Centro de Estudos Hemisféricos de Defesa

REDES 2002 5o Seminário Anual de Pesquisa e Educação em Estudos de Defesa e Segurança Agosto 7-10, 2002, Brasília, Brasil Políticas de Defesa

Inteligência Político-partidária. Processo de reunir e analisar informações sobre candidatos oponentes
Walter Felix Cardoso Junior UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina Florianópolis, SC, Brazil 55-48-224-0860 wfelix@eps.ufsc.br Keywords: Political Intelligence, Opposition Research, Campaign Information, Ethical Issues, Opposition Data, Campaign Guidelines, Democratic Process, Competitive Intelligence, Information Cycle. Abstract We live a certain time in which democratic regimens are in a very consolidation leading society to be more and more quality demanding of candidates to elective assignments. This situation has lead to an increasing interest of party organizations to develop proper intelligence structures to achieve corporative objectives either to improve their own performance at balletboxes or to guarantee their survival as institutions facing power transition. This article deals with such aspects and presents some possibilities on the use of Competitive Intelligence in the political-party context. Resumo Vivemos em uma época onde os regimes democráticos estão em franca consolidação, o que leva a sociedade a ser cada vez mais exigente com a qualidade dos candidatos a cargos eletivos. Tal fato tem ocasionado um crescente interesse das organizações partidárias em desenvolver estruturas próprias de Inteligência voltadas à consecução de objetivos corporativos, seja para melhorar o desempenho nas urnas, seja para garantir sua sobrevivência como instituição, diante da transitoriedade do poder. O presente artigo aborda essa questão apresentando algumas possibilidades de emprego da Inteligência Competitiva em um contexto político-partidário.

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Considerações iniciais

Até bem pouco tempo, o emprego da Inteligência (como reunião e tratamento de informações para apoiar um processo de tomada de decisões) configurava uma prerrogativa exclusiva das instituições governamentais. Entretanto, com o advento da globalização e o acirramento da competição em todos os níveis, outros tipos de organizações passaram a valer-se das metodologias de processamento das informações, objetivando melhora de desempenho e garantia de sobrevivência em uma conjuntura cada vez mais complexa [INFOWARCON`97]. Acompanhando essa tendência, e no quadro da democracia brasileira, as organizações partidárias nacionais têm demonstrado crescente interesse pela Inteligência Competitiva, objetivando empregá-la para conquistar objetivos corporativos e antecipar-se aos competidores. A utilização da Inteligência Competitiva no ambiente político-partidário representa uma prática inovadora que contribui para demonstrar a sua aplicabilidade até mesmo em atividades não direcionadas à lucratividade econômica. Segundo Coelho (1999), a Inteligência Competitiva é o processo sistemático de coleta, tratamento, análise e disseminação da informação sobre atividades dos concorrentes, tecnologias e tendências gerais dos negócios, visando subsidiar a tomada de decisão e atingir as metas estratégicas da organização. De forma abrangente, este autor vê a Inteligência Político-partidária como um desdobramento da Inteligência Competitiva, consistindo em um processo técnico que, tendo como instrumento básico o tratamento metodológico e legal das informações, possibilita conhecer e antever situações vantajosas e desvantajosas para os candidatos em um quadro de permanente disputa eleitoral, permitindo a otimização de sua articulação no cenário político. Considerando a transitoriedade do poder em regimes democráticos, o emprego metodizado das técnicas de Inteligência abre perspectivas valiosas para os políticos profissionais que queiram respaldar as suas cíclicas campanhas em informações úteis e planejamentos eficazes. Nesse sentido, a Inteligência Político-partidária representa uma atividade de natureza técnico-humana que gera soluções eficazes e personalizadas para os seus usuários. Existe um vasto campo de possibilidades para as ações de Inteligência Competitiva em um contexto político-partidário, da ausculta dos anseios das comunidades até o levantamento de informações consistentes para a elaboração de um bom plano de campanha, ou de governo. Contudo, neste artigo, o autor procura fixar-se somente nas práticas legais de reunir e processar informações sobre os candidatos adversários, enquadrando um acompanhamento crítico e sistemático das ações desenvolvidas por eles e de tudo mais que possa refletir-se negativamente em suas próprias campanhas eleitorais, através da condução de procedimentos preconizados na metodologia RISCA - Reunião de Informações Sobre os Candidatos Adversários. Antes de dar seguimento às suas colocações, o autor deseja esclarecer que as idéias aqui apresentadas apenas constituem um artigo acadêmico, não contemplando preocupações com quaisquer aspectos de caráter filosófico. Enfatiza-se que o texto é eminentemente técnico e construído com isenção éticoideológica.

