Polis e Psique, Vol.

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Produtividade e imanência das normas
- Desafios (amigáveis) ao institucionalismo1

Heliana de Barros Conde Rodrigues
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

1. Introdução influência – de tal modo idealista, que
Foucault (1987a, p. 24) chegou a

No Rio de Janeiro (e é bem compará-la a uma espécie de “meio de

provável que essa circunstância se propagação”, qual um gás difuso.

repita em todo o Brasil), quando nos A rede brasileira de

dizemos institucionalistas ou analistas institucionalistas não forma, é claro, um

institucionais, isso faz evocar alguns todo homogêneo. Dentre as inúmeras

companheiros de discurso e modos de diferenças que a percorrem, destacam-

ação: os Socioanalistas (como René se os apelos (ou não) ao Marxismo e à

Lourau e Georges Lapassade) e os Psicanálise. No caso do Marxismo,

Esquizoanalistas (qual Gilles Deleuze e vemo-nos às voltas com os conflitos

Felix Guatttari). entre um paradigma dialético (sempre

Decerto esses franceses presente entre os Socioanalistas, e

travessos, cuja presença – corpos2 e evidenciado pelas referências constantes

textos – entre nós tem sido tão a Hegel) e uma filosofia das diferenças

importante, desde a década de 1970, ou positividades (característica da

para a invenção de práticas psi de cunho Esquizoanálise, mediante o privilégio

libertário (em lugar do cunho concedido seja a Nietzsche, seja a

policialesco hegemônico), podem Bergson, Espinosa ou Hume, na original

parecer, hoje, mais distantes ou menos leitura desses filósofos proposta por

nítidos. Já temos, evidentemente, Deleuze e Guattari3). No caso da

muitos institucionalistas “genuinamente Psicanálise, o tema do desejo envolve

brasileiros”, o que permite constatar a tempos e contratempos: mais próximos

existência de uma efetiva transmissão da Sociologia e da Psicossociologia, os

de saberes e deixar de lado a palavra Socioanalistas dele pouco falam,

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privilegiando o tema sociopolítico da antigos: Foucault e Marx. O desafio do
autogestão; os Esquizoanalistas, por sua nominalismo, de Étienne Balibar, e Por
vez, oferecem-nos a ideia de um desejo- uma história natural das normas, de
máquina ou produção desejante, Pierre Macherey. Ambos decorrem do
abalando (ou fazendo ruir) nossos encontro internacional “Michel
(outrora?) preciosos estudos de Freud Foucault Filósofo”, realizado em Paris
e/ou Lacan. em janeiro de 1988, cujo conteúdo foi
Tudo isso soa, é claro, publicado no ano seguinte. Os autores
demasiado epistemológico, e bem são velhos companheiros de Louis
sabemos que a história da verdade não Althusser, filósofo marxista de quem
precisa curvar-se à história das ideias, Foucault foi bastante próximo –
em especial quando se trata de “ideias amizade e conexões intelectuais. Por
em outro lugar”. Sendo assim, algum tempo, foi difícil a decisão: com
prosseguimos mesclando dialética qual deles trabalhar?
(entre instituinte e instituído, por A opção pelo segundo, no qual a
exemplo) com positividades questão do desejo é mais central que a
(multiplicidade de forças, digamos), da dialética, deve-se ao interesse
dispositivos grupais autogestionários especial de que se reveste, hoje, o
com aspirações a linhas de fuga e problema das normas. Em tom
devires etc. Não se trata, aqui, de brincalhão, costumamos insistir que não
condenar essa espécie de teratologia é verdade que esteja “tudo dominado”;
que praticamos cotidiana e alegremente, ao mesmo tempo há, inclusive entre nós
tampouco de diagnosticar, em estilo – institucionalistas mais, ou menos
onisciente, algum mal-estar entre os estritos –, uma facilidade maior em falar
institucionalistas. Nosso propósito, ao ou escrever, um tanto lamentosos, sobre
trazer à cena esses queridos “monstros”, a “sociedade de controle” ou a
é apenas o de pensar, de problematizar, “biopolítica” do que em produzir
de adicionar elementos novos a nossa acontecimentos discursivos, mesmo
(desorganizada e potente) caixa de pequenos, os quais, por um instante que
ferramentas. seja, escapem “tanto aos saberes
Para tanto, o presente texto é constituídos como aos poderes
provocado pela leitura de dois artigos já dominantes (...), oportunidade que é

e regulação? Vale dizer.Polis e Psique. ao Foucault4 para desafiar contrário. Segundo Macherey (1989). todas as a cabo fora da humanidade. a uma apele a um artigo que versa sobre concepção positiva que insiste. Nesse sentido. Vol. jurídico da exclusão (divisão entre o Pode parecer estranho que se permitido e o proibido). Passemos. 1992. 2012 P á g i n a | 157 preciso agarrar” (Deleuze. cuja tipo de sociedade à qual pertencem transgressão lança aqueles que a levam como sujeitos. p. (. final.. A problemática foucaultiana das alienação. que o Tomando alguns trabalhos de problema centralmente focalizado por Foucault como base. mediante a imanência das normas – possui prevalência de uma ou outra dessas indubitáveis conexões com o panorama concepções. sobre sua função de inclusão (amigavelmente) o institucionalismo. e também companheiros discursivos). n2. modo de inserção dos indivíduos na pois. as relações sociais e o esboçado até o momento. ou como uma investigações foucaultianas girariam em disciplina.. no interior de uma torno de uma interrogação fundamental: instituição penitenciária que exibe um como passar de uma concepção princípio de transparência. a integrando-a àquilo que a medicina dá questão que preocupou a saber sobre o homem. para. No mesmo sentido.) segundo . fundada no modelo 218).2.. à apresentação do artigo escolhido. negativa da norma. 217. à maneira do suplício dos regicidas. pondo em cena (. Hospital Geral forneceu a realização exemplar. Vigiar e punir mostra como a fundamentalmente Foucault foi a de penalidade pode ser montada como um compreender de que modo a ação das espetáculo. quanto a isso. na qualidade de desrazão. no momento em que essa normas segregação é eliminada e os loucos “liberados” no asilo que gere a loucura de modo inteiramente diferente.) agida.. rede que elas constituem são definidos à qual se agregarão variadas de modo completamente diferente: interferências (nossas e de outros a loucura pode ser pensada. Macherey Macherey – o da produtividade e demonstra como.. ou na qualidade de 2.. formular perguntas ao menos em relação com a prática segregativa de um enclausuramento do qual o renovadas. ao (.) a normas na vida dos homens determina o opacidade dos grandes interditos.

