Breve análise do método fenomenológico de Heidegger em Ser e Tempo

Patrick Martins de Carvalho

O método fenomenológico Heideggeriano pressupõe ser um método de investigação
que tem por objeto temático e conceitual o ser dos entes. A fenomenologia é uma busca
pelo sentido do ser em um aspecto mais extenso. E aqui, se deve atentar que é um
erro confundir a fenomenologia de Heidegger com a investigação conceitual próprio da
ontologia, já que não se configura como tarefa da fenomenologia explicar o próprio ser ou
mesmo tentar apreender o ser dos entes. Como Heidegger dará ênfase em diversas
passagens de Ser e Tempo, como por exemplo, quando diz que: “[...] não se pode seguir o
caminho da história das ontologias para se esclarecer o método” (HEIDEGGER, 2005,
p. 56). Pois ambas, tanto a ontologia quanto a fenomenologia, tem vias de acesso
diferentes de investigação sobre o que é o ser.
Heidegger deixa bem claro essa separação nessa passagem de Ser e Tempo:

Apreender o ser dos entes e explicar o próprio ser é tarefa da ontologia. O método
fenomenológico, no entanto, permanecerá altamente questionável caso se queira recorrer às
ontologias historicamente dadas ou a tentativas congêneres. Tendo em vista que, nessa
investigação, o termo ontologia é usado em sentido formalmente amplo, não se pode seguir
o caminho da história das ontologias para se esclarecer o método. (HEIDEGGER, 2005,
p. 56)

Isto é, o modo que se trata uma questão pode ser fenomenológico. O que é perigoso
é confundir o conceito de método, com alguma espécie de corrente filosófica ou uma
interpretação subjetiva. A fenomenologia Heideggeriana busca definir o modo do ser, como
eles são e como eles se manifestam, nesse sentido podemos entender a fenomenologia
como a matéria que investiga as coisas em si mesmas, que busca desvelar os fenômenos. E,
além disso, ser uma investigação que questiona as outras ciências que se dizem detentoras
do processo do conhecimento científico.
Um segundo ponto, é que para Heidegger, não se deve confundir fenômenos com
manifestações. Porém, toda manifestação depende exclusivamente de um fenômeno. De
forma que quando Heidegger diz que: “O fenômeno, o mostrar-se em si mesmo, significa
um modo privilegiado de encontro.” (HEIDEGGER, 2005, p. 61), ele quer dizer, também,

em seu conteúdo qüididativo. pois somente assim se é possível falar de fenomenologia como uma ciência dos fenômenos. busca fundamentar o conceito de fenomenologia. no sentido de que é preciso que os fenômenos do ente se manifestem para assim pensar o sentido originário do ser. Antes de se fixar a concepção preliminar de fenomenologia. para Heidegger uma conexão íntima entre esses dois conceitos. 2005. Pois a investigação fenomenológica não é como todas as outras ciências. p. como Heidegger bem aponta: O termo fenomenologia tem.que o próprio processar investigativo da fenomenologia pressupõe uma ida de encontro aos princípios mais básicos. Já que somente é possível pensar a ontologia através da fenomenologia. portanto. mas a fenomenologia é um modo de tratar uma questão que pode ser demonstrada. p. 63-64). O termo “fenomenologia” nem evoca o objeto de suas pesquisas nem caracteriza o seu conteúdo qüididativo. um sentido diferente das designações como teologia etc. que tem uma pretensão de verdade e. Pois não são matérias que se excluem. 2005. . A palavra se refere exclusivamente ao modo como se de-monstra e se trata o que nesta ciência deve ser tratado. prescindindo de como se deva determinar mais precisamente o que se mostra. Heidegger percebendo a necessidade de fundamentar o processo fenomenológico como uma ferramenta investigativa das ciências. 2005. há sim. em que se usam certas ferramentas investigativas. pois o logos é uma forma que permite deixar e fazer ver (HEIDEGGER. p. Ora. (HEIDEGGER. 62) Heidegger então aponta para um problema do logos como princípio absoluto da verdade. Em Ser e o Tempo Heidegger dirá: Perceber o sentido do conceito formal de fenômeno e de seu uso devido na acepção vulgar é uma pressuposição indispensável para se compreender o conceito fenomenológico de fenômeno. mas que se complementam. (HEIDEGGER. deve-se definir o significado de logos. aqueles que se manifestam e se mostram possíveis de serem conceituados e quantificáveis. entre a interpretação do fenômeno e o logos. a fim de se tornar claro em que sentido a fenomenologia pode ser “ciência dos” fenômenos. 65) A fenomenologia funciona como um modo de verificação daqueles conteúdos que podem ser considerados apofânticos. através da fenomenologia se pode determinar o que é ou não tema da ontologia. A saber. para então esclarecer a função do Logos. Estas evocam os objetos de suas respectivas ciências.

