POR UMA EDUCAÇÃO

DESCOLONIAL E LIBERTADORA
MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO
ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL

POR UMA EDUCAÇÃO
DESCOLONIAL E LIBERTADORA
MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO
ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL

Venâncio III. Botelho FOTO DA CAPA Povo Kalapalo (MT) – Foto: Adreas Kuno Richter DESENHOS Povo Yanomami .org.br Por uma Educação Descolonial e Libertadora MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL PESQUISA E LEVANTAMENTO DE DADOS Regionais do Cimi ORGANIZAÇÃO DO MANIFESTO Emília Altini Eunice Dias de Paula Gilberto Vieira dos Santos Luiz Gouvêa de Paula Rosimeire de Jesus Diniz Santos ELABORAÇÃO DOS TEXTOS Clovis Antonio Brighenti Egon Dionísio Heck Emília Altini Eunice Dias de Paula Gilberto Vieira dos Santos Iara Tatiana Bonin Luiz Gouvêa de Paula Rosimeire de Jesus Diniz Santos Ruth M.cimi. Monserrat Saulo Ferreira Feitosa Veronice Lovato Rossato REVISÃO E COORDENAÇÃO EDITORIAL Patrícia Bonilha SELEÇÃO DE IMAGENS Aida Cruz DIAGRAMAÇÃO Licurgo S. organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) PRESIDENTE DOM Erwin Kräutler VICE-PRESIDENTE Emília Altini SECRETÁRIO EXECUTIVO Cleber César Buzatto ENDEREÇO SDS – Ed. Este Manifesto é uma publicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). F. sala 309-314 CEP 70.393-902 – Brasília-DF Tel: (61) 2106-1650 – Fax: (61) 2106-1651 www.

dedicamos a todos os educadores e educadoras indígenas. . De maneira especial.Dedicamos esta publicação aos povos indígenas do Brasil que. apesar da negação de suas formas próprias de educar. teimam em construir uma “outra escola”. fazem da escola e da educação escolar um instrumento de resistência contra toda forma de colonialidade. Fiéis aos seus povos e comunidades.

..............5......................... 21 2........................................................................................... 47 4.............1.................... Novas bases do direito à Educação Escolar Indígena ........................ Transporte escolar.......................................................... 55 62 Capítulo VII Organização e Gestão das Escolas Indígenas................ 75 7.............2......................... 29 2................................................................................................................. 40 4.. Níveis e modalidades de ensino...........................................8........................................................................................ 15 20 Capítulo II Organização Indígena: um campo prenhe de esperança........................... 38 4........................................ Outras normas.............................. Referencial Curricular Nacional para Escolas Indígenas (RCNEI) .4....................4............................................................................................................................................................. Plano Nacional de Educação (PNE)..................... 39 4.......................................... Mobilização e luta na Assembleia Nacional Constituinte (ANC) ................... Alimentação escolar......... Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) ......... 44 4....................... 37 4................6..... 31 3.......................... Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) ...............................5...................................................................................................1...................1............... 21 2....................................................................................................... 63 7...................................................................................................... 37 4............................... Constituição Federal..................... 24 2......................................................................................................................... A terra como eixo mobilizador.................................................... 48 50 Capítulo V Regularização das Escolas Indígenas.............1.............. Decreto nº 6...............................3............. Direção das escolas..................... 51 54 Capítulo VI Estrutura Física........2................................................... 42 4............5...... 31 36 Capítulo IV Educação Escolar Indígena: princípios consagrados na legislação ....3............... 29 30 Capítulo III Movimento de Professores Indígenas no Brasil.... Resolução 05/12 do Conselho Nacional de Educação (CNE) ......3..... Encontros e Assembleias Indígenas...................... 9 14 Capítulo I Histórico da Educação Escolar Indígena.. Sumário 6 Glossário 8 Apresentação Com as Próprias Mãos: por uma escola dos povos indígenas .................................. Descolonização da escola............4.....................2....................................................... Mobilização para evitar retrocessos ..... Projetos Político-Pedagógicos (PPP) .............. 21 2............................9.................... União das Nações Indígenas (UNI) e o surgimento das organizações indígenas ......................................................................................................861/2009 – Territórios Etnoeducacionais ........................ 63 7.....7.............. 81 7........ 82 4 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL ............. 47 4...................................................................................... 73 7............................................

....................................................... 109 112 Capítulo XII Controle Social.. Algumas perspectivas ..................................... 92 94 Capítulo IX Formação dos Professores Indígenas.................................................. Negação da participação dos sábios indígenas................................... Do monitor ao professor..................4................................. Ensino Técnico Profissionalizante ..................................................................................... 89 8......................... 95 9........................................................................... 98 9............. Analisando os diferentes contextos.................................................................. 103 104 Capítulo X Material de Apoio.............................. 113 116 Conclusão Desafios e Perspectivas....... 91 8.... Alarmante interinidade..... Professores e professoras indígenas..... 84 Capítulo VIII Situação dos Docentes Indígenas .........................................................................2. 102 9............................................................... 117 119 Referências Bibliográficas CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .....6..................................................................4........................................................................................3....................1........................................................................ Categoria professor indígena....................... 85 8............................................................................................................... Ingerência de gestores públicos............................... plano de carreira .......................................... 105 108 Capítulo XI Territórios Etnoeducacionais e Pseudo-Diferencialidade ................................ Importância do território................ 96 9..........................................................................................2..................................................................... 87 8.............CIMI 5 ... concurso público..............................................3.. 99 9............................ 95 9......1...........................5...5............................................................................ Presença nas escolas indígenas............................................................................................................................ 85 8...........

Glossário .

ACP Ação Civil Pública Neiro Núcleo de Educação Indígena de Rondônia AGU Advocacia Geral da União OIT Organização Internacional do Trabalho Anai Associação Nacional de Apoio ao Índio Operação Anchieta (posteriormente denominada Opan ANC Assembleia Nacional Constituinte Operação Amazônia Nativa) ANE Articulação Nacional de Educação Opiron Organização dos Professores Indígenas de Rondônia Apib Articulação dos Povos Indígenas do Brasil PAC Programa de Aceleração do Crescimento APM Associação de Pais e Mestres PCH Pequena Central Hidrelétrica PCN Parâmetros Curriculares Nacionais Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste.CIMI 7 . Secadi CNE Conselho Nacional de Educação Diversidade e Inclusão CNPI Comissão Nacional de Política Indigenista Seduc Secretaria Estadual de Educação Coordenação das Organizações Indígenas Semec Secretaria Municipal de Educação Coiab da Amazônia Brasileira SGTC Secretaria-Geral de Contencioso Coneei Conferência de Educação Escolar Indígena SME Secretaria Municipal de Educação Consed Conselho Nacional de Secretários de Educação STF Supremo Tribunal Federal Conselho dos Professores Indígenas TAC Termo de Ajustamento de Conduta Copiar do Amazonas e Roraima TEE Territórios Etnoeducacionais Copipe Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco TI Terra Indígena CPI Comissão Pró-Índio UEMS Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul CTI Centro de Trabalho Indigenista Uepa Universidade Estadual do Pará DST Doenças Sexualmente Transmissíveis Ufam Universidade Federal do Amazonas EJA Educação de Jovens e Adultos UFF Universidade Federal Fluminense FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação UFG Universidade Federal de Goiás Funai Fundação Nacional do Índio UFGD Universidade Federal Grande Dourados Funasa Fundação Nacional de Saúde UFPA Universidade Federal do Pará Gered Gerência Regional de Educação UFPE Universidade Federal de Pernambuco GT Grupo de Trabalho UFSC Universidade Federal de Santa Catarina IES Instituições de Ensino Superior UFT Universidade Federal do Tocantins IF Instituto Federal UHE Usina Hidrelétrica Inep Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Uneit União dos Estudantes Indígenas do Tocantins ISA Instituto Socioambiental Unemat Universidade do Estado do Mato Grosso MEC Ministério da Educação UNI União das Nações Indígenas MPF Ministério Público Federal Unicamp Universidade Estadual de Campinas MPT Ministério Público do Trabalho Unir Universidade Federal de Rondônia NDI Núcleo de Direitos Indígenas Unochapecó Universidade Comunitária da Região de Chapecó NEI Núcleo de Educação Escolar Indígena URE Unidade Regional de Educação CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Apoinme PEC Proposta de Emenda à Constituição Minas Gerais e Espírito Santo Arpin PEE Plano Estadual de Educação Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste Sudeste PL Projeto de Lei Arpinsul Articulação dos Povos Indígenas do Sul PLP Projeto de Lei Complementar Arpipan Articulação dos Povos Indígenas do Pantanal Pnaic Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa Aspit Associação dos Professores Indígenas do Tocantins PNE Plano Nacional de Educação Capoib Conselho de Articulação dos Povos Indígenas do Brasil Programa Nacional de Proteção dos Defensores de PNPDDH CCLF Centro de Cultura Luiz Freire Direitos Humanos CEB Câmara de Educação Básica PPP Projeto Político-Pedagógico Cedi Centro Ecumênico de Documentação e Informação Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Prolind Interculturais Indígenas CEE Conselho Estadual de Educação Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico CEEI Conselho de Educação Escolar Indígena Pronatec e Emprego Institucional CF Constituição Federal RCNEI Referencial Curricular Nacional para Escolas Indígenas Cimi Conselho Indigenista Missionário Rebio Reserva Biológica CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Secretaria de Educação Continuada e Alfabetização.

um embrionário modelo de educação escolar foi sendo construído. agora com a participação dos povos indígenas Novos desenhos de escolas foram configurados. Apresentação A partir do novo modo de vivência missionária e considerando as rupturas que a escola colonizadora provocava. imbricados nos diversos universos socioculturais próprios de cada sociedade indígena Povo Awá Guajá (MA) – Foto: Elisa Cappai/Greenpeace Apresentação: Povo Awá Guajá – MA – foto de Elisa Cappai – Greenpeace (1) .

O modelo europeu de educação foi transplantado e imposto aos povos indígenas. A escola era um eficiente meio de integrar os indígenas à sociedade não indí- gena. pode-se afirmar que a escola missionária cumpria fielmente o A escola era um eficiente meio de integrar os indígenas à sociedade não indígena. promovendo as elaborada e codificada em narrativas míticas que se grandes assembleias indígenas. processos educativos próprios. em plena ditadura militar e para servir aos novos senhores da terra conquistada quando o Estado brasileiro assumia aberta. equalizar a relação assimétrica imposta. após o contato. necessários à continuidade da vida. suas culturas e suas línguas. com valores.Com as Próprias Mãos: por uma escola dos povos indígenas O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) foi seja. favoreceu e ideais interligados a uma cosmovisão altamente a articulação entre aldeias e povos. ou já que ignorava os saberes e conhecimentos tradicionais CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . que significam. e contra os projetos integracionistas Por outro lado. o Cimi propõe uma nova majoritária como única perspectiva.CIMI 9 . evidencia- Cimi conferiu um novo sentido ao trabalho da igreja se a percepção de que estas sociedades possuem católica junto aos povos indígenas. Tendo como base o protagonismo indígena. possibilitando. A partir do novo p e r í o d o. já que ignorava e reprimia as práticas socioculturais dos povos indígenas que possibi- litaram a produção de saberes e conhecimentos capazes de lhes assegurar a vida durante milênios. e desenvolvimentistas. por um lado. regras rência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). na qual nossa Dentre as várias dimensões constitutivas da sociedade ocupa o lugar dominante e as sociedades atuação de missionários e missionárias naquele indígenas um lugar minorizado. o acesso os primeiros contornos da luta pela garantia do direito de todos os indivíduos ao conjunto de conhecimentos à terra tradicional e da diversidade sociocultural. o muitos povos solicitaram que a escola fosse capaz de extermínio físico e cultural dos povos indígenas. onde se desenharam atualizam ritualmente. o a convivência respeitosa e o diálogo. a garantia de formar pessoas dóceis e preparadas criado em 1972. Vinculado à Confe. desestruturando suas vidas. até hoje. crítica da pastoral indigenista até então realizada. é verdade que. o m o d o co m o a Povo Kaingang (RS) – Foto: Selistre de Campos educação era trabalhada com os povos indígenas atendidos pelas missões era uma das maiores preocupações. educação. assim. Por isso. objetivo dos colonizadores. Ao articular prática missionária que rompe com este modelo de missionários e missionárias que faziam uma auto. mente a integração dos povos indígenas à sociedade A partir de sua criação. a ferro e fogo.

práticas colonialistas sob novas roupagens. o direito a uma escola tatamos que violações destes direitos são cometidas específica e diferenciada foi garantido na Consti. de 1988. direitos extensamente garantidos em leis. vem a 6. cons- indígena e de seus aliados. diversos universos socioculturais próprios de cada Contudo. em tese. e na Lei de Diretrizes e Bases vezes. agora com a participação dos povos que os processos de escolarização sejam efetivados indígenas. Educação (Res. Povo Tapirapé (MT) – Foto: Antônio Carlos Moura Material de apoio pedagógico produzido nas línguas indígenas facilita a compreensão e é um direito assegurado pela legislação modo de vivência missionária e considerando as nalização de uma educação escolar adequada ao rupturas que a escola colonizadora provocava. perpetuando. rotineiramente e. que testemunha o sofrimento e a indig- esses direitos. Eles passaram a definir novos desenhos. indígenas. comunidades indígenas não apresenta um panorama Após uma luta bastante intensa do movimento tranquilo como seria de se esperar. é inegável a existência de um embrionário modelo de educação escolar foi sendo considerável aparato jurídico e legislativo garantindo construído. nação dos professores. os povos indí. público manifestar seu repúdio a esta situação e nizar a Educação Escolar Indígena por territórios exigir do poder público o pleno cumprimento dos etnoeducacionais. de 1996. decretos genas. 05/2012). detalhando O Cimi. 10 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . de acordo com as especificidades socioculturais de configurando escolas imbricadas nas culturas dos cada povo indígena.861/2009) instituindo uma nova forma de orga. o dia a dia das escolas inseridas em sociedade indígena. muitas tuição Federal. visando através de um árduo caminho trilhado pelos povos superar os problemas que dificultam a operacio. na qual. direitos estes que foram conquistados entes federados trabalhariam em conjunto. o descumprimento das leis é efetivado pelos da Educação Nacional. 03/1999 e Res. Assim. Duas resoluções agentes estatais que deveriam ser os primeiros a fundamentadas em pareceres foram editadas pela zelar pelo bom cumprimento das leis. Ao contrário. as entidades aliadas. as universidades e os e resoluções. das lideranças e comunidades Há um Decreto Presidencial (Decreto indígenas diante desses atos de violência. Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de assim. fato ainda mais alarmante. um mundo indígena. com o apoio de seus aliados.

O cenário para acolher a imensa contribuição que os conhe- revelado pelos depoimentos evidencia o abismo cimentos dos povos indígenas nos ofereceram por que persiste entre as leis e a vivência cotidiana nas mais de cinco séculos e continuam nos oferecendo. “aprendem fazendo” CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . os tocar pelas diversas formas de ensinar e aprender dos povos indígenas no Brasil ainda continuem a ser povos indígenas. Este Manifesto. trata-se de uma oportunidade para como quaisquer outros produzidos em diferentes nos aprimorarmos como seres humanos. Conhecimentos que. Temos ainda sociedades humanas. explicitando como ainda é difícil que que lhes cabe é reconhecer a esses povos a autonomia as sociedades indígenas sejam respeitadas como e a dignidade que lhes é de direito. retirada de um depoimento. dar aos conhecimentos indígenas o valor indígenas. se tivermos disposição para nos deixarmos É inadmissível que. escrito – a muitas mãos – por enquadrá-los em um modelo organizativo próprio membros das equipes de diversos Regionais do Cimi. ilustra bem a nossa ação nessa nossa casa.  u Povo Maraguá (AM) – Foto: Rosa F. Assim. das sociedades ocidentais.CIMI 11 . teremos também a chance olhados a partir de uma atitude de pretensa superio. detentoras de saberes e conhecimentos tão válidos Ademais. A afirmação “não é uma escola diferenciada. tempo. de Oliveira As crianças e os jovens indígenas são inseridos nas práticas das comunidades e. que querem com os outros. com os mais velhos. em pleno século XXI. Por o quadro caótico em que se encontram as escolas outro lado. aldeias. de nos tornarmos mais fraternos e solidários uns ridade por parte dos gestores públicos. o planeta Terra. inclusive. traz relatos da calamitosa situação da Educação É indispensável e urgente mudar esse olhar Escolar Indígena em vários lugares do país. podem reverter o apenas algumas disciplinas que inserem a cultura processo de destruição da vida a que está conduzindo indígena”.

.

Povo Yanomami – Foto: Silvano Sabattini “ Ninguém educa ninguém. ” Paulo Freire . os homens se educam entre si. mediatizados pelo mundo. ninguém educa a si mesmo.

seleção dos melhores. relações verticais entre professor e aluno – e torná-la adequada às culturas que vivem e pretendem continuar vivendo de acordo com outras racionalidades A luta pela Educação Escolar Indígena é um componente estratégico das relações de poder entre o Estado e os povos Povo Yanomami (RR) – Foto: Maria Edna Brito 14 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . hierarquização. competição. Capítulo I É desafiador colocar sob controle uma instituição que reproduz relações capitalistas – individualização.

vão produzindo o lugar social que esta pessoa irá ocupar. que lembrar que a educação não se restringe às possuem culturas que têm por base a oralidade. menos complexas. relações verticais entre professor e aluno – e torná-la adequada às culturas que vivem e pretendem conti- nuar vivendo de acordo com outras racionalidades. colaborando para desenvolver nos estudantes certas disposições. Quais conhecimentos entram na escola? O que é considerado relevante? Quais disciplinas são mais valorizadas? Esta ordem das disciplinas escolares também produz. uma valorização desigual dos saberes. sendo conside- radas periféricas algumas dimensões que na vida A Educação Escolar Indígena ainda é marcada pela falta de indígena são centrais. É desafiador colocar sob controle uma instituição que reproduz relações capitalistas – individualização. E como a escola que temos está inserida num modelo capitalista de produção. recursos e pelo desrespeito às decisões indígenas CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .CIMI 15 . A escola é uma é a escrita como código a partir do qual a escola instituição que ganha grande relevância na moder. A escola não apenas produz e socializa que encontramos em documentos e textos acadê- saberes. em nossa cultura. Quando os povos indígenas afirmam que a Educação Escolar Indígena é um grande desafio. certos anseios que são próprios desse tipo de sociedade. seleção dos melhores. pouco estrutu- como indispensáveis para a sua inserção no mundo radas e sob tantas outras formas de preconceito do trabalho. ou de conteúdos curriculares. institui verdades e saberes. ela produz experiências cotidianas que vão Povo Dâw . A organização curricular também está estru- turada de acordo com saberes consagrados e orde- nados de um modo significativo para o mundo ocidental. ela reproduz. competição. a razão principal não é o desconhecimento de proce- dimentos didáticos. certos valores. experiências de escolarização. hierarquização.Histórico da Educação Escolar Indígena P ara falar deste tema é sempre importante Outro desafio para os povos indígenas.São Gabriel da Cachoeira (AM) – Foto: Clarissa Tavares integrando a pessoa a uma lógica de sociedade e. como lugar social mais importante na socialização as culturas indígenas passam a ser vistas como da pessoa e na aquisição dos conhecimentos tidos empobrecidas. ao mesmo tempo. dá coesão e torna significativo esse modelo. mas sim o fato de que a lógica de organização da escola contraria a lógica de vida destas culturas. O que significa traduzir nidade em sociedades ocidentais e se consagra a oralidade em escrita? Em função dessa tradução.

a falta de vontade política para fazer respeitar os direitos constitucionais destes povos. muitas dessas experiências são fragmentadas e descontínuas e a oferta oficial de Educação Escolar Indígena. desde o século XVI. “para não sermos mais explorados”. “a serviço da comunidade”. “escola na retomada” e “escola para aprender a língua” são algumas expressões dos ecos de muitos encontros de professores indígenas que ocorrem país afora. 16 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . profes- sores. mas justificam a sua existência no anseio de que ela possa contribuir com suas lutas mais amplas. em grande parte dos casos. em encontros e reuniões que problematizam a experiência escolar. vamos perceber o quanto o lugar político da escola está delimitado. No entanto.. se faz necessário contextualizar a intrincada relação historicamente estabelecida entre Os povos indígenas resolveram. os povos indígenas assumem a escola como uma insti- tuição importante e necessária. discute o Estado e os povos indígenas para que se possa a impossibilidade de se manter um texto ou uma obter uma melhor compreensão de todos os liames cultura coesa e coerente ao ser traduzida para políticos que estão diretamente implicados nesse outros códigos e ele conclui que “toda tradução é complexo relacionamento. mantém práticas Brasil. tentando integrar estas populações à “comunhão nacional”. em estados e municípios. utilizadas correntemente. manifestando. Há expressões. O filósofo francês. em um dado momento. “para não depender mais dos brancos”. Por razões econômicas. médicos. os povos originários continuam a É importante lembrar. Jacques Derrida.micos. “escola inserida na luta pela terra”.. “uma escola indígena e não uma escola com peninhas”. converter a educação em mais um. lamentavelmente. políticas e étnicas. Frente a estes e a tantos outros desafios. “escola para aprender a ler um docu- mento”. respeitando suas culturas e seus projetos de vida. “escola para formar nossos próprios advogados. Sendo assim. A tônica era a recusa da diferença e a tentativa de sua superação. ainda é marcada pela escassez de recursos. esta oferta esteve pautada na perspectiva integracionista. que mostram um entendimento de que esta instituição só tem sentido se estiver subordinada à luta política pela garantia plena de seus direitos. acerca da história da ser considerados como um problema para o Estado instituição escolar para os povos indígenas. desrespeito às decisões indígenas e pela falta de professores e de investimentos na qualificação dos profissionais indígenas. imposição de programas. Se pararmos para escutar as palavras indígenas. enfermeiros.. no esforço de se construir projetos educacionais adequados à reali- dade social e histórica desses povos. “Escola formadora de guerreiros”. que no brasileiro que. Mais recentemente foram surgindo diferentes experiências de organização da Educação Escolar Indígena em várias regiões do Brasil.”.. uma traição”. “escola específica e diferenciada”.

principal executor e mantenedor dessa colonialidade O sociólogo peruano Aníbal Quijano. apropriando-se e redefinindo o papel da escola CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .CIMI 17 .. Povo Yanomami (RR) – Foto: Maria Edna Brito . instrumento de resistência e libertação. elaborou o conceito de Colonialidade do Poder. nação política. econômica e territorial de uma deter- zação/dominação iniciado no século XVI pelos países minada nação sobre outra de diferente território. a partir o aparelho estatal. Para tanto. ele faz uma distinção de seus estudos sobre o pensamento descolonial entre colonialismo e colonialidade. discriminatórias que já ocorriam desde quando o europeus se perpetua até os dias atuais. tendo como Brasil era colônia de Portugal.. que O colonialismo refere-se à situação de domi- nos ajuda a compreender como o projeto de coloni.

mesmo depois de haver a indepen. foi um dos principais instrumentos a serviço do projeto colonial 18 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . A educação escolar é um dos suportes da suficiente sensibilidade para a origem cultural das colonialidade do poder principalmente porque opera diferenças individuais e culturais específicas”. não pode ser abolida pela independência nacional. dos povos originários se constituiu em um dos mais das colônias inglesas na África. foi denominada pelo professor Boaventura de um padrão mundial de poder capitalista. chegando a expropriá-los de suas formas próprias de pensar a vida e do seu jeito de existir no é um dos elementos constitutivos e específicos mundo. povos originários. tados”. 73). que em cada um dos planos. dentro desse contexto. de Sousa Santos de “epistemicídio”. 172) “a discriminação Por isso. Dessa de maneira estratégica através da dominação epistê. deve atuar na perspectiva de revolucionar a escola. p. poderosos mecanismos de dominação. dência política. “os cidadãos. Para Habermas (2004. mesmo quando observados mica. Enquanto isso.a exemplo da colonização do Brasil por Portugal. pedra angular daquele padrão de poder. forma. não são indivíduos Povo Zoró (MT) – Foto: Virgínia Souza A educação escolar branca ocidental. Essa violência a colonialidade. nas palavras do próprio Quijano praticada contra os saberes dos povos “conquis- (2009. A imposição do conhecimento ocidental como como personalidades jurídicas. Isso revela quão Se funda na imposição de uma classificação desafiadora é a luta em defesa da Educação Escolar racial/étnica da população do mundo como Indígena e quão importante é. âmbitos e dimensões. a colonialidade pode continuar a mas apenas por meio de uma inclusão que tenha ocorrer. o único e válido e a negação e destruição dos saberes das várias colônias espanholas na América Latina. da existência cotidiana e tornando-a uma aliada dos projetos de vida dos da escala social. que nega e destrói os saberes originários. e opera o papel desempenhado pelo professor indígena. etc. p. materiais e subjetivas.

Povo Awá Guajá(MA) – Foto: Arquivo Cimi

É fundamental construir projetos educacionais adequados à realidade sociocultural dos povos, que respeitem suas culturas e seus projetos de vida

abstratos, amputados de suas relações de origem” 1970 vêm numa crescente tendência de multipli-
(Habermas, 2004, p. 170). Isso significa que, para cação. É nesse contexto que se insere também o
os povos indígenas, a independência do Brasil não movimento indígena, que tem um papel a cumprir
representou mudança na sua posição em relação ao junto aos diversos atores da sociedade, os quais estão
Estado porque para eles o reconhecimento da sua articulados em redes de solidariedade e constroem
cidadania passa pelo reconhecimento da sua coleti- alianças estratégicas ou parcerias táticas em vistas
vidade enquanto povo (nação), de onde demanda a de um processo de inclusão social e libertação.
aceitação e garantia de seus direitos sociais, econô- A luta pela Educação Escolar Indígena faz parte
micos e culturais, o que não aconteceu de fato. desse contexto maior das lutas gerais dos povos
Ao chegarem ao século XX sem que o Estado indígenas no Brasil e, por essa razão, necessita ser
lhes tivesse assegurado essas garantias, os povos compreendida como um componente estratégico
originários – agora com suas populações bem redu- das relações de poder estabelecidas entre o Estado
zidas em decorrência da longa trajetória de genocídio invasor e os povos originários. Por isso, conscientes
e etnocídio a que foram submetidos – passaram a da realidade imposta pelo projeto colonial, os povos
incorporar uma forma de luta diferente das guerras indígenas, anteriormente avessos à educação escolar
de resistência armada do passado, enveredando branca ocidental, por entendê-la como sendo um dos
pelas lutas institucionais, numa perspectiva seme- principais instrumentos a serviço da colonialidade
lhante àquelas que estavam sendo experienciadas do poder, resolveram, num dado momento histórico,
pelos vários grupos da sociedade brasileira e latino- convertê-la em mais um instrumento de resistência,
-americana que se constituíram enquanto sujeitos de libertação, fazendo dessa forma, um processo de
coletivos de direito. apropriação e redefinição do papel da escola. Por
Sousa Júnior (2002) refere-se aos “novos essa razão, o movimento de professores indígenas,
sujeitos coletivos de direito” como inovadores das se orienta por uma perspectiva de luta em vista de
práticas políticas empreendidas fora dos espaços uma prática educativa que contribua para o processo
tradicionais de representação. Entre eles incluem-se de descolonialidade, por uma educação descolonial
milhares de movimentos sociais que desde os anos e libertadora.  u

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Capítulo II
A partir da década de 1970 e com o apoio do Cimi, foram
iniciadas visitas de articulação de lideranças indígenas
aos seus parentes de outras comunidades e povos. Estas
lideranças começaram a ver e sentir que o sofrimento e os
seus causadores eram os mesmos. Em abril de 1974 foi
realizada a primeira Assembleia Indígena, em Diamantino (MT)

As Assembleias de Chefes e Lideranças Indígenas consolidaram as estratégias locais e em nível nacional e intensificaram a luta pela terra I Assembléia Indígena – Diamantino (MT), 1974 – Arquivo Cimi

Organização Indígena: um
campo prenhe de esperança

A
o abordar uma questão tão ampla e complexa, Assembleias foram e continuam sendo até hoje uma
é evidente a necessidade de se fazer um ferramenta afiada e consolidada no enfrentamento
“recorte”, assim como um esforço colossal dos interesses anti-indígenas.
para refletir sobre o tema sem nenhuma pretensão
de esgotar quaisquer das abordagens. Nesse sentido,
destacamos cinco aspectos que consideramos básicos
2.2. União das Nações Indígenas
no processo de luta, articulação e organização dos (UNI) e o surgimento das
povos indígenas no Brasil. organizações indígenas
O potencial de luta, partilha, esperança, indig-
2.1. Encontros e Assembleias nação e revolta que as Assembleias foram desper-
Indígenas tando, esbarrava na limitação e operacionalização
das decisões e estratégias, pois faltavam mecanismos
O silêncio a que estavam submetidos os povos permanentes para impulsionar e unificar essas lutas
indígenas começou a ser rompido e as correntes em nível nacional. A caminhada apontava para a
do isolamento quebradas a partir do início da necessidade de superar essa lacuna. Porém, o processo
década de 1970, através de um processo simples organizativo requeria tempo para amadurecer, princi-
e despretensioso. Com o apoio do Conselho Indi- palmente, tendo em vista os novos e grandes desafios
genista Missionário (Cimi), foram iniciadas visitas que teriam que ser enfrentados. Foi nessa conjuntura
de articulação de lideranças indígenas aos seus que, no início da década de 1980, foi criada, num
parentes de outras comunidades e povos. Foi o encontro no Mato Grosso do Sul (MS), a União das
“fogo no estopim”. Estas lideranças começaram a Nações Indígenas (UNI).
ver e sentir que o sofrimento e os seus causadores Na sequência, foram fundadas algumas coor-
eram os mesmos. A partir daí surgiram iniciativas denações regionais da UNI no Norte e Nordeste (UNI
para ampliar esse processo de partilha e discutir Acre, UNI Tefé, UNI Nordeste). Em 1983, o líder Xavante
maneiras de se unirem para enfrentar as causas da Mário Juruna foi eleito deputado federal pelo Rio
invasão e exploração das terras, o preconceito e a de Janeiro. Durante seu mandato (1983-1986), ele
opressão. O caminho mais eficaz encontrado foram conseguiu pautar a causa indígena na mídia nacional
as Assembleias Indígenas, organizadas por povos, e internacional. Com sua chegada ao parlamento, foi
regiões e também em nível nacional. Em abril de instituída a Comissão do Índio, a qual Juruna presidiu
1974, sob as sombras de frondosas mangueiras, durante os quatro anos de seu mandato, tornando-a
foi realizada a primeira Assembleia Indígena, em assim um espaço de visibilização das lutas indígenas.
Diamantino (MT). Concomitantemente, com a criação das orga-
As Assembleias de Chefes e Lideranças Indí- nizações indígenas que começaram a se proliferar
genas foram rapidamente se multiplicando, como em forma de articulações, associações e federações
um efeito em cascata em todo o país. Estava decre- – seja por povo, povos, regiões ou rios – , as lutas
tada a luta contra os inimigos comuns, presentes no pela terra continuaram a acontecer e se intensificar.
Estado e na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo Desde o final dos anos 1970, os povos indígenas
construía-se a base para ampliar a união e consolidar haviam iniciado as chamadas “retomadas de terras”,
as estratégias de luta locais e em nível nacional. As principalmente nas regiões Nordeste e Sul e parte da

CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO - CIMI 21

apesar das dificuldades. até então ausentes nas experiên- caso. etc. na prática. tensões. política que seja referência para o movimento indí- plicidade das formas organizativas (associações. Assim.) traduz a característica UNI. Mas. cultural. foi criado o Conselho de Articulação dos Povos do movimento indígena. sobre- lideranças indígenas. eles mesmos demarcavam os limites de seus com pluralidade linguística. recuperando a posse. que foram sendo apropriados pelos Norte e Centro-Oeste. que compreende os diversos Indígenas do Brasil (Capoib). sendo esse modos de luta. mantém-se sempre o esforço Esta coexistência das lutas cotidianas das no sentido de assegurar a existência de uma esfera comunidades e dos povos indígenas com a multi. conselhos. em âmbito nacional. pela Articulação dos Povos organizações. do processo de criminalização das lutas. isso ocorreu num contexto exercício de poder interno. populacional. povos originários do Brasil a partir do enfrentamento Embora. após a extinção da articulações. gena em nível nacional. dentre outros. porém não estava demarcada pelo governo. como as de Por isso. além de diferentes tempos de graves conflitos. São organizações membros Arquivo Cimi A construção da usina hidrelétrica de Balbina foi um dos projetos de infraestrutura que massacrou o povo Waimiri Atroari 22 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Por isso. latifúndios. em 1992. No segundo papeis sociais. Estas se constituem em instrumentos Indígenas do Brasil (Apib). é notável invasores. o que constatar os esforços de articulação empreendidos resultou em um grande número de assassinatos de pelos povos indígenas em diversos espaços e. hidrelétricas. Nada disso ocorre sem dida. sobretudo durante as retomadas. o movimento não se reduz às substituído. a terra poderia não estar completamente inva. os povos realizavam a autodemarcação. agronegócio. rodovias as terras já se encontravam totalmente invadidas por e desmatamentos. distintas formas de organização e de Evidentemente. além das prisões decorrentes tudo.Sudeste. fazia-se necessário expulsar os invasores. povos seja. ou se congregar em uma mesma organização. em confrontos diretos com os de contatos com a sociedade circundante. no primeiro caso. desproporção territórios tradicionais. os dois movimentos conjunto dos problemas que lhes afetam: conflitos visassem a mesma finalidade. Tudo isso implica em novas relações de poder Daí. bem como as autodemarcações nas regiões mais recentes. Por essa razão. como com o latifúndio. cias anteriormente vividas. a expressão retomar/tomar de volta a terra que entre diferentes povos e o surgimento de novos fora esbulhada. em 2005.

forças repressivas do Estado através da ação violenta CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . nacionais e inter- nacionais. criança indígena. No ano seguinte. nacional para a consolidação dos direitos indígenas. apresentando uma pauta de abrangência das lutas gerais do movimento indígena. o Terra Livre foi realizado na cidade de Campo Grande (MS). Dentre as inúmeras mobilizações realizadas representou a invasão de seus territórios tradicionais pelo movimento indígena no Brasil nas últimas quatro e o genocídio de suas populações. a Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste. o acampamento aconteceu no Rio de Janeiro. Representou a primeira grande reunião dos povos O primeiro refere-se à vitoriosa batalha travada no originários do Brasil e foi duramente atacada pelas âmbito da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Uma foi reivindicatória e dentro das da Cúpula dos Povos. a Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Arpinsul). a de participação popular na ANC. Desde 2005. Por isso. foi montado o segundo acampamento. a participação aumenta em número e qualidade. incidir Rio de Janeiro. que foi celebrada durante vários anos no mês de abril. um marco histórico. na Esplanada dos Ministérios. no fundiário na região. para reivindicar a demarcação da Terra Indí- gena Raposa Serra do Sol. Na ocasião. agora já com a perspectiva mais ampla. representante do povo Guarani-Kaiowá. e para pressionar o governo diante da nos anos 1987 e 1988. Esta mudança se Momentos de tensão marcaram o Acampamento Terra Livre realizado no deu com o intuito de mobilizar a sociedade. Este estado precisa ser reeducado!” Tratam-se de duas ações com características Em junho de 2012. Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme). Esse acon- tecimento já passou a fazer parte da agenda dos povos indígenas de todo Brasil.300 pessoas de mais de 150 etnias. que definiu a forma Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.CIMI 23 . Anastácio Peralta. a cada ano. A outra foi contes- Rio+20. na Terra Indígena Coroa Vermelha. no contexto da Conferência das regras estabelecidas pelo Estado. O segundo foi a realização da I grave situação situação enfrentada pelos indígenas Conferência dos Povos Indígenas do Brasil. localizada no estado de Roraima. exemplificou Esta Conferência foi motivada pelas comemorações o severo preconceito existente no estado do Mato oficiais do governo brasileiro no aniversário de 500 Grosso do Sul: “Aqui. destacam-se dois eventos importantíssimos A I Conferência dos Povos Indígenas do Brasil para o processo de articulação e luta em âmbito reuniu cerca de 4.da Apib: a Coordenação das Organizações Indígenas Egon Heck da Amazônia Brasileira (Coiab. décadas. a Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (Arpin Sudeste). em 2012. estado da Bahia. a Articulação dos Povos Indígenas do Pantanal (Arpinpan e a Grande Assem- bleia Guarani (Aty Guasu). realizada sul mato-grossenses. que. em Brasília. principais vítimas do conflito no ano 2000. município de Santa Cruz de Cabrália. para os povos originários. Em agosto de 2010. durante a Cúpula dos Povos. por ocasião da realização bem distintas. São aproximadamente mil participantes que ocupam a Esplanada durante a Semana dos Povos Indígenas. na Rio + 20 sobre os meios de comunicação. um boi vale mais do que uma anos da chegada dos portugueses ao Brasil. Este se originou do acampamento realizado pelos povos indígenas Renato Santana em abril de 2004. o movimento indígena passou a realizar anualmente um grande encontro deno- minado Acampamento Terra Livre. tatória à iniciativa do governo brasileiro de come- possibilitando uma ampla visibilidade dos desafios morar os cinco séculos do início da colonização do e das lutas enfrentadas cotidianamente pelos povos Brasil e colocou sob suspeita a valoração positiva de indígenas no Brasil.

posicionava-se em concordância com se orquestrava a fundação do que poderia ser um o Substitutivo do relator Bernardo Cabral. função a defesa dos direitos indígenas. Nesse processo preparatório . essa pauta surgia do Índio (Funai). a e corredores do Congresso Nacional. afirmando que havia manipu- Arquivo Cimi A I Conferência dos Povos Indígenas do Brasil.3. ouvir como nações originárias. o presidente da Funai. a Fundação Nacional Para os povos indígenas. Mobilização e luta na Entre agosto de 1987 e agosto de 1988. aplicava ao órgão indigenista. ração para enfrentar o desafio que se colocava pela onde aconteceriam os festejos. explicitou que o projeto colonial e de genocídio dos povos continua atual 24 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . estatal com os quais era possível contar. igrejas e órgãos da administração Federal (CF) e promover a garantia dos direitos sociais. fazerem-se ofício enviado aos constituintes. Esta presença intensificava-se em alguns momentos. pela primeira vez. no momento em que Romero Jucá. indígenas buscavam apoio em várias instituições da com a finalidade de efetuar mudanças na Constituição sociedade civil. um papel importante de articulação do movimento indígena. exatamente aquele que tem como como uma possibilidade real de. realizada em 2000. que e seus apoiadores iniciaram um processo de prepa- pretendia chegar até à cidade de Porto Seguro. ditadura militar. as lideranças realização da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). em 1985. o Assembleia Nacional movimento indígena marcou presença constante Constituinte (ANC) em Brasília. dois anos jogadas bombas de efeito moral e desferidos tiros antes do início da ANC.da Polícia Militar da Bahia. com a presença dos frente. em maio de 1988. aos direitos indígenas.a UNI cumpriu presidentes do Brasil e de Portugal. o que não se culturais. prejudicial novo Estado brasileiro. na Bahia. contando sempre com o apoio decisivo de entidades indigenistas. Por ar e por terra foram Para aproveitar esta oportunidade. como por ocasião da votação do capítulo No início dos anos 1980. 2. econômicos e políticos da população. uma importante agenda política para Além da circulação constante pelos gabinetes o Brasil era pautada pela sociedade civil organizada. dentre elas o Cimi. lideranças indígenas contra os participantes da Marcha Indígena. ainda sob a égide da “Dos Índios”. Através de durante quase 500 anos de dominação.

e às multinacionais. para o Legislativo. vinculados ao agronegócio. uma terra indígena. os indígenas ampliaram o seu poder Dentre as perigosas propostas que tramitam de intervenção junto aos constituintes. servidores públicos. populares. demarcações das terras indígenas. pode-se destacar forçar o Colégio de Líderes a empreender um longo o Projeto de Emenda à Constituição 215 (PEC 215/00) e complicado processo de negociação em torno do e o Projeto de Lei Complementar 227 (PLP 227/12).CIMI 25 . os referidos grupos econômicos. conseguindo atualmente no Congresso Nacional. mento destes setores. havendo 231 da Constituição Federal para assegurar que. plenário. esta será caracterizada como de Esses direitos. em apenas cinco posicionamentos contrários e dez havendo qualquer tipo de interesse econômico sobre abstenções. capítulo “Dos Índios” e revertendo a situação a favor A PEC 215 pretende transferir a competência pelas dos indígenas. Cruz Os povos originários foram atacados por bombas e tiros em uma ação extremamente violenta da polícia militar. foi levado à votação em O PLP 227 visa modificar o Parágrafo 6 do Art. os povos indí- pela organização dos povos indígenas. estes direitos e romper com qualquer perspectiva mento doou aos indígenas uma bandeira do Brasil. ambientais. tentam impor projetos de lei e As manifestações de apoio chegavam de todos os emendas à Constituição com o intento de aniquilar lugares. da sociedade. Sérgio P. titulações de terras Por essa razão. etc. que são atribuições constitucionais do que contemplava em grande parte as reivindicações poder Executivo. do movimento indígena. mesmo as terras já demarcadas Graças a este expressivo apoio de diversos setores precisam ser revogadas. segmentos da sociedade: estudantes secundaristas. Ele foi aprovado por 487 votos. às empresas mineradoras universitários. No entendi- que passou a ser utilizada em todas as mobilizações. Assim. tão duramente conquistados relevante interesse público. Uma escola localizada próxima ao acampa. de demarcação das terras destes povos. justamente onde os invasores haviam chegado 500 anos antes lação por parte do Cimi e de outras entidades que setores do governo e de grupos econômicos que cada “se autodenominam protetoras dos índios”. no dia 1º de junho de 1988. contrariam genas perdem o direito de usufruto exclusivo e as CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . um quilombolas e criação de unidades de conservação texto previamente acordado pelos líderes partidários. vez mais se mobilizam para destruir os direitos garan- A permanência dos indígenas na capital federal tidos nos artigos 231 e 232 da Constituição Federal. possibilitou-lhes conquistar a simpatia de diversos No poder Legislativo.

ela permi. 215/00. as de fevereiro de 2014. índios somente poderão ser realizados mediante apesar da explícita oposição dos povos indígenas concessão da União. o STF. em lucrar com a exploração econômica das terras No absurdo texto da PEC indica-se que “A pesquisa. Segundo o deputado. em vigor desde o dia 5 de fevereiro de 2014. constituída com mais de 70% por parlamen. avançam em terras indígenas” e esta “concessão”. o presidente da Câmara dos permanentemente e tradicionalmente ocupadas pelos Deputados. o governo publicou direitos dos povos indígenas ao acrescentar o Artigo a Portaria 415. Em maio de 2014.terras podem se tornar disponíveis ao agronegócio. madeireiras e outros interessados segundo ele. às mineradoras. da Advocacia Geral da União tares ruralistas ou comprometidos com o agronegócio. após a manifestação de A PEC 237/13 é outra que põe em risco os povos indígenas em todo o país. que 176 na Constituição Federal.. “a miséria. de 17 de setembro de 2012. o tradicionais indígenas. seria a “solução” para estes problemas. duas “casas”.Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN). (AGU). ao da publicação do acórdão nos embargos declara- tirá que até 50% da área das terras indígenas seja tórios a ser proferido na PET 3388-RR” que tramitava arrendada. O referido acórdão foi publicado no dia 4 o agronegócio. outros segmentos da sociedade. para no STF. Ao julgar os embargos decla- doenças. Proposta pelo deputado suspendia os efeitos da Portaria 303 até o “dia seguinte Nelson Padovani (PSC/PR). cultivo e a produção agropecuária nas terras habitadas No final de 2013. Renan Calheiros (PMDB/AL).)”. decidiu que as Egon Heck A Assembleia Nacional Constituinte foi um dos eventos mais importantes no processo de articulação e luta em âmbito nacional para a consolidação dos direitos indígenas 26 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Em uma manobra. instalou a Comissão Outro iminente risco aos direitos dos povos Especial para apreciar e proferir parecer sobre a PEC indígenas emana dos gabinetes do poder Executivo. o tráfico de drogas e o consumo de álcool ratórios da Petição 3388-RR. em prol do interesse nacional e e quilombolas – principais afetados pela PEC – e de de forma compatível com a política agropecuária (.. Henrique Alves e o presidente do afeta diretamente o direito territorial de indígenas e Senado. de forma contínua ou fragmentada. A Portaria 303/12. afirmaram às quilombolas ao aplicar para todas as terras o que se lideranças indígenas que não colocarão a PEC 215 definiu no Supremo Tribunal Federal (STF) especifi- em votação caso não haja consenso ou acordo nas camente para a Terra Indígena Raposa Serra do Sol. se aprovada.