2012 P á g i n a | 158 a disposição exemplar do panóptico. novamente duas foucaultiana. Macherey encontra um então ela é arrastada num movimento esquema comum. Há. tendo em conta essa nova possibilidades de entender a ação da alternativa: norma. (PRÁTICAS I) a uma concepção Uma vez mais nos arriscamos a positiva (PRÁTICAS II). segundo História da que funciona como um “biopoder”. esteja ela orientada para a .Polis e Psique.. seguindo a impulsão PRÁTICAS I PRÁTICAS II TIPO DE PRINCÍPIO EXCLUSÃO INTEGRAÇÃO NORMAS DE SABER RESTRITIVO CONSTITUTIVO ( CRITÉRIO DE VERDADE) NORMA DE PODER REGRAS (CONDIÇÃO DE LEIS INTERNAS EXTERNAS LIBERDADE) Macherey nos conduz de constituição de uma figura de imediato a um segundo dilema. em esquematizar a problemática acréscimo. positiva que lhe é dada por um poder Enfim. 203-204) pode ser submetido a um controle externo.). ou ser “liberado” (. tendente a contê-lo dentro de certos limites reconhecidos como Nos três casos (loucura. anormalidade (problemática de História transversal ao já abordado. e sexualidade). o prazer ligado ao sexo (Macherey. que esquematizamos de expansão aparentemente ilimitado conforme se segue: que a constitui propriamente como “sexualidade”. em Foucault.. Pois não se da Loucura) ou de normalidade trata apenas. p. 1989. n2. Sexualidade.2. Vol. crime e legítimos. da passagem (problemática de História da de uma concepção negativa Sexualidade).

impondo-lhe sua forma de . se existe. por definição perspectivas? abusiva. que servirão de roteiro para o desenrolar Macherey nos convida a tomar como de seu artigo: há uma “verdade” ponto de partida uma tese de alcance objetiva das normas e de sua ação. um domínio de espontaneidade cujas iniciativas se supõe preexistirem a essa intervenção (que. seja negativamente e restritivamente. 2012 P á g i n a | 159 PRÁTICAS I PRÁTICAS II Relação da EXTERNA INTERNA norma com seus (BARREIRA) (LIMITE) ‘objetos’ – sentido jurídico – sentido biológico Relação da EXCLUI INTEGRA norma com seus DESQUALIFICA IDENTIFICA ‘sujeitos’ (desconhece) (reconhece) Baseado na dualidade de 3. n2. Macherey propõe perguntas Para explorar tais questões. a posteriori. cruzando e controlando.Polis e Psique. critérios de avaliação de tal verdade a ação da norma será concebida dependem de uma história ou de uma epistemologia?. os modelo jurídico ou o modelo biológico. de uma linha divisória.2. Segundo sujeito a que correspondem?. reconciliam essas duas como imposição. em que medida. contendo- as como uma forma capta um conteúdo. filosófico: a afirmação do caráter relacionada ao tipo de sociedade e de produtivo da norma. o qual a natureza dessa verdade?. privilegiemos. respectivamente. na forma de uma dominação. Vol. as ordena. eventualmente. A produtividade da norma problemas que percebe no percurso de Foucault.

porque se afirma nele a mesma vontade numa rede homogênea e contínua.) ou seja. sem exceção. “os transforma aspectos. coincidem em sujeitos” (Macherey. que não pensa senão A vontade de saber. Neste último caso. (Macherey. 208). Não. isto é. mas de todos os indivíduos. experiência ao qual as normas irão se então.. seja positivamente e absolutamente (Macherey. vontade de um sujeito –. pode-se enfático: ser sujeito – ser exposto à dizer que a norma “produz” os ação da norma como sujeito de saber ou elementos sobre os quais age. (. 206) exteriores do comportamento (segundo a fronteira entre o lícito e o ilícito). obra: se não há saber sem uma (Macherey. expansivamente.. 1989. n2. onde figuram a tal procedimento esclarece a noção de uma “vontade de saber” que dá título à título de um grau ou de um elemento”. fazendo recuar progressivamente os limites de seu domínio de ação. “vontade” que o sustente – Ser “sujeito” é pois. num ou a mesma necessidade que produz historicamente seu objeto. ser “sujeitado”. poder e saber. e sim no sentido da inserção realidade que lhe preexistiria. numa forma dispositivo normativo que. o campo de produtividade da norma. conforme sujeito que pensa e age. o que seria. constitui ele Segundo essa perspectiva da mesmo. p. extensivo e criativo que. . p. não se trata aqui da literalmente.Polis e Psique. “ser sujeito”? Macherey é aplicar. 208). Macherey discorre sendo pensado pelas normas e sob as sobre o modo como ela contribui para a normas. 1989. mas Tomando como exemplo a naquilo que constitui o próprio ser do tecnologia da confissão. é porque o discurso de verdade que ele procura contudo. 2012 P á g i n a | 160 organização). “que não age exposta em História da Sexualidade I – senão sendo agido. integrados num sistema de avaliação global. 1989. Vol. efetivamente.2. ela determina a existência desses de poder – é depender dessa ação não elementos pelo próprio fato de tentar apenas quanto a determinados aspectos controlá-los. p. em relação às quais seu constituição do objeto “sexualidade”: pensamento e sua ação podem ser medidos. evidentemente. produzindo- de “poder-saber” onde esses dois os e reproduzindo-os. como um movimento 206-207). p. 1989. no sentido de submissão a uma pronunciar não conduz à representação ordem exterior que faria supor uma pura neutralizada de um conteúdo de dominação.

