Edgar Morin

Ciência
com Consciência
Edição revista e modificada pelo Autor

Tradução
Maria D. Alexandre
e

Maria Alice Sampaio Dória

82 EDIÇÃO

B
BERTRAND BRASIL

1 7 1 . II.11.1. Copyright © Editions du Seuil. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. Teoria do conhecimento. RJ. . I. Copyright © Librairie Arthème Fayard.11.1 " andar .50:1 Todos os direitos reservados pela: E D I T O R A B E R T R A N D BRASIL L T D A .Filosofia. II.11. 3. Edgar.1. Atendemos pelo Reembolso Postal.8" ed. revista e modificada pelo autor . Ciência. Tradução de: Science avec conscience Inclui bibliografia ISBN 85-286-0579-5 1. CDD .é.9. Ciência.10. Título. 1982.1.7.Ed.1. 1 D. .8. Rua Argentina. ILS.' 1-5. Il. II.9.R i o de Janeiro . sem a prévia autorização por escrito da Editora. 350p. 1 e II. por quaisquer meios.2. 1990.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.3.8.RJ T e L ( 0 X X 2 1 ) 2585-2070 .1. prefacio e capítulos 1. 1921- M85c Ciência com consciência / Edgar Morin. para os capítulos 1. II.4.1.6.7.Fax: ( 0 X X 2 1 ) 2585-2087 N ã o é permitida a reprodução total ou parcial desta obra.1. 2005. Título original: Science avec Conscience Capa: projeto gráfico de Simone Villas Boas 2005 Impresso no Brasil Printed in Brazil CIP-Brasil.2. Morin. II. II. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros.501 96-1238 CDU . tradução de Maria 8' ed.3.São Cristóvão 20921-380 . . 2.

o plano do livro foi modificado. incompreendido. Algumas idéias lançadas neste livro. e a segunda. marginalizado causou-me mágoa profunda que. Desordem e Organização constituem as noções diretrizes que deixam de se excluir e se tornam dialogi- . Para o Pensamento Complexo. são atualmente admitidas por um grande núme- ro de cientistas. se não foi consolada. a primeira denominada Ciência com Consciência. que já havia enunciado. a maior parte de minhas idéias sobre a ciência e a complexidade. Prefácio Para esta nova edição. como a do caos organizador. sobre os mesmos temas e dentro do mesmo espírito. na primeira parte. O conhecimento do conhecimento científico e Teses sobre a ciencia e a ética. Suprimi o prefacio à primeira edição. mais recentes. Se a reforma do pensamento científico não chegou ainda ao núcleo paradigmáti- co em que Ordem. Os textos novos são. entre 1958 e 1968. na segunda parte. com suporte de citações. adormeceu com o tempo. Alguns textos foram suprimidos e substituidos por outros. pas- sando a comportar duas partes. O desafio da complexi- dade e A inseparabilidade da ordem e da desordem. Ser contestado. que foram consideradas impertinentes. em que fiz questão de mostrar.

o termo complexidade já não é mais perse- guido na consciência científica. evidentemente também. aleatoriedade. Não entrarei aqui nesse difícil reconhecimento e definição da complexidade. se a noção de caos ainda não é concebida como fonte indistinta de ordem. Desenvolveu-se apenas em e pelo conflito das idéias e das teorias no meio de uma comuni- dade/sociedade (comunidade porque unida em seus ideais comuns e com a regra verificadora do jogo aceita por seus membros. suas leis. A ciência é igualmente complexa porque é inseparável de seu contexto histórico e social. Da mesma forma. que não contém apenas diversidade. uma noção ampla. Ela só vivia em e por uma dialógica de com- plementaridade e de antagonismo entre empirismo e raciona- lismo. que indiquei no termo caosmo. a que se consagra a segunda parte deste livro. ainda não foi concebida. Trata-se. entretanto. enfim e sobretudo. se a identidade com- plexa de caos e cosmo. sociedade porque dividida por antagonismos de todas as ordens. desordem. leve. imaginação e verificação. A ciência clássica dissolvia a complexidade aparente dos fenômenos para revelar a simplici- dade oculta das imutáveis Leis da Natureza Atualmente. aí compreendidas pessoas e vaidades). A ciência moderna só pôde . a com- plexidade começa a aparecer não como inimigo a ser elirninado. mesmo quando tinha por objetivo único revelar as leis simples que governam o universo e a matéria de que ele é constituído.8 Ciência com Gonscimcia camente inseparáveis (permanecendo. no caminho que conduz à reforma do pensamento. antagônicas). só nos resta começar a nos engajar. aqui e ali. sua ordem. A complexidade permanece ainda. sua organi- zação. que guarda a incapa- cidade de definir e de determinar. mas como desafio a ser enfatizado. a ciência apresentava consti- tuição complexa. de transformar o conheci- mento da complexidade em pensamento da complexidade. É por isso que se trata agora de reconhecer os traços constitutivos do complexo. de desordem e de organização. mas com- porta. Só quero indicar que. com certeza.

