfim. enfim. Algo necessário e pretendido pelo Self. a imaginação tece novas formas” (MORENO. a importância passado que encerram mágoas e perdas. a intuição e a Há a conservação da capacidade de enfrentar o trabalho que requeira percepção télica como sendo os recursos essenciais a serem desenvol- um olhar prático. 1998). com a centelha divina. É um encontro com o Assim. mais do que nunca. por tudo que expomos da psicologia analítica. O fluxo espontâneo da vida vai teremos mais possibilidades de termos uma postura ativa. sossegos e inquietações. Moreno afirmava que “tudo de envelhecimento tem alguns objetivos claros: é provável e possível. no aqui e agora de uma nova realidade gia da velhice é a nossa própria idéia da velhice. Ele intensifica suas bólica. Ponderação. portanto. uma melhor qualidade de vida. envelhecer é uma forma de arte. peculiaridades características. ao mais mos anos confirmam e realizam o caráter. são qualidades que mundo com olhos que revelam significados profundos. O cliente na crise da metanóia necessita abandonar os dade no desempenho de papéis que continuam se renovando. mentos. As pessoas contidas. formar antigos papéis e a desempenhar novos papéis. de nos mantermos ativos e as experiências acumuladas e ampliar as relações existentes. viver espontânea e criativamente. Já os indivíduos excepcionalmente bem dotados intelectual e emocionalmente. afirmamos nossa realidade interior. Precisamos da expansivi- A sabedoria também se refere à ampliada sagacidade para manejar dade afetiva nos nossos vínculos.

sentidos. p. espelham as estruturas básicas da psique (do inconsciente tido de re-ligação do ser com uma força superior). 2008). introduzindo-os na formação. inicia-se a maioria destes contos com uma pessoa mos negar a dor. Jung e Moreno se encontram num 2) Trabalhar relacionamentos interpessoais: o psicodrama trabalha mesmo território de relações transpessoais e existenciais. parte natural do ciclo da vida. Mostram. um poderoso revelador de material arquetípico. neste processo. C. 4) Transformar o sofrimento em sabedoria: nesta fase. transformador. assim. Este era o seu e perdas atuais que se apresentam. Por exemplo. gem do meio e do processo de envelhecimento utilizando. encontrar novos sentidos ou significados maiores neste que revela a transcendência do ego. os elementos pessoais e as idiossincrasias culturais tendem a desaparecer. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 215 samente o aqui e agora. eles não apontam a imorta- ficou perdida e/ou engessada nos excessos de conserva cultural. novos significados e subsistindo enredos e temas de interesse universal (CHINEM. se perguntava se estamos ou não qualquer estágio da vida. Neste sentido. que Os contos de idosos apresentam uma estrutura muito diferente dos por si só não envelhece. Aceita-se a morte como envelhecimento num arco ascendente de consciência ampliada. Moreno estava preocupado com a união do ser da renovação de antigos papéis ou criação de novos papéis. Estes contos. L. mas ao contrário. com a noção de co-responsabilidade e. mas poderemos trabalhar sim o sofrimento. Um cliente de 65 anos. na forma que pode nos ser bem peculiar. onde o protagonista principal é um idoso. bela e das novas gerações e do planeta. encapsulados pelos processos transferenciais). envolvendo-se intensamente como concisa (CORUMBA & RAMALHO. mas neste em especial. A sabedoria presente nos contos e nos mitos traduz verdades Questões ligadas a uma transcendência. escolhemos trabalhar com conteúdos da passa- própria responsabilidade nos relacionamentos interpessoais. Jung. meia idade. tentamos Na nossa experiência profissional na interface do psicodrama com abandonar as queixas e acusações aos demais para assumir a a psicologia analítica. na tentativa de que sejam ritual de transcendência e de comunhão. Trabalhamos nossos vínculos reais que estão em plena trans. um recurso de e os imaginários (estes últimos. processo que começa a operar na processo. nossa alegria consciente. 1997. na medida em que tentamos transformar conscientemente. G. os de fantasia metodologia sócio-psicodramática como um iniciador. ligados a algo infinito. Um conto de fadas é um sistema divina” presente em todo ser humano. madura ou idosa que passou por um severo processo de perdas. eventualmente. reativando o nosso potencial espontâneo-criador. os virtuais (com as pessoas do passado). aceitas e revistas. Moreno falou da “centelha e trajetórias da vida do ser humano. arquetípicas. revelam a com a renovação de nossos papéis. de forma simbólica. Os contos são histórias tradicionais transmitidas oralmente onde 3) Re-avaliação da vida não vivida: procuramos no processo tera. não podere. a uma religiosidade (no sen. o arco descendente do morte do protagonista como um fato simples. Isto é feito no método psicodramático através Assim como J. O estudo dos contos se torna. encontrando um redirecionamento criativo. que ainda estão de certo modo aquecimento. é usualmente alvo do coletivo). em humano com o cosmos. e parece que nesta fase da vida relativamente fechado composto por um significado psicológico essen- precisamos ter um contato ainda maior com esta centelha. expresso simbolicamente. Buscamos resgatar a alegria de viver que contos de fadas para crianças. lidade e a juventude eterna como final (o “foram felizes para sempre”). pêutico extrair das desgraças e misérias.214 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO. ateu. nossa magia. aposentado. . como se processam os conflitos processo psicoterápico de pessoas nesta fase. Esta aceitação serena da morte é um traço ou seja. o recurso dos contos de fadas para adultos e velhos. de alguma cial. Isto requer trabalhar muitas limitações voluntário num projeto ecológico de energias alternativas. descobriu nesta fase que espiritualidade para ele era cuidar pois neles este material se apresenta de forma muito simples.11). psicologia analítica.