. seriam dóceis ou rebeldes. reservará. 1989. como filósofo. características da como sujeitos.2. Será Foucault identifica a primeira em nosso nome – ela “nos nomeia” – ocorrência histórica de perguntas que a lei se exprimirá. Macherey dá Por que universalidade da lei? início a uma discussão minuciosa sobre Porque. como vendo aqui o ponto de partida (. p. e como. mesmo desse processo e (mais que isso) como ele tem certo papel a . designando-nos essenciais. o filósofo produtividade da norma. ao contrário. é colocar-se lei nos designa como sujeitos e. não dobrando pensamento e ação que devemos ao rigor das mesmas sujeitos que. que Foucault também instaurando um domínio de extrai do texto kantiano. Poder-se-ia (.. na medida em que elas acompanhando as aproximações entre definem. Conforme faz subjetividade que é. como veremos adiante. por um tempo. 208). n2. mas. Macherey.. ocasionalmente nos defrontamos.. aquele que fala como pensador.Polis e Psique. Diz Macherey que se a experiências possíveis. com como sujeito no contexto de uma sociedade normalizadora que faz isso. ser sujeito é segundo suas predisposições próprias “pertencer”. faz parte ele (Macherey.. para os sujeitos assim um dos últimos textos de Foucault: produzidos.) “Trata-se de mostrar em que. considerar como próprias. elas remetem implicitamente à tese da algumas surpresas: a seu ver. datado de 1784. conforme explicitado na ou segundo um princípio de autonomia indagação “O que é esse presente ao que neles preexistiria (. como um Kant. situar-se em relação às Por enquanto. sigamos normas. Porém. um campo de Foucault e Kant.) de uma doutrina da universalidade da lei. Vol. qual pertenço?”. apesar de modernidade: “Quem sou eu agora? reconhecer em Kant a tese da Qual o campo atual das experiências produtividade da norma. Com efeito. De acordo com Macherey. alemão está mais próximo de Lacan que de Foucault.. sobre o indicador ou obstáculo factual com que Iluminismo5. prolongar a leitura do texto de Kant. Neste texto kantiano. sábio. Macherey nos possíveis?”. designa igualmente as normas de prevalecerem suas leis.). 2012 P á g i n a | 161 Neste momento. ela não se apresentará como aquele que se refere ao opúsculo de uma prescrição particular. citemos Foucault a respeito: inclinado a tal ação. ele próprio.

começaria realmente com encontra. o ser-sujeito que está em formulação. 1989. 680). da qual É a partir desse ponto que ele tirou por sua própria conta a tese da Macherey abre as perguntas que nos ‘lei moral em mim’” (Macherey. sujeito. 1994a. a singularização comunidade humana em geral fala em subjetiva remete ao “pertencimento a mim. cogito pela racionalidade de seu direito. Em p. 1989. como na fórmula de Rousseau que cultural característico da atualidade” Kant apreciava particularmente. em Kant.Polis e Psique. já que. especificamente ao “filósofo” (Kant. normalizando-o. instinto divino’. primeiro lugar. pode-se mesmo dizer que ela ‘me’ um certo nós (.). melhor Para Macherey. ou seja. o sujeito não é presente e do sujeito-definido-pelo- um ser que se determinaria quer por presente. concordamos – considera que no tem necessidade absoluta de um mestre parágrafo acima transcrito é a condição (Macherey. que Foucault lhe atribui: parece esboçar Não obstante Foucault se refira “uma teoria do déspota esclarecido. a tese do pertencimento a uma atualidade. 210). ‘Consciência. a um conjunto fala. p. este último elemento e ator”. (Foucault. o ser do sujeito. no cartesiano abstrato que valeria para duplo sentido moral e jurídico. p. a seu ver. Assim definido. (Foucault. Macherey – com quem homem é o ser que. n2. ao mesmo tempo. do sujeito. para se “elevar”. quer como filósofo alemão se reporta é constituída uma “coisa que pensa”. . p. teremos igualmente de levar uma identidade concreta. segundo Macherey. Se há uma singularidade do a que é realizada num estado de direito. 1994a.. como Kant. Vol. única e em conta que a comunidade a que o diferente de qualquer outra. ela só é apreensível sobre um Eis. falaria de coisa inteiramente distinta do 680). indaga se a problemática Em Kant. 2012 P á g i n a | 162 desempenhar nesse processo onde se possíveis. despertam especial interesse. o sentido que fundo de pertencimento comum que o toma a produtividade da norma em constitui enquanto tal.. todos. da questão do causa. se admitirmos a dizendo. 210-211).2. a da produtividade da norma pressupõe a um campo atual de experiências identificação entre a norma e o direito. Kant: “a lei que me liga a uma Por conseguinte. ele apoiada no princípio segundo o qual o próprio?). por conseguinte.

142)6. então. p. me obriga na instauração de um limite “no” próprio qualidade de uma pura forma. como a uma comunidade (tanto racional escolha contra a desrazão. cuja sujeito. sujeito de qualquer conteúdo determinado. ao mesmo tempo. Como reforço a tal sentido. n2. 1989. desde o começo em todo pensamento mas. adenda Macherey – faz razão clássica não encontra a ética no dele o produto da lei. lhe quanto ao pertencimento constitutivo dá todo o seu conteúdo. paradoxalmente). Na era clássica. de um só golpe. como forma. antes produtividade. (Macherey. Espinosa. Ela mais se traçado num domínio de legitimidade assemelharia. p. Foucault mesmo o teria Esta colocação do sujeito de sugerido. está presente quanto desejante. Vol.).Polis e Psique. sujeito no sentido de perspectiva é totalmente distinta da do Lacan. a seu ver. pertinência à lei e ao ideal comunitário p. Foucault cita o próprio . desde o início ponto terminal de sua verdade. (Macherey. porém seu discurso é essencialmente não tenderia a outra coisa senão à prescritivo. Ali. por ela prescrito que. Neste 1987b.. toma o ordenado (. 211). que nos tempo que submete seu desejo ao peso apoiemos em outra referência filosófica dessa lei que.2.. medida da sua produtividade. o sujeito é aquele que encontra seu lugar já próprio Foucault. Lacan mostra que “é a identidade de sujeito. no interior Lacan faz de Kant no texto Kant com do qual deve manter e garantir sua Sade. a qual mesmo de interditar o que não devo. por si só. do sujeito: a que encontramos em 1989. à leitura que precisamente circunscrito. 2012 P á g i n a | 163 condição de todas as minhas ações: a lei no limite negadora) dessa me indica o que devo fazer. a razão formalismo jurídico da lei como única surge no espaço da ética (Foucault. ou seja. isto é. dessa falta a ser que tem por nome Macherey insiste que tal desejo. define o sujeito desejante ao mesmo Macherey sugere. é uma concepção negativa (e consideração. 211). sob a situado numa relação de pertencimento forma de leis morais: a ética. e este aparece desde então como necessariamente atravessado pela eficácia deriva exatamente de ser livre lei: sujeito cindido ou fendido. mediante breve indicação maneira totalmente formal – na “ordem presente em História da Loucura: “A do simbólico”. Deste ponto de vista.

