PESAVENTO, Sandra Jatahy.

Imaginário, para Pesavento: um sistema de idéias e imagens de representação
coletiva.
- [...] imagens e discursos sobre o real não são exatamente o real ou, em outras
palavras, não são expressões literais da realidade, como um fiel espelho. Há uma
décalage entre a concretude das condições objetivas e a representação que delas se faz.
Como afirma Bourdieu, as representações mentais envolvem atos de apreciação,
conhecimento e reconhecimento e constituem um campo onde os agentes sociais
investem seus interesses e sua bagagem cultural. As representações objetais, expressas
em coisas ou atos, são produto de estratégias de interesse e manipulação.
(PESAVENTO, 15)
- Ou seja, no domínio da representação, as coisas ditas, pensadas e expressas têm
um outro sentido além daquele manifesto. Enquanto representação real, o imaginário é
sempre referência a um “outro” ausente. O imaginário enuncia, se reporta e evoca outra
coisa não explícita e não presente. (PESAVENTO, p. 15)
Processo do imaginário: relação entre significantes (imagens, palavras) e
significados (representações, significações).
- Nessa relação feita, a sociedade constrói a sua ordem simbólica, que, por um
lado não é o que se convenciona chamar de real (mas sim uma sua representação), por
outro lado é também uma forma de existência da realidade histórica... Embora seja de
natureza distinta daquilo que por hábito chamamos de real, é por seu turno um sistema
de idéias-imagens que dá significado à realidade, participando, assim, da sua existência.
Logo, o real é, ao mesmo tempo, concretude e representação. Nesta medida, a sociedade
é instituída imaginariamente, uma vez que ela se expressa simbolicamente por um
sistema de idéias-imagens que constituem a representação do real. (PESAVENTO, p.
16)
- [...] o imaginário, enquanto representação, revela um sentido ou envolve uma
significação para além do aparente. É, pois, epifania, aparição de um mistério, de algo
ausente e que se evoca pela imagem e discurso. (PESAVENTO, p. 16)
- A rigor, todas as sociedades, ao longo de sua história, produziram suas próprias
representações globais: trata-se da elaboração de um sistema de idéias-imagens de
representação coletiva mediante o qual elas atribuem uma identidade, estabelecem suas
divisões, legitimam seu poder e concebem modelos para a conduta de seus membros.

posto que as representações são produzidas a partir dos papéis sociais. agindo sobre a representação deste real. em si.. 18) . p. em si. de saber se devem entrar no sistema de critérios não só as propriedades “objetivas”. Entretanto. p. 16) . nada de menos inocente que a questão. ou o imaginário. o passado já nos chega enquanto discurso. Neste sentido.. e não reflexos da mesma.. (PESAVENTO. pois. podem chegar a algo que não seja uma representação.Recorrendo à Barthes. é preciso ultrapassar a alternativa economicista/culturalista. uma vez que não é possível restaurar o real já vivido em sua integridade. é. e caberia indagar se os historiadores. Há. 18) . elemento de transformação do real e de atribuição de sentido ao mundo. que ou vê o objeto simbólico como reflexo mecânico do real ou o vê como uma finalidade em si. mais do que meros reflexos estáticos da realidade social. tentar reconstruir o real é reimaginar o imaginado. p. a instância das representações é.Para Roger Chartier.Para Bourdieu. quer dizer. (PESAVENTO. Concluindo. fato passado – tem uma existência lingüística. p. (PESAVENTO.] O discurso e a imagem. no seu resgate do passado. em si. mas também as “subjetivas”.Seriam. com tal. Todo fato histórico – e. Para Bourdieu. estratégias de interesses determinados. (PESAVENTO. Segundo o autor.. não é possível entender uma história cultural desconectada de uma história social. um campo de manifestação de lutas sociais e de um jogo de poder. encontramos a consideração de que a história é modo de representação baseado no que se chama “ilusão referencial”. embora o seu referente (o real) seja exterior ao discurso. a representação do real. 17) . representações coletivas da realidade. o mundo social é também representação e vontade. que divide o mundo intelectual. Ainda para este autor. [. A autoridade de um discurso e a sua eficácia em termos de dominação simbólica vêm de fora: a palavra concentra o capital simbólico acumulado pelo grupo que o enuncia e pretende agir sobre o real. podem vir a ser instrumentos de constituição de poder e transformação da realidade. assim. e todo discurso contém. as representações que os agentes sociais se fazem da realidade e que contribuem para a realidade das divisões. uma temporalidade da história nas representações.

Não se pode esquecer que o imaginário social é uma das forças reguladoras da vida coletiva. (p. em hipótese alguma. (p. normatizando condutas e pautando perfis adequados ao sistema. o imaginário social à ideologia. simulação. é “o outro lado” do real. nem opor a este jogo de intenções e socialização de idéias deliberadas o potencial libertador e subversivo da utopia. . reduzem a complexidade do contexto social e a riqueza das representações possíveis que ele comporta..Não se quer reduzir. [. inclusive. é importante que se tenha em vista que intervêm no processo de formação do imaginário coletivo manifestações e interesses precisos.. Mas. 19) .. jogo de espelhos onde o “verdadeiro” e o aparente se mesclam. estranha composição onde a metade visível evoca qualquer coisa de ausente difícil de perceber. representação.O imaginário é. mas não dentro de uma liberdade absoluta. 23) . Não cabem posições maniqueístas que. 22) . sem dúvida alguma.]. enquanto sistema de idéias-imagens de representações coletivas.O imaginário.] a sociedade constitui o seu simbolismo. (p. evocação. pois ela apoia no que já existe. pois.[. sentido e significado. (p 24) ..