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Caracterizando o método RISCA

O RISCA nada mais é do que um método legal para investigar agressivamente os concorrentes políticos e a sua estrutura humana de apoio. Ele se concentra na obtenção de dados verificáveis sobre os rivais, com a finalidade explícita de utilizar esse material, devidamente processado, para aumentar as possibilidades do candidato que a patrocina em um processo eleitoral. Obviamente, essa prática só é

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viável em regimes de governo democrático, como o nosso, com plena liberdade de imprensa para as mídias formal e eletrônica, e Justiça Eleitoral atuante. O método RISCA é, portanto, um trabalho típico de Inteligência Político-partidária em que o seu patrocinador deverá estar estruturado para viabilizar investigações, reunir e analisar informações, chegando às conclusões subseqüentes, para respaldar as suas futuras ações no cenário político. Tendo o cuidado de confirmar o material reunido, ele poderá valer-se das informações devidamente processadas contra os seus candidatos oponentes, embaraçando-lhes a ascensão no cenário político.

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Vantagens decorrentes do emprego do método RISCA

O emprego de técnicas objetivamente dirigidas à erosão da imagem de um concorrente político não é novidade. O acompanhamento crítico das concorrências sempre foi uma prática política disseminada, mesmo quando realizada de forma amadora. Contudo, atualmente isso pode ser feito metodologicamente, com muito mais tranqüilidade, apoiados nas facilidades proporcionadas pela tecnologia da informação [SHEA, 1996]. Atualmente, quando um candidato faz uma afirmação em público, ela pode ser checada imediatamente nas telas dos computadores. Em minutos, muitas vezes, um resultado comprometedor dessa avaliação pode ser enviado à imprensa, objetivando mostrar impropriedades apresentadas ou defendidas pelo oponente. Tudo aquilo que um candidato diz, ou faz, pode ser conferido e analisado rapidamente. Simplesmente não há mais como se esconder no mundo político de nossos dias. Tempos atrás, antes de se converter em uma prática metodizada, o acompanhamento das atividades dos concorrentes era realizado empiricamente por mão-de-obra não especializada, caracterizada pela ação de parentes, amigos e colaboradores mais próximos dos candidatos [SHEA, 1996]. Porém, hoje já há organizações empresariais especializadas nesse ramo. Sua atuação pode levar campanhas pouco promissoras a resultados surpreendentes em uma disputa eleitoral. O método RISCA força os políticos a abandonarem questões supérfluas direcionando suas campanhas para temas relevantes e de maior interesse para a sociedade democrática. Sua ação pode ser particularmente devastadora para os candidatos que ainda estejam ocupando cargos públicos, ao obrigálos a responder por suas declarações e ações. Embora o método RISCA possa contribuir para simplificar a atividade dos jornalistas que cobrem as campanhas eleitorais, pois as equipes partidárias de investigação fazem de tudo para lhes entregar material comprometedor, e publicável, sobre os seus adversários, é incontestável o crescimento do jornalismo investigativo. A mídia vem fazendo cada vez melhor o seu papel social. Muito embora, às vezes, ocorram excessos decorrentes da “liberdade de imprensa”, apanágio da irresponsabilidade editorial existente no setor de comunicação. Contudo, informações checadas e estatísticas corretamente elaboradas podem ser usadas para interromper a campanha de um candidato mal produzido e politicamente indesejável. Entretanto, uma única acusação bem fundamentada pode não ter o poder de liquidar a campanha política de um oponente que saiba proteger bem as suas deficiências. Isso reforça a idéia de que o trabalho de Inteligência Competitiva deve ser permanente, buscando sempre uma indispensável sinergia com a mídia, que poderá amplificar e aprofundar o material urdido contra a campanha do concorrente. Por esse motivo, as acusações mais poderosas devem ser disparadas nos momentos apropriados, tendo em vista o tipo de repercussão que se pretende. Assim, é necessário ter paciência e aguardar a hora certa de desfechar o ataque com capacidade real de desequilibrar o candidato político rival.

