AGRICULTURA

NO BRASIL
Estrutura Agrária
e Conflitos no Campo
Histórico
A chegada dos portugueses ao Brasil marca a divisão da
terra por meio de “doações” (sesmarias) feitas pela coroa
portuguesa, além disso de explorar a terra através do
extrativismo de produtos agrícolas;
A política colonial é o primeiro passo para o surgimento
dos latifúndios no território, com grandes faixas de terras
“doados” a exploradores para exploração econômica;
Com a independência de Portugal, em 1822, há uma va-
cância nas leis sobre a terra, até que em 1850 é criada a
“Lei de Terras” que proíbe o acesso a terras devolutas
(sem donos), exceto pelo instrumento de compra e venda.
A lei visa controlar o acesso dos imigrantes que come-
çam a chegar ao Brasil e aos ex-escravos.
Lei de Terras - 1850
A lei nº 601 de 18 de setembro de 1850 estabelecia o
fim da apropriação de terras (posse): nenhuma terra
poderia mais ser apropriada através do trabalho,
mas apenas por compra do Estado. As terras já ocu-
padas seriam medidas e submetidas a condições de
utilização ou, novamente, estariam na mão do Estado,
que as venderia para quem definisse.
Além de impedir que os escravos obtivessem pos-
se de terras através do trabalho, a lei previa subsídi-
os do governo à vinda de colonos do exterior (imi-
grantes) para serem contratados no país, desvalorizan-
do ainda mais o trabalho dos negros e negras.
Situação da terra, hoje
Domínio da terra pelos grandes proprietários de terra, on-de
menos de 1% dos proprietários domina cerca de 50% das
terras brasileiras;
Muitas propriedades registradas em cartórios, mas que não
existem (terras griladas). Tratam-se de documentos para
garantir a realização de empréstimos fraudulentos ou
práticas de fraudes para legalização de ganhos ilegais;
Milhares de pequenos proprietários, sem documentos
legais de posse da terra: moram, vivem e muitos nasce-
ram nos locais, mas vivem a insegurança jurídica, pois não
possuem documentos legais. São os chamados “possei-
ros”. Pela lei, após 10 anos sem contestação da ocupação,
podem solicitar a propriedade da terra.
Personagens do Conflito
Fazendeiro – dono/proprietário de terras;
Grileiro – aquele que incorpora ilegalmente terras públicas, ou de
posse com fins de exploração ou simples comércio de terras;
Jagunço – agente do grileiro ou fazendeiro que age de forma vio-
lenta para expulsão de camponeses, posseiros, indígenas, etc.,
muitas vezes esse personagem é o ex-posseiro que passa a
trabalhar para o grileiro;
Indígenas – proprietário original da terra no Brasil;
Posseiro – aquele que tem “posse” da terra. Segundo a constitui-
ção, a posse de terras por 10 anos ou mais dá o direito de posse
para pequenas propriedades;
Camponês – nome originário da idade média, que significa o
trabalhador da terra;
Sem-Terra – o que luta pela posse da terra, reivindicando a posse
ou a reforma agrária em terras improdutivas ou subutilizadas;
Quem luta pela terra
Diversos grupos lutam pela posse ou para recuperar as suas
terras. Os principais grupos são os seguintes:
Indígenas – demarcação de terras ocupadas historicamente;
Quilombolas – ex-escravos ou fugitivos formavam colônias/ vilas
para refúgio. A Constituição de 1988 reconheceu o seu direito a
demarcação de terras;
Desapropriados por barragens – as construções de grandes re-
presas desapropriaram milhares de agricultores que não conse-
guem comprar novas terras, migrando para as cidades;
Colonos e camponeses – a divisão de terras entre familiares e
descendentes levam à falta de terras para sobrevivência;
Moradores urbanos, que viveram no campo aspiram a volta às
zonas rurais, engrossando os movimentos como os “Sem-
Terras”.
Meeiros/arrendatários – produtores que trabalham em terras de
terceiro, pagando aos proprietários com parte da produção;
Cadastro Ambiental Rural - CAR
Atualmente encontra-se em processo a realização do
“Cadastro Ambiental Rural – CAR”, que visa a demarcação
georreferenciada das propriedades brasileiras. O prazo
inicial era junho de 2015, mas devido a dificuldades em
algumas regiões brasileiras, o prazo foi prorrogado para
dezembro de 2017.
Os proprietários devem realizar registros georreferen-ciados
(coordenadas geográficas) de suas proprieda-des, áreas de
proteção, nascentes, áreas agrícolas, etc. Quando o registro
é realizado no Ministério do Meio Ambiente (MMA), existe a
verificação de sobreposição de áreas, ou áreas pertencentes
ao governo, não podendo haver sobreposição de áreas.
O CAR é um instrumento de controle do MMA, e não uma
comprovação de propriedade, que deverá ocorrer num
processo posterior.
Áreas de Reserva Legal
Dados do Boletim do CAR
junho-2017
Discrepância dos Dados do CAR
O CAR tem por objetivo mapear as propriedades rurais bra-
sileiras, mas, num primeiro momento, verificar a regularida-
de do cumprimento das leis ambientais de acordo com a Lei
Florestal (Lei nº 12.651/2012) que estabelece áreas de Pre-
servação Permanente e de Reserva Legal nas propriedades
rurais brasileiras.
O cadastro é autodeclaratório, ou seja, neste momento não é
exigido a comprovação de propriedade. Mas o uso do GPS
obriga os proprietários à localização exata de suas divisas.
Observando o boletim oficial do CAR, verificamos que as
propriedades cadastradas nas regiões Norte e Sudeste su-
peram os 100% possíveis. Isso ocorre exatamente pela
imprecisão dos documentos de posse existentes no Brasil,
onde nunca houve um levantamento oficial da propriedade
da Terra, gerando conflitos em diversas regiões.
Concentração de Terras no Brasil
Estrutura Agrária Concentrada
A análise da tabela, mostra a grande quantidade de
imóveis rurais até 50 ha, que corresponde a quase
75% das propriedades, mas que tem apenas 10%
das terras brasileiras;
Por outro lado, nas propriedades acima de 1000 ha,
temos 1,6% das propriedades, que correspondem a
52% das terras, sendo que muito dessas terras
encontram-se em situação de subutilização, como
pastos degradados (com menos de 1 cabeça de
gado a cada 2 ha, ou pior que isso), ou com baixa
utilização em atividades rurais;
Área de Agricultura e Pecuária no Brasil
(2010)

