Maria de Fátima Lambert

Não se podem abraçar fotografias

... “I prefer not to,” he replied in a flute-like tone. It seemed to
me that while I had been addressing him, he carefully revolved
every statement that I made; fully comprehended the meaning;
could not gainsay the irresistible conclusion; but, at the same
time, some paramount consideration prevailed with him to reply
as he did."
Herman Melville, "Bartleby" (1853)

"Você é feliz?"
Jean Rouch | Edgar Morin, Chronique d’Été (1960)*

Poetas que pensaram o mundo é o título de um dos volumes1 organizados por Adauto Novaes.
Poder-se-ia transpor, por analogia e a respeito aos fotógrafos, pois que eles pensam o mundo
através da decisão advinda e dirigida pelo olhar (do pensamento visual, lembre-se Rudolph
Arnheim). Aplique-se, tal designação, igualmente aos fotógrafos pontuais, aqueles que
registam tão-somente cenas da vida (como se a vida fosse só). Referindo-se a esse título, no
livro Poesia e Filosofia, Antonio Cícero questionava-se sobre o que fosse/seja “pensar o
mundo” e afirmou quanto “todo o pensar o mundo é filosofia”…2

Do mundo – o vivido
“Os mitólogos costumam chamar de Imagens de Mundo certas
constelações de ideias segundo as quais as diferentes
sociedades humanas fundamentam, tanto coletiva quanto
individualmente, a experiência do existir.”3

O mundo concentra-se, num equilíbrio paradoxal, composto por excertos, vestígios, símbolos e
actos que ostentam uma visibilidade difusa, nítida ou submersa. Nessa aparência das coisas
(na sua ausência ou transformação) se adivinha a efectividade do feito, do decidido, do
irreversível porque vivido (vécu). Tudo se direcciona para quem está perante as imagens
fotográficas ou sobre as que inexistem sabe ponderar: quando as concebe, quando delas se
aborda, quando nelas se desconhece, quando as transforma, quando as idealiza (para/por
redenção)… enfim, quando e sempre que as reafirma e desoculta. As imagens que constituem
o mundo são o museu imaginário pessoal e único, parafraseando André Malraux. Pensa-se
com acuidade e rigor de entendimento e razão, acrescido de toda a carga pscio-afectiva que
lhe assiste. Pensa-se entre as fronteiras de certeza e idealidade, celebrando rupturas e
prevendo quase-epifanias sistematizadas. Assim, o mundo pensado transita em composições
domesticadas pela vontade sem limite.

Do vivido – a ausência
“O meu olhar não pode explorar o que se esconde atrás das
minhas costas, mas sobretudo não pode ver esse rosto que eu
sou e que me exprime.”4

*16.AB.11
1
Reunidos, em volume, os textos do Ciclo de Conferências, concebido e organizado pelo autor brasileiro.
Cf. Poetas que pensaram o mundo, SP, Companhia das Letras, 2005
2
Antonio Cícero, Poesia e Filosofia, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012, p.19
3
Luiz Alberto Oliveira, “Imagens do tempo”, Tempo dos Tempos (Org. Márcio Doctors), RJ, Jorge Zahar
Editor, 2003, p.33
4
Umberto Galimberti, Les raisons du corps, Paris, Grasset, 1998, p.208