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Questões éticas a serem consideradas no emprego do método RISCA

Pode-se afirmar que o método RISCA é um instrumento benéfico para a democracia porque reduz as chances de sucesso de campanhas apoiadas em mentiras [SHEA, 1996]. Mostrando aos eleitores quem é quem realmente, ela tende a manter as pessoas que têm algo a esconder longe da contenda política. Nesse sentido, enfatiza-se que a utilização do método RISCA é útil não apenas no período de campanha eleitoral, mas também para acompanhar permanentemente o exercício da função pública dos opositores eleitos. Embora se saiba que a ética, nestas ações, estará sempre condicionada ao padrão moral das pessoas que empregam instrumentos desta natureza [CARDOSO, 2001], e que os referenciais reguladores de uma campanha política são mais ou menos subjetivos, torna-se importante balizar o que é passível de ser realizado com o método RISCA, evitando transformar a campanha em um verdadeiro “vale tudo”. Deve-se ter em mente que investigações inescrupulosas costumam ser as maiores responsáveis pelo baixo nível de inúmeras campanhas políticas. Objetivando minimizar excessos, é conveniente respeitar as seguintes imposições éticas mínimas na execução do método RISCA [SHEA, 1996]: • obter as informações desejadas de forma legal; • dentre as informações obtidas, considerar somente as verídicas e facilmente comprováveis; e • usar somente aquelas que forem relevantes para os objetivos da campanha política. Respeitando basicamente essas condicionantes, o método RISCA poderá ser desenvolvido de forma aberta, porém discreta, pois essa atividade representa uma prática legal, com uma finalidade social evidente, plenamente justificável, qual seja a de desnudar os candidatos oponentes.

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Enfoques temporais relativos ao emprego do método RISCA

Considerando a abrangência temporal de interesse em uma campanha política, a estratégia de ataque poderá assumir duas possibilidades básicas: estabelecer um enfoque retrospectivo (pesquisar sobre o passado do oponente); ou manter um enfoque prospectivo (estimar o que ele pretende fazer, se eleito) [SHEA, 1996]. O foco retrospectivo exige um certo trabalho braçal de investigações e que consiste em garimpar fatos do passado do oponente considerados desabonadores pelos eleitores, levando-os a fazer comparações que favoreçam o cliente. Quanto ao foco prospectivo, isto exige uma elaboração mental mais sofisticada, com decomposição e análise das propostas e promessas do oponente, objetivando desacreditá-las diante dos eleitores. A exploração prospectiva das oportunidades encontradas pela equipe do RISCA requer do orador ou articulista de campanha qualidades especiais, que permitam reduzir a convicção do público-alvo no discurso do opositor, estimulando a dúvida sobre as suas afirmações.

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Organizando o trabalho do método RISCA

O trabalho de reunir informações sobre os candidatos oponentes deve permitir a catalogação do material obtido segundo as seguintes fontes de interesses [SHEA, 1996]:

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Atuação dos candidatos-alvo durante a sua permanência nos cargos eletivos − − − − − − − − − − performance na elaboração de propostas e a sua posterior ratificação nas instâncias finais de votação em plenário; presença em votações importantes e freqüência nos locais de trabalho (nada costuma ser pior para um político do que a imagem de preguiçoso e de desinteressado das demandas dos seus eleitores); patrocínio ou co-patrocínio de propostas controvertidas; aproximação de grupos inspirados por valores questionáveis ante a opinião pública; ascensão política independente da assunção de responsabilidades e de ter ocupado postos de liderança; disputa pela obtenção de verbas orçamentárias que beneficiem as suas bases; uso incorreto das franquias postais e telefônicas; despesas injustificadas efetuadas com o pessoal auxiliar e assessores; gastos excessivos em viagens oficiais; balanço da situação patrimonial e de recursos antes e após o acesso à funções públicas e cargos eletivos.

6.2

Dados oriundos da mídia

Políticos profissionais costumam lutar para chamar a atenção da mídia e, conseqüentemente, ficam expostos à sua observação direta [SHEA, 1996]. Assim, as gafes que cometem, bem como as suas freqüentes contradições, transformam-se em um “prato cheio” para os jornalistas. Saber minimizar essa perigosa exposição permanente requer experiência e sabedoria política, geralmente, pouco comuns nos candidatos aos cargos eletivos.

