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Resenha Sobre o Inicio do Tratamento

Freud S. (1913 [1911]). “Sobre o inicio do tratamento (Novas recomendações sobre a
técnica da psicanálise I)”. In Freud S., Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol XII, Rio de Janeiro, Imago, 1913.

Sigmund Freud (1856-1939) foi um médico neurologista austríaco considerado o
pai da psicanálise. Freud chama a nossa atenção para o inconsciente e é apontado como
um dos maiores pensadores do século XX. Ele marca gerações com suas teorias e tem
revolucionado a psicologia contemporânea. Freud produziu um número grande de livros
importantes, dentre eles: Psicologia da Vida Cotidiana, Totem e Tabu, Interpretação dos
Sonhos e muitos outros.

O texto sobre o inicio do tratamento é um dos escritos denominados artigos
sobre a técnica que tem como objetivo evidenciar a posição de Freud em relação ao
método que estava construindo e as regras desse método. Cabe lembrar que o próprio
Freud chama “estas regras de recomendações e não reivindica qualquer aceitação
incondicional para elas” (Freud, 1913, p.139).

Posto isso, Freud vai fazer uma correlação entre o jogo de xadrez e a
psicoterapia, ou seja, ele traz esse exemplo para mostrar que não há como estabelecer
regras no tratamento analítico, e sim recomendações. Sendo assim, essas
recomendações podem ser utilizadas ou não e isso vai depender de quem procura o
tratamento. Freud propõe essas recomendações para o início do tratamento porque
qualquer mecanização da técnica encontraria obstáculos na subjetividade de cada
indivíduo.

O paciente era aceito provisoriamente e essa condição era demarcada por um
período de uma ou duas semanas, a fim de decidir se o paciente era adequado para a
análise, evitando assim uma descontinuação após certo tempo. Outra questão também
importante nessa demarcação eram as razões diagnósticas. Quando se tem uma neurose
com a sintomatologia de um quadro de histeria ou obsessão, tem-se de levar em

as atitudes de confiança ou desconfiança por parte dos pacientes não tem tanta importância. ao iniciar o tratamento. Segundo Freud “a psicanálise é sempre questão de longos períodos de tempo. dizer-lhe isso antes que ele se decida finalmente sobre o tratamento. p. contratempos acidentais não ocorrem e moléstias intervenientes. ele diz que o paciente não é obrigado a ficar no tratamento por um longo . “Sua confiança ou desconfiança inicial é quase desprezível. Se o paciente estiver sofrendo de esquizofrenia. mesmo que não faça uso da mesma. Segundo Freud. 1913. Freud faz algumas considerações sobre o livre arbítrio do analisando. Freud reserva ao paciente uma hora específica de seu dia de trabalho. de meio ano ou de anos inteiros – de períodos maiores do que o paciente espera. Surgem dificuldades também quando a pessoa do analista e o seu novo paciente ou familiar acham-se em posição de amizade ou tem laços sociais uns com os outros. p. 1913.” (Freud. Para os casos leves ou na continuidade de um tratamento bem avançado. ele é responsável por ela. portanto. comparadas às resistências internas que mantêm a neurose firmemente no lugar” (Freud. a promessa de cura ficaria comprometida e por esse motivo o psicanalista teria motivos fortes para evitar cometer equívocos no diagnóstico. o tratamento tem uma interrupção e quando o paciente melhorar é aceito de volta em outro horário vago. com exceção dos domingos e feriados oficiais. três dias por semana é o suficiente.141). Nos casos onde ocorrem moléstias orgânicas que não podem ser afastadas. evitando assim que qualquer um comente mais tarde que foi enganado por um tratamento extenso e de várias implicações. têm consequências desvantajosas.145). Sobre o tempo. Ele ainda afirma que no início seria conveniente chamar a atenção do paciente para as dificuldades e sacrifícios que o tratamento analítico envolve. O trabalho é feito todos os dias. Os acordos em relação ao tempo e dinheiro são pontos importantes no início do tratamento. É nosso dever. apenas de modo muito raro.consideração a possibilidade de ser um estádio preliminar da esquizofrenia. sendo a hora do paciente. Freud diz que se o acordo for seguido. tratamento prévio por outros meios e conhecimento anterior entre o paciente e o analista. Debates longos precedentes do início do tratamento analítico.

