CASO: EXTRADIÇÃO – CESARE BATTISTI

Cesare Battisti, é um ex-membro do grupo armado de extrema esquerda italiana, Proletários Armados
pelo Comunismo (PAC), que se manteve ativo até o final dos anos 70.

Foi preso pela primeira vez em 1972, por furto, em Frascati.

Em 1974 foi novamente preso e condenado a seis anos de prisão, por assalto a mão armada.
Libertado em 1976, em 1977 foi preso novamente. Na prisão de Udine, conheceu Arrigo Cavallina,
que o introduziu na organização.

1978/79: Quatro assassinatos foram perpetrados pelo seu grupo: Antonio Santoro, um agente
penitenciário; Andrea Campagna, agente policial; Pierluigi Torregiani e Lino Sabadin (por reagirem
aos assaltos).

Em 1987, Cesare foi condenado a revelia pela justiça italiana por ser o autor (direto ou indireto) de
quatro homicídios, sua pena: prisão perpétua.

Após ter sido condenado pela justiça italiana, Battisti, na tentativa de aquisição de asilo
político, se instalou na França durante um tempo. Porém a Itália, na segunda tentativa de extradição
teve o pedido autorizado em 2004 pelo Conselho de Estado da França e antes mesmo que o decreto
fosse assinado(durante o trâmite do processo) Battisti recorreu então a uma fuga transcontinental e
seguiu rumo a território brasileiro.

O Estado italiano, mais uma vez, iniciou solicitações de extradição ao Estado Brasileiro, e
nesse caso faz-se referência à extradição passiva, uma vez que a Itália solicita o processo, ou seja, é o
requerente. Há também a extradição ativa, que representa o caso de o país que cede o extraditado, isto
é, exerce a função de demandado.

A extradição é o principal modelo de retirada compulsória de um estrangeiro de um país(além
da expulsão e da deportação) e um belo exemplo de cooperação penal, pois envolve não somente uma
intrusão na soberania de um determinado país, como uma interferência no direito humano mais
fundamental, a liberdade do indivíduo. Além disso, é um importante instituto do direito internacional e
das relações internacionais, pois pode ser usada como instrumento político a fim de garantir a não
impunidade de um criminoso que tenha se aproveitado da atual relativização das fronteiras físicase se
encontre sob outra jurisdição, ou firmar a posição política de um país.

Porém, a extradição possui dois significados amplos para a diplomacia brasileira: no cenário
internacional ela representa forma ativa de participação do Brasil no combate ao crime transnacional; e
no plano interno ela confirma o esforço governamental de combater a impunidade de crimes graves.
Para a legislação brasileira, a extradição é um ato essencialmente político, cabendo ao executivo a
decisão final sobre o pedido, restando ao judiciário apenas julgar se o pedido obedece às formalidades
requeridas pelo princípio da legalidade e pelas disposições legislativas do ordenamento jurídico
interno. Desse modo, prossegue-se à análise desse instituto no âmbito da legislação pátria.

O PROCESSO EXTRADICIONAL

A extradição ocorre preferencialmente sob a égide de um tratado e especifico com o país que a requer.
Contudo, o Brasil não possui tratados desse tipo com todos os países, dependendo, nesse caso, do uso
do princípio da reciprocidade para resolver os casos em que haja pedido de extradição. Em matéria de
extradição, a reciprocidade pode ser acolhida ou rejeitada pelo governo brasileiro, sem a
obrigatoriedade de uma fundamentação (MAZZUOLI, 2012, p. 742). Contudo, se a extradição tem por
base um tratado, o pedido não comporta recusa infundada, pois a existência de um tratado marca um
compromisso que o governo brasileiro deve honrar, sob a pena de perder sua credibilidade no cenário
internacional.