6.3

Detalhes de campanhas anteriores

As campanhas anteriores são fontes riquíssimas de informações utilizáveis contra o candidato oponente [SHEA, 1996], principalmente naquilo que foi divulgado abertamente por ele próprio e que já se tornou público. É uma atividade simples verificar, item por item, se o candidato eleito cumpriu as propostas em que empenhou sua palavra durante a última campanha. Além disso, qualquer material utilizado contra os oponentes nas campanhas anteriores pode ser novamente processado e transformado em acusações renovadas ou continuadas. 6.4 Dados sobre a carreira e os negócios (excetuando vida pública e pessoal)

Esse campo de pesquisa é muito vasto e pode ser subdividido em pelo menos três grupos de informações pertinentes [SHEA, 1996]: • superdimensionamento de currículo; • procedimentos profissionais ilegais; • associações profissionais comprometedoras ou ausência de fidelidade partidária. Tais dados podem ser obtidos com facilidade. No que tange aos currículos, que são disponibilizados pelos próprios candidatos adversários ou os seus assessores, as realizações pessoais e profissionais listadas podem ser facilmente confrontadas com informações fornecidas pelas organizações ali citadas. Quanto aos procedimentos profissionais ilegais e as associações profissionais comprometedoras, o ponto de partida para se realizar essa investigação pode estar nos arquivos da imprensa ou nos depoimentos de colaboradores desafetos do candidato-alvo.

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6.5

Dados pessoais

Embora as informações pessoais negativas possam ser arrasadoras, sua obtenção e posterior utilização precisam ser feitas com cautela, pois os eleitores, em geral, não gostam de presenciar golpes baixos [SHEA, 1996]. Ademais, é preciso considerar que o nível de tolerância dos cidadãos pode variar de uma região para outra. Em razão disso, é também conveniente avaliar corretamente os custos judiciais e pecuniários decorrentes de acusações infundadas, que podem não compensar o esperado lucro eleitoral. Disso ressalta a necessidade de maior conhecimento no campo do Direito, ou dispor de assessoria para tal.

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Considerações sobre a terceirização do método RISCA

Existem várias maneiras de operacionalizar o método RISCA. Uma delas é contratar uma empresa para desenvolver esse serviço especializado. Terceirizar tarefa tão complexa tem como desvantagens principais o alto custo da prestação do serviço e a possibilidade de ocorrerem defecções e vazamentos, por falta de lealdade. Além do que, agentes mercenários costumam negligenciar quanto ao interesse e à criatividade. Outra forma consiste em estruturar uma equipe própria e treiná-la pacientemente para o desempenho, dotando-a materialmente do que for necessário. Isso leva algum tempo e, obviamente, exige que os trabalhos sejam iniciados com bastante antecedência, e com previsão financeira adequada. O autor acredita que uma equipe orgânica para implementar o método RISCA deva ser crescentemente eficaz, com real devotamento e acúmulo de experiências, ao ser engajada em campanhas sucessivas. Como a informação é um produto de valor especial, que gera uma expectativa de poder para quem a detém, sugere-se que os profissionais terceirizados, nessa atividade, sejam sempre vistos com as devidas reservas. Corroborando esta colocação, é bom não esquecer que uma atuação imprópria (ilegal) ou estabanada durante a implementação do método RISCA pode comprometer toda uma campanha eleitoral do cliente.

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Reunindo e processando as informações desejadas

Obter e processar informações consistentes sobre os candidatos-alvo pode não ser tão complicado quanto parece à primeira vista. O trabalho de reunir e analisar uma expressiva massa de dados objetivos sobre os oponentes, e sobre tudo que possa estar apoiando a sua plataforma eleitoral, seja na ambiência profissional, ou na particular, deve obedecer a uma metodologia apropriada. Quanto aos riscos de invasão de privacidade, torna-se importante saber que, como candidatos, eles são também personalidades públicas, e isto faz com que os limites de sua intimidade sejam recuados. O autor recomenda a estruturação de uma Célula de Inteligência Partidária de tipo empresarial com essa finalidade, seguindo o modelo que operacionaliza as funções básicas do método de Inteligência Empresarial Estratégica: pesquisa; rede; análise; e controle, desenvolvido na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. O método preconiza a ativação de três Unidades com responsabilidades diferenciadas no ciclo de produção de informações, designadas como Unidade de Coleta (UCol), Unidade de Processamento (UP), e Unidade de Controle (UC). A UCol pesquisa informações com um foco perfeitamente definido, enquadrando os candidatos-alvo e os seus colaboradores mais próximos. Ela é a responsável pela obtenção dos dados provenientes das fontes abertas, como a internet, as diferentes mídias jornalísticas (televisão; rádio; e publicações periódicas), e