mostrando que o analista não deve ter pudor. . Ele faz uma comparação entre neurose e organismo dizendo que suas manifestações não são independentes uma das outras. Freud vai dizer que a única regra permitida é aquela que fundamenta a técnica psicanalítica: a associação livre. Isso é resistência. Freud mostra que se o paciente for liberto de um sintoma ele poderá descobrir que um sintoma suportável de maior proporção tornou-se insuportável. pelas histórias de vida ou até mesmo pela história da doença do paciente. Independente da escolha que o analista fará. Ele explica que tem pacientes que preparam com todo o cuidado o que vão comunicar. Freud relata que qualquer tipo de preparação não deve ser recomendado quando se está em análise. Freud faz uma relação entre a sexualidade e o dinheiro. A resistência também se faz presente quando os pacientes afirmam que não conseguem pensar no que vai dizer. A explicação que Freud dá é que uma forte resistência se fez presente com o intuito de defender a neurose e o analista não deve atender a demanda do paciente. achando que estão fazendo um melhor uso do tempo disponível ao tratamento. ele não será bem sucedido. Outra recomendação é evitar tratamento gratuito e sem exceções. Ele diz que o paciente deve se deitar num divã e a posição do analista seria atrás desse divã. É a partir desse método que a psicanálise se desenvolveu. porém deixa claro que se o tratamento for interrompido em um curto espaço de tempo. Freud deixou claro no texto que por questões pessoais ele fazia uso do divã. fora de vista do paciente. A análise pode ser iniciada pelas lembranças de infância. ou seja. O pagamento deve ser feito a intervalos regulares evitando o acúmulo de grandes somas de dinheiro. Outro ponto bastante delicado é a questão do dinheiro dos honorários do analista. pois ele pode se sentir explorado no decorrer do tratamento e isso pode lhe custar como analista. Freud faz alusão a certo “ritual” referente à posição que o tratamento é realizado e isso tem haver com o método hipnótico. O analista não pode exercer o papel de filantropo desinteressado.período de tempo. é imprescindível deixar que o paciente fale e ele mesmo deve se sentir a vontade para escolher por onde começar. Essa preparação impede que pensamentos desagradáveis se manifestem.

Isso . O segundo momento é caracterizado pela entrada em análise. que vai verificar a possibilidade que o paciente tem de entrar em análise. cabe ao analista descobrir esta transferência para ter acesso ao material patogênico do paciente. certos equívocos que poderiam ocorrer. p. p. evitando assim. Outro ponto relevante é a linha de conduta que o analista deve ter para não traduzir os sintomas que o paciente apresenta. um dos escritos mais ricos e preciosos que um iniciante no ensino psicanalítico pode ter acesso.” (Freud. porém é necessário tempo para isso acontecer. 1913. Freud vai dizer que tudo que é posto representa uma transferência que vem de encontro às primeiras resistências. tem-se de ter cuidado em não fornecer ao paciente a solução de um sintoma ou a tradução de um desejo até que ele esteja tão próximo delas que só tenha de dar mais um passo para conseguir a explicação por si próprio. é o momento para se estabelecer a transferência. ou seja. Freud vai abrir mão de algumas recomendações que ele mesmo deu. As resistências seriam dissipadas e o próprio paciente vincularia o analista a imagens das pessoas que o tratam com afeto. É importante ressaltar que com o amadurecimento da técnica. Para finalizar esse breve relato pode-se concluir que Freud faz distinção entre dois momentos importantes no processo analítico. O texto sobre o inicio do tratamento é de uma preciosidade ímpar. 1913.155). permitindo assim que intervenções sejam feitas. Para exemplificar temos algumas situações que o paciente pode estar pensando em relação ao tratamento em si. O primeiro engloba as entrevistas preliminares. A forma mais provável para o paciente fazer essa ligação é assegurar um interesse verdadeiro nas questões do paciente. porque sem ela é impossível iniciar qualquer tratamento. pelo fato de se deitar num divã ou até mesmo na aparência da sala de espera. Freud põe em jogo a seguinte questão: “Quando devemos começar a fazer nossas comunicações ao paciente? Qual é o momento para revelar-lhe o significado oculto das ideias que lhe ocorrem e para iniciá-los nos postulados e procedimentos técnicos da análise?” (Freud. diz Freud. Ele é enfático ao afirmar que somente após a transferência ter-se estabelecido no paciente.154). o paciente já está num processo transferencial com o analista. Sobre isso Freud diz: “mesmo nos estádios posteriores da análise. Por outro lado. O objetivo do tratamento é ligar o paciente a ele próprio e a pessoa do analista.

mostra a seriedade que a psicanálise trata das questões teóricas que Freud apresenta nos seus escritos. .