A vigência da Portaria além da efetivação de programas de proteção e 303/2012 é injustificável. das florestas política do poder Executivo Federal que desrespeita e da fauna) onde vivem. muitos povos indígenas estão mente interessados. em 7 de fevereiro. que Em vez de revogar a Portaria 303/2012. fica condicionada ao interesses em busca de reconhecimento étnico e territorial econômicos incidentes em suas terras. ao Estado. pois não contam com uma proteção eficiente Geral da União e à Secretaria-Geral de Contencioso do Estado brasileiro e as frentes de expansão do (SGCT ) a análise da ‘adequação’ do conteúdo da agronegócio avançam celeremente sobre as terras Portaria AGU nº 303”. Roraima. O constantes massacres e ao acirrado preconceito poder Executivo. ao longo de mente. Estes povos estão correndo severos 27/2014. Maranhão. Trata-se de uma decisão preservação do meio ambiente (dos rios. em função desses interesses a invisibilidade décadas eles tiveram que negar a própria identidade desses povos é usada para negar a sua existência. ainda. riscos. Atualmente. sive em processos judiciais que envolvem disputas O cenário atual é particularmente perverso fundiárias relativas ao direito dos povos indígenas para estes povos indígenas. práticas na atuação dos advogados da União. Há.CIMI 27 . inclu.“Condicionantes” valem para o caso julgado e não como uma estratégia de sobrevivência devido aos têm efeito vinculante às demais terras indígenas. por meio da qual determina “à Consultoria. do Brasil. Rondônia. ao dar vigência contra as populações indígenas. Tocantins e Mato Grosso. Para que eles continuem vivendo é pelo STF no julgamento dos embargos de declaração fundamental que haja a demarcação de suas terras. Povo Guarani Nhandeva (PR) – Foto: Diego Pellizari Uma extrema ofensiva no sentido da retirada de direitos constitucionais garantidos aos povos indígenas vem sendo realizada no Brasil CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . os povos isolados ou livres. Acre. opostos na Petição nº 3388. determinando vivem nos estados do Amazonas. estabelece esta vinculação das estão em processo de luta para acessar seus direitos ditas “Condicionantes” a todas as terras indígenas constitucionais. a Portaria número não indígena. Frequente- no Brasil. povos isolados e atenta contra uma decisão do STF. por meio da AGU. obviamente sem a participação dos direta- Atualmente. aos termos do acórdão proferido que ocupam. Muitos destes povos à Portaria 303/2012. a não tiveram contato com segmentos da sociedade AGU publicou. Chamados de resistentes. cuja proteção entregue às suas terras tradicionais.

das hidroelétricas do foram encaminhadas ao poder público. efetivadas pela Polícia Federal. conhecidas como Povo Kanoé (RO) – Foto: Volmir Bovaresco A continuidade da existência dos indígenas isolados ou livres foi totalmente desconsiderada pelo governo federal na ânsia de construir as hidrelétricas no Rio Madeira 28 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . povos isolados. próximas a uma região de fazendas e assen- às invasões. Krikati. Awá Guajá e Alto Turiaçu – e na Reserva Biológica De acordo com esses relatos. as dessas obras os grupos isolados foram obrigados a informações sobre a presença de isolados foram repas- fugir para áreas mais distantes. diversos grupos Awá transitam indígenas isolados foram relatadas pelos indígenas nas terras indígenas já demarcadas – Arariboia. novas informações sobre a presença destes No Maranhão. no estado de Rondônia. a presença de de combate à exploração ilegal de madeira foram indígenas isolados na área de influência dos empreen. A destruição de tapiris dos Awá Guajá que estas obras já haviam recebido todas as licenças isolados na terra indígena Arariboia. Em 2012. as terras indí. A construção desse complexo 2011. desta vez também pelos Krahô-Canela. em dezembro de de implantação. Mato Grosso e Pará estão se a ilegalidade dessa exploração econômica e os riscos articulando para viabilizar os projetos de construção que a mesma acarreta aos grupos indígenas isolados das estradas TO-500 e TO-242. por exemplo. mas não constam no seu mapeamento de invasão madeireira nunca foi resolvido. além de causar a destruição de mais de dez uma criança revelam a gravidade da situação. Em função Na Ilha do Bananal. dos povos indígenas livres que viviam às margens do associada à informação do possível assassinato de Madeira. no estado de Tocantins. denunciada pelo Cimi a partir de informações hidroelétrico impactou diretamente a cultura milenar de lideranças indígenas e confirmada pela Funai. sem que ninguém sadas por indígenas Javaé e Karajá para as equipes tenha a mínima condição de avaliar a extensão dos locais do Cimi e para a antropóloga Patrícia Mendonça. sítios arqueológicos que serão alagados. Estas terras tamentos. sobretudo de madeireiros. Essas informações são do conhecimento foram oficialmente demarcadas. impactos que estão sofrendo. os isolados estariam (Rebio) do Gurupi. Com a implantação do projeto de localizados na região dentro da ilha conhecida como mineração Grande Carajás. Caru. No caso. Mata do Mamão e se aproximando das margens do genas da região ficaram mais expostas e vulneráveis Rio Javaé. em 1982. atualizado até 2009. sem qualquer resul- dimentos só foi admitida pelo governo federal depois tado prático. Algumas ações Rio Madeira. mas o problema da da Funai. Políticos dos Desde aquela época reiteradas denúncias sobre estados de Tocantins. da região.

Em determinadas situações.5. O traçado das duas quatro décadas evidenciam que as vitórias nessa luta estradas corta a TI da Ilha do Bananal e o refúgio ocorreram em função de uma intensa mobilização dos grupos isolados. colocando em cimento (PAC). mundo a presença dos povos indígenas isolados. Mobilização para evitar de ribeirinhos. a terra é sagrada e fonte da vida para os povos originários e só vivendo nela é possível “ser indígena” Povo Guarani Nhandeva (PR) – Foto: Diego Pellizari Transbananal e Transaraguaia. igualmente afetam os povos isolados. evidência diferentes projetos e visões de mundo”. Apostar na diversi- da união. na qual terra e água. estendendo-se que tem em seu Plano Pastoral a seguinte definição: para além das fronteiras brasileiras e transformando “A luta pela terra é estratégica e está ancorada na a região num grande canteiro de obras. as bases da sociedade capitalista. extrativistas e outros indígenas que não são devidamente considerados. A terra como eixo mobilizador formas próprias de luta por seus direitos e projetos de vida. dependendo retrocessos das conveniências políticas e econômicas. desconsidera cosmovisão indígena. atores nessa luta. mobilização e organização dos dade e maximizar os mecanismos de mobilização povos indígenas no país foi a terra. grandes e pequenas hidrelétricas (UHE e PCH). Esses elementos da organização dos povos indígenas. de seus territórios vieram as terríveis consequências Esta é uma síntese do atual embate do movi- em termos de sofrimento. como as organizações das mulheres.Essência da cosmovisão indígena. Com a invasão e devastação também em nível nacional. trutura são implantadas na Amazônia. Outras natural e mítico estão profundamente articulados. genocídio e mento indígena com as forças anti-indígenas que etnocídio. Essa percepção sempre esteve clara para o Cimi. além Apoiar esta luta dos povos indígenas exige repensar de diversas obras do Programa de Aceleração do Cres. permitem afirmar que. sem esquecer a secular resistência e as 2. extermínio. articulação. colocado em prática tanto localmente e cultura de um povo.CIMI 29 . nessas últimas quatro Ao longo da história dos movimentos indí. As reto. décadas. das terras passou a ser o elemento unificador das Também é preciso considerar a agregação de novos lutas dos povos indígenas em todo o país. em torno e a partir da terra. houve um acúmulo de vivências aprendidas genas fica evidente que o elemento fundamental e vitórias bastante importantes. A velocidade com que grandes obras de infraes. as informações sobre a existência desses povos vêm de relatos testemunhais 2. a luta pela recuperação e garantia buscam desconstruir direitos e rasgar a Constituição.  u CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . madas das terras tradicionais indígenas nestas últimas dos jovens e dos professores indígenas. entendida em sua talvez seja o aprendizado mais relevante adquirido profundidade como espaço territorial sagrado de vida nessas lutas.4. Por isso.

Capítulo III
Se a educação pode ser compreendida como
uma forma de inclusão dos indígenas dentro da
política educacional do país há que se perguntar:
que tipo de inclusão pretende-se com as
políticas de Educação Escolar Indígena da União
e dos estados da federação?

Os professores indígenas têm a responsabilidade de fazer a ponte entre os saberes e o modo de vida tradicionais e os conhecimentos da sociedade não indígena Povo Makuxi (RR) – Foto: CIR

Movimento de Professores
Indígenas no Brasil
“Educação é um direito, 3.1. Descolonização da escola
mas tem que ser do nosso jeito”1 Mesmo antes do surgimento das organizações
de professores indígenas, algumas entidades indige-

A
luta dos professores indígenas somente pode nistas fundadas entre os anos 1960 e 1970 já vinham
ser compreendida dentro do contexto geral dedicando atenção ao tema da educação escolar, a
das lutas do movimento indígena e de defesa exemplo da Operação Anchieta (Opan)2, Comissão
da Educação Escolar Indígena em âmbito nacional. Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP), Comissão Pró-Índio
Nesse contexto, a citação acima, assumida como do Acre (CPI-Acre), Centro Ecumênico de Documen-
um lema, uma palavra de ordem, pelo movimento tação e Informação (Cedi)3, Associação Nacional de
dos professores indígenas serve como mote para Apoio ao Índio (Anai), Centro de Trabalho Indigenista
o desenvolvimento desse capítulo, uma vez que o (CTI) e o próprio Conselho Indigenista Missionário
mesmo tem como finalidade demonstrar a relevante (Cimi), que já apostava em iniciativas de inspiração
contribuição dos professores indígenas mobilizados descoloniais, destacando-se, dentre outras, a bem
enquanto categoria profissional, mas, sobretudo, sucedida experiência de Educação Escolar Indígena
enquanto membros de povos diversos cuja carac- junto aos Tapirapé, no município de Santa Terezinha,
terística principal é o pluralismo sociocultural. É estado do Mato Grosso (MT).
justamente este pluralismo que se coloca como um No entanto, o processo de organização dos
desafio para o Estado brasileiro frente à sua obri- professores indígenas, não só evidenciou um novo
gação constitucional de propor, formular e executar sujeito coletivo dentro do movimento indígena global,
políticas públicas de educação escolar para todos os como também ampliou as chances de inclusão das
segmentos étnicos e populacionais do país. lutas pela Educação Escolar Indígena na pauta das
O movimento de professores indígenas reivindicações gerais, aumentando assim as possibi-
demanda uma reflexão específica referente à temá- lidades de construção de novas iniciativas de escolas
tica da educação, mas essa é sempre considerada indígenas na perspectiva descolonial.
dentro do conjunto dos temas que são pautados As primeiras articulações de professores indí-
pelo movimento indígena, como autodeterminação, genas tiveram origem na região amazônica durante
terra e saúde, dentre outros. E se a educação pode ser os anos 1980, o que resultou na constituição de
compreendida como uma forma de inclusão dos indí- organizações de caráter mais regional, a exemplo do
genas dentro da política educacional do país há que Conselho dos Professores Indígenas do Amazonas e
se perguntar: que tipo de inclusão pretende-se com Roraima (Copiar) que, posteriormente, passou a ser
as políticas de Educação Escolar Indígena da União e integrado também por professores indígenas do
dos estados da federação? Essas políticas necessitam estado do Acre.
ser construídas a partir da pluralidade cultural e social Como resultado de um longo processo de arti-
dos distintos povos e não podem ser implementadas culação, contando com a assessoria permanente do
de forma assimilacionista, pois isso fere o princípio da Cimi, através do Regional Norte I, no ano de 1988, foi
especificidade inerente aos direitos indígenas.
2 Atualmente denominada Operação Amazônia Nativa (Opan)
3 A equipe de ação indigenista do Cedi se desvinculou do
1 Palavra de ordem do I Encontro Nacional dos Professores Centro e criou o Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) que,
Indígenas, promovido pelo Cimi em 2002, em Luziânia (GO) posteriormente, tornou-seo Instituto Socioambiental (ISA)

CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO - CIMI 31

Patrícia Bonilha

O trabalho dos professores indígenas está vinculado à compreensão de que a existência da escola se justifica para contribuir com as lutas mais amplas da comunidade

Declaração de Princípios
IX Encontro dos Professores Indígenas do AM, RR e AC*
1. “As escolas indígenas deverão ter currículos e regi- 9. “O Estado deverá equipar as escolas com labo-
mentos específicos, elaborados pelos professores ratórios onde os alunos possam ser treinados
indígenas, juntamente com suas comunidades, para desempenhar papel esclarecedor junto às
lideranças, organizações e assessorias.” comunidades no sentido de prevenir e cuidar da
saúde.”
2. “As comunidades indígenas devem, juntamente
com os professores e organizações, indicar a 10. “As escolas indígenas serão criativas, promo-
direção e supervisão das escolas.” vendo o fortalecimento das artes como formas
de expressão de seus povos.”
3. “As escolas indígenas deverão valorizar as culturas,
línguas e tradições de seus povos.” 11. “É garantido o uso das línguas indígenas e dos
processos próprios de aprendizagem nas escolas
4. “É garantida, aos professores, comunidades e orga-
indígenas.”
nizações indígenas, a participação paritária em
todas as instâncias – consultivas e deliberativas – 12. “As escolas indígenas deverão atuar junto às
de órgãos públicos governamentais responsáveis comunidades na defesa, conservação, preservação
pela Educação Escolar Indígena.” e proteção de seus territórios.”
5. “É garantida aos professores indígenas uma 13. “Nas escolas dos não-índios será corretamente
formação específica, atividades de reciclagem e tratada e veiculada a história e cultura dos povos
capacitação periódica para o seu aprimoramento indígenas brasileiros, a fim de acabar com os
profissional.” preconceitos e o racismo.”
6. “É garantida a isonomia salarial entre professores 14. “Os Municípios, os Estados e a União devem garantir
índios e não-índios.” a educação escolar específica às comunidades
indígenas, reconhecendo oficialmente suas escolas
7. “É garantida a continuidade escolar em todos os
indígenas de acordo com a Constituição Federal.”
níveis aos alunos das escolas indígenas.”
15. “Garantir uma Coordenação Nacional de Educação
8. “As escolas indígenas deverão integrar a saúde
Escolar Indígena, interinstitucional com partici-
em seus currículos, promovendo a pesquisa da
pação paritária de representantes dos professores
medicina indígena e o uso correto dos medica-
indígenas.”
mentos alopáticos.”

* Retirado do Informativo Foirn – Educação 1996

32 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL

] Que as iniciativas Amazônia. terra indígena. Para articular esse movimento foi criada a genas naquela região. que se concretizou em anseios.. Já naquele I Encontro foram definidas as linhas iniciais sobre como deveria ser a escola indígena: [. de acordo com nosso jeito de trabalhar e com nossas organizações. o que contribuiu para a criação de articulações. a exemplo do que ocorreu no Mato Grosso do Sul.] A comunidade deve decidir o que vai ser ensinado na escola... inicialmente com apoio do Cimi e depois da Boa Vista. Nesta Comissão. pertencentes escolares próprias das comunidades guarani/ a 14 povos dos estados de Roraima e Amazonas. país. Como continuidade.] Queremos uma escola própria do índio. Seu cartaz foi lançado no VIII Encontro em nuada. em povos. vem se evidenciando um processo de intensificação da organização de professores indí. que é concretas para a construção da política de Educação composta por um ou dois representantes de cada Escolar Indígena do país. Naquele encontro foi criado..] dirigida por nós mesmos. Guarani e Kaiowá..] devem ter uma capacitação Uma “escola formadora de guerreiros” é uma das expectativas específica.. 1991) Desde então. Roraima e Acre.. tanto na Amazônia como em outras partes do 2012 a criação da Faculdade Intercultural Indígena. kaiowá sejam reconhecidas e apoiadas pelos Além do Cimi. com professores do nosso próprio povo. Como resultados da luta podem ser reafirmada nos VII e IX Encontros. o Movimento de Professores Kaiowá e Guarani do estado. no IV Encontro dos Professores Indí.TI Cerrito – Foto: Egon Heck do Cimi. crenças. as reivindicações e propostas do movimento 1999. com o total de 41 professores. Até hoje esta Declaração é um Secretaria Estadual de Educação e o Curso Magistério documento de grande importância por apresentar os em nível Médio Ara Verá. As escolas guarani/kaiowá devem ter que os povos têm em relação à educação formal CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .. associações e conselhos de professores indígenas em todo o Brasil. que falam a nossa língua [. em Manaus. Os currículos devem respeitar os costumes e tradi- ções das comunidades guarani/kaiowá e devem ser elaborados pelos próprios professores junto com as lideranças e comunidades. através da articulação dos professores indí- genas Guarani e Kaiowá. não há um coorde- Em 1991.. realizados em 1994 apontados os cursos específicos de Formação Conti- e 1996. o que garante uma boa relação genas do Amazonas.]. [. A nossa escola deve ensinar o Ñande Reko (nosso jeito de viver. posteriormente do movimento. formalmente. tura Intercultural Teko Arandu..realizado o 1º Encontro de Professores Indígenas da seus próprios regimentos [. (Documento do Amazonas (Ufam) também contribuíram para a final do I Encontro dos Professores e Lideranças realização desse 1º Encontro. iniciada em 2006. o que resultou em propostas Comissão de Professores Kaiowá-Guarani. nador ou presidente. estado e união [. na A experiência do Copiar influenciou vários Universidade Federal Grande Dourados (UFGD) e. reunindo cerca de 60 participantes.. Os professores guarani/kaiowá [. nossos costumes. foi na distribuição das tarefas e representação política firmada uma Declaração de Princípios. em 1995. havendo sempre um apoio importante Povo Guarani Kaiowá (MS) .CIMI 33 .. surgiu também a Licencia- de professores indígenas (veja quadro ao lado). como vai funcionar a escola e quem vão ser os professores. O 1º Encontro de Professores e Lideranças Guarani e Kaiowá aconteceu em 1991. tradição). também vinculada à UFGD. professores da Universidade Federal municípios.

totalizando 36 pessoas. Por entender a escola como “formadora de lizado. no ano de 1999. Nos últimos anos o sumiço dos corpos das guerreiros”. em decorrência de seu compromisso pelos próprios professores. etc) Genildo Vera. a territorialidade é uma temática de indígenas naquele estado. referência do movimento indígena no estado. nas discussões sobre os projetos polí- vítimas tem sido prática recorrente dos assassinos ticos pedagógicos.000 professores e professoras indígenas. com a luta. A Copipe representa violências contra povos indígenas. além de serem alvos de assassinato. foi criada. de professores sofre as consequências do processo Apesar do enfoque na educação escolar. há porque. Atualmente. desde sua criação. a Copipe (CCLF). o professor Rolindo de forma geral. porque a luta pela educação significa também a luta pela terra 34 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . promove dois encontros um grande número de professores respondendo anuais – os chamados “Encontrões” – que. mesmo porque todos os povos do estado No estado de Pernambuco. sobre a Educação Escolar Indígena. presente. a Comissão de tem como uma de suas lutas específicas a criação Professores Indígenas de Pernambuco (Copipe). mas também da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presi. há 10 anos Acampamento Terra Livre. Copipe configura-se como uma organização de uma vez que a luta pela educação ocorre concomi. 2012 – Foto: Egon Heck Os professores indígenas sofrem perseguição e criminalização. O corpo de Rolindo até hoje não foi loca. cuja da categoria de professor indígena e a regularização coordenação é formada por dois professores e uma da forma de contratação dos professores. a de criminalização e assassinato de suas lideranças. anos. Estes encontros são assumidos em Vera foi assassinado. promovendo debates não apenas de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos. Por ser o Mato Grosso do Sul o estado do país liderança de cada um dos 12 povos indígenas do onde acontece o maior número de ocorrências de estado. sobre a conjuntura nacional e os direitos indígenas dência da República. juntamente com seu primo toda a sua estrutura (alimentação. asseguraram uma participação que varia de Muitos deles estão incluídos no Programa Nacional 300 a 700 pessoas. também com o estão sempre mobilizados nas lutas em defesa de apoio do Cimi e do Centro de Cultura Luiz Freire seus territórios tradicionais. Por essa razão. nos últimos a processos criminais e/ou ameaçados de morte. o movimento os cerca de 1. Isso tantemente com a luta pela terra. transporte. Em 2009.

assim de Formação de Professores Indígenas – Habilitação em Magistério em Nível Médio como do movimento indígena em sua totalidade.8). de Educação Escolar Indígena. que outras formas de luta pela Educação Escolar Indígena contemplasse as especificidades de cada povo. desde o ano de 2001. Para tanto. 1993. O Curso de Indígena. a pauta de reivin. é importante de uma gerência de Educação Escolar Indígena. Mas para que principais reivindicações. bediência civil sem desobediência epistêmica Contudo. Desde então. é importante salientar que foi criada a Organização dos Professores Indígenas o movimento de professores indígenas no Brasil. no na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). não é possível a construção de uma escola indígena libertadora sem que haja uma disputa epistêmica com o ocidente. a realização de concurso público específico Licenciatura Intercultural Indígena. Desse cêntricas (2008. Para da primeira etapa do projeto Açaí4. porém. participação efetiva de representantes indígenas na faz-se necessário que ela avance para além disso. Com que ainda não resultaram no surgimento de uma o apoio do movimento indígena estadual. os direitos epistêmicos também devem objetivo exclusivo de habilitar docentes leigos que atuam no ser inseridos dentro da pauta de reivindicação do Ensino Fundamental nas escolas indígenas. que atualmente está muito desmobilizada. a problemática da Educação Escolar Indígena passou houve uma contribuição importante do Ministério a fazer parte de maneira mais efetiva das discussões Público do Trabalho (MPT). criação e instalação do conselho patamar de valorização dos outros saberes. melhoria das resultado da luta do movimento. seja colocado no mesmo no controle social. Dentre as relevante nas lutas indígenas globais. epistêmica. de desen- que se refere ao concurso público para esses cargos e volvimento da consciência crítica e de análise do as nomeações previstas nos artigos 41 e 42 desta Lei. a partir da realização didático bilíngue. tomar em conta o que afirma Walter Mignolo: regularização das escolas indígenas. nas comunidades. que não existia. referente ao ingresso de estudantes deve suscitar uma desobediência política e indígenas na educação superior pública de Rondônia. embate entre a colonialidade do poder e as iniciativas dicações manteve-se firme durante os encontros e descoloniais dos povos indígenas. criação o pensamento ocidental. incluem-se: implementação a perspectiva descolonial se concretize. de fato. No entanto. estabeleceram uma teoria política e pela economia política euro- pauta de reivindicações em relação à educação. instituiu o Curso movimento de Educação Escolar Indígena. sores começaram a se organizar e no ano de 2000 De todo modo. de Rondônia (Opiron). contexto político global” (CIMI. organização específica de educadores indígenas. implantação do projeto do sexto ao nono ano e Ensino Médio Toda mudança de descolonização política em todas as escolas indígenas. as lideranças indígenas permanecerá presa em jogos controlados pela do estado. de 15 de outubro de 1998. como a criação do Conselho Estadual de Educação Escolar A partir dessa compreensão. a discussão sobre que algumas dessas reivindicações tivessem êxito. foram a Associação dos Professores Indígenas do Tocantins de fato grandes mudanças. sentido de promover um processo de desobediência participação ativa dos povos indígenas na política epistêmica em que os saberes dos povos originários. modo. hoje existente para professores indígenas. não heterossexualmente patriarcal) Lei 12. os profes. e cumprimento da (não-racista. realizado em 2008. os povos perce. é qual foram aprovados 78 professores. que criou o cargo de magistério público escola deve ser vista como “o espaço privilegiado indígena e quadro administrativo. a deso- (Aspit). p. estruturas físicas das escolas. 4 Trata-se de um programa do governo estadual criado através do Decreto nº 8516. e a produção de material No estado de Rondônia. na gestão das ações e o pensamento ameríndio. a da Lei 578/10. 287). dentro outros.feita através de contratos temporários. p. A desobediência civil pregada por Em Tocantins. Com o Portanto. notadamente no de afirmação e revitalização da cultura.   u CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . o movimento de professores criou Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr.711/12. alguns resultados foram alcançados.CIMI 35 . como de Educação Escolar Indígena de Rondônia. existem fossem repensadas numa perspectiva diferente. cumpre um papel assembleias que veem sendo realizados. no comissão de elaboração do referido concurso público. apoiadas pelo Cimi. Além dessas experiências de organização de beram a necessidade de lutar para que as escolas professores indígenas aqui explicitadas. independente de estar mais ou menos consciente do Não obstante as manobras governamentais grau de relevância da Educação Escolar Indígena no para enfraquecer o movimento.

a comunidade. observando a natureza e os mais velhos e agindo Povo Kalapalo (MT) – Foto: Adreas Kuno Richter . Capítulo IV Os povos indígenas possuem espaços e tempos educativos próprios. a família. sendo a educação assumida como responsabilidade coletiva. As maneiras de educar são diferentes e é para essas diferenças que a instituição escolar precisa se abrir A educação indígena é fundamentada na tradição e na memória coletiva: aprende-se a vida toda. dos quais participam as pessoas.

à Educação Escolar Indígena tem sido e continua Florestan Fernandes e Bartomeu Melià. Mas o que significa para a educação escolar o Aprender é processo permanente. sendo a educação assumida como ciado nos processos de escolarização resultam desta responsabilidade coletiva. costumes. há mais de 25 anos. indígena é a tradição e a memória coletiva atualizada Desse modo. Não se trata apenas de uma diferentes objetivos e entendimentos dos povos adequação de aspectos periféricos. o poder público não pode se furtar da nas palavras dos mais velhos. país não acontece sem um jogo de forças. As leis a família. que permite que ele seja um bom caçador.1. diferentes ênfases e intensidades. que segue reconhecimento dos processos próprios de apren. ser atribuídas à educação indígena. tece pela ação de quem aprende e de quem ensina. as novas gerações são moti- e instituições próprias em cada cultura. entre sendo ferramenta de luta. Os povos indígenas possuem espaços e tempos A inscrição de um direito no código legal do educativos próprios. pois somente poderá levar em conta as mática. indicaram algumas características que podem e dos interesses dos povos indígenas. da estrutura. travada pelos povos indígenas e por uma são diferentes. observando e agindo. Ela é viva e exemplar: aprende-se pela 4. participando. línguas. assim como são distintas as culturas rede de aliados. sendo afirmam também que o fundamento da educação responsabilidade do Estado a sua oferta gratuita. As maneiras de educar disputa. ocorre de modos distintos e por meio de pedagogias Para aprender. em interação. § 2º “a utilização de suas línguas na vida adulta. crenças e tradi. Aos poucos elas vão reconhece aos povos indígenas. no Artigo 231. saberes e herança a lei assegura um tratamento diferenciado. para as quais transmitem seus conhecimentos. Por dizagem dos povos indígenas? Significa pensar que exemplo.Educação Escolar Indígena: princípios consagrados na legislação P ara assegurar que a escola se subordine aos pedagogias indígenas. “sua assumindo responsabilidades. e nesse A Constituição Federal (CF) de 1988. realizando trabalhos. dos modos no plano legislativo. produzem e inclusive às comunidades indígenas. dos quais participam as pessoas. indígenas e é para essas diferenças que a instituição O conhecimento sobre a legislação referente escolar precisa se abrir. As sociedades indí- responsabilidade da oferta educacional gratuita. afirma tornar a pessoa um membro social pleno. em etapas nas fases da vida de cada pessoa.CIMI 37 . e ela vem acontecendo. cultural pela palavra. a comunidade e outras instituições sociais que resguardam o direito a um tratamento diferen. a Constituição vadas a participar desde cedo. ou seja. mas de uma indígenas. organização social. o que não significa que não Admitindo que a educação é um processo que existam também outras formas de registro. a legis. Assim. Estes autores que a educação é um direito público subjetivo. genas têm por base a oralidade. o menino observa e passa a conhecer os a instituição escolar terá que ser recriada em cada hábitos dos animais a partir da observação siste- localidade. participando das ações cotidianas e vão se inserindo ções” e no Artigo 210. na garantia dos direitos outros. tornou-se imprescindível uma luta transformação da lógica. processo toda a comunidade se responsabiliza em lação mais importante do Estado Brasileiro. com de pensar e fazer educação. maneiras próprias de educar na medida em que a Aprende a distinguir as diferentes espécies de peixes escola mesma seja incorporada e transformada pelas e classificá-las ao mesmo tempo em que aprende CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . a educação acon- maternas e processos próprios de aprendizagem”. Constituição Federal participação na vida. Ela é proces- sual: ao longo de sua vida uma pessoa está sempre aprendendo.

respondendo às necessidades e regulamentado através de vários textos legais. Desse modo. 4. intercultural e bilíngue vem sendo maneiras distintas. assumir responsabilidades e realizar alguns trabalhos a ser um bom pescador. apre- anseios de cada povo indígena. virada conceitual que alterou significativamente as A educação é percebida de maneira abran. específica. valorizar as ações esperadas Educação Escolar Indígena e persuadir quando as ações não correspondem ao A atual Constituição Federal produziu uma que é previsto nos padrões culturais. sobre educação fossem reformuladas para torná-las inserindo-se nas práticas pedagógicas indígenas. a sabedoria. sentados a seguir. compatíveis com os princípios gerais. respeitando o princípio federativo. o espaço onde se vive a experiência de aprender. desiguais e classificatórias não da Fundação Nacional do Índio (Funai) a incumbência serve a uma cultura que se produz a partir de outras exclusiva em conduzir processos de educação escolar formas de relação e de outros valores sociais e. o Decreto Presidencial nº26/91 retirou zantes. É importante salientar coordenar as ações de Educação Escolar Indígena que esse direito está assegurado aos povos indígenas passou a ser do Ministério da Educação e a execução nos artigos constitucionais citados anteriormente. o trabalho. Novas bases do direito à Cabe aos adultos incentivar os mais jovens. Uma escola que mantém práticas individuali. que 38 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . por em comunidades indígenas. as novas gerações são estimuladas a participar das ações cotidianas. A responsabilidade em isso. Em 1991. relações do Estado com os povos indígenas.2. das políticas nesta área foi atribuída aos estados e Além disso. Essa gente e diz respeito à vida em comunidade e. as crianças aprendem e os adultos. são encarregados dos órgãos governamentais de cumprir o que está de explicar cada fenômeno. cada acontecimento. ensinar pelo exemplo. o modo de estruturar e de organizar o direito indígena a uma educação escolar diferen- a escola e os currículos precisa ser construído de ciada. competitivas. que com indígenas (Artigo 210). Por essa razão. a Constituição responsabiliza o Estado municípios. aconselhar. previsto em lei no relacionamento com os povos Educar é compartilhar o dia a dia. nessa mudança de perspectiva exigiu que as leis específicas concepção. o que implica na obrigação elas vivenciam cada experiência. seguido de perto por aqueles que já sabem. Povo Kaingang (PR) – Foto: Diego Pelizzari Desde cedo. indígenas e no atendimento de suas especificidades. Na relação com a própria pela proteção e respeito às culturas e tradições natureza. precisa ser reconstruída. a escola tem um papel específico.

que pelo reconhecimento da multiplicidade cultural e constam no Título VIII. planejados em diálogo com para a estruturação de ações do poder público. esta nova atribuição. de ter o caráter integracionista. As diretrizes estabelecidas neste documento da sociedade nacional e demais sociedades indígenas foram formuladas a partir de experiências e discus. além de possibilitar o “acesso Indígena. ser regulamentadas com flexibilidade nos currículos. na perspectiva de colaborar para sentantes dos povos indígenas e de seus professores. e de experiências escolares da União no provimento da educação destinada que buscavam produzir práticas contextualizadas e aos povos indígenas e afirma que os sistemas de mediadas pelas culturas indígenas. repre. Bases da Educação. Estes programas terão orientando as secretarias estaduais e municipais que como objetivos: fortalecer as práticas socioculturais e assumiam. regulamentando e dando corpo aos princípios Interministerial 559/91. deve ser pensada em articulação CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Este a língua materna. a colaboração dos sistemas de ensino estaduais e O Ministério da Educação assumiu. Admite-se próprios. a partir de então. “O Sistema de de Educação Escolar Indígena (NEI) nas secretarias Ensino da União.confere certa autonomia a cada um dos sistemas 4. materiais e práticas pedagógicas. através da qual a escola deixa e determinações mais gerais da educação nacional. reafirma os preceitos constitu- de Educação Escolar Indígena a partir da Portaria cionais. a utilização das línguas maternas dades indígenas. independente de sua e pesquisa. mencionado anteriormente. para a oferta de educação bilíngue e formação anterior. a A perspectiva do diálogo com as comuni- interculturalidade. Lei nº 9394/96. a valorização de trizes para a Política Nacional de Educação Escolar suas línguas e ciências”. desenvolver currículos e programas documento estabelece como princípios do trabalho específicos. conhecimentos técnicos e científicos 1993. e não-indígenas”. lançado pelo Ministério da Educação em às informações. essa transferência de responsabilidade não implicou na criação de meca. “Das Disposições Gerais” e. A atribuição de organizar a Educação Escolar calendários. As escolas indígenas passaram a intercultural aos povos indígenas”. Lei de Diretrizes e Bases da educacionais. assegurada na Lei de Diretrizes e e o direito à autonomia. as escolas indígenas foram de assegurar proteção e respeito às culturas e aos sendo incentivadas a elaborar Projetos Pedagógicos modelos próprios de educação indígena. Educação Nacional (LDB) nismos que assegurem um tratamento adequado e o respeito à especificidade das escolas indígenas. as comunidades indígenas. em O Artigo 79 prevê o apoio técnico e financeiro diversos lugares do país. linguística dos povos indígenas e pelo direito a eles ainda. Uma das primeiras medidas adotadas e responsabilidade. composto por representantes de a educação escolar intercultural e bilíngue para os órgãos governamentais e não governamentais. “a recuperação de suas memórias históricas. sões acumuladas nos movimentos de professores. diferenças. A partir Indígena é da União. no § 3º do Artigo 32. a responsabilidade povos indígenas e de fomento à cultura. e passa a ser regida são incorporados em dois artigos específicos. os direitos indígenas à educação escolar Estatuto do Índio/Lei 6. elaborar e publicar sistematicamente pedagógico em comunidades indígenas o respeito às material didático específico e diferenciado.3. mação de suas identidades étnicas. conforme previa o Na LDB. A Portaria também previa a criação de Núcleos De acordo com o Artigo 78.CIMI 39 . e processos próprios de aprendizagem. assim como a responsabilidade deste entendimento. povos indígenas. que assegura às comuni- assegurado de viver de acordo com suas culturas e dades indígenas a utilização de suas línguas maternas tradições. pelo Decreto municipais e também de agências de assistência aos 26/91. Entretanto. mas essa de coordenar as ações e iniciativas educacionais em colaboração não isenta a União de sua competência terras indígenas. ensino deverão desenvolver programas integrados O principal intuito era delinear parâmetros de ensino e pesquisa. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Registra-se um avanço em relação à concepção (LDB). foi a criação de um Comitê Nacional de Educação Ainda no Artigo 78 são fixados objetivos para Escolar Indígena. com a colaboração das agências estaduais de educação e determinava a prioridade federais de fomento à cultura e de assistência aos na formação de professores indígenas e isonomia índios.001/73. a produção coletiva de conhecimentos. desenvolverá programas integrados de ensino salarial para estes profissionais. a reafir- O Comitê elaborou um documento chamado Dire.