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da própria sociedade, através da utilização de um serviço telefônico de atendimento, tornando-os disponíveis para os analistas situados na UP. Ao coletar informações, deve-se considerar que, normalmente, não há tempo e nem recursos financeiros disponíveis para uma busca sem objetividade [PLATT, 1963]. Consulta a órgãos públicos e bancos de dados on line, e entrevistas com interlocutores selecionados, ajudam a resolver este problema. A título de direcionamento inicial para o método RISCA, as bibliotecas e os arquivos da imprensa são fontes importantes na obtenção de dados, ou no levantamento de indícios do que se deseja conhecer mais profundamente. A UP potencializa a função análise e é a responsável pelo processamento de todas as informações reunidas no âmbito da Célula de Inteligência. A propósito, deve ser esclarecido que as tarefas realizadas pela UCol, e pela UP, não se confundem. Enquanto os coletores reúnem informações, cumprindo um planejamento detalhado [GOMES & BRAGA, 2002], os analistas cuidam do seu processamento, buscando validá-las antes de cruzá-las com outras informações já armazenadas no sistema. A integração destes diversos conteúdos como se fosse a montagem de um quebra-cabeça é que permite chegar a conclusões que facilitam a tomada de decisões táticas no contexto de uma estratégia de campanha [FRIEDMAN, 1998]. A validação dos conteúdos reunidos, antes de serem processados, é uma medida de segurança que garante credibilidade ao trabalho de Inteligência, que se obriga a deixar de lado tudo que não seja confiável. Durante o processamento das informações, os analistas elaboram hipóteses e buscam comprovar suas suposições, procurando chegar o mais próximo possível do real significado dos fatos e situações protagonizadas pelos candidatos-alvo e as respectivas equipes de apoio. Os analistas também desempenham papel relevante no que diz respeito à função rede, estruturando e controlando redes de colaboradores, cuja missão principal é suprir as suas carências em termos de informações fechadas [BESSON & POSSIN, 1996], procurando monitorar quem sabe o quê sobre os assuntos pesquisados, e como fazer para localizar essas pessoas quando necessário. Considerando que o ato de reunir e analisar informações político-partidárias, utilizando metodologia apropriada e sem ultrapassar os limites legais, ainda não é uma realidade plena entre as organizações partidárias brasileiras, para que o trabalho de RISCA possa ter a eficácia esperada, antes, as Unidades precisam ser “reconhecidas internamente”, o que poderá facilitar sobremaneira a sua vida como funções organizadas dentro do mesmo sistema [BESSON & POSSIN, 1996]. Isto quer dizer que quaisquer colaboradores devem conhecer como as Unidades atuam no processo, permitindo confiança entre as partes e o surgimento de colaborações espontâneas. A interatividade funcional entre coletores, colaboradores (organizados em redes) e analistas de informações será facilitada pela existência de uma Extranet de Inteligência, destinada a permitir o gerenciamento dos dados que “entram” para o processamento [PRESCOTT & MILLER, 2002]. Concebida para permitir acesso digital aos participantes credenciados, a qualquer hora e de onde quer que estejam, ela agiliza e organiza o intercâmbio seguro de informações e o seu posterior processamento em um mesmo ambiente virtual. Para efeito de alimentação do sistema, a Extranet de Inteligência deve ser desdobrada em módulos que correspondem às áreas de interesse do trabalho de RISCA (conforme foi citado anteriormente: 1 - Atuação dos candidatos-alvo durante a sua permanência nos cargos eletivos; 2 Dados oriundos da mídia; 3 - Detalhes de campanhas anteriores; 4 - Dados sobre a carreira e os negócios; 5 - Dados pessoais). As informações conclusivas, produto do trabalho de processamento, devem ser catalogadas em arquivos classificados por assunto, data, local de ocorrência, autoria das ações, etc, além de trazerem uma breve descrição dos fatos ocorridos. É necessário que todas essas informações sejam devidamente registradas,