sem serem fora. pela operacionalidade estética produtiva de uma despossessão tolerável. Sempre que se exija. A composição das fotografias que nos rodeiam – a título pessoal e familiar: o nosso mundo – são recomponíveis.” Na unidade de um tempo partilhado. incitando à memória plasmada do eu- pele (Didier Anzieu). adquirindo uma aparência fisicalizada. reagrupar as forças do efectivo. atingido a meta primeira de um qualquer acto fotográfico. carecendo ser analisados mediante um exercício metodológico e. decisões. serve nunca mais para encaixar a cabeça. consequentemente. os tópicos arquivados manifestam-se. ainda que ansiando o tempo mítico ou circular de que falava Octávio Paz em Los Hijos del Limo. são detalhes interpelados. instituem uma cronologia interseccionada. Por algum motivo – consciente ou inconsciente – “os” isto ou aquilo foram apreendidos privilegiadamente. ilusória. Lisboa. Assim. Permanecem.205 . planificadas e lentas. proporcionando episódios com variações encenadas que determinariam outros futuros. onde as sombras recheiam narrativas que cedam a reinterpretações existenciais. apesar de alguns crédulos pretenderem que este. Antes. estáveis e pensava-se que perdurassem na imaterialidade da imagem fotográfica. nem a corporalidade. p. Ed. Nunca se pensa trocar o vivido por suposição qualquer. da imagem – mesmo que lhe tenha sido reconhecida qualidade técnica para se “revelarem”. os diapositivos.Não se podem abraçar fotografias. Olham-se rostos difusos ou nítidos como se fossem a sério. episódios em excesso que seriam contraproducentes para a organização consciente na passagem dos dias banais. sabe-se que os dados fotográficos contribuem para a restituição do tempo. presente e futuro – numa radicação linear. Com a duração interrogada pela existência. As fotografias. As figuras retratadas não vestem a estatura. pode ser substituído pelas primeiras. Notícias. 1999. Mas o tempo não é o espaço e é passado que está 5 diante de nós. mergulhados num mundo que deixa mais e mais de ser real. configurada a partir de sobreposições de afectos. a precariedade domina e percebe-se quanto a fisicalidade da imagem é anterior. outrora contornada. encostados à consciência. quando acresce à dominância da razão. regularizadas através de cinematografias interiores e singulares. Permitem-se. Do vivido – o tempo “Julgamos que nos libertamos dos lugares que deixamos para trás de nós. subsumado num processo metonímico. uma convicta persistência da realidade. São lisas. 5 Pascal Quignard. parafraseando Paul Éluard em Donner à Voir. Os detalhes são escolhas incontornáveis mas subsiste-lhes um dinamismo interno. proporcionando uma espécie de apercepção ilusória (porque complacente). corroboram o facto de jamais se deixar a memória ou arquivo mental submergirem em esquecimento definitivo – apenas eficiente camuflar de lembranças. O corpo amado não está lá mais. aqueles elementos destacam-se do todo. isso sim. uma espécie de espiral que suga para o núcleo. Vida Secreta. As fotografias são imagens de tempo compósito em duas acepções: a) de passado. e perante as fotografias interpeladas de Isabel Aboim Inglez. b) de cada indivíduo per se e no grupo [no todo (particularizado)]. embora possa ser tocada na superfície. os rostos nos corpos tomavam-se como certos. actos e acontecimentos que geram produtos mais ricos e humanos. organizando cenários de resistência.