com as demais garantias – respeito às culturas e e contínua dos professores indígenas. tanto no que se refere à elabo- A Constituição Federal estabelece. Também determina a imediata produção de outras redes de informações e de outros adoção das diretrizes para a Política Nacional de conhecimentos que possibilitem à sociedade uma Educação Escolar Indígena e dos parâmetros curri- compreensão mais contextualizada e plural das culares estabelecidos pelo Conselho Nacional de culturas indígenas e afro brasileiras. Lei 10. à Educação Escolar modos de vida. A formação a que se refere o PNE da cultura ocidental. iniciais do Ensino Fundamental respeitando seus tulo. regimentos. incorporação dos conhecimentos e saberes tradi- citação continuada de professores. Educação (CNE) e pelo Ministério da Educação. Plano Nacional de Educação (PNE) O PNE acentua o direito à autonomia das escolas indígenas. 214. lei estabelece um prazo de 10 anos para que todas O Plano Nacional de Educação. atendimento ao educando materiais didático-pedagógicos. com níveis os currículos escolares com um ensino de história de remuneração correspondentes ao seu nível de que leve em conta as contribuições das diferentes qualificação profissional. das línguas maternas. currículos e programas específicos para as escolas pios não poderão ser planejados e nem executados indígenas. que serão analisados um pouco adiante. tivas afirmadas no princípio da gestão democrática com a criação da categoria de professores indí- do ensino. aos povos indígenas. didático. hoje 6º ao 9º PNE reconhece a necessidade de uma formação inicial ano) deverá ser gradativa à população indígena. em seu Artigo 26. ao estabelecimento e uso de um sistema ortográfico Aplicam-se também. culturas e etnias para a formação do povo brasileiro. O § 4º deste artigo compromete demais do mesmo sistema de ensino. a condução de pesquisas de todas as outras garantias estabelecidas na Lei. realizada em modelos próprios de aprendizagem. no que se “de cima para baixo”. acesso aos níveis cionais das sociedades indígenas e à elaboração de mais elevados de ensino. O que implica dizer que os deve “capacitar os professores para a elaboração de programas desenvolvidos pelos estados ou municí. suas visões de mundo e as situações Indígena. Considerando que a educação escolar é sociolinguísticas específicas.645/08 contemplou a necessidade denação geral e o apoio financeiro para a Educação de estudo das histórias e das culturas afrobrasileira e Escolar Indígena e delega aos estados a responsa- indígena nos currículos das escolas da rede pública. bilíngues ou não. com a circulação de informa. como.4. dedica um capí. genas e carreira específica. garantindo a ções e conhecimentos sobre os povos indígenas nas esses professores os mesmos direitos atribuídos aos escolas brasileiras. garantindo a articular as ações do poder público em metas comuns plena participação de cada comunidade indígena e desenvolver processos de educação escolar em nas decisões relativas ao funcionamento da escola. e culturais das sociedades indígenas. melhorando a qualidade de ensino Em relação à oferta de educação escolar. sem a devida participação refere à metodologia e ensino de segundas línguas e daqueles para os quais se destinam. transporte. as comunidades indígenas tenham acesso às séries promulgado em janeiro de 2001. A ampliação da oferta melhor atendida através de professores indígenas. entre outras. o para as séries seguintes (5ª a 8ª série. visando à sistematização e por exemplo. Este dispositivo pode colaborar para a com os municípios. todos os níveis. O PNE atribui ao Ministério da Educação a coor- A Lei nº 11. com concurso de provas Cabe salientar. esta e ampliando o acesso aos cidadãos. 4. bilidade legal por essa modalidade de ensino. com o objetivo de a manutenção do cotidiano escolar. e de ensino implementem a profissionalização e o participação em conselhos e instâncias representa. caráter antropológico. alimentação. Além disso. valorização de serviço e de modo concomitante ao próprio processo suas línguas e ciências e acesso a conhecimentos de escolarização. a necessidade de elaboração de um Plano quanto ao uso de recursos financeiros públicos para Nacional de Educação (PNE). a ser nos quais o eixo central é a cultura e a identidade executada diretamente ou em regime de colaboração nacional. com 21 objetivos e metas. reconhecimento público do Magistério Indígena. ainda.172. capacitar para o ensino bilíngue. o PNE determina que os sistemas elaboração de projetos pedagógicos. através de programas suplementares de material para uso nas escolas instaladas em suas comunidades”. a participação em programas de capa. mas 40 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . assistência à saúde. a preocupação expressa e títulos adequados às particularidades linguísticas na LDB. no Artigo ração e implantação de seus projetos pedagógicos.

categoria oficial de “escola indígena” e de dois anos Fica estabelecida como meta. O PNE aponta para a necessidade de adaptar Esta preocupação manifestada no PNE responde os programas suplementares já existentes. respeitando o de professores indígenas em nível superior. a elaboração de planos para a imple- regularização legal de todas as escolas indígenas. Povo Paumari (AM) – Foto: Adriana Huber Azevedo Materiais bilíngues são fundamentais para o resgate da língua indígena que alguns povos estão dispostos a realizar se considera. oferecidas as condições e o atendimento recursos deveriam ser destinados pela União e pelos adicional necessário para sua adaptação. merenda escolar necessária universalização. Neste alunos indígenas nas escolas não indígenas. vídeos. a ser atingida para que se proceda o reconhecimento oficial e a em dois anos. em regime de colaboração. os próximas. garantir o acesso ao Ensino Fundamental pleno. pois órgãos estaduais de educação. videotecas e poração destes alunos às classes comuns nas escolas outros materiais de apoio. escolas indígenas. a possibilidade de incor. Entretanto. ainda sentido. dentre outros. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Conforme prevê o Plano. estabelece uma importante meta que é a muito comum em todo o país. incluindo livros. elabo- A lei determina um período não superior a um rados por professores indígenas juntamente com os ano após sua promulgação para que seja criada a seus alunos e assessores”. de acordo com as normas e TV Escola. de forma a contemplar a gerais vigentes. e culturas. a prática de inserção dos especificidade da Educação Escolar Indígena. neste Plano. Também é fixado o prazo de cinco anos para distância de nível fundamental e médio e cursos de garantir equipamentos didático-pedagógicos para as educação profissional.CIMI 41 . a fim de estados. e programas de educação à próprias. programas voltados os estudantes indígenas são submetidos a situações à produção e publicação de materiais didáticos e discriminatórias e de desvalorização de suas línguas pedagógicos específicos para os grupos indígenas. a partir das técnicas de edificação de nível equivalente. tanto no Ministério da Educação como nos da especificidade da Educação Escolar Indígena. como à obrigatoriedade do Ensino Fundamental e sua transporte escolar. dicionários e outros. da colaboração das universidades e de instituições sempre que possível. através uso social e as concepções de espaço daquele povo e. incluindo bibliotecas. livro didático. contradiz o princípio de “criar. mentação de programas especiais para a formação oferecendo infraestrutura adequada.

tradições e culturas. próprias instituições sociais. do Estado brasileiro.5. Outro aspecto que merece Em consonância com os objetivos e metas destaque é a utilização do termo “povos indígenas” traçados no Plano Nacional de Educação/2001. a intolerância e o a participação dos povos indígenas nas decisões preconceito em relação a essas populações. estabelecendo assim um estados brasileiros podem fixar outras leis que esta. econômicas. sociais. 4. culturais e políticas. eliminando o viés integracio- mações sobre as diferentes culturas. seja se diluída no corpo do anteprojeto. descenderem de populações que habitavam o país quatro anos de tramitação no Congresso Nacional. ainda. a ou uma região geográfica pertencente ao país na Educação Escolar Indígena não foi contemplada com época da conquista ou da colonização ou do esta- um capítulo específico. belecem Planos Estaduais de Educação. aproximadamente. após. como no anterior. belecimento das atuais fronteiras estatais e que. conceito abrangente que favorece as lutas políticas. Convenção 169 da Organização A Convenção responsabiliza os governos a desenvolverem ações coordenadas de proteção e Internacional do Trabalho (OIT) respeito aos direitos indígenas. esta lei um importante passo na garantia dos direitos dos também prevê que sejam promovidos meios para povos indígenas já que ela estabelece o respeito às divulgar amplamente a questão indígena e infor. respeitando-se suas culturas. econômicos e políticos estabelecidos a todos aprovada pela Organização Internacional do Trabalho os cidadãos. os na presente Convenção. A vigência deste qual for sua situação jurídica. O Artigo 1º afirma que esta Convenção aplica- No novo PNE (Lei 13. aspirações (OIT) em 1989. conservam todas as suas PNE é de 25 de junho de 2014 a 25 de junho de 2024. ou parte delas” . como meio de nista e apontando para a necessidade de assegurar combater o desconhecimento.005/2014). e encontra. sancionado se aos “povos considerados indígenas pelo fato de em 25 de junho de 2014. a proibição de 42 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Estabelece. possibilitando a eles O Brasil demorou 13 anos para promulgar a as liberdades fundamentais e o pleno gozo de direitos Convenção 169. Povo Krikati (MA) – Foto: Diego Janatã A legislação nacional e a internacional garantem a participação direta da comunidade indígena na formulação e execução dos programas de educação No que tange à sociedade nacional. sobre Povos Indígenas e Tribais. A promulgação desta Convenção é e modos de viver.

recursos necessários para o pleno desenvolvimento Neste sentido.CIMI 43 . que terão adotadas medidas para garantir aos membros dos Povo Yanomami (RR) – Foto: Maria Edna Brito Anteriormente avessos à educação ocidental. os indígenas delimitaram o lugar político da escola como “inserida na luta do povo” CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Além disso. culturais. nos planos de desenvolvimento econômico global Cada vez que se defina uma política ou ação das regiões onde eles moram e deverá contar com diretamente relacionada aos povos indígenas. sua terra. deverão ser consultados e participar ativamente nas Os direitos educacionais dos povos indígenas. fornecer os especificamente. a Convenção afirma que “deverão ser das instituições e iniciativas desses povos. ainda. Os governos deverão. de trabalho e do nível de saúde e entendimentos e as formas diversas de resolução dos educação dos povos indígenas deverá ser prioritária problemas enfrentados. aplicação e avaliação dos planos e sociais. religiosas e espirituais próprios dos programas de desenvolvimento nacional e regional povos indígenas e que as políticas a eles destinadas suscetíveis de afetá-los diretamente. esses povos deverão participar sejam reconhecidos e protegidos os valores e práticas da formulação. decisões. A melhoria das sejam planejadas levando em conta estes diferentes condições de vida. diz respeito à sua economia. estes a sua participação e cooperação. suas tradi- Este acordo internacional determina ainda que ções.uso de qualquer forma de violência ou de coerção o direito de eleger suas próprias prioridades no que contra estes povos. são tratados nos Artigos 26 a 31.

criando a categoria de “professor indígena” e garan- Nesta Convenção há também dispositivos tindo-lhe formação continuada. priorita- aos conhecimentos gerais e aptidões que permitam riamente.mec. educação. níveis e modalidades de ensino.gov. assegurado na O CNE lançou em 1999 o Parecer nº 14/99 e Convenção. deverão ser realizados esforços para assegurar 1 Os textos do Parecer e da Resolução podem ser obtidos no que os livros de história e demais materiais didáticos sítio eletrônico do Ministério da Educação: www. em sua maioria. A criação desta categoria foi funda- as instituições criadas pelos povos indígenas. poderiam ter em relação a esses povos. Quando isso nesses dois instrumentos normativos. Além disso. há alguns destaques que podem ser feitos mente falada no grupo a que pertençam. mec. O Artigo que exerce e todos os outros direitos atribuídos aos 31 afirma que “deverão ser adotadas medidas de demais professores do mesmo sistema de ensino. naqueles que estejam ao Magistério Indígena deverá ser garantido através em contato mais direto com os povos interessados. que servem não for viável. e não funcione como algo compulsório. dever-se-á ensinar que fundamenta teoricamente e contextualiza poli- às crianças dos povos interessados a ler e escrever na ticamente as determinações da Resolução. os mental para a regularização das escolas indígenas governos deverão também facilitar os recursos para que. efetuar consultas com esses povos com vistas a se Em relação aos profissionais de educação adotar medidas que permitam atingir esse objetivo”. resguardando-se apenas o e a criação da categoria Escola Indígena junto aos cumprimento das normas mínimas estabelecidas para sistemas de ensino. os conhecimentos e técnicas. adequados às dife- com o objetivo de se eliminar os preconceitos que renças linguísticas e culturais dos povos indígenas. Um aspecto importante.6. até então. remuneração compatível com as funções sociedade nacional com os povos indígenas. especialmente.mec. caráter educativo em todos os setores da comunidade com níveis correspondentes de qualificação. O acesso nacional e. as autoridades competentes deverão de base para as lutas dos povos indígenas.gov. sentido. quando for adequado”. a Convenção asse. é necessário Para isso. de valores e as aspirações sociais. Neste sua própria língua indígena ou na língua mais comu. Outras normas que educação em todos os níveis. Para esse fim. “a autoridade competente deverá assegurar levar em conta um conjunto de normas especifica- a formação de membros destes povos e a sua parti. que atuam nas escolas indígenas.povos interessados a possibilidade de adquirirem 4. é o reconhecimento do direito dos a Resolução nº 03/99 que instituíram as Diretrizes povos indígenas de criarem suas próprias institui. os sistemas estabelecidas por estes estabelecimentos. a Resolução e o Também é assegurado o acesso à língua nacional e Parecer do CNE afirmam que eles devem ser. participar plenamente e em condições de igualdade Afirma-se a necessidade de instituir. pautando seu trabalho Os processos educacionais deverão abranger por calendários. Além de reconhecer e respeitar jurídicos próprios. econômicas e Estes dois instrumentos – o Parecer e a Reso- culturais indígenas.pdf 44 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . exata e instrutiva br/secad/arquivos/pdf/indigena/PCB014. A oferta de educação escolar deverá ser Escolar Indígena planejada em cooperação com os povos indígenas.br/ CNE. materiais didáticos e metodologias as histórias. ofereçam uma descrição equitativa.pdf e http://portal. das sociedades e culturas dos povos interessados”. Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena1 ções e meios de educação. com normas e ordenamentos o sistema nacional. de concursos de provas e títulos. lução – devem ser lidos em conjunto. ou diretamente nestes endereços: http://portal. na medida em que e reconhecer a carreira do Magistério Indígena nas isso responda a uma demanda concreta daquele povo secretarias municipais e estaduais de educação. com vistas a transferir progressivamente que tem a atribuição de interpretar a Lei de Diretrizes para os povos a responsabilidade de realização desses e Bases (LDB) e estabelecer normas específicas para programas. funcionavam como o seu efetivo funcionamento. salas anexas de escolas rurais.br/secad/arquivos/pdf/indigena/CEB0399. pertencentes ao povo daquela localidade. regulamentar na vida da comunidade nacional. condições adequadas que indicam a necessária mudança nas relações da de trabalho. mente criadas para a Educação Escolar Indígena e cipação na formulação e execução de programas de editadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Além das Leis até aqui analisadas. para responder às suas necessidades particulares. pois é o Parecer gura que “sempre que for viável. pelo menos em condi- ções de igualdade com o restante da comunidade regulamentam a Educação nacional”.gov.

.TI Morro dos Cavalos – Foto: Clóvis Brighenti A Convenção 169 prevê a adoção de medidas educativas com o objetivo de valorizar as diferenças culturais e eliminar preconceitos Outro aspecto contemplado no Parecer e na permita atender às novas diretrizes para a escola Resolução é a formação dos professores indígenas. importantes para a qualificação dos professores ciada e adequada às peculiaridades culturais das indígenas: “a primeira é sua formação em serviço comunidades indígenas é necessário que os profissio.. conceitual. deverão compor a base num espaço verdadeiro para o exercício da intercul. desenvolvimento e avaliação de currículos e mente planejados para o trato com as pedagogias programas próprios. e a segunda é a ênfase envolvidas no processo escolar. É consenso que a que deverá ser dada em cursos de formação.) Essa formação deve levar em conta o e utilização de metodologias adequadas de ensino fato de que o professor índio se constitui num novo e pesquisa”. o Parecer afirma: “Para que a Educação A Resolução 03/99 apresenta duas garantias Escolar Indígena seja realmente específica. e atitudes. quando for o caso. diferen. afetiva e cultural. valores. ator nas comunidades indígenas e terá que lidar No que tange aos currículos das escolas com vários desafios e tensões que surgem com a indígenas. priorizados no processo educativo tornar um agente ativo na transformação da escola entre alunos e professores. A formação do professor índio pressupõe se articular ao conjunto dos saberes universais. a partir da qual vai turalidade. o Parecer nº 14 é categórico ao afirmar introdução do ensino escolar. Assim. e. concomitantemente com a nais que atuam nas escolas pertençam às sociedades sua própria escolarização. Povo Guarani (SC) . Neste sentido. ração.CIMI 45 .) Os CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . que deverão ter acesso habilidades. indígena”. sua formação que “os saberes historicamente produzidos pelas deverá propiciar-lhe instrumentos para que possa se comunidades. produção de material didático indígenas. para clientela educacional indígena é melhor atendida a reflexão em torno de conhecimentos. a observância de um currículo diferenciado que lhe presentes nas diversas áreas do conhecimento. como também para a elabo- a cursos de formação inicial e continuada. (. através de professores índios. (. especial...

sociais. ainda. em seguida. Povo Enauenê-Nawê (MT) – Foto: Renato Santana Os saberes ligados à identidade étnica e à memória coletiva dos povos são alguns dos fundamentos a serem incorporados nos currículos das escolas indígenas 46 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . às suas organi. crenças. em articulação culturas. pois para povo. neste documento. duração diversificada dos períodos escolares. aos saberes ocidentais. guos. culturais e religiosas. pedagógicos e regimentos escolares e. as normas legais. o caráter colonialista indígenas. línguas e saberes. terão assegurados os seguintes zações sociais do trabalho. ser estes ajustados às condições e especificidades continuam na posição de subalternidade frente próprias de cada comunidade. entre As escolas indígenas deverão elaborar projetos outros: língua materna. e a organização escolar própria. estrutura e funciona- assegurado na Constituição Federal. exclusividade de atendimento a comunidades Constatamos. memória histórica. e que devem colaborar na valorização das ser construídos por seus professores. frequentemente contrárias aos diversificada do conteúdo de aprendizagem e de interesses dos povos indígenas. que estas possuem normas e ordenamento jurídico Os currículos das escolas indígenas deverão próprios. e nela permanece. uma vez que os saberes indígenas. finalmente. como uma das formas às comunidades indígenas uma relativa autonomia de preservação da realidade sociolinguística de cada para elaborar seus projetos pedagógicos. às relações humanas e às direitos: organização das atividades escolares. inde- manifestações artísticas”. por comunidades indígenas. devendo tratados como “parte diversificada” nos currículos. São estabelecidos. pelos Conselhos indígena”: sua localização em terras habitadas por de Educação Escolar Indígena e. formação que compõem o currículo. estes currículos deverão ser aprovados inicialmente alguns elementos que definem a categoria “escola pelo Conselho Escolar. respeitado o fluxo das ativi- é necessário evidenciar o caráter colonialista que dades econômicas. a Resolução reconhece Convenção 169. ainda que se estendam por órgãos normativos dos sistemas de ensino (Conselhos territórios de diversos estados ou municípios contí- Municipais ou Estaduais de Educação). São eles. o ensino ministrado nas línguas maternas presente nessas relações. contradizendo o que está Acerca da organização. respeitando as diferenças com as comunidades indígenas. respeitadas saberes ligados à identidade étnica. uma vez que é reservada das comunidades atendidas.saberes e procedimentos culturais produzidos pelas serem aprovados deverão ser submetidos a instân- sociedades indígenas poderão constituir-se na parte cias não indígenas. A respeito dessa afirmação pendentes do ano civil. Uma vez formulados. na LDB e na mento das escolas indígenas. assim. étnicas.

filiações linguísticas e a base listas em saberes tradicionais. Nesse sentido. buscando nização da Educação Escolar Indígena em Território superar as limitações impostas aos povos indígenas Etnoeducacionais. como os tocadores territorial reconhecida pelo Estado brasileiro”.861/09. Os critérios desse novo reorde. Indígena em nosso país. significativa em relação à oferta da Educação Escolar O Artigo 2º desta Resolução. as formas de produção de Em 2012. níveis e modalidades de ensino que podem ser Povo Guarani-Kaiowá (MS) – Foto: Egon Heck A escola indígena precisa ser um espaço de valorização e acolhimento dos especialistas em saberes tradicionais CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . processos de formação de professores indígenas namento são: “relações interétnicas. incentiva “os sistemas de ensino a fortalecer e apoiar namento territorial. pajés e/ou xamãs. contadores de narra- os Territórios Etnoeducacionais (TEE) podem abranger tivas míticas. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação co-pedagógicos produzidos de acordo com o contexto Escolar Indígena na Educação Básica. dos povos indígenas”. esta Resolução especifica os vários pelas instâncias estaduais e municipais.CIMI 47 . incorporou a nova reorganização proposta pelo Decreto 6. rezadores. (CNE) promulgou a Resolução 05/12. conselheiros e genas que mantém relações intersocietárias. Esta Resolução sociocultural de cada povo indígena. E estes modelos deverão estar de acordo Nacional de Educação (CNE) com as estruturas sociais. Decreto nº 6. parteiras. propondo um novo reorde. raizeiros.861/09 instituiu uma mudança realizada em novembro de 2009. O Decreto nº 6. definindo possibilitando a produção e o uso de materiais didáti. que instituiu os Territórios Etnoe- 4. no inciso VII. o Conselho Nacional de Educação conhecimentos e as práticas pedagógicas indígenas. Assim. bem como os princípios estabelecidos Territórios Etnoeducacionais na Convenção 169 e algumas deliberações da 1ª Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena.7. A participação das comunidades indígenas é 4. envol. de instrumentos musicais. outras funções próprias e necessárias aos Bem Viver vendo diversos entes federativos. territorialidades que incluam a colaboração e atuação de especia- dos povos indígenas. territórios descontínuos ocupados por povos indí. organizadores de rituais.861/2009 – ducacionais. propõe um novo modelo articulado de gestão pública Além de detalhar a nova proposta de reorga- para a oferta da Educação Escolar Indígena.8. Resolução 05/12 do Conselho imprescindível na definição do modelo de organização e gestão.

especificidade. embora não tenha força de difere dos PCN por ser um documento de subsídios lei.9. os objetivos. estão reunidos os fundamentos históricos.implementados na Educação Escolar Indígena sempre indígenas. Na primeira. discorrendo sobre os definir seus projetos pedagógicos. diferença. a elaboração de propostas curriculares destinadas Trata-se do Referencial Curricular Nacional para exclusivamente às comunidades indígenas. o debate em torno da Educação Escolar Indígena e culturalidade e autonomia das comunidades para traçar perspectivas de ações. “Para começo de que contou com a participação de especialistas conversa”. estruturados para Escolas Indígenas (RCNEI) para servir de referencial para as escolas de Ensino Para finalizar. e visava promover social. princípios traçados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Escolas Indígenas (RCNEI). o calendário. antropológicos e pedagógicos que referencial foi publicado e encaminhado às escolas balizam a proposta de uma escola indígena inter- Povo Jiahui (AM) – Foto: Patrícia Bonilha As comunidades e os povos têm autonomia para definir a pedagogia. legais. os projetos. se em duas partes. secretarias de educação. bilinguismo. é importante destacar ainda Fundamental e Médio em todo o país. Referencial Curricular Nacional A lógica do documento é similar à adotada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). e professores indígenas. tem sido utilizado como referência na elaboração adicionais que oferece informações e indicações para de projetos pedagógicos em diversas localidades. 4. as concepções e os princípios da escola indígena 48 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . entre outros respeitando os princípios já assegurados: igualdade órgãos estaduais e municipais. Mas o RCNEI outro documento que. pelo então Ministério da Educação (MEC). inter. O políticos. um documento elaborado O RCNEI foi publicado em um volume e divide- em 1999. em pequeno número.

CIMI 49 . na formulação de propostas e apresentamos a seguir. e que. não correspondem às demandas apresentadas hierarquização? E se é assim. definem uma escola de qualidade para eles. como de boa parte deles. Poderíamos nos perguntar qual política pública homogeneizadora que não atinge racionalidade sustenta a produção de um referencial somente a Educação Escolar Indígena. à peda. 24). E isso permite pensar o conjunto de disciplinas. persiste a tradição de uma o texto contempla. e tais iniciativas fazer educação dos povos indígenas. Mais esdrúxulo a construção dos currículos escolares indígenas ainda se pensarmos que as formas de representação específicos. quanto aos modos de administrá-la. de maneira contextual interdisciplinar (MENEZES. lidade de se propor um referencial único para tantas movimentos. seria negado aos povos na implementação da política de Educação Escolar indígenas o direito de decidir quais os critérios que Indígena. tanto em relação ao currículo função social. Estes temas atravessariam e distintas formas de viver. Parece inviável e até “Ajudando a construir o currículo nas escolas indí. Na segunda parte. ou que vem sendo realizada pelo Estado brasileiro. São os próprios professores e as comunidades Também em relação ao processo de produção indígenas que denunciam a distância entre a Educação desse referencial. nacional se aos povos indígenas são reconhecidas Em segundo lugar.   u CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . baseadas numa organização de ciclos de pensamento de muitas. ridade cultural dos povos vêm sendo aplicadas num gogia. em diálogo com as sociedades indí- lecer algum parâmetro de medida. indígenas não são iguais às nossas. aos conteúdos. de modo O processo de inclusão das escolas indígenas que esta escola esteja a serviço dos interesses e dos no sistema oficial de ensino em todo o país é muito projetos indígenas. desvalorização e discriminação. e localizada. diferenciada. Neste contexto. aos objetivos. Esta estranheza pode ser aprendizagem. que escola eles desejam. na definição do texto final. aos espaços e sistema de imposição. as ações de algumas secre- suas culturas e sua autonomia para criar modelos tarias de educação no sentido de criarem instâncias próprios de fazer educação. gena. É necessário que a escola tenha pluricultural e pluriétnico. servindo a quais objetivos. com o direito constitucional a uma educação especí- Algumas questões colocadas em relação fica e diferenciada. Haveria maneiras ainda não estão sendo tomadas de modo abrangente de delimitar um horizonte comum de amplitude e com a qualidade necessária. p. para sentadas estão estruturadas em áreas de conheci. estranho propor um grande fórum no qual estas genas”. direitos. e intercultural. enfren- concretas e colaborando para assegurar os direitos e tando problemas e buscando soluções condizentes os projetos de futuros dos povos indígenas. uma pessoa não pode representar o mento. bilíngue processos de avaliação nacional. Vários são os fatores responsáveis ao RCNEI dizem respeito muito mais à lógica e ao por esse quadro de dificuldades. muitos povos. momentos utilizados para a educação escolarizada” enquanto valores num país que se define como sendo (MEC. sentantes indicados pela comunidade. Inclui liberdade As políticas públicas de atendimento à peculia- de decisão quanto ao calendário escolar. em cada realidade. abrangência política dentro da área da educação. suas concepções funcionando de quais maneiras. 1998. Apresentam-se sugestões de temas traduzida em impossibilidade – a mesma impossibi- transversais como pluralidade cultural. demandando uma visão que haveria de se compor. saúde. apresentam-se sugestões de trabalho para distintas vozes pudessem ser ouvidas. mas não somente isso. É se as escolas indígenas como ponto de relevante preciso que o seu cotidiano seja gerido por repre. escritos pelas No RCNEI. As sugestões apre. comparação ou genas. inclusive escolar? A específicas incumbidas de definirem prioridades e necessidade de se ter um referencial comum não estratégias para promover uma educação escolar estaria vinculada à noção de currículo mínimo e de verdadeiramente específica. destacam- professores indígenas. firma-se o princípio de que a escola mãos daqueles que efetivamente poderão dizer indígena deve ser “conduzida pela comunidade indí. capazes de estabe. lutas. 2006). dando respostas às necessidades recente e ainda encontra-se em construção. de acordo com seus projetos. Fomentar curricular nacional já que a Constituição reconhece a mudanças nessa área exige investimento em capaci- pluralidade de culturas e dos modos de pensar e de tação de técnicos dos órgãos públicos. cumprindo qual e seus princípios. referenciais múltiplos. terra.cultural. poderíamos interrogar a efetiva Escolar Indígena preconizada na legislação e aquela participação dos mais de 305 povos indígenas. bilíngue e diferenciada. processo de produção do que propriamente ao que Em primeiro lugar.

ainda hoje. Capítulo V Passaram-se 23 anos desde que a oferta da Educação Escolar Indígena passou a ser de responsabilidade das secretarias estaduais de educação e. alunos e pais de alunos Povo Kaingang (RS) – Foto: Renato Santana . persistem estados em que as escolas indígenas não foram regularizadas As escolas indígenas não foram regularizadas em todos os estados e geram insegurança para os gestores. professores.

Esta é a situação do povo consonância com a legislação federal”. reconheci. pela Resolução rizadas é a dificuldade das Secretarias Estaduais de nº 03 e pelo Parecer 14.. uma vez regulamentadas. autorização. por exemplo. secretário. que eram regulares.. dos povos indígenas na gestão da escola..CIMI 51 . esse avanço O professor retrucou: “É. no Maranhão as escolas indígenas. indígenas não podem obter documentação escolar sabilidade das secretarias estaduais de educação de sua escola. em organizam por conselhos. Ocorrem namento das Escolas Indígenas.. sua criação. ainda hoje. para se tornarem escolas autônomas e regulares. situação do corpo administrativo. que se mento. significaria que as escolas. um diretor. no Maranhão as escolas deu-se. persistem escolas reconhecidas pelos Conse- é pensada e tratada no Maranhão.. situação que se lhos Estaduais de Educação. produção de material didático de forma irregular. do Maranhão. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .. Krikati. gerando insegurança para os e cursos de formação. vários povos do tronco linguístico Macro-Jê. Sistema Estadual de Ensino “a regularização da escola Isso contradiz. Ainda cenário ilustrativo de como a educação indígena assim. Esta situação ocorre.”. da Secretaria de Educação sua organização social. sobretudo quando se trata autônomas. a estrutura e o funcio. supervisão e avaliação. deixariam de funcionar como escolas rurais. passados quase 15 anos desde a o cargo de direção de uma das poucas escolas indí. publicação da Resolução 03 e do Parecer 14. respeitando Indígena (Supeind). O Parecer 14 regulamentou a regras organizativas da gestão das escolas da rede criação da categoria de Escola Indígena. reconhecendo-lhes situações em que as secretarias acabam pressionando a condição de escolas com normas e ordenamentos os povos indígenas para que aceitem as mesmas jurídicos próprios. ao contrário do Em estados onde as escolas indígenas foram que acontece quando se trata de escolas indígenas. entre outros. A Resolução estabeleceu. ou seja. professores e pais de alunos. a negação genas reconhecidas naquele estado. Esse diálogo reflete um mobilização dos próprios povos indígenas. o que. ou anexas. visto que a Seduc não aceitou A legislação apontou um direcionamento para essa forma de organização na direção da escola os estados quanto ao reconhecimento das escolas proposta insistentemente pelo povo..”. na prática.. graças à organização e indígenas são irregulares. da rede pública. cabendo ao pública. no estado do Maranhão onde os alunos Educação Escolar Indígena passou a ser de respon. uma vez que não foi regularizada a da regularização das escolas indígenas. em grande medida. e um professor indígena que ocupa Entretanto. As escolas indígenas não referência à facilidade de se resolver questões de foram regularizadas em todos os estados e funcionam contratação de pessoal. persistem estados em que as escolas assiná-la. suas nomeações para o cargo. para as escolas gestores. “. no Maranhão. Educação (Seduc) de respeitarem a organização social no âmbito da educação básica. indígenas são irregulares. por não terem portaria administrativa de indígenas não foram regularizadas. A gestora fazia desse direito é explícita. regularizadas. como Bahia e Pernambuco. com normas e orde- A frase acima surge de um diálogo com uma namentos jurídicos próprios e com a participação gestora da Supervisão de Educação Escolar ativa dos povos indígenas na sua gestão. isto é.Regularização das Escolas Indígenas “É. mas que ainda não são repete em outros estados. Passaram-se 23 anos desde que a oferta da por exemplo. a organização social de indígena. Cabe ressaltar que essa responsabilidade dos Outro aspecto observado nas escolas regula- estados foi regulamentada em 1999. credenciamento. visto que os diretores não podem e.”. tesoureiro.

respeito à inserção no Sistema digitalizado do CEE e Contudo. Em Redenção. para dar explicações do porquê não tinha forne- escolas são administradas pelo governo do estado cido o documento de transferência dos alunos que do Pará. porém os indígenas das escolas. nunca tiveram em mãos qualquer documento que O professor citado na epígrafe deste capítulo confirmasse tal situação. não indígena. sendo que uma está loca. emitiu a rurais. é um problema sério encontrar nos estudantes o desejo de que suas para a maioria das escolas. resolução do Conselho Estadual de Educação (CEE/ Assurini. tendo sido colocado numa situação de cons- Em Santarém. sendo todas elas anexas a uma escola No nordeste do Pará. punido. todas anexas em terras indígenas. Estas Pará. Juruna e Arara da Volta Grande. Kararaô. destas. Araweté. Xipaia Kuraia. nº 5. a situação foi resolvida num mutirão. De acordo com o Censo 2012. mesmo dualizadas. Não é raro e Credenciamento. São mantidas pelo município de Redenção. as demais são salas anexas a ela. nas aldeias Pinoá e Ituaçu. há seis escolas. Galibi. Nenhuma delas funciona como estado que a atende. que conta com uma escola Korogedo Paru. entre o povo Kayapó da aldeia Las Em Mato Grosso. principalmente no que diz escolas pertençam ao estado em vez de ao município. com aproximadamente 27 unidades Indígena em Pernambuco foi regulamentada pela entre os povos Arara Ugurogmo. Em Pernambuco. Copipe/2013). recomendou que o estado poderia ter sido evitado se o estado tivesse assumindo regularizasse a situação das escolas indígenas nessa sua responsabilidade. “A 15 são administradas pelos municípios nos quais questão dos documentos de Processo de Autorização estão circunscritas geograficamente. através da Unidade Regional de Educação se mudaram para aquele estado. O professor fora (URE) de Capitão Poço. 24 de janeiro de 2014). 52 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Cimi MT. Um constrangimento que Federal. que não regulariza a situação povo Munduruku tem 16 escolas. Há aproximadamente quatro anos os indígenas aldeias Jacaré e Frasqueira. O mesmo processo de regu. Casas. existem 283 escolas. então sob a responsabilidade aos municípios sedes de Altamira. A Escola do Povo Waiana Apalai. Para evitar que o indígena pelos municípios sedes. Na relação com as secretarias indígena. Arara do Laranjal. por exemplo. Senador José Porfírio dos diversos municípios em que estavam situados os e Placa. escola regular. Destas. Guamá. há também comunidades que preferem CEEI. tério da Educação. Parakanã. apenas cida como escola indígena no Amapá. Rondonópolis. Portanto. localizadas também reconhecidas. não podem emitir transferências porque o lizada na aldeia São Pedro e é reconhecida como corpo administrativo da escola não está regulamen- Escola Indígena. denunciou em uma das reuniões sobre Educação larização está se dando na aldeia Sede. entre o povo Tembé estadual do município em que estão localizadas. porque é esse 16 são reconhecidas. cumprindo a legislação. o pressionam e aguardam que o secretário de educação processo de regularização foi iniciado em 2002 e a assine a portaria criando os cargos administrativos escola foi reconhecida em 2007. todas administradas das escolas indígenas. são 30 escolas indígenas. contando com duas salas anexas nas tado. está reconhe. do Minis- estando localizada no norte do Pará. Palikur. assumindo-as como estaduais (Recomen- de 12 de agosto de 2002. Em 24 de janeiro de 2014. das escolas de Ensino Fundamental estabelecidas No Xingu. região. Xikrin do PE). há duas escolas e nenhuma é reconhecida como duais e municipais. os povos indígenas não conseguem superá-los.628. Karipuna e No Maranhão. há 36 escolas. no estado do salas anexas a ela. Altamira detém o maior número de escolas indí- territórios indígenas. E os documentos dos alunos. as escolas indígenas são esta- Waiapi. de educação há conflitos que são permanentes e No sudoeste do Pará são 17 escolas. Segundo as lideranças. A criação da categoria Escola genas da região. nas aldeias Kumarumã. As outras três escolas barreiras boicotando as documentações da Escola pertencem ao povo Gavião. como escola indígena e elas são tratadas como escolas e uma escola da rede estadual. O trangimento pela Seduc. há escolas indígenas esta. determinou a estadualização dação/3/Oficio/PRM/STM nº 1. o Ministério Público documentação necessária. onde está Escolar Indígena que tinha recebido uma intimação localizada uma escola central que tem duas outras do Ministério Público Federal (MPF). em Santarém. o Decreto Estadual nº 24. Nenhuma está oficializada sofresse sanção. Atualmente lutam No Amapá existem seis escolas oficialmente para que as salas anexas tenham autonomia e sejam definidas na categoria Escolas Indígenas. de 16/ de novembro de 2004 (Documento Bacajá. como oficialmente reconhecida como Escola Indígena e ficam?” (Equipe Bororo. no oeste do Pará. Estamos lutando com isso desde 2007 e há sempre ficar anexas ao município. 2012).