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respeitando a legislação existente [BESSON & POSSIN, 1996]. O que não for lançado nos bancos de dados, tende a perder-se com o tempo. Sabendo que a direção de campanha não dispõe de tempo para debruçar-se mais profundamente sobre todas as demandas, particularmente no que diz respeito ao acompanhamento cerrado dos adversários políticos e as suas atividades, torna-se necessária a figura do Gestor de Inteligência (GI), profissional experiente no processamento de informações, com perfeito conhecimento das possibilidades e deficiências da estrutura de Inteligência implantada. Mantendo relações de absoluta confiança com a direção da campanha, ele personifica a UC ao exercer a função de controle, além de animar os trabalhos de reunião e de análise. Fazendo uma rápida abordagem sobre a questão ética nas ações de Inteligência Político-partidária, ao GI cabe definir claramente o que deve e o que não deve ser feito em termos de reunião de informações, tanto pelo conforto intelectual daqueles que agem, como pela segurança e imagem do próprio sistema. Portanto, não devem ser utilizados quaisquer procedimentos ilegais para obter informações. Sempre é bom lembrar que informação conseguida ilegalmente acaba sendo dispendiosa, perigosa, incompleta e limitada [BESSON & POSSIN, 1996]. Enfatizam-se aqui os aspectos éticos que dizem respeito a todas as etapas do ciclo de produção de informações, pois a Inteligência não deve operar para levar seus patrocinadores a serem incompatibilizadas com a justiça. Assim, mesmo realizando um trabalho interno, a pesquisa e a análise de informações não estão livres das questões legais. Além disto, é preciso ter critério na elaboração de arquivos, respeitando a legislação existente. Outro aspecto relevante a ser considerado pelo GI consiste no cuidado com a legalidade das fontes de informação [BESSON & POSSIN, 1996]. Na mesma linha de raciocínio, contatos externos não devem ser “alavancados” com manipulações ou pressões financeiras e morais. A recusa no fornecimento de informações deve ser respeitada. As restrições deontológicas aqui defendidas mostram claramente a necessidade de se ter um código de ética balizando as atividades de Inteligência Competitiva desenvolvidas em uma campanha eleitoral.

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Aspectos de segurança inerentes ao método RISCA

O método RISCA é um instrumento de cunho ofensivo e deve ser utilizado para ampliar permanentemente o conhecimento a respeito dos oponentes comprometidos com ações ilegais ou o socialmente reprovável, sobretudo quando a estratégia de campanha indica que é necessário partir para o ataque puro e simples [SHEA, 1996]. Assim, sob o aspecto de segurança, torna-se conveniente atentar para o fato de que a credibilidade das fontes é tão importante quanto o conteúdo das informações. Por esta razão, os dados reunidos no calor da disputa precisam ser checados e rechecados antes de serem transformados em “munição” contra o concorrente eleitoral. A veiculação de informações errôneas pela equipe de campanha pode prejudicar seriamente a ascensão do cliente. Além disso, antes de usar fatos condenáveis contra os adversários, é preciso saber se o cliente não está sujeito a ataques do mesmo tipo, por ter protagonizado ações, igualmente, condenáveis. Nesse caso, com a discrição necessária, é conveniente o pleno conhecimento de práticas impróprias que ele tenha cometido, o que exigirá investigações voltadas para dentro da campanha partidária e da vida pessoal do cliente. Esse procedimento configura uma importante ação preventiva e visa a elaboração de uma estratégia de defesa para o próprio cliente, diante de eventuais acusações do adversário [SHEA, 1996]. Nesse sentido, a equipe de RISCA deve estar preparada para ver o candidato em sua verdadeira grandeza, reconhecendo que ele talvez não seja tão correto e competente quanto se julgava pudesse ser.