Conforme enfatiza Aceder a uma natureza superior Macherey. 212). Macherey aproxima essa mas uma ordem natural. p. n2. Vol. que se afirma nela e por ela”. e que suprime a falsa alternativa entre liberdade e se ela faz referência a um ordem (. mas uma formulação contida na introdução uma ordem necessária das coisas. p. ao contrário. p. p.. natureza inteira: “Toda a natureza está 1989. que se exprime do ponto de vista de uma de História da Sexualidade II – O uso natureza em face da qual o homem não dos prazeres.) desde que eu aceda a espinosista difere inteiramente do esse ‘saber ético’.). não é uma consequência do pensar espinosista de ordem prescritiva dos homens. ou. para o filósofo holandês. a relação de da união que a alma pensante tem com pertencimento não se define de forma toda a natureza”. nesse fragmento de Espinosa. 212) mas na do real. e não jurídico. da qual desenvolver ao máximo toda a potência cada uma de nossas experiências de que está nela e pela qual ela se sujeito é a expressão mais ou menos comunica. como primeira em face de seus limites.) “como um poder num “saber em que medida o trabalho de poder”. a própria natureza... como pars naturae. Consiste. então. 1989.. essa ordem não é uma ordem humana. mas de maneira positiva. se afirmar..2. 212). que faz ser o união). (. 213). colocar-se.. 1989. 2012 P á g i n a | 164 Espinosa em A reforma da inteligência: As leis dessa ordem teriam um “Qual é então essa natureza? sentido físico. pensar sua própria história pode liberar o pensamento daquilo que ele pensa . não consiste. causal: “Com A noção de pertencimento (ou efeito. 1989. necessidade” (Macherey.. não é definida na ordem do simbólico. 143) nos termos de Espinosa. Mostraremos que ela é o conhecimento Consequentemente. “ser sujeito é..) global de finitude. p. isto é. que é também uma direito racional proposto por Kant. mediante a qual Foucault estaria no direito nem seria capaz de se define seu próprio percurso filosófico: colocar (.. com a desenvolvida e completa” (Macherey. reconhecer-se em despojar-se de uma natureza como pars naturae. de sua submetido à necessidade (.. em um todo. (Macherey. 1987b.Polis e Psique. é ela que constitui. Esta ‘necessidade’ ‘em’ mim. (.). Foucault. (Espinosa apud limitativa. pois ética do saber. (Macherey.

pela boa razão de A sequência dos trabalhos de que é a lei que é constitutiva do desejo Foucault – de História da loucura a e da falha que o instaura. que se exerceria modo mais complexo e mais original do que esse jogo entre uma energia sobre um sujeito previamente dado (. Vigiar e Punir –. A imanência da norma conforme enunciado em História da Sexualidade I – a vontade de saber: Após essa conexão com Espinosa. plenamente contemporâneas de pensar e agir. eles os supõem ligados de termos de interdito. Pensar a ação da norma de uma energia rebelde a subjugar como imanente é “renunciar a pareceu-lhes inadequada para decifrar a considerar sua ação como restritiva. Macherey põe em cena o debate entre Foucault e a Psicanálise. História da sexualidade. p. mas a de uma liberdade denunciar o caráter ilusório do discurso que conduza a ‘pensar de outro modo’. cima. Eles recusaram a nas reflexões de Foucault.2. não se trata de imaginar que o desejo é reprimido. apresentada. pode ter um sentido: não das normas. natural e viva provinda de capaz de “liberar-se” ou “ser liberado” baixo. . que aumenta sem cessar. anti-repressivo? Orientado por esta indagação. n2. que será posteriormente Que o sexo não seja ‘reprimido’.. 4.). p. não é retomada. o tipo diverso de ação) o pensamento. (Foucault.. passando por 1979. 14). ordem que tenta lhe opor obstáculos de 213). que a da maquinaria simples que facilmente se imagina ao falar em repressão. e uma de um tal controle (Macherey. para (ou. 79-80). Vol. presente artigo. psicanalistas. Há discussão sobre a tese da imanência da muito tempo já foi dito por norma – talvez ainda mais importante. 1984. selvagem. ‘humano’ –. Mas será suficiente. (Foucault. segundo Macherey. no início do diferentemente. maneira como poder e desejo se como uma ‘repressão’ formulada em articulam. para a de uma ilusória liberação – um alimentar nossas formas pensamento sem restrições.Polis e Psique. e permitir-lhe pensar acompanhando Macherey. p. 2012 P á g i n a | 165 silenciosamente. 1989. mostra o parentesco Fazê-lo. é entre a “liberação” e o reforçamento abrir o pensamento à única via que. ao menos. Macherey passa a uma de fato uma asserção muito nova. a idéia produtividade.

sobre o tipo lacaniano). escolhendo a apresentação da lei como constitutiva lei como causa e o desejo como efeito.2. esclarece Foucault: outra recorre a uma representação comum do poder que (.) leva a duas considerações opostas: seja à promessa de o que distingue uma análise da outra. a maneira de conceber a . Polis e Psique. do desejo: transitiva ou imanente? A – Esquema reichiano (ou freudo-marxista) DESEJO REPRESSÃO – Esquema psicanalítico (notadamente lacaniano) DESEJO LEI Acerca desse presumido natureza e a dinâmica das pulsões.. se o poder só tiver um é feita em termos de repressão do instintos domínio exterior sobre o desejo. como mais uma vez de causalidade que está em pauta na esquematizamos com apoio nas relação entre a ordem da lei e a ordem considerações de Macherey. 2012 P á g i n a | 166 Acabamos de ver como a mera inversão da fórmula. é do desejo se insere na tese da suficiente apenas para comparar o produtividade da norma: a lei é. Uma como a contraste. Cabe e o psicanalítico (notadamente ainda perguntar. n2. não é a maneira de conceber o poder. Vol. entretanto.. neste esquema reichiano (ou freudo-marxista) caso. afirmação – se for constitutivo do próprio certamente. causa do ‘efeito desejo’. a que uma “liberação”. seja à e a que se faz em termos de lei do desejo é.