• 42 milhões ha com lavouras anuais (grãos e
fibras) – pode ser renovado a curto prazo
• 15 milhões ha com culturas permanentes
(café, frutas) – não pode ser renovado a curto prazo
• 6 milhões ha com cana.
• 210 milhões ha utilizados com pastagens
(pecuária)
• Total de área utilizada: 273 milhões ha
1 hectare = 100m X 100m = 10.000 m²
Classificação dos Imóveis Rurais
Em relação ao tamanho da área, os imóveis rurais são
classificados em:
Minifúndio – imóvel rural com área inferior a 1 (um) módulo
fiscal;
Pequena Propriedade - imóvel de área compreendida entre 1
(um) e 4 (quatro) módulos fiscais;
Média Propriedade - imóvel rural de área superior a 4 (quatro)
e até 15 (quinze) módulos fiscais;
Grande Propriedade - imóvel rural de área superior 15 (quin-
ze) módulos fiscais.
A classificação é definida pela Lei 8.629, de 25 de fevereiro de
1993 e leva em conta o módulo fiscal (e não apenas a
metragem), que varia de acordo com cada município.
Módulo Fiscal Qual é a aplicação
do MÓDULO FISCAL?
– Serve também de parâmetro
para definir os beneficiários do
Pronaf (pequenos agricultores
de economia familiar, proprietá-
rios, meeiros, posseiros, par-
ceiros ou arrendatários de até
quatro módulos fiscais).
O tamanho do módulo varia de
cidade para cidade de acordo
com sua localização, economia,
densidade demográfica, produ-
tividade da terra e da lei da
Terra, que regula o desmata-
mento em cada bioma brasilei-
ro.
Os menores e os maiores módulos
rurais
Em 54 municípios com tamanho de módulo fiscal de 5 ha
compreendem as regiões metropolitanas de São Paulo/SP
(25 municípios), Rio de Janeiro/RJ (19 municípios), Salva-
dor/BA (2 municípios), Aracaju/SE, Belém/PA, Belo Horizon-
te/MG, Brasília/DF, Curitiba/PR, Fortaleza/CE, Porto Alegre/
RS e Recife/PE.
Os municípios com módulo fiscal maior ou igual a 100 ha
concentraram-se nos Estados (Bioma Amazônico) do Acre
(18 municípios), Amazonas (39 municípios), Mato Grosso
(41 municípios), Roraima (7 municípios) e Mato Grosso do
Sul (2 municí-pios). Corumbá/MS e Ladário/MS (Bioma
Pantanal) são os únicos municípios que apresentaram
módulo fiscal de 110 ha.
Tamanho dos
Módulos Fiscais no
Brasil
Até 4 módulos
rurais