Os conteúdos induzidos reformam certezas em questionamentos. Ed. p. sempre coesas. As fotografias são vivido(s) (vécu). prolonga-se nos acontecimentos e nos afectos. ibidem. Haverá sempre uma certa encenação ainda que. “Um eu retorcido”. acrescentando: “as imagens estão todas na minha memória. Lisboa. à qual cada receptor acede. presumindo cumplicidade e incitando a distintos patamares hermenêuticos: o espectador construirá a narrativa do que não está explícito. 6 ainsi qu'un ensemble de signes territoriaux visibles et invisibles. Do particular – CASA e seus objectos 1 “…A família é pois uma arrumação de móveis.44 . concentram-se sensibilidades e razões que – acredite-se – são felizes – ainda que na inconsciência da felicidade que só se sabe quando partiu. sofrem mutações. replicou. p. Hall. embrulhos esquecidos. volumes. potencializando-o até à condição quase ontológica do vivido (contrariando embora Husserl…) Da narrativa – o p/b e as cores “E não ansiámos todos por derrubar os nossos altares e nos livrarmos dos haveres?”7 “E porquê o apego às coisas?”8 Pode ser o raio de sol. onde a mestria das palavras gera visões inteiras.205 9 Carlos Drummond de Andrade. Ou seja. Quetzal Editora. salvaguardo o vivido em frases de significados abertos e veementes. aparentemente. Recolhem e equilibram a intensidade do acontecido. numa tarde pressentida como banal. na designação adoptada por Husserl e outros filósofos. disse-me uma vez um amigo.Do vivido – o que fica “L'homme lui-même créé des prolongements territoriaux matériels. pratos. soma de linhas. se impõem as dobras para a descodificação conceptual. nos detalhes que o fotógrafo recorta para eternalizar (admitir a continuidade do vivido . 2001. movidos pela distância objectivada por relação à cronologia terminante. se desejar. camas. Du Seuil. e o espaço entre o armário e a parede onde se deposita certa porção de silêncio. traças e poeira que de longe em longe se remove…e insiste. As figuras – suas sombras ou silhuetas . Assim. todavia enganando o instante. superfícies. p.estão solitárias ou em grupo. Há pessoas que fotografam com palavras. “Não precisa fotografias para lembrar”. Grupo que." Os episódios e detalhes das matérias que a memória preserva. turvando a realidade e adquirindo uma autoridade. E são portas.vécu). é suficiente”. Dom Quixote. 1996. revertem-se em imagens.131 7 Bruce Chatwin. Anatomia da Errância. Lisboa. A distorção que o tempo inflige na memória – concomitante às imagens mentais. 1997. ampliando as estipulações – iconográficas e semânticas - das fotografias: consolida ou esgota em aparências o sucedido – o evenemencial. As fotografias exprimem com nitidez o que Nietzsche assinalou: que a felicidade está nas coisas pequenas. La dimension cachée. tudo flua no quotidiano. atingem-se graus semânticos (e iconografias) dominados pela plenitude e em extensão polissémica. Nesses casos. Paris.197 8 Idem. chaves. p.”9 6 Edward T. Antologia Poética. se supõe ser familiar. observado nestes registos intervencionados. a transição a captar. também um corredor.

A transposição de uma geografia – configurada em metáfora de Atlas. Ou as geografias incontáveis que residem nelas. 1983. Porventura é mais imediato o reconhecimento de uma geografia quando se pensa nas imagens em movimento. “Introducción”. As dobras evocam a iconografia de camadas sobrepostas: em sentido matéria. sustenta e tem fundamentado. de acordo com Aby Warburg. Akal. Paris. a superfície das coisas. As dobras exprimem em imagem o pensamento de Gilles Deleuze. assim como em sentido ideia. de paisagens retalhadas. Nas fotografias – porque fixas. constituindo tantas narrativas.Dobras sucessivas: expondo camada por camada. olhado: eis o mundo pensado e cativado para que.F. P.3 . da infância perpetuada (pois as fotos convocam esse tempo da pessoa vivida/vivendo) seguram – em sincronia ambígua . que há alguém ali ou esteve. implica uma epistemologia a presidir às decisões sobre as imagens que.27 11 Aby Warburg. 2010. eis as dobras que. Do mundo – ATLAS 1 “El acto de interponer una distancia entre uno mismo y el mundo exterior puede calificarse de acto fundacional de la civilización humana. tornaram-se demasiadamente pequenas ou largas. Vê-se a pele de objectos. Expandindo-se para um sentido ontogenético onde matéria e ideia se entrelaçam. quer os artistas. O próprio conceito de Atlas Mnemosine. à semelhança de casos análogos que se sabem na Arte e Fotografia contemporâneas: o mais emblemático será o Atlas de Gerhard Richter. Do particular – CASA e seus objectos 2 “Dans ce théâtre du passé qu’est notre mémoire. de figuras. como se preanunciasse que seria alvo de atenção como fotografado.os tempos diferentes da unidade individual pessoal (diria Almada Negreiros). por sua vez. Madrid. o lençol. a almofada. antes concentram a energia dessa infância vivida que dorme ou está acordada dentro de um ser fechado sobre si. quer os autores teóricos. Ou seja. cuando este espacio interpuesto se convierte en sustrato de la creación artística. Subvertendo (porventura) os termos pois introduzindo mais “interlocutores” para a reflexão: todo o pensar o mundo é uma fotografia interna. nada tendo de Titã… - para o caso pessoal de um artista. mas pense-se também na distribuição de fotografias-altares e nos arquivos de Christian Boltanski. mais e mais seja plausível pensá-lo. estranhando o que as preenche.10 Os cobertores. As roupas deixaram de servir. Nestas fotografias. num entendimento que se permanece actual. le décor maintient les personnages dans leur rôle dominant. Poétique de l’espace. edificada através de palavras e imagens concatenadas entre si. Também se vê o cão de pelúcia e vislumbra-se um braço e/ou uma mão por cima da coberta. tudo o que sustenta o peso “giacomettiano” da vida (diria Paulo Reis) numa sequência de fotos coloridas dos anos 70. p. porque as dobras exigem que exista um corpo. assim como a filosofia de Leibniz que atravessa os tempos. os animais de estimação existem em imagem. Atlas Mnemosine. por referência ao barroco intemporal. quantas as pessoas que as observem em conjunto…pensar sobre tudo aquilo que é passível de ser contemplado. p. à espera de continuar a ser na sua determinação única e cronológica pois que é fechado o círculo da vida.. ainda que podendo 10 Gaston Bachelard. O cobertor está nas suas dobras. as dobras não remetem necessária ou prioritariamente para o infinito (que é o latente na estética barroca). se cumplen las condiciones necesarias para que la conciencia de la distancia pueda devenir en una funicón social duradera…”11 A organização espacial do material fotográfico (ou em devir fotográfico) compõe uma espécie de atlas.U. fornecem a sabedoria dos dias.