como causa. não basta enredado” (a lei. na qualidade de experiências fenomenal.2. Mas. sexual autônomo em relação ao qual as a presença recíproca (. a coincidência. não há qualquer princípio . mais. ou menos conformes à sua essência 215). Se “Esta relação [entre lei e desejo] não é uma olharmos para a história (foucaultiana) da relação de sucessão ligando termos sexualidade. 1989. segundo o modelo de um determinismo mecanicista. 1979. não há nada atrás da cortina: nem sujeito ela supõe a simultaneidade. E em que consiste a transcendente. É preciso compreender que incorpore o outro aspecto de sua ação. portanto. para fórmula (psicanalítica) – “sempre já se está escapar ao “mito das origens”. p. para ser explicadas. seja ele a Lei ou o Sujeito. do que as experiências históricas e sociais da(o) mesma(o).. deve-se pensá-la tal como age em seus efeitos. partes extra partes. nem lei da sexualidade que Sob a tese da imanência. depende das condições Segundo Macherey. ou seja. p. Macherey explora as em si. tampouco loucura foucaultiano: não há verdade senão em si. p.) de todos os formas históricas da sexualidade não seriam mais que manifestações fenomenais elementos que reúne” (Macherey.. Vol. dobrando de um só golpe às antecipação às conseqüências de uma ação suas regras o sujeito dessa intervenção (Macherey. é. antes. e/ou independentemente destas. n2. 80). todo fenômeno ou experiência é histórico- social. nisto consiste o positivismo há sexualidade em si. criaria artificialmente o domínio de sua não se pode pensar a norma em intervenção. 1989. antecipa-se a transferir para a lei a iniciativa que. (Foucault. a conferir-lhes o máximo de realidade de que sexualidade (ou o desejo)? Nada mais seria são capazes. não no sentido de limitação. presente em marcar negativamente seus efeitos. Não Macherey. escondida. Para consequências da tese da imanência. esta última objetivas que o produzem. Foucault? Macherey assim a resume: limitando-os ou delimitando-os. que só sairia de si para tese da imanência da norma. isto tampouco há norma em si ou lei pura. 215-216). mas no de O que seria. o caráter imanente. nesse sentido. 2012 P á g i n a | 167 desejo – de que “sempre já se está originárias. Polis e Psique. fora do tempo e da sociedade: enredado”. sem que se “originárias”. sem que tais experiências Voltando a problemas examinados necessitem. seus efeitos) – resulta da pura afirmação da estaria na loucura ou na sexualidade produtividade da norma. o que ela ensina é que separados. de algum por Foucault.

há do conceito na vida. por sujeito e objeto (a sobre a sexualidade. (. riscos conceituais e políticos.2.. 1989. fazendo com realidade que seria “representada”. Macherey sintetiza: “se a vive de uma certa maneira (. Vol.. 773- de que o produza. ao produzi-lo.) o domínio elucidação do saber sobre a vida e dos conceitos que articulam esse saber.) O que normatiza a norma é sua ação”. em que pesem vida não seja essencializada na forma de 7 seus méritos : à sua maneira. 2012 P á g i n a | 168 transcendente que se antecipe à realidade. Macherey remete Macherey. 1989. 1994c. acompanhando efetua (e que a efetuam). p...) Formar norma não é exterior a seu campo de conceitos é uma maneira de viver e não de aplicação. Para Foucault.. pela de enunciados que constitui (. mensurável “graças a uma que produz: “Se as normas agem. 217). Positividade: produtividade e viva num meio conceptualmente imanência em imanência arquitetado não prova que ele se tenha desviado da vida por qualquer esquecimento ou que um drama histórico o Reunindo as teses da produtividade tenha separado dela. p. (Foucault.. Essa referência à vida porta alguns (Macherey. ou melhor. em relação com os processos que ela Melhor diríamos. 217). conceito enquanto ele é um dos modos desta informação que todo vivente antecipa sobre seu meio. mas somente que ele e da imanência. n2. Que o homem 5. enunciados da sexualidade que essa concepção de norma a Georges enunciados sobre a sexualidade. produza. ou simbolicamente. do 1989. direta que só se a possa pensar historicamente. o que de todas as suas experiências”. por tais enunciados. 216). isto é. também a que se 774). ela mesma. Polis e Psique. perfila-se a crítica precisões ulteriores. aliás. isto não se deve apenas ao fato aniquilar a vida. Canguilhem quer reencontrar. já que “a Canguilhem e transcreve observações de verdade do sexo não deve ser buscada em Foucault a respeito: nenhuma parte senão na sucessão histórica G. ela reconduz um novo mito. (Macherey. a fim de que a própria foucaultiana à Psicanálise. Exige Nesta linha. a Daí o princípio (apenas metodológico) de norma não está pré-ordenada a seu Foucault: é preciso vincular a história da exercício: tal exercício a tem. p. sem ligá-la a qualquer norma ordena e se ordena). diferentemente. p. sexualidade à história dos enunciados simultaneamente. não é em interpretação” (Macherey. virtude de uma obscura potência que . o de uma força vital cujo à lei transcendente como grande mito das “poder” preexistiria ao conjunto de efeitos origens.