a instância da educação indígena populações indígenas. os meca- municípios.CIMI 53 . As normas adotadas disso. brasileiro em relação à Educação Escolar Indígena é Por sua vez. há uma inoperância dos indígenas não serem informadas sobre como os estados no cumprimento do que está estabelecido recursos são aplicados. sensibilidade para tratar dos processos com a especifici- namento administrativo e curricular autônomo. ainda enviando recursos para os estados sem que as escolas há um número considerável de escolas mantidas por tenham sido regularizadas. sem condições de realizar o trabalho e. Quanto à regularização. nem sempre têm conhecimento e que não atendem às exigências para terem funcio. os membros dos Conselhos Esta- considerar as escolas indígenas ainda. em muitos duais de Educação. não existe uma formação específica para indígena. porém. Nos dados apresentados verifica-se que a É importante observar que a União continua maioria das escolas foi estadualizada. Outro fator que mostra o descaso do Estado esses técnicos atuarem na Educação Escolar Indígena. com calendários esco. sob o argumento de escolas indígenas. o pelos sistemas de ensino contradizem os princípios da reconhecimento das escolas não implica em que estas educação diferenciada quando toma como referência sejam totalmente regularizadas e nem que tenham critérios que são contrários à realidade indígena para autonomia para o seu funcionamento. adequa- Muito há ainda por se fazer para que as escolas damente. reivindicada no decorrer do processo histórico das Em alguns casos. com poucos técnicos. que têm a responsabilidade de casos. o que se tem constatado é que. na maioria lares e planos de curso inadequados para a realidade das vezes. como salas-extensão ou salas vinculadas a examinar e aprovar a criação e o credenciamento das uma escola dos não indígenas. É inaceitável que a maior nas secretarias de educação é uma supervisão. apesar da legis. nem ocorrido no Maranhão. nismos de controle e fiscalização desses recursos lação ser muito clara em relação à responsabilidade não funcionam eficazmente. que parte das escolas indígenas ainda seja identificada funciona em locais pequenos. na categoria de “escolas rurais”.  u Povo Guarani Mbya (RS) – Foto: Diego Pelizzari O conceito e a prática do Bem Viver dos povos indígenas são essenciais em um sistema de ensino que respeite o princípio da educação diferenciada CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . como o caso Os estados ainda não se estruturaram. parecem estar interessados em se estruturar. Por outro lado. gerando situações esdrúxulas. na prática. respeitando o que determinam as leis. pela lei. para ofertar educação escolar aos povos indígenas conquistem a autonomia administrativa indígenas. a criação das escolas em suas comunidades. Além dade que estas escolas requerem. além das comunidades pela oferta da educação.

por graves problemas estruturais e construções em desacordo com as solicitações dos povos e que. Capítulo VI As estruturas físicas das escolas indígenas são. além de. não haver equipamentos necessários para o funcionamento da escola As péssimas condições estruturais das escolas indígenas colocam em risco a segurança dos alunos e professores e explicitam falta de vontade política . muitas vezes. em muitos casos. ferem seus padrões culturais. frequentemente. calamitosa pela falta de prédios adequados.

por graves problemas estruturais em prédios mal construídos. se instalou no nosso meio e não pediu licença” (Potiguara/CE) A situação das estruturas físicas das escolas indígenas é. se a escola indígena diferente não for diferente” (Guarani/MS) “A escola veio. infiltrações. contratada pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc). muitas vezes. frequen- temente. A Escola Estadual Indígena Xinui Mỹky. que discutiu longamente com a Seduc para ter as quatro salas e todas as dependências acima mencionadas. O prédio tem apenas duas salas. calamitosa pela falta de prédios adequados. em muitos casos. que não CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . as escolas foram construídas em alvenaria e cobertas de telha de barro. rachaduras nas paredes e tomadas elétricas sem funcionamento. a empresa teve um péssimo desempenho pois. construções em desacordo com as solicitações dos povos e que. Seu prédio novo foi construído em 2011 pela empresa Poli Engenharia. também em Mato Grosso. A Escola Indígena Estadual Tapi’itãwa tem quatro salas de aula que atendem ao Ensino Fundamental e o Ensino Médio. hall de entrada como refeitório e não foram construídas as salas de biblioteca e informática.CIMI 55 . em etapas modulares. no noroeste do Mato Grosso (MT) é exemplar aqui. Além da construção não atender às necessidades da comunidade. antes mesmo de ser inaugurada. este último. de Juína. não haver equipamentos necessários para o funcionamento da escola. Na Terra Indígena (TI) Urubu Branco e na Área Indígena Tapirapé-Karajá. falta de manutenção. além de. cozinha sem dispensa. A construção dos prédios escolares foi feita segundo a planta elaborada pela Seduc. secretaria sem almoxarifado. a escola já apresentava várias goteiras.Estrutura Física das Escolas TI Awá Guarani Ocoí – Foto: Renato Santana “Não adianta ter leis. ferem os padrões culturais dos mesmos.

com o objetivo de implantar o ficiente para atender a demanda de alunos matri. é insu. as salas funcionam na casa dos professores. O número de salas de aulas. Há aldeias que não têm prédio escolar e a funcionar um novo prédio construído pelo estado. sendo que alguns deteriorado. mas a água povo Boe-Bororo. nenhum Em algumas aldeias a escola funciona em casas cons- recurso foi disponibilizado para a execução desta truídas pelas próprias comunidades. foi construído com sérios problemas estruturais: a A Escola Estadual Indígena Korogedo Paru. biblioteca e refeitório. há uma sala anexa também utilizada para atender um masculino e outro feminino. Há a necessidade de construção de pelo menos quanto ao modelo arquitetônico próprio. apenas duas salas sem sustentação. conta com não chega até ela. Há um no entanto. para a reforma. Ensino Fundamental completo. ser usada por causa de goteiras. até o momento. Esta escola foi cons- o Ensino Fundamental. como é o caso de Aldeia Txoudé – Foto: Arquivo Cimi Algumas escolas têm estrutura tão precária que até mesmo uma chuva impossibilita a realização das aulas 56 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Negarotê quedas de energia danificam permanentemente Central. em Rondonópolis (MT). uma cozinha pequena e um Em cada uma das aldeias da TI Urubu Branco depósito para a merenda escolar e dois banheiros. Kithaulu e Aroeira. Em 2014 começou culados. secretaria. de Leverger (MT). O prédio mais duas salas. há vigas de concreto construídas uma estrutura física de alvenaria. entretanto. devidamente.considerou os critérios propostos pelas comunidades obra. as torneiras estão de aula. a estrutura física das os equipamentos. uma sala que serve de secretaria. do cozinha tem as instalações hidráulicas. truída em 1998 pelo município de Santo Antônio tanto na sede da escola como nas aldeias. A internet é lenta e as frequentes Nas aldeias Nambikwara Central. diretoria desencontradas da pia. no banheiro. e sala de professor. Vários projetos foram encaminhados prédios escolares foram construídos nos anos 1980. a sala destinada à secretaria não pode laboratório de informática que funciona precaria. O prédio da escola está bastante escolas deixa muito a desejar. além de outros mente e cuja manutenção periódica não é feita problemas.

através de documentos de suas Assem- em péssimo estado. devido ao sala de informática. 20 escolas do comunidade. em sua maioria. as estruturas povo Xerente foram fechadas pela Secretaria Estadual físicas de algumas escolas indígenas construídas de Educação com o argumento de que o número de pelo estado seguem o mesmo padrão de construção alunos era insuficiente para abrir ou continuar turmas. que respondeu: “estas escolas ficarão para (MPF) Há escolas sem acabamento.CIMI 57 . pois a escola está praticamente sem não têm o espaço apropriado para o funcionamento telhados. apresentam inúmeros problemas. concluídos naquele ano não funcionaram. Apesar das reivindicações.A situação de abandono em algumas escolas é evidente pela ausência de equipamentos necessários para um bom funcionamento Povo Guarani Mbya (RS) – Foto: Renato Santana Nova Buriti. na região ministrar as aulas para os alunos por mais ou menos de Chupinguaia. períodos de chuvas fortes. as escolas continuam sem reformas salas sem forro e sem pintura. com piso de aldeias maiores. fossas a céu aberto e outras sem fossa. cozinhas. da TI Katukina/Kaxinawá. das demais escolas da rede pública: de alvenaria. bleias. impossibilitando que as aulas aconteçam do Ensino Fundamental. com rachaduras museu nas terras indígenas”. No Acre. nas paredes. O número de escolas é insufi. etc. apresentam os mesmos problemas. Os prédios escolares que haviam sido cerâmica. que sejam adaptadas à realidade de cada povo ou No estado do Tocantins. biblioteca. Apesar do pouco tempo fechamento das turmas e estão abandonados nas de uso. teve que deixar de o caso das escolas da TI Tubarão Latundê. bibliotecas. especialmente. Estas escolas duas semanas. o movimento indígena sempre ou inexistentes e as carteiras. com janelas sem vidro. A professora da Escola Prédios construídos pelos municípios. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . ou novos prédios escolares. péssimas condições estruturais. que já aldeias. As mesas dos professores são precárias Em Rondônia. nos entre vários outros. com salas amplas. nem salas para secretaria e durante a estação das chuvas. A cada ano fica mais banheiros que não funcionam por falta de água difícil conseguir concluir o ano letivo devido às encanada ou por defeitos na instalação hidráulica. a construção de escolas indígenas com estru- ciente para atender à população indígena das terras tura física que garanta um bom funcionamento e Nambikwara. como é Paredão. em 2012. estão reivindica. Jacaré Central e Manairisu. Os indígenas questionaram o secretário de foram denunciados ao Ministério Público Federal educação. transferindo os alunos das aldeias pequenas para as cobertas de amianto ou telha de barro.

também no município de Itama- Amazonas. no Rio Xeruã. apenas a da aldeia comunidades indígenas são casas comunitárias. somente um salão. caso dos povos Gavião e Tembé. afirmou: funcionando. ficam sentados no assoalho pela falta de carteiras e No Pará. No município de Tapauá. Estes espaços são e sua cobertura é de telha amianto. Muitas vezes. funcionam três escolas. estilo palafita constituídos por um único compartimento onde com assoalho sobre barrotes. para não entrar na onda de que tudo o que é do Não existe divisão. No entanto. com duas salas de aula de amianto. três são padronizadas. liderança indígenas. Boiador e Itaúba. Das 29 escolas. as salas de aula improvisadas explicitam a determinação dos povos indígenas em estudar Algumas escolas são feitas pelas comunidades. as tradições culturais do povo Deni. as escolas com boa estrutura física bancos. As aldeias Santa Luzia os bancos são improvisados pelos professores com e São João do Kurabi não possuem escolas e as aulas tábuas e troncos de árvores. como no pelo município. porém. os espaços usados como escola nas rati. os alunos acontecem na casa cedida pelos moradores da aldeia. chão batido ou assoalho de madeira e e depósito. preservando branco é melhor”. também no estilo palafita. A estrutura é de madeira ea cobertura é funcionam em condições precárias. de telha amianto. Precisamos cuidar e assoalho de paxiúba. na 58 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . sem paredes. Eu Xeruã. no município de Itamarati. não oferecendo o um depósito e uma varanda. Das quatro escolas que estão funcionando na com estrutura de madeira. morando com seus pais. Povo Xukuru Kariri (AL) – Foto: Patrícia Bonilha Muitas vezes. Há outra escola Isaias Tupari. com assoalho O governo do estado já prometeu a construção sobre barrotes que medem um metro de altura acima de 20 escolas dentro dos padrões convencionais que do solo. elas estão localizadas nas aldeias Morada irão substituir as que estão nessas condições. na aldeia Terra Nova. Flexal está em boas condições. no estado do Na TI Kanamari. apenas duas foram construídas geralmente estão vinculadas ao estado. cobertura de palha caraná mesmo. com estrutura de prefiro que o aluno continue seus estudos aqui madeira. também no Rio “Queremos escola nova em todas as aldeias. de professores e de lideranças. Com estilo palafita. cobertas de palha ou TI Deni. construídas pelas próprias comunidades. A estrutura é de madeira menor conforto para os alunos. tem duas salas de aula. Nova.

aldeia Guamá. Em No Rio Grande do Sul.. A situação na escola está Juruna e Arara Ugorogmo. verificamos que as escolas estão deslocadas escolas e da precariedade das estradas. passa a maior parte do tempo sem prédios escolares. Pavão complexo escolar em boas condições mantido pelo e Sede (. ela representam risco de vida para as mais de 530 desperdiçando-se aproximadamente R$ 200 mil crianças e jovens que a frequentam. Coqueiro. a construção foi abandonada. “A escola indígena atende alunos de sete aldeias. a Gerência Regional de Ensino não dá a Em Santa Catarina. ginásio de esportes e casa da cultura) estão. há um Toldo. as atividades pensadas em termos de educação literalmente. Em 2011.). O modelo é o mesmo para todas: uma Patrícia Ferreira Constata-se um total desrespeito dos estados e municípios no cumprimento da legislação que define os padrões da infraestrutura da escola indígena CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . As crianças correm de aulas estão sem condições adequadas para o risco de vida ao irem para as escolas. por conta de problemas na infraestrutura das tenção. entre os povos Xipaya. Em geral. As escolas mais precárias estão entre mente quando começa a época de chuvas. Não há nenhuma previsão de divulgou uma nota na qual externa os problemas: retomada da construção.. a escola em melhor geral. Esta realidade não é encon. A comunidade de recursos públicos. Laklãnõ. passaram por pequenas reformas recentemente. em 2010 teve início escola estão intransitáveis. Figueira. principal- funcionamento. no Rio Xingu. com de difusão de conhecimento. onde as salas obras de saneamento básico.CIMI 59 . caindo. precária. Palmeira. Em vez de ser um lugar a construção de uma grande escola. As estradas que dão acesso à diferenciada. Barragem. entre os Tembé. do povo Asurini. as estruturas são precárias. do ginásio da escola. nos municípios de José Boiteux e antiga. comunidade fica ilhada. Toda os Amanayé e. A Escola Laklãnõ. da casa de cultura e trada nas demais aldeias deste povo. mas a construção é do povo Xokleng. algumas escolas indígenas assistência necessária”. constata-se pouco investimento nos de Vitor Meireles. estado encontra-se na TI Inhacorá. Para além da construção e manu- aula. Exigimos a reforma do prédio da escola município de Tucuruí. a escola e o acesso a a troca de governo. Os prédios dos contextos da maioria das aldeias e dificultam (escola. Na aldeia Trocará.

a instalação elétrica é deficitária. Centro de Ensino Indígena Kapizyhatyw. a reforma foi finalizada materiais. em em algumas escolas e existem projetos para novas 17 terras indígenas. A partir da ocupação da secretaria de com piso em cerâmica e com cadeiras e carteiras. Coordenação professores indígenas da comunidade que têm curso Regional da Funai de Imperatriz (MA) 60 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . após a a ocupação com equipamentos de informática que nunca foram de dois dias do prédio da Secretaria de Estado da instalados. A Seduc eram utilizados. para as atividades entregou a obra sem estar concluída. onde o governo construiu uma escola em forma de com um total de 65 alunos. Grajaú. no município de comunidade. depois. caminhar pela sala tampouco e os alunos do povo Xukuru-Kariri. o estado e a prefeitura. algumas aldeias ainda continuam sem escola em desacordo com os padrões de espaço perceptível e sem servidores. os banheiros não turmas das séries iniciais. Sessenta crianças eram atendidas por dois 1 Os dados do Maranhão constam do Relatório Técnico Quadro Situacional das Escolas Indígenas no Maranhão. Essa concepção está entanto. As aulas acontecem num prédio e as poucas carteiras estão sem condições de uso. há desde o Ensino Infantil até Em Alagoas. no município para preparar as merendas. Desde possível. uma sala de professores. do Povo Geripankó. sob a mesma concepção. quatro foram construídas pela Fundação Educação de Jovens e Adultos (EJA). As educação. constata-se que. embora haja o Ensino Infantil e Fundamental prática do povo para se aquecer no inverno não é de 1º ao 5º ano.estrutura retangular. próprio que foi reformado em abril de 2013 pelo estado. a Na aldeia Lagoa Comprida. proibidos na sala de aula. o estado contratou mais servidores. Esta escola não atende à demanda da no início de outubro. Desse modo. Atividades em círculo não são Na Escola Cacique Alfredo Celestino. das 16 escolas indígenas exis. são 283 escolas indígenas. no primeiro ano. sem quadro nem material didático multisseriado. tudo funciona Na Escola José Carapina. Apesar do atraso. uma próprio. também possíveis. localizam-se a Escola Geanne Sartori e o do povo Xukuru-Kariri. Atualmente. internamente. revelando a gravidade diretoria. Na Escola Estadual Indígena Juvino Henrique Esta falta de respeito aos padrões culturais dos da Silva. também Juçaral. TI Arariboia. também em Pariconha. Ambos mental até o 5º ano e. No dia 2 de fevereiro. há a oferta do Ensino Funda. nas salas. com salas em igual projeção. construída há cinco anos em convênio entre posteriormente. o Médio. parte da estrutura foi quadro e de carteiras1. Este prédio dos problemas da Educação Escolar Indígena também foi construído pela Funai. há o Ensino povos indígenas também ocorre em Santa Catarina. Infantil e Fundamental em turmas multisseriadas. segue-se o sistema com duas salas. a escola não tem prédio ainda ficam enfileirados. não existem banheiros nem ambiente comunidade indígena Xukuru-Kariri. As aulas acon- Nacional do Índio (Funai). além da ausência de de Palmeira dos Índios (AL). que estava prestes salas e um espaço onde guardam os livros e outros a desabar. A escola conta escolares. Educação e do Esporte (SEEE) de Alagoas. nos três horários. de alvenaria. Tirando-se a roupagem casa cedida pela comunidade. reformas estão sendo realizadas No Maranhão. do as aulas foram dadas em um galpão construído pela povo Guajajara. encontra-se em uma situação Como o galpão não comportava todas as lastimável. No turmas grandes lotam as salas. dos povos indígenas. com um total de 70 alunos. no município de Pariconha (AL). Fazer fogo no chão. dois banheiros e uma cozinha. TI Morro Branco. em Maceió. que. era de barro. outros seis barracos de sapê funcionam. casas cedidas pelas lideranças. na aldeia Na Escola Estadual Mata da Cafurna. a Escola Kunumi conta com duas da reforma do prédio da escola. e. comunidade. É a única escola indígena neste estado. As aulas acontecem numa tatu e outra em forma de sol. A confecção de artesanatos na escola só é 2003 as aulas acontecem em locais cedidos pela possível com papel e cola porque taquara e cipó são comunidade. na teto. Na mesma Terra Indígena. As demais funcionam em tecem num prédio que apresenta uma estrutura prédios construídos pela própria comunidade ou em circular com quatro salas. do comunidade conseguiu o compromisso da conclusão povo Guajajara. que oferece o Ensino Médio no estado. derrubada para a reforma e ampliação e por três anos A Escola Indígena Djalma Marizê Lopes. O teto está empenado. superior. A grande maioria apresenta um construções. No período noturno é oferecido o programa tentes. conforme estava previsto no atual quadro de extrema precariedade: há problemas no Plano Estadual de Educação (PEE). externa.

existem escolas nas aldeias às condições climáticas da região e às técnicas de Areião. pação da comunidade na edificação de escolas que Na TI Bacurizinho. Resolução nº 03 de 1999. Constatamos ainda que a construção de escolas No entanto. edificação próprias do grupo. Educação. esta obra está paralisada. de maio de 2014. Novo Planeta. situado na aldeia Bacurizinho.. os Escola Indígena Mangueira. três anos depois do início das obras CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Diversidade e Inclusão (Secadi). goteiras. paredes com infiltração e comunidade indígena e a necessidade de partici- salas insuficientes para o número de alunos.Os alunos sentam-se em troncos de madeira. como consta no documento da o Plano Nacional de Educação (2001 – 2011) e a Assembleia Aty Guasu. no muni. o que se constata é o cípio de Grajaú. Nela há dois no cumprimento destas determinações. do povo Guajajara. É inaceitável que. em muitas comunidades. um com seis salas e outro em construção.).CIMI 61 . derrubando o banheiro. prédios. desde banheiros que social (. do povo Guajajara. sem mobiliário de a caixa d’água ter caído. do Conselho Nacional de visados pela comunidade. de acordo com o uso Todas apresentam problemas.. tenham estabelecido “padrões flexíveis Na TI Pindaré. do os órgãos públicos negam-se a construir estruturas Ministério da Educação. e equipamentos adequados. Piçarra Preta e Tabocal. ao ponto rias. de professores ou de lideranças. tenha como uma linha de permanentes com a alegação de que as terras não ação dar apoio à construção de escolas indígenas. há o Centro de Ensino Raimundo quase total desrespeito dos estados e municípios Lopes. pelo povo Xukuru-Kariri. Januária.  u Patrícia Bonilha Somente após a ocupação da secretaria de educação de Alagoas. situada na mesma TI espaços usados como escola sejam casas comunitá- Bacurizinho. atendam a seus interesses”. Na culas. impro. estão demarcadas. há sérios problemas estruturais. Embora a Secretaria de Educação Continuada Existem também situações intoleráveis em que e Alfabetização. situada no de infraestrutura escolar que garantam a adaptação município de Bom Jardim. O laboratório não corresponde à expansão do número de matrí- de informática funciona em local improvisado. foi concluída a reforma do prédio escolar. as concepções de espaço próprias a cada não funcionam.

as crianças são respeitadas em sua autonomia e. que se ajustam melhor aos princípios educativos indígenas: aprender fazendo. sem separações rígidas entre classes ou séries. aprender com os mais velhos Na educação indígena. participam das atividades próprias dos adultos Povo Kalapalo (MT) – Foto: Nikolaus Tarouquella . Capítulo VII Há experiências em andamento que mostram a viabilidade de se organizar a educação escolar em “sistemas abertos”. desde pequenas.

a prerrogativa de. ao avaliar suas funções e objetivos dades rituais. é um direito dos povos indígenas que numa escala sequencial (do menor para o maior). roçados.” (Res. 05/12. os Interculturais ou da oferta de vagas em diversos projetos político-pedagógicos devem estar intrinse- cursos pelo sistema de cotas.. § 4º). os parâmetros da educação indígena. é ofertada no possuem autonomia para organizar suas práticas peda- Maranhão. Art. cionais: Educação Especial. tais como pais. que uma consulta livre. Art. ainda em escala reduzida. avós.1. A Educação de qualidade sociocultural e de respeito aos preceitos Escolar Indígena poderia ser organizada seguindo da educação diferenciada e específica” (Res. sem separações § 2º Os sistemas de ensino devem promover rígidas entre classes ou séries (Rio Negro) 1. 05/12. CEB/CNE. aprender com os a educação das crianças indígenas. etc) e mesmo de ativi. nos quais CEB/CNE. Instituto avaliação que expresse os interesses legítimos de Socioambiental. professores. nas escolas indígenas são os mesmos ofertados em quaisquer outras escolas das redes municipais ou 7. 2010. Título III. pensado e de cuidados. São Paulo. sobretudo através das Licenciaturas pedagógicas: “Na Educação Escolar Indígena. mães. É frequente observarmos crianças muito “§ 1º A Educação Infantil pode ser também pequenas participando de atividades próprias de uma opção de cada comunidade indígena que tem adultos (pescarias. 8º). 05/12. que apontamos a seguir. bem como sobre a mostram a viabilidade de se organizar a educação idade de matrícula de suas crianças na escola. mas as Artigo especificam. Níveis e modalidades O fato de a Educação Escolar Indígena estar organizada segundo o modelo hierárquico e compar- de ensino timentalizado da educação nacional gera inúmeros Os níveis e modalidades de ensino presentes problemas. gógicas. na definição dos seus projetos político-pedagógicos. “os mais velhos”. Ao abordar o tema da Educação Infantil. visando a uma 1 Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. “As escolas indígenas. Art. deve ser garantido e realizado com o compromisso própria de nosso modelo de sociedade. decidir sobre a são excluídos. o lidades replica o mesmo modelo organizacional de texto é claro: “A Educação Infantil.CIMI 63 .1. cada comunidade indígena. Adultos (EJA) e a Educação Profissional e Tecnológica. com detalhes. dos grupos étnicos em seus territórios (Res. Manejo do Mundo. Mato Grosso e Tocantins. 14. prévia e informada acerca da se ajustam melhor aos princípios educativos oferta da Educação Infantil a todos os envolvidos com indígenas: aprender fazendo. mais velhos. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . § 1º). como deve ser crianças são respeitadas em sua autonomia e seus organizada a Educação Infantil: interesses. Educação Infantil estaduais: o nível infantil e a educação básica. etapa educativa toda a estrutura educacional brasileira. Esta última. As modalidades também camente relacionados com os modos de bem viver condizem com as oferecidas pelos sistemas educa. Educação de Jovens e CEB/CNE Título IV. Este modo de organização dos níveis e moda. Título IV.Organização e Gestão das Escolas Indígenas 7. A Educação Infantil começou a ser introduzida mais A legislação em vigor garante às escolas indí- recentemente e o nível superior é oferecido pelas genas a autonomia para organizarem suas práticas universidades. escolar em “sistemas abertos”. das quais os jovens membros não a partir de suas referências culturais.1.. gestores escolares e lideranças comunitárias. Há experiências em andamento que implantação ou não da mesma. Diversos parágrafos deste se consideram as diversas faixas etárias. 14.

A de cada comunidade. observamos uma turma de Educação Os povos indígenas consideram a educação Infantil em que as crianças logo cedo se dirigiam infantil tradicional como parte integrante do sistema para a escola. como membro da família extensa. as atividades escolares. indígenas significativos e contextualizados para a Na aldeia Januária. de forma a oportunizar o uso Entretanto. que a sábios. uma e de apoio pedagógico para a Educação Infantil. são calculadas pelo número de alunos matriculados e mental da educação escolar das crianças. § 3º As escolas indígenas que ofertam a participa juntamente com o pai. vivencia seu processo de aprendizagem e participa do cotidiano de seu povo 64 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . muitas secretarias municipais de das línguas indígenas. na TI Pindaré. O professor é indígena. do Maranhão.elaborar materiais didáticos específicos vivência dos processos educacionais próprios. na legislação. porém. Político-Pedagógicos (PPP) das escolas têm o direito II . do povo comunidade indígena de pertencimento da criança”. em todas as fases de implan. partir dessa concepção de educação. vez que retira mais cedo as crianças de seu convívio garantindo a incorporação de aspectos socioculturais familiar. como ilustrado no caso descrito abaixo. com Educação Infantil devem: seus tios e familiares de todas as atividades de seu I . todas uniformizadas.definir em seus projetos político-pedagó. nesse ambiente comunitário.considerar as práticas de educar e de cuidar indígenas com a intenção de arrecadar mais verbas que de cada comunidade indígena como parte funda. inserida no contexto azuis e camisetas brancas estampadas com a bandeira da comunidade. especialistas nos conhecimentos tradicionais criança vivencia seu processo de aprendizagem.promover a participação das famílias e dos povo. É assim. Esta situação coloca em sério risco a IV . de manter essa modalidade de aprendizagem em gicos em que língua ou línguas serão desenvolvidas seu planejamento curricular. os Projetos tação e desenvolvimento da Educação Infantil. de acordo não se preocupam em seguir o que já é estabelecido com seus espaços e tempos socioculturais. A criança. como membro da família extensa. com bermudas cultural de sua etnia. educação oferecem esse nível de ensino às crianças III . não Povo Katukina (AC) – Foto: Egon Heck É no ambiente comunitário que a criança. com a mãe. Guajajara.

no Amazonas. é de 164 escolas (Res. sendo que três delas oferecem o portuguesa. a continuidade do processo de têm o ensino do 1º ao 5º ano. como contraria a própria relacionadas aos conteúdos de matemática. Mato Grosso. do número de alunos exigidos pelas secretarias as escolas oferecem ensino até o 5º ano em regime CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Médio. Esta situação é decorrente dos Na Escola Korogedo Paru. Além disso. conta com três escolas que atendem para ingresso na escola (Pacto Nacional pela Alfabe. Santa Catarina radas para outros contextos culturais e em língua possui 39 escolas. o direito à continui- Educação Infantil é extremamente limitada. posicionou-se claramente contra a nidades com professores indígenas. 03/99 e Res. Ensino Fundamental escolas. Prova ABC). pois nem sempre as comunidades não são adequados à faixa etária das crianças e não indígenas possuem o número exigido de crianças a há material didático apropriado. sendo apenas uma de Ensino Básico. materna e a liberdade de horário da criança e seja Estes fatores tornam as exigências dos estados e orientada pela comunidade para manter os costumes municípios completamente descabidas. 05/12). Portaria 867/12). uma Kaingang e uma maternas nos processos de aquisição da escrita. sendo cinco de Ensino Básico. Fundamental. As únicas dade dos seus estudos.2. onde processos dizimatórios que vários povos indígenas há uma sala de Educação Infantil.731 alunos. lecionarem a partir do 6º ano. MEC. O Rio Grande do Sul possui 64 7. O Rio de Janeiro tem três escolas estaduais de Ensino Embora estejam definidas as responsabili. não têm qualificação para Kaigang e são mantidas pelas respectivas prefeituras. sistema de educação dos povos indígenas? O sistema No sudeste do Pará. oito não contam identidade étnica e o acesso aos saberes necessários com ensino regular do 6º ao 9º ano e nem com Ensino para a vida. do Rio Xeruã. Um problema recorrente é a questão de Santa Catarina. tradicionais. funciona de forma modular. São Paulo tem 23 escolas de Ensino dades pela oferta completa deste nível de ensino Fundamental. procure manter o uso da língua indígenas com alta taxa de mortalidade infantil. história. mais próxima.CIMI 65 . Fundamental. aos alunos do 1º ao 5º ano e aos alunos do curso do tização na Idade Certa . Observamos que a prática oficial acerca da Em Tapauá. jovens e a toda a para avaliar as crianças indígenas em relação ao comunidade. do 6º ao 9º ano. O Paraná possui 35 escolas. Fundamental. através de dos povos Suruí. Há ainda grupos sora seja Boe-Bororo. enfrentaram e ainda enfrentam. Quanto mais cedo as crianças são reti. Em Santa Catarina a possibilidade de usufruir da para muitas crianças indígenas. uma Guarani. O segundo aplicação de provas avaliativas nas escolas indígenas segmento. do 1º ao 5º ano. ciências e artes. de Educação (CNE). portu- Resolução no 05/12 publicada pelo Conselho Nacional guês. todas seu percurso histórico. A escola da aldeia Terra Nova atende apenas aos o que irá acontecer com os costumes tradicionais e o alunos do 1º ao 5º ano. pois seus professores. acontece nas comu- zada em 2009. ela não conta com materiais adequados O estado do Acre tem oferecido somente o para o trabalho. O povo Deni. o que obriga os alunos a pararem de estudar radas do convívio familiar. O total. Rio Grande do Sul e São Paulo. segundo três escolas existentes estão entre os povos Xokleng e a secretaria de educação. EJA. educacional de cada povo é que garante. reali. com professores não-indígenas. embora a profes. menos estarão inseridas ou a buscarem a continuidade dos estudos na cidade nos processos educacionais de seu povo. grande parte das escolas indígenas com 13. os indígenas são Educação Infantil contraria tanto o direito de cada atendidos do 1º ao 5º ano.1.recebeu formação específica para a função que estaduais e municipais de educação para consti- exerce. Lembramos que a I Confe. parando por aí. os equipamentos e mobiliários tuírem turmas.Pnaic. com as disciplinas seus critérios educacionais. Guajajara. no Brasil. A oferta da educação se dá povo organizar seu planejamento escolar a partir de como no antigo ensino primário. no município de A partir da imposição de 4 anos como idade Itamarati (AM). Destas. (Provinha Brasil. o primeiro segmento do Ensino rência de Educação Escolar Indígena (Coneei). sendo que esta opção impõe inúmeros Também é bastante grave a aplicação de provas problemas e desafios às crianças. o que fere o direito do uso das línguas Ensino Básico. serem matriculadas. porque elas são prepa. domínio da alfabetização. Ensino Fundamental do 1º ao 5º ano. geografia. Em Rondônia. indígenas oferece somente os anos iniciais do Ensino Em quase todas as aldeias Guarani do Paraná. Atikum e Guarani. do conjunto de 12 escolas. Xokleng.

12 escolas e uma extensão algumas aldeias até Tapi’itãwa. Ensino insuficientes para o número de alunos atendidos. da forma organizacional implementada pela escola. uma turma do 1º Ciclo. nas alcoólicas.000 mínimo de alunos para a formação de uma turma alunos (Dourados. ainda em Mato Fundamental consegue completar o Ensino Médio. sendo 12. um total de 18. também de alfabetização. pois somente três alunos matriculados mediante uma justificativa. conforme preconizado no áreas de Missões (Presbiteriana e Unidas). locali- No Mato Grosso do Sul. dependendo entraram no censo. que não foram contados. Ensino Médio completo. Há. Em cada uma das seis aldeias da TI Urubu escola polo da própria terra indígena.678 o Ensino Fundamental. possuem somente o Ensino Fundamental de anos iniciais e 14 escolas oferecem o Ensino Fundamental 7. no Mato Grosso. 988 alunos no Ensino Médio. de outra terra Branco há uma sala anexa atendendo aos alunos do indígena ou urbana. portanto. embora a oferta também apre- exigência se torna mais grave nas salas anexas.multisseriado. São 11 escolas com mais de 500 o estudo do 6º a 9º ano. às vezes. sendo cinco pólos de Ensino Médio. riscos. Médio em cinco áreas (Dourados. Do total de escolas Guarani e Kaiowá. Grosso. do Ensino Fundamental é bastante problemática. Caarapó. Duas unidades de Ensino Médio Ensino Fundamental completo.478 alunos cursavam o morar na cidade. que leva a uma criminosa situação do 1º Ciclo. Este total não considera para darem continuidade aos estudos. 1ª fase. em 2012. conta com apenas quatro salas de polo. Das outras etnias. 1. como extensão de escola urbana. Alguns pararam de falar a língua indígena 66 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . alunos. o que é escolas estaduais. do povo Apyãwa-Tapirapé. nas áreas Guarani e zada na aldeia Tapi’itãwa. uma turma de 1ª fase dade não indígena. Esta Fundamental completo.pólos ou extensões .172. o que não aconteceu ainda. A Escola Indígena Estadual Tapi’itãwa. Kaiowá são 50 unidades. medo de Em todo o estado. A maioria das escolas não contempla áreas indígenas. pelo menos.299 alunos no nuarem a estudar depararam-se com várias dificul- Ensino Fundamental. muitos jovens indígenas indígenas. três são estaduais e oferecem até o aula para atender os nove anos do Ensino Funda- Ensino Médio. sendo que quatro delas têm mais de 1. deveria uma. eram do contexto das relações sociais local. em 2013.789 necessitam deslocar-se para as cidades vizinhas alunos das outras etnias. O Estado faz pressão para que as crianças das salas Sassoró e Panambizinho). uma “evasão programada”. se para outras aldeias. que só foi aberta pela Estes dados demonstram claramente que o Assessoria Pedagógica de Brasnorte por se tratar de modelo de organização e gestão escolar implantado crianças iniciando a alfabetização. recusado pelos pais devido à grande distância de Entre os Guarani e Kaiowá. das quais 29 são escolas no Mato Grosso.379 no Ensino Fundamental. expondo-se os alunos de extensões de escolas urbanas. uma pequena parte dos alunos que entram no Ensino Entre os Apyãwa (Tapirapé). Amambai.367 Guarani e Kaiowá e 5. se estender progressivamente para todas as escolas O estado tinha. havia a possibilidade de cursar o Ensino Médio.1. houve um grande esforço para iniciar Dourados. a exigência feita pela secretaria de educação configurando-se. Entre os Guarani e Kaiowá. a exigência de um número Kaiowá. Contudo. Amambai. e contato com drogas e bebidas Ensino Médio e 16. foi formada com de afunilamento e de negação de direitos. nas áreas indígenas replica o mesmo modelo da socie- Entre os Karajá. pois sente problemas como número de salas insuficiente as aldeias são distantes da sede da escola e os pais para atender à demanda ou o não reconhecimento não aceitam que as crianças pequenas desloquem. no município de duas extensões urbanas.em O Ensino Médio.156 indígenas. A maior unidade escolar é a Escola Tengatuí de Entre os Mỹky.3. sete são unidades escolares . Ao término alunos indígenas matriculados em escolas das terras do Ensino Fundamental. com 1. Nas áreas Terena há 10 anexas venham estudar na sede da escola. 2001). dades como o distanciamento da família. Santo Antônio do Leverger. não e 11. assim. Os 490 alunos das escolas em áreas indígenas estavam alunos que deslocaram-se para a cidade para conti- matriculados no Ensino Médio e 5. sendo Plano Nacional de Educação (Lei 10. Destas. Caarapó e Sassoró). de um determinado número de alunos para se Algumas escolas conseguem oferecer o Ensino abrir uma turma sempre impõe dificuldades. das quais oito estão nas áreas Guarani e Em Mato Grosso. além dos alunos das Entre o povo Boe-Bororo. As outras unidades são extensões de mental.039 alunos. as salas são são extensões de escola urbana. que não a inúmeros desafios e.

que precisavam percorrer 6 km. ano e o Ensino Médio aqui na aldeia mesmo. Mesmo quando há a implantação do Ensino Em Rondônia. com a implantação do Ensino Fundamental completo conteúdos e disciplinas iguais. Alguns pais preferem prefeitura estava quebrado. Há atravessando a mata. Os alunos do dos estudantes. É um Tanto os alunos que permaneceram na aldeia como direito nosso. liderança de seu povo. Além disso. Na volta. Os pudessem voltar a estudar na aldeia. muitos jovens indígenas necessitam deslocar-se para as cidades vizinhas para darem continuidade aos estudos CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . é tiam às aulas porque o micro-ônibus oferecido pela multisseriada para os três ciclos. “Queremos escola do 6º ao 9º somente em relação à língua indígena. foi feita uma denúncia sobre a que fosse possível cursar o Ensino Médio na aldeia. Não estamos pedindo favor a ninguém”. nas aldeias. Ensino Médio devem procurar escolas da cidade.CIMI 67 . de modo que seus filhos estudem somente no período noturno. no município de Comodoro (MT). foi criado o Ensino Médio Médio nas aldeias. dificultando o acesso em escolas que consideram melhores. próximos de estudantes da TI Sagarana que cursavam o Ensino suas famílias e do seu modo tradicional de viver Médio frequentavam a escola no distrito de Surpresa. do povo como o não reconhecimento por parte do Estado Karitiana. vários problemas permanecem. na região de Guajará-Mirim (RO). definir quem fará o atendimento do Ensino Médio faltavam professores em várias disciplinas. havendo concessão e do Ensino Médio. fizeram constantes pedidos à direção da escola para Em 2010. ausência de Ensino Médio nas aldeias da Terra Indí- As mães tinham esperança de que seus filhos e filhas gena Sagarana. O modelo 12 povos que habitam a TI Rio Branco reivindicam imposto é o mesmo das escolas não indígenas. Os mais de da forma organizacional dos estudos.e de praticar os rituais tradicionais com os parentes. uma discussão entre o município e o estado para chegavam em casa já de madrugada. somente na escola da aldeia Central. para chegar à escola. A educação escolar oferecida ao povo Havia mais de três meses que os alunos não assis- Nambikwara. no município de Porto Velho. as mães dos alunos que foram estudar na cidade declarou Luiz Tupari. Povo Yanomami (RR) – Foto: Maria Edna Brito Ao término do Ensino Fundamental. As aulas aconteciam as escolas da cidade.