7 . quer no livro.14 e ss. detectam-se laivos de uma “geometria secreta” implícita. portanto. A propósito desta pregnância. a partir de um pensamento transferido para a composição como todo. XX. Minnesota. situam o período português marcado pela situação histórico-político do país e suas consequências. texto de Georges Didi-Huberman in Catálogo da exposição Atlas – como levar o mundo às costas. favorecendo leituras divergentes do mundo. relembro que as imagens são montadas (em livro e na exposição). designadamente por autores como Madeleine Hours ou Charles Bouleau. a definição de Atlas é apresentada como “paradigma epistémico do saber. 14 Damian Sutton. 2009. as fotografias relacionam-se no sentido mais intrínseco a episódios e determinações familiares e auto- biográficas de Isabel Aboim Inglez. como se sabe. Museu Centro de Arte Reina Sofia. atendendo ao caso de cada espectador. efectivamente. na assunção das suas circunstâncias – Ortega y Gasset dixit… Do mundo – as figuras e as coisas “Photography as an idea is rigidly organized around particular objects and practises. o Atlas é conformado como síntese – composta de unidades que são impulsos analíticos a correlacionar. próximo a uma acepção também estética de “obra aberta”. aplicado ou subjacente. em concordância com a argumentação estipulada por Aby Warburg. como arquitecturas de itinerários para determinar se a trajectória factual foi. Ou seja. constatável também em autores portugueses. anunciam-se presenças que.quase aparenta ser poético. Do mundo – ATLAS 2 Num texto incontornável. and the Photograph emerges as a kind of mythological or historical unity in photography history. permitem ser “manuseadas” mentalmente. pois parece estabilizar-se numa zona de perfectibilidade. As fotografias são. Das sombras e das figuras desfocadas. University of Minnesota. p. As fotografias remetem para uma genealogia que é constituída em (e de) espaços e não somente vem correndo do tempo. em termos estruturais. Cada elemento na fotografia ocupa um espaço que é seu e somente ali poderia estar – é a conclusão que se tem. portanto muito anteriores ao seu nascimento. Como em livro. concebendo as imagens adstritas a conteúdos semânticos que encontram simbologias a posteriori: a figura da mulher com a mala. envolvida directamente na razão e origem das mesmas. Ou seja. se movimentaram para um exílio que aqui – de forma paradoxal .gerar ilusões estereoscópicas – a psicogeografia (Giuliana Bruno) propicia tanto as sedentarizações. 2011. instituem um atlas. Olhadas isoladamente. simultaneamente pessoalizado e colectivo (grupo/família/amigos) integrando um argumento (uma narrativa) próprio. posteriormente. entre outros. que coaduna razões estabelecidas (cânones) – retrocedendo à tradição renascentista – vide Léon Battista-Alberti ou Luca Paccioli. Estas fotografias podem ser lidas. o homem de 12 Assinale-se o facto da geometria secreta ter sido aprofundada e aplicada às obras de arte do séc. da autoria de Georges Didi-Huberman13. na sua busca pela história da arte mais elucidativa. a mais evidente ou indispensável. 13 Cf. quer na exposição de Isabel Aboim Inglez). páginas. Madrid.12 O pensamento visual que preside à composição pode estar latente. Em contextos históricos específicos que retrocedem aos anos 50. correspondem à visão analítica da autora. às quais acrescem as publicadas. As ideias subjazem nas fotografias. Cinema and event of Photography – the Crystal Image of Time.”14 As fotografias expostas. p. entendidas também no layout expositivo. esteticizado.” A sequência assimétrica e aparentemente “irregular” das fotografias (repita-se. associando assim a operacionalidade estética ao um pensamento em modo visual.