Mais de 15
módulos rurais

De 4 a 15
módulos rurais
Evolução da Concentração da Propriedade da
Terra no Brasil Medida pelos Imóveis – 2003/2010

Menor que 1 módulo
Minifúndio Mais de 4 e menos de
fiscal Média Propriedade
15 módulos fiscais

Entre 1 e 4 módulos
Pequena propriedade Mais de 15 módulos
fiscais Grande Propriedade
fiscais
Terras Improdutivas
Art. 4.º Considera-se propriedade produtiva para fins do disposto no art. 6.º da
Lei n.º 8.629/93, aquela que explorada econômica e racionalmente, atinge,
simultaneamente, Grau de Utilização da Terra - GUT igual ou superior a 80%
(oitenta por cento) e Grau de Eficiência na Exploração - GEE igual ou superior a
100% (cem por cento).
No artigo art. 6.º da Lei n.º 8.629/93:
§ 3º Considera-se efetivamente utilizadas:
I - as áreas plantadas com produtos vegetais;
II - as áreas de pastagens nativas e plantadas, observado o índice de
lotação por zona de pecuária, fixado pelo Poder Executivo;
III - as áreas de exploração extrativa vegetal ou florestal, observados os
índices de rendimento estabelecidos pelo órgão competente do Poder
Executivo, para cada Microrregião Homogênea, e a legislação ambiental;
IV - as áreas de exploração de florestas nativas, de acordo com plano de
exploração e nas condições estabelecidas pelo órgão federal competente;

Esses índices foram definidos com base na Censo Rural de 1976 e, apesar das
novas tecnologias e inovações no campo, não sofreram atualização desde então,
o que indica que as áreas improdutivas são maiores que as divulgadas
atualmente nas estatísticas oficiais.
Dados de
2014
Efetivo de Rebanho de Gado –
por Região do Brasil (2015)