A segunda fase dentre as administrativa(fase última do processo) tem início com a análise da entrega do extraditando pelo Chefe do Poder Executivo. foi imposta por força da extradição (detração). e. pois terá como base uma norma posta e/ou tratado. mas ainda não efetivada. o pronunciamento do plenário do Supremo não se limita a julgar a extradição legal ou ilegal. Porém o procedimento extradicional no Brasil compreende duas fases administrativas e uma jurisdicional. da Constituição vigente. De acordo com o artigo 83. ou quando há apenas a proposta superveniente dessa promessa. . ressalvados. uma vez que apenas declara a possibilidade legal do ato. tratando-se. juntamente ao pedido de habeas corpus. o poder do Presidente não é discricionário. o presidente do Supremo determina a prisão do extraditando como condição para que o processo se inicie. (DEL’OLMO. pois. a extradição solicitada pelo Estado estrangeiro”. cabe tomar uma decisão). de não ser o extraditando entregue a outro Estado que o reclame sem o consentimento do Brasil. prioridade de decisão. autorizando o Presidente da República a. e requer uma fundamentação para a negação final. Quando recebe o pedido de extradição. deferindo ou negando o pedido(não cabe aqui conferir a veracidade do pedido com base em fatos. A entrega só pode ser efetivada se o Estado requerente assumir o compromisso de não ser o extraditando preso nem processado por fatos anteriores ao pedido (princípio da especialidade). o que ocorre. procedente ou improcedente. originariamente. de computar o tempo de prisão que. este pode prever exceções ao deferimento da entrega. 57-58). mas sim. g. quando há tratado. A concessão da extradição no Brasil tem tratamento constitucional. Ressalta-se que a fundamentação para a recusa da extradição é aconselhada em todos os casos para a manutenção das boas relações entre os países. A primeira fase é a administrativa ou governamental e se inicia com o recebimento do pedido pelo Ministério das Relações Exteriores. 2011. no Brasil. os casos em que a lei brasileira permitir a sua aplicação (caso de guerra declarada). como forma de respeito às relações diplomáticas. Sendo. cabendo ao STF“processar e julgar. só pode acontecer em casos nos quais não há tratado ou promessa de reciprocidade. p. a decisão sobre o destino da pessoa reclamada passa à fase judiciária. posteriormente. passando a crer que a partir de então somente o juízo negativo da Corte sobre a legalidade da demanda lhe poderá vir a frustrar o intento. sobretudo. devido ao fato de ser matéria que trata sobre um dos direitos fundamentais do ser humano: a liberdade. quanto à última. mas só é obrigatória nos casos da existência de tratado ou promessa de reciprocidade. tende a ver nesse ato a aceitação de sua garantia de reciprocidade. mais precisamente ao Supremo Tribunal Federal. tendo. Quando o governo brasileiro não nega de início a extradição. efetivar ou não a entrega do extraditando. de não considerar qualquer motivo político para agravar a pena. conforme o artigo 101. não com pouca frequência. finalmente. a procedência e a regularidade do pedido. I. de um processo misto. portanto. em casos de haver razões ponderáveis para supor que a pessoa reclamada será submetida a perseguições. conhecida como faculdade de recusa sumária. se pronuncia em termos definitivos. não cabendo apreciar o mérito quanto à condenação do acusado ou eventuais vícios processuais apurados no Estado requerente. Contudo. Nesse último caso. por isso. A possibilidade de recusar a extradição após o julgamento da Suprema Corte. o que pressupõe que o STF deferiu o pedido de extradição. discriminações ou terá seus direitos fundamentais violados no país requerente. de comutar em pena privativa de liberdade a pena corporal ou de morte. Contudo a decisão do STF é de natureza apenas autorizatória. O Estado requerente. do Estatuto do Estrangeiro. A prisão decretada pelo STF tem caráter preventivo. irrecorrível tal decisão. O Supremo Tribunal Federal examina a legalidade.