Na aldeia Tapi’itãwa.1. sitos da especificidade demandada pela Educação A Escola Hadori. as aldeias. oferece o Ensino Médio com moda. Os saberes. 50 estudantes indígenas dos oito aceita pelo sistema informatizado imposto pela povos da região de Marabá fazem o Instituto Federal Seduc. Para efeito de contratação de professores e do Pará (IFPA).4. seriação das demais escolas não indígenas (1º e lidade regular no período noturno. pois os alunos vêm de A Educação de Jovens e Adultos (EJA) acontece seis aldeias e ficam hospedados durante o tempo em algumas escolas. organizada por 2º segmentos). curso técnico de Ensino Médio. é feita uma seleção de conteúdos iniciação e são detentores de uma gama variada de para atender as três turmas em apenas uma. a escola e pelos membros do CDCE. em Escolar Indígena. Dependendo do sociedade indígena já passaram por várias fases de número de alunos. da carga horária. Os jovens e adultos dentro de uma disciplina. uma das dificuldades encontradas na relação com exceção da disciplina de língua materna. do povo Iny-Karajá. Um problema grave que isso acarreta é que o Estado 7. que deveriam ser considerados em programas critérios de avaliação por nota foram escolhidos pela educacionais a eles destinados. o curso é considerado regular. a escola só faz sentido se estiver subordinada à luta política pela garantia plena de seus direitos 68 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . (MT). porém. sem atender aos requi- da etapa na aldeia. Por outro lado. de forma multisseriada. impondo-se a mesma forma de Luciara (MT). que com o Estado é que o Ensino Médio funciona em faz parte da matriz curricular e é ministrada por um etapas modulares para atender aos alunos de todas professor indígena. do povo Apyãwa-Tapirapé trabalhados são os mesmos da escola não indígena. Educação de Jovens e Adultos (EJA) não assume a alimentação dos alunos necessária para as Etapas Intensivas. mas esta forma de organização não é No Pará. E os conteúdos seriação impõe um modelo fragmentário inexistente Povo Tapirapé (MT) – Foto: Antônio Carlos Moura Para os povos indígenas.

Em Tocantins. como esse modelo de escola é pensado sem a sobretudo. a EJA é ofertada em poucas escolas indígenas. Como a EJA é destinada a jovens. Escolar Indígena. posteriormente. não oferecem alunos. Por fim. 22h diariamente.5. depois que preocupações. e com a deficiência que alguns para abrir a turma dos homens à noite porque havia tinham de escrita e leitura. as turmas da EJA funcionam regu- e idosos que no tempo oportuno não conseguiram larmente à tarde e à noite. jovens daqui para estudar é deixar um pedaço da Na Escola Hadori. O povo Pankaiwka. Por cidos. do povo Mỹky. O curso é ofertado de forma Em Pernambuco. os adultos são esque. sivas. Kambiwá. E. junto com a população e a aprendizagem dos estudantes. falta de compromisso de algumas secretarias que Além do risco de os estudantes não voltarem mais iniciam os cursos e.nas sociedades indígenas. do professor fossem aceitos. também divididas após uma justificativa e são eles mesmos que elaboram os materiais de plausível. a EJA é concentrada em três escolas das número de alunos exigidos para formar uma turma. Magistério Indígena indígenas. na aldeia Tapera. não dão a devida a viver com o seu povo no final do curso e a possi. o caráter massivo desses cursos Diante dessa realidade. em Magistério Indígena é oferecido pelo estado e é os indígenas constantemente manifestam essas específico para os professores indígenas. ritmos de atividades específicas de acordo com a necessidade dos alunos. reuniões e nas conversas informais. em Brasnorte. seguindo os dias letivos com duas nawá e Xukuru. Um problema recorrente é a exigência de um número “Educação é tudo o que aprendemos na aldeia mínimo de alunos feita pelas secretarias de educação. na oferta de cursos de magistério desti- participação da comunidade. somente no mês de junho de 2012 turmas de homens e mulheres e a eliminação de foi feita a divisão entre os dois segmentos. assistência para a continuidade dos mesmos. dos povos CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . os dois segmentos funcionavam como turma que se encontra em área de retomada. Por causa do dos Xukuru. Na maioria das aldeias não condições de tratar adequadamente os aspectos há energia elétrica. do povo Iny-Karajá. em 2012. Agreste e Ribeira. não havendo material pedagógico específico. Alguns deles estudam junto com os demais reunirem professores de várias etnias. que tem o bilinguismo como uma nidade é que a convivência direta com a sociedade de suas características. o 1º e o 2º segmentos possuem problema”. As aulas são à noite. adultos no Mato Grosso. para nós. Outro grave problema é a envolvente interfira na cultura tradicional dos povos. Tentou-se forçar uma união das turma. os adultos não têm acesso à escola por não haver um horário compatível com o seu trabalho. a liderança passam pelos rituais de iniciação. dificultando assim o trabalho dos educadores a EJA na cidade de Jatobá. assim. pois os jovens. com os pais e na escola. A maioria dos professores é indígena turmas. é um grande em Luciara (MT). frequenta única. jovens e crianças. Truká. Kapi- período noturno. mas para uma vaga de professor. o 2º segmento equivale aos quatro últimos anos do alimentação e a remuneração do professor. Em Rondônia. Desse modo. o Estado se esquiva de linguísticos e socioculturais durante as Etapas Inten- sua responsabilidade de oferecer cursos noturnos. No caso Ensino Fundamental (6º ao 9º ano). foi solicitada a divisão da apenas seis alunos. também educação para trás. há turmas de EJA nos povos regular por área de conhecimento e funciona no Pankararu. já que estavam local.CIMI 69 . de modo que a matrícula e o contrato justificativa formal. nados à formação inicial dos professores indígenas. Esta modalidade de ensino tem-se efetivado. entre 19h e e aos cinco primeiros anos do Ensino Fundamental. língua. bilidade de envolverem-se com drogas e álcool. regiões Serra. Tirar as crianças e os para abrir as turmas. são considerados indígena Antônio Kampé afirmou: como pertencentes à mesma categoria dos adultos. os alunos são obrigados a sair prejudica a formação dos docentes indígenas que da aldeia em busca de alternativas em escolas não necessitam lidar com o ensino de primeira e segunda indígenas para prosseguirem seus estudos.1. A Seduc oferece transporte escolar. uma especificidade demandada pela Educação Uma preocupação bastante presente na comu. do 9º ano. O 1º segmento equivale à alfabetização apoio pedagógico. Contudo. na mesma sala alunos em estágio de alfabetização e Na aldeia Japuíra. Isso. Na maioria das comunidades 7. a Seduc matriculou que ela acontecesse foi necessário apresentar uma dez alunos. Houve muita dificuldade concluir seus estudos. o Curso de Formação Inicial Em encontros. Em relação a esse desafio.

1. em dois anos e Nacional do Índio (Funai). janeiro de 2014.6. As aulas começaram em maio de 2012 e quando um professor fica de licença. TI Krikati. da TI aulas fora de sua área de formação. do povo Apyãwa-Tapirapé.7. Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego Insti- No corpo docente do Ára Verá. Krikati. portanto. do calendário e consideram. tendo como meta principal etapa do curso aconteceu em julho-agosto de 2012 a formação de professores que possam assumir o e a segunda somente um ano e meio depois. no Tocantins. Ensino Técnico Profissionalizante ser professor indígena. que já formou duas turmas de profes. mas. Foram quase dois anos de discussão e preparação sores com mestrado e doutorado saíram ou foram junto com os indígenas. sendo que não há substituição da TI Canela. Karajá Xambioá. em represália a uma mobi- meio de curso. ainda conta com uma oferta conteúdos. em regime de alternância. Apenas uma Arariboia. e Gavião da TI Governador. Essa situação demonstra o descaso das 7. no Mato Grosso. tucional (Pronatec). sem o consentimento da qual ela fazia parte. Canela. o governo estadual oferece um curso em Agroecologia em parceria com o Insti- a formação para o Magistério Indígena através do tuto Federal de Mato Grosso. Os Institutos Técnicos correspondem às necessidades dos povos indígenas. que à qualidade do curso e sentem necessidade de mais possibilita outras habilitações além do Magistério. chegando-se à elaboração excluídos.Xerente. Isso demonstra que a secretaria Enfermagem e Computação. só uma etapa teve professores contra. num total de aproximadamente 260. sores indígenas que não têm o Magistério participam dessa formação. há quatro professores. 5° ano. os professores têm que dar cero cursos técnicos para os povos Guajajara. Karajá. Por esse motivo.1. os quais lizantes em Técnico em Enfermagem e Técnico em passaram a atender à Educação Escolar Indígena no Agroecologia. segundo a na 1ª fase do Ensino Fundamental. povos deram algumas aulas. demandas apresentadas pela comu- primeiro segmento do Ensino Fundamental. aprofundamento e maior diversidade em relação aos embora necessário. a secretaria de educação deveria convidar por interferência de uma funcionária da Fundação professores de universidades. professora tem mestrado. da secretaria e. por “falta de verba”. Porém este projeto O povo Xerente. 1° ao nidade desde 2002. lização dos indígenas feita em 2011. com os cursos de Técnico de por técnicos da Seduc. da TI Porquinhos. Apinajé. em suas comunidades. curso de Magis. Ensino Superior secretarias de educação para com a qualidade dos cursos de formação de professores indígenas. e destinado aos povos Apaniekrá/ tério do povo Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul. até mesmo. estadual de educação continua distante de atender O Instituto Federal do Maranhão (Ifma) loca- às reivindicações das comunidades e de cumprir a lizado na cidade de Barra do Corda oferece o curso ampla legislação que garante uma Educação Escolar Agricultura Familiar Mehin. sem pagamento ou ajuda de custo. Também avaliam que as disciplinas não bastante tímida aos povos. que não aprendem nem a preencher o Na Escola Tapi´itãwa. já que os outros profes. Krahô. com pró-labore. Campus Confresa. e Ramkokamekrá/Canela. A primeira Javaé e Krahô-Kanela. do povo Bororo. no Mato Grosso. Desse modo. Paru. nas aldeias. O em 2012 e 2013 o curso funcionou com apenas três Ifma do município de Imperatriz tem planos de ofere- docentes. com da matriz curricular. em processo educacional em suas unidades escolares. Para completar a formação dos alunos. O Ensino Superior destinado aos povos indí- Situação semelhante a esta ocorre no Curso genas conta hoje com 22 programas de Licenciaturas de Magistério Intercultural da Escola Korogedo Interculturais implementadas em várias universidades 70 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . uma projeto Açaí. Federais começam a atuar como parceiros na oferta estão distantes dos PPP. alegação da Seduc. está sendo elaborado o projeto de Em Rondônia. financiado pelo Programa Indígena diferenciada e de qualidade. tem vivenciado deixa a desejar quanto à especificidade de cada povo uma nova experiência no estado com a oferta do porque foi construído e reconstruído internamente Ensino Médio Técnico. pois ela é um requisito básico para 7. Alguns desses alunos têm demonstrado insatisfação e preocupação em relação Ensino Médio Técnico Profissionalizante. O processo foi interrompido qualidade. vez que a Seduc não aprovou os cursos profissiona- sores. aconteceram. diário de classe. Dois parceiros históricos dos exoneração do coordenador do órgão e sua equipe. Todos os profes. que provocou a tados. desses cursos destinados aos indígenas.

veram um programa de acesso de indígenas aos cursos Em Rondônia. Este é mais um dos projetos que dificilmente tempo. As universidades federais também de Ensino Superior. Em toda região despreparados para a tarefa de que são incumbidos. curso de Licenciatura Intercultural Indígena na Univer- sidades reais vivenciadas por eles. iniciado com 60 alunos Kaingang e o trazem textos acadêmicos desconectados das neces. comunitárias. o descaso na implementação da regulares das mesmas. Kaikatêjê e Akrankatêjê (Gavião) que estão CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . que teve o modelo que privilegia o repasse do saber enciclo. ou seja. que conseguiram acesso pelo programa indígenas. (Unochapecó). Além do caráter massivo posteriormente. O programa prevê preparação educação escolar diferenciada é característico tanto ao vestibular. Superior foi iniciada pelos professores indígenas junto O mesmo ocorre em universidades particulares e/ou ao Núcleo de Educação Indígena (Neiro) e assumida. Arandu. A da regulamentação da lei. Os No Paraná. dada a grande de Magistério2. as inúmeras apostilas. muitas vezes. os docentes. pela Universidade Federal de Rondônia desses cursos. início com 120 alunos Kaingang. são bastante diversidade de indígenas no estado. Sul do Brasil há apenas dois cursos de Ensino Superior Os conhecimentos dos professores indígenas e as voltados para povos indígenas. apoio pedagógico e do curso de Magistério Indígena como da proposta moradia nas cidades. o curso de Licenciatura suas próprias culturas são pouco considerados. reserva de vagas. sendo que diversos deles antes participaram projeto Açaí tiveram maior acesso. destinado somente aos professores Guarani-Kaiowá Kykatêjê. nas quais há diversos alunos indígenas estudando. no Mato Grosso do Sul. A discussão ocorre distante das comunidades regulares. em programas preocupação em discutir uma proposta de Ensino criados pelas próprias instituições de Ensino Superior. as universidades estaduais desenvol- relatos a seguir ilustram estas situações. Grande parte deles recebe bolsa parcial 2 Uma exceção é o curso de Licenciatura Intercultural Teko das próprias universidades. sendo que somente os professores que de ações afirmativas. pédico tão presente ainda em nossas academias. Por na Universidade Comunitária da Região de Chapecó outro lado. assim. Dourados (UFGD). sidade Federal de Santa Catarina (UFSC). que devem estudar. Guarani e Xokleng. possuem diversos alunos indígenas. o Ensino Superior desconsidera os conhecimentos de suas culturas e privilegia o saber enciclopédico federais e estaduais do país.CIMI 71 . em geral. todos em cursos nida. promovido pela Universidade Federal da Grande No Pará. que atendem a várias etnias ao mesmo (Unir). Repete-se. há 50 estudantes do povo Parakatêjê. Ricardo Colombo Os professores indígenas relatam que. que não tem uma política defi. problema já apontado em relação aos cursos atenderá às especificidades dos povos.

superior em duas universidades. De acordo com tradução para a palavra peyra. avaliada como positiva por eles. no muitas vezes. contam com tratamento diferenciado. atualmente. A Universidade Estadual de Mato Grosso do Uma professora. Houve também um exercício de trans. através do dades. têm conseguido o acesso ao ensino apoio adequado para a permanência nas cidades. Essa soma de fatores leva a uma alta Federal de Goiás (UFG). o que resultou em absurdos. implantado desde tarefa da docência para indígenas. um índice e evasão diária. os indígenas constatam um grande despreparo antropológico dos professores. durante uma etapa interme. Superior”. a Universidade do Ficam distantes de suas comunidades de origem e Estado do Mato Grosso (Unemat) e a Universidade de suas famílias. crição fonética a ser realizado pelos cursistas com seus mestranda da Universidade Católica Dom Bosco. coti- transcrição fonética e fonológica de 400 vocábulos dianamente. há 292 acadêmicos um grande despreparo antropológico e sociolinguís. sendo que as cotas são a forma de ingresso. apresentando em português universidade. a professora Beatriz dos Santos Landa. em 2011. Os sistema de cotas. Os docentes do povo Apyãwa-Tapirapé. são discriminados e não contam com Mato Grosso. alunos. embora seja constado No Mato Grosso do Sul. que não tem corres. Não existe no Brasil uma política específica diferenças que pode haver. exigia que os cursistas encontrassem uma escolar indígena em torno de 40%. 2003. Também há Outras habilitações desejadas pelos indígenas estudantes de vários povos fazendo curso superior são ofertadas em cursos superiores de várias universi- na Universidade Federal do Pará (UFPA). não atendendo às especificidades dos povos em formação no curso Licenciatura Intercultural da alunos em fase inicial de aquisição da escrita. explicou Teodora de Sousa. por exemplo. Universidade Estadual do Pará (Uepa). Povo Tapirapé (MT) . “O grande gargalo hoje é a perma- a lista dos vocábulos solicitados. sem considerar as nência. pelos jovens indígenas e também pela das línguas indígenas. ou em faculdades particulares em acadêmicos indígenas que conseguem ingressar não Belém e em Marabá. Guarani-Kaiowá. o problema pondência em português. nos termos para financiar a permanência e o acesso ao Ensino de parentesco. Essa experiência tem sido taxa de desistências. Ao contrário.TI Urubu Branco – Foto: Priscila Carvalho Nas universidades. Sul (UEMS) possui. pois o professor em uma audiência pública sobre o Ensino Superior que assume o 1º ano tinha que realizar a tarefa com Indígena. indígenas matriculados no Ensino Superior e um tico dos professores universitários que assumem a programa de cotas para indígenas. 72 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Uma outra tarefa exigia a da permanência é uma realidade enfrentada.

tentativa de implantação de gestões democráticas Lembramos que a legislação em vigor permite que nas escolas.2. Entretanto. Há conselhos de anciãos que diretor. como os chefes de roça ou de cerimoniais. lecimentos de ensino foi um passo importante na mente o modo organizacional dos povos indígenas.7. Comunidade Escolar (CDCE) A escola. o que não Conselhos é gerir os recursos financeiros que as é aceito pelas secretarias de educação. povo. via de regra. O Conselho Deliberativo da integram-se a estes conselhos. por sua vez. nelas. Direção das escolas A primeira proposta curricular elaborada em 1986 pelos Apyãwa-Tapirapé. introduz um modo de organização hierárquica. mas. estados .os CDCE ficam inteiramente absorvidos caso de desrespeito aos direitos indígenas.2. Conselho Estadual de Educação (CEE) em 1988. no Mato Grosso. possuem próximo da comunidade. anciãos. tais prevalecem. A proposta foi aceita pelo instâncias decisórias nas quais as relações horizon. previa que a direção da escola fosse feita por um colegiado 7. como uma das funções destes as escolas se organizem de outros modos. pajés. Estruturas impostas de gestão ao invés de um diretor.2. um modelo hierarquizado se reúnem para discutir as questões pertinentes ao de gestão. impondo. Os caciques.2. assim. os pajés ou rezadores e outras lideranças. 7. que impõem escolas recebem do Ministério da Educação ou dos o mesmo modelo das outras escolas das redes muni. reproduzindo modelos não A presença dos Conselhos Deliberativos das indígenas. diferentemente do que ocorre nas dois anos depois. caciques. por esta tarefa e não conseguem dedicar-se às outras Povo Tenharim (AM) – Foto: Patrícia Bonilha As sociedades indígenas caracterizam-se pela horizontalidade das relações. o que contradiz frontal.e os gestores não recebem orientação para cipais ou estaduais vigentes. o Estado exigiu que houvesse um sociedades ocidentais. nos quais vem embutida a noção de que Comunidades Escolares (CDCE) em alguns estabe- há superiores e subordinados. Esta proposta surgiu para que hierarquizada a direção fosse organizada conforme um modelo mais As sociedades indígenas.1. configurando mais um essa gestão . chefes de roça e rezadores são lideranças respeitadas por todos CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .CIMI 73 .

acompanhamento pedagógico. que até hoje não conseguem realizar estes de gerir e prestar contas dos recursos. Ainda assim. Essa situação tem acarretado há nenhum indígena formado em contabilidade. está Guarani questionaram a existência dessa instância nas ficando difícil. serviço extra para a secretaria da escola. fazer as prestações de contas. No Mato Grosso. a Mais Educação vai ser iniciado este ano [2012]. Mas. como fossem feitos através do sistema informatizado que gerir os recursos. que não irão enviar indígenas e não deu formação nenhuma aos profes- mais recursos porque os indígenas não dão conta sores. mas O que nos parece é que o governo está injetando impôs também às escolas indígenas. Na aldeia. ou Ele disse ainda que fica chateado e cansado”. Ao mesmo tempo. foi exigido que funcionasse através do Aldeia Córrego Grande. ter sido pioneiro em Educação Escolar Indígena. Sem formação adequada. mas dificilmente ou nunca comunidade já é uma “associação”. lidar com Santa Catarina e Rio Grande do Sul ainda funcionam recursos altos na conta. gerir. 7. que tem que portanto. vamos ter que gastar. os gestores têm que qualquer proposta de educação escolar específica fazer tudo. Na aldeia não exigentes trabalhos. motorista. para resolverem estes e pelo estado ela funcionava na modalidade seriada e outros problemas relacionados à escola. O Programa a avaliação era através de provas bimestrais. os professores. a tério e do Programa Mais Educação. que dar graças a Deus pelo avanço de nós próprios. mas. por exemplo. dinheiro e os indígenas têm que se virar de qualquer A Seduc não se preocupou. ou seja. contábil. sem estrutura deste sistema a data do início e do fim do ano escolar. conseguirmos assumir a nossa escola. com a chegada do Projeto do Magis. na Seduc. Os nizar o funcionamento dos Projetos e Programas.questões importantes na vida da escola. Daí. mesmo assim. Temos justificativa feita pela Seduc de que “é muito difícil”. O diretor da escola diz que: ‘Os fazer o serviço de todos os professores. Mas. todo o recurso Seduc implantou um sistema informatizado único é repassado para o CDCE da escola para executar as para todas as escolas estaduais. há pessoas que coordenam de uma associação para gerir a escola. O estado determina através os recursos e prestar contas. Como os recursos funcionar como ciclada. o número de alunos em e estão desistindo. eletrônicos. sem a mínima orientação de Ciclo de Formação Humana. até hoje. sem distante das aldeias vão da falta de carro. na aldeia Córrego Grande. Também têm medo de gastarem e. São cobrados pela Seduc. que a única função da APM é emitir nota fiscal. O povo Boe-Bororo. Informatização opressiva no Mato Grosso. fica muito difícil e os gestores do CDCE as disciplinas que devem ser trabalhadas. com suas não estão dando conta. do funcionamento da escola regular. etc. Esta expres- Brae (não indígenas) querem fazer os índios loucos siva falha explicita a necessidade de formação para com tanta coisa imposta. uma vez que a estes Projetos e Programas. prestar contas e orga- em sistema de Associações de Pais e Mestres (APM). estado que se vangloria de tando é que. Aí. exigiu-se estão na conta. fez o seguinte relato: “um outro problema que os gestores indígenas estão enfren. nos deparamos com outra No relato feito pelos Bororo da Escola Korogedo necessidade que é a de um veículo para deslocamento Paru eles afirmam que quando a escola foi assumida dos responsáveis pelo CDCE. a escola passou a como vai funcionar a organização. 74 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL .2. sem aumento salarial. seja. na partir de 2009. mas negada com a sem dar cursos específicos para os gestores. Tudo tem inserção de dados em sistemas informatizados sem que ser acompanhado pela Assessoria Pedagógica oferecer condições adequadas de acesso à internet do município de Santo Antônio de Leverger ou pela nas aldeias. uma função meramente burocrática . Eles consideram aparecem na aldeia’. respectivas cargas horárias. A situação é absurda. a Seduc criou para as escolas não indígenas. As alegações em relação ao fato da Seduc estar muito índios. tendo que atender às exigências de gerir para os povos indígenas. O que eles querem é que as escolas fiquem forma de lançamento diferenciado para as escolas inadimplentes para alegar. finalizou o Diretor Bruno Tavie. nós estamos conseguindo dar conta As escolas indígenas dos estados do Paraná. está difícil. depois. gestão da Seduc. começa que os lançamentos sobre a vida escolar dos alunos mais uma preocupação com o espaço físico. comunidades porque entendem que não necessitam Sabemos que.3. como o mesmo formação em gestão ou muito pouco. exigida de qualquer maneira. o que torna inviável ações. pois exige-se a não saberem de qual recurso estão usando. que foi solicitada. depois. com uma maneira. Falta muito pouco para a escola cada sala de aula e exige que seja feito o controle ficar inadimplente por falta de prestar contas destes da frequência destes alunos por meio de diários recursos.

onde estão inseridas. Os instituídos pela Lei de Diretrizes e Base (LDB). os professores da aldeia sede e localmente. expressão da conforme as determinações prescritas para as outras autonomia e da identidade escolar. as avaliações e os relatórios importância deste documento para as escolas indí- no sistema informatizado implantado pela Seduc genas: “O projeto político-pedagógico. é uma referência escolas não indígenas. 7.CIMI 75 . suas atividades: “As escolas indígenas. Projetos Político-Pedagógicos tivas e ao serem inseridas no sistema informatizado são reduzidas às siglas OS (Progressão Simples) e PPAP Os Projetos Político-Pedagógicos (PPP) foram (Progressão com Projeto de Apoio Pedagógico). o que 14). devendo apresentar os princípios muito lenta e quase não permite estes lançamentos. As avaliações são descri. muitas vezes. bem como as aspirações das comuni- das aldeias onde há salas anexas têm que se deslocar dades indígenas em relação à educação escolar” (Art. No parágrafo 4 deste Artigo. também define-se acarreta gastos consideráveis de combustível e de claramente a autonomia das escolas para organizarem alimentação. curriculares de acordo com o contexto sociocultural Os professores indígenas do povo Tapi. Isso se torna uma verdadeira importante na garantia do direito a uma educação tortura. promul- professores afirmam que colocam as avaliações no gada em 1996.combustível ou de diárias. mas isso não colabora escolas. na definição Povo Tenharim (AM) – Foto: Patrícia Bonilha As diretrizes das secretarias de educação não contemplam os interesses das crianças e dos jovens indígenas e impõem o mesmo modelo das escolas não indígenas CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . que assim podem elaborar suas propostas para o avanço do processo pedagógico da escola. rapé também são obrigados a lançar os dados de A Resolução 05/12 do CEB/CNE reafirma a frequência dos alunos. pois a internet instalada na escola sede é escolar diferenciada.3. até a cidade para fazerem estes lançamentos. e objetivos da Educação Escolar Indígena de acordo Há aldeias situadas a 50 km da cidade de Confresa com as diretrizes curriculares instituídas nacional e (MT) e. como instrumento de autonomia das sistema por ter que constar.

Porém. pois as secretarias estaduais e matriz curricular. por exemplo. no Mato Grosso. Atualmente. pois em ciclos. após cinco anos de autonomia para organizar suas práticas pedagógicas aprovação pelo CEEI. aulas de Conselhos de Educação Escolar Indígena. a fim de que a matriz são respeitados. O Conselho Indigenista Missionário de servidores para a limpeza. Apesar de ter sido das escolas indígenas não conseguiu elaborar este aprovado pelo CEEI. o PPP não foi implementado projeto. seriação. Exige-se que a escola indígenas na elaboração dos PPP. não é aplicado. também no Mato Grosso. no contrato dos professores e impede a contratação rias adequadas. continuam a impor às escolas indígenas as mesmas Na escola da aldeia Krehawã. possuem a assessoria do Cimi. está em fase de revisão.dos seus projetos político-pedagógicos. no número de alunos de cada sala. em regimes de foi planejada para 2015 a inclusão do Ensino Médio. etapas. Mỹky. já que os órgãos governamentais possa ser aprovada. só para constar. que respeite a diversidade. após a esteja sempre apresentando dados que não corres- sua finalização e até mesmo a sua aprovação pelos pondem à realidade. como. o direito à construção das redes estaduais ou municipais. alternância. de um currículo próprio e de uma escola diferen- O Projeto Político Pedagógico da Escola Xinui ciada. do povo Iny-Ka- diretrizes a que estão obrigadas as outras escolas rajá. porque a escola não (Cimi) e algumas ONGs têm apoiado as comunidades tem 100 alunos matriculados. sempre tendo Constata-se. foi elaborado por um grupo Os professores indígenas ainda não se apoderaram de trabalho com participação da comunidade e com da legislação para fazer uma escola com o perfil da Povo Guarani-Kaiwá (MS) – Foto: Ana Mendes Os Projetos Político-Pedagógicos devem retratar a vida da escola e sua articulação com a comunidade de modo a atender as especificidades de cada povo 76 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . que retrata a vida da escola e sua articulação pois a legislação estadual em vigor interfere na com a comunidade. os PPP não ensino religioso. entretanto. de tempo integral ou outra forma de O aspecto mais importante do PPP é a afirmação de organização que melhor atenda às especificidades que “Nossa escola indígena estadual é específica de cada contexto escolar e comunitário indígena”. que grande parte o território como eixo central”. módulos. municipais de educação não viabilizaram assesso. do nosso povo e da nossa cultura.

Depois de muito debate. O grande desafio é que o PPP não é respeitado inclusive dos mais idosos. conseguiu-se o acordo de de qualidade social. a seleção de temas a serem trabalhados. a CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . este trabalho. e parteiras. seja inserido no sistema informatizado da Seduc. também com a assessoria do Cimi. Foi feita com os não indígenas. mas estes efetivamente como escola estadual em 2007. O PPP da escola foi elaborado autorizar que o Ensino Fundamental passasse para pelos seus profissionais e é revisado a cada ano sob o estado. quando fazem revisões constantes do PPP com o objetivo de o processo foi para a Assessoria Pedagógica. rios. lideranças. duas escolas do povo lidar com inúmeros obstáculos. os princípios professores indígenas. de tal maneira que os alunos que tanto o Ensino Fundamental como o Médio seriam desta possam interagir em pé de igualdade com os estadualizados e a ata de aceite foi enviada à Seduc. Mato Grosso. através do Decreto Entre o povo Nambikwara. duas pela estrutura que foi construída ao modo dos brae grandes oficinas para o reestudo na aldeia Treze de (não indígenas). A escola foi criada. com a presença somente dos terra. Posteriormente foi protocolado o Processo de Este novo PPP informatizado é produzido a partir Criação da Escola Indígena Estadual “Korogedo Paru”.comunidade Krehawã. em terem suas escolas reconhecidas. a ameaça de que sem a inserção deste currículo no O Processo de Criação foi constantemente sistema. a começar com a assessoria do Cimi. O PPP da Escola Tapi’itãwa do povo Apyãwa- e contou com cerca de trezentas pessoas em cada Tapirapé. a recuperação populacional). Santo Antônio de Leverger. pela própria Seduc. Os professores os haviam nidade avalia que são necessárias várias mudanças elaborado em conjunto com suas comunidades e para que ela seja uma escola diferenciada. com assessoria do Cimi e de cipal. pois este povo está instâncias. Essas oficinas PPP e com a realidade do povo Boe. Em muitas Boe que habitaram a barra do Córrego Grande e questões. A convite da comunidade. acompanhado pelas lideranças da aldeia que sempre No Pará. as perguntas da Seduc entram em choque iniciaram a aldeia. que impõe as disciplinas a serem missionários do Cimi e uma pesquisadora mestranda trabalhadas e só faz o contrato dos docentes baseado da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) em uma Matriz Curricular elaborada em Cuiabá para assessoram neste processo. homenagem aos “Koroges” que foram os primeiros as perguntas que a comunidade faria. A comu- estão sendo reformulados. ocorreram. permitindo que apenas o Ensino Médio a ótica das Orientações Curriculares da Educação fosse estadualizado. Atualmente exige-se que o PPP xões e na organização dos documentos necessá. O trabalho feito anteriormente metodológicos e filosóficos que orientam o trabalho foi completamente ignorado. como publicado no Diário Oficial de duas escolas. a escola não poderia receber verbas. a luta pela Comodoro. Em 2012. têm seus PPP. O mesmo de que a escola fosse amparada pela legislação que acontece com os Tembé do Guamá e Tomé-Açu que vigora sobre Educação Escolar Indígena. no Mato Grosso. todas as escolas. truir uma escola indígena . contribuindo nas refle. Mato o processo de escolha dos professores. das lideranças indígenas para convencer a Semec. de algumas perguntas que a Seduc envia para todas O nome foi escolhido pela comunidade escolar em as escolas do estado e não são. Apesar desse cuidado e da preocupação no processo de regularização da escola. pedagógico. Foi necessária uma reunião Escolar Indígena. O grande desafio colocado é superar com a assessoria jurídica e a expressiva presença a visão de escola urbana trazida pela Seduc e cons. a matriz curricular e o calendário trução do (PPP) para a criação da escola estadual específico. Este povo foi extinto nas guerras com o currículo que a escola já produziu.CIMI 77 . envolveram professores. servidores e Grosso. Com a mudança da administração muni. que era mantido pelo Plano de assessores convidados de diversas universidades. a comunidade teve que No Alto Tapajós. com a participação de toda a comunidade da aldeia. Ações Articuladas (PAR) Indígena. uma do Vale do Guaporé e a outra do 30 de junho de 2006. não indígenas. pajés. em 2013. foi elaborado em conjunto uma delas. e para que esteja de acordo com o Maio. mas só começou a funcionar Nambikwara do Cerrado. foi interrompido. A Semec não queria Munduruku já avançaram na discussão do PPP. Os pontos principais são: o resgate da história do Apenas mais uma oficina foi realizada na cidade de povo (mitos e fatos históricos recentes. com a comunidade. diretores da escola. 7775/2006. deu-se início à cons. necessariamente. Entre os Boe-Bororo de Córrego Grande. a consolidação do PPP é um assunto iam à Seduc para verificar os andamentos nas diversas constante para os Parkatêjê.e não “para indígenas”-. em agosto de 2001.

observa-se pouco os contratos dos professores. o centrais do PPP que. os povos indígenas dos estados do Pará e Amapá. em São Paulo. aos objetivos. conforme o Referencial construção do PPP específico. “ensino religioso” na cultura do povo não acontece a Os PPP foram construídos pelas comunidades indí. a escola é obri- 78 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . concedem a elas carga muitos educadores indígenas educadores a discutir horária bem menor do que a da disciplina de língua pela primeira vez o processo de construção do PPP. os PPP das escolas incluem foram imprescindíveis para a autonomia das e o a matriz curricular a partir e de acordo com a cultura reconhecimento oficial de sete escolas dos povos de cada povo. 24). que instituíram as Diretrizes Curriculares Nacionais porém. O PPP incorpora o calendário Guarani de e momentos utilizados para a educação escolarizada” acordo com a cosmologia do povo. de acordo com seus projetos. as Resoluções nº 03/99 e nº 05/12 e o Parecer 14/99. Há secretarias que definem de antemão para professores indígenas. Assim. a Matriz Curricular foi elaborada pelo conjunto (tempo novo). aos conteúdos. como as Na Escola Tapi’itãwa. disciplinas de educação física e ensino religioso. povo Tapirapé. o curso terminou e até o momento não houve da Educação Escolar Indígena e onde está explícito nenhum trabalho mais aprofundado nas comunidades que “as escolas indígenas devem ser conduzidas pelas e nem a sistematização do que já foi discutido. Mas. foi elaborado com currículo quanto aos modos de administrá-lo. como está assegurado na Reso. Mato atividades do Ara Yma (tempo velho) e Ara Pyau Grosso. do mundo não indígena. não é possível abrir a matrícula dos alunos e nem Em Rondônia. Isto se refere tanto ao e Tenondé Porã. Entretanto. de 2007 a 2010. das mesmas matrizes. portanto. durante o Curricular Nacional para as Escolas Indígenas (RCNEI). um desafio é o fato da maioria aprovar a contratação dos professores. Se ela não for incluída na matriz. com os mesmos conteúdos O Cimi Regional Norte II. contemplando (MEC. os projetos políticos pedagógicos Em Mato Grosso. de professores em articulação com a comunidade. pois a Secretaria de Educação de Jacareacanga deste direito. A situação mais comum é a imposição sempre pede mais informações. à dora pedagógica do Centro Educacional de Cultura pedagogia. a Seduc insiste na inclusão três anos. projeto Açaí I de formação para o Magistério Indígena. Inclui a assessoria da ONG Opção Brasil e da coordena. mas a Seduc impõe a inclusão das Karipuna. a Seduc iniciou uma discussão com os professores. Matrizes curriculares conhecimento porque todas são consideradas igual- mente importantes e também porque isso evitaria A Matriz Curricular constitui um dos pontos que um professor recebesse mais que os outros. o que estimulou zação das línguas indígenas. No Amapá.1. cada atividade relacionada a cada tempo. a Seduc impõe o modelo uniforme de que são elas que devem definir os conhecimentos de Matriz que já está no sistema informatizado e. Galibi-Marworno e Palikur. assim como currículos escolares próprios. contrariando o direito a Até o momento não existe nenhuma experiência de uma educação diferenciada. conjunto com as comunidades indígenas no sentido Entretanto. Por guismo foi estabelecido como prática em todas as mais que os membros da comunidade expliquem que aldeias. que trabalha com curriculares propostos às escolas não indígenas. que criaria diferenças que antes eram inexistentes lução nº 05/12 da CEB/CNE.Escola da Missão e a de Sai Cinza.3. p. aos espaços Indígena. um curso de formação indígenas. concepções e seus princípios. Galibi. de uma imposição coerci- dos não indígenas. No programa estava quais disciplinas devem ser trabalhadas. portuguesa. mudanças ou complementar algumas orientações. 1998. fazendo concessão apenas à inclusão das línguas promoveu. a carga o debate sobre a importância da construção dos horária delas e. suas O PPP das escolas Guarani Krukutu. partir de aulas e sim a partir dos rituais e da iniciação genas junto com seus professores e aliados durante da educação tradicional. deve ser elaborado em na comunidade indígena. num claro movimento de desvalori- projetos políticos pedagógicos. há muito a se interesse dos gestores públicos para a efetivação fazer. das comunidades seguirem a metodologia da escola Trata-se. Tekoá Pyau. liberdade de decisão quanto ao calendário escolar. comunidades. ou relevantes que deverão ser trabalhados na escola a escola se adequa a este modelo ou não são gerados de seus filhos e filhas. O bilin. Ela contempla carga horária igual para todas as áreas de 7. Em 2001. apesar de terem alguns trabalhos tiva dentro de parâmetros e do sistema de ensino diferenciados e calendários em caráter experimental. Atualmente sentem necessidade de fazer dessa disciplina.

todas não indígena para as escolas indígenas.2. Inciso estabelecimentos de ensino. como práticas culturais. mas estrutura administrativa adequada para atender com cargas horárias reduzidas que não permitem eficazmente às demandas da Educação Escolar Indí- desenvolver um trabalho adequado. o que existem são adaptações dos calendários das escolas Assim como a Matriz Curricular. Inciso II e se o padrão de escola rural e. Não é uma comunidades indígenas apresentam especificidades Povo Kalapalo (MT) – Foto: Nikolaus Tarouquella A dimensão do tempo tem outro sentido para as populações indígenas e precisa ser contemplada na definição dos calendários escolares CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . tomado iniciativa no sentido de garantir às escolas Recentemente. trabalha-se com as III). além escola diferenciada e apenas algumas disciplinas do português que. como comentou gena. Art. o descumprimento de todas as leis que em que afirma: “O estado de Pernambuco não tem recomendam a valorização das línguas indígenas. 28 da LDB. segue. Art. Da mesma escolares também devem constar dos PPP e serem forma são feitas adaptações do currículo do ensino discutidos junto com as comunidades.gada a escolher uma outra língua estrangeira. para eles. entre o povo Kokama. de Pernambuco (Copipe) divulgou um documento na prática. se só para ir gerências de educação regionais”. foram incluídas algumas disciplinas indígenas o currículo diferenciado e intercultural. os calendários não indígenas para as escolas indígenas. 15. fazendo com que as demandas dos povos um professor Tapirapé: “Como elaborar um orokorowa indígenas não sejam atendidas com agilidade pelas (máscara ritual) em apenas uma hora.CIMI 79 . Os calendários socioculturais e econômicos das ciências naturais e a história do povo. as escolas contam com amparo legal para elaborarem No Amazonas. seus próprios calendários (Art. 7. bem como a secretaria de educação não dispõe de tecnologias indígenas e práticas agroecológicas. Parágrafo 6º. o que demonstra. A língua indígena vem Em 2013 a Comissão de Professores Indígenas com uma carga reduzida de horas. mais relacionadas à cultura. e também o ensino religioso. já é uma segunda língua inserem a cultura indígena. buscar o material gasta-se meio dia?” No Mato Grosso do Sul não existem currículos 7. como na maioria dos Resolução nº 05/12.3. Calendários escolares interculturais e nem calendários específicos. Para isso.

que precisam ser respeitadas e integradas ao calen- Na Escola Tapi’itãwa, Mato Grosso, a partici-
dário escolar, como os rituais e as atividades produ- pação de professores e alunos nos rituais está garan-
tivas (agricultura, caça e pescarias coletivas), pois são tida no PPP porque estes momentos são ocasiões
momentos formativos importantes na constituição formativas próprias da educação indígena. Entretanto,
da identidade das crianças e jovens indígenas. a assessora pedagógica do município de Confresa
Todavia, o que constata-se é que, muitas vezes, quer que se estabeleça uma data certa para constar
os órgãos gestores da Educação Escolar Indígena não no calendário escolar o momento da realização dos
possuem esta compreensão, impondo um calendário rituais, o que é impossível, pois um ritual para ser
oficial ou mesmo exigindo que um ritual tenha data realizado depende de muitas condições que não
marcada previamente, o que entra em total desacordo podem ser previstas a priori. Por exemplo: o ritual
com o ritmo de vida das comunidades indígenas. Há de Tawã (Cara Grande) é precedido por uma grande
poucas escolas que conseguem trabalhar de acordo caçada de porcos queixada. Os homens só voltam da
com seus calendários próprios. A maioria vê-se obri- caçada quando há um número suficiente de animais
gada a seguir os calendários impostos. abatidos, o que é impossível de se prever antecipa-
O Relatório da Escola Xinui Mỹky, Mato Grosso, damente. O Estado impõe um dia para iniciar o ano
afirma que “o nosso calendário é de acordo com o letivo e um dia para terminar, o que contaria o direito
tempo da chuva e o tempo da seca. Nosso calendário das escolas de definirem seus calendários próprios.
fica de acordo com os trabalhos de roça, das festas, Os contratos dos professores são baseados nesta
das caçadas, das pescarias. Tudo que é da cultura imposição de datas.
entra no calendário escolar. Todo o planejamento Em Tocantins, não existem currículos intercul-
escolar é feito pelos professores, diretor, conselho turais e nem calendários específicos, o que existem
escolar (CDCE) e os alunos. Ele prioriza: o estudo da são adaptações dos calendários das escolas não
língua materna; o conhecimento da história Mўky; indígenas para as escolas indígenas. Da mesma
e a defesa do território e o cuidado com o meio forma, são feitas adaptações do currículo para as
ambiente”. escolas indígenas.
Povo Kalapalo (MT) – Foto: Adreas Kuno Richter

Os rituais e as atividades produtivas são momentos formativos importantes na constituição da identidade das crianças e jovens indígenas

80 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL

Povo Guarani-Kaiowá (MS) – Foto: Egon Heck

Os principais problemas relacionados ao transporte público escolar são a falta de veículos, o atraso no pagamento dos prestadores e a situação precária das estradas

7.4. Transporte escolar indígenas a estudarem nas cidades tendo em vista que
os recursos federais são repassados a elas de acordo
O transporte escolar é assegurado na LDB (Art. com o número de matrículas efetuadas. Em ambos
4º, Inciso VIII) como sendo de caráter público. Nos os casos, entretanto, o transporte dos estudantes
relatos das comunidades indígenas aparecem duas indígenas deveria ser público e não terceirizado,
situações: uma, em que alunos indígenas devem se como vem acontecendo entre alguns povos.
locomover de aldeias menores para escolas polo Em Tocantins, há transporte escolar público
situadas dentro das terras indígenas; e outra, quando para locomover os alunos das aldeias pequenas até
alunos indígenas devem se locomover para escolas as escolas maiores dentro das terras indígenas. O
urbanas, a fim de cursarem os anos finais do Ensino transporte escolar mudou muito o cotidiano das
Fundamental e Médio. Essa segunda situação não crianças, pois elas têm que acordar muito cedo, às
deveria mais existir porque os alunos indígenas têm 4h da manhã, e só voltam para suas aldeias às 15h.
o direito de estudar em escolas localizadas dentro No Maranhão, a legislação não é cumprida e
de suas terras. Direito esse já assegurado no Plano o transporte escolar é terceirizado. Em muitos casos
Nacional de Educação (PNE), promulgado em 2001. ele é administrado pelos próprios indígenas, que
O deslocamento para as cidades expõe os compram veículos e transportam os alunos para
alunos indígenas a vários tipos de problemas como as escolas situadas dentro das terras indígenas ou
a discriminação, o risco de contágio por Doenças nas cidades próximas. Esta situação tem gerado
Sexualmente Transmissíveis (DST), o alcoolismo e o muitos conflitos, tanto nas comunidades indígenas
contato com drogas, como já apontado por várias como nas suas relações com a Seduc. A situação é
comunidades indígenas. Por outro lado, várias secre- tão delicada que levou o Ministério Público Federal
tarias municipais de educação incentivam os alunos a entrar com a Ação Civil Pública REF. PA/PR/MA N.

CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO - CIMI 81

1. 19.000.000762/2007 – 63, de maio de 2010, por 7.5. Alimentação escolar
suspeita de desvio de recurso público e descumpri-
mento da legislação. A alimentação escolar destinada aos alunos
Outra situação denunciada pelos próprios e alunas indígenas também se constitui como um
indígenas é que os “empresários dos transportes” direito assegurado (Res. nº 26, de 17 de junho de
impuseram uma política que tem gerado a evasão 2013, CD/FNDE), que garante que ela seja adequada
de alunos de escolas pequenas para escolas maiores ao regime alimentar próprio da comunidade onde a
dentro das terras indígenas ou nas cidades com o escola está inserida. Para que esse direito se efetive,
objetivo de garantir um número de alunos e justificar os produtos alimentícios deveriam ser comprados dos
o aumento dos custos do transporte escolar. produtores da própria comunidade, conforme está
Em Santa Catarina, especialmente nas comu- explícito no inciso V do Art. 2° da citada Resolução:
nidades onde foram construídos colégios centrais “V – o apoio ao desenvolvimento sustentável,
e os alunos precisam se deslocar até estes colé- com incentivos para a aquisição de gêneros alimen-
gios, a questão do transporte também gera diversos tícios diversificados, produzidos em âmbito local e
problemas. Primeiro, porque as estradas não são preferencialmente pela agricultura familiar e pelos
boas e os ônibus são de péssima qualidade. Basta empreendedores familiares rurais, priorizando as
um pouco de chuva e algumas escolas param de comunidades tradicionais indígenas e de remanes-
funcionar. Os próprios alunos de uma das escolas centes de quilombos”.
já organizaram protestos contra os ônibus. Outro Entretanto, a burocracia exigida pelo sistema
problema gerado pela forma como está organizada a de prestação de contas praticamente inviabiliza este
logística das escolas e o transporte é o fato de que as procedimento, uma vez que são exigidas notas fiscais
escolas não podem organizar horários diferenciados de compra de quaisquer produtos alimentícios. Nos
porque os ônibus circulam em horários previamente casos em que as prefeituras entregam a merenda
determinados e passam o dia circulando. Caso a nas escolas indígenas, verifica-se constante atraso
aula se estenda quinze minutos a mais pela manhã, na entrega e quantidade insuficiente de alimentos.
por exemplo, a turma da tarde sofrerá um atraso de Esta prática favorece o consumo de produtos indus-
quinze minutos. O transporte é de responsabilidade trializados, estranhos aos costumes alimentares de
das prefeituras, mesmo que as escolas sejam esta- vários povos indígenas.
duais. Porém, nem sempre o diálogo entre o estado Na aldeia Boa Vista, povo Kokama, no
e o município resulta em adequações aos contextos Amazonas, em todo o ano de 2012, a merenda escolar
indígenas. só foi entregue uma vez e a quantidade não supriu
Na Bahia, no extremo sul do estado, entre a necessidade dos alunos. Além disso, a prefeitura
os Pataxó, o transporte escolar é terceirizado para negou a contratação de uma pessoa para o preparo
os próprios indígenas. Em geral, os alunos são da merenda. Como se não bastasse, os próprios
transportados em caminhonetes ou em ônibus, moradores e professores tiveram de ir à cidade para
muitas vezes, em péssimo estado de conservação. pegar a merenda e, com recursos próprios, fizeram
Este transporte é feito das escolas menores para o transporte para a aldeia.
a escola da aldeia central. Faltam veículos para Na Escola Tapi’itãwa, do povo Tapirapé, no
atender a todos e somente metade dos estudantes Mato Grosso, os recursos para a compra da merenda
são atendidos. escolar são geridos pelo CDCE da escola, mas, na
Em Pernambuco, o transporte escolar é tercei- prática, fica inviabilizado o direito de se comprar
rizado e também é feito pelos indígenas. Normal- merenda da comunidade por causa da exigência de
mente, o pagamento desse serviço atrasa e os donos nota fiscal. Os produtores indígenas deveriam fazer
dos veículos mobilizam os indígenas para protestarem parte de uma associação que, então, poderia emitir
enquanto as aulas são paralisadas. Na terra do povo estas notas, mas também deveria pagar tributos por
Pankará, da Serra do Arapuá, no município de Carnau- esta emissão. Ou seja, a burocracia estatal impede
beira da Penha, em 2014, o MPF averiguou que os que a merenda das crianças indígenas seja, de fato,
alunos eram transportados em paus de arara, que adequada aos costumes alimentares do povo.
não ofereciam segurança nenhuma, e entrou com Na Escola Korogedo Paru, do povo Boe-Bororo,
uma ação. Este tipo de transporte foi paralisado e, o repasse dos recursos para a merenda é feito pelo
consequentemente, as aulas também. estado para o CDCE da escola. Mas os alimentos têm

82 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL

instalada em no Sul do Brasil. Desse modo. o povo Guajajara da à escola.CIMI 83 . o acesso à merenda é essencial para a notas fiscais. os barcos que atendem ao povo Guató. apenas quando a direção da escola se mobiliza. anemias e No Mato Grosso do Sul. Outro que não leva em consideração a especificidade da problema é a falta de adequação da alimentação alimentação tradicional. Xokleng e Guarani. adultos a consumirem regularização dessa situação assim como o controle alimentos que trazem sérios riscos de doenças. enormes dificuldades para a chegada da merenda Em 2010. houve a obesidade. O MPF recomendou a imediata crianças. da aldeia Entre os povos Kaingang. a alimentação funciona a contento um distante ponto do Pantanal sul-matogrossense. o recebimento do material didático e Muitas vezes as crianças rejeitam a merenda porque da merenda escolar e o comparecimento dos estu- os alimentos oferecidos não fazem parte da sua dantes à escola ficaram bastante prejudicados. Esta é uma preocupação interrupção do fornecimento de combustível para dos gestores da escola. jovens e. mas a prestação de contas do na distribuição da merenda escolar. Comprar a maioria dos alimentos na própria a alimentos por conta de possíveis irregularidades aldeia seria o ideal. do recebimento dos alimentos nas aldeias. em 2010. que fica a mais O serviço é pago pelo Estado para uma empresa de 280 km de distância da aldeia. Uberaba.   u Povo Guarani-Kaiowá (MS) – Foto: Egon Heck Muitas escolas oferecem alimentos industrializados para os alunos. dentre outros. Sendo assim. problemas cardíacos. no Maranhão. O fornecedor que ganha a licitação não Terra Indígena Cana Brava/Guajajara denunciou que se dispõe a trazer a merenda quando ela é neces. como: diabetes. o Estado induz com a dieta indígena. não respeitando os costumes alimentares dos povos indígenas CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Como em muitas recurso impede que isso seja feito pela falta de outras regiões. de Santo Antônio de Leverger (MT). Existe toda uma exigência burocrática permanência das crianças Guajajara na escola. na Terra Indígena Guató. até mesmo. muitas escolas indígenas não estavam tendo acesso sária. há terceirizada e é comum faltar merenda.que ser adquiridos de uma empresa do município alimentação tradicional. Ao contrário. como produtos enlatados.

conforme preconiza a Constituição Federal. de 1988. inserida nos processos próprios de aprendizagem. além da negação de direitos Povo Kaingang (RS) – Foto: Renato Santana . de fato. Capítulo VIII O novo modelo de Educação Escolar Indígena vivenciado a partir dos anos 1970 coloca a atuação do docente indígena como essencial para que a escolarização possa ser. no seu Artigo 210 A situação de interinidade dos professores indígenas é alarmante e explicita um profundo desrespeito dos órgãos governamentais.

compatível com sua Ensino Médio e EJA. de fato. Os professores indígenas assumem. formação e isonomia salarial”. do 6º ao 9º ano. seu Artigo 210. sendo cumprido de modo adequado nem pelos estados nem pelos municípios. pela Universidade Federal criação da categoria professor indígena como carreira de Goiás (UFG) e pela Universidade Federal do Tocan- específica do magistério público de cada sistema tins (UFT). conforme evidencia. pois ele detém os conhecimentos socioculturais Esta realidade pode indicar que os professores e linguísticos próprios de seu povo. assim como a promoção de concurso a atuar em disciplinas como biologia e português. de 1988 no. língua materna. docentes indígenas assumindo as salas de aulas. dos 14 próprios de aprendizagem. Para garantir este caráter intercultural. Alguns relatos das para a formação e a regularização da categoria e da comunidades apontam para esta realidade. 1 MEC/Inep. em favoráveis que uma pessoa externa à comunidade. a indígenas são impedidos de assumir as aulas devido escola indígena trabalha também com o princípio às exigências de nível de escolaridade por parte das da interculturalidade. tem condições muito mais indígena. uma vez que hoje os povos secretarias estaduais ou municipais de educação. que só podem assumir os anos iniciais por estes A Resolução 05/12 CNE/CEB/Art. público adequado às particularidades linguísticas entre outras. este compromisso não está povo Tapauá são indígenas. de seu povo. que assegura a Intercultural em Goiânia. Com a conclusão do Ensino Superior misso público do Estado brasileiro. E também pode significar preconceito são propostos cursos de formação aos professores em relação à competência dos professores indígenas. Isso significa inegável que o professor indígena. pela condição que praticamente a metade continua sendo não de pertença ao povo. Entretanto. 20 dá ênfase serem consideradas “mais fáceis”. No Ensino Médio e EJA. No Amazonas. 2013 CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Brasília. Segundo do docente indígena como essencial para que a esco.321 se declararam indígenas. ciências e a Educação Escolar Indígena como um compro. divulgado pelo Instituto larização possa ser. geral. Constituição Federal. inserida nos processos Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) 1. Já os professores não indígenas atuam e culturais das comunidades indígenas e a garantia principalmente no 2º segmento. É somente 7. Presença nas escolas indígenas presença de docentes indígenas atuando nas escolas indígenas é um dos temas funda- mentais na temática da Educação Escolar Embora tenha aumentado a presença de Indígena. os anos iniciais.Situação dos Docentes Indígenas A 8. alguns indígenas professores começam de ensino.CIMI 85 . Panorama da Educação Escolar Indígena. indígenas.1. indígenas encontram-se em contato com a sociedade ignorando-se toda a formação sociocultural própria não indígena. eles e de suas instituições formadoras. do 1º ao 5º ano. o Censo Escolar 2012. todos os professores entre o Na realidade. os professores indígenas atuam serem professores e gestores das escolas indígenas nas modalidades e níveis de Ensino: Infantil e Funda- deve ser uma das prioridades dos sistemas de ensino mental. visando consolidar atuam nas disciplinas específicas da cultura. conforme preconiza a mil professores que atuam nas escolas indígenas. carreira do professor indígena: “Formar indígenas para Em Tocantins. se a seguir. no das condições de remuneração. O novo modelo de Educação Escolar Indígena ainda é muito frequente a atuação de professores não vivenciado a partir dos anos 1970 coloca a atuação indígenas atuando nas escolas indígenas.

rapé. Eles são indicados por genas sobre a organização da escola e suas funções. a própria comunidade raramente aparecem nas escolas. outros 20 são contratados pelo estado. sendo três não indígenas e cinco indí. mas há também professores não indígenas. tanto nas concurso do município. todos no Ensino Fundamental. também no Mato Grosso. Atual- genas é maior que em Santa Catarina e no Paraná. Frasqueira. pela Universidade do Estado do Pará (Uepa). Há conflitos de diversas ordens. Houve um longo processo de preparação que ensinam do 1º ao 5º ano. no Mato sores não indígenas. fechou a escola. as No oeste paraense. mínima. Foi necessária a intervenção do MPF Na Escola Tapi´itãwa. para fazer com que os indígenas fossem respeitados. e secretários não indígenas. sendo sobre as direções das escolas. desautorizou caciques e de novos professores na comunidade. Em um nenhum outro professor indígena para preencher esta caso grave. Nas escolas Kaingang preva. Entretanto. Tapajó. os professores. Destes. Alguns são das Regionais de Educação e indígenas. o que é a escola diferenciada. A merendeira. Jaraqui e Carapreta. professores não indígenas indicados pelo município Kaingang e Xokleng. mas não fizeram genas. pelo critério de viver na aldeia ou porque fizeram lece a presença de professores indígenas. 62 são contratados pelos municípios e quatro de extremos conflitos e imposições dos não indí. os 12 é importante destacar que essa situação não garante serventes e as três secretárias são indígenas. ocupam o período letivo e não são previamente Na Escola Estadual Indígena Hadori. os dois vigias e o técnico dispõe de um contingente de 66 professores indí- do laboratório são indígenas. do povo Mỹky. gestão escolar. que administra que se destinava à formação de professores da zona as três escolas do povo Parkatejê. há diferenças entre os três povos: Guarani. trabalham oito dos professores. Esses mente não há presença de não indígenas e o quadro professores indígenas são responsáveis pela formação funcional é todo composto por indígenas. quando aparecem. do 6º ao 9º 86 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Contudo. Porém. genas que atuam do 6º ao 9º ano. escolas com a presença de 30 professores indígenas indígenas. que 11 deles atendem às escolas das aldeias Sede Os maiores conflitos e dificuldades acontecem e dez atendem às escolas das aldeias São Pedro e nas escolas Guarani. é indígena. sendo que os primeiros são contratados pela Semec de seus municípios. sendo um total de 17 genas dos povos Tupinambá. Arara funcionários no quadro da escola. a maioria dos professores Esses cursos acontecem com um calendário irregular. Entre os Nambikwara. por conta da Seduc que realiza cursos em Marabá. suas comunidades ou por suas lideranças. Tupaiu. são indígenas e a diretora é indígena. permanente. há situações Destes. Maitapu. Além da presença de profes. porque a Gerência Regional uma situação recente. de 2004 a 2012 todos os professores eram indígenas. Ensino Médio. Os demais professores são não indí- professores. através do programa de formação de No Rio Grande do Sul a presença de não indí. de três anos para cá. os membros da direção e da No sudeste do Pará há um conjunto de 12 coordenação pedagógica e os servidores são. Os dois diretores. Todos os professores estão atividades em sala de aula como nas atividades de em processo de formação em Magistério Indígena. em 2013. Kumaruara. Há casos de porém. Na Escola Xinui Mỹky. Este fato evidencia uma demanda de formação os móveis e livros da sala. do povo Apyãwa-Tapi. ainda não estão contratados. Os professores cursaram o Magistério no projeto Inajá. no ensino do1º ao 5º ano. mente esses professores estão em formação em áreas A direção na educação infantil em Santa Catarina é especificas no curso de Ensino Superior oferecido feita por não indígenas. de Educação (Gered) exerce um poder considerável Os professores não indígenas são 21. o conjunto das 17 escolas duas auxiliares de limpeza. todos. Nas escolas Xokleng pratica. contando com 16 professores indígenas contra- e a influência dos não indígenas sobre as escolas é tados. dez professores destes professores em serviço. do povo divulgados. Todos passaram pelo processo de formação claramente perceptível. A formação fica rural e indígena da região do Araguaia. Nos estados da região Sul do país. habilitação Magistério da Seduc. todos os diretores são não Grosso. A secretária e a coordenadora pedagógica não um curso preparatório. entre os Tembé Guamá. Vermelha. porém em quantidade No nordeste paraense. a coordenadora da escola recolheu todos vaga. Ainda são encontrados professores Ensino Médio propedêutico ou Ensino Superior. de modo que prejudicam a programação Iny-Karajá. solicitou a contratação de um professor não indígena têm a prática autoritária de impor regras e métodos para assumir uma das turmas porque não havia pedagógicos. mesmo sendo em menor número existem cerca de 500 alunos distribuídos em seis e mesmo não ocupando cargos de direção. o efeito escolas.

sob o sem receber nenhuma remuneração. do povo Iny-Karajá. Até mesmo a professora indígena que trabalha há 23 anos na escola não tem 8. Nos casos de Santa Catarina e Paraná. pois ficam sem contratos até a próxima atribuição. no Mato Grosso. ao 13º salário. Em relação às disciplinas arte e língua indígena. variando este dade dos professores é contratada temporariamente prazo de estado para estado. A quase totali- efetuados para alguns meses do ano. cípio de Luciara. argumento de que ainda se encontram em formação Na Escola Hadori. Esta situação indígena. pois lhe são negados o direito às férias gera muita tensão em algumas escolas e atrapalha a remuneradas. professores indígenas No Rio Grande do Sul. Do 6º ao 9º ano. Alarmante interinidade dos situação segura e garantida. passaram sores e professoras indígenas. desde 2012. é um verdadeiro dilema. dade aos docentes indígenas. não têm um profundo desrespeito ao profissional da educação gratificações e nem direitos trabalhistas. as 39 até que se realize outro. Os contratos são por concurso público não específico. Findado um contrato. além de ser sonegado dinâmica das lideranças. situação de interinidade de grande parte dos profes. Essa situação explicita – de março a dezembro. mas poucos grande rodízio de professores não indígenas devido estados e municípios conseguiram realizar concursos à alta taxa de desistência do trabalho ou porque não realmente diferenciados. os únicos professores indígenas efetivos. o concurso público específico garantiu a vaga de diversos indígenas em Outro grave problema que permanece é a sala de aula. todos os profis- os estudantes indígenas são obrigados a cursar na sionais da escola são interinos e a cada final de ano cidade de Altamira ou em outras sedes de municípios.ano. Há um indígenas resolveria estes problemas. Na região do Rio Xingu. Recebem menos.2. que não são aceitas pelas administrações regionais Povo Munduruku (PA) – Foto: Maurício Torres No Pará. Os caciques indicam pessoas tempo a ser contabilizado para a aposentadoria. os profissionais da Educação escolas contam com professores indígenas que são Escolar Indígena passam um longo tempo de espera monitorados por professores não indígenas. O concurso público específico para os docentes são os professores indígenas que lecionam.CIMI 87 . no muni- e ensinam somente do 1º ao 5º ano. que proporcionem estabili- correspondem aos anseios das comunidades. os Munduruku protestaram contra a demissão arbritária e política de 70 professores indígenas CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .

igualmente estão sendo O PST é pior que o Reda. perdas dos direitos assegurados aos professores Neste estado existem alguns professores indí. outros são professores do sores com 25 anos de trabalho que permanecem estado. como o pagamento de férias.) com a ampliação do número de profissio. “Desde que o estado assumiu um impasse com o estado pois. Em nossa comunidade. com contratos renovados sabe até quando essa situação poderá perdurar” anualmente. aqui. Xokleng e Guarani. PE. dos nossos educadores. Os critérios foram aplicados aos povos O cumprimento ao respeito à especificidade de Kaingang. Há profes- para as escolas indígenas. atendendo Especial de Direito Administrativo] e PST [Prestação a essa nova demanda com a ampliação do número de Serviço Temporário]. mas estes são minoria. efetivos. Quando se paga um a Educação Escolar Indígena continua a ser tratada salário mínimo. que antes inexistia. Lembram os professores. “Em Pernambuco. Realmente é diferente. Atualmente. com direito a renovar por mais dois anos. o governo escraviza os gente de alunos que eram obrigados a abandonar a professores indígenas. começa todo o sofrimento dos professores. os professores. até o momento. merendeiras. a do concurso é a falta de indígenas com formação maioria está trabalhando com três meses de míseros suficiente para atender a demanda. A maioria dos profes. contratação de professores indígenas e realização indiosonline. afinal. os professores Pataxó Hãhãhãe rariamente pela secretaria estadual de educação revoltaram-se contra o governo do estado. Dizem que a educação do índio é diferenciada.net 88 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . os professores vêm cobrando existe proposta de realizar um concurso público para a efetivação do emprego. Os professores indígenas contratados temporariamente serviços gerais. a educação do índio fica de profissionais contratados temporariamente ou comprometida. Lembrando que é pouco o salário A Comissão de Professores Indígenas de que se paga aos profissionais indígenas. comparado à categoria. A justificativa para a não realização temos mais de 40 profissionais educadores e. país. em média de Pernambuco (Copipe) denunciou que “desde 2002 R$ 674. Nesse diapasão. poderá perdurar. dades. o que gerou problemas cada povo. há nunca os respeitou2. como interinos. diminuindo o contin. Escolar Indígena tem aumentado significativamente. garantido por esta lei. reivindicamos a regularização do emprego serviço contratadas pelo estado”.. sores indígenas são “monitores” contratados tempo.que recebem o pior salário do sua aldeia para estudar na cidade. O Reda dura dois anos até terminar os a prorrogação dos contratos existentes.com família especialmente com a oferta do 6º ao 9º ano do que depende do pagamento do seu serviço pres- Ensino Fundamental e o Ensino Médio nas terras tado. insegurança entre os docentes e toda a comunidade É o que vem acontecendo. que através de concurso simplificado.de educação. que já vêm lutando até o presente. já que suas escolas. indígenas. através de empresas de prestação de indígenas. Quando resolvemos dar apoio Em Rondônia. o que acarreta atrasos nos salários e (Copipe. Ademais. salários atrasados. Há muito tempo que nós. não a educação indígena. No ano de 2012. preocupa parte com os Guarani que não tinham esses contextos em das comunidades e das entidades de apoio. a maioria dos professores é indígena. existem 58 povos indígenas no estado. a demanda de oferta de Educação pela efetivação do emprego há mais de 8 anos. no Mato Grosso.. em Santa Catarina. Houve um concurso “específico” no qual apenas nais contratados temporariamente ou a prorrogação três professores indígenas conseguiram ingressar dos contratos existentes. auxiliares de limpeza e agentes de sem distinção de raças. através do programa Reda [Regime com descaso pelo governo do estado. até o momento nada foi concretizado e os contratos o MPF teceu diversas orientações para a contratação continuam sendo feitos em caráter emergencial. a Educação Escolar Indígena Entre o povo Tapirapé. segurança. temporária. gerando insegurança entre como concursados. apesar da aprovação da Lei Estadual nº 578/10. o continua a ser tratada com descaso pelo governo do ingresso no Magistério ocorre por escolha das comuni- estado (. Na Bahia. hoje. que estabeleceu normas para a 2 Conforme notícia veiculada no sítio eletrônico www. como são humanos que merecem um respeito igualitário.. professores que não são indicados de concurso público específico para essa categoria. Trinta e sete professores perma- os docentes e toda a comunidade indígena que não necem como interinos. recorrem à justiça. 2013). 13º salário e a genas que são da rede municipal e estão cedidos contagem de tempo para aposentadoria. Cada vez que se renova o indígena que não sabe até quando essa situação contrato. gerando contratos.

A presença dos sábios indígenas é um impe- E. tanto nos processos efetivação dos contratos. se encontram em processo de formação. que atuam nas aldeias há a colaboração e atuação de especialistas em saberes mais de dez anos. Os contratos seu povo. As pessoas rança quanto às garantias trabalhistas. eles e elas são. no final das contas. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . a contratação de professores genas tenham nascido numa comunidade indígena indígenas ocorre por meio de processos seletivos e participado dos momentos formativos próprios de com contratos de caráter emergencial. necessárias ao bem viver dos povos indígenas”. Porém. Daí a enorme Público Estadual. torna a escravizar os nossos profissionais. Negação da participação dos efetivar o emprego dos profissionais.3. do Distrito Os professores indígenas reclamam da demora na Federal e dos Municípios a incluir. como os tocadores de instrumentos às mudanças no edital. O MPE está exigindo que a Seduc realize o acolheu como um de seus objetivos: “orientar os concurso público para os professores indígenas. e que muitos professores funcionamento regular da Educação Escolar Indígena. em geral. sistemas de ensino da União. (MPE) alegando irregularidades importância da presença delas nas escolas indígenas. Dados do Censo de 2012 da musicais. tocadores e de outras lideranças no funcionamento das escolas não é respeitada Povo Guarani-Kaiowá – Foto: Arquivo Cimi ao governador Jaques Wagner foi com o objetivo de 8. ficam fora dos contratos. parteiras. indígenas e não indígenas. dos Estados. pajés e/ou Seduc indicam que há 817 professores atuando nas xamãs. quanto no do início do ano letivo. embora os professores e professoras indí- No Maranhão. jovens que ainda duram 10 meses e os professores não têm segu. Em 2012.CIMI 89 . rezadores.A participação dos rezadores. que não acontecem antes de formação de professores indígenas. parteiras. Isso qualidade”. conselheiros e outras funções próprias e e 657 são não indígenas. organizadores escolas indígenas. os mais prejudicados são as rativo para que as escolas sejam realmente inseridas nossas crianças. o idosas são as que detêm os conhecimentos milenares seletivo foi suspenso por uma ação do Ministério acumulados por cada povo indígena. que precisam de uma educação de nos sistemas tradicionais de educação indígena. devido tradicionais. destes apenas 160 são indígenas de rituais. raizeiros. raizeiros. contadores de narrativas míticas. no edital. pajés. sábios indígenas com isso. porque. A assessoria jurídica da Seduc recorreu A I Conferência de Educação Escolar Indígena da decisão e uma desembargadora suspendeu a (2009) destacou este ponto e a Resolução 05/12 assim liminar. o mesmo torna a repetir a mesmice dos governos passados e.

Para isto. a importância da presença delas nas escolas 90 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . mais do que nós? Só os parte dos povos afirma que. é preciso reconhecer o notório saber e isto não é nidade não vai conseguir porque o RH [Recursos valorizado para o contrato do ancião. escola. Em um docu. tão pouca que apenas dava para manter a conta no também se pronunciaram a respeito da presença banco. Pediu à direção da mento síntese das reivindicações. também de saúde. Embora o parágrafo esteja claramente orien. professores não indígenas não são suficientes para O relato da Escola Xinui Mỹky. Daí. Esta experiência foi feita aqui nesta sugerido aos gestores indígenas. de fato. que nos dão garantia de tranquilidade espiritual e esta é uma realidade”. o ancião por várias vezes ficou muito dos idosos nos cursos de formação. A comu. de Brasnorte. Se ele quiser ser contratado. O melhor é vocês contratação da pessoa com notório saber. a demandaram a garantia da “presença dos mestres escola perdeu todo um trabalho considerado pela tradicionais nas etapas presenciais. do muitos e seguidos ofícios exigindo a efetivação povo Bororo. para uma Humanos] não tem recursos. Além disso. no Mato Grosso. mas não deu certo pois a remuneração era Os Guarani-Kaiowá. sem alguém que conheça os benefício do Bem Viver das comunidades. afirma que “após Um relatório da Escola Korogedo Paru. daí. um funcionário da própria Seduc deu rização dos anciãos para ensinar na escola. Esse tipo de tem que ser em nome de um filho ou neto. Greenpeace As pessoas mais velhas são as que detêm os conhecimentos milenares acumulados pelos povos indígenas. isso não ocorre. pois são eles comunidade como muito importante. os professores escola que mandasse cancelar o contrato. no Mato Grosso. Pois. afirma que “falta valo- desse contrato. é exigido o contratarem esse indígena como vigia da escola grau de escolaridade. o contrato um sábio no papel de notório saber’. e se for aposentada não pode e ele ficará exercendo o trabalho específico de contratar. como podemos ter tando os sistemas a incluírem esses contratos em um curso intercultural. município realizar um curso intercultural”. a maior conteúdos de nossa cultura. Assim. Infelizmente. a seguinte resposta: ‘Vai ser muito difícil. no Mato Grosso do Sul. chateado e findou desistindo. para que desrespeitosa mentira está sendo constantemente a pessoa receba.

os professores que a escola indígena possa ser autônoma. Categoria professor 2013 foi publicado um edital para a realização de um concurso para a contratação de professores indígenas. Em 8. envolvendo os jovens. indígena. abrindo espaço Educação Escolar Indígena e reafirmada nas Diretrizes para a especificidade indígena. de 16 de novembro de 2004. No entanto. a ausência de proposta que conseguiram realizar um concurso público que para a realização de concurso público tem causado realmente considerasse a especificidade requerida um impasse com o estado. Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena. como definidos. gurar com que os profissionais da educação tenham os seus direitos constitucionais assegurados. Essa situação foram regulamentadas pela Lei nº 18. insegurança quanto aos direitos trabalhistas (rece. o que gera atender a demanda. O Maranhão nunca regulamentou uma legis- promulgada pelo CNE em forma da Resolução 03/99. em tramitação naquela casa realização de concurso público específico repre. nos relatos apresen- de professores que são mestres tradicionais. no Mato tamente possível e já foi efetivada em alguns estados. a criação da categoria de professor do baixo salário que recebia. Esses são componentes importantes para antes da regulamentação feita pela lei. a categoria professor indígena bimento de férias.629. é perfei. plano de carreira para os professores indígenas. legislativa. Em Tocantins. uma dificuldade enfrentada é a contratação como é demonstrado. Em como o plano de cargos e carreira está sendo discu- relação ao estabelecimento da categoria professor tida no CEEI-TO. que não pode ser a posterior realização de concurso público específico contratado porque tem mais de 70 anos. Por considerarem baixa a aprovação do mente. concurso público. Realizado em janeiro de 2014?. assegurados em diversas legislações. Outro caso foi o do indígena nos quadros do serviço público estadual e professor de cantos cerimoniais. lação que contemple o que está definido na Resolução amparada pelo Parecer 014/99. do CEB/CNE. seletivo simplificado. aprovados.CIMI 91 . na reunião de maio de é semelhante. de 2010. A situação ainda não foi resolvida e. e gera muita frustração. Na Escola Tapi’itãwa. escolas indígenas e apontava a necessidade urgente A Assembleia Legislativa do Estado do Ceará de se regulamentar a carreira de Magistério Indígena. os indígenas realizaram um formação adequada e plano de cargo e carreira protesto. Grosso. as Diretrizes para a Política Nacional de Estadual de Educação do Tocantins. CEE/PE nº 05. mas tados em um documento da Copipe. contagem contínua ainda não foi regulamentada. Através de um tenham os seus direitos constitucionais assegurados. A criação da categoria Escola Indígena em No Ensino Médio. Esta questão assim do tempo para aposentadoria. nem há genas. ela necessita ter um corpo docente com número de professores. de 2013: não possuem a escolaridade exigida pelo estado. O Parecer indígenas que não foram aprovados ou não fizeram 014/99 já mencionava a precariedade existente no o concurso são contratados temporariamente. do povo Tapirapé. um professor de artes que realizou Pernambuco foi regulamentada pela Resolução do um excelente trabalho de recuperação das cestarias. os professores são contratados Entretanto. não foram criadas as A garantia dos direitos dos professores indí. plano de carreira no entanto. a seguir. acabou desistindo por causa Na Bahia. tem realizado audiências públicas para discutir um A criação da categoria de professor indígena projeto de lei sobre a regulamentação da escola e nos quadros do serviço público estadual e a posterior do professor indígena. mesmo que esta necessidade já tenha 2013. O Conselho Estadual de Educação indígena e de um plano de carreira próprio. A Seduc justifica alegando pela Educação Escolar Indígena. ele previa 360 vagas. sem país quanto à contratação dos professores para as as garantias trabalhistas. pois as decisões tomadas pela representa um passo significativo no sentido de asse- comunidade não são respeitadas. são poucos os estados e municípios temporariamente. Em CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . permanecendo a que não há indígenas com formação suficiente para situação de interinidade dos profissionais. 13º salário. 03/99. Desse modo. que o Plano e Cargo e Carreira do professor sido apontada em 1993 no documento emitido indígena entrasse na discussão junto com o Plano pelo MEC. a situação Escolar Indígena aprovou. categorias de professor e de escola indígena. apenas 126 professores indígenas foram Para a escola indígena funcionar adequada. dentre outros).4. sentam um passo significativo no sentido de garantir Em Alagoas não foi regulamentada a categoria que os profissionais da Educação Escolar Indígena de escola nem a de professor indígena.

juntamente com o representante da para um grupo ampliado de indígenas e não indí. promover um concurso para o cargo de Sabedor a secretária alegou que os indígenas não tinham o Indígena”. essas demandas estavam em discussão na Seduc 8. como ilustram. em dois momentos. o qual contempla o cargo de professor completo para serem contratados. A minuta foi apresentada. o ingresso no Magistério se no final de fevereiro de 2014 sob a alegação de não deu através do Curso Hayiô. juntamente com que seus contratos foram encerrados no final de representantes dos órgãos governamentais afins e 2012 e não foram renovados para 2013. uma legislação específica para o ingresso e de 17 de julho de 2012. os discussão para a elaboração do Plano de Cargo e relatos a seguir. a Lei Estadual nº 9. os professores são já atuam em sala de aula. nada desta Sarney Kanamari (aldeia Bauana). Haimon (Jacaúna). Carreira do professor indígena. no Mato Grosso. do Rio Grande do Sul e a Bahia. Contempla também a contratação de específicos. como já indígena. contratados em regime temporário. Ambos reali- cício do Magistério é feito por meio de indicação das zaram concursos em 2013. de fato. na maioria dos estados e muni- Ainda no Maranhão. ainda não foi feita uma discussão com do Índio (Funai) do município de Carauari. de modo pungente. A Seduc. estaria exigindo que existe o plano de carreira para todos os professores os professores indígenas tivessem o Ensino Médio do município. que. pelo MEC. Cargos e Remuneração dos integrantes do Subgrupo constata-se uma grande ingerência dos gestores Magistério da Educação Básica. aldeia. no Amazonas. até o momento.5. Em julho de 2013 foi municipais na escolha dos professores a serem criada a Lei Estadual nº 9. demitidos de suas funções indígenas. terem completado a escolaridade exigida. construída com a participação de pais. plano. que temporária tem sido usada para perseguir profes- pouco ou nada teve de diferenciado. do Mato Grosso. Arô José Kanamari e o tuxaua da 578/2010. Reclamaram entidades indigenistas.664. adequado à realidade dos povos Munduruku. Os mesmos relataram professores e lideranças indígenas. povo indígena Kanamari. indígena. Wanen Kanamari (aldeia Taquara). Apenas alguns estados têm oferecido professores sem esta habilitação desde que tenham essa modalidade de efetivação.2013. o MPF e um representante da postura da secretária municipal de educação de do Tribunal de Contas. a forma de contratação concurso exclusivo para professores indígenas. como os estados o Ensino Fundamental completo. porém com vagas abaixo comunidades. dando preferência aos professores que da demanda. Para os Mỹky. reuniu- uma plenária maior de indígenas e. Porém. pressionada No dia 19 de abril de 2013. Ensino Médio completo e que estava sendo cobrada No município de Comodoro. portanto. em julho de 2006. Leinice Barros. sores e até mesmo demití-los injustamente. No entanto. A aprovação dessas leis fortaleceu a nidades. desrespeitando a decisão das comu- do Educador. Ingerências de gestores devido ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). que. para a carreira do profissional de educação indígena. cípios. Foi realizado. entre o MPF e o estado do públicos Maranhão. sem consultar os mora- Indígena e um quadro administrativo próprio para dores das aldeias. não há se com lideranças indígenas da aldeia Taquara. Coordenação Técnica Local da Fundação Nacional genas. através da Secretaria de Educação Escolar. Procurada pelos lei foi aplicado. O ingresso no exer.860 que trata do Estatuto contratados. O plano garante a realização de concurso Um importante desafio para os professores específico para professores com habilitação em indígenas é a baixa oferta de concursos públicos Magistério. firmado em março de 2012. Seguros 92 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Foi o fala-se em um novo concurso sem qualquer segurança que ocorreu com 70 professores indígenas do povo de que seja. Atualmente. no Pará. um Para agravar a situação. não existe um plano de carreira no estado mencionado. Adriana público para o preenchimento dos cargos criados Kulina e Pedro Kulina (aldeia Matatibem) e Arô José por essa lei. De modo geral. demitiu os professores Ahe Joabe as escolas indígenas. segundo ela. com o argumento de que é “difícil indígenas para esclarecer o motivo da demissão. Como não há. criou uma comissão para elaborar este Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Tefé. do previsão de data para a publicação. criou o Plano de Carreiras. com os professores Ahe Em Rondônia foi criada a Lei Estadual nº Joabe Kanamari. Esta lei criou o Magistério Carauari. o que significa Apesar de considerar a categoria de professor perdas salariais e de direitos trabalhistas. além de estabelecer o concurso Kanamari. a equipe do pelo TAC.

cada povo. loca. Rio Tapajós. Ainda não foi secretário e a readmissão imediata dos 70 profes. Se não houver o preenchimento das Essa realidade retratada demonstra uma prática da vagas pelos indígenas. Essa mente. Queremos a professores indígenas. Em 13 de eles divulgaram um manifesto em que afirmavam junho de 2006. evidenciando um profundo exclui as comunidades das discussões e decisões em desrespeito pelas formas próprias das comunidades todo o processo da Educação Escolar Indígena. queremos respeito. secretário . somos educadores. Na ocasião. elaborado um concurso público para essa categoria sores. além de melhorias na educação. que devem ser contratados. demissão do secretário de educação já.CIMI 93 . sendo que não há uma política definida lizada no oeste do estado. e os contratos sempre foram emergenciais. o que gerou preocupações por parte das dade! Queremos respeito. todos os professores são contratados nessa lei foi revogada e está em tramitação a Lei 578-2010. ocuparam a Secretaria Municipal de Educação. modalidade). povo Munduruku. comunidades e das entidades de apoio. escola foi implantado esse nível de formação. Neste estado.   u PovoTruká (PE) – Arquivo Cimi Os professores indígenas são fundamentais para a compreensão da dimensão da luta indígena e para a formação de novas lideranças nas comunidades CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .de que tratava-se de perseguição política – por de escolherem as pessoas que atuarão na educação serem contrários à construção das hidrelétricas no escolar de seus filhos. aprovado pelo “Nós. Indígena. o contexto é de grave inope- –. já que ficaram Um caso ocorrido em Santa Catarina exem. professores não indígenas política anti-indígena generalizada do estado. sendo que em nenhuma para a contratação de professor temporário (pratica. ocorrem em todo o país. esta lei não respeitou a especificidade de Lúcio! Fora! Fora! Queremos uma educação de quali. o Projeto de Lei nº 349. Nós não governo. exigindo a renúncia do para a contratação de professores. que inundarão várias aldeias do seu povo Em Rondônia. com dúvidas em relação à autonomia da comunidade plifica um universo de situações complexas que na escolha do professor e à estabilidade no emprego. Fora Pedro Porém. estabeleceu normas para a contratação de somos analfabetos. rância do Estado em relação à Educação Escolar Cultura e Desporto (SEMECD) de Jacareacanga. o Ministério O grau de escolaridade mínima exigido é o Ensino Público Federal exigiu a realização de provas e títulos Fundamental completo.