Região Cabeças de Gado

Norte 44.154.969
Nordeste 29.092.184
Sudeste 38.812.076
Sul 27.434.523
Centro-Oeste 72.705.736
Brasil 215.199.488
População do Brasil - por Região – IBGE 2012
Distribuição do Gado
No Brasil a média é de uma cabeça/ha. Na tabela acima é
possível verificar por região do Brasil a quantidade de cabe-
ças por ha. Nas regiões N (69,6%) e NE (73,6%) das proprie-
dades possuem menos que 0,4 cabeça/ha, significando baixa
produtividade na pecuária (muita terra e pouco gado).
A pecuária é res-
ponsável pela
maior parte das
áreas agrícolas do
Brasil.
Essa atividade é
relacionada ao
trabalho escravo
em virtude de
implicar na derru-
bada de florestas
e abertura de
áreas pouco
habitadas.
O mapa destaca
áreas do Pará,
nas bordas da
floresta
Amazônica.
Uso da Terra
no Brasil
Na costa leste do Brasil pre-
domina áreas de lavouras
destinadas às grandes cida-
des (produção de alimentos).
Quando avançamos em dire-
ção ao interior do território,
com menor densidade
demográfica, temos o cresci-
mento de áreas de pasto e
de matas e florestas.
Nessas áreas predominam o
agronegócio e as grandes
propriedades.
Uma das questões hoje no
Brasil é o aumento da produ-
tividade da pecuária e da
agricultura para atender o
mercado interno e externo.
O Brasil é o país mais perigoso para os defensores do meio
ambiente, tendo registrado 25% do total de assassinatos de
ativistas ocorridos no mundo em 2016, de acordo com um
relatório da Global Witness divulgado nesta quinta-feira (13).
Pelo menos 200 ativistas ambientais, um número recorde,
foram mortos em todo o mundo no ano passado, 60% deles
na América Latina, segundo o relatório.
O balanço, o dobro do registrado dois anos antes, é o mais
elevado desde que a organização começou a contabilizar os
assassinatos de ambientalistas, em 2002.
Imóveis de “posse”
Outro problema agrário brasi-
leiro é a regularização dos
documentos da terra. Assim,
em todo o Brasil é comum
verificarmos a não existência
da escritura da terra.
São propriedades de “posse”,
ou seja o ocupante controla a
terra, mas não tem a sua
titulação (escritura).
Segundo a lei do usucapião,
as pequenas propriedades
(até 4 módulos rurais) após
10 anos de posse efetiva,
podem ser legalizadas com
emissão do título da terra.
Entretanto, antes disso, é
muito comum a ação de grilei-
ros que expulsam os seus
moradores.
Posses e Grilos
Terras griladas são registros
realizados a partir de docu-
mentos fraudados.
Antes da Lei de Terras (1850),
as doações de terras eram
feitas pelos governantes
desde a colonização.
A expressão “grilo” vem do
fato que os falsificadores co-
locavam papéis em gavetas
juntamente com grilos que
através de sua “ação”, degra-
da e “envelhe” papeis que são
levados aos cartórios como
prova de doação antes da
instituição dessa lei de 1850.
Com essa documentação
expulsam os posseiros, em
geral, camponeses pobres e
sem conhecimento jurídico.
Terras
Exploráveis,
não exploradas
Outra situação encontrada
nas áreas rurais é a subu-
tilização das terras, ou
seja, as terras encontram-
se disponíveis para ativi-
dades econômicas, mas
não são utilizadas, princi-
palmente pela degradação
dos pastos.
Segundo a lei, as proprie-
dades declaradas “impro-
dutivas”, estão sujeitas à
reforma agrária.
Essa situação gera tensão
entre proprietários e movi-
mentos que reivindicam a
reforma agrária e veem
essas terras como elegí-
veis para isso.
À esquerda as áreas onde existem os
conflitos de terra. Deve-se destacar
que muitos desses conflitos não se
referem somente a agricultores, mas
também em relação aos indígenas que
lutam pela demarcação de reservas.

As ocupações são organizadas pelos
movimentos que reivindicam terras e
reforma agrária. A imprensa como
forma de “criminalizar” os movimen-
tos sociais referem a eles como
“invasões de terra”.
Fonte: 16/05/2016
A luta pela
terra indígena
A partir da Constituição de
1988, a cidadania indígena
efetiva foi reconhecida pela
primeira vez no Brasil.
Os indígenas passaram a ter
direito de se alfabetizarem em
sua língua natal e não apenas
na língua portuguesa.
O que ocorria o etnocídio, eli-
minava-se a cultura indígena
para alegar a sua inexistência.
Entre os proprietários que tem
as terras demarcadas como
sendo “indígenas” verifica-se o
argumento dos advogados ale-
gando que não se tratam de
“índios reais”, mas de “índios
fantasiados” que querem lesar
os proprietários em seu patri-
mônio.
Reforma Agrária
Terras Desapropriadas – 1995-2009
Reforma Agrária
Terras Compradas – 1995-2009
Por muitos anos, a reforma agrária praticada no Brasil consistia na distribuição
de terras a agricultores sem propriedade e deixá-lo cuidar da terra dependendo da
própria sorte.
Atualmente um conceito mais amplo é utilizado, com a cessão da terra e o acom-
panhamento, com o auxílio de assistência técnica e empréstimos do PRONAF.
Nessas condições o agricultor tem condições de se tornar efetivamente um pro-
dutor e não simplesmente um proprietário de subsistência, como ocorria antes. A
produção familiar e cooperativa é incentivada para incremento de renda.