Resenha: Em que consiste o aparelho formal da enunciação, postulado por

Benveniste?

Há um conjunto de regras fixando as condições sintáticas nas quais as formas
podem ou devem normalmente aparecer, uma vez que elas pertencem a um paradigma
que arrola as escolhas possíveis. As condições de emprego das formas não são idênticas
às condições de emprego da língua e essa diferença implica outra maneira de ver as
coisas, de descrever e interpretar. O emprego das formas, parte necessária de toda
descrição tem dado lugar a um grande número de modelos, tão variados quanto os tipos
linguísticos dos quais eles procedem. A enunciação, por sua vez, é colocar em
funcionamento a língua por um ato individual de utilização. Pode, também, estabelecer
uma distinção entre discurso e enunciação em que aquela é uma manifestação da
enunciação, o texto do enunciado, o objeto e esta o ato de produção de um enunciado, o
fato do locutor que mobiliza a língua por sua conta.

Este processo pode ser estudado sob diversos aspectos, que caracterizam o
aparelho formal da enunciação. O primeiro deles é a realização vocal da língua, que é
mais perceptível e direta para questões de análise. Nela, a enunciação é produzida em
uma diversidade de situações, mas procura-se eliminar ou atenuar traços individuais da
enunciação fônica recorrendo a sujeitos diferentes e multiplicando os registros, de
modo a obter uma imagem média de sons, distintos ou ligados. O segundo é o
mecanismo da produção, em que a enunciação supõe a conversão individual da língua
em discurso. A partir dele, é possível ver como o sentido se forma em palavras, em que
medida se pode distinguir entre as duas noções e em que termos descrever sua
interação. O terceiro consiste em definir a enunciação no quadro formal de sua
enunciação, em que são esboçados, no interior da língua, os caracteres formais da
enunciação a partir da manifestação individual que ela atualiza. Esses caracteres são,
uns necessários e permanentes, outros incidentais e ligados à particularidade do idioma
escolhido.

Pode-se, ainda, fazer uma distinção entre o ato individual e a realização
individual da enunciação. No ato individual, o locutor é colocado como parâmetro nas
condições necessárias da enunciação e, antes dela, a língua é possibilidade dela própria
e, depois, é efetuada em uma instância de discurso, por um locutor, em forma sonora
que atinge um ouvinte e suscita uma enunciação de retorno. Enquanto realização
individual, a enunciação pode se definir, em relação à língua, como um processo de
apropriação em que o locutor se apropria da língua (aparelho formal) e enuncia sua
posição de locutor por meio de índices específicos e procedimentos acessórios. Toda a
enunciação é explícita ou implicitamente uma alocução que postula um alocutário. A
relação com o mundo, o consenso pragmático, a referência, é parte dos locutores da
enunciação. Todas essas condições vão reger o mecanismo da referência no processo
de enunciação.

A temporalidade é um quadro inato do pensamento. pode existir enunciação sem diálogo. à medida que se determinam em relação ao ego. Isso porque nascem de uma enunciação para designar algo novo. para dar ordens. 2) a intimação. permanece presente. São termos que implicam um gesto que designa o objeto ao mesmo tempo que é pronunciada a instância do termo. Outra variedade do diálogo é a comunhão fática. em que se pressupõe que haja uma estrutura do diálogo com um quadro figurativo da enunciação. nesse caso. como o monólogo.. Da enunciação procede a categoria do presente e desta nasce a categoria do tempo. Podem existir diálogos fora da enunciação. É um dado constitutivo da enunciação o ato individual de apropriação da língua introduzir aquele que fala em sua fala. Ela é produzida. Essa possibilidade é sui-reflexiva. para comunicar uma certeza de sim ou de não. ainda. apelos (uso do imperativo. O que vem a caracterizar a enunciação é a acentuação da relação discursiva com o parceiro. em que apenas provérbios são pronunciados. daí. sem conseguir dar uma resposta. que envolve duas figuras igualmente necessárias: a origem e o fim. Nesse jogo. As formas temporais também fazem parte dos termos que dizem respeito à enunciação. numa espécie de linguagem interior. assertivas e o ouvinte intervém com objeções. É um processo em que o discurso. questões. vocativo) e 3) a asserção. para a qual o interlocutor se dirige fazendo perguntas. de duas modalidades formais durante a produção dos enunciados: 1) os verbos. em que os laços .. dúvida. Ele pode servir-se. o aquele e o amanhã são os nomes metalinguísticos correspondentes da descrição gramatical produzidos na enunciação. O eu. mais especificamente os modos verbais e 2) a fraseologia. um fenômeno psicossocial com função linguística. O homem não dispõe de nenhum outro meio de viver o “agora” e de torna-lo atual senão realizando-o pela inserção do discurso no mundo. a noção de continuidade. O ouvinte. O presente inerente se renova a cada nova enunciação e. O enunciador se serve da língua e dispõe de um aparelho de funções para influenciar o comportamento do alocutário: 1) a interrogação. na verdade. aqui. Os índices de ostensão (este. como o jogo Hain-Teny. que compreende um jogo de oposições do pronome e do antônimo. apontada por Malinowski. centro da enunciação. sob forma de um diálogo. estabelece uma colaboração entre os indivíduos. dentro da mesma pessoa. que indicam certeza.) têm a mesma natureza e se relacionam à mesma estrutura de enunciação. Assim. recusa. portanto. O “eu” locutor se coloca como “eu” ouvinte. na e pela enunciação. A transposição do diálogo em monólogo divide o ego em dois ou assume os dois papéis. as formas pronomes pessoais e demonstrativos aparecem como uma classe de indivíduos linguísticos. o indivíduo que aí está como alocutário. para suscitar uma resposta. que consiste numa variedade do diálogo. Igualmente. perde quem fica sem entender o que foi dito e. etc. A emergência dos índices de pessoa se reproduz apenas na e pela enunciação: o termo “eu” denotando o indivíduo que profere a enunciação e o termo “tu”. dúvidas ou insultos.

BENVENISTE. É. como a distinção entre a enunciação falada e a escrita. Campinas: Pontes. faz os indivíduos se enunciarem. mas pura enunciação de palavras combinadas. usada para socializar e estabelecer comunhão pessoal. se manifesta não como um instrumento de reflexão. mais uma vez. Paris: Gallimard. Tradução Maria da Glória Novak e Maria Luiza Neri. BENVENISTE. 1988. Essa forma de diálogo se satisfaz em sua realização. São exemplos cumprimentos. mas como um modo de ação. Paris: Gallimard. A linguagem. pedidos de favor e de licença e perguntas sobre a saúde e sobre o tempo. 1966. Campinas: Pontes. por exemplo. nesta função. É Problemas de linguística geral I. O que há é uma conversa sem finalidade. no interior de sua escrita. nem finalidade. Tradução Eduardo Guimarães et al. Benveniste conclui o texto falando que muito ainda deve ser estudado sobre os desdobramentos da enunciação. por isso. Referências: BENVENISTE. nem mensagem. É Problemas de linguística geral II. Problèmes de linguistique générale I.de união são função social. é que ela se situa em dois planos: o que escreve se enuncia ao escrever e. 1974. O que já se sabe desta última. repetidas por cada um dos enunciadores. não comportando nem objeto. É Problèmes de linguistique générale II. BENVENISTE. mas não são o resultado de reflexão. percebe-se que a linguagem não funciona como meio de transmissão do pensamento. 1989. Seu objetivo não é informar e. .