por si mesma. Um quadro é algo decidido. uma a uma podem ser a mesma. a imagem. desdobrada. 2000.” Carta de Husserl a Hugo de Hofmannsthal. porque adquirem uma substância de ideia sobre a matéria vivida. 12 de Janeiro de 1907. estabelecido em termos materiais.13-14 – tradução minha. Corpus. A condição fotográfica – enquanto passível de ser experienciada e recepcionada . e consequentemente menos quando a obra é esteticamente pura. Escolhe-se o que se pretende seja um quadro. transcrita e traduzida por Eliane Escoubas in La Part de l’Oeil. neste caso numa percepção). de onde se poderá transitar para a inscrição ascensional de algo estético e autónomo. pp. Paris. clama por ser uma “tomada de posição existencial” – caso da verdade natural da fotografia. Precisamente por isso. Kimé. p. Ed. é o mais relevante do caso. desobjectivada ou não subordinada ao real…pois que muito transporta de rasto. Remetem para a eficiência existencial. nº 7. Vega.fato…personagens que são protagonistas de um real convertido em efabulação para o espectador que não possua dados para a localização sócio-cultural.pdf (consultado em abril 2012) 17 Husserl em Logische Untersuchungen (1900/1901) citado por Rudy Steinmatz in L’Esthétique phénoménologique de Husserl. é ver o que se oferece à vista. uma tomada de posição existencial (por exemplo enquanto aparência sensível de tipo naturalista: como a verdade natural da fotografia). p. a imagem nua. As identidades existem no registo e no arquivo pessoal da autora.”17 Husserl considerava que uma imagem só adquiria efectividade quando era quadro.com. Pois que as fotografias são esses registos não apenas de pessoas e situações mas se transformam em protagonistas e eventos únicos. de encerrar sobre si. ideológica e política de um tempo que lhe é alheio. de quem protagonizou as fotografias e de quem as relaciona intimamente com afectos e abandonos existenciais. a realidade. Uma obra. uma imagem fotográfica porque/quando encerra figuras e se converte em quadro é-o duplamente… Do particular + do mundo (a redução) 15 Jean-Luc Nancy. seguindo a argumentação husserliana16.11 . Então. quando inscrita predominantemente no mundo de existência. Não interessa o “quem” mas. gerando outros direccionamentos interpretativos e fugindo à factualidade mais literal. onde a “verdade” preside e se confunde em inúmeras possibilidades conversíveis – ao nível da recepção estética e por parte dos espectadores em geral.46 16 “Quanto mais na obra de arte ressoa do mundo de existência de ou dele tira a sua vida. a miríade de imagens que é o corpo. A imagem estabiliza-se num registo que é um quadro e este “… só é imagem para uma consciência constituinte de imagem. da imagem (o fenómeno) “Ver os corpos não é desvendar um mistério.br/pdf/Viso_8_Husserl. será menos uma obra “esteticamente pura” . As fotografias. simultaneamente. Lisboa.revistaviso. de cercear. implicando – numa acepção mais literal – o acto de emoldurar. quer dizer que só confere ao objecto primário e aparecendo-lhe na percepção do “valor” ou da “significação” de uma imagem através da sua apercepção imaginativa (fundada. pode ser consultada versão traduzida para português (BR) in http://www. interpelada para focar prioritariamente um descentrar perceptivo. mais ela reclama.dirige-se para uma zona de contacto. afastando quase tudo o que seja acessório e não estruturante – em termos fenomenológicos. vestígio ou indício desse mundo em que se inscreve e de onde se liberta. A condição fotográfica centra-se na impossibilidade da carga “imparcial”.”15 As fotografias possuem um dimensionamento fenomenal que é primordial. 2011. 1992. Da narrativa.