1989. é a própria natureza que de duas estradas. Vol. contudo. Macherey retorna entre natureza e sociedade essa relação de momentaneamente a Kant. capaz poder não se define obrigatoriamente. que se pode apreender em Hobbes “a transcendência da norma. 1989. na quarta – “A fazê-lo retornar sobre eles. na não. . Macherey jogo a dialética de um contrapoder. é gerir e regular as para proteger os homens deles mesmos. a por em jogo suas leis e liberdade ao escolher o lado bom da paixões: não há qualquer inversão do bifurcação – a ‘cultura’ frente à ‘natureza’. clivagem entre ordens heterogêneas. acidentalmente. mas um filósofo caso. as leis. na forma de servidão humana ou a força dos afetos” –. mesmas relações de força que determinam. Hobbes. pois. desprendendo. conquistando sua continua a agir. antecipação de uma espécie de psicanálise nos de modos de pensar que a entendem do poder” (Macherey.2. mediante uma transferência voluntária de Desse ponto de vista já existe. A fim de exibir tal Já Espinosa se recusa a estabelecer modo de pensar. como dominação próprio a todos os homens e em geral se afirma. pois o filósofo ruptura e ultrapassamento. embora possa. pois “viver em sociedade ponto de vista de Espinosa sobre a segundo as normas não é substituir um sociedade. sociedade impõe normas. Essa ver de Macherey. p. especialmente da paixão destrutiva que a partir do jogo livre e necessário dos caracteriza o estado de natureza. estamos diante de uma clássico. Neste Porém não é Kant. Pois o reintroduz a perspectiva espinosista. (Macherey. Polis e Psique. tomar essa forma. pela dominação. A ideia de sistema de todos os seus efeitos possíveis” transcendência da norma é tão nítida nessa (Macherey. A seu ver. que Macherey chega a dizer Há que insistir. ao poder aceita por todo o corpo social. em estado virtual. uma teoria política na transferência produz uma nova forma de terceira parte da Ética – “A origem e a poder soberano ao recuperar o instinto de natureza dos afetos” – e não apenas. em de apresentar algo bem distinto de uma Espinosa. 2012 P á g i n a | 169 portaria em sua ordem. quem lhe serve de sociedade desestabilizada em seu contraponto direto para a exposição do princípio. Nesse afetos. 218). Afirma Hobbes que o estado de direito natural por um direito racional. concepção. muito ao contrário. como limite já traçado. o uma obrigação absoluta. 219). p. 219). isto é. na alemão via a humanidade no cruzamento sociedade. p. 1989. as normas regulam a vida social interindividuais. sentido das leis naturais nem se põe em Contra tal concepção. o conjunto das relações sentido. n2.

este princípio revela de uma psicanálise do poder. a uma teoria natural das paixões em geral. no tiraria sua eficácia. dá ao direito seu mesmo em seus enunciados e nada tem único princípio e funda a concepção além de si como um absoluto do qual jurídica do poder. sem supor a intervenção O artigo que vimos acompanhando negadora de uma transcendência ou de se encerra com diversas comparações. em Espinosa. que se como esboço de uma teoria dos produz produzindo seus efeitos. de leis diferentes lugar de representarem um âmbito daquelas da natureza: “A questão do poder privilegiado. A respeito. Vol. Sendo assim. Polis e Psique. potestas.. micropoderes. Para Espinosa. p. isto é. Norma positiva entanto. uma exatamente esta a perspectiva de Foucault teoria das paixões humanas. Macherey: e não de uma nova ordem. 2012 P á g i n a | 170 na qual a idéia de um poder soberano é paixões humanas. a todos comportamento (Macherey. Isso porque. uma divisão. (Macherey.. à expressão dos mesmos. dentre as quando fala em positividade da norma. os seus efeitos. o medo de morrer – em sua ação. o percurso hobbesiano faz do também porque “sua intervenção não se homem “um império num império” ao reduz ao gesto elementar de cindir emprestar-lhe uma “natureza oposta à domínios de legitimidade. em seus fenômenos. 1989. na pena de Macherey. A preocupação do primeiro é a de fundar uma teoria Não há dúvida. adenda poder tira seu verdadeiro poderio. mas consiste natureza”. potentia. como motivação Norma positiva porque se dá inteiramente fundamental. para operar. socialização espontânea dos afetos não no escopo da qual os afetos humanos. 220). que se forma por sua ação mesma. quais se destaca. em necessita. ser política sobre uma antropologia. para Macherey. ao contrário. 220- Primeiramente. ele não procura numa incorporação progressiva e numa fundar sua teoria política numa teoria das . Espinosa o caráter necessário e natural deste poder pode agora emergir. 1989. desenvolve formulada. não são mais do que se põe de um só golpe no nível dos expressões diversas. Contra a idéia corrente segundo a qual o poder das normas é E se Hobbes aparecera como antecipação artificial e arbitrário. entre Hobbes e Espinosa.2. Vê-se então a que conduz o princípio da novas regras e novos padrões de imanência da norma a seus efeitos. imersas na natureza e conflitos passionais (. revertida. p. retoma-se o contraponto 221). que superimporia. ou motivação que. n2.): é deles que o submetidas às suas leis. tendencialmente sem reservas e sem limites.

agir e ser. Considerações finais: desejos. um confrontando o tema da substancialidade estilo mais livre e alusivo. Vale concepções de desejo presentes em lembrar que identificamos. visto que o “materialismo pensar. tão abundante em para ler Foucault. visto que o com o da historicidade. . Vol. em em vão nos escritos de Foucault. interlocutor (intercessor?). a pertinente ao desejo em sua transcendente: Reich e os freudo-marxistas relação com as normas. intuito da mesma é desafiar conforme Macherey. que ao Macherey aproxima Espinosa. três pontos: imagens do desejo. Sendo assim. pela exploração detida da segunda – sem Em uma última comparação. fazer justamente o referências e citações. neste momento. juntos. queremos retomar. então. a lei tira sua força do ao “materialismo histórico”. esforço de pensar. Imagens do desejo instituições e institucionalismos Podemos conectar os argumentos Prometemos. postura que buscaríamos sugere que as duas questões são. Foucault e culminar em uma provocativa referência Marx. Nesse caso. o histórico e o interpretação e experimentação. decidimo-nos 221).Norma vista como restritiva e da diferença. mas. não estaríamos longe (amigavelmente) nossos atuais modos de de Marx. faculta indagar se não seria possível. tal trabalho ser da substância. 1989. na introdução ao de Macherey acerca da diversidade de presente artigo. ao optar manifestações. em que a forma mais geral pelo trabalho de Macherey como é a da integração” (Macherey. contrário: ler Espinosa através de Foucault. duas discursos e práticas. deixar de ressaltar. Focalizaremos. ética. indissociáveis. Em Espinosa. Polis e Psique.2. inquietações persistentes entre nós: a sintetizemos: relativa ao contraponto dialética x filosofia . nesta histórico” consiste justamente em um linha. mas que verdade. p. n2. 2012 P á g i n a | 171 proliferação contínua de suas Ambas nos assediam. ao Após um longo trajeto na invés de usar Espinosa como ferramenta companhia de Macherey. desejo e substancial. renovar as perguntas concepções de norma a diferentes dirigidas aos institucionalistas. normas. nesta seção final de nosso escrito. 6.