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No entrechoque da campanha, compreensivelmente, ele poderá tentar omitir dos colaboradores mais chegados as más informações a seu respeito, negando antigas mazelas. Não bastasse isso, deve ser considerada a enorme força do “eu” de candidatos envolvidos em disputas eleitorais. Torna-se fácil eles acreditarem somente naquilo que desejam, esquecendo “involuntariamente” o que lhe possa ser desagradável a seu respeito, como determinados aspectos obscuros e reprováveis de seu passado. Caberá, então, à equipe de RISCA, levantar adequadamente cada uma dessas vulnerabilidades “esquecidas”, objetivando corrigir rapidamente deficiências e antecipar-se às ações da Inteligência adversária. Apesar do constrangimento que isso possa causar, não há outra saída para o cliente, pois se os competidores forem competentes, poderão lançar contra ele uma irrefreável busca de informações a seu respeito. Neste caso, será crucial posicionar antecipadamente defesas e justificativas convenientes, que permitam neutralizar, tanto quanto possível, os ataques ao cliente. Por esse motivo, a equipe de RISCA deve ser meticulosamente selecionada com base na lealdade e na discrição. Os considerados descontrolados, radicais e intempestivos, precisam ser evitados. Os locais de trabalho, a própria organização da equipe e seu modus operandi, precisam ser revestidos de muita discrição.

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Idéias conclusivas

A crescente complexidade dos quadros políticos na democracia brasileira, decorrente da dificuldade intrínseca dos eleitores de identificar e obstar projetos eleitorais apoiados em mentiras, mostra de forma clara a necessidade de as organizações partidárias comprometidas com os anseios populares relevantes voltarem as suas atenções para o uso das práticas modernas de Inteligência Competitiva, objetivando impedir o acesso de políticos desonestos aos cargos eletivos. O desenvolvimento da Inteligência na dimensão econômica, acelerada pela globalização e os avanços da tecnologia da informação [PRESCOTT & MILLER, 2002], vem permitindo uma lucratividade crescente para as organizações empresariais que acreditam e investem nessa emergente área de conhecimento. A adequação das técnicas de tratamento de informações ao cenário político-partidário configura uma conseqüência natural dessa tendência empresarial. As experiências reunidas no mercado, considerado verdadeiro campo de batalha, onde a concorrência acirrada e a exposição pública exigem competência para sobreviver, podem e devem ser transferidas para o ambiente político-partidário, trazendo ganhos até então inconcebíveis para a sociedade. As organizações partidárias ao adotarem recursos especializados de Inteligência Competitiva, como a metodologia RISCA, desdobram benefícios imediatos para a democracia porque reduzem as chances de sucesso de candidatos com histórico comprometedor. O método RISCA permite de forma legal mostrar aos eleitores quem é quem realmente, desestimulando aqueles que têm algo a esconder de entrarem na contenda política. Complementarmente, o método RISCA também ajuda a manter sob pressão os políticos no exercício da função pública. Por respeitar condicionantes legais, o método RISCA pode ser desenvolvido abertamente, pois representa uma prática com finalidade social evidente, plenamente justificável, qual seja a de desnudar os concorrentes diante da sociedade. Por esses motivos, principalmente, o autor acredita que a atividade de Inteligência Competitiva, desenvolvida com o rigor aqui defendido, ainda terá um papel de destaque no cenário político nacional. O método RISCA é uma arma importante em qualquer campanha eleitoral, porque funciona. ____________________________________________________________________________________

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Referências Bibliográficas BESSON, Bernard. POSSIN, Jean-Claude. Do Serviço de Informação à Inteligência Econômica. Lisboa. Instituto Piaget. 1996. CARDOSO, A. Mendes. A Atividade de Inteligência no Brasil. Entrevista concedida ao Jornal Correio Brasiliense no dia 27 Dez. Brasília. 2001. COELHO, Gilda Massari. Inteligência Competitiva: definindo a ferramenta e seu uso no Brasil. São Paulo. IBC. 1999. FRIEDMAN, Richard. Fontes Abertas de Inteligência. Washigton. Military Review. 1998. GOMES, Elisabeth. BRAGA, Fabiane. Inteligência Competitiva. Rio de Janeiro. Campus. 2001. INFOWARCON`97. A Guerra por outros meios – espionagem econômica, ciberterrorismo e segurança da informação. Conferência realizada pela National Computer Security Association. Bruxelas. 1997. PLATT, Washington. A produção de informações estratégicas. Rio de Janeiro. Agir. 1967. PRESCOTT, John. MILLER, Stephen. Inteligência Competitiva na prática. Rio de Janeiro. Campus. 2002. SHEA, Daniel M. Campaign Craft - The Strategies, Tactics, and Art of Political Campaign Management, Chapiter 6, Opposition Research: Let’s Look at the Record. Westport, Connecticut. Praeger Publishers. 1996.

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