Este precisa possuir alguns requisitos como: a) ser considerado crime no Brasil e no Estado requerente (dupla incriminação) e a pessoa ser punível nos dois países. ministro Cezar Peluso. e mais os ministros Ellen Gracie. nacionalidade. Carlos Ayres Britto e Enrique Ricardo Lewandowski votaram votarem pela anulação da concessão do refúgio ao ex- militante. Os advogados da União juntaram ao relatório notícias veiculadas pela imprensa italiana. No documento. no qual deve-se julgar internamente no caso de impossibilidade de extradição de nacionais). No mesmo dia o STF em votação posterior. a julgar crimes praticados por brasileiro no exterior(e aqui é evocado o pacto de cooperação internacional. condição social ou pessoal. c) o fato deve ser considerado grave e punível com pena privativa de liberdade com duração maior que um ano pelo ordenamento interno brasileiro. Em meio a toda essa repercussão. o primeiro diz respeito à pessoa. b) não ser acusado de crime político ou de opinião. d) o pedido deve estar sujeito à jurisdição penal do Estado requerente. não extradita nacionais. o ministro pediu vistas aos autos do processo. cabendo ao tribunal subsumir se o fato se enquadra em crime comum. se habilitando. A expectativa era de que o ministro Marco Aurélio também votasse pela suspensão do processo de extradição. pelo Supremo Tribunal Federal. empatando o julgamento em 4x4. o pedido de extradição foi julgado em setembro de 2009. durou cerca de onze horas. O Brasil. da Constituição Federal. conforme preceitua o artigo 5. O relator do caso.Cármen Lúcia. Os ministros Joaquim Barbosa. inciso LI. transmitida ao vivo pela TV Justiça. Marco Aurélio votou contra a extradição de Battisti. O segundo pressuposto analisa o fato a que a pessoa está sendo imputada. cabendo no entanto ao executivo. mais especificamente sobre a nacionalidade. devendo o ser exclusivamente de crime comum. religião. com base em parecer da Advocacia Geral da União. assim como a maioria dos outros países. sobre o tratamento que seria dado a Battisti caso fosse extraditado para a Itália. por entenderem tratar-se decrimes comuns. nos termos do art. entendeu ser da competência do Supremo Tribunal Federal autorizar a extradição. e) deve ser verificada se a ação penal não está prescrita. indo contra o voto do relator Antonio Cezar Peluso.7º do Código Penal. o que automaticamente suspenderia o julgamento do processo de extradição pelo STF. entre eles. com exceção ao naturalizado. a AGU salienta que a extradição pode ser negada com base em "razões ponderáveis para supor que a pessoa reclamada será submetida a atos de perseguição e discriminação por motivo de raça. Deu-se continuidade ao julgamento da extradição de Battisti em 12 de novembro. tanto pela lei Brasileira quanto do Estado requerente. na pessoa do Presidente da República a decisão sobre a execução do ato Em 31 de dezembro de 2010. em caso de crime comum. praticado antes da naturalização. .A 18 de novembro. língua. Contudo. incluindo declarações de integrantes do governo. opinião política.REQUISITOS PARA A CONCESSÃO DA EXTRADIÇÃO A extradição propriamente dita depende de alguns pressupostos. antes de votar. na forma da lei. a legislação brasileira não determina a impunidade. A sessão. o presidente Lula decidiu não conceder a extradição de Cesare Battisti. o ministro-presidente Gilmar Mendes proferiu voto de desempate a favor da extradição. ou que sua situação possa ser agravada por um dos elementos antes mencionados". mais uma vez. de modo que. mas. também por 5 votos a 4. ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins. a decisão sobre o caso foi adiada. sexo. Eros Grau e Marco Aurélio Mellomanifestaram-se pela legalidade da decisão do ministro Tarso Genro. de conceder refúgio a Battisti.

foi feito o pedido de deportação de Battist. Votaram pela libertação os ministros Luiz Fux. o Ministério Público arquivou o processo. por se tratar de um estrangeiro em situação ilegal no Brasil. O relator Gilmar Mendes e a ministra Ellen Gracie votaram pela extradição de Battisti. Joaquim Barbosa e Carlos Ayres Britto. Ricardo Lewandowski. Os ministros José Antônio Toffoli e Celso de Mello não participaram do julgamento por se julgarem impedidos. Posteriormente. Carmen Lúcia. em 2015. em 8 de junho de 2011.Afinal. preso desde março de 2007. o STF decidiu pela libertação imediata de Cesare Battisti. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). em virtude da ilegalidade da aquisição dos documentos. Recentemente. também votou contra a maioria. .Cezar Peluso.