Capítulo IX É atribuído aos professores o papel de articuladores dos saberes do universo sociocultural dos povos indígenas com os saberes da sociedade não indígena. A expectativa é que eles contribuam para o estabelecimento das pontes que ligam os diferentes universos de conhecimentos A superação da concepção de que os povos originários são um obstáculo para o país é uma das motivações do trabalho dos professores indígenas Povo Tenharim (AM) – Foto: Patrícia Bonilha .

São percep- dos saberes do universo sociocultural dos povos ções assim que explicitam que não basta acessar a indígenas com os saberes da sociedade não indí. indígena Kaingang requeridas pela formação de professor indígena. através do sistema Todo o programa de educação escolar implantado CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .Formação dos Professores Indígenas “Agora. universos de conhecimentos. juntamente com as demais pessoas da comunidade. a partir do espaço escolar. Do monitor ao professor as novas gerações de crianças e jovens do seu povo. questionou a finalidade do ensino supe- Escolar Indígena. um convênio assinado pela Fundação Nacional do rais. universidade. escolas técnicas Não compreende. da T I Toldo Chimbangue. a qual o governo brasileiro entregou a responsabili- mente a oferta de cursos específicos para a formação dade sobre a Educação Escolar Indígena através de de professores indígenas nas licenciaturas intercultu. e que foi renovado em 1973. é preciso discutir que tipo de ensino gena. Essa Os novos não compreendem. Obviamente. além da possibilidade dos indígenas ocuparem Índio (Funai). Nesse sentido. visto que frequentemente rior oferecido pelas universidades e a relação dele é atribuído aos professores o papel de articuladores com o projeto de vida da comunidade. quais são os espaços próprios eram os responsáveis pela tradução dos conteúdos.1. Mas trata-se de abordar elementos miam na escola. realidade foi conquistada pelos povos indígenas após Compreendem na aula. continuavam sendo chamados e pela sociedade brasileira. são responsáveis por formar 9. superando de quem educa o educador e qual a base política. O processo de formação de professores está Destacamos dois desafios que emergem dessa intimamente relacionado às mudanças que ocor- situação: o primeiro relaciona-se com a problemática reram com a escola nas terras indígenas. ocorrendo. fundamentais que poderão auxiliar na reflexão sobre Este modo de tratar o professor indígena de a oferta de formação em Magistério e Ensino Superior forma minorizada foi introduzido pelo Summer Insti- para os professores indígenas. Tá assim! e em universidades particulares e comunitárias. Esta liderança. em 1969. A expectativa é que eles contribuam para o é necessário e fundamental para dar continuidade estabelecimento das pontes que ligam os diferentes ao projeto histórico dos povos indígenas. falecida em 2014. filo. muitos anos de luta. o que tem por aí tudo é novo! de cotas nas universidades públicas. É relevante o questionamento de uma liderança com aproximadamente 110 anos) Guarani-Kaiowá que afirmou que não desejaria ver seus parentes formados em medicina veterinária A formação de professores indígenas é um dos para cuidar de bois de fazendeiros. porém constata-se que o ensino Meu sistema é outro! Meu sistema é outro! “ nem sempre está atento às demandas e singularidades (Fe’nó. entidade estadunidense para Ultimamente. na escola. vem crescendo consideravel.CIMI 95 . em que sófica e cultural de sua formação. esses dois de monitores. principais desafios na construção da Educação portanto. eles. tute of Linguistics (SIL). vagas individuais em outros cursos. o modelo que imperou durante décadas. o segundo desafio professores não indígenas lecionavam para crianças vincula-se aos fatores de quando e onde ocorrem a na língua portuguesa e os monitores indígenas formação do educador. uma evidente desafios não excluem outros. portanto. tampouco esgotam esse discriminação em relação ao papel que eles assu- complexo tema. de formação nas comunidades indígenas e quais Mesmo quando os indígenas assumiam sozinhos a são os espaços de formação oferecidos pelo Estado regência das salas.

formação que dê conta de preparar professores aptos As demandas dos povos indígenas foram sendo para dialogar com a diversidade sociocultural. através da colaboração das universidades leitura. [até 2003] um previa não só a publicação “de cartilhas para alfa. nos casos neces- integração passou a ser questionada e combatida. diversas conquistas nos processos de formação. sores para a elaboração de currículos e programas Nos anos 1980 os professores indígenas assu. para uso nas escolas instaladas em específica. de 2001. gena alicerçada na cultura de cada povo só seria Percebe-se que o exercício do Magistério Indí- possível se à sua frente estivessem como docentes gena requer uma atenção especial. Alguns estados começaram a ofertar opressora e colonizadora que ainda está presente cursos de formação para professores em nível de dentro e fora das comunidades indígenas. a profissionalização e reconhecimento nas recentes Diretrizes Curriculares Nacionais da público do Magistério Indígena. suas comunidades”. é melhor atendida através de professores iniciado na década de 1970. (Art. na vida cotidiana.. Professores e professoras específica do magistério. embora de forma perspectiva de desconstruir a concepção de escola lenta e restritiva. § 2º). Os programas e como gestores os próprios indígenas oriundos das mínimos não são suficientes. 7º. 2013. adequada às peculiaridades culturais dos diferentes A partir da ação do movimento indígena. ensino deveriam reconhecer a profissionalização pública do Magistério Indígena. concomitantemente à sua própria escolarização. 234-235). valorizando 96 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . nos sistemas legal e é contemplada em diversos documentos e estaduais de ensino. com a criação da categoria de professores indígenas como carreira 9. sários. mas também “a preparação de livros de superior. sendo necessária uma respectivas comunidades. plano para a implementação de programas especiais betização em língua indígena e para o ensino de para a formação de professores indígenas em nível português”. povos. garantindo Há consenso de que a formação do professor a esses professores os mesmos direitos atribuídos indígena acontece primeiramente e principalmente aos demais do sistema de ensino. Educação Básica. com a criação da categoria de professores indígenas como carreira específica do magistério. com níveis de remuneração rizar os modos próprios de conhecer.. porém os desafios e as necessidades de avanço ainda o PNE determinou que os sistemas estaduais de são enormes. registros de literatura oral e a tradução de e de instituições de nível equivalente”. Essa concepção tem amparo 1 A Meta 15 recomenda “Instituir e regulamentar. O movimento refletiu que a escola indí. Foi através do Plano Nacional de Educação Nesse espaço de tempo em que foi afirmado (PNE). para os idiomas indígenas” (LEITE. Na meta 15 1. Magistério. específicos para as escolas indígenas. O convênio aos estados “formular. O acúmulo de experiência possibilitou o questiona. de modo a valo- esses professores os mesmos direitos atribuídos aos demais do mesmo sistema de ensino. goria professor indígena foi reforçada.2. investigar e correspondentes ao seu nível de qualificação profissional” sistematizar de cada povo indígena. A meta 17 do mesmo plano recomendava a política do governo federal da época. 2012. com concurso de provas indígenas e títulos adequados às particularidades linguísticas e culturais das sociedades indígenas. ao explicitar que com concurso de provas e títulos adequados às particularidades “os saberes e as práticas indígenas devem ancorar linguísticas e culturais das sociedades indígenas. garantindo a o acesso a outros conhecimentos. no “saber fazer” da comunidade. Neste processo questionaram a forma sistematização e incorporação dos conhecimentos assimilacionista e integracionista pela qual estava e saberes tradicionais das sociedades indígenas e sendo gestada a educação escolar.) a condução miram o tema da educação escolar e da formação de de pesquisas de caráter antropológico visando à professores. textos bíblicos e outros de alto valor cívico e moral O PNE reconheceu que a formação bilíngue. Determinou também. com remuneração nas próprias aldeias.nas terras indígenas por esta instituição pautava-se correspondente ao seu nível de qualificação profis- pela perspectiva assimilacionista em consonância com sional. p. (. em dois anos. a prática da tutela e da indígenas. na incorporadas pelo Estado brasileiro. novos projetos de educação escolar diferenciada e bilíngues ou não. a formação desses professores em serviço. “A mento à forma como o Estado brasileiro abordava a formação que se contempla deve capacitar os profes- Educação Escolar Indígena. que a necessidade de formação foi o direito de ser “professor indígena” aconteceram impulsionada e a necessidade da criação da cate. propondo construir à elaboração de materiais didático-pedagógicos.

que. inclusive da língua muitos lugares. a seleção do maneira geral. Essa formação não é contemplada municípios. passaram pelas escolas e conseguem analisar criti- foram formados academicamente em um meio que camente a situação de contato com a sociedade nega o universo sociocultural das comunidades. O diálogo permanente dos professores com os Entre os critérios utilizados para a contratação sábios de seus povos é o que garantirá a especifici- de professores indígenas adotados pelos estados e dade da educação. Pouco valor é atribuído implica em um desafio para as comunidades e. ocorreram processos intensos de resistência sistema “de fora”. perspectivas para a Educação Escolar Indígena. No envolvente. o professor especial. federativos responsáveis pela gestão da educação. Portanto. e. é possível afirmar que o domínio sobre professor é feita pelo domínio do conhecimento os saberes e práticas indígenas geralmente é de xamãs não indígena. que promovia a integração. mas na vivência cotidiana. não conseguem alçar à categoria e oposição ao regime opressor que abriram novas de professor. sem a titulação exigida pelo entanto.formam crianças reproduz o modelo não indígena e coloca-se como e jovens e orientam a comunidade no modo de ser. e de outras lideranças tradicionais. comunidade indígena. experien- a maior pontuação.permanentemente. há muitas sores atuais são jovens que passaram pela escola lideranças indígenas extremamente sábias que não não indígena. de para ser professor indígena. os profes. é motivo de conflitos com os entes indígena . Por outro lado. nos momentos de rituais . frequentemente. porém. o nível de escolarização é o que confere na academia.CIMI 97 . Povo Guarani-Kaiowá (MS) – Foto: Egon Heck Muitas lideranças indígenas e anciãos extremamente sábios não passaram pela escola.” Essa definição da escrita em português. Ou seja.a oralidade e a história indígena. em aos conhecimentos específicos. mas contém toda a memória dos saberes de seu povo CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . além do domínio da leitura e ciando os modos de saber e fazer próprios. no geral. como os chefes Pelo fato de a escola ser uma estrutura hierar- cerimoniais que . detentor de um poder que não lhe foi conferido pela Por outro lado.no caso dos povos que a falam . de modo quizada imposta às sociedades indígenas. não fazem parte dos critérios definidores Na organização sociocultural dos povos.

o próprio Estado providências. a terra regularizada não é sinô- terras indígenas no Brasil não estão regularizadas nimo de tranquilidade. Além das invasões feitas e mais de 30% (Cimi. assassinatos de lideranças. Os processos Todas essas situações de restrição ou negação de regularização das terras arrastam-se por décadas do direito dos povos indígenas ao território vêm enquanto a comunidade indígena sequer tem espaço acarretando situações de extrema violência. de 2013. como casos de acampamentos em beira de estrada que. hidrelétricas. mesmo demarcadas. atro- as atividades produtivas tradicionais. o trabalho assa- para seus processos formativos (. 2014) estão sem quaisquer particulares. rodovias.. lariado nas cidades ou nos canaviais em turnos de as diretrizes acentuaram a relevância do território mais de 12 horas é apontado pelo mercado como a para o bom desempenho da educação escolar e alternativa possível de sobrevivência para as popu- para a continuidade da educação tradicional. povos indígenas. dentre há décadas. “a centralidade tenham condições dignas de vida. definem como reiros. queima de acampamentos.3. Ocorre que ao menos 57% das Por outro lado. como para construir casas. resistem à usurpação de suas terras e outros. garimpeiros e acabam limitando e ameaçando elemento básico para a organização. 4º). Nesse sentido. dentre elas indígenas vêm crescendo totalmente distantes de muitos professores indígenas..)”. Gerações de pelamentos. do território para o bem viver dos povos indígenas e Desse modo. são muito pequenas ou As Diretrizes Curriculares Nacionais da constantemente invadidas por fazendeiros. a estrutura e o o modo de viver dos indígenas. ferrovias e aeroportos. brasileiro causa insegurança ao futuro desses povos Nas regiões centro-sul do Brasil é gritante os com inúmeros projetos de infraestrutura. Outras terras. que não têm nada a ver com como para a continuidade da vida e da cultura dos aquela maneira de produzir ou existir. além da destruição Egon Heck O papel do professor indígena também é definido pelo território. mencionadas acima. assim lações tradicionais. Importância do território um lugar onde possam viver dignamente. madei- Educação Básica (Art. quanto mais para desenvolver invasões de aldeias. lutam pela devolução das mesmas. já que cabe a ele ser um dos agentes dinamizadores da garantia desse direito 98 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . não permitindo que funcionamento da escola indígena. muitas vezes.9. que impossibilitam o Bem Viver.

além de procedimentos de avaliação espaços suficientes para promover a formação na que considerem a realidade cultural e social dos própria cultura. Analisando os diferentes e contribuir para a reconquista dos territórios. Certamente. em outros cursos de licenciatura específica homens educam-se entre si. gestores que ele reúna as melhores condições de compreender escolares para as 2.CIMI 99 . mediando e articulando os interesses de suas Para os povos. estudantes com o objetivo de lhes garantir o direito Nesses contextos. ditos universais. Observa diferentes espaços – magistérios. os professores são desa. demonstrando clara. em cursos de Magistério Indígena de nível CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . portanto. Por sua vez. específica. fiados a se formarem para transformar a escola num espaço de valorização da história e da cultura 9. Esse deve ser um A formação acadêmica do professor em seus compromisso público do Estado brasileiro. ele manifestou seu entendimento e da interlocução. os conheci- batata e cana-de-açúcar. de enfrentar o mundo de fora das aldeias a partir de O papel que cabe ao professor indígena seu meio sociocultural. também que a formação inicial deve ocorrer em cíficas ou outras licenciaturas – é um desafio ainda cursos específicos de licenciaturas e pedagogias maior. licenciaturas espe. ou não. contemplando para Educação Básica observa que deve ser priori- ações voltadas à manutenção e preservação de seus dade dos sistemas de ensino e de suas instituições territórios e dos recursos neles existentes” (Art. além de plantas como mandioca. aos mente que sem a terra não há educação e perdem-se gestores da formação indígena a tarefa de promover os aspectos determinantes da cultura do povo. de outro. ou. promovendo a interligados. e. 19 § 1º). especialmente milho. os conhecimentos das sementes de cultivares. A ele é atribuída Para construir a Educação Escolar Indígena a responsabilidade de ser um dos agentes dinami. Cabe. Essa o diálogo intercultural para que o professor sinta-se concepção evidencia o quanto a dimensão territorial em condições de trabalhar com seus alunos o modo tem relevância na vida das comunidades. os o caso. os territórios indígenas e os comunidades com os da sociedade em geral e com conhecimentos tradicionais estão profundamente os de outros grupos particulares. diferenciada. Espera-se também genas proporcionem aos docentes o conhecimento que ele saiba argumentar perante a sociedade não de estratégias pedagógicas e materiais didáticos indígena o quanto as comunidades precisam de e de apoio. deve ter acesso. quando for educa ninguém. “ninguém interculturais ou complementarmente.4. contextos escolares indígenas”. da Comissão Nhemonguetá (organização Guarani de O § 2º do mesmo artigo especifica o conteúdo Santa Catarina). o aumento do número de que os professores indígenas “são os interlocutores suicídios entre os povos indígenas está relacionado nos processos de construção do diálogo intercul- a essas violências. a escola deve tornar-se um espaço de contextos relevância “para o projeto societário e para o bem O Art. Durante uma reunião práticas” (Art. tural. também é definido pelo território.4 § formadoras formar indígenas para serem professores 3º das DCN). indígena amendoim e feijão. Explicou que o fundamental cimentos que se apresentam e se entrelaçam no para a manutenção da cultura Guarani é a preservação processo escolar: de um lado. bilíngue e intercultural é zadores da garantia desse direito. 2010). ainda. tanto indígenas (Inep. porque espera-se necessário formar. É o que explicita o depoimento de Benito sistematização e organização de novos saberes e Oliveira. em relação aos aspectos legais como aos adminis. ninguém se educa a si mesmo. próprios ao seu grupo social de manutenção dessas espécies é mais importante que a origem que hoje assumem importância crescente nos manutenção da própria língua. além de professores. Benito afirmou ainda que a mentos étnicos. líder religioso Guarani. e utilize-as em sintonia com a organização formação inicial e continuada de professores indí- sociocultural de sua comunidade. 20 das Diretrizes Curriculares Nacionais viver de cada comunidade indígena. a que todo estudante. Como bem pontuou Paulo Freire. Para tanto. à educação escolar (Parecer CNE/CEB nº 14/2011). mediatizados pelo mundo”. e gestores das escolas indígenas.836 escolas localizadas em terras os mecanismos da sociedade não indígena. “buscando criar estratégias para sua preocupação em relação à manutenção do modo promover a interação dos diversos tipos de conhe- de ser Teko (Guarani).e do roubo de recursos naturais dentro das áreas As Diretrizes Curriculares Nacionais definem indígenas. é necessário que os processos de trativos.

fez licitação e eeinacional/Rb6wTpb9cLQ 100 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . e destinado aos povos Paumari. disso. que os alunos dade do curso. iniciado em 2001 pelos municípios Tapauá Os maiores déficits e desafios são apresentados e Jutaí. as secretarias dos povos com os quais estão trabalhando. A oferta de formação em magistério municípios. são pelo menos 24 cursos (em cialmente. indígenas. a secretaria estadual rior e Licenciaturas Interculturais Indígenas (Prolind) da educação oferece o curso Ára Verá para profes. prejudicando a formação e eviden. Uma segunda turma foi iniciada em 2008. além de deveriam ocorrer na comunidade. Chapecó (Unochapecó) que não conta com recursos Como resultado desses fatores. muitos professores do Prolind. estados e municípios. toda demanda. médio na modalidade normal. fundamentalmente. Uma empresa promotora de eventos indígenas estão permanentemente confrontando. Além. a língua e a pedagogia própria Nos estados do Sul e Sudeste. à continuidade de experiências como essa. a história. como o oferta de formação aos professores indígenas. no Amazonas.google. em diversos estados e é cumprida. Caso semelhante ocorreu no de recurso financeiro mas. de lideranças e sábios são outras características Um dos exemplos negativos que se sobressai é o caso da Secretaria de Educação do Estado do Amapá 2 Disponível em: https://groups. A formação poderá contratou a empresa K&M Ltda–Me2 para executar ocorrer em serviço e concomitante com a própria a formação dos professores Wajãpi. não A pesquisa na comunidade e o envolvimento ocorreu nenhuma etapa do curso. pela formação continuada. em relação às etapas de formação que 17 universidades federais e sete estaduais).com/forum/#!topic/ que. Programa de Formação para a Educação Escolar professores dos dois estados registraram no docu- Guarani nas Regiões Sul e Sudeste do Brasil. Guarani independentemente dos limites estaduais. Desde então. Kuaa mento final do evento uma breve análise dos prin- Mbo’o – Conhecer e Ensinar. os professores foram recentemente e apresentaram demandas no sentido certificados em 2011. com o objetivo de firmar convênios com Instituições sores Guarani e Kaiowá. Iniciado em 2003 e com cipais problemas que têm enfrentado histórica e término previsto para 2008. têm abandonado o curso. demonstrando total desrespeito e irrespon- incompetência na oferta e execução dos programas. porém. Não se trata de falta Deni. gerou descrédito entre os Guarani em relação indígenas tem se destacado nos últimos anos. também no Amazonas. Em 2005. inexperientes para executar atividades de alta rele- No entanto. algo vital como a formação de professores em mera Os distintos contextos em todo o país revelam mercadoria. de educação ofertaram conjuntamente um curso Reunidos no I Encontro de Educadores Indí- de Magistério para o povo Guarani denominado genas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. o curso está sendo negligenciado. O curso não foi concretizado específicos em quantidade suficiente para atender como planejado. espe. Na avaliação dos professores de Ensino Superior (IES) para a formação de professores indígenas. Em 2013. Kokama e Apurinã. o Estado abriu comunidade e possibilita o diálogo entre os saberes uma licitação para ver quem assumiria a continui. com recursos do PAR Indígena. transformando escolarização dos professores indígenas. que só foi concluído em pedagogia da alternância. Pirayawara. mas na universidade complementado com um tempo na só teve duas etapas e parou. muitas experiências têm demonstrado total vância. quando esta formação ciando a incompetência do município para ofertar acontece é realizada por pessoas que desconhecem formação para os professores indígenas. onde a competência dos entes federativos responsáveis pela prefeitura. em 1996 ocorreu o primeiro de acesso ao Ensino Superior e se caracterizam pela curso de Magistério Indígena. Em geral. “científicos” com os saberes próprios. em parceria com o estado. para oferecer cursos de Magistério Indígena. Esses cursos têm se tornado a principal forma No Maranhão. a cultura. sabilidade das secretarias de educação em relação à Há cursos que até hoje não foram concluídos. de município de Itamarati. em andamento em 17 estados. não um curso na Universidade Comunitária da Região de há respeito à língua indígena e à cultura tradicional. A oferta da Educação Superior para os povos Porém. Ocorre que este não é um caso isolado que a legislação vem sendo burlada e raramente e tem sido prática corrente. a contratação de empresas ou pessoas compete aos entes federativos. que constitui um tempo 2001. até o momento. realizou o curso formação do professor indígena. Foi uma experiência importante de melhorar substancialmente a Educação Escolar por ter considerado a dinâmica territorial do povo Indígena (veja quadro ao lado). ganhou a licitação. o MEC lançou o Programa de Apoio à Formação Supe- No Mato Grosso do Sul.

Que seja garantida a participação indígena na gestão das escolas. nossos professores estão se organizando através de uma articulação e da formação de uma comissão indígena composta por representantes dos dois estados. sentido. são realizadas apenas duas Os cursos de Licenciaturas Interculturais Indí- etapas anuais.Criação de espaços internos dentro das coordenadorias/gerências. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO .Criação e garantia de um sistema educacional próprio para os povos indígenas. impedem nossos povos de ter acesso a uma educação diferenciada baseada em nossos costumes. por exemplo. que eles permaneçam o tempo todo na universidade. além de que estes órgãos garantam nosso direito a uma educação baseada nas especifi- cidades de cada um dos povos que assinam este documento: . são genas têm sido a principal forma de acesso ao Ensino programadas seis etapas anuais. . . aproximando assim os setores pedagógicos e de relações humanas das demandas das comunidades. tradições e especificidades de cada povo. . como a Funai. Guarani Mbya e Xokleng. o Paraná. Porém. inclusive em cargos de direção e coordenações. e aulas. onde os indígenas possam discutir e deliberar de forma direta suas políticas e ações para a educação. professores indígenas dos povos Kaingang. qualidade depende da participação ativa do movi- Essa modalidade de licenciatura permite que os mento indígena e do empenho e compromisso das alunos façam a formação em serviço e não demandam Instituições de Ensino Superior.importantes da proposta pedagógica dos cursos. A Universidade do Estado do Mato Grosso O formato do Tempo Universidade depende das (Unemat) foi a primeira a oferecer o curso de formação características regionais. Os cursos de licenciatura possibilitam a concre- Através de um edital específico. que seja garantida a participação dos povos indígenas na elaboração do mesmo. para isso. aprofundar a discussão a respeito do Programa Nacional dos Territórios Étnicoeducacionais. Nos casos de maior da Licenciatura Intercultural Indígena. participantes do “I Encontro de Educadores Indígenas do RS e SC” realizado nos dias 3 e 4 de Maio de 2014. Frente a isto. através de suas oito universidades Documento Final do I Encontro de Educadores Indígenas do RS e CS Nós. tização da formação específica dos professores indí- nibilizado recursos para o gerenciamento desses genas e podem contar com os sábios para ministrar cursos. Nesse semanas. a das IES e de conveniados. de 1988.CIMI 101 . ferindo assim nossos direitos conquistados em luta e a própria Constituição Federal. representando 14 terras indígenas e mais de 20 aldeias dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. distância ou dificuldade. totalizando 14 Superior juntamente com a reserva de vagas. A falta de autonomia dos povos indígenas com a gestão de suas escolas. em Chapecó (SC).Junto ao MEC.Criação de concurso público para a efetivação de professores indígenas.Que seja garantida a formação continuada para professores indígenas. . especialmente em relação de professores indígenas em nível superior por meio à dificuldade de deslocamento. . que sejam garantidos concursos ou mecanismos que garantam essa participação. oferecendo condições para desenvolvimento há a necessidade de contar com o apoio financeiro de pesquisa e extensão nas comunidades. Já na região Sul. e desde já exigimos dos órgãos responsáveis o cumprimento emergencial e imediato das demandas abaixo listadas. denunciamos a situação de nossas escolas e da Educação Escolar Indígena. a distância das coordenadorias dos estados com a educação escolar. o MEC tem dispo. a falta de formação continuada para nossos professores e o não cumprimento das responsabilidades e atribuições do estado e das esferas municipais para com a educação indígena. embora eles não tenham sido suficientes. além de convenções internacionais como a 169 da OIT e demais legislações indigenistas.

a manutenção financeira e a distância das Os professores não indígenas se sobressaem nos comunidades têm sido alguns dos maiores desafios cursos técnicos porque. Além disso. que profissionais desejam formar. ensino para os jovens indígenas através de convê. reduzindo a figura do professor indígena àquilo que era em décadas passadas. Ciência ser criados. indígenas residentes naquele estado. argumenta-se portanto. ou seja. foi o primeiro a oferecer um processo sele. A alternativa proposta. Profissionalizante focar na formação de mão de obra para o preen- chimento de vagas ao invés de atender diferentes O ensino técnico profissionalizante tem cres. um tradutor de conteúdos. é ofertar empregos aos indígenas. os cursos ofertados tendem a 9. fazer que o acadêmico não encontra postos de trabalhos com que abandonem suas comunidades e ingressem com a mesma facilidade que o concluinte de curso no setor agroindustrial. Povo Makuxi (RR) – Foto: CIR O ensino técnico demanda uma profunda reflexão por parte da comunidade no sentido de ter clareza em relação aos programas e aos profissionais que pretende criar 102 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . ainda em 2001. Institutos Federais de Educação. Esse cido de forma exponencial no Brasil nos últimos anos. dades não refletirem sobre ela com profundidade. e e como eles devem atuar. elevando a oferta dessa modalidade de regiões do país. apelando para o discurso técnico. A Esse discurso tem sido difundido nas terras oferta desses cursos está se expandindo para outras indígenas. caráter teórico e pouco prático. estaduais. ou seja. onde e Tecnologia. em lugares em que as terras indígenas a essa modalidade de ensino está embasada na não são suficientes para a população crescente e há necessidade de mão de obra. são eles que para garantir a permanência dos estudantes nas dominam as informações e a linguagem técnica.5. uma cilada para a educação indígena se as comuni- renciado à universidade para os povos indígenas. outras instituições de ensino e pesquisa. instituições de Educação Superior. Porém. quadro é percebido com maior intensidade no centro- A justificativa para o maior incentivo do governo sul do Brasil. Desse modo. bem como tivo especificamente dirigido a estudantes de povos organizações indígenas e indigenistas. demandas nas próprias comunidades indígenas. de que melhor formados terão melhores salários. universidades. Ensino Técnico atender demandas dos mercados regionais. de modo geral. Essa modalidade de ensino poderá se tornar Esta foi a primeira ação afirmativa de acesso dife. é fundamental que as comuni- nios com as instituições de Educação Profissional e dades indígenas discutam quais programas devem Tecnológica. agregada ao discurso forte resistência do governo e das elites locais em depreciativo do ensino universitário como sendo de demarcar as terras tradicionais.

ou seja.422 nários (que se originam a partir dos costumes) e a 2007 2. Algumas perspectivas Jovens e Adultos (EJA).6.508 escolas municipais brasileiro. Até 1999 Alguns pressupostos são fundamentais para não eram realizados censos específicos. gestão e pesquisa.   u CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . a estudantes indígenas frequentam o Ensino Médio nas gente vê que não são muito bons para a gente.346 na modalidade de Educação de pelo Estado. A à crescente demanda. Há de se considerar que em gente tenta fazer o nosso material didático e. a interculturalidade. para a gente ali fazer o nosso trabalho. 10. pelos cursos de pedagogia.160 no Ensino Fundamental (109.919 de licenciatura específica. diversas comunidades indígenas não há oferta dos fazer o nosso programa. Eu quero fugir desse (Censo escolar Inep. Hoje eu percebo Os dados também revelam a necessidade de que a aula que eu quero dar e que nós queremos formação de mais professores indígenas para atender é buscar todo o conhecimento do nosso povo. para tentar buscar o que A formação de docentes deve partir do pres- é nosso. mas a gente nunca Médio. do MEC: povo com a sociedade regional. no número de escolas indígenas a cada ano. devem incorporar como prática metodológica a relação do ensino e pesquisa voltados para o coti- (Professor Renatyo Pataxó. os dados são atualizados e como tema transversal. 2004 2. e 41. incorporado por todos os anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e componentes curriculares. a história do contato do Pesquisas Educacionais (Inep). indepen- indígenas 1999 1. A 80 escolas indígenas localizadas nas terras indígenas gente vê que não está ligado. 151. Essas responsabilidades pela formação inicial em cursos escolas atendem 194.13%). mas um processo 2009 2.392 dentemente da formação acadêmica dos mesmos.308 escolas estaduais (46. A dificuldade é como fazer anos finais do Ensino Fundamental e apenas 5% dos esses programas. tem que ter a base. para poder ir aprendendo”. Os dados de 2010 revelam que mais da metade Por fim.. Os dados disponibilizados pelo MEC permitem elaborados de acordo com a realidade sociolinguística constatar que tem havido um aumento progressivo do povo e da comunidade indígena. 2010).480 percepção de que a escola não é uma “embaixada 2008 2. a presença de Ano sábios indígenas em todas as dimensões. Os cursos de formação ter o início.CIMI 103 . e 15. rumo. ou em outros cursos Infantil. RCNEI. desse caminho.449 estudantes indígenas. suposto do “exercício integrado”. aí. se agrava na Educação Escolar Indígena pois apenas a gente teve um pouco de dificuldade.323 e internacional. a formação de professores indígenas das escolas estão vinculadas administrativamente é um direito conquistado pelo movimento indígena aos municípios – são 1. o bilinguismo ou multilinguismo.241 anos finais). A gente cerca de 7% dos alunos indígenas que iniciam o convive com os pais da gente. assim distribuídos: 19. como diz o povo Xukuru: “uma escola formadora de guerreiros”. bem como os direitos consuetudi- 2006 2.392 escolas indígenas em todo torialidade como aspecto central da vida do povo o Brasil.. a fim de perceber as condicionantes histórias impostas e contribuir para a Número de escolas superação de relações de dominação.633 do Estado” nas terras indígenas. As pesquisas serão transformadas em materiais didáticos e pedagógicos.836 das lutas sociais. A formação continuada anos iniciais. interligar a nossa Educação Indígena. Mas tudo tem que docência. 1998) diano da escola e da comunidade. com os mais velhos Ensino Fundamental conseguem chegar ao Ensino em casa e aprende as coisas. deu aula a companheiros da gente. O Estado não pode eximir-se de suas (53.9.17%) e 1.565 matriculados na Educação de licenciaturas interculturais. de Magistério Indígena. Naquele ano serem considerados no processo formativo: a terri- foram contabilizadas 1. Estes dados revelam que o escandaloso gargalo existente na educação nacional “Todo o trabalho que a gente começou na vida.228 os direitos indígenas expressos na legislação brasileira 2005 2.004 no Ensino é um direito conquistado que deve ser assegurado Médio.672 dinâmico a serviço da comunidade e mobilizador 2010 2. A partir de então. Porque esses livros das escolas. Ou.

o aspecto que menos tenha avançado. configurando mais um desrespeito à legislação Clóvis Brighenti . talvez. o que traz sérios indícios de que a reivindicação a este direito está se tornando um ponto crucial diante da política de desrespeito às especificidades linguísticas e culturais indígenas Os mesmos materiais de apoio pedagógico das escolas das áreas urbanas e rurais são impostos às escolas indígenas. Capítulo X A produção de material de apoio pedagógico seja.

direito à formação inicial e continuada para o magis- tadas. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Isso desde o início da colonização tem provocado o desa- restringe enormemente a possibilidade de acesso a parecimento de mais de 1. bom desempenho da escola. já que as culturas e identidades indígenas participam das licenciaturas interculturais oferecidas estão sendo constantemente ameaçadas. que não contam com internet em suas investir substancialmente na produção de materiais aldeias.1986). muitos professores indígenas também delicada. Diversidade e à utilização de suas línguas e processos próprios de Inclusão (Secadi). constatamos que estes são recorren. o que trouxe novos desafios e muitas indígenas que atuam em suas comunidades têm inquietações para as escolas que iam sendo implan. livros do Programa absoluto. No entanto. com a efetiva participação das respec- que a reivindicação a este direito está se tornando tivas comunidades educativas. as discussões sobre a escola As leis preveem que o material de apoio peda- diferenciada. esse repasse temente desrespeitados. em português. o que traz sérios indícios de indígenas. que essa situação seja considerada um Nacional do Livro Didático (PNLD). em escolas indígenas. comunidades indígenas. o MEC e as secretarias de educação devem indígenas. o aspecto que de materiais pedagógicos específicos para as escolas menos tenha avançado. Materiais escritos relação com a realidade dos povos indígenas e desres. um processo extremamente moroso. O fato de ainda ser rara e escassa a produção rial de apoio pedagógico seja. a Educação Escolar tério. não atendendo à demanda colocada pelas das escolas das áreas urbana e/ou rural. Dentro desse contexto. constatamos que a produção de mate. Embora haja um programa da Secretaria de Ao se reconhecer institucionalmente o direito Educação Continuada e Alfabetização. para a impressão de livros aprendizagem na educação escolar. travadas no âmbito do movi. o acesso aos editais dessas processo de afirmação étnica e cultural de cada povo. sendo impostos às escolas de material de apoio acontece em uma escala muito indígenas os mesmos materiais de apoio pedagógico pequena. não apresentam nenhuma riais pedagógicos de qualidade. Convém lembrar que os professores diferenciados.CIMI 105 . que os professores atuam. Esses cursos deveriam Apesar dos povos indígenas terem seus direitos propiciar a produção de materiais para as escolas em assegurados. nas línguas possibilidade da escola indígena contribuir para o indígenas e em português. Mas não se justifica. em larga escala. incluíam a reivindicação grupo indígena. Os que conseguem ter acesso enfrentam de apoio pedagógico específico para cada povo. talvez. concomitante com a própria escolarização. deve-se em grande um ponto crucial diante da política de desrespeito medida às dificuldades de manejo da escrita por às especificidades linguísticas e culturais indígenas. do MEC. povos cujas línguas até recentemente eram despro- uma vez que o MEC continua distribuindo para as vidas de grafias alfabéticas. Indígena encontra-se numa situação ainda mais Atualmente. Estes livros escritos obstáculo intransponível para a criação de mate- em língua portuguesa. gógico adequado às peculiaridades culturais de cada mento indígena. elaborados a partir da perspectiva peitam o direito de acesso a material próprio e espe. com um atraso É necessário reverter a política etnocida que de até quatro anos para que livro seja impresso.Material de Apoio H istoricamente. explicita-se a produzidos por professores indígenas. por diversas universidades.000 línguas faladas por livros específicos nas escolas indígenas. deve ser produzido pelos professores por currículos e materiais pedagógicos específicos e de cada povo. Assim. indígena também são válidos e necessários para o cífico para o apoio pedagógico nas escolas indígenas. publicações é bastante difícil para muitos povos Para isso. povos indígenas em todo o Brasil (Rodrigues.