eles se trancafiam em seu saber parcial. a ciência é. mas desse mesmo pensamento para considerar sua própria comple- xidade e a complexidade das questões que ela levanta para a humanidade. concorrem para conceber a origem e a natureza de nosso universo. mas formados segundo os modelos clássicos do pensamento. aque- la de que é preciso desconfiar das idéias gerais! Eles não podem conceber que as disciplinas se possam coordenar em torno de uma concepção organizadora comum. das empresas. intrínseca. ou se associar numa disciplina glo- balizante de um tipo novo. Eles são profundamente ambivalentes. histórica. Assim. Esses mesmos espíritos não querem se dar conta de que. A ciência não é científica Sua realidade é multidimensional. na eferves- cência econômica. como a questão cosmológica. em que as diversas ciências físicas. pelo que ela transformava. É dessa complexidade que se afastam os cientis- tas não apenas burocratizados. da ecologia. contrariamente ao dogma clássico de separação entre ciência e filosofia as ciências avançadas deste século todas encontra- ram e reacenderam as questões filosóficas fundamentais (o . Fechados em e por sua dis- ciplina. dos Estados. sem duvidar de que só o podem justificar pela idéia geral a mais abstrata. e progressivamente se introduziu no coração das universidades. como é o caso. há muito tempo. por sua vez.Ciência com Consciência 9 emergir na efervescência cultural da Renascença. tornando-se tecnociência. ela se associou progressivamen- te à técnica. sociológica e etica- mente. Os efeitos da ciência não são simples nem para o melhor. complexa É essa complexidade específica que é preci- so reconhecer. das sociedades. transformando-os e se deixando transformar. utilizadas pela astronomia. Desde então. como foi o caso das ciências da Terra. A ciência tem necessidade não apenas de um pensamento apto a considerar a complexidade do real. política e social do Ocidente europeu dos séculos 16 e 17. ou ainda se entrefecundar numa questão ao mesmo tempo crucial e global. nem para o pior.

tende-se a ultrapassar. apesar de tudo. a do conhecimento. O preceito rabelaisiano é pré-científico. nem eterno. 10 Ciência com Consciência que é o mundo? a natureza? a vida? o homem? a realidade?) e que os maiores cientistas desde Einstein. A pré-história das ciências não terminou no século 17. Não haverá transformação sem reforma do pensamento. Mas em toda parte. O conceito de ciência herdado do século passado não é. em 1900." A consciência de que ele fala é. uma vez que a ciência moderna só se pôde desenvolver em se livrando de qualquer julgamento de valor. O primeiro foi formulado por Rabelais em seu preceito: "Ciência sem consciência é apenas ruína da alma. nem abso- luto. como um momento de sua pré- história Isso não significa que as distinções. Ciência com consciência A palavra consciência tem aqui dois sentidos. cada vez mais. arruinando seus dogmas. Enquanto os físicos acreditavam. que sua ciência suprema estivesse quase completa. com certeza. no sentido de que múltiplos e prodigiosos poderes de manipulações e destruições. ou seja. para o cientista. revolução nas estruturas do próprio pensamento. englobar as disciplinas. como observou Bronowski. as competências devam dissolver-se. obedecendo a uma única ética. abrir. e elas aparecerão. o cidadão e a i ! . pela ótica da ciência futura. O pen- samento deve tomar-se complexo. Mas ele se torna pericientífico. Bohr e Heisenberg transformaram-se em filósofos selvagens. É de esperar que as transformações que começaram a arruinar a concepção clássica de ciência vão continuar em verdadeira metamorfose. as especializa- ções. essa mesma física começava uma nova aventura. A idade pré-histórica da ciência ainda não está morta no fim do século 20. levantam. a consciência moral. Isso significa que um princípio federador e organizador do saber deve impor-se. originários das tecnociências contemporâneas.

que não se sabe vulgarizar a não ser em se degradando. Trata-se da aptidão auto-reflexiva que é a qualidade-chave da consciência." Atualmente.Ciência com Consciência 11 humanidade inteira a questão do controle ético e político da atividade científica 0 segundo sentido do palavra consciência é intelectual.. de pensar sua própria ambivalência e sua própria aventura. que os deveria englobar: daí o sentido do título Ciência com Consciência. que per- manece esotérico e fragmentado. E. cujos moinhos giram vazios por não moer os grãos dos conhecimentos empíricos. A ciência deve reatar com a consciência política e ética O que é um conhecimento que não se pode partilhar. que comanda o futuro das socieda- des sem se comandar. como a filosofia. que condena os cidadãos à crescente ignorância dos problemas de seu destino? Como indiquei em meu prefácio de abril de 1982: "Uma ciência empírica privada de reflexão e uma filosofia puramente especulativa são insufi- cientes. deve reatar com as ciên- cias.. consciência sem ciência e ciência sem consciência são radicalmente mutiladas e mutilantes. O pensamento científico é ainda incapaz de se pensar. ciên- cia sem consciência é apenas a ruína do homem. Os dois sen- tidos da palavra consciência devem entreassociar-se e se associar à ciência. janeiro de 1990 ..M. nos dois sentidos do termo consciência. A ciência deve reatar com a reflexão filosófica.