pelo menos. p. Certamente que percepcionada. analisada. cês véritables miroirs du temps et du rien. reflectida…em plataformas e camadas bem diversas. “On n’a jamais vu bien le monde si l’on n’a pas rêvé ce que l’on voyait. elementos específicos. 2003. de modo incontornável. 1978. assim como horrível. transportando o mundo às costas. regista-se.23 . A natureza-morta salienta atributos. como refere Christine Buci-Glucksmann: “…les natures-mortes et les Vanités. entendida. em Atlas das Emoções.148 19 Christine Buci-Glucskmann. assinalava quanto Ulisses estava ciente de que tinha um lugar para onde retornar. a duração que pode ser resultado também de mudança. garante a imutabilidade plasmada em imagem. abordando as distintas categorias de representação que. por motivos estéticos ou existenciais é relevante mas simultaneamente. Paris. contribuindo para a totalização imparável de um Atlas que é de cada um e pode ser encontrado pelos demais. pois. La Poétique de la rêverie. para além daqueles a quem diga directamente respeito. PUF. O retrato (ocultado ou desvelado) por um lado. por outro lado. p. falam-nos de permanência transitória mais do que viagem. Esthétique de l’éphèmere. compreendida. Galilée. há retrato.”18 As séries de fotografias abordadas e são 3. objectos. Manifesta-se. Esse lugar – parte do mundo pensado – e está presente nos detalhes privilegiados. recorte ou detalhe) insinua a perenidade ou. A paisagem (panorâmica. pitoresca ou caricatural…tudo depende do contexto que se lhe afigure ou acentue. Mas a unidade comum é partilhada…num tempo partilhado .”19 O denominador comum entre estas categorias/géneros é a fixação decidida de algo que se quer não seja efémero: então. Ou quando a ideia de viagem subjaz (série da Rússia) está implícita a duração da estadia que se explicita. reduzindo-se (no bom sentido do termo) ao que é primordial e plasmável em termos de uma “estética pura” – recuperando a reflexão husserliana anterior. é uma imagem sublime. veduta. Nas fotografias há paisagem.como se citou a partir de Paul Éluard antes… 18 Gaston Bachelard. desconfiguram. no desenvolvimento da criança. propicia à existência o que é remanescente. Paris. A composição das fotografias que integram esta agregação visual de coisas que se sabem e conhecem torna-se plausível de pertença a outrem. bela e agradável. através de abordagens bem diferenciadas e correspondendo a intencionalidades e motivações díspares. em sequência e composição. há natureza-morta. Sublinham o que. Atlas. Giuliana Bruno.