estão expostos à possibilidade de desvirtuamento. pois. transformam-se em tese solta no ar e se transmitem numa compreensão vazia. 2005. endurecimento e inapreensão do que se apreendeu originariamente se acho no próprio trabalho concreto da fenomenologia. 2005. Um fenômeno pode-se manter encoberto por nunca ter sido descoberto. todo e qualquer conceito e sentença fenomenológicos. seu sentido. 2005. 66) e através dele Heidegger explicitará como existem fenômenos que não se apresentam inicialmente e que só podem ser atingidos e trazidos à luz sob certas circunstâncias: Diferentes são os modos possíveis de encobrimento dos fenômenos. dirá Heidegger. é o conceito de encobrimento (HEIDEGGER. Dele. hauridos originariamente. p. consequentemente. (HEIDEGGER. O problema principal para Heidegger ao propor a fenomenologia como método investigativo. p. pois é necessária uma consciência crítica dos próprios conceitos fenomenológicos para que assim haja uma diferença no momento em que for analisar a questão. o inverso de fenômeno. E a ferramenta que admite essa via de acesso é a fenomenologia. Heidegger ciente desse desvirtuamento possível durante a investigação fenomenológica assume em Ser e Tempo sua preocupação: Enquanto comunicação. voltou a encobrir-se. é que para ele a fenomenologia só se torna uma medida necessária no momento que certos fenômenos não se apresentam de imediato. pois ela é um modo de verificação daquilo que se mostra. não há nem conhecimento nem desconhecimento. pois há certos fenômenos que não se desvelam sozinhos. (HEIDEGGER. E a fenomenologia permite esse desvelamento dos fenômenos para que assim possam se tornar conceitos mais sólidos. Um fenômeno pode estar entulhado. 67) . Heidegger percebe o quão sensível são as sentenças fenomenológicas e quão facilmente elas podem ser deturpadas a ponto de carecer de um significado profundo e um objetivo concreto. Isto significa: antes tinha sido descoberto mas. num sentido positivo. Por outro lado. Toda a dificuldade destas investigações reside justamente em torná-las criticas a respeito de si mesmas. Perdem sua solidez. p. A possibilidade de uma petrificação. que discute o que é o ser dos entes. 67) Portanto. os seus significados e. há um movimento de ida e volta ao conceito. depois. e que permite que se possa tratar de certos fenômenos que são ou estão encobertos e que se escondem atrás de um véu discursivo.

2005. Ora. quando Heidegger assume essa preocupação é por um motivo anterior importante. 2005. 67) Heidegger evidencia que há diversas formas por qual um objeto se dá e existem diferentes formas de objetividade e diferentes formas pelos quais esses mesmos objetos se apresentam. 15 ediçãoª. e isso é o que exemplifica a necessidade de estudar como se dá os fenômenos do mundo. Martin. “imediata” e impensada. Só é possível conquistar o modo de encontro com o ser e suas estruturas nos fenômenos a partir dos próprios objetos da fenomenologia. E somente conseguimos atingir isso. Referências bibliográficas HEIDEGGER. Ser e Tempo. que permite desvelar os fenômenos. para que possa se manifestar e tirar todo encobrimento possível. a fenomenologia tem que ir de encontro à forma como apreendemos o ser e conhecemos a estrutura em si dos próprios fenômenos. A ideia de apreensão e explicação “originárias” e “intuitivas” dos fenômenos abriga o contrário da ingenuidade de uma “visão” casual. p. e assim demonstrar e explicar a matéria do conceito. (HEIDEGGER. o acesso aos fenômenos e a passagem pelos encobrimentos vigentes exigem uma segurança metódica particular. . se usando de ferramentas da fenomenologia. Tradução de Marcia Schuback. É por isso também que o ponto de partida das análises. E somente se é possível isso através de uma metódica forma de investigar a natureza dos fenômenos. Editora Vozes.