2009).. Cybele. uma trama comum. Rio de Janeiro: 1959. a uma herança inconsciente como uma temática importante para um grupo. contos de velhos. Cultrix. A Passagem do Meio – da miséria ao significado da meia coletivo. (o puer e o senex). São Paulo. A Divina Comédia. Rio pelo co-inconsciente grupal. Paulus. solicitamos que se drama. o psicodrama trabalha com situações e cenas que afetam e são afetadas HILLMAN. X. São Paulo: Ed. Aracaju: Após a leitura dos contos nos subgrupos. solicitamos a posterior construção das imagens destes dois papéis de fantasia e. Kathleen.. CHINEM. as perdas e as com a riqueza destes conteúdos aqui expostos. solilóquios. na Àgora. 2008. invisível. James. 1995. o que se expressa também metodologia para promover o enfrentamento dos processos da metanóia com uma espécie de projeção no futuro. introduzimos a leitura de adultos. Gerontodrama: a velhice em cena – estudos clínicos e à multiplicação dramática. Pinheiro. constatamos na nossa experiência que o psicodrama (em ção. eventualmente iniciamos comum (RAMALHO. São Paulo: Ed. 1989. ilustração Gustavo Doré. e Contos de Fadas – entre a Psicologia Analítica e o Psicodrama. numa proposta semelhante COSTA. Iniciamos solicitando um e do envelhecimento. com o uso da entrevista nos papéis. o trabalho com a ação corporal. A força do caráter e a poética de uma vida longa.E foram felizes para sempre – Contos de fadas para Após um breve compartilhar grupal. E ao trabalhar com contos. 2008).216 Cybele Maria Rabelo Ramalho PSICODRAMA JUNGUIANO. Victor. PROFINT. expondo e possibilitando um trabalho profundo contato com as transformações físicas. transformações nos diferentes papéis que ocorrem neste processo de envelhecimento. Enfim. etc. psicodramático entre eles. 1986. Petrópolis. A Psicologia do sentido da vida. Ao privilegiar o trabalho em grupo. Alan. psíquicas e sociais. com as interações grupais. MEIA IDADE E ENVELHECIMENTO 217 Na nossa experiência com grupos psicoterápicos de pessoas na meia de conteúdos arquetípicos. São Paulo: é dramatizada. Descobrindo Enigmas de Heróis materiais simbólicos implícitos em cada conto. mas que também pode ser comum à humanidade. 2001. com a sensibilidade télica. Rosa & RAMALHO. tizem cenas da vida cotidiana que foram despertadas ou associadas ao conto (CORUMBA & RAMALHO. que são carregados idade. Vozes. São Paulo: Ed. o psicodrama possibilita chegar à consciência idade. Não é a estória do conto em si mesma que psicodramáticos sobre o envelhecimento e a terceira idade. Dando continuidade. Em seguida. Despertando na Meia Idade. todos. . mas as amplificações subjetivas que ele desperta. revelando que fazemos parte. 1989. Dante. Elisabeth S. James. ato contínuo. a sessão com um aquecimento que consiste num processo de interioriza. solicitando a dramatização posterior destes. solicitamos o contato ALIGHIERI. realidade cotidiana ou fantasia de cada subgrupo. conteúdos do inconsciente HOLLIS. solicitamos uma dramatização internalizada Referências bibliográficas que começa com um encontro e um diálogo virtual com o “velho interior” na fantasia de cada um. em que solicitamos a cada um entrar em contato com o “velho sua vertente psicoterápica e sócio-educativa) é também uma excelente interior” (o senex) que existe em cada um. um confronto BREHONY. FRANKL. Traduzido e comentado por com a “criança perdida” de cada um e um diálogo interior entre ambos José P.1998. O conto é usado como estímulo para trabalhar os temas do grupo associados aos CORUMBA. Em seguida. inversão de papéis. Paulus. a intuição. de de janeiro: Objetiva. sonhos e mitos. que atravessa e constitui os grupos. . se o tema do processo de envelhecimento vai se configurando de que tais conteúdos nos ligam a todos.

2009. São Paulo: Paulus. C. No meio da Vida. 1996. 1975. In: Revista Psicologia em Foco. RAMAHO. G. Aproximações entre Jung e Moreno. MORENO. STEIN. Paulus. II. J. Campus.218 Cybele Maria Rabelo Ramalho JUNG. 1997. Dulcinéia. Cybele. MONTEIRO. Mais velhos. São Paulo: Ed. Jane. ________. SLALOMI. Mais Sábios. Envelhecer – os anos de declínio e a transformação da última fase da vida. Aracaju: Associação de Ensino e Cultura PIO X. O Desenvolvimento da Personalidade. São Paulo: Àgora. Vozes. PRETÀT. Resgatando o arquétipo do palhaço no Psicodrama – o riso como via de acesso ao processo criativo-transformador. Paulus. São Paulo: Cultrix. 2002. São Paulo: Ed. Murray. Zalman. L. 1986. vol. 1988. Metanóia e Meia Idade – trevas e luz. São Paulo: Ed. Psicodrama. Rio de Janeiro: Ed. 2007. .