Polis e Psique. “restringida” por uma interdição. de territorialização. logo imanente: Esquizoanálise contingentes. já que. marca negativamente o guattariana. ali está como mas sim criar a possibilidade de novas limite (legal e legalista). o desejo não é exterior desejante”) a seu campo de aplicação. um concepção psicanalítico-lacaniana profícuo entendimento da máxima “liberar reintroduz certos pressupostos daquilo que as máquinas desejantes” (fluxos e cortes critica: a lei é pensada como constitutiva polívocos aos quais nada falta. porém produzem’ ‘ao produzir’). historicamente. pois ‘se do desejo. não há desejo em si. a conexões. embora visto como desejo. produção de real) ao apreciar em nosso trajeto. formalismo que. desprendendo-as. ele o produz De acordo com o que pudemos (produção desejante. “inconsciente expressivo”) desejo). este não é um “em si”. “Liberar as aquela acaba por sê-lo. quando “sai de si”. 2012 P á g i n a | 172 (Em linguagem deleuze. lei sempre-já-está no sujeito. produto da ação da norma (e não como ser produzido (e produzir-se) como fixado “espontaneidade livre” que seria a territórios carenciais e carenciantes.Norma vista como produtiva e Já em uma concepção positivista transcendente: Psicanálise Lacaniana (no sentido foucaultiano) do desejo – caso (Em linguagem deleuze.2. de forma invariável. Vol. do ‘Inconsciente esquizoanalítico’. Nada “falta” a priori ao psicanalítico lacaniano. via uma ética da natureza (e não humana. (Em seus próprios termos. avaliamos.Norma vista como produtiva e – lei em si: apenas formas históricas. o sujeito nele produzir-se. tem como medida de tal Esquizoanálise –. tampouco – é imprescindível enfatizá-lo . como causa máquinas desejantes” é desenvolver toda a transitiva. a análise dessa fixação produtividade o formalismo jurídico da lei. “inconsciente restitutivo”) ‘Inconsciente maquínico’ ou ‘Inconsciente-usina’ –. Este seria. embora ele possa. guattariana. antecipa-se a seus efeitos (lei ilimitada potência que nelas há. . jurídica ou contratual) de . pura. portanto. histórica (aquilo que o desejo “pensa” Há aqui. Com isso. Retomando uma frase de Macherey em “inconsciente produtivo” ou “produção forma de paráfrase. proibição Numa ética espinosista – característica da ou repressão). uma concepção silenciosamente) não tem por objetivo negativo-negadora da produtividade: se a liberar o (inexistente) “em si” do desejo. n2.

relativa à Georges Lapassade –. experimentações singulares que funcionam (e/ou fazem funcionar) de modo mais. 2012 P á g i n a | 173 sua eventual fixação (resignada e dócil) a O inconsciente não levanta problemas de sentido. enquanto ‘sentido’ ou ‘ausência de produzindo-se e produzindo-nos.. mas problemas de utilização. em oposição a produtividade e da imanência das normas. mas como é que isto Análise Institucional que estudamos e funciona? (. a utilização para um suposto sentido. dizer?” que o desejo aparece (. em uma das poucas citações coloca para os Socioanalistas. mais.2. de que modo a questão se Guattari. Sem “desejo em si” ou “lei em si”. uma questão: a que modelo de geral da pergunta “o que é que isto quer norma aderem os Socioanalistas? A frase. só se torna um princípio instituição é o inconsciente político”. em lugar de situadas O parágrafo transcrito seria previamente como transcendência (nível facilmente intercambiável com a seguinte ou instância) – caso de textos remotos de afirmação de Macherey. s/d. A limites apriorísticos. ilegítimas que remetem. “a que a utilização. para a quer dizer?”. já que o desaparecem as bases da interpretação – imanentismo produtivista torna evidente a moeda fácil em nossos mercados de bens razão da recusa da interpretação pela de salvação. implicação é uma pista a ser explorada: através dele. as instituições só são perspectiva foucaultiana: a sexualidade apreensíveis mediante a análise de seus nada mais é do que seus enunciados.) Simplesmente. afirmam Deleuze e Esquizoanálise. que efeitos em nossas ações e pensamentos. imanente sentido’ –. Sobre isso. p. (Deleuze e Guattari. Vol. Polis e Psique.) E é no meio da derrocada praticamos. pelo contrário. porém julgamos que a ênfase posta transcendência. n2. das instituições em nós. Novamente literais a que ainda recorreremos: fica em aberto o convite à exploração do . por René Lourau no conceito de 89). assente se dispusermos de critérios poderia ser potencializada se a imanentes capazes de determinar as remetêssemos ao duplo problema da utilizações legítimas.. que o sentido mais não seja por eles tantas vezes repetida. não são enunciados sobre a sexualidade – melhor dizendo. ou Interpretação e Experimentação menos múltiplo.. Fica o convite a eventuais leitores deste restaurando assim uma espécie de artigo. mas da sexualidade – enquanto e exclusivamente. questão do desejo não é “o que é que isto Permanece ainda em aberto.. ou menos aberto a novas conexões. nesse processo. Cumpre indagar.