Posteriormente. é quase inexis. as que os materiais disponíveis sejam tanto quanto informações chegam muito rapidamente à maioria possível criados pelos próprios professores. para suprir a necessidade que os indígenas sentiam. na aldeia Boa Vista. Também dade é bastante diferente. mesmo na maioria das aldeias. atualmente. Apesar dos professores serem indí- pelo Estado também não correspondem à realidade genas. a coordenação pedagógica. professores para o ensino na escola da aldeia. Usamos muito material lúdico confec- informações. na região de de conhecimentos para cada povo. evidenciando que a falta de material Para o povo Kanamari. seu desempenho. tente a oferta e circulação de materiais específicos no entanto. Mỹky. nópolis (MT). de Ruth Monserrat. Faz cinco anos que a Seduc prometeu a indígenas têm garantido o direito de acessar as reedição dos três tomos do Dicionário Cultural novas tecnologias. além de dicionários e gramáticas. embora haja uma enorme buiu com os cursos de formação de professores expectativa neste sentido por parte de muitos povos. os livros disponibilizados pela material didático tem sido organizado e elaborado secretaria municipal de educação estão totalmente pelos professores. os materiais disponibilizados as turmas iniciais. a pronúncia. publicado. Brasnorte. mas até hoje não fez essa edição. nas aldeias. Todo esse Jutaí. o Comin contri- revitalização linguística. pois. e publicou uma cartilha do povo Madjá em 2007. principalmente com de Itamarati (AM). Mas. em Rondo- povo são inexistentes. os materiais utilizados são aquelesproduzidos vivida pelos Deni. no município riais didáticos próprios do povo. da Universidade Federal do Rio riais. com das casas. o Cimi em parceria com o Comin. Entretanto. em publicação. alegando. livros específicos que abranjam as diversas áreas O relato da Escola Xinui Mỹky. Para ampliar o corpus e elevar o status das línguas assessoria e produção de materiais bilíngues e na autóctones é necessária uma ação política bem língua materna. o trabalho do Comin foi importante na aquisição de conhecimentos. de Janeiro (UFRJ). Essa realidade traz conse- elaborados pelos próprios professores indígenas quências para os alunos que estão tendo contato do povo. pois a escola conseguiu o edital para a Entre o povo Kokama. editados ou simplesmente impressos na própria Também é essencial compreender que as escolas escola. 25 anos depois de No Acre. Eles sentem muitas Índios (Comin). Pouco se faz em termos de da produção de material didático. com a coordenação pedagógica desvinculados do modo de vida do povo. os recursos eletrônicos que facilitam a integração mas sempre em consonância com os critérios do e dinamização do processo ensino/aprendizagem. promulgada a atual Constituição Federal e 15 após elaborou a gramática do povo Madjá no Alto Purus. a escola possui vários livrinhos já favorece o processo de aquisição de conhecimentos. a reali. não há a preocupação em utilizar mate- Entre o povo Deni do Rio Xeruá. até hoje. Certamente se os mate- 106 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Sobre o material pedagógico dinâmico. a interpre- nas salas de aulas. tação e a escrita. para que não sejam visão está presente. ao mesmo tempo implantados materiais tipicamente das escolas não em que a escola deve trabalhar de forma crítica essas indígenas. na língua Mỹky. que propõe a melhorando. afirma: “procuramos É preciso considerar ainda que. no Mato Grosso. Materiais didáticos próprios do Na Escola Indígena Korogedo Paru. Há a de Elizabeth Amarante (Cimi) e supervisão linguística necessidade de livros atualizados e de outros mate. Existem materiais que foram para os não indígenas. a Seduc atribuiu essa escrita e. a Seduc proibiu a distribuição dessa destinados ao ensino escolar dos povos indígenas cartilha nas aldeias do povo. Um material alfabetização na língua materna. a tele. Desse modo. na época Os livros que têm sido publicados circunscrevem-se que “o Cimi não tem competência para fazer esse quase que somente à fase inicial da aquisição da trabalho”. também de específico e diferenciado dificulta o aprendizado e a Itamarati. faltam tarefa à Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC). Além mentadas atualmente. que utiliza diferentes meios. a publicação dos Referenciais Curriculares Nacionais município de Santa Rosa. que são utilizados pelos professores dificuldades com a expressão. como evidenciam os faz três anos que o MEC está com um livro para ser exemplos a seguir. A equipe do Cimi elaborou para a Educação Indígena (RCNEI). A triste realidade é que. Rio Xeruá. ou adquiridos. como cartolina e pincel para quadro branco. com apoio do Conselho de Missão entre com os novos conhecimentos. nada foi feito. assim. Esses materiais são utilizados pelos mais ampla do que as ações isoladas que são imple. dentpor exemplo. é necessário que ela passe a utilizar cionado pelos próprios professores. Projeto Político-Pedagógico (PPP). no Amazonas.

CIMI 107 . Para os povos Apurinã. Amondawa. este material não contempla a língua de todos os povos dessa região. que produ- por parte da Seduc em atender a especificidade ziram materiais de apoio pedagógico específicos. como também ou do MEC. nenhum especialista em linguística.riais fossem produzidos na língua Povo Paumari (AM) – Foto: Adriana Huber Azevedo do povo. destacam-se os trabalhos realizados por entidades Por terem a ortografia parcialmente definida. De modo linguística de cada povo. Não há um esforço de formação. e específica. do Cimi e de Ruth Monserrat. Na Escola Hadori. O pouco material que existe é resultado do esforço individual de alguns professores ou de pessoas e instituições que atuam na temática indígena. Zoró. Apesar de Rondônia ter geral. o material utilizado para ensinar as crianças mais de 50 povos indígenas. não há formação especializada para o quadro de Em Rondônia. ciências sociais Oro Mon. Aikanã. como o Laboratório de História Ainda é escassa a produção de materiais pedagógicos específicos para as escolas indígenas. as artes e os etnoco- Kaxarari. Ororam Xijein. há pouquíssimo material didático próprio.   u CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . o material utilizado também é profissionais não indígenas que atuam diretamente o mesmo das escolas não indígenas. Kwaza. Nesse sentido. com a assessoria e ciências naturais. a Seduc não possui indígenas é o mesmo das escolas não indígenas. Eeabo- rado por missionários evangé- licos que atuam em algumas áreas de Tapauá. do município Tapauá (AM). como o Magistério Indígena. linguista da UFRJ. Entre os povos Xokleng. Deni e Paumari. Nambikwara e Negarotê. O Cimi tem contribuído com material paradidático. que é distribuído para todas as escolas. O único mate. Kaingang e Guarani. dentre outros. há um grande esforço no sentido de produzir o próprio material. da Universidade Federal sendo mais rara ainda a participação das comunidades nessa construção de Santa Catarina (UFSC). Karitiana. praticamente não há mate- rial didático próprio dos indígenas nas escolas. os alunos teriam melhor compreensão e rendimento. do povo Iny-Karajá. Uru Eu Wau Wau. contemplem a língua materna. no Sul do país. diferenciada e bilíngue para os povos faz somente em português. nhecimentos relativos à matemática. rial diferenciado é o que foi produzido no curso A ineficácia da política educacional escolar de formação de professores do projeto Açaí I. algumas universidades e alguns cursos materiais em fase experimental. tanto que a escola vai desenvolver o projeto “Lendas e Mitos do Povo Iny Mahãdu”. no município de Luciara (MT ). A maioria das experiências com que os próprios indígenas busquem apoio nas de material didático próprio em língua materna foi entidades indigenistas para a construção. na Educação Escolar Indígena. são indigenistas. elaboração construída por iniciativa das comunidades indígenas e edição de materiais de apoio pedagógico que dos povos Arara. já aprovado pela Seduc do estado. Indígena.

Na prática. entretanto. eles se configuraram em mais uma demonstração de como qualquer política pública voltada para os povos indígenas continua não sendo prioridade Criado sem a participação dos povos. Capítulo XI Os Territórios foram propagandeados inicialmente como a salvação da Educação Escolar Indígena e como uma educação realmente específica e diferenciada. os Territórios Etnoeducacionais não foram implementados Povo Guarani-Kaiowá (MS) – Foto: Egon Heck . lançado a “toque de caixa” e imposto de modo autoritário.

e da Educação Escolar Indígena ilustra com clareza o III – Nacional – em Brasília (DF). 2º . o Ministério da Educação sido inicialmente debatido nas comunidades. que a diz respeito à participação dos povos. entretanto. No artigo 1º da convocatória lia-se que o obje- Ainda temos muitos problemas na educação e tivo da Conferência Nacional seria analisar em profun- espero que agora com a criação do Território didade a oferta de educação escolar para os povos Etnoeducacional Cinta-Larga essa realidade mude” indígenas e propor diretrizes que possibilitassem o (Marcelo Cinta-Larga . Na verdade. como uma cópia de não era do conhecimento de suas comunidades.051. a I Conferência Nacional de em várias Conferências Regionais. II – Regional – a ser desenvolvida em 18 Terri- O histórico desta tentativa de reorganização tórios Etnoeducacionais. um tema foi imposto A partir de inúmeras cobranças do movimento para ser discutido nas conferências que não havia indígena em todo o Brasil. não sendo prioridade.Territórios Etnoeducacionais e a Pseudo-Diferencialidade “Precisamos pensar a educação para preservar processos que se dão para qualquer outro segmento o nosso território que está cheio de problemas. Aliás. com as escolha de “delegados” entre há tempos estamos esperando que o governo outras. convocou. Assim. foram frustradas. a partir da criação dos Territórios Etnoe. principal. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . eles se configu. lançado “a toque de caixa” etapas: e acabou não sendo implementado. na prática. em 2008. com a proposição de indígenas questionaram este fato e declararam que que antes se realizassem etapas locais e regionais.CIMI 109 . consultivo – considerando o Decreto nº 5. Estas indicações já constavam no Regimento escolas indígenas passariam a ser encaradas com Interno da Conferência: seriedade. “Parágrafo único – A I Conferência Nacional de ducacionais (TEE). 2009) seu avanço em qualidade e efetividade. já havia sido definido P ara muitas comunidades indígenas. que é da comunidade. nós vamos assumir.A I Conferência Nacional de Educação modelo foi criado sem a efetiva participação dos Escolar Indígena (Coneei) será realizada em três povos e das comunidades. nome sinalizava: “Arranjos Etnoeducacionais”. Porém. este Art. não indígena. que promulga a Convenção nº gena e como um modelo que inauguraria um novo 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) momento no atendimento aos direitos dos povos sobre os Povos Indígenas e Tribais. os representantes Educação Escolar Indígena. com delegados desrespeito com que o Estado brasileiro trata todas dos 18 Territórios Etnoeducacionais”. de forma autoritária. já indicava como seria seu desenrolar no que faça a sua parte que é de sua competência. sequer escolar é mais antigo. a indígenas a uma educação realmente específica e partir da consulta aos povos indígenas. as questões relativas aos povos indígenas. de mente como a salvação da Educação Escolar Indí. de propostas que orientarão programas e políticas raram em mais uma demonstração de como qualquer educacionais no âmbito da Educação Escolar Indí- política pública voltada para estes povos continua gena.RO. Tal como outras políticas. as esperanças de que as existiam. Na prática. enquanto “delegados” o que esta formatação da Conferência. um conjunto diferenciada. nossa. os I – Local – a ser desenvolvida com as Comuni- TEE não conseguiram ir além do que seu primeiro dades Educativas nas Escolas Indígenas. Já não poderiam debater. apresentará. Educação Escolar Indígena (Coneei) – com caráter Os Territórios foram propagandeados inicial. em todos os níveis de governo. antes da realização da Conferência. 19 de abril de 2004. que as Conferências Regionais teriam como foco os mente aquelas em que o processo da educação Territórios Etnoeducacionais que.

A participação nas Conferências Regionais comunidades educativas. para com as decisões tomadas em algumas conferên- O documento orientador anunciava que a I cias que já haviam sido realizadas. À revelia dessas e possi- evidenciava que não havia espaço na programação velmente de outras reivindicações indígenas. modelo foi decretado. as conferências. tórios Etnoeducacionais. Na reali. que criava os Terri- A respeito da condução deste processo. agora concretas de mudança nas formas de oferta de definido oficialmente? Como aceitar o fato de que sete educação escolar. com conteúdos semelhantes. define sua orga. porém. Na Conferência Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena Regional do Sul. segundo a à Educação Escolar Indígena? Que concepção de proposta da própria Conferência. e propunha que se retomasse questiona-se: qual a razão para que o Estado brasi. do Sul e Sudeste. apesar da significativa representatividade da CNPI. providências”. grande parte das escolas teve a oportunidade rência. assim. e demais participantes representantes de mais de 60 nização em Territórios Etnoeducacionais. o novo para que os resultados das conferências nas “comu. Ao genas sobre políticas públicas voltadas para suas contrário. Fernando Haddad. surpreendentemente. a criação dos Territórios decreto assinado pelo então presidente da República. foi publicado o Decreto da fase nacional da I Conferência. “a discussão acerca dos Territórios Etnoeducacionais leiro mobilizasse esforços e recursos públicos para a dentro de um contexto de discussão da proposta de 110 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL .861. da realização da etapa Em novembro de 2009. o qual dispunha Nota de Repúdio assinada por delegados e delegadas “sobre a Educação Escolar Indígena. se. discussões que serão levadas a cabo junto aos povos Ao contrário do que significam as palavras e às comunidades indígenas”. de “matéria-prima” para a formulação Indigenista (CNPI). o que. portanto. Depois de realizadas dez das 17 Conferências não ocorreu. nas etapas Além disso. e pelo ministro da Educação na que estava referendada no documento base No final. universidades e outras instituições. geraram um descontentamento reunidos criticaram o fato de que a proposta de Terri- com a condução de alguns pontos da pauta e com a tórios Etnoeducacionais não tinha sido apresentada tentativa de legitimação de uma proposta previamente ou debatida nas localidades. época. já que as conferências amplas sobre garantia das terras e de outros direitos ainda não haviam sido realizadas nestes locais? igualmente desrespeitados. “participação” e “processo”. Tal foi o descontentamento uma minuta de decreto para a criação desta estrutura que a própria CNPI aprovou uma moção solicitando administrativa para a Educação Escolar Indígena foi ao governo federal a sua imediata revogação. As animadoras cifras apresentadas no sítio realização de um longo circuito de discussões. participação destes na definição das decisões? E o que Algumas comunidades. quando da realização nacional. foi surpreendida com a publicação do a partir de um outro eixo. proposta que se pretendia aprovar e Luiz Inácio Lula da Silva. projetadas e antes. apresentada. no qual registrou-se. encontros preparatórios da etapa nacional da Confe- dade. nidades educativas” fossem partilhados e debatidos.517 vendo os povos indígenas. a seguinte os representantes indígenas e de outros segmentos proposta: “que toda e qualquer deliberação que da sociedade elaborariam propostas “discutindo as envolva a questão dos Territórios Etnoeducacionais questões principais coletivamente e escolhendo as respeite e aguarde os resultados das consultas e ideias com que todos concordam”. foi decretado um novo modelo de atenção de realizar estes encontros e neles avaliar. nas conferências das delineada. tal como ocorreu entre Acrescenta-se a essas indagações. foi divulgada uma nº. “Por que queremos participação é esta que propõe o envolvimento direto escola? O que já conquistamos? O que temos hoje? dos povos indígenas na avaliação do que se tinha em O que fazer para avançar na educação escolar que termos de educação escolar. o desrespeito os Guarani. e dá outras povos indígenas. articulada a proposições mais regiões sequer foram ouvidas. mas não proporciona a queremos?”. antes da conclusão dos conferências nas “comunidades educativas”. os representantes indígenas ali regionais e na nacional. 6.861. Etnoeducacionais. em 27 de maio de 2009. conseguiram fazer com as incontáveis críticas e com as propostas debater seus problemas e apresentar sugestões de mudanças parciais ou totais deste modelo. Esta nota repudiava o Decreto 6. as Conferências Regionais foram projetadas comunidades. Até mesmo a Comissão Nacional de Política servindo. órgão de consulta aos povos indí- de propostas de política e gestão educacional. envol- eletrônico do MEC projetavam a realização de 2. na de Cuiabá (MT) e do Xingu (MT) seria “um espaço de diálogo e participação”.

os nomes. os dilemas que os povos indígenas enfrentam na difícil O processo “atropelado” para a criação dos TEE relação com os estados e municípios. não ocorre com a garantia dos direitos territoriais e de considerando a Nota de Repúdio acima citada. de 1988. na prática. percebe-se que a política da Educação sociedade civil”. ou seja. uma vez que. entre outros. inclu.861/2009 preconizava. mas a prática continua a mesma: rando os novos marcos legais a serem construídos e os a da negação dos saberes e fazeres milenares dos povos planos de trabalho dos Territórios Etnoeducacionais. a estrutura. programas e políticas do Ministério da Educação não ficassem condicionadas em sua implantação à existência dos etnoterritórios”. desde as etapas locais. Um o modelo de gestão baseado nos Territórios Etnoe. exemplo é o Território Etnoeducacional Pykakwaty- ducacionais o envio de recursos de igual qualidade nhre. organização da Educação Escolar Indígena. garantida desde a realização da I Conferência. dos 41 Territórios inicial- para esclarecimento sobre a proposta”.  u CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . o documento final da I Conferência assim se refere aos Territórios Etnoeducacionais: “O governo federal somente implantará os Territórios Etnoeducacionais com a anuência dos povos indígenas. A estrutura dos e não se sentem informados (as) e nem seguros (as) Territórios Etnoeducacionais. menos da metade dos a Constituição Federal. Outros Territórios sobre a implementação dos Territórios. Entre a contradição expressa nas leis e a dura lida no O documento final da I Coneei ainda apresenta chão das aldeias. item B). não se tem notícia de avanços concretos na da postergação da efetivação do novo modelo de perspectiva do que o Decreto 6. E que as ações. tempo e dinheiro público foram jogados fora. regionais e/ou estaduais Até meados de 2013. O governo federal garantirá aos povos indígenas que Territórios foram pactuados. Porém. os nomes. A primeira para a Educação Escolar Indígena” (Documento Final reunião da Comissão Gestora ocorreu em novembro I Coneei. avaliando a sua viabilidade. pactuado em novembro de 2011. a exemplo do que critérios de como estes Territórios serão criados. sua área de abrangência em relação aos povos e estados. está longe de atender a demanda deixou claro que “nos diversos grupos de trabalho da política interna de cada povo. a consulta de 2013. as regiões do país seguem ainda esperando que suas lidade de implantação dos TEE a partir de “consulta inúmeras reivindicações sejam efetivadas. além E desses. a realizados na tarde do dia 17 de novembro (2009) ficou estrutura. no sul do Pará. No mínimo. regionais e/ou estaduais para esclarecimentos sobre a proposta de implantação e implementação dos Territórios Etnoe- ducacionais. futura aos povos e organizações governamentais e da Com isso. conside- Mudam-se a forma. pactuado em 2010. dois anos depois. que foi apresentada como para se manifestar e nem opinar acerca da possível um modelo organizacional que resolveria efetivamente implantação dos territórios etnoeducacionais”. que saúde. ferindo a sive delegados (as) desconhecem o teor do decreto identidade étnica e cultural dos povos. Mudam-se a forma. apenas 24 haviam sido pactuados. Os que foram pactuados não concordarem em adotar ou ainda não definiram encontram empecilhos para a sua efetivação.criação de um Sistema Próprio de Educação Escolar Povo Dâw (AM) – Foto: Clarissa Tavares Indígena no Brasil. a partir de consulta pública ampla com a realização de seminários locais. de 2011 e a segunda foi realizada apenas em outubro Mais um capítulo na lista de absurdos. pois em seu 1º item afirma a possibi. mas a prática continua a mesma: nítido que vários participantes da conferência.CIMI 111 . não gerou problemas e entraves que repercutem até o significou avanços na aplicação da Educação Escolar momento. como é o caso do TEE Nacional. comunidades indígenas de todas incongruências. mente propostos. a da negação dos saberes e fazeres milenares. que deveria igualmente pactuados sequer tiveram a primeira acontecer com um processo similar ao da I Conferência reunião da Comissão Gestora. para outros seminários “locais. a partir do 2º item define os Escolar Indígena vigente no país. mais de quatro anos após Indígena específica e diferenciada. foi projetada Timbira. ou seja. Após intensos embates entre a proposta gover- namental e os argumentos de vários indígenas e aliados.

o que representa mais um desrespeito aos direitos indígenas. e essa forma organizativa se estende também aos povos indígenas Os povos indígenas têm estabelecidas suas formas próprias de lidar com os problemas que abrangem todos os aspectos de suas vidas Povo Zoé (AM) – Foto: Serge Guiraud . Capítulo XII O Estado brasileiro desconsidera formas próprias de organização. A Constituição Federal de 1988 prevê a participação de todos os cidadãos em conselhos para efetivar o controle social das políticas públicas.

de 8 de julho de 1992 ou pessoas que não sensíveis a ela. A atuação dos indígenas e indige. Santa Catarina e espaço de discussão da política de educação escolar Rio Grande do Sul. Comissão Nacional dos Professores Indígenas (Portaria pação e discussão dessa política foi instituído pela n° 3. que estabeleceu a criação dos por representantes indígenas. há pelo menos 10 anos. não realiza deliberativo. No que diz respeito à questão da Educação Em substituição ao Comitê. composta exclusivamente Portaria nº 559/91. nº 411. o primeiro espaço de partici. assim. o que gera incompreensões e problemas. povos indígenas. nº 2. Várias composições do para efetivar o controle social das políticas públicas.1993.09.09. com representações de indígenas e controle social por parte da sociedade não indígena. Nos outros dois estados. A Constituição Federal de 1988 prevê a participação de indígenas. Educação Escolar Indígena. educação. restringindo.2005). de 18. foi criada a Escolar Indígena.282 de 26.Controle Social na Educação Escolar Indígena O s povos indígenas têm estabelecidas suas Em 1992. o rinstitucional.1997. Port. cultura. Port. devido à participação de pessoas que desconhecem a temática indígena 1 Portaria nº 60. de setores do próprio governo. relacionados com o Programa de Educação Escolar conselho de anciões e assembleias do povo. De caráter inte. ainda essa instância são enviadas com antecedência para os que de modo precário. Nem sempre as decisões que passam por uma reunião sequer. o MEC instituiu a Comissão Nacional Escolar Indígena e Universidades. de Educação Escolar Indígena. sendo que eles são Essa Comissão tem buscado se constituir num mantidos nos estados do Paraná. os NEI constituíram. Entretanto. de Educação Escolar Indígena (Cneei).2000).CIMI 113 . chama a atenção o NEI a nível nacional. através da Portaria que abrangem todos os aspectos de suas nº 60. de 10.03. criaram formas próprias que envolvem a adoção de normas e procedimentos de controle social como reuniões na comunidade. economia. Escolar Indígena e deliberar sobre medidas para o Todos os estados criaram seus Núcleos de aperfeiçoamento das políticas dessa área”2. de instituições de ensino e pesquisa. sentantes das secretarias estaduais de educação e o que representa mais um desrespeito aos direitos órgãos governamentais. através da se como um dos primeiros espaços coletivos para Portaria 734/10. nº 490. dentre Indígena”1. ato que impediu a Núcleos de Educação Escolar Indígena (NEI) nas participação de representantes da sociedade civil e secretarias estaduais de educação. saúde e proporcionar apoio técnico científico às decisões organização social. Os movimentos de professores indígenas têm uma nistas nesses Núcleos é difícil. existir e funcionar. cuja finalidade era a de “subsidiar as ações e vidas: território. 2 Regimento Interno da Cneei CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Comitê passaram a incluir também representantes e essa forma organizativa se estende também aos indígenas (Port. de associa- Contudo. de 29. O Comitê era composto por representantes outras. Para isso.03. constata-se que o Estado brasileiro ções científicas de reconhecido mérito. entidades indigenistas com atuação na Educação Em 2010. o MEC instituiu o Comitê Nacional formas próprias de lidar com os problemas. mas é um órgão consultivo e não catarinense que.005. embora alguns indígenas participação de todos os cidadãos em conselhos participassem das reuniões. estas instâncias continuam a membros. A portaria não menciona a indígenas. uma instância de caráter consul- discussão da temática de Educação Escolar Indígena tivo. por repre- desconsidera essas formas próprias de organização. que tem como um dos objetivos “assessorar o com a finalidade de apoiar e assessorar as escolas Ministério da Educação no diagnóstico da Educação indígenas.

das secretarias estaduais e reuniões. pressupõem um espaço de controle social proposto dos Conselhos de Educação não é dos povos Povo Tenharim (AM) – Foto: Patrícia Bonilha Reuniões na comunidade. com a repasses das secretarias ou do MEC para realizarem as possibilidade de ter maioria indígena. O modelo indígenas. regularidade. com efetiva participação dos mesmos. de diversos setores a sua natureza apenas consultiva. da organi- governamentais que trabalham com Educação Escolar zação e mobilização dos indígenas. A maioria dos Conselhos não dispõe consultivo e fiscalizador e dele também participam de estrutura física adequada para a realização das representantes do MEC. Entretanto. Alguns destes sentantes das diversas regiões do Brasil). o que os subordina do MEC e da Funai. representação significativa nesta Comissão (20 repre. é Secretários de Educação (Consed). Na disputa de Indígena. das organizações A criação dos Conselhos Estaduais de Educação indígenas. mas isso não Conselhos funcionam razoavelmente. uma vez que a representação dos não instâncias. quer um desses Conselhos está na medida das condi- embora não sendo uma instância própria dos povos ções de participação dos povos indígenas. um os conselhos estaduais e a própria Cneei não contam representante de cada povo do território. instituiu também um Conselho para Educação (CNE). Este Conselho deve ser deliberativo. das universidades e das organizações não Indígena depende. normativo. tanto indígenas. do Conselho Nacional de como dos Conselhos de Educação Escolar Indígena. que criou os Territórios Etnoedu.861. o Decreto no 6. Uma exceção é o Conselho de Educação Escolar Mais recentemente. da Funai. de 27 Indígena do Amazonas que conseguiu também ser de maio de 2009. o qual será composto por. considerando reuniões ordinárias. pois as reuniões não acontecem com da população. Este Conselho terá representação nos interesses na composição dos membros é que acaba Conselhos Estaduais de Educação Escolar Indígena. Além disso. número de membros. outros deixam garante uma participação paritária entre indígenas e a desejar e alguns estados nem criaram ainda estas não indígenas. um grave problema é que cada TEE. em grande medida. com dotação orçamentária própria e necessitam de se no mínimo uma composição paritária. definindo-se se serão consultivos ou deliberativos. no mínimo. sempre comparece com maior ao conselho nacional ou aos estaduais de educação. conselho de anciãos. o problema de fundo. após consulta ao Conselho Nacional de cacionais (TEE). garantindo. que inclui representantes da sociedade civil. da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena das associações científicas. Também começaram a ser criados nos estados A diferença do grau de legitimidade em qual- os Conselhos de Educação Escolar Indígena que. de guerreiros e assembleias do povo são algumas formas de controle social das comunidades indígenas 114 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . municipais de educação. o que impede a autonomia nas a diversidade sociocultural da região e o tamanho deliberações.

a criar o CEEI. o Conselho Estadual de muitos povos. Nos anos de funcionamento a Educação Escolar Indígena. o Conselho Estadual de autonomia do CEEI frente à Seduc. de 18 de julho de 2006. apesar dos povos indígenas a educação indígena. proposição e controle social da política. tanto que foi encaminhado para a apreciação do secretário para se informar das situações como para repassar de educação de Pernambuco para as providências as decisões tomadas nas reuniões. este GT tem se constituído num espaço de Indígena. a ausência de discussão de No Amazonas. somente em 2005 ele Um aspecto que chama atenção é que apesar de ser foi criado. de 14 de um Conselho consultivo e deliberativo. vinculado à Secretaria da Educação pelo coletivo. o que impede a estadual de educação. foram computados alguns impactos sentantes do governo e de entidades da sociedade positivos na aplicação da política de Educação Escolar civil. e regulamen. pois a Seduc e de assessoramento técnico em todos os níveis e não efetua os repasses necessários. Educação Escolar Indígena (Ceein) foi criado pela O estado de Mato Grosso foi um dos primeiros Lei nº 13. muitos (TAC). representa uma área muito extensa. o que não indigenista e não indígena.367. Conselho Escolar Indígena se agravou. com regulamentação da categoria professor indígena. Trata-se de um órgão consultivo. este Conselho encontra para exercer sua representatividade. assinado em maio de 2012 entre o MPF e o problemas ainda persistem. É o único que é chamado sejam formados para atuar nessa demanda. O resultado dessa prática foi o esva- e Cultura. Associação dos Sem controle social. a criação do Conselho em 2010. de 20 de junho de 2006. como um órgão não seja usado apenas para referendar as ações das consultivo e deliberativo em assuntos pertinentes à Seduc. efetiva participação deles. situação (Documento do Copipe/2013). persistem as março de 2005. onde vivem os povos Tapuia. Fundação Nacional de Saúde (Funasa). sobretudo no que diz respeito à Em Pernambuco. No entanto. O problema mais relevante é tado através do Decreto nº 31. na qual explicaram as dificuldades que Estadual de Educação Indígena está em processo encontram para implementar a política de Educação de discussão. culminou em um Termo de Ajustamento de Conduta lamentação das escolas indígenas.423. usada nos debates. dentre os quais está a governo do estado do Maranhão. e é composto pela Seduc. em 1995. Composto por repre- do Conselho. em Indigenista (CTI) e União dos Estudantes Indígenas 2011. e discussão dos processos de regu. o retrocesso na Educação Professores Indígenas do Tocantins (Aspit). já que foi discutido sem a reivindicarem a criação do Conselho de Educação participação de indígenas e entidades indigenistas. em 2011. u CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . de 8 de abril de a não disponibilização de recursos para as reuniões 2008. Univer. concepção que os técnicos da Seduc têm sobre No Tocantins. através do Parecer nº 01/2011 do CNE/CEB. sidade Federal do Tocantins (UFT).indígenas e estes encontram muita dificuldade de legais. Escolar Indígena. O CEEI-TO é um órgão consultivo e de velhas práticas de não respeitar as decisões tomadas assessoramento. graças à mobilização de seus membros. através da secretaria timidez dos conselheiros indígenas. Para isso. foi criado um Grupo de Trabalho (GT) sobre do Tocantins (Uneit). o Conselho Estadual de uma política pública específica de Educação Escolar Educação Escolar Indígena assumiu o caráter norma- Indígena.071. um anteprojeto de lei para a às vezes. por mais de seis anos. Até o presente momento não há notícias de compreensão e de participação nessa instância de qualquer iniciativa no sentido de regularizar essa controle social. Centro de Trabalho genas e de organizações da sociedade civil. pelo CEE. Após uma longa discussão desafio é a dificuldade que o conselheiro indígena entre os povos indígenas do estado. Karajá carta-consulta ao Conselho Nacional de Educação de Aruanã e Avá Canoeiro. que é a segunda língua para No Maranhão. deliberativo serem realizadas com regularidade. MEC. O nível de entendimento e participação Educação Escolar Indigenista foi criado pela Lei dos indígenas é fundamental para que o Conselho 8. Por iniciativa dos indí- Indigenista Missionário (Cimi).644. várias aldeias e não consegue realizar as visitas.CIMI 115 . dentre eles: melhoramento das estruturas discussão. até por causa da língua portuguesa. físicas das escolas; discussão do Edital do Concurso A mais significativa ação do GT foi um processo que Público Específico. ziamento do CEEI/MA. através do Decreto nº 2. que está sem funcionamento Funai. já que. que se dá a cada dois anos. Isso pode significar a tem ocorrido na maioria dos estados onde há CEEI. Escolar Indígena desde 2001. que enviaram Em Goiás. Outro grande modalidades de ensino. tivo. é necessário que os conselheiros Educação Escolar Indígena. aprovou. e a rotatividade de conselheiros indígenas.

que se consolida em práticas quase sempre. Conclusão Transformar a escola em “ferramenta de luta” não é tarefa fácil. sua fundamentação. seus currículos. seus objetivos e essência. bem como os conteúdos e práticas vivenciadas pelos alunos no cotidiano Um dos maiores desafios colocados para os povos indígenas é a superação das contradições do modelo de escola ocidental e capitalista. para isso.. É preciso modificar toda a sua lógica.. . E. não basta apenas mudar a sua aparência. seus calendários.

a conquista de direitos na lei é fundamental. incompatíveis com os modelos indígenas Povo Yanomami (RR) – Foto: Maria Edna Brito oncomitante à árdua luta no sentido de trazer para a vida real. É importante manter vivas certas perguntas: Que escola estamos produzindo? Quais saberes a escola mobiliza? Quais verdades ela institui? Quais outras verdades ela desautoriza? Quais referências de mundo ela toma como base para produzir conhecimentos? Que mudanças a perma- nência na escola por um longo período de tempo pode produzir na socialização de crianças e jovens. como mencionado acima. bilíngue e intercultural contemplado e garantido nas mais diversas legislações. Transformar a escola em “ferramenta de luta” não é tarefa fácil. que se consolida em práticas quase sempre incompatíveis com os modelos indí- genas. nas pequenas coisas que. seus currículos. nas aldeias e nas cidades. instituem maneiras de pensar e de situar-se no mundo. Desafios e Perspectivas C . É preciso modificar toda a sua lógica. não basta apenas mudar a sua aparência. sua fundamentação. específica. E. em sua aparente neutralidade. seus objetivos e essência. seus valores e seus ideais. um dos maiores desafios colocados para os povos indígenas é a superação das contradições do modelo de escola ocidental e capitalista. mas não suficiente. evidencia a enorme dimensão deste desafio. A lei não pode ser vista como um instru- mento linear de realização de direitos sociais. Nela CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . nem mesmo na sociedade ocidental... para isso. é evidente que para possibilitar a produção de múltiplas práticas e experiências de Educação Escolar Indígena.CIMI 117 . já que no tempo passado em sala de aula eles estão privados de participar do cotidiano da aldeia e dos locais onde tradicionalmente a educação indígena acontece? Além disso. seus calen- dários. bem como os conteúdos e práticas vivenciadas pelos alunos no cotidiano. o modelo de Educação Escolar Indígena diferen- ciada. em que as escolas continuam reproduzindo as formas capitalistas de produção. E o fato de que estas contradições nunca foram resolvidas.

Tupinikim. “para índios”.  u Os povos indígenas contam com uma legis- lação favorável que está ainda muito longe de ser concretizada nos sistemas de ensino e o fato dessas escolas serem reconhecidas como uma categoria distinta. as línguas que as nações não são unificadas. uma escola Guarani que não é semelhante a uma escola Kaingang ou a uma escola Povo Tenharim (AM) – Foto: Patrícia Bonilha Kambeba. com normas e padrões comuns aos de outras escolas ou povos indígenas. Pataxó. Kayapó. em boa parte dos países europeus e O que se evidencia a partir da análise dos latino-americanos. dados apresentados é que as instâncias e órgãos assegurado na legislação. ricas. Cada escola deve ser pensada como experiência única. A prática cotidiana. Awa-Guajá. mas também diferenciadas entre si. de novas roupagens. Mas isso raramente acontece. Esse é um direito e não uma concessão do Estado brasileiro. que embasam certas propostas de formação tuições aliadas e pela ação de outros setores que. no entanto. sempre reside uma dimensão de luta e sua efetiva ensino. mas compostas e os saberes indígenas como plenamente adequados por uma pluralidade de culturas e maneiras de para mediarem os processos de Educação Escolar pensar e que as diferenças não são obstáculos a Indígena. Cabe ao Estado propiciar os investem na construção de espaços de participação meios necessários para que possibilidades múltiplas e de controle social. e assim por diante. A negação de uma política eficaz do ponto serem superados. em relação aos demais. Xerente. proposto na I Confe- rência Nacional. na formação de professores sejam concretizadas. com ordenamento jurídico próprio. Xukuru. contextualizadas. resguarda também o do Estado responsáveis pela educação não se veem direito à diferença. Também implementação depende da mobilização das pessoas. por insti. mas a diferença de um povo indígena acreditando numa sociedade justa e democrática. É importante assinalar que somente com luta e articulação de forças os povos indígenas poderão fazer com que os sistemas de ensino se abram para respeitar cada uma das escolas indígenas ou para construir novos paradigmas. em sua força particular. como o Sistema Próprio de Educação Escolar Indígena. Sendo assim. não é demais exigir que as escolas indígenas sejam Os avanços nos modos de conceber e concretizar a Educação Escolar Indígena diferenciadas em relação às escolas da rede regular de têm sido resultado das lutas conduzidas pelos povos indígenas 118 POR UMA EDUCAÇÃO DESCOLONIAL E LIBERTADORA – MANIFESTO SOBRE A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO BRASIL . Por exemplo. o direito à educação escolar. Hoje. Essa concepção significa um obrigados a aplicar os princípios constitucionais. de vista dos povos indígenas faz com que se quase sempre é incompatível com esses princípios perpetuem práticas colonialistas revestidas que regem as distintas sociedades. Trata-se da construção de processos de escolari- zação com feições específicas. deveria ser suficiente para um tratamento respeitoso por parte das instâncias estaduais e municipais. vinculadas à comunidade e aos seus projetos de futuro. as grande avanço pois indica o reconhecimento de leis e diretrizes que assumem as culturas. A criação da categoria escola indígena foi um avanço. Bororo. não é demais exigir que os processos de formação de Os avanços nos modos de conceber e concretizar a professores indígenas sejam planejados de modo a Educação Escolar Indígena têm sido resultado das contemplar as diferenças – não as diferenças gené- lutas conduzidas pelos povos indígenas. mas não se trata apenas de construir uma escola indígena genérica.

2012. ____________. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. aprovado em setembro de 1999. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO . Lei n. Cadernos do Cimi . Colonialidade do Poder e Classificação Social. Ministério da Educação. MEC. Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena. Revista Quadrimestral da Faculdade de Educação. Rio de Janeiro: E-papers. Secretaria de Educação Fundamental. Parecer n o 14. Caminos hacia la educación superior: los programas Pathways de la Fundación Ford para pueblos indígenas en México.). ____________.1 (70). São Paulo: Loyola. SP. p.2. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. In: SANTOS. Coimbra: Edições Almedina. Maria de Paula (Orgs. FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO. A Inclusão do Outro. Brasília. ____________. Boaventura de Sousa. Documento. 1981.24. PALADINO. MIGNOLO. ___________. Brasil y Chile. Relatório Técnico Quadro Situacional das Escolas Indígenas no Maranhão. HABERMAS Jungen. Coordenação Regional de Imperatriz (MA). Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena.org. do Ensino Médio e da Educação Superior e dá outras providências.CIMI 119 . Diretoria de Currículos e Educação Integral. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. Concepção e prática da Educação Escolar Indígena. 2013. Articulação Nacional de Educação. Desobediência Epistêmica: a opção descolonial e o signifi- cado de identidade em política. Paulo. no 34. de 10 de novembro de 1999. jan. Plano Nacional de Educação. BRASIL. 2008. Antonio Carlos de. Brasília. PROFESSORES MUNDURUKU. SOUZA LIMA. ____________. Carta. Brasília. Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). QUIJANO. PRO-POSIÇÕES. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Pernam- buco. língua e identidade. I Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena. MENESES./abr. 287. FREIRE. Brasília. 2013. Projeto de Resolução que institui as Diretrizes Referências Bibliográficas Curriculares Nacionais para a Formação de Professores Indígenas da Educação Básica. 2004. de 9 de janeiro de 2001. Mariana (org). Secretaria de Educação Básica.º 10. 2013. Jacareacanga. 2009. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura. p. SA. v. Pedagogia do Oprimido. São Luís. n. 2012. Perú. 1993. 287-324. 2013. Áudio disponível em: http://reporterbrasil. Docu- mento Orientador. 2012. Resolução no 03. Ministério da Educação. Aníbal. Walter D. Ministério da Educação. Campinas. Epistemologias do Sul. Faculdade de Educação. 1997. COMISSÃO DE PROFESSORES INDÍGENAS DE PERNAMBUCO. CÂMARA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Acesso em 15 de março de 2014. Ministério da Educação.br/2014/03/professores-munduruku-trancam-secretaria- de-educacao-apos-demissao-em-massa/. 2008.172.

É importante assinalar que somente com luta e articulação de forças os povos indígenas poderão fazer com que os sistemas de ensino se abram para respeitar cada uma das escolas indígenas ou para construir novos paradigmas .

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