culturas. afirmar a multiplicidade das funesto de constituírem. “não exigência de “leis” e/ou “limites” capazes basta dar a palavra aos sujeitos envolvidos. falar da medicina. devir animal”. de Georges Um pensamento infame. Sobre tudo isso. “por invariavelmente “desejante de normas”. e da Quem sabe a articulação Espinosa- transversalidade. Vol. por si só. possa ser capaz exatamente. ou histórica. ao destino necessitaria. hobbesiano. desta enunciação”. sim. bicha”. ‘analisadores pela negação’.2. a Esquizoanálise é Estamos cansados do psicólogo loquaz: “devir mulher. substância móvel da vida. se falo dela como um supostamente capaz de “suspender todo cão?” 8. inventando um elaboramos quaisquer pistas. não resistimos a mais analisadores”. e menos momentaneamente. neste caso. de produzir o (bem comportado) ‘sujeito é preciso criar condições para um exercício de desejo’ – sob tal perspectiva. faz dos desviantes (ideológico. que funda sua atuação na “devir criança. juízo de valor” – contanto que se Já a Socioanálise. De nossa parte. profecias auto-realizadoras de sentidos afirma-se a diversidade. O objetivo aí não é nem o de aproximar o outro de nós. não de criar uma alternativa. 134) breves reflexões sobre a ética do intelectual. sua abertura ao ‘fora’. a frase-chave nos caracterizado pelo autor do livro chamado parece provir. Não por um gosto relativístico. malandro. nem o Desejo e ética contrário. Seu desafio seria o de uma (e a última) citação literal: construir dispositivos que escapem. que a percepção da multiplicidade nos torne capazes de nos compreender como sendo desde sempre Finalizamos este artigo-ensaio com outros. Marx. ao contrário Lapassade: “A análise a fazem os do que desejávamos. que. na pena de René preserve/prescreva “a” ordem (vazia de Lourau. ao Tal pensamento seria capaz de. total. Fica a psicólogo trágico? O pensamento desse último personagem foi tão bem . seja ela cultural cristalizados e impotentizantes. Polis e Psique. n2. 2012 P á g i n a | 174 tema. p. que o fato de não ser médico me impediria Também do psicólogo tolerante. (Vaz. é. 1992. ou da Lei). marcar descontinuidades na história. mas obediente ao formalismo da libidinal e organizacional) seus lei. para desfazer o que só se pensa como o mesmo. contudo. sentido. paroxístico. propícia a fazer da história Restaria refletir em que sentido. Desta vez.

um grande reconhecimento: ao estada em 1973. Notas 5 1 São dois os textos foucaultianos Este artigo decorre do evento que se referem diretamente ao opúsculo de "Temas em debate: Ética. Georges Lapassade foi o em História da sexualidade I – a vontade primeiro a visitar-nos. Felix Guattari e René ligar necessariamente o desejo à lei. n2. 4 entrevistas etc. O outro é um artigo Rio Grande do Sul (UFRGS). Utilizamos assim. com o problema 6 proposto. Vol. Há tradução para outra ocasião. sempre desejada. títulos de artigos. numa polêmica de saber. fundadas na hereditariedade- 3 degenerescência. O artigo em questão (Macherey. 2012. publicada em Magazine Graduação em Psicologia Social e Littéraire (n° 207. convidada a publicar a participação como referências Foucault. chama-se O “Instituições”. Polis e Psique. assim como o trabalho palestrante na mesa intitulada kantiano sobre o qual reflete.2. maio/84) sob o título Institucional da Universidade Federal do Um cours inédit. 1989) foi reeditado em Macherey. por não o considerarem um Trechos livremente evocados de “filósofo”. apresentei um trabalho que que é o Iluminismo? – originalmente já fora destinado a outra publicação. Somente Gilles Deleuze. elaborei um novo texto. Alguns. suponho. Sendo publicado em Rabinow. ela se Lourau vieram diversas vezes. Bem ao contrário. falações. 1994a e no evento. jamais esteve (em A Psicanálise recebe de Foucault. coerente. 1984. O primeiro é Direitos e Instituições". 1994b. também Foucault. Como datado de 1984 que. aqui. Sujeito de Kant sobre o Iluminismo. promovido em 24 transcrição de uma aula de 1983 no de agosto de 2012 pelo Programa de Pós- Collège de France. excetuando-se justamente o artigo que nos serve de ponto de apoio. insistimos na Gilles Deleuze e/ou Felix Guattari: menção a Felix inclusive nesse âmbito. livros de Foucault feitas por Macherey 2 utilizando as edições brasileiras. O efetivamente apresentado à Transcrevemos as citações dos época pode ser visto em Rodrigues. Ou coletânea de textos do autor. corpo) no Brasil. para o português (Macherey. 2012 P á g i n a | 175 experimentação para eventuais leitores. 2010). suprimiriam o nome 8 de Guattari. nas décadas torna incompatível com as teorias racistas de 1980 e 1990. que 7 viajava pouquíssimo. 2009 – .

História da sexualidade Vaz. O universitária. 1992. n2. Foucault. Rio Macherey. felix. 2012.14. Foucault. De canguilhem à de janeiro: ed. In: dits et écrits iv. s/d. Georges canguilhem. 1989. la force des normes. São basaglia. 1987b. Cadernos de paulo: perspectiva. Rio de janeiro: graal. paulo. 1984. 1987a talento dos poetas e as histórias da loucura: foucault. 1979. A arqueologia do saber. michel. 1994a Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Um pensamento infame. Goiânia: Foucault. 2012 P á g i n a | 176 Referências: Foucault. New york: pantheon books. Vol. foucault. 1994b . 84-93. História da loucura. um estilo de pensamento. foucault philosophe. subjetividade. v. Rabinow. étienne. michel. paul (ed. pierre. Polis e Psique. goffman. 1992.o uso dos prazeres. Paris: Professora Adjunta do Instituto de gallimard. michel. michel. Paris: des naturelle des normes.a vontade de saber. szasz. Deleuze. Qu’est-ce que les Heliana de Barros Conde Rodrigues: lumières? In: dits et écrits iv.2. Lisboa: assírio e alvim. La vie: l’expérience et la science.br In: dits et écrits iv. Paris: des travaux/ seuil. Paris: gallimard. michel. pierre. In: michel Macherey. Foucault. Pour une histoire foucault philosophe. Conversações. heliana de barros conde. Paris: la fabrique. Rio ii . 2009. michel. História da sexualidade i almeida & clément. de janeiro: imago. Controle e devir. 1984.. gilles. In: deleuze. gilles e guattari. In: michel travaux/ seuil.com. What is enlightenment? E-mail: helianaconde@uol. Deleuze. gilles. Foucault. Foucault. 1989. O anti- édipo. p. Rio de janeiro: graal.) The foucault reader. Paris: gallimard. 1994c Balibar. L’enjeu du nominalisme. 2010 . pierre. michel. 34. Foucault et marx. Macherey. Rio de janeiro: forense Rodrigues.